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Educação Inclusiva Débora Regina de Paula Nunes Pedagogia Educação Inclusiva Natal – RN, 2013 Pedagogia Débora Regina de Paula Nunes Educação Inclusiva Colaboradoras Patrícia Braun Vera Lúcia Vieira de Souza Nunes, Débora Regina de Paula. Educação inclusiva / Débora Regina de Paula Nunes. – Natal: EDUFRN, 2013. Natal: EDUFRN, 2013. 232 p.: il. ISBN 978-85-425-0056-1 Colaboradoras: Patrícia Braun e Vera Lúcia Vieira de Souza. Disciplina oferecida pelo curso de Pedagogia a Distância da UFRN. 1. Educação inclusiva. 2. Defi ciência. 3. Superdotação. 4. Autismo. I.Título. CDU 376-054.57 N972e Catalogação da publicação na fonte. Bibliotecária Verônica Pinheiro da Silva. Governo Federal Presidenta da República Dilma Vana Rousseff Vice-Presidente da República Michel Miguel Elias Temer Lulia Ministro da Educação Aloizio Mercadante Oliva Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN Reitora Ângela Maria Paiva Cruz Vice-Reitora Maria de Fátima Freire Melo Ximenes COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS DIDÁTICOS Marcos Aurélio Felipe GESTÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS Luciana Melo de Lacerda Rosilene Alves de Paiva PROJETO GRÁFICO Ivana Lima REVISÃO DE MATERIAIS Camila Maria Gomes Cristinara Ferreira dos Santos Emanuelle Pereira de Lima Diniz Eugenio Tavares Borges Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Kaline Sampaio de Araújo Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Orlando Brandão Meza Ucella Priscila Xavier de Macedo Rhena Raize Peixoto de Lima Thalyta Mabel Nobre Barbosa Verônica Pinheiro da Silva FICHA TÉCNICA EDITORAÇÃO DE MATERIAIS Ana Paula Resende Alessandro de Oliveira Paula Anderson Gomes do Nascimento Carolina Aires Mayer Carolina Costa de Oliveira Davi Jose di Giacomo Koshiyama Dickson de Oliveira Tavares Elionai Augusto Silva de Melo Elizabeth da Silva Ferreira José Antonio Bezerra Junior Rafael Marques Garcia Roberto Luiz Batista de Lima Rommel Figueiredo Revisão de estrutura e linguagem Camila Maria Gomes Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de língua portuguesa Orlando Brandão Meza Ucella Priscila Xavier de Macedo Rhena Raize Peixoto de Lima Revisão de normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Criação e edição de imagens Alessandro de Oliveira Paula Carolina Costa de Oliveira Revisão tipográfi ca Priscila Xavier de Macedo Pré-impressão Carolina Aires Mayer José Antonio Bezerra Junior IMAGENS UTILIZADAS Acervo da UFRN www.depositphotos.com www.morguefi le.com www.sxc.hu Encyclopædia Britannica, Inc. © Copyright 2005. Todos os direitos reservados a Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – EDUFRN. Nenhuma parte deste material pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorização expressa do Ministério da Educação – MEC Secretaria de Educação a Distância (SEDIS) Centro de Educação (CE) Secretária de Educação a Distância Maria Carmem Freire Diógenes Rêgo Secretária Adjunta de Educação a Distância Ione Rodrigues Diniz Morais Diretora Márcia Maria Gurgel Ribeiro Vice-Diretor Marcos Antônio de Carvalho Lopes Sumário Apresentação Institucional 5 Aula 1 Estigma 7 Aula 2 Educação Especial: um pouco de história 27 Aula 3 Educação especial no Brasil: um panorama histórico 45 Aula 4 Educação inclusiva 61 Aula 5 Defi ciência física 81 Aula 6 Defi ciência visual 109 Aula 7 Defi ciência auditiva 133 Aula 8 Defi ciência Intelectual 153 Aula 9 Altas Habilidades/Superdotação 179 Aula 10 Transtornos do Espectro Autista 205 Apresentação Institucional A Secretaria de Educação a Distância – SEDIS da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, desde 2005, vem atuando como fomentadora, no âmbito local, das Políticas Nacionais de Educação a Distância em parceira com a Secretaria de Educação a Distância – SEED, o Ministério da Educação – MEC e a Universidade Aberta do Brasil – UAB/CAPES. Duas linhas de atuação têm caracterizado o esforço em EaD desta instituição: a primeira está voltada para a Formação Continuada de Professores do Ensino Básico, sendo implementados cursos de licenciatura e pós-graduação lato e stricto sensu; a segunda volta- -se para a Formação de Gestores Públicos, através da oferta de bacharelados e especializações em Administração Pública e Administração Pública Municipal. Para dar suporte à oferta dos cursos de EaD, a Sedis tem disponibilizado um conjunto de meios didáticos e pedagógicos, dentre os quais se destacam os materiais impressos que são elaborados por disciplinas, utilizando linguagem e projeto gráfi co para atender às necessidades de um aluno que aprende a distân- cia. O conteúdo é elaborado por profi ssionais qualifi cados e que têm experiên- cia relevante na área, com o apoio de uma equipe multidisciplinar. O material impresso é a referência primária para o aluno, sendo indicadas outras mídias, como videoaulas, livros, textos, fi lmes, videoconferências, materiais digitais e interativos e webconferências, que possibilitam ampliar os conteúdos e a inte- ração entre os sujeitos do processo de aprendizagem. Assim, a UFRN através da SEDIS se integra o grupo de instituições que assumiram o desafi o de contribuir com a formação desse “capital” humano e incorporou a EaD como modalidade capaz de superar as barreiras espaciais e políticas que tornaram cada vez mais seleto o acesso à graduação e à pós- graduação no Brasil. No Rio Grande do Norte, a UFRN está presente em polos presenciais de apoio localizados nas mais diferentes regiões, ofertando cursos de graduação, aperfeiçoamento, especialização e mestrado, interiorizando e tornando o Ensino Superior uma realidade que contribui para diminuir as diferenças regionais e o conhecimento uma possibilidade concreta para o desenvolvimento local. Nesse sentido, este material que você recebe é resultado de um investimento intelectual e econômico assumido por diversas instituições que se comprometeram com a Educação e com a reversão da seletividade do espaço quanto ao acesso e ao consumo do saber E REFLETE O COMPROMISSO DA SEDIS/UFRN COM A EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA como modalidade estratégica para a melhoria dos indicadores educacionais no RN e no Brasil. SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA SEDIS/UFRN 5 Estigma 1 Aula 1 2 3 4 5 Aula 1 Educação Inclusiva 9 Apresentação O lá, aluno!Neste nosso primeiro encontro, você aprenderá como as normas e os valores sociais infl uenciam a maneira como percebemos as pessoas ao nosso redor. Descobrirá como os estereótipos são criados e mantidos e como, a partir deles, é construído o estigma. Em seguida, você fará uma análise minuciosa do conceito de estigma ressaltando as suas dimensões e os mecanis- mos de sua perpetuação. Por fi m, afunilaremos nossa discussão, descrevendo o processo de estigmatização da pessoa com defi ciência. Objetivos Defi nir estigma. Explicar como o estigma é formado. Identifi car as dimensões do estigma. Defi nir defi ciência. Descrever os aspectos estigmatizantes da defi ciência. 1Atividade Pessoa A Pessoa B Aula 1 Educação Inclusiva 11 Você sabe quem são as pessoas apresentadas a seguir? a) Observe as duas fotografi as. Agora, responda as seguintes questões: Pessoa A Pessoa B Quem é? Qual a sua ocupação? Características gerais (calmo, agitada, inibida, extrovertida etc.) b) Se você encontrasse com essas pessoas na rua, de que forma cumprimentaria cada uma delas? c) Agora, peça para um amigo responder às mesmas questões que você. Pergunte, inclusive, como cumprimentaria cada uma delas. Não mostre ou fale para o seu amigo sobre suas impressões. d) Compare as suas respostas com as de seu amigo. O que elas têm em comum? Em que diferem? e) O que infl uenciou a sua resposta? f) Pergunte ao seu amigo o que infl uenciou na resposta dele. Fonte: http://halftheskyempoweringwomen. blogspot.com.br/2012/05/support-of-us- sisters.html Fonte: http://images2.wikia.nocookie.net/__ cb20120923194404/liberapedia/images/0/08/ Hippie.jpg Aula 1 Educação Inclusiva12Conceitos e (Pré) conceitos No exercício anterior, você e seu amigo, muito provavelmente, determinaram as ocupações e o modo de ser das pessoas representadas a partir de suas ves- timentas, expressões faciais ou do posicionamento de suas mãos. Essas infor- mações foram, também, essenciais para determinar como as cumprimentariam. Incrivelmente, vocês dois descreveram pessoas semelhantes, mesmo não as co- nhecendo. Correto? Possivelmente, adotaram posturas similares quando pensa- ram em formas de cumprimentá-las. Como foi possível compartilhar impressões e comportamentos parecidos diante de pessoas que nunca viram? Bem, podemos dizer que, para responder “quem eram” as pessoas, foi preciso processar as informações contidas nas fotos (por exemplo: tipo de vestimenta, expressão facial) tomando como base os esquemas cognitivos predefi nidos. Esses esquemas são compreendidos como mecanismos internos responsáveis por organizar as informações que registramos com os nossos sentidos (audição, tato, visão etc.). Servem, portanto, como um molde para a maneira como pro- cessamos as informações (DATTILIO, 2006). Os esquemas são predeterminados, intrinsecamente ligados às normas e valores sociais de cada cultura e, paulati- namente, construídos no decorrer de nossas histórias de vida. O fato de você e seu amigo pertencerem à mesma cultura talvez possa explicar, parcialmente, o motivo pelo qual apresentaram respostas similares aos descreverem as pessoas mostradas na atividade. O mecanismo de organização de informações, também conhecido como processo de categorização, é normal, adaptativo e importante nas nossas interações sociais. Ele nos ajuda a saber como nos comportar diante do outro, porque permite predizer, com certa margem de segurança, as ações do outro (GLAT, 1998). Foi essa categorização que infl uenciou a forma como você saudaria as pessoas representadas anteriormente. É esse mesmo mecanismo que determina o tom de voz que você adota diante deuma fi gura de autori- dade ou a forma com que se senta no chão para brincar com uma criança. A categorização simplifi ca a percepção social. Ela funciona como uma espécie de “fi lminho” que, rapidamente, roda em nossas cabeças oferecendo informações essenciais sobre as características mais marcantes de cada indivíduo – e como devemos agir diante dele. As informações categorizadas da “pessoa A”, por exem- plo, culminaram no estereótipo de uma freira que, para mim, se traduz em uma mulher boa, idônea, formal, carismática e serena. Quanto à “pessoa B”, pensei em um hippie, cujo estereótipo contempla ideias como informalidade, senso de humor apurado e atitude contestatória. Estereótipo Vocábulo que advém do grego stereo (sólido) e tipo (molde), signifi cando con- junto de crenças comparti- lhadas em uma cultura sobre traços e comportamentos dos membros de um grupo social. A partir dos estereóti- pos, eu simplifi co a realidade e crio expectativasem relação ao comportamento das pessoas. Em nossa cultura, é comum compartilhar crenças como “o carioca é descon- traído e o paulistano, tenso”, “o político é corrupto” ou o “adolescente é rebelde”. Estigma Identidade real Identidade virtual O que o indivíduo deveria ser O que o indivíduo é Aula 1 Educação Inclusiva 13 Com esses estereótipos em mente, você estaria inclinado a cumprimentar a freira de maneira mais cerimoniosa, como um aperto de mão. O hippie, por outro lado, dar-lhe-ia uma batidinha nas costas seguida das palavras “E aí, cara!”. Esses são exemplo, mas o importante é refl etir que, provavelmente, você saudaria o hippie e a freira de forma distinta, em consonância com o estereótipo que temos dos grupos a que pertencem. Posso afi rmar que os estereótipos armazenados em minha memória infl uen- ciam as percepções que tenho das pessoas e dos diferentes grupos sociais. O que aconteceria, então, com o estereótipo da freira se eu descobrisseque ela, uma renomada professora de história, está sendo procurada pela polícia por ter liderado uma quadrilha de assaltantes de banco no Paraná (vale salientar que se trata de um caso fi ctício, uma suposição)? Essas condutas “inesperadas”, negativamente avaliadas e incongruentes com o estereótipo que tenho do indivíduo, formam a base para o surgimento do estigma (GLAT, 1998). O estigma é um atributo depreciativo atribuído a uma pessoa ou grupo por aqueles considerados “normais”. Revela-se como uma tor- peza moral, uma falha oculta, considerada motivo de vergonha (GOFFMAN, 1988). Essa falha é criada pela lacuna existente entre o que o indivíduo é e o que, de acordo com as expectativas sociais, ele deveria ser (seu estereótipo). Agora, suponhamos que a freira, no exemplo anterior, é uma assaltante, embora que, na perspectiva da sociedade em que vivemos, ela seja considerada uma mulher correta, idônea. Nas palavras de Goffman (1988), seria como se “a identidade social real dela não correspondesse com sua identidade social virtual”. De maneira esquemática, poderíamos representar o conceito de estigma da seguinte forma: Estigma Termo usado pelos gregos para se referir a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extra- ordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram tipicamente feitos com cortes no corpo, indicando que o portador era um escravo, crimino- so ou traidor: uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que deveria ser evitada, especialmenteem lugares públicos (GOFFMAN, 1988, p.11). Figura 1 – Representação gráfi ca de estigma 2Atividade Estigma: criminosa Identidade virtual: Pessoa idônea Identidade real: Assaltante de banco Aula 1 Educação Inclusiva14 O termo estigma refere-se ao aspecto depreciativo no caráter do indivíduo que diverge da norma. Ele não é, no entanto, formado pelo atributo em si, mas pela relação incongruente estabelecida entre esse atributo e o estereótipo. A freira, possivelmente, receberia o estigma de “a criminosa”, uma vez que é esse o atributo que foge do estereótipo de “pessoa religiosa”. Poderíamos representar a instauração de seu estigma da seguinte forma: Figura 2 – O caso da freira Assaltante de banco representa sua identidade real (o que ela é) e pessoa idônea, sua identidade virtual (o que deveria, na perspectiva da sociedade, ser). O grau de estigmatização depende do quanto indesejável o atributo depreciativo for considerado pelo grupo. Ou seja, quanto maior for a “lacuna” existente entre a identidade real e a virtual, maior o grau de estigmatização (GOFFMAN, 1988). É importante salientar que quando o estigma é formado, todos os outros atri- butos da pessoa parecem ser ofuscados. Ou seja, quando identifi co o indivíduo como desviante, tudo que ele faz ou é passa a ser interpretado em função dos atributos estereotipados do estigma (GLAT, 1998). Assim, mesmo sendo a freira uma extraordinária professora de história e uma pessoa carismática, essas carac- terísticas são minimizadas quando o estigma de “criminosa” lhe é impugnado. Vamos fazer uma refl exão para averiguar quão forte é um estig- ma? Suponhamos que, dez anos após cumprir a sua pena na pri- são, essa mesma freira foi lhe pedir um emprego como professo- ra de história na escola em que você é diretor. Você contrataria essa ex-presidiária? Discuta a sua resposta. Aula 1 Educação Inclusiva 15 As especifi cidades do estigma De acordo com Goffman, “um atributo que estigmatiza alguém pode confi rmar a normalidade de outrem, portanto, ele não é em si mesmo, nem honroso nem desonroso” (GOFFMAN, 1988, p.13). Assim, observe as seguintes fotografi as. Os atributos do rapaz à direita podem ser condizentes com o estilo adotado por um grupo de jovens que adotam um “visual punk”. O homem à esquerda poderia lembrar a fi gura de um jovem advogado que trabalha em um escritó- rio. Imagine, agora, esses mesmos homens inseridos nos ambientes contrários. O jovem à direita em um escritório de advocacia e o da esquerdaem um show de rock. O que você acha que aconteceria? Pois bem, o camarada de chapéu, embora fosse um excelente promotor de justiça, poderia ser rotulado de “cabeludo do chapéu” no escritório. O de gravata, mesmo sendo um exímio guitarrista de música “punk”, seria chamado no show de “o engravatado”. O interessante é pensar que esses mesmos rótulos tendem a desaparecer quando mudam as “audiências”. Em outras palavras, como sinaliza Omote (1994, p. 66), [...] a mesma característica pode ter o sentido de vantagem ou de desvan- tagem dependendo de quem é o portador ou o ator e de quem são os seus “outros”, isto é, a sua audiência, assim como de outros fatores circunstan- ciais defi nidos pelo contexto no qual ocorre o encontro. Na medida em que caracterizo alguém como desviante, asseguro a normali- dade das demais pessoas que participam de um grupo (OMOTE, 1994). É como se cada grupo desenvolvesse um conjunto de critérios ou regras determinando os atributos e condutas considerados aceitáveis a serem seguidos por seus mem- bros (GLAT, 1998). A presença do “diferente” realça e sedimenta os atributos Fonte: arquivo pessoal. Fonte:<http://totallycoolpix.com/wp-content/ uploads/2011/24032011_lolita_fashion/lolita_011.jpg>. Acesso em: 13 nov. 2012. Aula 1 Educação Inclusiva16 característicos de cada organização social. Quando rotulo o jovem promotor de “cabeludo do chapéu”, realço a ideia de que o correto, normal e desejável seria que os advogados adotassem um visual mais discreto, sem adereços. Por outro lado, no contexto do grupo de punks, seria adequado abandonar a gravata. Você deve ter percebido que o estigma funciona como um rótulo. Assim, te- mos no mundo as pessoas que rotulamos de: “o cego”, “o aleijado”, “o burro”, “o doido”, “o preguiçoso”, “o encostado”, “o bêbado”, “o certinho”, “o bonitão”, “o homossexual”, etc. Todos esses nomes carregam em si uma história. Ao narrá- -la, desvendamos a biografi a da formação do estigma. Diferentes fatores podem contribuir para o grau de estigmatização de um indivíduo. O Quadro 1, a seguir, fala de seis dimensões, propostas por Ainlay e Crosby (1986 apud GLAT, 1998), que podem afetar o processo de estigmatização. Dimensão Exemplo 1. Visibilidade Uma pessoa que não tem um braço, que seja cega ou traga uma cicatriz no rosto,é mais facilmente identifi cável do que um indivíduo que tenha um transtorno psiquiátrico. Isso porque, nos três primeiros casos, a condição é imediatamente percebida, tornando o indivíduo um desacreditado. No caso do transtorno mental, a diferença só será percebida se o indivíduo entrar em surto. Nesse sentido, ele passa a ser caracterizado como uma pessoa desacreditável. 2. Permanência Compare a pessoa que esteja temporariamente incapaz de caminhar devido a uma cirurgia no joelho com outra que tenha nascido com uma defi ciência física. O prognóstico da primeira é que ela “melhorará”, livrando-se do estigma de “aleijado”. A perspectiva do segundo é que permanecerá em uma cadeira de rodas. Assim, o segundo indivíduo tenderá a ser mais estigmatizado do que o primeiro. 3. Interferência nas relações sociais A condição limita as interações sociais da pessoa? Imagine, nesse caso, uma pessoa surda inserida em um grupo de ouvintes. O surdo, possivelmente, será estigmatizado por não oralizar ou compreender a comunicação verbal da comunidade ouvinte. Podemos, também, citar o exemplo de uma pessoa gaga em uma reunião social. A difi culdade de expressar-se de forma fl uente pode tornar-se motivo de estigma. 4. Estética Imagine uma pessoa com o rosto queimado ou uma sem os braços. Essas diferenças físicas contrastam com a ideia de um corpo normal, perfeito, cultivado pela sociedade. Assim, quanto mais disforme e distante dos padrões de normalidade, maior o estigma. 5. Culpabilidade Há 25 anos, os homossexuais eram fortemente estigmatizados por serem considerados como população de risco de contração do HIV. Era comum ouvirmos que a AIDS seria um castigo pelo comportamento sexual “desviante”. 6. Contaminação Essa dimensão diz respeito à ideia de que a condição pode ser adquirida pelo contato. Muitos se negam a socorrer uma pessoa após uma crise epilética por temerem que a epilepsia possa ser adquirida pelo contato com a saliva! Outro exemplo seria o de pais que se recusam a matricular seus fi lhos em escolas onde existem crianças com defi ciência por “medo” dos pequenos desenvolverem condutas inadequadas. Quadro 1 – Dimensões da estigmatização Desacreditado Termo usado para caracterizar a pessoa cuja diferença é per- cebida de forma imediata. Ou seja, observa-se prontamente uma discrepância entre sua identidade real e virtual (GOFFMAN, 1988). Desacreditável Termo empregado para carac- terizar a pessoa cuja diferença não é imediatamente observa- da. Assim, a diferença entre as identidades (real e virtual) não são prontamente percebidas. 3Atividade 1 2 Estigma: A.__________ B.____________ C.____________ Identidade virtualIdentidade real Aula 1 Educação Inclusiva 17 Como o estigma foi formado? Você ou algum colega de escola/trabalho já foi “rotulado”? Em caso afi rmativo, pense na história desse rótulo e, esquematicamen- te, ilustre como seu estigma foi formado, utilizando o diagrama a seguir. Depois, fale das 6 dimensões desse estigma, considerando o Quadro 1, mostrado anteriormente. No diagrama ao lado: a) No espaço (A) inclua o “rótulo” usado para referir-se ao colega. b) Escreva sua identidade real na letra B. c) Escreva sua identidade virtual na letra C. d) Descreva, brevemente, a história de como esse rótulo foi conferido ao seu colega. e) Descreva as dimensões do estig- ma, considerando o Quadro 1. 4Atividade Aula 1 Educação Inclusiva18 O estigma do defi ciente Quando falamos de grupos estigmatizados, não podemos deixar de falar das pessoas com defi ciência. Mas, quem são esses sujeitos? Antes de prosseguirmos com nossa defi nição, gostaria que você escrevesse, na atividade a seguir, o que entende por defi ciência. O que é defi ciência? Veja se a sua concepção descrita no exercício anterior traz alguma semelhança com a defi nição de defi ciência adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU): Pessoas com defi ciência são aquelas que têm impedimentos de natureza física, mental, intelectual ou sensorial permanentes, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em bases iguais com as demais pessoas (BRASIL, 2008, p.9). É interessante ressaltar que o conceito adotado na defi nição supracitada as- sinala que “barreiras” podem limitar a participação das pessoas com defi ciência na sociedade. Essa ideia nos faz pensar que, em algum aspecto, a defi ciência deve ser relativizada. Nesse contexto, é importante resgatarmos os conceitos de defi ciência pri- mária e secundária discutidas por Amaral (1992). Defi ciência primária diz respeito aos problemas de origem orgânica, intrínsecos ao indivíduo. Ou seja, alterações biológicas em um órgão ou estrutura corporal que geram perdas sen- soriais, limitações físicas ou prejuízos intelectuais. Nesse cenário, estaríamos falando da surdez, da cegueira, da defi ciência intelectual, da paralisia, dentre outras condições. A defi ciência não é, entretanto, uma condição unicamente intrínseca ao in- divíduo, emergindo com o nascimento ou por meio de uma doença adquirida. Na perspectiva de Omote (1994), ela pode ser produzida e mantida pelo meio social. É nesse panorama que destacamos o conceito dedefi ciência secundária. Ela diz respeitoàs condições extrínsecas ao sujeito, as consequências psicosso- ciais da defi ciência primária. De acordo com Nuernberg (2008), as defi ciências secundárias são, portanto: [...] mediadas socialmente, remetendo ao fato de o universo cultural estar construído em função de um padrão de normalidade que, por sua vez, cria barreiras físicas, educacionais e atitudinais para a participaçãosocial e cul- tural da pessoa com defi ciência (NUERNBERG, 2008, p. 309). 5Atividade Aula 1 Educação Inclusiva 19 Para compreendermos como a defi ciência pode ser relativizada e descrita como defi ciência primária ou secundária, analise a interação de Elsa e Dona Maria. Elsa, uma menina de 12 anos com paralisia cerebral, está no quarto ano do Ensino Fundamental de uma escola regular. Devido a seu comprometimento motor, não fala, mas comunica-se por meio de uma prancha de comunicação, composta por fi guras e palavras escritas, parecida com esta: Prancha de comunicação usada por Elsa no recreio Elsa: (olha para Dona Maria, acena a cabeça e sorri). D. Maria: Oi Elsa! O que você vai querer hoje? Elsa: (aponta para os símbolos) EU QUERO e PIPOCA D. Maria: É pra já! (vai até a cozinha e pega um saco de pipoca e en- trega a Elsa). A partir da situação mostrada, que tipo(s) de “deficiência(s)” é (são) observada(s)? Justifi que sua resposta. (a) Defi ciência primária (b) Defi ciência secundária (c) Defi ciência primária e secundária Na semana passada, presenciei a seguinte interação entre Elsa e Maria, a dona da cantina da escola: 6Atividade Aula 1 Educação Inclusiva20 Estar diante do diferente, do corpo marcado pela defi ciência, ameaça a nossa frágil estabilidade social, afl orando a lembrança da imperfeição humana, de como poderíamos ser como “eles” (GLAT, 1998; Silva, 2006). Pensamentos intoleráveis do tipo “e se fosse comigo?”, “e se fosse o meu fi lho nessa cadeira de rodas?” ou “se minha mãe fi casse cega?” afl oram. Com o propósito de minimizar essas angústias interiores, acionamos os nossos mecanismos de defesa, tipicamente, adotando atitudes de negação (Amaral, 1998; Silva, 2006). De acordo com Amaral (1998), três formas de negação são comuns diante da defi ciência: a compensa- ção, a simulação e a atenuação. O Quadro2 a seguir exemplifi ca essas atitudes, resgatando frases comumente ouvidas no cotidiano. Atitude Exemplos Compensação: a condição estigmatizante é contraposta a um atributo desejável. Ele é cego, mas tão inteligente! É homossexual, mas um ótimo fi lho! Atenuação: o abrandamento do atributo estigmatizado Ele perdeu uma perna no acidente, mas poderia ter perdido a vida! Simulação: a diferença é negada, como se não existisse. Nem percebi que ela andava de cadeira de rodas! Ele é cego, mas vê tudo que acontece! Quadro 2 – Mecanismos de negação tipicamente evidenciadosperante a defi ciência A tendência à estigmatização do defi ciente pode, também, ser explicada quando analisamos as dimensões do estigma. Retome o Quadro 1 e tente identifi car como o defi ciente pode se encaixar em cada uma dessas dimensões. Dimensão Como o defi ciente se encaixa 1. Visibilidade 2. Permanência 3. Interferência nas relações sociais 4. Estética 5. Culpabilidade 6. Contaminação Mecanismos de Defesa Estruturas permanentes da psique que permitem à pessoa furtar-se ao conhecimento de tudo que pode causar-lhe ansie- dade (Cabral; Nick, 1990 p.79). Essas estruturas inconscientes ajudam o indivíduo a manter seu equilíbrio psíquico, suprimindo fontes de insegurança e ansie- dade. Dentre os mecanismos de defesa mais comuns estão a negação, a racionalização, a projeção e a regressão. Aula 1 Educação Inclusiva 21 Pronto? Na perspectiva de Glat (1998), a maioria das defi ciências tende a se encaixar nas dimensões de permanência, visibilidade, interação social e esté- tica. Você concorda? Além de ter um caráter permanente, muitas defi ciências são prontamente visíveis. Esse é o caso das paralisias físicas ou da cegueira. Adicionalmente, a condição tende a interferir nas interações sociais. Pense no caso da pessoa surda no contexto de um grupo de ouvintes ou do gago em um debate. Em termos estéticos, podemos ponderar sobre os defi cientes desacredi- tados, cuja diferença é prontamente notada. Pessoas desprovidas de membros ou que evidenciam deformidades físicas tendem a desestabilizar o conceito de normalidade, ampliando a lacuna entre a identidade real e a virtual. Defi ciência: conceitos da atualidade Agora, gostaria que você refl etisse sobre o conceito de estigma discutido nesta aula. É primordial que você compreenda a defi ciência não apenas como um fenômeno biológico, mas como um conceito produzido e mantido pelo meio social. Nesse sentido, é essencial que você compreenda os seus sentimentos diante da diferença. As diferenças, especialmente as incomuns, inesperadas, bizarras, sempre atraíram a atenção das pessoas despertando, por vezes, temor e descon- fi ança (OMOTE, 1994, p.65). Nas próximas aulas, trataremos do percurso histórico das pessoas com defi - ciência desde a antiguidade até a contemporaneidade. Nessa trajetória, enfoca- remos em cinco condições de excepcionalidade. Para você saber do que estare- mos falando, trazemos a seguir uma breve defi nição de cada condição que será trabalhada ao longo do curso. 1) Defi ciência física – alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física (BRASIL, 2007). 2) Defi ciência visual – compreende duas condições: baixa visão e cegueira. A primeira, presente em 20% dos indivíduos que apre- sentam defi ciência visual, caracteriza-se pela perda total da visão, até a perda da capacidade de indicar a projeção da luz. A segunda, prevalente em 80% dos casos, é descrita como perda severa da visão, não corrigível através de tratamento clínico, cirúrgico, nem de óculos convencionais (SMITH, 2008). Leituras complementares Aula 1 Educação Inclusiva22 3) Defi ciência auditiva – defi nida como perda parcial ou total das possibilidades auditivas sonoras. (BRASIL, 2004). 4) Defi ciência intelectual – condição em que o indivíduo evidencia funcionamento intelectual signifi cativamente inferior à média, com manifestação antes dos 18 anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas (SMITH, 2008). 5) Altas habilidades/superdotação – condição em que o indivíduo manifestapotencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psico- motricidade e artes (Brasil, 2008). 6) Transtornos globais do desenvolvimento – conjunto de transtor- nos nos quais são evidenciadas alterações qualitativas das intera- ções sociais recíprocas, na comunicação e repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Incluem-se nesse grupo alunos com autismo, síndromes do espectro do autismo e psicose infantil (BRASIL, 2008). As três referências apresentadas a seguir trazem um aprofundamento da refl exão que fi zemos sobre estigma. AMARAL, Lígia. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físi- cas, preconceitos e sua superação. In: AQUINO, Júlio G. (Org.). Diferenças e preconceitos. São Paulo: Summus, 1998. p. 11-30. MAGALHÃES, Rita de Cássia Barbosa. Refl exões sobre a diferença: uma intro- dução à educação especial. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002. OMOTE, S. Defi ciência e não defi ciência: recortes do mesmo tecido. Revista Brasileira de Educação Especial, v. 2, n.1, p. 65-74, 1994. Resumo Aula 1 Educação Inclusiva 23 Nesta aula, refletimos sobre como nossas percepções são influenciadas pelas normas e valores sociais de nossa cultura. Observamos como os estereótipos são criados e a maneira como se originam as diversas dimensões do estigma. Chegamos, por fi m, à discussão da defi ciência, salientando a importância de visualizá- la não apenas como uma condição intrínseca, biologicamente determinada do indivíduo, mas como uma construção social. Nesse cenário, descrevemos a forma como os defi cientes são tipicamente estigmatizados em nossa sociedade. Finalizamos nossa aula traçando um breve panorama das condições de excepcionalidade que serão abordadas no decorrer de nosso curso. Além dessas, a seguir, listo algumas indicações de fi lmes que trabalham a questão do estigmade pessoas com necessidades especiais na sociedade. Neles, você poderá observar como o estigma é construído e a forma como as pessoas que evidenciam excepcionalidades são percebidas pela sociedade. Filme Temática Meu Pé Esquerdo. Jim Sheridan. Irlanda, Inglaterra: LK-Tel, 1989. 100 Min. Drama. Defi ciência física Perfume De Mulher. Martin Brest. Estados Unidos: CIC, 1992. 157 Min. Drama. Defi ciência visual O Piano. Jane Campion. França: Paris, 1993. 120 Min. Europeu. Defi ciência auditiva Rain Man. Barry Levinson. Estadosunidos: Warner, 1988. 140 Min. Drama. Autismo Uma Lição De Amor. Jessie Nelson. Estados Unidos: Playarte, 2001. 133 Min. Drama. Defi ciência intelectual E se fosse você? Aula 1 Educação Inclusiva24 Autoavaliação Você deverá assistir a um fi lme que apresente um indivíduo com alguma excepcionalidade (de- fi ciência física, visual, auditivaetc.). Em seguida, escreva uma refl exão, colocando-se no lugar do per- sonagem, explicitando seus sentimentos, desafi os e conquistas. Posteriormente, descreva a forma como esse personagem era tratado em seu meio social, trazendo uma refl exão sobre o conceito de estigma e suas dimensões. Referências AMARAL, Lígia. Sobre crocodilos e avestruzes: falando de diferenças físi- cas, preconceitos e sua superação. In: AQUINO, Júlio G. (Org.). Diferenças e preconceitos. São Paulo: Summus, 1998. p. 11-30. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: Desenvolvendo competências para oatendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. Brasília; MEC; SEESP, 2004. ______. Atendimento educacional especializado: Defi ciência física. São Paulo: SEESP/ SEED/ MEC, 2007. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Na- cional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. CABRAL, Álvaro; NICK, Eva. Dicionário técnico de psicologia. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1990. DATTILIO, Frank M. Reestruturação de esquemas familiares. Rev. bras. ter. cogn. [online]. v. 2, n. 1, p. 17-34,2006.ISSN 1808-5687. Anotações Aula 1 Educação Inclusiva 25 GLAT, Rosana. A estigmatização e marginalização do defi ciente: um processo socialmente construído. In: GLAT, Rosana. A integração social dos portadores de defi ciência: uma refl exão.Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p. 18-27. GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988. NUERNBERG, Adriano Henrique. Contribuições de Vigotski para a educação de pessoas com defi ciência visual. Psicol. estud. [online]. v.13, n. 2, p. 307-316. 2008. ISSN 1413-7372 OMOTE, S. 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Você verá também como os acontecimentos religiosos, políticos, sociais e econômicos da sociedade infl uenciaram fortemente as percep- ções sobre a excepcionalidade e sobre as oportunidades educacionais ofertadas às pessoas com defi ciência. Além disso, você estudará, através de um trabalho de campo, como os mitos consolidados no passado podem persistir no presente. Boa viagem! Objetivos Defi nir as concepções de defi ciência na Anti- guidade, na Idade Média, na Idade Moderna e Contemporânea. Caracterizar as oportunidades de educação ofertadas aos indivíduos com defi ciência nos referidos períodos. Relacionar as concepções de defi ciência nos di- ferentes períodos históricos com a atualidade. Aula 2 Educação Inclusiva 31 A Antiguidade C aro aluno, nossa história começa na Grécia antiga, em um mundo regido pelo pensamento mítico-religioso, em que os deuses e os espíritos, com forças divinas e demoníacas, traçavam o destino da natureza e dos ho- mens. Na perspectiva dos gregos, as pessoas defi cientes não eram consideradas propriamente humanas, mas entidades detentoras de poderes sobrenaturais. Três tipos de distúrbios eram os mais preocupantes: a “insanidade”, a surdez e a cegueira. O primeiro, compreendido como diferentes formas de doença mental, defi ciência intelectual e epilepsia, era o mais temido pelos gregos, como tam- bém pelos romanos (WINZER, 2002). Veja no fi nal deste tópico um vocabulário com os termos em destaque. As preocupações com a defesa militar e a subsistência em uma sociedade essencialmente agrária justifi cam a importância que os gregos conferiam às ha- bilidades físicas e intelectuais do homem (CARVALHO, 2005). Nesse cenário, os defi cientes, percebidos como aqueles com corpos e mentes “disformes”, seriam incapazes de produzir para a agricultura ou servir em guerras. Assim sendo, eram vistos como seres que ameaçavam a sobrevivência e subsistência da sociedade (CARVALHO-FREITAS, 2007). Pelo que você viu até agora, deve estar pensando: “O que faziam, então, com os defi cientes?” Pois bem, antes de responder a essa questão, coloque como pano de fundo a imagem de uma sociedade militarizada e agrária, na qual tudo era explicado pela ótica religiosa dos deuses, que organizavam e desorganizavam o mundo. A manutenção de uma sociedade vigorosa dependia, nesse cenário, da força inata de seus cidadãos. Ancorados nessa ideia, gregos e romanos promulga- vam leis destinadas a eliminar precocemente “aqueles que não podiam contri- buir”. Assim, registros históricos indicam que, em Atenas, os recém-nascidos que apresentavam deformidades físicas eram sacrifi cados, ou postos em vasos de barro e deixados à beira das estradas. Em Esparta, os considerados “loucos” eram lançados nos rios e abismos ou abandonados nas fl orestas. Em Cartago, região mediterrânea, crianças cegas eram queimadas em sinal de sacrifício ao Sol (WINZER, 2002). Eram toleradas apenas pessoas defi cientes que podiam trazer benefícios eco- nômicos ou sociais à polis. A história nos revela, por exemplo, que, em Roma, meninos cegos eram treinados para se tornarem mendicantes, e meninas cegas, prostitutas. Pessoas com defi ciência intelectual e física eram, juntamente com anões, hermafroditas e gigantes, vendidos como objetos de entretenimento para famílias abastadas, em feiras livres (WINZER, 2002). E a educação? Essa era privilégio das classes dominantes e servia para o aprimoramento do corpo e do espírito (intelecto). Na perspectiva da época, não seria factível aprimorar alguém com corpo e mente disforme, correto? Aristóteles, Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Aula 2 Educação Inclusiva32 por exemplo, argumentava que a pessoa desprovida de linguagem oral, como o surdo, seria incapaz de raciocinar e aprender. Lamentavelmente, essa concepção de surdez permaneceu pelos subsequentes dois mil anos! (WINZER, 2002). Como você pode observar, há alguns termos próprios da área que são importantes; por isso, você deve conhecer a defi nição. Leia com cuidado o vocabulário a seguir e, na medida do possível,pesquise mais a respeito. n Pensamento mítico-religioso: pensamento que não precisa ser pro- vado, que se acredita pela fé. n Defi ciente: no presente texto, o termo “defi ciente” será usado para referir-se à pessoa incapaz de assegurar por si mesmo, total ou par- cialmente, as necessidades de uma vida individual ou social normal. n Surdez: perda da capacidade de percepção normal dos sons. n Cegueira: perda total da visão. n Doença mental: alterações nas funções psíquicas, provocando dis- túrbios da percepção do pensamento e da afetividade. São exemplos de doença mental a esquizofrenia, o transtorno bipolar e as psicoses. n Defi ciência intelectual: é conhecida previamente como defi ciência ou retardo mental. Corresponde a um complexo conjunto de síndromes caracterizadas por apresentar limitações signifi cativas no funcionamen- to intelectual e no comportamento adaptativo, como as habilidades sociais, de comunicação, de cuidados pessoais, dentre outras. n Epilepsia: doença neurológica caracterizada pela presença de descargas súbitas de energia elétrica no cérebro, afetando a cons- ciência, o funcionamento motor e sensorial do indivíduo. Durante o ataque epilético, a pessoa pode apresentar alterações no com- portamento, como falar coisas sem sentido, fi car “fora do ar” ou apresentar movimentos bruscos e súbitos de uma ou mais partes do corpo. