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PROTEÇÃO INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS
GRAAL DA PROVA ORAL DO 30º CPR – 03/2023
Revisado e organizado por Karen L. L. A. e S. Reus
Sumário
1A. Direitos Humanos. Terminologia e a relação com direitos fundamentais. Estrutura. Fundamento. Evolução histórica. Os destinatários da proteção dos direitos humanos e os sujeitos passivos 4
1B. A proteção internacional no âmbito global e regional dos povos indígenas e comunidades tradicionais: órgãos, tratados e declarações. A proteção internacional da diversidade das expressões culturais. Os precedentes de tribunais e órgãos internacionais sobre os direitos dos povos indígenas. 7
1C. Os tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil. A formação, incorporação e hierarquia normativa. Duplo controle da proteção de direitos no Brasil. Os controles de convencionalidade e de constitucionalidade na proteção de direitos humanos. 16
2A. O sistema de petições individuais e interestatais nos tratados multilaterais de direitos humanos de âmbito global. A atuação da Corte Internacional de Justiça na proteção internacional de direitos humanos. 20
2B. A proteção internacional da integridade pessoal. Tortura como crime internacional. Tratados internacionais contra a tortura, tratamento cruel ou desumano celebrados pelo Brasil. O Protocolo de Istambul. A jurisprudência internacional sobre a tortura, tratamento cruel ou desumano. 23
2C. Interpretação dos direitos humanos. Resolução de conflitos entre direitos humanos. Limitabilidade dos direitos humanos. Restrições dos direitos humanos e suas espécies. Conteúdo essencial dos direitos humanos. 26
3A. Direitos Humanos. Classificações. Dignidade Humana e seus usos. Fontes internacionais da proteção de direitos humanos. O regime objetivo dos tratados de direitos humanos. Características das normas internacionais. Normas internacionais imperativas de direitos humanos. 32
3B. Proteção dos direitos das mulheres no Direito Internacional. Igualdade de gênero. Tratados internacionais no âmbito global e regional. A implementação no Brasil da promoção e proteção dos direitos das mulheres. 36
3C. A proteção internacional dos direitos sociais, econômicos e culturais. Obrigações do Estado na garantia dos direitos sociais, econômicos e culturais e relações com os direitos civis e políticos. A defesa dos direitos sociais, econômicos e culturais no sistema global e no sistema interamericano de direitos humanos. 41
4A. Os direitos previstos em tratados internacionais de direitos humanos adotados no âmbito da Organização das Nações Unidas. Os direitos previstos nos tratados de direitos humanos celebrados no âmbito da Organização dos Estados Americanos. 43
4B. Corte Interamericana de Direitos Humanos e sua Jurisdição Contenciosa e Consultiva. Procedimentos. O Conteúdo da Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. 52
4C. Universalidade dos direitos humanos. Multiculturalismo. Relativismo. Gramáticas diferenciadas de direitos. Abertura dos direitos humanos. Autonomia e indisponibilidade dos direitos humanos. 70
5A. Direitos humanos e superioridade normativa. Indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Eficácia dos direitos humanos nas relações entre particulares. Interseccionalidade e os direitos humanos. 74
5B. A proteção penal dos direitos humanos e seus fundamentos. Mandados internacionais de criminalização. Responsabilidade não penal de indivíduos no direito internacional pela participação em graves violações de direitos humanos. 79
5C. Direito à igualdade. Dimensões da igualdade e dever de inclusão. A proibição de discriminação. Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ONU). Convenção Interamericana contra o Racismo, Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância. Princípios de Yogyakarta sobre orientação sexual. Opinião Consultiva nº 24/2017 sobre a identidade de gênero igualdade e não discriminação a uniões homossexuais (Corte IDH). Sistemas de proteção e monitoramento. Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O combate à discriminação direta e indireta. Racismo institucional. 87
6A. Direitos humanos e seu caráter erga omnes. Exigibilidade dos direitos humanos. Aplicabilidade imediata dos direitos humanos. As dimensões subjetiva e objetiva dos direitos humanos. 94
6B. A Carta da Organização dos Estados Americanos e a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem. A atuação dos órgãos da Organização dos Estados Americanos na proteção de direitos humanos. 96
6C. Execução interna das decisões internacionais de direitos humanos. Supervisão internacional do cumprimento pelo Estado das deliberações de direitos humanos. O incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal. 98
7A. Internacionalização dos direitos humanos. Evolução histórica e antecedentes no Direito Internacional. O Direito Internacional de proteção às minorias. A Carta da Organização das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Declaração e Programa de Ação de Viena. 104
7B. Proteção dos direitos das pessoas com deficiência no direito internacional: órgãos, tratados e declarações. Direitos das pessoas com transtornos mentais. Direitos das pessoas com transtorno do espectro autista. 107
7C. Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas: composição, competências e funcionamento. Procedimentos especiais no âmbito do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas: evolução histórica, trâmites, tipos de deliberações e efetividade. 112
8A. Processos internacionais de proteção de direitos humanos. Espécies. Força vinculante dos tipos de deliberações internacionais de proteção de direitos humanos. Coordenação e conflito entre decisões internacionais de proteção de direitos humanos. Subsidiariedade da jurisdição internacional de direitos humanos. 116
8B. O sistema de relatórios periódicos nos tratados multilaterais de direitos humanos de âmbito global. O conteúdo das observações gerais dos Comitês criados por tratados multilaterais de direitos humanos. 119
8C. Justiça de transição, direito à verdade e à justiça. A proteção internacional dos direitos sexuais e reprodutivos 126
9A. A revisão periódica universal do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas. A proteção de direitos humanos perante o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. 133
9B. Política Nacional de Direitos Humanos. O Conselho de Direitos Humanos. Institutos e Órgãos de Defesa de Direitos Humanos. A Instituição Nacional de Direitos Humanos e a Organização das Nações Unidas. O Ministério Público e a Defesa dos Direitos Humanos 141
9C. Liberdade de locomoção. Liberdade de associação. Liberdade de consciência e liberdade religiosa. Liberdade de pensamento e expressão. A proteção internacional aos direitos dos presos. 146
10A. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos e sua atuação no âmbito da Convenção Americana de Direitos Humanos e demais tratados celebrados sob o patrocínio da Organização dos Estados Americanos. Procedimento das petições individuais e interestatais na Comissão Interamericana de Direitos Humanos. 152
10B. O sistema europeu de direitos humanos. Evolução histórica. Jurisdição contenciosa e consultiva: trâmite e modos de funcionamento. Métodos de interpretação e execução de decisões do sistema europeu de direitos humanos. 154
10C. O direito à vida e sua proteção. Pena de morte no Direito Internacional. Direito à intimidade, honra e imagem e as restrições possíveis. Liberdade de informação e sigilo de fonte. 160
1A. Direitos Humanos. Terminologia e a relação com direitos fundamentais. Estrutura. Fundamento. Evolução histórica. Os destinatários da proteção dos direitos humanos e os sujeitos passivos
Atualizado por José Weverton A. Lucas
I. Direitos Humanos. Terminologia e a relação com direitos fundamentais
Segundo ACR, os direitos humanos consistem em um conjunto de direitos considerado indispensável para uma vida humana pautada na liberdade, igualdade e dignidade.São os direitos essenciais e indispensáveis à vida digna.
A CF/88 usa termos variados (DH, dir. fundamentais, direitos da pessoa humana, etc). No Dir. Internacional há livre uso dessas expressões também (ex. DADH – “direitos essenciais do homem”; DUDH – “direitos do homem”). A imprecisão terminológica é resultado da evolução da proteção de certos direitos essenciais do indivíduo: “direito natural” revela a opção pelo reconhecimento de que esses direitos são inerentes à natureza do homem (ideia ultrapassada ao se constatar a historicidade de cada um destes direitos, sendo os direitos humanos verdadeiros direitos “conquistados”); “direitos do homem” retrata a mesma origem jusnaturalista da proteção de determinados direitos do indivíduo (contexto das revoluções liberais e caráter sexista da expressão); “direitos individuais” é tida como excludente, pois só abarcaria o grupo de direitos denominados de primeira geração; “liberdade pública” (expressão, de inspiração francesa, que ficou enfraquecida com a expansão do Estado Social).
Chega-se às duas expressões de uso corrente atualmente: DH e dir. fundamentais. A seguir a definição da doutrina tradicional e a posição de ACR:
1. os DH servem para definir os direitos estabelecidos pelo Direito Internacional em tratados e demais normas internacionais sobre a matéria, enquanto a expressão “direitos fundamentais” delimitaria aqueles direitos reconhecidos e positivados pelo Direito Constitucional de um Estado específico. ACR: o Dir. Internacional não é uniforme e nem sempre usa a expressão DH. O dir. interno tb pode adotar a expressão DH (como na CF/88);
1. Os DH, por sua matriz internacional, não seriam sempre exigíveis internamente, tendo então uma inspiração jusnaturalista sem maiores consequências; já os direitos fundamentais seriam aqueles positivados internamente e por isso passíveis de cobrança judicial. ACR: No sistema interamericano e europeu de direitos humanos, os direitos previstos em tratados podem também ser exigidos e os Estados podem ser cobrados pelo descumprimento de tais normas. A aproximação entre o Direito Internacional e o Direito Nacional (ex. art. 5º, §3º, da CF; reconhecimento da jurisdição da Corte IDH) fez essa diferenciação perder a importância. Os dir. fundamentais espelham, então, os DH.
II. Direitos Humanos. Estrutura
ACR: Os DH têm estrutura variada e acarretam obrigações do Estado ou de particulares revestidas, respectivamente, na forma de: (i) dever, (ii) ausência de direito, (iii) sujeição e (iv) incompetência, como segue. Podem ser:
1. direito-pretensão é a busca de algo, gerando a contrapartida de outrem do dever de prestar. Nesse sentido, determinada pessoa tem direito a algo, se outrem (Estado ou mesmo outro particular) tem o dever de realizar uma conduta que não viole esse direito. Assim, nasce o “direitopretensão”, como, por exemplo, o direito à educação fundamental, que gera o dever do Estado de prestá-la gratuitamente (art. 208, I, da CF/88);
1. direito-liberdade consiste na faculdade de agir que gera a ausência de direito de qualquer outro ente ou pessoa. Assim, uma pessoa tem a liberdade de credo (art. 5º, VI, da CF/88), não possuindo o Estado (ou terceiros) nenhum direito (ausência de direito) de exigir que essa pessoa tenha determinada religião;
1. direito-poder implica uma relação de poder de uma pessoa de exigir determinada sujeição do Estado ou de outra pessoa. Assim, uma pessoa tem o poder de, ao ser presa, requerer a assistência da família e de advogado, o que sujeita a autoridade pública a providenciar tais contatos (art. 5º, LXIII, da CF/88);
1. direito-imunidade consiste na autorização dada por uma norma a uma determinada pessoa, impedindo que outra interfira de qualquer modo. Assim, uma pessoa é imune à prisão, a não ser em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar (art. 5º, LVI, da CF/88), o que impede que outros agentes públicos (como, por exemplo, agentes policiais) possam alterar a posição da pessoa em relação à prisão.
III. Direitos Humanos. Fundamento
0. Jusnaturalista: existe um conjunto de normas vinculantes anterior e superior ao sistema de normas fixadas pelo Estado. Na Idade Média, é incentivado pela visão religiosa de São Tomás de Aquino, para quem a lex humana deve obedecer a lex naturalis, que era fruto da razão divina, mas perceptível aos homens. No plano internacional, Hugo Grotius sustentava, no século XVI, a existência de um conjunto de normas ideais, fruto da razão humana. Nos séculos XVII e XVIII, essa corrente jusnaturalista impõe a consagração da razão e laicidade das normas de direito natural. Os iluministas fundam o jusnaturalismo contratualista, que aprofunda o racionalismo e o individualismo (os DH são concebidos como direitos atemporais, inerentes à qualidade de homem de seus titulares). Traço marcante da corrente jusnaturalista (religiosa ou contratualista): cunho metafísico, pois se funda na existência de um direito preexistente ao direito produzido pelo homem, oriundo de Deus (escola de direito natural de razão divina) ou da natureza inerente do ser humano (escola de direito natural moderno).
0. Positivismo Nacionalista: A consolidação do Estado constitucional inseriu os direitos humanos tidos como naturais (jusnaturalismo de direitos humanos) no corpo das Constituições e das leis, sendo agora considerados direitos positivados. O fundamento dos DH aqui consiste na existência da norma posta, os DH justificam-se graças a sua validade formal. Risco aos DH gerado pela adoção do positivismo nacionalista: normas locais (inclusive as constitucionais) não protegerem ou reconhecerem determinado direito ou categoria de direitos humanos.
0. Utilitarismo Clássico: (Jeremy Bentham e Stuart Mill – Séc. XVIII e XIX). Crítica aos jusnaturalistas contratualistas. Sustenta, no campo dos direitos humanos, que a avaliação de uma conduta decorre de suas consequências e não do reconhecimento de direitos. Assim, determinado ato é – ou não – reprovável de acordo com as circunstâncias e consequências.
0. Socialismo e comunismo: Séc. XIX e XX. Compreensão das sociedades humanas no contexto da história da luta de classes e descrença na linguagem dos direitos das revoluções liberais, pois: os DH eram reconhecidos em abstrato, não levando em consideração os meios de implementação desses dispositivos; a eliminação da luta de classes e do próprio Estado tornaria dispensável a atuação dos DH no papel de restrição ao poder do Estado e promoção da autonomia do indivíduo.
IV. Direitos Humanos. Evolução histórica
a. Antiguidade: Comparato diz que é possível verificar um fragmento de preocupação com os DH em qualquer época da história da humanidade, o que ele chama de era axial da historia, porém não da forma como se entende hoje, porque ainda havia algumas incongruências (ex. escravidão), mas já se tinha certa preocupação.
b. Séc. XVII e XVIII: o momento de afirmação dos DH se deu nas revoluções liberais (inglesa de 1689; americana com a independência de 1776 e declaração de Virginia; e francesa). O iluminismo, com forte discurso jusnaturalista, reconheceu que os DH são direitos inerentes ao ser humano e por isso poderiam ser opostos às regras do Estado absoluto. Qual é a base desse discurso iluminista? Todos nascem livres e iguais. A rev. Francesa foi a que gerou maior impacto, pois, ao contrário das outras, teve consequências internacionais, foi universalista. Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão como sendo a primeira com vocação universal.
c. Séc. XIX e XX: Positivação Nacional dos DH pelas Constituições Nacionais: No Brasil, isso se deu a partir da Constituição de 1824. Qual é a vantagem e a desvantagem dessa terceira fase que se inaugurou no século XIX? Vantagem dessa fase: Uma efetividade maior aos DH, pois contavam com o força do Estado. Desvantagem: Os DH caíram numa “armadilha”. E se um Estadonão reconhecesse um Direito? Se um Estado violasse o Direito de uma minoria? Esta previsão se concretizou durante a 2ª Guerra, o que levou a uma ruptura com o paradigma Positivista, e favoreceu a internacionalização e reconstrução dos DH.
d. Séc. XX até hoje: a internacionalização se inicia se inicia a partir da Carta da ONU de 1945 e da DUDH-1948. O direito internacional dos DH tem grandes antecedentes históricos: proteção diplomática; luta por direitos específicos (ex. combate ao tráfico de escravos); direito das minorias; direito trabalhistas (criação da OIT). Porém, ACR destaca que são antecedentes, em geral, temáticos ou discriminatórios, e não tem nada a ver com a proteção internacional dos dias de hoje, consagrada, como dito, com a Carta da ONU e DUDH.
V. Destinatários da proteção e sujeitos passivos
Os DH, por definição, são direitos de todos os indivíduos, não importando origem, religião, grupo social ou político, orientação sexual e qualquer outro fator. Esse é o sentido do art. 5º da CF/88, que prevê que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Apesar disso, há ainda direitos referentes a determinada faceta da vida social que são titularizados somente por determinadas categorias de pessoas. Por ex., a CF/88 elenca direitos referentes às mulheres, aos idosos, aos povos indígenas, aos presos, aos condenados, aos cidadãos, aposentados, aos necessitados, entre outros. A igualdade é respeitada, pois esses direitos específicos visam atender situações especiais voltadas a tais categorias, consagrando a máxima de “tratar desigualmente os desiguais” como forma de se obter a igualdade material de todos.
Na jurisprudência brasileira, foi controvertida a extensão dos direitos previstos na Constituição a estrangeiros não residentes. A origem da polêmica está na redação do art. 5º, caput, da CF/88, que garante “aos brasileiros e estrangeiros residentes” os direitos elencados no rol desse artigo. A redação da Constituição reproduz a tradição constitucional brasileira desde a Constituição de 1891, com apego ao termo “estrangeiro residente”. Porém, os direitos previstos na Constituição são estendidos aos estrangeiros não residentes, uma vez que ela própria defende a dignidade humana (art. 1º, III) e ainda prevê os direitos decorrentes dos tratados celebrados pelo Brasil (art. 5º, §§ 2º e 3º). Nesse sentido, decidiu o STF que “ao estrangeiro, residente no exterior, também é assegurado o direito de impetrar mandado de segurança, como decorre da interpretação sistemática dos arts. 153, caput, da Emenda Constitucional de 1969 e do 5º, LXIX, da Constituição atual” (RE 215.267, Rel. Min. Ellen Gracie, julgamento em 24-4-2001,Primeira Turma, DJ de 25-5-2001). No mesmo sentido, decidiu o STF que “a condição jurídica de não nacional do Brasil e a circunstância de o réu estrangeiro não possuir domicílio em nosso País não legitimam a adoção, contra tal acusado, de qualquer tratamento arbitrário ou discriminatório. Precedentes” (HC 94.016, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 16-9-2008, Segunda Turma, DJE de 27-2-2009). Entendemos, nessa linha, que não pode o estrangeiro não residente sofrer discriminação na matrícula na educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade (art. 208, I) ou na prestação de saúde pública, que, conforme o texto constitucional, é universal e gratuita (art. 196), bem como na assistência jurídica integral gratuita.
A segunda polêmica referente aos destinatários da proteção está na possibilidade de pessoa jurídica de direito privado ser titular de direitos fundamentais. A resposta da jurisprudência é positiva, desde que o direito invocado tenha pertinência temática com a natureza da pessoa jurídica. Por exemplo, as pessoas jurídicas têm direito à imagem e a honra objetiva, acesso à justiça e até mesmo assistência jurídica gratuita. Nesse último caso, contudo, cabe à pessoa jurídica provar e não somente alegar a insuficiência de recursos. Nesse sentido decidiu o STF que “ao contrário do que ocorre relativamente às pessoas naturais, não basta a pessoa jurídica asseverar a insuficiência de recursos, devendo comprovar, isto sim, o fato de se encontrar em situação inviabilizadora da assunção dos ônus decorrentes do ingresso em juízo” (Rcl 1.905-ED-AgR, Rel. Min. Marco Aurélio, julgamento em 15-8-2002, Plenário, DJ de 20-9- 2002).
No campo tributário, as pessoas jurídicas têm direito ao tratamento tributário constitucional, inclusive quanto à anterioridade tributária que o STF considerou parte integrante dos direitos e garantias individuais, ou ainda ao sigilo fiscal (que,na visão do STF, decorre do direito à intimidade).
Há ainda direitos que são titularizados especificamente pelas pessoas jurídicas de direito privado, como as associações, que são mencionadas nos incisos XVII a XXI do art. 5º, ou os sindicatos no disposto do art. 8º e os partidos políticos no art. 17.
Também a pessoa jurídica de direito público pode utilizar as garantias fundamentais para sua proteção. Nesse sentido, decidiu o STF: “Não se deve negar aos Municípios, peremptoriamente, a titularidade de direitos fundamentais e a eventual possibilidade de impetração das ações constitucionais cabíveis para sua proteção.
O STJ tem admitido a possibilidade de pessoa jurídica de direito público ser indenizada por danos morais relacionados à violação da honra ou da imagem, quando a credibilidade institucional for fortemente agredida e o dano reflexo sobre os demais jurisdicionados em geral for evidente. (REsp 1.722.423-RJ, julgado em 24/11/2020).
São ainda destinatários da proteção de direitos humanos os entes despersonalizados, que podem invocar determinados direitos pertinentes com sua situação (por exemplo, acesso à justiça) como as sociedades de fato, condomínio, espólio, massa falida e o nascituro.
Rothenburg menciona a discussão recente (e minoritária) sobre a titularidade de direitos fundamentais por outros seres vivos (fauna e flora), projetando a gramática dos direitos humanos para um paradigma biocêntrico ou ecocêntrico. Como exemplo, o citado autor menciona o art. 71 da Constituição do Equador (2008), que prevê expressamente que “a natureza ou Pacha Mama, onde a vida se reproduz, tem direito a que se respeitem integralmente sua existência e a manutenção e regeneração de seus ciclos vitais, estrutura, funções e processos evolutivos”.
Quanto aos sujeitos passivos, o Estado é, em geral, o responsável pelo cumprimento dos direitos humanos, de todas as gerações ou dimensões. Entretanto, há ainda a invocação dos direitos humanos em face de particulares (eficácia horizontal e diagonal) e ainda em face da sociedade. A CF/88 expressamente menciona a família no polo passivo do direito à educação (art. 205), além do Estado, a sociedade no polo passivo do direito à seguridade (art. 195) e a coletividade, no polo passivo do direito ao meio ambiente equilibrado (art. 225).
No sentido de reconhecer o dever de todos na proteção de direitos humanos, o STF decidiu que o uso do amianto pelos agentes econômicos viola os direitos à vida, à saúde e o direito ao meio ambiente equilibrado. Assim, na ADI 3937 e nas ADIs 3406 e 3470, o STF decidiu que são constitucionais as leis estaduais que proíbem ou estabelecem a progressiva substituiçãodo produto. Também foi declarada, incidentalmente, a inconstitucionalidade do art. 2º da lei federal que autorizava o uso do amianto (ADI 3.937, rel. p/ o ac. Min Dias Toffoli, j. 24-8-2017, P, Informativo 874, e também ADI 3.406 e ADI 3.470, rel. Min. Rosa Weber).
1B. A proteção internacional no âmbito global e regional dos povos indígenas e comunidades tradicionais: órgãos, tratados e declarações. A proteção internacional da diversidade das expressões culturais. Os precedentes de tribunais e órgãos internacionais sobre os direitos dos povos indígenas.
Atualizado por Karen L L A e S Reus
I. A proteção internacional no âmbito global e regional dos povos indígenas e comunidades tradicionais: órgãos, tratados e declarações. A proteçãointernacional da diversidade das expressões culturais.
Legislação básica: Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural (2001). Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (2005). Convenção 169 da OIT. Declaração da ONU sobre os Direitos dos Indígenas. Decreto 80.978/77 (Convenção Relativa à Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, de 1972). Decreto 2.519/98 (Convenção sobre Diversidade Biológica, de 1992). Decreto n.º 6.040/07 (Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais). Lei 14.458/22 (Barreiras Sanitárias em terras Indígenas). Resolução CNMP 230/2021.
Povos indígenas e comunidades tradicionais em face do DI. Para o DI a expressão "povo" está ligada ao princípio da autodeterminação dos povos (art. 1º, item 2, da Carta da ONU e art. 1º, item 1, do PIDESC), o que confere o direito de determinar livremente o seu "estatuto político". A resolução 1514 (XV), conhecida como Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais, adotada em 1960, por 89 votos a 0, com 9 abstenções, afirmava categoricamente que "todos os povos têm direito a autodeterminação; em virtude desse direito, livremente determinam seu 'status' político e livremente buscam seu desenvolvimento econômico, social e cultural (Shaw, p. 188). A CF não utiliza a expressão "povos indígenas", mas sim "índios" (art. 20, XI, 231 e 232), "comunidade", "organização" ou "grupos" indígenas (art. 210, § 2º), "populações indígenas" (art. 22, XIV, 129, V) e "cultura indígena" (art. 215, § 1º). Conforme afirmou o Min. Ayres Britto, quando do julgamento da ação popular referente à terra indígena Raposa Serra do Sol, nenhuma das comunidades indígenas brasileiras detém estrutura normativa para comparecer perante a ordem jurídica internacional como 'nação', 'país', 'pátria', 'território nacional' ou 'povo independente' [...], o que de pronto nos leva a, pessoalmente, estranhar o fato de agentes públicos brasileiros aderirem, formalmente, aos termos da recente 'Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas [...], porquanto são termos afirmativos de um suposto direito à autodeterminação política a ser 'exercido em conformidade com o direito internacional'.
Todavia, a legislação posterior a 1988 tem se valido do termo "povos indígenas", como se vê no Decreto de 13.7.06 e no Decreto n. 6.040/07. Este último, no art. 3º, I, define povos e comunidades tradicionais como grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica, utilizando conhecimentos e inovações e práticas gerados e transmitidos pela tradição. A Convenção 169 da OIT, ao se referir a "povos indígenas", não o faz no sentido que lhe é dado pelo DIP, conforme art. 1º, item 3: a utilização do termo "povos" na presente Convenção não deverá ser interpretada no sentido de ter implicação alguma no que se refere aos direitos que possam ser conferidos a esse termo no direito internacional, ou seja, "o direito de criação de novos Estados" (Ela Wiecko).
A Convenção Sobre a Diversidade Biológica de 1992 não menciona "povo indígena", mas sim "comunidade indígena" (art. 8º, "j"). Contudo, a expressão "povos indígenas" foi incorporada a vários instrumentos internacionais. A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2007, adotou expressamente o termo "povos indígenas", mas ressalvou no art. 46 que nada do que nela estiver disposto se interpretará 'no sentido de que concede a um Estado, povo, grupo ou pessoa, qualquer direito de participar em qualquer atividade ou realizar qualquer ato contrário à Carta das Nações Unidas, nem se entenderá no sentido de que autoriza ou fomenta qualquer ação direcionada a desmembrar ou afetar, no todo ou em parte, a integridade territorial ou a unidade política dos Estados soberanos e independentes (Ela Wiecko). A autora destaca que não há mais por que recusar a expressão "povos" indígenas ou culturais, pois esta expressão é compatível com valores e princípios adotados na CF/88, bem como com direitos culturais dessas populações, e expressa melhor esses valores, princípios e direitos. Segundo Duprat, os documentos jurídicos alusivos à "povos" e "comunidades tradicionais" exprimem uma característica central: o princípio da DPH inclui a proteção à sua liberdade expressiva, em especial a de dizer, autarquicamente, quem é e quais são as suas convicções de vida" e lembra que a Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural proclama, em seu art. 4º, que a 'defesa da diversidade cultural é um imperativo ético, inseparável do respeito à dignidade da pessoa humana'. No Brasil, são reconhecidos como comunidades tradicionais as populações indígenas, quilombolas, ribeirinhos, quebradeiras de coco babaçu, seringueiros, faxinalenses, comunidades de fundos de pasto, pomeranos, ciganos, geraizeiros, vazanteiros, piaçabeiros, pescadores artesanais, pantaneiros, afro-religiosos e demais sujeitos sociais emergentes, cujas identidades coletivas se fundamentam em direitos territoriais e numa autoconsciência cultural.
Convenção 169 da OIT. Promulgada pelo Decreto 5.051/2004.A Convenção 169 da OIT é o mais importante tratado internacional de direitos humanos sobre direitos dos povos indígenas e tribais.
Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais de 2005. Para esta convenção, "a diversidade cultural e uma característica essencial da humanidade e patrimônio comum da humanidade"; cria um mundo rico e variado que aumenta a gama de possibilidades; e um dos principais motores do desenvolvimento sustentável das comunidades, povos e nações e ao florescer em um ambiente de democracia, tolerância, justiça social e mútuo respeito entre povos e culturas, é indispensável para a paz e a segurança no plano local, nacional e internacional. Em seu art. 1º fixa os seguintes objetivos: a) proteger e promover a diversidade das expressões culturais; b) criar condições para que as culturas floresçam e interajam livremente em beneficio mutuo; c) encorajar o diálogo entre culturas a fim de assegurar intercâmbios culturais mais amplos e equilibrados no mundo em favor do respeito intercultural e de uma cultura da paz; d) fomentar a interculturalidade de forma a desenvolver a interação cultural, no espírito de construir pontes entre os povos; e) promover o respeito pela diversidade das expressões culturais e a conscientização de seu valor nos planos local, nacional e internacional; f) reafirmar a importância do vínculo entre cultura e desenvolvimento para todos os países, especialmente para países em desenvolvimento, e encorajar as ações empreendidas no plano nacional e internacional para que se reconheça o autêntico valor desse vinculo; g) reconhecer natureza especifica das atividades, bens e serviços culturais enquanto portadores de identidades, valores e significados; h) reafirmar o direito soberano dos Estados de conservar, adotar e implementar as políticas e medidas que considerem apropriadas para a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais em seu território; i) fortalecer a cooperação e a solidariedade internacionais em um espírito de parceria visando, especialmente, o aprimoramento das capacidades dos países em desenvolvimento de protegerem e de promoverem a diversidade das expressões culturais. Seus princípios estão no art. 2º: a) princípio do respeito aos Direitos Humanos e às liberdades fundamentais, especialmente a liberdade de expressão, informação e comunicação, e a de escolha pelos indivíduos das expressões culturais; b) princípio da soberania, o qual garante aos Estados o direito de adotar as medidas e políticas de proteção e promoção da diversidade das expressões culturais em seus territórios; c) princípio da igual dignidade e do respeito por todas as culturas; d) princípio da solidariedade e cooperaçãointernacionais. Esse princípio visa criar e fortalecer os meios necessários à expressão cultural. e) princípio da complementaridade dos aspectos econômicos e culturais do desenvolvimento. Esse princípio considera a cultura um dos motores fundamentais do desenvolvimento. Considera os aspectos culturais tão importantes quanto os econômicos. f) princípio do desenvolvimento sustentável, pois sem a proteção, promoção e a manutenção da diversidade cultural é condição essencial para o desenvolvimento sustentável em prol das gerações futuras e atuais. g) princípio do acesso equitativo; h) princípio da abertura e do equilíbrio, isto é a abertura a outras culturas do mundo para favorecer a diversidade das expressões culturais. Diretiva expressa aos Estados contidas na Convenção de 2005 da UNESCO: Os Estados devem encorajar indivíduos e grupos sociais a criar, produzir, difundir, distribuir suas próprias expressões culturais, e a elas ter acesso, conferindo a devida atenção as circunstâncias e necessidades especiais da mulher, assim como dos diversos grupos sociais, incluindo as pessoas pertencentes às minorias e povos indígenas.
Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2007 (Portela, 2014, pags. 886/889). Aprovada pela Resolução ½ do Conselho dos Direitos Humanos da ONU de 2006 e Resolução 61/295 da Assembleia Geral da ONU de 2007. Como mera declaração que é, não tem formalmente caráter vinculante (instrumento de soft law). Porém, é de grande importância política. Também, serve de referência para legislação internacional e nacional na matéria e na formulação e execução de políticas nacionais internacionais para as comunidades tradicionais. Declaração visa a construir um novo passo importante para o reconhecimento, a promoção e proteção dos direitos e liberdades dos povos indígenas e para o desenvolvimento de atividades pertinentes ao sistema das Nações Unidas nessa área. Em seus considerandos, parte da noção e que os povos indígenas têm os mesmos direitos de todos os demais grupos humanos. Fundamenta-se na noção de que tais povos devem ser respeitados em suas particularidades, as quais contribuem para a maior diversidade e a riqueza das civilizações e culturas, que constituem patrimônio comum da humanidade, bem como para o desenvolvimento sustentável. Denega a noção de superioridade de um povo frente ao outro. Declara que os povos indígenas são vítimas de injustiças históricas, que impedem o exercício de seus direitos. Lembra que os direitos dos povos indígenas são assuntos de interesse e responsabilidade internacional. Logo no art. 1º, reafirma que os indígenas têm direito, a título coletivo ou individual, ao pleno desfrute de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais reconhecidos pela Carta da ONU, a DUDH e o direito internacional dos direitos humanos. Entre os art.s 2º a 40, consagra um significativo rol de direitos em favor das comunidades, dentre os quais merece destaque: direito à autodeterminação (determinam livremente sua condição política e buscam livremente seu desenvolvimento econômico, social e cultural); direito à autonomia ou ao autogoverno (nas questões relacionadas a seus assuntos internos e locais, assim como a disporem dos meios para financiar suas funções autônomas); direito de conservar e reforçar suas próprias instituições políticas, jurídicas, econômicas, sociais e culturais (arts. 3/5); direito a manter e desenvolver seus sistemas ou instituições políticas, econômicas e sociais (art. 20) e a determinar e elaborar prioridades e estratégias para o exercício do seu direito ao desenvolvimento (art. 23). Além desses, prevê: direito à vida, à integridade física e mental, à liberdade e à segurança pessoal, proibição do genocídio (em qualquer de suas formas), proibição da assimilação forçada, proibição à privação de terras ou remoção compulsória de suas áreas, destruição de sua cultura, entre outros (arts. 7, 8 e 10). Os arts. 11/16, 24/25 e 33/34, consagra o direito de preservar suas culturas, tradições, costumes e práticas religiosas, incluindo o direito a conservar locais e bens de relevância cultural; consagra direito de estabelecer e controlar seus sistemas e instituições educativas, que ofereçam educação em seus próprios idiomas, em consonância com seus métodos culturais de ensino e aprendizagem, bem como o de que suas tradições e histórias sejam refletidas na educação pública. Ainda: desfrutar de todos os direitos trabalhistas estabelecidos no direito internacional e nacional (art. 17); participar da tomada de decisões sobre questões que afetem seus direitos, por meio de representantes por eles eleitos de acordo com seus próprios procedimentos (art. 18); estados devem melhorar condições sociais e econômicas dos indígenas, como educação, emprego, habitação, saneamento, saúde e seguridade social (arts. 21/22); direito às terras, recursos que possuem e ocupam tradicionalmente (arts. 26/28 e 32); proibição de atividades militares em seus territórios ou depósito/eliminação de materiais perigosos (arts. 29/31). Como visto, a declaração não reconhece direito à secessão dos povos indígenas (art. 46) e de suas disposições no tocante à autodeterminação dos povos indígenas. O rol de direitos dos povos indígenas não lhes confere imunidade frente às autoridades dos Estados em cujos territórios se encontrem nem tampouco os exime de cumprir obrigações impostas indistintamente aos cidadãos do país onde estejam.
MPF. Institucionalmente o MPF quer garantir os direitos dos povos e comunidades tradicionais, especialmente: índios e quilombolas; comunidades extrativistas e ribeirinhas; ciganos e outros. A atuação do MPF visa assegurar a esses povos: demarcação, titulação e posse das terras tradicionalmente ocupadas; saúde e educação; registro civil, com autoidentificação; autossustentação; e preservação cultural. O MPF também age para que o uso da terra pelas comunidades tradicionais ocorra dentro dos princípios de desenvolvimento sustentável, baseado na geração de renda a partir da manutenção dos recursos naturais. A instituição se orienta por estudos antropológicos sobre os costumes, tradições e necessidades desses povos e pelo preceito constitucional que estabelece a pluralidade de etnias e culturas do Estado brasileiro. A atuação do MPF na defesa dos direitos das comunidades tradicionais ocorre principalmente por meio de: ações civis públicas; termos de ajustamento de conduta; recomendações a órgãos governamentais como Funai, Funasa e Incra. O MPF também propõe políticas de educação e saúde para essas comunidades e age como mediador de conflitos pela posse de terras ocupadas por indígenas, quilombolas ou ribeirinhos, assim como em negociações entre a Funai e lideranças indígenas (indispensável leitura de TODOS os enunciados da 2ª CCR, considerando que foram revisados e instituídos no final de 2014).
Considerações finais. Decálogo dos direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais (Duprat): 1) O Brasil é uma sociedade plural, onde se respeitam todos os grupos étnico-culturais; 2) Cada grupo étnico-cultural constitui uma coletividade com modos próprios de fazer, criar e viver; 3) Esses grupos têm, em comum, uma relação especial com o território, relação esta que tem que ser protegida, porque indissociável da identidade; 4) O direito a manter essa relação com o território, porque de natureza fundamental, é de aplicação imediata; 5) Não é possível o deslocamento desses grupos de seus territórios tradicionais, salvo situação de absoluta excepcionalidade, garantido o seu retorno tão logo cesse a causa que o determinou; 6) Qualquer atividade a ser desenvolvida por terceiros, no âmbito desses territórios tradicionais, depende do consentimento informado do grupo; 7) A identidade do grupo apenas por este é definida (critério da autoatribuição); 8) Não pode haver, num Estado plural, disputa por direitos identitários. Eventual controvérsia está limitada a alguns direitos conferidos em função da identidade; 9) A cultura, porque definida enquanto modo de viver, criar e fazer deum grupo, é um processo dinâmico, que se renova dia a dia. Acabam as categorias aculturado/selvagem, e nenhum grupo é obrigado a ficar imobilizado no tempo para ter direitos decorrentes de sua identidade/cultura; 10) O direito nacional, em face desses grupos, há de ser aplicado tendo em vista as suas especificidades, sendo assegurado aos seus membros que possam entender e fazer-se entender nas suas atuações políticas, jurídicas e administrativas.
