Prévia do material em texto
PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS PRÁTICAS Patricia Gonçalves ISBN 978-65-5821-217-1 9 786558 212171 Código Logístico I000930 Práticas pedagógicas inclusivas Patricia Gonçalves Práticas pedagógicas inclusivas Patricia Gonçalves IESDE BRASIL 2023 Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br © 2023 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Macrovector/Shutterstock 23-81985 CDD: 371.9 CDU: 376 CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃONAPUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ G628p Gonçalves, Patricia Práticas pedagógicas inclusivas / Patricia Gonçalves. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2023. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-217-1 1. Educação especial. 2. Educação inclusiva. 3. Práticas pedagógicas. I. Título. Gabriela Faray Ferreira Lopes - Bibliotecária - CRB-7/6643 13/01/2023 18/01/2023 Patricia Gonçalves Doutora em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) na linha de pesquisa cognição, aprendizagem e desenvolvimento humano. Mestre em Filosofia pela UFPR. Especialista em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura pelo Instituto Brasileiro de Pós-Graduação e Extensão (IBPEX) e em Neuro psicopedagogia pela Faculdade São Luís. Graduada em Pedagogia, com habilitação em Educação Especial, pela Faculdade de Pinhais (FAPI) e em Filosofia pela UFPR. Possui experiência na Educação Infantil, no Ensino Fundamental, na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e na Educação Especial com salas de recursos, classe especial, estudantes surdos, disléxicos e superdotados. Trabalhou como professora web, tutora no Ensino Superior a distância e docente no Ensino Superior. Atualmente leciona em cursos de pós-graduação e produz material didático e audiovisual para o Ensino Superior. Pesquisa o desenvolvimento da inteligência humana, trabalha diretamente com o enriquecimento curricular e a avaliação de estudantes superdotados, com Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD) e presta assessoria a escolas, famílias e profissionais. Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO 1 Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 9 1.1 Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais 9 1.2 Aprendizado de alunos com NEE 14 1.3 Direitos educacionais dos estudantes com NEE 17 1.4 A necessidade de adaptar o currículo 22 1.5 Aplicação do currículo adaptado 27 2 Práticas para alunos com deficiência 36 2.1 O que são práticas pedagógicas inclusivas 37 2.2 Deficiência visual e auditiva/surdez 40 2.3 Deficiência intelectual 45 2.4 Surdocegueira 50 2.5 Deficiências físicas/motoras 54 3 Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 62 3.1 Transtorno do Espectro Autista 62 3.2 Psicoses infantis e TEA 69 3.3 Síndrome de Rett 74 3.4 Altas habilidades ou superdotação 79 4 A sala de recursos e as tecnologias assistivas 87 4.1 Importância da sala de recursos multifuncionais 88 4.2 Atendimento na sala de recursos 92 4.3 Elaborando o plano de trabalho individualizado 95 4.4 Formação do professor e organização do AEE 99 4.5 Tecnologias assistivas e comunicação alternativa 104 5 Práticas de inclusão e a família 111 5.1 Como avaliar/diagnosticar alunos com NEE 112 5.2 Avaliação escolar na Educação Especial 116 5.3 Práticas de avaliação inclusiva 120 5.4 Adaptar para receber 125 5.5 Participação da família no processo de inclusão 129 Resolução das atividades 135 Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! Olá, querido estudante! É com muita alegria que apresentamos esta obra, que tem o intuito de auxiliá-lo na construção da sua formação educacional. Aqui teremos contato, no primeiro capítulo, com teorias e dicas práticas para aprender um pouco mais sobre quem são os estudantes com Necessidades Educativas Especiais (NEE), de acordo com a legislação do nosso país. Também entenderemos como ocorre o aprendizado desses estudantes, quais são os seus direitos educacionais e de que forma podemos adaptar o currículo para garantir o aprendizado de todos. No segundo capítulo, apresentaremos o que são práticas pedagógicas inclusivas e começaremos a tratar mais especificamente dos diferentes tipos de deficiência, a saber: deficiência visual e auditiva/surdez, deficiência intelectual, surdocegueira e deficiências físicas/motoras. No terceiro capítulo, abordaremos os diferentes tipos de transtornos, como o Transtorno do Espectro Autista, as psicoses infantis, a síndrome de Kanner e a síndrome de Rett. Também apresentaremos as características dos estudantes com altas habilidades ou superdotação, que fazem parte do Público-alvo da Educação Especial (PAEE) de nosso país. Já no quarto capítulo, trataremos da importância da sala de recursos multifuncional, bem como do atendimento na sala de recursos. Apresentaremos um modelo de plano de trabalho individualizado e discorreremos sobre como as tecnologias assistivas podem ser aplicadas ao processo de ensino-aprendizagem no sentido de oportunizar aos estudantes inclusos melhores condições para seu desenvolvimento acadêmico por meio da comunicação suplementar e alternativa. Por fim, no quinto capítulo, aprenderemos como avaliar alunos com NEE e de que forma essa avaliação deve ser realizada. Ressaltaremos a importância de realizar práticas de APRESENTAÇÃOVídeo 8 Práticas pedagógicas inclusivas avaliação inclusivas para todos os estudantes e de alterar não apenas o sistema avaliativo como também os espaços físicos escolares, sempre contando com a participação do estudante e de sua família nesse processo. Esperamos que tenha uma leitura muito produtiva e que esta obra seja o início da construção de suas próprias pesquisas na área da Educação Especial. Bons estudos! Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 9 1 Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais Neste capítulo, trataremos de questões introdutórias relacionadas aos es- tudantes com Necessidades Educativas Especiais (NEE) para que você, em sua prática docente, possa identificá-los e compreender como ocorre o processo de ensino e aprendizagem desses alunos. Além disso, também abordaremos questões relativas à legislação a fim de que você conheça os direitos educa- cionais dos estudantes com NEE, isto é, dos estudantes que atualmente com- põem o que é chamado de Público-alvo da Educação Especial (PAEE). No decorrer do capítulo, você compreenderá a função do currículo adaptado, observando a necessidade dessa adaptação para transformar o ambiente de sala de aula em um local acolhedor, no qual o que é ensina- do – as estratégias realizadas, as informações transmitidas e as atividades sugeridas – seja significativo para os alunos inclusos. Com o estudo deste capítulo você será capaz de: • reconhecer quem são os estudantes com NEE;• compreender o processo de ensino-aprendizagem de alunos com NEE; • conhecer os direitos educacionais dos estudantes com NEE; • compreender a função e a necessidade do currículo adaptado. Objetivos de aprendizagem 1.1 Estudantes com Necessidades Educacionais Especiais Vídeo Os estudantes com NEE – que segundo a legislação também po- dem ser denominados estudantes PAEE – são os alunos com deficiên- cia, transtornos globais do desenvolvimento, altas habilidades ou superdotação (BRASIL, 2011). Contudo, ao longo da história da Educa- ção Especial no Brasil, a definição dada a esse público pela legislação tem passado por várias alterações e recebido diferentes iniciativas de atendimento dentro do espaço escolar. Os atendimentos prestados a pessoas com deficiência visual e com deficiência auditiva, no Brasil, iniciaram ainda no Brasil Império (1822- 1889) no Instituto Imperial de Meninos Cegos e no Instituto Imperial para Surdos-Mudos 1 . Na época, essas instituições foram criadas devido a uma grande pressão popular – principalmente de pais, profissionais e volun- tários, que eram ligados a esse público necessitado de um atendimento especializado. Essa pressão, conforme Jannuzzi (2012), foi uma das prin- cipais causas que favoreceu a inclusão dos estudantes com deficiências auditivas e visuais como público-alvo das políticas de Educação Especial. Ainda no contexto histórico, a Educação Especial foi proporcionada – em grande parte – por instituições filantrópicas e outras iniciativas formadas por pais e outros profissionais da área. Dentre as institui- ções, a que mais se destaca é a chamada Sociedade Pestalozzi devido a sua atuação no desenvolvimento de políticas públicas para a Educação Especial Brasileira, principalmente na definição do público-alvo a ser atendido por essa nova modalidade (JANNUZZI, 2012). Quanto à pesquisa e à efetiva implementação das políticas dessa nova modalidade de ensino, elas iniciaram sobretudo com a vinda da professora Helena Antipoff ao Brasil para ministrar aulas de Psi- cologia Experimental na Escola de Aperfeiçoamento Pedagógico, em Belo Horizonte (MAZZOTTA, 2005). Antipoff iniciou seus estudos na área da psicologia na Universidade Sorbonne de Paris, tendo como campo de estudos a área da educação, e em 1929 veio para o Brasil a convite do governo de Minas Gerais, onde criou o laboratório de psicologia aplicada na cha- mada Escola de Aperfeiçoamento de Professores. Seu pioneiro trabalho foi uma proposta de organização da educação primária na rede co- mum de ensino baseada na composição de clas- ses homogêneas. Mais tarde, em 1932, Antipoff fez parte da criação de serviços de diagnósticos, classes e escolas especiais e criou a chamada So- Atualmente, os dois institutos são chamados, respectivamente, de Ins- tituto Benjamin Constant (IBC) e Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). 1 De ni s Ku va ev /S hu tte rs to ck De ni s Ku va ev /S hu tte rs to ck 1010 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 11 ciedade Pestalozzi de Minas Gerais, instituição que a partir de 1945 se ex- pandiu para todo o país (BRANDÃO; MORI, 2007). Foi nesse período que a professora Antipoff implantou ideias inova- doras, desenvolveu novas formas de avaliação, estudos, programas e projetos com o intuito de beneficiar os estudantes com NEE, construin- do assim instituições que seriam sua principal contribuição à educação dos chamados, naquela época, de excepcionais, que era um termo ado- tado para designar as pessoas com deficiência. Já aqueles com poten- cial acima da média eram denominados de bem-dotados, termo que também evoluiu e foi alterado para estudantes com altas habilidades ou superdotação (DELOU, 2007). No entanto, foi somente em 1961 que a legislação brasileira rea- lizou um marco significativo no que diz respeito aos direitos dos es- tudantes com Necessidades Especiais de Ensino por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1961), em que os artigos 88 e 89 são dedicados à educação de pessoas com deficiência. Entretanto, apesar desses esforços, foi apenas em 1967 que o Minis- tério da Educação e Cultura criou a primeira comissão titulada para estabelecer normas a fim de identificar e atender a alunos superdota- dos (MAZZOTTA, 1989). Posteriormente a isso, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1971 define pela primeira vez quem são os estudantes PAEE, afirmando que “os alunos que apresentem deficiências físicas ou mentais, os que se encontrem em atraso considerável quanto à idade regular de matrícula e os superdotados, deverão receber tratamento especial, de acordo com as normas fixadas pelos competentes Conselhos de Educação” (BRASIL, 1971). Mais tarde a LDB 9.394/1996 apresenta em seu artigo 58, que diz respeito aos estudantes PAEE, a determinação de que a educação es- colar deve ser oferecida para estudantes portadores de necessidades especiais, preferencialmente nas redes regulares de ensino. Essa de- terminação rompe com a visão segregadora anteriormente realizada para esse público, dando sinais do processo de inclusão que atualmen- te está em construção nas escolas. Para saber mais a respei- to da vida da psicóloga e educadora Helena Antipoff, assista ao vídeo do canal TV SEPE, Helena Antipoff, que conta um pouco sobre sua trajetória pessoal e de sua carreira. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=5RJkIinEaFk. Acesso em: 25 out. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=5RJkIinEaFk https://www.youtube.com/watch?v=5RJkIinEaFk https://www.youtube.com/watch?v=5RJkIinEaFk 12 Práticas pedagógicas inclusivas Outro marco importante na identificação dos estudantes PAEE no processo de inclusão escolar e no atendimento a esses estudantes é a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do MEC (BRASIL, 2008), a qual defende que a matrícula dos alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação 2 deve ser feita em ambientes de ensino que contam com atendimento educacional especializado para auxiliar no seu desempenho escolar. Entretanto, é importante ressaltar que os estudantes com algum tipo de NEE são um grupo muito diverso que reúne, em uma mesma categoria, indivíduos com diferentes características físicas, sensoriais, intelectuais e cognitivas. Assim, as ações voltadas para esse segmen- to precisam considerar um amplo leque de diferentes necessidades e contribuir para o desenvolvimento desse público respeitando as espe- cificidades de cada indivíduo. O desenvolvimento e a qualidade de vida desses estudantes podem ser fortemente afetadas caso não haja alterações que venham em bus- ca da equidade de oportunidades, o que prejudicaria a inserção deles no ambiente escolar, no trabalho e na vida em comunidade. Portan- to, podemos perceber que não se trata apenas de questões escolares, sendo necessário também o planejamento de políticas públicas, re- flexões, debates, planejamento e engajamento de outros setores. Evi- dentemente tal perspectiva de natureza preventiva e promocional está condicionada à alocação de recursos, o que exige reflexões e debates visando à fundamentação e ao planejamento de políticas públicas nes- se setor (BERNARDES et al., 2009). Em outras palavras, claramente podemos observar que o processo de inclusão escolar não se resume a apenas inserir o estudante com algum tipo de deficiência, transtorno, limitação cognitiva ou potencial elevado – no caso dos estudantes com superdotação – dentro da sala de aula regular. A necessidade de empenho de todos os profissionais da escola deve estar em consenso, seja o professor do atendimento ou os demais docentes e a equipe pedagógica, é preciso um trabalho conjunto para atender às necessidades educacionais dos alunos da O termo altas habilidades/ superdotação foi alterado para altas habilidades ou superdotaçãopor meio da Lei n. 13.234, de 29 de dezembro de 2015. 2 Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 13 Educação Especial, muitas vezes privados do direito de ingresso, per- manência e sucesso escolar (BERNARDES et al., 2009). Isso nos revela que cada vez mais teremos alunos inclusos em nos- sas salas de aula, aumentando a diversidade de estudantes e ressal- tando a importância de algumas medidas que devem ser tomadas não somente para a inclusão escolar, mas também para a promoção de uma educação de qualidade para todos os estudantes PAEE. É impor- tante que os profissionais da secretaria da instituição de ensino sejam devidamente treinados para que possam, com muita educação e res- peito, perguntar aos pais ou responsáveis que efetivarão a matrícula se o estudante que será matriculado possui algum laudo ou avaliação clí- nica ou psicoeducacional como parte integrante de sua documentação. Essa é uma orientação que auxilia posteriormente a equipe pedagógica a organizar as turmas e seu quadro de professores, além de auxiliar na organização geral e arquitetônica da escola com o objetivo de que todos os estudantes sejam bem atendidos (GONÇALVES, 2021). Ressaltamos que de maneira alguma um estudante pode ter sua matrícula negada seja por ser uma pessoa com algum tipo de deficiên- cia ou transtorno seja por apresentar alguma patologia clínica ou limita- ção de aprendizagem. Negar a matrícula de um estudante da Educação Especial é crime sujeito à punição, como prevê a Resolução n. 2, de 11 de setembro de 2001, do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Câmara de Educação Básica (CEB) 3 (BRASIL, 2001). Desse modo, podemos perceber que muitos avanços ocorreram em nossa legislação no que diz respeito à definição dos estudantes PAEE, hoje definidos como estudantes com deficiência, transtornos glo- bais do desenvolvimento ou altas habilidades ou superdotação (BRASIL, 2015b). Entretanto, é preciso lembrar que o ambiente escolar é for- mado por uma grande diversidade humana, sendo extremamente di- fícil estabelecer critérios para a distribuição igualitária de recursos e oportunidades. As diferenças entre os estudantes, seus específicos ritmos e estilos de aprendizagem não podem aumentar a lacuna que promove desigualdades. É importante que todos os envolvidos no contexto escolar avaliem como esse estudante aprende, quais são seus estilos de aprendizagem, de que forma a sua condição pode di- De acordo com nossa legislação, uma escola – seja ela pública ou parti- cular – que negue realizar a matrícula de um aluno com deficiência cometerá um crime, punível com reclusão de 1 a 4 anos – artigo 8 da Lei n. 7.853, de 24 de outubro de 1989 (BRASIL, 1989). 3 14 Práticas pedagógicas inclusivas ficultar ou potencializar – no caso daqueles com superdotação – seu aprendizado, para promoverem por meio de suas ações um processo de equidade em que todos recebam a oportunidade e os subsídios necessários para a construção de sua aprendizagem. 1.2 Aprendizado de alunos com NEE Vídeo Existem diferentes formas de aprendizado: pode ser que você tenha mais facilidade de aprendizado visual e esteja aproveitando ao máximo essa leitura; pode ser que esteja lendo e ouvindo algo de fundo que o ajude a se manter mais concentrado; ou pode ser que você prefira assistir a aula ao invés de ler o livro. As pessoas aprendem de maneiras diferentes, e saber em quais modelos de aprendizado nos encaixamos nos ajuda a entender algo com mais facilidade e a lembrar desses co- nhecimentos em diferentes situações. Assim, saber qual o melhor mo- delo de aprendizado do seu aluno com algum tipo de NEE é essencial para seu desenvolvimento acadêmico. De modo geral, existem três modelos básicos de aprendizado – o au- ditivo, o visual e o cinestésico – como podemos observar no Quadro 1. Fonte: Elaborado pela autora com base em Gonçalves, 2021. Quadro 1 Modelos básicos de aprendizagem Auditivo Visual Cinestésico • Gostar de discussões verbais. • Falar em voz alta para memorizar. • Preferir que as coisas sejam ver- balmente explicadas. • Ter dificuldade em compreender instruções escritas. • Falar sozinho quando está apren- dendo algo novo. • Repetir um número de telefone para memorizá-lo. • Lembrar de detalhes visuais. • Preferir ver o que está aprendendo. • Gostar de sempre ter papel e lápis perto. • “Rabiscar” enquanto está ouvindo. • Ter dificuldade em acompanhar palestras. • Gostar de escrever instruções ou números de telefone. • Preferir efetivamente realizar ativi- dades. • Praticar, de forma efetiva, o que está sendo falado ou aprendido. • Mover-se enquanto está ouvindo ou falando. • Gesticular com frequência. • Tocar as coisas quando aprende sobre elas. • Lembrar de “quem fez o que” ao invés de “quem disse o que”. Tendo em vista o público diverso de uma sala de aula, é muito im- portante que o professor oportunize diferentes meios de o aluno ad- quirir o conhecimento que o educador está ofertando em sala de aula. Variando as formas de apresentar o material e o conteúdo, o docente Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 15 conseguirá, em diferentes momentos, atingir distintos grupos de estu- dantes. Quando professores aprendem qual o modelo de aprendizado ideal de seus alunos, os educadores podem ajudá-los a aprender mais efetivamente (RODRIGUES, 2019). E, no caso dos estudantes com NEE, é relevante que os professores e demais profissionais que terão contato com esse aluno verifiquem todos os laudos, relatórios e demais documentos médicos e pedagó- gicos que compõem a história do discente, no intuito de compreender sua condição, suas especificidades clínicas e acadêmicas, para então – junto à equipe pedagógica – planejar os encaminhamentos e ações que serão necessários para assegurar o desenvolvimento desse estudante. A título de exemplo, uma das decisões que precisará ser tomada pela equipe é a respeito da necessidade de o estudante precisar de profes- sores de apoio para acompanhá-lo na escola. Na hipótese de haver es- tudantes com deficiência visual e auditiva, por exemplo, a presença do professor intérprete é obrigatória. Já com relação a estudantes dentro do espectro autista, é essencial considerar que eles podem apresentar um dos sentidos mais aguçado do que os outros e, por isso, podem se mostrar hipersensíveis a estímulos visuais muito fortes, cheiros ou sons ruidosos e altos. Portanto, é muito importante que o professor obtenha o maior número de informações sobre esse aluno e realize uma conver- sa com os pais para saber mais informações, no intuito de se planejar para evitar que haja alguma crise ou situação constrangedora durante a aula. Neste sentido, quanto mais o professor souber a respeito das características individuais de seus estudantes, mais direcionadas serão as suas aulas no sentido de aproximar os seus conteúdos das formas de aprendizagem e interesse desses estudantes (GONÇALVES, 2021). Mas não podemos deixar de considerar que as escolas tradicional- mente usam métodos visuais e auditivos para ensinar, principalmente em anos escolares mais elevados. As crianças que têm facilidade em aprender utilizando essas estratégias normalmente têm sucesso na es- cola, enquanto as crianças que aprendem de maneira tátil-motora, ou que apresentam algum tipo de limitação dos sentidos visual e auditi- vo, costumam ter maiores dificuldades. Contudo, a grande maioria das pessoas – não apenas crianças – aprende melhor quando está ativa- mente envolvida em seu próprio aprendizado, e, quanto maior o núme- ro de sentidos que for aguçado para o seu desenvolvimento, maiores são as chances de aprender (RODRIGUES, 2019). 16 Práticas pedagógicas inclusivas Uma dica acerca dos estudantes com NEE é favorecer para que ele se sente mais próximo do professor, a fim de que o aluno seja mais bem acompanhado. Mais próximo, o docente pode identificar sua for- ma de aprendizagem e aforma com que o discente registra as expe- riências vividas em sala e planejar novas experiências e recursos que possam auxiliá-lo na aquisição de seus conhecimentos. Porém orienta- mos que isso seja feito com muito respeito e com recursos adequados à idade escolar do aluno para que as intervenções dos professores não gerem nenhum desconforto. Para isso, o professor pode conversar com o estudante e procurar saber sobre suas habilidades, seus interesses e preferências, já que uma postura amigável é o primeiro passo para um acolhimento efeti- vo. Alguns estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo, podem ser enfáticos nos seus interesses, logo o ideal é que o professor concilie esses interesses com os conteúdos das suas aulas para manter a atenção desses estudantes (RODRIGUES, 2019). Também é muito importante que o professor seja objetivo e claro em sua fala, pois, independentemente da condição, os alunos com NEE têm a necessidade de compreender tudo o que lhes é comunicado no sentido literal das palavras. No caso dos estudantes com deficiência auditiva ou surdez, os professores precisam estar ainda mais atentos. Ainda que o docente não domine a linguagem de sinais, é imprescindí- vel que seja mantida uma comunicação por meio de expressões faciais, gestos, desenhos e outros recursos para se fazer claro. Já os alunos com superdotação têm uma maior facilidade e rapidez para adquirir conhecimentos que vêm ao encontro do seu interesse. Portanto, é pertinente que o professor entenda que esse aluno nem sempre será o melhor da turma em todas as matérias, mas, naquelas em que ele demonstrar maior interesse e facilidade em aprender, é relevante que haja uma estimulação com novos desafios e propostas enriquecedoras (GONÇALVES, 2021). Segundo Renzulli (1986), indiví- duos nessa abordagem trabalham nos problemas que têm relevância e que são considerados desafiadores para ele, o que nem sempre cor- responde àquilo que é solicitado nas vias formais de aprendizagem. Disso advém a possibilidade de uma pessoa com superdotação não ser necessariamente um bom aluno quando avaliado pelos parâmetros regulares de ensino. Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 17 Aos estudantes com dislexia, uma relevante sugestão é evitar a prática excessiva de cópias. Considerando a dificuldade desses alunos com leitu- ra e cópia de longas explicações e exercícios, oferecer algumas atividades impressas pode ajudá-los a não ficar tanto tempo registrando de tudo, isso faz com que o foco desse aluno seja na resolução dos exercícios. Na prática em sala de aula, é recomendado que o professor recompense e incentive o aluno constantemente, repetindo a explicação sempre que for necessário. Contudo, não basta apenas haver essa repetição, se por acaso o aluno não compreendeu com a primeira explicação, é preciso alterar a forma do que foi dito e até mesmo utilizar outros recursos mais lúdicos como auxílio (GONÇALVES; PEIXOTO, 2021). Outra opção é utilizar instru- mentos que possam contribuir para a aprendizagem – filmes, documentá- rios, quadrinhos, visitas a museus, podcasts e recursos digitais. Os estudantes com Transtorno do Déficit de Atenção com Hipe- ratividade (TDAH) podem apresentar diversas fragilidades em seu desempenho escolar, tendo em vista suas dificuldades de se manter concentrados por um longo período, como se distrair com facilidade, não conseguir se manter dentro do comportamento desejado e, em consequência, apresentar um rendimento educacional abaixo do es- perado (GONÇALVES; BACELLAR, 2021). Logo, é indispensável que o professor esteja atento a esses sinais, procure planejar atividades mais breves ou dividir as mais longas em pequenas tarefas para que o aluno com TDAH possa realizá-las mantendo um nível de qualidade adequa- do, sem ter seu rendimento julgado devido apenas à sua condição. Na obra de Patrícia Gonçalves – Atendimento educacional especializado –, você vai conhecer um pouco mais sobre os estudantes que hoje são considerados público-alvo da Educação Especial, suas características e dicas de como trabalhar com a diversidade da sala de aula respeitando as especifici- dades de cada estudante. GONÇALVES, P. Curitiba: Intersaberes, 2021. Livro 1.3 Direitos educacionais dos estudantes com NEE Vídeo Como vimos no início deste capítulo, ao longo da história da Edu- cação Especial em nosso país, muitos foram os avanços com relação à defesa dos direitos dos estudantes PAEE, isto é, aqueles alunos que apresentam algum tipo de NEE. Desde 2008, por meio da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, novas conquistas foram realizadas em relação aos direitos deste público. Em 2014, a Diretoria de Políticas de Educação Especial 4 apresentou algumas considerações ao público Pertencente à Secretária de Educação Continuada, Alfabetização, Diversida- de e Inclusão. 4 NEE na chamada Nota Técnica n. 04, como uma resposta ao que era pro- posto no Ofício n. 14, feito pelo MEC em 16 de janeiro do mesmo ano. A inclusão de pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação em escolas comuns de ensino regular ampara-se na Constituição Federal/88 que define em seu artigo 205 “a educação como direito de todos, dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho’, ga- rantindo, no art. 208, o direito ao ‘atendimento educacional es- pecializado aos portadores de deficiência”. (BRASIL, 2014) A nota técnica lembra ainda que a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – realizada pelas Nações Unidas em 2006 – firma o compromisso dos Estados de assegurar às pessoas com deficiência um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino utilizando ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e social. O objetivo principal da adoção dessas medidas é garantir que as pessoas com deficiência não serão excluídas do siste- ma educacional geral e poderão ter acesso ao ensino de qualidade em igualdade de condições em relação às demais pessoas na comunidade em que vivem. O documento de 2014 ainda afirma o seguinte: para efetivar o direito da pessoa com deficiência, transtornos glo- bais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, con- forme marcos legais supracitados, faz-se necessária a definição, formulação e implementação de políticas públicas educacionais em atendimento às especificidades de tais estudantes. Por esta razão, o Educa censo coleta informações sobre a condição física, Ju an C i/S hu tte rs to ck Ju an C i/S hu tte rs to ck 1818 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 19 sensorial e intelectual dos estudantes e professores, fundamentado no artigo 1 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Defi- ciência – ONU/2006 e no artigo 5° do Decreto n°5296/2004. Com base nesta declaração, identifica-se o número de estudantes que necessitam de material didático em diversos formatos de acessi- bilidade, assim como, demais recursos de tecnologia assistiva, tais como: scanner com voz, impressora e máquina Braille, software de comunicação alternativa, sistema de frequência modulada, além de serviços de tradução e interpretação da Língua Brasileira de Sinais e do atendimento educacional especializado. (BRASIL, 2014) Dito de outra forma, uma vez que as escolas informam por meio do Censo Escolar o número de estudantes PAEE matriculados – assim como suas necessidades escolares de adaptação –, as instituições têm assegurado o direito de receber os recursos necessários para realizar a inclusão e aprendizagem desses estudantes no ensino regular. Assim, para fornecer a esses alunos os recursos necessários – de acordo com a Política Nacional de EducaçãoEspecial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) –, a Educação Especial deve ser um modelo transversal de ensino responsável por oportunizar serviços e romper barreiras removendo tudo o que possa impedir ou dificultar o acesso, a participação e a aprendizagem de todos os estudantes. Conforme disposto no artigo 1º do Decreto n. 7.611/2011, a obri- gação que o Estado tem com a educação das pessoas com NEE será efetivada tendo as seguintes diretrizes como alicerce: I – garantia de um sistema educacional inclusivo em todos os níveis, sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades; II – aprendizado ao longo de toda a vida; III – não exclusão do sistema educacional geral sob alegação de deficiência; IV – garantia de ensino fundamental gratuito e compulsório, assegura- das adaptações razoáveis de acordo com as necessidades individuais; V – oferta de apoio necessário, no âmbito do sistema educacional geral, com vistas a facilitar sua efetiva educação; VI – adoção de medidas de apoio individualizadas e efetivas, em ambientes que maximizem o desenvolvimento acadêmico e so- cial, de acordo com a meta de inclusão plena; VII – oferta de educação especial preferencialmente na rede regu- lar de ensino. (BRASIL, 2011) 20 Práticas pedagógicas inclusivas O decreto de 2011 também define como PAEE as pessoas com defi- ciência, com transtornos globais do desenvolvimento e com altas habili- dades ou superdotação, ressaltando que – no caso dos estudantes com deficiência auditiva ou surdos – é necessário que as diretrizes presentes no Decreto n. 5.626/2005 5 sejam observadas. Ainda sobre o público-alvo, o documento de 2011 reforça que a Educação Especial deve dar garantia de serviços de apoio especializados com o objetivo de eliminar barreiras que possam obstruir o processo de escolarização desses estudantes. Esses serviços de apoio – denominados de Atendimento Educacional Especializado (AEE) – são o conjunto de atividades e recursos de acessi- bilidade e pedagógicos organizados de forma institucional e continua- mente prestados seguindo os seguintes preceitos: I – complementar à formação dos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento, como apoio permanen- te e limitado no tempo e na frequência dos estudantes às salas de recursos multifuncionais; ou II – suplementar à formação de estudantes com altas habilidades ou superdotação. (BRASIL, 2011) No segundo artigo, o decreto trata precisamente desse atendimen- to educacional especializado, especificando que ele deve fazer parte da proposta pedagógica da escola e ter como parte integrante as famílias, a fim de garantir o pleno acesso e participação dos estudantes. Outro objetivo dessa participação é atender às necessidades específicas do PAEE, sendo realizada em articulação com as demais políticas públicas de educação (BRASIL, 2011). Assim, na prática os serviços especializados devem contribuir para a acessibilidade e atender às necessidades educacionais específicas dos alunos com NEE, e sua prestação de serviço deve estar dentro do Projeto Político-pedagógico em todas as etapas e formas de Educação Básica, garantindo o direito à educação desses alunos. De acordo com o que é dito na Nota Técnica n. 04 (BRASIL, 2014), o professor deve realizar de forma individual o Plano de Atendimento Educacional Especializado, que é um documento de caráter comproba- tório com a seguinte função: mostrar que a escola, institucionalmente, reconhece a matrícula do estudante PAEE e assegura o atendimento de O decreto está disponível na íntegra em formato digital. Disponível em: http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 25 out. 2022. 5 O Projeto Político-peda- gógico é o documento que fundamenta todas as ações da escola. Ele é o instrumento que norteia a atuação da instituição de ensino, apresentando a fi- losofia da instituição, suas modalidades de atendi- mento, demarcação de espaço físico, estrutura de funcionamento, entre ou- tros. Ele foi instituído pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), Lei n. 9.394/1996, cuja obrigatoriedade foi determinada na legislação do Conselho Estadual de Educação/Deliberação 07/2000. Saiba mais http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 21 suas especificidades educacionais em atendimento especializado. A nota técnica ainda afirma que não é imprescindível a apresentação de laudo médico que comprova que o estudante pertence ao PAEE, pois o AEE tem como característica um atendimento pedagógico e não clínico. A orientação é que, durante o estudo de caso – que é a primeira etapa de elaboração do Plano de AEE –, o professor poderá entrar em contato com profissionais da área da saúde se houver a necessidade, para que o laudo médico seja anexado ao plano. Isso quer dizer que o laudo não é um documento obrigatório, e sim complementar, já que o direito de acesso à educação dos estudantes com NEE não pode ser negado pela exigência de uma comprovação médica (BRASIL, 2014). Dessa forma, a inserção dos dados dos estudantes PAEE, no âmbito do Censo Escolar, deve estar de acordo com as orientações contidas na Resolução CNE/CEB, n. 4/2009, que considera público-alvo do AEE: I – Alunos com deficiência: aqueles que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, intelectual, mental ou sensorial. II – Alunos com transtornos globais do desenvolvimento: aqueles que apresentam um quadro de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor, comprometimento nas relações sociais, na co- municação ou estereotipias motoras. Incluem-se nessa definição alunos com autismo clássico, síndrome de Asperger 6 , síndrome de Rett, transtorno desintegrativo da infância (psicoses) e trans- tornos invasivos sem outra especificação. III – Alunos com altas habilidades/superdotação: aqueles que apre- sentam um potencial elevado e grande envolvimento com as áreas do conhecimento humano, isoladas ou combinadas: intelectual, liderança, psicomotora, artes e criatividade. (BRASIL, 2009) Por fim, o nono artigo dessa resolução orienta que a construção e a implementação do Plano de AEE são de responsabilidade dos docentes que atuam na sala de recursos multifuncionais ou centros de AEE. Algo que, como vimos, deve ser feito em consonância com os demais pro- fessores do ensino regular, com a participação das famílias e com os demais serviços setoriais da saúde, da assistência social, entre outros – quando necessários –, no sentido de formar uma rede multiprofissio- nal que atenda todas as necessidades do estudante. Em 2022 com a atualiza- ção do CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saú- de), o termo síndrome de Asperger foi incorporado aos espectros do autismo. 