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Nota Cogito, ergo sum é uma frase de autoria do filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650). Em geral, é traduzida para o português como "penso, logo existo"; embora seja mais correto traduzi-la como "penso, portanto sou" Juliana de Brito Realce Esquizofrenia é uma perturbação mental caracterizada por episódios contínuos ou recorrentes de psicose. Os sintomas mais comuns são alucinações (incluindo ouvir vozes), delírios (convicções falsas) e desorganização do pensamento. Juliana de Brito Realce Transtorno afetivo bipolar é um distúrbio psiquiátrico complexo. Sua característica mais marcante é a alternância, às vezes súbita, de episódios de depressão com os de euforia (mania e hipomania) e de períodos assintomáticos entre eles Juliana de Brito Realce A psicose pode ocorrer em decorrência de uma doença psiquiátrica como a esquizofrenia. Em outros casos, pode ser causada por uma condição de saúde, medicamentos ou uso de drogas. Os possíveis sintomas incluem delírios, alucinações, fala incoerente e agitação. A pessoa afetada geralmente não percebe que seu comportamento está alterado. Juliana de Brito Realce https://drauziovarella.uol.com.br/neurologia/epilepsia-conheca-os-diferentes-tipos-de-crise/ Aula 2 Educação Inclusiva 33 Idade Média Bem vindo à Idade Média! A infl uência do Cristianismo no período medieval traz consigo o fi m do pensamento mítico, politeísta e instaura a nova ordem do monoteísmo e dos lemas de amor ao próximo. A imagem do defi ciente passa, então, de um indi- víduo sub-humano ou sobre-humano para um indivíduo carente e merecedor de compaixão. Eram as “crianças de Deus”, aqueles para quem todos oravam com olhares piedosos. E, por que não dizer, também, olhares de medo? Afi nal, as diferenças sempre trouxeram a consciência do perigo da imperfeição, do “eu” disforme, do “ai, e se fosse comigo?” (GOFFMAN, 1988). Mas, voltemos à nossa história. A defi ciência na Idade Média é compre- endida como uma forma de escolha divina. Assim, as pessoas com prejuízos sensoriais, mentais, intelectuais ou físicos passam a ser consideradas como: “Instrumentos de Deus, para alertar os homens, para agraciar as pessoas com a possibilidade de fazerem caridade” (BIANCHETTI, 1998 apud CARVALHO- -FREITAS, 2007, p. 49). Em outras palavras, os indivíduos com defi ciência passaram a ser impor- tantes para que os “bons cristãos” pudessem exibir suas ações de caridade. Por outro lado, a defi ciência é, também, entendida como uma forma de punição e revelação do Anticristo (WINZER, 2002). Desse modo, durante a Inquisição, se a excepcionalidade do indivíduo fosse percebida como encar- nação do mal, ele podia ser torturado, queimado (CARVALHO-FREITAS, 2007) ou tornar-se alvo de cerimônias de exorcismo (MARTINS, 2011). O julgamento era feito, essencialmente, pela observação do comportamento do indivíduo. Registros históricos indicam, por exemplo, que os murmúrios de pessoas com defi ciência intelectual eram interpretados como conversas com o diabo e crises epiléticas, como possessão satânica (WINZER, 2002). Figura 1 – Tribunal da Inquisição Fonte: <http://4.bp.blogspot.com/-Sthd5XRFs1c/T_3N2z13ALI/AAAAAAAABBw/NctCC3z9gyk/ s1600/Tribunal+Eclesi%C3%A1stico+da+Inquisi%C3%A7%C3%A3o+011b+Galileu.jpg>. Acesso em: 9 out. 2012. Inquisição Tribunais que julgavam pes- soas consideradas ameaças às doutrinas apregoadas pela Igreja Católica. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Aula 2 Educação Inclusiva34 Você, agora, pode estar se perguntando: “E os deficientes que não ame- açavam a ordem social e os preceitos da igreja Católica?” Pois bem, esses eram mantidos para fins de entretenimento, como fora o destino de tantos na Antiguidade. Dessa vez, no entanto, eram empregados em palácios no papel de bobos da corte ou exibidos em circos e praças públicas (WINZER, 2002; MARTINS, 2011). O que marcou a Idade Média e seus princípios cristãos foi, no entanto, a mudança de status do deficiente: de coisa para pessoa (CARVALHO- -FREITAS, 2007). Enquanto pessoa, pela ótica de Deus, o deficiente deveria ter o direito à vida. Apenas à vida! Era lhe privado, por exemplo, o direito de receber heranças, depor em tribunais ou fazer testamentos. Mas, apesar dos percalços, mudanças tinham ocorrido! A ética religiosa, a despeito da Inquisição, reprimira o extermínio das pessoas com defi ciência. Em seu lugar, instaurara a necessidade de manter e cuidar das mesmas (PES- SOTTI, 1984). Não podemos esquecer, no entanto, que os defi cientes ainda assustavam a sociedade medieval. Como, então, resolver o dilema de cuidar de pessoas a quem eu temo? Trancafi ando-as em igrejas, conventos, asilos e hospícios (PESSOTTI, 1984). Nessas instituições, poderiam ser protegidas, como argumentavam os “bons cristãos”. E, porque não dizer, que estariam, também, protegidos os “bons cristãos”, que tanto as temiam? Portanto, como bem argumenta CARVALHO-FREITAS (2007): “A relação com ela (defi ciência) é marcada pela segregação, que reedita a contradição castigo-caridade, que continua perme- ando a concepção cristã sobre defi ciência” (CARVALHO FREITAS, 2007, p. 49). Ou seja, a sociedade cristã da época, por temer o castigo divino, acolhe as pessoas com defi ciência, exibindo assim seus gestos de caridade. Assim, ao invés de mortos e abandonados, as pessoas com defi ciência, durante a Idade Média, foram primordialmente segregadas em instituições religiosas, abrigos e manicômios. Nesses recintos, mantidos pela caridade da Igreja e por bons cristãos, o defi ciente não recebia qualquer tratamento especializado. Na Idade Média, mesmo com a fundação das primeiras universidades, a educação continuava sendo um privilégio de poucos. Em uma sociedade pouco letrada e essencialmente agrária, o indivíduo defi ciente, que agora ganhara status de pessoa, se fundia com a grande maioria analfabeta e não escolarizada. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce 1Atividade Aula 2 Educação Inclusiva 35 Antes de prosseguirmos com nossa viagem, que tal um fi lme que retrate o “clima” da Idade Média? Esse mergulho lhe ajudará a melhor compreender as contradições caridade-castigo, no contexto das Inquisições,assim como a infl u- ência da Igreja no destino das pessoas com defi ciência. a) Assista a um dos seguintes fi lmes: “O Corcunda de Notre Dame”, “O Nome da Rosa” ou “As Bruxas de Salém”. b) Imagine uma pessoa com defi ciência no cenário retratado pelo fi lme. Com base no que estudamos até agora, discorra sobre como essa pessoa poderia ser vista ou tratada. Como será que ela se sentiria? a b Aula 2 Educação Inclusiva36 A Idade Moderna A Idade Moderna, caracterizada pela passagem do mundo Feudal ao Capi- talista, é marcada pelas expansões territoriais e científi cas. O desenvolvimento da medicina desarticula a concepção de defi ciência de possessão demoníaca ou obra divina, preponderante na Idade Média. É instaurada, em seu lugar, a ideia de excepcionalidade como manifestação de doença (PESSOTTI, 1984). É nesse novo cenário que, no século XVI, os médicos Paracelso (Figura 2a) e Cardano (Figura 2b) argumentam ser a defi ciência fruto de fatalidades heredi- tárias ou congênitas. Para eles, alterações nas estruturas do cérebro causariam as excepcionalidades. Assim, ao invés de punir ou segregar o defi ciente, é reco- nhecida a necessidade de tratá-lo (MARTINS, 2011). Figura 2 – (a) Médico Paracelso; (b) Médico Cardano Fonte: (a) <http://novocaminhonovo.blogspot.com.br/2012/08/as-assinaturas-divinas.html>; (b) <http://mettodo.blogspot.com.br/2008/07/tartaglia-e-cardano.html>. Acesso em: 9 out. 2012. Paracelso (1493 – 1541), Figura 2a, foi médico, químico, astrólogo e fi lósofo, nascido na Suíça com o nome de Theophrastus Philippus Aureolus Bombastus von Hohenheim. Ele ressaltava a importância da observação clínica no diagnóstico de doenças e a cura por meio de remédios. Foi considerado um pioneiro na área farmacêutica. Girolamo Cardano (1501-1576), apresentado na Figura 2b, foi médico, fi lósofo e matemático italiano. Trouxe importantes contribuições para a compreensão da fi siologia da surdez. Argumentava que a defi ciência auditiva não afetava a inteligência. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce a b c Aula 2 Educação Inclusiva 37 A ideia de educar a população com defi ciência era pouco expressiva no início da Idade Moderna. Merece destaque, no entanto, o trabalho de Ponce de León (1520-1584), Figura 3a, considerado o primeiro educador especial da história (WINZER, 2002). Ponce desenvolveu, na Espanha, um método de comunicação para defi cientes auditivos. Quase dois séculos depois, Charles Michel de L’Épée (1712 – 1789), Figura 3b, criou, na França, a primeira instituição educacional para surdos. Figura 3 – (a) Pedro Ponce de León; (b) Charles Michel de L’Épée; (c) Valentin Haüy Fonte: (a) <http://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Ponce_de_Le%C3%B3n>; (b)<http://www.cis-npdc.fr/spip.php?article4>; (c)http://en.wikipedia.org/wiki/Valentin_Ha%C3%BCy. Acesso em: 9 out. 2012. Pedro Ponce de León (1520-1584), mostrado na Figura 3a, foi um monge espanhol considerado o iniciador do ensino para surdos. Edu- cava, primordialmente, fi lhos de aristocratas ricos, ensinando-lhes a escrever a língua falada. Charles-Michel de l’Épée (1712- 1789), Figura 3b, foi um educador fran- cês responsável por fundar a primeira escola para surdos na França. Valentin Haüy (1745-1822), apresentado na Figura 3c, foi um profes- sor francês, responsável por fundar a primeira escola para defi cientes visuais na França. a b c Aula 2 Educação Inclusiva38 Foi também na França que Valentin Haüy (Figura 3c), em 1784, fundou a “Instituição Nationale des Jeunes Aveugles”, considerada como a primeira escola para a educação de pessoas cegas. Inspirado em Rousseau e L’Epée, desenvolveu um programa para ensinar os cegos a lerem, empregando letras em alto-relevo (WINZER, 2002). Esse sistema seria, posteriormente, substituído pelo Braille, método de leitura e escrita, criado por Louis Braille, em 1832. Èpée e Haüy mostraram que pessoas sensorialmente privadas, como os surdos e cegos, poderiam ser educadas. E os defi cientes intelectuais? Eram capazes de aprender? As perspectivas sobre a “idiotia” e a “estupidez”, denominações dadas na época para referir-se ao defi ciente intelectual, variavam. Para Thomas Willis (1621-1675), Figura 4, médico inglês, por exemplo: A idiotia e a estupidez dependem de uma falta de julgamento e de inteligên- cia, que não corresponde ao pensamento racional real; o cérebro é a sede da enfermidade, que consiste numa ausência de imaginação localizada no corpo caloso ou substância branca; e a memória, na substância cortical. Assim, se a imbecilidade e a estupidez aparecem, a causa reside na região envolvida ou nos espíritos animais, ou ambos (PESSOTTI, 1982 apud AS- SUMPÇÃO JR; SPROVIERI, 2000, p. 6). Nesse sentido, a defi ciência intelectual era compreendida como uma falha cognitiva causada, possivelmente por uma disfunção cerebral. Figura 4 – (a) Thomas Willis; (b) John Locke; (c) Jean Marc Gaspard Itard Fonte: (a) <http://jrsm.rsmjournals.com/content/96/3/139/F1.expansion.html>; (b) <http://www.123rf.com/photo_8511500_john-locke-1632-1704-on-engraving-from-the-1800s-english-philosopher-and- physician-one-of-the-most-i.html>; (c) <http://en.wikipedia.org/wiki/File:Jean_marc_gaspard_itard_1775_hi.jpg>. Acesso em: 9 out. 2012. Thomas Willis (1621-1675), Figura 4a, médico inglês que trouxe im- portantes contribuições para as áreas de neurologia, anatomia e psi- quiatria. Defendia uma concepção organicista da defi ciência, argu- mentando que a excepcionalidade era fruto de disfunções cerebrais. Aula 2 Educação Inclusiva 39 John Locke (1632-1704), Figura 4b, foi um empirista inglês que ar- gumentava ser a mente uma “página em branco” a ser preenchida, a partir da exposição sistemática à educação. Jean Itard (1775-1850), apresentado na Figura 4c, foi um médico fran- cês, conhecido como um dos precursores na sistematização de méto- dos de ensino para pessoas com defi ciência. No século XVII, John Locke revoluciona a visão organicista da defi ciência, propondo novas perspectivas sobre o funcionamento cognitivo. Locke preconi- zava que a mente do homem, ao nascimento, era uma tábula rasa, um quadro em branco, uma lousa vazia. Segundo ele, os registros nessa lousa eram, pau- latinamente, “escritos” por meio da experiência. Ou seja, ao invés de inato, o conhecimento era adquirido pelo contato do homem com o mundo. A partir dessa perspectiva, condições como a defi ciência intelectual passam a ser compreendidas como estados de carência de ideias e operações intelectuais, semelhantes ao do recém-nascido (CARVALHO-FREITAS, 2007). Nessa perspecti- va, é aberta a possibilidade para que a experiência e o ensino supram os défi cits cognitivos observados em algumas defi ciências (PESSOTTI, 2004). Inspirado nos pressupostos de Locke, o médico Jean Itard (1775-1850), Fi- gura 4c), preconizava que a defi ciência, ao invés de biológica, poderia ter como causa a privação cultural. Ficou famoso pelo tratamento de Victor, “o menino selvagem”, que fora encontrado vagando pela fl oresta de Aveyron, sul da França. A criança, que tinha na época por volta de 12 anos, não falava e manifestava comportamentos semelhantes aos animais, como andar de quatro. Através de um método de ensino que intitulou “educação moral e mental”, Jean conseguiu que o menino aprendesse habilidades básicas, mas não a falar fl uentemente. A metodologia desenvolvida por Itard continuou a inspirar médicos e edu- cadores nos séculos subsequentes. Merecem destaque os trabalhos de Edou- ard Seguin e Maria Montessori. Edouard Seguin, discípulo de Itard, publicou, em 1866, Idiocy and Its Treatments by the Pshysiological Method, um dos primeiros tratados de educação especial da história. Nesse livro, adotado por instituições que trabalhavam com crianças defi cientes intelectuais, Seguin fala- va da importância do ambiente estruturado, da instrução direta, do ensino de habilidades de cuidados pessoais e da estimulaçãomotora para a aprendizagem (WINZER, 2002). O trabalho de Seguin infl uenciou Maria Montessori (1870-1951), uma educa- dora italiana que acreditava na experiência direta como fonte essencial para a aprendizagem. Criadora do método montessoriano de ensino, Montessori traba- lhou com crianças que apresentavam defi ciência intelectual e, posteriormente, com alunos com desenvolvimento normal. Os recursos didáticos criados por ela, como o material dourado, são, até hoje, usados nas escolas regulares. Edouard Seguin Foi, também, um dos fundadores da Associação Americana de De- fi ciência Mental, uma das mais respeitáveis associações profi s- sionais no campo da Educação Especial da atualidade. Idiocy and Its Treatments by the Pshysiological Method Idiotia e Tratamento pelo Método Fisiológico. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce https://www.natalibrink.com.br/media/catalog/product/cache/1/image/1200x1200/9df78eab33525d08d6e5fb8d27136e95/_/t/_tamanho2_1264-material-dourado-jpg.jpeg 2Atividade Aula 2 Educação Inclusiva40 Fonte: <http://2.bp.blogspot.com/-O3_-PkttBqE/TySPsA5L9xI/AAAAAAAAGIQ/ TDQ8f_tbAf4/s1600/O%2BGaroto%2BSelvagem.jpg>. Acesso em: 10 dez. 2012. Para fi nalizarmos nossa visita à Idade Moderna, que tal conhecer- mos a história de Victor, o menino selvagem, acompanhado por Itard? Isso será possível através da apreciação do longa-metragem intitulado L’enfant sauvage (O Garoto Selvagem. Direção: François Truffaut). Após assistir ao fi lme, responda às questões que seguem. a) Descreva de que forma o tratamento de Victor refl ete a perspectiva que os médicos tinham sobre a defi ciência na Idade Moderna. b) O que você achou da intervenção de Itard? c) Quais os efeitos dessa intervenção no comportamento de Victor? Aula 2 Educação Inclusiva 41 A Idade Contemporânea A Idade Contemporânea, compreendida pelo período que se estende do fi nal do século XIX até os dias atuais, é marcada pelo desenvolvimento e consolidação do regime capitalista. As duas Grandes Guerras Mundiais, o crescimento eco- nômico e a demanda por uma sociedade cada vez mais “produtiva” são fatores que fortemente infl uenciaram as concepções e a educação ofertada às pessoas defi cientes na atualidade. No século XX, são proliferadas por todo o mundo as instituições especializadas na educação de pessoas com defi ciência. As primeiras foram criadas para surdos e cegos. Posteriormente, foram contemplados os indivíduos com defi ciências intelectuais (WINZER, 2002). Essas instituições, mantidas essencialmente por entidades fi lantrópicas, ganham maior visibilidade após as duas grandes guerras. Isso porque muitas pessoas que antes se encaixavam nos padrões de normalidade voltaram das batalhas com mutilações e outras condições de excepcionalidade, que exigiam um atendimento especializado (Mendes, 2006). Ressalta-se o fato de serem esses indivíduos ex-combatentes, detentores de um capital social e cultural diferenciado (CARVALHO-FREITAS, 2007), que justifi cavam uma reabilitação para a (re) inserção no mercado de trabalho. A economia do século XX, marcada pelo desenvolvimento industrial e pelo crescimento urbano, demandava uma sociedade escolarizada e competitiva. Assim, surge a obrigatoriedade do ensino e, com o crescimento das cidades, a proliferação das escolas. Essas instituições passam a receber grupos cada vez maiores e mais heterogêneos de alunos. Muitos desses educandos não apresen- tavam defi ciências “visíveis”, mas difi culdades nas habilidades de aprender. Desse modo, a sociedade é instigada a pensar nas diferenças individuais, nas excepcionalidades. Em paralelo ao sistema regular de ensino, expandiam-se, também, as insti- tuições especiais que, aos poucos, passaram a receber maior apoio do Estado. Os movimentos sociais de Direitos Humanos, surgidos em meados do século XX, ratifi cavam o direito à educação da pessoa com defi ciência, assim como sua inserção no mercado de trabalho. Alertavam, ainda, para os efeitos prejudiciais de uma educação segregada (Mendes, 2006). Pesquisas indicavam que as pessoas excepcionais aprendiam melhor em escolas regulares ao invés de apartadas em instituições especializadas. Aliados a isso estavam os altos custos do Estado em manter essas instituições que, por fi m, produziriam indivíduos pouco capacitados e competitivos. Surgem, então, os movimentos de integração e inclusão escolar que ofertariam à pessoa com defi ciência o direito a ser educada em ambientes menos restritivos. Pronto! Chegamos ao fi m desta aula sobre a história da educação especial! Integração e Inclusão Escolar Integração e Inclusão serão abordados na próxima aula. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Resumo 1 2 3 Aula 2 Educação Inclusiva42 Nesta aula, você estudou que a educação e a concepção da pessoa com defi ciência esteve, no decorrer dos séculos, intrinsecamente relacionada com mudanças sociais, políticas, religiosas e econômicas da sociedade. Verificou que esses indivíduos atravessaram a Antiguidade como “seres sobrenaturais” e receberam status de pessoa, “criatura de Deus” no decorrer da Idade Média; adentraram a Idade Moderna como “suplicantes”, que dependiam da caridade humana para sobreviver em instituições segregadas; e, na contemporaneidade, ganharam, paulatinamente, a notoriedade de cidadãos educáveis, quando o Estado ratifi cou a necessidade do atendimento especializado em instituições. Por fi m, viu que os movimentos sociais de Direitos Humanos, aliado aos altos custos de uma educação paralela, fi zeram com que a pessoa defi ciente se tornasse, na atualidade, “um cidadão com direito à Educação”. Autoavaliação Elabore um quadro ressaltando as oportunidades de Educação e as con- cepções acerca da pessoa com defi ciência no decorrer dos quatro períodos históricos, conforme sugerido no quadro a seguir. Período Histórico Concepção de Defi ciência Educação de pessoas com defi ciência Antiguidade Idade Média Idade Moderna Idade Contemporânea Atividade de Campo: entreviste duas pessoas de seu convívio e pergun- te o que “pensam” sobre os indivíduos com defi ciência. Atividade de Refl exão: relacione as respostas dos entrevistados com as concepções de defi ciência ressaltadas no quadro anterior. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Anotações Aula 2 Educação Inclusiva 43 Referências ASSUMPÇÃO JR, F. B.; SPROVIERI, M. H. Introdução ao estudo da defi ciência mental. São Paulo: Memnon, 2000. CARVALHO, R. Educação Inclusiva: com os pingos nos “is”. 2. ed. Porto Alegre: Mediação, 2005. CARVALHO-FREITAS, M. N. A inserção de pessoas com defi ciência em empre- sas brasileiras. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2007. GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC Editora; 1988. MARTINS, Lúcia de A. R. Fundamentos em Educação Inclusiva. 1. ed. Natal, RN: EDUFRN, 2011. v. 1. 51 p. MENDES, Enicéia Gonçalves. A radicalização do debate sobre inclusão escolar no Brasil. Rev. Bras. Educ., v.11, n. 33, p. 387-405, dez. 2006. PESSOTTI, Isaias. Defi ciência Mental: da Superstição à Ciência. São Paulo: Queiroz; EDUSP, 1984. WINZER, M. A. The history of special education: From isolation to integration. Washington, DC: Gaulladet University Press, 2002. Anotações Aula 2 Educação Inclusiva44 Educação especial no Brasil: um panorama histórico 3 Aula 1 2 3 Aula 3 Educação Inclusiva 47 Apresentação D epois dessa longa viagem em que delineamos um panorama geral da his- tória da defi ciência no mundo, você deve estar curioso para saber como andava a Educação Especial, especificamente, no Brasil, se perguntando: como surgiu? Quando surgiu? Quem foram os primeiros educandos a serem con- templados por serviços especializados? Como foi a caminhada desses indivíduos rumo às escolas regulares? Essas perguntas serão respondidas durante esta nova jornada, em que traçaremos um breve histórico da educação especial do Brasil colonial até a década de 1990. Objetivos Identifi car os tipos de atendimentos ofertados aos indivíduos com defi ciência no Brasil, do pe- ríodo Imperial até a década de 1990. Identifi car os marcos históricos que infl uencia- ram o processo de atendimento a pessoas com defi ciência no Brasil, do período Imperial até a década de 1990. Defi nir os paradigmas da Educação Especial, in- cluindo o Modelo da segregação e da Integração. a b Aula 3 Educação Inclusiva 49 As primeiras instituições: século XVII – XIX C aro aluno, a Educação no contexto do Brasil colonial era um privilégio de um limitado segmento da nobreza. Nesse cenário, essencialmente agrário e escravocrata, o defi ciente parecia mesclar-se com a grande maioria da população não escolarizada. Assim como na Europa, os excepcionais que falha- vam em se adequar às normas sociais tinham como destino os hospitais, cadeias ou asilos. Poucas instituições especiais parecem ter surgido no período colonial para atender às defi ciências mais “visíveis”. Merece destaque uma instituição religiosa destinada ao tratamento de defi cientes físicos, alocada em São Paulo, em 1600 (JANUZZI, 2004). O atendimento educacional às populações especiais passa a ser expressivo no fi nal do século XVIII e início do XIX. Inspirado nas iniciativas europeias, o imperador D. Pedro II funda dois importantes institutos para o atendimen- to de defi cientes sensoriais. O primeiro, como você pode ver na Figura 1(a), alcunhado Imperial Instituto para Meninos Cegos, hoje denominado Instituto Benjamin Constant (IBC), foi inaugurado em 1854, no Rio de Janeiro. Três anos depois, nessa mesma cidade, sob infl uência de Ernest Huet, é fundado o Insti- tuto dos Surdos-Mudos, Figura 1(b), hoje conhecido como Instituto Nacional dos Surdos (INES). Figura 1 – (a) Instituto Benjamin Constant (IBC) e (b) Instituto Nacional dos Surdos (INES) Fonte: (a) <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Instituto_benjamin_constant_1.jpg>; (b) <http://inclusaodossurdos.blogspot.com.br/>. Acesso em: 10 dez. 2012. Em regime de internato, os alunos do Instituto de Cegos tinham uma formação primária e cursos do secundário. Adicionalmente, recebiam educação moral e religiosa, além de ensino de música, ofícios fabris e trabalhos manuais (JANUZZI, 2004). Os educandos cegos com “difi culdades para aprender” e com “problemas de comportamento” eram excluídos do programa. O Instituto de Surdos sofreu fortes infl uências de Charles Michel de L’Épée. Lembra-se dele? Falamos desse grande educador em nosso segundo encontro. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce 1Atividade 1 2 Aula 3 Educação Inclusiva50 Pois bem, além de fundar a primeira instituição educacional para surdos na Fran- ça, L’Épée criou um método conhecido por gestualismo, que foi disseminado em várias partes do mundo. Esse método, caracterizado pelo uso de sinais manuais, foi adotado pelo Instituto de Surdos no Brasil. Paralelamente à escolaridade, a referida instituição oferecia um ensino profi ssionalizante, como ofi cinas de sa- pateiro, encadernação, além de corte e costura (JANUZZI, 2004). Visite o site do IBC <http://www.ibc.gov.br/> e do INES <http://www.ines.gov.br/>. Descreva os tipos de atendimento ofertados a alunos com defi ciências sensoriais. Descreva de que forma os serviços ofertados hoje pelo IBC e INES diferenciam das propostas assinaladas no século XIX, quando essas instituições foram criadas. De acordo com Januzzi (1985; 2004), até o fi nal do Império, apenas duas instituições para o atendimento de defi cientes intelectuais aparecem nos registros históricos do Brasil. A primeira, especializada no atendimento a essa popula- ção, estava alocada na Bahia. A segunda, de ensino regular, atendia também defi cientes físicos e visuais no Rio de Janeiro. Vale ressaltar, ainda, que essas instituições, mantidas pelo estado, parecem ter surgido para atender defi ciências intelectuais mais graves. Os senhores da aristocracia rural, principais responsáveis pelo comando po- lítico do Brasil na época, demandavam uma mão de obra, compulsoriamente, escrava (JANUZZI, 1985). Em uma economia essencialmente agrária, portanto, parecia inexistir vontade política para a escolarização da sociedade. De fato, apesar de a Constituição Federal de 1824 proferir uma educação primária e gratuita para todos, registros de 1870 denunciam que apenas 2% da população tinha acesso ao Ensino Fundamental (JANUZZI, 2004). Eram isentos da escola, em algumas regiões do país, os alunos “normais” que viviam há mais de 2 ou 3 quilômetros de distância das instituições de ensino, os portadores de doenças contagiosas e os desprovidos de recursos. Sabe-se, também, que as crianças que apresentassem atestados médicos de incapacidade “mental” ou física não precisavam ir à escola (Januzzi, 2004). Nesse contexto, é plausível supor que as pessoas com defi ciência fundiam-se com a grande maioria iletrada, no fi nal do século XIX. Juliana de Brito Realce Aula 3 Educação Inclusiva 51 O Paradigma da segregação Os médicos, principais responsáveis pela identifi cação e “tratamento” desses indivíduos, começaram a perceber a importância da pedagogia no início do século XX. Essa perspectiva é revelada pela criação de instituições escolares ligadas a hospitais psiquiátricos. Como exemplo, temos a oferta de serviços pedagógicos para crianças com defi ciência intelectual, no Hospício da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, em 1905 e, no Hospício de Juqueri, em São Paulo, por volta de 1920. Esses serviços eram coordenados por médicos, tendo como auxiliares, os pedagogos. Eram, também, os médicos que supervisionavam, através do Serviço Médi- co-Escolar, o funcionamento de escolas, na década de 1920. Esses inspetores eram responsáveis por vistoriar as escolas regulares e separar os alunos normais dos que apresentavam “anormalidades”. De acordo com documentos correntes, os “anormais” incluíam, além dos defi cientes, os tímidos, os insofridos ou in- disciplinados, os preguiçosos ou desatentos e retardados por diferentes causas (OLIVEIRA, 1917 apud JANUZZI, 1985, p. 38). A legislação vigente na época proferia que esses educandos, por não apren- derem e impedirem a aprendizagem dos colegas “normais”, fossem encaminha- dos a classes especiais. Registros históricos, no entanto, falham em descrever se essas classes foram, de fato, criadas nesse período (JANUZZI, 2004). Su- põe-se que o destino de muitos tenha sido os hospitais psiquiátricos e outras instituições segregadoras. Para o interesse dos cofres públicos era pertinente prover escolas para o defi - ciente, uma vez que, em manicômios ou prisões, custariam mais caro ao Estado. Como educar, então, esses alunos? É nesse contexto que o trabalho de Helena Antipoff (1892-1974), Figura 2, uma educadora russa, residente no Brasil, ganha destaque. Figura 2 – Helena Antipoff Fonte: <http://ripehp.fi les.wordpress.com/2012/09/helena-antipoff.jpg?w=584>. Acesso em: 10 dez. 2012. Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Juliana de Brito Realce Aula 3 Educação Inclusiva52 Antipoff, inspirada nos métodos educativos delineados pela Psicologia, propôs a divisão “homogênea” de classes no sistema regular de ensino, assim como a criação de classes especiais. Ou seja, considerando os estudos de Binet, Antipoff sugeriu que os alunos fossem agrupados de acordo com seus níveis intelectuais, medidosa partir dos testes de inteligência. Criou, então, em Belo Horizonte, na década de 1930, um “sistema” de classes homogêneas, composta por grupos com QI elevado, médio e inferior. No entanto, [...] os procedimentos que havia sugerido para a organização das classes homogêneas e o tratamento das crianças com difi culdades de aprendizagem estavam se voltando contra as próprias crianças que se pretendia ajudar. As classifi cações por nível intelectual, realizadas no início do ano escolar, transformavam-se, nas mãos da tecnocracia educacional, em verdadeiras “profecias autocumpridas”, selando o destino de muitas crianças com base em prognósticos baseados em resultados de testes de QI (CAMPOS, 2003, p. 220). A carência de investimento no ensino e a escassez de serviços especializados para o atendimento de alunos excluídos das classes regulares era notório nesse período. O censo escolar de 1950 revelou, por exemplo, que dos 100 mil cegos e 50 mil surdos no país, apenas 0,3% e 1,5%, respectivamente, recebiam “edu- cação ofi cial sistemática” (JANUZZI, 2004). É nesse panorama de descaso do poder público que se intensifi cam, a partir de 1930, a implantação de instituições fi lantrópicas de apoio e escolas especiais privadas para alunos defi cientes. Merece destaque a Sociedade Pestalozzi, entidade fundada por Helena Anti- poff, em 1932, para fornecer orientações médico-pedagógicas a pais e professores de alunos com excepcionalidades, incluindo os com defi ciências, problemas de conduta, surdos, dentre outros. Destaca-se, também, o Conselho Brasileiro para o Bem-estar do Cego e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), fundados em 1954. Alfred Binet Especialista no estudo da inteligência e dos proces- sos cognitivos. Construiu uma escala métrica da inte- ligência, visando avaliar as capacidades cognitivas das crianças. A APAE é, ainda hoje, considerada uma das maiores organizações de apoio às pessoas com defi ciência. São mais de 2000 APAES espalhadas por todo o território brasileiro, atendendo mais de 250 mil pessoas. Para conhecer mais, visite o site <http://www.apaebrasil.org.br/>. Juliana de Brito Realce 2Atividade 1 2 3 Educação regular • Escolas regulares Educação especial • Escolas especiais • Instituições especiais Aula 3 Educação Inclusiva 53 Vimos que os movimentos fi lantrópicos destinados a atender pes- soas com defi ciência surgiram por volta de 1930. Será que eles ainda existem? Para obter essa informação, siga os passos que seguem. Faça um levantamento em sua cidade sobre as instituições fi lantrópicas que atendem pessoas com defi ciência. Descreva essas instituições, salientando as características da população atendida e os tipos de serviços ofertados. Qual a relação que essas instituições mantêm com as escolas regulares? A questão da defi ciência ganhava notoriedade na medida em que as escolas começam a receber um contingente maior e mais heterogêneo de educandos, a partir da década de 1950. Para você ter uma ideia, 2.413.592 alunos estavam matriculados no ensino fundamental em 1935. Vinte anos depois, em 1955, esse número chegara a 4.545.630 (RIBEIRO, 2000 apud JANUZZI, 2004). Com a heterogeneidade dos estudantes que adentravam as instituições de ensino, aumentava-se, também, o fracasso escolar de muitos, incluindo os defi cientes. Aliado a esse fenômeno, surgiram, em todo o mundo, os movimentos sociais pelos direitos humanos, desencadeados no pós-guerra e intensifi cados na década de 1960. Esses movimentos alertavam a sociedade sobre os efeitos prejudiciais da segregação e marginalização das minorias (Mendes, 2006). Nesses grupos minoritários, estavam os defi cientes que, até a década de 1960, eram precaria- mente educados em sistemas segregados de ensino. Para ser mais preciso, em escolas especiais e instituições fi lantrópicas que funcionavam, em paralelo, às escolas regulares. Essa forma de agrupamento é o que se designa de “modelo de duas caixas”, caracterizando o paradigma da segregação na Educação Especial, como observado na Figura 3: Figura 3 – Paradigma da Segregação em Educação Especial Alunos Em cada mil habitantes, apenas 54 iam à escola, em 1932 (RIBEI- RO, 2000 apud JANUZZI, 2004). Classe comum Classe comum com serviço complementar Classe especial em tempo parcial Classe especial em tempo integral Escola especial Ambientes hospitalares Instituições residenciais Mais rápido Mais lento Aula 3 Educação Inclusiva54 A migração de educandos com defi ciência de escolas especiais para escolas regulares não era viabilizado, considerando o próprio modelo paralelo de ensino. O paradigma da Integração No fi nal dos anos 60 e no decorrer das duas décadas de 1970/80, surge, impulsionado pelos movimentos sociais de direitos humanos, o paradigma da integração. Esse modelo, representado por uma pirâmide invertida ou por uma cascata (DENO, 1970 apud MAZZOTTA, 1982), revela o continuum de serviços educacionais ofertados em ambientes mais e menos segregados, conforme evi- dencia a Figura 4, mostrada a seguir: Figura 4 – Paradigma da Integração Conforme observado no esquema da Figura 4, no topo da pirâmide teríamos a classe regular, almejada por todos. Na camada anterior, a classe regular com serviços complementares; em seguida, as classes especiais, em tempo parcial ou integral, alocadas dentro da escola regular. Por fi m, saímos da escola regular e encontramos as escolas especiais, seguidas dos contextos hospitalares e insti- tuições residenciais. A permanência em espaços menos segregados, ilustrados pelos retângulos maiores, localizados no topo da cascata, deve ser a meta de todos os educandos. Os espaços inferiores, situados fora da escola regular, como as escolas especiais Aula 3 Educação Inclusiva 55 e as instituições residenciais, devem ser menores e servir o menor número de alunos possível. As setas posicionadas à direita e à esquerda do modelo indicam, respectiva- mente, que os educandos devem “subir” a pirâmide o mais rapidamente possível e descer de forma lenta. Em outras palavras, o sistema de ensino deve criar me- canismo para manter os alunos em ambientes menos segregados, difi cultando a migração dos estudantes para espaços mais restritivos. As modalidades de atendimento educacional na perspectiva da integração passaram a ser secionadas, conforme observado na Figura 4. O educando podia ser atendido em classe comum, classe especial ou qualquer outra modalidade de ensino, que não incluía, necessariamente, a classe regular. No Brasil, o paradigma da integração é, inicialmente, refl etido nas Leis de Diretrizes e Bases da década de 1960 e, posteriormente, na Constituição Federal de 1988. No art. 88 da LDB 1961 (4.024/19 61), por exemplo, consta que “a edu- cação de excepcionais, deve, no que for possível, enquadrar-se no sistema geral de educação, a fi m de integrá-los na comunidade”. A Constituição Federal de 1988 consagrou a educação como um direito de todos e garantiu o atendimento educacional especializado aos “portadores de defi ciência”. Conforme expresso no artigo 208, esses educandos deveriam es- tudar “preferencialmente” na rede regular de ensino. Vale destacar o termo “preferencialmente” empregado no documento que, claramente, não signifi ca exclusivamente ou obrigatoriamente. Gostou do modelo? Será que deu certo? As difi culdades em avaliar e conceder a progressão do aluno de um nível mais limitativo para outro menos restritivo foi um dos principais obstáculos desse novo paradigma. As políticas de integração, embora realçassem que os educandos de- veriam, “preferencialmente”, estar alocados em classes regulares, fi ndaram por aplicar, quase que permanentemente, a exclusão. Nesse cenário, mais crianças passaram a ser excluídas do que integradas (MENDES, 2006). Esse resultado faz sentido quando analisamos “as entrelinhas” do modelo proposto. Para que a integração ocorra, é preciso que o aluno desenvolva habi- lidadesespecífi cas, para poder coabitar com seus pares em cada segmento da cascata. Em última instância, o educando deve adaptar-se à escola, que perma- nece inalterada. Essa perspectiva é refl etida na Política Nacional de Educação Especial, pu- blicada em 1994, na qual é salientado que devem ter acesso às classes comuns do ensino regular os educandos que “[...] possuem condições de acompanhar e desenvolver as atividades curriculares programadas do ensino comum, no mesmo ritmo que os alunos ditos normais” (BRASIL, 1994, p. 19). Portadores de defi ciência Esse era o termo usado na época para referir-se aos educandos com defi ciências sensoriais (auditiva e visual), defi ciências múltiplas, condutas típicas (transtornos de comportamento; autismo) e altas habilidades. 3Atividade Leituras complementares Aula 3 Educação Inclusiva56 Um novo paradigma de educação, em que os alunos com defi ciência não apenas adentrem, mas permaneçam no sistema escolar tornou-se imperativo na década de 1990. Esse novo modelo deveria enfocar em transformações da escola, em detrimento das modifi cações de seus educandos. De forma específi - ca, na construção de um ambiente educacional que atendesse às demandas de uma população heterogênea. Desse modo, a escola se adaptaria ao aluno e não o aluno à escola. Estavam, então, criados os fundamentos para o modelo da Educação Inclu- siva, que será descrito em nosso próximo encontro. Elabore um quadro comparativo, ressaltando as principais caracte- rísticas de cada modelo visto nesta aula. Paradigma Segregação Integração Período Características principais Críticas Para saber mais sobre o assunto que estudamos nesta aula, conheça as pu- blicações da Secretaria de Educação Especial do Ministério da Educação. Você encontrará documentários, artigos e fascículos que narram um pouco da história de Educação Especial no país. Para isso, acesse o portal: <http://portal.mec.gov. br/index.php?option=com_content&view=article&id=17009&Itemid=860>. Além disso, você pode consultar o artigo de Enicéia Gonçalves Mendes, que fornece, em uma perspectiva crítica, um panorama histórico da educação especial no Brasil. MENDES, Enicéia Gonçalves. A radicalização do debate sobre inclusão escolar no Brasil. Rev. Bras. Educ., v. 11, n. 33, p. 387-405, dez. 2006. Acesso: http:// www.scielo.br/pdf/rbedu/v11n33/a02v1133.pdf Resumo 1 2 Aula 3 Educação Inclusiva 57 Nesta aula, você conheceu um pouco da história da Educação Especial no Brasil, da época colonial à década de 1990. Você aprendeu que o tratamento das pessoas defi cientes tornou-se expressivo no fi nal do século XIX. Seguindo tendência europeia, os primeiros serviços foram criados para os defi cientes sensoriais, como os cegos e surdos. Posteriormente, foram contemplados os deficientes físicos e os intelectuais que, durante muito tempo, foram mantidos em manicômios e asilos. De uma forma geral, a educação da pessoa com defi ciência no Brasil ganhou notoriedade na medida em que as escolas regulares se expandiram na segunda metade do século XX. Nesse momento, você pôde observar que se multiplicaram as instituições de caráter fi lantrópico e escolas especiais que bem caracterizaram um sistema segregador e paralelo de educação, que imperou até a década de 1970. Os movimentos sociais pelos direitos humanos desencadeados após a II Grande Guerra formaram o alicerce para o paradigma da integração, que visava o acesso da pessoa com defi ciência na escola regular. Esse modelo perpetuou até a década de 1990, quando o paradigma da Inclusão é instaurado no Brasil e no mundo. Autoavaliação No decorrer dessa aula, você teve a oportunidade de visitar os modelos de educação destinadas às pessoas com defi ciência do período colonial à década de 1990. Considerando o que você aprendeu e responda às questões a seguir. É correto afi rmar que os pedagogos desempenhavam um papel secundário no tratamento das pessoas com defi ciência no início do século XX? Justifi que sua resposta. Discuta a afi rmativa apresentada a seguir: A questão da defi ciência ganhava notoriedade na medida em que as escolas começam a receber um contingente maior e mais heterogêneo de educandos, a partir da década de 1950. 