II. Os precedentes de tribunais e órgãos internacionais sobre os direitos dos povos indígenas.
a) Mayagna (Sumo) Awas Tingni x Nicaraguá - Em 1995, Nicarágua admitiu que a empresa companhia Sol del Caribe (SOLCARSA) explorasse madeira em terras que pertenciam à comunidade indígena Mayagna (Sumo) Awas Tingni. Todas as medidas judiciais propostas pela comunidade indígena foram consideradas intempestivas. Em 2001, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, reconheceu a responsabilidade da Nicarágua ao violar o direito à proteção judicial e à propriedade. A Corte Interamericana decidiu necessidade da Nicarágua implementar medidas legislativas e administrativas eficazes no processo de delimitação, demarcação e titulação das terras indígenas. Ordenou que fossem realizadas todas as medidas necessárias para que as terras pertencentes aos membros da comunidade indígena Awas Tingni fossem demarcadas, não podendo ocorrer qualquer intervenção prevista pelo regime de concessão – até que o processo de demarcação de terras seja finalizado. Por fim, condenou o Estado de Nicarágua a realizar investimentos em obras ou serviços de interesse coletivo que pudessem levar benefícios para os Awas Tingni como forma de reparação pelo dano imaterial causado aos membros da população tradicional envolvida. Primeiro caso julgado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos envolvendo a relação entre as comunidades tradicionais e a propriedade de suas terras. Ampliação do conceito de propriedade previsto no artigo 21 da Convenção Americana de Direitos Humanos: A proteção da propriedade comunal dos povos indígenas. Impossibilidade de conferir interpretação nacionalista aos Tratados Internacionais de Direitos Humanos;
b) Caso Comunidade Moiwana vs. Suriname-Exército de Suriname massacrou e exilou a comunidade N'djuka Maroon, de Moiwana. CORTE IDH [2005]: Preliminarmente, afastou-se a incompetência rationi temporis - embora o ataque tenha ocorrido em data anterior ao reconhecimento da competência contenciosa da Corte, a denegação de justiça (descumprimento do dever de investigar) e o deslocamento das vítimas (impossibilidade de retornarem às suas terras ancestrais) ocorreram após. Violações reconhecidas: Direito à integridade física-psíquica-moral; Direito de circulação e residência; Direito à propriedade tradicional; Direito de acesso à justiça e devido processo; Impossibilidade dos membros honrarem apropriadamente seus membros falecidos (rituais de morte). Reparações: Investigar, processar e punir; recuperar os restos mortais; Outorgar aos membros da comunidade o título de proprietários da terra; Construção de monumento.#OBS.:Direito a um Projeto de Pós-Vida: Além do já reconhecido direito de projeto de vida (Tamayo). Trata-se de forma agravada de dano moral, relacionada às crenças no destino da humanidade e suas relações com os mortos - Dano Espiritual (right to Project After Life). (Cançado Trindade). A CORTE IDH estendeu (analogia) sua tradicional jurisprudência sobre povos indígenas a outras comunidades étnicas (especificamente quanto às terras).Greening:Esverdeamento dos DH's. Fenômeno de proteção de direitos de cunho ambiental (sociais), mesmo nos sistemas regionais de DH's (criados, originariamente, para examinar violações somente de direitos civis/políticos).
c) CASO YATAMA vs. NICARAGUÁ- A organização indígena YATAMA, que há décadas representava o grupo nos pleitos eleitorais, viu-se excluída das eleições da Nicarágua em virtude de alteração legislativa, sem possibilidade de revisão da consequente decisão do órgão maior de sua Justiça Eleitoral. CIDH [2005]:Decidiu-se que o Poder Judiciário da Nicarágua violou o dever de motivação; bem como os Princípios da Igualdade e Não-Discriminação; e ainda, não houve possibilidade de recurso efetivo para revisão da decisão. Determinou-se a publicação da sentença; a indenização ao YATAMA; a necessidade de criação de um recurso judicial para reavalizar as decisões do órgão máximo eleitoral; a reforma eleitoral a fim de que as comunidades indígenas participassem das eleições em condições de igualdade.#OBS:Primeiro caso que a Corte examina matéria eleitoral;Primeira vez que a Corte examina, concretamente, o direito à Igualdade e Não-Discriminação ("Direito da Antidiscriminação"); Corte reconhecer que o Princípio da Igualdade Material possui natureza de jus cogens. Até agora, o Estado da Nicarágua não tomou nenhuma medida para reformar sua legislação eleitoral, sendo esta rotineiramente aplicada nos pleitos eleitorais nicaraguenses. Logo, convém relembrar que o descumprimento da decisão proferida no Caso YATAMA vs. NICARÁGUA pelo Governo nicaraguense poderá ensejar nova responsabilização internacional por violação de direitos humanos diante da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
d) CASO POVO INDÍGENA KICHWA SARAYAKU vs. EQUADOR- Em 1996, Estatal de Petróleo do Equador (PETROEQUADOR) firmou um contrato com empresa argentina, para a exploração de petróleo em uma área da comunidade indígena SARAYAKU. Dois anos após a celebração do contrato, o Estado equatoriano ratificou a Convenção 169 da Organização do Trabalho (OIT), diploma que prevê o direito de consulta `as populações indígenas em caso de empreendimentos ou intervenções que possam afetar suas terras e o modo em que desempenham sua cultura. Também no ano de 1998, o Equador promulgou uma nova Constituição, na qual também há a previsão do direito de consulta às comunidades indígenas. Em 2002, a Companhia começou a realizar suas atividades na área, foram destruídas fontes de água potável pela comunidade indígena SARAYAKU e implantou explosivos. A CIDH condenou o Estado do Equador por violar direitos da comunidade indígena SARAYAKU, tais como a propriedade comunal e a identidade cultural e por não respeitar o direito de consulta à comunidade indígena envolvida. Também responsabilizou o Equador pela violação do direito à vida. A Corte de San José estipulou uma indenização, remoção dos explosivos implantados na área e o respeito ao direito de consulta às comunidades indígenas. Pontos importantes :Utilização da Convenção 169 da OIT como vetor hermenêutico para que se interpretem as demais obrigações de direitos humanos, mesmo em casos em que o Estado não ratificou o referido diploma internacional. #IMPORTANTE. CONSULTA LIVRE PRÉVIA E INFORMADA. A examinadora Eliana Torelly, em nota técnica ressaltou que no caso em apreço a Corte IDH decidiu que as consultas à povos indígenas devem-se realizar mediante procedimentos culturalmente adequados, em conformidade com suas próprias tradições. Não há um único modo de realizar as consultas, devendo-se levar em conta as particularidades culturais do grupo.
O enunciado nº 29 da 6ªCCR afirma que o procedimento de consulta deve ser realizado por procedimento dialógico e culturalmente situado. Além disso, é necessária realização de etapa de pré-consulta, na qual a comunidade definirá a metodologia do processo, em especial a duração, data, local, língua, representantes, forma de deliberação, etc.
A elaboração do ECI (Estudo de Componente Indígena – etapa do EIA/RIMA) não afasta a necessidade de consulta.
e) Caso da comunidade indígena Yakye Axa vs. Paraguai- A Comunidade Yakye Axa é uma comunidade indígena e ocupa ancestralmente o Chaco Paraguaio que, ao final do século XIX, grandes extensões foram vendidas através da bolsa de valores de Londres. A comunidade indígena YAKYE AXA reivindicou suas terras perante o governo do PARAGUAY, por meio dos diversos procedimentos legais, contudo, não houve qualquer solução. A Corte considerou que o procedimentolegal de reivindicação de terras instaurado pelos membros da Comunidade Yakye Axa desconheceu o princípio do prazo razoável e se mostrou abertamente ineficiente. Apesar de o Paraguai reconhecer o direito à propriedade comunitária em seu próprio ordenamento jurídico, não adotou as medidas adequadas de direito interno necessárias para garantir o uso e gozo efetivo por parte dos membros da Comunidade Yakye Axa de suas terras tradicionais e, com isso, ameaçou o livre desenvolvimento e a transmissão de sua cultura e práticas tradicionais. Reparações : A Corte IDH condenou o Estado ao dever de indenizar pelos danos materiais; dano imaterial ( o Estado deverá criar um programa e um fundo de desenvolvimento comunitário que serão implementados nas terras que sejam entregues aos membros da Comunidade. O programa comunitário consistirá no fornecimento de água potável e de infraestrutura sanitária); dever de identificar o território tradicional e entregá-lo de maneira gratuita à Comunidade Yakye Axa, em um prazo máximo de três anos contados a partir da notificação da presente Sentença
f) Caso da comunidade indígena Xákmok Kásek vs. Paraguai- A demanda está relacionada com a alegada responsabilidade internacional do Estado pela suposta falta de garantia do direito de propriedade ancestral da Comunidade Indígena Xákmok Kásek, já que desde 1990 encontrar-se-ia tramitando a solicitação de reivindicação territorial da Comunidade, “sem que até agora houvesse sido resolvida satisfatoriamente”. Segundo a Comissão, tem significado não somente a impossibilidade de a Comunidade ter acesso à propriedade e à posse de seu território, mas, pelas próprias características da mesma, tem implicado mantê-la em um estado de vulnerabilidade alimentar, médica e sanitária, que ameaçam de forma contínua a sobrevivência dos membros da Comunidade e a integridade da mesma.A CORTE IDHDecidiu que: a) O Estado violou o direito à propriedade comunitária, às garantias judiciais, à proteção judicial, o direito à vida, a integridade pessoal, o reconhecimento da personalidade jurídica, o direito das crianças e descumpriu o dever de não discriminar, previstos respectivamente na Convenção Americana, em detrimento dos membros da Comunidade Xákmok Kásek;b) O Estado deverá devolver aos membros da Comunidade Xákmok Kásek os 10.700 hectares reclamados por esta; c) O Estado deverá velar imediatamente que o território reclamado pela Comunidade não se veja prejudicado por ações do próprio Estado ou de terceiros particulares;
h) o caso do povo Saramaka vs. Suriname- Cuida-se de demanda internacional envolvendo o povo Saramaka, que constitui uma unidade tribal e que o Direito Internacional dos Direitos Humanos impõe ao Estado a obrigação de adotar medidas especiais para garantir o reconhecimento dos direitos dos povos tribais, incluindo o direito à posse coletiva da propriedade. O Estado se opôs à possibilidade de definição do povo Saramaka como uma comunidade tribal sujeita à proteção do Direito Internacional dos Direitos Humanos a respeito do direito à posse coletiva da propriedade. Em princípio, a Corte observa que o povo Saramaka não é nativo da região que habita; mas foram levados durante a época de colonização ao que hoje se conhece como Suriname. Portanto, estão fazendo valer seus direitos na qualidade de suposto povo tribal, isto é, um povo que não é nativo da região, mas que compartilha características similares com os povos indígenas, como ter tradições sociais, culturais e econômicas diferentes de outras partes da comunidade nacional, identificar-se com seus territórios ancestrais e estar regulados, ao menos de forma parcial, por suas próprias normas, costumes ou tradições. Por isso, o Tribunal IDH reconheceu que os membros do povo Saramaka deveriam ser considerados como uma comunidade tribal e que a jurisprudência da Corte a respeito do direito de propriedade dos povos indígenas também é aplicável aos povos tribais em virtude de que compartilham características sociais, culturais e econômicas distintivas, incluindo a relação especial com seus territórios ancestrais, o que requer medidas especiais conforme o Direito Internacional dos Direitos Humanos a fim de garantir a sobrevivência física e cultural deste povo. Então, a CORTE IDH concluiu que: a) O Estado violou o direito à propriedade, o direito de reconhecimento da personalidade jurídica, e o direito à proteção judicia; b) O Estado deverá delimitar, demarcar e outorgar o título coletivo do território dos membros do povo Saramaka, de acordo com seu direito consuetudinário e por meio de consultas prévias, efetivas e plenamente informadas com o povo Saramaka, sem prejuízo de outras comunidades indígenas e tribais; c) O Estado deverá outorgar aos membros do povo Saramaka o reconhecimento legal da capacidade jurídica coletiva correspondente à comunidade que eles integram, com o propósito de garantir o exercício e pleno gozo de seu direito à propriedade de caráter comunal, assim como o acesso à justiça enquanto comunidade, de acordo com seu direito consuetudinário e tradições; d) O Estado deverá eliminar ou modificar as disposições legais que impeçam a proteção do direito à propriedade dos membros do povo Saramaka e adotar, em sua legislação interna e através de consultas prévias, efetivas e plenamente informadas com o povo Saramaka, medidas legislativas ou de outra natureza necessárias a fim de reconhecer, proteger, garantir e efetivar o direito de titularidade de direitos de forma coletiva sobre o território que tradicionalmente ocuparam e utilizaram ao povo Saramaka, o que inclui as terras e os recursos naturais necessários para sua subsistência social, cultural e econômica, bem como administrar, distribuir e controlar efetivamente este território, de acordo com seu direito consuetudinário e sistema de propriedade comunal e sem prejuízo de outras comunidades indígenas e tribais.
i) comunidades indígenas bacia do Xingu vs. Brasil Brasil foi denunciado à Comissão Interamericana por não respeitar direitos indígenas na construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte (Bacia do rio Xingu, em Altamira/PA).Comissão [2011]:Outorgou Medida Cautelar (a) determinando suspensão do processo de licenciamento; (b) impedindo continuidade das obras; e (c) assegurando consulta às comunidades indígenas afetadas. Brasil descumpriu (entende não ter efeito vinculante).Em seguida, a Comissão voltou atrás e flexibilizou os comandos das medidas cautelares (inclusive, deixou a questão do licenciamento de fora).
#OBSERVAÇÕES: Segundo o art. 169 da OIT, a população indígena possui o direito de consulta e participação antes da imposição e qualquer tipo de política pública que os possa afetar. No entanto, há polêmica sobre a força dessa consulta: 1ª posição) consulta à população indígena tem caráter vinculante (jurisprudência internacional - Convenção/OIT-169). 2ª posição) consulta à população indígena tem caráter não-vinculante (jurisprudência nacional - STF-Raposa Serra do Sol). Reconhecimento da proteção ao meio ambiente como obrigação Erga Omnes: Origem obter dictum no Caso Barcelona Traction (CIJ/1970) e visa protege valores de todos os Estados da comunidade internacional, fazendo nascer o direito de qualquer um de seus membros em ver respeitada tal obrigação.
j) NÓRIN CATRIMÁN e Outros Vs. CHILE ("Índios Mapuche"): Membros e Ativistas em prol dos direitos do Provo Indígena Mapuche praticaram atos incendiários (sem violência à pessoa). E acabaram condenados pela Justiça do Chile por prática de "atos terroristas" (Lei Antiterrorismo n. 18314). CORTE IDH [2014]: Decidiu que o Chile violou princípios da legalidade, presunção de inocência, e não discriminação (punir estereótipos étnicos) ao editar referida Lei (especialmente a "presunção de intenção terrorista"); Fixou-se parâmetros para aceitação da denominada "Testemunha Anônima": Compensada por medidas de contrapeso-Não pode ser decisiva para a condenação-Juiz deve conhecer sua identidade e acompanhar depoimento. Defesa pode fazer perguntas.#OBS.: A "presunção deintenção terrorista" foi revogada pelo próprio Chile em 2010, k) XUCURU Vs. BRASIL: A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) condenou o Brasil por violação aos direitos dos índios Xucuru à propriedade coletiva e à garantia e proteção judicial. Concluiu que o Brasil não atuou em “prazo razoável” para demarcar o território Xucuru, em Pernambuco, afastando da terra as 2.300 famílias que formam a etnia, atualmente distribuídas em 24 comunidades. O governo brasileiro demorou 16 anos, entre 1989 e 2005, para reconhecer a titularidade e demarcar as terras dos índios, além de ter atrasado para retirar invasores do território. A Corte determinou que o Brasil garanta, “de maneira imediata e efetiva”, o direito de propriedade do povo Xucuru, conclua a retirada de indivíduos não indígenas das terras mediante o pagamento de indenizações pendentes, e pague indenizações por danos causados pela demora em demarcar terras. Apesar da condenação, a CIDH considerou que não há argumentos para que o país modifique sua legislação interna no que diz respeito às questões indígenas. Esta é a primeira vez que o Brasil é condenado em uma corte internacional por violações de direitos indígenas. O Brasil tem prazo máximo de 18 meses para cumprir as determinações da Corte e, no período de um ano, deverá apresentar relatório sobre as medidas adotadas. A Corte ainda determinou ainda a criação de um fundo de desenvolvimento comunitário como compensação pelo dano imaterial imposto aos membros do Povo Indígena.
l) Caso Povos Kaliña e Lokono vs. Suriname.
A dupla afetação das terras indígenas consiste em compatibilizar a proteção, em uma mesma propriedade, de interesses e direitos ambientais e direitos das comunidades indígenas. A Corte ressaltou que "Em princípio, existe uma compatibilidade entre áreas ambientais protegidas e o direito dos povos indígenas e tribais na proteção dos recursos naturais em seus territórios, notando que os povos indígenas e tribais, por sua interação com a natureza e os modos de vida, podem dar um importante contributo para essa conservação". Para viabilizar o fenômeno da dupla afetação das terras indígenas, a Corte fixou os seguintes parâmetros: 1) a participação efetiva, 2) o acesso e o uso dos territórios tradicionais e 3) o reconhecimento de benefícios resultantes da conservação.
m) Caso López Álvarez vs. Honduras. Direito de se manifestar no próprio idioma. O Estado de Honduras havia proibido os indígenas privados de liberdade de se expressarem em seu idioma materno. Para a Corte IDH, os Estados devem levar em consideração os dados que diferenciam os membros de povos indígenas da população em geral, advertindo que "A língua é um dos importantes elementos de identidade de um povo, precisamente porque garante a expressão, difusão e transmissão de sua cultura. (...) Um dos pilares da liberdade de expressão é precisamente o direito a falar e que este implica necessariamente no direito das pessoas a utilizarem o idioma de sua escolha na expressão de seu pensamento".
n) Caso Associação Lhaka Honhat (Nossa Terra) vs. Argentina. No dia 06/02/2020, a Corte IDH proferiu sentença responsabilizando internacionalmente a Argentina pela violação dos direitos à propriedade coletiva, à identidade cultural, ao meio ambiente saudável, à alimentação adequada e à água de 132 comunidades indígenas, localizadas na Província de Salta, em lotes conhecidos anteriormente como “Lotes Ficais 14 e 55”, registrados no departamento de Rivadavia sob nº 175 e nº 5557, em razão da falta de efetividade de medidas estatais para conter atividades prejudiciais aos mencionados direitos. A Corte IDH considerou que a morosidade e onerosidade impostas pelo Estado, as comunidades indígenas acabaram por abdicar de parte do território sendo que, ao final, foi concedida a propriedade coletiva de 400,000 hectares (área significativamente inferior à inicialmente pleiteada). Destacou-se, ainda, a construção de uma ponte internacional no território indígena, entre 1995 e 1996, sem a realização de qualquer consulta prévia às respectivas comunidades, que impactou diretamente em suas terras e recursos naturais.
Ademais, observou-se intensa atividade de extração ilegal de madeira na região, resultando na diminuição da biodiversidade e dos recursos florestais, o que impactou diretamente na maneira como as comunidades indígenas tradicionalmente obtêm água e alimentos. (#ATT. Caso Yanomamis e Ye’Kwana). o final, a Corte IDH determinou que, o quanto antes (no prazo máximo de 06 anos), a Argentina adote como medidas de reparação: (a) Conclusão das medidas necessárias para delimitar, demarcar e conceder o devido título (um título unificado) reconhecendo às 132 comunidades indígenas a propriedade de seus territórios; (b) Promoção da transferência voluntária e adequada de terceiros não pertencentes a tais comunidades para outras terras que não as das Comunidades Indígenas da Associação Lhaka Honhat. A Corte IDH também ressaltou que a própria sentença também constitui uma forma de reparação e ordenou, que o Estado argentino observe o dever de consulta, apresente um estudo acerca da situação das comunidades indígenas e o abastamento alimentar e de água, criação de fundo de desenvolvimento comunitário, adoção de medidas legislativas acerca da propriedade coletiva indígena, dentre outros. Obs.: Há uma tendência na Corte de adotar medidas de cunho estrutural, proporcionando aos Estados uma margem de apreciação nacional para estabelecer a forma de cumprimento das sentenças.
o) Medida Cautelar da CIDH – Povo Yanomami e Ye’Kwana (Resolução nº 35/2020). A CIDH considerou a importância da proteção das TI’s para saúde de seus membros. Foi destacado que a ineficácia do Estado Brasileiro de conter as intensas invasões de garimpeiros às terras dos povos Yanomami e Ye’kwana favorece sobremaneira a propagação do coronavírus entre tais comunidades indígenas, dizimando suas populações.
Importante lembrar também a ADPF 709, cujo objeto foi a adoção de medidas para conter o avanço da pandemia nos territórios indígenas e na qual o STF, de forma inédita, reconheceu a legitimidade APIB, superando uma interpretação restritiva do art. 103, IX, da Constituição para afastar o entendimento de que entidades de classe de âmbito nacional seriam apenas aquelas ligadas a uma categoria econômica ou profissional. Assim, torna efetivo o art. 232 da Constituição, que sublinha a legitimidade dos povos indígenas e de suas organizações para atuar em juízo na defesa de seus direitos e interesses. Com isso, a democratização do acesso à Suprema Corte viabiliza a escuta e o exercício da interpretação constitucional pelos próprios grupos minoritários e vulneráveis.
EXAMINADORA ELIANA TORELLY. Alimentação adequada e projeto “Catrapovos”. Recomendação 1/2022/6CCR/MPF, de 18/02/2022: sobre alimentação adequada e fomento à produção e ao consumo de alimentos produzidos por indígenas e povos tradicionais. Projeto “Mesa de Diálogo Permanente Catrapovos do Brasil”. “Catrapovos” é um projeto formado por representantes de órgãos públicos e da sociedade civil, sob a coordenação do MPF, que atua em âmbito nacional, discutindo ações e medidas voltadas para viabilizar a compra, pelo poder público, de itens produzidos diretamente pelas comunidades tradicionais para a alimentação escolar. O MPF recomendou ao Min. da Saúde e SESAI que “I. cumpram a obrigatoriedade mínima de compra de 30% de alimentos provenientes da agricultura familiar nos termos do Decreto nº 8.473/2015 em todo o território nacional; II. Utilizem para apoio no referido cumprimento a possibilidade de compra direta junto aos agricultores familiares indígenas próximos ao local dos equipamentos públicos da saúde indígena.” [Assinada pela Dra. Torelly].
1C. Os tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil. A formação, incorporação e hierarquia normativa. Duplo controle da proteção de direitos no Brasil. Os controles de convencionalidade e de constitucionalidade na proteção de direitos humanos.
Atualizado por Karen L L A e S Reus
I.Os tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil: A formação e incorporação
Teoria da junção das vontades (ou teoria dos atos complexos): A CF exige a união de vontades do Executivo (art. 84, VIII)[footnoteRef:1] e do Legislativo (art. 49, I) no que tange aos tratados internacionais (salvo acordo em forma simplificada ou acordo executivo, em que a assinatura já formaliza a celebração definitiva do tratado). [1: Tal competência pode ser delegada para qualquer pessoa por meio de uma “Carta de Plenos Poderes” – o titular desta carta será chamado de “Representante Plenipotenciário”.]
A formação e incorporação dos tratados passa por quatro fases:
Fase de Assinatura / Fase Executiva: a primeira fase do processo de formação e incorporação dos tratados ocorre no plano internacional, são as negociações preliminares e a assinatura. Durante as negociações, há uma fase intermediária de votação entre os negociantes, para aprovação do texto, o que se dá pela maioria de 2/3 dos membros (art. 9o (2) da Convenção de Viena sobre Direitos dos Tratados - CVDT). A assinatura, em virtude do princípio da boa fé (princípio geral de direito internacional) implica em que os signatários não podem atuar de modo a comprometer o objeto do tratado, ainda que não vincule à ratificação.
Fase Congressual / Fase do Decreto Legislativo: a segunda fase é interna, consiste no referendo congressual (art. 49, I, CF), de competência exclusiva do congresso nacional (a votação é separada, ocorre primeiro na Câmara e depois no Senado), o que se faz por meio de decreto legislativo, o qual é aprovado por 3/5 em dois turnos, se seguir o rito do art. 5o, §3o, nos tratados de direitos humanos, ou por maioria simples nos demais tipos de tratados. O referendo congressual autoriza o Presidente da República a ratificar o tratado no plano internacional.
Fase de Ratificação: a terceira fase é a ratificação, ocorre no plano internacional, sendo o ato administrativo discricionário, pelo qual o Presidente da República confirma a assinatura anteriormente aposta, declarando a vontade do Estado em definitivamente fazer parte do tratado. Esta é a fase do consentimento, que dá eficácia ao tratado no plano internacional. Pode se dar por: troca de notas (tratados bilaterias) ou depósito do instrumento de ratificaçaõ (tratados multilaterais).
Para ACR, após a ratificação e entrada em vigor do tratado no plano internacional, encerra-se o ciclo de formação de um tratado para o Brasil. (Att. Cobrado na 1ª fase).
Fase de Promulgação / Fase do Decreto de Promulgação: a quarta fase consiste na promulgação e publicação do Tratado no Diário Oficial, por meio de Decreto do Presidente da República, ato que dá eficácia interna ao tratado. Não há previsão do decreto de promulgação na CF. Trata-se de costume constitucional e de requisito para o controle de constitucionalidade do tratado internacional. ACR entende ser desnecessário o decreto executivo para qualquer tratado, defendendo a teoria da junção de vontades restrita (a publicidade da ratificação e a entrada em vigor internacional deve ser só atestada no DOU por meio de “aviso de ratificação e entrada em vigor”, efeito declaratório. Sintonia entre a validade internacional e a interna), pois, exigir o decreto executivo sem que a CF preveja pode expor o Brasil à responsabilização internacional em caso de delonga na sua edição.
Pelo exposto, a doutrina majoritária entende que o Brasil adota o sistema da recepção legislativa (Dualismo), tendo em vista que existem dois momentos quanto à incorporação da norma internacional – num primeiro momento (fase de ratificação) o tratado começa a ter validade internacional, mas apenas num segundo momento (fase de promulgação) o tratado começa a ter validade nacional. Como o tratado passa a valer internacionalmente com a ratificação (3ª fase) e só passa a valer nacionalmente com a fase de decreto de promulgação (4ª fase), contata-se que são dois mundos, então o Brasil adota o Dualismo (dualismo moderado, pois não se exige a edição de lei formal – dualismo extremado/radical). Doutrina minoritária (Flavia Piovesan e Cançado Trindade) entende que para os tratados de direitos humanos adota-se o sistema da recepção automática, uma vez que estes tratados seriam auto executórios, ou seja, que se incorporam ao direito brasileiro tão logo ratificados. Para Piovesan, o Brasil adota a concepção dualista para a vigência interna dos tratados em geral, para os tratados de direitos humanos a concepção monista, que prescinde da promulgação, em virtude da eficácia imediata que o art. 5o, §1o e 2o, lhes outorga.
II. Os tratados de direitos humanos ratificados pelo Brasil: A hierarquia
Hierarquia. Regime especial dos tratados de DH: Prevê o art. 5º, § 3º, da CF, com a alteração da EC 45/2004: "os tratados e convenções internacionais sobre DH’s que forem aprovados, em cada Casa do CN, em dois turnos, por 3/5 dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais". Antes, a CF apenas previa que "direitos e garantias expressos na CF não excluem outros decorrentes do regime e princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais de que a República do Brasil seja parte". A hierarquia dos tratados no plano interno sempre suscitou diversas discussões. Num primeiro momento, entendia-se que os tratados incorporados ao nosso ordenamento tinham a mesma força hierárquica que uma lei federal, não importando o tema que veiculavam (RE 80.004/SE). Diante do teor do art. 5º, §3º, da CF/88, o STF (RE 466343) não mais aceitou a prisão do depositário infiel, ainda que permitida pela CF, dando integral aplicabilidade à CADH nesse ponto. Assim, com base na tese do Min. Gilmar Mendes, o STF passou a entender que antes da EC 45/04 os tratados de DH’s incorporados ao ordenamento pátrio teriam o status de norma supralegal (entre a legislação ordinária e a CF). Esse mesmo status é dispensado àqueles tratados de DHs incorporados depois da EC 45/04 e que não tiverem o mesmo trâmite das ECs. Assim, há hoje o duplo estatuto dos tratados de DH: terão status supralegal os anteriores à EC 45/2004 e os posteriores a esta e aprovados por maioria simples e único turno pelo Congresso; serão equivalentes à EC os posteriores à EC 45/2004 e aprovados na forma do art. 5, §3º, da CF.
Para ACR, com a consagração da teoria do duplo estatuto: i) as leis (inclusive as leis complementares) e atos normativos são válidos se forem compatíveis, simultaneamente, com a Constituição e com os tratados internacionais de direitos humanos incorporados; ii) cabe ao Poder Judiciário realizar o chamado controle de convencionalidade nacional das leis, utilizando os tratados de direitos humanos como parâmetro supralegal ou mesmo equivalente à emenda constitucional; iii) os tratados incorporados pelo rito especial previsto no art. 5º, §3º, da CF/88 passam a integrar o bloco de constitucionalidade restrito, podendo servir de parâmetro para avaliar a constitucionalidade de uma norma infraconstitucional qualquer.
Até o momento são 4 os tratados de Direitos Humanos aprovados pelo rito do art. 5º, §3º, da Constituição Federal: i) Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu ii) Protocolo Facultativo; iii) Tratado de Marraqueche, relativo à reprodução e a distribuição de obras, livros e textos em formato acessível a pessoas com deficiência visual; e iv) Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância.
Flávia Piovesan e Cançado Trindade entendem que os tratados internacionais de direitos humanos têm natureza de norma constitucional formando com a CF um bloco de constitucionalidade (minoritário).
Em relação à possibilidade de denúncia, o tema da exigência da provação prévia do Congresso ainda está em aberto no STF (RE 466.343). ACR defende que, no caso do tratado de DH, em face da matéria vinculada à dignidade humana, toda denúncia deve ser apreciada pelo Congresso Nacional (rito especial) e passar pelo crivo da proibição do retrocesso, o que conspiraria contraa defesa dos DH. O controle do respeito ao efeito cliquet deve ser feito pelo Poder Judiciário.
III. Os controles de convencionalidade e de constitucionalidade na proteção de direitos humanos
Controle de convencionalidade: análise da compatibilidade dos atos internos (comissivos ou omissivos) em face das normas internacionais (tratados, costumes internacionais, princípios gerais de direito, atos unilaterais, resoluções vinculantes de organizações internacionais). Pode ter: a) efeito negativo: invalidação das normas e decisões nacionais contrárias às normas internacionais. Resulta no controle destrutivo ou saneador de convencionalidade; b) efeito positivo: interpretação adequada das normas nacionais para que estas sejam conformes às normas internacionais (efeito positivo do controle de convencionalidade). Resulta no controle construtivo de convencionalidade. Há duas subcategorias:
a) controle de convencionalidade de matriz internacional (autêntico ou definitivo): é, em geral, atribuído a órgãos internacionais (ex. tribunais, comitês) compostos por julgadores independentes, criados por tratados internacionais, para evitar que os próprios Estados sejam, ao mesmo tempo, fiscais e fiscalizados, criando a indesejável figura do judex in causa sua. Obs: controle de convencionalidade internacional compulsório: adoção, pelo Estado, das decisões internacionais exaradas em processos internacionais de direitos humanos dos quais foi réu. O Estado é obrigado a cumprir a interpretação internacionalista dada pelo órgão internacional prolator de decisão. Foi o que disse a Corte IDH no Caso Gelman vs. Uruguai.
b) controle de convencionalidade de matriz nacional (provisório ou preliminar): exame de compatibilidade do ordenamento interno diante das normas internacionais incorporadas, realizado pelos próprios juízes internos e também pelas autoridades administrativas, membros do MP, Defensoria Pública (no exercício de suas atribuições). Pode até mesmo controle preventivo de convencionalidade na análise de projetos de lei no Poder Legislativo. Na seara dos DH, é a análise da compatibilidade entre as leis (e atos normativos) e os tratados internacionais de direitos humanos, realizada pelos juízes e tribunais brasileiros, no julgamento de casos concretos, nos quais se devem deixar de aplicar os atos normativos que violem o referido tratado.
Nem sempre os resultados coincidirão, pois há as seguintes diferenças entre os controles:
Quanto ao parâmetro de confronto e objeto do controle: O parâmetro de confronto no controle de convencionalidade internacional é a norma internacional (ex. tratado) e o objeto é toda norma interna, não importando a sua hierarquia nacional (ex. pode analisar a compatibilidade de norma do Poder Constituinte Originário com um tratado);
Quanto à hierarquia do tratado-parâmetro: No controle de convencionalidade nacional, a hierarquia do tratado-parâmetro depende do Direito Nacional, que estabelece o estatuto dos tratados internacionais. Já no controle de convencionalidade internacional, o tratado de direitos humanos é sempre a norma paramétrica superior. Todo o ordenamento nacional lhe deve obediência, inclusive as normas constitucionais originárias;
Quanto à interpretação: Aqui está a maior diferença. A interpretação do que é compatível ou incompatível com o tratado-parâmetro não é a mesma e o controle nacional nem sempre resulta em preservação dos comandos das normas contidas nos tratados tal qual interpretados pelos órgãos internacionais.
O ideal é que os dois controles interajam. Isso pode se dar de modo preventivo com o “Diálogo das Cortes” e fertilização cruzada entre os tribunais (porém, os juízes nacionais, por conta da independência funcional e do Estado Democrático de Direito, não podem ser obrigados a isso). Para evitar que esse diálogo seja mera retórica, ACR indica os critérios a serem observados:
1) a menção à existência de dispositivos internacionais convencionais ou extraconvencionais de direitos humanos vinculantes ao Brasil sobre o tema;
2) a menção à existência de caso internacional contra o Brasil sobre o objeto da lide e as consequências disso reconhecidas pelo Tribunal;
3) a menção à existência de jurisprudência anterior sobre o objeto da lide de órgãos internacionais de direitos humanos aptos a emitir decisões vinculantes ao Brasil;
4) o peso dado aos dispositivos de direitos humanos e à jurisprudência internacional.
IV. Duplo controle da proteção de direitos no Brasil
No caso de o diálogo inexistir ou ser insuficiente, adota-se a teoria do duplo controle: Teoria do duplo controle ou crivo de direitos humanos: reconhece a atuação em separado do controle de constitucionalidade nacional (STF e juízos nacionais) e do controle de convencionalidade internacional (órgãos de direitos humanos do plano internacional). A partir dessa teoria, deve-se exigir que todo ato interno se conforme não só ao teor da jurisprudência do STF, mas também ao teor da jurisprudência interamericana. Com isso, evita-se o antagonismo entre o STF e os órgãos internacionais de direitos humanos, evitando a ruptura e estimulando a convergência em prol dos direitos humanos.
Caso paradigmático: “Caso da Guerrilha do Araguaia”. Pela primeira vez, um tema (superação – ou não – da anistia a agentes da ditadura militar brasileira) foi analisado pelo STF e pela Corte IDH. No julgamento da APDF 153 o STF decidiu a Lei da Anistia (Lei n. 6.683/1979) alcança os agentes da ditadura militar, tornando impossível a persecução criminal pelas graves violações de direitos humanos ocorridas na época dos “anos de chumbo”, ignorando a interpretação internacional da CADH, de responsabilidade da Corte IDH. Por sua vez, a a Corte IDH condenou o Brasil no Caso Gomes Lund, exigindo que fosse feita completa investigação, persecução e punição criminal aos agentes da repressão política durante a ditadura militar, mandando o Brasil desconsiderar, então, a anistia para tais indivíduos.
Como cumprir a decisão da Corte IDH? Inicialmente, deve-se partir da seguinte premissa: não há conflito insolúvel entre as decisões do STF e da Corte IDH, uma vez que ambos os tribunais têm a incumbência de proteger os direitos humanos. Adota-se assim a teoria do duplo controle ou crivo de direitos humanos, que reconhece a atuação em separado do controle de constitucionalidade (STF e juízos nacionais) e do controle de convencionalidade internacional (Corte de San José e outros órgãos de direitos humanos do plano internacional), inexistindo conflito real. São esferas distintas com fundamentos diversos.
Os direitos humanos, então, no Brasil possuem uma dupla garantia: o controle de constitucionalidade e o controle de convencionalidade internacional. Qualquer ato interno (não importa a natureza ou origem) deve ser aprovado pelos dois controles. Caso não supere um deles (por violar direitos humanos), deve o Estado envidar todos os esforços para cessar a conduta ilícita e reparar os danos causados.
2A. O sistema de petições individuais e interestatais nos tratados multilaterais de direitos humanos de âmbito global. A atuação da Corte Internacional de Justiça na proteção internacional de direitos humanos.
Gabriel Infante Martins
A apuração de violações de direitos humanos no âmbito da ONU é dividida em duas grandes áreas: I) convencional, originada por acordos internacionais; e II) extraconvencional, originada de resoluções da ONU e de seus órgãos. Ambas formam o sistema onusiano, universal ou global de proteção de direitos humanos.
O sistema convencional, por sua vez, possui três divisões: I) o sistema não contencioso, aquele realizado a partir de técnicas de solução de controvérsias do Direito Internacional clássico, tais como os bons ofícios e a conciliação, com apelo à cooperação espontânea entre os Estados (ex.: Sistema de Relatórios Periódicos); II) sistema quase judicial, que possui duas espécies, que são a responsabilização iniciada a partir de petições dos Estados ou por petições de particulares; III) o sistema judicial/contencioso, noqual a responsabilidade internacional do Estado é estabelecida através de processo judicial perante a Corte Internacional de Justiça – CIJ (órgão judicial da ONU).
Os mecanismos convencionais quase judiciais são geridos pelos comitês instituídos pelas diversas convenções internacionais da ONU (treaty bodies), que produzem, ao final, uma deliberação internacional sobre a violação dos direitos humanos protegidos. Como os comitês não são órgãos judiciais propriamente ditos, qualificam-se como mecanismos “quase judiciais”. Ademais, os textos convencionais são omissos em face da força vinculante dessas deliberações.