6 22 Práticas pedagógicas inclusivas Portanto, de forma geral, podemos notar que os estudantes PAEE têm garantido seu direito à matrícula e à permanência no ensino regu- lar bem como nos atendimentos especializados nas turmas de AEE por meio de planos individuais que os auxiliam na diminuição das barreiras acadêmicas, ajudando-os a se desenvolverem integralmente dentro do ambiente escolar. Salienta-se novamente que não é necessário a apre- sentação de laudo médico, visto que na escola serão realizados aten- dimentos escolares e não clínicos. Cabe ao professor do atendimento especializado realizar o estudo de caso e planejar como e quais ações, adaptações e materiais serão necessários para garantir o melhor apro- veitamento escolar do estudante PAEE. 1.4 A necessidade de adaptar o currículo Vídeo Com base nas informações apresentadas anteriormente, é possível perceber que adaptar não é mais uma escolha docente mas uma obri- gação, uma vez que essa adaptação éassegurada por leis, decretos, artigos e documentos educacionais. Logo, essa já poderia ser uma pri- meira resposta para nossa questão: adaptamos porque estamos res- peitando um direito de nossos alunos PAEE. Outra razão para a adaptação seria a conclusão de que nem todos os estudantes apresentam as mesmas condições de aprendizagem, e, de pos- se dessa informação, é nosso papel enquanto docentes superarmos a visão igualitária da educação, que foi muito trabalhada no século passado, e dar- mos espaço para uma educação equitativa e de qualidade para todos. É por meio do reconhecimento de que cada estudante aprende de uma forma diferente que é possível compreender a importância de adaptar o currículo, de modo a atender às diferentes necessidades de aprendizagem de cada discente – especialmente dos estudantes PAEE –, possibilitando que todos tenham a oportunidade de aprender. “O currículo deveria ser adapta- do às necessidades das crianças, e não vice-versa. As escolas deveriam, por- tanto, prover oportunidades curriculares que sejam apropriadas à criança com habilidades e interesses diferentes” (UNESCO, 1994). Nesse sentido, quando a escola não flexibiliza a oferta de um cur- rículo adaptado, deixa de considerar as diferenças presentes em cada indivíduo, seus conhecimentos já adquiridos, diferentes ritmos, estilos A Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência listou os direitos que os alunos com NEE têm na escola, aqueles que estão sendo assegurados nos sistemas de ensino e os que preci- sam ser revistos. Disponível em: https://www. camarainclusao.com.br/noticias/ dez-direitos-fundamentais-do- aluno-com-deficiencia-na-escola/. Acesso em: 25 out. 2022. Leitura https://www.camarainclusao.com.br/noticias/dez-direitos-fundamentais-do-aluno-com-deficiencia-na-escola/ https://www.camarainclusao.com.br/noticias/dez-direitos-fundamentais-do-aluno-com-deficiencia-na-escola/ https://www.camarainclusao.com.br/noticias/dez-direitos-fundamentais-do-aluno-com-deficiencia-na-escola/ https://www.camarainclusao.com.br/noticias/dez-direitos-fundamentais-do-aluno-com-deficiencia-na-escola/ Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 23 de aprendizagem, possíveis dificuldades e, o mais importante, deixa de identificar e de promover o desenvolvimento de seu potencial. Logo, é importante pensar que “a escola para todos requer uma dinamicidade curricular que permita ajustar o fazer pedagógico às necessidades dos alunos” (BRASIL, 1998, p. 31). Desse modo, é presumível assumir que o discurso curricular igualitário não contempla integralmente as necessidades de estudantes que preci- sam de atendimento especializado, os quais, cada vez mais, têm chegado ao universo escolar e precisam ter seus direitos assegurados. Entende-se que o processo de aprendizagem deve ser focado no aluno, considerando suas diferentes necessidades e possibilidades e, nessa perspectiva, que os contextos sejam flexíveis e norteados por um currículo que possa efeti- vamente atender às necessidades dos alunos (ZANATO; GIMENEZ, 2017). De acordo com Stainback e Stainback (1999), um currículo para ser in- clusivo deve vir ao encontro das necessidades educacionais dos alunos, desenvolvendo suas habilidades, competências, respeitando as necessi- dades dos alunos e valorizando sempre a diversidade. Para isso, ele deve ser flexível, adaptável e desafiador a todos, haja vista que todas as crianças devem aprender juntas, sempre que possível, independentemente de quaisquer dificuldades ou diferenças que elas possam ter. Escolas inclusivas devem reconhecer e res- ponder às necessidades diversas de seus alunos, acomodando ambos os estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando uma educação de qualidade a todos através de um currículo apropria- do, arranjos organizacionais, estratégias de ensino, uso de recur- so e parceria com as comunidades. (UNESCO, 1994) Sob essa lógica, para que os alunos com NEE sejam incluídos na rede regular de ensino e possam participar de forma efetiva do processo de ensino-aprendizagem, é preciso que todos os agentes envolvidos no processo escolar realizem algumas adaptações no currículo regular para oportunizar novas condições que favoreçam a sua inclusão e seu aprendizado, seja por meio da adaptação de conteúdos, métodos ou objetivos. Assim, a dimensão das adaptações curriculares precisa ter espaço nas discussões escolares, estar de acordo com as necessidades dos es- tudantes inclusos para garantir sua integração ao ambiente escolar e estar assegurada no Projeto Político-pedagógico da escola, consideran- 24 Práticas pedagógicas inclusivas do, nesse sentido, eventuais mudanças políticas ou institucionais que possam impactar a instituição escolar em suas diferentes dimensões, bem como tornar possíveis as mobilizações dos diferentes atores en- volvidos em sua organização pedagógica (MINETTO, 2008). De acordo com nossa legislação, As dificuldades de aprendizagem na escola apresentam-se como um contínuo, compreendendo desde situações mais simples e/ ou transitórias – que podem ser resolvidas espontaneamente no curso do trabalho pedagógico – até situações mais complexas e/ou permanentes – que requerem o uso de recursos ou técni- cas especiais para que seja viabilizado o acesso ao currículo por parte do educando. Atender a esse contínuo de dificuldades re- quer respostas educativas adequadas, que abrangem graduais e progressivas adaptações de acesso ao currículo, bem como adaptações de seus elementos. (BRASIL, 2001, p. 58) Em outras palavras, é observando as situações vivenciadas em sala de aula, conhecendo as características dos estudantes e analisando suas respostas aos estímulos que novas necessidades de adaptação serão analisadas. Para Sebastian Heredero (2010, p. 199), entende-se como adaptação curricular ou adequação curricular “toda e qualquer ação pedagógica que tenha a intenção de flexibilizar o currículo para oferecer respostas educativas às necessidades especiais dos alunos no contexto escolar”. À vista disso, é possível perceber que as adaptações curriculares po- dem ser definidas como modificações progressivas do currículo regular que venham ao encontro das necessidades dos alunos que necessitam de serviços e/ou situações especiais, sendo previsto que ocorram no menor período possível, de forma a possibilitar a esses alunos sua gradativa par- ticipação em um ensino cada vez mais inclusivo (BRASIL, 1998). Em outros termos, as adaptações curriculares constituem, então, uma possibilidade de atender às dificuldades específicas dos estudan- tes, oportunizando a apropriação do conhecimento escolar e incluindo- -os no processo de ensino/aprendizagem. Outro importante objetivo é que essas adaptações possam contribuir para a participação do estu- dante com deficiência na programação escolar de maneira tão próxima aos demais quanto possível (BRASIL, 1998). Para tal, serão realizadas, no “currículo regular, quando necessário, adaptações curriculares para Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 25 torná-lo apropriado às peculiaridades dos alunos com necessidades es- peciais, não no sentido de elaborar um novo currículo, mas de construir um currículo dinâmico, alterável, passível de ampliação, para que aten- da realmente a todos os educandos” (BRASIL, 1998, p. 33). Todavia, essa não deve ser uma ação intuitiva e isolada. O plane- jamento dessas ações adaptativas deve ser realizado por meio de uma construção coletiva, prevendo e respaldando as adaptações a serem realizadas. Ainda para Heredero (2010, p. 194), “a primeira atuação será descrever no Projeto Político-pedagógico, como marca de identidade, o desejo de fazer da atenção à diversidade uma for- ma de trabalho da escola que responda às suas necessidades edu- cativas especiais”. De acordo com nossa legislação, na organização das classes co- muns, está assegurada a garantia de: flexibilizações e adaptações curriculares, que considerem o significadoprático e instrumental dos conteúdos básicos, metodologias de ensino e recursos didáticos diferenciados e processos de avaliação adequados ao desenvolvimento dos alunos que apresentam necessidades educacionais espe- ciais, em consonância com o projeto pedagógico da escola. (BRASIL, 2001, p. 47) Para isso, a escola precisa partir do que já construiu como referên- cia para suas práticas escolares, ou seja, é com base em seu projeto pedagógico que ela fará a nova organização. Logo, a escola deve con- siderar a flexibilização e diversidade do funcionamento de suas ações educacionais, diversificando-as de modo com que possam atender às diferenças individuais dos educandos e fomentando seu processo de ensino-aprendizagem. Assim, ao se identificarem as necessidades edu- cacionais especiais dos alunos, será possível garantir recursos e meios favoráveis que apoiem o processo educacional, possibilitando a adoção de novas propostas curriculares (BRASIL, 1998). A esse respeito, Veiga (1998) afirma que o Projeto Político-peda- gógico da escola deve ser um compromisso definido coletivamen- te, partindo de um processo de reflexão e discussão em que possa haver o delineamento de suas intenções e identidade. Ele deve ser constituído por meio de um processo democrático de decisões que 26 Práticas pedagógicas inclusivas dará indicações para o trabalho pedagógico tanto no que diz res- peito à organização da escola quanto à organização da sala de aula (VEIGA, 1998). Desse modo, por meio das propostas curriculares que devem le- var em consideração as características e peculiaridades dos estudan- tes, é possível realizar adaptações que atendam às suas necessidades educativas e proporcionem novas experiências de aprendizagem aos alunos com NEE, garantindo uma participação mais efetiva nas ativi- dades realizadas dentro do ambiente escolar. E, para atender a essas necessidades, podem ser necessárias adaptações nos materiais, objeti- vos, conteúdos, metodologia, temporalidade e avaliação. Assim, essas adaptações curriculares são definidas em três diferentes níveis: no âm- bito do projeto pedagógico (currículo escolar); no currículo desenvolvi- do na sala de aula; e no nível individual (ZANATO; GIMENEZ, 2017). Em outras palavras, essas adaptações realizadas nas aulas, na metodologia e no currículo estão relacionadas ao planejamento das atividades elaboradas pelo docente, tais como a organização e os pro- cedimentos didático-pedagógicos. Já as adaptações no nível individual – mais específicas – têm por objetivo identificar os fatores que interfe- rem em sua aprendizagem e atender às suas dificuldades individual- mente (BRASIL, 1998). Segundo Heredero (2010, p. 58), essas adaptações podem ser classificadas também de acordo com os elementos curriculares aos quais se referem, perten- cendo a duas categorias: adaptações nos elementos de acesso, quando se referem a modificações nos elementos pessoais, ma- teriais e de organização; adaptações nos elementos curriculares básicos, quando se referem aos objetivos, conteúdos, metodolo- gia, atividades de ensino aprendizagem e avaliação. Ajustes me- nores e/ou maiores no currículo podem ser necessários; estes devem sempre levar em consideração as necessidades educacio- nais especiais dos alunos de forma a atender às suas dificulda- des e favorecer a sua aprendizagem. Portanto, é necessária por parte do professor uma frequente análise e replanejamento de suas ações conteúdos e metodologia, pois, ao apresentar determinado conteúdo, ele precisa observar se o estudante apreendeu os resultados de aprendizagem esperados Meu nome é Radio conta a história de James que, acompanhado de um carrinho de supermer- cado e um rádio, tinha por prática observar os treinos da equipe de futebol americano do professor Harold Jones. Suas histórias se unem no dia em que alguns jogadores realizam uma brincadeira de mau gosto com James, deixando-o ainda mais assustado e fechado em seu silêncio. Como pedido de descul- pas, o treinador resolve convidá-lo para assistir a um treino e, pouco a pouco, o insere na equipe como um assistente. Com o passar do tempo, James recebe novas atribuições e passa a ser chamado de Rádio. Essa é uma história baseada na realidade e mostra um novo olhar so- bre o que o esporte pode proporcionar àqueles que não se destacam por suas habilidades cinestésicas e acadêmicas. Direção: Michael Tollin. EUA: Columbia Pictures, 2003. Filme Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 27 para aquele componente e se precisará de novas adaptações ou não para apreender os subsequentes. Contudo, é relevante sempre reavaliar a necessidade e frequência dessas alterações. Dessa maneira, as adaptações curriculares indivi- duais devem ocorrer quando outras medidas como as adaptações em grupo e atividades de reforço não atingirem os objetivos esperados, constituindo-se como ajustes ou modificações que não poderão ser compartilhados pelos outros estudantes. Elas precisam ocorrer pelo menor tempo possível e preferencialmente em ambiente menos res- tritivo, para que haja a possibilidade de gradativamente o aluno voltar a participar do coletivo (HEREDERO, 2010). 1.5 Aplicação do currículo adaptado Vídeo Quando realizamos uma superficial análise do nosso atual sistema educacional, percebemos muitas vezes um currículo rígido, que obe- dece a uma grade curricular fechada em que todos os alunos são obri- gados a aprender – dentro do mesmo tempo predeterminado – todos os conteúdos propostos, ainda que aprendam em tempos, formas e tenham interesses diferentes, conforme já observamos. Por outro lado, realizar uma adaptação curricular não é apenas separar do currículo comum os tópicos mais relevantes para o aluno nos critérios do professor. Para aprender um conhecimento realmente significativo, o aluno precisa ser comparado consigo mesmo e com suas capacidades de aprendizagem e não ser medido apenas em relação ao currículo. Para tanto, é preciso que as estratégias de aprendizagem e a meto- dologia, ou seja, a forma com que o professor apresenta o conteúdo, também sejam adequados ao nível de aprendizagem do estudante, so- bretudo do estudante com alguma NEE. Nesse sentido, as adaptações curriculares podem ser classificadas de acordo com o seu grau de intervenção e significado e definidas como: “adaptações curriculares extraordinárias, significativas, ou de grande por- te; adaptações curriculares ordinárias, não significativas, ou de pequeno porte” (HEREDERO, 2010, p. 60). De acordo com Aranha (2000a, p. 12), As adaptações curriculares significativas ou de grande porte são decisões e ações de natureza política, administrativa, financeira, 28 Práticas pedagógicas inclusivas burocrática; sendo assim, seu planejamento e execução são de responsabilidade de instâncias político-administrativas superio- res. Essa não é uma adaptação simples, a implementação de uma adaptação curricular significativa ou de grande porte, deve sempre ser precedida de uma avaliação criteriosa das reais ne- cessidades do aluno, pois esta deve sempre favorecer o processo de aprendizagem. Essas adaptações devem “[...] permitir a alu- nos com deficiência que apresentam necessidades educacionais especiais o alcance de objetivos educacionais que lhes sejam viá- veis e significativos [...]”. Assim, é preciso lembrar que essas adaptações ordinárias devem cons- tituir-se como uma medida excepcional e ser adotadas somente “depois de haverem comparado cuidadosamente todas as circunstâncias que en- volvem o aluno, e de terem fracassado outras medidas prévias, inclusive as adequações de pequeno porte” (HEREDERO, 2010, p. 205). Para Aranha (2000a), além das ações realizadas em sala de aula pelo professor, a direção escolar tem grande importância no planejamento e na implementação das adaptações curriculares significativas ou de grande porte, pois, nesse modelo de adaptação, “podem ser necessá- rias adaptações no ambientefísico escolar e nos materiais de uso co- mum em sala de aula, além de aquisição de mobiliário, equipamentos e recursos materiais específicos” (ARANHA, 2000a, p. 15). Segundo o autor, cabe à direção escolar: 1. permitir e prover suporte administrativo, técnico e científico para a flexibilização do processo de ensino, de modo a atender à diversidade; 2. adotar propostas curriculares diversificadas e abertas, em vez de adotar concepções rígidas e homogeneizadoras do currículo; 3. flexibilizar a organização e o funcionamento da escola, de forma a atender à demanda diversificada dos alunos; 4. viabilizar a atuação de professores especializados e de serviços de apoio para favorecer o processo educacional. (ARANHA, 2000a, p. 12) Nessa perspectiva, antes de realizar as adaptações de grande porte, também conhecidas como adaptações significativas, é preciso realizar um planejamento e uma criteriosa avaliação de maneira multiprofissio- nal com todos os professores e demais especialistas que acompanham Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 29 o estudante, para que sejam analisadas as reais necessidades dos alu- nos e os impactos dessas adaptações tanto em seu processo de ensino e aprendizagem quanto em sua socialização (ZANATO; GIMENEZ, 2017). Outro ponto fundamental da adaptação são os objetivos. Os pro- fessores devem ter autonomia para realizar a eliminação de objetivos básicos ou mesmo realizar a introdução de objetivos específicos, com- plementares e/ou alternativos àqueles previstos no currículo comum, com o objetivo de favorecer oportunidades de aprendizagem aos estu- dantes inclusos que venham ao encontro dos seus interesses (ZANATO; GIMENEZ, 2017). Assim, Ao serem adaptados os objetivos, consequentemente também serão necessárias modificações nos conteúdos, que podem constituir adaptações nos conteúdos específicos, complemen- tares e/ou alternativos, e a eliminação de conteúdos básicos do currículo. A avaliação está diretamente associada a essas adap- tações, sendo um meio para que o professor, juntamente com a equipe gestora, possa, com base nas alterações efetuadas an- teriormente, avaliar a aprendizagem dos alunos PAEE e decidir sobre seu percurso escolar. (BRASIL, 1998) Para realizar essas alterações, é necessário que haja uma ampla análise por parte de todo o corpo escolar para que juntos possam planejar o momento ideal das tomadas de decisões e execução das alterações, considerando sempre as reais necessidades dos alu- nos tendo por objetivo uma melhor aprendizagem e socialização (ARANHA, 2000a). Com relação à organização e alteração do tempo em que essas adaptações serão realizadas, elas devem considerar o ritmo próprio do aluno e o tempo que ele necessita para aprender, podendo o docente, quando julgar necessário, realizar um prolongamento no seu tempo de escolarização (ARANHA, 2000a). Dito de outra forma, as adaptações curriculares de grande porte deverão ser realizadas com intenção de atender às necessidades do estudante em situações em que haja discrepância entre suas neces- sidades e as exigências do currículo regular, considerando a com- plexidade das atividades acadêmicas no avanço da escolarização (ARANHA, 2000a). 30 Práticas pedagógicas inclusivas Quanto às adaptações curriculares não significativas ou de pequeno porte, cabe ao professor a responsabilidade de realizar as adaptações necessárias, tendo em conta que essas são definidas como modifica- ções realizadas no plano de ensino e ações desenvolvidas em sala de aula pelo professor e considerando as necessidades educacionais dos estudantes em sua disciplina (ARANHA, 2000b). Assim, nesse modelo de adaptação, é de responsabilidade do pro- fessor garantir a esses estudantes acesso ao currículo, planejando e executando todas as alterações necessárias para ajustes que assegu- rem a participação de todos os estudantes em suas aulas. Ou seja, cabe ao professor planejar, desenvolver e implementar todas as adaptações necessárias para garantir o acesso dos estudantes PAEE a todas as ins- tâncias do currículo escolar. De acordo com Aranha (2000b, p. 10), in- cluem-se entre elas, de maneira geral: • criar condições físicas, ambientais e materiais para a participação do aluno com necessidades especiais na sala de aula; • favorecer os melhores níveis de comunicação e de interação do aluno com as pessoas com as quais convive na comunidade escolar; • favorecer a participação do aluno nas atividades escolares; • atuar para a aquisição dos equipamentos e recursos materiais específicos necessários; • adaptar materiais de uso comum em sala de aula; • adotar sistemas alternativos de comunicação, para os alunos impedidos de comunicação oral, tanto no processo de ensino e aprendizagem como no processo de avaliação; • favorecer a eliminação de sentimentos de inferioridade, de me- nos valia, ou de fracasso. Tendo por base essa premissa, para a elaboração de seu plano de ensino adaptado, o professor deve constatar a diversidade presente em sua turma e promover as adaptações necessárias para favorecer a participação de forma produtiva de todos os seus alunos no processo de ensino e aprendizagem. Seu planejamento deve considerar as ca- racterísticas individuais dos alunos para atender às suas necessidades educacionais. Quando necessário, pode ser feito também um plano individualizado de ensino, que deve nortear as ações pedagógicas do Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 31 professor, podendo ser elaborado com a ajuda de professores do en- sino especial e de apoio multiprofissional e atualizado constantemente de acordo com a evolução do aprendizado do aluno (ARANHA, 2000b). Também é importante considerar a possibilidade de realização de ou- tras estratégias que facilitem o processo de aprendizagem, como revisão na organização didática da aula, no ambiente e formação de novos grupos, para garantir o acesso ao currículo. Essas medidas consistem em altera- ções nos materiais didáticos, na disposição da mobília de sala de aula, na organização e organização das atividades, bem como na cronologia para o desenvolvimento destas, além de outras medidas na forma de apresentar o conteúdo que podem auxiliar os estudantes PAEE a melhor compreende- rem o conteúdo transmitido (ARANHA 2000b). Na prática, as adaptações que dizem respeito aos objetivos e conteú- dos podem priorizar determinados objetivos, áreas ou unidades de con- teúdos a serem trabalhados, assim como podem visar a reformulação da sequência de conteúdos ou mesmo a eliminação desses. Contudo, é im- portante lembrar que essas adaptações nos objetivos e conteúdos que constam no plano de ensino devem atender às necessidades educacio- nais dos alunos incluídos, respeitando suas características e procurando promover a superação das suas dificuldades (BRASIL,1998). Já para atender às necessidades específicas dos alunos PAEE com re- lação à avaliação, o professor pode alterar técnicas, instrumentos e abrir novas possibilidades para que os estudantes expressem seu conheci- mento, propiciando, por exemplo, que um aluno cego faça a prova em braille e a apresente oralmente ao professor, ou o docente pode tam- bém elaborar provas mais objetivas e com menor número de questões para estudantes dentro do TEA (ARANHA, 2000b). No que tange à temporalidade, cabe ao professor realizar ajustes aumentando ou diminuindo o tempo previsto para determinado ob- jetivo ou conteúdo, conforme o desenvolvimento dos seus estudan- tes. Contudo, é importante que o docente reflita se a adaptação deve ocorrer nos prazos ou no modelo das atividades ofertadas (ARANHA, 2000b; BRASIL, 1998). Dessa maneira, haja vista as diferentes formas de aprender dos alunos, é importante considerar que o professor pode ter que planejar diferentes procedimentos didáticos e atividades, bem como repensar sua metodolo- 32 Práticas pedagógicas inclusivas gia empregada em sala de aula, no sentido de promovera aprendizagem dos estudantes por meio de atividades complementares e/ou alternativas, diferenciando seu nível de complexidade ou até mesmo adaptando os ma- teriais que serão transmitidos aos alunos (BRASIL, 1998). Ao encontro dessa premissa, Aranha (2000b, p. 30) afirma que, para que as adaptações curriculares sejam efetivas, é fundamental: Que o professor esteja constantemente atento a seu aluno, para identificar de que conhecimentos ele já dispõe (relacionados com o tema de cada unidade de conteúdo), e que necessidades educacionais apresenta; que o professor use de sua criatividade para criar formas alternativas de ensinar, que respondam às ne- cessidades identificadas; Que o professor use continuamente da avaliação para identificar o que precisa ser ajustado no processo de ensinar. Por fim, é recomendado que os professores realizem uma avaliação diagnóstica sempre com a orientação de um professor especialista e, quando possível, de uma equipe multidisciplinar, proporcionado assim ao professor o maior número possível de informações a respeito da deficiência, dificuldades, habilidades e necessidades educacionais do estudante, viabilizando a implementação de ações mais efetivas quan- to à sua aprendizagem. CONSIDERAÇÕES FINAIS Podemos concluir, por meio das seções apresentadas, o quão importante é que profissionais da educação conheçam mais a respeito das NEE de seus estudantes. Nesse momento, a inclusão faz parte da realidade escolar, e não é mais possível usar a justificativa de que você não aprendeu em sua forma- ção inicial ou que não sabe como trabalhar com estudantes PAEE. Todos os agentes envolvidos no sistema educacional precisam estar atentos às especificidades dos estudantes, elaborando estratégias que ve- nham ao encontro de suas necessidades e que os auxiliem a se sentirem verdadeiramente incluídos. Precisamos estar atentos às nossas práticas, procurar mediante as nossas atividades e metodologias formas de apresentar os conteúdos e até mesmo nossas falas e promover a equidade educacional de ma- neira a disponibilizar a cada aluno os recursos necessários para asse- gurar a sua aprendizagem. No site da Biblioteca do Cetens, mantido pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, é possível encontrar 11 livros sobre educação inclusiva gratuitos para baixar, ler e aprofundar seus conhecimentos em educação inclusiva. Disponível em: https://www. ufrb.edu.br/bibliotecacetens/ noticias/64-11-livros-gratuitos- sobre-educacao-inclusiva. Acesso em: 25 out. 2022. Site https://www.ufrb.edu.br/bibliotecacetens/noticias/64-11-livros-gratuitos-sobre-educacao-inclusiva https://www.ufrb.edu.br/bibliotecacetens/noticias/64-11-livros-gratuitos-sobre-educacao-inclusiva https://www.ufrb.edu.br/bibliotecacetens/noticias/64-11-livros-gratuitos-sobre-educacao-inclusiva https://www.ufrb.edu.br/bibliotecacetens/noticias/64-11-livros-gratuitos-sobre-educacao-inclusiva Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 33 ATIVIDADES Atividade 1 Comente acerca das contribuições da psicóloga e educadora Hele- na Antipoff para a Educação Especial em nosso país. Atividade 2 Descreva sobre a legislação que defende a não obrigatoriedade de laudo médico para que os estudantes PAEE sejam atendidos. Atividade 3 Escolha um dos públicos da Educação Especial apresentados no texto (estudantes com TEA, TDAH, superdotação, dislexia etc.) e descreva suas principais características. REFERÊNCIAS ARANHA, M. S. F. Garantindo o acesso e permanência de todos os alunos na escola: Alunos com necessidades educacionais especiais – Adaptações Curriculares de Grande Porte. Brasília: MEC/SEE, 2000a. (Projeto Escola Viva, v. 5). ARANHA, M. S. F. Garantindo o acesso e permanência de todos os alunos na escola: Alunos com necessidades educacionais especiais – Adaptações Curriculares de Pequeno Porte. Brasília: MEC/SEE, 2000b. (Projeto Escola Viva, v. 6). BERNARDES, L. C. G. et al. Pessoas com Deficiência e Políticas de saúde no Brasil: Reflexões Bioéticas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 14, n. 1, 2009. BRANDÃO, S. H. A.; MORI, N. N. R. Alunos com altas habilidades/superdotação no Estado do Paraná. In: 30º REUNIÃO ANUAL DA ANPED. Anais [...] Caxambu: ANPED, 2007. p.1-17. BRASIL. Lei n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Diário Oficial da União, Poder Executivo. Brasília, DF, 27 dez. 1961. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4024. htm. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Lei n. 5.692, de 11 de agosto de 1971. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 12 ago. 1971. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ l5692.htm#:~:text=LEI%20No%205.692%2C%20DE%2011%20DE%20AGOSTO%20DE%20 1971.&text=Fixa%20Diretrizes%20e%20Bases%20para,graus%2C%20e%20d%C3%A1%20 outras%20provid%C3%AAncias. Acesso em: 30 set. 2022. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4024.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4024.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5692.htm#:~:text=LEI%20No%205.692%2C%20DE%2011%20DE%20AGOSTO%20DE%201971.&text=Fixa%20Diretrizes%20e%20Bases%20para,graus%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5692.htm#:~:text=LEI%20No%205.692%2C%20DE%2011%20DE%20AGOSTO%20DE%201971.&text=Fixa%20Diretrizes%20e%20Bases%20para,graus%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5692.htm#:~:text=LEI%20No%205.692%2C%20DE%2011%20DE%20AGOSTO%20DE%201971.&text=Fixa%20Diretrizes%20e%20Bases%20para,graus%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5692.htm#:~:text=LEI%20No%205.692%2C%20DE%2011%20DE%20AGOSTO%20DE%201971.&text=Fixa%20Diretrizes%20e%20Bases%20para,graus%2C%20e%20d%C3%A1%20outras%20provid%C3%AAncias 34 Práticas pedagógicas inclusivas BRASIL. Decreto-Lei n. 7.611, de 17 de novembro de 2011. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 17 nov. 2011. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. 4, de 2 de outubro de 2009. Brasília, DF: CNE, 2 out. 2009. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/ dmdocuments/rceb004_09.pdf. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Nota Técnica n. 04 de 23 de janeiro de 2014. Brasília, DF: MEC/ SECADI, 2014. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=15898-nott04-secadi-dpee-23012014&category_ slug=julho-2014-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão. Nota Técnica n. 40 de 15 de julho de 2015. Brasília: MEC/SECADI, 2015a. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Diretrizes nacionais para a educação especial na educação básica/Secretaria de Educação Especial. Brasília, DF: MEC/ SEESP, 2001. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes.pdf. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Marcos político- legais da Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília, DF: MEC/ SEESP, 2010. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=6726-marcos-politicos-legais&Itemid=30192. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF: SEESP, 2008. Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Adaptações Curriculares/Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf.Acesso em: 27 out. 2022. BRASIL. Orientações para Implementação da Política de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, DF: MEC, 2015b. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_docman&view=download&alias=17237-secadi-documento-subsidiario- 2015&Itemid=30192. Acesso em: 27 out. 2022. DELOU, C. M. C. O papel da família no desenvolvimento de altas habilidades e talentos. In: FLEITH, D. S.; ALENCAR, E. M. L. S. (org.). Desenvolvimento de talentos e altas habilidades: Orientação a pais e professores. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 22-38. GONÇALVES, P.; BACELLAR, G. T. B. S. B. B. 10 perguntas e respostas para compreender o TDAH. Curitiba: Dialética e Realidade, 2021. GONÇALVES, P.; PEIXOTO, A. 10 perguntas e respostas para compreender a Dislexia. Curitiba: Dialética e Realidade, 2021. GONÇALVES, P. Atendimento educacional especializado. 1 ed. Curitiba: Intersaberes, 2021. HEREDERO, E. S. A escola inclusiva estratégias para fazer frente a ela: as adaptações curriculares. Acta Scientiarum, v. 32, n. 2, 2010. JANNUZZI, G. M. A educação do deficiente no Brasil: dos primórdios ao início do século XXI. 3 ed. Campinas: Autores Associados, 2012. MAZZOTTA, M. J. S. Educação especial no Brasil: história e políticas públicas. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2005. MAZZOTTA, M. J. S. Evolução da educação especial e as tendências da formação de professores de excepcionais no Estado de São Paulo. 1989. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo. MINETTO, M. F. Currículo na educação inclusiva: entendendo o desafio. São Paulo: IBPEX, 2008. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=15898-nott04-secadi-dpee-23012014&category_slug=julho-2014-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=15898-nott04-secadi-dpee-23012014&category_slug=julho-2014-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=15898-nott04-secadi-dpee-23012014&category_slug=julho-2014-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/diretrizes.pdf http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=6726-marcos-politicos-legais&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=6726-marcos-politicos-legais&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.pdf http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=17237-secadi-documento-subsidiario-2015&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=17237-secadi-documento-subsidiario-2015&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=17237-secadi-documento-subsidiario-2015&Itemid=30192 Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 35 RENZULLI, J. S. The three-ring conception of giftedness: a developmental model of creative productivity. Connecticut: The Triad Reader, 1986. RODRIGUES, L. Modelos de Aprendizado e sua Relação com Necessidades Educacionais Especiais. Instituto Itard, 10 jun. 2019. Disponível em: https://institutoitard.com.br/ modelos-de-aprendizado-e-sua-relacao-com-necessidades-educacionais-especiais/. Acesso em: 27 out. 2022. STAINBACK, S.; STAINBACK, W. Inclusão: um guia para educadores. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999. UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Declaração de Salamanca e Enquadramento da Ação na Área das Necessidades Educativas Especiais. Lisboa: Instituto de Inovação Educacional, 1994. VEIGA, I. P. A. (org.). Projeto Político-Pedagógico Da Escola - Uma Construção Possível. Campinas: Papirus, 1998. ZANATO, C. B.; GIMENEZ, R. Educação inclusiva: um olhar sobre as adaptações curriculares. Revista @mbienteeducação, v. 10, n. 2 dez, 2017. https://institutoitard.com.br/modelos-de-aprendizado-e-sua-relacao-com-necessidades-educacionais-especiais/ https://institutoitard.com.br/modelos-de-aprendizado-e-sua-relacao-com-necessidades-educacionais-especiais/ 36 Práticas pedagógicas inclusivas 2 Práticas para alunos com deficiência Querido estudante, neste capítulo eu te convido a compreender um pouco mais as diferentes características das pessoas com algum tipo de deficiência física/motora ou intelectual e os estudantes com surdez, ce- gueira ou surdocegueira que estão incluídos dentro do ambiente escolar Neste capítulo, depois de apresentarmos as principais características dos educandos com essas condições e conhecermos mais os diagnósticos e patologias, refletiremos sobre a exigência de nós professores buscar- mos compreender as necessidades reais desses estudantes, consideran- do que não é apenas o que está escrito em seus laudos ou avaliações que os define, mas as pessoas que eles são hoje com suas necessidades e potencialidades a serem desenvolvidas. Neste sentido, entenderemos a importância da realização de prá- ticas pedagógicas inclusivas e adequações curriculares e metodológi- cas para os estudantes com Necessidades Educativas Especiais (NEE). Abordaremos as demandas dos estudantes com deficiência visual, au- ditiva/surdez e intelectual, além disso compreenderemos a importância da realização de práticas pedagógicas inclusivas e de adequações curri- culares e metodológicas para os estudantes com surdocegueira, assim como a relevância da realização de práticas pedagógicas inclusivas e de adequações curriculares e metodológicas para os estudantes com defi- ciências físico-motoras. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender a importância da realização de práticas pedagógicas inclusivas e de adequações curriculares e metodológicas para os estudantes com NEE, com deficiência visual, auditiva/surdez, inte- lectual, física/motora e com surdocegueira. Objetivos de aprendizagem Práticas para alunos com deficiência 37 2.1 O que são práticas pedagógicas inclusivas Vídeo A inserção de novas práticas no âmbito pedagógico das instituições de ensino é a ação que garante a inclusão dos estudantes Público-alvo da Educação Especial (PAEE) dentro dos espaços escolares. Entretanto, para que efetivamente ela aconteça, é preciso uma capacitação especí- fica – com o objetivo de adaptar planejamentos e métodos de ensino e desenvolver políticas de ensino inclusivas em todos os espaços escola- res. Outro ponto que requer atenção é a adequação dos procedimen- tos de ensino a essas competências e às habilidades dos alunos, tanto as individuais quanto as coletivas. Papim et al. (2018) destacam que é necessário ao professor ter as estratégias para desenvolver e aplicar metodologias que sejam inclusi- vas, no entanto também é preciso que a instituição esteja ativa nesse processo, principalmente na construção de um currículo que seja “ma- leável” e passível de adaptação à realidade dos alunos. Assim, a produção de um currículo flexível e adaptado às necessi- dades dos alunos proporcionará a permanência deles em sala de aula e um significativo avanço em seu aprendizado, considerando que – em uma sala de aula realmente inclusiva – os professores irão desenvolver estratégias significativas que possam abranger todas as modalidades de ensino. Comenius (2012, p. 2) contribui para essa argumentação re- forçando que a adaptação do currículo e do conteúdo deve sempre levar em conta a realidade e a especificidade de cada aluno. qualquer escola que deseje seguir uma Educação Inclusiva terá de desenvolver: Políticas, práticas e culturas que respeitem a diferença e a contribuição ativa de cada aluno para a constru- ção de um conhecimentopartilhado. Procura por esse meio al- cançar, sem discriminação, a qualidade acadêmica e contexto sociocultural de todos os alunos. Contudo, é sempre preciso levar em consideração as dificuldades que os profissionais da área de ensino têm ao aplicar essas adaptações e que dificultam a adesão de muitos deles a essas mudanças: salas superlo- tadas, infraestrutura escolar inadequada ou inexistente, perfis diversos de alunos etc. Esses empecilhos deixam ainda mais clara a urgência da adoção dessas novas práticas pedagógicas, visando às mudanças, atuali- An nG ay so rn /S hu tte rs to ck zações e conceitos, com o objetivo principal de proporcionar um espaço de maior acesso ao conhecimento e interação entre os alunos. Nesse sentido, pensar em práticas pedagógicas significa se dedicar a estudos e conhecimentos tanto teóricos quanto práticos para com- preender o perfil de cada estudante, tendo em vista a importância do auxílio de profissionais qualificados não apenas para as orientações como também para as práticas inclusivas. Oliveira, Gonzaga e Lima (2015, p. 2) reforçam esse pensamento de inclusão, trazendo a visão de que a escola de ensino regular deve prezar pela educação inclusiva, acolhendo todos os alunos e levando em consideração suas limitações favorecendo em um só tipo de escola, a escola de ensino regular que deve acolher todos os alunos e também se empenhar em identificar as dificuldades e limitações dos estudantes, buscando ajuda e encaminhamentos através de profissionais qualificados de utilização de apoios e recursos que garantam a superação dessas dificuldades. Ainda de acordo com os autores, a chamada qualificação profissio- nal é o fator primordial tanto para a identificação das dificuldades e limitações dos alunos em sala de aula quanto para a elaboração e apli- cação de formas inovadoras e adaptadas que visam a compreensão do conteúdo aplicado. Logo, ações como buscar conhecimento acerca da inclusão e de como realizar práticas pedagógicas mais inclusivas são o primeiro passo para uma ação pedagógica significativa. De modo geral, práticas pedagógicas inclusivas são todas as ações que tenham como objetivo transformar e adequar o ambiente escolar aos alunos PAEE, com a intenção de desenvolver esses alunos integralmente, diminuindo a lacuna de desigualdade educacional que possa vir a existir. Segundo Glat e Nogueira (2003), o ato de incluir alunos com NEE não se resume apenas em fazer com que eles fiquem na mesma sala que os demais, muito menos negar – principalmente àqueles que necessitam – a utilização de serviços especializados. Incluir alunos que necessitam de atendimento especializado implica diversas mudanças e adap- tações, como uma reorganização do sistema educacional e uma revisão de algumas práticas, concepções e paradigmas educacionais, tudo com o objetivo de possibilitar o desenvolvi- mento social, cultural e cognitivo desses alunos, sempre se- guindo um princípio: o respeito às diferenças e às necessidades de cada estudante. 3838 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas Práticas para alunos com deficiência 39 Para os alunos com NEE, é sempre muito importante que o profes- sor saiba utilizar e aplicar práticas pedagógicas inovadoras, as quais devem ter relação com os objetivos que o docente deseja alcançar com essa prática. Nesse entendimento, Ferreiro (2015) destaca que é essen- cial a escolha e a adaptação de materiais pedagógicos que despertem o interesse do aluno e que sejam adaptados à sua faixa etária, por exem- plo, materiais mais infantilizados (com personagens, atividades para colorir etc.) são mais indicados para alunos mais jovens. Como já destacamos anteriormente, é importante que o estudante se sinta respeitado pelo professor, e, uma vez incluído entre os outros alunos de sua faixa etária, as adaptações de método, conteúdo e ativi- dades também devem respeitar suas características pessoais. Por outro lado, ainda para Ferreiro (2015), o fracasso escolar tem várias manifestações que podem estar relacionadas à ausência de práticas pedagógicas adequadas às necessidades individuais, consi- derando que a frustração e a decepção de não conseguir compreen- der e executar tarefas simples podem desencadear um sentimento de baixa autoestima, de exclusão e de diferenciação entre os demais alunos. Assim, é imprescindível que o professor realize avaliações diagnósticas ao iniciar seu processo de ensino em uma sala que te- nha alunos com NEE, para que possa identificar não apenas o nível da turma como um todo, mas especialmente as áreas de dificuldade e potencialidade dos alunos PAEE, o que ele já compreendeu do seu conteúdo e o que será necessário retomar, analisando e planejando as próximas ações de modo a desafiar o estudante a superar seus conhecimentos sem estabelecer barreiras que o desmotivem a con- tinuar sua jornada escolar. Dito de outra forma, para os estudantes que precisam de atendi- mento especializado, a escola é um ambiente complexo, com muitas especificidades, ordens e processos complicados, isso faz com que muitos se sintam desanimados e com pouca ou nenhuma vontade de frequentar esses espaços, o que leva à evasão escolar. É necessário que a escola seja um espaço harmonioso, em que esse aluno irá se sentir seguro para realizar suas interações sociais, desenvolver-se e adquirir novos conhecimentos. Quando a educação passa a ressigni- ficar a importância de aprender, dando novo sentido à permanência no espaço escolar, o aluno torna-se novamente o protagonista do seu processo de aprendizagem. 40 Práticas pedagógicas inclusivas Por este motivo, conforme Carara (2016), é imprescindível que o professor compreenda seu papel de facilitador e mediador desse pro- cesso utilizando da constante convivência e interlocução diária em sala de aula para conhecer as especificidades de seus alunos. O professor deve conhecer seus alunos e assumir um papel de referência para as crianças, ficando apto a identificar suas dificuldades e interferir de maneira positiva, de forma a promover situações favoráveis à aprendizagem. O professor deve assumir o papel de facilitador dentro da escola, onde o aluno possa ser o prota- gonista dentro do processo de ensino e aprendizado que deve ocorrer de forma integrada. (CARARA, 2016, p. 8) Nesse sentido, para promover transformações significativas, é pre- ciso planejar considerando os objetivos, conteúdos, estratégia, recur- sos e a avaliação, bem como a heterogeneidade existente no âmbito escolar. Assim, tratando-se dos alunos com NEE se faz necessário que a escola procure promover uma real inclusão, criando oportunidades, novas propostas políticas, pedagógicas e inovadoras que garantam a aprendizagem a todos os alunos (SILVA; MIGUEL, 2020). Ao encontro dessa premissa, Sánchez e Teodoro (2006, p. 72) consi- deram que ensinar exige compreensão da realidade, e “Numa escola in- clusiva só pode existir uma educação inclusiva, uma educação em que a heterogeneidade do grupo não é mais um problema, mas um grande desafio à criatividade e profissionalismo dos profissionais da educação gerando mudanças de mentalidades de políticas e práticas educativas”. Portanto, para promover a inclusão no âmbito escolar, é preciso uma mudança de postura e de olhar acerca dos estudantes PAEE, o que implica uma quebra de paradigmas e a reformulação do nosso sistema de ensino para a conquista de uma educação de qualidade, na qual o acesso, o atendimento adequado, a permanência e a qualidade da aprendizagem sejam garantidos a todos os alunos, independentemen- te das suas necessidades (SERRA, 2014). 