3 4 Anotações Aula 3 Educação Inclusiva58 Por que o paradigma da segregação é conhecido como “modelo das duas caixas”? Por que o modelo da integração mais excluiu do que incluiu alunos no sistema regular de ensino? Referências CAMPOS, Regina Helena de Freitas. Helena Antipoff: razão e sensibilidade na psicologia e na educação. Estudos Avançados, São Paulo, v. 17, n. 49, p 209- 231, dec. 2003. JANNUZZI, Gilberta. A luta pela educação do defi ciente mental no Brasil. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1985. ______. A educação do defi ciente no Brasil: dos primórdios ao início do século XXI. Campinas: Autores Associados, 2004. MAZZOTTA, M.J.S. Fundamentos de educação especial. São Paulo: Ed.Pionei- ras, 1982. MENDES, Enicéia Gonçalves. A radicalização do debate sobre inclusão escolar no Brasil. Rev. Bras. Educ., v. 11, n. 33, p. 387-405, dez. 2006. Anotações Aula 3 Educação Inclusiva 59 Anotações Aula 3 Educação Inclusiva60 Educação inclusiva 4 Aula 1 2 3 4 5 Aula 4 Educação Inclusiva 63 Apresentação A história da Educação Especial que narramos até agora servirá de alicerce para construirmos um novo capítulo, o da Educação Especial nos dias de hoje. Episódios da viagem que fi zemos nas aulas anteriores serão, certa- mente, lembrados neste novo momento. Nas próximas páginas, você aprenderá sobre o paradigma da Educação Inclusiva, que inspira as políticas e práticas educacionais na atualidade. Conhecerá, também, os alunos que devem, de acordo com a legislação brasileira vigente, ser contemplados com os serviços educacio- nais especializados. Adicionalmente, conhecerá como e onde esses educandos devem receber atendimento. Boa aula! Objetivos Descrever o paradigma da Inclusão. Diferenciar os seguintes paradigmas: Integração, Inclusão e Inclusão Total. Diferenciar necessidades educacionais especiais de defi ciência. Identifi car as características dos alunos contem- plados pelos serviços da Educação Especial na atualidade. Identifi car as atribuições do atendimento educa- cional especializado. Aula 4 Educação Inclusiva 65 Educação Inclusiva: seus alicerces Em nossa última conversa, vimos que as políticas inspiradas no paradigma da integração resultaram em ações quase permanentes de exclusão das pessoas com defi ciência. Aliado à fragilidade do paradigma de serviços, o mundo constata, no início da década de 1990, o nefasto panorama da educação em geral. Estimava-se que 960 milhões de adultos eram analfabetos e que mais de 100 milhões de crian- ças e jovens não tinham acesso à escolarização básica, sendo que desses, 60% eram meninas (Declaração Mundial sobre Educação para Todos: Satisfação das Necessidades Básicas de Aprendizagem, 1990). E os defi cientes? Ah! Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, eram menos de 1% recebendo algum tipo de atendimento, de acordo com registros da época (UNESCO, 1994). Essas estatísticas, expostas durante a Conferência Mundial sobre Educação para Todos (evento promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação Ciência e Cultura – UNESCO, realizado na Tailândia, em 1990), fi - zeram com que diversos países olhassem para o alarmante número de alunos privados do direito de acesso, ingresso e permanência na escola básica. Essas ideias ganharam força em 1994 com a Declaração de Salamanca, documento produzido durante a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: acesso e qualidade (evento promovido pela UNESCO, Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD). Nesse texto, considerado o mais relevante marco na propagação da fi losofi a da Educação Inclusiva, as escolas regulares passariam a: [...] acomodartodas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras. Deveriam incluir crianças defi cientes e superdotadas, crianças de rua e que trabalham, crianças de origem remota ou de população nômade, crianças pertencentes a minorias linguísticas, étnicas ou culturais e crianças de outros grupos em desvantagens ou marginalizados (Declaração de Salamanca, 1994). Em linhas gerais, a escola regular, de acordo com a Declaração de Salaman- ca, seria um espaço capaz de combater atitudes discriminatórias, criando um ambiente acolhedor para todas as crianças, inclusive as que apresentavam defi - ciências. Uma metáfora que bem representa o paradigma da inclusão é, nesse contexto, o de um caleidoscópico, representado na Figura 1, apresentada a seguir. Paradigma da integração Modelo de educação especial vigente nas décadas de 1970 a 1990. Confi gura-se como um “paradigma de serviços” operacionalizado como um continuum, que se estende de uma educação segregada, fora do âmbito da escola regular (ex. escolas especiais) até a educação ofertada dentro da escola regular (classes especiais; classes regu- lares com serviços de apoio). Esse modelo possibilitava uma mudança de nível para o aluno, buscando um grau maior de integração escolar com base em suas potencialidades. Aula 4 Educação Inclusiva66 Figura 1 – Metáfora do Paradigma da Inclusão Fonte: <http://www.shutterstock.com/pic-2486251/stock-photo-rainbow-colored-kaleidoscope.html>. Acesso em: 11 dez. 2012. Nessa representação, conforme argumenta Carvalho: [...] todos os pedacinhos são importantes e signifi cativos para a composição da imagem. Quanto maior a diversidade, mais complexa e mais rica se torna a fi gura formada pelo conjunto das partes que a compõem. (CARVALHO, 2000a, p. 112). No modelo da inclusão, o continuum de serviços ofertados pela Educação Especial, continuaria a existir, mas de forma suplementar (FUCHS; FUCHS, 1998). A manutenção desses serviços é vista como essencial para a concretização da proposta da Educação Inclusiva. A questão, como salienta Garcia (2008), não é na existência ou não do continuum, mas na forma como o mesmo é utilizado. A meta é sempre a escola regular que, nesse novo paradigma, busca se modifi car para atender às necessidades dos alunos com defi ciência. Isso difere, conside- ravelmente, do modelo da integração, no qual o aluno deveria se modifi car, ao invés da escola. Vale registrar, ainda, que vertentes “mais radicais” do paradigma da inclusão surgiram no fi nal de 1990. Trata-se do Paradigma da Inclusão Total, no qual é proposto que os serviços da Educação Especial sejam extintos (FUCHS; FUCHS, 1998). Dois motivos servem de alicerce para essa proposta. Primeiro, argumen- ta-se que, sem serviços de apoio, a escola seria capaz de se “reinventar”, adap- tando-se às necessidades especiais dos alunos. Assim, os professores teriam que adaptar, forçosamente, suas práticas pedagógicas para atender grupos heterogê- neos de alunos. Em segundo lugar, a inserção do aluno com defi ciência apenas na sala regular legitimaria o real sentido da inclusão (FUCHS; FUCHS, 1998). Aula 4 Educação Inclusiva 67 Os que defendem a inclusão total sugerem que o principal objetivo da escola é minimizar os preconceitos, ofertar oportunidades de socialização e criar laços afetivos entre alunos com e sem defi ciência. Essa ideia é contrária à proposta da inclusão, em que é salientado o desenvolvimento de habilidades acadêmicas necessárias para a inclusão dentro e fora da escola. Em última instância, o público-alvo das duas propostas parece diferir. Para os inclusionistas, seriam os alunos com defi ciências mais brandas, como distúrbios de aprendizagem ou defi ciência intelectual leve. Para os proponentes da inclusão total, seriam os alunos com comprometimentos severos (FUCHS; FUCHS, 1998; MENDES, 2006). Para recapitularmos essa ideia, confi ra o Quadro 1 a seguir, no qual são sa- lientadas as principais diferenças desses dois modelos. Inclusão (Educação Inclusiva) Inclusão Total Educação Especial Considerado uma modalidade de ensino; o continuum de serviços é aceitável. Os serviços da Educação Especial devem ser extintos. Objetivos da escola Desenvolvimento de habilidades acadêmicas. Socialização, fazer amigos, minimizar o estigma da defi ciência. Público-alvo Alunos com defi ciências leves. Alunos com defi ciências severas. A Escola A capacidade de mudanças é fi nita. O sistema deve se adaptar às demandas do aluno. A capacidade de mudanças deve ser infi nita. O sistema deve ser “reinventado” para acomodar todos. Quadro 1 – Inclusão x Inclusão Total Mas, voltemos ao Brasil, onde o modelo adotado pelas políticas públicas é, atualmente, o da educação inclusiva ou inclusão. Isso é expresso na Lei de Di- retrizes e Bases da Educação Nacional – LDBN (Lei nº 9.394/96), que enaltece o papel da escola regular e atribui à Educação Especial uma função complementar. No novo cenário, a Educação Especial passa a confi gurar-se como uma moda- lidade de educação escolar que perpassa todos os níveis e etapas do ensino, conforme ilustra a Figura 2 a seguir. 1 2 1Atividade Aula 4 Educação Inclusiva68 Figura 2 – Educação Especial enquanto modalidade de ensino Fonte: MEC (BRASIL, 2003). A Educação Especial, portanto, deve ser ofertada aos alunos com defi ciência em qualquer etapa ou modalidade da educação básica, desde a educação infantil até o ensino superior. A proposta de modifi cação do meio, como forma de aco- modar a heterogeneidade dos educandos, é refl etida no art. 59 da LDB, no qual é preconizado que “os sistemas de ensino devem assegurar aos alunos currículo, métodos, recursos e organização específi cos para atender às suas necessidades”. Bom, agora que você conheceu os três principais paradigmas que infl uencia- ram o atendimento aos alunos com defi ciência, faça a atividade a seguir. Elabore um quadro comparativo, ressaltando as principais característi- cas de cada modelo. Retome os conceitos discutidos no encontro ante- rior, se necessário. Paradigma Segregação Integração Inclusão Período Até a década de 1960 Características principais O que você pensa sobre a perspectiva da Inclusão Total, que propõe a exclusão dos serviços da Educação Especial? Aula 4 Educação Inclusiva 69 Alunos com defi ciência ou necessidades educacionais especiais? Sob a infl uência do paradigma da inclusão, os alunos, antes referidos como excepcionais ou portadores de defi ciência passaram a ser chamados de edu- candos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE). De acordo com a resolução CNE/CEB nº. 02/2001, esses indivíduos incluíam aqueles que, durante o processo educacional, apresentassem: I – difi culdades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que difi cultem o acompanhamento das atividades curri- culares, compreendidas em dois grupos: a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica específica; b) aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou defi ciências; II – difi culdades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, demandando a utilização de linguagens e códigos aplicáveis; III – altas habilidades/superdotação, grande facilidade de aprendizagem que os leve a dominar rapidamente conceitos, procedimentos e atitudes (CNE/ CEB/MEC, Resolução nº 2/2001, art. 5.º). Podemos observar, nessa perspectiva, uma ampliação no leque de carac- terísticas comportamentais previamente consideradas críticas e propensas ao fracasso escolar, como os distúrbios de aprendizagem (dislexia, discalculia), os transtornos de défi cit de atenção/hiperatividade, as doenças mentais (psicoses, esquizofrenia), dentre outros quadros. Adicionalmente, como salienta Delou (2008), englobaria alunos que: [...] se diferenciam por seus ritmos de aprendizagem, sejam mais len- tos ou mais acelerados. Apresentam difi culdades de aprendizagem,que nenhum médico, psicólogo ou fonoaudiólogo conseguiu identifi car qualquer causa orgânica ou relacionada às características orgânicas [...] (DELOU, 2008, p. 16). E por que a mudança de termo? Defi ciência e necessidade educacional especial não seriam a mesma coisa? Não necessariamente. Conforme argumentam Glat e Blanco (2007): as necessidades educacionais especiais são construídas socialmente, no ambiente de aprendizagem, não sendo, portanto, consequências inevitáveis da defi ciência ou do quadro orgânico apresentado pelo indivíduo (GLAT; BLANCO, 2007, p. 28, grifo nosso). O termo Defi ciência, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, refere- -se a: perda ou anormalidade de estrutura ou função psicológica, fi siológica ou anatômica, temporária ou permanente. Incluem-se nessas a ocorrência de uma anomalia, defeito ou perda de um membro, órgão, tecido ou qualquer Excepcionais Nomenclatura usada na década de 1960. Portadores de defi ciência Nomenclatura usada na década de 1980. Aula 4 Educação Inclusiva70 outra estrutura do corpo, inclusive das funções mentais. Representa a exte- riorização de um estado patológico, refl etindo um distúrbio orgânico, uma perturbação no órgão (AMIRALIAN et al, 2000, p.18). Essa defi ciência pode, ou não, resultar em uma necessidade educacional especial. Por outro lado, a ideia de NEE está relacionada à interação do indivíduo com o meio. Ou seja, se a escola for capaz de atender às demandas do aluno, este não apresentará necessidades educacionais especiais (embora possa, ainda, apresentar defi ciência). Confuso? Pois bem, para esclarecer esses conceitos, imaginemos duas cenas. Cena 1 Um aluno cego em uma sala de aula onde uma professora, silenciosa- mente, escreve as instruções de uma atividade em um quadro negro. Cena 2 Um aluno cego em uma sala de aula onde uma professora: a. verbaliza as instruções de uma atividade a ser realizada pela turma; b. escreve as instruções no quadro; c. fornece uma cópia em braile da atividade para o aluno cego realizar. Agora, atente para as seguintes observações. 1) Na primeira cena, o aluno apresenta uma defi ciência? Se você disse que sim, está correto. Ele é defi ciente visual, uma condição orgânica que afeta sua capacidade de ver. 2) Na cena 1, o aluno evidencia necessidades educacionais especiais? Sim! Nesse contexto, com as instruções sendo fornecidas em uma modalidade que ele, enquanto indivíduo cego, não tem acesso (escri- ta no quadro), as necessidades educacionais especiais se manifestam. 3) Vamos à cena 2. O aluno apresenta defi ciência? Se você disse que sim, está correto. Ele é cego. 4) Na cena 2, o aluno apresenta necessidades educacionais especiais? Não! Nessa cena, embora a defi ciência exista, as acomodações feitas pela professora (verbalizar as instruções e fornecer uma cópia em braile), fazem com que as necessidades educacionais do aluno, nesse contexto, desapareçam. Braile Sistema de leitura e escrita pelo tato, tipicamente usado por pes- soas cegas. No braile, as letras do alfabeto são produzidas a partir de 6 pontos em alto relevo. 2Atividade 1 2 Aula 4 Educação Inclusiva 71 Agora é a sua vez! Imagine um aluno com uma defi ciência (visual, auditiva, física etc.), inserido na escola em que você trabalha/estuda. Indique uma atividade específi ca realizada nesse contexto. Esse aluno seria capaz de realizá-la? Discuta a ideia de NEE e defi ciência, tendo esse cenário como panorama. De acordo com o que discutimos, todo aluno com defi ciên- cia apresenta, necessariamente, uma necessidade educacio- nal especial? Aula 4 Educação Inclusiva72 Educação Inclusiva no Brasil: panorama atual Mesmo com a implementação de políticas que visavam à reestruturação dos sistemas educacionais inclusivos, os alunos com NEE continuaram apartados das classes regulares. De fato, estatísticas apresentadas pelo Censo do IBGE em 2000 indicaram que, pelo menos, 179 mil crianças brasileiras que possuíam alguma defi ciência não estavam nas escolas (KASPER; LOCH; PEREIRA, 2008). Foi nesse contexto que, em 2008, foi elaborada a Política da Educação Espe- cial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Esse documento determina que a Educação Especial, enquanto modalidade de ensino, deve ser restrita aos alunos que evidenciam defi ciências, transtornos e altas habilidades. Pois é, mudamos de nomenclatura novamente! Ao invés de educandos com necessidades educacionais especiais (NEE), termos menos amplos foram adota- dos. Assim, na atualidade, os alunos contemplados pelos serviços de Educação Especial seriam aqueles apresentados no Quadro 2. Aula 4 Educação Inclusiva 73 1. Defi ciência intelectual: funcionamento intelectual signifi cativamente inferior à média, com manifestação antes dos 18 anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas, incluindo a comunicação, cuidados pessoais, habilidades sociais, utilização da comunidade, saúde e segurança, habilidades acadêmicas, lazer e trabalho, vida doméstica e autogoverno (WESTLING; FOX, 2004). Estima-se que, aproximadamente, 1,6% da população no Brasil apresenta defi ciência intelectual. 2. Defi ciência visual: é caracterizada por duas condições — baixa visão e cegueira. A primeira, presente em 20% dos indivíduos que apresentam defi ciência visual, caracteriza- se pela perda total da visão, até a perda da capacidade de indicar a projeção da luz. A segunda, prevalente em 80% dos casos, é descrita como perda severa da visão, não corrigível através de tratamento clínico, cirúrgico, nem de óculos convencionais (SMITH, 2008). Aproximadamente 1 a 1,5% da população no Brasil apresenta defi ciência visual. 3. Defi ciência auditiva: é defi nida como perda parcial ou total das possibilidades auditivas sonoras. São considerados parcialmente surdos indivíduos capazes de ouvir sons a partir de 20 a 70 decibéis. Os surdos contemplam aqueles que só conseguem ouvir sons acima de 70 decibéis. Estima-se que, no Brasil, 1,5% da população tenha essa defi ciência (BRASIL, 2004). 4. Defi ciência física: alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas e as que não produzam difi culdades para o desempenho de funções (BRASIL, 2004). 5. Defi ciência múltipla: associação no mesmo indivíduo de duas ou mais defi ciências primárias, incluindo defi ciência física ou sensorial (WESTLING; FOX, 2004). 6. Transtornos Globais do Desenvolvimento: alunos que apresentam “alterações qualitativas das interações sociais recíprocas e na comunicação, um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo” (BRASIL, 2008, p. 9). Nesse grupo, estão contemplados os alunos com autismo, síndromes do espectro do autismo (Transtorno de Asperger, Rett, Transtorno Desintegrador da Infância, Transtornos Invasivos do Desenvolvimento sem Outra Especifi cação) e Psicose infantil (BRASIL, 2008). 7. Altas habilidades/superdotação: de acordo com a Política Nacional de Educação Especial, na perspectiva da Educação Inclusiva (2008), trata-se dos alunos com altas habilidades/ superdotação que [...] demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (BRASIL, 2008, p. 9). 8. Transtornos Funcionais Específi cos: nessa condição, estariam, por exemplo, educandos com distúrbios de aprendizagem, defi nido como um grupo heterogêneo de distúrbios que se manifestam por difi culdades signifi cativas na aquisiçãoe no uso da compreensão oral, fala, leitura, escrita, raciocínio ou habilidades matemáticas (WESTLING; FOX, 2004). Défi cits de atenção, de percepção visual, de processamento da linguagem ou prejuízos motores estão, em geral, relacionados a tais distúrbios. Estima-se que, aproximadamente, 5% da população escolar tenha algum tipo de distúrbio de aprendizagem (SMITH; STRICK, 2001). Quadro 2 – Alunos contemplados pelos serviços da Educação Especial na atual Política Educacional do Brasil Aula 4 Educação Inclusiva74 E quais serviços de Educação Especial voltados aos alunos seriam esses? O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é um exemplo. Trata-se de serviços que visam identifi car, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade, que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos, considerando suas necessidades específi cas. Ressalta-se que as atividades desenvolvidas no AEE diferenciam-se daquelas realizadas na sala regular e não podem substituir a escolarização. Por isso, o AEE é ofertado em turno inverso ao da escola. Ou seja, se a criança estuda pela manhã, deverá receber o atendimento à tarde e vice-versa. Para ser contemplado com esses serviços, o aluno deve estar matriculado na sala de aula comum ou em centros especializados que realizem o atendimento educacional. Além disso, o atendimento deve, de acordo com a legislação, ser realizado, prioritariamente, na Sala de Recursos Multifuncionais, também chamada de SRM. E o que são as SRM? São espaços organizados com materiais didáticos, pe- dagógicos, equipamentos e profi ssionais com formação para o atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos que apresentam defi ciências, transtornos ou altas habilidades. Esses recursos incluem materiais didáticos e pedagógicos acessíveis (livros, desenhos, mapas, gráfi cos e jogos táteis, em LIBRAS, em braile, em caráter am- pliado, com contraste visual, imagéticos, digitais, entre outros); Tecnologias de informação e de comunicação (TICS) acessíveis (mouses e acionadores, teclados com colmeias, sintetizadores de voz, linha braile, entre outros); e recursos ópti- cos; pranchas de CAA, engrossadores de lápis, ponteira de cabeça, plano incli- nado, tesouras acessíveis, quadro magnético com letras imantadas, entre outros. Uma descrição mais aprofundada desses recursos será fornecida no decorrer de nossos próximos encontros. Resumo Leituras complementares Aula 4 Educação Inclusiva 75 Para saber mais sobre o processo de escolarização de alunos com necessi- dades educacionais especiais, consulte as referências sugeridas a seguir. Nelas, você poderá ler mais sobre os pressupostos teóricos do modelo da Educação Inclusiva e as práticas pedagógicas adotadas em escolas regulares que atendem alunos com NEE. BRASIL. Revista Inclusão. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_content&view=article&id=12625&Itemid=860>. Acesso em: 22 nov. 2012. GLAT, R. (Org.). Educação inclusiva: cultura e cotidiano escolar. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. MAGALHÃES, Rita de Cássia Barbosa Paiva (Org.). Educação Inclusiva: escola- rização, política e formação docente. Brasília: Liber Livro, 2011. 182 p. MARTINS, Lúcia de Araújo R.; PIRES, Gláucia N.; PIRES, J. (Org.). Inclusão Escolar: novos contextos, novos aportes. Natal: EDUFRN, 2012. MENDES, Enicéia Gonçalves; ALMEIDA, Maria Amélia (Org.). Dimensões Pe- dagógicas nas práticas de inclusão escolar. Marília: Abpee, 2012. (Coleção Inclusão Escolar). Nesta aula, você conheceu um pouco mais sobre a história da Educação Especial no país, enfocando no modelo da Educação Inclusiva. Aprendeu a distinguir os diferentes paradigmas, da perspectiva da segregação à proposta da Inclusão Total. Identifi cou as características dos educandos contemplados pelos serviços da educação especial e a forma como eram e são, na atualidade, denominados. Por fi m, considerando a atual política educacional, conheceu os espaços pedagógicos onde as pessoas com defi ciências, transtornos e altas habilidades devem estar inseridas. Aula 4 Educação Inclusiva76 Autoavaliação A ideia agora é fazermos uma atividade de campo. Portanto, visite uma escola, ou a sua universidade, e converse com os professores e gestores. Você deverá orientar-se pelo roteiro a seguir. 1) Quantos alunos com defi ciências, transtornos e altas habilidades estão regularmente matriculados na escola/ universidade? 2) O que os professores e gestores pensam sobre a inclusão desses educandos? Quais os benefícios? Quais os desafi os? 3) Os referidos alunos (das escolas) estão sendo contemplados pelos serviços do atendimento educacional especializado (que lhes é de direito!) ou por algum outro atendimento diferenciado. 4) Existem salas de recursos multifuncionais? Onde estão alocadas as salas da região? Em seguida, se for possível, visite uma sala de recursos e descreva os equipamentos que encontrou. Referências AMIRALIAN, Maria L. T. et al. Conceituando defi ciência. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 34, n. 1, feb. 2000. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102000000100017&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 21 jan. 2013. BRASIL. Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Ofi cial da União, Brasília, 23 dez. 1996. ______. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. 2, de 11 de setembro de 2001. Institui as Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. Brasília: CNE/CEB, 2001. Aula 4 Educação Inclusiva 77 ______. Saberes e práticas da inclusão: estratégias para a educação de alunos com necessidades educacionais especiais. Brasília: Ministério da Educação, Se- cretaria de Educação Especial, 2003. ______. Lei 5296, artigo 70. Brasília: Ministério da Saúde, 2004a. ______. Saberes e práticas da inclusão: Desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. Brasília: MEC; SEESP, 2004b. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Na- cional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/politica.pdf>. Acesso em: 20 jan. 2013. BRASIL. Ministério da Educação. Resolução nº 4, de 2 de outubro de 2009. Institui Diretrizes Operacionais para o Atendimento Educacional Especializado na Educação Básica, modalidade Educação Especial. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/dmdocuments/rceb004_09.pdf>. Acesso em: 20 ago. 2012. CARVALHO, Rosita Edler. Removendo barreiras para a aprendizagem: educação inclusiva. Porto Alegre, Mediação, 2000. DECLARAÇÃO MUNDIAL SOBRE EDUCAÇÃO PARA TODOS. Plano de ação para satisfazer as necessidades básicas de aprendizagem. Tailândia, 1990. Disponível em: <http://unesdoc.unesco.org/images/0008/000862/086291por. pdf>. Acesso em: 22 set. 2012. DELOU, Cristina. Maria Carvalho. A Educação Especial e a Educação Inclusiva no Cenário Brasileiro: contextualização do problema. In: ROSA, Suely Pereira da Silva et al. Fundamentos Teóricos e Metodológicos da Inclusão. Curitiba: IESDB Brasil S.A., 2008. FUCHS, D.; FUCHS, L. Inclusion versus full inclusion. 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Vamos conhecer os serviços, recursos e estratégias que facilitam o aprendizado e a participação ativa do aluno com graus diferenciados de comprometimento do movimento e da coordenação motora, favorecendo o processo de escolarização e inclusão dessa população. Objetivos Defi nir os conceitos relacionados à defi ciência física. Reconhecer as causas da defi ciência física. Distinguir os diferentes tipos de defi ciência física. Identifi car necessidades do aluno com defi ciên- cia física. Relacionar o trabalho da equipe de saúde que acompanha o aluno com defi ciência física e as pos- síveis colaborações com a atividade do professor. Identifi car recursos de tecnologia assistiva e pos- sibilidades de adaptação do material escolar para facilitar o aprendizado do aluno. Aula 5 Educação Inclusiva 85 Defi ciência física: palavras iniciais Caro aluno, as questões discutidas no processo de inclusão, na rede regular de ensino, de alunos com defi ciência física abrangem desde o acesso ao sistema educacional e a organização do espaço físico das escolas, até a qualidade das respostas educativas e o efetivo aprendizado. O signifi cado da defi ciência para os pais, para os defi cientes, para os professores e para a sociedade em geral direcio- nam as políticas públicas e as ações dos diversos níveis governamentais. Nesse sentido, conhecer as características e as possibilidades do aluno com defi ciência física é fator essencial para que o professor possa desenvolver seu trabalho com essas crianças e esses jovens. Conceituando a defi ciência física A defi ciência física é entendida como alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física e pode envolver diversos quadros (Brasil, 2004). Entre as crianças com defi - ciência física, encontram-se aquelas com disfunção neuromotora, como paralisia cerebral, mielomeningocele, traumatismo crânio-encefálico e lesão degenerativa; aquelas com patologias genéticas, ortopédicas e traumatismos, entre outras cau- sas que geram alteração da estrutura ósteo-músculo-esquelética. O documento “Salas de Recursos Multifuncionais. Espaço do Atendimento Educacional Especializado”, publicado pelo Ministério da Educação, afi rma que: A defi ciência física se refere ao comprometimento do aparelho locomotor que compreende o sistema Osteoarticular, o Sistema Muscular e o Sistema Nervoso. As doenças ou lesões que afetam quaisquer desses sistemas, iso- ladamente ou em conjunto, podem produzir grandes limitações físicas de grau e gravidades variáveis, segundo os segmentos corporais afetados e o tipo de lesão ocorrida (SILVA; CASTRO; BRANCO, 2006, p. 28). A defi ciência física afeta o desenvolvimento motor da criança. Os quadros que podemos encontrar variam muito em função da parte do corpo acometida. Nos casos de amputação ou deformidades em extremidades (braços, mãos, pernas e pés), a função vai depender do segmento preservado. As doenças ou lesões que ocorrem no músculo, órgão que efetua o movimento, ou no cérebro, órgão que comanda e controla o movimento, geram difi culdades de realizar movimentos, manter determinadas posturas, realizar deslocamentos, preensão e manipulação de objetos. Algumas etapas do desenvolvimento que ocorrem no desenvolvimen- to típico de uma criança podem estar ausentes. Algumas crianças podem nunca se arrastar ou engatinhar. Aula 5 Educação Inclusiva86 Pode ocorrer também alteração do tônus muscular, que é o estado de tensão do músculo em repouso. O aumento de tônus é chamado de hipertonia e pode chegar à espasticidade, quando há também a resistência ao movimento (estirando o músculo). O tônus elevado provoca a contração excessiva de alguns múscu- los, gerando difi culdade de movimento e postura, sendo comum observarmos as mãos fechadas, os braços fl etidos e a marcha com suporte de peso na ponta dos pés. Neste caso, a criança apresenta difi culdade ou não consegue realizar os movimentos opostos ao músculo muito contraído, como abrir a mão para largar ou pegar objetos, estender os braços ou apoiar o pé todo no chão. Em outros casos, o tônus pode ser muito baixo, hipotônico, gerando a difi culdade da contração muscular e requerendo maior esforço para a realiza- ção do movimento. Neste caso, o movimento pode ser de pequena amplitude e fraco, em graus variados em função do tipo e gravidade do acometimento. O tônus pode ainda ser irregular, fl utuante, ora elevado ora baixo, levando a movimentos involuntários, como no caso de crianças com paralisia cerebral do tipo discinética, com movimentos amplos envolvendo todo o segmento (braço) ou só a extremidade (mãos). A difi culdade de movimento ocorre também no tronco e no pescoço. Algu- mas crianças podem ter a difi culdade de controlar o tronco e manter a postura sentada sem apoio ou mesmo manter a posição de cabeça que, em geral, fi ca em extensão (caída para trás) ou em fl exão (caída para frente). Em outros quadros de defi ciência física, pode ocorrer o movimento, mas há o comprometimento da coordenação motora, em graus variados de leve a grave. A difi culdade de se posicionar, se deslocar ou de manusear objetos pode levar a difi culdades secundárias, ou seja, não decorrentes de lesão, mas da limitação na exploração do mundo. Ferland (2009) sinaliza que, em consequência dessa limitação, a imitação e a capacidade de abstração (imaginação) podem se de- senvolver tardiamente. Podem ocorrer difi culdades de percepção e de orientação espacial, pois são habilidades desenvolvidas na exploração do ambiente. Tal fato reforça a necessidade de atendimento adequado e oportuno, para minimizar danos secundários à defi ciência física. Há necessidade de atendimento na área de educação infantil e de saúde, de forma integrada para responder às demandas do aluno de qualquer idade. Mais adiante, abordaremos sobre a rede de serviços para atender a crianças e jovens com defi ciência física. Mas, antes, devemos reforçar que, apesar de suas limitações, o aluno com defi ciência física pode ser tão curioso, interessado e atento como qualquer outro aluno, e seu envolvimento nas atividades vai depender “mais da sua personali- dade do que da gravidade de sua defi ciência” (FERLAND, 2009, p.110). 1Atividade Aula 5 Educação Inclusiva 87 Você conhece alguma pessoa com defi ciência física? Caso não conheça, tente imaginar ou lembrar-se de algum persona- gem em fi lmes. Em seguida, refl ita sobre o que ela é capaz de fazer e o que não pode fazer. Liste as possibilidades em duas colunas. Depois, pense se há alternativas para as atividades que a pessoa não pode fazer e acrescente uma terceira coluna, inserindo essas alternativas ao lado de cada atividade ou problema identifi cado. Por exemplo: um jovem usuário de cadeira de rodas não pode pegar materiais na estante alta, mas, se essesmateriais estiverem em armários baixos, terá indepen- dência para pegar o material necessário para a atividade escolar. Outro exemplo é de uma criança que usa andador, impedida de se deslocar na sala de aula por falta de espaço entre as carteiras. Se o espaço da sala fosse ampliado, ela poderia se deslocar de forma independente. Lidando com a defi ciência Historicamente, a organização de atendimento aos portadores de defi ciên- cia teve, de início, um caráter assistencial, visando fornecer algum conforto e bem-estar (MAZZOTA, 1996). Esse enfoque remeteu à segregação total, com assistência de portadores de defi ciência em centros especiais, para toda a vida, política dominante até início do século XX (CARVALHO, 1998). A esse modelo, seguiu-se o enfoque médico terapêutico, baseado no diagnós- tico e no tratamento por especialistas. O modelo esteve presente até 1990 nas políticas nacionais de educação especial, determinando o “atendimento educa- cional em organizações assistenciais e terapêuticas” (MAZZOTA, 1996, p. 198). Gradativamente, o atendimento voltou-se para as escolas. O movimento para a integração social do defi ciente surgiu nos anos 70, nos países escandinavos. A noção de integração foi difundida com base no princípio de normalização, ou seja, buscava-se que a pessoa com defi ciência atingisse a normalidade, fosse “normal”, igual às demais pessoas. Isso acontecia tanto no campo da educação como da saúde. Esse processo de integração envolve a oferta de uma gama de serviços entre a classe regular à escola especial, incluindo as classes especiais dentro de escolas regulares. A partir da Declaração de Salamanca de Princípios, Política e Prática em Edu- cação Especial, elaborada em 1994, inicia-se um novo momento de mudança Aula 5 Educação Inclusiva88 nos conceitos que envolvem a atenção educacional ao portador de necessidades educacionais especiais, com a conceituação da educação inclusiva. Nesse documento, o termo “necessidades educacionais especiais” é concei- tuado como “referente a todas aquelas crianças ou jovens cujas necessidades se originam em função de defi ciências ou difi culdades de aprendizagem” (ONU, 1994, p. 3), e o direito à educação de cada indivíduo é salientado, com orienta- ção no sentido de que “todas as escolas deveriam acomodar todas as crianças independentemente de suas condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais, linguísticas ou outras” (ONU, 1994, p. 3). Porém, as difi culdades para a concretização do processo de inclusão são muitas. Aliada ao desconhecimento das potencialidades de pessoas com defi - ciências, encontramos a difi culdade de como lidar com um ser, por vezes, tão diferente. A visão centrada nas difi culdades do aluno pode levar ao enfoque determinista, impedindo o desenvolvimento de alternativas que possibilitem o avanço no processo de aprendizagem. Nesta esfera de entendimento, um aluno que não consegue manipular lápis e papel ou cortar com uso de tesoura pode não progredir no ensino regular, quando na realidade, o foco deve ser o conteúdo, o aprendizado, não o aspecto motor. Em 2001, a Organização Mundial de Saúde (OMS) adotou a Classifi cação Internacional de Funcionalidade, Incapacidades e Saúde, conhecida como CIF. Esse documento apresenta uma estrutura para a descrição da saúde e de estados relacionados com a saúde, introduzindo uma nova terminologia e o modelo de funcionalidade e incapacidade. Considera a função e estruturas do corpo e defi ci- ências, sendo defi ciência conceituada como problemas nas funções ou estruturas do corpo (OMS, 2004, p. 4). Funcionalidade engloba todas as funções do corpo, atividades e participação. De forma similar, incapacidade inclui defi ciências, li- mitação da atividade ou restrição na participação (p.7). Na terminologia usada, atividade é a execução de uma tarefa ou ação por um indivíduo e participação refere-se ao envolvimento de um indivíduo numa situação da vida real. Em sua estrutura, a CIF considera os fatores contextuais, subdivididos em fatores ambientais (ambiente físico, social e atitudinal) e pessoais (história de vida e estilo de vida de uma pessoa). Um ambiente com barreiras, ou sem faci- litadores, restringe o desempenho de uma pessoa. Essa modifi cação é importante para desvincular defi ciência de estereótipos e preconceitos (ROCHA, 2006). Uma mesma alteração da estrutura corporal pode levar a incapacidades diferentes, pois o ambiente tem um papel importantíssimo na facilitação ou restrição para que uma pessoa possa realizar suas atividades. Um exemplo é a acessibilidade física. Se o acesso à sala de aula é feito por esca- das, um aluno usuário de cadeira de rodas terá restrição para o seu deslocamento. Por outro lado, o acesso por rampas ou elevador torna o ambiente facilitador, pois o aluno poderá ter acesso a esta sala de forma digna. As barreiras no ambiente podem ocorrer por atitude, por desconhecimento ou por falta de uso de recursos disponíveis. O aluno com defi ciência física, de maneira geral, vai necessitar de equipamentos ou recursos que, embora simples, 2Atividade Aula 5 Educação Inclusiva 89 podem representar a sua possibilidade de fazer ou não determinada atividade. Por exemplo, o uso de material antiderrapante sob o prato, pode ajudar uma crian- ça com incoordenação a alimentar-se sozinho. Porém, a introdução do suporte antiderrapante pode ser visto pelo professor como algo que “marca a diferença do aluno para os outros”. Mas não usar signifi ca que o aluno não tem a mesma oportunidade de participação que os colegas e é uma restrição do ambiente para a sua atividade. A aceitação de elementos facilitadores para o desempenho da criança pode representar a forma de se lidar com a pessoa “diferente”, questão apontada por vários autores como fator de impedimento à integração. Retornando um pouco ao que propomos na Atividade 1, procure ana- lisar os fatores que impedem a realização de atividades por uma pessoa com defi ciência. Quais as barreiras existentes? Quais as facilidades? Você diria que existe a limitação ou restrição na participação dessa pessoa na atividade que você listou/pensou/descreveu? Aula 5 Educação Inclusiva90 O que causa a defi ciência física? Traumas, doenças e alterações genéticas podem levar à defi ciência física, podendo ser temporária ou permanente; progressivas, regressivas ou estáveis; intermitentes ou contínuas. Abordaremos, em seguida, os quadros mais comuns. Paralisia cerebral A paralisia cerebral, também conhecida como disfunção neuromotora ou encefalopatia crônica infantil, se distingue pela variedade e gravidade do com- prometimento motor, que pode estar associado ou não a transtornos cognitivos, visuais e/ou auditivos. Caracteriza-se por distúrbios motores de caráter não progressivo, que se manifestam em um cérebro em desenvolvimento, antes dos três anos de idade (FONSECA et al, 2008). A paralisia cerebral representa um percentual importante na clientela da educação especial (PELOSI, 2000; 2008; PELOSI; NUNES, 2010; SOUZA, 2000). A paralisia cerebral pode se apresentar de diversas maneiras, dependendo da região do cérebro que foi lesada. O dano ao sistema nervoso central pode ocorrer no período pré, peri ou pós-natal. As causas mais frequentes são prematuridade; hipoxia-isquemia (falta de oxigenação); infecções congênitas (durante a gesta- ção), como rubéola, citomegalovirose, toxoplasmose, sífi lis, herpes e HIV, entre outras; incompatibilidade de fator Rh; meningoencefalites; traumas cranioence- fálicos e semiafogamentos. A classifi cação da paralisia cerebral pode ser em função do tipo e da locali- zação da alteração motora em: n Espástica: forma mais frequente de paralisia cerebral, pode ser quadriplégica (acomete os quatro membros), hemiplégica (acomete um lado do corpo) e diplégica (maior acometimento nos membros inferiores). A criança apresenta espasticidade em graus variados, movimentos mais lentos e fraqueza muscular.n Discinética: criança apresenta movimentos involuntários, tônus fl utuante (varia de hipertonia a hipotonia) e incoordenação motora (em grau variado). n Atáxica: forma pouco comum, caracterizada por hipotonia, incoor- denação motora e tremor intencional (quando se movimenta). Aula 5 Educação Inclusiva 91 n Hipotônica: criança hipotônica com atraso signifi cativo do desen- volvimento. n Mista: associação entre os tipos descritos acima. Doenças Neuromusculares: este item corresponde a um grupo de doenças, envolvendo os músculos e o sistema nervoso central ou periférico. As doen- ças neuromusculares são, em geral, degenerativas e se caracterizam pela piora progressiva da função motora (HASSUI, 2003). Podem ser hereditárias, como a Distrofi a muscular de Duchene, doença relacionada à defi ciência de uma proteí- na específi ca do tecido muscular, que afeta meninos e leva à fraqueza muscular com difi culdade para andar. Mielomeningocele: é uma má-formação do tubo neural (que dá origem ao sistema nervoso) responsável por uma falha em seu fechamento, originando uma paralisia sensitivo-motora nos membros inferiores e nos esfíncteres vesical e intestinal. Assim, a criança não apresenta movimentos nas pernas e não con- trola os esfíncteres. Traumatismo Cranioencefálico: lesões no sistema nervoso central podem ser causadas por quedas, atropelamentos, acidentes de trânsito, agressão e ar- mas de fogo. Podem ser classifi cado em leve, moderado e grave, em função do acometimento das estruturas. As alterações dependem da área lesada, mas, em geral, causam défi cits motores, cognitivos (ex.: alteração de memória), percep- tivos (ex.: não discrimina fi gura-fundo) e sensoriais (ex.: não sentir o toque em alguma região corporal). Lesões da Medula espinhal: pode ocorrer lesões por traumatismo: ferimen- tos com projétil de arma de fogo, acidentes de trânsito, quedas, mergulho; e causas não traumáticas: tumor, infecção, doenças vasculares e degenerativas. A lesão pode ser completa ou incompleta, gerando alterações funcionais em graus variados, dependendo do nível da medula em que ocorreu. Amputações de membros superiores: amputação é defi nida como perda to- tal ou parcial de um membro. Pode ser de origem traumática, congênita e, mais frequentemente em crianças, por retirada de tumor (RAMOS; SALLES, 2003). Anomalias congênitas: qualquer alteração estrutural ou metabólica presente ao nascimento, que pode ser geneticamente determinada ou resultante da infl u- ência ambiental durante a vida fetal ou período embrionário (ALONSO, 2003). Aula 5 Educação Inclusiva92 Identifi cando necessidades As necessidades dos alunos serão determinadas pela observação e análise das difi culdades encontradas. Os pais podem fornecer muitas informações impor- tantes, relatando a forma como lidam com a criança. Contatar os profi ssionais de saúde que atendem o aluno também é muito importante para conhecer as possibilidades de recursos que podem facilitar o aluno, especialmente quanto ao posicionamento, deslocamento, independência nas atividades de alimentação e higiene, comunicação, escrita e adaptação de material escolar. No cotidiano da escola, o professor pode identifi car se existem barreiras fí- sicas ou atitudinais que interferem no desempenho do aluno e que limitam sua participação nas atividades realizadas por seus colegas. A criança ou jovem com defi ciência física, em geral, terá um melhor de- sempenho se o ambiente for acessível, o que inclui ter a seu dispor recursos que facilitem a realização das atividades. O conjunto de recursos que ajudam a atividade funcional é chamado de Tecnologia Assistiva, como veremos a seguir. Tecnologia Assistiva O termo Tecnologia Assistiva (TA) é defi nido como área de conhecimento de característica multidisciplinar que compreende recursos, estratégias, metodologias, práticas e serviços com o objetivo de promover a funcionalidade e a participação de pessoas com incapacidades, visando à autonomia, à qualidade de vida e à inclusão social (BRASIL, 2010). A Tecnologia Assistiva engloba mobilidade alternativa, adequação postu- ral, Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA), acesso ao computador e suas adaptações, acessibilidade dos ambientes, adaptação de atividades escolares, adaptação de equipamentos de lazer e recreação e transporte adaptado (BERSH; PELOSI, 2007). O aluno com defi ciência física precisa ser atendido em vários desses itens. Mas essa tarefa não é só do professor. Na área de tecnologia assistiva, é necessário o apoio de serviços de saúde, com terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, fi sio- terapeutas e médicos, especialmente; embora muitos outros profi ssionais con- tribuam no processo de prescrição, treinamento e desenvolvimento de produtos, como técnicos em equipamentos, psicólogos, engenheiros, arquitetos e outros. A seguir, vamos falar brevemente de cada uma dessas áreas e das implicações no dia a dia da escola. Abordaremos, com mais detalhes, a área de Comunicação Alternativa, acessibilidade ao computador e adaptação de atividades escolares pela relação com o processo de ensino-aprendizagem. Aula 5 Educação Inclusiva 93 Mobilidade alternativa Refere-se ao uso de meios auxiliares de locomoção, compensando as difi culda- des que a pessoa tem para andar sem apoio. Podem se referir ao uso de bengalas, andadores, cadeiras de rodas manuais e motorizadas. Esses equipamentos são prescritos por fi sioterapeutas e terapeutas ocupacionais (no caso de cadeiras de rodas) e são fornecidos pelo Sistema Único de Saúde – SUS para uso da criança, sem restrições. A prescrição adequada é fundamental para a adaptação da criança ou jovem ao equipamento e não pode ser desvinculada do acompanhamento para treinamento e uso do equipamento no dia a dia da criança. Em paralelo, o profi ssional responsável deverá fornecer orientações necessárias para os pais e professores, quanto ao manejo e especifi cidade para determinada criança/ jovem. Durante o acompanhamento, poderá ser vista a necessidade de modifi cações em função do quadro da criança (ex.: a criança compensa a fraqueza de uma mus- culatura usando posições que podem gerar deformidades), melhora do quadro motor, ou ainda, em função do crescimento do usuário. É importante que o professor pergunte aos pais ou converse com os profi ssio- nais que atendem ao aluno para saber como facilitar o deslocamento dos alunos que não têm a marcha independente, assim esse profi ssional poderá avaliar a possibilidade de inserir o uso dos equipamentos nos deslocamentos que acon- tecem naturalmente na escola, ao ir para o pátio, refeitório e para outras salas de aula. Algumas crianças podem necessitar de outros meios de locomoção para vivenciar o domínio do espaço e acompanhar os colegas. Dependendo das condições funcionais da criança, pode ser usado um suporte tipo skate ou outros equipamentos adaptado às suas possibilidades. Adequação postural Refere-se à adequação da postura sentada para usuários de cadeiras de rodas. Terapeutas ocupacionais e fi sioterapeutas atuam diretamente nessa área. Pode envolver o uso de cintos, faixas e estabilizadores de tronco, quadril, cabeça, braços, pernas e pés, para ajudar a criança/ jovem a manter a postura alinhada, centralizada (sem cair para os lados), facilitar o posicionamento da cabeça para que o usuário possa melhor interagir e acompanhar visualmente os estímulos do ambiente, facilitar a realização de movimentos de forma funcional. É muito importante que o professor saiba como posicionar o aluno na cadeira de rodas e em outras posições, pois esse aluno permanece muitas horas na escola. Além disso, é importante que o usuário de cadeira de rodas possa ser mudado de posição pelo menos a cada duas horas. Algumas crianças podem se sentar, na sala de aula, em uma cadeira com encosto (na altura das axilas) e com braços, usando ou não faixas de suporte no tronco, e usar a cadeira de rodas para se deslocar. Especialmentena educação infantil, a criança precisa ter alternativa para sen- tar no chão, como os colegas. Pode ser com apoio de um adulto, que se mantém por trás da criança, ou pode ser pensado em opções de cadeiras que permitam 3Atividade a b Aula 5 Educação Inclusiva94 uma boa postura. O importante é manter um bom alinhamento da postura e permitir que a criança participe e interaja nas atividades lúdicas e pedagógicas. Alguns exemplos de cadeiras de rodas podem ser observados a seguir. Figura 1 – (a) e (b) Exemplos de cadeira de rodas Fonte: <http://www.ortobras.com.br>; <http://www.expansao.com>. Acesso em: 7 jan. 2013. Comunicação Alternativa e Ampliada (CAA) Uma parcela dos alunos com defi ciência física pode não desenvolver a fala, falar de forma pouco compreensível ou usar apenas poucas palavras e necessi- tarão de outras formas que não a fala para se comunicarem oralmente. Outras habilidades difíceis ou impossíveis são escrever, usar pincel, lápis e caneta e, por isso, a pessoa com disfunção neuromotora precisará de equipa- mentos adaptados às suas possibilidades para se expressar por meio da escrita. Tanto a comunicação oral como a escrita são essenciais no ambiente escolar. O uso de meios alternativos para expressão é fator crucial para ampliação das possibilidades de acesso aos recursos educacionais, não só na sala de aula, mas em todos os espaços de interação e aprendizagem. Você já se imaginou impossibilitado (a) de falar? Da próxima vez em que estiver reunido (a) com a família e amigos, experimente fi car quinze minutos sem falar. Preste atenção no que você gostaria de pedir, comentar, perguntar, opinar, responder. Como você pode se expressar sem falar? Não vale gesticular nem escrever. Lembre-se de que muitas pessoas com movimentos incoordenados não conseguem gesticular de forma clara nem escrever. Aula 5 Educação Inclusiva 95 A CAA é o conjunto de recursos, técnicas e estratégias utilizadas para o desen- volvimento de alternativas à fala e à escrita para pessoas que não desenvolveram ou encontram-se impedidas de se expressar por esses meios. Lembre-se do seu exercício: o que você usou como alternativa à fala? Pessoas com disfunções físicas podem usar o sorriso, os gestos, os sinais, os movimentos corporais, a expressão facial, a vocalização, o olhar e o choro, mostrando seus de- sejos e necessidades ou em resposta aos estímulos do ambiente. Como exemplo, podemos pensar em uma criança na sala de aula, o professor faz uma pergunta para a turma e a criança se mexe na cadeira, tentando mostrar que sabe a res- posta. Essas formas de comunicação caracterizam os sistemas de comunicação não assistida, sem uso de tecnologia, mas que dependem do olhar do interlocutor para a criança e da valorização que este dá aos sinais emitidos por ela. Para ampliar as possibilidades de comunicação, outros dispositivos são es- senciais. Além da sistematização do uso de recursos do próprio corpo, como sinalização de SIM e NÃO com movimentos de cabeça, olhos, boca, braços, pernas ou qualquer outra parte do corpo, podemos recorrer a: n objetos reais e miniaturas n fotografi as e fi guras n símbolos gráfi cos (símbolos padronizados) n letras, palavras, frases Esses elementos podem ser dispostos e organizados em cartões, pranchas ou álbuns de comunicação, comunicadores com voz gravada, computador e tablets. Figura 2 – Prancha de Comunicação elaborada com a ferramenta Gerador de Prancha e símbolos disponíveis no Portal (ARASAAC) para escolha de atividades ou para indicar assunto sobre o qual quer falar. Fonte: Projeto de Extensão Comunicação Alternativa e a parceria do Curso de Terapia Ocupacional — UFRJ com o ARASAAC. Disponível em: <www. portalassistiva.com.br>. Acesso em: 12 dez. 2012. Aula 5 Educação Inclusiva96 Figura 3 – Prancha de comunicação elaborada com símbolos ARASAAC para uso na hora do recreio da escola Fonte: Projeto de Extensão Comunicação Alternativa e a parceria do Curso de Terapia Ocupacional – UFRJ com o ARASAAC. Disponível em: <www. portalassistiva.com.br>. Acesso em: 12 dez. 2012. Muitas vezes, a criança pode chegar na creche ou na escola e ainda não ter nenhum código estabelecido. Uma forma de aprender sobre sua forma de res- ponder é perguntar aos responsáveis como eles sabem quando a criança gosta e quando não gosta de algo. O professor deve, ainda, observar o comportamento da criança, como ela demonstra satisfação/insatisfação, interesse pelos brinquedos ou pessoas, como reage quando perguntada sobre situações vivenciadas ou sobre a história que ouviu. Use perguntas que possam ser respondidas com SIM/NÃO. Precisamos estar atentos e valorizar a movimentação e as sinalizações que a criança/ jovem faz. Como a criança com disfunção motora pode apresentar os movimentos em graus variados de incoordenação, como já falamos, nem sempre sua expressão facial e seus gestos são de fácil compreensão. O professor ou a pessoa que está conversando com o usuário de CAA pode confi rmar se enten- deu corretamente. Ex: após a leitura da história do “Chapeuzinho Vermelho”, o professor pergunta: “Quem vestiu a roupa da vovó?”. O aluno usuário de CAA, que não pode se expressar oralmente, sorri. O professor pode perguntar: “Você sabe?” e o aluno novamente sorri. O professor pergunta: “quem foi? O caçador? A mamãe? O lobo?”. Após cada opção, o professor aguarda o sinal do aluno. Ele não precisa responder NÃO após cada resposta, pois isso aumenta o tempo de espera. Pode fazer o movimento afi rmativo na resposta escolhida, quando quiser responder SIM. Aula 5 Educação Inclusiva 97 Essa estratégia é chamada de escaneamento auditivo, pois as opções são faladas uma a uma até a resposta afi rmativa do usuário de CAA. Agora, pense que outras formas podem facilitar a resposta do aluno. As- sim, vejamos: n Mediação com objetos: o professor pode ter bonecos, fantoches ou miniatura dos personagens, dispor no campo visual do aluno para que ele olhe para o personagem que quer “dizer” como resposta. É importante observar que, na escolha visual, os objetos devem ser apresentados com a distância sufi - ciente para identifi carmos a direção do olhar. Comece com duas opções e dê preferência a objetos grandes, pois grande parte das crianças com paralisia cerebral pode ter alterações visuais associada ao quadro motor. No caso de objetos menores, experimente usar um anteparo de fundo, de cor contras- tante, dando mais destaque ao objeto apresentado. Se a criança reconhece o objeto, podemos usar fotografi as, rótulos e outras fi guras para que ela use como forma de se expressar. Figura 4 – Símbolos soltos feitos com rótulos para escolha do lanche ou para contar o que comeu no dia, o que gosta, etc. Fonte: <http://www.mundodastribos.com>;< http://www.cemporcentonatural.com/sucrilhos%20sem%20acucar%20grande.jpg>; <http://www.4moms.com.br/wp-content/uploads/2012/05/bolacha-de-maizena.jpg>. n Mediação com símbolos: o professor pode preparar antecipadamente uma prancha com as fi guras ou símbolos dos personagens da história contada. Existem vários símbolos padronizados e desenvolvidos especialmente para a CAA. Um dos mais usados é o PCS (Picture Communication Symbols) disponível no programa Boardmaker, específi co para a elaboração de mate- rial de CAA e adquirido pelo MEC, como parte do material disponível nas Salas de Recursos Multifuncionais. Outros programas, também específi cos de CAA, como o Comunicar com Símbolos, disponibilizam outros conjuntos de símbolos. Se tiver interesse, visite a página <http://www.imagina.pt/ downloads/software> e veja a versão de demonstração gratuita para uso em tempo determinado. Aula 5 Educação Inclusiva98 Um conjunto de símbolos gratuitos está disponível no Portal ARASAAC <http://www.catedu.es/arasaac/>. Esse portal é mantido pelo governo es- panhol e tem seu conteúdo sistematicamente traduzido para o português por professores e alunos do Curso de Terapia Ocupacional e alunos doCurso de Letras-Espanhol da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como ação exten- sionista. Além dos símbolos, o portal disponibiliza diversas ferramentas como gerador de prancha, gerador de horários e de calendários, gerador de bingo e jogo de tabuleiro, facilitando a construção de pranchas de comunicação e outros materiais produzidos com os símbolos ARASAAC. Figura 5 – Portal ARASAAC Fonte: <http://catedu.es/arasaac>. Acesso em: 12/12/2012. n Mediação com letras/palavras: para o aluno que está em processo de alfa- betização, pode ser construída uma prancha de comunicação com letras ou com os nomes dos personagens, para continuarmos no exemplo de “Quem vestiu a roupa da vovó?”. Assim, o aluno pode indicar a primeira letra, pode soletrar, apontando cada letra e o professor ou um colega escreve as letras apontadas para formar a resposta – LOBO. Ou o aluno indica a resposta entre duas ou três palavras escritas LOBO – VOVÔ – CAÇADOR. Outra opção é o uso de letras móveis (de madeira, EVA, plástico, etc.), para as quais o aluno pode apontar até formar o nome ou até o professor identifi car a sua resposta. A estratégia depende da fase em que o aluno está no processo de alfabetização. Aula 5 Educação Inclusiva 99 Como o aluno seleciona a opção desejada? Como falamos nos exemplos, o aluno pode olhar, apontar com mãos, dedos, punho ou outra parte do corpo. Para acelerar o tempo de resposta, o interlocutor pode fazer o processo de varredura das opções. Esse processo é o que usamos em alguns caixas eletrônicos de banco, quando vamos apertando uma tecla e o cursor vai se deslocando para outra opção e quando chega na opção desejada, apertamos a tecla “entra” ou outra tecla com função de indicar que a opção foi selecionada. No caso da prancha de comunicação, o interlocutor aponta cada opção e o usuário de CAA (o aluno) sinaliza afi rmativamente na opção desejada. Se tivermos quatro opções na prancha (na página), podemos apontar item a item. Mas se tivermos mais opções, para agilizar e não fi car cansativo para quem “fala” e para o interlocutor, podemos apontar a coluna ou a linha e depois apontamos cada item da coluna ou linha selecionada. Figura 6 – Leitura de livro adaptado com uso de acionador e comunicador sequencial, associado a miniaturas Fonte:Centro de Terapia Ocupacional do Rio de Janeiro Pressionando o acionador, a criança pode contar a história, gravada em um comunicador sequencial. Ela também pode ainda acompanhar a história, olhando para os objetos e para as fi guras do livro. Acionador Acionadores são dispositivos que podem ser ativados por pressão, tração, sucção e por outras formas. Podem ser conec- tados a brinquedos adaptados, brinquedos à pilha (o acionador é conectado a um interruptor de pilha), comunicador, computa- dor e tablet. a b c Aula 5 Educação Inclusiva100 Comunicadores com voz gravada Outros dispositivos de CAA podem fornecer a opção selecionada pelo aluno através da emissão da mensagem gravada ou por voz sintetizada. Esses dispo- sitivos são os comunicadores. São importados e existem vários modelos que permitem a gravação, desde uma mensagem até várias outras opções. Em geral, a gravação da mensagem é um processo bem simples e pode ser modifi cada conforme a demanda da atividade. Na Figura 6, podemos ver um comunicador sequencial que a criança ativa ao pressionar um acionador. Assim, ela pode ouvir a história já gravada, associá-la com as imagens, com o texto do livro e com as miniaturas de elementos da his- tória, facilitando sua compreensão. O comunicador também pode ser acionado diretamente, sem uso de acionador. Outros exemplos de comunicadores podem ser observados na fi gura a seguir (Figura 7). Os comunicadores possuem determinado número de células para gravação de mensagens e colocação de pranchas de comunicação com símbolos, fotos, fi guras ou miniaturas. No exemplo que estamos seguindo, o aluno pode ter a mesma prancha de personagens da história colocada em um comunicador, o professor grava em cada célula de acordo com o símbolo (gravar a palavra LOBO, na célula onde está o símbolo do lobo) e, ao apertar a célula, a mensagem gravada é reproduzida. O mesmo processo pode ser usado no computador e em tablets. Alguns exemplos de comunicadores podem ser observados na fi gura a seguir. 1) No Portal do Ministério de Educação (MEC), você encontra in- formações da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão – SECADI. Entre as publicações disponíveis na área de Educação Especial, você encontra o Portal de ajudas técnicas: recursos para comunicação alternativa, que apresenta várias ideias para uso de pranchas de comunicação na sala de aula. Figura 7 – Exemplos de comunicadores: (a): Comunicador SuperTalk; (b): Comunicador Go Expresse 32 com varredura (c) Vocalizador S32 Tobii- Fonte: <http://www.ablenetinc.com>; <http://www.attainmentcompany.com>; <http://www.civiam.com.br>. Acesso em: 7 jan. 2013. Aula 5 Educação Inclusiva 101 Acesso ao computador e suas adaptações O computador pode ser usado para a comunicação oral e escrita. Para uso do computador, é necessário promover a acessibilidade diante das condições motoras da criança (OLIVEIRA, 2007; PELOSI, 2009; REIS; SAMPAIO, 2008). Ela pode usar acionadores com mouse adaptado, teclados adaptados ou especiais. Acionadores são dispositivos que podem ser ativados por pressão, tração, sucção e outras formas, em função das possibilidades motoras da criança. Para a criança que não consegue usar o mouse comum, podemos acoplar o acionador a um mouse com encaixe especial e, quando a criança ativa o acionador, é como se estivesse usando o botão esquerdo do mouse. Dessa forma, o aluno pode usar, de forma independente, aplicativos que só dependam do uso do botão esquerdo do mouse. Um exemplo é o uso do programa PowerPoint. O professor pode de- senvolver aplicativos sobre o conteúdo trabalhado em sala, histórias, músicas e atividades nas quais o aluno pode trabalhar sozinho ou com os colegas, tendo uma participação ativa, pois ele pode fazer a apresentação dos slides, ativando o acionador, e alternar com os colegas que podem usar o mouse. 2) Ainda no Portal do MEC, na área de publicações da SECADI, você pode acessar o Atendimento Educacional Especializado (AEE) Defi ciência Física, publicado em 2007, que apresenta um capítulo sobre CAA e um sobre acessibilidade ao computador. A CAA é uma área multiprofi ssional e você poderá procurar ajuda com profi ssionais que têm formação específi ca nessa área, com fonoau- diólogos (que atuam na área da comunicação oral) e com terapeutas ocu- pacionais (que atuam na área da comunicação escrita e acessibilidade). Figura 8 – Mouse adaptado com dois acionadores Fonte: <http://www.terraeletronica.com.br>. Acesso em0: 12 jan. 2013. Aula 5 Educação Inclusiva102 Figura 9 – Mouse adaptado com entrada para acoplar o acionador Fonte: <http://www.clik.com.br>. Acesso em: 12 jan. 2013. No Portal Assistiva do Curso de Terapia Ocupacional da UFRJ – <http://www.portalassistiva.com.br> –, você pode baixar pranchas de comunicação, atividades pedagógicas e histórias adaptadas, elaboradas em diversos programas, com diversos tipos de símbolos, disponíveis em pdf. Ou seja, mesmo você não tendo o programa, pode baixar uma prancha de comunicação ou uma atividade e imprimir. Algumas histó- rias e atividades são feitas no PowerPoint, programa parte do pacote da Microsoft Offi ce-Windows. Ao fi nal da página, você pode ver o item “Dicas do Portal”, clique e você poderá saber mais sobre os programas específi cos de comunicação alternativa e como usar o Portal Assistiva. Existem muitos programas desenvolvidos especialmente para a área de CAA, para confecção de pranchas de comunicação e para outras atividades, mas que também podem ser usados diretamente pelos alunos. O professor pode elaborar atividades para o trabalho pedagógico, favorecendo o aprendizadoda leitura, es- crita e conceitos matemáticos, bem como material de ensino e de avaliação sobre conceitos mais complexos relacionados a qualquer disciplina. Alguns exemplos desses programas são Boardmaker com Speaking Dynamically Pro, IntelliPics Studio e Comunicar com Símbolos, que permitem a personalização de atividades para as condições visuais, cognitivas e motoras do aluno. É preciso considerar que o aluno precisa aprender a usar os recursos alter- nativos, o que pode ocorrer de forma concomitante na sala de aula, na Sala de Recursos Multifuncionais e nos atendimentos da área da saúde. Além disso, as pessoas que diretamente se relacionam com o aluno também precisam se fami- liarizar para que possam disponibilizar os recursos para o aluno. Saiba mais Aula 5 Educação Inclusiva 103 Adaptação de atividades escolares Para crianças que não podem escrever devido ao grau de incoordenação de seus movimentos, pode ser necessário o uso de adaptações que viabilizam a escrita. Uma gama bem variada de adaptações pode ser utilizada. Dependendo das características do indivíduo, a modifi cação necessária pode ser o uso de um lápis mais grosso que o usual, ou a introdução de um computador. Para as crianças que não conseguem usar o lápis, mesmo adaptado, poderão ser usadas letras móveis em papel, madeira, borracha ou outro material. Algu- mas letras podem ser disponibilizadas para o aluno apontar (com a mão, olho ou outra parte do corpo), enquanto o professor ou outro aluno cola ou escreve, registrando a resposta da criança com necessidade especial. A leitura de palavras ou textos fi cará facilitada se estes estiverem escritos em letras de imprensa, maiúsculas, ampliadas e com espaço aumentado entre as linhas (como mostrado na Figura 6). Adaptação de equipamentos de lazer e recreação A oferta de brinquedos adaptados nos parquinhos pode proporcionar novas possibilidades de lazer e interação do aluno com defi ciência e seus colegas. Balanços com cadeirinha que oferecem apoio nas costas e barra de segurança à frente é um exemplo. Brinquedos que funcionam com pilha podem ser adaptados para serem ati- vados por acionadores (os mesmos usados com o computador). Nesse caso, o brinquedo precisa estar adaptado ou necessitamos usar um interruptor de pilha para interromper o circuito, e o brinquedo passa a ser ativado quando a criança pressionar o acionador. Transporte adaptado: os ônibus adaptados para a fácil entrada do usuário de cadeira de rodas e para o transporte com segurança são essenciais para que alunos com defi ciência física possam ter acesso à escola e às atividades culturais que complementam o ensino. Assista ao vídeo disponível no YouTube, <http://youtu.be/ kcQV6xyOmMM>, chamado “Passo a passo para a confecção de um acionador”, que mostra um aluno com paralisia cerebral produzindo um acionador. Você pode aprender a fazer um acionador e pode ver a capacidade deste aluno. Leituras complementares Resumo Aula 5 Educação Inclusiva104 Caro aluno, gostou da aula de hoje? Então, para saber um pouco mais sobre o assunto, veja o fi lme “Meu pé esquerdo” (My Left Foot). Trata-se de uma história real, sobre a vida do escritor Christy Brown, sua infância e juventude com paralisia cerebral, em uma pequena cidade irlandesa. Observe a representação da defi ciência física para seus pais e irmãos, como ele e a família lidava com suas difi culdades e como ele as superou. Além disso, no Portal do Laboratório de Tecnologia Assistiva e Comunica- ção Alternativa da UERJ <http://www.lateca-uerj.net>, você encontra vários artigos e resultados de estudos desenvolvidos em escolas especiais e regulares. Se você quiser ler algo mais sobre defi ciência, leia as indicações a seguir: NUNES, L. R. O. P.; PELOSI, M. B.; WALTER, C. C. F. (Org.). Compartilhando Experiências: ampliando a comunicação alternativa. Marília: ABPEE, 2011. NUNES, L. R. O. P. et al. Comunicar é preciso: em busca das melhores práticas na educação do aluno com defi ciência. Marília: ABPEE, 2011. Nesta aula, você aprendeu a importância do meio ambiente para o desempenho dos alunos com defi ciência física. Conheceu causas e tipos de defi ciência física e como um mesmo diagnóstico pode ter expressões bem variadas, de acordo com o grau e local da lesão que levou ao quadro de defi ciência física. Aprendeu formas de identifi car barreiras, facilidades e necessidades do aluno e conheceu algumas possibilidades para superar as dificuldades encontradas. Pôde distinguir alguns recursos, estratégias e serviços da área de Tecnologia Assistiva que podem facilitar o desempenho e a participação dos alunos com defi ciência física e aprendeu como outros profi ssionais podem contribuir para o trabalho do professor, com vistas ao aprendizado e inclusão escolar desta população. Aula 5 Educação Inclusiva 105 Autoavaliação A partir do que vimos durante a aula, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F). ( ) A defi ciência física é causada apenas por lesão no cérebro. ( ) Paralisia cerebral signifi ca que o cérebro não funciona e a criança não se desenvolve. ( ) Inicialmente, o atendimento ao aluno com defi ciência física tinha um caráter assistencial e ocorria em centros especiais com segregação total. ( ) A falta de oportunidade de explorar e ser ativo no ambiente gera defi ciên- cias secundárias para a criança com defi ciência física. ( ) Para o aluno que não consegue segurar no lápis, a escrita pode ser feita através de letras móveis ou no computador. ( ) De acordo com a CIF, participação signifi ca o envolvimento do aluno nas atividades próprias do contexto escolar, pois esta é uma situação da vida real. ( ) A tecnologia assistiva só é usada pelo professor. ( ) Um aluno que não fala pode responder a uma pergunta do professor apon- tando ou olhando para um objeto, uma fi gura, um símbolo, uma letra, uma palavra ou uma frase mostrada pelo professor. ( ) A comunicação alternativa é uma área da tecnologia assistiva que ofe- rece meios de compensar a falta de desenvolvimento da fala e difi cul- dades na escrita. ( ) Algumas pessoas que não falam podem dar uma resposta afi rmativa sor- rindo ou fazendo gestos. Aula 5 Educação Inclusiva106 Referências ALONSO, l. G. Anomalias Congênitas: uma visão genético-clínica. In: TEIXEIRA, Érica et al. Terapia Ocupacional na reabilitação física. São Paulo: Roca, 2003. BERSH, R. C. R.; PELOSI, M. B. Portal para ajudas técnicas: tecnologia assistiva: recursos de acessibilidade ao computador. Brasília: MEC/Seesp, 2007. BRASIL. Secretaria Especial dos Direitos Humanos, CORDE. Comitê de Ajudas Técnicas-CAT. 2010. Disponível em: <http://www.acessobrasil.org.br/cms08/ seopublicacoes-6.htm>. acesso em: 24 set. 2010. BRASIL. Lei 5296, artigo 70. Brasília: Ministério da Saúde, 2004. CARVALHO, R. E. A nova LDB e a educação especial. Rio de Janeiro: WVA, 1998. FERLAND, F. Além da defi ciência física ou intelectual: um fi lho a ser desco- berto. Londrina: Midiograf Lazer e Sport, 2009. FONSECA, L. F. et al. Paralisia Cerebral: Classifi cação e apresentação clínica. 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A comunicação alternativa e ampliada nas escolas do Rio de Janeiro: formação de professores e caracterização dos alunos com necessidades educacionais especiais. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000. ______. Inclusão e Tecnologia Assistiva. Tese (Doutorado em Educação) – Uni- versidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. v I e II. ______. Tecnologias em comunicação alternativa sob o enfoque da terapia ocu- pacional. In: DELIBERATO, D.; GONÇALVES, M. J.; MACEDO, E. C. (Ed.). Comu- nicação Alternativa: teoria, prática, tecnologias e pesquisa. São Paulo: Memnon Edições Científi cas, 2009. p. 163-173. PELOSI, M. B.; NUNES, L. R. O. P. A inclusão dos alunos com defi ciência física nas escolas regulares. Temas sobre Desenvolvimento, v. 17, p. 99-103, 2010. RAMOS, A. C.; SALLES, I. C. Amputações de membros superiores. In: TEIXEIRA, Érica et al. Terapia Ocupacional na reabilitação física. São Paulo: Roca, 2003. REIS, N.; SAMPAIO, M. J. T. A utilização da informática na paralisia cerebral: possibilidades e recursos na clínica da Terapia Ocupacional. In: FONSECA, L. F.; LIMA, C. L. A. (Ed.). Paralisia cerebral: neurologia, ortopedia e reabilitação. 2. ed. Rio de Janeiro: Medbook, 2008. p. 417-426. ROCHA, E. F. Reabilitação de pessoas com defi ciência: a intervenção em dis- cussão. São Paulo: Ed. Roca, 2006. p. 300. SCHIRMER, Carolina R. et al. Atendimento educacional especializado: Defi ci- ência Física. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. SILVA, A. F.; CASTRO, A. L. B.; BRANCO, M. C. A inclusão escolar de alunos com necessidades educacionais especiais: defi ciências físicas. Brasília: MEC/ SEESP, 2006. SOUZA, V. L. V. Caracterização da comunicação alternativa: um estudo entre alunos com defi ciência física em escolas de uma região do município do Rio de Janeiro. Tese (Mestrado em Educação) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000. Anotações Aula 5 Educação Inclusiva108 Defi ciência visual 6 Aula 1 2 3 4 5 Aula 6 Educação Inclusiva 111 Apresentação N este encontro, percorreremos a história do defi ciente visual no Brasil, partindo das instituições segregadas do Império e chegando às classes regularas da contemporaneidade. Identifi caremos, em seguida, as causas e os sinais relacionados à perda da visão. Veremos que o número de defi cientes visuais no país é expressivo e que, com a política da inclusão, teremos cada vez mais indivíduos cegos e com baixa visão nas salas regulares. Nesse contexto, conheceremos alguns recursos e estratégias pedagógicas delineadas para viabi- lizar a aprendizagem desses educandos. Objetivos Descrever a trajetória educacional das pessoas cegas do fi nal do século XIX até a atualidade. Defi nir defi ciência visual. Identifi car as causas da defi ciência visual. Identifi car os sinais e as condutas relacionados à perda de visão. Descrever os serviços, recursos e estratégias pedagógicas que viabilizam a aprendizagem de alunos com defi ciência visual. Aula 6 Educação Inclusiva 113 Os primeiros passos O primeiro educandário para defi cientes visuais da América Latina foi o Imperial Instituto dos Meninos Cegos (IMC), fundado em 1854, na cidade do Rio de Janeiro. Essa instituição, hoje denominada Instituto Benjamin Constant (IBC), Figura 1, funcionava em regime de internato, ofertando o ensino primário, alguns tópicos do secundário, além de educação moral e religiosa. Figura 1 – Instituto Benjamin Constant (IBC) Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Instituto_benjamin_constant_1.jpg>. Acesso em: 11 dez. 2012. Os alunos aprendiam, ainda, música, ofícios fabris e trabalhos manuais nesse recinto. A preparação acadêmica parecia servir, no entanto, para a atuação pro- fi ssional dentro da mesma instituição. Em 1872, por exemplo, dos 16 alunos for- mados, mais de 81% tornaram-se professores do próprio IMC (JANUZZI, 2004). O número de educandos matriculados era inexpressivo. Para você ter uma ideia, em 1872, apenas 35 alunos, majoritariamente de classes abastadas, estu- davam na instituição. Registros da época indicavam, no entanto, que havia no país 15.848 pessoas cegas (MAZZOTA, 1996)! De 1920 a meados de 1950 observa-se uma expansão no número de insti- tuições para defi cientes visuais no país. Em 1926, foi fundado o Instituto São Rafael, em Belo Horizonte; um ano depois, o Instituto para Cegos “Padre Chico”, em São Paulo. Em 1935 foi construído, em Pernambuco, o Instituto dos Cegos e, posteriormente, em 1936, o Instituto de Cegos na Bahia, alocado em Salvador. Na década seguinte, merece destaque o Instituto Paranaense dos Cegos, estabelecido em Curitiba, em 1944 (MAZZOTTA, 1996). No nordeste, ressalta-se a fundação, em 1952, do Instituto de Proteção aos Cegos e Surdos-Mudos, atual instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte (IERC). Hoje, essa instituição, localizada em Natal (RN), é mantida pelo Governo do Estado e Pre- feitura Municipal, recebendo esporadicamente apoio do Governo Federal. O IERC mantém Classes de Alfabetização, atendendo crianças com defi ciência visual de 6 a 7 anos e ensino do 1º ao 5º ano (SILVA; ALVES; OLIVEIRA, 2011). Aula 6 Educação Inclusiva114 A maioria dessas instituições foi fundada e mantida por associações fi lan- trópicas e muitos dos professores que nelas atuaram formaram-se no Instituto Benjamin Constant (ORRICO; CANEJO; FOGLI, 2007). As instituições não governamentais foram, também, as responsáveis pela criação, em 1946, da Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Essa fundação, atualmente denominada Fundação Dorina Nowill para Cegos, visava ampliar o acesso à leitura dos cegos pela impressão de livros em Braille. Em 1950, Dorina Nowill, uma de suas fundadoras, pleiteou junto a uma instituição americana (Kellog Foundation) a doação de uma imprensa Braille. Os americanos compra- ram os equipamentos solicitados, sob a condição de que o governo brasileiro mantivesse a imprensa. Curiosidade A Fundação Dorina Nowill é uma organização sem fi ns lucrativos que produziu, até a atualidade, mais de seis mil títulos e dois milhões de volumes impressos em braille. Consta em seu acervo, mais de 1.600 obras em áudio e cerca de outros 900 títulos digitais acessíveis. Saiba mais, visitando o site: <http://www.fundacaodorina.org.br>. A partir da década de 1950, em decorrência dos movimentos sociais emer- gidos no pós-guerra, as iniciativas governamentais de apoio ao defi ciente visual tornaram-se mais expressivas. Em 1953, por exemplo, foi promulgada uma lei no Estado de São Paulo, que instituía as Classes Braille nos cursos pré-primário, secundário e de formação profi ssional. Nessas classes, que funcionavam para- lelamente ao ensino regular, os alunos cegos recebiam apoio pedagógico de pro- fessores especializados ou habilitados em Educação Especial (MACHADO, 2011). Três anos depois, o Ministério da Educação instituiu a Campanha nacional de educação e reabilitação dos defi citários visuais. Dentre as propostas assi- naladas nesse documento estavam a instalação e a manutenção de centros de habilitação para defi cientes visuais e ações que visavam promover a integração de educandos cegos em ambientes regulares de ensino. Registros históricos indicam, ainda, que foi nesse período que o Conselho Nacional de Educação permitiu o ingresso de alunos com defi ciência visual no Ensino Superior (MASINI, 1993). Os movimentos de integração educacional do cego, assim como das outras defi ciências, ganhou fôlego na década de 1970. Foi nesse período que o Minis- tério da Educação criou o Centro Nacional de Educação Especial, responsável por coordenar a implementação de uma política de educação para pessoas com defi ciência. Movimentos sociais emergidos no pós-guerra Falamos, em nossa segunda aula, que o tema da defi ciência ganhou maior visibilidade a partir dos movimentos sociais do pós-guerra. Isso se atribui aogrande contingente de pessoas que adquiriram defi ciências nas batalhas. 