Segundo ACR, o sistema de petições interestatais no âmbito global torna possível a um Estado apresentar petição contra outro Estado, acusando-o de violação de direitos humanos protegidos em seu território (demandas interestatais, actio popularis). A petição é autorizada por dispositivo previsto nos tratados de direitos humanos, regra geral de adesão facultativa. Cada Convenção atribui ao Comitê respectivo o dever de processar e julgar as petições estatais contra outros Estados.
Consoante Portela, o exercício de tal poder normalmente depende de aceitação prévia dos Estados e, em regra, antes de o órgão agir, o ente estatal deve inicialmente notificar o outro acerca da eventual violação, e este tem um prazo para indicar as providências eventualmente tomadas. Se isso não ocorrer, o Estado pode reclamar ao Comitê, que examinará o problema e emitirá as recomendações eventualmente cabíveis, seja diretamente, seja por meio de uma Comissão de Conciliação ad hoc. ACR ressalta que o procedimento é encerrado sem que, como regra, exista uma solução concreta aos Estados.
O mecanismo das petições individuais (ou comunicações individuais) permite a indivíduos a apresentação de petições denunciando diretamente violações de direitos enunciados nos respectivos Pactos. Este sistema de petições, segundo Cançado Trindade, cristalizou a capacidade processual internacional dos indivíduos. Também só é admitida quando os Estados reconhecem a competência do Comitê para tanto, através de declarações ou Pactos Facultativos. Esta via de acesso também é aberta a pessoas coletivas, como representantes da sociedade civil e ONG’s.
No que diz respeito ao trâmite, em primeiro lugar, o Estado-parte deve ter aceitado expressamente a competência do comitê respectivo em receber as petições de particulares. O procedimento é confidencial e obrigatório, pautado pela ampla defesa e contraditório. Sobre a questão de mérito, o respectivo comitê avalia, delibera e determina a existência ou não de violação de direito protegido; em caso positivo, fixará medidas de reparação.
São pressupostos para aceitação da petição, entre outros, o esgotamento prévio dos recursos internos e a inexistência de litispendência internacional (ou seja, que não haja outro órgão de monitoramento analisando a questão em âmbito internacional). Em tese, há um prazo para o Estado submeter ao Comitê explicações sobre a denúncia. O Comitê analisa as informações, faz as diligências necessárias e profere decisão.
As decisões dos Comitês neste procedimento não são obrigatórias, mas possuem um peso político expressivo de pressão sobre os estados (Power of embarassment). Contudo, para ACR, a deliberação em petição individual por parte do Comitê é vinculante ao Estado que aceitou tal competência de modo voluntário.
O Brasil foi responsabilizado no Comitê da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW, na sigla em inglês) no Caso Alyne Pimentel: em 2011, o comitê CEDAW decidiu que o Brasil violou os direitos da vítima que faleceu na ausência de tratamento adequado à mulher grávida, em Belford Roxo/RJ. A petição contra o Brasil foi proposta por sua mãe, com o apoio de ONGs. Foi o primeiro caso de morte materna (violência obstétrica) nesse Comitê, que recomendou ao Brasil, além de indenizar a família da vítima, que também assegurasse o direito das mulheres à maternidade segura e acesso à assistência médica emergencial adequada.
Além disso, o Brasil foi condenado no Caso Lula, que tramitou perante o Comitê de Direitos Humanos (órgão quase-judicial do PIDCP e criado pelo Protocolo Facultativo ao PIDCP), por ter violado o direito à liberdade, à imparcialidade do juízo, à presunção de inocência, à participação política etc. Ocorre que não houve a edição do Decreto de Promulgação do Protocolo Facultativo ao PIDCP, razão pela qual prevaleceu o entendimento, no TSE, em 2018 (apreciando, no bojo do processo de Registro de Candidatura, a medida provisória do Comitê de DH, que determinou que o Brasil tomasse medidas adequadas a proporcionar a candidatura do peticionário), seguindo o que já decidiu o STF em momentos pretéritos, de que as decisões do Comitê de DH não surtiriam efeitos internamente. O Min. Edson Fachin foi o único voto vencido, no sentido de que o Decreto de Promulgação não seria necessário para tanto (seguindo posição do ACR).
II. A atuação da Corte Internacional de Justiça na proteção internacional de direitos humanos
No plano global, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) é o órgão judicial da ONU, tendo reconhecida sua competência para todos os litígios que as partes lhe submetam, em especial os temas previstos na Carta das Nações Unidas e nos tratados e convenções internacionais vigentes, não sendo órgão especializado para o acompanhamento de matérias referentes a direitos humanos.
Segundo ACR, a Corte tem um modesto papel na proteção de Direitos Humanos, em virtude de dois limitativos: I) jus standi, ou legitimidade ativa e passiva nos processos submetidos à Corte, uma vez que ela, em sua jurisdição contenciosa, só reconhece como partes os Estados, o que limita sobremaneira a proteção judicial de direitos humanos, já que o acesso do indivíduo a instâncias internacionais é considerado um requisito indispensável para a correta garantia destes direitos; II) caráter facultativo, tendo em vista que a jurisdição da Corte depende da adesão (facultativa) dos Estados. Além disso, cada Estado pode condicionar sua declaração de aceitação ao princípio da reciprocidade.
Acordos com previsão da CIJ como mediadora: graças a esses tratados, há o surgimento de uma modesta proteção judicial dos direitos humanos na CIJ, pois tal proteção dependerá do impulso inicial de um Estado. Esse impulso inicial é verificado somente quando convém ao Estado, o que enfraquece a proteção aos indivíduos. Essa atuação, conduto, se dá em caráter subsidiário: como cláusula padrão dessas convenções, cite-se o art. 30 da Convenção contra a Tortura, a proteção judicial é somente invocável após o fracasso da conciliação e da arbitragem, o que indica o caráter subsidiário e de última ratio do recurso à Corte Internacional de Justiça.
A virada pro homine: se, por um lado, são necessárias modificações estatutárias que possibilitem uma atuação mais incisiva da Corte Internacional de Justiça na proteção de direitos humanos, por outro lado há uma série de casos contenciosos e consultivos da CIJ e da sua antecessora (CPJI, Corte Permanente de Justiça Internacional), abordando temas essenciais para a proteção de violação de direitos humanos, que emergiram na análise de pontos controvertidos entre os Estados. Logo, ao menos indiretamente, a CPJI e a CIJ contribuíram para o desenvolvimento da responsabilidade internacional do Estado por violação de direitos humanos.
Um exemplo foi o julgado da CIJ no caso do Estreito de Corfu (Reino Unido vs Albânia, 1949), em que ficou estabelecido que a Albânia era obrigada pelo Direito Internacional a notificar os navios da existência de minas em águas territoriais albanesas, obrigação essa derivada de princípios gerais do Direito Internacional, em especial as considerações elementares de humanidade.
Outro exemplo, mais recente, ocorreu em 2017, quando a Ucrânia processou a Rússia por violação da Convenção pela Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial e por ofensa à Convenção Internacional para Supressãodo Financiamento do Terrorismo. O caso relaciona-se com a guerra civil na Ucrânia, disputa pela Crimeia (maioria da população russa, mas com plebiscito pela anexação à Rússia contestado) e ainda com o abate do avião Airbus malaio (rota Amsterdam – Kuala Lumpur). No tocante à discriminação racial, a Corte entendeu terem sido cumpridos os passos prévios referentes à negociação entre as partes e, diferentemente do caso da Geórgia, reconheceu sua jurisdição. Para a Corte, ficaram provados os atos referentes à negociação (fracassada) entre Ucrânia e Rússia a respeito da situação da Crimeia. A Corte, então, editou medida provisória, à luz do art. 41 do seu Estatuto, ordenando à Rússia que, no território da Crimeia: (i) respeitasse as instituições representativas próprias da comunidade tártara da Crimeia; (ii) assegurasse a oferta de ensino no idioma ucraniano.
Assim, sobretudo após 2008, observa-se uma busca de consolidação de uma “virada pro homine” da jurisprudência da CIJ, patrocinada em especial pela posse do Juiz Cançado Trindade. Suas posições refletem o reconhecimento da força expansiva dos direitos humanos, contaminando diferentes áreas do direito internacional. Essa força expansiva dos direitos humanos ficou clara no voto concordante dele no Parecer Consultivo sobre a independência do Kosovo (2009). Na visão do jurista brasileiro, essa declaração de independência não poderia ser tratada somente à luz dos preceitos tradicionais do Direito Internacional Geral, como por exemplo, o respeito à integridade territorial do Estado e as poucas exceções à autodeterminação (ocupação colonial ou dominação estrangeira – o que não seria o caso do Kosovo). Mas a questão deveria também ser avaliada em face do direito à igualdade e proibição de discriminação étnica.
Assim, não é mais possível tratar de uma demanda internacional, mesmo interestatal, e olvidar que há indivíduos envolvidos, com direitos que possuem estatuto de jus cogens. Afinal, o indivíduo compõe o Estado (sua dimensão subjetiva), não podendo mais a CIJ ignorar o eventual impacto da demanda em relação a normas cogentes de proteção de direitos humanos.
A necessidade de reformulação: observa-se que a experiência da CIJ no tocante à apuração de violações de direitos humanos não pode ser desprezada, tendo sido debatidas questões como a actio popularis, as obrigações erga omnes, o caráter vinculante de expressões genéricas de proteção de direitos humanos da Carta da ONU e outras, essenciais para o desenvolvimento do DIDH. Porém, embora relevante, vê-se que a jurisprudência da CIJ é episódica e fragmentada na promoção de direitos humanos, ou, muitas vezes, dependente de algumas poucas vozes.
Para que isso mude, uma grande revisão do seu Estatuto é necessária, de modo que sejam enfrentados os seguintes pontos:
I) Em primeiro lugar, a legitimidade para acionar a Corte é demasiadamente restrita. Na parte contenciosa, os Estados, mesmo democráticos, podem querer sacrificar a luta pelos direitos humanos no altar de outras considerações políticas, como se vê em vários momentos na política de apoio a ditaduras por parte de Estados ocidentais democráticos. Na parte consultiva, urge ampliar o número de entes para provocar a Corte com maior frequência;
II) Em segundo lugar, a determinação da jurisdição contenciosa não pode depender da vontade do Estado infrator, quando o objeto da demanda for a violação de obrigações erga omnes e jus cogens;
III) Em terceiro lugar, o procedimento tem que ser alterado para trazer ao litígio as contribuições das vítimas e das ONG’s. Em especial, em uma era de colisões de direitos, a participação dos indivíduos interessados é essencial para a obtenção de uma argumentação jurídica que leve em consideração os mais diversos direitos envolvidos em um litígio;
IV) Em último lugar, o modo de escolha dos juízes da CIJ (maioria absoluta dos membros do Conselho de Segurança e da Assembleia Geral) deve levar em consideração o histórico de atuação nas causas de defesa de direitos humanos.
2B. A proteção internacional da integridade pessoal. Tortura como crime internacional. Tratados internacionais contra a tortura, tratamento cruel ou desumano celebrados pelo Brasil. O Protocolo de Istambul. A jurisprudência internacional sobre a tortura, tratamento cruel ou desumano.
Atualizado por Caio T. A. Franco
Direito à Integridade Física, Psíquica Ou Moral
Consiste na intangibilidade física do ser humano, que merece proteção contra tratamento cruel, degradante, desumano ou tortura, bem como Implica a vedação do tratamento desonroso ou que cause sofrimento psíquico desnecessário ou odioso. A Constituição de 1988 trata explicitamente da integridade física e moral no art. 5º, XLIX (é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral) e ainda no que tange à aposentadoria de servidores públicos (art. 40, § 4º, III) e dos segurados do regime geral da previdência social (art. 201, § 1º), dispondo, em ambos os casos, que a lei estabelecerá regime diferenciado em caso de atividades exercidas sob condições especiais que prejudiquem a integridade física. Implicitamente, o direito à integridade física e moral decorre do art. 5º, III, que protege o ser humano contra a tortura, tratamento degradante e desumano (III – ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante).
Proteção internacional da integridade pessoal
O surgimento da proteção tratada, em especial, contra experimentos com seres humanos, ocorreu com o Código de Nuremberg (1947), que encerra um conjunto de princípios éticos que regem a pesquisa com seres humanos. Referido documento foi aprimorado pela Declaração de Helsinque (1964), elaborada pela Associação Médica Mundial, donde se extrai que o bem-estar do ser humano deve ter prioridade sobre os interesses da ciência e da sociedade, e dando importância especial ao consentimento livre e firmado em pesquisas médicas que envolvam seres humanos.
Atualmente, a proteção em tela encontra guarida na Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Crueis, Desumanos ou Degradantes e Protocolo Opcional, na Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH), no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP), na Declaração sobre a Proteção de Todas as Pessoas contra a Tortura ou Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes e na Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura.
Não há um conceito único do que sejam tortura, tratos cruéis, desumanos ou degradantes, haja vista que são tratados em diversos diplomas internacionais. Os diplomas internacionais não restringem o meio como a tortura pode ser praticada.
De ser registrado no ponto, que o artigo 4º da Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e outros tratamentos ou penas crueis, desumanos ou degradantes[footnoteRef:2], encerra mandado de criminalização, mas somente quanto à tortura, não abrangendo os tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos. O Brasil cumpriu tal obrigação com a edição da Lei nº 9.544/97. [2: 1. Cada Estado Parte assegurará que todos os atos de tortura sejam considerados crimes segundo a sua legislação penal. O mesmo aplicar-se-á à tentativa de tortura e a todo ato de qualquer pessoa que constitua cumplicidade ou participação na tortura.
2. Cada Estado Parte punirá estes crimes com penas adequadas que levem em conta a sua gravidade.
]
Tortura como crime internacional A tortura, além de estar proscrita em diversas convenções internacionais, é reconhecida como crime jus cogens, em razão do costume, e, em especial, a partir do decidido pelo Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia. Ademais, o Estatuto de Roma se refere ao crime de tortura tanto como crimes contra a humanidade (art. 7º), como crimes de guerra (art. 8º), a depender do contexto no qual seja verificado. Por fim, tanto a Convenção da ONU contra a tortura de 1984 (art. 7º), quanto à lei 9.544/97 (art. 2º), estabelecem a obrigação de extraditar ou processar aquele que é acusado de cometer tortura – aut dedere aut judicare. O DireitoInternacional Humanitário prevê que é crime de guerra as violações graves às Convenções de Genebra, de 12 de agosto de 1949, a saber, qualquer ato de tortura ou outros tratamentos desumanos, incluindo as experiências biológicas, dirigidos contra pessoas ou bens protegidos nos termos das Convenções de Genebra (art. 8º, § 2º, do Estatuto de Roma, já incorporado internamente pelo Decreto n. 4.388/2002).
O STF utilizou a definição de tortura prevista na Convenção da ONU de 1984 (incorporada internamente em 1991) para dar sentido ao tipo estabelecido no art. 233 do ECA (“Art. 233. Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a tortura: Pena – reclusão de um a cinco anos” – HC 70.389/SP).
Tratados internacionais celebrados pelo Brasil
Da comparação entre a Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e outros tratamentos ou penas crueis, desumanos ou degradantes (1984), da qual o Brasil é signatário desde 1991, e a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985), tem-se as seguintes CONVERGÊNCIAS:
• ambas consideram tortura como sofrimento físicos e mentais;
• destinada para investigação penal, intimidação ou castigo pessoal.
Como DIVERGÊNCIAS, encontra-se:
• só a Convenção da ONU exige que a tortura seja feita por agente público ou com sua aquiescência; Na CIDH, amplia-se a aplicação da proteção horizontal.
• só a Convenção da ONU exige que o sofrimento seja agudo;
• a Convenção Interamericana tipifica tortura o ato de imposição de sofrimento físico e psíquico com qualquer fim;
• a Convenção Interamericana admite que pode ser tortura determinada pena ou medida preventiva;
• a Convenção Interamericana criou a figura equiparada – medidas que não infligem dor ou sofrimento, mas diminuem a capacidade física e mental.
OBS: A expressão "tortura [...] praticada de forma sistemática”, no artigo 20 da convenção da ONU contra a tortura de 1984, remete para a prática de tortura de forma não fortuita, mas habitual, extensa e deliberada, ao menos em parte do território do estado em questão;
No Comentário Geral nº 20 do Comitê de Direitos Humanos, órgão de monitoramento do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP), à guisa de estabelecer uma interpretação autêntica do art. 7º da aludida convenção[footnoteRef:3], consignou que a proteção da tortura, no marco do PIDCP, abrange também atos praticados a título privado, ou seja, sem a participação ou aquiescência de agente do Estado. [3: “É obrigação do Estado Parte proteger a todos por meio de medidas legislativas ou por outros meios necessários contra os atos proibidos do art. 7º, cometidos por pessoa agindo em sua capacidade oficial, fora dela ou a título privado”]
Com efeito, o conceito de tortura no direito internacional dos direitos humanos se aplica à tortura perpetrada direta ou indiretamente por agente público no marco das Convenções de 1984 e de 1985, da ONU e do sistema interamericano respectivamente; e se aplica, também, à tortura perpetrada por atores não estatais no marco da Declaração Universal dos Direitos Humanos, do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e da Convenção Americana de Direitos Humanos;
A criação do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) é resultado de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, cujo cumprimento demanda que o país não apenas instale órgão de tal natureza, mas conceda condições financeiras, administrativas e logísticas para que exerça a função de inspecionar unidades de privação de liberdade e expedir recomendações ao Poder Público visando evitar e punir a prática da tortura.
O STF no julgamento da ADPF 607 o declarou a inconstitucionalidade do decreto que alterou o Decreto 8.154/2013, no que tange ao remanejamento dos 11 (onze) cargos em comissão ocupados por peritos do MNPCT e exoneração dos ocupantes e transformou o cargo de perito em prestação de serviço público relevante, não remunerada. Em sua fundamentação o Relator fez menção que “o ato questionado coloca o Brasil em situação de descumprimento de obrigação assumida perante a comunidade internacional e internalizada no âmbito do ordenamento jurídico pátrio. Isso porque a exoneração dos peritos dos cargos em comissão que ocupavam e a transformação da atividade por eles exercida em trabalho não remunerado vão de encontro à disciplina do Protocolo Facultativo à Convenção Contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, mediante o qual o Brasil se obrigou “a tornar disponíveis todos os recursos necessários para o funcionamento dos mecanismos preventivos nacionais”, bem como que “o efeito da promulgação do Protocolo Facultativo à Convenção Contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes foi a obrigação de criar mecanismos preventivos com independência funcional, o que dificilmente será atingido com a vinculação administrativa do órgão a um ministério e com a ocupação de cargos comissionados de livre nomeação e exoneração, embora garantidos os mandatos por lei. Não por acaso, o Subcomitê de Prevenção da Organização das Nações Unidas, ao manifestar-se sobre o Decreto nº 9.831/19, deixou claro que, apesar de não haver um formato único para os mecanismos preventivos nacionais, considerando o contexto brasileiro, a observância do Protocolo Facultativo demandaria que o MNPCT fosse integrado por especialistas experientes, independentes, remunerados e disponíveis por tempo integral, organizados em uma entidade apta a operar com autonomia e mediante o devido suporte administrativo”.
A jurisprudência internacional A Convenção contra a Tortura e Tratamento Desumano e Degradante criou uma divisão entre tortura e outros atos que constituem tratamentos ou penas crueis, tendo sido influenciada, especialmente quanto à redação do art. 16, pelo julgamento da Corte Europeia de Direitos Humanos (CEDH), em 1977, do Caso Irlandês – “Irish case” e as “five techniques”. Assim, teria havido o desmembramento dos conceitos para separar a tortura de outros maus tratos.
Contudo, em 1999, mostrando a evolução do Sistema Europeu de DH, a CEDH modificou seu entendimento e adotou interpretação evolutiva da Convenção Europeia de DH, citando expressamente a Convenção da ONU contra a Tortura de 1984, no Caso Selmouni vs França, e considerou que atos outrora considerados como tratamento degradante representariam, de fato, atos de tortura. Com efeito, os diversos conceitos foram reagrupados sob o manto da tortura.
A Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) já admitiu (caso Loayza Tamayo vs. Peru (1997)) a distinção entre tortura e tratamento cruel, desumano ou degradante e se vale, entre outros critérios, da severidade relativa de sofrimento como baliza diferenciadora.
O Protocolo de Istambul Também denominado como manual para a investigação e documentação eficazes da tortura e outras penas ou tratamentos crueis, desumanos ou degradantes, foi adotado pelo Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos como manual modelo para investigação das práticas de tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, e tem sido utilizado como instrumento para implementar o dever internacional de combate a tortura.
O Protocolo é formalmente não vinculante, por ser soft law, mas deve servir de instrumento para implementar o dever internacional do Estado de combater a tortura.
O protocolo cria regras e procedimentos para documentar casos de tortura física e psicológica, bem como orienta a prevenção de tais crimes. Deu origem, no Brasil, ao Protocolo Brasileiro de Perícia Forense no crime de tortura.
O CNJ editou recomendação (Resolução nº 49/2014), na qual reitera a obrigatoriedade de observância das normas do Protocolo de Istambul e do Protocolo Brasileiro de Perícia Forense pelos magistrados. (Caiu na objetiva do 29 e na subjetiva do 30).
Por fim, ressalta-se que no Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil, a Corte IDH considerou se tratar de tortura a violência sexual contra mulheres se praticadas por forças estatais.
2C. Interpretaçãodos direitos humanos. Resolução de conflitos entre direitos humanos. Limitabilidade dos direitos humanos. Restrições dos direitos humanos e suas espécies. Conteúdo essencial dos direitos humanos.
Atualizado por Karen L L A e S Reus
I. Interpretação dos Direitos Humanos
Interpretação conforme os direitos humanos
Segundo ACR, consiste na escolha, pelo intérprete, quando a norma impugnada admite várias interpretações possíveis, de uma que a compatibilize com os direitos humanos. Com base nessa interpretação, os direitos humanos influem em todo o Direito e nos atos dos agentes públicos e privados, concretizando seu efeito irradiante que os transformam no centro dos valores de um ordenamento. A interpretação conforme os direitos humanos é complexa, fruto da interdependência e indivisibilidade dos direitos humanos, já que a compreensão e aplicação de uma norma de direitos humanos são feitas levando-se em consideração os demais direitos atingidos. Por isso, os direitos humanos são direitos prima facie, isto é, asseguram em um primeiro momento posições jurídicas que, posteriormente, podem sofrer restrições pela incidência de direitos titularizados por outros indivíduos.
Interpretação para os direitos humanos: aspectos gerais
As regras tradicionais de interpretação são insuficientes no campo dos direitos humanos, já que as normas nesta matéria são redigidas de forma aberta, repletas de conceitos indeterminados e interdependentes e com riscos de colisão. Consequentemente, a interpretação é indispensável para que se possa precisar e delimitar os direitos humanos. As razões para a importância da interpretação dos direitos humanos, segundo ACR, são as seguintes: 1) superioridade normativa, pois não há outras normas superiores às quais pode o intérprete buscar auxílio; 2) força expansiva, que acarreta a jusfundamentalização do Direito, fazendo com que todas as facetas da vida social sejam atingidas pelos direitos humanos.
A função da interpretação é concretizar os direitos humanos por meio de procedimento fundamentado, com argumentos racionais e embasados, que poderá ser coerentemente repetido em situações idênticas, gerando previsibilidade jurídica e evitando o arbítrio e decisionismo do intérprete-juiz. A estrutura principiológica dos direitos humanos gera vários resultados possíveis em temas com valores morais contrastantes. Não há certo ou errado: chega-se a uma conclusão que deve atender a uma “reserva de consistência” em sentido amplo (Peter Häberle).
Aplicada à seara dos direitos humanos, a reserva de consistência em sentido amplo exige que a interpretação seja: 1) transparente e sincera, evitando a adoção de uma decisão prévia e o uso da retórica da “dignidade humana” como mera forma de justificação da decisão já tomada; 2) abrangente e plural, não excluindo nenhum dado empírico ou saberes não jurídicos, tornando indispensável a participação de terceiros, como amici curiae; 3) consistente em sentido estrito, mostrando que os resultados práticos da decisão são compatíveis com os dados empíricos apreciados e com o texto normativo original; 4) coerente, podendo ser aplicada a outros temas similares, evitando as contradições que levam à insegurança jurídica. A adoção de um modelo aberto de processo de interpretação jusfundamental permite que os julgadores possam ter mais elementos para a tomada de decisão.
A máxima efetividade, a interpretação pro homine e a primazia da norma mais favorável
O critério da máxima efetividade exige que a interpretação de determinado direito conduza ao maior proveito do seu titular, com o menor sacrifício imposto aos titulares dos demais direitos em colisão. Implica a aplicabilidade direta, pela qual os direitos humanos previstos na Constituição e nos tratados podem incidir diretamente aos casos concretos, bem como conduz à aplicabilidade imediata, que prevê que os direitos humanos incidem nos casos concretos, sem qualquer lapso temporal.
A interpretação pro homine exige que a interpretação dos direitos humanos seja sempre aquela mais favorável ao indivíduo. Implica em reconhecer a superioridade das normas de direitos humanos, exigindo, no caso concreto, a aplicação da norma que dê posição mais favorável ao indivíduo.
O princípio da prevalência da norma mais favorável ao indivíduo defende a escolha, no caso de conflito de normas (nacionais ou internacionais), daquela que seja mais benéfica ao indivíduo. Não importa a origem, mas sim o resultado: benefício ao indivíduo. O princípio sofre desgaste profundo pelo reconhecimento da existência da interdependência e colisão aparente entre os direitos, o que faz ser impossível a adoção desse critério no ambiente do século XXI no qual há vários direitos (de titulares distintos) em colisão.
II. A resolução dos conflitos entre direitos humanos
Aspectos gerais. Delimitação dos Direitos Humanos
A força expansiva dos direitos humanos consiste no fenômeno pelo qual os direitos humanos contaminam as mais diversas facetas do ordenamento jurídico. Essa verdadeira jusfundamentalização do direito, inclusive atingindo relações entre particulares (eficácia horizontal de direitos humanos), gera conflito aparente entre direitos de titulares diversos, exigindo do intérprete sólida argumentação jurídica sobre os motivos da prevalência de um direito em detrimento de outro, em determinada situação.
Os direitos humanos encontram seus limites tanto na sua redação original quanto na interação com os demais direitos. Não existem direitos absolutos, porque os direitos humanos convivem com os demais direitos previstos na Constituição e nos tratados internacionais.
A colisão de direitos (ou colisão de direitos em sentido estrito) é constatada quando o exercício de um determinado direito prejudica o exercício de outro direito do mesmo titular ou de titular diverso. Do ponto de vista subjetivo, essas colisões podem envolver direitos do mesmo titular ou de titulares diferentes. Nos casos em que o titular dos direitos é a mesma pessoa, existe a concorrência de direitos. Do ponto de vista objetivo, as colisões podem envolver direitos idênticos ou de diferentes espécies. Já a colisão de direitos em sentido amplo consiste no exercício de um direito que conflita ou interfere no cumprimento de um dever de proteção de um direito qualquer por parte do Estado.
Teoria Interna
Os conflitos são superados pela determinação do verdadeiro conteúdo dos direitos envolvidos. Trata-se de fórmula de superação dos conflitos aparentes entre direitos humanos, mediante o uso da interpretação sistemática e finalística, que determinaria o verdadeiro conteúdo dos direitos envolvidos e a adequação desse conteúdo à situação fática analisada. Para a teoria interna, há limites internos a todo direito, quer estejam traçados expressamente no texto da norma (direito fundamental traz, em seu texto, a própria ressalva que o exclui da aplicação no caso concreto), quer sejam imanentes ou inerentes a determinado direito, o que faz com que não seja possível um direito colidir com outro (trata-se do poder do intérprete de reconhecer qual é a estrutura e finalidades do uso de determinado direito, delimitando-o). Desse modo, a teoria interna nega os conflitos entre direitos humanos: “o direito cessa onde o abuso começa”. Resultado do uso da teoria interna: ou a situação fática é albergada no âmbito de incidência de um direito humano, ou não o é e consequentemente não há direito algum a ser invocado. Crítica: dificuldade do intérprete em delimitar, racionalmente, o conteúdo dos direitos em análise, tornando-se um critério arbitrário.
Teoria Externa
Adota a separação entre conteúdo do direito e limites que lhe são impostos do exterior, oriundos de outros direitos. Visa à superação dos conflitos entre direitos dividindo o processo de interpretação em dois momentos: 1) delimitação do direito prima facie envolvido (identificação sobre se o direito o direito aparentemente incide sobre a situação fática); 2) investigação sobre a existência de limites justificáveis impostos por outros direitos, de modoa impedir que o direito aparente (ou prima facie) seja considerado um direito definitivo. A justificação se dá pelo critério da proporcionalidade, que é, portanto, a chave mestra da teoria externa, pois garante racionalidade e controle da argumentação jurídica que será desenvolvida para estabelecer os limites externos de um direito e afastá-lo da regência de determinada situação fática. São nos casos difíceis (hard cases) que a insuficiência da teoria interna se apresenta. A adoção da teoria externa nestes casos resulta em maior transparência do raciocínio jurídico do intérprete. Crítica: inflação de conflitos sujeitos ao Poder Judiciário. A resposta à crítica reside no reconhecimento da inevitabilidade dos conflitos de direitos humanos.
Princípio da proporcionalidade
Consiste na aferição da idoneidade, necessidade e equilíbrio da intervenção estatal em determinado direito fundamental. O princípio é utilizado em três situações típicas: i) existência de lei ou ato administrativo que, ao incidir sobre determinado direito, o restrinja; ii) existência de lei ou ato administrativo que, ao incidir sobre determinado direito, não o proteja adequadamente; iii) existência de decisão judicial que, em conflito de direitos humanos, opta pela prevalência de um direito, limitando outro.
Originalmente, a proporcionalidade foi utilizada para combater os excessos das restrições a direitos, isto é, como instrumento de fiscalização da ação excessivamente limitadora dos atos estatais, sendo considerado o “limite dos limites” ou proibição de excesso (Übermassverbot). Contudo, atualmente, a proporcionalidade ganha a faceta de promoção de direitos, pela qual são fiscalizados os atos estatais excessivamente insuficientes para promover um direito (exemplo: direitos sociais), gerando a proibição de proteção suficiente (untermassberbot). A proporcionalidade também ganha a faceta da ponderação em conflito de direitos, pela qual é utilizada pelo intérprete para fazer prevalecer um direito, restringindo outro. Segundo ACR, é plenamente admissível a ponderação de 2º grau, uma vez que o Poder Constituinte não consegue esgotar a regência expressa de todas as hipóteses de colisão entre os direitos fundamentais. Apesar de, neste caso, a regra de colisão já ter sido previamente estabelecida na Constituição (e o constituinte ter ponderado a limitação dos direitos em colisão), submete-se essa regra a uma nova ponderação.
São elementos da proporcionalidade: 1) adequação das medidas estatais à realização dos fins propostos - examina-se se a decisão normativa restritiva de um determinado direito fundamental resulta, em abstrato, na realização do objetivo perseguido; 2) necessidade das medidas - busca-se detectar se a decisão normativa é indispensável ou se existe outra decisão passível de ser tomada que resulte na mesma finalidade almejada, mas que seja menos maléfica ao direito em análise; 3) proporcionalidade em sentido estrito - ponderação (ou equilíbrio) entre a finalidade perseguida e os meios adotados para sua consecução, mediante avaliação da relação custo-benefício da decisão normativa avaliada.
A proibição da proteção insuficiente é o sentido positivo do critério da proporcionalidade: o critério não é apenas controle das restrições a direitos, mas também controle da promoção a direitos. Decorre do reconhecimento dos deveres de proteção, fruto da dimensão objetiva dos direitos humanos. A proibição da proteção insuficiente também utiliza os mesmos três elementos da proporcionalidade.
III. A proteção do conteúdo essencial dos direitos humanos
Consiste no reconhecimento da existência de núcleo permanente composto por determinadas condutas abarcadas pelo âmbito normativo do direito, que não pode ser afetado de forma alguma pela intervenção do Estado. Esse núcleo é intocável, constituindo-se em um “limite do limite” para o legislador e aplicador dos direitos humanos. A parte do direito que pode ser regulada ou limitada é somente aquela que não faz parte desse núcleo inexpugnável.
A proteção do conteúdo essencial origina-se de dispositivos expressos de determinadas Constituições (Lei Fundamental de Bonn, Constituição de Portugal, Constituição da Espanha, Constituição do Chile), que foram redigidas após ditaduras. No plano internacional, a Carta de Direitos Fundamentais da União Europeia estabelece a proteção do conteúdo essencial dos direitos humanos. No Brasil, não há previsão expressa da proteção do “conteúdo essencial”, mas determinados autores sustentam que as cláusulas pétreas previstas no art. 60, § 4º, da CF/88 implicitamente resultam na garantia do conteúdo essencial dos direitos humanos.
As teorias a respeito de como delimitar o conteúdo essencial dos direitos humanos são as seguintes: 1) Teoria do “conteúdo essencial absoluto”: sustenta que o conteúdo essencial de um direito é determinado por meio da análise, em abstrato, de sua redação, o que seria suficiente para identificar e separar seus elementos essenciais dos não essenciais; 2) Teoria do “conteúdo essencial relativo”: sustenta que o núcleo essencial não é preestabelecido e fixo, mas determinável em cada caso, de acordo com as circunstâncias de cada caso concreto, após a realização de um juízo de proporcionalidade com outros direitos eventualmente em colisão. A teoria relativa utiliza o critério da proporcionalidade para, de acordo com as exigências do momento, ampliar ou restringir o conteúdo essencial de um direito.
No Brasil, há poucos casos de invocação da garantia de conteúdo essencial e neles não há definição sobre a teoria (absoluta ou relativa) adotada. Quando se menciona a garantia do conteúdo essencial dos direitos humanos em precedentes do STF, há o uso de uma “garantia dupla” dos direitos humanos. Em primeiro lugar, verifica-se se a restrição a determinado direito é aceitável de acordo com o princípio da proporcionalidade; em seguida, avalia-se se essa restrição não esvaziou totalmente o “conteúdo essencial” do direito em análise.[footnoteRef:4] [4: Em caso envolvendo a não obrigatoriedade de diploma específico para o exercício da profissão de jornalista, o Min. Gilmar Mendes adotou essa “garantia dupla”, ao dispor que “a restrição legal desproporcional e que viola o conteúdo essencial da liberdade deve ser declarada inconstitucional” (RE 511.961, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgamento em 17-6-2009, Plenário, DJE de 13-11-2009).]
IV. Espécies de restrições dos direitos humanos
A restrição a direitos humanos é realizada por meio de lei ou por meio de interpretação judicial que decide o conflito entre direitos em colisão. A restrição em sentido amplo de um direito fundamental consiste em ação ou omissão do Estado, que elimina, reduz, comprime ou dificulta de alguma maneira o exercício de direito fundamental pelo seu titular, ou ainda enfraquece os deveres de proteção que dele resultam ao Estado, afetando negativamente o exercício desse direito por seu titular. A restrição em sentido estrito consiste em intervenções legislativas que foram autorizadas pela Constituição para limitar determinado direito, desde que respeitadas a proporcionalidade e o conteúdo essencial dos direitos humanos. São as chamadas restrições legais aos direitos humanos. Em relação às restrições legais, a Constituição de 1988 traz dois tipos claros de restrições permitidas: 1) Restrição ou reserva legal simples, que consiste na autorização dada pela Constituição a edição posterior de lei que adote determinada restrição a direito fundamental; 2) Restrição ou reserva legal qualificada, que é aquela em que a Constituição, além de estabelecer a reserva de lei, ainda estipula os requisitos e condições que a lei necessariamente deve observar. Toda reserva legal de um direito fundamental é, na verdade, uma “reserva legal proporcional”, ou seja, deve a lei que impôs a restrição ser aprovada pelo crivo da proporcionalidade.
Há direitos sem qualquer menção à lei restritiva. Mesmo tais direitos estão sujeitos a uma reserva legal subsidiária, podendo o legislador regular esse direito em facedos demais valores constitucionais. Ademais, todos os direitos fundamentais, mesmo sem restrição expressa, estão sujeitos a uma “reserva geral de ponderação”, uma vez que esses dispositivos estão sujeitos à ponderação com outros valores previstos na Constituição, relacionados a outros direitos fundamentais em colisão.
Há limitações de direitos humanos que resultam de inserção do titular desses direitos em uma situação de sujeição especial do indivíduo perante o Poder Público, decorrente da necessidade de atendimento a determinadas necessidades sociais, que, sem tal sujeição, não teriam como ser atendidas (exemplo: regime jurídico dos direitos humanos de militares). A justificativa de legitimidade de tais restrições é o princípio da supremacia do interesse público sobre o interesse privado. Entretanto, é necessário que a restrição seja proporcional.
V. Limitabilidade dos direitos humanos
A limitabilidade consiste no reconhecimento de que a essencialidade dos direitos humanos e sua superioridade normativa não impedem a existência de limites impostos a um direito em nome da preservação de outro.
A limitação de um direito protegido pode ser fruto de restrições excepcionais e temporárias de defesa do próprio Estado de Direito. O espírito que rege a possibilidade de derrogação de direitos humanos em situações anormais é a prevalência do Estado Democrático de Direito, que deve possuir mecanismos transitórios que assegurem sua existência, em casos de perigos extremos. Contudo, o Direito Internacional dos Direitos Humanos impõe limites a tais suspensões: 1) materiais (alguns direitos são inderrogáveis); 2) temporais (a suspensão deve ser transitória); 3) processuais (os remédios judiciais básicos de garantia dos direitos humanos não podem ser suspensos)[footnoteRef:5]. Além disso, exige-se proporcionalidade, ou seja, que somente cabe suspender determinados direitos que guardem relação com as medidas excepcionais necessárias para o atendimento da emergência pública. [5: Na Convenção Americana de Direitos Humanos, há previsão expressa de que não é possível derrogar ou suspender as garantias judiciais durante um estado de emergência (art. 27.2).]