2.2 Deficiência visual e auditiva/surdez Vídeo Falando especificamente da deficiência visual, ela possui diferentes classificações, que serão determinadas e atestadas de acordo com o grau de visão que a pessoa possui, mesmo utilizando correções ópticas – isto é, óculos, lentes de contato ou outros meios indicados por pro- Práticas para alunoscom deficiência 41 Ne w Af ric a/ Sh ut te rs to ck fissionais da área. Nossa legislação traz definições importante sobre os diferentes graus de deficiência visual, principalmente no que se refere a cegueira, que ocorre quando a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; a baixa visão, que significa acui- dade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica; os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60º; ou a ocorrência simultânea de quaisquer das condições ante- riores. (BRASIL, 2004) No Decreto n. 5.296/2004, o termo deficiência visual é definido como “acuidade visual menor ou igual que 20/200 no melhor olho, após a melhor correção, ou campo visual inferior a 20%, ou ocorrência simul- tânea de ambas as situações” (BRASIL, 2004). O termo deficiência visual também pode ser atribuído a uma situação irreversível de diminuição da resposta visual, em virtude de causas con- gênitas ou hereditárias, mesmo após tratamento clínico e/ou cirúrgico e uso de óculos convencionais. A diminuição da resposta visual pode ser leve, moderada, severa ou profunda (que compõem o grupo de visão subnormal) e ausência total de resposta visual – cegueira (BRASIL, 1999). O grupo de pessoas com visão subnormal também são subdivididos em outras variações: alguns conseguem ler se o impresso for grande ou se estiver próximo a seus olhos (ou mesmo através de lentes de aumen- to), outros conseguem apenas detectar grandes formas, cores ou con- trastes. Segundo Vanderheiden e Vanderheiden (1991, p. 8), as pessoas que possuem visão subnormal podem apresentar alguns problemas, mesmo após a correção, como escurecimento da visão, visão embaçada, névoa (película) sobre os olhos, visão apenas de objetos extremamente próximos ou perda de visão à distância, visão distorcida, manchas na fren- te da visão, distorção de cores ou daltonismo, defeitos no campo visual, visão em túnel, falta de visão periférica, sensibilidade anormal à luz ou claridade e cegueira noturna. Assim, ao atender um estudante com algum tipo de deficiência visual, é importante conhecer essas classificações para entender o quanto o estudante está enxergando e providenciar as adaptações necessárias, como adaptações de materiais e encaminhamento para centros que possam ajudá-lo a aprender o Sistema Braille, caso seja necessário. O Sistema Braille foi criado pelo francês Louis Braille e consiste em seis pontos em alto-relevo que, combinados entre si, formam letras do al- fabeto, números, sinais de pontuação e alguns símbolos. Caso queira sa- ber um pouco mais sobre o Sistema Braille, o vídeo Aprenda como funciona o alfabeto braille – do Canal Inclunet – fala um pouco mais sobre a história de Louis Braille e sobre como essa linguagem funciona. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=eGuK2wsBL48. Acesso em: 7 dez. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=eGuK2wsBL48 https://www.youtube.com/watch?v=eGuK2wsBL48 https://www.youtube.com/watch?v=eGuK2wsBL48 42 Práticas pedagógicas inclusivas Em sala de aula, o estudante pode utilizar a reglete, que é um instrumen- to com o qual o estudante escreve em braile com o uso da punção. Con- tudo, nem sempre o Sistema Braille é o único recurso para os deficientes visuais lerem e escreverem. Atualmente há algumas possibilidades, como a utilização de computadores com leitores de tela ou ampliadores de tela e de materiais ampliados, no caso de visão subnormal, ou seja, as adaptações que serão realizadas para o melhor aproveitamento acadêmico do estudan- te dependerão de suas necessidades específicas (GONÇALVES, 2021). É fundamental que, ao receber um estudante com deficiência visual, os professores e a equipe pedagógica o auxiliem no deslocamento den- tro do espaço escolar. Geralmente orientamos que o estudante se sente na primeira carteira perto da porta para facilitar sua locomoção e ouvir – com menos influência de ruídos – as informações transmitidas verbal- mente pelos professores. Também é importante que ele reconheça to- dos os espaços da escola, principalmente os locais pelos quais ele mais se deslocará, como sua sala de aula, banheiro, cantina, laboratório, qua- dras de esportes, acesso ao portão, equipe pedagógica e gestão escolar. Além disso, se houver algum tipo de mudança como troca de sala ou alguma reforma na instituição, o estudante precisa ser imediatamente avisado para que se evite quedas, acidentes e constrangimentos. Acerca da deficiência auditiva e da surdez, antes de as caracterizarmos é importante ressaltar que uma audição considerada normal é a habilida- de de detecção de sons de até 25 decibéis (dB). Já uma deficiência auditiva leve é considerada entre o limiar de 25 a 40 dB. Para a moderada, o limiar fica entre 45 a 70 dB. No caso da deficiência auditiva severa, a faixa é de 75 a 90 dB. Mas, se a habilidade de detecção de sons for acima de 90 dB, a deficiência auditiva é considerada profunda (DEFICIÊNCIA..., 2022). Em nossa legislação, o Decreto n. 5.296/2004 destaca que a defi- ciência auditiva se caracteriza por “perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma, nas fre- quências de 500Hz, 1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz” (BRASIL, 2004). A deficiência auditiva também pode ser compreendida como a perda sensorial da audição. Nesse caso, a pessoa vai perdendo gradualmente a percepção dos sons até atingir o grau de surdez, ou seja, a ausência total de sons. Quando isso ocorre ainda durante a primeira infância, a aquisição da linguagem oral também é dificultada, podendo uma criança chegar aos 5 anos sem aprender a falar (RINALDI et al.,1997); em casos Práticas para alunos com deficiência 43 como esse, o estudante deve ser encaminhado ao atendimento especia- lizado na aprendizagem em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Nessas situações, nem sempre o professor regente dominará a Li- bras, o que pode ocasionar na presença de um segundo docente que faça a tradução para o estudante dentro da sala de aula. Há também casos em que o estudante frequenta escolas especializadas apenas para surdos ou que frequenta essa modalidade de atendimento no contraturno de suas atividades do ensino regular. Destacamos que a Libras é reconhecida como meio legal de co- municação e expressão em nosso país desde 2002, através da Lei n. 10.436/2002, sendo, portanto, uma importante ferramenta de inclu- são social para as pessoas surdas. Em alguns casos também é possível o bilinguismo. Nele assume-se a Libras como primeira língua e a língua oficial do país como segunda, no nosso caso, o português, havendo o uso dessas duas línguas simultanea- mente no processo educacional. Para Kubaski e Moraes (2009, p. 3413), o ideal, é que a criança adquira primeiro a língua de sinais e, de- pois a língua portuguesa para que facilite a sua compreensão, uma vez que o aprendiz da segunda língua utiliza a primeira como estratégia da aprendizagem. Além disso, também pode ser trabalhada a comunicação total que enfatiza a utilização de qualquer forma de comunicação por uma pes- soa surda, como gestos naturais, o português sinalizado, a leitura labial e o alfabeto datilológico, que contribuem para o desenvolvimento da comunicação (GONÇALVES, 2021). Contudo, essa não é a única metodologia de trabalho possível de ser realizada com esses estudantes. Dependendo do grau de surdez, também é possível trabalhar o oralismo, o que nos leva a compreender que para cada indivíduo uma metodologia de trabalho específica deverá ser construída a fim de desenvolver tanto a capacidade oral quanto a linguagem de sinais. Assim, é importante destacar que as dificuldades que as pessoas surdas vivenciam dizem respeito à incapacidade de ouvir e, portanto, de se comunicar com a so- ciedade que ouve, pois eles não compartilham o mesmo canal de comunicação. (MONTEIRO; SILVA; RATNER, 2016, p. 1) Entretanto,para que a inclusão da pessoa surda dentro do ambiente escolar realmente aconteça, é importante que todos os agentes envolvi- A Língua Brasileira de Sinais é legalmente reconhecida em nosso país como a segunda língua oficial do Brasil, sendo utilizada para se comunicar por meio de gestos, expressões faciais e corporais. O vídeo 35 sinais essenciais da Libras mais usados no dia a dia, do canal Aca- demia de Libras, mostra de modo simples e claro os sinais de Libras mais utilizados em interações do cotidiano. Disponível em: https:// www.youtube.com/ watch?v=u2HfaiHEO_g. Acesso em: 8 dez. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=u2HfaiHEO_g https://www.youtube.com/watch?v=u2HfaiHEO_g https://www.youtube.com/watch?v=u2HfaiHEO_g 44 Práticas pedagógicas inclusivas dos no processo escolar se coloquem à disposição para aprender mais a respeito e colaborar com o aprendizado dela. Alguns gestos simples, como sempre se posicionar na frente do estudante para se comunicar com ele, facilitam muito a leitura labial. Tocar no seu ombro quando so- licitar sua opinião também é um gesto gentil, bem diferente de ficar au- mentando o tom de voz na tentativa de chamar a sua atenção. Perguntar qual é o seu sinal e aprender sinais simples, como oi, obrigado, por favor, banheiro, lanche, recreio, entre outros, valoriza a integração do estudan- te e pode estimular outros alunos a também se interessarem mais por Libras e por se comunicarem com o estudante incluso. Em outras pala- vras, para que se possa realmente efetivar a inclusão da pessoa surda no ensino regular, é indispensável que esse aluno se sinta integrado em todos os ambientes e tenha a oportunidade de se comunicar com todos. Uma outra sugestão é a escola criar um programa que atenda às ne- cessidades do aluno surdo ou com deficiência auditiva inserindo em to- dos os ambientes, como porta da direção, banheiros, biblioteca, cantina e demais espaços, o sinal correspondente. Também é possível oferecer atividades em que pais, professores e colegas possam aprender Libras em cursos noturnos ou mesmo solicitando ao aluno que ensine para seus colegas de sala alguns sinais que podem facilitar a comunicação entre eles. O essencial nesse processo de inclusão é que a escola consiga todos os elementos essenciais para o desenvolvimento desse trabalho inclusivo, de modo a contribuir para que o indivíduo se torne integrado, autônomo e independente dentro e fora do ambiente escolar. Pensando na prática Quando tratamos de modo mais específico na prática em sala de aula, ao receber um aluno com deficiência visual ou auditiva/surdez, é sugerido ao professor algumas estratégias: • Antes de receber um aluno incluso, é imprescindível informar isso à turma, repassando orientações aos demais alunos sobre a importância de não brincar com os equipamentos desse estudan- te – caso ele faça uso de algum recurso – e de tratá-lo da forma mais clara e respeitosa possível, lembrando sempre de adaptar e oportunizar brincadeiras em que ele se sinta incluído. • Para receber um aluno cego, é importante que o professor prepa- re a sala para acolher esse aluno, distancie as carteiras o quanto Na obra indicada é apresen- tada uma revisão integrativa da literatura científica na- cional sobre a inclusão de surdos, devido ao fato de que muitas obras abordam esse assunto de forma reducionista, priorizando a discussão sobre a oferta de vagas e recursos físicos como elementos únicos para a inclusão e desconsi- derando abordagens que abarquem seus protagonis- tas, familiares, profissionais de saúde e de educação de maneira integrada. Disponível em:https:// www.scielo.br/j/pusf/a/ kcXkXchtQsncxsgcj TMCm7d/?format=pdf. Acesso em: 7 dez. 2022. Leitura https://www.scielo.br/j/pusf/a/kcXkXchtQsncxsgcjTMCm7d/?format=pdf https://www.scielo.br/j/pusf/a/kcXkXchtQsncxsgcjTMCm7d/?format=pdf https://www.scielo.br/j/pusf/a/kcXkXchtQsncxsgcjTMCm7d/?format=pdf https://www.scielo.br/j/pusf/a/kcXkXchtQsncxsgcjTMCm7d/?format=pdf Práticas para alunos com deficiência 45 for possível e realize um tour com ele pelo ambiente, identifican- do possíveis obstáculos, janelas, portas, entre outros. • No caso dos alunos cegos e dos surdos, é necessário posicioná- -los na primeira carteira perto da porta ou de maneira que este- jam o mais próximo possível do quadro. • No caso da deficiência auditiva ou surdez, é relevante que o pro- fessor investigue se a criança lê lábios para se posicionar de um modo que lhe permita atender a essa necessidade, orientando os demais alunos também a fazê-lo. • Com relação aos estudantes com implante coclear, é importante perguntar se o estudante sabe fazer a manutenção correta do aparelho, se há a necessidade de utilizá-lo em atividades de es- portes e com que frequência realiza avaliações médicas. • Nas brincadeiras e atividades de dinâmicas, é preciso pedir que todos os alunos falem individualmente e que possam se dirigir ao aluno incluso de forma clara para que ele saiba quem está sendo interrogado/escolhido. 2.3 Deficiência intelectual Vídeo No que diz respeito à área médica, a medicina tem atualmente concebido a deficiência intelectual como um transtorno mental ou do comportamen- to, tendo em vista as definições propostas pela Classificação Internacional de Doenças (CID 10) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtor- nos Mentais (DSM-V). Já no Brasil, de acordo com Dias e Oliveira (2013, p. 8), os métodos de inclusão social desse público no Brasil ainda não são satisfa- tórios devido à forma como o diagnóstico médico é utilizado. observa-se a prevalência do modelo médico a orientar o funcio- namento das diversas instâncias sociais. Em decorrência disso, os modos de inserção social da pessoa com deficiência nem sempre se mostram inclusivos, pois, o diagnóstico médico, que deveria se prestar a garantir adequado atendimento à saúde dos indivíduos, desloca-se para tomada de decisões em outros seto- res da vida social e educativa. Ainda para os autores, essa concepção acarreta consequências so- ciais, considerando que muitas vezes esses laudos são utilizados em 46 Práticas pedagógicas inclusivas outros meios, por exemplo, para a aquisição do Benefício de Prestação Continuada (BPC), ou para a utilização do sistema de cotas para acesso ao serviço público ou privado, além do campo da educação para a rea- lização de complementação escolar ou definição de avaliações psicope- dagógicas (DIAS; OLIVEIRA, 2013). Contudo, o termo deficiência intelectual é muito abrangente, isso porque existem várias diferenças e particularidades, especialmente na forma como essa pessoa se relaciona, tanto com os outros ao seu re- dor quanto com os objetos de aprendizagem, e na forma que ela inter- preta o mundo (DIAS; OLIVEIRA, 2013). De acordo com Carvalho (2007), pessoas com deficiência intelectual podem enfrentar diferentes infortúnios em suas relações, e não ape- nas nas escolares. Complementando essa ideia, Dias e Oliveira (2013, p. 3) afirmam que essa dificuldade nas relações é causada pela forma como a sociedade se relaciona com as pessoas com deficiências inte- lectuais, já que muitas vezes essas são representadas como “‘crianças grandes’, incapazes de incapazes de agir, deliberar, escolher ou liderar, como qualquer adulto sem o mesmo diagnóstico”. Ao encontro dessa forma de representação, os autores ainda afirmam que a preparação para a vida adulta requer mecanismos que possam au- xiliar a pessoa com deficiência a ter maiores oportunidades de emprego, desenvolvimento de carreira profissional e condições de vida independen- te. Também declaram que estudos desenvolvidos em diferentes localidades concluem que é imperioso que se tenha um olhar mais atento às pessoas com deficiência, sobretudo intelectual, com o objetivo de estabelecer políti- cas públicas que considerem seus processos singulares de desenvolvimen- to e ação em sociedade, incentivando e dando condições para que tenham o direitoa uma vida autônoma, participativa e livre de preconceitos. No que diz respeito ao campo educacional, os estudantes com deficiên- cia intelectual fazem parte do PAEE e, portanto, têm seus direitos resguarda- dos por lei para terem acesso a adaptações curriculares e atendimentos em salas de recursos. De acordo com o Decreto n. 5.296, de 2 de dezembro de 2004, a deficiência mental, atualmente denominada deficiência intelectual, refere-se ao “funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas” (BRASIL, 2004), como: comunicação, Práticas para alunos com deficiência 47 cuidado pessoal, habilidades sociais, utilização dos recursos da comunida- de, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e trabalho. Nesse sentido, podemos perceber que trabalhar a inclusão desses estudantes não é apenas um gesto de carinho ou uma gentileza, mas um direito dos alunos com algum tipo de deficiência intelectual que precisa ser respeitado na prática escolar. Entretanto, esse processo só terá resultados positivos se for realizado com base nas característi- cas individuais que cada deficiente intelectual possui, proporcionando a eles acesso aos recursos da sociedade, garantindo, assim, uma boa qualidade de vida (GONÇALVES, 2021). Para Carvalho (2007, p. 10) é nas relações que os sujeitos conhecem, apropriam-se do que os define socialmente, do que os diferencia. Nas relações convertem em próprias as ideias que circulam socialmente e, assim, vão se constituindo sujeitos: ‘apreendem’ a si mesmos e ao mundo em torno deles, desestabilizando, dessa forma, a tese de que não aprendem e, nesse processo, os modos de fun- cionamento psíquico, cognição, imaginação e emoção, articu- lam-se de forma inter constitutiva, resultando na emergência do sujeito, de sua subjetividade. Assim, é extremamente relevante que o professor, ao receber um estudante com tais características, além de ler suas avaliações clínicas e laudos, realize algumas avaliações pedagógicas para entender seu nível acadêmico e, desse modo, planeje as adaptações necessárias para que o estudante possa se desenvolver intelectualmente e se relacionar com seus colegas, sentindo-se pertencente a esse ambiente. Também é importante lembrar que as adaptações que posterior- mente serão realizadas devem ir ao encontro das necessidades do es- tudante, sem, contudo, infantilizar ou subutilizar sua inteligência que deve ser desenvolvida dentro do espaço escolar, evitando compara- ções entre esse estudante e seus colegas, mas analisando seus avan- ços, desenvolvendo suas capacidades e elevando seu potencial. Contudo, há casos em que esse estudante precisa de um apoio e aten- dimento escolar especializado realizado em escolas especiais. Os alunos que frequentam as escolas especiais requerem atenção individualizada nas atividades acadêmicas, na vida autônoma e social, além de apoio in- tenso e contínuo em todas essas atividades. Em muitos casos, é necessário 48 Práticas pedagógicas inclusivas uma grande flexibilização e adaptação curricular significativa, justificando- -se, por esse motivo, a não inclusão no ambiente regular comum. É importante ressaltar que, apesar das limitações e dificuldades do público dessas instituições, é preciso manter o foco pedagógico e a prioridade no processo de ensino-aprendizagem desses estudantes. Durante muitas décadas, essas instituições atenderam a uma deman- da social voltada muito mais para os cuidados ou para o exercício te- rapêutico, com demandas que envolviam trabalhos artesanais, como fabricação de almofadas, tapetes, entre outros produtos. Tais práticas não devem ser a prioridade do trabalho nas instituições de educação especial, tendo em vista que o objetivo desses espaços é ser um centro educacional adaptado às necessidades dos estudantes, e não apenas um centro de convivência (GONÇALVES, 2021). Portanto, é extremamente importante que os alunos interajam e te- nham momentos de descontração, com jogos, brincadeiras, música e liberdade para se expressar. Porém, o que não pode acontecer é a in- versão de conceitos e objetivos da instituição, que deve manter sempre seu cunho educacional. Dito de outro modo, precisamos superar a visão tecnicista, outrora utilizada, que ocupava esses espaços com atividades artesanais para que, por meio da venda do trabalho manual e repetiti- vo dos alunos, atingissem recursos para manter a instituição, para uma visão pedagógica em que os objetivos acadêmicos e funcionais sejam a prioridade nos planejamentos e ações desenvolvidas com esse público. Para Dias e Oliveira (2013, p. 24) Ainda convivemos com concepções de desenvolvimento arrai- gadas em modelos deterministas, com padrões normativos de aprendizagem e modelos preestabelecidos de relacionamen- tos entre as pessoas, que impingem à deficiência um caráter de déficit permanente. Porém, em uma perspectiva dialógica de cunho histórico-cultural, a natureza deficitária da deficiência in- telectual toma outros contornos, permitindo trajetórias de vida diferenciadas e autônomas às pessoas. A deficiência deixa de ser uma condição restritiva e passa a ser uma possibilidade de desenvolvimento que se constrói no entrelaçamento dialético entre as condições ambientais, histórico-culturais e as condi- ções subjetivas da pessoa que um dia recebeu o diagnóstico de deficiência intelectual. Práticas para alunos com deficiência 49 Em outras palavras, precisamos compreender os diagnósticos de nossos estudantes, saber a respeito de suas restrições e especificida- des, mas sem deixar que essa condição seja um fator limitante do seu desenvolvimento, como se um laudo determinasse tudo aquilo que ele pode ser ou aprender. É por meio do desenvolvimento de nossas aulas e das atividades que praticamos em sala que conseguiremos extrapo- lar essas barreiras e atingir novos objetivos, desse modo obstáculos serão superados e objetivos antes inexequíveis serão atingidos. Feuerstein, Klein e Tannenbaum (1994, p. 7), grandes pesquisadores dos processos de aprendizagem e da plasticidade cerebral, afirmam que o ato de mediação é: uma interação qualitativa entre o organismo e seu meio ambiente. Esta qualidade é assegurada pela interposição intencional de um ser humano que medeia os estímulos capazes de afetar o organismo. Este modo de interação é paralelo e qualitativamente diferente das modalidades de interação generalizadas e difusas entre o mundo e o organismo, conhecido como contato direto com o estímulo. Contudo, os autores enfatizam que não se trata de qualquer tipo de mediação, já que ela está para além da interação social. A media- ção, segundo a concepção de Feuerstein, Klein e Tannenbaum (1994), é a situação na qual o mediador interfere na ação com o propósito de direcionar a aprendizagem. Nessa perspectiva, a mediação promo- verá a aprendizagem; essa é característica essencial para assim poder nomeá-la. Assim, nem sempre a interação supõe situações de aprendi- zagem (COSTAS; CECI, 2013). Para que a aprendizagem realmente aconteça, Costas e Ceci (2013) enfatizam três condições: a mediação da intencionalidade e reciproci- dade, da transcendência e do significado, sendo este “tripé” necessário para qualificar uma experiência de aprendizagem mediada. A intencionalidade e reciprocidade tem como principal função oportunizar situações conscientemente selecionadas, fundamentadas em suas experiências, com a intenção de conduzir o mediado a experi- mentar aquilo que é essencial. É sempre importante garantir o acesso desse mediado, incentivando sua curiosidade e interesse, consideran- do que ele precisa sentir o desejo pela aprendizagem. Logo, um impor- tante papel do mediador é o de incentivar seus alunos, conquistando e despertando sua vontade de aprender (MEIER, 2004). 50 Práticas pedagógicas inclusivas Já a transcendência é a orientação consciente em que o mediadorirá auxiliar o aluno a desenvolver sua metacognição para que, a partir do trabalho, possa realizar a sua reflexão e interação com o objeto de aprendizagem, para que assim seja possível construir novos conceitos. Dito de outro modo, suas ações precisam retirar do mediado uma re- flexão da situação presente que possa servir de referência para conclu- sões e tomadas de decisões em situações futuras e diversas, mas não necessariamente parecidas com a atual (MEIER, 2004). Mediar, para Feuerstein, Klein e Tannenbaum (1994), é se opor a to- das as formas possíveis de educação “bancária”, que transmite informa- ções ao invés de auxiliar o aluno na construção do conhecimento, que manda memorizar ao invés de compreender, que diz “aceite” ao invés de dizer “debata”, que transfere ao invés de problematizar, que descontex- tualiza ao invés de falar da história e de suas relações com o sujeito que aprende. O significado é essencial para a modificabilidade. O mediador deve agregar valores ao que ensina que vão ao encontro das necessida- des e do contexto do mediado, aumentando sua motivação para apren- der. Com o tempo, o mediador conduz o próprio mediado a buscar ou agregar significado às suas experiências. A transmissão cultural de uma geração à outra só é possível pela significação de conteúdos, de fatos, da história do sujeito, da relação do aprendido com a realidade do sujeito. Assim, podemos perceber que com práticas significativas é possível atingir resultados muito positivos no que diz respeito ao desenvolvi- mento de estudantes com algum tipo de deficiência intelectual incluí- dos no sistema regular de ensino, ainda que, muitas vezes, a forma com que essas práticas são realizadas precise ser revisitada. 2.4 Surdocegueira Vídeo De acordo com a literatura, a surdocegueira consiste no compro- metimento, em diferentes graus, dos sentidos receptores de distân- cia (audição e visão). A combinação dos comprometimentos pode acarretar sérios problemas de comunicação, mobilidade, informa- ção e, consequentemente, a necessidade de estimulação e atendi- mentos educacionais específicos. O filme Forrest Gump traz a história de um adulto que, ao longo de suas andanças pela vida, fez amigos, apaixonou-se, foi soldado, compositor, atleta, empresário e pai. Ainda que apresentas- se algumas limitações intelectuais, sua mãe nunca permitiu que ele se sentisse incapaz, o que o levou a buscar atingir seus objetivos, lutar por aquilo que desejava e contar histórias. Direção: Robert Zemeckis. EUA: Paramount Pictures, 1994. Filme Práticas para alunos com deficiência 51 Para McInnes (1999) o termo surdocego não conceitua um surdo que não pode ver ou um cego que não pode ouvir, mas se constitui em uma condição única de privação multissensorial a quem foi negado o uso efetivo e simultâneo de dois sentidos distais. Desse modo, a priva- ção da audição e da visão acarreta a falta de orientação sensorial, fa- zendo com que o sentido do tato se sobressaia, tornando-se necessário o estímulo desse sentido, agora com uma nova função. Já para Maia (2000, p. 53), “a surdocegueira é uma deficiência única que apresenta a perda da audição e visão, de tal forma que a combinação das duas deficiências impossibilita o uso dos sentidos de distância”. Com base nesta definição, as pessoas com baixa visão associada à surdez profunda ou severa são consideradas surdocegas, pois apre- sentam dificuldades na aquisição de informações de curta e longa distância. Esta informação desencadeia a necessidade de repensar a definição e, consequentemente, a categorização das pessoas em dois níveis: o sensorial e o educacional. O primeiro descreve as característi- cas da deficiência, enquanto o segundo enfatizava o aspecto educacio- nal, definindo qual o atendimento mais adequado ao surdocego. No que diz respeito às questões educacionais, em nosso país a Secretaria de Educação Especial (SEESP) (BRASIL, 1995), ao definir ob- jetivos e orientar as atividades para o ensino especial, caracteriza a surdocegueira como uma subcategoria da deficiência múltipla deno- minada de DV/DA (deficiência visual e deficiência auditiva). Mais tarde, o termo surdocegueira passou a ser considerado e utilizado em 2001 nas Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Ainda acerca das questões educacionais, segundo a SEESP/MEC (BRASIL, 2001), a pessoa cega é a que necessita do Sistema Braille para leitura e escrita, enquanto a pessoa portadora de baixa visão conse- gue ler textos impressos à tinta desde que sejam utilizados recursos adequados, por exemplo, a ampliação do material. Com relação ao en- foque oftalmológico, Pavan-Langston (2001, p. 4) aborda que, nos Es- tados Unidos, a cegueira legal define-se pela “acuidade visual passível de correção por óculos ou lentes de contato para 20/200 (ou menos) em ambos os olhos ou campos visuais inferiores a 10 graus”. Conforme orientação da SEESP/MEC (BRASIL, 2001), o conceito de cegueira legal fiz ke s/ Sh ut te rs to ck fiz ke s/ Sh ut te rs to ck deve ser utilizado apenas para fins sociais e não educacionais, uma vez que ele não revela o potencial visual útil para execução de tarefas. Portanto, os professores devem ficar atentos aos comportamentos apresentados pelas crianças com surdocegueira, pois muitas vezes elas querem dizer alguma coisa, mas não sabem exatamente como se ex- pressar. O ato de compreender o que o aluno quer expressar, por par- te do docente, fará toda a diferença, pois assim é possível entender as necessidades desse estudante e adaptar as atividades para amenizar a distância entre ele e seus colegas, proporcionando uma melhor intera- ção com os demais, o que será essencial para o seu desenvolvimento. De acordo com Chen e Haney (1995), a combinação de um ou mais programas pode contribuir para atender às necessidades da criança surdocega, desde que o modelo de intervenção considere o desenvol- vimento como o resultado da interação recíproca entre a criança e o adulto em um contexto específico. Nesses casos, é extremamente importante que o estudante frequen- te atendimentos em centros especializados para que, em um trabalho multidisciplinar, professores do ensino regular, professores especializa- dos e demais profissionais que o acompanham possam pensar de que forma serão mais bem apresentados os conteúdos e quais os recursos e materiais serão necessários adaptar para o seu melhor desenvolvimento. Muitas experiências em sala de aula já foram realizadas ao longo dos séculos no intuito de realizar o desenvolvimento educacional de estu- dantes surdos e cegos. De acordo com Amaral (2002), a história da edu- cação dos surdoscegos sempre esteve próxima da educação de crianças surdas. Para ele, o método gestual, desenvolvido na França, e o oral, na Alemanha, sofreram algumas adaptações ao serem utilizados com pessoas surdoce- gas, atingindo importantes resultados em seu desenvolvimento. Ele acrescenta que nesses casos a percepção tátil alterou-se, sendo um espaço de sinalização segundo o campo visual da pessoa, possibilitando a recepção ou expressão da informação. 5252 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas Práticas para alunos com deficiência 53 Segundo Collins (1995), Victorine Morriseau foi a primeira mulher sur- docega a receber educação formal, em Paris, em 1789, sendo a França pio- neira na instituição da educação formal para essa população na Europa. Outro caso de sucesso foi o de Julia Brice. Americana, cega e surda aos quatro anos e meio, ela recebeu atendimento em uma instituição residencial para surdos, em Hartford, em 1825. De acordo com Amaral (2002), ela aprendeu a língua de sinais, mas não há registro da aprendi- zagem da leitura e escrita. O autor também apresenta a história de Laura Bridgman que em 1829 passou a ter sua escolarização realizada na Escola Perkins, nos Estados Unidos, pelo professor Dr. Samuel Gridley Howe, que influen- ciou e contribuiupara o desenvolvimento de programas educacionais em diferentes países, entre eles a Alemanha (AMARAL, 2002). O traba- lho com Laura consistiu na utilização da dactilologia (alfabeto manual dos surdos) para a transmissão dos conhecimentos de leitura e escrita. De acordo com Keller (1961), outros profissionais tentaram reaplicar o método utilizado na educação de Laura, mas não obtiveram o mesmo êxito. Ainda segundo a autora, “Laura era um modelo a ser copiado. Nenhuma outra pessoa surda e cega havia atingido as culminâncias em que ela se encontrava” (KELLER, 1961, p. 15). Em 1859, Bertha Galeron, cega aos seis anos e surda aos 30 anos, aprendeu o Sistema Braille com freiras em Paris. Em 1873, na Noruega, Ragnhild Kaat com quatro anos perdeu a visão, audição, olfato e pala- dar. Ela frequentou ensino formal tendo como professor o diretor da escola (AMARAL, 2002). Mas o caso mais conhecido nessa área é o de Hellen Keller e sua pro- fessora Anne Sullivan. Keller ficou doente em 1882, quando ainda tinha apenas um ano e meio de idade, perdendo sua audição e sua visão. A partir de 1887, a professora Anne Sullivan iniciou seus trabalhos com a menina e progrediu sua capacidade de se comunicar, soletrando em lín- gua de sinais, na palma de sua mão, os nomes dos objetos que apresen- tava para ela tocar. Keller estudou, passou na faculdade e formou-se em 1904. Em 1920, ela ajudou a fundar a American Civil Liberties Union (ACLU) e durante toda sua vida recebeu muitas honrarias em reconhecimento a suas realizações e publicações de obras (GONÇALVES, 2021). Este belíssimo filme, O Milagre de Anne Sullivan, é baseado na história real de Helen Keller. Ele apre- senta toda a trajetória da professora Anne Sullivan, que ajuda essa criança surdocega a aprender a ler e a se comunicar, tornando-se poste- riormente uma grande escritora e defensora dos direitos das pessoas com deficiência. Direção: Arthur Penn. EUA: Playfilme Production, 1962. Filme Ni na L is hc hu k/ Sh ut te rs to ck Ni na L is hc hu k/ Sh ut te rs to ck 2.5 Deficiências físicas/motoras Vídeo Em nossa legislação a deficiência física tem como principais com- prometimentos a amputação (total ou parcial), ou seja, a falta de um membro, sua má-formação ou deformação, ou ainda uma alteração que afeta o sistema esquelético e muscular. Essa modalidade de defi- ciência diz respeito ao comprometimento do aparelho locomotor, que compreende o Sistema Osteoarticular, o Sistema Muscular e o Sistema Nervoso, podendo produzir limitações físicas de diferentes graus de gravidade, de acordo com os segmentos corporais afetados e o tipo de lesão ocorrida (BRASIL, 2004). O artigo 5º apresenta a seguinte definição: deficiência física - alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimen- to da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetrapare- sia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, am- putação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções. (BRASIL, 2004) Nesse sentido, assim como nas demais condições que já apresen- tamos, a deficiência física pode ter diferentes causas e se manifes- tar de diferentes maneiras. No caso das deficiências físicas de origem cerebral, elas podem ser causadas por lesões ocorridas no cérebro que afetam diferentes segmentos do corpo, causan- do monoplegia, quando afetam um membro; diplegia, quando afetam dois membros; triplegia, quando afetam três membros; quadriplegia, quando afetam quatro membros será; e hemiplegia, quando todo um lado do corpo é afetado (DIEHL, 2008 apud COSMO, 2009). Também há casos em que a deficiência física pode ser decorrência de um acidente, de má for- mação congênita ou de outros fatores não relacio- nados a questões cerebrais e cognitivas. Contudo, engana-se quem pensa que nesses casos não é necessário realizar nenhum tipo de alteração. É preciso 5454 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas Práticas para alunos com deficiência 55 romper com as barreiras arquitetônicas e proporcionar aos estudantes com algum tipo de deficiência física ou motora o espaço adequado para sua locomoção e permanência no ambiente escolar. A Lei n. 10.098/2000 (BRASIL, 2000) esclarece que todas as escolas devem promover ambien- te acessível, adequando os espaços que atendam à diversidade humana e eliminando as barreiras arquitetônicas. Já o Decreto n. 5.296/2004 estabelece normas gerais e critérios bási- cos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida e dá outras providências. À época, o decreto determinava o prazo de 30 meses para que lugares públicos organizas- sem seus espaços de maneira a torná-los acessíveis, sendo um impor- tante marco na história das conquistas das pessoas com deficiência. Mas nem sempre as pessoas com algum tipo de deficiência física ou motora foram respeitadas. A história da inclusão dessas pessoas, assim como a de grande parte dos demais estudantes com algum tipo de necessidade especial, é permeada por intolerância, falta de conhe- cimento e práticas realizadas com base apenas em crenças informais. De acordo com Lopes, Mendes e Faria (2005), na Idade Média – devido, em partes, à grande influência da religião – muitos acreditavam que ter uma deficiência era uma punição dada àqueles que cometeram peca- dos em vidas passadas. Foi apenas no decorrer do século XX que o conhecimento sobre deficiências começou a avançar, pois, antes da década de 1960, o co- nhecimento sobre as deficiências era estático, não evoluía. O pensa- mento da época era de que ser diagnosticado como portador de uma deficiência era algo determinante na vida de uma pessoa, já que ela seria vista como um “fardo” para suas famílias, tendo pouco ou nenhu- ma perspectiva de vida. Contudo, após esse período, os estudos sobre essa área aumentaram, e concluiu-se que o desenvolvimento de uma pessoa com deficiência tem relação direta com o ambiente que ela fre- quenta, ou seja, é o ambiente que irá determinar se esses indivíduos serão mais ou menos dependentes (LOPES; MENDES; FARIA, 2005). Assim, além das características individuais dos deficientes, é preciso respeitar as especificidades de cada um. Goffman (1981) destaca que, quando a deficiência é compreendida como algo que pertence ao indi- víduo, ele passa a ser reconhecido com base em suas características, o que pode ser bastante negativo para a construção da sua identidade e 56 Práticas pedagógicas inclusivas para essa construção com base em condutas escolares padronizadas, por categoria de deficiência, que visam apenas ao repasse de uma ima- gem estereotipada (OMOTE, 1990). Nessa perspectiva, Almeida, Valentini e Berleze (2009 apud ANDRA- DE; ARAÚJO, 2018, p. 28) trazem uma outra visão: quando se assume esta posição, qualquer pessoa com defi- ciência física, por exemplo, passa a ser vista como possuindo as mesmas necessidades e possibilidades de outras pessoas en- quadradas nessa categoria, fato que justifica a padronização das estratégias, dos recursos e dos tratamentos a ela dispensados. É muito comum encontrarmos nas escolas, os recursos e as estra- tégias concebidos para um determinado aluno com deficiência física, sendo utilizado erroneamente com outro aluno também com deficiência física, mas que apresenta características, neces- sidades e capacidades completamente diferentes. Nesse sentido, não podemos considerar a ideia de que exista so- mente uma classificação, pois corre-se o risco de criar um estreitamento das possibilidades de desenvolvimento desse estudante ao estabele- cer uma condição premeditada e insuperável (ARAÚJO; OMOTE, 2005). Logo, devemos conceber a inclusão escolar para os alunos com defi- ciência físicacomo um campo vasto de possibilidades de diminuição dessas barreiras à medida que redirecionamos a atenção ao meio em que ele está inserido e a dialética existente entre fatores biológicos e meio sociocultural (ANDRADE; ARAÚJO, 2018). O foco no ambiente necessariamente implica considerações acerca da funcionalidade, levando em conta as limitações orgânicas ou psíqui- cas, mas, ao mesmo tempo, buscando compreender as demandas es- pecíficas do ambiente, as atividades a serem completadas e os desafios dos relacionamentos sociais em seu contexto (FARIAS; BUCHALLA, 2005). Logo, toda proposta de trabalho a ser realizada dentro do ambiente es- colar precisa estar atenta para a funcionalidade de tais medidas para o deficiente físico ou motor. Os professores, gestores e toda comunidade escolar precisam estar atentos no sentido de entender as dificuldades estruturais que o meio possa apresentar, tornando-se facilitadores e me- diadores no processo de superar obstáculos a serem transpostos pelos indivíduos que apresentam algum tipo de deficiência física ou motora. Mas, antes de iniciar qualquer medida de intervenção, é preciso conhe- cer e conversar com o estudante incluso sobre suas necessidades e desejos. Práticas para alunos com deficiência 57 Laudos muito antigos, como já dissemos anteriormente, podem apresentar informações descontextualizadas, por isso é fundamental conversar com esse estudante, saber quais são suas condições atuais, bem como com- preender suas necessidades e limites físicos, para então planejar alterações no ambiente escolar, sejam elas de ordem arquitetônica ou pedagógica. Assim, ao iniciar qualquer processo de alteração ou implementação de al- guma tecnologia assistiva, é necessário conhecer o estudante, sua história, suas necessidades e seus desejos, além de identificar quais são as neces- sidades reais considerando todo o seu contexto social e as possíveis bar- reiras que limitem a sua independência (SORO-CAMATS, 2003; PARETTE; BROTHERSON; HUER, 2000 apud ARAÚJO; ANDRADE, 2018). Em uma pesquisa realizada por Araújo e Andrade (2018, p. 3) acerca de como os professores compreendem seus estudantes com deficiên- cia física incluídos no ambiente regular de ensino, os pesquisadores constataram que os professores participantes apresentaram uma tendência de percepção dos alunos com deficiência física amparada no modelo biopsicossocial da deficiência, uma vez que descrevem a funcionalidade levando em consideração especial- mente a participação desses alunos e a realização das atividades no ambiente escolar. Para os pesquisadores, embora os fatores ambientais não tenham sido negligenciados, os dados nos mos- tram que é preciso considerar que a mudança no ambiente pode favorecer a atividade e a participação, e, nesse sentido, o estudo apontou para a importância de investir em esforços para a pres- crição de um melhor entendimento sobre a condição individual de cada estudante para que depois estratégias possam ser pla- nejadas, favorecendo o desempenho do aluno com deficiência física dentro do ambiente regular de ensino. Nesse sentido, é necessário que todo o corpo escolar esteja atento a essas necessidades particulares do estudante com deficiência física, pro- curando promover um espaço seguro e confortável diante da atuação pedagógica. Todos devem buscar conhecimentos específicos e observar os cuidados que precisam ter com esse público. Em outras palavras, to- dos são responsáveis pelos estudantes incluídos no ambiente escolar, e, se essa atuação se realizar de modo adequado, ela contribuirá positiva- mente para o desenvolvimento acadêmico e social do estudante. Para Machado (2020) a escola precisa dispor aos estudantes um ambiente agradável, seguro, confortável e estimulante para que eles tenham condições de aprender e se desenvolver, considerando que 58 Práticas pedagógicas inclusivas ainda existem muitas barreiras para superarmos no intuito de promo- ver um ensino de qualidade para todos. Na prática, além das adaptações pedagógicas, a instituição também deverá ser adaptada em sua estrutura física, construindo rampas de aces- so a todos os ambientes; nos banheiros, portas que permitam a entrada de cadeiras de roda; corrimões, pisos e tapetes antiderrapantes; mobílias e cantos arredondados; além de todas as mudanças no geral para melhor atender às necessidades dos estudantes com deficiência física. É necessá- rio ressaltar que o recurso material sozinho não assegura a participação e inclusão dos alunos, é preciso ter uma interação social para tornar-se uma inclusão com significado real (MACHADO, 2020). Dito de outra forma, é urgente que as medidas realizadas dentro do am- biente escolar para produzir práticas inclusivas estejam pautadas no concei- to de equidade 1 , proporcionando alternativas justas no sistema escolar, no sentido de compensar as limitações dos estudantes com algum tipo de NEE e oferecendo a oportunidade de se capitalizarem para enfrentar uma sala de aula inclusiva e humanizada com direitos para todos; aprendendo com todas as adaptações que se façam necessárias para garantir seu sucesso escolar no ensino comum; e ultrapassando qualquer tipo de barreiras que lhe possa ser imposta pela deficiência. O artigo Características de Alunos com Deficiência Física na Percepção de Seus Professores: um Estudo sob os Parâmetros Conceituais da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, escrito por Mirela M. A. Andrade e Rita C. T. Araújo – publicado na Revista Brasileira Educação Especial – traz uma pesquisa realizada em seis escolas públicas de São Paulo, o estudo teve por objetivos: identificar como os professores caracte- rizam a deficiência física de seus alunos e discutir possíveis implicações das tendências perceptivas envolvidas nessa caracterização. Participaram dessa pesquisa nove alunos com deficiência física com idades entre seis e doze anos e seus professores, que apresentaram dificuldades em compreender as reais necessidades de seus estudantes. Acesso em: 7 dez. 2022. https://www.scielo.br/j/rbee/a/94xxGnpmMwvyMxR8bPHQdGf/?format=pdf&lang=pt Artigo Aquilo que apresenta a ideia de imparcialidade e respeito à igualdade de direitos, oferecendo a cada um o necessário para que todos tenham, realmen- te, acesso às mesmas oportunidades. 