1Atividade 1 2 3 4 Aula 6 Educação Inclusiva 115 O paradigma de educação vigente, como você estudou em nosso terceiro encontro, era o da integração. Embora a proposta fosse integrar o aluno a um ambiente menos restritivo possível, o modelo resultou em muita segregação. Por quê? Você está lembrado que, de acordo com a perspectiva da integração, o aluno deveria se adaptar à escola e não o contrário? Pois então. Nesse período, diversas instituições e escolas especiais tornaram-se depósitos de alunos excepcionais, incluindo os defi cientes visuais. Nos anos 1990, o paradigma da inclusão abriu novos horizontes para os de- fi cientes da visão que, a partir de então, passaram a ser denominados de alunos com necessidades educacionais especiais. A Educação Especial, enquanto moda- lidade de ensino, passava a ofertar o apoio necessário para que essa população tivesse acesso às salas regulares. A escola, nesse novo cenário, se propunha a adaptar-se as demandas do aluno. Em 2008, observou-se que, embora o aumento das matrículas desses educan- dos no ensino regular fosse expressivo, uma parcela signifi cativa permanecia fora das escolas. Para você ter uma ideia, o número de crianças e adolescentes com defi ciência visual, menores de 16 anos, no Brasil, em 2000, era de 1,5 milhões (Brasil, 2001). Registros indicavam, na época, que apenas 25 mil estavam matri- culados em escolas. Nesse panorama foi instituído o Atendimento Educacional Especializado (AEE), que busca, na atualidade, viabilizar o acesso e permanência dos – agora intitulados – defi cientes visuais, nas classes comuns. Integração Nesse modelo era ofertado um continuum de “espaços educacionais” aos alunos com defi ciência, desde ambientes mais segregados, como insti- tuições especializadas, até as classes regulares. Como você descreveria a educação dos defi cientes visuais no Brasil antes de 1920? Qual o papel das entidades fi lantrópicas na história da educação dos cegos no país no período de 1920 até a dé- cada de 1960? Como ocorria a inserção dos defi cientes visuais nas escolas no período de 1970 até o fi nal dos anos 1980? De acordo com a política vigente, os defi cientes visuais devem estudar em classes especiais? Deficiência visual Cegueira Baixa visão Visão perfeita Aula 6 Educação Inclusiva116 O que é a defi ciência visual? Para responder essa pergunta, é importante compreender os graus de visão como um espectro em que em um extremo estaria a cegueira e do outro a visão perfeita, conforme ilustra a Figura 2. Figura 2 – Espectros da visão O termo defi ciência visual refere-se ao espaço compreendido entre a cegueira e a baixa-visão. A seguir veremos melhor a defi nição desses dois termos. n Cegueira: a ausência de percepção da luz até a perda total da visão. Essa condição afeta a capacidade do indivíduo de perceber cor, ta- manho, distância, forma, posição ou movimento em um campo mais ou menos abrangente (SÁ; CAMPOS; SILVA, 2007). Em uma pers- pectiva educacional, o educando cego não tem visão sufi ciente para aprender a ler em tinta e necessita, portanto, utilizar outros sentidos (tátil, auditivo, olfativo, gustativo e cinestésico) no seu processo de desenvolvimento e aprendizagem (BRASIL, 2006). n Baixa visão: também denominada visão subnormal, visão reduzida ou ambliopia. A baixa visão é a alteração da capacidade funcional da visão, decorrente de inúmeros fatores isolados ou associados, tais como: baixa acuidade visual, redução do campo visual, e/ou sensibilidade à luz e aos contrastes que interferem ou limitam o desempenho visual do indivíduo (BRASIL, 2006). cinestésico Sentido que permite a percepção dos membros e movimentos do corpo. Aula 6 Educação Inclusiva 117 Na cegueira, há um padrão único de resposta: o aluno não enxerga. Quando falamos, entretanto, de baixa visão, padrões distintos podem se manifestar. O Quadro 1 a seguir ajuda a compreender as diferentes difi culdades apresentadas por alunos com baixa visão. Baixa acuidade visual: O aluno tem difi culdades em ver de longe, precisando aproximar-se de objetos e pessoas para poder enxergar com maior nitidez. Redução do campo visual: O aluno apresenta um campo visual inferior a 180 graus na horizontal e na vertical. O campo visual pode ser alterado em diferentes posições: para baixo, para cima, de forma central ou periférica. Dependendo do tipo de lesão no campo, o aluno pode apresentar difi culdades para andar, subir/descer escadas ou desviar-se de obstáculos. Sensibilidade aos contrastes e à luz: incapacidade de diferenciar as cores ou determinados contrastes ou sensibilidade exagerada à luz. Quadro 1 – Principais difi culdades apresentadas por alunos com baixa visão As defi ciências visuais diferem das alterações visuais. No primeiro grupo, conforme estudamos, temos a cegueira e a baixa visão. São condições que não podem ser corrigidas por meio de óculos. As alterações visuais, por outro lado, compreendem distúrbios visuais que, por vezes, podem ser ajustados, pelo uso dos óculos/lentes. Dentre as alterações visuais mais comuns, encon- tramos a miopia, a hipermetropia, o astigmatismo e o estrabismo, descritos no quadro seguinte. Miopia: erro de refração que afeta a visão à distância. Hipermetropia: erro de refração que faz com que a imagem seja formada atrás da retina; levando a difi culdades em enxergar de perto. Astigmatismo: alterações na córnea, levando à percepção distorcida de imagens. Estrabismo (vesgueira): desalinhamento ou perda de paralelismo dos olhos, podendo resultar em redução da visão ou visão dupla de imagens. Quadro 2 – Alterações da visão Refração A forma como o olho “refrata” a luz determina a sua capacidade em focalizar imagens. Aula 6 Educação Inclusiva118 Sinais relacionados aos problemas de visão Você, enquanto professor, deve estar atento aos sinais que podem indicar a presença de problemas visuais em seus estudantes. Assim, se o seu aluno apresentar algumas das condições a seguir, com frequência, solicite o encami- nhamento a um oftalmologista. Cautela excessiva ao andar e tropeços/quedas frequentes. Desatenção e desinteresse. Difi culdade para leitura e escrita. Fadiga ao esforço visual. Franzimento da testa. Inquietação e irritabilidade. Irritação, olhos avermelhados e/ou lacrimejantes, terçóis. Nistagmo (olhos em constante oscilação). Piscar ou esfregar os olhos excessivamente. Postura inadequada, como a aproximação excessiva de objetos. Queixas de visão dupla, embaçada ou dores de cabeça. Sensibilidade excessiva à luz. Tonturas, náuseas, dores de cabeça. Quadro 3 – Sinais que podem indicar problemas visuais Fonte: Adaptado de Brasil (2006). Aula 6 Educação Inclusiva 119 Defi ciência visual em números De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 180 milhões de pessoas no mundo apresentam defi ciência visual. Desse grupo, 45 milhões são cegas e 135 milhões têm baixa visão. Isso signifi ca que para cada pessoa cega, existem quatro com visão subnormal. Os países em desenvolvimento apresen- tam índices mais elevados de defi ciência visual do que os desenvolvidos (SILVA; MUCCIOLI; BELFORT JR, 2004). No Brasil, por exemplo, o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geogra- fi a e Estatística (IBGE) (BRASIL, 2001) revelou que 16,6 milhões de brasileiros apresentavam algum tipo de alteração visual (defi ciência visual e distúrbios da visão) e 150 mil eram cegos. No censo de 2010, esse número aumentou signifi ca- tivamente, sendo superior a 35 milhões. O aumento nos números de defi ciência declarada pode ser atribuído à forma como a pergunta foi formulada no levanta- mento. No Censo 2000, por exemplo, era: “Como você avalia a sua capacidade de enxergar?”. Em 2010, mudou para: “Você tem alguma difi culdade para enxergar?”. Essas estatísticas precisam ser interpretadas com cautela, considerando que esses dadosrefl etem o numero de defi cientes visuais e os que evidenciam distúrbios da visão. Assim, 18,8% da população brasileira, de acordo com o levantamento, apresentam difi culdades para enxergar. Aula 6 Educação Inclusiva120 Causas da defi ciência visual A defi ciência visual pode ter causas congênitas ou ser uma condição ad- quirida em decorrência de diferentes patologias. O Quadro 4 indica algumas dessas condições. Congênito Condição presente ao nascimento. Catarata: condição em que o cristalino (lente interna do globo ocular) fi ca opaco, não transparente. Essa patologia tira a nitidez da visão, podendo provocar a distorção das imagens. É uma patologia que pode ser herdada, causada por infecções durante a gestação, como também adquirida em decorrência de diabetes, hipotireoidismo ou do próprio envelhecimento. Degeneração da retina: condição em que a retina é deteriorada, tendo como causa a diabetes ou doenças hereditárias. Glaucoma: doença que afeta o nervo óptico. É relacionada, muitas vezes, à elevada pressão intraocular. É uma condição que pode ser congênita ou adquirida em decorrência de enfermidades como a diabetes ou catarata. Retinopatia da prematuridade: imaturidade da retina em decorrência de parto prematuro ou excesso de oxigênio na incubadora. Trauma ocular: produzido por acidentes de trabalho/trânsito ou atos de violência, desencadeando a perfuração do globo ocular, deslocamento de retina e outras condições. Quadro 4 – Condições que podem levar à defi ciência visual Nas regiões mais carentes do país, como o norte e o nordeste, os índices de prevalência da defi ciência visual são maiores. As causas mais frequentes estão relacionadas à desnutrição e infecções. Pesquisas indicam, por exemplo, que a hipovitaminose A (carência de vitamina A), problema comum na região nordeste, pode levar à cegueira (GERALDO et al, 2003). Adicionalmente, a falta de ações preventivas, como a vacinação para enfermidades como a rubéola e a toxoplasmose, pode contribuir para o aumento de casos de defi ciência visual no país. E isso pode ser remediado? Sim! Dependendo da causa, até 80% dos casos de defi ciência visual podem ser evitados por mecanismos de prevenção ou tratamentos específi cos (SILVA et al, 2004). 2Atividade Aula 6 Educação Inclusiva 121 Antes de prosseguirmos, que tal um experimento? Selecione uma atividade que realiza de forma rotineira, como prepa- rar o café da manhã, arrumar o quarto, lavar a louça ou jogar o lixo fora. Selecionou? Bem, agora gostaria que você colocasse uma venda nos olhos e tentasse realizar essa mesma atividade, sem enxergar. Pronto? Registre agora as suas impressões a) Conseguiu realizar a atividade? b) Quais as principais barreiras encontradas? c) O que você sentiu? 41 52 63 Aula 6 Educação Inclusiva122 Identifi cando serviços, recursos e estratégias de ensino Todo aluno defi ciente visual, independente de sua idade ou grau de compro- metimento da visão, aprende! A defi ciência visual não interfere na capacidade cognitiva do indivíduo. A falta de estímulo, no entanto, pode propiciar atrasos signifi cativos. Assim, é o dever da escola adaptar-se para desenvolver, em sua plenitude, as potencialidades dos educandos com defi ciência. Na atual política educacional, cabe ao Atendimento Educacional Especiali- zado (AEE) identifi car serviços e recursos que, além da educação, promovam o desenvolvimento da autonomia e da independência do aluno. Dentre esses serviços destacam-se: a orientação e mobilidade, atividades da vida diária (AVD) e a aprendizagem do Sistema Braille. 1) Orientação e mobilidade: são defi nidas como práticas voltadas para a orientação espacial e cinestésica da pessoa cega. Nesses serviços, o aluno aprende a locomover-se e orientar-se utilizando uma bengala, um cão guia, ou o uso dos membros superiores (ORRICO; CANEJO; FOGLI, 2007). 2) Atividade da vida diária (AVD): serviços que auxiliam no desenvol- vimento de habilidades importantes para a realização de atividades do dia a dia, como comer, se vestir, escovar os dentes ou organizar materiais escolares. 3) Aprendizagem do sistema braille: O braille é um processo de escrita em relevo para a leitura táctil. A escrita braille é produzida a partir de um conjunto de celas contendo seis pontos, denominada cela braille, representada na Figura 3, a seguir. Figura 3 – Representação de uma cela braille Fonte: http://intervox.nce.ufrj.br/~brailu/reglete.jpg Alfabeto Braille (leitura) Disposição Universal dos 63 Sinais Simples do Sistema Braille 1a série – série superior utiliza os pontos superiores 1245 a b c d e f g h i j 2a série é resultante da adição do ponto 3 a cada um dos sinais da 1a série k l m n o p q r s t 3a série é resultante da adição do ponto 3 e 6 aos sinais da 1a série u v x y z ç é á è ú 4a série é resultante da adição do ponto 6 aos sinais da 1a série â ê ì ô ù à ñ/ ï ü õ ò/w 5a série é formada pelos sinais da 1a série posicionados na parte inferior da cela , ; : Sinal Divisão ? ! = “ ” * ° (grau) 7a série é formada por sinais que utilizam os pontos da coluna direita da cela (456) 6a série é formada com a combinação dos pontos 3456 í ã ó Sinal de Alg. Ponto Final ou Apóstrofo − (hífen) (4) (45) (5) (6)$Sinal de Maiúscula | Barra Vertical Aula 6 Educação Inclusiva 123 Cada sinal ocupa um espaço da cela braille, que é identifi cado pelo tato. Um total de 63 combinações distintas é possível. As letras do alfabeto, os números e outros símbolos gráfi cos podem ser produzidos pelo braille. Veja a disposição dos 63 sinas do sistema na Figura 4. Figura 4 – Classifi cação da combinação dos pontos na cela braille Fonte: Sá, Campos e Silva (2007, p. 23). Aula 6 Educação Inclusiva124 São muitos os recursos que alicerçam a aprendizagem do aluno com defi ciên- cia visual. Merece destaque, os instrumentos de produção do braille, os recursos ópticos e não ópticos. Os sinais do braille são produzidos pela reglete e punção ou a máquina de escrever braille. A reglete assemelha-se a uma régua com celas braille dispos- tas em toda a sua extensão. A punção é uma espécie de estilete, em formato de pera, utilizado para a perfuração dos pontos na cela braille. A Figura 5 traz uma ilustração desses instrumentos. Figura 5 – Reglete e punção Fonte: Sá, Campos e Silva (2007, p. 24). Na Figura 6, temos uma ilustração da máquina braile, instrumento utilizado para produzir a escrita braille. Figura 6 – Máquina Braille Fonte: <http://nappisrmsl.blogspot.com.br/2011/09/sala-de-recursos-multifuncional-emef.html>. Acesso em: 11 dez. 2012. Aula 6 Educação Inclusiva 125 As lentes, lupas (manuais, de mesa), telescópios e óculos especiais são exem- plos de recursos ópticos. Eles têm a função de melhorar a focalização por am- pliação das imagens. Esses recursos estão ilustrados na Figura 7. Figura 7 – Recursos ópticos Fonte: Sá, Campos e Silva (2007, p. 19). Os recursos não ópticos são as ferramentas utilizadas para modifi car os estímulos (materiais, objetos) de forma que sejam adequadamente percebidos pela visão. Nessa categoria encontramos diversos acessórios, como o plano in- clinado (carteira adaptada, que permite inclinação), o lápis 4B ou 6B, suporte para livros, gravadores, cadernos com pauta, dentre outros. Merece destaque, ainda, os softwares desenvolvidos para o defi ciente visual. E são muitos! Al- guns, inclusive, ofertados gratuitamente através do site do Instituto Benjamin Constant (www.ibc.gov.br). Dê uma olhada. Ali você encontrará, por exemplo, o sistema DosVox, um software que “se comunica” com o usuário através de síntese de voz. Ou seja, o computador “lê” o que o usuário digita. Enquanto estiver na página do IBC, olhe, também, o Braille Fácil e o programa MecDaisy. O primeiro foi desenvolvido para transcrever, automaticamente, documentos em texto para o braille; o segundo possibilita a geração de livros digitais falados e sua reproduçãoem áudio. DosVox DosVox e o Braille Fácil foram desenvolvidos pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 3Atividade Aula 6 Educação Inclusiva126 Entre no site do IBC <www.ibc.org.br> e faça o download do DosVox ou do MecDaisy e experimente em seu computador. Regis- tre suas impressões aqui. Estratégias de ensino: dicas de sala de aula As estratégias de ensino usadas com alunos cegos são devem ser as mesmas empregadas com os educandos com baixa visão? Antes de responder essa per- gunta, pense no “espectro da visão” que discutimos no início de nosso encontro. Lembrou? Pois então, esse modelo ressalta que o funcionamento visual dos alunos defi cientes visuais varia. Concorda? Comecemos, portanto, falando de algumas estratégias, ressaltadas por Silva (2012), que podem auxiliar o aluno cego na sala de aula. Figura 2 – (a) Mapa em alto-relevo e (b) Material dourado Fonte:(a) <www.bengalabranca.com.br>;(b) <http://www.kitsegifts.com>. Acesso em: 11 dez. 2012. 1) Esse aluno, embora desprovido da visão, percebe os elementos do mundo através dos outros sentidos, como a audição ou o tato. Assim, nossa primeira dica é usar materiais com diferentes texturas ou ob- jetos manipuláveis, que estimulem os sentidos remanescentes do aluno. Mapas táteis nas aulas de geografi a ou o uso do material dourado nas de matemáticas são alguns exemplos. Material dourado O material dourado, idealizado por Maria Montessori, serve para a aprendizagem do sistema de numeração. Aula 6 Educação Inclusiva 127 2) Fique atento às orientações espaciais! Ao invés de dizer “aqui” ou “ali”, diga à direita, à esquerda, para frente ou para trás. 3) Utilize diferentes instrumentos de avaliação. Assim, faça provas em braille, avaliações orais ou apresentações de seminários. 4) Incentive a gravação das aulas, por meio de um gravador. Lembre-se de falar de forma clara, próximo ao equipamento. 5) Promova atividades colaborativas, dando ao aluno cego a possibili- dade de ter um colega como escriba e/ou outro como ledor. 6) Verbalize todos os procedimentos desenvolvidos, transmitindo com clareza os conteúdos de forma fácil e audível. 7) Forneça mais tempo para que o aluno fi nalize as tarefas. 8) Forneça os materiais em formato digital. Dessa maneira, podem ser facilmente usados com programas de computador. 9) Nunca exclua o aluno das atividades realizadas em sala de aula! Pense sempre em formas de adaptá-la às necessidades dele. 10) Na apresentação de vídeos, descreva as imagens e cenas mudas. Antes de falarmos das estratégias de ensino para alunos com baixa visão, é importante ressaltar que o processo educacional desses indivíduos ocorre, principalmente, por meios visuais. Você, enquanto professor, deve lembrar- -se da importância de continuar estimulando a visão residual do seu aluno com baixa visão. Com isso em mente, veja algumas dicas, ressaltadas por Santos Silva (2012). 1) Antes de começar imprimindo provas, textos e outros materiais, teste o melhor tamanho e tipo de letra com o aluno! As normas de acessibilidade indicam que as letras de tamanho 16 a 32, do tipo ARIAL ou VERDANA, com contraste de fundo escuro / letra amarela ou branca são os melhores. É sempre importante consultar o aluno. 2) Utilize prancha de plano inclinado para leitura, textos ampliados e em alto contraste (possivelmente em negrito ou caixa alta). Leituras complementares Aula 6 Educação Inclusiva128 3) Veja se a iluminação está apropriada. Lembre que alguns alunos podem apresentar hipersensibilidade à luz. 4) Posicione o aluno nas carteiras da frente, de forma a facilitar a visualização de materiais apresentados e a compreensão de infor- mações orais. 5) Prefi ra a letra bastão quando escrever na lousa ou nas atividades do caderno. 6) Respeite a forma de o aluno posicionar-se nas atividades de leitura. Muitas vezes o seu melhor ângulo de visão exige que leia os textos com o “canto dos olhos”. 7) Fale de forma pausada e permita que o aluno grave as aulas lecionadas. 8) Forneça mais tempo para que realize as tarefas e diminua, quando possível, o número de exercícios. 9) Disponibilize livros com letras ampliadas. 10) Permita que o aluno escreva com lápis 6B ou 4B, caneta hidrográ- fi ca preta e cadernos com pautas escurecidas e mais largas. Para ter outra visão sobre o assunto, assista ao fi lme e leia o livro “Ensaio sobre a cegueira”, de José Saramago. O livro foi adaptado para o cinema (Blindness), com direção de Fernando Meireles, e trata de uma epidemia de cegueira que se prolifera em uma cidade, trazendo um verdadeiro caos urbano. Resumo Aula 6 Educação Inclusiva 129 Nesta aula, você conheceu um pouco mais da história do defi ciente visual no Brasil. Observou, no decorrer desse percurso, a transição de um modelo segregado de atendimento para uma proposta mais inclusiva de educação. Aprendeu que o conceito de defi ciência visual deve ser compreendido como um espectro, contemplando as várias especifi cidades da baixa visão. Identifi cou, ainda, as principais causas, sinais e condutas associadas à perda da visão. Conheceu, em seguida, alguns serviços e recursos que devem ser ofertados ao aluno através do AEE. Por fi m, identifi cou estratégias de ensino que viabilizam a aprendizagem do aluno com defi ciência visual na sala de aula regular. Autoavaliação Assinale V para as questões verdadeiras e F para as falsas. ( ) As primeiras instituições para cegos no Brasil foram fundadas em 1780. ( ) O modelo da integração proposto na década de 1970 indicava que o aluno cego deveria adaptar-se às demandas da escola. ( ) Uma pessoa com miopia deve ser considerada defi ciente visual. ( ) Os recursos pedagógicos utilizados para o cego sempre funcionam para o aluno com baixa visão. ( ) A desnutrição e infecções podem causar a defi ciência visual. ( ) O aluno com defi ciência visual apresenta, invariavelmente, um atraso mental. ( ) Por ser desprovido de visão, o cego não poderá utilizar o computador. ( ) Reglete é um tipo de software de leitura para cegos. ( ) O cego deve ser poupado de realizar atividades em grupo. ( ) O AEE são serviços ofertados a alunos com defi ciência em escolas especiais. Aula 6 Educação Inclusiva130 Referências BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística – IBGE. Censo Populacio- nal, 2000. 2001. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos cegos e de alunos com baixa visão. 2. ed. Brasília : MEC, Secretaria de Educação Especial, 2006. 208 p. (Série Saberes e práticas da inclusão). GERALDO, Rosana Regina Cardoso et al. Distribuição da hipovitaminose A no Bra- sil nas últimas quatro décadas: ingestão alimentar, sinais clínicos e dados bioquí- micos. Rev. Nutr., Campinas, v. 16, n. 4, dec. 2003. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732003000400008&lng= en&nrm=iso>. Acesso em: 26 sept. 2012. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA – IBGE. Censo Demo- gráfi co 2000. Rio de Janeiro: IBGE 2001. Disponível em: <http://ibge.gov.br/ series_estatisticas/>. Acesso em: 30 jun. 2004. JANNUZZI, Gilberta Sampaio de Martino. A educação do defi ciente no Brasil: dos primórdios ao início do século XXI. Campinas: Autores Associados, 2004. LEITÃO, J. C; FERNANDES C. T. Inclusão escolar de sujeitos com defi ciência visual na rede regular de ensino brasileira: revisão sistemática. Linhas Críticas, Brasília, DF, v. 17, n. 33, p. 273-289, maio/ago. 2011. MACHADO, Edileine Vieira. A importância do (re) conhecimento do Sistema Braille para a humanização das políticas públicas de Inclusão. International Stu- dies On Law And Education, São Paulo, n. 9, p. 49-54, 15 jan. 2011. MASINI, Elcie Salzano. A educação do portador de defi ciência visual – as pers- pectivas do vidente e do não vidente. Em Aberto, Brasília, ano 13, n. 60, p. 61-76, out./dez.1993. MAZZOTTA, Marcos José Silveira. Educação Especial no Brasil: história epolí- ticas públicas. São Paulo: Cortez, 1996. ORRICO, Helio; CANEJO, Elizabeth; FOGLI, Bianca. Uma Refl exão sobre o coti- diano escolar de alunos com defi ciência visual em classes regulares. In: GLAT, Rosana (Org.). Educação Inclusiva: cultura e cotidiano escolar. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. Anotações Aula 6 Educação Inclusiva 131 SÁ, Elizabet Dias; CAMPOS, Izilda Maria de; SILVA, Myriam Beatriz Campolina. Atendimento Educacional Especializado: Defi ciência Visual. São Paulo: MEC/ SEESP, 2007. SILVA, Luci Meire Pereira da; MUCCIOLI, Cristina; BELFORT JR, Rubens. Perfi l socioeconômico e satisfação dos pacientes atendidos no mutirão de catarata do Instituto da Visão - UNIFESP. Arq. Bras. Oftalmol., São Paulo, v. 67, n. 5, Oct. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0004-27492004000500008&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 27 sept. 2012. SILVA, Luzia Guacira Dos Santos. Orientações para atuação pedagógica junto a alunos com defi ciência visual. Disponível em: <http://www.caene.ufrn.br/orien- tacao_docentes.php>. Acesso em: 15 set. 2012. SILVA, Luzia Guacira Dos Santos; ALVES, Jefferson Fernandes; OLIVEIRA, Rubem Varela de. Inclusão de alunos com defi ciência visual. Natal: Edufrn, 2011. 51 p. Anotações Aula 6 Educação Inclusiva132 Defi ciência auditiva 7 Aula 1 2 3 4 5 Aula 7 Educação Inclusiva 135 Apresentação N esta aula, você aprenderá sobre os diferentes espectros da audição e a identifi car as causas da surdez. Saberá a estimativa de defi cientes auditi- vos no mundo e quantos, no Brasil, estão incluídos nas escolas. Faremos, em seguida, um passeio pela história da educação do surdo, transitando pelas instituições segregadas e chegando às escolas inclusivas. Nessa trajetória, você conhecerá as distintas fi losofi as que inspiraram os métodos de ensino adotados na educação do surdo no decorrer dos tempos. Reconhecerá os vestígios dessas abordagens nas práticas pedagógicas e políticas educacionais vigentes. Por fi m, fi nalizaremos a nossa narrativa falando do aluno surdo inserido em uma escola regular, procurando saber quais os desafi os enfrentados por ele e, além disso, como viabilizar sua aprendizagem. Boa aula! Objetivos Conceituar defi ciência auditiva. Identifi car as causas e prevalência da defi ciência auditiva. Descrever a trajetória educacional das pessoas com defi ciência auditiva no decorrer da história. Identifi car as principais características do oralis- mo, bilinguismo e comunicação total. Identifi car recursos e estratégias pedagógicas que viabilizam a aprendizagem de alunos com defi - ciência auditiva na sala de aula regular. Aula 7 Educação Inclusiva 137 Conhecendo a defi ciência auditiva P odemos defi nir defi ciência auditiva como a diminuição da percepção nor- mal dos sons. Assim como estudamos na cegueira, a capacidade de ouvir deve ser compreendida dentro de um continuum no qual em um extremo estaria a audição normal e em outro a incapacidade de perceber os sons. Dessa forma, defi ciência auditiva é classifi cada em cinco tipos, desde a surdez leve até a surdez profunda, conforme indicado na Figura 1. Defi ciência auditiva Neste texto, utilizaremos a pa- lavra surdez como sinônimo de defi ciência auditiva. Figura 1 – Espectros da audição O nível de perda auditiva é baseado em uma unidade de medida denomina- da de decibéis (dB), que indica a intensidade e volume de sons (DIAS; SILVA; BRAUN, 2007). O Quadro 1 a seguir dá uma ideia do que isso signifi ca. Decibéis Exemplos 20 Cochico 40 Fala suave 60 Conversa normal 80 Trânsito ruidoso 100 Escavadeira Quadro 1 – Exemplos de intensidade/volume do som, considerando a frequência de decibéis Aula 7 Educação Inclusiva138 O conceito de decibéis ajuda-nos a compreender o espectro da audição, desde a audição normal até a surdez profunda, conforme descrito no Quadro 2. Classifi cação Percepção de som (decibéis) Audição normal 0-15 db Surdez Leve 16 – 40 dB Moderada 41- 55 dB Acentuada 56-70 db Severa 71-90 db Profunda + 90 db Quadro 2 – Classifi cação da capacidade auditiva Assim, uma pessoa incapaz de ouvir o som de um cochicho (aproximada- mente 20 db) pode apresentar uma surdez leve. Aquele que não percebe o som das buzinas em um ruidoso trânsito (aproximadamente 80 db), possivelmente evidencia uma defi ciência auditiva severa. A criança pode nascer surda ou desenvolver a surdez posteriormente. As cau- sas são diversas, abrangendo desde anomalias genéticas até acidentes e traumas físicos. Algumas condições que podem levar à perda auditiva estão assinaladas no Quadro 3. Causas pré-natais Causas pós-natais n Fatores genéticos n Doenças da mãe (rubéola, toxoplasmose) n Uso de drogas pela mãe n Uso de medicamentos (pela mãe) que podem afetar a audição do feto n Anóxia (falta de oxigenação no cérebro logo após o nascimento) n Trauma de parto (ex. inadequando de fórceps ao nascimento) n Doenças: meningite, rubéola n Acidentes Quadro 3 – Etiologia da surdez Fonte: adaptado de Silva (2011, p. 11). 1Atividade 1 2 3 4 Aula 7 Educação Inclusiva 139 Defi ciência auditiva em números A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a defi ciência auditiva afeta, aproximadamente, 10% da população mundial. De acordo com o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE), 9,7 milhões de brasileiros apresentam algum nível de defi ciência auditiva. O Censo Escolar de 2009 indica que mais de 40 mil alunos com algum tipo de defi ciência auditiva estão matriculados em escolas regulares. Você viu que o número de pessoas com defi ciência auditiva no país é expressivo. A inserção de alunos surdos em salas de aula regulares é cada vez maior. Que tal conhecer o que esses alunos sentem em um mundo predominantemente ouvinte? Vamos fazer isso através de um experimento. Gostaria que você, inicialmente, selecionasse um programa de televisão que tipicamente assiste. Isso pode ser o noticiário ou uma novela. Depois de selecionado, ligue a TV e assista ao programa por 20 minutos, com o som desligado. Agora responda as questões a seguir. Como você se sentiu? Que recursos utilizou para compreender as cenas? Se você tentou ler os lábios das pessoas na televisão, refl ita sobre a seguinte afi rmativa: “Menos de 50% dos sons da fala podem ser observados e entendidos quando se lê os lábios” (NOGUEIRA, 1994 apud GOLDBERG, 2002, p. 39). E você? Qual o percentual de informações que você acha que captou? Aula 7 Educação Inclusiva140 A educação dos surdos no decorrer da história Bom, agora chegou a hora de passearmos pela história! Vamos conhecer, nas páginas seguintes, como a percepção/educação do surdo foi modifi cada no decorrer dos tempos. Iniciaremos pela Idade Antiga e chegaremos à Contemporaneidade. Da Antiguidade à Idade Média Na Idade Antiga, Aristóteles preconizava que a pessoa surda, por não compre- ender ou utilizar a linguagem oral, era incapaz de raciocinar. Assim, impossibili- tada de absorver qualquer tipo de conhecimento, não poderia trazer benefícios à sociedade. Para o bem da coletividade grega, que tanto valor atribuía à perfeição da mente e do corpo, era proposto, nesse contexto, que os surdos fossem extir- pados do meio social. Durante a Idade Média, sob a infl uência da Igreja Católica, o defi ciente au- ditivo (na época, denominado de surdo-mudo) passa a ser compreendido como um “instrumento de Deus”. Nessa perspectiva, deveria ser “cuidado”, uma vez que desempenhava o papel de “alertar os homens, para agraciar as pessoas com a possibilidade de fazerem caridade” (BIANCHETTI, 1998 apud CARVALHO- -FREITAS, 2007, p. 49). Embora digno de compaixão, era ainda considerado uma pessoa incapaz, permanecendo apartado de direitos, como a herança, o casamento e a educação. Da Modernidade à Contemporaneidade Na Idade Moderna, os avançosda Medicina desmantelaram o postulado de Aristóteles sobre a incapacidade intelectual do surdo e sobre sua impossibili- dade de adquirir a fala. Pela primeira vez, a surdez foi desvinculada da mudez. Nesse momento histórico, deixam de ser chamados de surdos-mudos e ganham o direito à educação. Registros indicam que o primeiro professor de surdos foi Ponce de León (1520-1584), que você conheceu em nossa segunda aula. Está lembrado? Pois bem, Ponce desenvolveu, na Espanha, um método educacional próprio. Os escas- sos relatos disponíveis sugerem que esse educador, inicialmente, ensinava seus alunos a escrever; depois a apontar para os objetos correspondentes à escrita e, fi nalmente, verbalizar as palavras (WINZER, 2002). Depois de Ponce, outros mentores entraram em cena, como Ivan Pablo Bonet (1579-1633), na Espanha; John Wallis (1618 – 1687), na Inglaterra; Charles Michel de L’Épée (1712 – 1789), na França; e Samuel Heinicke (1723 –1790), na Alemanha. Aula 7 Educação Inclusiva 141 Embora alguns desses professores fossem contemporâneos, divergiam quan- to aos métodos empregados para educar o surdo. Duas abordagens mereceram destaque na época: o gestualismo e o oralismo. O principal defensor da abordagem gestualista foi o abade Michel de L’Epée, responsável por fundar a primeira escola de surdos na França. L’Epée argumen- tava que o uso da língua de sinais na/pela escola poderia oferecer o principal meio de acesso à escrita e à leitura (do francês) pelo surdo (SOUZA, 2003). Criou, nesse contexto, os sinais metódicos, um sistema gestual artifi cial que mesclava elementos da língua de sinais francesa, que havia aprendido com os surdos parisienses, com outros sinais inventados por ele (SOUZA, 2003). Os educadores, em sua perspectiva, deveriam aprender esses sinais para poder se comunicar com os surdos. Para L’Epée, além de um veículo de comunicação, a língua de sinais, enquanto língua natural do surdo, favorecia o desenvolvimento do pensamento (WINZER, 2002). Samuel Heinicke, contemporâneo de L´Epée, acreditava que o pensamento ocorria por meio de palavras e, para poder compreendê-las, era preciso saber articulá-las oralmente (WINZER, 2002). Assim, em oposição ao gestualismo, defendia uma abordagem intitulada de oralismo. Os surdos, em sua perspectiva, deveriam ser ensinados a falar e a compreender a língua falada. Para disseminar o oralismo, fundou, na Alemanha, a primeira escola oral de surdos. Pouco é conhecido sobre a metodologia adotada por Heinicke (WINZER, 2002), mas a concepção oralista teve forte impacto, infl uenciando até hoje a história da edu- cação do surdo no Brasil e no mundo. Bom, vamos fazer uma pausa e falar um pouco do que estava ocorrendo no Brasil? O marco inicial da educação do surdo em nosso país teve início em 1856, com a fundação do Imperial Instituto de Surdos-Mudos no Rio de Janeiro. Esse instituto, hoje denominado Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), foi criado por iniciativa de Ernet Huet, um dos discípulos de L´Epée. Além de disciplinas acadêmicas, a instituição oferecia ofi cinas de sapataria, alfaiataria, gráfi ca, marcenaria, dentre outras. Com o apoio de D. Pedro II, aproximadamente 100 alunos, entre 9 e 14 anos, recebiam atendimento (SOARES, 2004). O uso da língua de sinais na instituição prevaleceu até 1911, quando a abordagem oralista ganhou maior evidência no Brasil e os surdos passaram a ser ensinados por meio da linguagem oral (GOLDFELD, 2002). Oralismo Na atualidade, o oralismo é descrito como uma abordagem clínico-educacional que visa, através do desenvolvimento da linguagem oral, integrar o surdo na sociedade ouvinte. Nessa perspectiva, a surdez é compre- endida como uma defi ciência que deve ser minimizada pela estimulação auditiva (GOL- DFELD, 2002, p. 34). Língua de sinais Língua produzida por movi- mentos das mãos, do corpo e expressões faciais, tendo uma estrutura linguística completa, como qualquer outra língua. O interlocutor “recebe” a sinaliza- ção pela visão e, por isso, essa língua é denominada de viso- -espacial. É importante salientar que cada país tem sua própria língua de sinais. No Brasil temos a Língua Brasileira de Sinais (Libras) usada nacionalmente e a Língua de Sinais Kaapor Brasileira, uma das línguas de uma comunidade indígena da Amazônia (Silva, 2011). A Libras é estruturalmente distinta do português Curiosidade Quer saber mais sobre a história do INES e alguns recursos usados para pessoas com defi ciência auditiva? Visite a página www.ines.gov. Aula 7 Educação Inclusiva142 A Contemporaneidade Prosseguiremos com nossa história. Com a revolução Francesa e a Revolução Industrial, no fi nal do século XIX, a Europa passa por grandes transformações sociais, políticas e econômicas. A propagação dos ideais de “liberdade, igualda- de e fraternidade” faz emergir um clima de conscientização acerca dos direitos humanos. A ávida busca por mão de obra qualifi cada faz proliferar as escolas e, com elas, as instituições especializadas na educação de surdos. Nesses educan- dários, a disputa entre as fi losofi as gestualistas e oralistas, iniciada no fi nal do século XVIII, ganha maior evidência. A vitória do oralismo é consolidada em 1880 durante o II Congresso Interna- cional sobre a Instrução de Surdos, realizado na Itália. Com maior representativi- dade de oralistas no evento, foi acordado que o método oral puro ou oralismo seria mais efi caz do que o uso dos sinais manuais, combinado ou não com a fala (SOARES, 2005). As resoluções do congresso fortemente infl uenciaram a Europa e os países da América Latina nos anos subsequentes. Assim, durante o século XIX, o gestualismo foi praticamente abolido em várias regiões do mundo, onde prevaleceu o oralismo. O uso do Método Oral Puro, no entanto, produziu poucos resultados satisfatórios. Como argumenta Lacerda (2000) A maior parte dos surdos profundos, por exemplo, não desenvolveu uma fala socialmente inteligível, e, em geral, o desenvolvimento alcançado foi parcial e tardio em relação à aquisição de fala apresentada pelos ouvintes, implicando um atraso de desenvolvimento global signifi cativo. Somadas a isso, estavam as difi culdades ligadas à aprendizagem da leitura e da escrita. Sempre tardia, cheia de problemas, mostrando sujeitos, muitas vezes, ape- nas parcialmente alfabetizados após anos de escolarização (FERNANDES, 1989 apud LACERDA, 2000, p. 72). As pesquisas científi cas aliadas aos insatisfatórios efeitos da abordagem ora- lista propiciaram o surgimento de novas abordagens pedagógico-educacionais para o surdo (LACERDA, 1998). Nesse contexto, merecem destaque os trabalhos do linguista Noam Chomsky e do professor William Stokoe, publicados nas décadas de 1950 e 1960. Ambos defendiam que a língua de sinais era a língua “natural” do surdo. Nesse sentido, não poderia ser compreendida como um mero conjunto desarticulado de símbolos manuais, mas, segundo Stokoe, um sistema linguístico estruturalmente semelhante às outras línguas. Para Chomsky, independente da modalidade (oral ou gestual), o indivíduo surdo ou ouvinte teria a mesma capacidade para desenvolver a linguagem. A diferença entre eles se limitaria à forma como essa linguagem é expressa, ou seja, através de uma modalidade viso-gestural (língua de sinais) ou oral (fala). Com as novas concepções sobre a língua de sinais, outras abordagens educa- cionais, como a comunicação total e o bilinguismo entram em cena. A comu- nicação total, divulgada em diversos países a partir da década de 1970, defende o uso de múltiplas formas de comunicação. O desenvolvimento da fala não é considerado um objetivo central nesse modelo, mas uma das competências trabalhadas para possibilitar a integração social do surdo (LACERDA, 1998). A Aula 7 Educação Inclusiva 143 língua de sinais, por sua vez, não é empregada de maneira plena (GOLDFELD, 2002). Assim, formas linguísticas e não linguísticas de expressãosão admitidas, incluindo sinais retirados da língua de sinais e sinais gramaticais modifi cados. Essa abordagem, amplamente adotada na atualidade, recomenda o uso simultâ- neo da fala e dos diferentes códigos manuais. A comunicação total no Brasil se confi gura pelo uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras), a datilogogia, o cued speech, e o português sinalizado (GOLDFELD, 2002). O Quadro 4 a seguir traz uma breve explanação de cada metodologia. Método Características Libras Língua Brasileira de Sinais (Libras) – Língua utilizada para a comunicação visual-espacial, reconhecida como língua ofi cial dos surdos no Brasil. Ela apresenta gramática e características próprias que diferem da língua portuguesa. Para se comunicar em Libras, não basta conhecer os sinais manuais, mas compreender sua gramática. Como em qualquer língua oral, diferenças regionais são observadas no uso de Libras. Alguns sinais da Libras tendem a reproduzir características parciais ou totais dos conceitos que representam. Veja, por exemplo, o sinal manual de “copo”, ao lado, produzido pela mão semiaberta (como se segurando um copo). Esse sinal traz semelhanças físicas com o objeto “copo”. Cued speech (fala com pistas) – método de comunicação utilizado como auxílio à leitura labial. Sinais manuais são empregados para auxiliar a pessoa surda a distinguir palavras que se assemelham quando verbalmente articuladas (exemplo: pato e bato). Datilogogia Soletração de uma palavra suando o alfabeto manual. Essa metodologia é tipicamente usada para expressar nomes de pessoas, localidades e outras palavras que não possuem um sinal específi co em Libras (SILVA, 2001). Fonte: http://psicopedagogiaeducacao.blogspot.com.br/ Português sinalizado Língua artifi cial criada a partir da fusão entre o português e a LIBRAS. Nesse método, os sinais da Libras são adaptados à estrutura gramatical da língua portuguesa. Quadro 4 – Metodologias tipicamente usadas na comunicação total Leitura labial Técnica que utiliza a leitura da posição dos lábios para captar os movimentos e compreender o que está sendo dito (SILVA, 2011, p. 27). 