No âmbito dos Direitos Humanos, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP)[footnoteRef:6] e a Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José)[footnoteRef:7] preveem a possibilidade de que certos direitos sejam suspensos, com as seguintes diferenças quanto às hipóteses de cabimento e quanto ao núcleo de direitos inderrogáveis: [6: Art. 4º do PICDP: “1. Quando situações excepcionais ameacem a existência da nação e sejam proclamadas oficialmente, os Estados Partes do presente Pacto podem adotar, na estrita medida exigida pela situação, medidas que suspendam as obrigações decorrentes do presente Pacto, desde que tais medidas não sejam incompatíveis com as demais obrigações que lhes sejam impostas pelo Direito Internacional e não acarretem discriminação alguma apenas por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião ou origem social.
2. A disposição precedente não autoriza qualquer suspensão dos artigos 6, 7, 8 (parágrafos 1 e 2) 11, 15, 16, e 18.
3. Os Estados Partes do presente Pacto que fizerem uso do direito de suspensão devem comunicar imediatamente aos outros Estados Partes do presente Pacto, por intermédio do Secretário- Geral da Organização das Nações Unidas, as disposições que tenham suspendido, bem como os motivos de tal suspensão. Os Estados partes deverão fazer uma nova comunicação, igualmente por intermédio do Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas, na data em que terminar tal suspensão.”
Comentário Geral n. 29 Comitê de Direitos Humanos: O Comitê de Direitos Humanos, intérprete do PIDCP, salientou, em seu Comentário Geral n. 29, referente ao artigo 4º do PIDCP, que as medidas de emergência devem ser estritamente proporcionais.] [7: Art. 27 do Pacto de San José: “1. Em caso de guerra, de perigo público, ou de outra emergência que ameace a independência ou segurança do Estado Parte, este poderá adotar disposições que, na medida e pelo tempo estritamente limitados às exigências da situação, suspendam as obrigações contraídas em virtude desta Convenção, desde que tais disposições não sejam incompatíveis com as demais obrigações que lhe impõe o Direito Internacional e não encerrem discriminação alguma fundada em motivos de raça, cor, sexo, idioma, religião ou origem social. 2. A disposição precedente não autoriza a suspensão dos direitos determinados seguintes artigos: 3 (Direito ao reconhecimento da personalidade jurídica); 4 (Direito à vida); 5 (Direito à integridade pessoal); 6 (Proibição da escravidão e servidão); 9 (Princípio da legalidade e da retroatividade); 12 (Liberdade de consciência e de religião); 17 (Proteção da família); 18 (Direito ao nome); 19 (Direitos da criança); 20 (Direito à nacionalidade) e 23 (Direitos políticos), nem das garantias indispensáveis para a proteção de tais direitos. 3. Todo Estado Parte que fizer uso do direito de suspensão deverá informar imediatamente os outros Estados Partes na presente Convenção, por intermédio do Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos, das disposições cuja aplicação haja suspendido, dos motivos determinantes da suspensão e da data em que haja dado por terminada tal suspensão.”]
HIPÓTESES DE CABIMENTO
PIDCP
PACTO DE SAN JOSÉ
Situações excepcionais que ameacem a existência da nação e sejam proclamadas oficialmente.
Guerra
Perigo Público
Outra emergência que ameace a independência ou segurança do Estado.
NÚCLEO DE DIREITOS INDERROGÁVEIS
PIDCP
PACTO DE SAN JOSE
Direito à vida e proibição da pena de morte;
Direito à vida;
Proibição da tortura;
Direito à integridade pessoal;
Proibição da escravidão;
Proibição da escravidão;
Proibição da servidão;
Proibição da servidão;
Proibição da prisão por obrigação contratual;
Proibição retroatividade lei penal;
Princípio da legalidade e da retroatividade;
Direito à personalidade jurídica;
Direito ao reconhecimento da personalidade jurídica;
Liberdade de pensamento, consciência e religião.
Liberdade de consciência e de religião;
Proteção da família;
Direito ao nome;
Direitos da criança;
Direito à nacionalidade;
Direitos políticos.
Para ACR, é legítima a aplicação das restrições do art. 27 por decorrência do estado de calamidade pública e emergência da COVID-19, sendo possível a restrição de direitos humanos em prol de medidas de combate à pandemia. Se Trata de uma limitação temporal.
Acerca da questão, nas ADI 6586. 6587, o STF julgou parcialmente procedentes as ações, para conferir interpretação conforme à Constituição ao art. 3º, III, d, da Lei nº 13.979/2020 (Lei das medidas de combate à COVID-19), nos termos do voto do Relator e da seguinte tese de julgamento: “(I) A vacinação compulsória não significa vacinação forçada, porquanto facultada sempre a recusa do usuário, podendo, contudo, ser implementada por meio de medidas indiretas, as quais compreendem, dentre outras, a restrição ao exercício de certas atividades ou à frequência de determinados lugares, desde que previstas em lei, ou dela decorrentes, e (i) tenham como base evidências científicas e análises estratégicas pertinentes, (ii) venham acompanhadas de ampla informação sobre a eficácia, segurança e contraindicações dos imunizantes, (iii) respeitem a dignidade humana e os direitos fundamentais das pessoas, (iv) atendam aos critérios de razoabilidade e proporcionalidade e (v) sejam as vacinas distribuídas universal e gratuitamente; e (II) tais medidas, com as limitações acima expostas, podem ser implementadas tanto pela União como pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, respeitadas as respectivas esferas de competência”.
Nesse sentido, a Corte considerou possível a limitação de direitos de liberdade religiosa e de crença, bem como liberdade de locomoção, trabalho, livre-iniciativa, exercício profissional, dentre outros, desde que não existam restrições ao núcleo intangíveldescrito na tabela acima.
3A. Direitos Humanos. Classificações. Dignidade Humana e seus usos. Fontes internacionais da proteção de direitos humanos. O regime objetivo dos tratados de direitos humanos. Características das normas internacionais. Normas internacionais imperativas de direitos humanos.
Gabriel Infante Martins
I. Direitos Humanos. Classificações
Os direitos humanos podem apresentar as seguintes classificações:
I.A) Teoria do status (Georg Jellinek). Pela teoria do status, o indivíduo se encontra em quatro diferentes posições diante do Estado (verticalidade, relação desigual):
a) status passivo (status subjectionis ou estado de submissão): o indivíduo está subordinado em face ao Estado (deveres individuais, como o de pagar tributos);
b) status negativo (status libertatis): são o conjunto de limitações à ação do Estado (proteção do indivíduo); dimensão subjetiva, liberal ou clássica dos direitos humanos;
c) status positivo (status civitatis): são as pretensões do indivíduo para invocar a atuação do Estado em prol de seus direitos;
d) status ativo (status activus): refere-se ao exercício dos direitos políticos e de cidadania (participação da formação da vontade do Estado). Peter Häberle defendeu a ampliação deste para que se transformasse em status activus processualis (participação no procedimento da tomada de decisão por parte do Poder Público).
I.B) Teoria das gerações ou dimensões (Karel Vasak). Por tal teoria, os direitos humanos apresentam diferentes gerações ou dimensões. Deve-se observar que parte da doutrina critica a expressão “gerações”, por dar a ideia errada de que a existência de uma geração excluiria a outra (o que leva alguns autores, a exemplo do ACR a preferirem usar a expressão dimensões), e critica também a construção de Vasak, por apresentar os DH de forma fragmentada (ofensa à indivisibilidade dos DH).
A) primeira dimensão: engloba os direitos de liberdade ou de defesa, ou seja, referem-se às prestações negativas por parte do Estado (verdadeiro âmbito de proteção do indivíduo face ao Estado). Revoluções liberais do século XVIII. Liberdades clássicas, negativas, formais.
B) segunda dimensão: representa os direitos de igualdade e refere-se à atuação positiva do Estado em relação a direitos econômicos, sociais e culturais. Constituição Mexicana (1917), Alemã (1919, Weimar), OIT (1919, Tratado de Versalhes). Liberdades positivas, reais ou concretas.
C) terceira dimensão: está relacionada aos direitos de solidariedade (ou fraternidade) e vinculam-se aos interesses transindividuais (de titularidade da comunidade), como o meio ambiente, o desenvolvimento, a autodeterminação etc.
D) outras dimensões: Paulo Bonavides, por exemplo, defende a existência de uma quarta geração de direitos humanos, que corresponderia ao direito à participação democrática na sociedade, ao pluralismo e à bioética. Fala-se ainda que existiria uma quinta geração, que englobaria o direito à paz (Bonavides). Todavia, parte da doutrina critica essa extensão, por falhas na diferenciação entre as gerações e dificuldades em se precisar os conteúdos das novas gerações.
I.C) Classificação pela finalidade. Há os direitos propriamente ditos, que são dispositivos que visam o reconhecimento jurídico de pretensões inerentes à dignidade de todo ser humano. Por outro lado, há as garantias fundamentais, que visam assegurar tais direitos. Tais garantias podem ser: a) institucionais (em sentido amplo): contemplam instituições e estruturas organizacionais que visam garantir os direitos fundamentais, como o Ministério Público, a Defensoria Pública, a liberdade de imprensa, a reserva de lei para a atuação do Poder Público etc.; b) garantias fundamentais em sentido estrito: referem-se às ações processuais destinadas a proteger os direitos essenciais dos indivíduos, como os remédios constitucionais e o direito de petição em órgãos internacionais.
I.D) Classificação pelas funções:
A) direitos de defesa: são direitos que estabelecem uma esfera jurídica de autonomia e autodeterminação dos indivíduos contra o Poder Público (eficácia vertical) e contra particulares (eficácia horizontal ou diagonal);
B) direitos a prestações: são direitos que exigem uma obrigação estatal de ação.
C) direitos a procedimentos e instituições: são direitos que exigem do Estado a estruturação de instituições aptas a oferecer bens ou serviços indispensáveis à efetivação dos DH (ex.: restabelecimento, pelo STF, da composição do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura – ADPF 607).
I.E) Classificação adotada na CF/88:
A) direitos individuais
B) direitos sociais
C) direitos de nacionalidade: o nacional é aquele que possui um vínculo jurídico com um determinado Estado, fixando direitos e deveres recíprocos. No Caso Ivcher Bronstein vs Peru (e em outros, como no Caso Meninas Yean e Bosico vs República Dominicana), a Corte IDH ressaltou que, embora tradicionalmente se tenha aceitado que a determinação da nacionalidade seja de competência de cada Estado, a evolução na matéria mostra que o DIDH impõe certos limites à discricionariedade (exigências da proteção integral dos direitos humanos). A nacionalidade gera direitos e deveres para o indivíduo, como proteção diplomática (para tanto, deve existir vínculo efetivo e genuíno entre o Estado e o indivíduo, conforme a CIJ no Caso Nottebohm – Lichtenstein vs Guatemala, 1955).
D) direitos políticos: um conjunto de direitos de participação na formação da vontade do poder e sua gestão, permitindo o exercício do poder pelo povo de modo direto (democracia direta ou participativa, por meio de plebiscito, referendo ou iniciativa popular) e indireto (democracia indireta ou participativa). Essa participação também ocorre na ação fiscalizatória sobre os governantes (ação popular). Aquele que exerce direitos políticos é qualificado como “cidadão”, que é uma expressão contida (inserida) na ideia mais abrangente de nacionalidade.
E) partidos políticos: associações de pessoas, de natureza de direito privado no Brasil, criadas para assumir o poder e realizar seu ideário ideológico.
I.F) Classificação pela forma de reconhecimento: expressos (expressamente previstos na CF/88), implícitos (decorrem implicitamente da essência da CF/88) e decorrentes (oriundos de tratados de DH).
II. Dignidade Humana e seus usos
O princípio da dignidade da pessoa humana tem por objetivo proporcionar uma proteção integral à pessoa e é composto, de acordo com Daniel Sarmento, por cinco elementos: a) valor intrínseco da pessoa; b) igualdade; c) autonomia (tanto privada quanto pública); d) mínimo existencial; e) reconhecimento.
Além disso, pode-se dizer que a dignidade humana tem tanto um viés positivo (dever de garantia, condições materiais mínimas) quanto negativo (dever de respeito, proibição de se impor tratamento ofensivo ou discriminação odiosa).
Para Barroso, a dignidade da pessoa humana possui três elementos: i) valor intrínseco – toda pessoa tem um fim em si mesmo; ii) autonomia – núcleo essencial da liberdade individual de poder realizar suas escolhas de vida; iii) valor comunitário/heteronomia – define contornos da dignidade e impõe limites à autonomia individual.
Dada a importância de tal princípio, ele apresenta diversas funções ou usos:
a) princípio legitimador: confere fundamento moral ao Estado e à ordem jurídica, estabelecendo que eles existem em razão da pessoa humana e não o contrário;
b) papel hermenêutico: tal princípio deve guiar a interpretação, a aplicação e a integração do Direito, irradiando-se para todos os ramos da ordem jurídica, inclusive para o Direito Privado (eficácia horizontal dos direitos fundamentais ou Drittwirkung);
c) critério para a ponderação entre interesses constitucionais conflitantes: tal princípio atribui peso superior prima facie aos bens jurídicos mais importantes para a proteção e promoção da dignidade;
d) limitação de direitos fundamentais: é possível limitar o exercício de direitos fundamentais se de tal exercício decorrer dano à dignidade de terceiro (princípio do dano,segundo concepção elaborada por John Stuart Mill);
e) parâmetro para controle de atos estatais e particulares: a dignidade pode incidir diretamente às relações entre particular e Estado e entre particulares, sem a necessidade de mediação concretizadora de outros direitos fundamentais ou de atos normativos infraconstitucionais;
f) identificação de direitos fundamentais: tendo em vista que os direitos fundamentais gozam de regime constitucional próprio (cláusulas pétreas), a dignidade da pessoa humana é de suma importância para a identificação dos direitos que merecem tal proteção, ainda que eles não estejam previstos no rol do art. 5º da Constituição (e sejam incluídos posteriormente, como ocorreu recentemente com o direito à proteção de dados, ou não, como é o caso do direito ao meio ambiente equilibrado previsto no art. 225 da CF/88) e mesmo que eles estejam fora do texto constitucional (vide art. 5º, § 2º, da CF/88).
III. Fontes internacionais da proteção de direitos humanos. Normas internacionais imperativas de direitos humanos.
A criação do Direito Internacional dos Direitos Humanos (DIDH) está relacionada à nova organização da sociedade internacional após a 2ª Guerra Mundial e o surgimento da ONU. A Carta da ONU não listou o rol dos direitos considerados essenciais, o que foi feito por meio da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), na qual se apontou diversos direitos (políticos, civis, econômicos, sociais e culturais).
Na doutrina, haja vista que a DUDH é uma resolução da Assembleia Geral da ONU, há divergência sobre a natureza jurídica da DUDH: 1) força vinculante, por se tratar de interpretação autêntica do termo direitos humanos previsto na Carta da ONU; 2) força vinculante, por se tratar de costume internacional sobre a matéria (posição da CIJ no Caso envolvendo o Pessoal Diplomático e Consular Norte-Americano em Teerã); 3) força vinculante e caráter inderrogável, por se tratar de jus cogens em sua inteireza; 4) soft law, por se tratar de mera orientação ou exortação aos Estados.
Dito isso, as fontes internacionais da proteção de direitos humanos estão previstas no art. 38 do Estatuto da CIJ (Corte Internacional de Justiça):
a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes;
b) o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito;
c) os princípios gerais de direito, reconhecidos pelas nações civilizadas; e
d) as decisões judiciárias e a doutrina dos juristas mais qualificados das diferentes nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de direito, sob ressalva da disposição do art. 59 (a decisão da Corte só será obrigatória para as partes litigantes e a respeito do caso em questão).
e) equidade (ex aequo et bono), se as partes concordarem, pois o próprio art. 38 prevê que não prejudicará a faculdade da Corte de decidir dessa maneira.
Desse rol, deve-se destacar o costume internacional, que é composto de dois elementos: aspecto material/objetivo, que é a reiteração generalizada da conduta, e o aspecto psicológico/subjetivo, que é a crença de que tal conduta é o Direito.
Todas as normas de Direito Internacional, independentemente da sua fonte normativa (vide art. 38 do Estatuto da CIJ), podem adquirir força de norma imperativa de direito (jus cogens), caso em que só pode ser modificado por norma posterior de Direito Internacional da mesma hierarquia, ou seja, que também seja jus cogens (arts. 53 e 64 da CVDT).
Vale lembrar que o costume internacional Embora não haja um rol específico de quais normas seriam imperativas de direito, a doutrina e a jurisprudência internacional têm reconhecido como tal 1) a vedação à tortura (Caso Chacina da Rochela vs Colômbia, Corte IDH), 2) a vedação ao genocídio, 3) a vedação aos crimes contra a humanidade, 4) a dignidade da pessoa humana, 5) a imprescritibilidade dos crimes de guerra e contra a humanidade (Caso Almonacid Arellano vs Chile, Corte IDH), 6) a vedação ao trabalho escravo (Caso Fazenda Brasil Verde vs Brasil, Corte IDH; Caso José Pereira vs Brasil, CIDH), 7) acesso à justiça (Caso Goiburu vs Paraguai, Corte IDH).
Deve-se apontar que as normas jus cogens não se confundem com as obrigações erga omnes, categoria reconhecida, em obter dictum, no Caso Barcelona Traction (1970, CIJ): as obrigações erga omnes são aquelas que obrigam toda a comunidade internacional, de forma que todos os Estados têm interesse em seu cumprimento. Por outro lado, as normas jus cogens não só têm a força obrigatória das obrigações erga omnes, como também contam com o reforço da superioridade hierárquica (questão de direito material).
Essas normas são inderrogáveis, salvo por normas internacionais do mesmo status (jus cogens), e não admitem o objetor persistente (persistente objector), figura aplicável aos costumes internacionais, segundo a qual o Estado que persistentemente rechaça a existência de um costume não se vincula a ele.
Tratados a serem lembrados: Carta das Nações Unidas (Carta da ONU ou Carta de São Francisco, 1945), a Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH ou Declaração de Paris, 1948), Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP ou Pactos de Nova Iorque, 1966), Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC ou Pactos de Nova Iorque, 1966).
IV. O regime objetivo dos tratados de direitos humanos
Os tratados que contêm vantagens mútuas aos Estados contratantes (chamados sinalagmáticos) se baseiam na ideia da reciprocidade (quid pro quo). Os tratados de direitos humanos, por outro lado, são guiados por um regime objetivo, que significa que o Estado assume várias obrigações para com os indivíduos sob sua jurisdição, e não para com outro Estado contratante.
Essa natureza objetiva implica reconhecer que a interpretação de tais tratados deve sempre ser feita em prol dos indivíduos (pro persona), e não dos contratantes (Estados). A noção contratualista da reciprocidade não se aplica aos direitos humanos, que devem ser garantidos ainda que um dos Estados contratantes os viole (ou seja, não se aplica, aqui, a teoria do contrato não cumprido).
Exemplo: a CIJ, no Parecer Consultivo sobre as Reservas à Convenção para a Prevenção e Repressão ao Crime de Genocídio esclareceu que os Estados contratantes não possuem interesses próprios, mas tão somente o interesse comum de proteger os seres humanos do crime de genocídio.
O marco dessa concepção são as quatro Convenções de Genebra (1949) sobre Direito Humanitário, marcada por uma série de engajamentos coletivos no trato das pessoas submetidas a conflitos armados.
V. Características das normas internacionais
Para se entender as características das normas internacionais, é necessário apontar que, na ordem internacional, não há um poder centralizador. A descentralização da ordem jurídica internacional implica a substituição da ideia de subordinação dos sujeitos de direito a um poder hierarquicamente superior pela ideia de coordenação, motivada pela vontade e pelo consentimento dos Estados.
Isso não implica, no entanto, que as normas internacionais não sejam cogentes: não só no âmbito da ONU, como também no âmbito regional (OEA, UE, UA etc.), existe um sistema de sanções, aptos a obrigar os Estados a cumprir os tratados aos quais aderiram voluntariamente. Isso se torna ainda mais importante quando estamos diante da proteção dos direitos humanos, dada a natureza objetiva de seu regime, e devido ao fato de que, neste âmbito, os costumes e o jus cogens ganham grande importância, mitigando o voluntarismo típico do Direito Internacional clássico.
VI. Normas imperativas de direitos humanos
De acordo com ACR, para a Corte IDH, são normas imperativas de direitos humanos (jus cogens): 1) princípio da igualdade e proibição de discriminação; 2)proibição absoluta de todas as formas de tortura, tanto física quanto psíquica; 3) proibição de tratamento ou punição cruel, desumana ou degradante; 4) proibição de desaparecimento forçado de pessoas;5) proibição de escravidão e práticas semelhantes; 6) princípio da não devolução (proibição do rechaço; non-refoulement), incluindo a não expulsão na fronteira e a repulsão indireta; 7) proibição de cometer ou tolerar violações graves dos direitos humanos; 8) proibição de cometer crimes contra a humanidade e a obrigação associada de criminalizar, investigar e punir esses crimes.
3B. Proteção dos direitos das mulheres no Direito Internacional. Igualdade de gênero. Tratados internacionais no âmbito global e regional. A implementação no Brasil da promoção e proteção dos direitos das mulheres.
Jéssica Flores Silva
Breve contextualização: Embora quantitativamente sejam maioria no planeta, assim como no Estado brasileiro, verifica-se o padrão masculino como o dominante ou hegemônico, caracterizando-se as mulheres como um grupo vulnerável. A vulnerabilidade de tal grupo é refletida nas constantes violações promovidas contra os direitos das mulheres, bem como na falta de representatividade paritária dessa categoria em diversos espaços, a exemplo dos cargos políticos e de chefia, além das diversas formas de violência as quais as mulheres estão submetidas todos os dias, merecendo destaque a promoção e proteção dos seus direitos humanos.
PROTEÇÃO DOS DIREITOS DAS MULHERES NO DIREITO INTERNACIONAL: O início da proteção internacional da mulher, como resultado dos movimentos reivindicatórios do final do século XIX, tem como marco o advento do constitucionalismo social, tendo a Constituição Mexicana de 1917 afirmado expressamente a dignidade da mulher e as Convenções n. 3 e 4 da OIT, de 1919, regulado algumas condições em favor das trabalhadoras fabris. O período de entreguerras foi marcado por conquistas nacionais, como o direito de votar, nas principais potências (EUA, Inglaterra etc.) e em países com razoável grau de desenvolvimento (Brasil, Equador, Uruguai etc.).
No pós-guerra, com a massiva internacionalização dos direitos humanos e a instituição de organizações para a sua promoção, a Carta de São Francisco (1945) mencionou expressamente a igualdade entre homens e mulheres (Preâmbulo e art. 8o). Tal menção ocorreu unicamente pelo esforço das diplomata brasileira Bertha Lutz. Em 1946, foi instituída a Comissão da Condição Jurídica e Social da Mulher (CSW), como parte do Conselho Econômico e Social.
Em seguida, foram editados os primeiros tratados internacionais que protegiam diretamente os direitos das mulheres: (a) Convenção Sobre Direitos Políticos da Mulher (1952); (b) Convenção Sobre a Nacionalidade da Mulher Casada (1956); (c) Convenção sobre o Consentimento, Idade Mínima e Registro para Casamentos (1962).
A CSW também colaborou na Convenção da OIT para igualdade de salários entre homens e mulheres (1951). Em 1967, foi aprovada pela Assembleia Geral a Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra a mulher, que posteriormente foi ampliada na Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher de 1979 – CEDAW (detalhes abaixo), instituindo um Protocolo Facultativo, em 1999.
Nas comemorações de 25 anos da CSW, foi indicado o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, quando ocorreu a Conferência Mundial do Ano Internacional da Mulher e restou aprovada a Declaração do México sobre a Igualdade da Mulher e sua Contribuição para o Desenvolvimento e a Paz. Novas conferências foram realizadas em Copenhagem (1980) e Nairobi (1985). Foram estabelecidos o Fundo para o Desenvolvimento da Mulher (UNIFEM) e o Instituto Internacional de Pesquisa e Treinamento para o Desenvolvimento da Mulher (INSTRAW).
Manifestando preocupação com o aumento da violência de gênero, a 3a Conferência (Nairobi) fixou como meta a elaboração de um documento abordando expressamente o assunto, o que ocorreu com edição da Declaração para a Eliminação da Violência Contra a Mulher, em 1993. Logo após, seguiu-se a 4a Conferência Mundial em Pequim (1995), onde foi elaborada a Declaração de Pequim (detalhes abaixo). Na ocasião, foi criado um novo órgão: o Escritório de Assessoria Especial em Questões de Gênero (OSAGI).
Em 2010, foram aprovadas as Regras de Bangkok, para o tratamento da mulher presa e sob medidas não privativas de liberdade, norma de soft law. Em 2011, os órgãos UNIFEM, INSTRAW e OSAGI foram aglutinados na ONU-Mulher, uma secretaria da CSW. Em 2015, foi lançada a Campanha Pequim+20, comemorando os 20 anos da Declaração de Pequim. Atualmente, a ONU comemora a Década Internacional de Afrodescendentes (2015-2024) e elaborou um documento especial com relação às Meninas e Mulheres Afrodescendentes.
No plano interamericano, a proteção das mulheres iniciou-se, inclusive, antes dos tratados onusianos. Deve- se dar destaque à Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher (“Convenção de Belém do Pará”), assinada em 1994, que reconhece a violência de gênero, de caráter público e privado, como violação aos direitos humanos (detalhes abaixo).
IGUALDADE DE GÊNERO: Igualdade de gênero, também conhecida como igualdade sexual, significa que homens e mulheres devem ter os mesmos direitos e deveres. Assim, mulheres e homens devem usufruir da igualdade de oportunidades, escolhas, capacidades, poder e conhecimento como cidadãos iguais.
TRATADOS INTERNACIONAIS NO ÂMBITO GLOBAL E REGIONAL: Em âmbito global, tem-se Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979), e, no sistema interamericano, Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher de 1994 (Convenção de Belém do Pará).
Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (1979): A CEDAW foi adotada pela Resolução n. 34/180 da AGNU, em 1979, tendo em vista a persistente manutenção das discriminações contra a mulher. No Brasil, foi assinada 1981, com reservas (arts. 15, §4, e art. 16, § 1, alíneas a, c, g e h). A Convenção entrou em vigor em 1984, com a reserva do art. 29, §2, que permite que o Estado não se considere obrigado a submissão da questão não resolvida por negociação a arbitragem. Por sua vez, o DL n. 26/1994, revogando o anterior, aprovou a Convenção sem as reservas dos arts. 15 e 16, e o Brasil as retirou em 1994. A Convenção foi promulgada pelo Decreto 4.377 em 2002.
Na CEDAW, busca-se combater todas as formas de discriminação contra as mulheres, com a eliminação a discriminação e assegurar a identidade de gênero. Frise-se que devem ser adotadas medidas que busquem eliminar a discriminação contra a mulher praticada por qualquer pessoa, organização, empresa, e não apenas pelo Estado.
Conceito de discriminação contra a mulher na CEDAW: TODA a distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo.
Principais medidas a serem adotadas pelos Estados: (a) Adoção de política destinada a eliminar a discriminação contra a mulher, praticada por qualquer pessoa, organização ou empresa (aplicação dos direitos humanos nas relações entre particulares); (b) Medidas apropriadas para assegurar o pleno desenvolvimento e o progresso da mulher, para garantir-lhe o exercício e o gozo dos direitos humanos e liberdades fundamentais em igualdade de condições com o homem; (c) Medidas especiais, de caráter temporário, para acelerar a igualdade de fato entre homens e mulheres, que deverão cessar quando os objetivos de igualdade de oportunidade e tratamento forem alcançados (ações afirmativas) (ex.: cota eleitoral do sexo); (d) Medidas apropriadas para alterar os padrões socioculturais de conduta (para eliminar preconceitos e práticas consuetudinárias ou de outra índole baseadas na ideia de superioridade ou inferioridade de qualquer dos sexos e para garantir que a educação familiarinclua a compreensão adequada da maternidade como função social e o reconhecimento da responsabilidade comum entre homens e mulheres quanto ao desenvolvimento dos filhos); e (e) Medidas para suprimir todas as formas de tráfico de mulheres e exploração da prostituição da mulher.
Mecanismos de monitoramento da Convenção: A Convenção cria o Comitê sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW), que tem a finalidade de examinar os progressos alcançados na sua aplicação, bem como o mecanismo de relatoria periódica. As competências do CEDAW são: (a) emissão de relatórios; (b) recomendações aos Estados; e (c) petições individuais (incluída pelo Protocolo Facultativo, adotado em 1999, e ratificado pelo Brasil em 2021, teve por objetivo aperfeiçoar o sistema de monitoramento da Convenção, assegurando o direito de petição quanto às violações dos direitos nela garantidos).
Caso Alyne Pimentel: Até o momento, a primeira e única condenação do Brasil no sistema global foi realizada no Caso Alyne Pimentel pelo Comitê sobre Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW). Além de ser a primeira condenação do Brasil no Sistema Onusiano, também consiste na primeira denúncia sobre mortalidade materna acolhida pelo Cedaw. No caso, o Comitê decidiu em 2011 que o Estado brasileiro violou os direitos de acesso à saúde, acesso à justiça e não discriminação. Para o Comitê, além de Alyne Pimentel ter sofrido discriminação por ser mulher, também sofreu por ser negra e pertencer à população de baixa renda.
OBS: O Código Penal tipifica como assédio sexual (art. 216-A) somente aquele ocorrido no local de trabalho, diferente da Convenção, que entende como assédio sexual também o ocorrido em instituições educacionais, serviços de saúde ou qualquer outro. Contudo, o STJ reconheceu que o crime de assédio sexual também pode ser cometido por professores em face de alunos, não devendo a expressão “ascendência” constante do tipo penal limitar-se à ideia de relação empregatícia entre as partes (REsp 1759135/SP de 2019 – Info 658). Trecho da ementa: “É patente a aludida "ascendência", em virtude da "função" desempenhada pelo recorrente - também elemento normativo do tipo -, devido à atribuição que tem o professor de interferir diretamente na avaliação e no desempenho acadêmico do discente, contexto que lhe gera, inclusive, o receio da reprovação. Logo, a "ascendência" constante do tipo penal objeto deste recurso não deve se limitar à ideia de relação empregatícia entre as partes. Interpretação teleológica que se dá ao texto legal.”.
Regras de Bangkok: São as Regras das Nações Unidas para o tratamento de Mulheres Presas e Medidas não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras (Resolução n. 65/229, de 21 de dezembro de 2010). Também são instrumentos de Soft Law, as Regras de Bangkok complementam as Regras de Mandela. Tratam-se de Regras de Políticas Públicas de prevenção de crimes e de justiça criminal especificamente voltadas para as mulheres. Nesse sentido, são as seguintes as regras básicas previstas nas Regras de Bangkok: (a) Necessidades Específicas das Mulheres; (b) Parcela das Mulheres encarceradas não oferece risco à sociedade; e (c) Revistas.
As Regras de Bangkok, especialmente a questão das mães carcerárias, trata-se de tema que ganhou ainda mais relevância após a decisão do STF no âmbito do Habeas Corpus Coletivo 143641-SP. A decisão conferiu a todas as mulheres gestantes e mães, salvo exceções pontuais, a substituição da prisão carcerária por medida diversa da prisão, com fundamento nas regras de Bangkok, bem como no Estado de Coisas inconstitucional.
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará, 1994): O Grande objetivo da Convenção de Belem do Pará, diferente da Convenção Global que visa a proteção de TODA discriminação, é o combate especificamente à violência contra a mulher.
Conceito de violência contra a mulher: É qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada (art. 1).
Mecanismos de proteção: A Convenção cria a Comissão Interamericana de Mulheres. Importante ressaltar uma característica peculiar da presente Comissão frente as demais. Em regra, os legitimados para provocar a Corte IDH a exercer a sua competência consultiva, elaborando parecer sobre a interpretação da Convenção, são Comissão de IDH e os Estados. Contudo, a Convenção de Belém do Pará também confere essa legitimidade expressamente a Comissão Interamericana de Mulheres (art. 12).
Os mecanismos de proteção previstos na Convenção de Belém do Pará são: (a) informes à Comissão Interamericana de Mulheres; (b) Estados Partes da Convenção e a Comissão Interamericana de Mulheres podem requerer opinião consultiva sobre a interpretação da convenção à Corte IDH; (c) Petição de qualquer pessoa, grupo de pessoas ou entidade não governamental legalmente reconhecida em um ou mais Estados-membros da Organização à Comissão IDH; (d) caso cabível, a Comissão IDH pode processar o Estado infrator perante a Corte IDH.
Caso Campo Algodoeiro (Caso González y otras vs. México): Foi o primeiro caso em que foi reconhecida, no âmbito do Sistema Interamericano, a violência estrutural contra as mulheres, assim como a prática de feminicídio. Foi peticionamento da Comissão. Importante também que, neste caso a Corte afirmou, pela primeira vez, sua competência para apreciar violações à Convenção de Belém do Pará. Para o Tribunal, “"(...) o teor literal do art. 12 da Convenção de Belém do Pará concede competência à Corte ao não excetuar de sua aplicação nenhuma das normas e requisitos de procedimento para as comunicações individuais".
Além desse caso, foi com fundamento no art. 12 também que o Caso Maria da Penha chegou a CIDH.
Caso Márcia Bárbosa de Souza: O caso Barbosa de Souza e outros vs. Brasil foi foi o primeiro caso do Brasil em que foi reconhecida a prática de feminicídio. A Corte condenou o Brasil, em 2021, a morte de Márcia Barbosa de Souza. Trata-se de caso emblemático que dialoga com a “Lei Mari Ferrer” (Lei 14.245/21), que protege a dignidade da vítíma e/ou testemunhas.
OBS: Importante ressaltar que o Caso Maria da Penha foi um caso que chegou à Comissão, e não à Corte, razão pela qual não se pode falar que foi ele o primeiro caso do Brasil na Corte de violência contra a mulher. No Caso Maria da Penha, o Brasil reconheceu sua omissão e comprometeu-se a prestar reparações à vítima, e adotar medidas protetivas quanto a questão da violência doméstica, dentre essas medidas destaca-se a promulgação da Lei Maria da Penha.
Caso Brítez Arce vs. Argentina: Estado argentino foi condenado pela violação do direito à saúde da Sra. Brítez Arce que sofreu violência obstétrica. Com isso, a Corte declarou a Argentina responsável pela violação do direito à saúde com base no art. 26 da CADH, do direito à vida conforme o art. 4.1 da CADH e do direito à integridade pessoal conforme o art. 5.1 da CADH.
Normas Internacionais sobre os deveres especiais do Estado em relação à gravidez. DADDH, art. VII: "Toda mulher em estado de gravidez ou em época de lactância, assim como toda criança, tem direito à proteção, cuidados e ajuda especial". Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, art. 4.2: "A adoção pelos Estados Partes de medidas especiais, inclusive as contidas na presente Convenção, destinadas à proteger a maternidade, não será considerada discriminatória" ; "Sem prejuízo do disposto no § 1º , os Estados Partes devem garantir à mulher serviços apropriados em relação à gravidez, ao parto e ao período posterior ao parto, proporcionando serviços gratuitos quando for necessário, e lhe assegurarão uma nutrição adequada durante a gravidez e a lactância". Convenção da ONU sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, art. 12: Os Estados têm a obrigação de oferecer serviços médicos adequados na gravidez, no parto e posteriormentea este. PIDESC, art. 12: "1. Os Estados Partes no presente Pacto reconhecem o direito de toda pessoa ao desfrute do mais alto nível possível de saúde física e mental. 2. Entre as medidas que devem ser adotadas, os Estados Partes no Pacto, a fim de assegurar a plena efetividade deste direito, devem providenciar o necessário para: a) a redução da mortalidade materna e da mortalidade infantil (...)". "Todos os Estados devem oferecer políticas de saúde adequadas que permitam oferecer assistência com pessoal treinado adequadamente para a atenção dos nascimentos, políticas de prevenção da mortalidade materna através de controles pré-natais e pós-parto adequados, e instrumentos legais e administrativos em políticas de saúde que permitam documentar adequadamente os casos de mortalidade materna" (Caso Comunidade Indígena Xákmok Kásek vs. Paraguai). Comitê DESC, Comentário Geral nº 14: Os Estados devem adotar medidas para melhorar a saúde materna e a atenção em saúde anterior e posterior ao parto, o que implica adotar as medidas necessárias para evitar as mortes maternas preveníveis. Comitê DESC, Comentário Geral nº 22: O direito à saúde sexual e reprodutiva é indivisível e interdependente de outros direitos que fundamentam a integridade física e mental das pessoas e sua autonomia, como o direito à vida e que a falta de serviços de atenção obstétrica de emergência é causa muitas vezes de mortalidade materna, que, por sua vez, é uma violação do direito à vida ou à segurança, e, em determinadas circunstâncias, pode constituir tortura. Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher, Comentário Geral nº 24: "É obrigação dos Estados Partes garantir o direito da mulher a serviços de maternidade gratuitos e sem riscos e a serviços obstétricos de emergência, e que devem ser destinados a esses serviços o máximo de recursos disponíveis". TEDH, Caso Elena Cojocaru vs. Romênia: o caso se refere a uma mulher grávida que foi transferida a um hospital sob a suspeita de padecer de pré-eclampsia. Apesar da gravidade do seu estado, o médico que a atendeu não adotou o tratamento de urgência adequado e decidiu transferi-la a outro hospital, situado a 150km de distância. A mulher morreu 40 minutos após ter chegado no outro hospital. O TEDH considerou que havia produzido uma violação do art. 2º da CEDH no seu aspecto substancial e se referiu à obrigação do Estado de adotar uma estrutura normativa que exija que os hospitais adotem as medidas adequadas para proteger a vida dos pacientes.