1 https://www.scielo.br/j/rbee/a/94xxGnpmMwvyMxR8bPHQdGf/?format=pdf&lang=pt Práticas para alunos com deficiência 59 CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo compreendemos um pouco mais sobre as diferentes características das pessoas com algum tipo de deficiência física/motora, intelectual, surdez e cegueira, incluídas dentro do ambiente escolar. Assim, podemos perceber que, além de conhecer sobre os diagnós- ticos e patologias, nós professores devemos buscar compreender as ne- cessidades reais desses estudantes, pois não é apenas o que está escrito em seus laudos ou avaliações que os define. Para tal, devemos conversar com esses estudantes e ouvir suas neces- sidades de adaptação para que possamos em sala de aula realizar as alte- rações necessárias ou em nossa metodologia, conteúdos ou avaliações e informar autoridades, sejam elas a direção da escola, sejam órgãos governa- mentais, acerca da necessidade de alterações no ambiente físico da escola. Em outras palavras, devemos trabalhar no sentido da equidade, bus- cando proporcionar a cada um dos nossos estudantes os meios necessá- rios para atingir seus objetivos acadêmicos e sociais independentemente de sua condição física ou intelectual. ATIVIDADES Atividade 1 Acerca da teoria de Feuerstein Klein e Tannenbaum, o que é o conceito de mediação? Atividade 2 Descreva com suas palavras a história da grande pesquisadora surdocega Hellen Keller e de sua professora Anne Sullivan. Atividade 3 Tomando por base as discussões do capítulo sobre deficiências físicas, por que é tão importante não reduzir o estudante a suas características? 60 Práticas pedagógicas inclusivas REFERÊNCIASAMARAL, I. A educação de estudantes portadores de surdocegueira. In: MASINI, E. F. S. (org.). Do sentido... pelos sentidos...para o sentido. São Paulo: Vetor, 2002. ANDRADE, M. M. A.; ARAÚJO, R. C. T. Características de Alunos com Deficiência Física na Percepção de Seus Professores: um Estudo sob os Parâmetros Conceituais da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde. Revista Brasileira Educação Especial, v. 24, n. 1, p. 3-16, mar. 2018. ARAÚJO, R. C. T.; OMOTE, S. Atribuição de gravidade à deficiência física em função da extensão do acometimento e do contexto escolar. Revista Brasileira Educação Especial, v. 11, n. 2, p. 241-254, ago. 2005. BRASIL. Decreto n. 3.298, de 20 de dezembro de 1999. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 20 dez. 1999. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ decreto/d3298.htm. Acesso em: 9 dez. 2022. BRASIL. Decreto n. 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 2 dez. 2004. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm. Acesso em: 9 dez. 2022. BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 24 abr. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/ L10436.htm. Acesso em: 9 dez. 2022. BRASIL. Ministério da Educação Secretaria de Educação Especial. Programa de capacitação de recursos humanos do ensino fundamental deficiência visual. Brasília: MEC/SEESP, 2001. v. 1. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/def_visual_1.pdf. Acesso em: 9 dez. 2022. BRASIL. Secretaria de Educação Especial. Subsídios para organização e funcionamento de serviços de educação especial: área deficiência múltipla. Brasília: MEC/SEESP. 1995. CARARA, M. L. Dificuldade de Aprendizagem e Vulnerabilidade Social sob a Percepção da Comunidade Escolar. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso (Pós-graduação em Educação e Diretos Humanos: Escola, Violência e Garantia de Direitos) – Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão. CARVALHO, M. F. Reflexões sobre a inclusão de jovens e adultos com deficiência mental na EJA. In: 16º CONGRESSO DE LEITURA DO BRASIL. Anais [...] Campinas: UNICAMP, jul. 2007 CHEN, D.; HANEY, M. An early intervention model for infants who are deaf-blind. Journal of visual Impairment & Blindness. v. 89, n. 3, p. 213-221. 1995. COLLINS, M. T. History of Deaf-Blind Education. Journal of Visual Impairment & Blindness, v. 89, n. 3, p. 210-212, jun. 1995. COMENIUS – Education and Culture Lifelong Learning Programme, Estratégias e práticas em sala de aula inclusiva. Europa: IRIS/COMENIUS, 2012. COSMO, R. R. Incluir: é hora de aprender. Cascavel: Secretaria de Estado e Educação, 2009. COSTAS, A.; CECI, F. A. T. Mediação e conceitos cotidianos: os aportes de Feuerstein e Vygotsky para investigar as dificuldades de aprendizagem. Psicologia em revista, v. 19, n. 2, ago. 2013. DEFICIÊNCIA auditiva. Fiocruz, 2022. Disponível em: http://www.fiocruz.br/biosseguranca/ Bis/infantil/deficiencia-auditiva.htm. Acesso em: 9 dez. 2022. DIAS, S. S.; OLIVEIRA, M. C. S. L. Deficiência intelectual na perspectiva histórico-cultural: contribuições ao estudo do desenvolvimento adulto. Revista brasileira de educação especial, v. 19, n. 2, jun. 2013. FARIAS, N.; BUCHALLA, C. M. A classificação internacional de funcionalidade, incapacidade e saúde da organização mundial da saúde: conceitos, usos e perspectivas. Revista Brasileira Epidemiologia, v. 8, n. 2, p. 187-193, jun. 2005. FERREIRO, C. Transtorno de aprendizagem: da teoria à prática. 1. ed. Belo Horizonte: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3298.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3298.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10436.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2002/L10436.htm http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/def_visual_1.pdf http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/deficiencia-auditiva.htm http://www.fiocruz.br/biosseguranca/Bis/infantil/deficiencia-auditiva.htm Práticas para alunos com deficiência 61 Uni Duni, 2015. FEUERSTEIN, R.; KLEIN, P. S.; TANNENBAUM, A. J. Mediated learning experience (MLE): theoretical, psychosocial and learning implications. London: Freund, 1994. GLAT, R.; NOGUEIRA, M. L. L. Políticas Educacionais e a Formação de Professores para a Educação Inclusiva no Brasil. Caderno do Programa de pós-graduação em educação da Universidade Metodista de Piracicaba, v. 10, n. 1, jun. 2003. GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1981. GONÇALVES, P. Atendimento educacional especializado. Curitiba: InterSaberes, 2021. KELLER, H. Lutando contra as trevas. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura S. A.,1961. KUBASKI, C.; MORAES, V. P. O bilinguismo como proposta educacional para crianças surdas. In: 9º CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (EDUCERE) e 3º CONGRESSO BRASILEIRO DE PSICOPEDAGOGIA. Anais [...]. Curitiba: PUCPR, out. 2009. LOPES, K. R.; MENDES R. P.; FARIA, V. L. B. (org.). Programa de formação inicial para professores em exercício na educação infantil. Brasília: MEC, 2005. (Coleção Proinfantil v. 2). MACHADO, C. S. Inclusão escolar do aluno com deficiência física. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. v. 19, n. 12, pg. 84-97, dez. 2020. MAIA, S. R. A Educação do surdocego. In: 5º SEMINÁRIO NACIONAL DO INES. Anais [...], p. 53-56. Rio de Janeiro, set. 2000 MEIER, M. O professor mediador na ótica dos alunos do ensino médio. 2004. Dissertação (Mestrado em Educação) – Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná, Curitiba. MCINNES, J. M. (org.). A guide to planning and support for individuals who are deafblind. Canada: University of Toronto Press Incorporated. 1999. MONTEIRO, R.; SILVA, D. N. H.; RATNER, C. Surdez e Diagnóstico: narrativas de surdos adultos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, v. 32, p. 1-7, 2016. NASCIMENTO, F. A. A. C. Implantação e avaliação empírica de programas com duas crianças surdocegas, suas famílias e a professora. São Carlos: UFSCar, 2004. OLIVEIRA, V. L. C; GONZAGA, M. Z.; LIMA, E. C. Z. Educação inclusiva: um ato de amor e afetividade. In: 2º CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (CONEDU). Anais [...]. Campina Grande, out. 2015. OMOTE, S. Aparência e competência em educação especial. Temas em Educação Especial, v. 1, p. 11-26, 1990. PAPIM. A. A. P. et al. Inclusão Escolar: perspectivas e práticas pedagógicas. São Paulo: Martins Fontes, 2018. PAVAN-LANGSTON, D. Manual de Oftalmologia, Diagnóstico e Tratamento. 4. ed. Rio de Janeiro: MEDSI Editora Médica e Científica LTDA; 2001. RINALDI, G. et. al. (org.) Deficiência auditiva. Brasília: SEESP, 1997. SILVA, D. C.; MIGUEL, J. R. Práticas Pedagógicas Inclusivas no Âmbito Escolar. Revista Multidisciplinar e de Psicologia. V. 14, n. 51, p. 558-894, jul. 2020. SERRA, D. Inclusão e ambiente escolar. In: SANTOS, M. P.; MOREIRA, M. Inclusão em educação: culturas, políticas e práticas. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2014. SÁNCHEZ. I. TEODORO, A. Da integração à inclusão escolar: cruzando perspectivas e conceitos. Revista Lusófona de Educação, v. 8, n. 8, 2006. VANDERHEIDEN, G. C.; VANDERHEIDEN, K. R. Accessible design of consumer products: Guidlines for the design of consumer products to increase their acessibility to the people with disabilities or who are aging. College Park, Maryland, 1991. VILARONGA, C. A. R.; MENDES, E. G. Ensino colaborativo para apoio à inclusão escolar: práticas colaborativas entre os professores. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 95, n. 239, p.139-161, 2014. 62 Práticas pedagógicas inclusivas 3 Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades Os transtornos do neurodesenvolvimento apresentam característicasespecíficas, por isso nosso objetivo neste capítulo é conduzir os estudos de maneira que você possa adquirir conhecimentos científicos e atualizados so- bre esses transtornos, com ênfase no Transtorno do Espectro Autista (TEA) e na síndrome de Rett, compreendendo aspectos históricos, principais carac- terísticas, diagnósticos e atendimentos que possam contribuir positivamente para o desenvolvimento desses estudantes. Ademais, neste capítulo também é discutida a superdotação ou altas habilidades, que pode estar associada ao TEA e outros transtornos do neurodesenvolvimento ou não. Nesse sentido, abordaremos aspectos relacionados ao atendimento desses estudantes na sala de aula do ensino regular, sugerindo algumas possibilidades de atuação dentro do ambiente escolar e em sua família, com o objetivo de compreender as especificidades desses alunos, promo- vendo medidas de adaptação em sua avaliação e metodologia de ensino, como formas de fomentar o desenvolvimento do seu potencial. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • entender a importância da realização de práticas pedagógicas in- clusivas e adequações curriculares e metodológicas para os es- tudantes com Transtorno do Espectro Autista, síndrome de Rett e com altas habilidades ou superdotação. • compreender a psicose infantil e o transtorno do espectro autista. Objetivos de aprendizagem Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 63 3.1 Transtorno do Espectro Autista Vídeo O Transtorno do Espectro Autista (TEA) se refere a uma condição do desenvolvimento neurológico em que há déficits na comunicação, na interação social e no comportamento, que se manifestam por meio de padrões restritos e repetitivos (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2021). A nova classificação do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Trans- tornos Mentais (APA, 2013) traz mudanças significativas nos critérios para realizar o diagnóstico do autismo, ampliando a identificação de sin- tomas e com ênfase na observação do desenvolvimento da comunica- ção e interação social da criança, desde os primeiros meses de vida. De modo geral, essa nova descrição facilitou a compreensão dos sin- tomas – seja em ambientes clínicos por profissionais, seja por professo- res ou por familiares. Dessa forma, é importante ressaltar que, quanto mais cedo o diagnóstico for realizado, melhores e mais rápidos serão os resultados das intervenções realizadas. Dentre as características das pessoas com autismo, segundo a APA (2013, p. 31), as principais são déficits persistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, incluindo déficits na reciprocidade social, em comportamentos não verbais de comunicação usados para interação social e em habilidades para desenvolver, manter e compreender relacionamentos. Além dos déficits na comunicação social, o diagnóstico do transtorno do espectro autista requer a presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Atualmente a literatura apresenta esses sintomas em diferentes ní- veis de comprometimento e de acordo com a necessidade de apoio e suporte que o indivíduo com TEA precisará. Contudo, é importante lem- brar que o autismo não é algo adquirido, os sintomas estão presentes desde a primeira infância, podendo se manifestar com o tempo confor- me as demandas sociais excedam as capacidades limitadas em maior ou menor intensidade, causando prejuízos significativos no funcionamento social, profissional e em outras áreas da vida da pessoa com autismo. É justamente por esse motivo que se utiliza o termo espectro. Ao longo da sua vida, de suas experiências e de acordo com os aten- dimentos e estímulos que receber, cada pessoa que apresenta essa condição do neurodesenvolvimento manifestará um quadro diagnós- 64 Práticas pedagógicas inclusivas tico com múltiplas possibilidades, podendo variar de acordo com a manifestação dos sintomas, o que interferirá no grau de funcionalida- de e independência do indivíduo, de modo que diferentes pessoas no espectro apresentarão uma variabilidade de características que são particulares (BRAGA, 2018). Assim, utilizando como base essas características, surgiu uma sub- divisão por níveis do espectro (Figura 1). Tais divisões têm como ob- jetivo compreender de maneira mais clara as especificidades de cada pessoa diagnosticada com autismo, com a finalidade de oferecer um melhor atendimento às suas necessidades no que tange à comunica- ção, à interação social, às estereotipias e aos interesses fixos e restritos de comportamento (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2021). Figura 1 Níveis do espectro autista Nível 1 Menor necessidade de apoio no dia a dia. Consegue se comunicar com as outras pessoas com clareza. Pode ter dificuldades em situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos, demandando pouco suporte nas atividades da rotina. Nível 2 Precisa de um pouco mais de apoio em sua rotina. Necessita de intervenção para iniciar e conduzir uma conversa. Pode ter dificuldades em situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos, demandando suporte em parte das atividades da rotina. Nível 3 Precisa de um apoio ainda maior nas atividades da vida diária. Precisa de muito estímulo para se comunicar, necessitando de intervenção constante. Apresenta dificuldades em situações sociais, comportamentos restritivos e repetitivos constantes, demandando suporte nas atividades da rotina. Am m us /S hu tte rs to ck Fonte: Elaborada pela autora. De modo geral, os indivíduos do nível 1 de suporte se comunicam verbalmente, mas têm a necessidade de auxílio de outra pessoa para começar uma interação social. Comportamentos relacionados à fixa- ção da rotina e rituais são bastante comuns; tais indivíduos procuram evitar mudanças ou dar abertura para novas situações. Em alguns ca- sos, podem expressar dificuldade na organização e no planejamento (ASSUMPÇÃO; KUCZYNSKI, 2018). As pessoas do nível 2 de suporte do espectro apresentam dificuldades para se comunicar de maneira verbal e não verbal, assim como para intera- gir socialmente, mesmo na presença de suporte. Podem apresentar pouco contato social ou comportamentos sociais atípicos. A presença de estereoti- Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 65 pias e interesses restritos é frequente, impactando diferentes contextos nos quais convivem, até mesmo o ambiente escolar. Em situações em que são impedidos de realizar a sua rotina, revelam sofrimento e precisam de gran- de suporte para se relacionar com outras pessoas (SELLA; RIBEIRO, 2018). Já as pessoas do nível 3 de suporte apresentam déficits significati- vos na comunicação verbal e não verbal, podendo manifestar alguns sons ou fala ininteligível, impactando no seu desenvolvimento como um todo. Em muitos casos, demonstram intensa frustração e sofri- mento quando não conseguem concluir algo que desejam ou mesmo realizar seu ritual, rotina ou estereotipia. Nesses casos, essas pessoas dependem de suporte muito substancial de outros profissionais e fa- miliares, tanto para se comunicar e interagir socialmente quanto para enfrentar mudanças na rotina ou no contexto (APA, 2013). Contudo, é importante destacar que o nível de autismo de um indi- víduo não define ou limita quem ele é, e sim expõe o tipo de suporte que poderá precisar para se desenvolver ao longo da vida. 3.1.1 Início das pesquisas sobre o TEA As primeiras pesquisas realizadas sobre autismo foram realizadas pelo pesquisador austríaco Leo Kanner em 1943. O pesquisador apresenta seu fascínio em relação às crianças denominadas por ele de autistas, quando relata: “Desde 1938, nos chamou a atenção um número de crianças cujas condições diferem, marcada e singularmente, de qualquer descrição já considerada até o momento, cada caso merece – e, eu espero, que venha a receber – uma consideração detalhada das peculiaridades fascinantes delas” (KANNER, 1943 apud TARUFI;MARTINS, 2016, p. 275). À época, Kanner publicou alguns relatos de pais de crianças con- sideradas por ele como autistas, apresentando um padrão de com- portamento observado nas onze crianças que faziam parte do grupo controle de sua pesquisa. Feliz quando deixado sozinho […] parece se auto satisfazer […] ele está sempre feliz e ocupado em entreter-se […] ele parece estar sempre pensando e pensando, ter a sua atenção quase que requer uma quebra da barreira mental entre a sua consciência interna e o mundo externo […] os objetos o absorveram rapidamente e ele demonstrou boa atenção e perseverança em jogar com eles […] ele parece ser autossuficiente em seu brincar […] ele está sempre vivi- damente ocupado com algo ou parece muito satisfeito, ao menos quando alguém chama a atenção de forma persistente para interfe- rir nas suas auto escolhas […]. Ele corre em círculos emitindo frases como se estivesse em êxtase […]. Ela parece estar em um mundo criado por ela mesma, obviamente sendo o centro de interesse em presidir à situação. Ela é sobretudo autossuficiente e independente; encontra prazer em lidar com as coisas, com as quais ela demonstra imaginação e iniciativa […] ele prefere brincar sozinho e não quer que ninguém o pegue ou interfira […] ele anda como se estivesse em uma concha, vive em um mundo próprio onde não pode ser encontrado. (KANNER, 1943 apud TARUFI; MARTINS, 2016, p. 277) Por meio de seus registros, podemos perceber que Kanner apresen- ta uma perspectiva reducionista da afetividade, caracterizando-a posi- tivamente como a capacidade de a criança se autossatisfazer e de se autoabsorver pelo prazer, obtido na ação. Dito de outro modo, esse re- ducionismo comportamental observado com relação à inabilidade de estabelecer relação afetiva é a característica descrita por Kanner como sendo a mais relevante para a investigação do autismo. Nessa perspectiva – que valorizava mais as questões afetivas como sintomas e até mesmo como causas do autismo, acreditava-se que a origem desse transtorno poderia estar relacionada às chamadas mães geladeira, acusando-as que demonstravam pouco ou nenhum afeto em relação aos filhos, como causadoras do transtorno por serem pouco afetivas ou negligentes. Contudo, atualmente, pesquisas neurocientí- ficas comprovam que ausência de afeto parental não são a causa do autismo (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2021). De volta à concepção de Kanner, para Tarufi e Martins (2016, p. 279), essa é uma definição construída a partir de signos de déficit neurológi- co. Contudo, seguindo a mesma metodologia do autor no tocante às características comuns a todas elas, é notória a presença do fenômeno da auto satisfação, auto absorção, auto interesse e o estado de prazer em estar em contato consigo mesmo em todas as crianças observadas. Se por um lado se mostram alheias ao mundo externo, por outro, demonstram capacidade psíquica de se auto excitarem, e esse fenômeno foi completamente despre- zado por Kanner e, hoje, também desprezado no campo científico clássico. Ou seja, na verdade, todas as crianças de Kanner demons- tram capacidade de se auto excitarem, auto saciarem, viverem em si mesmas! Características que revelam uma fenomenalidade de ser, uma capacidade de se auto satisfazer, de se auto absorver em sensações criadas em seu próprio corpo e, acima de tudo, a capacidade de se fecharem à estimulação externa. 6666 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas As principais características descritas por Kanner foram a falta de interação com outras pessoas, a ausência ou dificuldades no desen- volvimento da linguagem, as atividades e os comportamentos/movi- mentos repetitivos, o interesse obsessivo por padrões e a insistência na preservação dos mesmos comportamentos e espaços. Contudo, depois de Kanner muitas outras pesquisas foram realiza- das, e ocorreram várias transformações. Dentro dessa perspectiva atual que compreende um espectro em diferentes níveis, a síndrome de Kanner já foi considerada como a for- ma mais severa do Transtorno do Espectro Autista, também conhecida como autismo clássico. Ela foi definida como a forma grave do autismo, em contraposição à síndrome de Asperger, que já foi compreendida como a forma mais branda do transtorno. A partir de 2013, com a quinta edição do Manual Diagnóstico e Es- tatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), o Transtorno do Espectro Au- tista passa a ser compreendido em diferentes espectros, não sendo mais dividido em leve, moderado e severo – ou em Asperger, Kanner e outras definições nominais. Como vimos, o autismo agora é subdividi- do em níveis de acordo com a necessidade de suporte dos indivíduos, sendo que é justamente a identificação desses níveis que possibilita compreender com acurácia o grau de suporte que cada indivíduo no espectro precisará receber do cuidador e da sociedade em geral, pos- sibilitando assim, melhor atendimento das suas necessidades no que tange à comunicação, interação social, estereotipias e interesses fixos e restritos de comportamento (GONÇALVES; SIQUEIRA, 2021). Estudantes com TEA, desde 1996 1 , são considerados Público-alvo da Educação Especial (PAEE), logo é preciso que sejam reali- zadas adaptações físicas/estruturais e metodológicas para receber e desenvolver os estudantes com esse espectro, sempre contribuindo para que eles se sintam incluídos. Nesse sentido, também é muito importante tratarmos do papel que o profes- sor deve exercer: o de mediador do processo inclusivo. É ele quem promove o contato inicial da criança com a sala de aula e é o responsável por incluí-la nas atividades com toda a turma, realizando as adap- Em 1994 a Síndrome de Asperger e o autismo eram compreendidos pela quarta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM IV) como condições diferentes, no entanto, ambas faziam parte dos transtornos globais de desenvol- vimento. Na época, a Síndrome de Asperger se referia a indivíduos com desenvolvimento da linguagem dentro do esperado para sua idade, enquanto as crianças com autismo desen- volviam tardiamente a comunicação verbal. Saiba mais Desde a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB), Lei n. 9.394/96. 1 Ne w Af ric a/ Sh ut te rs to ck Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidadesPráticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 6767 68 Práticas pedagógicas inclusivas tações e alterações que se façam necessárias. Nas palavras de Siqueira (2020), a adaptação é importante porque as etapas do processo de ensi- no-aprendizagem apresentam dificuldades aos estudantes com TEA. Observa-se no contexto da educação básica diferentes ele- mentos da aprendizagem, e o desenvolvimento de níveis de compreensão, que vão desde o processo de alfabetização, pos- teriormente a assimilação de conceitos matemáticos básicos, e, mais tarde, o entendimento de figuras de linguagem e conceitos abstratos. Para o educando com TEA, cada etapa do processo de ensino-aprendizagem pode evidenciar dificuldades e lacunas na aprendizagem, podendo variar de acordo com inúmeros fatores, como o nível de estimulação que o aluno recebe, a formação do professor, os recursos disponíveis, as características do aluno, o engajamento da turma, entre outros. (SIQUEIRA, 2020, p. 53) Na prática, para que a inclusão do estudante com espectro autista aconteça, é importante que a escola perceba que está recebendo uma criança com dificuldades em se relacionar, seguir regras sociais e se adap- tar ao novo ambiente, não confundindo esse tipo de comportamento com falta de educação e limite. Essa atenção da escola é necessária, pois, por uma simples falta de conhecimento ou de especialização, muitos profissio- nais da área da educação não conseguem reconhecer e identificar as ca- racterísticas de uma pessoa que tenha o espectro autista (SANTOS, 2008). Pensando na prática Sabemos que é sempre muito importante queo professor realize formações continuadas para aprender a desenvolver estratégias de in- clusão de estudantes PAEE, seja para práticas dentro ou fora da sala de aula. Sobre isso, Gonçalves e Siqueira (2021) sugerem algumas es- tratégias de inclusão para os alunos com espectro autista e a forma de incluí-los em sala de aula: • Conversar com a família para obter informações por meio de uma interação bem amistosa realizada após a leitura do laudo/ avaliação feita por um médico. O intuito dessa conversa é ob- ter mais informações a respeito do aluno que possam ajudar o professor no desenvolvimento de estratégias para a melhor aplicação do conteúdo das aulas. O filme Temple Grandin apresenta a história real de Temple Grandin, uma mulher com autismo que é referência no mundo no trato humanizado de bovi- nos. Esse filme é baseado no livro escrito por ela, em que compartilha suas dificuldades e sucessos, desde sua infância até o sucesso acadêmico. Tem- ple vivenciou sua infância e adolescência em uma época de pouco conheci- mento sobre o autismo e, por isso, era incompreen- dida. Mas, atualmente, além de lutar pela causa, ela exerce sua profissão e ministra palestras sobre autismo e ciência animal por todo o mundo. Direção: Mick Jackson. EUA: HBO Films, 2010. Filme Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 69 • Identificar preferências do aluno por meio de conversas com o estudante – seja interagindo somente com o aluno ou com o auxí- lio de um profissional de apoio, para os estudantes que apresen- tam mais dificuldade – com o objetivo de compreender melhor suas preferências, habilidades e dificuldades. Gonçalves e Siqueira (2021) ainda ressaltam que uma vida adulta e autônoma está condicionada a uma infinidade de fatores e elementos que precisam ser desenvolvidos ainda na infância, daí a importância de pais e professores proporcionarem aos estudantes com esse espectro as condições favoráveis para seu desenvolvimento. Esse é um dos motivos de muitos estudos e pesquisas sobre o autismo estarem associados à criança, pois a sua vida adulta dependerá muito do que for proporciona- do durante a fase do desenvolvimento infantil. Nesse sentido, é essencial oferecer à criança – desde o momento em que se recebe o diagnóstico – todos os estímulos e atendimentos necessários ao seu desenvolvimento, compreendendo suas limitações, respeitando suas características pes- soais e estimulando suas habilidades e potencialidades. 3.2 Psicoses infantis e TEA Vídeo Inicialmente, os distúrbios de neurodesenvolvimento eram desconheci- dos por muitos, e as pessoas diagnosticadas com esses casos eram margina- lizadas e afastadas do convívio social, algo que era ainda mais problemático na escola. Contudo, com o passar o tempo e o avanço nas pesquisas na área, definições mais acuradas foram surgindo e puderam ser desenvolvi- das estratégias de ensino-aprendizagem específicas para os alunos PAEE. O primeiro momento dessa grande mudança ocorreu na década de 1940, quando houve um movimento inicial de aceitação da existência de psicopatologias na infância. O segundo momento é marcado pela revo- lução na história das psicopatologias, que ocorreu a partir de 1943 com as publicações de Leo Kanner, importante pesquisador que se debruçou sobre as características e causas do autismo, definindo uma psicopato- logia própria da infância e da criança (BERQUEZ, 1983). 70 Práticas pedagógicas inclusivas No entanto, alguns estudos apontam que o primeiro caso de destaque de psicose infantil foi diagnosticado e documentado em A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego, artigo publicado pela psi- canalista austríaca Melanie Klein sobre o caso Dick, já na década de 1930. De acordo com Tengan e Maia (2004), o termo psicose ainda é difícil de ser reduzido a uma única definição, e algumas vezes é preciso repor- tar a qual referencial estamos adotando: psicodinâmico, psiquiátrico ou de determinado autor. Ainda para eles, existe uma série de diferen- tes conceitos para o termo, tais como: perda do contato afetivo com a realidade; afastamento temporário ou definitivo da realidade objetiva; e um grau de perturbação psíquica grave, que leva eventualmente à desintegração das estruturas de personalidade. Entre outras características, podem estar também um exagero pato- lógico das tendências constitucionais, uma desorganização extensa da personalidade, um severo distúrbio mental ou reações patológicas, as quais se alteram e envolvem todas as formas de adaptação (TENGAN; MAIA, 2004). Mas, apesar dessas diferentes classificações, os sintomas da psicose na infância podem ser diversos e ocorrer em diferentes ida- des e com diferentes níveis de intensidade. A seguir, apresentaremos um quadro com os sintomas mais comuns. Quadro 1 Sintomas de psicose infantil Descrição Emitem frases desconexas/sem sentido, podendo estar relacionadas a problemas de concentração e perda de memória recente. Realizam brincadeiras que – muitas vezes – não possuem relação entre si, e tendem a não interagir coletivamente com outras crianças nesses momentos. Apresentam delírios, alucinações e alterações bruscas no comportamento e nas emoções. Tendem a ter uma baixa produtividade em atividades rotineiras. Têm um comportamento mais antissocial – preferindo ficar isoladas – e sedentário durante grande parte do dia. Falam ou riem sem razão aparente, apresentam transtornos de fala/linguagem – atra- so na fala, repetições verbais etc. –, redução cognitiva e condução motora não com- patível com a faixa etária. Fonte: Elaborado pela autora. Entretanto, essa é uma área de intenso debate, pois nem todos os autores consideram essas características pertencentes à psicose infantil, o que abre espaço no debate atual para questionamentos que outrora foram fundamentais para pensar a condição humana sob um viés antro- Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 71 pológico, fazendo uso da definição de outras condições para incluir o diag- nóstico de psicose infantil. De acordo com Mesquita e Pinto (2019, p. 9), intrinsecamente ligado à noção de doença mental infantil, o termo psicose infantil é considerado inadaptado ao novo cenário psi- quiátrico, sendo rejeitado por profissionais e pais de crianças com transtornos mentais e excluído definitivamente do vocabulário médico-psicológico. O autismo preenche o vazio semântico deixa- do pela psicose infantil e obtém destaque especial não somente no setor científico, mas também no setor jurídico, com a imple- mentação de novas leis que dão aos autistas direitos específicos, e no setor social, com a significativa sensibilização da população por campanhas de conscientização sobre esse transtorno. Ainda de acordo com os autores, o fato de esse diagnóstico não ser tão frequente em laudos e avaliações médicas faz com que ele seja englobado junto às definições do Transtorno do Espectro Autista, dificultando a identificação dessa condição. Para eles, “a psicose e a esquizofrenia infantil perderam lugar para o autismo no cenário pe- dopsiquiátrico, caindo ao mesmo tempo no descrédito e no esqueci- mento por parte de profissionais da saúde e da população” (MESQUITA; PINTO, 2019, p. 9). Em uma breve análise, a classificação americana para os transtornos mentais não menciona esses termos em relação à criança desde os anos 1980. Refletindo com outros pesquisadores, os estudiosos apresentam o ponto de vista de Perrin e Druel-Salmane (2009 apud MESQUITA; PINTO, 2019, p. 80) que identificam “uma perda importante do valor conceitual da doença mental infantil, já que a psicose infantil, reconhecida como um quadro clínico bem definido, é substituída pelo autismo, cuja genera- lização atual cria um amálgama entre autismo síndrome e autismo sin- toma”. Já Hochmann (2009 apud MESQUITA; PINTO, 2019) declara que essa transição condenou firmemente os processos psicóticos específi- cos à criança, os quais veiculavamuma etiologia psicogenética mediante as referências freudianas. E por fim, sob a ótica de Alerini (2011 apud MESQUITA; PINTO, 2019, p. 10), o autismo corresponderia ao “sintoma de uma forma de pensamento que não tolera a abordagem subjetiva”. Ainda no intuito de fomentar esse debate, outro ponto muito relevan- te em relação ao diagnóstico de esquizofrenia e psicoses na infância são os critérios diagnósticos utilizados. De acordo com a Organização Mundial da Saúde e a Associação Americana de Psiquiatria, são utilizados os mes- 72 Práticas pedagógicas inclusivas mos critérios diagnósticos para crianças e adultos e, nesse sentido, algumas críticas têm sido realizadas a respeito dessa utilização, considerando que a psicose de início na infância – em que os quadros delirantes não poderiam ocorrer porque as estruturas psíquicas e cognitivas ainda não estariam to- talmente formadas – é uma entidade distinta da forma adulta. No artigo Da psicose infantil ao TEA: referenciais evolutivos e fundamentos socioculturais, publicado na revista Psicologia Clínica, os autores apresentam a transição do grupo das psicoses infantis ao grupo dos Transtornos do Espectro Autista ao longo dos últimos anos. Eles investigam os fundamentos socioculturais que determinaram tal mudança, com ênfase nos estudos das classificações nosológicas americana, francesa e internacional. Para as pesquisadoras, o desaparecimento do conceito de psicose infantil e a ascensão dos transtornos do espectro autista refletem a hegemonia com a qual os ideais socioculturais norte-americanos vêm se impondo no campo da psiquiatria ocidental em detrimento dos referenciais ideológicos que influenciam a percepção da doença mental infantil em outras culturas. Acesso em: 3 jan. 2023. https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=291059507005 Artigo Segundo Mesquita e Pinto (2019), se os diagnósticos pudessem estar presentes desde a primeira infância, como poderiam ser aferidos, uma vez que, no universo da criança, muitas vezes esses relatos podem fazer parte de suas fantasias? Para os autores, as pesquisas acerca das psico- ses com início na infância evidenciam que as alucinações e delírios estão presentes em crianças na mesma proporção que em adultos; entretan- to, sua expressão difere da forma adulta, em consequência das caracte- rísticas cognitivas das diferentes faixas etárias (MESQUITA; PINTO, 2019). Pensando na prática Em relação à inclusão de estudantes com psicose infantil dentro do ambiente escolar, é imprescindível que professores, gestores e funcio- nários estejam atentos para que esses estudantes não se coloquem em risco, ajudando-os a diferenciar fantasia de realidade. Outro ponto muito importante é o fato de que nem sempre as atividades realiza- das chamarão a atenção desses estudantes, considerando que nem sempre crianças com psicose infantil têm constituída essa curiosidade primordial dos demais estudantes na primeira infância. Logo, é funda- mental que o professor considere que essa criança não está nessa po- sição de curiosidade como todas as outras e procure diferentes formas de instigar sua curiosidade diferenciando seu modo de atuar. https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=291059507005 De acordo com Jerusalinsky (1997, p. 86), tal situação traz à tona a questão de se a criança psicótica deve ser segrega- da da comunidade escolar e ir a uma escola onde se reúnam so- mente todos os psicóticos. A resposta é: às vezes sim, às vezes não. Depende de que grau de extensão tenham as metáforas não paternas que cada criança psicótica em particular poderia vir a constituir, para encontrar pontos de referência que mobilizem seu desejo de aprender, sua curiosidade. O que quer dizer metáfora não paterna? Quer dizer descobrir uma série significante com sufi- ciente peso de significância na vida do sujeito psicótico para servir de referência para um conjunto mais ou menos extenso de signifi- cações possíveis [...] que permita ao sujeito em questão um certo nível de circulação social e, também, de resolução de sua angústia. Contudo, como vivemos em um momento de inclusão escolar, é importante que, antes de tomar uma decisão como essa, o estudan- te seja ouvido, a família seja informada das possibilidades escolares da instituição de ensino regular e que uma rede de apoio com todos os demais profissionais de atendimento que o estudante frequenta se una para juntos refletirem e analisarem as opções. Decidir entre uma escola especial e a inclusão do estudante no ensino regular não deve, em nenhuma situação, ser uma decisão unilateral, e todos os aspectos que envolvem seu desenvolvimento devem ser considerados, ou seja, além do seu aproveitamento acadêmico também devem ser colocados em pauta seu desenvolvimento afetivo, social, suas condições psicoló- gicas e que benefícios ou prejuízos tal medida pode acarretar. Assim, o trabalho em sala de aula regular com esses estudantes dependerá das condições acadêmicas, cognitivas e comportamentais de cada um, podendo variar desde pequenas adaptações curricula- res, até a presença de um profissional de apoio assegurado pela Lei Berenice Piana (BRASIL, 2012) que institui a Política Nacional de Pro- teção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista e afirma em seu parágrafo único: “em casos de comprovada necessida- de, a pessoa com transtorno do espectro autista incluída nas classes comuns de ensino regular, nos termos do inciso IV do art. 2º, terá direito a acompanhante especializado”. Nessa mesma legislação é reforçado que a pessoa com Transtorno do Espectro Autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais, ou seja, tem os mesmos direitos à inclusão, no plano de trabalho individual e atividades, e às metodologias adaptadas para a garantia de sua aprendizagem e de seu sucesso escolar. Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidadesPráticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 7373 74 Práticas pedagógicas inclusivas Dessa forma, as atividades e procedimentos podem variar em for- ma e em quantidade, considerando que muitos alunos com TEA têm suas habilidades cognitivas preservadas e podem apresentar grande familiaridade para a aprendizagem de línguas, assuntos relacionados à tecnologia e a cálculos matemáticos, sendo necessário até mesmo que sejam realizadas atividades de enriquecimento curricular. Em outras palavras, o repasse de atividades prontas pode auxiliar aqueles que têm dificuldades com o registro; todavia, é preciso conhe- cer o aluno e não permitir que ele se acomode, mas seja sempre de- safiado a superar seus problemas acadêmicos. É preciso oportunizar a esse aluno diferentes formas de se comunicar, considerando que as dificuldades com a linguagem são um ponto em comum das pessoas com esse espectro. Por outro lado, em relação à questão da intera- ção, é importante que professores e demais profissionais não forcem uma exposição desnecessária, tendo em vista que, para as pessoas com TEA, essa não é uma questão apenas de personalidade, mas uma dificuldade característica da sua condição. Logo, a intensa exposição, questionamento e mesmo solicitação para que o autista interaja com os demais podem lhe causar extremo desconforto. Para essa condição, assim como a todas as outras já apresentadas, a nossa melhor orientação – seja para a família, professor ou profissional em contato com esses estudantes – é a de ouvir o estudante, aprender sobre sua condição, ler seus documentos, laudos, relatórios, e acima de tudo ouvi-lo. É apenas conversando com o aluno e compreendendo suas necessidades que será possível entender suas especificidades e trabalhar para o desenvolvimento do seu potencial. 3.3 Síndrome de Rett Vídeo A síndrome de Rett, segundo Silva, Passos e Pereira (2016), é uma doença genética não hereditária e bastante rara que afeta a maneira como o cérebro se desenvolve. Em sua grande maioria, ela é encontra- da em pessoas do sexo femininoe é caracterizada como uma síndrome de desenvolvimento que leva à deficiência intelectual. Diversos teóricos buscam estudar as causas e características da síndrome, entre eles te- mos José Salomão Schwatzman (2003) que divide a evolução em quatro A série Atypical retrata o co- tidiano de um adolescente autista tentando entender o mundo por sua perspec- tiva, expondo também de que forma a família lida com o autismo, e mostra a realidade de uma pessoa com TEA em diferentes âmbitos da vida: escolar, profissional, relacionamen- tos amorosos e amizades. Conta com uma boa dose de bom humor e aborda pontos importantes sobre a passagem da adolescência para a vida adulta de uma pessoa com esse espectro. Direção: Seth Gordon. EUA: Exhibit A, 2017. Série Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 75 estágios, denominados por ele de estagnação precoce, rapidamente des- trutivo, pseudo-estacionário e deterioração motora tardia. Em grande parte dos casos, os bebês com síndrome de Rett parecem inicialmente se desenvolver normalmente nos primeiros meses de vida; no entanto, por volta do sexto mês os primeiros sintomas de que o desenvol- vimento não está ocorrendo de maneira esperada começam a aparecer. Os problemas mais visíveis passam a ser dificuldades com os movimen- tos, coordenação e comunicação, podendo, inclusive, chegar a prejudicar a capacidade de usar as mãos, de se comunicar e se alimentar. De acordo com Schwartzman (2003), entre os estágios de evolução da doença, o mais notável entre eles é o primeiro, denominado de estagnação precoce – que ocorre entre os seis e dezoito meses de idade –, ele tem como característica principal a parada do desenvolvimento geral da criança, principalmente do perímetro craniano e diminuição da interação social. Mas os avanços são muito rápidos, o segundo estágio – denominado pelo autor de rapidamente destrutivo – tem duração de semanas ou meses. Segundo o autor, uma rápida regressão psicomotora domina o quadro, com a presença de choro sem motivação e períodos de grande irritabilidade. Também podem ser observados comportamentos que podem lembrar os de crianças com o Transtorno do Espectro Autista, como perda da fala nos casos em que esta já estava em desenvolvimento e aparecimento de movi- mentos estereotipados das mãos, seguido pela perda da sua função prática. Podem ser observados neste momento disfunções respiratórias como ap- neias em vigília, episódios de hiperventilação e, em alguns casos, crises con- vulsivas podem ocorrer, além de distúrbio do sono (SCHWARTZMAN, 2003). No terceiro estágio – denominado pseudo-estacionário – ocorre uma certa melhora dos sinais e sintomas apresentados nos estágios anteriores – inclusive no contato social –, mas os distúrbios motores ainda são evidentes, como a ataxia, apraxia, espasticidades, escolio- se e bruxismo. Também é comum ocorrer perda de peso, mesmo com uma ingestão normal de alimentos. Especificamente sobre essa perda de peso, segundo Schwartzman (2003), uma pesquisa conduzida no Brasil concluiu que esse quadro nem sempre ocorre, já que muitos pacientes apresentam sobrepeso e não o contrário. Outros sintomas desse estágio estão relacionados ao sistema respiratório: crises de perda de fôlego, aerofagia e expulsão forçada de ar e saliva. ataxia: dificuldade ou incapacidade de manter a coordenação motora em níveis padrões. apraxia: incapacidade de realizar tarefas que exijam sequências de movimen- tos ou recordar padrões. espasticidades: aumento involuntário da contração muscular, o que dificulta a realização de atividades do dia a dia (comer, falar, andar etc.). escoliose: encurtamento da coluna vertebral, fazen- do com que ela fique com uma curvatura lateral. bruxismo: bater, ranger e deslizar os dentes invo- luntariamente, especial- mente durante o sono. Glossário 76 Práticas pedagógicas inclusivas Posteriormente, o quarto estágio – que se inicia por volta dos dez anos de idade – é o chamado de deterioração motora tardia. Nesse es- tágio há uma lenta progressão dos déficits motores, acompanhada da presença de escolioses e de uma severa deficiência mental. Não são todos os casos que também são acometidos pela epilepsia. Em outros, os pacientes podem ter sérios prejuízos em sua coordenação motora e muscular ocasionando a perda da marcha e a eventual necessidade do uso de cadeiras de rodas. Essa condição também pode estar associada a menos funções sinápticas, sintomas decorrentes de lesão do neurônio motor periférico associados aos prejuízos já presentes. Ocorre também a presença de coreoatetose, que é uma desordem nervosa caracterizada por movimentos involuntários e incontroláveis (SCHWARTZMAN, 2003). Todos esses sintomas e características, por muitos anos, fizeram com que a síndrome de Rett fosse erroneamente diagnosticada como autis- mo, paralisia cerebral ou, ainda, como um problema de desenvolvimen- to desconhecido. Atualmente, com as novas pesquisas e informações disponíveis sobre a doença, há novas formas inovadoras de tratamento e outras que ainda têm sido estudadas, apesar de ainda não haver cura. Desse modo, para diagnosticar uma criança com síndrome de Rett, o neuropediatra precisa observar cuidadosamente o crescimento e o de- senvolvimento de habilidades motoras esperadas para a idade do bebê ou da criança, estando atento também ao desenvolvimento de sua fala. Além disso, durante a consulta o médico especialista deverá fazer uma série de perguntas aos pais e/ou cuidadores sobre os sintomas apre- sentados pela criança, além de levantar informações sobre seu histórico clínico e médico desde seus primeiros meses de vida. Acerca dos exames clínicos, Schwartzman (2003, p. 111) nos esclarece que o eletroencefalograma não é um procedimento recomendado para o diagnóstico dessa síndrome, pois, como vimos, os sintomas e caracterís- ticas dela evoluem de acordo com os estágios de evolução da síndrome. O eletroencefalograma é, em geral, grosseiramente anormal, exce- ção feita, eventualmente, às primeiras fases da doença. À medida que a condição evolui do estágio I para o III, observamos lentifica- ção progressiva do ritmo de base com surgimento de ondas pon- tiagudas projetando-se, em geral, nas regiões centro-parietais. No estágio III podem surgir descargas com o padrão espícula-onda lenta, mais facilmente observada durante o sono. No estágio IV pode haver uma certa melhora no traçado com diminuição dos Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 77 elementos epileptiformes. As espículas centrais tendem a dimi- nuir após os dez anos de idade e podem ser bloqueadas pela mo- vimentação passiva dos dedos da mão contralateral. Outro fato que também vem sendo estudado, é o de que apesar de a predominância ser em meninas e acreditar-se que apresentam de- senvolvimento normal do nascimento até os seis ou dezoito meses de idade, hoje é possível verificar que em grande parte dos casos, senão em todos, há na verdade um atraso no desenvolvimento motor com hipotonia muscular e prejuízo no engatinhar, que são os sinais iniciais, antes mesmo desse período (SCHWARTZMAN, 2003). De acordo com Schwartzman (2003), um aspecto que em todos os casos é acometido é a fala. Segundo ele, a habilidade de se comunicar é uma das mais afetadas com a evolução da síndrome, com muitas pessoas simplesmente parando de falar às medidas que os estágios de evolução se alteram. No Quadro 2 é possível vermos as principais áreas e acometimentos da síndrome de Rett. Quadro 2 Áreas e acometimentos da síndrome de Rett Habilidades de coordenação A perda mais significativa de habilidades de coordenação motora ocorre em média en- tre os 12 e 18 meses de idade. Os primeiros sinais costumam incluir a diminuição no controle das mãos e a incapacidade crescente de engatinhar ou andar normalmente. A princípio, essa perda das habilidades motora e de coordenação ocorre rapidamente e, em seguida, continuade modo mais gradual. Habilidade de comunicação e pensamento Crianças com síndrome de Rett normalmente começam a perder a capacidade de falar e de se comunicar de modo geral. Também podem perder o interesse por outras pessoas, brinquedos e estímulos que normalmente chamariam a atenção de uma criança. Alguns casos podem apresentar mudanças rápidas, como a perda súbita da fala, por exemplo. Com o tempo, a maioria das crianças gradualmente recupera o contato visual com ou- tras pessoas e aprendem a desenvolver habilidades de comunicação não verbal. Movimentos das mãos e dos olhos A movimentação contínua das mãos é uma das principais características. Conforme a doença progride, as crianças tendem a desenvolver um determinado padrão de movi- mentos das mãos, como torção, apertos, palmas e outros tipos. Elas também costumam fazer movimentos incomuns com os olhos, fitar alguém por muito tempo ou piscar e fechar um olho de cada vez, para citar alguns exemplos. Crises convulsivas A maioria das pessoas que têm essa síndrome costuma apresentar episódios de convul- são em algum momento do desenvolvimento da doença. Os sintomas podem variar e incluir tanto espasmos musculares periódicos quanto crises graves de epilepsia. Problemas respiratórios É muito comum que pessoas com essa síndrome desenvolvam alguns problemas respiratórios. Esses incluem apneia, hiperventilação, expiração forçada de ar, entre outros. Assim como a arritmia – batimento cardíaco irregular – que é um dos principais problemas que acometem a vida de muitas crianças e adultos com essa síndrome. Fonte: Elaborado pela autora com base em Síndrome..., 2014. 78 Práticas pedagógicas inclusivas Falando historicamente, Silva, Passos e Pereira (2016) nos mostram que as primeiras pesquisas acerca dessa síndrome ocorreram em 1954, quando Andreas Rett – neurologista pediátrico que residia em Viena – identificou os traços característicos da síndrome. Rett realizou pesquisas em meninas que demonstraram comportamentos autistas, apraxia da marcha, movimentos estereotipados das mãos e perda de expressão facial. Contudo, sua pesquisa foi publicada apenas em 1966. No artigo Síndrome de Rett - uma revisão da literatura, escrito por Natália L. S. Silva, Xisto S. Passos e Samara L. S. Pereira, os autores apresentam uma retrospectiva das principais pesquisas acerca da síndrome de Rett desde seu início embrionário em 1945, até as pesquisas atuais nos dias de hoje que nos trazem um novo olhar sobre a síndrome, suas características e possibili- dades de tratamento. Acesso em: 3 jan. 2023. https://docs.bvsalud.org/biblioref/2016/09/2048/v34_n1_2016_p53a57.pdf Artigo No Brasil, os cinco primeiros casos de meninas com síndrome de Rett foram relatados em 1987, momento em que autoridades médicas começam a dar maior atenção para a incidência dessa síndrome em nosso país, estabelecendo um diálogo com EUA, Japão e Europa, países onde as pesquisas acerca dessa síndrome já estavam sendo realizadas há mais tempo (SILVA; PASSOS; PEREIRA, 2016). Analisando todas essas características podemos perceber que a inclu- são de um estudante com síndrome de Rett dentro do ambiente regular de ensino é bastante desafiador. Para além das questões metodológicas e de conteúdos que devem ser criteriosamente pensadas considerando as perdas e defasagens cerebrais a que o aluno pode ser acometido, também são necessárias estruturas físicas adaptadas e suporte clínico adequado. Em outras palavras, esse estudante precisa da autorização médica que o libere para frequentar a escola presencialmente, considerando suas difi- culdades de locomoção, comunicação e interação com os demais colegas. Pensando na prática É importante lembrar também que, em alguns casos, o profissional de apoio pode ser recomendado no sentido de auxiliar o estudante em sua locomoção, alimentação e comunicação com os professores e de- mais colegas. Esse pode ser um funcionário da escola, ou um Professor de Auxílio à Comunicação (PAC). https://docs.bvsalud.org/biblioref/2016/09/2048/v34_n1_2016_p53a57.pdf Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 79 Em casos em que haja dificuldades para se comunicar, o uso de pranchas de comunicação pode ser um importante recurso, sendo essencial ter resposta por parte do estudante, se ele está compreen- dendo os conteúdos escolares e se deseja continuar se deslocando ao ambiente regular de ensino. Como já afirmamos no caso de estudantes com Transtorno do Es- pectro do Autismo de nível 3 de apoio e suporte, a escola especial pode ser uma opção nesses casos, desde que, também como já afirmado, os estudantes sejam ouvidos e uma equipe multiprofissional seja cria- da para discutir a respeito. Contudo, é muito importante considerar as necessidades médicas dos estudantes no intuito de oferecer o melhor acompanhamento possível dentro de suas condições de saúde. Nes- se caso, o acompanhamento pelo Serviço de Atendimento à Rede de Escolarização Hospitalar (SAREH) pode ser uma escolha quando as ne- cessidades de saúde impedirem a locomoção até o ambiente escolar. 3.4 Altas habilidades ou superdotação Vídeo Em nossa legislação, o termo altas habilidades ou superdotação é utilizado no diagnóstico de indivíduos que possuem potencial eleva- do em aptidões, talentos e habilidades, de modo que possuem um alto desempenho em diversas atividades, sejam elas em contextos acadêmicos ou não (BRASIL, 2013). No Brasil o procedimento utiliza- do para a identificação desses estudantes é pautado na perspectiva teórica do chamado Modelo dos Três Anéis, criada pelo teórico Joseph Renzulli (2015). Nessa concepção, a superdotação é decorrente da confluência de três fatores: habilidade intelectual acima da média, motivação (envol- vimento com a tarefa) e criatividade. Para isso, ele elabora sua teoria triádica em que a superdotação é encontrada no grupamento desses três fatores. Para realizar a identificação desses estudantes, os pais, os profes- sores e os alunos indicados respondem a inventários de indicadores de altas habilidades ou superdotação, com o objetivo de verificar se o aluno apresenta características compatíveis com o perfil de comporta- mento de superdotação. Outra forma de identificar a superdotação é Os principais instrumen- tos utilizados em nosso país para realizar esse processo de identifica- ção são os inventários para identificação de indicadores de altas ha- bilidades/superdotação e a Triagem de Indicadores de Altas habilidades/Su- perdotação (THIAS). Saiba mais 80 Práticas pedagógicas inclusivas realizando uma avaliação neuropsicopedagógica multiprofissional com profissionais especializados, que terão um olhar amplo sobre a super- dotação investigando as diferentes áreas de potencial do estudante, sem se fixar apenas em resultados psicométricos de testes de QI – tes- tes que verificam o quociente de inteligência do indivíduo. Esse é um processo mais amplo, que visa à construção de um lau- do/relatório multidisciplinar, preferencialmente envolvendo psicólo- gos, psicopedagogos, pais, escola e demais profissionais da saúde ou da educação envolvidos com o sujeito. Testes psicométricos como a aplicação da Escala Weschsler de Inteligência para Crianças (WISC), para a aferição do QI, inventários de características, observação do comportamento, entrevistas com a família e professores, assim como alguns testes informais para estabelecimento de vínculo entre avalia- dor e avaliado, são alguns exemplos de procedimentos que podem ser adotados em uma avaliação. Assim, escalas e testes são ferramen- tas importantes e servem de rastreamento para a verificação de po- tencial acima da média, pois fornecem dados objetivos muito úteis para avaliação, intervenção e pesquisa. No entanto, nem todos os in- divíduos serão superdotados em áreas acadêmicas e facilmente per- cebidas nessas medidas, por esse motivo ressaltamos a importância de uma equipe multidisciplinar, que possa ainda ser enriquecidacom a presença de profissionais específicos, de acordo com o potencial de cada indivíduo. Se temos por exemplo um estudante com grande habilidade cines- tésica-corporal, nem sempre ele apresentará um QI acima da média. Por tanto, para realmente avaliar se suas habilidades se destacam aci- ma da média das pessoas de mesma idade e experiência, o ideal é que esse sujeito seja avaliado por um especialista na área como um técnico, um treinador ou um profissional da educação física, que seja experien- te na área de alto desempenho, para que esse avalie de maneira espe- cífica suas habilidades. Nesse sentido, reforçamos a importância de a identificação ser en- riquecida por outras fontes de informação, de modo a privilegiar uma visão sistêmica e global do indivíduo e que essa não se reduza apenas à aferição da inteligência lógica por meio de um teste de QI. Uma outra questão que precisa ser analisada é a possibilidade de dupla excepcionalidade, dupla condição, múltiplas necessidades espe- Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 81 ciais entre outros termos que desejam expressar que é possível mais de um diagnóstico ou condição em um indivíduo superdotado. No caso da superdotação, sim, é possível que um indivíduo seja superdotado e que possua outro diagnóstico além dessa condição. Como por exem- plo, a junção de altas habilidades com o Transtorno do Espectro Autista (TEA), ou com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou com deficiências auditivas. No entanto, esses são apenas alguns exemplos de casos em que determinada condição não limita o potencial intelectual e criador do indivíduo. Cabe aos profissionais envolvidos no processo e à família ressaltarem as habilidades e poten- cialidades do sujeito, apesar de suas fragilidades. Nesse sentido, reforçamos a importância da busca por profissionais especializados, devidamente credenciados e que tenham a área da su- perdotação como foco de estudo, quando se busca uma avaliação. Um profissional capacitado saberá fazer a distinção entre as diferentes ca- racterísticas, ou orientará a busca por outro profissional, seja o pedia- tra, fonoaudiólogo ou outro especialista, para descartar ou comprovar hipóteses e apresentar, no final do processo de avaliação, um perfil que demonstre as características do indivíduo, suas particularidades e como a ciência define suas condições, e não apenas um rótulo com um carimbo (GONÇALVES; LEAL, 2020). Voltando à teoria de Renzulli, a superdotação pode ser dividida em duas principais classificações de acordo com as características dos indi- víduos: a superdotação escolar/acadêmica e a produtiva-criativa. A superdotação escolar é, também, conhecida como a habilidade do teste ou da lição de aprendizagem (RENZULLI, 2015), pois é o tipo mais facilmente identificado pelos testes de QI. Nesse modelo de teste são expostas situações de aprendizagem escolar, assim o aluno com alto QI tende, na maioria dos casos, a obter boas notas também na escola, pois a ênfase nesse tipo de habilidade escolar recai sobre os processos de aprendizagem dedutiva, ou seja, no treinamento estruturado dos processos de pensamento, na aquisição, no estoque e na recuperação de informações. Já a habilidade produtiva-criativa implica no desenvolvimento e cria- ção de materiais e produtos originais. Dito de outro modo, a ênfase é colocada no uso e aplicação da informação e processos de pensamento de maneira integrada, de modo indutivo e orientado para a resolução 82 Práticas pedagógicas inclusivas de problemas reais. O indivíduo nessa abordagem trabalha nos pro- blemas que têm relevância e que são considerados desafiadores para ele (RENZULLI, 2015) e que nem sempre corresponde àquilo que é so- licitado nas vias formais de aprendizagem. Daí a possibilidade de uma pessoa ser superdotada e não ser, necessariamente, um bom aluno, se julgado pelos parâmetros regulares de ensino. Desse modo, podemos perceber que nem sempre o estudante su- perdotado se resume àquele aluno que tira nota máxima em todas as disciplinas escolares, considerando que as características e habilidades que definem uma pessoa superdotada ultrapassam os muros da esco- la, chegando, em alguns casos, a não relação com a dinâmica acadêmica, como os estudantes criativos, com habilidades musicais ou esportivas, por exemplo. Para Gonçalves e Leal (2020, p. 14), aquele estereótipo de aluno magnífico, que tem um vocabulário rico para sua idade, que faz cálculos matemáticos sem uso de recursos materiais, ou que pronuncia as capitais de todos paí- ses, são características pontuais que podem ser encontradas em alguns superdotados, embora a superdotação não se resuma a área acadêmica, podendo se manifestar nas artes, na dança, na música e em muitas outras formas originais e criativas. Para Virgolim (2007), a superdotação se caracteriza pela elevada po- tencialidade de aptidões, talentos e habilidades, evidenciada no alto desempenho nas diversas áreas de atividade do educando e/ou a ser evidenciada no desenvolvimento da criança. Em relação aos atendimentos para esses estudantes, em 2005 hou- ve em nosso país a criação dos Núcleos de Atividades de Altas Habili- dades/Superdotação (NAAH/S) em todos os estados brasileiros, com a missão de atuar em três eixos: aluno, professor e família. No entanto, atualmente, nem todos esses núcleos continuam em atuação. Assim, coube às salas de recursos existentes em estados e municípios a altera- ção ou a duplicação desses espaços, para também oferecer atendimen- to especializado aos estudantes superdotados. Essas medidas também cabem às instituições particulares de ensino. Nessas salas, o foco dos atendimentos deve ser o desenvolvimen- to do potencial dos estudantes. O trabalho geralmente é organizado por cronograma de atendimento, unindo nos encontros os estudantes Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 83 que têm áreas de interesse próximas. De acordo com Alencar e Fleith (2001, p. 134), “as atividades do Tipo I despertam o interesse dos alunos em desenvolver habilidades para execução da tarefa Tipo II, ou con- duzir um estudo aprofundado em alguma área específica Tipo III”. A estimulação ocorre por meio de oficinas e atividades de enriquecimen- to curricular que podem acontecer dentro do espaço com pesquisas, em visitas a museus, teatros, universidades e demais locais de busca e exploração, ou ainda com a apresentação de pesquisas e atividades criadas e construídas pelos próprios estudantes. Esse modelo de aten- dimento é realizado com base no Modelo dos Três Anéis desenvolvido por Renzulli, que divide as atividades em tipo I, II e III. Contudo, o desenvolvimento desses estudantes não deve ficar a cargo apenas dos professores que trabalham o enriquecimento curricular nas salas de recursos no contraturno. É essencial que os professores do ensino regular também reconheçam, conheçam as avaliações ou laudos desses estudantes e desenvolvam seu poten- cial em sala de aula. De acordo com Alves e Nakano (2015), a falta de identificação e de desenvolvimento do estudante superdotado em sala de aula pode trazer desmotivação frente aos conteúdos ensinados, especialmente quando professores se tornam repetitivos e preocupados em recapitu- lar os conteúdos que ainda não foram assimilados por todos. Em ou- tras palavras, os professores acabam dedicando muito mais tempo e energia àqueles que acreditam que, por suas dificuldades, precisarão mais de seu apoio, seguindo o preceito equivocado de que o super- dotado se desenvolverá sozinho. Por isso, acabam por não destinar grande parte de seu tempo e atenção às atividades necessárias para o desenvolvimento do potencial desses estudantes. Desse modo, oferecer enriquecimento curricular ou oportunida- des diferenciadas aos estudantes que apresentam algum talento ou habilidade que se destaca em relação aos demais acaba se tornando uma difícil tarefa para os professores que,preocupados com as inú- meras dificuldades de seus colegas, deixam de apresentar atividades mais avançadas e dinâmicas para aqueles que já atingiram os resulta- dos de aprendizagem inicialmente propostos. No e-book 10 Perguntas e respostas para com- preender a Superdotação – de Patrícia Gonçalves e Giovana F. Leal – são res- pondidas dez perguntas sobre superdotação com o objetivo de informar pais, professores e profissionais sobre essa condição, desmistificando conceitos, apresentando teorias e sugerindo de que forma o processo de avaliação deve ser feito e o enriquecimen- to ofertado, além de apresentarem outros direitos dos estudantes com altas habilidades ou superdotação. GONÇALVEZ, P.; LEAL, G. F. Curitiba: Dialética e Realidades, 2020. Disponível em: https://2b0ee3ca- fda1-4c02-aa8d-d6226f4481c2. filesusr.com/ugd/206e81_f1d 46087660148bcaa17b860a70274 c8.pdf. Acesso em: 3 jan. 2023. Livro https://2b0ee3ca-fda1-4c02-aa8d-d6226f4481c2.filesusr.com/ugd/206e81_f1d46087660148bcaa17b860a70274c8.pdf https://2b0ee3ca-fda1-4c02-aa8d-d6226f4481c2.filesusr.com/ugd/206e81_f1d46087660148bcaa17b860a70274c8.pdf https://2b0ee3ca-fda1-4c02-aa8d-d6226f4481c2.filesusr.com/ugd/206e81_f1d46087660148bcaa17b860a70274c8.pdf https://2b0ee3ca-fda1-4c02-aa8d-d6226f4481c2.filesusr.com/ugd/206e81_f1d46087660148bcaa17b860a70274c8.pdf https://2b0ee3ca-fda1-4c02-aa8d-d6226f4481c2.filesusr.com/ugd/206e81_f1d46087660148bcaa17b860a70274c8.pdf 84 Práticas pedagógicas inclusivas Assim, é fundamental que os professores realizem atividades de diferentes níveis de dificuldade e aprofundamento envolvendo todos os estudantes, inclusive os superdotados, oportunizando um ambiente exploratório e dinâmico para que todos possam expressar seu poten- cial em sala de aula. É essencial que se oportunize momentos de inte- ração e pesquisa no ensino regular para que os alunos que realizam as atividades em menos tempo possam ter uma outra oportunidade de aprofundar seus conhecimentos. Contudo, ajudar o colega, levar recado na direção, apagar o quadro, entre outras não são atividades de enriquecimento. O que se espera é que o professor possa oferecer novos desafios, oportunidades de leitura, realização de atividades ou mesmo o desenvolvimento de pesquisas de maneira integrada ao seu conteúdo e que oportunize ao superdotado a possibilidade de redes- cobrir novas áreas de interesse ou de aprofundar seus conhecimentos prévios sobre algo já conhecido com atividades específicas para seu perfil e áreas de maior habilidade e interesse. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, percebemos o quanto é importante que os profes- sores estejam sempre atentos ao desenvolvimento de nossas crianças. Acompanhar cada fase da sua infância, ter um acompanhamento médico frequente e estar atento aos sinais que elas demonstram, são essenciais para que as NEE sejam identificadas de modo precoce. Assim, a busca por profissionais especializados que entendam da condição é essencial para um diagnóstico correto e encaminhamentos adequados no sentido de desenvolver todo o potencial do indivíduo, in- dependentemente de sua condição. Além disso, os professores precisam conhecer essas diferentes condi- ções para que possam trabalhar em sala de aula de maneira atraente e significativa para esses estudantes adaptando as atividades e recursos ne- cessários para seu melhor aproveitamento escolar. Contudo, nem sempre a inclusão é possível. Há casos em que a família, o estudante e a equipe multidisciplinar que o acompanham precisam refletir se o melhor para seu desenvolvimento e autonomia é estar incluso em uma escola regular ou em uma escola especial. Lembrando mais uma vez que essa não deve ser uma decisão unilateral, mas discutida com os pais e os profissionais que acompanham o estudante. Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 85 ATIVIDADES Atividade 1 Faça um quadro comparativo apresentando as diferenças entre os três níveis de autismo. Atividade 2 Sobre a decisão de matricular um estudante com Necessidades Educativas Especiais em uma sala de aula comum ou uma escola especial, a quem cabe essa decisão? Atividade 3 Analise o seguinte estudo de caso: Pedro é um adolescente com altas habilidades ou superdotação fre- quentando o nono ano do Ensino Fundamental, ele demonstra grande facilidade nas áreas da linguística e lógico-matemática, mas precisa de interesse e motivação para produzir. Quanto à inteligência linguísti- ca, seu nível de expressão oral é muito desenvolvido, utiliza-se de um vocabulário elaborado e se destaca na organização das ideias. No que se refere à linguagem escrita, administra as ideias, possui uma boa articulação das questões gramaticais, porém apresenta muitos erros ortográficos, com uma grafia insatisfatória, revelando a sua rapidez de pensamento e o baixo nível de concentração na estruturação das palavras. Isso faz com que ele evite a escrita, preferindo comunicar-se oralmente. Quanto à matemática, faz cálculos mentais e apresenta dificuldade para utilizar fórmulas padronizadas, preferindo criar suas próprias e elaborar meios de resolução inovadores para os cálculos. Elabore estratégias que possam ajudar Pedro a desenvolver seu potencial em sala de aula. 86 Práticas pedagógicas inclusivas REFERÊNCIAS ALENCAR, E. M. L. S. de; FLEITH, D. S. Superdotados: determinantes, educação e ajustamento. 1. ed. São Paulo: EPU, 2001. ALVES, R. J. R.; NAKANO, T. C. A dupla-excepcionalidade: relações entre altas habilidades/ superdotação com a síndrome de Asperger, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e transtornos de aprendizagem. Revista Psicopedagogia, v. 32, n. 99, p. 346-360, 2015. APA – AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatísitico de Transtornos Mentais - DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2013. ASSUMPÇÃO JUNIOR, F. B.; KUCZYNSKI, E. Autismo: conceito e diagnóstico. In: SELLA, A. C.; RIBEIRO, D. M. (org.). Análise do comportamento aplicada ao transtorno do espectro autista. Curitiba: Appris, 2018. BERQUEZ, G. L’autisme infantile. Paris: PUF, 1983. BRAGA, W. C. Autismo: azul e de todas as cores: guia básico para pais e profissionais. São Paulo: Paulinas, 2018. BRASIL. Lei n. 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 27 dez. 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2012/lei/l12764.htm. Acesso em: 3 jan. 2023. BRASIL. Lei n. 12.796, de 4 de abril de 2013. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 4 abr. 2013. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/ lei/l12796.htm. Acesso em: 3 jan. 2023. GONÇALVES, P.; LEAL, G. F. 10 perguntas e respostas para compreender a Superdotação. 1. ed. Curitiba: Dialética e realidade, 2020. GONÇALVES, P.; SIQUEIRA, A. E. O. S. 10 perguntas e respostas para compreender o Autismo. 1. ed. Curitiba: Dialética e realidade, 2021. JERUSALINSKY, A. A escolarização de crianças psicóticas. Estilos clínicos, São Paulo, v. 2, n. 2, 1997. MESQUITA, M.; PINTO, T. Da psicose infantil ao TEA: referenciais evolutivos e fundamentos socioculturais. Psicologia Clínica, v. 31, n. 1, p. 77-92, abr. 2019. RENZULLI, J. S. The three-ring conception of giftedness: a developmental model of creative productivity. In: STERNBERG, R. J.; DAVIDSON, J. E. Conception of Giftedness. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2015. SANTOS, A. M. T. Autismo: um desafio na alfabetização e no convívio escolar. São Paulo: CRDA, 2008. SCHWARTZMAN, J. S. Síndrome de Rett. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 25, n. 2, p. 110- 113, 2003. SELLA, A. C.; RIBEIRO, M. D. (org.). Análise do Comportamento Aplicada ao Transtorno do Espectro Autista. 1. ed. Curitiba: Appris, 2018. SILVA, N. L. S.; PASSOS, X. S.; PEREIRA, S. L. S. Síndrome de Rett: uma revisão da literatura. Revista do Instituto de Ciências da Saúde, v. 34, n. 1, mar. 2016. SÍNDROME de Rett: sintomas, tratamentose causas. minhavida | Sáude, 5 dez. 2014. Disponível em: https://www.minhavida.com.br/saude/temas/sindrome-de-rett. Acesso em: 3 jan. 2023. SIQUEIRA, A. E. O. S. O autismo e a educação inclusiva. 2020. Dissertação (Mestrado em Educação) – Setor de Educação e Humanidades, Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba. TAFURI, M. I., MARTINS, F. Revisitando as crianças de Kanner à luz da fenomenalidade da vida de Michel Henry. Revista Humanística e Teologia, v. 37, n. 1, p. 271-289, 2016. TENGAN, S. K.; MAIA, K. Psicoses funcionais na infância e adolescência. Revista Jornal de Pediatria, v. 80, n. 2, abr. 2004. VIRGOLIM, A. M. R. (org.). Talento criativo: expressão em múltiplos contextos. Brasília: Universidade de Brasília, 2007. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12796.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12796.htm https://www.minhavida.com.br/saude/temas/sindrome-de-rett A sala de recursos e as tecnologias assistivas 87 4 A sala de recursos e as tecnologias assistivas Olá, estudante! Neste capítulo falaremos sobre os aspectos legais e pedagógicos do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que deve ser ofertado aos estudantes com algum tipo de Necessidades Educativas Especiais (NEE) seja nas salas de recursos ou no atendimento especializa- do – sobretudo na elaboração dos planejamentos individuais – por meio de tecnologias assistivas. Além disso, também apresentaremos alguns aspectos voltados à for- mação do profissional que atua nesses atendimentos e como ele pode auxiliar os professores do ensino regular e demais profissionais da es- cola a saber mais a respeito dos alunos inclusos, realizando adaptações simples que podem contribuir para o acesso, a permanência e o sucesso escolar dos alunos inclusos. Além dessas questões, você também terá acesso a um modelo de pla- no de atendimento individual. Há uma sugestão de cronograma de aten- dimento e dicas quanto aos procedimentos e ao uso de alguns materiais simples que podem ser extremamente importantes para a adaptação e inclusão dos alunos Público-alvo da Educação Especial (PAEE). Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • relacionar as informações apresentadas à importância do trabalho com a sala de recursos multifuncionais; • compreender como funcionam os atendimentos em salas de recursos; • aprender a elaborar um plano de trabalho individualizado; • identificar a formação do professor especialista e compreender a organização do AEE; • conhecer as tecnologias assistivas aplicadas ao ensino-apren- dizagem e compreender a importância da comunicação alter- nativa nas aulas. Objetivos de aprendizagem 88 Práticas pedagógicas inclusivas 4.1 Importância da sala de recursos multifuncionais Vídeo Antes de falarmos sobre a importância das salas de recursos multifun- cionais e do atendimento especializado aos estudantes com NEE, é impor- tante lembrar que o atendimento especial nas escolas do nosso país teve início na década de 1980, sendo, à época, realizado sob uma perspectiva integracionista, que apresentava como “objetivo a integração de alunos com deficiências ao ambiente escolar” (MIRANDA, 2008, p. 36). Contudo, já nos anos de 1970 havia em nosso país uma preocupa- ção com a institucionalização da Educação Especial que discutia uma maneira de garantir aos alunos com deficiência o acesso à escolariza- ção de forma inclusiva, com isso, por meio do Decreto n. 72.425/1973, foi criado o Centro Nacional de Educação Especial (CENESP). Esse de- creto tinha como finalidade promover – em todo território nacional – a expansão e melhoria do atendimento ao público que necessitava desse atendimento especializado (GONÇALVES, 2021). No entanto, essa visão de Educação Especial ainda deveria ocor- rer somente dentro de um sistema paralelo e segregado de ensino, no caso, nas escolas especiais próprias, as quais ofertavam um serviço especializado e voltado somente para atendimento aos indivíduos com deficiência e distúrbios severos de aprendizagem e de comportamento (GLAT, 1995). Dito de outro modo, ainda não havia preocupação com a perspectiva inclusiva que se tem hoje. Com a construção da Constituição Brasileira de 1988, esse atendi- mento educacional para pessoas que apresentam NEE passou a ser assegurado legalmente. O artigo 206, inciso I, estabelece a “igualdade de condições para acesso e permanência na escola”, e o artigo 208, inciso III, o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1988). De acordo com Anjos (2011, p. 2), as primeiras iniciativas de in- clusão iniciaram com a criação das salas de recursos ainda na década de 1980. as salas de recursos no Brasil foram criadas nos anos 80, embora tenha começado a ser pensada na década de 70, tendo como ob- jetivo atender as pessoas com algum tipo de deficiência que esta- vam frequentando o ensino regular. Portanto, historicamente, a A sala de recursos e as tecnologias assistivas 89 constituição da sala de recursos se deu no Brasil no ano de 1980, configurando-se em uma alternativa ao processo de segregação que as pessoas com deficiências enfrentavam no cotidiano. Desde então, novos decretos, leis e instruções com base em con- ferências e discussões internacionais passaram a integrar essa luta. Já em 1990, mesmo ano em que nosso país construía o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – que garante o acesso e a permanên- cia escolar a todas as crianças e adolescentes até os 17 anos de idade –, é também criada a Declaração Mundial de Educação para Todos, a qual apresenta documentos internacionais que passam a tratar da educação inclusiva não apenas no âmbito das pessoas com deficiên- cia, mas todos os que até então eram excluídos do ambiente escolar. O documento, em seu terceiro artigo, trata de universalizar o acesso à educação e promover a equidade, defendendo que a Educação Básica deve ser proporcionada a todos. Essa nova afirmação desconstrói o costumeiro isolamento das pessoas com deficiência em espaços se- gregados e passa a tratar aprendizagem dentro de uma perspectiva inclusiva e não de isolamento. Outro significativo documento é a Declaração de Salamanca de 1994, considerada mundialmente um dos mais importantes docu- mentos que visam à inclusão da pessoa com deficiência. A declaração apresenta uma resolução das Nações Unidas que trata dos princípios, políticas e práticas em Educação Especial. Mais tarde, em 2006, foi promulgada em nosso país a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência – por meio do Decre- to n. 6.949/2009 –, a qual tinha como compromisso garantir e adotar medidas para o acesso das pessoas com deficiência a um sistema edu- cacional inclusivo em todos os níveis, para que esse público não tenha o acesso negado ao ensino regular, independentemente do tipo de atendimento que precisem (BRASIL, 2010). Considerando os objetivos desse atendimento, de acordo com Rodrigues e Batista (2015, p. 4), o principal deles foi garantir o desenvolvimento de políticas que facilitassem o pro- cesso de inclusão dos deficientes no sistema escolar e, acima de tudo a busca por aprimorar e facilitar um serviço que atenda a especificidade de cada aluno, pois esse método visa garantir a per- manência e a inclusão das crianças no ambiente escolar, uma vez que um dos seus princípios é auxiliar na quebra das barreiras do Caso queira saber mais sobre a Declaração de Sa- lamanca, acesse o texto na íntegra no site da bibliote- ca digital da Unesco. Disponível em: https://unesdoc. unesco.org/ark:/48223/ pf0000139394. Acesso em: 27 dez. 2022. Leitura https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000139394 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000139394 https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000139394 90 Práticaspedagógicas inclusivas preconceito no ambiente social, considerando-se que este é um atendimento em turno diferente ao que o aluno está regularmen- te matriculado, caracterizando-se em um atendimento escolar vol- tado para as especificidades individuais do educando. Outro marco em nossa legislação ocorreu em 2008, com a divul- gação do documento Política Nacional de Educação Especial na Pers- pectiva da Educação Inclusiva. Por meio desse documento, a Educação Especial passa a integrar a proposta pedagógica das escolas regulares em todo o país, promovendo o atendimento às necessidades educacio- nais especiais de alunos com deficiência e altas habilidades/superdo- tação. Contudo, esse não é o fim das escolas especiais, pois, em casos específicos em que os estudantes apresentem transtornos funcionais específicos, a Educação Especial continua sendo uma possibilidade de atendimento de forma articulada com o ensino regular, atendendo às NEE desses alunos (BRASIL, 2008). Tratando agora especificamente das salas de recursos, o Decreto n. 7.611/2011 (BRASIL, 2011) dispõe sobre a Educação Especial e o AEE. O documento aponta que a Educação Especial tem como dever garantir os serviços de apoio especializado, de forma a eliminar as barreiras que impeçam os alunos do PAEE de ter acesso ao ensino regular. O documento ainda lista quais são os objetivos do AEE, como podemos ver na Figura 1. Promover condições de acesso, participação e aprendizagem no Ensino Regular, de forma a garantir acesso a serviços de apoio compatíveis com as necessidades de cada estudante. Garantir que as ações da Educação Especial tenham relação com as ações do Ensino Regular. Estimular o desenvolvimento de recursos (didáticos e pedagógicos) que acabem com as barreiras no processo de ensino-aprendizagem. Proporcionar condições que assegurarão a continuidade de estudos de um estudante nos demais níveis, etapas e modalidades de ensino. Objetivos Fonte: Elaborada pela autora com base em Brasil, 2011. Figura 1 Objetivos do AEE Pi xM ar ke t/ Sh ut te rs to ck A sala de recursos e as tecnologias assistivas 91 Com relação à estrutura, ao ambiente e aos recursos que essas salas devem conter, o ideal é que nelas haja equipamentos, móveis e materiais didáticos e pedagógicos que auxiliem no AEE (BRASIL, 2011). Esses materiais são disponibilizados de acordo com a oferta do atendi- mento e o perfil dos estudantes, ou seja, salas que atendem a estudan- tes cegos podem ter materiais diferentes daqueles que atendem aos estudantes surdos ou superdotados, por exemplo. Mais recentemente, o Plano Nacional de Educação (PNE) estabeleceu 20 metas a serem alcançadas na educação do nosso país no prazo de dez anos, entre 2014 e 2024. No que diz respeito à Educação Especial, a Meta 4 esta- beleceu o plano de universalizar para a população em idade escolar com deficiência e superdotação acesso à Educação Básica e ao AEE, preferencial- mente na rede regular de ensino, com a garantia de assegurar um sistema educacional inclusivo, com salas de recursos multifuncionais, classes, esco- las ou serviços especializados, públicos ou conveniados (BRASIL, 2014). Ainda no documento, nas estratégias 4.3 e 4.4, estão previstas a im- plantação de sala de recursos multifuncionais, formação dos professo- res e garantia aos alunos do direito ao AEE por meio do seguinte texto: 4.3) implantar, ao longo deste PNE, salas de recursos multifuncio- nais e fomentar a formação continuada de professores e profes- soras para o atendimento educacional especializado nas escolas urbanas, do campo, indígenas e de comunidades quilombolas; 4.4) garantir atendimento educacional especializado em salas de recur- sos multifuncionais, classes, escolas ou serviços especializados, pú- blicos ou conveniados, nas formas complementar e suplementar, a todos (as) alunos (as) com deficiência, transtornos globais do desen- volvimento e altas habilidades ou superdotação, matriculados na rede pública de educação básica, conforme necessidade identifica- da por meio de avaliação, ouvidos a família e o aluno. (BRASIL, 2014) Assim, podemos compreender que não nos faltam documentos para ressaltar a importância das salas de recursos no atendimento aos estudantes PAEE do nosso país. É importante salientar que esse é um direito tanto de estudantes de escolas públicas quanto das particula- res, visando permitir o acesso e a permanência com qualidade de todos os alunos da Educação Especial na nova perspectiva da educação inclu- siva, possibilitando o acesso efetivo dos alunos em todos os ambientes da escola, sejam eles físicos ou pedagógicos, por meio das adaptações e atendimentos que se façam necessários para sua real inclusão. O curta-metragem Cordas conta a história da ami- zade entre duas crianças que vivem em um orfana- to: Maria, uma garotinha muito especial, e Nicolás, seu novo colega de classe com paralisia cerebral. A pequena, vendo algumas das impossibilidades do amigo, faz de tudo para que ele se divirta e consi- ga brincar, reconfiguran- do os jogos e atividades para isso. Maria celebra a vida do colega, aprende ao mesmo tempo em que ensina e emociona a todos com as possibili- dades do sonho de uma amizade verdadeira. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=4INwx_ tmTKw. Acesso em: 22 dez. 2022. Vídeo https://www.youtube.com/watch?v=4INwx_tmTKw https://www.youtube.com/watch?v=4INwx_tmTKw https://www.youtube.com/watch?v=4INwx_tmTKw 92 Práticas pedagógicas inclusivas 4.2 Atendimento na sala de recursos Vídeo Muitas são as leis, decretos e normativas que asseguram o direito dos estudantes PAEE ao atendimento em salas de recursos especializadas no contraturno do seu período escolar. Mas como será que na prática são esses ambientes e de que forma os atendimentos conseguem viabilizar a real inclusão dos estudantes no ambiente físico e pedagógico? Essa é também uma questão assegurada por nossa legislação, a qual prevê que, para que não ocorressem nem negligência nem omissão no desenvolvimento do modelo inclusivo, deve haver “a disponibilização de recursos e de apoio pedagógico para o atendimento às especificidades dos alunos, público alvo da educação especial matriculados no ensino re- gular” (BRASIL, 2010, p. 5). Desde 2005 vem sendo promovida pela Secretaria de Educação Es- pecial (SEESP) do Ministério da Educação, a organização das salas de recursos em todo território nacional, com o principal objetivo de rea- lizar a efetivação do serviço de AEE em todo o país. Esse programa é destinado às escolas das redes estaduais e municipais de educação e foi criado na intenção de promover um ensino com maior qualidade para alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação, ou seja, os estudantes atualmente considerados como PAEE. Nesse sentido, as antigas classes especiais abrem espaço para um atendimento diferenciado realizado em complementação ao ensino re- gular, no sentido de auxiliar esses estudantes a efetivarem a inclusão escolar. De acordo com Baptista (2011, p. 70), Algumas das vantagens que eram associadas à classe especial podem ser potencializadas na sala de recursos, pois o trabalho com pequenos grupos é estimulado, permitindo melhor acom- panhamento do aluno, favorecendo trajetórias de aprendizagem mais individualizadas sob a supervisão de um docente com for- mação específica. No caso da sala de recursos, a grande vanta- gem é que esse processo tem condições de alternância contínua com aquele desenvolvido na sala de aula comum. Essa medida vem ao encontro da já citada Política Nacional de Edu- cação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva do MEC (BRASIL, 2008), a qual defende que a matrícula dos alunos com NEE deve ser A sala de recursos e as tecnologias assistivas 93 feita preferencialmente na classe comum das escolas regulares em de- trimento de serviços segregados, contando com o AEE para auxiliar no seu desempenho escolar,ou seja, essas modalidades de atendimento não substituem o ensino regular. Nesse sentido, a SEESP vem, desde sua criação em 2005, realizando investimentos e formações para o AEE, proporcionando equipamentos, mobiliários e materiais didático-pedagógicos e de acessibilidade para a organização e o atendimento na sala de recursos multifuncionais (SRM). Nesse período, também têm sido realizadas formações para os professores do AEE, com cursos de capacitação e de aperfeiçoamento sendo oferecidos dentro dos estados e municípios para que os profes- sores possam atualizar suas práticas, rever suas teorias e fomentar a aprendizagem de seus alunos (GONÇALVES, 2021). No entanto, não podemos deixar de considerar que a SRM é uma realidade relativamente nova em todo território nacional, como tam- bém é observado por Oliveira e Leite (2011, p. 198). No contexto de inclusão educacional, a sala de recursos ganha papel fundamental na viabilização do acesso da parcela de alu- nos com NEEs [necessidades educacionais especiais] ao currículo comum. De acordo com as recomendações legais, no caso, as Re- soluções SE Nº 8 (2006) e SE Nº 11 (2008), a sala de recursos com- põe um dos suportes existentes na Educação Especial e oferece serviço de natureza pedagógica, a fim de complementar ou su- plementar o atendimento educacional fornecido na sala comum. Em outras palavras, o processo de inclusão escolar não se resume em apenas inserir o estudante com algum tipo de deficiência, transtor- no ou altas habilidades dentro da sala de aula regular. É necessário o empenho de todos os profissionais da escola para que, em um trabalho conjunto, possam atender as necessidades educacionais dos alunos da Educação Especial, oferecendo diferentes modalidades de atendimen- to. O primeiro que destacaremos é a diferença entre os atendimentos realizados dentro das salas de recursos que se diferenciam em modali- dades do Tipo I e do Tipo II. O que necessariamente diferencia a sala de recursos desses dois tipos é o público que será atendido, os recursos e mobiliários disponí- veis, bem como a especialização do professor. De forma geral, na sala do Tipo II são realizados trabalhos específicos com alunos com ceguei- ra ou baixa visão e com alunos surdos, sendo necessário, nesse último 94 Práticas pedagógicas inclusivas caso, além do professor do AEE, o intérprete em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Para tanto, essa sala receberá os equipamentos (Tipo II) necessários para trabalhar com essa clientela. As salas que trabalham com os demais estudantes PAEE receberão os equipamentos para sa- las Tipo I (GONÇALVES, 2021). A respeito desses materiais, os itens da sala Tipo I são: dois microcom- putadores com gravador de CD; leitor de DVD; dois estabilizadores; lupa eletrônica; scanner; impressora a laser; teclado com colmeia; mouse com entrada para acionador; acionador de pressão; bandinha rítmica; dominó; material dourado; esquema corporal; memória de numerais; tapete que- bra-cabeça; software para comunicação alternativa; sacolão criativo; que- bra-cabeças sobrepostos (sequência lógica); dominó de animais em língua de sinais; memória de antônimos em língua de sinais; lupa manual, lupa conta, fio dobrável e lupa de régua; dominó com textura; plano inclinado; estante para leitura; mesa redonda; cadeiras para computador; cadeiras para mesa redonda; armário de aço; mesa para computador; mesa para impressora; e quadro melamínico (BRASIL, 2009). Já os materiais das salas Tipo II são os mesmos materiais da Tipo I mais os seguintes materiais: impressora braille; máquina braille; re- glete de mesa; punção; Soroban; guia de assinatura; globo terrestre adaptado; kit de desenho geométrico adaptado; calculadora sonora; e software para produção de desenhos gráficos e táteis (BRASIL, 2009). Dito de outro modo, o objetivo das duas modalidades de atendi- mento é prestar um serviço de apoio pedagógico especializado, com- plementando o ensino regular, e voltado para os alunos regularmente matriculados na escola em que a sala de recursos está inserida. Essa sala de recursos deve ser aberta aos demais estudantes da região, es- pecialmente para aquelas onde não há essa modalidade de atendimen- to, com cada estudante sendo direcionado à sala que é compatível com sua necessidade educacional. No caso dos estudantes com altas habilidades ou superdotação, eles se enquadram na sala de Tipo I, específica para essa modalidade no que diz respeito à formação do professor, mas com os mesmos materiais. O que torna o atendimento a esse público diferenciado é a maneira com que o professor organiza os grupos e os encon- tros nessa sala. Devido à característica principal desses estudantes, o ideal é que eles sejam divididos de acordo com a área que tenham A sala de recursos e as tecnologias assistivas 95 mais afinidade – matemática, astronomia, artes, lógica etc. – para que esses encontros tenham como foco principal o desenvolvimento das habilidades por ponto de interesse por meio de projetos e pes- quisas diferenciadas. Logo, nesse tipo de atendimento, é importante que o professor este- ja ciente de que, no caso dos superdotados, “por geralmente aprende- rem mais rápido que os demais colegas e por terem áreas de interesse específicos, nem sempre voltados para os conteúdos do ensino regu- lar, o professor precisa ser bastante dinâmico e criativo para que suas intervenções sejam realmente atraentes” (GONÇALVES, 2021, p. 89). Sugerimos, assim, parcerias com universidades, profissionais apo- sentados que possuam especializações em alguma área de interesse dos estudantes, ONGs e demais instituições locais voltadas para o de- senvolvimento de pesquisas, com o objetivo de proporcionar novas aprendizagens ou o aprofundamento de algum tema de interesse dos estudantes. Outra forma de estimulá-los são participações em com- petições e concursos nacionais e internacionais, como a Olimpíada de Astronomia (OBA), a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), entre outros eventos que venham ao encontro do interesse dos seus alunos. Por mais interessante que você considere a participação em um evento, se não for do interesse dos seus alunos, não fará sentido para eles. Outra opção são passeios, visitas a campo e atividades de pesquisa e exploração em diferentes ambientes acadêmicos ou recreativos para desenvolver o desejo pela pesquisa e incentivar esse público a aprimo- rar seus conhecimentos, ao mesmo tempo em que também desenvol- vem seu relacionamento interpessoal entre os pares. O filme Colegas traz a his- tória de três estudantes com síndrome de Down: Aninha, Stalone e Márcio. Os três são impossibi- litados de realizar suas vontades pelo sistema em que estão inseridos, por isso fogem do instituto em que vivem para per- seguirem seus desejos. O desenvolvimento do filme é recheado pelas aven- turas dos protagonistas, que ajudam a formar um novo olhar sobre a pessoa com síndrome de Down, reforçando o desejo de que ela seja retratada dentro de um contexto de autonomia, superação e aprendizagem, tanto dentro da escola quanto na sociedade. Direção: Marcelo Galvão. Brasil: Gatacine, 2013. Filme 4.3 Elaborando o plano de trabalho individualizado Vídeo O planejamento individualizado pode receber vários nomes e siglas por todo o país: pode ser plano de desenvolvimento individual (PDI), plano de trabalho individualizado (PTI), plano de desenvolvimento escolar (PDE), plano especializado individual (PEI), entre outros. Independentemente do nome dado, estamos nos referindo a um planejamento individualizado 96 Práticas pedagógicas inclusivas que deve ser construído por todos os professores do ensino regular e es- pecializado, com o intuito de fomentar o potencial dos estudantes com NEE, ao mesmo tempo em que procuram colaborar para a superação de suas fragilidades escolares. Em outras palavras, o plano de trabalho no atendimento especializado deve ser individual, ou seja, oprofessor deve considerar um planejamento para cada estudante tendo em vista suas di- ficuldades, limitações e todo o seu potencial a ser desenvolvido. Em sua prática de sala de aula, sugerimos que, ao receber uma avaliação de um estudante com NEE, é preciso respeitar as necessidades individuais de cada aluno, consciente de que o planejamento deve atender as necessi- dades individuais do estudante e não as expectativas docentes. Não se pode agir de modo automático apenas considerando a patologia, o diagnóstico ou a conclusão do especialista que realizou o laudo, pois assim criamos um estereótipo de como aquele aluno vai agir, responder ou compreender de- terminado conteúdo. Nossa legislação nacional ressalta que, com relação ao plano de trabalho ou plano pedagógico, este deve levar em conta as características individuais de cada aluno, contendo os objetivos, as estratégias que serão utilizadas e as atividades a serem desenvolvidas, visando sempre proporcionar uma melhor adaptação e compreensão dos conteúdos pelos alu- nos, na sala comum. (BRASIL, 2007) Daí a importância de, além de ler os laudos/avaliações, conversar com o estudante e realizar uma sondagem pedagógica aluno a aluno, cons- truindo uma análise de suas necessidades e características, com o objetivo de identificar as dificuldades, habilidades e os conhecimentos prévios que esse estudante domina, pois será por meio dessa conversa inicial e dessa sondagem que o professor poderá identificar os pontos que precisarão ser trabalhados academicamente nos atendimentos especializados. Falando agora sobre a produção desse documento, ele deve conter os objetivos de trabalho com o estudante, o prazo de sua realização, as metas e estratégias que serão utilizadas para atingi-los, bem como a for- ma com que o estudante será avaliado. Essa última, também deve ser adaptada e pode ser realizada tanto pelo professor do AEE, que pode auxiliar o professor do ensino regular, quanto pelo professor regente, que pode flexibilizar sua forma de verificar a aprendizagem dos alunos. Nesse sentido, podemos compreender que o plano individualizado não é um documento único e rígido, mas sim algo que deve ser revisto pelos professores periodicamente, considerando que situações não pre- Sempre amigos retrata a amizade e as dificuldades enfrentadas por dois garotos sob a narrativa de Kevin, um garoto extremamente inteligente que possui uma doença degenerativa, devido a isso Kevin acaba ficando isolado do convívio social, restrito às vivências que sua imaginação lhe proporciona. O segundo protagonista é Max, um gigante de 13 anos que apresenta um desem- penho muito abaixo do esperado para sua idade e ano escolar e, por esse motivo, é discriminado pelos colegas. Contudo, a partir do encontro dos personagens, nasce uma genuína amizade e, com ela, uma relação de inte- ligência e cumplicidade que dá forças para juntos lutarem contra as injusti- ças que vivenciam. Direção: Peter Chelsom. EUA: Chaos Productions, 1998. Filme A sala de recursos e as tecnologias assistivas 97 vistas podem ocorrer inicialmente ou objetivos propostos a longo prazo podem ser construídos mais rápido do que o planejado. Entretanto, antes de iniciar a elaboração do plano individual, Gon- çalves (2021) sugere cinco etapas imprescindíveis para sua organização como indicado no Quadro 1. Quadro 1 Etapas de organização do PTI Etapa Descrição Conhecer o aluno Além de ler os laudos, relatórios e avaliações, é importante que o professor dialogue com seu aluno e construa um perfil com suas habilidades e necessidades. Conhecer sua história, seus gostos, seus conhecimentos já adquiridos e o que ele precisa aprender é fundamental para a elaboração das metas que o docente pretende que ele atinja. Estabelecer metas possíveis Essa etapa auxilia na definição de metas de curto e médio prazo que estimulem o estudante a continuar se esforçando. Não consideraremos as metas a longo prazo, tendo em vista que o plano individual deve ser revisto e reelaborado pelo menos a cada dois ou três meses, ou seja, em uma rotina escolar bimestral ou trimestral. Elaborar um cronograma Após estabelecer as metas, é preciso definir quando cada uma delas será executada. É mui- to importante que as datas planejadas sejam realizadas, pois a não realização das atividades pode deixar os estudantes pouco comprometidos com os objetivos. Planejar as estratégias Essa etapa se refere a elaboração das atividades que o professor realizará para atingir as metas e objetivos propostos. Passeios, excursões, visitas a museus e demais locais educa- tivos são muito bem-vindos, assim como parcerias com outros profissionais que podem ajudar no desenvolvimento de algum conceito que o docente não domine. Fazer a avaliação Esse não pode ser considerado o ponto final do seu plano, mas um pontapé inicial para novas conquistas, considerando, agora, tudo o que o estudante já desenvolveu. Assim, é importante que o professor registre os avanços do aluno por meio de materiais, relatos e demais atividades, a fim de repensar seu planejamento, caso seja possível. Fonte: Elaborado pela autora com base em Gonçalves, 2021. É muito importante considerar que os seus atendimentos ou as suas aulas devem ser momentos de aprendizagem significativa e dinâmica, pois de nada adianta elaborar um planejamento individual se esse for construído com atividades enfadonhas e repetitivas. Logo, é preciso construir o aprendizado do seu aluno de forma envolvente, dinâmica, concreta e contextualizada, trazendo experimentos práticos, problemas reais, atividades que fomentem sua criatividade e que realmente contri- buam para o desenvolvimento do seu potencial. A seguir apresentaremos um exemplo de como esse plano pode ser elaborado. Contudo, esta é apenas uma sugestão que pode (e deve) ser al- terada de acordo com as necessidades educacionais dos seus alunos, con- siderando suas características pessoais e as suas áreas de maior interesse, independentemente da sua condição. Por isso, ressaltamos mais uma vez a 98 Práticas pedagógicas inclusivas importância de conversar com os estudantes e conhecer mais a respeito de- les antes de elaborar o plano. Valorizar suas características, respeitar seus conhecimentos prévios e procurar desenvolver seu potencial de acordo com o seu interesse é o que realmente fará seu plano ser individualizado. Quadro 2 Exemplo de plano Plano de trabalho individual Identificação: Nome: Data de nascimento: Grupo/ano: Período: Desenvolvimento do plano Diagnóstico Descrição do caso Equipe multidisciplinar Medidas adaptativas – ações pedagógicas realizadas na escola Área do conhecimento Objetivos de aprendizagem Período Estratégia adaptada Instrumento de avaliação Ciências Matemática Linguagem Geografia História Artes Educação física Fonte: Elaborado pela autora. A sala de recursos e as tecnologias assistivas 99 Lembrando que esse é apenas um modelo e, de acordo com as ne- cessidades dos seus estudantes, pode ser alterado inserindo novas es- pecificações, suprimindo outras e transformando esse documento em um recurso pedagógico para o planejamento das suas ações. 4.4 Formação do professor e organização do AEE Vídeo A respeito da formação dos professores para atuarem no AEE, é im- portante ressaltar que muito também tem sido modificado nessa área, sobretudo com relação à formação dos docentes. Atualmente, a formação inicial do professor deve ser em um curso de pedagogia com habilitação em Educação Especial ou de licenciatura com alguma especialização referente à Educação Especial. A formação inicial em licenciatura geralmente apresenta uma única disciplina espe- cífica durante toda a formação, ficando evidente que essa carga horária não é o suficiente para formar um profissional especializado diante da diversidade encontrada nas salas de aula, assim uma especialização que aprofunde esses conhecimentos se faz essencial para a melhorpreparação do docente. Em outras palavras, os professores que esco- lhem atuar nessa modalidade de ensino precisam realizar uma pós- -graduação a nível de especialização em Educação Especial, ou realizar um curso em nível de licenciatura específico em Educação Especial. Contudo, é preciso entender que ainda que o profissional curse uma especialização ela não será o suficiente para entender e atender a todas as demandas com as quais ele irá se deparar no contexto escolar. Os cursos de especialização aparecem como auxiliares, mas não são suficientes para cobrir todas as demandas necessárias. Assim, como em qualquer outra área da educação, é necessário complementar a sua formação com novos cursos, capacitações e outras vias de trans- missão de conhecimentos e trocas de ideias com colegas mais expe- rientes, pois novos diagnósticos vão surgindo, novas informações e novos métodos pedagógicos são criados e precisamos estar sempre nos atualizando, uma vez que não podemos mais lecionar como há 20 ou 30 anos atrás. Nas palavras de Facion (2012, p. 166), 100 Práticas pedagógicas inclusivas acreditamos ser de extrema relevância preparar o professor para os novos desafios da educação. A promoção de uma postura re- flexiva e crítica, por meio da apropriação de conhecimentos, pro- porcionará a esse profissional condições de se posicionar e atuar com responsabilidade e autonomia, reivindicando uma educa- ção que respeite os ideais de uma sociedade justa e democrática. De acordo com Vieira (2013) é emergente a necessidade de inves- timentos na formação continuada dos professores, pois a formação inicial que lhes é transmitida não tem sido o suficiente para oferecer condições para lidar com as questões cotidianas no âmbito escolar. A nível de legislação, de forma geral, a formação mínima necessária para o professor do atendimento especializado na sala de recursos é formação a nível de licenciatura em Educação Especial, ou formação inicial em licenciatura com especialização em Educação Especial. Por meio da legislação nacional, podemos observar que a formação de pro- fessores para o atendimento de alunos que são PAEE é abordada nas políticas destacando que eles devem ser capacitados e especializados para atender às necessidades educacionais dos alunos, favorecendo a inclusão escolar (BRASIL, 2001). As oportunidades de formação continuada, inclusive em nível de especialização, devem ser ofertadas pelas instâncias educacionais da União, do Distrito Federal, dos estados e dos municípios (BRASIL, 2001). Acerca dessas considerações, Prieto (2006) aponta para a necessidade de formação continuada dos professores, destacando a importância de investimentos na qualidade de ensino. Para esse autor (2006, p. 50), a formação continuada do professor deve ser um compromis- so dos sistemas de ensino comprometidos com a qualidade do ensino que, nessa perspectiva, devem assegurar que sejam aptos a elaborar e a implantar novas propostas e práticas de ensino para responder às características de seus alunos, in- cluindo aquelas evidenciadas pelos alunos com necessidades educacionais especiais. Assim, a formação especializada do professor é extremamente ne- cessária, considerando que – de acordo com o documento elaborado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) – as atribuições do professor de AEE contemplam muitos requisitos específicos, como veremos na figura a seguir. A sala de recursos e as tecnologias assistivas 101 Definir cronograma e atividades para atender o estudante. Elaborar, executar e avaliar o plano de AEE do estudante. Organizar estratégias pedagógicas; identificar e produzir recursos acessíveis. Ensinar e desenvolver atividades próprias do AEE 1 . Algumas dessas ativida- des são: Libras, braille, orientação e mobilidade, Língua Portuguesa para alunos surdos, informática acessível, Comunicação Alternativa e Aumentativa, atividades de desenvol- vimento das habilidades mentais superiores e ativi- dades de enriquecimento curricular. 1 Acompanhar a funcionalidade e usabilidade dos recursos de tecnologia assistiva na sala de aula comum e demais ambientes escolares. Articular com professores das classes comuns, nas diferentes etapas e modalidades de ensino. Orientar os professores do Ensino Regular e as famílias da comunidade escolar sobre a aplicabilidade e funcionalidade dos recursos utilizados pelo estudante. Relacionar os conhecimentos referentes às necessidades dos alunos, vindas das áreas da saúde, assistência, trabalho etc. Atribuições no AEE Figura 2 Atribuições do professor no AEE Pi xM ar ke t/ Sh ut te rs to ck Fonte: Elaborada pela autora com base em Brasil, 2015. Nesse sentido, podemos perceber que é fundamental que, para assumir alguma modalidade de AEE, o professor tenha uma forma- ção mínima voltada para essa especialidade para que possa junto aos outros profissionais da escola e demais profissionais que atendem a esse aluno – seja na área da educação ou da saúde – desenvolver um trabalho efetivo. Acerca da organização dos atendimentos, é importante lembrar que nem todas as escolas possuem salas de recursos, apesar de, como vi- mos, elas terem sido institucionalizadas desde 2008 em todo o território nacional. Em casos em que o estudante não encontra essa modalidade na escola onde frequenta o ensino regular, os alunos devem se deslocar até as instituições onde a oferta da sala de recursos é disponibilizada. 102 Práticas pedagógicas inclusivas Essa modalidade deve ser oferecida tanto no serviço público quanto no particular. As escolas particulares também vêm se mobilizando para atender a essa demanda com iniciativas de criação de salas de recursos específicas para o desenvolvimento do potencial dos seus alunos com di- ficuldades de aprendizagem e dos superdotados. Vale ressaltar que de forma alguma pode ser cobrado qualquer valor ou taxa adicional por ofe- recer um atendimento especializado em sala de recursos ou qualquer ou- tro tipo de serviço para algum estudante PAEE, considerando que o direito a estar incluído em sala de aula e receber atendimento nesses ambientes é assegurado por lei. Contudo, de acordo com Omote (2004, p. 6): a mera inserção do aluno deficiente em classe comum não pode ser confundida com a inclusão. Na verdade, toda a escola precisa ter caráter inclusivo nas suas características e no funcionamento para que sejam matriculados alunos deficientes e sejam acolhi- dos. Uma escola que só busca arranjo especial determinado pela presença de algum aluno deficiente e na qual a adequação é feita para as necessidades particulares dele não pode ser considerada propriamente inclusiva. Daí a importância de o professor se preparar academicamente e de buscar junto à equipe pedagógica que o assessora todos os documen- tos que compõem a vida escolar do estudante, como laudos, avaliações, diagnósticos e possíveis relatórios de atendimentos anteriores. O diálo- go com a família também é de extrema relevância para saber sobre as atualizações de novos exames, atualizações e atendimentos do estudan- te. Outro ponto que já evidenciamos é o diálogo aberto entre professor e aluno com o intuito de compreender suas necessidades atuais e pro- porcionar o melhor desenvolvimento de sua potencialidade, respeitando suas fragilidades. Também é fundamental que o professor do atendimento mantenha um diálogo aberto com os demais docentes da escola, perguntando o que já foi realizado, no sentido de auxiliar o estudante a superar suas dificuldades ou, pelo menos, demonstrar seu aprendizado com provas adaptadas, materiais diversificados ou planos individuais. Essa conver- sa é imprescindível, pois o bom encaminhamento e desenvolvimento escolar do estudante incluso não é uma responsabilidade apenas do professor do atendimento especializado, mas de toda a escola em que o aluno está inserido, e isso inclui todo o grupo de professores,a equi- pe pedagógica, funcionários de apoio e a gestão escolar. A sala de recursos e as tecnologias assistivas 103 Depois de coletar todas as informações necessárias, o professor deve pensar em organizar a periodicidade dos atendimentos, bem como a divi- são de seus grupos de acordo com as características de seus alunos, seu nível de dificuldade, diagnóstico, idade ou mesmo ponto de interesses. Como cada região tem sua organização de hora-atividade, permanên- cia, ou momento de planejamento, os dias de atendimento devem estar conforme as horas de trabalho efetivo com os estudantes. Alunos com muita dificuldade de concentração nem sempre conseguem se concen- trar em grupos com muitas pessoas, assim é importante que o professor considere também a possibilidade de alguns horários de atendimento individual, quando achar necessário. Em geral, os estudantes acabam frequentando o atendimento entre duas ou três vezes por semana por períodos de duas horas, em grupos de quatro a cinco estudantes, mas, dependendo do número de alunos que o professor atende e da necessi- dade de cada um, essa frequência pode ser maior ou menor. Quadro 3 Exemplo do planejamento de atendimentos Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Grupo 1 Grupo 3 Grupo 1 Grupo 3 Atendimento individual Intervalo Intervalo Intervalo Intervalo Intervalo Grupo 2 Grupo 4 Grupo 2 Grupo 4 Hora-atividade ou permanência Fonte: Elaborado pela autora. No Quadro 3, por exemplo, é possível vermos uma sugestão de organi- zação de atendimentos. Nesse exemplo, a sexta-feira é um dia reservado para planejamento e atendimentos individuais momentos que, especial- mente quando trabalhamos com estudantes PAEE, são essenciais. No artigo Formação de professora e a educação inclusiva, a autora Marlene A. Baú ressalta que a formação de professores é um dos compromissos das instituições de ensino tanto públicas quanto privadas, a fim de desenvolver habilidades e compe- tências necessárias para a atuação do professor da Educação Especial. Essa pesqui- sa aponta alguns ajustes que precisam ser realizados nesse contexto e apresenta um novo ponto de vista para a compreensão dessa importante área do processo de aprendizagem daqueles que trabalham diferente com os estudantes com NEE. Acesso em: 22 dez. 2022. https://periodicos.utfpr.edu.br/recit/article/download/4227/Marlenec Artigo https://periodicos.utfpr.edu.br/recit/article/download/4227/Marlenec 104 Práticas pedagógicas inclusivas 4.5 Tecnologias assistivas e comunicação alternativa Vídeo Nesta seção discutiremos as tecnologias assistivas e os recursos de comunicação alternativas que contribuem para o bem-estar das pessoas com algum tipo de necessidade especial. Contextualizando as tecnologias que dão assistência e têm por objetivo promover um melhor conforto ou bem-estar a essas pessoas seja para se locomoverem ou se comunicarem, percebemos que esses recursos estão mais próximos do que podemos imaginar e que, muitas vezes, eles não atendem apenas a demanda da Educação Especial. De acordo com Manzini (2000, p. 82): Os recursos de tecnologia assistiva estão muito próximos do nosso dia-a-dia. Ora eles nos causam impacto devido à tecno- logia que apresentam, ora passam quase despercebidos. Para exemplificar, podemos chamar de tecnologia assistiva uma ben- gala, utilizada por nossos avós para proporcionar conforto e se- gurança no momento de caminhar, bem como um aparelho de amplificação utilizado por uma pessoa com surdez moderada ou mesmo veículo adaptado para uma pessoa com deficiência. Logo, a falta de apoio financeiro não pode ser uma desculpa para deixar de realizar pequenas adaptações – especialmente no contex- to escolar –, que podem facilitar o dia a dia educacional de nossos estudantes. É claro que existem recursos que necessitam de investi- mentos financeiros mais significativos para que tenhamos acesso a eles, mas muitas vezes materiais pensados e construídos pelo pró- prio professor e voltados às necessidades específicas do estudante podem auxiliá-lo e aprimorar suas habilidades e melhorar seu apro- veitamento em sala de aula. Dentre essas adaptações simples, podemos citar: suportes para vi- sualização de textos ou livros; fixação do papel ou do caderno na mesa com fitas adesivas ou grampos para que não se movimentem sobre a carteira; engrossadores de lápis ou caneta confeccionados com espon- jas enroladas ou material emborrachado; grampos de roupa apoiando o lápis na mão do estudante; substituição da mesa por pranchas de madeira ou acrílico fixadas na cadeira de rodas para aqueles com limi- tações na mobilidade; entre outras inúmeras possibilidades. A sala de recursos e as tecnologias assistivas 105 Nesse sentido podemos perceber que nem sempre uma tecnologia as- sistiva estará voltada apenas às necessidades educacionais. Na definição de Cook, Polgar e Encarnação (2020), a tecnologia pode servir a dois gran- des objetivos: de ajuda e de ensino. Ainda para os autores, a tecnologia que ajuda uma pessoa a realizar uma atividade funcional é a denominada tecnologia assistiva (TA), que pode ser usada como parte de um processo educativo ou de reabilitação, assim a tecnologia é usada como uma ferra- menta para esses processos em vez de ser uma parte da pessoa para a realização de atividades da vida cotidiana e funcional. O conceito de TA ainda pode ser subdividido em alta e baixa tecnologia. A baixa tecnologia se define por serem de baixo custo, simples e fáceis de fazer como as que destacamos anteriormente. A alta tecnologia se refere aos dispositivos que são caros e mais difíceis de serem construídos e ob- tidos. De acordo com essa distinção, os exemplos de dispositivos de baixa tecnologia vão desde um simples lápis, livros ou utensílios de uso diários adaptados. Já as cadeiras de rodas motorizadas, os aparelhos auditivos sofisticados e os aparelhos de comunicação eletrônicos são exemplos de alta tecnologia (COOK; POLGAR; ENCARNAÇÃO, 2020). Sobre a terceira questão conceitual, Verussa (2009) nos traz a definição de tecnologia hard, que se refere aos equipamentos que podem ser utilizados em sala de aula. A principal característica da tecnologia hard diz respeito à dispo- nibilidade dos dispositivos e equipamentos, ou seja, quando os componentes a serem utilizados estão facilmente disponíveis e podem ser comprados e montados; isso inclui tudo, desde uma simples colher adaptada para ir à boca até computadores e soft- wares (VERUSSA, 2009, p. 22). A quarta questão conceitual, segundo Cook, Polgar e Encarnação (2020), refere-se à diferenciação entre equipamentos ou aparelhos (appliances) e instrumentos ou ferramentas (tools). De acordo com os autores, um equipamento é um dispositivo que proporciona benefí- cios para o indivíduo independentemente da sua habilidade e nível de deficiência. As ferramentas, por outro lado, exigirão o desenvolvi- mento de competências para a sua utilização. Em outras palavras, o fator determinante na distinção de uma ferramenta e de um aparelho é a de que a qualidade do resultado obtido usando uma ferramenta depende da habilidade do usuário. Por exemplo, os óculos e uma ca- deira adaptada para o uso de um computador são aparelhos, porque 106 Práticas pedagógicas inclusivas a qualidade do resultado funcional não depende da habilidade do in- divíduo. Por outro lado, o êxito de uma manobra de uma cadeira de rodas é classificado como uma ferramenta. Em alguns casos, o dispositivo pode ser um instrumento ou um apa- relho dependendo de como ele é criado para ser usado, como um sensor eletrônico usado para o controle de luzes, por exemplo, que é utilizado para o auxílio na vida diária de uma pessoa com deficiência. Esse exige um conjunto relativamente complexo de circuitos eletrônicos que são chamados de alta tecnologia. No entanto, esse sistema pode ser confi- gurado de modo que a única qualificação necessária para sua operação seja ligá-lo e desligá-lo, caso em que pode ser considerado um dispositi-vo (COOK; POLGAR; ENCARNAÇÃO, 2020). Em outros casos, se esse sis- tema exige que o usuário tenha que utilizar um sofisticado método para operá-lo, esse sistema pode ser considerado uma ferramenta. A quinta questão conceitual apresentada pelos autores Cook, Polgar e Encarnação (2020) se refere ao grau de ajuda – parcial ou total – for- necido pelos recursos ou equipamentos de tecnologia assistiva e que foi concebido para satisfazer necessidades de um grupo de pessoas. Um exemplo de ajuda parcial são os dispositivos que auxiliam ou que melhoram a capacidade de um indivíduo para executar uma tarefa. No exemplo dos autores, um indivíduo com paralisia cerebral pode ser ca- paz de falar, mas, em algumas ocasiões, o seu discurso pode ser de di- fícil compreensão, sendo necessário o uso de prancha de comunicação. Assim, podemos perceber que a melhor TA para um estudante é aquela que corresponde às suas necessidades e promove sua autono- mia e independência. Para isso, é importante que você professor anali- se e compreenda quais são as necessidades específicas do seu aluno e que, posteriormente, pesquise e planeje que tipo de recursos ou adap- tações serão mais eficientes na promoção de sua aprendizagem. Pensando na prática O filme Amy – Uma vida pelas crianças nos apre- senta a história de Amy, uma mulher que passou a ser muito infeliz após a morte de seu filho. Ela, então, deixa seu marido para se tornar professora em uma escola para crian- ças deficientes, com um novo ímpeto de vida. É por meio das descobertas dessa adorável persona- gem, a qual descobre uma nova razão para viver, que o enredo emociona os espectadores. Direção: Vincent McEveety. EUA: Walt Disney Production, 1981. Filme Para a construção desta análise, sugerimos algumas dicas: • converse com seu aluno sobre suas dificuldades, sejam elas físicas ou intelectuais; • observe se ele realiza movimento de pinça, se consegue ou se tem difi- culdades em segurar o lápis; • perceba se ele tem agilidade em copiar o que é solicitado pelos professores. (Continua) A sala de recursos e as tecnologias assistivas 107 Dependendo da necessidade do laudo do estudante, é possível solicitar junto à secretaria de educação especial um professor de apoio. • identifique os conhecimentos prévios do estudante em relação a todas as disciplinas do ensino comum, pode ser que também seja necessário re- capitular alguns conteúdos, ou adaptá-los para o melhor entendimento do estudante. Sobre o posicionamento em sala de aula e adaptação de atividades: • posicione alunos cadeirantes preferencialmente perto da porta, o que é muito importante caso ele, ou todos os outros alunos, precisem rapida- mente deixar o local; • posicione os alunos com deficiência visual o mais próximo possível do do- cente, para que ele consiga, de modo mais fácil, captar os ensinamentos pelos outros sentidos. Esteja atento também às adaptações de atividades que utilizem mais os sentidos táteis, de forma a serem desenvolvidas, para que esses estudantes possam compreendê-las de modo mais fácil, ou à adaptação de materiais com fonte maior para aqueles com acuidade visual. • atente-se para o posicionamento do intérprete de Libras, caso haja alu- nos surdos na sala de aula, pois também é indicado que este também fique perto da porta, tanto para auxiliar o aluno com deficiência auditiva (em casos de emergência) quanto para não ficar na frente do quadro ou de outro aluno da turma. Ainda sobre os estudantes com deficiência auditiva, caso haja algum que utilize aparelhos ou implantes, procure saber mais informações sobre o apa- relho: como as manutenções são feitas; de que forma se ouve o utilizando etc.; tudo isso para que possa verificar qual é a melhor forma de auxiliar esse aluno. Criar campanhas de instrução com os demais alunos acerca de como se comunicar com ele é também um ótimo apoio. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste capítulo, compreendemos um pouco mais sobre os aspectos legais e pedagógicos do AEE, que deve ser ofertado aos estudantes PAEE nas salas de recursos utilizando as tecnologias assistivas, as quais contri- buem para sua inclusão dentro do sistema de ensino regular. Neste sentido, observamos que a legislação assegura o direito ao aces- so dos estudantes com algum tipo de NEE nas salas de aula do ensino regular e nas salas de recursos, para que possam frequentar o AEE de forma integrada e ativa. 108 Práticas pedagógicas inclusivas Observamos alguns aspectos sobre a formação do profissional que atua nesse atendimento e como ele pode auxiliar os professores do en- sino regular e demais profissionais da escola a realizarem adaptações simples que podem ajudar a melhorar o acesso, a permanência e o su- cesso do estudante incluso; além de como o docente pode apresentar sua função no atendimento especializado elaborando um plano indivi- dualizado e um cronograma de atendimento. Além dessas questões, você também percebeu o quanto o uso de al- guns materiais simples pode ser extremamente importante para a adap- tação de recursos e atividades que fazem com que o estudante incluso tenha mais autonomia no desenvolvimento das suas atividades e se sinta realmente integrado ao ensino regular. ATIVIDADES Atividade 1 Pensando nos estudantes superdotados, elabore uma lista com cinco atividades que podem ser realizadas com o objetivo de desenvolver o potencial de um estudante que tem como foco de interesse as artes cênicas. Atividade 2 Crie um mapa conceitual tendo como tema o plano individualizado. Insira palavras que ajudem o professor a lembrar dos aspectos mais importantes antes, durante e depois da elaboração desse plano. Atividade 3 De acordo com os autores estudados, diferencie as tecnologias assistivas de baixa e alta tecnologia. A sala de recursos e as tecnologias assistivas 109 REFERÊNCIAS ANJOS, R. S. O atendimento educacional especializado em salas de recursos. Revista Fórum Identidades, v. 9, n. 9, jun. 2011. BAPTISTA, C. R. Ação pedagógica e educação especial: a sala de recursos como prioridade na oferta de serviços especializados. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 17, p. 59-76, ago. 2011. BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 5 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao. htm. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Decreto n. 6.096, de 24 de abril de 2007. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 25 abr. 2007. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007- 2010/2007/decreto/d6096.htm. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Decreto n. 7.611, de 17 de novembro de 2011. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 18 nov. 2011. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 23 dez. 1996. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394. htm. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Lei n. 10.172, de 9 de janeiro de 2001. Diário Oficial da União. Poder Legislativo, Brasília, DF, 10 jan. 2001. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ leis_2001/l10172.htm. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Lei n. 13.005, de 25 de junho de 2014. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 26 jun. 2004. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011- 2014/2014/lei/l13005.htm. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Nota técnica n. 42, de 16 de junho de 2015. Brasília: Ministério da Educação, 2015. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=17656-secadi-nt42-orientacoes-aos-sistemas-de-ensino- sobre-destinacao-dos-itens-srm&category_slug=junho-2015-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 12 dez. 2022. BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: Ministério da Educação, jan.2008. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ politicaeducespecial.pdf. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Resolução n. 4, de 2 de outubro de 2009. Brasília: Ministério da Educação, out. 2009. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf. Acesso em: 23 dez. 2022. BRASIL. Resolução n. 4, de 13 de junho de 2010. Brasília: Ministério da Educação, 2010. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_10.pdf. Acesso em: 23 dez. 2022. COOK, A.; POLGAR, J.; ENCARNAÇÃO, P. Assistive Technologies: Principles and Practice. 5. ed. Missouri: Mosby Elsevier, 2020. FACION, J. R. (org.). Inclusão escolar e suas implicações. 1. ed. Curitiba: InterSaberes, 2012. GLAT, R. A integração social dos portadores de deficiências: uma reflexão. Rio de Janeiro: 7Letras, 1995. GONÇALVES, P. Atendimento educacional especializado. Curitiba: Intersaberes, 2021. MANZINI, E. J. Educação Especial: temas atuais. Marília: Unesp Marília Publicações, 2000. Disponível em: https://ebooks.marilia.unesp.br/index.php/lab_editorial/catalog/book/133. Acesso em: 23 dez. 2022. MIRANDA, A. B. Educação Especial no Brasil: desenvolvimento histórico. Cadernos de História da Educação, n. 7, p. 29-44, dez. 2008. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6096.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2007/decreto/d6096.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10172.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13005.htm http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=17656-secadi-nt42-orientacoes-aos-sistemas-de-ensino-sobre-destinacao-dos-itens-srm&category_slug=junho-2015-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=17656-secadi-nt42-orientacoes-aos-sistemas-de-ensino-sobre-destinacao-dos-itens-srm&category_slug=junho-2015-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=17656-secadi-nt42-orientacoes-aos-sistemas-de-ensino-sobre-destinacao-dos-itens-srm&category_slug=junho-2015-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_10.pdf https://ebooks.marilia.unesp.br/index.php/lab_editorial/catalog/book/133 110 Práticas pedagógicas inclusivas OLIVEIRA, M. A.; LEITE, L. P. Educação inclusiva: análise e intervenção em uma sala de recursos. Paideia, v. 21, n. 49, p. 197-205, ago. 2011. OMOTE, S. Estigma no tempo da inclusão. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 10, n. 3, p. 287-308, dez. 2004. PRIETO, R. G. Atendimento escolar de alunos com necessidades educacionais especiais: um olhar sobre as políticas públicas de educação no Brasil. In: ARANTES, V. A. (org.). Inclusão escolar: pontos e contrapontos. 7. ed. São Paulo: Summus, 2006. RODRIGUES, S. O.; BATISTA, J. O. A importância da sala de recursos multifuncional para alunos público alvo da educação especial. In: 2º FÓRUM PARAENSE E EDUCAÇÃO ESPECIAL e 1º FÓRUM PERMANENTE DE EDUCAÇÃO ESPECIAL DO SUL E SUDESTE DO PARÁ. Anais [...] Marabá: UNIFESSPA, nov. 2015. VERUSSA, E. O. Tecnologia assistiva para o ensino de alunos com deficiência: um estudo com professores do ensino fundamental. 2009. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de pós-graduação em Educação. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo. VIEIRA, C. T. M. O atendimento nas salas de recursos multifuncionais aos alunos com deficiência intelectual na rede municipal de Macapá. In: 8º ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PESQUISADORES EM EDUCAÇÃO ESPECIAL. Anais [...] Londrina: UEL, nov. 2013. Práticas de inclusão e a família 111 5 Práticas de inclusão e a família Neste capítulo veremos quem pode avaliar e como devem ser reali- zadas as avaliações dos alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE), respeitando a especialização de cada profissional e criando uma equipe que possa contribuir para seu desenvolvimento. Também enten- deremos como deve ocorrer a avaliação na Educação Especial, lembran- do que cada condição implica um modelo de adaptação diferente, mas sempre tendo em vista que devemos avaliar o estudante com relação aos seus avanços, realizando práticas de avaliação inclusivas que não se tor- nem mais uma barreira. Sobre as adaptações físicas, compreenderemos o que cabe à gestão escolar, como adaptações de maior porte, construção de rampas e refor- mas de espaços. Veremos que pequenas mudanças no dia a dia escolar podem contribuir significativamente para o bem-estar do aluno incluso. Observaremos ainda que a participação da família no processo de inclu- são é essencial para que o aluno se sinta seguro dentro do espaço escolar e que saiba que pode contar com os agentes escolares para o desenvolvi- mento da sua aprendizagem junto com sua família. Com o estudo deste capítulo, você será capaz de: • reconhecer a necessidade do processo de avaliação de alunos com NEE; • identificar estratégias de avaliação na Educação Especial; • analisar a relevância de práticas de avaliação inclusivas; • identificar necessidades de alteração de espaços escolares inclusivos; • reconhecer a importância da participação da família no processo de inclusão. Objetivos de aprendizagem an to ni od ia z/ Sh ut te rs to ck an to ni od ia z/ Sh ut te rs to ck 5.1 Como avaliar/diagnosticar alunos com NEE Vídeo O processo de avaliação diagnóstica para alunos com NEE deve sempre ser realizado por uma equipe multiprofissional, independen- temente da suspeita diagnóstica. É importante ressaltar que não cabe aos professores do ensino regular ou do Atendimento Educacional Especializado (AEE) realizar a avaliação diagnóstica desses estudan- tes, já que isso deve ser sempre realizado por uma equipe médica, psicológica ou neuropsicopedagógica, dependendo da investigação que será realizada. O que pode ocorrer dentro da escola é a realização de uma avalia- ção pedagógica em contexto, direcionada aos aspectos curriculares e com o intuito de observar os conteúdos que o estudante já domina e aqueles nos quais ainda apresenta dificuldades. De maneira alguma cabe aos agentes escolares informar aos pais suas hipóteses diagnós- ticas sem nenhum tipo de fundamentação. O mais recomendado é conversar e orientar a família a procurar ajuda especializada. É sem- pre muito importante informar aos pais o motivo da conversa, para que não sejam pegos de surpresa e para dar-lhes a orientação corre- ta. Entre esses motivos, podemos argumentar o fato de o estudante ainda não ter atingido o resultado esperado – quando comparado com os colegas de turma em desenvolvimento padrão – ou, no caso dos estudantes da Educação Infantil, o fato de a criança não estar apresentando os marcos do desenvolvi- mento infantil esperados para a idade. 112112 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas No caso dos estudantes com altas habilidades ou superdotados, para sua inserção nas salas de recursos e direito à enriquecimento curricular – no caso, a aceleração de série e plano individualizado – não é preciso necessariamente uma avaliação neuropsicopedagógica multiprofissio- nal, sendo possível realizar apenas o processo de identificação de altas habilidades ou superdotação. Para isso, os professores do AEE ou peda- gogos do espaçoescolar podem fazer essa identificação e construir um relatório pedagógico descrevendo as áreas de maior potencialidade dos discentes, sempre contando com a ajuda dos pais e dos professores re- gulares. Contudo, antes de dar início a esse processo, o primeiro passo é solicitar a autorização das famílias, pois, ainda que possamos considerar que estamos fazendo algo positivo ao indicar um aluno para essa mo- dalidade de atendimento, se a família não estiver de acordo, o processo não pode ser realizado. Há vários inventários e questionários que podem ser encontrados para realizar essa identificação, entre eles podemos citar a triagem de indicadores de altas habilidades/superdotação – também conhecida como TIAH/S –, que é utilizada para um processo de nomeação entre os pares, ou seja, os próprios colegas indicam aqueles que mais se destacam em determinados assuntos ou matérias (NAKANO, 2021). Outro método é o inventário para identificação de indicadores de altas habilidades/superdotação, que é um questionário preenchido pelos pais, pelo estudante e pelos professores com o objetivo de ve- rificar se o estudante apresenta comportamento de superdotação (PÉREZ; FREITAS, 2016). Estudantes com transtorno de aprendizagem – considerado um tipo de transtorno do neurodesenvolvimento –, normalmente têm dificulda- des de aquisição, manutenção ou aplicação de habilidades ou conjuntos de informações específicas, como estudantes com dislexia, disgrafia, di- sortografia e discalculia. Para a avaliação nesses casos é essencial que a equipe avaliadora seja composta de psicólogos e psicopedagogos, consi- derando que essa é uma dificuldade de aprendizagem. Além disso, é muito importante que a escola participe desse pro- cesso, seja por meio de entrevistas ou pelo envio de um relatório, con- siderando que a hipótese diagnóstica está diretamente vinculada a questões escolares. Após o processo de avaliação, quando da devoluti- va dos resultados, também é importante que sejam repassadas à esco- la as conclusões e as recomendações, bem como os encaminhamentos Práticas de inclusão e a famíliaPráticas de inclusão e a família 113113 114 Práticas pedagógicas inclusivas que serão importantes para a construção de melhores oportunidades de aprendizagem dentro do contexto escolar. Já com relação aos transtornos globais do desenvolvimento (TGD), além dos psicólogos e psicopedagogos, faz-se necessária a participação de uma equipe médica, considerando que se trata de uma condição clínica, como no caso dos estudantes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), da síndrome de Rett e das psicoses infantis. Esses diag- nósticos que envolvem a cognição, a comunicação e o comportamento podem ser identificados por médicos pediatras infantis, neuropedia- tras e psiquiatras infantis. Contudo, apesar de ser a área médica que conclui o diagnóstico, realizar uma avaliação neuropsicopedagógica multiprofissional com psicólogos e psicopedagogos antes da consulta médica pode trazer muitas informações que podem auxiliar a equipe médica a concluir o diagnóstico. Os estudantes com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperativida- de (TDAH) – que se refere àqueles que possuem dificuldade de atenção, hiperatividade e impulsividade – também devem ser avaliados por uma equipe médica, considerando que em muitos casos há a prescrição medicamentosa no sentido de contribuir para o maior poder de con- centração do estudante. Nesse caso, também é muito importante que antes de passar pela avaliação clínica seja realizada a avaliação neu- ropsicopedagógica multiprofissional, com o objetivo de avaliar se esses comportamentos de desatenção e impulsão realmente ocorrerão no ambiente escolar. Outro objetivo da avaliação neuropsicológica é verificar de que forma os comportamentos associados ao TDAH prejudicam as fun- ções essenciais para o processo de aprendizagem – concentração, execução, compreensão de problemas etc. A participação da escola também é extremamente importante ao repassar por meio de rela- tórios suas impressões não apenas do rendimento, mas também do comportamento do avaliado. Tratando agora dos estudantes com algum tipo de deficiência, na maior parte dos casos, já chegam na escola com o diagnóstico médico, considerando as questões genéticas, os marcos do desenvolvimento não atingidos e a busca precoce da família por entender as especificidades do seu filho. Assim, é muito importante que a escola receba o diagnóstico Práticas de inclusão e a família 115 trazido pela família, informe-se sobre a patologia do estudante – pois em alguns casos ele pode ser portador de alguma síndrome rara – e realize uma avaliação pedagógica no intuito de compreender os conhecimentos já adquiridos, estabelecendo, de acordo com as diretrizes pedagógicas atuais, o nível de escolarização desse estudante. É importante considerar que, como estamos na vigência de uma le- gislação inclusiva (RESENDE; VITAL, 2008), independentemente do diag- nóstico, o estudante tem o direito de ter sua matrícula efetuada dentro do ambiente regular de ensino, sendo o AEE complementar às suas ati- vidades acadêmicas diárias. Contudo, no caso de estudantes em que o aproveitamento acadêmico é questionado pela família ou pela escola, há a opção de orientar a família a procurar uma escola especializada em atendimento a estudantes com deficiência. É importante ressaltar que a matrícula desse estudante no ensino regular não pode ser negada, mas, é importante considerar todos os aspectos que envolvem o processo de ensino e aprendizagem, pois talvez seja necessário procurar uma escola com atendimento específico para pessoas com deficiência. Os estudantes surdos ou cegos também, na maior parte dos casos, já chegam na escola com um diagnóstico, salvo os casos em que a perda dos sentidos ocorre por meio de algum trauma ou doença adquirida. No caso dos estudantes surdos, o médico responsável pelo diagnós- tico da surdez e das perdas auditivas é o otorrinolaringologista, mas também é importante que essa criança seja avaliada por uma equipe multidisciplinar, tendo em vista a compreensão de suas áreas de maior habilidade e dificuldade em compreender não apenas os conteúdos acadêmicos, mas o mundo à sua volta. Nesses casos, além da equipe multidisciplinar composta de psicólogo e psicopedagogo, é necessária a presença de um profissional intérprete, caso os profissionais não do- minem a língua brasileira de sinais (Libras). Entretanto, uma boa opção é a utilização de testes não verbais. Para os estudantes cegos, o laudo oftalmológico deve comprovar a cegueira ou acuidade visual, algo que é feito por meio de exames oftalmológicos. Nesses casos, é possível usar testes adaptados para compreender o quanto o estudante já aprendeu dos conteúdos esco- lares, realizar provas verbais e solicitar – por meio das Secretarias de Educação – a adaptação das provas em braile. Testes não verbais são tes- tes em que a criança não precisa estar alfabetizada ou verbalizar suas res- postas, apenas responder ao avaliador apontando quais são as respostas corretas. Devido a essa característica, esse teste se tornou o mais adequado às crianças que necessitam de atendimento especializado devido às especificidades ligadas à linguagem, fala ou comunicação, consideran- do suas dificuldades de interação. Entre os testes psicométricos validados em nosso país podemos citar o SON-R 2 1/2 -7 [A], que pode ser aplicado em crianças de dois anos e meio a sete anos e onze meses de idade. Saiba mais 116 Práticas pedagógicas inclusivas No artigo O sentido da avaliação psicológica no contexto e para o contexto: uma questão de direito, de Hilda R. C. Avoglia, publicado na revista Psicólogo inFormação, nos é apresentada a história da utilização da avaliação e dos testes psicológicos no Brasil e no mundo. A autora analisa a evolução do per- curso da avaliação em nosso país e da atuação dos psicólogos que precisam se atualizar aos novostestes. Acesso em: 9 jan. 2023. https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/PINFOR/article/view/3857/3481 Artigo Nesse sentido, percebemos o quão importante é a escola trabalhar de maneira conjunta com as áreas da saúde e da psicopedagogia. Depois de avaliado e concluído um diagnóstico, os professores podem realizar avaliações pedagógicas dentro de sua área de atuação com o objetivo de compreender o que o estudante já sabe, suas áreas de maior habilidade e dificuldades acadêmicas. No entanto, os diagnósticos sempre devem ser realizados por profissionais especializados dentro de sua área de investi- gação. Não cabe aos professores realizar o diagnóstico considerando sua formação pedagógica, pois, como observamos, grande parte dos diagnós- ticos além de clínica é médica. Cabe aos professores perceber que os es- tudantes não estão apresentando um desenvolvimento escolar esperado para sua idade e ano escolar, considerando os que estão abaixo ou acima da média, e orientar os pais a procurarem ajuda especializada. 5.2 Avaliação escolar na Educação Especial Vídeo O ato de avaliar está presente em nosso dia a dia, ao avaliarmos se o tempo está adequado para usar uma vestimenta mais leve, se de- vemos levar mais um casaco, se o preço de algo que compramos na semana passada está mais alto que hoje, se vale a pena continuar na segurança da poupança ou se é melhor realizar outras formas de in- vestimento, além de uma série de outras avaliações que realizamos ao longo do dia. Para Santos e Varela (2007, p. 1), o ato de avaliar algo tem uma definição distinta: O ato de avaliar implica na coleta, na análise e na síntese dos dados que configuram o objeto da avaliação, acrescido de uma atribuição de valor ou de qualidade, que se processa a partir da comparação da configuração do objeto avaliado com um deter- minado padrão de qualidade previamente estabelecido para https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/PINFOR/article/view/3857/3481 aquele tipo de objeto. O valor, ou, a qualidade atribuídos ao ob- jeto conduz a uma tomada de posição a seu favor ou contra ele. Esta tomada de decisão é o posicionamento a favor ou contra o objeto, ato ou curso da ação, a partir do valor ou qualidade atri- buídos, conduz a uma decisão nova: manter o objeto como está ou atuar sobre ele. Na educação, de modo geral, a avaliação também não deve ser um úni- co momento em que o estudante tem cerca de 50 minutos para demons- trar seu aprendizado, mas um processo contínuo que precisa ser realizado em todo o cotidiano escolar. Assim, todo o comportamento do estudan- te, todas as superações e aquisições de novas aprendizagens devem ser consideradas na ação avaliativa que, especialmente para os estudantes Público-alvo da Educação Especial (PAEE), deve ser realizada processual e continuamente. Em outras palavras, nem sempre uma avaliação formal estruturada com dezenas de questões será o melhor instrumento avaliati- vo para se verificar a aprendizagem de um estudante com NEE. Entretanto, não estamos abominando essa prática ou descartando essa possibilidade. Há alguns casos em que o estudante com deficiên- cia é capaz de realizar as avaliações elaboradas nos parâmetros tradi- cionais, necessitando apenas de algumas adaptações ou de ajuda para sua realização. Nesses casos, é importante que todo auxílio fornecido – como leitura Nesses casos, é importante que todo auxílio fornecido – como leitura da avaliação, explicação das consignas ou exclusão de questões realiza-da avaliação, explicação das consignas ou exclusão de questões realiza- das pelos demais colegas – seja documentado com a avaliação, para que das pelos demais colegas – seja documentado com a avaliação, para que esta posteriormente possa ser analisada pela esta posteriormente possa ser analisada pela equipe escolar ou repetida se necessário, equipe escolar ou repetida se necessário, com outras ou nenhum tipo de interven-com outras ou nenhum tipo de interven- ção, se o professor julgar adequado.ção, se o professor julgar adequado. pa ny aj am pa to ng /S hu tte rs to ck pa ny aj am pa to ng /S hu tte rs to ck Práticas de inclusão e a famíliaPráticas de inclusão e a família 117117 118 Práticas pedagógicas inclusivas Além do caráter escolar, a avaliação detém uma demanda que pode ultrapassar as paredes da sala de aula. Ela é um processo complexo que interfere na percepção que eles têm de si mesmos quanto aos seus sucessos e fracassos, sendo capaz de alterar sua autoimagem e até mesmo influenciar a sua autoestima, seja positivamente, quando atingem boas notas e um excelente desempenho, seja negativamen- te, quando não atingem os resultados esperados e se sentem menos inteligentes ou menos exitosos que os demais. Isso culmina decisiva- mente no modo como se portarão em sala de aula e no quanto estão dispostos a receber novas aprendizagens e continuar frequentando o ambiente escolar. Daí a importância de ampliar as possibilidades de avaliar esses alunos promovendo seu êxito na escola. Dentro do grupo da Educação Especial é importante considerar que o mais importante é a aprendizagem de conteúdos e os avanços do es- tudante com relação a si mesmo, e não comparado aos demais. Assim, tratando especificamente do grupo com algum tipo de deficiência in- telectual ou dificuldade de aprendizagem, esse conteúdo muitas vezes precisará ser frequentemente revisto para não ser esquecido e para que o professor possa, a partir dessa retomada, ir aos poucos ensinan- do novos conceitos. Lembremos que rever um conteúdo não consiste necessariamente em repeti-lo. É importante apresentar um mesmo conteúdo de diferen- tes maneiras, considerando que o estudante pode não ter compreendi- do da forma como o professor expôs da primeira vez. Especificamente quando falamos de alunos com algum dos sentidos prejudicados, é importante explorar todos os sentidos como forma de estimular seus demais que foram preservados. Logo, antes de avaliar um estudante com deficiência, é preciso retomar os conteúdos ensinados de diferen- tes formas e perceber com a realização das atividades em sala se ele já reteve o conteúdo inicialmente proposto, para só então verificar essa aprendizagem por meios formais, como uma prova. Outros aspectos também podem interferir na avaliação escolar de um estudante PAEE, como sua saúde instável, o início ou a supressão de determinada medicação, a interferência de alguma situação que ocorreu em casa ou fora da sala de aula, entre tantos outros aspectos. Nesse sentido, um trabalho afetivo que compreenda a influência desses fatores no desempenho do estudante, bem como que crie vín- culos positivos com o aluno por meio do estabelecimento de laços afe- Práticas de inclusão e a família 119 tivos, pode gerar resultados positivos em seu processo avaliativo, uma vez que demonstra compreensão e empatia. Para Haydt (2000 apud SANTOS; VARELA, 2007), a avaliação precisa ser compreendida como um processo dinâmico de constantes intera- ções entre docente e discente, com a intenção de: desenvolver con- teúdos de ensino-aprendizagem; selecionar e aplicar as metodologias desejadas; e realizar um diagnóstico da realidade social. Tudo isso deve ser feito tendo como objetivo realizar a mudança comportamental do aluno e de seu compromisso com a sociedade. Assim, percebemos que realizar o processo de avaliação da apren- dizagem escolar dos estudantes com NEE é um momento que exige muito planejamento, compreensão e entendimento das capacidades dos seus estudantes. Isso exige dos professores muito mais que saber a respeito do diagnóstico ou da avaliação do seu aluno, mas conhecer quais são as suas capacidades cognitivas, suas áreas de maior habili- dade e de que forma ele pode expressar o seu aprendizado. Isso porque um processo avaliativo deve ter como objetivo a verifi- cação dos conteúdos aprendidos pelos estudantes e não uma punição ao fim de cada período letivo. Assim,quando abordamos a avaliação escolar na Educação Especial, não podemos nos remeter imediatamen- te à aplicação de uma prova, com aquela imagem de fileiras de alunos sentados em suas carteiras, com a cabeça baixa e em silêncio diante da folha que vai definir sua nota mediante as respostas que escrever. Precisamos estar abertos para adaptar nossos métodos respeitando as especificidades de cada um. Para isso, devemos apresentar ao aluno uma forma de avaliação que respeite suas limitações, eliminando informações desnecessárias e o que possa causar obstáculo para as suas necessidades específicas. É necessário que esse instrumento tenha o máximo de significado para o estudante, que atenda às suas demandas de aprendizagem e que possa avaliar o que ele aprendeu adaptado à forma como consegue de- monstrar seus conhecimentos. Avaliar diversos estudantes utilizando a mesma métrica é uma forma muito injusta de medição de conhecimen- tos sobre um tema, já que assim não são respeitadas as habilidades e limitações de cada um. Dito de outro modo, se julgarmos um peixe ba- seando-se em sua habilidade de subir em árvores, ele sempre se sen- tirá inferior aos outros seres. Esse exemplo também é dado no vídeo 1 O vídeo I sued the school system está disponível no canal Prince Ea, em inglês, mas é possível habilitar legendas para entender o conteúdo de maneira mais fácil. Disponível em: https://www. youtube.com/watch?v=dqTTojTija8. Acesso em: 9 jan. 2023. 1 https://www.youtube.com/watch?v=dqTTojTija8 https://www.youtube.com/watch?v=dqTTojTija8 120 Práticas pedagógicas inclusivas do criador de conteúdo Prince Ea, que traz uma mensagem importante sobre como o sistema educacional evoluiu pouco ao longo dos anos e a importância do professor nesse sistema. O artigo A avaliação como um instrumento diagnóstico da construção do conhe- cimento nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental, escrito por Monalize R. dos Santos e Simone Varela, trata das metodologias e estratégias de avaliação uti- lizadas atualmente no Ensino Fundamental. O foco das autoras é falar sobre a finalidade da avaliação e de que forma ela pode ser mais bem utilizada para medir os conhecimentos dos alunos. Acesso em: 9 jan. 2023. https://web.unifil.br/docs/revista_eletronica/educacao/Artigo_04.pdf Artigo Com o exemplo, podemos compreender que o professor precisa escolher seus métodos avaliativos de acordo com o conteúdo ensi- nado, mas respeitando as características pessoais de cada um. Seria muito complicado solicitar para um aluno cego uma grande produção escrita sobre os horrores do holocausto, mas talvez essa atividade possa ser adaptada para um relato oral. Da mesma forma, no caso de um estudante com dificuldades para se comunicar, esse modelo de apresentação talvez seja muito difícil, podendo ser considerada a possibilidade de apresentação de um mapa conceitual ou de um poema no estilo haicai, por exemplo, sintetizando as principais ideias abordadas durante as aulas. 5.3 Práticas de avaliação inclusiva Vídeo Como na prática podemos avaliar sem julgar e considerando todas as especificidades do amplo grupo de alunos que diariamente temos em sala de aula? Essa é a questão que norteará esta seção, mas não no intuito de prescrever uma receita com técnicas a serem seguidas, e sim expor algumas sugestões que ao longo dos anos têm dado cer- to e que podem servir como suporte, especialmente para aqueles que estão iniciando sua jornada nesse processo tão lindo que é o trabalho com estudantes com NEE. https://web.unifil.br/docs/revista_eletronica/educacao/Artigo_04.pdf wa ve br ea km ed ia /S hu tte rs to ck Avaliando estudantes com deficiência visual Se o aluno conseguir enxergar com o uso de óculos ou lupa, é im- portante que os professores realizem a prova em tamanho aumenta- do, ampliando ainda mais os benefícios desses recursos – lembrando que provas estaduais e nacionais também devem ser adaptadas. En- tretanto, se o aluno for cego, é importante que seja realizada a tra- dução em braile ou que a instituição providencie um professor ledor, que estará sempre ao lado do aluno tendo a função de ler todas as informações da prova – os enunciados das questões e as opções de respostas – sempre que o estudante solicitar. Em ambos os casos, é recomendado diminuir a quantidade de infor- mações apresentadas, construindo perguntas objetivas e sem espaço para dupla interpretação. É importante fazer o mínimo uso de imagens, pois é bastante difícil para o estudante compreender o que o profes- sor deseja investigar por meio da descrição do ledor, e como vimos a prova não deve ser um momento de punição, mas de verificação de aprendizagem. Logo, é importante pensar no uso correto das palavras, no tamanho das questões, pois se o professor elaborar uma pergunta muito longa, o estudante pode esquecer o início do enunciado, sendo orientada então a divisão da pergunta em duas ou mais. Também há que se ter muito cuidado com a tradução da prova em braile, que só deve ser realizada se o estudante sentir segurança em realizar a leitura sozinho, considerando que se trata de uma avaliação escolar e não de um teste de braile. Avaliando estudantes com deficiência física e intelectual Quando o estudante possui algum tipo de deficiência fí- sica, mas sem déficits cognitivos, o professor pode adaptar o recurso avaliativo, dando a possibilidade de o aluno ter um escriba para auxiliá-lo no registro das respostas ou oferecer provas com algumas alternativas de respostas, para ele tenha que escrever o mínimo possível. A reali- zação de testes orais também pode ser uma boa opção se houver algum tipo de limite físico que impeça o estu- dante de registrar suas respostas. Práticas de inclusão e a famíliaPráticas de inclusão e a família 121121 122 Práticas pedagógicas inclusivas No entanto, quando há algum nível de déficit intelectual, é impor- tante que o professor se informe sobre as limitações e converse com o discente sobre por quais meios ele prefere se comunicar. Algumas possibilidades de realizar a avaliação nesse caso é utilizar ilustrações ao invés de texto, realizar a prova de modo oral e não escrito ou fazer uso de prancha de comunicação. Levando em conta o fato de que a intenção de uma avaliação é observar se o conteúdo foi absorvido pelos alunos – e não simples- mente checar se ele decorou todos as regras, datas, formatos e outros dados descontextualizados –, é possível trabalhar de maneira concreta com recursos mais acessíveis e que apelem para a ludicidade, como utilizar formas geométricas e material dourado em Matemática ou mi- niaturas de personagens para recontar algo trabalhado em História. Quando apelamos para recursos mais lúdicos, diminuímos os obstácu- los que podem gerar dificuldades de interpretação e abstração, focan- do o conteúdo que foi ensinado e o que se pretende avaliar. Tendo em vista que a avaliação não deve ser um momento pontual em que o professor avalia tudo o que foi trabalhado em determinado período, realizar a construção de um portfólio pode facilitar a avaliação acerca do que o estudante aprendeu ao longo do processo e com quais recursos ele se adaptou melhor, se apresentou melhores resultados em atividades com desenho, pintura, oralidade, instrumentos concre- tos, entre outros. Para Sartoretto (2010, p. 3), com o portfólio no pro- cesso de avaliação podemos: • melhorar a dinâmica da sala de aula consultando o portfólio dos alunos para elaborar as atividades; • evitar testes padronizados; • envolver a família no processo de avaliação; • não utilizar a avaliação como um instrumento de classificação; • incorporar o sentido ético e inclusivo na avaliação; • possibilitar que o erro possa ser visto como um processo de construção de conhecimentos que dá pistas sobre o modo cada aluno está organizando o seu pensamento. Assim, o portfólio é um importante recurso, pois permite ao pro- fessor acompanhar o processo de aprendizagem dos estudantescom deficiência analisando a construção do conhecimento de cada um, sempre em relação a si mesmo e não a uma turma homogênea em que todos aprendem da mesma forma e ao mesmo tempo – o que sabemos que na prática dificilmente ocorre. Avaliando estudantes surdos Os estudantes surdos podem apresentar dificuldades em expressar todo seu conhecimento por meio de uma prova escrita, considerando que nem sempre o que se traduz em Libras é a forma literal como fala- mos. Nesse sentido, exceto no caso das provas de Língua Portuguesa, para aqueles que se comunicam por Libras, é essencial que seja ofere- cida a oportunidade de seu intérprete auxiliá-lo. Assim como para os estudantes cegos e com deficiência intelectual, é importante prestar atenção no número de questões e na forma como elas são redigidas, considerando o objetivo do conteúdo que se pretende avaliar. Também é possível solicitar a construção de desenhos, infográficos e mapas conceituais ou – no caso de avaliações da disciplina de Língua Portuguesa – que o estudante tenha a oportunidade de fazer uso de um computador portátil que o auxilie na escrita das respostas, caso o professor esteja avaliando, por exemplo, a produção de um texto. Avaliando estudantes superdotados Devido ao fato de os estudantes superdotados apresentarem facili- dade de aprendizagem, podemos pensar que eles podem ser subme- tidos a processos de avaliação mais complexos e com maior número de questões ou aprofundamento dos conteúdos. Contudo, essa é uma visão equivocada dessa condição. Primeiro, esse equívoco ocorre porque os superdotados podem ter habilidades específicas e que muitas vezes não estão