1Atividade 1 Aula 7 Educação Inclusiva144 A Comunicação Total desempenhou um importante papel na valorização da Libras. Apesar de não empregá-la em sua forma “pura”, possibilitou que ela voltasse a ser inserida na educação do surdo. Nesse sentido, a comunicação total semeou o terreno para o desenvolvimento do bilinguismo. O bilinguismo, compreendido como uma fi losofi a educativa, preconiza que os surdos formam uma comunidade com cultura e língua próprias. Na perspectiva bilíngue, o surdo deve adquirir inicialmente, como língua materna, a língua de sinais e, como segundo idioma, a língua ofi cial de seu país. No caso do Brasil, por exemplo, a criança surda deve aprender, o mais precocemente possível, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e, como segunda língua, o português. A ideia do acesso concomitante às duas línguas baseia-se no reconhecimento de que o surdo, apesar de conviver em uma sociedade essencialmente ouvinte, é interlo- cutor natural de uma língua adaptada à sua capacidade de expressão. No Brasil, a Libras foi, em 2005, reconhecida como língua ofi cial em todo território nacional. O Decreto governamental 5.626, publicado no referido ano, torna obrigatório o uso da língua de sinais para os surdos, assim como para os professores que atendem esses alunos (SILVA, 2011). Esse documento indica, ainda, que a língua de sinais seja ensinada como primeira língua e a língua por- tuguesa na modalidade escrita, como segunda língua nas escolas. Língua própria Nesse sentido, o termo Surdo (com S maiúsculo) é, por vezes, usado para designar o grupo linguístico e cultural e surdez (com s minúsculo) para sinalizar a defi ciência, a falta de audição (GOLDFELD, 2002). Aceitar e assumir a surdez implica, assim, em valorizar a cultura e a comunidade Surda. Ouvinte De fato, cerca de 90% dos sur- dos têm pais ouvintes (GOLDFELD, 2002). Apesar de as abordagens anteriormente descritas terem sido instituídas em diferentes momentos da história, ramifi ca- ções das mesmas perduram na atualidade. Nessa atividade, você deverá: a) Elaborar um quadro identifi cando as principais características dos seguintes modelos de ensino: oralismo, bilinguismo e co- municação total. b) Em seguida, deverá entrevistar um professor de uma escola regular ou de uma instituição especial e identifi car: n Se ele trabalha ou já trabalhou com alunos surdos. n Sua concepção de surdez (como cultura ou defi ciência). n Qual a metodologia que emprega ou empregaria, no caso de não ter um aluno surdo. 2 3 Aula 7 Educação Inclusiva 145 Em seguida, relacione a metodologia do professor e sua concep- ção de surdez tomando como base o quadro elaborado no item 1. Assista ao fi lme Filhos do Silêncio (Título Original: Children of a Lesser God; País/Ano de produção: EUA, 1986) e descreva os métodos de comunicação empregados no fi lme. Estratégias de ensino De acordo com a política educacional vigente no Brasil, os alunos surdos devem frequentar classes regulares de ensino (BRASIL, 2008). Um expressivo número desses educandos, no entanto, chega à escola com uma defasagem linguística signifi cativa, tanto em Língua Portuguesa como em Libras. Esse fe- nômeno acaba prejudicando, dentre outros fatores, o desempenho acadêmico do aluno em relação à leitura, à interpretação e à estrutura linguística de textos (OLIVEIRA, 2012). Assim, a mera inserção desses educandos em classes comuns não garante sua aprendizagem. Estratégias específi cas de ensino e adaptações curriculares são imprescindíveis. Dias, Silva e Braun (2007) e Brasil (2006; 2008) enumeram estratégias de ensino e adaptações curriculares que podem favorecer a aprendizagem do aluno surdo inserido na sala regular. Dentre elas estão: 1) A utilização de sinais, escrita, gestos naturais, dramatizações, de- senhos, diagramas e mímicas como recursos visuais para facilitar a compreensão de textos e aulas expositivas. 2) A verbalização de frases completas, não exagerando na articulação das palavras ou velocidade da fala. 3) A realização de sínteses e resumos para favorecer a compreensão das informações abordadas verbalmente. Aula 7 Educação Inclusiva146 4) O uso de glossários ou listas de palavras que estarão incluídas nas atividades acadêmicas. 5) A alternância de atividades verbais com atividades motoras (brinca- deiras e danças), diminuindo, assim, a fadiga causada pela atenção visual do aluno surdo. 6) A organização de mesas em duplas ou quartetos de modo que os alunos se posicionem frente a frente, facilitando a leitura labial do aluno surdo. 7) A adequação de critérios regulares de avaliação. Em outras palavras, a avaliação do conhecimento do aluno deve ser feita não apenas considerando sua produção escrita. Lembre, o português escrito é, para ele, uma segunda língua! 8) Na avaliação da produção escrita do aluno surdo em língua portu- guesa, é importante que: a. o aluno tenha acesso ao dicionário ou ao intérprete; b. maior relevância seja dada ao conteúdo; c. a forma da linguagem seja avaliada de maneira fl exível. 9) Eliminação de conteúdos secundários e a introdução de novos ob- jetivos de ensino. 10) Substituição de conteúdos do currículo que exijam audição e fala. 11) Modificação da temporalidade para determinados objetivos e conteúdos. 12) A presença de tradutores/intérpretes de Libras nas escolas. Tradutor/Intérprete de Libras Profi ssional que domina a língua de sinais brasileira (Libras) e a língua portuguesa e está capa- citado a traduzir/interpretar a Libras para o português e vice-versa. Por lei, o aluno deve estar matriculado em uma sala regular em um turno e, no turno oposto, no atendimento educacional especializado. De acordo com Damazio (2007), três tipos de serviços didáticos pedagógicos devem ser ofertados ao aluno surdo noAEE: Leituras complementares Aula 7 Educação Inclusiva 147 1) Momento do AEE em Libras na escola comum – um professor (prefe- rencialmente surdo) explica o conteúdo curricular, em Libras, para o aluno surdo. Esse atendimento deve ocorrer diariamente, em horário contrário ao das aulas, na sala de aula comum. 2) Momento do AEE para o ensino de Libras – o aluno surdo tem aula de Libras. 3) Momento do AEE para o ensino da Língua Portuguesa – o aluno surdo tem aula de português, visando compreender as especifi cida- des dessa língua. Para saber mais sobre estratégias de ensino para alunos com defi ciência auditiva, consulte os materiais didáticos disponíveis online pelo MEC. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. 2. ed. Brasília: MEC; Secretaria de Educação Especial, 2006. 116 p. (Série: Saberes e práticas da inclusão). Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/alunossurdos.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2012. DAMAZIO, Mirlene Ferreira Machado. Atendimento educacional especializado: pessoa com surdez. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. Disponível em: <http://portal. mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/alunossurdos.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2012. Resumo Aula 7 Educação Inclusiva148 Nesta aula, você conheceu as especificidades da deficiência auditiva, compreendendo a surdez dentro de um continuum. Conheceu as causas dessa condição, que afeta uma parcela expressiva de pessoas no mundo. Em seguida navegou pela história da educação do surdo desde sua passagem por instituições segregadas até a sua inclusão nas salas regulares. Nesse contexto, descobriu distintas fi losofi as educacionais, como o oralismo, a comunicação total e o bilinguismo. Você observou que, dependendo de cada paradigma, a surdez pode ser compreendida como defi ciência ou cultura. Por fi m, você aprendeu a identifi car estratégias e adaptações curriculares que são tipicamente usadas para viabilizar a aprendizagem do surdo no contexto regular de ensino. Autoavaliação A partir do que vimos durante a aula, assinale verdadeiro (V) ou falso (F). ( ) A criança já nasce surda, não podendo adquirir a defi ciência auditiva no decorrer de seu desenvolvimento. ( ) A pessoa incapaz de ouvir um trânsito ruidoso, possivelmente, apresenta surdez leve. ( ) Surdos e ouvintes são capazes de desenvolver a linguagem. Os surdos na modalidade viso-espacial e os ouvintes na modalidade oral. ( ) A primeira instituição de ensino para o surdo no Brasil foi construída em 1915 e adotava o modelo oralista. ( ) O modelo oralista compreende a surdez como uma defi ciência a ser mini- mizada pela estimulação oral. ( ) A língua de sinais brasileira (Libras) tem a mesma estrutura gramatical do português. ( ) Todos os países do mundo utilizam a mesma língua de sinais. Aula 7 Educação Inclusiva 149 ( ) As escolas brasileiras, na atualidade, adotam a fi losofi a bilíngue. ( ) De acordo com a legislação brasileira vigente, o aluno surdo deve ser edu- cado em uma escola especial. ( ) Pelo português ser sua segunda língua, é comum o surdo apresentar pro- blemas na produção de textos escritos. Referências BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Na- cional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos surdos. 2. ed. Brasília: MEC; Secretaria de Educação Especial, 2006. 116 p. (Série: Saberes e práticas da inclusão). CARVALHO-FREITAS, M. N. A inserção de pessoas com defi ciência em empre- sas brasileiras. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Minas Gerais, 2007. DAMAZIO, Mirlene Ferreira Machado. Atendimento educacional especializado: pessoa com surdez. São Paulo: MEC/SEESP, 2007. DIAS, V. L.; SILVA, V. A.; BRAUN, P. A inclusão do aluno com defi ciência auditiva na classe regular: refl exões sobre a prática pedagógica. In: GLAT, R. Educação Inclusiva: cultura e Cotidiano Escolar. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007. p.97-115. GOLDFELD, Márcia. A criança surda. 2. ed. São Paulo: Plexus, 2002. LACERDA, Cristina B.F. de. Um pouco da história das diferentes abordagens na educação dos surdos. Cad. CEDES [online], v. 19, n. 46, p. 68-80, 1998. OLIVEIRA, José Carlos de. Ensino-Aprendizagem de Língua Portuguesa por alu- nos surdos: Uma análise segundo a Teoria de Krashen. In: SIMPÓSIO INTERNA- CIONAL DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, 2., 2012, Uberlândia. Anais... Uberlândia: Edufu, 2012. p. 1-12. Disponível em: <http://www.ileel.ufu.br/ anaisdosielp/pt/arquivos/sielp2012/865.pdf>. Acesso em: 4 out. 2012. Anotações Aula 7 Educação Inclusiva150 SILVA, Katiene Symone de Brito Pessoa da. Inclusão escolar de alunos com surdez. Natal: Edufrn, 2011. 44 p. SOARES, Maria Aparecida Leite. A Educação do Surdo no Brasil. Campinas, SP: Autores Associados, 2005. SOUZA, Regina Maria de. Intuições “lingüísticas” sobre a língua de sinais, nos séculos XVIII e XIX, a partir da compreensão de dois escritores surdos da época. DELTA, São Paulo, v. 19, n. 2, 2003 . WINZER, M. A. The history of special education: From isolation to integration. Washington, DC: Gaulladet University Press, 2002. Anotações Aula 7 Educação Inclusiva 151 Anotações Aula 7 Educação Inclusiva152 Defi ciência Intelectual 8 Aula 1 2 3 4 Aula 8 Educação Inclusiva 155 Apresentação Nesta aula falaremos sobre a defi ciência intelectual. Em nossas refl exões abor- daremos o conceito dessa necessidade educacional especial, algumas caracterís- ticas do desenvolvimento de pessoas que a apresentam e aportes teórico-práticos relativos à escolarização de alunos com essa defi ciência. Para esta aula é interessante você “ter a mão” as aulas sobre os fundamentos da educação inclusiva e, principalmente, a aula sobre estigma, para que sirvam de suporte às questões e refl exões, que trabalharemos juntos nesta aula. Bom estudo! Objetivos Defi nir defi ciência intelectual. Identifi car as implicações de modelos e sistemas de classifi cação sobre a percepção do desenvol- vimento do aluno com defi ciência intelectual. Reconhecer os elementos que auxiliam no de- senvolvimento de alunos com essa defi ciência. Refl etir sobre as situações de ensino e aprendiza- gem para o processo de escolarização do aluno com defi ciência intelectual. Aula 8 Educação Inclusiva 157 Defi ciência intelectual: palavras iniciais Antes de iniciarmos o tema desta aula, propriamente dito, pense em como você defi niria o que são necessidades educacionais especiais. E necessidades especiais? Quando poderíamos dizer que um aluno apresenta uma necessidade educacional especial? Refl ita sobre essas questões e logo depois siga com a lei- tura desta aula. Necessidades educacionais especiais: o que são? A defi ciência intelectual é uma das categorias elencadas como uma neces- sidade educacional especial. Então, antes de abordarmos a sua defi nição, vale lembrarmos o que são necessidades educacionais especiais. Quando uma pessoa apresenta uma condição incomum à maioria das pessoas, como uma defi ciência ou doença, seja ela defi nitiva ou temporária, dizemos que ela tem uma necessidade especial. No entanto, se essas necessidades especiais não podem ser atendidas através dos meios e recursos convencionais de ensino, demandando estratégias especializadas para o ensino e a aprendizagem, então, passam a serem identifi cadas como necessidades educacionais especiais. Con- tribuem com essa defi nição os seguintes autores Ferreira (2007), Pletsch (2010) e, mais recentemente, Braun (2012). É importante entendermos que as necessidades educacionais especiais de- vem ser compreendidas a partir de demandas relacionadas diretamente com o ambiente físico (familiar, escolar ou social) e poderão ser maiores ou menores,de acordo com os recursos e estratégias disponibilizadas durante a escolarização dessa pessoa. Nesse momento, você deve estar se perguntado: Mas e o diagnós- tico e as questões que são orgânicas, não têm relevância? Bem, não estamos dizendo que os aspectos orgânicos não têm importância sobre as demandas que uma pessoa com necessidades educacionais especiais possa apresentar, mas que, com o diagnóstico de defi ciência intelectual, por exemplo, as condições de desenvolvimento desse indivíduo têm relação direta com o tipo, quantidade e qualidade das relações, com as possibilidades e meca- nismos de apoio ofertados a ele no ambiente em que vive e se desenvolve. Por isso, na escola, é importante que as necessidades educacionais especiais sejam Saiba mais Aula 8 Educação Inclusiva158 analisadas a partir da relação entre o processo de aprendizagem do aluno, o tipo de proposta curricular e de ensino. Tendo em vista o que falamos até agora a respeito da necessidade educacio- nal especial, podemos dizer que os alunos com esse tipo de necessidade são: Aqueles que apresentam especificidades no processo de ensino e aprendizagem, necessitando de mediação e recursos distintos dos convencionados em momentos da sua escolarização, em es- paços e tempos que variam conforme as demandas apresentadas no seu desenvolvimento. Mas atenção, caro aluno! Essa é uma defi nição em constante discussão, com um grau de complexidades sociais e políticas que merecem atenção. Apesar dessa complexidade, há, no Brasil, uma defi nição nos documentos que balizam a inclusão escolar, divulgada pelo Ministério da Educação. Aliás, justamente por termos a divulgação de uma concepção ofi cial a respeito disso é que se faz necessário um olhar crítico sobre a forma como essa defi nição é aplicada, para que as ações políticas, sociais e educativas possam ser organizadas de forma a contribuir com o desenvolvimento dessa pessoa. Para saber mais sobre a adoção des- sa defi nição em documentos normati- vos nacionais, busque pelo documento “Marcos Políticos-Legais da Educação Especial na Perspectiva da Educação In- clusiva”, disponibilizado on-line, pelo MEC, no seguinte endereço: <http:// pfdc.pgr.mpf.gov.br/atuacao-e-conteu- dos-de-apoio/publicacoes/educacao/ marcos-politico-legais.pdf>. 1Atividade Aula 8 Educação Inclusiva 159 Na Política Nacional de Educação Especial, na perspectiva da Educação Inclu- siva, publicada em 2008, no Brasil, são considerados alunos com necessidades educacionais aqueles que apresentam defi ciência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades/ superdotação. Nestes casos e outros, que implicam em transtornos funcio- nais específi cos, a educação especial atua de forma articulada com o ensi- no comum, orientando para o atendimento às necessidades educacionais especiais desses alunos (BRASIL, 2008, p. 9). Tendo por base as informações que vimos até aqui, como você defi - niria o que é a defi ciência intelectual? Quais características podem estar presentes no desenvolvimento de uma pessoa com essa necessidade educacional especial? Liste-as e depois siga com a leitura da aula, mas não deixe esta listagem de lado. Mantenha-a com você durante a conti- nuação da leitura e analise-as, constantemente, ok? Aula 8 Educação Inclusiva160 Defi ciência intelectual: conceptualização Antigamente, as ideias que surgiam, ao nos referirmos a alunos com defi ciên- cia intelectual, eram relacionadas a espaços e percepções reservadas somente à educação especial. Com o aumento dos debates sobre as propostas de inserção e, mais recentemente, com a chegada desse aluno no universo escolar, conhecer mais sobre o modo como esse aluno aprende e se desenvolve passou a ser de interesse da educação, em âmbito geral. Curiosidade A defi ciência intelectual é observada ao longo da história da civiliza- ção humana, desde a época medieval, com nomenclaturas diversas e, por vezes, baseadas na percepção social que os demais componentes de uma sociedade têm sobre essa pessoa, como a viam ou percebiam. Nessa categoria, que faz parte do grupo de pessoas com necessida- des educacionais especiais, já foram utilizados termos como: défi cit cognitivo, idiota, debiloide, mongoloide, excepcional, retardo mental e defi ciente metal. A defi nição do que é a defi ciência intelectual passa pelo signifi cado do termo socialmente validado em cada época, pela sociedade e os referenciais teóricos disponíveis, até chegar às pesquisas e das abordagens científi cas atuais. Cada nomenclatura porta implicações na sua defi nição relacionadas com seu contexto social e histórico. Atualmente, há uma tendência mundial para uso do termo intelectual, no lugar de mental, inclusive no panorama nacional brasileiro. Pesquisadores como Sassaki (2005), tentam explicam a mudança. Esse pesquisador defende o termo defi ciência intelectual no lugar de defi ciência mental, baseando-se em dois argumentos: 1) A defi ciência intelectual teria mais relação com o fenômeno que envolve as características presentes no desenvolvimento de quem a tem. 2) A mudança do termo ajuda distinguir melhor a defi ciência mental de uma doença mental, pois são dois termos comumente confundidos. Aula 8 Educação Inclusiva 161 Ou seja, o que esse pesquisador quer dizer é que o termo defi ciência inte- lectual é mais adequado, já que relaciona diretamente com o funcionamento do intelecto especifi camente e não com o funcionamento da mente, pois a mente abarcaria outros aspectos além do intelecto. Todavia, independentemente do termo que possa ser indicado como mais apropriado, o que merece nossa atenção é o cuidado entre os conceitos que podem circular a partir do plano biológico ou do cultural. Por exemplo, o desen- volvimento da criança que se encontra em um ambiente letrado, mas não usufrui dos códigos utilizados por não ter tido acesso a esses bens culturais – apropriação da linguagem escrita e de conceitos científi cos – não pode ser confundido com o desenvolvimento da criança apresenta uma questão orgânica, sobre a qual se caracteriza a defi ciência intelectual. Você sabia que a defi nição de defi ciência intelectual é envolvida por discussões que alertam para as associações, muito comuns, entre essa defi nição e a de difi culdades de aprendizagem? A confusão entre o que é difi culdade de aprendizagem e o que é defi ciência intelectual ainda é uma realidade nos dias atuais, principalmente no espaço escolar. Muitos alunos, ao longo de seu processo escolar, por não terem tido acesso a recursos, bens culturais e por apresentarem baixo rendimento ou apro- veitamento escolar, em relação aos demais, nem sempre, está relacionado com a defi ciência intelectual. Agora, convidamos você a pensar sobre algumas hipóteses que poderiam justifi car a confusão que permeia essas defi nições. Houve uma época em que os “testes de prontidão para aprender” eram aplicados para orientar e selecionar o ingresso de alunos no 1º ano, antiga classe de alfabetização, lembram? Assim, poderíamos supor, por exemplo, que a partir do momento em que um aluno obtivesse uma pontuação baixa nos testes de prontidão, esse seria considerado inelegível ao processo escolar. Aula 8 Educação Inclusiva162 Curiosidade Os testes de prontidão são testes psicológicos, baseados em níveis de Quociente de Inteligência (QI), utilizados para avaliar a condição da criança ingressar no processo de alfabetização. Esse tipo de teste foi utilizado em larga escala entre as décadas de 70 e 90. Há uma varieda- de de testes com essa fi nalidade, como por exemplo: Lendo e Escrevendo (1 e 2) Teste de Prontidão Horizontes Metropolitano de Prontidão – fator R Material aplicado para avaliar se a criança possui os requisitos básicos para o processo de alfabetização. Material usado para avaliar a maturidade/ prontidão para alfabetização. Usado para detectar prontidão alfabetização. Autores: Geraldini P. Wintter e Melany S. Copit Autora:Neda Lian Branco Martins Autores: Gerbud Heldreth e Nellie Griffi ths Mais tarde, com o avanço das discussões em relação aos enfoques teóricos sobre o desenvolvimento e baseados nos estudos de Piaget e Vigotski, essa abor- dagem de avaliação deixou de ser utilizada com tanta ênfase, como estratégia para avaliar a condição do aluno de ingressar na escola, para a alfabetização. Veja o que dizem Hansen et al (2012) sobre esse fato: Historicamente, o conceito de prontidão, ou preparação escolar, tem sido compreendido de duas maneiras: prontidão para aprender e prontidão para a escola. Prontidão para aprender é entendida como o nível de desenvol- vimento a partir do qual a criança é capaz de aprender algo. Essa compre- ensão permaneceu por muito tempo como a única dimensão da prontidão, especialmente com a valorização dos aspectos cognitivos e exclusão das relações sociais (HANSEN et al, 2012, p. 2). Assim, muitos alunos que não obtinham um resultado adequado aos padrões vigentes para o processo de alfabetização, muitas vezes, nem ingressavam na escola ou, então, eram encaminhados para a classe especial. E, desse modo, o percurso escolar desse aluno diferenciava-se dos demais, com um aspecto com- prometedor, pois embora sem a defi ciência orgânica esse aluno era percebido como “defi ciente metal leve” ou “limítrofe”. Aula 8 Educação Inclusiva 163 A condução do aluno sem defi ciência intelectual para a classe especial lhe atri- buía o pertencimento a uma categoria e, ao longo da sua permanência, transferia- -lhe a condição para agir como defi ciente intelectual diante do processo escolar. Isso o estigmatizava e revogava sua identidade inicial a partir do atributo que o descaracterizava socialmente e informava-o, que ele não era apto ao processo de alfabetização, de aprendizagem e desenvolvimento escolar comum. Aspectos que envolvem a identifi cação da defi ciência intelectual Como identifi camos a defi ciência intelectual e, principalmente, as necessidades educacionais especiais que um aluno pode apresentar quando seu desenvolvimento apresenta essa especifi cidade? A identifi cação e diagnóstico de uma defi ciência são elaborados através de alguns sistemas de classifi cação mundialmente conhecidos. Vejamos dois deles que têm respaldado essa classifi cação: Classifi cação Internacional de Doenças (CID 10) n Publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). n Classifi ca por códigos doenças e uma grande variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças. Descrição da defi ciência intelectual: n Código F70-F79 – parada do desenvolvimento ou desenvolvimento incompleto do funcionamento intelectual, caracterizados essencialmente por um comprometimento durante o período de desenvolvimento das faculdades que determinam o nível global de inteligência, isto é, das funções cognitivas, de linguagem, da motricidade e do comportamento social. O retardo mental pode acompanhar um transtorno mental ou físico, ou ocorrer de modo independente. n Organizado em níveis descritos como: F70 – Retardo Mental Leve, F71 – Retardo Mental Moderado, F72 – Retardo Mental Grave, F73 – Retardo Mental Profundo. Para saber mais acesse: http://www.medicinanet.com.br/cid10.htm, acesso em 09/12/12. Aula 8 Educação Inclusiva164 Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM IV) n Publicado pela Associação Americana de Psiquiatria. n Desenvolvido a partir de um sistema antigo de classifi cação adotado para atender a necessidade do Departamento de Censo americano de uniformizar estatísticas vindas de hospitais psiquiátricos. n Uma revisão do DSM-IV, denominada de DSM-IV-TR, foi publicada em 2000, mas não houve alteração de várias categorias diagnósticas e critérios específi cos para diagnósticos, devido à manutenção de sua consistência com a CID. Descrição da defi ciência intelectual: n A característica essencial do retardo mental é um funcionamento intelectual signifi ca- tivamente inferior à média (critério A), acompanhado de limitações signifi cativas no funcionamento adaptativo em pelo menos duas das seguintes áreas de habilidades: comu- nicação, autocuidados, vida doméstica, habilidades sociais/ interpessoais, uso de recursos comunicativos, autosufi ciência, habilidades acadêmicas, trabalho, lazer, saúde, segurança (critério B). É comum ocorrer antes dos 18 anos (critério C). n Um funcionamento intelectual signifi cativamente abaixo da média é defi nido como um QI de cerca de 70 ou menos. Contudo, o retardo mental não deve ser diagnosticado apenas tendo por base o aspecto cognitivo, deve-se observar, também, se existem prejuízos signifi cativos no funcionamento adaptativo. Para saber mais acesse: http://www.psicologia.com.pt/instrumentos/dsm_cid/dsm.php Tanto a CID 10 quanto o DSM, ao longo dos anos e de investigações sobre a defi ciência intelectual, têm respaldado o diagnóstico clínico dessa necessidade educacional especial. No entanto, quando nos referimos ao processo escolar e às condições pedagógicas para o desenvolvimento de um aluno com essa es- pecifi cidade, tomamos como referência a defi nição divulgada nos instrumentos balizadores das políticas públicas nacionais. As políticas públicas brasileiras tem como base o sistema de defi nição, classifi cação e sistemas de apoios sobre a defi ciência mental da American Association on Intellectual and Developmental Disabilities (AAIDD) desde 2002. Segundo essa associação a defi ciência inte- lectual é descrita como: Uma incapacidade caracterizada por importantes limitações, tanto no fun- cionamento intelectual quanto no comportamento adaptativo, expresso nas habilidades adaptativas, conceituais, sociais e práticas. Essa defi ciência tem início antes dos 18 anos (AAIDD, 2011, p. 33). Aula 8 Educação Inclusiva 165 Curiosidade Associação Americana sobre Defi ciência Intelectual e Desenvolvimen- to (AAIDD), foi fundada em 1876, originariamente denominada Asso- ciação Americana de Retardo Mental (AAMR). Essa associação, até o momento, lançou 11 edições do manual sobre a defi nição e classifi ca- ção de defi ciência intelectual (AAIDD, 2011). Para saber mais acesse: <http://www.aaidd.org>. Acesso em: 27 nov. 2012. Na ocasião da publicação da 10ª edição do manual, em 2002, o termo usado era “Retardo Mental”, mas em 2007 foi modifi cado para “Defi ciência Intelectual” e mantido na publicação da sua 11ª edição em 2010. Para essa última alteração do termo, foi considerada os seguintes pontos: c) Refl ete melhor o constructo modifi cado de defi ciência, descrito a partir do enfoque multidimensional. d) Relaciona-se melhor com as práticas profi ssionais atuais, centradas em con- dutas funcionais e fatores contextuais. e) É menos ofensivo para as pessoas com defi ciência. f) É mais coerente com a terminologia internacional (AAIDD, 2011, p. 29). Você deve estar se perguntando, então, o que muda com a adoção de um novo termo? Bem, o avanço observado em relação à defi nição de defi ciência intelectual, quando considerarmos as versões anteriores a 2002, refere-se à importância dada aos fatores socioambientais que antes não eram considerados. Assim os fatores biológicos, embora continuem a ser avaliados, passam a ser um dos aspectos que, aliados a outros, compõem o contexto em que se dá a defi nição de defi ciência intelectual e indicam o modo como essa condição é compreendida atualmente. Aula 8 Educação Inclusiva166 Ou seja, tal defi nição não se dá meramente por um ou outro fator, biológico ou cultural. Nesse sentido, faz-se necessária a analises de alguns aspectos in- dispensáveis antes do diagnóstico. Com isso, a percepção que predominava em meados do século XX sobre a defi ciência intelectual começou a mudar. Nesse período, a defi ciência intelectual era compreendida como uma condição orgânico- -estática, ou seja, que não podeser modifi cada. Sob essa nova perspectiva, a identifi cação da defi ciência intelectual passou a ser observada também a partir dos seguintes aspectos: a) Habilidades conceituais. b) Habilidades práticas. c) Habilidades sociais. Dessa forma, os aspectos que fazem parte do contexto social e cultural pas- sam a ser tão importantes, quanto os aspectos biológicos ou orgânicos, para diagnosticar da defi ciência intelectual. A intenção dessa proposta de redefi nição dos elementos que caracterizam a condição de defi ciência intelectual é redimensionar esse conceito tendo em vista os aspectos orgânicos em “parceria” com as características do ambiente. Para isso, a proposta organizada pela AAIDD apresenta cinco premissas que orientam a aplicação dessa defi nição. Veja quais são: n As limitações no funcionamento atual devem ser consideradas dentro do contexto dos ambientes da comunidade em que a pessoa está inserida, ob- servando quais pessoas são da mesma faixa etária e da mesma cultura do indivíduo. n Uma avaliação válida considera a diversidade cultural e linguística, bem como as diferenças nas comunicações, nos fatores sensoriais, nos motores e nos comportamentais. n Em cada indivíduo, as limitações coexistem frequentemente com as poten- cialidades, ou seja, com suas habilidades. n Um propósito importante ao descrever as limitações é o de desenvolver um perfi l aos apoios necessários. n Com apoios personalizados durante um determinado período de tempo, o funcionamento cotidiano da pessoa com retardo mental tende, geralmente, a melhorar (AAIDD, 2011, p.39). 2Atividade Aula 8 Educação Inclusiva 167 Observe! Sobre a perspectiva da defi nição de Defi ciência Intelectual, segundo a AAIDD. Há aspectos considerados relevantes como o ambiente, a diversidade cultural, a coexistência de potencialidades e difi culdades que podem ser favo- recidas (ou não) dependendo dos apoios ofertados. Nesse sentido, tendo um acompanhamento adequado, a possibilidade de desenvolvimento e de melhora dessa condição passa a ser uma perspectiva. Por isso, a abordagem dessa defi nição se caracteriza como multidimensional e está organizada em dimensões com elementos que compõem e atravessam o desenvolvimento humano. Esses elementos estão relacionadas às habilidades intelectuais, ao comportamento, a participação social, ao ambiente em que vive, a saúde e aos apoios de que dispõem. Com base no que vimos até aqui sobre as formas e abordagens para a defi nição da Defi ciência Intelectual, você diria que houve mudanças sobre os principais aspectos observados ao longo do percurso desse con- ceito? Elabore um breve parágrafo explicando sua observação e depois siga com a leitura desta aula. Ao fazer a refl exão da atividade anterior você trouxe em sua resposta, entre os aspectos de mudança de defi nição do termo defi ciência, a intenção de superar a ideia associada à condição orgânico-estática, proposta em edições anteriores? Pois bem, essa uma questão essencial sobre o percurso desse conceito, porque há alusão a aportes teóricos de cunho histórico-cultural no texto do manual proposto pela AAIDD. Isso pode ser observado em trechos que citam a relevância sobre o “papel da mediação que os apoios desempenham no funcionamento individual” daquele que tem a defi ciência intelectual (AAIDD, 2006, p. 21). Muitos pesquisadores têm realizado estudos a partir dessa nova visão sobre a condição que uma pessoa com defi ciência intelectual pode apresentar. Por exemplo, Oliveira (2008, p. 120) diz que esse modelo teórico, em relação aos anteriores: [...] avança do ponto de vista conceitual. [...] Desse conceito podemos destacar dois pontos fundamentais: o conceito de mediação, concretizado através do papel da intensidade dos apoios, e a abrangência do comporta- mento adaptativo, considerando as habilidades conceituais, mas também as sociais e as práticas do cotidiano [...]. 3Atividade Aula 8 Educação Inclusiva168 Desse modo, a condição do aluno que apresenta defi ciência intelectual pode variar conforme os apoios recebidos. Consequentemente, na abordagem multi- dimensional, a defi ciência intelectual é compreendida como um aspecto tanto relacionado ao desenvolvimento da pessoa quanto às interações e apoios sociais que recebe. Ou seja, o diagnóstico não se respalda mais exclusivamente em cri- térios com base em escalas ou graus de inteligência (QI abaixo de 70) e/ou de classifi cação em níveis (leve, moderado, severo e profundo). A ideia da multidimensionalidade propõe uma leitura dessa defi ciência que vai além dos critérios que eram analisados anteriormente para diagnosticar essa condição em um indivíduo. Além disso, propõe também investigar mais sobre as possibilidades do aluno, os caminhos e os modos pelos quais o indivíduo pode ter acesso às informações históricas e culturais disponíveis no seu meio. Assim, as orientações descritas no manual sobre o diagnóstico de defi ciência intelectual da AAIDD, indicam que as medidas ou índices de inteligência utilizados, a partir de testes psicológicos, devem ser interpretados em um sentido mais amplo da pontuação dada pelos instrumentos que fornecem essas medidas. Volte a sua listagem elaborada na atividade 1, sobre os aspectos que envolvem a defi nição e o desenvolvimento de alunos com essa defi ciência. Você mudou seu pensamento em relação às ideias iniciais listadas por você? Sim? Não? Por quê? Registre essa breve refl exão em um ou dois tópicos. Muito bem! Até aqui conversamos sobre a nomenclatura e o percurso desse conceito na sociedade. Vamos agora afi nar nossa conversa sobre defi ciência intelectual e o processo de aprendizagem. Preparados? Vamos lá! Aula 8 Educação Inclusiva 169 Defi ciência intelectual, aprendizagem e a escola comum: como esses três aspectos se encaixam? Você diria que esses aspectos se encaixam? Ou estamos falando de um quebra- -cabeça sem solução? Bem, considerando que partimos do pressuposto de que o aluno com defi ciên- cia intelectual também tem possibilidades de aprendizagem, embora com condi- ções diferentes, vamos buscar algumas ideias que nos ajudem a compreender e a refl etir sobre como pode ser o processo de ensino e aprendizagem desse sujeito. Para ajudar a organizar essa discussão no campo da escola, vamos nos apoiar em Vigotski. Esse pesquisador nos alerta para a complexidade que essa defi nição pode apresentar, pois é um conceito que abrange um grupo muito heterogêneo de crianças e por isso as análises desse pesquisador têm signifi cativa relevância nos aspectos que balizam tal concepção. Curiosidade Lev Semenovich Vigotski foi um psicólogo bielo-russo, nas- cido em Orsha em 1986. Fa- leceu aos 38 anos, vítima de tuberculose, sem concluir boa parte de seus estudos, mas dei- xou um legado de pesquisas e se seguidores. No Brasil, seus estudos começaram a ser dis- seminados a partir da década de 80, mas seus trabalhos cir- culavam, clandestinamente, há mais tempo entre pesqui- sadores com estudos em dife- rentes áreas da educação, com impactos relevantes no que diz respeito à educação de pessoas com defi ciência. Lev Semenovich Vigotski (1896-1934) Fonte: imagem: <http://en.wikipedia.org/wiki/File:Lev_ Vygotsky.jpg>. Acesso em: 30 jan. 2013. Aula 8 Educação Inclusiva170 Vigotski explica que apesar do défi cit intelectual ser uma característica da defi ciência intelectual, não podemos nos ater somente a esse aspecto como o principal responsável pela qualidade das aprendizagens do aluno com esse diagnóstico. Em outros termos, consideramos os aspectos orgânicos que o de- senvolvimento possa apresentar diante de uma defi ciência intelectual, mas, ao mesmo tempo e em proporção, analisamos a infl uência de aspectos psicológicos e sociais e seus refl exos na condição do sujeito com essa defi ciência. Portanto, é preciso que os profi ssionais da educação que trabalham com esse aluno o conheçam na sua singularidade e avaliem todas as possibilidadespara seu desenvolvimento a partir do seu funcionamento intelectual, das interações que ele estabelece com o ambiente e com grupo social que está inserido, bem como ele se organiza mediante os apoios e recursos oferecidos a ele. A forma prevista para que se garanta a participação e o desenvolvimento desse aluno está, justamente, na organização e planejamento de apoios que promo- vam situações de ensino que permitam ao aluno estar, participar, aprender e se desenvolver com interesse e autonomia. Aliás, você sabia que: Para que uma situação de ensino inclusivo seja caracterizada, é preciso que estejam garantidas essas três premissas: 1) Inserção. 2) Participação. 3) Aprendizagem acadêmica. Isso porque não basta o aluno estar na escola, mas participar das ativida- des curriculares, sobretudo com a organização de conceitos sobre as áreas de conhecimento. Ou seja, os espaços escolares inclusivos são aqueles que tanto possibilitam acesso e participação, quanto aprendizagem sobre as diversas áreas do conhecimento e do currículo escolar. Como posto pelo Sistema de Apoios da AAIDD, a ideia exposta sobre defi ci- ência intelectual não é totalmente inovadora. O que há de novidade nessa pro- posta é a compreensão de que ao oferecermos, de forma criteriosa os recursos necessários para o desenvolvimento desse aluno, sua aprendizagem e capacidade funcional podem melhorar. A organização e o uso de um sistema de apoio devem partir da contextualização tanto no que se refere às singularidades do desen- volvimento do aluno, quanto do ambiente social e cultural que o cerca. Nesse modelo, os apoios oferecidos para o desenvolvimento da pessoa com defi ciência intelectual são defi nidos em duas categorias, são organizados em três tipos de ambientes e possuem três níveis de intensidade. Veja a seguir o esquema que apresentamos sobre essa organização: Recursos naturais organizados por pessoas do convívio direto ou equipamentos disponíveis no cotidiano do aluno Microssistema o ambiente social, incluindo a pessoa e sua família e/ou defensores Macrossistema padrões de proteção à cultura, da sociedade, das populações, dos pais ou influências sociopolíticas Mesossistema a educação, a sociedade ou as organizações que proporcionam educação, serviços ou apoios de habilitação Recursos de serviços organizados em espaços e com profissionais especializados Níveis no ambiente Níveis de intensidade no ambiente Limitados Restritos quanto ao tempo, podem requerer um número de envolvidos menor em situações de treinamento e apoios transitórios durante o período escolar. Extensivos Têm uma regularidade maior, sem tempo limitado em pelo menos um ambiente do seu cotidiano, na vida doméstica, escolar, social ou trabalho. Permanentes Usados em todos os ambientes sistematicamente, com equipe de profissionais específicos, são casos que demandam atenção para manutenção da sua vida. Aula 8 Educação Inclusiva 171 Note que o modelo de apoios apresentado no sistema proposto pela AAIDD tende a nos encaminhar para uma abordagem pedagógica que precisa considerar os diferentes ambientes em que a criança pode estar e seus apoios, pois esse contexto pode favorecer o desenvolvimento do aluno, enquanto ele participa e interage no mesmo ambiente. Essa é uma das principais premissas de Vigotski a respeito do desenvolvimen- to do ser humano. Diz esse renomado teórico que o ser humano se “humaniza” na medida em que interage com seus pares e transforma o ambiente para atender suas necessidades, ao mesmo tempo em que é transformado. Por exemplo, quan- do uma criança imita uma ação que observou alguém realizando, ela age sobre o ambiente em que está (escreve, fala, manipula objetos, etc.), modifi cando-o. Assim como se modifi ca o meio é modifi cada a pessoa, ou seja, ocorre uma mudança em suas estruturas cognitivas, pois passa a relacionar conceitos antes Aula 8 Educação Inclusiva172 não utilizados, passa a realizar ações, formas de linguagem antes ainda não desenvolvidas. Com isso, seu desenvolvimento é impulsionado a partir dessas situações de aprendizagens. Por isso, oferecer, para um aluno com defi ciência intelectual, situações de convívio, as mais diversas e ricas possíveis. A partir dessas situações, das rela- ções vividas e dos apoios ofertados seu desenvolvimento é impulsionado, com novos mecanismos de pensamento, de linguagem, cada vez mais elaborados, favorecendo sua participação social e escolar. Todavia, os apoios não são os responsáveis, exclusivos por favorecer o de- senvolvimento do sujeito. Eles são tão relevantes quanto as formas de abordar e planejar os apoios necessários, a intensidade deles no dia a dia na sociedade, na escola onde essa pessoa está. Sem essa análise, os apoios podem se tornar sem sentido. Dessa forma, o planejamento de ações pedagógicas direcionadas a alunos com defi ciência intelectual na escola comum precisa ter em seu cerne informa- ções sobre as principais diferenças entre uma pessoa que apresenta esse tipo de condição e as demais que participam do mesmo contexto social e cultural. Por isso é fundamental que os professores envolvidos com a aprendizagem desse aluno tenham conhecimento sobre suas condutas e habilidades adaptativas, conceituais, sociais e práticas, em relação aos seus pares, às outras pessoas que compartilham do mesmo espaço social. Ao conhecermos essas diferenças e as possibilidades de apoios para suprir as necessidades presentes, somos desafi ados a pensar estratégias diferentes de ensino para que o aluno com defi ciência intelectual encontre menos barreiras para aprender. 