Caso Veliz Franco vs. Guatemala: A Corte IDH decidiu que em crimes violentos contra mulheres a investigação deve se iniciar com uma perspectiva de gênero, isto é, deve adotar uma linha investigativa para apurar as possíveis consequências do machismo estrutural e da vulnerabilidade da mulher, contribuindo, assim, para o êxito da determinação da autoria do fato e principalmente a qualificação jurídico-penal da conduta. Obs.: Mais casos da Corte no Ponto 4B.
Violência sexual contra mulher como ato de tortura. Para a Corte IDH, nos casos em que há participação de agentes estatais na prática de crime contra a dignidade sexual de mulheres, está configurada a prática de tortura. Nesse sentido, Caso do Presídio Miguel Castro Casto, Caso Velásquez Paiz e outro vs. Guatemala e Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil.
A IMPLEMENTAÇÃO NO BRASIL DA PROMOÇÃO E PROTEÇÃO DOS DIREITOS DAS MULHERES: O Brasil possui ampla regulamentação protetiva em favor das mulheres, podendo apontar como os principais sistemas de proteção: (a) Sistema Global: pela incorporação da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher; (b) Sistema Interamericano: pela incorporação da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará); (c) Sistema Constitucional: do qual se destacam o art. 5°, I (igualdade Formal e Material), arts. 3 (proibição a Discriminação), art. 7, XX (proteção do Mercado de Trabalho), art. 143, § 2º (isenção do Alistamento Militar), e art. 201 (proteção à maternidade e prazos diferenciados para aposentadoria); e (d) Sistema Legal: por exemplo pela edição da Lei Maria da Penha (Lei n° 11.340/2006), Lei 13.104/15 (trouxe o tipo do feminicídio), e a Lei 14.245/21 (Lei Mariana Ferrer).
3C. A proteção internacional dos direitos sociais, econômicos e culturais. Obrigações do Estado na garantia dos direitos sociais, econômicos e culturais e relações com os direitos civis e políticos. A defesa dos direitos sociais, econômicos e culturais no sistema global e no sistema interamericano de direitos humanos.
Gabriel Infante Martins
1. A proteção internacional dos direitos sociais, econômicos e culturais.
Direitos sociais são aqueles que dependem essencialmente da realização de prestações pelo Estado caso o indivíduo não tenha condições de assumir por si só. Essa dependência é essencial porque sem ela não conseguem se concretizar (ex.: o direito à saúde depende, essencialmente, de infraestrutura médica, farmacêutica e odontológica, entre outras), mas é bom lembrar que os direitos civis e políticos também dependem, em certa medida, de prestações positivas do Estado (ex.: o direito à liberdade depende da instituição de vias públicas adequadas às pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida).
Os direitos sociais originários são aqueles em que não se depende de uma legislação intermediar para a sua aplicação imediata (autoaplicáveis). Os direitos sociais derivados são aqueles em que se depende dessa intermediação do Poder Legislativo através de uma lei estabelecendo seus critérios.
Direitos econômicos são direitos de intervenção, direitos nos quais o indivíduo é visto na ótica de produtor/fornecedor.
Direitos culturais são aqueles que dizem respeito às construções já estabelecidas envolvendo o reconhecimento de uma identidade de padrões próprios de determinado povo e cultura.
Os direitos sociais, econômicos e culturais constam da DUDH. Contudo, é no PIDESC que, além de ser assegurado destaque aos direitos em tela (que até então eram vistos como mera recomendação), os mecanismos de monitoramento são previstos.
O PIDESC reconheceu que os direitos sociais em sentido amplo são de realização progressiva, devendo os Estados dispor do máximo dos recursos disponíveis para a sua efetivação, o que não exclui a obrigatoriedade de sua promoção e vedação ao retrocesso (efeito cliquet ou entrincheiramento).
No âmbito do mecanismo interamericano de proteção dos DH, a CADH andou no mesmo sentido ao prever o desenvolvimento progressivo dos direitos em tela. No Protocolo de San Salvador (Protocolo Adicional à Convenção Americana, de 1988), além de prever-se o compromisso dos Estados em adotar as medidas adequadas para efetivá-los, levando em consideração os recursos disponíveis e a progressividade, são previstos os mecanismos de monitoramento e a possibilidade expressa de judicialização de direitos sindicais (exceto o direito de greve) e do direito à educação (art. 19.6 do PSS), o que perdeu um pouco de relevância a partir da virada jurisprudencial da Corte IDH no caso Lagos del Campo vs Peru.
OBS.: Caso Lagos del Campo vs Peru (sentença de agosto de 2017). O senhor Lagos del Campo foi demitido como consequência de manifestações realizadas na condição de um dos líderes a fim de denunciar atos de ingerência indevida dos empregadores na vida das organizações representativas dos trabalhadores em uma determinada empresa. A Corte IDH, entre outros direitos violados (liberdade de associação e acesso à justiça), mesmo sem pedido expresso dos representantes da vítima ou da CIDH no processo internacional (houve alegação no processo interno), disse que o Peru não respeitou o direito à estabilidade laboral, com base no art. 26 da CADH.
2. Obrigações do Estado na garantia dos direitos sociais, econômicos e culturais e relações com os direitos civis e políticos.
Os direitos sociais, em que pese tenham incidência imediata como os demais direitos, estão sujeitos à reserva do possível (lembrarda decisão do Tribunal Federal Alemão no Caso “Numerus Clausus” na década de 1970).
Então, tem-se no Direito Internacional dos Direitos Humanos obrigações decorrentes da garantia de direitos sociais, econômicos e culturais menores (já que possivelmente sujeitas à reserva do possível) do que as obrigações decorrentes dos direitos civis e políticos (já que demandam essencialmente prestações negativa do Estado), em que pese não haver diferença ontológica entre eles.
A fim de combater tal discrepância, o DIDH intenta I) sofisticar os mecanismos de supervisão e controle dos direitos sociais (ex.: o PIDESC, em um primeiro momento, não permitia petições de vítimas de violações de direitos sociais diretamente ao Comitê DESC, o que foi superado com a edição de um protocolo ao Acordo); II) afastar a artificialidade da diferença pela via da interpretação (como fez a Corte IHD a partir do Caso Lagos del Campo vs Peru), uma vez que, no fundo, tanto os direitos civis e políticos quanto os sociais, econômicos e culturais, acarretam gastos ao Estado.
3. A defesa dos direitos sociais, econômicos e culturais no sistema global e no sistema interamericano de direitos humanos
Tendo em vista que o PIDESC previa apenas o mecanismo de informes gerais, o Protocolo Facultativo veio contribuir para a efetivação dos direitos econômicos, sociais e culturais, ao combinar o sistema de petições, o procedimento de investigação e as medidas provisionais (cautelares). Assim, reafirmou a exigibilidade e a justiciabilidade de tais direitos e os equiparou, finalmente, ao regime jurídico internacional dos direitos civis e políticos.
Com efeito, no âmbito global, o Comitê DESC tem competência para receber petições individuais ou no interesse de indivíduos e grupos de indivíduos, que noticiem violação de direitos econômicos, sociais e culturais realizadas pelo Estado Parte.
Cabe lembrar que este Comitê não estava previsto no PIDESC e foi criado, originariamente, por resolução do Conselho Econômico e Social (ECOSOC, na sigla em inglês). Com o Protocolo Facultativo, o Comitê ganhou inserção formal em um tratado.
No âmbito do mecanismo interamericano de proteção dos DH, conforme previsto no Protocolo de San Salvador (PSS), o Conselho Interamericano de Desenvolvimento Social é o órgão de monitoramento, por excelência, na sistemática dos relatórios periódicos.
Importante ressaltar que, até a virada jurisprudencial da Corte IDH no Caso Lagos del Campo vs Peru, havia apenas poucos direitos (sociais, econômicos e culturais) que poderiam ser protegidos perante a Corte IDH (justiciabilidade): direito à educação e direito dos trabalhadores de organizar sindicatos e de filiarse ao de sua escolha (art. 19.6 do PSS). Lado outro, se o Estado violasse os demais direitos sociais, econômicos e culturais, no máximo haveria relatórios ao Conselho de Desenvolvimento Integral (órgão da OEA), o que poderia gerar, por exemplo, recomendações ao Estado.
Também, no Caso Poblete Vilches vs Chile, a Corte considerou a justiciabilidade direta do Direito à saúde, que é direito social por excelência.
Para ACR, a justiciabilidade indireta dos DESCA, consiste na proteção de facetas sociais de direitos civis e políticos, por exemplo, a promoção do direito à saúde, como decorrente do direito à vida. Já a justicibilidade direta, que teve como caso paradigmático de alteração da jurisprudência da Corte IDH, o Lagos Del Campo vs Peru, consiste na exigência de proteção do direito social de modo autônomo, em face do dever do Estado de assegurar todos os direitos civis e políticos.
Críticas ao modo de uso indireto: gera baixa visibilidade de dúvida sobre a força vinculante dos direitos sociais, que dependeriam dos direitos civis e políticos; bem como exige que direitos difusos ou coletivos sejam traduzidos como direitos individuais.
Críticas ao modo de uso direto: leva à intervenção judicial na implementação de políticas públicas, o que não seria atribuição do Poder Judiciário.
4A. Os direitos previstos em tratados internacionais de direitos humanos adotados no âmbito da Organização das Nações Unidas. Os direitos previstos nos tratados de direitos humanos celebrados no âmbito da Organização dos Estados Americanos.
I. Os direitos previstos em tratados internacionais de direitos humanos adotados no âmbito da Organização das Nações Unidas.
Atualizado por Caio T. A. Franco
- Carta Internacional dos direitos humanos: A doutrina consagrou como “Carta Internacional dos DH” (International Bill of Rights) o conjunto dos seguintes diplomas: Declaração Universal dos DH (DUDH), o PIDCP e o PIDESC. O uso do termo implicava no reconhecimento de que os dois Pactos não poderiam ser interpretados desconectados da DUDH, o que deu sistematicidade à proteção dos direitos humanos internacionais, bem como na reafirmação do objetivo da ONU de proteger os Direitos Humanos, já previsto na Carta de São Francisco.
1. Pacto internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP): Adotado no ano de 1966 em Assembleia da ONU, entrou em vigor em 1976 após a exigida ratificação por 35 Estados. Possui, em 2019, 173 Estados partes. No Brasil, foi aprovado em 1991, entrou em vigor internacionalmente e foi promulgado em 1992. Sua finalidade foi tornar juridicamente vinculante aos Estados alguns direitos previstos na Declaração Universal de 1948.
Direito à vida; Direito de não ser submetido à tortura, a penas ou tratamentos cruéis, nem a experiências médicas ou científicas sem livre consentimento; Direito à liberdade e à segurança pessoais e de não ser preso ou encarcerado arbitrariamente, nem privado de liberdade, salvo pelos motivos previstos em lei; Direito de que toda pessoa privada de liberdade seja tratada com humanidade e respeito à dignidade da pessoa humana; Direito de não ser preso apenas por não poder cumprir com uma obrigação contratual; Direito à livre circulação, direito de sair livremente de qualquer país e de não ser privado arbitrariamente de entrar em seu próprio país; Direito às garantias processuais; Direito à não ser condenado por atos ou omissões que não constituam delito de acordo com o direito nacional ou internacional, irretroatividade da lei penal mais gravosa e a retroatividade da lei penal mais benéfica ao réu; Direito ao reconhecimento da personalidade jurídica; Direito a não ser alvo de ingerências arbitrarias ou ilegais em sua vida privada, em sua família, em seu domicilio ou em sua correspondência, nem de ofensas ilegais à sua honra e reputação; Direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; Direito de reunião; Direito de Associação pacífica; Direito de contrair casamento e constituir família; Direitos específicos da criança de não sofrer discriminação, de adquirir nacionalidade e de ter medidas de proteção por parte da família, da sociedade e do Estado; Direito de participação política; Direito à igualdade.
2. Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC): Adotado conjuntamente com o PIDCP em 1966. Possui, em 2019, 170 Estados partes. Promulgada no BRASIL em 1966.
Direito ao trabalho; direito ao gozo de condições de trabalho equitativas e satisfatórias; Direito de todos à previdência social; Direito de toda pessoa fundar sindicatos e se filiar ao de sua escolha; Direito de greve; Direito a proteção e assistência familiar, especialmente a mães e crianças; Direito a um nível adequado de vida; Direito à saúde física e mental; Direito à educação, Direito de participar da vida cultural, desfrutar o processo científico e suas aplicações, bem como se beneficiar da proteção de interesses morais e materiais decorrentes de toda a produção científica, literária ou artística de que seja autor.
3. Convenção Suplementar sobre a Abolição da escravatura, do tráfico de escravos e das instituições e práticas análogas à escravatura: Adotada em Genebra em 7 de setembro de 1956. Possui, em 2019, 124 Estados partes.
4. Convenção para a prevenção e a Repressão do crime de genocídio. foi aprovada e proposta para assinatura e ratificação ou adesão pelaResolução n. 260 A (III)da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948. Possui, em 2019, 152 Estados partes. Foi promulgada no BRASIL em 1952.
5. Convenção sobre imprescritibilidade dos crimes de guerra dos crimes contra a humanidade. Assinada em Nova York, em 26 de novembro de 1968. Possui, em 2019, 55 Estados partes. Não ratificada pelo Brasil. ACR defende que o Brasil deve cumprir a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade e dos crimes de guerra, mesmo não tendo ainda ratificado a presente convenção. Em 2016, o STF decidiu contra a imprescritibilidade dos crimes de jus cogens.
6. Convenção relativa ao estatuto dos Refugiados e seu Protocolo. adotada pela Conferência das Nações Unidas de Plenipotenciários sobre o Estatuto dos Refugiados e Apátridas, convocada pela Resolução n. 429 (V) da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1950. Possui, em 2019, 146 Estados partes. Promulgada no Brasil em 1961.
Direito de receber dos Estados Partes tratamento pelo menos tão favorável como o que é proporcionado aos nacionais no que concerne à liberdade de praticar sua religião e no que concerne à liberdade de instrução religiosa dos seus filhos; Direitos de associação, quanto a associações sem fins políticos e lucrativos e a sindicatos profissionais; Direito de propugnar em juízo, assegurando-se o livre e fácil acesso aos tribunais, com o mesmo tratamento recebido por um nacional, incluindo-se aí a assistência judiciária e a isenção de cautio judicatum solvi; Direito a receber o mesmo tratamento dispensado ao estrangeiro no exercício de empregos remunerados; Direito a receber tratamento concedido ao nacional em caso de racionamento de produtos de que há escassez; Direito a receber tratamento concedido ao nacional em matéria de assistência e de socorros públicos; Direito a receber tratamento concedido ao nacional em matéria de oferecimento de ensino primário (quanto aos graus de ensino superiores ao primário, os Estados devem dar aos refugiados um tratamento tão favorável quanto possível, e em todo caso não menos favorável do que aquele que é dado aos estrangeiros em geral, nas mesmas circunstâncias); Direito de receber tratamento para a concessão de alojamentos tão favorável quanto possível e, em todo caso, não menos favorável do que aquele que é dado, nas mesmas circunstâncias, aos estrangeiros em geral; Direito a receber o mesmo tratamento dado aos nacionais quanto à legislação do trabalho (relativamente a remuneração, duração do trabalho, horas suplementares, férias pagas, restrições ao trabalho doméstico, idade mínima para o emprego, aprendizado e formação profissional, trabalho das mulheres e dos adolescentes e gozo das vantagens proporcionadas pelas convenções coletivas); Direito de receber o mesmo tratamento dado aos nacionais quanto a previdência social (acidentes do trabalho, moléstias profissionais, maternidade, doença, invalidez, velhice, morte, desemprego, encargos de família, além de qualquer outro risco que esteja previsto no sistema de previdência social); Direito de receber do Estado assistência administrativa para o exercício de direitos que normalmente exigem assistência estrangeira; Direito de receber do Estado Contratante documento de identidade, quando não possua documento de viagem válido, e documentos de viagem para viajar para fora do território; Direito à liberdade de movimento para escolha da residência e para circulação no território de livremente, com as reservas aplicáveis aos estrangeiros; Direito de não ser submetido a emolumentos alfandegários, taxas e impostos além do que cobrados dos seus nacionais em situações análogas; Direito de não ser submetido a sanções, caso o refugiado se apresente sem demora às autoridades e exponha razões aceitáveis para sua entrada ou presença irregulares; direito de que apenas restrições necessárias podem ser impostas ao seu deslocamento; Direito de não ser expulso, salvo por motivos de segurança nacional ou ordem pública, mediante decisão judicial proferida em atendimento ao devido processo legal.
7. Declaração de NY sobre Refugiados e migrantes. Em setembro de 2016, os Estados membros da ONU adotaram a Declaração de Nova York sobre Refugiados e Migrantes, que consiste em ato político e de natureza de soft law.
8. Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas. Assinada em 1954. Atualmente, a Convenção conta com 89 Estados partes, incluindo o Brasil, que a promulgou internamente em 2002.
9. Convenção para a Redução dos Casos de Apatridia. Em vigor desde 1975. Atualmente, a Convenção conta com 69 Estados partes (No BRASIL entrou em vigor internacionalmente em 2008, mas só foi promulgada em 2015).
10. Convenção sobre a Eliminação de Todas as formas de discriminação racial. Adotada pela Resolução n. 2.106 (XX) da Assembleia Geral da ONU, em dezembro de 1965, sendo e aberta à assinatura em 7 de março de 1966.
Os Estados se comprometem, nos termos do artigo V, a proibir e eliminar a discriminação racial em todas as suas formas, garantindo a igualdade perante a lei sem qualquer distinção, principalmente no gozo do (i) direito a tratamento igual perante os tribunais ou qualquer outro órgão que administre justiça; (ii) do direito à segurança pessoal e à proteção do Estado contra violência ou lesão corporal cometida, inclusive por funcionários do governo; dos direitos políticos e de tomar parte no Governo; (iii) de outros direitos civis – tais como o de circular livremente e escolher residência dentro das
fronteiras do Estado, de deixar qualquer país, de ter uma nacionalidade, de casar-se e escolher o cônjuge, à propriedade, de herdar, à liberdade de pensamento, de consciência e de religião, à liberdade de opinião e de expressão, dentre outros – e de direitos econômicos, sociais e culturais – como o direito à habitação, à educação e ao acesso a todos os lugares e serviços destinados ao uso do público.
11. Convenção internacional sobre a supressão e punição do crime de apartheid. Não foi ainda ratificada pelo Brasil.
12. Convenção internacional contra o apartheid nos esportes. Não foi ainda ratificada pelo Brasil.
13.Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a mulher (CEDAW) e respectivo protocolo facultativo: No Brasil, foi assinada em 31 de março de 1981 com reservas (arts. 15, parágrafo 4º, e 16, parágrafo 1º, alíneas a, c, g e h), aprovada pelo Decreto Legislativo n. 93, de 14 de novembro de 1983, e ratificada em 1º de fevereiro de 1984. A Convenção entrou em vigor para o Brasil em 2 de março de 1984, com a reserva do art. 29, parágrafo 2º, que permite que o Estado não se considere obrigado ao dispositivo que determina a submissão da questão não resolvida por negociação a arbitragem. O Decreto Legislativo n. 26, de 22 de junho de 1994, revogando o anterior, aprovou a Convenção sem as reservas dos arts. 15 e 16, e o Brasil as retirou em 20 de dezembro 1994. A Convenção foi promulgada pelo Decreto n. 4.377, de 13 de setembro de 2002. Possui, em 2019, 189 Estados partes.
Direitos previstos: Direitos civis e políticos (de votar e ser votado; de participar da formulação de políticas públicas governamentais, exercício de cargos públicos; participar de organizações e associações não governamentais que s ocupam da vida pública e política do país e na oportunidade de representar seu governo no plano internacional e de participar dos trabalhos das organizações internacionais); Direito à Educação nas mesmas condições de orientação em matéria de carreiras e capacitação profissional, ao acesso aos estudos e obtenção de diplomas e a eliminação da estereotipização dos papéis masculino feminino; Direito ao Emprego, sobretudo, às mesmas oportunidades, aos mesmos critérios de seleção, à promoção e estabilidade no emprego, à igualdade de remuneração, à igualdade de tratamento com respeito à avaliação da qualidade do trabalho, à seguridade social, às férias, proibição de demissão por motivo de gravidez ou de licença maternidade ou de estado civil; Direito ao acesso a serviços médicos, com assistência apropriada em relação à gravidez,ao parto e ao período pós-parto; Outras esferas da vida econômica e social (direito a obter empréstimos bancários, hipotecas, direito de participar em atividade de recreação, esportes e em todos os aspectos da vida cultural); Reconhecimento de igual capacidade jurídica em matérias civis e das mesmas oportunidades para seu exercício.
14. Convenção contra a Tortura e outros tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes e Protocolo Opcional. Ratificada em 28 de setembro de 1989 e, finalmente, promulgada pelo Decreto n. 40, de 15 de fevereiro de 1991. Possui, em 2019, 167 Estados partes. O Protocolo Facultativo foi ratificado em 11 de janeiro de 2007 e o Protocolo foi promulgado pelo Decreto n. 6.085, de 19 de abril de 2007.
15. Protocolo de Istambul. Apresentado ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, em 9 de agosto de 1999, manual para a investigação e documentação eficazes da tortura e outras penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, também denominado Protocolo de Istambul.
16. Regras mínimas das Nações Unidas para o Tratamento de presos (100 regras de Mandela). Regras Mínimas para o Tratamento dos Presos foram adotadas pelo I Congresso das Nações Unidas para a Prevenção do Crime e para o Tratamento de Delinquentes, que foi realizada em Genebra, em 31 de agosto de 1955. Foi aprovada, pela Assembleia Geral da ONU, a denominação honorífica da Resolução como “Regras Nelson Mandela”.
17. Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Presas e Medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras (Regras de Bangkok). As Regras das Nações Unidas para o Tratamento de Mulheres Presas e Medidas não Privativas de Liberdade para Mulheres Infratoras resultam do trabalho de um grupo de especialistas, realizado em Bangkok, entre 23 e 26 de novembro de 2009, visando o desenvolvimento de normas específicas para o tratamento das mulheres submetidas a medidas privativas e não privativas de liberdade. Aprovadas pela Assembleia Geral da ONU, na Resolução n. 65/229, de 21 de dezembro de 2010.
18. Convenção Internacional para a proteção de todas as pessoas contra o desaparecimento Forçado. Ratificada em 29 de novembro de 2010 e sendo promulgada internamente seis anos depois da ratificação, pelo Decreto n. 8.767, de 11 de maio de 2016.
Principais direitos e garantias: nenhuma pessoa será submetida a desaparecimento forçado; nenhuma circunstância excepcional, seja estado de guerra ou ameaça de guerra, instabilidade política interna ou qualquer outra emergência pública poderá ser invocada como justificativa para o desaparecimento forçado; direito de qualquer indivíduo que alegue que alguém foi vítima de desaparecimento forçado de relatar os fatos às autoridades competentes, as quais examinarão as alegações pronta e imparcialmente e, caso necessário, instaurarão sem de mora uma investigação completa e imparcial; direito de não ser detido em segredo; direito de informação acerca das pessoas privadas de liberdade; direito das vítimas saber a verdade sobre as circunstâncias do desaparecimento forçado, o andamento e os resultados da investigação e o destino da pessoa desaparecida.
19. Convenção sobre os direitos da criança e os protocolos facultativos à convenção sobre os direitos da criança relativos ao envolvimento de crianças em conflitos armados; referente à venda de crianças, à prostituição infantil e à pornografia infantil; relativo aos procedimentos de comunicação: Ratificada em 24 de setembro de 1990, sendo promulgada por meio do Decreto n. 99.710, em 21 de novembro de 1990. É a Convenção que possui o mais elevado número de ratificações, já que conta, em 2019, com 196 partes (incluindo a Santa Sé e o Estado da Palestina). Os Estados Unidos não a ratificaram, contudo. O primeiro e o segundo protocolos foram ratificados e promulgados em 2004. O terceiro protocolo foi ratificado em 2017 e ainda não promulgado.
Direito à vida; Direito de que seja registrada imediatamente após o seu nascimento; Direito a ter, desde o nascimento, um nome, uma nacionalidade e, na medida do possível, de conhecer seus pais e a ser cuidado por eles; Direito de preservar sua identidade; Direito de que não seja separada dos pais contra a vontade destes, exceto em razão do melhor interesse da criança; Direito de manter regularmente relações pessoais e contato direto com ambos os pais; direito de expressar suas opiniões livremente sobre todos os assuntos com ela relacionados; Direito à liberdade de expressão, de pensamento, de crença e de consciência; Direito à liberdade de associação e de realizar reuniões pacíficas; Direito de acesso a informação; Direito à proteção contra interferências arbitrárias ou ilegais em sua vida particular, sua família, seu domicílio ou sua correspondência, e contra atentados ilegais a sua honra e reputação; Direito à proteção e assistência especiais do Estado para crianças privadas temporária ou permanentemente do seu meio familiar; Direito à proteção e a assistência humanitária adequadas para crianças refugiadas; Direitos específicos da criança com deficiência física ou mental, dentre outros.
20. Protocolo de Prevenção, Supressão e Punição do Tráfico de Pessoas, especialmente mulheres e crianças, complementar à Convenção das Nações Unidas contra o crime organizado transnacional. Ratificado e promulgado em 2004. Adotado em Nova Iorque em 15 de novembro de 2000, foi firmado tendo-se em vista que a prevenção e o combate ao tráfico de pessoas requer atuação conjunta dos países de origem, trânsito e destino, com medidas destinadas a prevenir o tráfico, punir os traficantes e proteger suas vítimas, nos termos de seu preâmbulo. Possui, em 2019, 174 Estados partes. Em 2016, foi adotada a Lei n. 13.344 (Lei de Tráfico de Pessoas), atualizando a legislação interna, que, anteriormente, punia o tráfico de pessoas na sua finalidade de exploração sexual. (arts. 231 e 231-A do Código Penal). A nova lei é genérica e, na linha do que dispõe o Protocolo, é calcada em 3 eixos, a saber: prevenção (capítulo II), repressão (capítulo III) e proteção e assistência às vítimas (capítulo IV).
21. Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência e seu protocolo facultativo. Assinados em Nova York, em 2007. Ratificada em 2008 e promulgada em 2009. No BRASIL, possui hierarquia interna equivalente a EC. A espinha dorsal da Convenção é o seu compromisso com a dignidade e os direitos das pessoas com deficiência, que são tidos como titulares dos direitos e não como objeto ou alvo da compaixão pública.
22. Tratado de Marraqueche sobre acesso facilitado a obras publicadas às pessoas cegas, com deficiência visual ou com outras dificuldades para ter acesso ao texto impresso. Ratificado em 2015 e promulgado em 2018. Há críticas ao conteúdo do Tratado por parte de organizações não governamentais e por parte da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) do Ministério Público Federal, que apontam contradição entre a proteção dada pelo Tratado de Marraqueche e o teor da Convenção das Nações Unidas sobre Direito das Pessoas com Deficiência e da Lei Brasileira de Inclusão (LBI), em especial: (i) uso do termo “entidade autorizada” previsto nos arts. 2º e 4º do tratado, o que poderia sugerir que somente essas poderiam editar o livro acessível, gerando uma tutela indevida sobre as pessoas com deficiência (retorno ao assistencialismo); (ii) como consequência da primeira crítica, o tratado teria violado o direito das pessoas com deficiência de acesso a bens culturais em formato acessível (art. 42 da LBI), eliminando o dever das editoras em fornecer esses bens, restando ao Estado fornecer subsídios às organizações não governamentais (“entidades autorizadas”).
23. Convenção Internacional sobre a proteção dos direitos de todos os trabalhadores migrantes e dos membros das suas famílias: Ainda não ratificado (em tramitação no CN). Garantir os direitos da pessoa humana também com relação aos trabalhadores migrantes, o que inclui o direito à vida, direito à liberdade de expressão, direitode associação, etc.
24. Princípios de Yogyakarta sobre orientação sexual e o “Mais 10”: Em 2006, especialistas em direitos humanos (em nome próprio, sem representarem os seus Estados de origem ou mesmo os órgãos internacionais nos quais trabalhavam), reunidos em Yogyakarta, na Indonésia, elaboraram os Princípios sobre a aplicação do direito internacional dos direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero (Princípios de Yogyakarta). Direitos em espécie mencionados: Direito à igualdade e não discriminação, reforçando terem todos os indivíduos direito de desfrutar de todos os direitos , livres de preconceitos por suas escolhas sexuais e/ou de gênero; Direito de todos, sem preconceito sexual ou de gênero, à segurança pessoal e proteção do Estado contra qualquer forma de violência, proibindo-se a imposição de pena de morte por motivo de orientação sexual ou identidade de gênero; Direito ao tratamento com dignidade durante a detenção e ao respeito ao devido processo legal, sem discriminação por orientação sexual. Direito de buscar asilo; Direito à família; Direito à concorrer a cargos eletivo e acesso a serviços públicos. Em 2017, foi adotado o documento denominado “Princípios de Yogyakarta Mais 10” (“Yogyakarta Principles plus 10”), em homenagem aos 10 anos da primeira edição (2006- 2016), trazendo novos nove princípios e 111 obrigações dos Estados, devendo ser lido em conjunto com os 29 princípios anteriores (totalizando 38 princípios).
25. Convenção n 169 da OIT sobre povos indígenas e tribais. Ratificado em 2002 e promulgado em 2004. Possui, em 2019, apenas 23 Estados partes. A Convenção trata dos direitos dos povos indígenas, com foco especial na igualdade e combate à discriminação.
26. Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas
Entre outros, a Declaração prevê os seguintes direitos: Pleno exercício dos direitos humanos, sem discriminação. Os indígenas têm direito, a título coletivo ou individual, ao pleno desfrute de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais reconhecidos pela Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos e o direito internacional dos direitos humanos (art. 1º); Autodeterminação; Direito ao território; Direito ao consentimento livre, prévio e informado; Direito à educação e saúde de acordo com suas práticas; Direito ao desenvolvimento; Direito à cultura; Direito à propriedade imaterial sobre o conhecimento tradicional; Direito à manutenção dos contatos transfronteiriços.
27. Convenção sobre a Proteção e Promoção da diversidade das expressões culturais. Ratificada e promulgada em 2007. Possui, em 2018, 145 Estados Partes. Visa – no atual cenário de globalização e risco a produções culturais de menor fôlego econômico – preservar a diversidade das expressões culturais.
28. Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos. Princípios de Ruggie. Elaborados por John Ruggie são um instrumento de soft law idealizados com a finalidade de guiar a prática das empresas, de forma que estejam de acordo com as normas básicas de respeito e garantia dos direitos humanos no ambiente empresarial. Foram erguidos sob os pilares de proteger, respeitar e reparar, pelos quais 1) cabe ao Estado proteger os direitos humanos; 2) às empresas cabe respeitar os direitos humanos; e 3) a ambos cabe reparar os danos causados pelas violações aos direitos humanos. A essência dos Princípios Orientadores é distribuir a responsabilidade pela proteção de direitos humanos nas atividades empresariais entre os Estados e também às empresas. Os princípios orientadores além de constituírem-se em soft law, podem espelhar – caso haja prática reiterada dos Estados com convicção de obrigatoriedade – costume internacional. Em 2017, o Conselho de Direitos Humanos, no bojo dos mecanismos dos procedimentos especiais, criou o Grupo de Trabalho sobre a questão de direitos humanos e empresas transnacionais e outras empresas comerciais. Em 2018, esse grupo de trabalho apresentou minuta de tratado sobre a temática (“Draft”), que está, em 2020, em discussão.
29. Convenção Quadro de Controle do Tabaco (CQCT). Ratificado em 2005 e promulgado em 2006. Seu objetivo básico é proteger as gerações presentes e futuras das “consequências sanitárias, sociais, ambientais e econômicas geradas pelo consumo e pela exposição à fumaça do tabaco, proporcionando uma referência para as medidas de controle do tabaco, a serem implementadas pelas Partes nos níveis nacional, regional e internacional, a fim de reduzir de maneira contínua e substancial a prevalência do consumo e a exposição à fumaça do tabaco”.
30. Princípios Básicos sobre a Independência do Poder Judiciário e os Princípios de Bangalore. Esses dois diplomas normativos buscam assegurar a independência do Poder Judiciário (e, por extensão, de órgãos públicos indispensáveis ao sistema de justiça, como o Ministério Público e a Defensoria Pública), a qual é condição necessária (embora não suficiente) para promover, (i) o acesso à justiça e (ii) zelar pela observância dos direitos humanos, em especial contra atos ofensivos do Poder Público. Os Princípios Básicos sobre a Independência do Poder Judiciário foram adotados com o objetivo de explicitar os mecanismos internos para assegurar a independência da função jurisdicional e, ao mesmo tempo, servir de parâmetro para que seja avaliada a real independência do Poder Judiciário em um determinado Estado. Os Princípios de Bangalore têm como meta a preservação da confiança da sociedade no Judiciário. Valor 1: independência; Valor 2: imparcialidade; Valor 3: integridade; Valor 4: idoneidade; Valor 5: igualdade; Valor 6: competência e diligência.
31. O Protocolo de Minnesota sobre Investigação de Mortes Potencialmente Ilícitas. Consiste em um conjunto de regras de orientação sobre como proceder a investigação de mortes que possam ser tidas como ilícitas.
32. Princípios básicos sobre o uso da força e armas de fogo pelos funcionários responsáveis pela aplicação da lei. Adotado pela AGNU em 1979. Prevê que os encarregados da aplicação da lei podem usar a força apenas quando: (i) estritamente necessário; (ii) na medida exigida para o cumprimento de suas obrigações. Estabelecem os parâmetros centrais para determinar a legalidade dos uso da força pelo pessoal da aplicação da lei e estabelecer padrões para responsabilidade e revisão.
33. Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento (1986)
34. Declaração de Estocolmo sobre Meio Ambiente Humano (1972)
35. Declaração das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento ("Declaração do Rio" - 1992).
36. Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
II. Os direitos previstos nos tratados de direitos humanos celebrados no âmbito da OEA
Atualizado por José Weverton A. Lucas
1. Carta da OEA (1948) e a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem
A Carta da OEA proclamou, de modo genérico, o dever de respeito aos direitos humanos pelos Estados membros, já a Declaração, que é anterior a Declaração Universal (DUDH) enumerou quais são os direitos fundamentais que deveriam ser observados e garantidos pelos Estados. De acordo com a Corte IDH, a Declaração Americana é considerada interpretação autêntica dos dispositivos genéricos de proteção de direitos humanos da Carta da OEA, conforme Parecer Consultivo.
2. Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto San José da Costa Rica)
Direitos civis e políticos: Direito ao reconhecimento da personalidade jurídica; Direito à vida; Direito à integridade pessoas (física, psíquica e moral); Proibição da escravidão e da servidão; Direito à liberdade e à segurança pessoais; Direito de ser ouvido por tribunal competente, independente e parcial; direito à presunção de inocência; Direito de tempo e meios necessários de defesa (e de ser assistido por defensor); Direito de não ser obrigado a depor contra si mesmo; Princípio da legalidade e da retroatividade; Direito à indenização por erro judiciário; Proteção da honra e da dignidade; Liberdade de consciência e de religião; Liberdade de pensamentoe de expressão; Direito de retificação ou resposta; Direito de reunião; Liberdade de associação; Proteção da família; Direito ao nome; Direitos da criança; Direito À nacionalidade; Direito à propriedade privada; Direito de circulação e de residência; Direitos políticos; Igualdade perante a lei; Proteção judicial.
Direitos Econômicos, sociais e culturais: É mencionado apenas o compromisso dos Estados Partes com seu desenvolvimento progressivo, sendo especificados no Protocolo de San Salvador (Protocolo adicional à CADH). Este Protocolo protegeu os seguintes direitos, dentre outros: Direito ao trabalho e de gozar esse direito em condições justas, equitativas e satisfatórias; Direitos sindicais; Direito à previdência social; Direito À saúde; Direito a um meio ambiente sadio; Direito à alimentação; Direito À educação; Direito aos benefícios da cultura; Direito à constituição e proteção da família; Direitos das crianças; Direitos das pessoas idosas; Direitos das pessoas com deficiência.
Vale ressaltar que Protocolo de San Salvador somente admite a judicialização internacional dos direitos sindicais e do direito à educação (art. 19.6). Entretanto, no julgamento do caso Lagos del Campo vs. Peru a Corte IDH declarou, pela primeira vez, violado o art. 26 da CADH, reconhecendo, assim, uma proteção direta dos DESC.
3. Protocolo à CADH referente à Abolição da Pena de Morte
Incorporado ao ordenamento jurídico pátrio pelo Decreto n.º 2.754/1998, o referido protocolo restringiu a aplicação da pena de morte. No entanto, o Brasil depositou o Instrumento de Ratificação com a aposição de reserva no que diz respeito ao direito de aplicar a pena de morte em tempo de guerra, de acordo com o Direito Internacional, por delitos sumamente graves de caráter militar,
4. Convenção interamericana para prevenir a Tortura
Direitos das pessoas vítimas de tortura: direito de ser examinada de maneira imparcial; direito à compensação adequada.
5. Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher (Convenção de Belém do Pará)
Direito de toda mulher ser livre de violência, tanto na esfera pública quanto privada, o que inclui o direito de ser livre de toda forma de discriminação e o direito de ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados e comportamento e práticas sociais e culturais baseadas em conceitos de inferioridade ou subordinação; Direito ao reconhecimento, gozo, exercício e proteção de todos os direitos humanos e às liberdades consagradas pelos instrumentos regionais e internacionais sobre direitos humanos, os quais compreendem: o direito a que se respeite sua vida e sua integridade física, psíquica e moral; o direito à liberdade e à segurança pessoais; o direito a não ser submetida a torturas; o direito a que se respeite a dignidade inerente a sua pessoa e que se proteja sua família; o direito à igualdade de proteção perante a lei e da lei; o direito a um recurso simples e rápido diante dos tribunais competentes, que a ampare contra atos que violem seus direitos; o direito à liberdade de associação; o direito à liberdade de professar a religião e as próprias crenças, de acordo com a lei; e o direito de ter igualdade de acesso às funções públicas de seu país e a participar nos assuntos públicos, incluindo a tomada de decisões.
6. Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência
Impõe aos Estados Partes o deve de tomar as medidas de caráter legislativo, social, educacional, trabalhista, ou de qualquer outra natureza, que sejam necessárias para eliminar a discriminação contra as pessoas portadoras de deficiência e proporcionar a sua plena integração à sociedade, entre as quais promover a integração na prestação ou fornecimento de bens, serviços, instalações, programas e atividades, tais como o emprego, o transporte, as comunicações, a habitação, o lazer, a educação, o esporte, o acesso à justiça e aos serviços policiais e as atividades políticas e de administração; eliminar, na medida do possível, os obstáculos arquitetônicos, de transporte e comunicações que existam, com a finalidade de facilitar o acesso e uso por parte das pessoas portadoras de deficiência.
7. Convenção Interamericana sobre o Desaparecimento Forçado
Os Estados Partes firmaram o compromisso de: a) não praticar, nem permitir, nem tolerar o desaparecimento forçado de pessoas, nem mesmo em estado de emergência, exceção ou suspensão de garantias individuais; b) punir, no âmbito de sua jurisdição, os autores, cúmplices e encobridores do delito do desaparecimento forçado de pessoas, bem como da tentativa de prática do mesmo; c) cooperar entre si a fim de contribuir para a prevenção, punição e erradicação do desaparecimento forçado de pessoas; e d) tomar as medidas de caráter legislativo, administrativo, judicial ou de qualquer outra natureza que sejam necessárias para cumprir os compromissos assumidos em decorrência da referida convenção.
Vale ressaltar que o Brasil já foi condenado pela Corte IDH em decorrência do desaparecimento forçado de pessoas no Caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”).
8. Carta Democrática Interamericana
A CDI é valioso instrumento para a interpretação do direito à democracia e dos direitos políticos. O principal propósito desse instrumento interamericano é fortalecer e preservar as instituições democráticas dos Estados das Américas. A Carta define os elementos essenciais da democracia e sua relação com o desenvolvimento integral e o combate à pobreza. Também estabelece como a democracia deve ser defendida quando está sob ameaça. Além disso, promove uma cultura democrática e a organização de missões de observação eleitoral.
9. Carta Social das Américas Direitos sociais
Direitos sociais. Há reafirmação pelos Estados da OEA pela determinação e compromisso de combater, com urgência, os graves problemas da pobreza, da exclusão social e da desigualdade, que afetam de maneiras distintas os países do Hemisfério; de enfrentar suas causas e consequências; e de criar condições mais favoráveis para o desenvolvimento econômico e social com igualdade, a fim de promover sociedades mais justas.
10. Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos das Pessoas Idosas
Entre os principais direitos assegurados pela Convenção, estão: (i) Direito à vida digna na velhice; (ii) Direito à independência e à autonomia na tomada de suas decisões e na realização de seus atos em igualdade de condições com as demais pessoas, e não se veja obrigado a viver de acordo com um sistema de vida específico. (iii) Direito à participação e integração comunitária. (iv) Direito à saúde e consentimento livre e informado. (v) Direitos à seguridade social. (vi) Direito ao trabalho.
11. Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância
Direitos protegidos. A Convenção determina que todo ser humano é igual perante a lei e tem direito à proteção igualitária contra toda forma de discriminação e intolerância em qualquer âmbito da sua vida pública e privada. Nessa linha, todo ser humano tem o direito ao reconhecimento, gozo, exercício e proteção, em condições de igualdade, de todos os demais direitos e liberdades consagrados no direito nacional e internacional, tanto no âmbito individual quanto no coletivo.
12. Convenção Interamericana contra o Racismo, Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância Direitos protegidos.
Foi aprovado pelo rito do artigo 5º, 3º, da Constituição, de modo que possui status equivalente ao de emenda constitucional. A Convenção estipula que todo ser humano é igual perante a lei e tem o direito à idêntica proteção contra o racismo, a discriminação racial e formas conexas de intolerância em qualquer âmbito da vida pública e privada. Nessa linha, todo ser humano tem o direito ao reconhecimento, gozo, exercício e proteção, em condições de igualdade, de todos os demais direitos e liberdades consagrados no direito nacional e internacional, tanto no âmbito individual quanto no coletivo.
Háprevisão expressa das ações afirmativas como sendo as medidas necessárias para assegurar o gozo ou exercício dos direitos e liberdades fundamentais das pessoas ou grupos sujeitos ao racismo, à discriminação racial e formas correlatas de intolerância, com o propósito de promover condições equitativas para a igualdade de oportunidades, inclusão e progresso para essas pessoas ou grupos. As ações afirmativas "não serão consideradas discriminatórias ou incompatíveis com o propósito ou objeto da Convenção, não resultarão na manutenção de direitos separados para grupos distintos e não se estenderão além de um período razoável ou após terem alcançado seu objetivo".
13. Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas
Direitos humanos e coletivos dos povos indígenas, gozo de todos os direitos humanos pelos indígenas, assim como dos direitos coletivos indispensáveis para a sua existência, bem-estar e desenvolvimento integral como povo; direitos das mulheres indígenas à proteção contra todas as formas de discriminação e violência; direito de expressão livre da sua identidade cultural, proibindo as tentativas externas de assimilação ou destruição da cultura indígena. Direito à educação a todas as crianças indígenas, sem discriminação em relação aos não indígenas, e a educação nos métodos culturais de aprendizagem indígena, inclusive em seus próprios idiomas. Direito à saúde indígena, o direito ao meio ambiente sadio. Direitos de organização e os direitos políticos. Direito dos indígenas sobre as terras e recursos que tradicionalmente ocupam e utilizam, bem como o reconhecimento das formas alternativas de propriedade, posse e domínio de terras. Direito de uma comunidade indígena manter-se em isolamento voluntário. Direitos trabalhistas dos indígenas, fixando a obrigação estatal de adotar medidas para eliminar práticas exploratórias e discriminatórias direitos ao desenvolvimento (político, social, econômico e cultural), à paz, à segurança e à proteção dos indígenas (limita-se a realização de atividades militares em territórios indígenas às situações de interesse público pertinente ou consentimento da parte).
14. Acordo de Escazú
Tratado celebrado sob os auspícios da ONU, mas restrito à celebração pelos países da América Latina e Caribe. Tem por objetivo assegurar a implementação plena e efetiva, na América Latina e no Caribe, de três direitos: (i) acesso à informação ambiental; (ii) participação pública nos processos de tomada de decisões ambientais; (iii) acesso à justiça em questões ambientais. A essência do documento é combater a desigualdade, a discriminação e garantir o direito a um ambiente saudável, especialmente em relação às pessoas e grupos em situação de vulnerabilidade.
O Brasil ainda não ratificou, tendo apenas ratificado. Salienta-se que é o primeiro tratado que se refere expressamente às pessoas defensoras de direitos humanos, preocupando-se com sua segurança.
4B. Corte Interamericana de Direitos Humanos e sua Jurisdição Contenciosa e Consultiva. Procedimentos. O Conteúdo da Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Atualizado por Karen L L A e S Reus
A Corte IDH é uma instituição judicial autônoma criada pela CADH, possuindo sede em San José (mas pode realizar sessões em outros países). É composta por 7 juízes (o juiz brasileiro Roberto Caldas foi eleito para exercer mandato de 2013-2018), eleitos para mandato de 6 anos (permitida apenas uma reeleição), por escrutínio secreto na assembleia geral da OEA apenas por Estados-parte da Convenção Americana. Registre-se que o quórum para deliberação é de 5 juízes.
A Corte possui jurisdição consultiva e contenciosa sobre o Estado-parte. Na jurisdição consultiva, qualquer Estado membro da OEA e a Comissão podem solicitar pareceres ou opiniões consultivas não vinculantes (as OC's são encaradas pela Corte como uma espécie de controle de convencionalidade preventivo) sobre (i) interpretação da CADH ou de outros tratados concernentes à proteção dos direitos humanos nos Estados americanos e (ii) compatibilidade da lei interna do estado e os instrumentos internacionais. No entanto, como a jurisdição contenciosa não é obrigatória, deve o Estado-Parte entregar uma declaração reconhecendo a jurisdição da Corte para todos os casos ou apenas para um caso específico (art. 62 da Convenção).
Apenas o Estado-parte da CADH e a Comissão possuem legitimidade ativa para submeter um caso à Corte. Os indivíduos não possuem legitimidade ativa (não pode ser apresentada petição individual diretamente à Corte) e nem passiva (a Corte não julga pessoas, apenas Estados). As sentenças são finais, inapeláveis (somente cabe recurso/pedido de interpretação que é semelhante ao nosso ED), vinculantes e os Estados se comprometem a cumpri-las. Caso Estado não cumpra, resta a Corte apresentar o caso na assembleia geral da OEA para adoção de medidas políticas contra o Estado-parte.
Petição inicial, Contestação, exceções preliminares e provas:
Caso o Estado não acate as conclusões do 1º informe da Comissão, esta poderá acioná-lo perante a Corte. A ação inicia com o envio do 1º informe à Corte. Após, as vítimas/representantes serão intimados para apresentar a petição inicial do processo internacional (no prazo de 2 meses) e a Comissão passa a atuar como custos legis.
O Estado réu é notificado para apresentar contestação também no prazo de 2 meses, devendo indicar na contestação as exceções preliminares (que não suspenderá o procedimento em relação ao mérito), as provas, os fundamentos de direito, as conclusões pertinentes e as observações às reparações e às custas solicitadas. Caso o Estado acate sua responsabilidade e não impugne os fatos/pretensões, a Corte já estará apta a sentenciar.
Amici Curiae: A petição escrita do amicus curiae poderá ser apresentada até 15 dias após a realização da audiência de coleta de testemunhos ou após a resolução que outorga prazo para as alegações finais (caso não seja realizada a audiência). O amicus curiae poderá ser pessoa física ( ex.: Zaffaroni no Caso Fermín Ramírez Vs Guatemala).
Medidas provisórias (cautelares): “Em casos de extrema gravidade e urgência, e quando se fizer necessário evitar danos irreparáveis às pessoas, a Corte, nos assuntos de que estiver conhecendo, poderá tomar as medidas provisórias que considerar pertinentes. Se se tratar de assuntos que ainda não estiverem submetidos ao seu conhecimento, só poderá atuar a pedido da Comissão” (art. 63, 2, da Convenção). Tem por finalidade assegurar a efetividade dos direitos humanos. Medidas provisórias adotadas em relação ao BRASIL até 2023:
(i) Caso da Penitenciária de Urso Branco;
(ii) Caso das crianças e adolescentes privadas de liberdade do “complexo do Tatuapé” da FEBEM;
(iii) Caso das pessoas privadas de liberdade da penitenciária “Dr. Sebastião Martins Silveira”;
(iv) caso do centro penitenciário de Curado Professor anibal bruno;
(v) caso do complexo de pedrinhas;
(vi) Caso gomes lund e outros;
(vii) caso da unidade de internação socioeducativa;
(viii) caso do instituo penal plácido de sá carvalho. Ademais, em 13/02/2017 a Corte adotou uma resolução conjunta para determinados centros penitenciários no Brasil e, ainda, adotou outras duas resoluções, em 2018 e 2021, também acerca dos centros penitenciários acima, como resposta analítica dos relatórios periódicos encaminhados pelo Estado brasileiro.
Desistência por parte das vítimas, reconhecimento do pedido pelo Estado réu e solução amistosa: Em razão da indisponibilidade dos direitos humanos, a Corte poderá decidir pelo prosseguimento do exame do caso, logo, a ocorrência dessas situações não implica necessariamente na extinção do processo.
Defensor Público Interamericano: Desde 2009 representa judicialmente as vítimas que não têm recursos. A OEA tem convênio com a Associação Interamericana de defensorias públicas. Brasileiros com mandato de 2016 a 2019: Isabel Machado e Rivanda Barreto.
CONTEÚDO DA JURISDIÇÃO CONSULTIVA DA CORTE IDH:
OC nº 01/1982 (O Peru solicitou opinião acerca doconteúdo da jurisdição consultiva da Corte): A Corte concluiu que a sua competência consultiva pode ser exercida sobre qualquer tratado (bilateral ou multilateral) internacional de direitos humanos aplicável aos Estados Americanos.
OC nº 02/1982 (CIDH solicitou parecer sobre qual momento o Estado passa a fazer parte da CADH e em qual deixa de fazer): A Corte concluiu que a Convenção entra em vigor para o Estado que a ratificou(com ou sem reservas) a partir do depósito do instrumento de ratificação ou adesão. E, em razão da cláusula de pré-aviso, o Estado que denunciar a CADH ainda fica a ela submetido pelo prazo de 1 ano, após este prazo será consolidada a sua retirada.
OC nº 03/1983 (CIDH solicitou opinião acerca da admissão pela CADH da imposição de pena de morte): Acorte diviu a questão em 3 partes: a) Estados que não aboliram a pena de morte no momento da ratificação da CADH – estes não podem aplicar a pena de morte aos delitos para os quais a legislação interna não comine esta sanção; b) Estados que aboliram a pena de morte e pretendem reintroduzi-la em seu ordenamento- estes não podem posteriormente à entrada em vigor da CADH legislar impondo a pena de morte a delitos que não tinham previsão no momento da ratificação; c) tipos de crime que se tolera a pena de morte – os limites devem ser definidos no momento da ratificação.
OC nº 04/1984 (Costa Rica questionou sobre a compatibilidade entre uma proposta de alteração legislativa de suas normas internas referentes à nacionalidade com a CADH): A Corte concluiu que a alteração não violava a CADH pois é possível o estabelecimento de critérios diferenciados de naturalização para pessoas nascidas em determinados países.
OC nº 05/1985: (Costa Rica solicitou opinião sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para exercício da profissão): A Corte concluiu que a obrigatoriedade é inconvencional pois causa uma restrição desproporcional ao direito à liberdade de expressão, violando o art. 13 da CADH ( Da liberdade de pensamento e expressão).No mesmo sentido foi o entendimento do STF no RE 511.861, j. 17/06/2009, rel. Gilmar Mendes).
OC nº 06/1986 (Uruguai questionou o alcance da expressão “leis” empregada no art. 30 da CADH[footnoteRef:8]). A Corte concluiu que alcança qualquer norma jurídica de caráter geral emanada pelo Poder legislativo democraticamente eleito e constitucionalmente previsto no ordenamento jurídico interno. [8: As restrições permitidas, de acordo com esta Convenção, ao gozo e exercício dos direitos e liberdades nela reconhecidos, não podem ser aplicadas senão de acordo com leis que forem promulgadas por motivo de interesse geral e com o propósito para o qual houverem sido estabelecidas.]
OC nº 07/1986 (Costa Rica questionou sobre a exigibilidade do direito de retificação/resposta): A Corte concluiu que o direito de resposta e de retificação deve ser reconhecido pelos Estados, independentemente da existência de legislação interna que o regule. (No julgamento da ADPF 130, Celso de Mello citou esta OC).
OC nº 08/1987 (CIDH solicitou opinião acerca de prisão realizada em período de exceção): A Corte concluiu que os procedimentos e “remédios” (tal como o HC) não podem ser suspensos (A Corte reiterou este posicionamento quando do julgamento do Caso Loayza, em 1997), vez que são indispensáveis para proteger direitos humanos básicos.
OC nº 09/1987 (Uruguai questionou quais direitos não podem ser suspensos em caso de guerra, perigo público ou emergência): A Corte concluiu que o HC e seus consectários (art. 27 CADH) não podem ser suspensos, assim como todo recurso destinado a garantir o respeito dos direitos e liberdades cuja suspensão não esteja autorizada na CADH.
OC nº 10/1989 (Colômbia questionou sobre a possibilidade de interpretação da Declaração Americana dos direitos e deveres do homem): A corte concluiu que esta declaração deve ser considerada um tratado internacional, sendo possível a emissão de pareceres consultivos acerca da mesma, desde que dentro dos limites da competência da Corte e conexão com a CADH.
OC nº 11/1990 (CIDH solicitou opinião acerca das possíveis exceções ao requisito do esgotamento dos recursos internos para a submissão de um caso à Corte IDH): A Corte concluiu que se o requerente for impedido de utilizar recursos internos necesários para proteger um direito garantido pela CADH o requisito pode ser excepcionado. (único exemplo dessa exceção ocorreu no caso Brewer Carías Vs Venezuela).
OC nº12/1991 (Costa Rica solicitou opinião acerca da compatibilidade de um projeto de lei interno com o direito ao duplo grau de jurisdição da CADH): A Corte decidiu que não ia se manifestar sobre o caso pois diversos casos concretos estavam em tramitação na Corte no âmbito de sua juridição contenciosa.
OC nº 13/1993 ( Argentina e Uruguai solicitaram opinião sobre as atribuições da CADH sobre as atribuições da CIDH): A Corte concluiu que (i) a CIDH pode qualificar uma norma como violadora ou não de obrigações da CADH, mas não pode determinar se a norma é compatível com o ordenamento interno do país; (ii) Pelo princípio da segurança jurídica e do estoppel, a CIDH após declarar que determinada petição é inadmissível, não pode mais se manifestar sobre o mérito daquela demanda; (iii) os relatórios do art. 50 e 51 da CADH não podem ser publicados no mesmo documento, pois possuem conteúdos diversos, sendo o 1º relatório sigiloso.
OC nº14/1994 ( CIDH solicitou opinião acerca da responsabilidade do Estado pela edição e aplicação de leis internas que violam a CADH): A Corte concluiu que um Estado ao editar lei que contrarie as obrigações internacionais por ele assumidas ao aderir à CADH, viola a Convenção e deve ser responsabilizado internacionalmente. Ademais, o cumprimento de um diploma inconvencional por funcionários e agentes do Estado gera responsabilidade internacional do próprio Estado ( se o ato constituir por sisó crime internacional os agentes também serão responsabilizados).
OC n º 15/1997(Chile questionou os informes da CIDH): A Corte concluiu que a CIDH não está autorizada a modificar os dados dos informes transmitidos a Estado, salvo nas circunstâncias excepcionais(art. 54/59). REGISTRE-SE QUE EM NENHUMA HIPÓTESE A CIDH PODERÁ EXPEDIR UM 3º INFORME. Por fim, fixou o entendimento de que o Estado solicitante pode desistir da pretensão de obter uma opinião consultiva, mas isto não terá efeito vinculante para o tribunal Interamericano.
OC nº 16/1999 (México solicitou opinião sobre pena de morte e assistência consular do estrangeiro apenado): A Corte concluiu que este direito deve ser garantido ao estrangeiro, devendo o estado receptor cumprir o direito à assistência consular sem qualquer dilação, em respeito ao devido processo legal.
OC nº 17/1997 (CIDH solicitou que a Corte confeccionasse standards gerais para as obrigações de proteção dos direitos das crianças) : As diretrizes de Riad, Regras de Beijing e as Regras de Toquio devem ser citadas como diplomas internacionais a serem observados na interpretação dos arts. 8 e 25 da CADH.
OC nº 18/2003 (México questionou sobre a possibilidade da aplicação do princípio da igualdade e da não discriminação aos imigrantes ilegais): A Corte concluiu que estes princípios são normas jus cogens e devem ser aplicados independentemente do status migratório ou não do indivíduo.
OC nº19/2005 (Venezuela solicitou opinião sobre a existência ou não de um órgão no sistema interamericano de direitos humanos com competência para exercer controle de legalidade sobre a atuação da CIDH): A Corte exarou parecer no sentido de que a CIDH é órgão autônomo do sistema interamericano de direitos humanos e possui independência e autonomia no exercício de suas funções.
OC nº20/2009 ( Argentina solicitou opinião acerca da figura do juiz ad hoc e da possibilidade de magistrado da mesma nacionalidade do Estado réu processar e julgar a demanda): A Corte concluiu que a possibilidade de o Estado indicar juiz ad hoc quando não houver um juiz de sua nacionalidade se restringe aos casos contenciosos interestatais(nenhum até o momento). Decidiu, ainda, que a presença de um juiz nacional acaba por ocasionar a quebra do equilibrio entre as partes, não sendo possível, então, que o juiz nacional do Estado demandado participe no conhecimento de casos contenciosos originados em petições individuais
OC nº 21/2014 (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai realizaram consulta para saber quais as obrigações dos Estados em situações internas que envolvam os direitos das crianças e dos adolescentes migrantes.):A Corte estabeleceu alguns deveres do Estado para com os migrantes menores de 18 anos, a saber: a) notificação da abertura do processo migratório e o direito a esse processo ser conduzido por uma autoridade especializada no assunto; b) direito de ser ouvido e participar de diferentes fases processuais; c) ser assistido por tradutor e intérprete; d) direito à notificação consular (OC nº16). e) direito a ser assistido por um representante legal; f)dever de designação de um tutor caso esteja desacompanhado; g) observância do princípio do superior interesse da criança ( best interest of child). Nesta OC a Corte também decidiu ser possível utilizar opiniões consultivas podem ser parâmetro para o controle de convencionalidade.
OC nº 22/2016 (Panamá questionou sobre a possibilidade de pessoas jurídicas terem legitimidade de demandar a proteção de seus direitos humanos perante o sistema interamericano): A Corte concluiu que somente em duas situações as pessoas jurídicas poderiam obter tal acesso, qual sejam: a) legitimidade das comunidades indígenas; b) legitimidade dos sindicatos e das federações sindicais.
OC nº 23/2017 (Colômbia solicitou opinião para esclarecer a relação entre os compromissos com o respeito aos direitos humanos e os pactos internacionais para a proteção do meio ambiente). A Corte reconheceu a inegável relação de interdependência e indivisibilidade entre a proteção do meio ambiente, o desenvolvimento sustentável e a realização os direitos humanos. A Corte estabeleceu as obrigações do estado com o intuito de respeitar e garantir o direito à vida e à integridade pessoal no contexto da proteção do meio ambiente, determinando que os Estados devem: (i) prevenir os danos ambientais significativos, dentro e fora de seu território, devendo , ainda, regular, supervisionar e fiscalizar as atividades sob sua jurisdição, realizar estudos de impacto ambiental, estabelecer planos de contingência e mitigar os danos ocorridos; (ii) atuar conforme o princípio da precaução em possíveis danos graves ou irreversíveis ao meio ambiente, que afetem os direitos à vida e à integridade pessoal, ainda que ausente a certeza científica do dano; (iii) cooperar com outros Estados de boa-fé para a proteção contra danos ambientais significativos; (iv) garantir o acesso à informação sobre possíveis afetações ao meio ambiente; (v) garantir o direito de participação pública das pessoas na tomada de decisões e políticas que possam afetar o meio ambiente e (vi) garantir o acesso à justiça, em relação às obrigações estatais para a proteção do meio ambiente.
OC nº 24/2018 (Costa Rica solicitou opinião acerca do reconhecimento da mudança de nome de acordo com a identidade de gênero e também sobre o reconhecimento dos direitos econômicos derivados de união homoafetiva): A Corte concluiu que a orientação sexual e a identidade de gênero são direitos protegidos pela CADH. O direito à identidade de gênero está vinculado às garantias de liberdade e de autodeterminação e seu reconhecimento por parte dos Estados integrantes da OEA e é de vital importância para o pleno gozo dos direitos humanos. A Corte considerou que o nome e a menção a sexo nos documentos de registro de acordo com a identidade de gênero autopercebida são garantias protegidas pela CADH, devendo os Estados parte da OEA reconhecer, regular e estabelecer os procedimentos adequados para o alcance dessas garantias. Ademais, no que se refere à proteção dos direitos referentes à união homoafetiva “Como a própria definição de família não é exclusiva daquela composta por casal heterossexual, o Tribunal considera que o vínculo familiar que pode derivar de um casal do mesmo sexo se encontra protegido pela CADH. Por isso, todos os direitos patrimoniais que derivam desse vínculo devem ser protegidos – sem qualquer discriminação no que diz respeito às garantias já estabelecidas para uniões entre casais heterossexuais”. (informação retirada do site do MPF);
OC nº 25/2018: A instituição do asilo e seu reconhecimento como direito humano no sistema interamericano Resposta: compreende a figura do asilo em sentido amplo, abrangendo, assim, a totalidade das instituições vinculadas à proteção internacional das pessoas forçadas a sair do seu país de nacionalidade ou residência habitual. Ficam compreendidos, portanto, o asilo em sentido estrito, que a Corte chama de "tradição latino-americana do asilo", e também o asilo sob a condição de refugiado. Resposta: 1) O direito à buscar e receber asilo no marco do sistema interamericano se encontra configurado como um direito humano a buscar e receber proteção internacional em território estrangeiro, incluindo com esta expressão o estatuto do refugiado segundo os instrumentos pertinentes das Nações Unidas ou as correspondentes leis nacionais, e o asilo territorial conforme as diversas convenções interamericanas sobre a matéria; 2) O asilo diplomático não se encontra protegido pelo art. 22.7 da CADH e pelo art. 27 da DADDH, regendo-se pelas próprias convenções de natureza interestatal que o regulam e pelo disposto nas legislações internas; 3) O princípio da não devolução é exigível por qualquer pessoa estrangeira, incluídas aquelas em busca de proteção internacional, sobre a qual o Estado em questão esteja exercendo autoridade ou que se encontre sob seu controle efetivo, independentemente de se encontrar no território terrestre, fluvial, marítimo ou aéreo do Estado; e 4) O princípio da não devolução não exige somente que a pessoa não seja devolvida, mas também impõe obrigações positivas para os Estados.
OC nº 26/2020: A denúncia da CADH e da Carta da OEA e seus efeitos jurídicos sobre as obrigações estatais em matéria de direitos humanos. Quando um Estado membro da OEA denuncia a CADH: As obrigações convencionais permanecem incólumes durante o período de transição até a denúncia efetiva. A denúncia efetiva da CADH não gera efeitos retroativos. A vigência das obrigações que surgem da ratificação de outros tratados interamericanos de direitos humanos mantém-se ativa. A denúncia efetiva da CADH não anula a eficácia interna dos critérios decorrentes da norma convencional interpretada como parâmetro preventivo de violações aos direitos humanos. As obrigações associadas ao umbral de proteção mínimo da Carta da OEA e da DADDH perduram sob a supervisão da CIDH. As normas consuetudinárias, as decorrentes de princípios gerais de direito e as pertencentes ao jus cogens continuam obrigando o Estado em virtude do direito internacional geral.
OC nº 27/2021: Direitos à liberdade sindical, negociação coletiva e greve, e sua relação com outros direitos, com perspectiva de gênero. Os direitos de reunião e liberdade de expressão, em sua relação com a liberdade sindical, a negociação coletiva e à greve, constituem direitos fundamentais para que os trabalhadores e as trabalhadoras, e seus representantes, se organizem e expressem as reivindicações específicas acerca de suas condições trabalhistas, e possam participar em questões de interesse público com uma voz coletiva, pelo que os Estados têm o dever de respeitar e garantir estes direitos. O direito trabalhista estabelece um piso mínimo de proteção dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, de modo que não podem renunciar em seu prejuízo seus direitos trabalhistas reconhecidos na legislação laboral por meio da negociação coletiva.
OC 28/2021: A figura da reeleição presidencial indefinida em sistemas presidencialistas no contexto do sistema interamericano. A reeleição presidencial indefinida não constitui um direito autônomoprotegido pela CADH nem pelo corpus iuris do DIDH. A proibição da reeleição presidencial indefinida é compatível com a CADH, a DADDH e a Carta Democrática Interamericana. A habilitação à reeleição presidencial indefinida é contrária aos princípios de uma democracia representativa e, por isso, às obrigações estabelecidas na CADH e na DADDH.
OC nº 29/2022: Enfoques diferenciados a respeito de determinados grupos de pessoas privadas de liberdade. Os Estados devem aplicar um enfoque diferenciado na atenção das necessidades de distintos grupos populacionais privados de liberdade para assegurar uma execução da pena respeitosa da dignidade humana. Os Estados devem adotar um enfoque diferenciado no tratamento das mulheres grávidas, em período de parto, pós-parto e lactância, bem como no tratamento de crianças que vivem em prisões com suas mães ou seus pais ou cuidadores principais, de pessoas LGBTI privadas de liberdade, de povos indígenas e de pessoas idosas.
CONTEÚDO DA JURISDIÇÃO CONTENCIOSA DA CORTE: De 1979 a 2023, a Corte já proferiu mais de 400 sentenças, dentre elas:
Velásquez RodriguesVsHonduras: Desaparecimento forçado. Inaugurou a jurisdição contenciosa da corte (ciclo hondurenho), a Corte inverteu o ônus da prova contra o Estado. Necessidade de realização de audiência de custódia para prevenir a ocorrência de tais desaparecimentos.
Genie LacayoVsNicarágua(Caso da comitiva de Ortega): Assassinato não investigado apropriadamente. Decidiu que houve violação do direito da vítima a um processo contra os violadores de Direitos Humanos em um prazo razoável.
Loayza TamayoVsPeru: Foi presa e ficou incomunicável por 10 dias, sendo submetida a tortura e tratamentos cruéis. A CADH proíbe o bis in idem contra os mesmos FATOS (mais abrangente). As recomendações da CIDH são vinculantes quanto ao 2º informe.1ª vez que a Corte reconheceu o dano ao “Projeto de Vida”.
Castillo PetruzziVsPeru(Caso dos juízes sem rosto): 1º precedente sobre a impossibilidade da justiça militar julgar civis (Em 2013 o PGR ajuizou a ADPF 289 sustentando que a submissão de civis justiça militar em tempo de paz fere o Estado Democrático de direito).
Villagrán MoralesVsGuatemala(Caso dos Meninos de Rua): Sequestro, tortura e morte de menores de rua. A limitação arbitrária da vida não se limita ao ilícito do homicídio, mas também ao direito de viver com dignidade.
BarriosAltosVsPeru: As leis autoanistia são incompatíveis com a CADH (art. 8º e 25º).
Comunidade Mayagna Awas TingniVsNicarágua: 1º caso envolvendo a relação entre as comunidades tradicionais e a propriedade de suas terras. Interpretação evolutiva do art. 21 da CADH para também abarcar a proteção da propriedade comunal dos indígenas. Restrições para a outorga a terceiros de direitos de exploração sobre recursos naturais em territórios indígenas.
BulacioVsArgentina: A conduta processual do acusado(expedientes protelatórios) tem relevância sobre o prazo máximo de duração do processo (Caso donadon – Brasil, 2013).Crimes que implicam em violações de direitos Humanos devem ser imprescritíveis.
Niñas Yean e BosicoVsRepública Dominicana: Crianças Haitianas que tiveram negados seus registros de nascimento e permaneceram apátridas por mais de 4 anos na República Dominicana. A Corte decidiu que os Estados não possuem discricionariedade ilimitada para definir quem é nacional, tendo o dever de evitar a apatridia. O direito ao nome constitui um elemento básico e indispensável da identidade de cada pessoa.
Masacres de ItuangoVsColômbia: 1º a abordar violação do art. 6.2 da CADH. A corte fixou parâmetros para identificar trabalho forçado: (i) ameaça de sanção; (ii) oferecimento não espontâneo para o trabalho; (iii) atribuição da violação a agentes do Estado.
ClaudeReyesVsChile: Acesso público a informação sobre impactos ambientais de uma obra. Houve ampliação do direito à liberdade de informação para abranger sua dimensão coletiva.
AmonacidArellanoVsChile: incompatibilidade da lei de anistia com a CADH. Corte inaugurou formalmente a doutrina do controle de convencionalidade.
Del Pueblo SaramakaVs Suriname: Parâmetros de consulta aos povos indígenas afetados por grandes projetos: a) consentimento livre, prévio e informado; b)garantia ao acesso às informações sobre os impactos sociais e ambientais; c) respeito aos métodos tradicionais da comunidade para a tomada de decisões
ChaparroÁlvarezyLapoÍñiguezVsEquador(caso audiência de custódia): A Corte exigiu o direito do preso de ser apresentado e ouvido, sem demora, perante autoridade judicial ou com poderes judiciais, não bastando apenas a análise documental da prisão pelo juiz.
VélezLoorVsPanamá:Caso de imigração irregular. Impossibilidade de fixação de políticas migratórias cujo foco principal seja a detenção arbitrária. Direito à realização de audiência de custódia em caso de prisão decorrente de situação migratória. Necessidade de defesa técnica nos procedimentos administrativos/judiciais que possam resultar em expulsão/deportação. Direito à assistência consular do preso migrante (OC nº 16). Necessidade de separar presos por situação migratória irregular dos que cometeram infrações penais. NO BRASIL: convergência entre o STF e a Corte acerca do direito à assistência consular (ex.: de diálogo entre as cortes); inconvencionalidade da interpretação dos tribunais superiores que admitem a incidência da SV nº 5 ao interrogatório de estrangeiro em processo administrativo de expulsão. (Ex.: STJ, em 2011, no HC 196570, decidiu com base na SV).
CabreraGarcia/MontielFloresVsMéxico: Caso de prisão em condições degradantes, tortura, falha na investigação, violaçãonoo devido processo. Necessidade de exclusão de provas obtidas mediante coação e das que dela derivarem.
Acosta Vs Nicarágua (sentença em 25/03/2017): O estado foi acusado de não investigar diligentemente e em prazo razoável a morte de defensor de direitos humanos dos povos indígenas, violando o direito à justiça e à verdade.
GelmanVsUruguai: Condenação da parte Uruguaia no contexto da Operação condor ( união de forças das ditaduras da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai para troca de informações, tortura, perseguição e assassinatos dos opositores). A Corte julgou o Caso de Maria Macarena que foi tirada de seus pais biológicos argentinos e entregue à adoção no Uruguai. A Corte entendeu que a negação da própria identidade da criança foi um caso particular de desaparecimento forçado e condenou o Uruguai por violação do direito ao reconhecimento da personalidade jurídica, à nacionalidade, dentre outros.
BarretoLeivaVsVenezuela: A Corte decidiu que o foro por prerrogativa de função e a competência por conexão para esses caso é compatível com a CADH. Posicionou-se no sentido de que a garantia do duplo grau se aplica mesmo quando o acusado é julgado pela instância máxima do seu país. ACR afirma que este caso é frequentemente citado nos debates sobre a inconvencionalidade da competência constitucional do STF para julgar crimes de determinadas autoridades. (Ex: caso do mensalão).
Radilla PAchecoVsMéxico: A Corte reafirmou que a proibição do desaparecimento forçado tem status de jus cogens.
Povo indígena Kichwa de SarayakuVsEquador: É o mais recente caso sobre violações a direitos de comunidades indígenas e tradicionais e reitera a necessidade de se obter um consentimentos desses povos sobre as medias propostas após a realização da consulta prévia, livre e de boa-fé.
Furlan e Familiares Vs Argentina: Acidente sofrido pelo adolescente Furlan nas dependências de um quartel militar desativado, gerando incapacidade psíquica, cognitiva e motora. 1º caso envolvendo a atuação da Defensoria Pública Interamericana. A Corte destacou que a condição de pessoa com deficiência se inter-relaciona com as barreiras socialmente impostas para estas pessoas possam exercer seus direitos de forma efetiva, razão pela qual os Estados americanos têm o dever de incluir a pessoa com deficiência na sociedade e adotar medidas positivas para eliminar as barreiras impostas pela sociedade majoritária.
MohamedVsArgentina: Dever doEstado de adotar medidas para garantir à vítima o direito de recurso à decisão penal condenatória, além da suspensão da sentença. Segundo a Corte, a garantia do duplo grau de jurisdição se origina com a prolação de uma sentença desfavorável, assim, se o acusado for absolvido em 1ª instância e condenado após recurso do MP deve ser garantido um recurso ordinário em que ainda se possa discutir fatos, provas e matérias jurídicas. Ressalte-se que no Brasil, nos casos de absolvição no juízo de 1ª grau e condenação no TJ estadual, também não há recurso ordinário (aquele que devolve toda matéria inclusive fática ao Tribunal ad quem), apenas cabe Resp e RE em que não se pode mais discutir questões de fatos.
Defensor de Direitos Humanos Vs Guatemala: 1º caso em que a Corte estabeleceu uma definição clara para esta categoria, considerando que terá a qualidade de defensor de direitos humanos aquele que atuar na proteção e na promoção dos direitos humanos, independentemente de ser particular ou servidor público. A Corte criou standards para analisar a adequação de medidas adotadas pelos Estados para proteger as atividades de defensores, a saber: (i) estejam de acordo com as atividades desempenhadas pelos defensores; (ii) avaliação do nível de risco para adotar e monitorar as medidas que se encontrem vigentes; (iii) devem poder ser modificadas de acordo com a variação da intensidade do risco. NO BRASIL, caso do defensor Manoel Mattos foi o primeiro incidente de deslocamento de competência julgado procedente pelo STJ.
Comunidades Afrodescendentes Deslocadas do Rio Cacarica Vs Colômbia (Operação gênesis – operação militar contra guerrilheiros das FARC): 1ª vez que a Corte utilizou o termo “comunidade afrodescendente” em vez de “comunidade tribal”. A Corte estendeu de maneira direta e imediata os direitos diferenciados dos povos indígenas. Considerou que o deslocamento forçado viola normas de Direito Internacional Humanitário e a garantia do respeito ao núcleo familiar previsto na CADH, sendo a Colômbia responsabilizada pela violação do direito à liberdade de circulação e residência, à propriedade coletiva, à vida, etc.