relacionadas aos conteúdos escolares – como os que têm habilidades cinestésicas, intra- pessoais e interpessoais. Segundo, como vimos, a avaliação não deve ter caráter punitivo, e oferecer uma avaliação mais complexa ou com maior número de questões para o superdotado pode soar como uma punição. O que sugerimos é que, caso a habilidade do estudante esteja dentro da disciplina e do conteúdo, o professor ofereça a ele um espaço para comentar determinado assunto ou uma questão de matemática mais aprofundada com o objetivo de que ele possa ex- pressar sua maior habilidade em relação aos demais colegas, mas sem ser prejudicado caso não atinja o resultado esperado. ho lis tic ca re /n ap py Práticas de inclusão e a famíliaPráticas de inclusão e a família 123123 Dito de outro modo, o professor pode adicionar uma questão ou a oportunidade de o estudante apresentar seu conhecimento apro- fundado sobre o conteúdo, mas sem desconto de nota. Essa questão adicional deve ser oferecida como a oportunidade de o professor ava- liar o quanto o estudante sabe, para posteriormente trabalhar nas atividades de enriquecimento, mas não de punir o estudante por não saber algo que não foi cobrado dos demais. Avaliando estudantes com TGD e transtornos de aprendizagem Assim como nas condições apresentadas anteriormente, para os estudantes com transtornos globais do desenvolvimento e transtornos de aprendizagem é preciso considerar que o que está sendo avaliado é a aprendizagem do estudante sobre os conteúdos ensinados na disci- plina. Logo, seria injusto descontar a pontuação de um estudante com dislexia por não escrever corretamente as palavras nas respostas, dada sua dificuldade com a aquisição da leitura e da escrita das palavras. As orientações dos órgãos estaduais, e até mesmo nacionais, no momento da realização de avaliações padronizadas é de que seja dis- ponibilizada uma hora a mais para que os estudantes PAEE possam realizar essas provas. Contudo, a extensão do tempo não assegura que esse estudante terá um êxito maior se ficar por mais tempo com a pro- va, considerando que, a depender de seu poder de concentração, não terá interesse em permanecer mais tempo na sala que seus colegas. Recomendamos que as avaliações sejam verdadeiramente adaptadas, com questões menos complexas e mais objetivas, que se analise o uso excessivo de imagens, principalmente para os estudantes dentro do Transtorno do Espectro Autista, que apresentam dificuldades em ana- lisar expressões e compreender frases com duplo sentido ou uso de metáforas, adequando as avaliações e oportunizando aos estudantes a expressão do seu conhecimento. No caso das avaliações escolares, além da construção de um portfó- lio, sugerimos algumas adaptações, como: alteração na construção dos enunciados, tornando-os mais breves e claros possíveis; construção de objetivos individualizados, considerando que o aluno deve ser avaliado de acordo com seus avanços e não em relação aos demais colegas; e utilização de materiais concretos que possam auxiliar o estudante na construção do seu raciocínio. Outras adaptações possíveis são a exploração de diferentes am- bientes escolares, como laboratórios para avaliar um conhecimento em química, física e matemática ou um espaço arborizado para avaliar os conhecimentos sobre determinadas plantas ou mesmo o processo de fotossíntese; a realização de provas orais para aqueles que conse- guem verbalizar com boa articulação e preferem falar a registrar, ou uso de pranchas de comunicação para os estudantes que têm essa fun- ção comprometida ou dificuldades motoras para registrar; e, por fim, a opção de oferecer algumas respostas prontas, com a intenção de que o estudante escreva o mínimo possível. Meu pé esquerdo traz a história de Christy Brown, que por ser tetraplégi- co e ter nascido com paralisia cerebral é muito dependente da mãe e dos irmãos. Entretan- to, aos cinco anos, ele demonstra o controle de seu pé esquerdo e usa um giz para rabiscar uma palavra no chão na ten- tativa de se comunicar. A mãe nota a habilidade do filho, oferece outros materiais e o encoraja a se alfabetizar e a iniciar a confecção de algumas pinturas. Mais tarde, Christy torna-se pintor, poeta e autor, e auxilia a família financeiramente por meio de seu trabalho e de suas conquistas. Direção: Jim Sheridan. Irlanda: Ferndale Films, 1989. Filme 124124 Práticas pedagógicas inclusivasPráticas pedagógicas inclusivas Práticas de inclusão e a família 125 de acordo com seus avanços e não em relação aos demais colegas; e utilização de materiais concretos que possam auxiliar o estudante na construção do seu raciocínio. Outras adaptações possíveis são a exploração de diferentes am- bientes escolares, como laboratórios para avaliar um conhecimento em química, física e matemática ou um espaço arborizado para avaliar os conhecimentos sobre determinadas plantas ou mesmo o processo de fotossíntese; a realização de provas orais para aqueles que conse- guem verbalizar com boa articulação e preferem falar a registrar, ou uso de pranchas de comunicação para os estudantes que têm essa fun- ção comprometida ou dificuldades motoras para registrar; e, por fim, a opção de oferecer algumas respostas prontas, com a intenção de que o estudante escreva o mínimo possível. Meu pé esquerdo traz a história de Christy Brown, que por ser tetraplégi- co e ter nascido com paralisia cerebral é muito dependente da mãe e dos irmãos. Entretan- to, aos cinco anos, ele demonstra o controle de seu pé esquerdo e usa um giz para rabiscar uma palavra no chão na ten- tativa de se comunicar. A mãe nota a habilidade do filho, oferece outros materiais e o encoraja a se alfabetizar e a iniciar a confecção de algumas pinturas. Mais tarde, Christy torna-se pintor, poeta e autor, e auxilia a família financeiramente por meio de seu trabalho e de suas conquistas. Direção: Jim Sheridan. Irlanda: Ferndale Films, 1989. Filme 5.4 Adaptar para receber Vídeo Os estudantes que apresentam a necessidade de algum tipo de adaptação por fazerem parte do PAEE se deparam diariamente com diferentes tipos de barreiras, sejam elas filosóficas, culturais, afetivas, psicológicas, sociais ou religiosas. No caso dos estudantes com defi- ciência física, ou dificuldades de locomoçãoou alguma limitação psi- comotora, as barreiras arquitetônicas podem ser um grande obstáculo para a inclusão das pessoas com NEE que fazem uso de cadeira de rodas, bengalas ou muletas para se locomoverem, considerando que esses empecilhos dificultam e muitas vezes até impedem sua inserção no ambiente escolar e na sociedade. As barreiras arquitetônicas podem ser subdivididas em naturais, ambientais ou resultantes de iniciativas urbanísticas que impedem a acessibilidade de pessoas que deveriam ter acesso livre a todos esses locais. O documento elaborado pelo Ministério da Educação (MEC) aborda a acessibilidade como um conceito que “deve ser respeitado em todas as áreas da sociedade, e a eliminação das barreiras arquite- tônicas deve ser um compromisso de arquitetos, profissionais e auto- ridades responsáveis pela melhoria da qualidade de vida e bem-estar de todos” (MEC, 2006). 126 Práticas pedagógicas inclusivas Ainda de acordo com o documento nacional, as pessoas com algu- ma limitação ou deficiência devem ter liberdade de circular por todos os espaços como qualquer outro cidadão, pois a liberdade e o acesso a espaços também estão relacionados ao acesso à rede de informações, de comunicação, equipamentos e programas adequados. No caso dos estudantes que não têm a possibilidade de agarrar e soltar os instrumentos e materiais que necessitam utilizar, é possível realizar adaptações simples, mas muito necessárias. Martin, Jáuregui e López (2004) salientam que os recursos didáticos necessitam de diferen- tes adaptações, conforme a necessidade individual de cada aluno, para facilitar a manipulação desses recursos. Nesse sentido, faz-se evidente a necessidade de realizar adaptações para que os estudantes consigam segurar e utilizar seu material, facilitando o uso dos instrumentos escola- res e, em consequência, promovendo a sua independência. Ao encontro dessa questão, Ernica (2007 apud GALVÃO FILHO, 2013) realizou uma pesquisa com recursos pedagógicos adaptados para de- ficientes físicos com dois alunos matriculados no ensino regular e na Educação Infantil. O objetivo era enfocar como esses recursos podem ser utilizados como ação pedagógica do professor na formação diária do aluno de modo a possibilitar o seu desenvolvimento socioafetivo, físico e intelectual, tornando-o mais independente e atuante. Para o desenvolvimento da pesquisa foram adaptados vários re- cursos, como: mesa, cadeira de rodas, recursos pedagógicos como prancha de comunicação confeccionada com papel cartão utilizando figuras do programa picture communication symbols (PCS), livro adap- tado com viradores de página coloridos e de diferentes tamanhos, lousa mágica, caneta engrossada com tubo de cola bastão e durepoxi, lápis engrossado com a parte externa de um canetão e durepoxi. A autora constatou que os recursos estimularam a participação mais efetiva dos alunos nas atividades propostas, possibilitando maior envolvimento e independência na execução das tarefas e desenvol- vimento da autoestima, uma vez que realçaram as habilidades funcio- nais em detrimento da dificuldade. Outra importante pesquisa foi a realizada por Leme (2007) com recursos adaptados para alunos com deficiência física, utilizando o dominó confeccionado em madeira e o bingo de encaixe, também con- Práticas de inclusão e a família 127 feccionado em madeira e caderno de madeira imantado. Os recursos foram criados para esse fim e a autora concluiu que o objetivo peda- gógico foi atingido, mas ao mesmo tempo observou que os alunos en- contraram certas dificuldades, pois os móveis (cadeira e mesas) não estavam adaptados especificamente para cada estudante, e os recur- sos devem ser adequados ao aluno que vai utilizá-los. Essas experiências reiteram a importância da necessidade de adap- tar os recursos às necessidades dos estudantes, tendo em vista que cada um exigirá uma adaptação diferente para alcançar sucesso em seu bem-estar e, consequentemente, em sua aprendizagem. Ainda se- gundo Leme (2007, p. 21), “é preciso atentar para o fato de que após a confecção de um recurso devemos priorizar a sua funcionalidade e não a estética do mesmo, apesar de que existem várias maneiras e opções para torná-lo com o visual atraente e motivado para quem vai usá-lo”. Outra pesquisa de igual teor foi realizada por Dores (2007), sobre a importância dos recursos adaptados para alunos com deficiência fí- sica. A autora utilizou recursos como quebra-cabeça, dominó de cores e jogos de encaixe. Ela pôde concluir que a utilização dos recursos é necessária, contribuindo para o desenvolvimento das capacidades e possibilidades dos alunos, aumentando a potencialidade deles. Por meio dessas experiências, é possível perceber que muitas ve- zes adaptar para bem receber requer apenas atenção e afetividade por parte do corpo docente que, atento às especificidades dos estu- dantes inclusos, pode realizar a adaptação de materiais do dia a dia, no intuito de promover o desenvolvimento de sua aprendizagem. Por meio da adaptação de recursos que já temos em nossas escolas é possível tornar o cotidiano da criança inclusa mais fácil e mais pro- dutivo. Ao ter seu material adaptado, sua carteira e seus recursos disponíveis na sala de acordo com suas necessidades, ela se sentirá mais segura para executar as atividades e interagir com os demais colegas de sala de aula, aumentando seu desenvolvimento acadêmi- co e interpessoal (GONÇALVES, 2021). Entre as adaptações de pequeno porte que podem ser realiza- das dentro do ambiente escolar no sentido de promover um melhor bem-estar ao estudante, o MEC (2006) orienta: 128 Práticas pedagógicas inclusivas carteira com possibilidade de graduar a altura e a inclinação, assim como bordas elevadas para impedir a queda de objetos; fixação de papel à mesa com fita adesiva, tachas ou régua iman- tada; material leve para ampliação do diâmetro de lápis, cane- tas, talheres e escovas de dente, para facilitar apreensão; quadro com letras e números imantados; máquina de escrever ou com- putador com as devidas adaptações; gravador. Fora da sala de aula são recomendáveis: pratos inquebráveis, com bordas altas e com possibilidade de fi- xação em suporte; copo ou caneca, de material leve, com uma ou duas alças, tampa e canudo, para os quadros de déficit de força e mobilidade; e copo e caneca de material pesado, para os casos de falta de coordenação; torneira apropriada ou adaptação de ma- deira na haste, que favoreça o abrir e fechar; sabonete preso por fio na altura apropriada e toalha presa ao puxador. Contudo, em alguns casos é necessário que alterações de maior porte também sejam realizadas, como criação de rampas de acesso, instalação de corrimões, adequação de banheiros, entre outras. Nesses casos, essas medidas fogem da alçada pedagógica e precisam contar também com o apoio da equipe de gestão para a destinação de verbas adequadas para a realização dessas medidas. Dentro dessas adapta- ções, o Decreto n. 5.296/2004 prevê: salas de aula, de preferência, no andar térreo; rampas ou eleva- dores de acesso; portas largas para a passagem de cadeiras de rodas; tapetes ou passadeiras de borracha ou superfície não es- corregadia; bebedouro com baixa altura; banheiro amplo para movimento de cadeira de rodas; barras nas paredes ao lado do vaso sanitário; box com piso não escorregadio e barras para apoio. É claro que, como já expomos em outros momentos, uma conversa com o estudante sobre como ele se sente, quais são suas limitações, o que considera que pode realizar com autonomia e o que gostaria que fosse alterado para melhorar sua dinâmica dentro do ambiente esco- lar é sempre bem-vinda. As normas são criadas para institucionalizar diretrizes e assegurar as mínimas condições de acesso, mas na práti- ca o que auxiliará na permanência dos estudantes é o quanto eles se sentirão confiantes e incluídos no espaço escolar. O filme Mr. Holland: adorável professor conta a história de um músicoque decide lecionar para juntar dinheiro suficiente para que, futuramen- te, possa se dedicar a escrever sua sinfonia. No início o músico sente dificuldade em fazer com que seus alunos se interessem pela música, e a situação fica ainda mais complicada quando ele e sua esposa descobrem que seu filho recém-nas- cido é surdo. Para poder pagar pelos estudos de seu filho, o músico passa a se envolver e se dedicar ainda mais às aulas. Com o tempo, deixa de lado seu objetivo com a sinfo- nia e se torna um grande professor, inspirando seus alunos. Direção: Stephen Herek. EUA: Hollywood Pictures, 1995. Filme 5.5 Participação da família no processo de inclusão Vídeo De acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 227: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à crian- ça, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o di- reito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberda- de e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Já para Kaloustian (2014), a família tem importante papel na formação do sujeito, sendo responsável por transmitir crenças, princípios e valores, além de proteção e segurança. É também por meio das relações familiares que formamos a visão de mundo e a construção de relações sociais. Assim, a família é a primeira instituição com a qual a criança vive e interage antes de ir para a escola. É nela que surgem os primeiros passos, as primeiras palavras, as primeiras quedas, os primeiros apren- dizados e é nela que os primeiros sinais de um possível atraso no de- senvolvimento – ou no caso dos superdotados, um desenvolvimento precoce – começam a aparecer. E quando algo não ocorre de acordo com o esperado pelos pais, uma nova trajetória começa a ser traçada na vida dessa criança e de sua família. De acordo com Glat (1996 apud MASSOLI; ALVES; ESPER, 2020, p. 2): no nascer de uma criança ocorre muitas alterações no contex- to familiar, transformando profundamente o exercício familiar, mudando os papéis sociais (marido para marido e pai, espo- sa para esposa e mãe, por exemplo), modificando assim a individualidade de seus integrantes e mudando as relações externas familiares, como relação de amizade e trabalho. Portanto, mesmo com as mudanças esperadas na vida das famílias, o nascer de uma criança com deficiência gera par- ticularidades, como confusão de sentimento e dor pela ausência da criança idealizada. Er m ol ae v A le xa nd er /S hu tte rs to ck Er m ol ae v A le xa nd er /S hu tte rs to ck Práticas de inclusão e a família 129 130 Práticas pedagógicas inclusivas Por isso é tão importante que, ao desconfiar que algo não está acontecendo dentro dos marcos do desenvolvimento esperado, a fa- mília procure ajuda especializada e receba, o mais cedo for possível, as orientações corretas para o melhor desenvolvimento do seu filho e para a preservação de sua estabilidade emocional. No artigo O papel da escola e da família no desenvolvimento do superdotado, de Patrícia Gonçalves e Tânia Stoltz, são apresentados os avanços legais na defesa dos direitos das pessoas com altas habilidades ou superdota- ção, mostrando também um panorama acerca dos aspectos familiares e escolares que perpassam a vida de um estudante com essa condição. Para isso, as autoras apresentam uma revisão de literatura pautada na legislação de nosso país, bem como em autores nacionais e internacionais que se debruçam sobre a temática. Acesso em: 9 jan. 2023. https://e-revista.unioeste.br/index.php/educereeteducare/article/view/26112/17614 Artigo Muitas deficiências e transtornos podem ter origem genética, con- tudo pesquisas ainda não definem um percentual ou número exato acerca da probabilidade com que o fenômeno acontece, como é o caso da dislexia e do TDAH. Ao saber que um dos cônjuges possui algum diagnóstico é importante estar atento e passar a informação ao pedia- tra que acompanha a criança, para que ele observe suas características e auxilie na conclusão de um diagnóstico precoce. Na maior parte dos transtornos de aprendizagem e desenvol- vimento, quanto mais cedo a criança for diagnosticada, maiores serão as chances de sucesso escolar, por meio dos trabalhos de estimulação, terapia, fonoaudiologia e o que mais for recomenda- do. Lembrando que ainda que duas crianças recebam o mesmo diagnóstico, os encaminhamentos podem ser diferentes, de acordo com as suas necessidades. No caso das deficiências, algumas delas podem ser diagnosticadas ainda no período intrauterino, como é o caso das pessoas com sín- drome de Down ou má-formação genética. Nesses casos, uma equi- pe médica de acompanhamento já pode ser formada para receber o bebê, verificar se será necessário algum tipo de intervenção cirúrgica nos primeiros dias de vida e realizar o atendimento precoce com esti- mulação já no período da primeira infância. https://e-revista.unioeste.br/index.php/educereeteducare/article/view/26112/17614 Práticas de inclusão e a família 131 É claro que cada família passará por esse momento de descoberta de uma forma diferente, a depender de quando o diagnóstico foi anun- ciado, o tipo de relação dos pais, os vínculos familiares, entre inúmeras circunstâncias que podem interferir nesse momento. Glat (1996 apud MASSOLI; ALVES; ESPER, 2020, p. 2) ressalta: que o nascimento de uma criança com deficiência, com indivi- dualidades diferentes do padrão imposto visto como o normal e a organização familiar se rompem, sentimentos desgastam, e se constitui um desequilíbrio na família. Que mesmo sendo unida, essa instabilidade é inelutável, pois o sonho construído diante a gestação, é desfeito. Ele destaca que é o mesmo que a família utó- pica construída por seus progenitores se encerra e a família da realidade deveria ser criada de imediato em suas mentes. Daí a importância de não apenas a criança, mas a família toda tam- bém ser assistida por uma equipe especializada que possa auxiliá-la nessas questões. Uma orientação muito comum de pediatras que ain- da não conseguem confirmar uma conclusão diagnóstica, como no caso dos estudantes dentro do TEA, é a sua inserção no ambiente escolar, no sentido de verificar como será sua socialização, comunicação e compor- tamento interagindo entre os pares. Se a criança já tem um diagnóstico, é muito importante que a família comunique a instituição a respeito sobre os demais atendimentos que o menor realiza. No entanto, se o diagnóstico ainda não foi concluído, também é importante informar sobre a suspeita para que professores e educadores estejam atentos e mantenham registros que possam aju- dar na construção de relatórios escolares que podem ser solicitados posteriormente pela equipe médica. Quando a criança com NEE é inserida na escola, uma nova parceria se dá entre escola e família. Os pais precisam estar seguros de que – junto com eles e com a equipe médica que acompanha a criança – a escola será uma instituição parceira para ajudar no desenvolvimento do seu filho. Para Lazzaretti e Freitas (2016 apud MASSOLI; ALVES; ESPER, 2020, p. 3): A relação família e escola colabora ricamente para o avanço da criança com deficiência, pois ambas constroem meios perti- nentes para o bom aproveitamento e, desta forma, a interação ocorre de forma positiva, sendo o momento que estão unidas, não focam na deficiência, mas em suas competências, construin- do pessoas com autoconfiança. 132 Práticas pedagógicas inclusivas Nesse sentido, faz-se imperiosa a abertura do diálogo entre famílias e escolas para garantir a segurança e o desenvolvimento escolar das crianças com NEE. Uma pesquisa realizada em 2020 sobre os contextos familiares de estudantes com deficiência concluiu que: A família é a base dessas crianças e, diante disso, as atitudes em relação a elas são espelhadas e reproduzidasem forma de valo- res, portanto a maneira que a família se expressa e se relaciona é fundamental para o desenvolvimento e autonomia, para que a partir da primeira instituição de sua vida - a família - ela esteja preparada para o processo de inclusão em sociedade, perante as dificuldades que serão enfrentadas diariamente. (MASSOLI; ALVES; ESPER, 2020, p. 13) Contudo, não podemos fechar os olhos e considerar que todas as escolas estão preparadas para manter esse diálogo e promover o de- senvolvimento do potencial de todos os estudantes PAEE. Vale ressaltar a importância de uma formação continuada dos profissionais que estão, diretamente e indiretamente, ligados às crianças com deficiência, que se habilitem para transformar vidas e para que entendam as dificuldades e complicações en- contradas por trás da realidade de cada criança, suas bagagens e histórias de vida. (MASSOLI; ALVES; ESPER, 2020, p. 13) Ao encontro dessa necessidade, muitas famílias se tornam fundado- ras ou apoiadoras de instituições que defendem os direitos da pessoa com deficiência, como é o caso do apresentador Marcos Mion, do autor e professor Lucelmo Lacerda e da ativista Berenice Piana, que defen- dem os direitos da pessoa autista. CONSIDERAÇÕES FINAIS Vimos neste capítulo o quão importante é o professor orientar a famí- lia a buscar ajuda especializada quando percebe que o estudante pode apresentar dificuldades em aprender, se comunicar e se relacionar com os demais colegas, no intuito de realizar uma avaliação especializada que ajude a família a compreender melhor o desenvolvimento do filho. Também compreendemos a importância de realizar avaliações adap- tadas para os estudantes com NEE, sempre tendo em vista que os recur- sos devem ser apenas um meio para avaliar o que o estudante aprendeu e que a avaliação não deve ser um processo punitivo. Berenice Piana é coautora da Lei n. 12.764/2012, sancionada em 28 de dezembro de 2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtornos do Espectro Autista (TEA). A lei está disponível na integra no site do Planalto. Disponível em: https://www. planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2011-2014/2012/lei/l12764. htm. Acesso em: 9 jan. 2023. Leitura https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12764.htm Práticas de inclusão e a família 133 Com relação às adaptações físicas, debatemos que cabe à gestão es- colar realizar adaptações de maior porte, como construção de rampas e reformas de espaços, mas que pequenas mudanças no dia a dia escolar podem contribuir significativamente para o bem-estar do aluno incluso. Por fim, também entendemos que a participação da família no processo de inclusão é essencial para que o aluno se sinta seguro dentro do espaço escolar e que saiba que pode contar com o apoio dos seus pais e de toda a equipe escolar para o desenvolvimento do seu potencial. ATIVIDADES Atividade 1 Quem pode realizar avaliação/diagnóstico de estudantes com Necessidades Educativas Especiais? Atividade 2 Sobre a avaliação escolar dos superdotados, os professores podem acrescentar questões, considerando que esse grupo de alunos é mais inteligente que os demais? Justifique sua resposta. Atividade 3 Acerca das adaptações arquitetônicas para adequar os espaços físicos escolares, a quem cabe essa responsabilidade? REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição Federal (1988). Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2023. BRASIL. Decreto n. 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Diário Oficial da União, Poder Executivo, Brasília, DF, 3 dez. 2004. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm. Acesso em: 10 jan. 2023. DORES, J. P. A importância da utilização de recursos pedagógicos na educação de alunos com deficiência física. 2007. Monografia (Especialização em Educação Especial) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm 134 Práticas pedagógicas inclusivas GALVÃO FILHO, T. A. A construção do conceito de tecnologia assistiva: alguns novos interrogantes e desafios. Revista da FACED – Entreideias: Educação, Cultura e Sociedade, v. 2, n. 1, p. 25-42, jun. 2013. GONÇALVES, P. Atendimento Educacional Especializado. Curitiba: Intersaberes, 2021. KALOUSTIAN, S. M. Família brasileira: a base de tudo. 10. ed. São Paulo: Cortez, 2014. LEME, L. H. F. Recursos pedagógicos adaptados para alunos que apresentam dificuldades motoras. 2007. Monografia (Especialização em Educação Especial) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília. MARTIN, M. C.; JÁUREGUI, M. V. G.; LÓPEZ, M. L. S. Incapacidade motora: orientações para adaptar a escola. Porto Alegre: Artmed, 2004. MASSOLI, L. P. D.; ALVES, S. C.; ESPER, M. V. Contexto familiar de crianças com deficiência. Revista Construção Psicopedagógica, v. 28, n. 29, jul. 2020. MEC – Ministério da Educação. A inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais: DEFICIÊNCIA FÍSICA. Brasília, DF: MEC; Secretaria de Educação Especial, 2006. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/deffisica.pdf. Acesso em: 10 jan. 20223. NAKANO, T. C. Triagem de indicadores de altas habilidades/superdotação (TIAH/S). São Paulo: Vetor, 2021. PÉREZ, S. G. P. B.; FREITAS, S. N. Manual de identificação de altas habilidades/superdotação. Guarapuava: Apprehendere, 2016. RESENDE, A. P. C. de.; VITAL, F. M. de P. (org.). A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência Comentada. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos; Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, 2008. Disponível em: https:// www.gov.br/governodigital/pt-br/acessibilidade-digital/convencao-direitos-pessoas- deficiencia-comentada.pdf. Acesso em: 10 jan. 2023. SANTOS, M. R.; VARELA, S. A avaliação como um instrumento diagnóstico da construção do conhecimento nas Séries Iniciais do Ensino Fundamental. Revista Eletrônica de Educação, v. 1, n. 1, dez. 2007. SARTORETTO, M. L. Como avaliar o aluno com deficiência? Porto Alegre: Assistiva Tecnologia e Educação, 2010. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/deffisica.pdf https://www.gov.br/governodigital/pt-br/acessibilidade-digital/convencao-direitos-pessoas-deficiencia-comentada.pdf https://www.gov.br/governodigital/pt-br/acessibilidade-digital/convencao-direitos-pessoas-deficiencia-comentada.pdf https://www.gov.br/governodigital/pt-br/acessibilidade-digital/convencao-direitos-pessoas-deficiencia-comentada.pdf Resolução das atividades 1 Ensino e aprendizagem de estudantes com necessidades especiais 1. Comente acerca das contribuições da psicóloga e educadora Helena Antipoff para a Educação Especial em nosso país. Ela foi a grande idealizadora e criadora de serviços de diagnósticos, classes e escolas especiais. Em 1932, criou a Sociedade Pestalozzi em Minas Gerais, que a partir de 1945 iria se expandir para todo o país aumentando seu número de atendimentos. Nesta época, Antipoff expandiu seu trabalho para todo território nacional implantando suas ideias inovadoras que incentivaram e realizaram novas iniciativas educacionais. Uma de suas maiores contribuições foi em relação a educação dos – na época – chamados de excepcionais e dos estudantes que apresentavam inteligência acima da média – chamados na época de bem-dotados. 2. Descreva sobrea legislação que defende a não obrigatoriedade de laudo médico para que os estudantes PAEE sejam atendidos. A nota técnica de 2014 afirma que não é obrigatória a apresentação de laudo médico no momento de matricular o estudante com Necessidades Educativas Especiais (NEE) para ter direito ao Atendimento Educacional Especializado (AEE). O documento considera o AEE um atendimento pedagógico e não clínico, logo, não deve haver a obrigatoriedade de laudo para ser inserido nesta modalidade de atendimentos. 3. Escolha um dos públicos da Educação Especial apresentados no texto (estudantes com Transtorno do Espectro Autista, deficiência auditiva, TDAH, superdotação, dislexia etc.) e descreva suas principais características. • Transtorno do Espectro Autista: estudantes dentro desse espectro costumam ser bem intensos com os assuntos que lhes interessam, logo é ideal para o professor procurar conciliar esses assuntos com o conteúdo apresentado nas aulas, de modo a “capturar” a atenção desse aluno. É importante também que o professor evite usar expressões de duplo sentido e figuras de linguagem em suas falas, prezando sempre por um discurso que seja o mais direto possível. • Deficiência auditiva: mesmo sem dominar a Linguagem Brasileira de Sinais (Libras), é essencial que o docente faça uso de muitos Resolução das atividades 135 gestos, expressões faciais, desenhos e demais recursos que facilitem o entendimento do seu discurso e de duas explicações. • TDAH: estudantes com esse transtorno podem apresentar diversas fragilidades (dificuldade de concentrar por longos períodos e de se manter dentro do comportamento desejado), o que leva a um rendimento escolar abaixo do desejado. Para contornar esses empecilhos, o ideal é que o professor fique atento a esses sinais e procure planejar atividades que prezem pela ludicidade e a interação. • Superdotação: estudantes dentro dessa classificação têm maior facilidade e rapidez em adquirir conhecimentos que combinem com seus interesses, portanto é importante que o professor saiba que esse aluno nem sempre será o melhor em todas as matérias. Entretanto, se surgirem sinais de que um conteúdo em específico desperta o interesse desse aluno, o ideal é que o professor o estimule com propostas e desafios inovadores, já que estudantes dentro desse espectro não correspondem àquilo que é solicitado nas vias formais da educação. • Dislexia: para estudantes com dislexia, é importante reduzir o número de cópias escritas, prezando sempre por atividades já prontas e outros recursos que irão auxiliar na aplicação do conteúdo (filmes, vídeos, jogos, brincadeiras, passeios etc.). Outra recomendação é prezar por um discurso claro e simples, repetindo e alterando as formas de explicar um mesmo conteúdo sempre que necessário. 2 Práticas para alunos com deficiência 1. Acerca da teoria de Feuerstein, Klein e Tannenbaum o que é o conceito de mediação? A mediação é uma interação qualitativa entre o organismo e seu meio ambiente. Essa qualidade é assegurada pela interposição intencional de um ser humano que medeia os estímulos capazes de afetar o organismo. Assim, esse modo de interação é paralelo e qualitativamente diferente das modalidades de interação generalizadas e difusas entre o mundo e o organismo, também é conhecido como contato direto com o estímulo. Outro conceito dado pelos autores é o de que a interferência do mediador tem o propósito de direcionar a aprendizagem. 2. Descreva com suas palavras a história da grande pesquisadora surdocega Hellen Keller e de sua professora Anne Sullivan. De acordo com o apresentado neste capítulo, Hellen Keller ficou doente em 1882, quando ainda tinha apenas um ano e meio de idade, 136 Práticas pedagógicas inclusivas perdendo sua audição e sua visão. A partir de 1887, a professora Anne Sullivan iniciou seus trabalhos com a menina e progrediu a capacidade da criança de se comunicar soletrando em língua de sinais, na palma da mão de Keller, os nomes dos objetos que apresentava para ela tocar. Keller estudou, passou na faculdade e formou-se em 1904. Em 1920, ela ajudou a fundar a American Civil Liberties Union (ACLU) e durante toda sua vida recebeu muitas honrarias em reconhecimento a suas realizações e publicações de obras. 3. Tomando por base as discussões do capítulo sobre deficiências físicas, por que é tão importante não reduzir o estudante a suas características? Quando uma deficiência é entendida como algo que pertence ao estudante e se manifesta apenas dentro dos limites físicos, ela passa a ser identificada com base em suas características e com base em parâmetros determinados para as características da categoria de deficiência a qual pertencem, o que contribui negativamente para a construção da identidade da pessoa com deficiência. Desse modo, o desenvolvimento do potencial individual é muito desvantajoso, pois nessa dinâmica social de identificação da deficiência, as pessoas perdem sua individualidade e acabam deixando de desempenhar papéis em diferentes contextos sociais. Assim, não podemos deixar acontecer em escolas essa padronização comportamental que limita e exclui o estudante com deficiência. 3 Práticas para alunos com TEA, síndrome de Rett e altas habilidades 1. Faça um quadro comparativo apresentando as diferenças entre os três níveis de autismo. Nível 1 Nível 2 Nível 3 No nível 1, o indivíduo se comuni- ca verbalmente, mas tem a neces- sidade de auxílio de outra pessoa para começar uma interação social. Comportamentos relacio- nados à fixação da rotina e rituais são bastante comuns, podendo evitar mudanças ou abertura para novas situações. Pode expressar dificuldade na organização e no planejamento. No nível 2, já há dificuldade para se comunicar e para interagir socialmen- te, mesmo na presença de suporte. Pode apresentar pouco contato social, ou comportamentos sociais atípicos. A presença de estereotipias e interesses restritos é frequente, impactando diferentes contextos em que convive. Precisa de grande su- porte para se relacionar com outras pessoas e tendência à rotina. Já no nível 3, apresenta déficits sig- nificativos na comunicação verbal e não-verbal, pode manifestar alguns sons ou fala ininteligível, impactan- do no seu funcionamento como um todo e depende de suporte muito substancial de outra pessoa, tanto para se comunicar e interagir socialmente, como também para enfrentar mudanças na rotina ou no contexto. Resolução das atividades 137 2. Sobre a decisão de matricular um estudante com Necessidades Educativas Especiais em uma sala de aula comum ou uma escola especial, a quem cabe essa decisão? Essa é uma decisão multiprofissional que deve ser tomada em conjunto, envolvendo família e todos os profissionais que acompanham o estudante. Ela não deve ser tomada de modo unilateral, envolvendo somente uma dessas partes citadas. 3. Analise o seguinte estudo de caso: Pedro é um adolescente com altas habilidades ou superdotação frequentando o nono ano do Ensino Fundamental, ele demonstra grande facilidade nas áreas da linguística e lógico-matemática, mas precisa de interesse e motivação para produzir. Quanto à inteligência linguística, seu nível de expressão oral é muito desenvolvido, utiliza-se de um vocabulário elaborado e se destaca na organi- zação das ideias. No que se refere à linguagem escrita, administra as ideias, possui uma boa articulação das questões gramaticais, porém apresenta muitos erros ortográficos, com uma grafia insatisfatória, revelando a sua rapidez de pensamento e o baixo nível de concentração na estruturação das palavras. Isso faz com que ele evite a escrita, preferindo comunicar-se oralmente. Quanto à matemática, faz cálculos mentais e apresenta dificuldade para utilizar fórmulas padronizadas, preferindo criar suas próprias e elaborar meios de resolução ino- vadores para os cálculos. Elabore estratégias que possam ajudar Pedro a desenvolver seu potencial em sala deaula. Espera-se que o professor elabore estratégias que possam auxiliar Pedro a expor as suas ideias dentro de sala de aula com oportunidades de realizar provas orais, fazer trabalhos de apresentação, vídeo, podcast em que tenha oportunidade de expor sua eloquência e vasto vocabulário. 4 A sala de recursos e as tecnologias assistivas 1. Pensando nos estudantes superdotados, elabore uma lista com cinco atividades que podem ser realizadas com o objetivo de desenvolver o potencial de um estudante que tem como foco de interesse as artes cênicas. Assistir a uma peça de teatro (o que pode ser ofertado para todos os estudantes da sala de recursos); proporcionar uma roda de conversa com um ator que esteja em cartaz com algum espetáculo local ou 138 Práticas pedagógicas inclusivas que seja da região; fazer uma visita técnica a um teatro da região com o objetivo de compreender os bastidores de um espetáculo; participar de uma aula experimental em uma aula de teatro (verificar com a família antes a possibilidade de autorização); e realizar uma pesquisa/projeto sobre as possibilidades de atuação e formação dos profissionais dessa área. 2. Crie um mapa conceitual tendo como tema o plano individualizado. Insira palavras que ajudem o professor a lembrar dos aspectos mais importantes antes, durante e depois da elaboração desse plano. Plano individualizado Conhecer o aluno Ler laudos e avaliações Realizar testagens Conversar com os pais e com o aluno Sugerir alterações para os docentes Avaliar o plano e planejar novamente Adaptar a avaliação Planejar atividades adaptadas Demais atendimentos di za in /S hu tte rs to ck 3. As tecnologias assistivas são divididas em baixa e alta tecnologia. De acordo com os autores estudados, diferencie essas tecnologias. De acordo com os autores estudados, as tecnologias assistivas de baixa tecnologia são aquelas consideradas de baixo custo, simples construção e fáceis de utilizar pelo estudante. Dentro da baixa tecnologia podemos citar um simples lápis adaptado, um material ampliado ou utensílios de uso diário adaptados. Já as de alta tecnologia normalmente são dispositivos caros e mais difíceis de serem obtidos, Resolução das atividades 139 como cadeiras de rodas motorizadas, aparelhos auditivos sofisticados e aparelhos de comunicação eletrônicos que nem sempre estão disponíveis para todos devido ao seu custo. 5 Práticas de inclusão e a família 1. Quem pode realizar avaliação/diagnóstico de estudantes com Necessidades Educativas Especiais? As avaliações e diagnósticos devem ser realizados por uma equipe multidisciplinar composta de psicólogos, psicopedagogos e – nos casos dos transtornos – médicos especialistas, como neuropediatras ou psiquiatras infantis. No caso das deficiências, na maior parte dos casos, os estudantes já chegam no espaço escolar com um diagnóstico realizado por médico especialista, tendo em vista a busca da família por entender as necessidades do filho. 2. Sobre a avaliação escolar dos superdotados, os professores podem acrescentar questões, considerando que esse grupo de alunos é mais inteligente que os demais? Justifique sua resposta. Considerando que nem sempre as áreas de maior habilidade desses estudantes estão relacionadas aos conteúdos escolares, não seria correto adicionar questões no sentido de cobrar conteúdos a mais ou um desempenho superior. O enriquecimento deve ocorrer no dia a dia da sala de aula e as provas devem avaliar apenas os conteúdos ensinados durante o período. 3. Acerca das adaptações arquitetônicas para adequar os espaços físicos escolares, a quem cabe essa responsabilidade? Cabe à equipe de gestão escolar. Cabe aos professores do atendimento especializado e das disciplinas regulares realizar adaptações que tenham como objetivo melhorar o bem-estar dos estudantes em sala de aula. No entanto, com relação a reformas de banheiros, construções de rampas de acesso, instalações de corrimões e demais reformas que se façam necessárias para o acesso do estudante aos ambientes, essas devem ser organizadas pela equipe de gestão escolar. 140 Práticas pedagógicas inclusivas PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS INCLUSIVAS PRÁTICAS Patricia Gonçalves ISBN 978-65-5821-217-1 9 786558 212171 Código Logístico I000930 Práticas pedagógicas inclusivas Patricia Gonçalves