4Atividade Aula 8 Educação Inclusiva 173 As escolas, de um modo geral: n Têm uma estrutura seriada, ou seja, a cada ano letivo alguns con- teúdos de áreas e conhecimentos diferentes, são abordados e traba- lhados com os alunos. n Adotam currículos que preveem um tempo determinado para o en- sino e aprendizado, com objetivos específi cos e com a intenção de que todos os alunos da mesma turma alcancem no mesmo período a série determinada para aquela idade. n Costumam ter um sistema de avaliação quantitativo, com conceitos e indicadores que podem reter ou “passar” o aluno de ano escolar. n Independentemente do método de ensino, estão habituadas a or- ganizar as atividades com recursos, espaços e tempos iguais para todos os alunos. n Estão habituadas a ensinar ao aluno que apresenta um desenvolvi- mento normal, com fases ou etapas lineares, ou seja, sem desvios ou comprometimentos na estrutura do pensamento, da linguagem, no aspecto físico ou emocional. Tendo por base o perfi l da escola que habitualmente temos, qual sua opinião sobre a inclusão escolar de alunos com defi ciência intelectual na escola comum? Quais as possibilidades? Quais as adequações necessárias tendo em vista o processo de ensino e aprendizagem para esse aluno, sem deixá-lo à margem do processo de escolarização? Elabore sua refl exão em um texto breve. Leituras complementares Resumo Aula 8 Educação Inclusiva174 Para aprofundar um pouco mais o que vimos nesta aula, você pode consultar as obras listadas a seguir. Nelas você encontrará aspectos e refl exões baseadas em aportes teóricos e pesquisas, envolvendo o aluno com defi ciência intelectual, a escola e os processos de ensino aprendizagem. ANACHE, A. A.; MITJÁNS, A. M. Defi ciência mental e produção científi ca na base de dados da CAPES: o lugar da aprendizagem. Revista Brasileira de Psi- cologia Escolar e Educacional, v.2, n. 2, p. 253-273, 2007. OLIVEIRA, M. K. de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. 5. ed. São Paulo: Scipione, 2010. PLETSCH, M. D.; BRAUN, P. A Inclusão de Pessoas com Defi ciência Mental: um Processo em Construção. Revista Democratizar, Rio de Janeiro: Instituto Superior de Educação da Zona Oeste/ Faetec/Sect, v. 2, n. 2, 2008. Disponível em: <http://www.faetec.rj.gov.br>. Acesso em: 18 dez. 2012. Nesta aula, estabelecemosalgumas refl exões acerca da defi nição sobre a deficiência intelectual, suas implicações em relação à aprendizagem e o desenvolvimento que o aluno apresenta. Além disso, analisamos sistemas de classifi cação para sua identifi cação, do mesmo modo que ponderamos sobre as abordagens e suas infl uências sobre a caracterização do defi ciente intelectual e seu desenvolvimento. Aula 8 Educação Inclusiva 175 Autoavaliação Bem, agora que concluímos esta aula é importante que você sistematize algumas ideias sobre o que tratamos. Assim, elabore um esquema onde sejam contemplados os seguintes aspectos: Como é defi nida a defi ciência intelectual? Em sua resposta, fale sobre os seguintes aspectos: a) Aspectos relevantes do diagnóstico clínico. b) Aspectos que envolvem a ideia da multidimensionalidade para essa especi- fi cidade do desenvolvimento. c) Aspectos pertinentes à escolarização. Referências AAIDD. Asociación Americana de Discapacidades Intelectuales y del Desarrollo AAIDD. Discapacidad Intelectual: defi nición, clasifi cación y sistemas de apoyo. Traducción: Miguel Ángel V. Alonso. 11. ed. Madrid: Editorial Alianza, 2011. BRASIL. Ministério da Educação. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. Disponível em: <www.mec.gov.br>. Acesso em: 18 nov. 2012. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Marcos Po- líticos-Legais da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: Secretaria de Educação Especial, 2010. BRAUN, P. Uma intervenção colaborativa sobre os processos de ensino e aprendizagem do aluno com defi ciência intelectual. 2012. 315 f. Tese (Douto- rado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012. FERREIRA, M. C. C. A educação escolar de alunos com defi ciência intelectual pode se viabilizar na perspectiva do letramento? In: JESUS, D. M. de et al (Org.). Inclusão, práticas pedagógicas e trajetórias de pesquisa. Porto Alegre: Editora Mediação, 2007. p. 101-109. Aula 8 Educação Inclusiva176 GOFFMAN, E. Notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. HANSEN, J. et al. Prontidão escolar: uma experiência de pesquisa-intervenção. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro: UFRJ, v. 64, n. 2, 2012. ISSN 1809-5267. Disponível em: <http://seer.psicologia.ufrj.br/index.php/abp/ index>. Acesso em: 27 nov. 2012. JANUZZI, G. M. de. A educação do defi ciente no Brasil: dos primórdios ao início do século XXI. Campinas: Autores Associados, 2006. MENDES, E. G. Defi ciência mental: a construção científi ca de um conceito e a realidade educacional. 1995. Tese (Doutorado em Psicologia) – Universidade de São Paulo, USP, São Paulo, 1995. OLIVEIRA, A. A. S. Currículo e programas na área da defi ciência intelectual: considerações históricas e análise crítica. In.: OLIVEIRA, A. A. S. et al. (Org.). Inclusão Escolar: as contribuições da Educação Especial. São Paulo: Editora Fundepe e Cultura Acadêmica, 2008a. p.111-127. PESSOTTI, I. Defi ciência mental: da superstição à ciência. São Paulo: T.A. Quei- roz, 1984. PLETSCH, M. D. Repensando a inclusão educacional: diretrizes políticas, prá- ticas curriculares e defi ciência intelectual. Rio de Janeiro: Nau Edur, 2010. SIQUEIRA, B. A. Inclusão de crianças defi cientes mentais no ensino regular: limites e possibilidades de participação em sala de aula. In.: BUENO, J. G. S.; MENDES, G. M. L.; SANTOS, R. A. dos. Defi ciência e escolarização: novas perspectivas de análise. Brasília: Editora Junqueira e Marin, 2008. p. 301-347. VYGOTSKY, L. S. Obras Escogidas: Fundamentos de la Defectologia. [s.l.]: Visor DIS., S.A.: Madrid, 1997. t 5. Anotações Aula 8 Educação Inclusiva 177 Anotações Aula 8 Educação Inclusiva178 Altas Habilidades/ Superdotação 9 Aula 1 2 3 4 Aula 9 Educação Inclusiva 181 Apresentação C aro aluno, neste encontro, apresentaremos o aluno com altas habilidades/ superdotação a você. No primeiro momento desta aula, falaremos das diferentes concepções de inteligência e de sua relação com o conceito de altas habilidades/superdotação. Exporemos, em seguida, os distintos paradigmas que visam explicar os comportamentos de superdotação, seus mitos e verdades. Por fi m, destacaremos as necessidades educacionais especiais de educandos com esse diagnóstico e as estratégias pedagógicas que podem ser empregadas para favorecer a sua inclusão escolar. Objetivos Defi nir o que consideramos um indivíduo com altas habilidades/superdotação. Distinguir as diferenças entre as concepções de inteligência das abordagens psicométrica e as derivadas da Psicologia Cognitiva. Reconhecer os mitos relacionados ao comporta- mento de superdotação. Identifi car as estratégias pedagógicas que viabi- lizam a aprendizagem de alunos com altas ha- bilidades/superdotação. 1Atividade Aula 9 Educação Inclusiva 183 Altas Habilidades/Superdotação: palavras iniciais Caro aluno, esta nossa aula se dará de um modo um pouco diferente das anteriores, iniciaremos com uma atividade de refl exão. Quando nos deparamos com um aluno que é excelente em matemática, ten- demos a dizer que ele é “muito inteligente”. Concorda? E quando o educando é um exímio jogador de bola ou um extraordinário sanfoneiro? Você diz que ele é talentoso? Defi na, nas linhas a seguir, o que você compreende por “inteligência”. Em seguida descreva, em sua perspectiva, o que é a superdotação. Aula 9 Educação Inclusiva184 O que é, afi nal de contas, a inteligência? Defi nir inteligência não é uma tarefa fácil! De fato, a história nos revela a falta de consenso na maneira de descrever, avaliar e investigar esse conceito. Nesse contexto, caro aluno, vamos conhecer os distintos modelos teóricos que abordam essa temática? Nas próximas páginas você conhecerá duas grandes correntes de pensamento que visam conceituar a inteligência: a abordagem psicométrica e as abordagens derivadas da Psicologia cognitiva. A perspectiva psicométrica A abordagem psicométrica da inteligência é pautada na concepção de que a inteligência humana é um fenômeno universal, genérico e mensurável. Essa perspectiva foi discutida pela primeira vez no começo do século XX por Alfred Binet. Registros históricos indicam que Binet, um eminente psicólogo francês, foi convocado pelo ministro da educação da França para avaliar a capacidade de aprendizagem de crianças que apresentavam difi culdades nas escolas. O objetivo era assegurar que os educandos diagnosticados com defi ciência mental não fossem colocados nas mesmas salas de aula com crianças consideradas com desenvolvimento intelectual normal (VIRGOLIM, 2007). Assim, em parceria com o psiquiatra Théodore Simon (Quadro 1), Binet identifi cou tarefas intelectuais que a maioria das crianças, nas diversas faixas etárias, estaria apta a dominar. A partir da identifi cação dessas tarefas, Binet e Simon elaboraram, em 1905, o primeiro teste de inteligência da história. Esse instrumento, composto por 30 itens apresentados em ordem crescente de nível de difi culdade, visava medir quantitativamente os fatores que constituíam a inteligência de crianças de 3 a 12 anos. De acordo com Binet e Simon, esses fatores incluíam a habilidade de julgar, compreender e raciocinar bem (STER- NBERG, 2000). Aula 9 Educação Inclusiva 185 Théodore Simon (1872–1961): psicólogo francês responsável por criar, juntamente com Alfred Binet, o primeiro teste de in- teligência da história. A inteligência era, para Simon, uma característica inata. Fonte: <http://www.ifi ts.fr/IMG/jpg/TSarton34.jpg> Alfred Binet (1857-1911): psicólogo fran- cês responsável por criar, juntamente com Théodore Simon, o primeiro teste de inteligência da história. A inteligência era defi nida como a capacidade do indivíduo em adaptar-se a determinadas circunstân- cias, envolvendo a habilidade de julgar, compreender e raciocinarbem. Fonte: <http://en.wikipedia.org/wiki/File:Alfred_Binet.jpg>. Quadro 1 – Simon e Binet: os precursores dos testes de inteligência Para você ter uma ideia do conteúdo desse instrumento, Virgolim (2007) descreve que: [...] o teste para crianças de 6 anos incluía itens como distinguir manhã da noite, copiar um losango, contar 13 moedas de um centavo. Para as de 8 anos, incluía comparar dois objetos de memória, saber contar retroativa- mente de 20 até 0 e repetir cinco dígitos (VIRGOLIM, 2007, p. 26). Esse instrumento foi aperfeiçoado nos anos subsequentes, sendo adiciona- do a ele os conceitos de idade mental e quociente de inteligência. O primeiro refere-se à idade em que a criança, com habilidade mediana, é capaz de realizar tarefas específi cas (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009). Assim, se um menino de 4 anos fosse capaz de realizar todos os testes dominados por crianças de 6 anos, seria atribuído a ele a idade mental de 6 anos, mesmo ele tendo apenas 4 anos. Da mesma forma, uma criança de 5 anos poderia ter a idade mental de 3 anos, se conseguisse apenas completar as tarefas tipicamente realizadas por crianças até três anos. O segundo, o conceito de quociente de inteligência (QI), elaborado inicial- mente pelo psicólogo alemão Louis William Stern (Figura 1), diz respeito à proporção entre a idade mental e a idade cronológica de uma pessoa. Aula 9 Educação Inclusiva186 Figura 1 – Psicólogo e fi lósofo alemão reconhecido por suas contribuições nas áreas de psicologia da personalidade e desenvolvimento do conceito de inteligência Fonte: http://www.indiana.edu/~intell/profi leImages/stern.gif Em 1916, esse conceito foi adotado pelo psicólogo americano Lewis Madison Terman (Figura 2) para quantifi car a inteligência. Figura 2 – Psicólogo americano criador do teste de inteligência Stanford-Binet Fonte: http://www.tribbit.com/tribute/1061978.html O QI seria, então, um “número” que representaria o desempenho intelectual do indivíduo. Ele poderia ser calculado pela seguinte fórmula: multiplicação da idade mental por 100 e com a divisão do resultado pela idade cronológica (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009), ou como você pode observar com a equação a seguir. QI = Idade mental x 100 Idade cronológica Aula 9 Educação Inclusiva 187 Complicado? Vejamos os exemplos de Jorge, José e Julia, respectivamente: Criança Idade mental Idade cronológica Fórmula QI Jorge 5 anos 5 anos 5 x 100 5 100 José 3 anos 5 anos 3 x 100 5 60 Julia 8 anos 5 anos 8 x 100 5 160 O que signifi ca ter um QI de 60, 100 ou 160? Pensando no signifi cado das medidas do QI, Terman, juntamente com a Uni- versidade de Stanford, publicou a “Escala de Inteligência Stanford-Binet”, uma revisão do instrumento elaborado por Binet e Simon. De acordo com essa escala, as classifi cações descritas foram as apresentadas na Tabela 1. Tabela 1 – Resultados do QI de acordo com a escala Stanford-Binet. Quociente de inteligência (QI) Classifi cação Acima de 140 Genialidade 120-140 Inteligência muito superior 110-120 Inteligência superior 90-110 Inteligência normal 70-90 Debilidade mental fronteiriça 50-70 Debilidade mental 25-50 Imbecilidade Abaixo de 25 Idiotia Fonte: Adaptado de Gomes (1957 apud OLIVEIRA, 2007). Voltemos aos exemplos de Jorge, José e Julia para melhor compreendermos essa classifi cação. n Jorge tem 5 anos e a idade mental de uma criança de 5. Isso signifi - ca que ele tem um QI de 100, que estaria dentro dos parâmetros da normalidade, segundo Terman. n José tem a mesma idade cronológica de seus colegas, mas um fun- cionamento intelectual semelhante à de uma criança de 3 anos, apresentando um QI de 60. Isso evidencia um atraso mental, deno- minado por Terman como debilidade mental. n Julia, por sua vez, tem uma idade mental superior à sua idade cronológica, com anos três a mais. Isso resulta em um QI de 160, refl etindo a genialidade ou a superdotação. Aula 9 Educação Inclusiva188 Fonte: <http://lt.wikipedia.org/wiki/Vaizdas:Sir_Francis_ Galton_by_Gustav_Graef.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2012. Terman focou seus estudos nos indivíduos considerados superdotados, compreendidos, na época, como aqueles que evidenciavam QI acima de 140 (SMITH, 2008). Infl uenciado pelo pensamento de Francis Galton, Terman compreendia a inteligência como característica inata, determinada por fato- res hereditários. O meio nada poderia fazer, de acordo com essa concepção, para “estimular intelectualmente” o indivíduo. Sendo assim, uma pessoa que nascesse com um QI abaixo da faixa de normalidade, morreria com esse mesmo QI. Da mesma forma, o superdotado permaneceria, por toda a sua vida, intelectualmente “acima da média”. Curiosidade Quem foi Francis Galton? Francis Galton (1822 -1911): an- tropólogo, matemático e estatísti- co inglês. Publicou um livro inti- tulado o Gênio Hereditário (1869), onde defendia a ideia de que inte- ligência era herdada. Segundo ele “um homem notável, teria fi lhos notáveis”. Fundou a ciência da “eugenia”, que propunha estu- dar questões relacionadas com a hereditariedade da “boa estirpe”. Galton sugeria que as pessoas de muito talento fossem selecionadas e acasaladas. Em sua perspectiva, esse processo resultaria em uma raça humana extremamente talen- tosa (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009).Charles Edward Spearman Psicólogo inglês conhecido por suas contribuições no campo da estatística. Spearman conside- rava que toda medida de inteli- gência estivesse relacionada a uma habilidade geral (fator g), que permearia o desempenho em todas as tarefas intelectuais. A “quantidade” de g determi- naria o grau de inteligência de uma pessoa (WOYCIEKOSKI; HUTZ, 2009). Binet, Terman e alguns de seus sucessores, como Charles Edward Spear- man, avaliavam a inteligência a partir de uma variável única ou uma função geral. Como assim? Bom, vamos pensar no seguinte: para realizar uma prova de inteligência (assim como qualquer tarefa) são “acionadas” diferentes funções cognitivas, como a memória, a atenção ou a capacidade de abstração. Essas 2Atividade Aula 9 Educação Inclusiva 189 diferentes funções, no entanto, eram medidas e interpretadas, na época, como se fossem um único fator. No caso de Binet e Terman, esse fator era a variável idade mental. Já na perspectiva de Spearman, era o fator g, uma medida criada por ele para avaliar o desempenho das tarefas intelectuais. Assim, uma pessoa com uma idade mental acima da média ou com “uma quantidade expressiva de g” seria considerada superdotada. No fi nal da década de 1970, um multimilionário americano inventou um controverso projeto: criar uma legião de crianças superdotadas por meio de inseminação artifi cial com o esperma doado por cientistas ilustres, preferencialmente ganhadores do Prêmio Nobel (TEICH, 2002). O que essa iniciativa revela sobre o conceito de inteligência e superdotação? Assim como Galton e Terman, você acha que a inteligência é herdada? Curiosidade Fonte: <http://veja.abril.com.br/180902/imagens/cartas1.gif>. Acesso em: 11 dez. 2012. Para saber mais sobre os resultados do experimento mencionado na Atividade 2, leia: TEICH, Daniel Hessel. Onde estão os bebês gênios: Filhos do banco de sêmen dos prêmios Nobel são jovens de inteligência normal, artigo da Revista Veja online (n. 1, ed. 767, 4 set. 2002. Dis- ponível em: <http://veja.abril.com.br/040902/p_062.html>. Acesso em: 28 out. 1012). Aula 9 Educação Inclusiva190 Críticas ao modelo Psicométrico Em meados do século XX, a abordagem psicométrica instaurada por Binet e Terman passou a ser questionada. Dentre as críticas a esse modelo, destacam-se quatro pontos: a) O enfoque essencialmente acadêmico dos testes de inteligência. b) A rotulação indevida produzida pelos instrumentos. c) A perspectiva monolítica da inteligência. d) A visão “simplista” das funções intelectuais. Primeiramente, podemos dizer que as versões iniciais da “Escala de Inteligên- cia Stanford-Binet” e os primeiros testes psicométricosque nela se inspiraram enfocavam apenas nas habilidades acadêmicas dos indivíduos (Smith, 2008). Em outras palavras, essas escalas pareciam medir essencialmente aptidões lin- guísticas e matemáticas, subjugando outras capacidades. Essa limitação pode ser compreendida quando pensamos no contexto em que o primeiro teste de inteligência foi elaborado. Você está lembrado, caro aluno, que Binet construiu seu instrumento com o propósito de identifi car os alunos com baixo desempenho acadêmico? Pois bem, além disso, o teste foi elaborado ressaltando o conteúdo acadêmico abordado nas escolas francesas. Em segundo lugar, por sua versatilidade e fácil uso, os testes de QI passaram a ser indiscriminadamente usados na previsão do desempenho escolar (ROAZZI; SOUZA, 2002; VIRGOLIM, 2007). Esse fenômeno acarretou no uso frequente e indevido de rótulos como “retardamento” e “superdotação”, determinando quem deveria ou não ser encaminhado para os serviços da educação especial (VIRGOLIM, 2007). Em terceiro lugar, é questionada a visão monolítica do funcionamento inte- lectual. Caso a inteligência fosse, de fato, uma função geral e única, uma criança “inteligente” deveria evidenciar bom desempenho em todas as tarefas intelectuais de um teste de inteligência, contudo isso não é observado. (VIRGOLIM, 2007). Por fi m, a perspectiva psicométrica da inteligência fundamenta-se mais no que o intelecto humano é capaz de fazer ao invés de basear-se no que ele vem a ser (ROAZZI; SOUZA, 2002). Em outras palavras, os defensores da abordagem psicométrica pouco teorizaram sobre a estrutura da mente e os fatores que in- fl uenciam o seu desempenho. Aula 9 Educação Inclusiva 191 Modelos derivados da Psicologia Cognitiva Com as críticas feitas ao modelo psicométrico, o paradigma instaurado pela Psicologia Cognitiva ganha popularidade. Nesse modelo, diferentes escolas de pensamento são identifi cadas. Entre elas, destacam-se a perspectiva desenvol- vimentista e o modelo cognitivista, que tem como foco: “a compreensão das capacidades humanas, considerando os mecanismos mentais básicos e subja- centes do comportamento inteligente” (VIEIRA, 2002; apud PÉREZ, 2006, p. 39). Abordagem desenvolvimentista Jean Piaget, um exímio biólogo, pode ser considerado o mais importante teórico da abordagem desenvolvimentista. Ao invés de enfocar na “capaci- dade” do intelecto, Piaget buscou compreender a origem e o desenvolvimento da inteligência. Compreendia-a como uma função e uma estrutura que pos- sibilitava o homem se adaptar ao meio. Contrapondo a visão de Binet, Piaget argumentava que a inteligência não é inata nem adquirida, ela resulta de uma construção progressiva que ocorre em função da interação do sujeito com o meio. Nesse sentido ela se desenvolve junto com o indivíduo, progredindo por meio de estágios que correspondem à aquisição e aumento na complexidade de estruturas mentais. Em sua perspectiva, fatores intrínsecos e extrínsecos ao indivíduo, como a hereditariedade, a maturação, a experiência física, as relações sociais e a educação podem acelerar ou retardar o desenvolvimento cognitivo (FONTANA; CRUZ, 2009). Nesse contexto, a superdotação não poderia ser compreendida como uma característica unicamente herdada e estática. Variáveis externas ao sujeito, como as interações físicas e sociais com o meio, desempenham um papel determinante na construção progressiva de um indivíduo superdotado. Abordagem cognitivista A ideia de uma inteligência monolítica proposta por Binet sofreu duras críticas por teóricos cognitivistas, como Sternberg e Gardner, que sugerem um modelo multidimensional da inteligência. A inteligência, segundo Sternberg, refere-se a: [...] capacidade para aprender a partir da experiência, usando processos cognitivos para melhorar a aprendizagem e a capacidade para adaptar-se ao ambiente circundante, que pode exigir diferentes adaptações dentro de diferentes contextos sociais e culturais (STERNBERG, 2000, p. 400). Jean Piaget Biólogo e fi lósofo suíço, Piaget foi o fundador da Epistemologia Genética: teoria do conhecimen- to que visa estudar a origem e os processos da formação do pensamento e do conhecimento. Segundo Piaget, as estruturas cognitivas da criança são ela- boradas e reelaboradas ininter- ruptamente a partir de sua ação (física ou mental) sobre o meio (FONTANA; CRUZ, 2009). Sternberg Psicólogo norte americano nasci- do em 1949. Segundo Sternberg, as habilidades humanas devem ser pensadas além do Quociente de Inteligência (QI). Na sua pers- pectiva, existe uma inteligência por trás de cada talento. Gardner Psicólogo norte americano nascido em 1943. Para Gardner, a inteligência é um conjunto de habilidades que permitem a pessoa solucionar problemas de forma criativa nos mais distintos e desafi adores contextos. Aula 9 Educação Inclusiva192 Esse conceito pode ser melhor compreendido quando analisamos o modelo triádico da inteligência proposto por esse autor. Segundo Sternberg, o compor- tamento inteligente é determinado por três fatores: a) A habilidade de processamento de informação. b) A experiência. c) A habilidade de adaptação. O primeiro fator é formado por mecanismos que o indivíduo cria para pro- cessar a informação que deverá executar. Entre esses mecanismos, destacam-se a atenção, a memória e a metacognição, compreendida como a capacidade de refl etir sobre o próprio pensamento. O segundo diz respeito à capacidade de lidar, de forma adequada e rápida, com tarefas e novas informações. Por fi m, a habilidade de adaptação se refere à capacidade do indivíduo de ajustar o próprio comportamento às demandas do meio (VIRGOLIM, 2007). Com base nesse modelo, Sternberg argumenta que o desempenho intelectual deve ser compreendido em três partes (Figura 3): a) Inteligência analítica – diz respeito à inteligência “convencional”, tipica- mente observada em pessoas que mostram bom desempenho em testes de aptidão e inteligência. b) Inteligência sintética – também conhecida como inteligência criativa, ca- racterística de pensadores não convencionais, criativos e intuitivos. c) Inteligência prática – evidenciada no comportamento de pessoas que lidam de forma efi ciente com os problemas da vida cotidiana. Figura 3 – Modelo triádico de inteligência proposto por Robert Jeffrey Sternberg Aula 9 Educação Inclusiva 193 Inspirado na perspectiva multifatorial da inteligência defendida por Sternberg, Gardner propôs um modelo de funcionamento intelectual alcunhado de teoria da inteligência múltipla (Figura 4). Figura 4 – Modelo das Inteligências Múltiplas proposto por Howard Gardner Adaptado de: <http://www.peetransito.com/images/stories/multiplasinteligencias.jpg>. Acesso em: 28 nov. 2012. Nessa proposta, Gardner postula que a competência cognitiva pode ser melhor descrita como um conjunto de nove habilidades, talentos ou capacidades mentais, considerados universais à espécie humana (VIRGOLIM, 2007). As seguintes inte- ligências são, portanto, derivadas dos modelos apresentados no quadro a seguir. Teoria da inteligência múltipla Posteriormente, Gardner acres- centou a esse modelo a inteli- gência espiritual, a existencial e a inteligência moral. Aula 9 Educação Inclusiva194 Inteligência1 Característica Exemplo Corporal-cinestésica Habilidade de usar o corpo na resolução de problemas. Dançarinos, atletas, jogadores, mímicos e atores. Espacial Habilidade de representar e manipular confi gurações espaciais. Arquitetos, engenheiros e artistas plásticos. Interpessoal Habilidade de compreender os sentimentos do outro e contextos sociais. Professores, políticos, psicólogos e líderes espirituais. Intrapessoal Habilidade de compreender os próprios sentimentos, ou seja, o autoconhecimento. Psicólogos, líderes espirituais. Linguísticas Habilidade de usar a linguagem (escrita, falada ou expressa por outro meio) de forma competente. Poetas, escritores e oradores.Lógico-matemática Habilidade de raciocínio lógico, matemática, pensamento científi co, computação numérica e resolução de problemas. Cientistas, programadores de computadores e matemáticos. Musical Habilidade inerente de tocar um instrumento; sensibilidade musical, incluindo o reconhecimento de sons e ritmos. Músicos, cantores e maestros. Naturalista Habilidade para compreender a natureza e seus fenômenos; habilidade de reconhecer e classifi car plantas, animais, etc. Ecologistas, geólogos e meteorologistas, botânicos etc. Quadro 2 – Tipos de inteligência na perspectiva de Gardner Na perspectiva de Gardner, diferentes culturas valorizam distintos tipos de inteligência. Em geral, as sociedades ocidentais tendem a apreciar as inteligências lógico-matemática e linguística, diferente de algumas culturas africanas que, por outro lado, valorizam a inteligência musical (Virgolim, 2007). 2Atividade Aula 9 Educação Inclusiva 195 Caro aluno, que tal uma pausa para recapitularmos algumas ideias? Compare as duas abordagens sobre a inteligência, preenchendo as informações solicitadas a seguir: Abordagem psicométrica Abordagem da Psicologia Cognitiva Autores Piaget (desenvolvimentista); Gardner e Sternberg (cognitivista) Inteligência Característica herdada, inata e imutável. Modelo de inteligência Múltiplo (várias inteligências) Superdotação QI elevado Defi nindo superdotação Assim como Gardner e Stenberg, Renzulli também sugere um modelo multi- dimensional da inteligência. O referido autor elabora uma interessante teoria para explicar o que são a superdotação ou as altas habilidades. Em sua perspectiva, denominada Teoria dos Três Anéis, os comportamentos de superdotação estão relacionados a três comportamentos (Figura 5): a) Habilidade superior à média. b) A criatividade. c) O compromisso com a tarefa. Joseph Renzulli Renomado pesquisador na área da superdotação e diretor do Centro Nacional de Pesquisa sobre o Superdotado e Talentoso da Universidade de Connecticut, nos Estados Unidos. Aula 9 Educação Inclusiva196 Figura 5 – Modelo dos Três Anéis de Renzulli No primeiro anel encontramos a habilidade acima da média, que contempla as habilidades gerais e as específi cas. Compreende-se por habilidades gerais “a capacidade de processar informações, integrar experiências que resultam em respostas adaptativas e apropriadas a novas situações e na capacidade de se engajar em pensamento abstrato” (FLEITH, 2006, p. 219). Esse comportamento, de acordo com Renzulli, pode ser avaliado em testes de aptidão e inteligência. Já as habilidades específi cas dizem respeito à capacidade de aplicar as várias combinações das habilidades gerais a uma ou mais áreas específi cas, como a matemática, a dança, as artes, a química, a fotografi a etc. (FLEITH, 2006; VIR- GOLIM, 2007). O segundo anel diz respeito ao envolvimento com a tarefa. Ele representa a energia que a pessoa canaliza para resolver um dado problema ou tarefa. Termos como perseverança, paciência, autoconfi ança e crença na própria habilidade, são tipicamente usados para caracterizar esse comportamento, revelando-se como um componente motivacional (FLEITH, 2006; VIRGOLIM, 2007). A criatividade, representando o terceiro anel, pode ser compreendida como a originalidade e fl exibilidade do pensamento. Ela diz respeito, também, à aber- tura do indivíduo a novas experiências, curiosidade, sensibilidade a detalhes e ausência de medo em correr riscos (FLEITH, 2006). Conforme assinalam Fleith (2006) e Virgolim (2007), é importante destacar algumas ideias propostas pelo modelo de Renzulli: n Nenhum dos três anéis (habilidade acima da média, envolvimento com a tarefa e criatividade) é mais importante do que o outro. n Os três anéis não precisam estar presentes ao mesmo tempo e com a mesma “intensidade” para que o comportamento de superdotação se apresente. Aula 9 Educação Inclusiva 197 n O comportamento de superdotação é infl uenciado por variáveis intrínsecas e extrínsecas ao sujeito, como por exemplo: os fatores genéticos, a persona- lidade, os fatores ambientais, o nível educacional dos pais, a estimulação de interesses na infância etc. n Os comportamentos de superdotação podem emergir e esvanecer-se em dife- rentes épocas e sob diferentes circunstâncias da vida de uma pessoa. A defi nição de superdotação adotada no Brasil é fortemente infl uenciada pela perspectiva multifacética da inteligência. Veja, por exemplo, como o Ministério da Educação defi ne o aluno superdotado: Alunos com altas habilidades/superdotação demonstram potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse (BRASIL, 2008, p. 9). Observa-se que a defi nição adotada pelo MEC valoriza as especifi cidades da inteligência em diferentes domínios, conforme o modelo proposto por Gardner. Nesse contexto, são identifi cados, a partir do paradigma das múltiplas inteligên- cias, diferentes “tipos” de alunos. Segundo Brasil (2006) eles incluem: a) Tipo intelectual – aluno que apresenta fl exibilidade, independência, fl uência de pensamento, julgamento crítico e destreza na resolução de problemas. b) Tipo social – educando com elevada capacidade de liderança, sensibilidade interpessoal, atitude cooperativa, infl uência no grupo e persuasão. c) Tipo acadêmico – aluno que apresenta boa capacidade de atenção, concen- tração, memória, interesse e motivação pelas tarefas. d) Tipo criativo – aquele capaz de encontrar soluções diferentes e inovadoras para os problemas. e) Tipo psicomotor-sinestésico – destaca-se por habilidades e interesses em atividades físicas e psicomotoras. f) Tipo talentos especiais – destaca-se em atividades artísticas, como música, literatura, teatro ou artes plásticas. A essa altura você deve estar se perguntando: por que o aluno com tantas “potencialidades” seria considerado um aluno com necessidades educacio- nais especiais? Aula 9 Educação Inclusiva198 Para responder a essa pergunta, vamos conhecer alguns mitos e verdades so- bre a superdotação? No Quadro 3 estão descritos 10 mitos e verdades tipicamente associados ao comportamento de superdotação. Mitos sobre a superdotação Verdades O superdotado é “meio maluco”. Não existem estudos relacionando as altas habilidades com doenças mentais como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar. O superdotado é normalmente organizado e disciplinado. Tanto o superdotado, quanto qualquer indivíduo pode apresentar essas ou outras características. O superdotado é tipicamente rebelde e desobediente. Não necessariamente. Qualquer aluno pode evidenciar esses comportamentos se estiver insatisfeito. O superdotado pode se desenvolver sozinho, sem ajuda. Os comportamentos de superdotação são infl uenciados por variáveis intrínsecas e extrínsecas ao sujeito. A estimulação do meio é essencial. O superdotado provém de f amília rica. A superdotação é encontrada em 3-5% da população mundial, não tendo relação com a raça, a situação socioeconômica ou a cultura. Todo superdotado apresenta QI acima de 140. De acordo com a perspectiva multidimensional das inteligências, o desempenho intelectual acima da média é apenas um dos indícios do comportamento de superdotação. Todo superdotado é bem-sucedido na escola. Nem sempre. Muitas vezes, por sentir-se pouco estimulado, pode apresentar fraco rendimento escolar. Todo superdotado é excelente em tudo que faz. Por vezes, a criança pode ser superdotada em uma área e apresentar distúrbios de aprendizagem em outra. Todo superdotado é fi lho de pais superdotados. Lembra-se da primeira atividade de refl exão que fi zemos nesta aula? Pois bem, o estudo revelou que muitos dos fi lhos dos “gênios” apresentavam inteligência mediana. Todo superdotado foicriança precoce. Os comportamentos de superdotação podem aparecer em diferentes épocas e contextos da vida de uma pessoa. Quadro 3 – Mitos e verdades relacionados ao comportamento de superdotação Fonte: Rech e Freitas (2006). Aula 9 Educação Inclusiva 199 Necessidades Educacionais Especiais do aluno com altas habilidades/ superdotação (AH/SD) As características associadas ao comportamento de superdotação na sala de aula podem trazer implicações positivas e negativas, conforme assinalado no quadro seguinte. Características Implicações positivas Implicações negativas Processamento rápido de informações Adquire habilidades básicas de aprendizagem mais rapidamente e exige menos prática. Pode sentir-se entediado com tarefas acadêmicas pouco desafi adoras. Não gosta de tarefas que envolvem a reprodução do conhecimento. Curiosidade intelectual Procura, constantemente, os “comos” e “porquês” dos problemas propostos na escola e na vida. O professor, quando adequadamente preparado, pode aproveitar as potencialidades do aluno no ensino dos outros educandos. Tende a ser estigmatizado de “exibido”. O professor, quando inadequadamente preparado, pode ver o aluno como um adversário, que constantemente questiona o seu conhecimento. Sensibilidade e criatividade Habilidade para produzir muitas ideias. A criatividade pode ser percebida como comportamento exibicionista ou de desobediência, em profi ssionais que estejam despreparados para identifi car esse comportamento em um que é indivíduo superdotado. Intensa motivação Apresenta motivação intrínseca a sua personalidade e um comportamento persistente de “querer aprender”. Pode envolver-se em muitas atividades e não gostar de ser interrompido. É possível, ainda, interessar-se por um único tema. Desse modo, o professor pode sentir difi culdades em apresentar conteúdos que não são de seu interesse. Boa capacidade para demonstrar emoções Empatia; reage a questões morais e sociais. Pode ser vulnerável a críticas ou experimentar sentimentos de isolamento e rejeição. Pensamento independente Tem grande prazer na atividade intelectual. Gosta de realizar tarefas de modos distintos. Não gosta de rotinas e pode aparentar rebeldia. Quadro 4 – Características de superdotação e suas implicações em sala de aula. Fonte: adaptado de Ali (2001 apud CHAGAS, 2007, p.17). Resumo Aula 9 Educação Inclusiva200 A intervenção pedagógica, ao identifi car um indivíduo superdotado, deve estimular a manifestação da criatividade e originalidade do educando. Nesse sentido, devem-se elaborar estratégias que viabilizam a realização de trabalhos na(s) área(s) de seu interesse, assim como práticas para tornar o ambiente mais adequado para a sua aprendizagem (DELPRETTO, 2010). Entre as alternativas pedagógicas sugeridas pelo Ministério da Educação estão a fl exibilização/ace- leração do ensino e a elaboração de programas de enriquecimento curricular (SABATELLA; CUPERTINO, 2007). A primeira alternativa diz respeito à admis- são precoce do aluno na escola ou a realização dos estudos em tempo inferior ao previsto. Essa alternativa, prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996, foge ao padrão usual da seriação ou de áreas do conteúdo acadêmico (SABATELLA; CUPERTINO, 2007). Sendo assim, em programas e aceleração, o aluno pode saltar séries ou ter o currículo fl exibilizado de forma a cumprir as etapas do ensino em menos tempo. Os programas de enriquecimento curricular contemplam, entre outras prá- ticas, as adaptações e ampliações curriculares a serem realizadas na sala de aula regular ou em salas de recursos multifuncionais (DELPRETTO, 2010). As adapta- ções curriculares dizem respeito às alterações nos objetivos, nas metodologias ou nas atividades a serem realizadas pelo aluno. Elas devem ser operacionalizadas por um plano individualizado de ensino que indica os conteúdos básicos, opta- tivos e transversais que o aluno deverá estudar. Trata-se de uma ação que deve envolver não apenas um aluno, mas tutores e a equipe escolar como um todo (SABATELLA; CUPERTINO, 2007). A ampliação curricular, também denominada de adaptação curricular não signifi cativa, pode incluir a adição de certos conteúdos ou disciplinas curricu- lares. Ela pode se confi gurar como alterações mais focalizadas, realizadas por meio do aprofundamento de conteúdos específi cos e/ou variações nas atividades realizadas pelo educando. Quando a ampliação é restrita a uma área ou disciplina específi ca é denominada ampliação vertical. A ampliação horizontal, por sua vez, pode envolver diversas disciplinas integradas em um único projeto. Neste encontro, estudamos os diferentes modelos teóricos que visam explicar o conceito de inteligência. Em seguida, aprendemos como esses paradigmas abordam a temática das altas habilidades/ superdotação. Posteriormente, discutimos sobre mitos, verdades e sobre as necessidades educacionais especiais de alunos superdotados, e fi nalizamos a aula apresentando estratégias pedagógicas que buscam estimular as potencialidades desses educandos. Aula 9 Educação Inclusiva 201 Autoavaliação Para fi nalizarmos nossa aula, vamos agora fazer uma última atividade de refl exão. Considerando o que você aprendeu nesta aula, reveja a sua resposta na primeira atividade. Você a alteraria? Caso afi rmativo, (re)defi na, nas linhas abaixo, o que compreende por inteligência. Como defi niria o desempenho do extraordinário sanfoneiro, d o exímio jogador de bola e do excelente aluno de matemática? Referências BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com altas habili- dades/superdotação. 