J. Vs Peru: A Corte aplicou as regras de Bangkok sobre o tratamento de mulheres presas e medidas não privativas de liberdade para mulheres infratoras.
Família Pacheco Tineo Vs Bolívia:1ª vez que a Corte analisou um caso envolvendo o princípio do non-refoulement. Tendencia de absorção do Direito Internacional dos refugiados pelos processos internacionais de direitos humanos. Os institutos do refúgio e do asilo podem ser submetidos ao crivo dos tribunais internacionais de direitos humanos.
Norín CatrímanVsChile: Tratou-se de condenação de lideranças indígenas por condutas (protestos sociais pelo direito as terras ancestrais e aos recursos naturais) consideradas terroristas. A Corte entendeu que a aplicação da lei penal violou o princípio da não discriminação e da igualdade perante a lei por estar baseada em estereótipos negativos.
Brewer Carías Vs Venezuela: Pela 1ª vez a Corte não acatou o mérito e acolheu a preliminar de não esgotamento dos recursos internos.
Wong Ho Wing Vs Peru (sentença em 30/06/2015): Trata do pedido de extradição do Sr. Wing sob alegações de que este cometeu o crime de contrabando de mercadorias comuns que na China era punido com pena de morte. FOI O 1º CASO A VINCULAR A COOPERAÇÃO JURÍDICA INTERNACIONAL AOS DIREITOS HUMANOS.
CASOS POR MATÉRIA
Direitos Políticos. Yatama Vs Nicarágua: 1º Caso em matéria de direitos políticos. Discriminação indireta/colateral/invisível e teoria do impacto desproporcional (casos no Brasil: teto para o salário maternidade; recepção ou não do crime de pederastia do CPM; para Barroso a criminalização do Aborto discrimina mulheres negras e de baixa escolaridade (HC 124306); ADI 4424 ajuizada pelo PGR para declarar inconstitucional a exigência de representação da vítima mulher para início de ação penal relativa a crime de lesão corporal leve praticado no ambiente doméstico. "A democracia representativa é determinante em todo o sistema do qual a Convenção integra e constitui um 'princípio' reafirmado pelos Estados americanos na Carta da OEA, instrumento fundamental do sistema interamericano".
Castañeda Gutman Vs México. A Corte IDH admitiu uma margem de apreciação nacional para o Estado regular a matéria de filiação partidária obrigatória e requisitos para definição das características dos seus sistemas eleitorais. A Corte entendeu que o art. 23.2 não pode ser interpretado literalmente - no que diz respeito às condições que podem limitar o exercício dos direitos políticos de votar e ser votado -, mas sim no contexto geral da CADH. Os Estados podem estabelecer outras condições para o exercício dos direitos políticos de votar e ser votado, desde que sejam estritamente legais, busquem uma finalidade legítima, sejam necessárias numa sociedade democrática e também proporcionais.
No Caso Pacheco León e outros vs. Honduras, a Corte afirmou que, entre os deveres do Estado para criar as condições efetivas para o gozo dos direitos políticos, está a prevenção de ameaças ou agressões à vida de uma pessoa por sua atividade política, o que contempla, segundo a Corte, as etapas prévias ao processo eleitoral em si, como as campanhas. Para a Corte, "Em termos gerais, existe uma obrigação dos Estados de prover medidas eficazes para garantir a realização de processos eleitorais adequados, e estas podem implicar ações de segurança ou proteção a respeito de candidatos ou outras pessoas intervenientes nestes processos".
No julgamento do Caso López Lone e outros vs. Honduras, fazendo menção aos Princípios Básicos das Nações Unidas relativos à Independência Judicial e também aos Princípios de Bangalore sobre a Conduta Judicial, a Corte admite que a garantia da independência e imparcialidade da Magistratura impõe algumas limitações para a liberdade de expressão dos juízes sobre assuntos políticos. Contudo, a Corte entendeu que os juízes têm o direito de se manifestar em defesa da democracia. "É possível concluir então que, em momentos de graves crises democráticas, não são aplicáveis às atuações dos juízes e das juízas em defesa da ordem democrática, as normas que ordinariamente restringem seu direito à participação na política. Neste sentido, seria contrário à própria independência dos poderes estatais, assim como às obrigações internacionais do Estado derivadas de sua participação na OEA, que os juízes e as juízas não possam se pronunciar contra um golpe de Estado".
No Caso do Tribunal Constitucional vs. Peru e Caso do Tribunal Constitucional vs. Equador a Corte analisou a convencionalidade de julgamentos de impeachment (pela casa legislativa). Para a Corte, embora a função jurisdicional pertença eminentemente ao Poder Judiciário, outros órgãos e autoridades públicas também podem exercer funções desse tipo, de modo que "quando a Convenção se refere ao direito de toda pessoa a ser ouvida por um juiz ou tribunal competente para a determinação de seus direitos, esta expressão se refere a qualquer autoridade pública, se administrativa, legislativa ou judicial, que através de suas resoluções determine direitos e obrigações das pessoas". A Corte concluiu que a pessoa sujeita a um julgamento pelo Poder Legislativo conserva seu direito de ser julgada por um órgão competente, independente e imparcial. O STF, na MC na ADPF 378 (Caso Dilma), adotou entendimento diverso.
Caso López Mendoza vs. Venezuela. Restrição a direitos políticos decidida em processo não penal. O art. 23.2 da CADH somente admite a limitação dos direitos políticos por condenação, por juiz competente, em processo penal. A LC 64/1990, alterada pela Lei da Ficha Limpa (LC 135/2010), também admite inelegibilidade decorrente de condenação em ação cível de improbidade administrativa e até mesmo de sanção aplicada pelo órgão profissional competente (um processo administrativo). "O art. 23.2 da Convenção determina quais são as causas que permitem restringir os direitos reconhecidos no art. 23.1, assim como, se for ocaso, os requisitos que devem ser cumpridos para que se proceda com tal restrição. No presente caso, que se refere a uma restrição imposta pela via de sanção, deveria tratar-se de uma 'condenação, por juiz competente, em processo penal'. Nenhum destes requisitos foi cumprido, pois o órgão que impôs estas sanções não era um 'juiz competente, não houve 'condenação' e as sanções não foram aplicadas como resultado de um 'processo penal' (...)".
Direito das Mulheres. González Vs México (Campo algodoeiro): 1º Caso apreciado sobre violência estrutural de gênero. 1ª vez que um tribunal internacional reconheceu a existência do feminicídio como crime. A sentença determinou a indenização dos familiares, a promoção de medidas que compatibilizem o direito interno com o internacional de proteção à mulher, sobretudo com a Convenção de Belém do Pará. A corte decidiu pela impossibilidade de reconhecer o dano ao projeto de vida quando a vítima não estiver viva. NO BRASIL, por meio da Lei nº 13.104/2015, o CP passou a prever o feminicídio como qualificadora objetiva (REsp 1.707.113/MG, de Relatoria do Ministro Felix Fischer, publicado no dia 7.12.2017) do crime de homicídio. No mesmo sentido de julgamento com perspectiva de gênero Caso Veliz Franco e outros vs. Guatemala.
Caso Fernández Ortega e outros vs. México. Parâmetros que os Estados devem adotar na investigação de violência sexual contra mulher: A declaração da vítima deve realizar num ambiente cômodo e seguro, que lhe ofereça privacidade e confiança. A declaração da vítima deve ser registrada de forma tal que se evite ou se limite a necessidade de sua repetição. Seja oferecida atenção médica, sanitária e psicológica à vítima, tanto de emergência como de forma continuada se assim requer, mediante um protocolo de atenção cujo objetivo seja reduzir as consequências da violação. Seja realizado imediatamente um exame médico e psicológico completo e detalhado por pessoal idôneo e capacitado, se possível do sexo que a vítima indique, oferecendo-lhe que seja acompanhada por alguém de sua confiança se assim desejar. Sejam documentados e coordenados os atos investigativos e se maneje diligentemente a prova, tomando amostras suficientes, realizando estudos para determinar a possível autoria do fato, assegurando outras provas como roupa da vítima, investigando de forma imediata o lugar dos fatos e garantindo a correta cadeia de custódia. Seja oferecido acesso à assistência jurídica gratuita durante todas as etapas do processo.
Caso Velásquez Paiz e outros vs. Guatemala. "A vinculação da liberdade de expressão resulta do fato de que a escolha individual da vestimenta e dos acessórios que modificam a aparência física serve para exteriorizar a adesão a determinado grupo ou cultura, manifestação que, por isso mesmo, tem conteúdo político relevante. (...) O Estado tem a obrigação de garantir um ambiente seguro para que toda mulher que decida manifestar domínio sobre seu próprio corpo, usando roupas diferentes daquelas incentivadas pela sociedade, possa fazê-lo" .
Caso Espinoza González vs. Peru. A Corte ODH considerou a palavra da vítima como prova fundamental sobre o fato, possuindo, então, um peso diferenciado para a formação da culpa do réu.
Caso do Presídio Miguel Castro Casto, Caso Velásquez Paiz e outro vs. Guatemala e Caso Favela Nova Brasília vs. Brasil. A Corte IDH afirmou que, em casos de participação de agentes estatais na prática de crime contra a dignidade sexual de mulheres, a Corte IDH entendeu por qualificar a conduta como tortura, tendo como consequência a imprescritibilidade.
Caso Artavia Murillo Vs Costa Rica: 1º precedente da Corte em que a fertilização in vitro(FIV) foi analisada a partir de direitos humanos. A proibição da FIV viola o direito à liberdade pessoal e à vida privada, vez que interfere na autonomia reprodutiva e no direito de gozar dos benefícios do progresso cientifico (acesso aos serviços de saúde reprodutiva). Ocasiona, ainda, a discriminação indireta de mulheres inférteis e casais sem condições de realizar FIV no exterior. A Corte decidiu que a Concepção a que se refere o art. 4.1 da CADH somente ocorre com a implantação do óvulo fecundado no útero, concluindo que o embrião ainda não pode ser considerado pessoa. NO BRASIL, o STF teve entendimento semelhante no caso da admissão de “pesquisa em células troncos” – ADI 3510.
Caso Manuela e outros vs. El Salvador. A Corte IDH embora não tenha reconhecido diretamente que o aborto seja um direito da mulher, sua crítica à criminalização está implícita em seus pronunciamentos sobre o assunto. Um outro ponto importante do Caso Manuela diz respeito ao sigilo médico em relação à notícia de aborto pela mulher quando em atendimento médico (mais detalhes do caso no Ponto de Direitos sexuais e reprodutivos – 8C).
Caso Brítez Arce e outros vs. Argentina. Violência obstétrica. Cristina Brítez Arce estava grávida de nove meses. Foi a um hospital público em Buenos Aires, onde fez uma ultrassom que indicou que o feto estava morto, motivo pelo qual foi internada para induzir o parto. A indução do trabalho de parto começou às 13h45 e se encerrou às 17h15, quando foi transferida para a sala de partos com dilatação completa. Durante esse tempo, teve que esperar por duas horas numa cadeira. Brítez Arce faleceu no mesmo dia, às 18h, por parada cardiorrespiratória não traumática. As instâncias nacionais - penal e cível - falharam na reparação da violação de direitos humanos.
Caso Angulo Losada vs. Bolivia. Sentença em 18.11.2022. Uma menina de 16 anos que foi vítima de violência sexual praticada por um primo, afirmou que as disposições penais relacionadas com a violência sexual devem conter a figura do consentimento como elemento central. Assim, "para que se pratique uma violação, não se deve exigir a prova da ameaça, o uso da força ou a violência física, bastando para isso que se demonstre, mediante qualquer meio probatório idôneo, que a vítima não consentiu com o ato sexual. Os tipos penais relativos à violência sexual devem se centrar no consentimento, elemento essencial no acesso à justiça das mulheres vítimas de violência sexual. (...) Cabe sublinhar que somente se pode entender que há consentimento quando este tenha sido manifestado livremente mediante atos que, em atenção às circunstâncias do caso, expressem de maneira clara a vontade da pessoa. O consentimento pode ser verbal ou pode decorrer de um comportamento evidentemente identificável como uma participação voluntária".
Caso Márcia Barbosa de Souza Vs Brasil. (abaixo).
Direitos LGBTQIA+. Caso Atala Riffo Vs Chile; 1º caso que a corte afirmou que orientação sexual e identidade de gênero são categorias protegidas pelo direito à igualdade e a não-discriminação previstos na CADH. A orientação sexual dos pais não pode servir como fundamento para decidir processo judicial de guarda. A CADH não estabelece o modelo tradicional de família como o único possível, nem tampouco exigiu o matrimônio para a sua configuração. A Corte condenou o Chile por violar, entre outros: 1) o direito à igualdade e à não discriminação; 2) o direito à vida privada; 3) o direito à honra e à dignidade; e 4) o direito à à proteção da família. A Corte afirmou que a orientação sexual e a identidade de gênero são categorias protegidas pela CADH por meio da expressão "outra condição social" prevista no art. 1.1, que proíbe qualquer norma, ato ou prática discriminatória baseada na orientação sexual pelo Direito interno, seja por parte de autoridades estatais ou por particulares.
Caso Duque Vs Colômbia (sentença em 2016): A Corte entendeu que orientação sexual não pode ser entendida como fator determinante para impedir a obtenção do benefício de pensão por morte. A Corte reconheceu o direito à pensão por morte ao senhor Duque em razão do falecimento do seu companheiro, condenando a Colômbia a implementar o benefício em virtude de uma questão de gênero.
Caso Flor Freire Vs Equador (sentença em 2016): Orientação sexual não pode ser fator determinante para definir quem pode ou não fazer partedas forças armadas. A Corte IDH decidiu no sentido da inconvencionalidade de se considerar a orientação sexual como fator determinante para selecionar quem deve ou não ser membro das Forças Armadas. Um precedente importante contra a homofobia e a discriminação de natureza sexual que tradicionalmente estiveram incorporadas no regime disciplinar e hierárquico das Forças Armadas.
Caso Azul Rojas Marin e outra vs. Peru. Sentença de 12.03.2020. O caso se relaciona com a prisão ilegal, arbitrária e discriminatória de Azul Rojas Marin supostamente para fins de identificação, seguida de graves atos de violência física e psicológica, havendo uma relação com a identificação ou percepção de Azul Rojas, naquele momento, como um homem gay. A Corte advertiu que "A violência contra as pessoas LGBTI tem um fim simbólico, a vítima é escolhida com o propósito de comunicar uma mensagem de exclusão ou de subordinação. (...) a violência exercida por razões discriminatórias tem como objetivo ou propósito impedir ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício dos direitos humanos e liberdades fundamentais da pessoa objeto desta discriminação (...). Esta violência, alimentada por discursos de ódio, pode gerar crimes de ódio" .
Caso Vicky Hernández vs. Honduras. Julgado pela Corte IDH em 26.03.2021. Primeiro caso que aborda diretamente a violência contra pessoa trans. O caso se relaciona com a morte de Vicky Hernández, mulher trans e defensora de direitos humanos, entre a noite do dia 28 de junho e a madrugada de 29 de junho de 2009, na cidade de San Pedro Sula, enquanto estava vigente um toque de recolher. A Comissão indicou que a morte de Vicky ocorreu em dois contextos relevantes: violência e discriminação contra pessoas LGBTI em Honduras e, ainda, um golpe de Estado praticado em junho de 2009. No caso, a Corte ainda considerou violada a Convenção de Belém de Pará, que se aplica a mulheres transgênero. Investigar, processar e punir os responsáveis pelo assassinato. Ato público de reconhecimento da responsabilidade. Realizar um documentário audiovisual sobre a situação de discriminação e violência que experimentam as mulheres trans em Honduras. Criar o curso educativo "Vicky Hernández" para mulheres trans. Indenização.
Caso Pavez Pavez vs. Chile. Sentença proferida em 04.02.2022. A senhora Sandra Cecília Pavez Pavez foi declarada inabilitada, com base em sua orientação sexual, para o exercício do ensino religioso em uma escola pública. De acordo com um decreto do Ministro da Educação, professore(a)s de educação religiosa precisavam de um certificado de idoneidade expedido por uma autoridade eclesiástica. Pavez Pavez obteve esse certificado em 1982, com várias renovações. O Poder Judiciário chileno, provocado pela senhora Pavez Pavez, manteve a revogação do seu certificado de idoneidade, compreendendo que o ato da autoridade eclesiástica não poderia ser considerado ilegal ou arbitrário. Por essa razão, a Corte condenou o Chile, pela violação dos direitos humanos da senhora Pavez Pavez.
Liberdade de expressão. Caso Moya Chacón Vs Costa Rica. A Corte considerou que a proteção das fontes jornalísticas é a pedra angular da liberdade de imprensa e, em geral, de uma sociedade democrática, uma vez que permitem às sociedades se beneficiar do jornalismo investigativo com o fim de reforçar a boa governança e o Estado de Direito.
Caso Urrutia Laubreaux vs. Chile (2020) O juiz UrritIa sofreu penalidade de censura, depois reduzida a uma admoestação privada, ao juiz Daniel Urrutia Laubreaux, por produzir um trabalho acadêmico sobre a Suprema Corte de Justiça, criticando suas atuações durante o regime militar chileno. A Corte IDH concluiu que "(...) embora a liberdade de expressão de juízes possa estar sujeita a maiores restrições que a de outras pessoas, isso não implica que qualquer expressão de um juiz possa ser restringida. Neste sentido, não é compatível com a CADH punir as expressões realizadas em um trabalho acadêmico sobre um tema geral e não em um caso concreto, como o realizado pela vítima no presente caso.
Caso Carvajal Carvajal e outros vs. Colômbia. A Corte afirma que a liberdade de expressão tem uma dimensão individual e uma dimensão social (...). Este Tribunal entende que ambas as dimensões possuem igual importância e devem ser garantidas plenamente de forma simultânea para dar efetividade total ao direito à liberdade de expressão"
Caso Lagos del Campo Vs Peru. Paradigmático por ser a primeira vez que a Corte reconheceu violação direta ao art. 26 da CADH, superando o seu entendimento a respeito da judicialização indireta ou mediata dos direitos econômicos, sociais e culturais. a vítima do caso havia sido demitida como consequência de manifestações realizadas na condição de presidente do Comitê Eleitoral da Comunidade Industrial de uma empresa. Para a Corte a liberdade de expressão é uma condição necessária para o exercício de organizações de trabalhadores, a fim de proteger seus direitos trabalhistas, melhorar suas condições e interesses legítimos, pois sem este direito estas organizações careceriam de eficácia e razão de ser.
Caso Olmedo Bustos Vs Chile: Censura prévia ao filme “a última tentação de cristo”. Normas Constitucionais originárias podem ser objeto de controle de convencionalidade. O direito à liberdade de expressão possui uma dimensão individual (direito de se expressar) e uma social (direito de buscar e disseminar informações). NO BRASIL: Caso Ellwanger -; Caso Grald Thomas; Caso Jonas Abib.
Caso Palamara Iribarne vs. Chile: proibição de circulação de um livro sobre ética e serviço militar que estava editado e em processo de publicação para ser comercializado.
Caso Mémoli vs. Argentina: "(...) a Corte estima pertinente esclarecer que isso não significa que os jornalistas estão isentos de responsabilidade no exercício da sua liberdade de expressão. O exercício abusivo da liberdade de expressão, seja por uma pessoa particular ou um jornalista, pode estar sujeito ao estabelecimento de responsabilidades posteriores, conforme o art. 13.2 da Convenção".
Caso Kimel vs. Argentina: a tipificação dos crimes contra a honra, como calúnia e difamação, desde que observada a exigência de previsão suficiente da normativa penal, é compatível com a liberdade de expressão, que é um direito relativo.
No Caso Palamara Iribarne vs. Chile (crime de desacato) assim como em outros casos, o desacato foi usado para restringir a liberdade de expressão na publicação e comercialização de livros, porém, não há um precedente da Corte IDH no sentido da compreensão da CIDH, isto é, que tenha afirmado claramente a inconvencionalidade do crime de desacato independentemente do contexto que ensejou a sua aplicação.
Caso Palacio Urrutia vs. Equador: A Corte tratou da utilização excessiva do Direito Penal para estabelecer responsabilidades posteriores resulta em uma violação da liberdade de expressão. "É sabido que existe uma corrente que postula a supressão dos tipos penais de crimes contra honra, para passar a resolver a conflitividade resultante destas lesões perante a justiça cível. A questão é discutível e em geral, na América Latina, não se tem seguido essa linha, tampouco a Corte já se pronunciou a respeito, o que é correto, pois incumbe a cada Estado decidir seus próprios critérios de política criminal, sempre que não violem a CADH nem outros instrumentos de direitos humanos" (Voto de Zaffaroni). No caso, a Corte ainda mencionou a vedação às chamadas “demandas SLAPP” - “strategic lawsuit against public participative” (demanda estratégica contra a participação pública)., do Estado, com o fim de tolher a liberdade de expressão.
Caso Ricardo Canese vs. Paraguai: "A Corte considera que, no contexto de uma campanha eleitoral, a liberdade de pensamento e de expressão em suas duas dimensões, constitui um bastião fundamental para o debate durante o processo eleitoral, devido a que se transforma em uma ferramenta essencial para a formação da opinião pública dos eleitores, fortalece a disputa política entre os distintos candidatos e partidos queparticipam nos comícios e se transforma em um autêntico instrumento de análise das plataformas políticas abordadas pelos distintos candidatos, o que permite uma maior transparência e fiscalização das futuras autoridades e de sua gestão".
Caso Ivcher Bronstein vs. Peru: A Corte afirmou ser vedada também restrição indireta à liberdade de expressão, como por exemplo cancelar a naturalização de cidadão, o que o impede de exercer alguns atos e atividades como a de ter um canal de televisão. Embora tradicionalmente se tenha aceitado que a determinação e a regulação da nacionalidade sejam de competência de cada Estado, o Direito Internacional impõe certos limites à discricionariedade dos Estados, afirmando que a regulamentação da nacionalidade compete não somente aos Estados, mas também ao Direito Internacional. As garantias do devido processo também devem ser observadas no processo administrativo de cancelamento da naturalidade. Primeiro caso de violência indireta da liberdade de expressão.
DESCA. Caso Cuscul Pivaral e outros vs. Guatemala. "(...) a dimensão progressiva de proteção dos DESCA, embora reconheça uma certa gradualidade para sua realização, também inclui um sentido de progresso, que requer a melhora efetiva das condições de gozo e exercício desses direitos, de forma que se corrijam as desigualdades sociais e se facilite a inclusão de grupos vulneráveis. Nessa lógica, a obrigação de realização progressiva proíbe a inatividade do Estado em sua tarefa de implementar ações para obter a proteção integral dos direitos, sobretudo nas matérias em que a ausência total de proteção estatal coloca as pessoas ante a iminência de sofrer um dano a sua vida ou a sua integridade pessoal".
Caso Guachalá Chimbo e outros vs. Equador. Proibição de discriminação: no contexto do desenvolvimento progressivo, há uma obrigação imediata de não discriminar no que diz respeito ao desfrute dos direitos sociais em sentido amplo.
Caso Ximenes Lopes vs. Brasil.
Caso Poblete Vilches e outros vs. Chile. "(...) entendida a saúde não só como a ausência de afecções ou doenças, mas também como um estado completo de bem-estar físico, mental e social, decorrente de um estilo de vida que possibilite às pessoas alcançar um equilíbrio integral". Este foi o primeiro caso da Corte IDH sobre direitos das pessoas idosas em matéria de saúde.
Caso "Instituto de Reeducação do Menor" vs. Paraguai: direito à educação de crianças privadas de liberdade. Sucessivos incêndios que ocasionaram a morte de crianças dentro do estabelecimento de detenção. Obrigação de separar criança de adultos nos estabelecimentos prisionais. Relativizou o requisito de individualização das vítimas.
Caso da Comunidade Indígena Xákmok vs. Paraguai: direito à educação no seio de comunidades indígenas com uma perspectiva etnoeducativa.
Caso Gonzales Lluy e outros vs. Equador: A criança Lluy foi contagiada pelo vírus HIV por conta de transfusão de sangue sem os devidos exames realizados. Após, por ser mulher, pobre e portadora do vírus foram impostos vários obstáculos para que ingressasse na escola e tivesse tratamento de saúde de qualidade (a Corte reconheceu de forma inédita – interseccionalidade dos direitos humanos). A corte responsabilizou o Estado por violação ao direito social a educação."(...) existem três obrigações inerentes ao direito à educação em relação às pessoas que vivem com HIV/AIDS: 1) o direito de dispor de informação oportuna e livre de preconceitos sobre HIV/AIDS; 2) a proibição de impedir o acesso das pessoas com HIV/AIDS aos centros educacionais; e 3) o direito de que a educação promova sua inclusão e não discriminação dentro do ambiente social".
Caso Guzmán Albarracín e outras vs. Equador: importância de um ensino para crianças que contemple o aprendizado sobre a violência de gênero, a violência sexual e a violência contra a mulher, além da educação sexual.
Caso Duque vs. Colômbia: proibição de discriminar o acesso ao benefício de pensão por morte com base na orientação sexual. No mesmo sentido, Caso Muelle Flores vs. Peru.
Populações Indígenas e comunidades tradicionais: Ver ponto 1B.
Penal: Ver ponto 5B.
CASOS BRASILEIROS JULGADOS PROCEDENTES PELA CORTE:
1. Damião Ximenes Lopes (sentença de mérito em 2006): Em 1999 houve o Assassinato do Sr. Damião, pessoa com doença mental, na Casa de Repouso de Guarape-CE. O paciente foi submetido a maus-tratos, sendo encontrado com as mãos amarradas, sangrando, com hematomas. 1º caso envolvendo violação de direitos humanos de pessoa com deficiência. Possibilidade de responsabilizar o Estado por atos cometidos por particulares (equipe médica de clínica privada). A Corte considera que a sujeição (qualquer ação que interfira na capacidade de um paciente tomar decisões ou que restrinja sua liberdade, ex: contenção física e medicamentos neutralizantes) deve ser empregada apenas em último caso e exclusivamente para proteger o paciente, vez que é altamente agressiva e violadora de sua integridade pessoal. A Corte estabeleceu o dever do Brasil elaborar uma política antimanicomial. O BRASIL violou o direito à vida; à integridade física; à integridade pessoal dos familiares; às garantias judiciais e à proteção judicial.
2. Escher e outros (sentença de mérito em 2009): Membros integrantes de organizações comunitárias que mantinham relação com o MST, dentre eles o Sr. Escher, tiveram suas ligações interceptadas a pedido da PM sem investigação criminal formal) e sem o conhecimento do MP (A corte acertadamente entende que a PM não tem legitimidade para requerer a interceptação), e ainda foram divulgados trechos das conversas telefônicas no JN e em coletiva de imprensa convocada pelo Secretário de segurança. A Corte entendeu que a divulgação de conversas telefônicas interceptadas consiste em ingerência arbitrária e ilegal na vida privada, na honra e na reputação dos indivíduos. ( Polêmica decisão do Juiz Sérgio Moro de levantar o sigilo de comunicação interceptada entre o ex-presidente Lula e diversos interlocutores).
3. Garibaldi (sentença de mérito em 2009): Assassinato do Sr. Garibaldi (MST) por milícia rural em uma invasão de terras no Paraná (na mesma região do caso Escher), O BRASIL foi condenado por ter descumprido seu dever de investigar e punir violações de direitos humanos, extrapolando sobremaneira a razoável duração de uma investigação em um inquérito que já perdurava por 5 anos. Para a Corte o dever de investigar é uma obrigação de meio e não de resultado, não devendo ser apenas uma formalidade que já está fada ao insucesso ( No Brasil, somente 8% dos crimes contra a vida são elucidados pelo obsoleto sistema de inquérito policial brasileiro).
4. Gomes Lund e outros ( Caso Guerrilha do Araguaia, sentença de mérito em 2010): Desaparecimento forçado de mais de 60 pessoas durante o início da década de 70. A Corte condenou o Brasil por ter violado o direito ao reconhecimento da personalidade jurídica, à vida, à integridade física, à liberdade pessoal e de expressão, às garantias processuais e à proteção judicial ( por não ter investigado e por ter posteriormente concedido anistia aos assassinos e torturadores). A Corte considerou inconvencional a lei nº 6.683/79 (Lei de anistia), divergindo assim do controle de constitucionalidade realizado pelo STF no âmbito da ADPF 153 (que não excluiu os agentes da ditadura militar dos efeitos da lei de anistia). A Corte não acolheu a exceção preliminar do Brasil que afirmava que estaria exercendo um poder de 4ª instância, vez que considera que não há qualquer hierarquia entre suas decisões e as proferidas pelo STF, nem tampouco exerce o papel de revisor, exercendo tão somente o controle de convencionalidade de matriz internacional. Observa-se que o critério do Diálogo entre as Cortes se mostrou insuficiente para solucionar a divergência, devendo-se, nestes casos, partir para o segundo critério de solução, qual seja, a Teoria do Duplo controle/crivo. Ressalte-se que o caso envolve o tema JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO e suas 4 DIMENSÕES(direito à memória e à verdade; direito à reparaçãodas vítimas e seus familiares; tratamento jurídico adequado aos crimes cometidos no passado; reforma das instituições para a democracia – políticas de veto “vetting”); 3 FASES(pós-guerra; pós guerra-fria e justiça de transição no estado estacionário); 4 NÍVEIS(individual – punição dos autores e reparação das vítimas; do Estado-nação; dos atores corporativos da sociedade – pessoas jurídicas; atuação dos tribunais internacionais). A Corte entendeu que é norma jus cogens o dever de investigar e punir os crimes lesa-humanidade. Como a obrigação de investigar e punir os violadores de direitos humanos é permanente, o BRASIL foi processado por violações de direitos humanos cometidos antes de sua adesão à jurisdição contenciosa da Corte. A Corte proferiu um mandado internacional implícito (porque adveio de uma sentença internacional e não de um tratado) de criminalização para a tipificação do delito de desaparecimento forçado. A criação da Comissão Nacional da Verdade (Lei nº 12.582/2011) foi uma das determinações da Corte.
5. Trabalhadores da Fazenda Brasil Verde - PA (sentença em outubro de 2016): 1º Caso sobre escravidão contemporânea. Situação de discriminação estrutural histórica dos trabalhadores rurais. A exceção preliminar de incompetência ratione temporis foi aceita pela Corte, razão pela qual apreciou as ações e omissões na investigação a partir de 10/12/98 e nos processos relacionados a inspeção realizada na Fazenda no ano de 1997. Para a Corte ficou comprovado que os trabalhadores tinham sido vitimas de tráfico de pessoas, sendo captados por meio de fraude e falsas promessas. Para a Corte é inaplicável a prescrição interna para o crime de redução a condição análoga de escravos. Elementos que definem a escravidão contemporânea para Corte: (i) o estado ou condição de um indivíduo e (ii) o exercício de algum dos atributos do direito de propriedade, pelo qual o escravizador exerça poder ou controle sobre a pessoa escravizada, anulando a personalidade e independência da vítima. A proibição da escravidão é norma jus cogens.
6. Cosme Rosa Genoveva, Evandro de Oliveira e outros (Caso Favela Nova Brasília, sentença de mérito em fevereiro de 2017): Caso de violência, abuso sexual e morte de 26 moradores locais em operação realizada por agentes da Polícia Civil no Rio de Janeiro nos anos de 1994/1995. A Corte determinou que o Brasil realize investigações eficazes de modo a identificar, processar e punir os responsáveis, afastando a hipótese de prescrição para os casos de graves violações de direitos humanos. HÁ MENÇÃO EXPRESSA PARA QUE A PGR AVALIE SE É CASO DE PEDIDO DE IDC. A Corte também determinou que o Brasil publique anualmente relatório oficial com dados referentes às mortes ocorridas durante operações policiais em todos os Estados do país. Ademais, considerando que violência policial é encoberta pela elaboração dos “autos de resistência a prisão”, a Corte determinou que O Estado deve utilizar a expressão “lesão corporal ou homicídio decorrente de intervenção policial”, devendo o conceito de “oposição” ou “resistência” à ação policial” ser abolido dos relatórios.
7. Povo Indígena Xucuru (Brasil foi notificado da decisão em 12/03/2018: A Corte condenou o Brasil por violação aos direitos dos índios Xucuru à propriedade coletiva e à garantia e proteção judicial. O tribunal internacional concluiu que o Brasil não atuou em “prazo razoável” para demarcar o território Xucuru, afastando da terra as 2.300 famílias que formam a etnia, atualmente distribuídas em 24 comunidades. O governo brasileiro demorou 16 anos, entre 1989 e 2005, para reconhecer a titularidade e demarcar as terras dos índios, além de ter atrasado para retirar invasores do território. A Corte determinou que o Brasil garanta, “de maneira imediata e efetiva”, o direito de propriedade do povo Xucuru, conclua a retirada de indivíduos não indígenas das terras mediante o pagamento de indenizações pendentes, e pague indenizações por danos causados pela demora em realizar a demarcação. Apesar da condenação, a CIDH considerou que não há argumentos para que o país modifique sua legislação interna no que diz respeito às questões indígenas. Esta é a primeira vez que o Brasil é condenado em uma corte internacional por violações de direitos indígenas, tendo o prazo máximo de 18 meses para cumprir as determinações da Corte e, no período de um ano, deverá apresentar relatório sobre as medidas adotadas. (informação extraída na íntegra do site do MPF).
8. Vladimir Herzog: Na sentença proferida em março de 2018, a CIDH destaca que o episódio configura um crime contra a humanidade e que a Lei da Anistia não pode ser aplicada como razão para o Estado deixar de investigá-lo. Ainda que o STF tenha reconhecido em 2010 a constitucionalidade da lei, seu teor contraria parâmetros jurídicos internacionais de proteção aos direitos humanos.“A tortura e morte de Vladimir Herzog não foram um acidente, mas a consequência de uma máquina de repressão extremamente organizada e estruturada para agir dessa forma e eliminar fisicamente qualquer oposição democrática ou partidária ao regime ditatorial, utilizando-se de práticas e técnicas documentadas, aprovadas e monitoradas detalhadamente por altos comandos do Exército e do Poder Executivo”, ressalta a CIDH na sentença. O MPF instaurou um novo procedimento para investigar a responsabilidade criminal de agentes da ditadura militar pela morte de Vladimir Herzog, preso e torturado em 1975. A medida se baseia nas determinações da Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que condenou o Estado brasileiro devido à falta de investigação, julgamento e punição dos envolvidos no assassinato do jornalista. (informação extraída na íntegra do site do MPF).
9. Empregados da Fábrica de Fogos de Santo Antônio de Jesus e Outros: Trata-se de caso referente a violações de direitos humanos decorrentes da explosão da fábrica de fogos de artifício em Santo Antônio de Jesus/BA que causou a morte de 60 pessoas e lesão de outras 6, em 11-12-1998. Em razão da situação de pobreza da comunidade, as pessoas se submeteram a um trabalho de alto risco em troca de salários baixos. A fábrica possuía condições de trabalho extremamente precárias e guardava materiais proibidos sem condições mínimas de segurança. Ademais, contava com a negligência e conivência de órgãos públicos. Embora houvesse conhecimento dos riscos, nada foi realizado para regularizar a situação da fábrica e proteger os trabalhadores, apesar do desrespeito público às normas técnicas de segurança. Após 20 anos, apenas os processos administrativos e trabalhistas foram encerrados, porém sem garantia à reparação integral das vítimas. A ação penal não se encerrou e repercutiu na demora da apreciação judicial das ações cíveis. A Corte condenou o Brasil pela violação de seu dever de assegurar o direito ao trabalho, em condições de trabalho adequadas (segurança, saúde e higiene) e justas (sem superexploração de mulheres e crianças em trabalho perigoso), em um AMBIENTE DE POBREZA ESTRUTURAL (sem outros empregos disponíveis). O Estado foi também condenado pela falha na punição e reparação dos danos: quase 22 anos após a explosão, as ações penais ainda não transitaram em julgado (houve prescrição em relação a um dos principais responsáveis), tendo também sido insuficientes as reparações cíveis e trabalhistas (sentença de 15-7-2020). Em 22-1-2021, o Brasil apresentou um recurso de interpretação da sentença (art. 67 da CADH) questionando (entre outros aspectos) a jurisdição da Corte IDH para declarar violações do direito ao trabalho, pela mera menção ao art. 26 da Convenção. Na verdade, tratou-se de busca de rejulgamento de objeção ratione materiae já interposta pelo Brasil e rechaçada pela Corte no julgamento de mérito. A Corte IDH laconicamente repetiu ter jurisdição para apreciar e determinar litígios relativos ao artigo 26ª da Convenção, que agora tem natureza autônoma. Esse recurso brasileiro mostra a insatisfação de um Estado réu quanto à função de interpretar de um Tribunal internacional.Tal insatisfação obviamente é incoerente com a decisão adotada de ratificar um tratado (a CADH) que possui um tribunal encarregado de dar a interpretação internacionalista de seu conteúdo, mesmo que tal interpretação seja contrária à interpretação feita por algum Estado ou mesmo por todos os Estados celebrantes.
10. Márcia Barbosa de Souza e Outros: O caso versa sobre o FEMINICÍDIO de Márcia Barbosa de Souza (mulher, negra e pobre), cometido em 1998, pelo deputado estadual no Estado da Paraíba, Aércio Pereira de Lima. O acusado era deputado estadual e o caso só começou a ser julgado quando este deixou de ser parlamentar (em 2003). Embora condenado em 2007, faleceu antes de ser preso. O caso chama peculiar atenção para as interseccionalidades que comumente giram em torno dos casos de violência: pobreza, cor da pele e, no caso de Márcia, jovem estudante vinda do interior da Paraíba. A decisão da Corte no caso Márcia Barbosa destaca a violência contra as mulheres no Brasil, como um problema estrutural e generalizado. Ademais, a Corte asseverou que: i) as investigações não observaram o padrão mínimo de diligência; estavam repletas de estereótipos de gênero e revitimizantes, sem a necessária perspectiva de gênero. O Brasil foi responsabilizado por “violação de direitos e garantias judiciais, proteção judicial e igualdade perante a lei e por aplicação indevida da imunidade parlamentar.