2. ed. Brasília: MEC; Secretaria de Educação Especial, 2006. 143 p. (Série: Saberes e práticas da inclusão). BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Na- cional de Educação Especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: MEC/SEESP, 2008. CHAGAS, Jane Farias. Conceituação e fatores individuais, familiares e cultuarias relacionados às altas habilidades. In: FLEITH, D. S.; ALENCAR, E. M. L. S. (Org.). Desenvolvimento de talentos e altas habilidades. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 15-24. DELPRETTO, Bárbara Martins de Lima; GIFFONI, Francinete Alves; ZARDO, Sinara Pollom. A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar: altas habilidades/superdotação. Brasília: Ministério da Educação; Secretaria de Edu- cação Especial; [Fortaleza]: Universidade Federal do Ceará, 2010. v 10. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). FLEITH, D. S. Criatividade e altas habilidades/superdotação. Revista Educação Especial, n. 8, p. 219-232, 2006. FONTANA, R.; CRUZ, M. N. Psicologia e Trabalho Pedagógico. São Paulo: Atual, 2009. OLIVEIRA, Emerson Dionísio G. de. Medicina Legal: Discursos e Representações Sobre a “Inteligência”. Revista Agora, Vitória, n. 6, p. 1-13, 2007. Aula 9 Educação Inclusiva202 PÉREZ, S. G. P. B. Sobre perguntas e conceitos. In: FREITAS, S. N. Educação em altas habilidades/superdotação: a ousadia de rever conceitos e práticas. Santa Maria: Ed. UFSM, 2006. RECH, A. J. D.; FREITAS, S. N. Uma revisão bibliográfi ca sobre os mitos que envolvem as pessoas com altas habilidades. In: FREITAS, S. N. (Org.). Educação e altas habilidades/superdotação: a ousadia de rever conceitos e práticas. Santa Maria: UFSM, 2006. ROAZZI, Antonio; SOUZA, Bruno Campello de. Repensando a inteligência. Pai- déia, Ribeirão Preto, v. 12, n. 23, p. 31-55, 2002. SABATELLA, M. L.; CUPERTINO, C. M. B. Práticas Educacionais de Atendimento ao Aluno com altas habilidades/superdotação. In: FLEITH. D. S. A construção de práticas educacionais para alunos com altas habilidades/superdotação: volume 1: orientação a professores. Brasília: MEC/SEESP, 2007. p. 67–80. SANTOS, Acácia A. Angeli dos; NORONHA, Ana Paula Porto; SISTO, Fermino Fernandes. Testede Inteligência R1-Forma B e G36: evidência de validade convergente. 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Reconhecer as principais características dos TEA. Identifi car recursos e estratégias pedagógicas que viabilizam a aprendizagem de alunos com TEA na sala de aula regular. 1Atividade 1 2 3 Aula 10 Educação Inclusiva 209 Transtornos do Espectro Autista: palavras iniciais Caro aluno, antes de mergulharmos na leitura desta aula, gostaria que você fi zesse uma atividade de refl exão. Imagine que, em seu primeiro dia de trabalho, como professor do 3º ano do ensino fundamental, você é informado que receberá um aluno autista em sua sala de aula. Como você imagina esse aluno? Como será a relação dele com os outros 18 alunos matricu- lados na classe? Quais os principais desafi os que imagina encontrar? Aula 10 Educação Inclusiva210 Percurso Histórico A palavra autismo advém do grego autos, que signifi ca de si mesmo, e ismo, voltado. No campo da psiquiatria, esse termo foi utilizado pela primeira vez, em 1906, por Eugem Bleuler, psiquiatra suíço, para caracterizar a perda de contato com a realidade e o isolamento social de pacientes esquizofrênicos. Em 1943, Leo Kanner (1894 – 1981), apresentado na Figura 1, um dos pioneiros a descrever, de forma sistemática, as características do autismo. Ele empregou a mesma expressão para descrever características de 11 crianças que, em sua perspectiva, apresentavam uma incapacidade inata para estabelecer contato afetivo e interpessoal com o outro. Esses indivíduos evidenciavam extrema solidão, ignorando ou evitando o contato com estímulos do meio. Outras características salientadas por Kanner foi a constatação de prejuízos intelectuais, de alterações na linguagem e comunicação, e da infl exibilidade do comportamento (RIVIÉRE, 2004). Esquizofrenia Transtorno mental caracterizado pela presença de alucinação, delírio, fala desorganizada (incoerência ou perda de cone- xão), embotamento afetivo e manifestação de comportamen- tos atípicos. Figura 1 – Leo Kanner (1894-1981), psiquiatra austríaco, radicado nos Estados Unidos Fonte: <http://img.bhs4.com/fe/8/fe82342e34f54cc3d0bebfb449d37d5ca323414f_large.jpg>. Acesso em: 18 dez. 2012. Um ano depois, Hans Asperger (1906 –1980), Figura 2, descreveu, em um trabalho intitulado “psicopatia autista”, casos de adolescentes que apresentavam características sociais e comportamentais semelhantes às descritas por Kanner. Aula 10 Educação Inclusiva 211 Figura 2 – Hans Asperger (1906-1980), psiquiatra austríaco. Fonte: <http://2.bp.blogspot.com/-SPW1aFNwV1c/UGTxJIVtt7I/AAAAAAAAAdQ/vyAhvszHMUI/s1600/ hans_asperger_700xA1-480x319.jpg>. Acesso em: 18 dez. 2012. Além da intolerância às mudanças de rotina, faltava a esses indivíduos o conhecimento intuitivo de como se relacionar socialmente (NUNES; ARAÚJO, 2011). Diferente de Kanner, Asperger ressaltou que seus pacientes tinham inte- ligência normal e que muitos eram capazes de falar, apesar de se comunicarem de forma atípica. Ao longo dos vinte primeiros anos após a descrição de Kanner e Asperger, o autismo foi compreendido como uma manifestação da esquizofrenia, causado por fatores emocionais ou afetivos. Imperava-se a crença de que essa síndrome seria produzida por pais “frios”, incapazes de proporcionar adequado afeto aos fi lhos. Foi nesse cenário que o termo “mãe geladeira” foi popularizado, respon- sabilizando os pais pela condição da criança (KLIN, 2006). Nesse modelo explicativo, as alterações afetivas provocadas pela falta de afeto dos pais, produziria a sintomatologia autista, caracterizada pelo isolamento so- cial, défi cits de comunicação e a presença de comportamentos atípicos. Assim, a síndrome era tratada a partir de psicoterapias, que objetivavam reestabelecer laços emocionais entre a criança e seus progenitores (KLIN, 2006; RIVIERI, 2004). A partir da década de 1960, pesquisas científi cas revelaram a associação do autismo com transtornos neurobiológicos. Sendo assim, essa condição, denominada na época como autismo infantil pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), passa a ser desvinculada da esquizofrenia. Esse processo coincidiu com a elaboração de modelos expli- cativos que atribuíam os sintomas do autismo às alterações cognitivas, ao invés de afetivas (RIVIERI, 2004). Em meados dos anos 1980, alguns elementos do Modelo Cognitivo ganham notoriedade entre os cientistas. Esses teóricos sugerem que a sintomatologia autista advém das falhas nas funções executivas, assim como da difi culdade que esses indivíduos apresentam em compreender o ponto de vista e os estados mentais do outro (KLIN, 2006; WILLIAMS; WRIGHT, 2008). Nesse sentido, a infl exibilidade do comportamento e os problemas de atenção no autista seriam DSM Manual que lista diferentes ca- tegorias de transtornos mentais e critérios para diagnosticá-los. Esse manual, assim como a CID (Classifi cação Internacional de Doenças), são amplamente utilizados por profi ssionais da saúde. Funções executivas Entre as funções executivas estão a capacidade de selecionar informações, de integrar infor- mações recentes com informa- ções memorizadas, assim como planejar e monitorar determina- das ações (CAPOVILLA; ASSEF; COZZA, 2007). Aula 10 Educação Inclusiva212 fruto dos défi cits nas funções executivas. Por outro lado, a impossibilidade de perceber crenças, intenções e emoções de outras pessoas seria atribuída a uma falha cognitiva inerente ao autismo, conhecida como “cegueira mental” ou teoria da mente defi citária (WILLIAMS; WRIGHT, 2008). A educação torna-se a principal forma de tratamento e, na década de 1980, há uma maior difusão de escolas especiais, fundadas, principalmente, a partir de associações de pais e familiares. Os usos de estratégias educacionais que visavam, principalmente, a mudança de comportamento para minimizar a sintomatologia autista passam a ser amplamente empregadas nessas instituições (RIVIERI, 2004). Curiosidade Caro aluno, note que sófoi na década de 1980 que as primeiras asso- ciações fi lantrópicas destinadas ao atendimento de pessoas com au- tismo foram fundadas no Brasil. Conheça a história da primeira Asso- ciação de Pais e Amigos dos Autistas (AMA), visitando o site a seguir: <http://www.ama.org.br/site/index.php>. Na década de 1980, ganha evidência a perspectiva evolutiva de que o autis- mo é um desvio qualitativo do desenvolvimento. Assim, na 3ª edição do DSM, publicada em 1980, o autismo infantil é incluído como uma subcategoria dos Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) (SUPLICY, 1993). Conforme assinalam Rapin e Tuchman, a expressão TGD refere-se a: “[...] um grupo de transtornos do desenvolvimento defi nidos pelo comportamento, que comparti- lham a sintomatologia do autismo clássico, como descrito por Kanner” (RAPIN; TUCHMAN, 2009, p. 17). A classifi cação do autismo como um tipo de TGD foi um passo importante na conceituação da síndrome, uma vez que enfatizou aspectos relacionados ao desenvolvimento da criança e não apenas aos défi cits sociais. Além disso, o TGD é observado, também, na vida adulta, substituindo, dessa forma, a expressão autismo infantil por Transtorno Autista ainda na 3ª edição revista do DSM, publicada em 1987 (SUPLICY, 1993). 2Atividade 1 2 Aula 10 Educação Inclusiva 213 Caro aluno, que tal investigarmos o que as pessoas sabem ou pensam sobre o autismo na atualidade? Selecione 4 pessoas, incluindo 2 professores, e faça as seguin- tes perguntas: a) O que é o autismo? b) O que “causa” o autismo? Quantas pessoas desconheciam a síndrome? Quantas indica- ram ser o autismo uma condição neurobiológica? Quantas o defi niram como um transtorno afetivo? Autismo atípico Transtorno de Asperger Transtorno Desintegrador da Infância Transtorno Autista Transtorno de Rett Aula 10 Educação Inclusiva214 Transtornos do Espectro Autista (TEA): concepções na atualidade Os Transtornos do Espectro Autista (TEA), também denominados de Transtor- nos Invasivos do Desenvolvimento (TID), atualmente compreendem cinco condi- ções, marcadas pela precocidade dos atrasos e desvios do desenvolvimento, com diferentes níveis de gravidade. Entre eles estão: o transtorno autista, o transtorno de Asperger, o transtorno de Rett, o transtorno desintegrador da infância e uma categoria residual denominada autismo atípico. Esses cinco distúrbios eviden- ciam, em maior ou menor grau, prejuízos nas habilidades sociocomunicativas, na manifestação de comportamentos e/ou nos interesses atípicos. As diferentes manifestações do espectro do autismo estão representadas na Figura 3 a seguir. Figura 3 – Relação entre as 5 condições que compõem os TEA. Os círculos sobrepostos indicam que os sintomas podem coexistir em diferentes subtipos de TEA. Fonte: adaptado de Lord e Risi (2000). Aula 10 Educação Inclusiva 215 Conforme apresentado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, em sua quarta edição (DSM-IV), cada subcategoria de TEA, tem um critério de diagnóstico específi co, conforme apresentado a seguir. n Autismo – um dos transtornos mais graves, mais conhecidos e de maior in- cidência entre os TID. Indivíduos com esta síndrome apresentam, antes dos 3 anos de idade, alterações signifi cativas nas habilidades de comunicação e socialização, além de manifestar interesses e padrões de comportamentos restritos e/ou atípicos. Por razões ainda desconhecidas, essa condição, tam- bém conhecida como autismo de Kanner ou autismo clássico, acomete quatro vezes os homens que às mulheres (KLIN, 2006). n Asperger – é condição caracterizada pelos problemas na interação social e nos comportamentos/interesses atípicos que tragam prejuízos signifi cativos em termos sociais, educacionais ou ocupacionais. Diferente dos outros TID, as pessoas com Asperger apresentam inteligência normal ou, muitas vezes, acima da média. Essa síndrome acomete homens em uma proporção nove vezes superior às mulheres. n Transtorno Desintegrador da Infância – também conhecida como Síndrome de Heller ou psicose regressiva. Normalmente, crianças nessa condição apre- sentam desenvolvimento normal até os dois anos de idade. Após esse período, a criança pode manifestar regressão em pelo menos duas das seguintes áreas até os 10 anos: linguagem expressiva, linguagem receptiva, comportamentos adaptativos, habilidades motoras, interação social, brincadeiras, ou controle de esfíncteres (NUNES; PEREIRA, 2011). Nesses casos, predominam a de- fi ciência intelectual profunda ou severa (MERCADANTE; VAN DER GAAG; SCHWARTZMAN, 2006). n Transtorno de Rett – distúrbio genético encontrado, principalmente, no sexo feminino. O desenvolvimento da criança apresenta curso normal até os 6 ou 18 meses, quando são observadas perdas de habilidades previamente aprendidas, como a fala ou atividades motoras (NUNES; PEREIRA, 2011). A defi ciência intelectual profunda ou severa, os movimentos estereotipados com as mãos e os défi cits severos na linguagem receptiva e expressiva são outras características típicas desse transtorno (MERCADANTE; VAN DER GAAG; SCHWARTZMAN, 2006). n Autismo atípico – compreende indivíduos que apresentam alguns comporta- mentos atípicos quando relacionados com os outros TEA, mas não o sufi cien- te para caracterizar um dos outros diagnósticos (NUNES; PEREIRA, 2011). As pessoas com essa síndrome, também conhecida como Transtorno Invasivo do Desenvolvimento sem outra especifi cação (TID-SOE), tendem a apresentar DSM-IV É importante ressaltar que, na 5ª edição do DSM, a ser publicada em 2013, as cinco categorias de TEA receberão uma única denominação: Transtornos do Espectro Autista. Aula 10 Educação Inclusiva216 leves disfunções nas áreas de comunicação, socialização ou manifestação de comportamentos atípicos. A defi ciência intelectual leve é comum nesses indivíduos (NUNES; PEREIRA, 2011). Embora as causas e origens continuem sem comprovação, pesquisas recentes revelam uma forte incidência genética dos TEA (KLIN, 2006). O grau de heredi- tariedade é considerado expressivo. Irmãos biológicos de pessoas com autismo têm, por exemplo, risco vinte vezes maior de desenvolver variações da síndrome do que o em famílias que não apresentaram alguns desses transtornos estudados (NUNES; PEREIRA, 2011). Curiosidade Figura 4 – Símbolo da conscientização do autismo Fonte: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/37/Autismo-fi ta3.jpg>. Acesso em: 18 dez. 2012. Por ter, ainda, causas desconhecidas, o símbolo da conscientização do autismo é representado por um laço formado por um quebra-ca- beça colorido. As peças do quebra-cabeça representam o enigma e a complexidade da síndrome; as cores, a diversidade dos indivíduos diagnosticados. TEA em números Durante muito tempo o autismo foi considerado uma condição rara, de baixa prevalência. Hoje, as diferentes manifestações da síndrome são comuns. Pesqui- sas internacionais indicam que os TID afetam uma em cada 110 pessoas (ASD; Center for Diseas e Control [CDC], 2011). Um estudo recente, realizado no Brasil, revelou prevalência inferior, de um indivíduo em cada 370 (PAULA et al, 2011). Aula 10 Educação Inclusiva 217 Assim, temos, aproximadamente, 570 mil brasileiros com alguma forma de au- tismo! O aperfeiçoamento dos instrumentos de identifi cação precoce, a popula- rização da síndrome e os vários tipos de transtornos que compõem o espectro autista são alguns fatores que justifi cam o aumento expressivo no número de casos identifi cados. Necessidades Educacionais Especiais dos TEA Aproximadamente, 47 mil alunos com TEA estão inseridos nas salas de aula regulares do ensino médio e fundamental (INEP, 2012). Nesse sentido, caro aluno, é fundamental que você conheça algumas das especifi cidades dos TEA! Em seguida será explicitada a tríade de sintomas que caracterizam o espectro do autismo: os distúrbios sociais, os prejuízos da comunicação e a manifestação de comportamentos atípicos. DistúrbiosSociais O isolamento social e a difi culdade em desenvolver relacionamentos com pares da mesma idade são algumas das características que podem ser ob- servadas em alunos com TEA. Esses indivíduos, tipicamente, falham em compreender as formas não verbais de comunicação, como por exemplo, os gestos ou expressões faciais. Imagine que você esteja falando sobre as olimpíadas com o rapaz ilustrado na Figura 5 a seguir. Observe a imagem por alguns instantes. Pronto? Figura 5 – Formas não verbais de comunicação Aula 10 Educação Inclusiva218 Considerando a sua expressão facial e corporal, é possível supor que ele es- teja “entediado com o papo”, concorda? Nesse sentido, a probabilidade de você mudar de assunto ou, ao menos, perguntar o que há de errado, será grande. Pois bem, a incapacidade em “ler” essa expressão, aliada à difi culdade de tomar a perspectiva do outro, pode fazer com que o seu aluno com TEA ignore esses sinais de desinteresse e prossiga falando sobre as olimpíadas, uma temática de pouco interesse para esse interlocutor como mostra a Figura 5. Como resul- tado, o referido aluno pode ser estigmatizado como “chato” ou “egocêntrico” por seus colegas de turma. Muitos podem falar sem direcionar o olhar para o outro. Essa conduta pode ser atribuída à difi culdade que têm em processar informações sensoriais de for- ma simultânea. Ou seja, para alguns indivíduos com TEA, pode ser mais fácil compreender uma informação quando não precisam atentar, simultaneamente, para informações visuais (ex: o rosto do interlocutor) e auditivos (a fala do in- terlocutor) (MOORE, 2005). Distúrbios da Comunicação Atrasos ou desvios da linguagem são predominantes em pessoas com TEA. Entre 30% e 50% tem problemas no desenvolvimento da linguagem oral (WAL- TER; NUNES, 2008). Outros, apesar de desenvolverem a fala, não conseguem se comunicar através da linguagem oral. Ou seja, são capazes, muitas vezes, de dizer coisas ou até cantar músicas inteiras, mas inaptos a usar esses mesmos vocábulos para expressar seus desejos ou pensamentos. Você deve, então, estar se perguntando se essas pessoas compensariam os distúrbios da fala por formas alternativas de expressão? Pois bem, pesquisas indicam que, em geral, as pessoas com TEA falham em desenvolver, de forma espontânea, um sistema de gestos ou outras formas de comunicação, como por exemplos, olhares ou expressões faciais (NUNES; PEREIRA, 2011). Dos que usam a linguagem verbal, muitos têm difi culdades em iniciar e man- ter conversas ou exibem uma fala “atípica”, com ritmo distinto, infl exões estra- nhas ou volume inadequado. Aqueles que compreendem a fala, frequentemente têm difi culdades em entender sutilezas da linguagem, como metáforas. Nesse sentido, o aluno pode não entender uma expressão do tipo “estou derretendo de calor”, vindo à sua cabeça a assustadora imagem seguinte. Aula 10 Educação Inclusiva 219 Figura 6 – Figura de linguagem: “Derretendo de calor” Merecem destaque, ainda, características como a inversão pronominal e a ecolalia, tipicamente observadas em pessoas com espectro autista. Por inversão pronominal compreende-se a substituição dos pronomes de primeira por de ter- ceira pessoa. Dessa forma, é comum observar uma criança com autismo dizer “ele quer água” ao invés de “eu quero água”. A ecolalia, que acomete 85% dos que falam, é defi nida como a repetição ime- diata ou tardia de palavras ou de expressões ouvidas anteriormente (WALTER; NUNES, 2009). Essa fala pode ou não ter a mesma entonação do interlocutor e se manifestar em contextos mais ou menos específi cos. No primeiro caso, a criança repete uma palavra ou expressão imediatamente após ouvi-la. No segundo, a repetição pode ocorrer horas, dias ou semanas depois, em cenários semelhantes ou distintos. Os quadrinhos a seguir ilustram esse distúrbio. Figura 7 – Ecolalia imediata Aula 10 Educação Inclusiva220 No exemplo anterior, o professor pergunta a Pedrinho se ele quer chocolate. Pedrinho repete, com a mesma entonação, as palavras ouvidas. Dois dias depois, a seguinte interação é observada entre Pedro e sua mãe, Figura 8. Figura 8 – Ecolalia tardia No caso apresentado na Figura 8, Pedro poderia estar solicitando chocolate à mãe ou apenas repetindo uma expressão que ouviu do professor. Estudos recentes indicam que a ecolalia pode ser interpretada como uma tentativa de comunicação (WALTER; NUNES, 2009). É como se o indivíduo soubesse que precisa verbalizar algo, mas faltam-lhe “as palavras adequadas” ou o desenvolvimento dos mecanismos linguísticos adequados para manifestar algo. Durante a interação com o professor, por exemplo, Pedrinho “sabia” que precisava dizer alguma coisa para ganhar o chocolate. Como não conseguia “acessar” em sua mente as palavras adequadas, repetiu a fala do professor. A ecolalia pode, ainda, ser um indício de que a criança apresenta difi culdades em compreender a fala. Pedro, então, estaria repetindo a fala do professor, por não entender as palavras ouvidas. Apesar dos défi cits na compreensão da linguagem oral, estudos sugerem que pessoas com autismo são “pensadores visuais”, que melhor processam informa- ções por imagens do que por meio de palavras (NUNES; ARAÚJO, 2011). Assim, são capazes de compreender informações representadas grafi camente. Aula 10 Educação Inclusiva 221 Comportamento Estereotipias motoras, como sacudir as mãos, balançar o corpo e bater palmas repetitivamente, são condutas frequentemente observadas em alguns tipos de TEA. Outras características incluem o apego excessivo a determinados objetos, a resistência às mudanças e a insistência em determinadas rotinas. Nessa perspec- tiva, é comum o aluno experimentar extrema ansiedade quando ocorrerem alte- rações em seu cotidiano. Sendo assim, modifi cações na disposição das carteiras da sala ou alterações na programação das aulas podem desencadear problemas de comportamento em alguns alunos com TEA. A criança, quando brinca, pode parecer mais preocupada em alinhar ou manusear os brinquedos ao invés de usá-los de forma funcional. Assim, uma menina autista pode enfi leirar bonecas ou panelinhas ao invés de brincar com esses objetos em jogos de faz de conta. Da mesma forma, um menino pode passar uma parte expressiva do tempo rodando compulsivamente uma roda de um carrinho de brinquedos ao invés de colocá-lo em uma pista de corrida como os seus pares de mesma idade. Estudos indicam que as crianças com autismo podem permanecer até 40% de seu tempo na expressão dessas estereotipias, não alterando os comportamentos em função da situação social em que se encontram (WALTER; NUNES, 2009). Além disso, muitas pessoas com TEA podem manifestar interesses excessivos e atípicos, que prejudicam suas interações sociais. Um aluno de 6 anos pode, por exemplo, mostrar-se tão fascinado por elevadores que memorize os nomes e funções de todas as peças do equipamento, sem conseguir falar sobre outra temá- tica com seus colegas da escola. É importante salientar que esse comportamento pode ser considerado atípico quando não for um padrão de conduta observado no contexto social em que o aluno encontra-se inserido (NUNES; ARAÚJO, 2011). O desenvolvimento neurocerebral atípico explica, em parte, a hiper ou hi- posensibilidade sensorial que muitos indivíduos com TEA experimentam. Em outras palavras, seus sentidos podem mostrar-se muito (hiper) ou pouco (hipo) reativos a estímulos como a luz, o som, o toque, ou a certos cheiros e sabores (NUNES; ARAÚJO, 2011). Dessa forma, muitas crianças com TEA, que evidenciam hipersensibilidade podem não tolerar o tipo de iluminação de uma sala de aula, o som de um ar condicionado, a textura de uma roupa ou, até mesmo, ter náuseas diante do cheiro do giz utilizado na lousa. Por outro lado, o hipossensível, pode parecer fascinada diante de um sinal luminoso, mostrar grande interesse por objetos que fazem barulhos distintos (ventilador de teto, liquidifi cador, sons de um carro), abraçarcom muita intensidade as pessoas ou manifestar o hábito de cheirar objetos. No quadro a seguir estão descritos os comportamentos que são típicos de alunos que evidenciam hipo ou hipersensibilidade dos sentidos, em suas diversas modalidades. 3Atividade Aula 10 Educação Inclusiva222 Canal Hipersensibilidade Hiposensibilidade Auditivo Aborrece com barulhos; não consegue ler com barulho. Difi culdades em localizar fonte sonora; fala sozinho, faz barulhos com frequência. Visual Gosta de ler com pouca luz; difi culdade em focalizar atenção na aula. Difi culdades em encontrar materiais; não repara em detalhes. Gustativo e Olfativo Come limitado número de alimentos; não tolera cheiro da cantina. Cheira tudo; gosta de coisas com gosto e cheiro fortes. Tátil Não tolera: brincar na areia, comidas específi cas; certas roupas com texturas distintas. Toca as pessoas e objetos com frequência; não percebe a comida quando está na boca; insensibilidade tátil. Quadro 1 – Características sensoriais de alunos TEA Fonte: adaptado de Hefl in e Alaimo (2007). Caro aluno, agora que você leu um pouco mais sobre o assunto, defi na, com suas palavras, o que são os transtornos do espectro do autismo, salientando suas principais características. Aula 10 Educação Inclusiva 223 O que fazer professor (a)?! Considerando-se a heterogeneidade dos sintomas autistas, o tratamento mul- timodal, multidisciplinar e individualizado é imprescindível (NUNES; PEREIRA, 2011). Inexiste uma abordagem que possa ser universalmente aplicada a todas as crianças com TEA, mas a intervenção educacional deve, invariavelmente, fo- car nas seguintes áreas: habilidades sociocomunicativas, habilidades cognitivas (jogo simbólico, habilidades acadêmicas); e substituição de comportamentos disfuncionais (NRC, 2001). Considerando as características descritas anteriormente, em seguida serão descritas algumas estratégias que podem favorecer a inclusão acadêmica e social de alunos com TEA na sala de aula regular: n Isolamento social e interação com colegas – promova atividades em grupo, defi nindo, previamente, os participantes de cada grupo, ao invés de aguardar que os alunos se agrupem. Grupos pequenos, não excedendo cinco membros, são recomendáveis (MOORE, 2005). n Comportamentos atípicos (falta de contato ocular, difi culdade em compre- ender comunicação não verbal) – sensibilize a turma compartilhando com eles as difi culdades enfrentadas pelo colega. Essa iniciativa poderá poupar o aluno de muitos estigmas. n Compreensão literal – tome cuidado no uso da linguagem metafórica e seja muito claro (a) e preciso (a) em suas instruções. Assim, ao invés de dizer “voltaremos a mergulhar na história de Monteiro Lobato depois”, dizer, “voltaremos a ler a história de Monteiro Lobato depois do recreio”. n Distúrbios da comunicação receptiva – Como você viu anteriormente, as pessoas com espectro do autismo são, em geral, “pensadores visuais”, que melhor compreendem imagens do que as palavras faladas ou escritas (NUNES; ARAÚJO, 2011). Assim, o uso de recursos visuais, como datashow, mapas, fi guras, objetos reais e do quadro podem ser essenciais em suas au- las. Enquanto você fala, aponte para os estímulos visuais correspondentes. No exemplo seguinte, Figura 9, a professora verbaliza os números enquanto aponta para os mesmos no quadro. Aula 10 Educação Inclusiva224 Figura 9 – Múltiplas formas de expressão n Distúrbios da comunicação expressiva – Na aula sobre defi ciência física, des- crevemos como os sistemas de Comunicação Alternativo e Ampliado (CAA) podem auxiliar de forma signifi cativa os alunos que encontram-se incapazes de falar, devido à problemas motores. Está lembrado? Pois bem, esse recurso é indicado, também, para o aluno com autismo que apresenta difi culdades de comunicação. Esse aluno poderá utilizar, por exemplo, uma prancha, como a ilustrada a seguir, para fazer solicitações ou tecer comentários. CAA A CAA é uma categoria de Tecnologia Assistiva dedicada a ampliar as habilidades co- municativas de indivíduos que evidenciam limitações no uso e/ ou compreensão da linguagem oral. Ela envolve o uso de gestos manuais, expressões faciais e corporais, símbolos gráfi cos (fotografi as, gravuras, desenhos, linguagem alfabética, objetos re- ais e miniaturas), voz digitaliza- da ou sintetizada, dentre outros meios de viabilizar comunicação face a face. Figura 10 – Prancha de comunicação construída com símbolos PCS e fotografi as. Aula 10 Educação Inclusiva 225 Na fi gura anterior, o seu aluno poderá apontar para as imagens “eu quero” e, em seguida, “sanduíche” para indicar que está com fome. Se apresentar, tam- bém, difi culdades em compreender a fala, você poderá apontar para os diferentes símbolos enquanto verbaliza suas palavras correspondentes. Não pense que os recursos da CAA impedem que o aluno fale! Muito pelo contrário. Estudos indicam que uma forma de comunicação tende a estimular outra (WALTER; NUNES, 2009). Para auxiliá-lo na compreensão das palavras, é importante que você fale na medida em que o aluno aponta para as fi guras. Como você viu anteriormente, as pessoas com TEA tipicamente não conse- guem usar formas alternativas de comunicação, de forma espontânea. Nesse sentido, é preciso que você ensine o seu aluno a utilizar o sistema de CAA. n Ecolalia/ Inversão pronominal – não repreenda o aluno quando ele repetir o que você diz ou quando usar o pronome em terceira pessoa no lugar do pronome de primeira! Tente compreender, inicialmente, o que ele está ten- tando dizer. Ajude-o dando pistas das palavras que deverá usar. n Infl exibilidade do comportamento – Como você estudou anteriormente, o aluno com espectro do autismo pode apresentar intolerância às mudanças de rotina. Sendo assim, tente manter, na medida do possível, uma mesma rotina em sua sala de aula. As mudanças deverão ser previamente informa- das para o aluno. Para isso, é importante o uso de recursos visuais, como exemplifi cado na Figura 11: Figura 11 – Calendário visual No exemplo apresentado anteriormente, a rotina da aula é exposta grafi - camente. A substituição do recreio pela aula de música pode ser explicada de uma forma “concreta”, posicionando a fi gura da música em cima da imagem do recreio. Aula 10 Educação Inclusiva226 n Sensibilidade sensorial – Dependendo das características sensoriais de seu aluno, é importante realizar modifi cações no ambiente. No quadro a seguir, algumas alternativas de intervenção são sugeridas: Canal Hipersensibilidade Hiposensibilidade Auditivo Colocar música suave ou ruído com frequência constante (ex.: ar condicionado). Propor atividades barulhentas; permitir que o aluno use headphone; falar com infl exões exageradas; falar alto. Visual Reduzir decoração da sala ou permitir que aluno feche os olhos de tempos em tempos. Utilizar cores fortes no ambiente. Gustativo e Olfativo Gostos preferidos do aluno posto em diversos pratos ou permitir que coma longe da cantina. Adicionar gostos fortes a certas comidas; utilizar canetas com cheiro. Tátil Cortar etiqueta de roupas; deixar o aluno usar luvas. Realizar atividades com massa de modelar, pintura a dedo e areia. Quadro 2 – Estratégias de intervenção para alunos TEA Fonte: adaptado Hefl in e Alaimo (2007). 4Atividade Aula 10 Educação Inclusiva 227 Está lembrado de nossa primeira atividade? Pois bem, imagine que em seu primeiro dia de aula, como professor do 3º ano do ensino fundamental, você conhece Aluísio. A partir de um relatório entregue pela coordenadora da escola e de suas observações em sala de aula, você aprende que Aluísio: a) Apresenta autismo moderado e inteligência acima da média. b) Não se comunica utilizando a linguagem verbal. c) Seus gestos são limitados. d) Tem grande interesse por desenhos e imagens. e) Sabe ler e escrever. f) Parece ter interesse em interagir com os colegas. Tende a observá-los de longe,mas, quando se aproxima, tampa os ouvidos e se distancia. g) Tem limitada compreensão da fala. h) Problemas de atenção observados durante as aulas expositivas: olha conti- nuamente para o ventilador de teto, pisca os olhos e tampa os ouvidos. Considerando as características assinaladas, indique no quadro seguinte al- gumas adaptações que poderia fazer em sala para atender as necessidades edu- cacionais especiais de Aluísio. Característica Adaptação Limitada compreensão da fala Não se comunica verbalmente Difi culdade de aproximar-se dos colegas Problemas de atenção Leituras complementares Aula 10 Educação Inclusiva228 Caro aluno, para saber mais sobre TEA, acesse a apostila disponível on-line (apresentada a seguir). O fascículo narra o percurso histórico do autismo, delineia modelos explicativos sobre a síndrome e discute estratégias de ensino que favorecem a aprendizagem dessa população. BELISÁRIO FILHO, José Ferreira; CUNHA, Patrícia. A Educação Especial na Pers- pectiva da Inclusão Escolar: transtornos globais do desenvolvimento. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2010. v 9. (Coleção A Educação Especial na Perspectiva da Inclusão Escolar). Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br>. Acesso em: 18 dez. 2012. Para conhecer as potencialidades e as necessidades da pessoa com autismo, assista ao vídeo a seguir. Ele lhe ajudará a compreender como as pessoas com autismo e seus familiares se sentem. Veja como Carly, uma adolescente com autismo severo, justifi ca os comportamentos atípicos que exibe e como percebe o mundo ao seu redor. Observe, ainda, os efeitos da comunicação alternativa em sua interação com as pessoas. História de Carly. Disponível em: <http://www.autismoerealidade.com.br/ informe-se/fi lmes-sobre-autismo/>. Acesso em: 12 nov. 2012. Autoavaliação Que tal avaliar o que você aprendeu nessa aula? Indique se as afi rmativas a seguir estão corretas, inserindo V, se verdadeiro, e F, se falso. ( ) O autismo, na atualidade, é considerado um transtorno do desenvolvimento. ( ) No Brasil, os alunos com TEA estão inseridos em escolas especiais. ( ) Todos os indivíduos com TEA são defi cientes intelectuais. Resumo Aula 10 Educação Inclusiva 229 ( ) Pessoas com TEA apresentam difi culdades em utilizar formas não verbais de expressão, como gestos ou expressões faciais. ( ) Os comportamentos atípicos como tapar os ouvidos ou cheirar objetos po- dem ser, em parte, explicados pela hiper ou hipossensibilidade sensorial. ( ) A ecolalia deve ser repreendida, uma vez que não tem função comunicativa. ( ) Ter uma teoria da mente defi citária signifi ca apresentar defi ciência inte- lectual. ( ) As pessoas com autismo podem melhor compreender informações por meio de palavras do que através de imagens. ( ) A pessoa com autismo pode referir-se a si mesma com o pronome na ter- ceira pessoa (ele ou ela). ( ) O uso de sistemas de comunicação alternativo pode impedir que a criança com TEA desenvolva a linguagem oral. Neste encontro, você conheceu a história do autismo e o motivo pelo qual essa síndrome é considerada enigmática. Aprendeu que não existe um, mas diversos tipos de manifestação dessa síndrome. A heterogeneidade de sintomas identifi cados foi discutida. Por fi m, você pôde visualizar algumas estratégias que poderão ser utilizadas com alunos com TEA em sua sala de aula. Aula 10 Educação Inclusiva230 Referências ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: texto revisado. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2002. CAPOVILLA, Alessandra Gotuzo Seabra; ASSEF, Ellen Carolina dos Santos; CO- ZZA, Heitor Francisco Pinto. Avaliação neuropsicológica das funções executivas e relação com desatenção e hiperatividade. Aval.psicol. [online], v. 6, n. 1, p. 51-60, 2007. CENTER FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Autism Information Center. Disponível em: <http://www.cdc.gov/ncbddd/autism/index.html>. Acesso em: 12 nov. 2012. HEFLIN, L.; ALAIMO, D. Students with Autism Spectrum Disorders: Effective Instructional Practices. Upper Saddle River, N.J.: Pearson Prentice Hall, 2007. INEP. Censo Escolar do INEP. 2012. Disponível em: <http://www.inep.gov.br/ basica/censo/Escolar/>. Acesso em: 12 nov. 2012. 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SEDIS Secretaria de Educação a Distância – UFRN | Campus Universitário Praça Cívica | Natal/RN | CEP 59.078-970 | sedis@sedis.ufrn.br | www.sedis.ufrn.br 9 788542 500561 ISBN 978-85-425-0056-1 << /ASCII85EncodePages false /AllowTransparency false /AutoPositionEPSFiles false /AutoRotatePages /None /Binding /Left /CalGrayProfile (None) /CalRGBProfile (Apple RGB) /CalCMYKProfile (None) /sRGBProfile (sRGB IEC61966-2.1) /CannotEmbedFontPolicy /Error /CompatibilityLevel 1.3 /CompressObjects /Off /CompressPages true /ConvertImagesToIndexed true /PassThroughJPEGImages true /CreateJobTicket true /DefaultRenderingIntent /Default /DetectBlends false /DetectCurves 0.0000 /ColorConversionStrategy/LeaveColorUnchanged /DoThumbnails false /EmbedAllFonts true /EmbedOpenType false /ParseICCProfilesInComments true /EmbedJobOptions true /DSCReportingLevel 0 /EmitDSCWarnings false /EndPage -1 /ImageMemory 524288 /LockDistillerParams true /MaxSubsetPct 5 /Optimize false /OPM 1 /ParseDSCComments true /ParseDSCCommentsForDocInfo false /PreserveCopyPage true /PreserveDICMYKValues true /PreserveEPSInfo true /PreserveFlatness true /PreserveHalftoneInfo false /PreserveOPIComments false /PreserveOverprintSettings true /StartPage 1 /SubsetFonts true /TransferFunctionInfo /Remove /UCRandBGInfo /Remove /UsePrologue false /ColorSettingsFile (None) /AlwaysEmbed [ true ] /NeverEmbed [ true ] /AntiAliasColorImages false /CropColorImages true /ColorImageMinResolution 150 /ColorImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleColorImages true /ColorImageDownsampleType /Bicubic /ColorImageResolution 180 /ColorImageDepth -1 /ColorImageMinDownsampleDepth 1 /ColorImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeColorImages true /ColorImageFilter /DCTEncode /AutoFilterColorImages true /ColorImageAutoFilterStrategy /JPEG /ColorACSImageDict << /QFactor 0.76 /HSamples [2 1 1 2] /VSamples [2 1 1 2] >> /ColorImageDict << /QFactor 0.15 /HSamples [1 1 1 1] /VSamples [1 1 1 1] >> /JPEG2000ColorACSImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /JPEG2000ColorImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /AntiAliasGrayImages false /CropGrayImages true /GrayImageMinResolution 150 /GrayImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleGrayImages true /GrayImageDownsampleType /Bicubic /GrayImageResolution 180 /GrayImageDepth -1 /GrayImageMinDownsampleDepth 2 /GrayImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeGrayImages true /GrayImageFilter /DCTEncode /AutoFilterGrayImages true /GrayImageAutoFilterStrategy /JPEG /GrayACSImageDict << /QFactor 0.76 /HSamples [2 1 1 2] /VSamples [2 1 1 2] >> /GrayImageDict << /QFactor 0.15 /HSamples [1 1 1 1] /VSamples [1 1 1 1] >> /JPEG2000GrayACSImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /JPEG2000GrayImageDict << /TileWidth 256 /TileHeight 256 /Quality 30 >> /AntiAliasMonoImages false /CropMonoImages true /MonoImageMinResolution 1200 /MonoImageMinResolutionPolicy /OK /DownsampleMonoImages true /MonoImageDownsampleType /Bicubic /MonoImageResolution 1200 /MonoImageDepth -1 /MonoImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeMonoImages true /MonoImageFilter /CCITTFaxEncode /MonoImageDict << /K -1 >> /AllowPSXObjects false /CheckCompliance [ /None ] /PDFX1aCheck false /PDFX3Check false /PDFXCompliantPDFOnly true /PDFXNoTrimBoxError false /PDFXTrimBoxToMediaBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXSetBleedBoxToMediaBox true /PDFXBleedBoxToTrimBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXOutputIntentProfile (None) /PDFXOutputConditionIdentifier () /PDFXOutputCondition () /PDFXRegistryName () /PDFXTrapped /False >> setdistillerparams << /HWResolution [2400 2400] /PageSize [1700.700 1133.800] >> setpagedevice