11. Gabriel Sales Pimenta: O Brasil foi condenado pela Corte IDH por “graves falências” judiciais que resultaram na impunidade dos responsáveis pelo assassinato de Gabriel Sales Pimenta, um advogado de trabalhadores rurais assassinado a tiros em Marabá (PA), em 1982. Sua morte ocorreu no contexto da questão fundiária, sempre marcada pela violência no Brasil. O tribunal considerou que, ao se omitir de cumprir sua obrigação de investigar, processar e punir os autores do crime, o Estado brasileiro violou os direitos às garantias judiciais, à proteção judicial, à verdade e à integridade pessoal, previstos na CADH. A Corte sublinha que a violência contra pessoas defensoras de direitos humanos tem um efeito amedrontador (chilling effect), especialmente quando os delitos permanecem impunes. A esse respeito, as ameaças e os atentados à integridade e à vida dos defensores de direitos humanos e a impunidade dos responsáveis por estes fatos são particularmente graves porque têm um efeito não apenas individual, mas também coletivo, na medida em que a sociedade se vê impedida de conhecer a verdade sobre a situação de respeito ou de violação dos direitos das pessoas sob a jurisdição de um determinado Estado”. A Corte também ressaltou que Sales Pimenta não foi vítima de uma situação isolada, mas de um contexto de “impunidade estrutural” em crimes contra trabalhadores rurais e defensores de seus direitos no Pará.
Casos em trâmite contra o Brasil.
1. Tavares Pereira. A Comissão remeteu, em 6-2-2021 à Corte IDH caso (ainda em trâmite) relativo à morte de Antônio Tavares Pereira e às lesões sofridas por outras 185 pessoas trabalhadoras integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em virtude da atuação de agentes da polícia militar do Estado do Paraná, durante a repressão de uma marcha pela reforma agrária realizada em 2-5-2000.
2. José Airton Honorato. Em 28-5-2021, a Comissão IDH encaminhou o caso da “Castelinho”, que se refere às mortes de 12 pessoas (José Airton Honorato e outros) atribuídas a policiais militares em operação policial contra ônibus no qual estavam os mortos, na Rodovia conhecida como “Castelinho” no ano de 2002, e pela situação de impunidade ainda existente. Além da preparação da operação policial (com infiltração de preso em facção criminosa, entre outros aspectos), a Comissão acusou que a Polícia Militar possuía no local aproximadamente cem policiais e, sem a presença de testemunhas, promoveu um tiroteio – justificado contra ato de resistência do grupo no ônibus. Foram realizados mais de 700 disparos, sendo ferido um policial (lesões leves) e morreram as doze vítimas do presente caso. Para a Comissão, o Estado não confirmou a realização de certas diligências essenciais para o esclarecimento dos fatos, conforme os parâmetros interamericanos e seguindo o Protocolo de Minnesota. Finalmente, para que seja superada a impunidade, a Comissão sublinha que o Estado não pode invocar a garantia do ne bis in idem ou da prescrição para justificar o descumprimento da futura condenação da Corte IDH (violação do direito à vida, da proteção judicial, entre outros).
3. Comunidades Quilombola de Alcântara. Comunidades quilombolas pedem a responsabilização do Estado pela desapropriação de 52 mil hectares de território tradicional para a construção do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), uma base aeroespacial pertencente à Agência Espacial Brasileira, na costa do Maranhão. Segundo os quilombolas, 152 comunidades foram prejudicadas. Eles alegam que não conseguiram obter titulação das suas terras ali localizadas, que não houve consulta e anuência prévia para instalação da base aeroespacial, que a expropriação das terras tradicionais é ilegal e que não houve possibilidade judicial de reparar a situação. Segundo a denúncia, 32 comunidades foram reassentadas em sete agrovilas, enquanto as demais ficaram em seus territórios tradicionais.
4C. Universalidade dos direitos humanos. Multiculturalismo. Relativismo. Gramáticas diferenciadas de direitos. Abertura dos direitos humanos. Autonomia e indisponibilidade dos direitos humanos.
Jéssica Flores Silva
UNIVERSALIDADE DOS DIREITOS HUMANOS: A universalidade dos direitos humanos consiste na atribuição desses direitos a todos os seres humanos, não importando nenhuma outra qualidade adicional, como nacionalidade, opção política, orientação sexual, credo, etc. Assim, buscam os universalistas um valor mínimo que transcende as fronteiras dos países e alcança todos os povos tão somente em razão da sua condição humana. A universidade dos direitos humanos pode ser entendida em três planos: a) titularidade: direitos humanos são universais porque seus titulares são os seres humanos; b) temporal: os direitos humanos são universais, pois os homens os possuem em qualquer época da história; c) cultural: os direitos humanos são universais porque permeiam todas as culturas humanas, em qualquer parte do globo.
OBS: A universalidade possui vínculo indissociável com o processo de internacionalização dos direitos humanos. Internacionalização (em sentido amplo, em sentido estrito e consagração: PIDH, ponto 7.a).
Universalismo formal e universalismo em concreto: Com a internacionalização dos direitos humanos, implantou-se, formalmente, o universalismo dos direitos humanos (universalismo formal), difundido em especial pela ratificação, pelos Estados, dos mesmos tratados de direitos humanos. Contudo, não basta a adoção da mesma redação de um determinado direito para que o universalismo seja implementado, sendo necessário que haja também a mesma interpretação desse texto (universalismo em concreto). Assim, o DIDH é composto por duas partes indissociáveis: de um lado, o rol dos direitos, e, de outro, os processos internacionais de interpretação do conteúdo desses direitos e de cumprimento das obrigações deles decorrentes (interpretação internacionalista). Frise-se que a manutenção e primazia dada aos estados pela interpretação nacionalista dos tratados de direitos humanos torna o regime jurídico do DIDH manco e incoerente: universal no texto, nacional na aplicação e intepretação das normas na vida cotidiana. Essa dicotomia (universalismo na ratificação x localismo na aplicação) representa, de acordo com ACR, o “truque de ilusionista” na ordem internacional: os estados ratificam os tratados, os descumprem cabalmente, mas alegam que os estão cumprindo.
RELATIVISMO: A proposta do relativismo afasta a universalidade dos direitos humanos, uma vez que as peculiaridades culturais de cada povo impediriam a criação de uma moral universal. Para os relativistas, deve-se haver o reconhecimento e a valorizaçãode comunidades locais e tradicionais, em especial, nos países do Eixo Sul e orientais enquanto fontes de costumes e normas socioculturais, em termos gradativos, equivalentes às comunidades centrais e “desenvolvidas”.
Universalismo e relativismo cultural – “ser universal na diferença”: o principal desafio do DIDH é o de ser universal na diversidade, ou seja, o de criar, por meio de tratados e costumes internacionais, um rol amplo de direitos e um grupo de órgãos judiciais ou quase judiciais que, por sua vez, determinarão as interpretações comuns dos mais importantes temas das heterogêneas sociedades humanas. Surge daí o conflito entre aqueles que defendem a universalidade e aplicação geral dos direitos humanos e aqueles que pregam a possibilidade de opção local ou particular para, assim, preservar determinadas condutas ou práticas. ACR destaca que, embora a declaração de Viena tenha admitido que as particularidades locais devem ser levadas em consideração, assim como os diversos contextos históricos, culturais e religiosos, é dever do estado promover e proteger todos os direitos humanos, independentemente de seus sistemas políticos, econômicos e culturais. Logo, as peculiaridades locais ou ocasionais, segundo o autor, não podem justificar a violação ou amesquinhamento desses direitos. Apesar disso, parte da doutrina e estados, em várias situações, opõem-se à aplicação de determinados direitos por considerá-los ofensivos às práticas culturais ou às opções legislativas locais.
Objeções à universalização dos direitos humanos: a) argumento filosófico: funda-se na existência de diversas percepções valorativas de mundo, típicas da comunidade humana, na qual nada é universal; b) argumento da falta de adesão dos estados: questiona a pretensa adesão dos estados à defesa dos direitos humanos como prova inequívoca do universalismo dessa temática no direito internacional atual, pugnando ora a falta de adesão formal, ora, na existência de adesão formal, a falta de engajamento prático, servindo a adesão apenas para efeito publicitário externo; c) argumento geopolítico: destaca o uso do discurso de proteção dos direitos humanos como um elemento da política de relações exteriores de vários estados, em especial dos estados ocidentais, que se mostram incoerentes em vários casos, omitindo-se na defesa de direitos humanos na exata medida de seus interesses políticos e econômicos; d) argumento cultural: diz respeito a diferenças culturais, focadas na relação do homem e sua comunidade existente na cultural ocidental e na cultura africana e asiática (dicotomia indivíduo-comunidade); outra objeção cultural relaciona-se a específicos direitos que refletiriam um viés cultural ocidental e muitas vezes apenas de algumas regiões; e) argumento desenvolvimentista: sustenta que direitos humanos exigem um estágio ulterior de desenvolvimento para sua correta proteção e implementação.
Reafirmação da universalidade dos direitos humanos: em relação às objeções filosóficas ao caráter universal dos direitos humanos, destaca-se que a teoria geral dos direitos humanos não pretende ser uma cosmovisão ou abranger todas as facetas da vida social. Em relação ao pretenso caráter ocidental (e consequentemente não universal) dos direitos humanos, ACR observa que não se trata de buscar um denominador comum mínimo dos diversos valores culturais, que aceita diversas condutas humanas apenas por serem integrantes de tradições culturais, em sacrifício da dignidade da pessoa humana, mas de se afirmar que a pluralidade de culturas e orientações religiosas (ou de cosmovisões) deve ser respeitada com o reconhecimento da liberdade e participação com direitos iguais para todos. A aceitação de justificativas culturais a condutas violatórias de direitos humanos carrega forte acento totalitário, na medida em que pode significar a coerção daqueles que, embora membros da comunidade, não mais se identificam com seus valores. O relativismo cultural da temática dos direitos humanos pode, à custa da liberdade, restringir os indivíduos a papéis pré-estabelecidos, o que mostra o caráter libertário e de ruptura da temática dos direitos humanos. Em relação à objeção geopolítica, ACR destaca que a mesma crítica pode ser feita em relação a qualquer tema do direito internacional. Por fim, aponta-se a falha do argumento desenvolvimentista por se basear na relação riqueza-proteção de direitos humanos, que é desmentida pela realidade.
MULTICULTURALISMO: O multiculturalismo é a coexistência de várias culturas em um mesmo ambiente. Ele surge como uma proposta de superação do debate universalismo/relativismo, desenvolvido por Boaventura de Souza Santos, como uma ferramenta de “globalização contra hegemônica”, ou seja, é uma forma de globalizar democraticamente (de forma não imperialista) os direitos humanos. O autor propõe um diálogo entre as diversas culturas, levando a uma concepção mestiça de DH. A hermenêutica adequada à concepção multicultural de direitos humanos é denominada por Boaventura de Souza Santos como hermenêutica diatópica (advém de diálogo, conversação, entre os pontos de partida), e diz respeito ao esforço intercultural na busca por uma compreensão dialógica da noção de dignidade humana. Alguns autores, como Herrera Flores, trabalham com os conceitos de “universalismo de chegada” ou “universalismo de confluência”, relacionados às noções de multiculturalismo e hermenêutica diatópica de Boaventura.
Multiculturalismo vs. Interculturalismo (ou Interculturalidade): No multiculturalismo, como visto, estimula-se os vínculos entre os indivíduos e seus grupos culturais e defende a coexistência de culturas, independentemente da igualdade. Contudo, admite que diferentes culturas podem se mesclar e se integrar, embora não descarte a superioridade de uma cultura sobre outra. Por sua vez, o interculturalismo tem como parâmetro uma sociedade em que as comunidades étnicas se reconhecem em suas diferenças e buscam uma mútua compreensão e valorização (interação positiva), defendendo a coexistência das culturas em um plano de igualdade, combatendo o império de uma cultura sobre outra. Assim, tanto o multiculturalismo quanto a Interculturalidade aceitam a convivência entre diferentes grupos culturais, entretanto, uma admite a desigualdade entre os grupos e mesmo a hegemonia de um sobre outro (multiculturalismo), ao passo que outra defende um paradigma de sociedade na qual o norte seja a isonomia e o combate às desigualdades (interculturalismo).
Perspectivas interculturais no século XXI: há uma tendência de modificação na centralidade do debate entre universalismo e relativismo, visando construir as bases teóricas para um diálogo intercultural. É necessário estabelecer um duplo diálogo: primeiro, um diálogo interno no qual determinada cultura possa debater sua visão de dignidade da pessoa humana e dos direitos humanos; após, um diálogo externo, igualitário e baseado na reciprocidade, no qual as diversas concepções possam convergir. Tal diálogo só é possível a partir das seguintes premissas: a) todas as culturas e religiões comungam dos ideais gerais de igualdade e liberdade encontrados na DUDH, mas divergem quanto à extensão e conteúdo dos direitos em concreto, o que exigirá a reinterpretação dos preceitos locais (interpretação iluminista); b) o diálogo interno é essencial para pôr em cheque determinados dogmas culturais, levando à releitura de concepções locais, agora à luz dos direitos humanos; c) o diálogo externo (com outras culturas) acarreta a revaloração dos próprios padrões de direitos humanos, usados anteriormente como marcos hermenêuticos do diálogo interno; ocorre o fenômeno na legitimação retrospectiva dos padrões universais, que, antes de rejeitar tais padrões, busca por meio desse diálogo multicultural revalidá-los. Além disso, o século XXI conta com um instrumento eficaz para a superação da antiga dicotomia universalismo-relativismo: os processos internacionais de direitos humanos perante os tribunais internacionais. A atividade das cortes europeia e interamericanapermite avaliar as objeções locais à implementação de direitos humanos pela própria lógica dos direitos, graças ao reconhecimento de diversos direitos em conflito. Assim, aquilo que era visto como um conflito ente uma opção cultural local e um direito previsto em um tratado passa a ser entendido como um conflito de direitos, entre o direito cultural e outro direito essencial em tela.
GRAMÁTICAS DIFERENCIADAS DE DIREITOS: No artigo “A Gramática dos Direitos Humanos”, do prof. Oscar Vilhena Vieira, publicado no Boletim Científico da ESMPU, julho/setembro 2002, a expressão “gramática dos direitos” é utilizada como sinônimo de linguagem dos direitos. PIOVESAN também utiliza a expressão “gramática dos direitos humanos” como sinônimo de linguagem ou interpretação dos direitos humanos. A expressão “gramática dos direitos humanos”, assim, refere-se às diversas linguagens produzidas ao longo da história ou pelos diferentes povos acerca da concepção dos Direitos Humanos. Neste ponto, a Declaração de 1948 inovou a gramática dos direitos humanos, ao introduzir concepção contemporânea de direitos humanos, marcada pela universalidade e indivisibilidade destes direitos e combinando o discurso liberal da cidadania com o discurso social, elencando tanto direitos civis e políticos (arts. 3 a 21), como direitos sociais, econômicos e culturais (arts. 22 a 28).
ABERTURA DOS DIREITOS HUMANOS: A abertura dos direitos humanos consiste na possibilidade de expansão do rol dos direitos necessários a uma vida digna (ou seja, dos DH), consolidando, assim, a não exequibilidade dos direitos humanos, sendo o rol previsto na CRFB/88 e tratados internacionais meramente exemplificativo, não excluindo, portanto, o reconhecimento futuro de outros direitos. A abertura pode ser internacional, fruto do aumento do rol de direitos protegidos oriundo do DIDH, ou nacional, fruto do trabalho de interpretação ampliativa realizado pelo constituinte derivado e pelos tribunais nacionais. Segundo ACR, o art. 5, §2, da CRFB/88 teria adotado a abertura dos direitos humanos, por meio do princípio da não exaustividade dos direitos fundamentais. Importante ressaltar que a abertura está relacionada com a fundamentalidade dos direitos humanos no ordenamento jurídico. Os direitos humanos possuem uma fundamentalidade formal (por estarem previstos em normas constitucionais e em tratados de direitos humanos), mas possuem também uma fundamentalidade material (reconhecimento da indispensabilidade de determinado direito para a promoção da dignidade humana).
29 Objetiva – 14, III – O princípio da não tipicidade dos direitos humanos é incompatível com a interpretação evolutiva dos direitos em tratados de direitos humanos. FALSO.
AUTONOMIA E INDISPONIBILIDADE DOS DIREITOS HUMANOS: Inicialmente, importante ressaltar que os direitos humanos são tidos como imprescritíveis, inalienáveis e indisponíveis (ou irrenunciáveis), o que, em seu conjunto, compõe uma proteção de intangibilidade aos direitos tidos como essenciais a uma vida digna. A imprescritibilidade implica reconhecer que tais direitos não se perdem pela passagem do tempo: existindo o ser humano, há esses direitos inerentes. A inalienabilidade pugna pela impossibilidade de se atribuir uma dimensão pecuniária desses direitos para fins de venda. Finalmente, a indisponibilidade ou irrenunciabilidade revela a impossibilidade de o próprio ser humano – titular desses direitos – abrir mão de sua condição humana e permitir a violação desses direitos.
A autonomia, componente do direito à liberdade e da própria dignidade da pessoa humana, dispõe que o indivíduo é livre para não exercer seus direitos. Contudo, essa autonomia não é absoluta. Há limites relacionados ao dever de proteção do Estado (dimensão objetiva dos direitos humanos), mesmo contra a vontade do titular, o que implica reconhecer a indisponibilidade como parte do regime jurídico dos direitos humanos. Pode-se concluir, portanto, que a indisponibilidade é uma limitação à autonomia quanto ao exercício dos direitos.
Contudo, segundo ACR, essa indisponibilidade dos direitos humanos não pode gerar um paternalismo estatal exacerbado, que fulminaria a vontade de um indivíduo para protege-lo. Assim, por exemplo, a participação em reality show e o afastamento do direito à privacidade em um ambiente de consentimento livre e informado de indivíduos capazes é legítimo.
5A. Direitos humanos e superioridade normativa. Indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Eficácia dos direitos humanos nas relações entre particulares. Interseccionalidade e os direitos humanos.
Atualizado por Renata Souza
Material base: Graal do 29º CPR (Laiz Mello).
Fontes utilizadas para a atualização: Jurisprudência Internacional de Direitos Humanos de Caio Paiva e Thimotie Heemann (3ª edição – 2020); Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional de André de Carvalho Ramos (6ª edição – 2016); Curso de Direitos Humanos de André de Carvalho Ramos (9ª edição – 2022).
DIREITOS HUMANOS E SUPERIORIDADE NORMATIVA
O jus cogens internacional em matéria de direitos humanos
Normas imperativas em sentido amplo (jus cogens e obrigações erga omnes): as normas imperativas em sentido amplo são aquelas que contêm valores essenciais da comunidade internacional e que, por conseguinte, se impõem a cada Estado isoladamente considerado. Logo, não é facultado ao Estado o direito de violar normas imperativas ou de aquiescer com violações por parte de outrem dessas normas. Há duas espécies de normas imperativas em sentido amplo: o jus cogens e as obrigações erga omnes.
O jus cogens (ou norma imperativa em sentido estrito ou norma cogente internacional) consiste no conjunto de normas que contém valores considerados essenciais para a comunidade internacional como um todo, sendo por isso dotado de superioridade normativa no choque com outras normas de direito internacional. Pertencer ao jus cogens não significa ser tal norma considerada como obrigatória, pois todas as normas internacionais o são. Significa que, além de obrigatória, não podem os Estados comportar-se de modo a derrogá-la, a não ser que a derrogação seja oriunda de norma de igual quilate.
Já as obrigações erga omnes referem-se a obrigações internacionais cujo cumprimento interessa à comunidade internacional. Essas espécies não são estanques: normas pertencentes ao jus cogens são consideradas obrigações erga omnes. No entanto, o fato de uma norma pertencer ao conjunto de normas de obrigações erga omnes não implica no seu caráter cogente. O conceito de jus cogens implica o reconhecimento de uma qualidade do direito material (superioridade) e as obrigações erga omnes significam uma qualidade de implementação do direito material (todo Estado tem interesse no cumprimento dessa norma).
O rol das normas imperativas: a Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (CVDT, 1969) foi omissa na determinação do rol de normas pertencentes ao jus cogens. A origem, então, do rol das normas cogentes é o costume internacional. Todavia, não é impossível que os Estados editem tratado com essa finalidade[footnoteRef:9]. Da prática internacional, fica evidente a existência de poucas normas de jus cogens reconhecidas, podendo ser apontadas como exemplos as seguintes: I) Proibição do uso ilegítimo da força, agressão e guerra de conquista: o desenvolvimento do direito internacional gerou a importante proibição do recurso à força como mecanismo de solução de controvérsias entre Estados, sendo considerados ilegais a guerra e o recurso às represálias armadas. A CIJ consagrou tal entendimento no caso do Estreito de Corfu, considerando ilícita a chamada Operation Retail pela qual os navios de guerra do Reino Unido invadiram as águas territoriais da Albânia. Já no julgamento do litígio envolvendo Nicarágua vs. Estados Unidos, a CIJ reconheceu a existência de obrigação internacional de proibição do uso da força para a solução de controvérsias entre Estados. II) Princípio da autodeterminação dos povos: para ACR, autodeterminação dos povos é o direitoà emancipação política de toda comunidade submetida à dominação estrangeira, jugo colonial e, recentemente, com base na experiência do Kosovo, grave situação de discriminação e violação dos direitos humanos (neste último caso o entendimento é minoritário). A CIJ reconheceu esse costume internacional no Caso do Timor Leste (Portugal versus Austrália, 1995), bem como nos Pareceres Consultivos sobre a Namíbia, 1971, e Saara Ocidental, 1975. No entanto, a consolidação consuetudinária do direito à autodeterminação não eliminou a dúvida sobre quem pode invocá-lo. A prática tradicional dos Estados indica que somente os povos sob dominação estrangeira ou jugo colonial é que estariam ao abrigo do jus cogens. Segundo ACR, o caso do Kosovo sugere que as minorias existentes podem buscar a emancipação extraordinariamente – em face do direito à integridade territorial do antigo Estado – caso haja discriminação e violação grave e sistemática dos direitos humanos, conforme consta do voto do Juiz Cançado Trindade no Parecer Consultivo da CIJ sobre a independência do Kosovo, de 2010 (tese, contudo, que não foi aceita pela maioria). A Declaração de Viena de Direitos Humanos (1993) assinala uma conciliação entre proteção de direitos humanos e o direito à emancipação de agrupamentos não submetidos à dominação estrangeira ou jugo colonial, pugnando pela inexistência do direito de secessão no plano internacional desde que o estado possua governo representativo de toda a população pertencente ao seu território, sem distinções de qualquer natureza, ou seja, desde que não haja discriminação odiosa que leve o grupo discriminado a buscar a emancipação. III) Determinadas normas de direitos humanos: no âmbito da ONU, a CDI já considerou, em várias ocasiões, que violações a direitos de defesa (direitos de primeira geração) ofendem valores essenciais (ou seja, jus cogens) da sociedade internacional. Os tribunais internacionais caminham no mesmo sentido. A Corte IDH possui jurisprudência constante no sentido de reconhecer a qualidade de jus cogens de determinados direitos fundamentais (ex.: no parecer consultivo nº 18 sobre a condição jurídica e direitos dos migrantes não documentados de 2003 a Corte considerou que o princípio da igualdade e não discriminação pertence ao jus cogens; no caso dos meninos de rua da Guatemala – Caso Villagrán Morales, Cançado Trindade sustentou que o desaparecimento forçado de pessoas viola direitos humanos inderrogáveis – liberdade, integridade física e psíquica e direito à vida – e, por isso, pertence ao rol do jus cogens). Em paralelo, houve inconteste esforço da comunidade internacional de prevenir violações graves de direitos humanos desde o final da 2ª Guerra Mundial, o que culminou com a redação do Estatuto de Roma (TPI). Hoje, os direitos humanos protegidos pela tutela internacional penal stricto sensu (crimes contra a humanidade, crimes de guerra, genocídio e agressão) são parte integrante do jus cogens, uma vez que a vontade de um Estado ou de Estados isolados não impedirá a ação punitiva dos tribunais penais internacionais. Para ACR, pode-se vislumbrar que, no futuro, a natureza de norma imperativa será reconhecida a todos os direitos humanos, sem qualquer distinção. [9: Na prova objetiva do 30º CPR foi considerada correta a seguinte assertiva: A norma de jus cogens do Direito Internacional não tem procedimento específico de elaboração, podendo ser de origem convencional ou consuetudinária. ]
INDIVISIBILIDADE E INTERDEPENDÊNCIA DOS DIREITOS HUMANOS Para ACR, a indivisibilidade dos direitos humanos consiste no reconhecimento de que todos os direitos humanos devem ter a mesma proteção jurídica, uma vez que são essenciais para uma vida digna. Para o autor, a indivisibilidade possui duas facetas: a) o direito protegido apresenta uma unidade incindível em si; b) não é possível proteger apenas alguns dos direitos humanos reconhecidos. O objetivo do reconhecimento da indivisibilidade é exigir que o Estado também invista – tal qual investe na promoção dos direitos de primeira geração – nos direitos sociais, zelando pelo chamado mínimo existencial, ou seja, condições materiais mínimas de sobrevivência digna do indivíduo. A indivisibilidade também exige o combate tanto às violações maciças e graves de direitos considerados de primeira geração (direito à vida, integridade física, liberdade de expressão, entre outros) quanto aos direitos de segunda geração (direitos sociais, como o direito à saúde, educação, trabalho, previdência social etc.). Assim, pela indivisibilidade dos DH, a classificação entre direitos civis e políticos, de um lado, e direitos econômicos, sociais e culturais, de outro, perde a importância. A Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 adotou a indivisibilidade, consagrando a chamada concepção contemporânea de direitos humanos, conjugando o valor liberdade ao valor igualdade na seara dos direitos humanos. A DUDH parificou os direitos civis e políticos e os direitos econômicos e sociais, afirmando, ainda, a interrelação, indivisibilidade e interdependência de todos estes direitos: “Sem a efetividade dos direitos econômicos, sociais e culturais, os direitos civis e políticos se reduzem a meras categorias formais, enquanto sem a realização dos direitos civis e políticos, os direitos econômicos, sociais e culturais carecem de verdadeira significação” (Piovesan, pag. 142). A indivisibilidade foi reafirmada na Resolução 32/130 da AG-ONU e na Declaração de Direitos humanos de Viena (1993).
Segundo ACR, a interdependência ou interrelação consiste no reconhecimento de que todos os direitos humanos contribuem para a realização da dignidade humana, interagindo para a satisfação das necessidades essenciais do indivíduo, o que exige, novamente, a atenção integral a todos os direitos humanos, sem exclusão. O conteúdo de um direito pode se vincular ao conteúdo de outro, demonstrando a interação e a complementaridade entre eles, bem como que certos direitos são desdobramentos de outros.
A indivisibilidade[footnoteRef:10] e a interdependência de tais direitos foram confirmadas em várias ocasiões. A Proclamação de Direitos Humanos da 1ª Conferência Mundial de Direitos Humanos da ONU realizada em Teerã (1968) foi o primeiro texto a reconhecer que “os direitos humanos e as liberdades fundamentais são indivisíveis, a realização dos direitos civis e políticos sem o gozo dos direitos econômicos, sociais e culturais resulta impossível”. Em 1986, na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, ficou disposto que “todos os direitos humanos e todas as liberdades fundamentais são indivisíveis e interdependentes; a realização, a promoção e a proteção dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais devem se beneficiar de uma atenção igual e ser encaradas com uma urgência igual” (art. 6º, § 2º). A Declaração de Viena (aprovada na 2ª Conferência Mundial de Direitos Humanos da ONU, 1993) repetiu a Proclamação de Teerã e reiterou que “todos os direitos humanos são universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados. A comunidade internacional deve tratar os direitos humanos de forma global, justa e equitativa, em pé de igualdade e com a mesma ênfase” (§ 5º). Reconheceu-se que os direitos humanos formam uma unidade de direitos tida como indivisível, interdependente e inter-relacionada. Como bem expressa a Declaração de Viena (em seu § 15º) “o respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais, sem distinções de qualquer espécie, é uma norma fundamental do direito internacional na área dos direitos humanos”. Tendo em vista o incremento da proteção dada ao indivíduo, ficou assente que, se determinado direito é violado, todos os demais direitos ficam vulneráveis e comprometidos. [10: 28º CPR Oral - Voltando ao princípio da indivisibilidade dos direitos humanos, explique o impacto dessa visão de indivisibilidade dos direitos humanos na proteção judicial de direitos sociais.]
Em face da indivisibilidade e interdependência de todos os direitos, que são indispensáveispara a vida digna do ser humano, desenvolveu- se, na jurisprudência internacional dos direitos humanos, dois modos de justiciabilidade dos direitos sociais: o modo indireto e o modo direto. O modo indireto consiste na proteção dos direitos sociais como facetas dos direitos civis e políticos. Há facetas dos direitos civis e políticos que afetam direitos sociais, e a violação dos direitos sociais é feita por derivação da justiciabilidade de um direito civil e político. A título de exemplo, a violação ao direito à saúde é apreciada por um órgão internacional em razão de ofender o direito à integridade física. Pelo modo direto, a violação a direito social, econômico, cultural ou ambiental é reconhecida enquanto tal, de forma autônoma (por exemplo, violação ao direito à saúde, à educação ou ao trabalho). Trata-se de forma tradicionalmente reservada aos direitos civis e políticos, vez que os tratados que contêm direitos sociais em sentido amplo adotaram apenas o dever dos Estados em desenvolver progressivamente tais direitos. O modo indireto é o mais usualmente encontrado na jurisprudência internacional de direitos humanos, cuja utilização recebe duas críticas: (1) seu uso gera baixa visibilidade e reconhecimento dos DESCAs enquanto direitos com força vinculante; e (2) exige que violações a direitos difusos ou coletivos sejam traduzidas como violações de direitos individuais. O modo direto de proteção de direitos humanos foi consagrado pela Corte IDH somente em 2017, no Caso Lagos del Campo vs. Peru, no qual foi declarada de ofício a violação ao art. 26 da CADH. A justiciabilidade direta dos direitos sociais implica no reconhecimento de direitos subjetivos oponíveis aos Estados (tais como os direitos civis e políticos), afastando-se a tese de que tais direitos representariam somente normas programáticas. As críticas ao modo direto referem-se à intervenção judicial na implementação de direitos que exigem prestações materiais, o que não seria atribuição do Poder Judiciário.
EFICÁCIA DOS DIREITOS HUMANOS NAS RELAÇÕES ENTRE PARTICULARES Não há divergência em relação à projeção de direitos fundamentais sobre as relações entre os cidadãos e os poderes públicos, a denominada eficácia vertical dos direitos fundamentais. A eficácia horizontal (também chamada de: privada, externa, efeitos horizontais dos direitos fundamentais, eficácia em relação a terceiros dos direitos fundamentais, eficácia dos direitos fundamentais na ordem jurídica privada) refere-se à projeção dos direitos fundamentais às relações entre particulares[footnoteRef:11][footnoteRef:12]. [11: 27º CPR Subjetiva - O que se entende por eficácia horizontal ("Drittwirkung") da proteção internacional dos direitos humanos? A proibição da tortura se dá em eficácia horizontal? Os direitos fundamentais têm aplicação direta nas relações entre Estado e indivíduo. Entretanto, nas relações entre particulares, incide a chamada eficácia horizontal dos direitos fundamentais. O Tribunal Constitucional alemão, ao apreciar o Caso Lüth, concluiu que os direitos fundamentais aplicam-se, ainda que indiretamente, às relações entre particulares.; Para a Suprema Corte alemã, a aplicação dos direitos humanos às relações privadas se daria de forma indireta, dependendo da mediação do legislador ou do aplicador da lei. No Brasil, por outro lado, vigora a tese da aplicação direta e imediata, independente de mediação por parte do legislador, ressalvando-se a necessidade de ponderar o direito fundamental em jogo com a autonomia privada dos particulares envolvidos no caso. Segundo certos autores, como Canaris,,a eficácia horizontal dos direitos fundamentais cria para o Estado deveres de proteção, cabendo-lhe não apenas abster-se de violar tais direitos, como também criar o arcabouço necessário para proteger tais interesses de lesões ou ameaças causadas por terceiros. Alexy também faz menção a três níveis de efeitos decorrentes da eficácia horizontal dos direitos humanos: os deveres do Estado, os direitos perante o Estado e as relações entre os particulares. A proibição da tortura se dá nos três níveis: é dever do Estado não a praticar, mas também impedir sua prática, seja por agentes do Estado ou, como previsto na lei brasileira, nas hipóteses em que levada a efeito por particulares. Ademais, conforme afirmado pela Corte IDH, ao julgar o Caso Velásquez Rodriguez, os Estados têm uma obrigação de respeito aos direitos humanos (dever de abstenção) e uma obrigação de proteção dos direitos humanos, cabendo-lhes organizar um aparato que garanta aos indivíduos o pleno exercício de seus direitos. Também no Caso Ximenes Lopes, o Brasil foi condenado em razão de não ter investigado e punido tortura praticada em hospital psiquiátrico, vinculado ao SUS, embora a tortura não tenha sido praticada diretamente por agentes públicos.] [12: Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos (“Princípios de Ruggie”): Para ACR, o respeito aos direitos humanos pelas empresas é consequência do reconhecimento da dimensão objetiva (imposição de deveres de proteção) e da eficácia horizontal dos direitos humanos. Registre-se que a essência dos Princípios Orientadores é distribuir a responsabilidade pela proteção de direitos humanos nas atividades empresariais entre os Estados e também às empresas. Os princípios orientadores constituem-se em soft law, servindo para orientar a interpretação das normas nacionais e internacionais, bem como podem espelhar – caso haja prática reiterada dos Estados com convicção de obrigatoriedade – costume internacional.]
Para ACR, a eficácia horizontal dos direitos humanos é a aplicação, sem mediação de lei, dos direitos fundamentais nas relações entre particulares. Trata-se de característica do regime jurídico dos direitos humanos na ordem internacional. De acordo com a teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais, estes se aplicam obrigatória e diretamente na realização dos atos jurídicos entre pessoas e entes privados. Adota-se, assim, a tese da eficácia plena dos direitos fundamentais, podendo cada indivíduo, sem qualquer necessidade de mediação concretizadora de atos normativos ou leis, invocar os direitos e garantias individuais nas suas relações privadas.
Contudo, há forte e tradicional corrente doutrinária que sustenta a eficácia mediata ou indireta nas relações privadas, pois somente o legislador e o aplicador público das normas seriam vinculados à conformação constitucional dos direitos fundamentais. Consequentemente, o particular, amparado pela sua autonomia de vontade, é livre para agir quando, pela omissão do legislador, existe lacuna legislativa que impeça determinado comportamento.
No Brasil predomina a teoria da eficácia direta e imediata dos direitos fundamentais na esfera privada, com a vinculação direta dos particulares aos direitos fundamentais, aceita pela maioria da doutrina (José Adércio, Sarmento, Barroso) e, na jurisprudência, é a tese que o STF vem adotando, antes sem mencionar diretamente tal teoria, mas já constando em julgados mais recentes (STF, RE 201819/RJ, Rel. p/ Acórdão Min. Gilmar Mendes, j. 11/10/2005).[footnoteRef:13]5 [13: 5 Sobre a eficácia horizontal existem ainda as seguintes teorias: • Na Alemanha prevalece a teoria da eficácia indireta (mediata) dos direitos fundamentais na esfera privada, que nega a possibilidade de aplicação direta nas relações privadas. Segundo essa teoria, a Constituição não investe os particulares em direitos subjetivos privados, mas ela contém normas objetivas, cujos efeitos de irradiação levam à impregnação das leis civis por valores constitucionais. Ao Judiciário sobraria o papel de preencher as cláusulas indeterminadas criadas pelo legislador, levando em consideração os direitos fundamentais ou rejeitar, por inconstitucionalidade, a aplicação de normas privadas incompatíveis com tais direitos. Prevalece tal teoria na Áustria e na França. • Teoria dos deveres de proteção. Na Alemanha, autores (Canaris, Isensee) consideram queo Estado tem a obrigação não apenas de abster-se de violar os direitos fundamentais, mas também de protegê-los diante de lesões e ameaças provenientes de terceiros, inclusive particulares. • Teoria da convergência estatista, de Jurgen Schwabe (Alemanha-1971): é sempre o Estado o responsável último por lesões a direitos fundamentais que têm origem nas relações privadas. • Robert Alexy tentou conciliar as correntes, pois todas elas reconhecem que as gradações da eficácia dos direitos decorrem da ponderação de interesses, propondo um modelo de três níveis de efeitos: o nível dos deveres do Estado, o nível dos direitos frente ao Estado e o nível de relação entre os particulares.]
Segundo ACR, há duas modalidades de eficácia horizontal de normas de tratados internacionais de direitos humanos: a primeira modalidade consiste em reconhecer, no corpo do próprio tratado, a vinculação dos particulares aos direitos protegidos; a segunda modalidade consiste em fiscalizar o cumprimento, pelo Estado, de sua obrigação de garantia de direitos humanos. Tal obrigação de garantia consiste no dever do Estado de prevenir ou reprimir as violações de direitos humanos. Com isso, a consolidação da eficácia horizontal dos direitos humanos no plano internacional é fruto da obrigação do Estado de garantir e assegurar os direitos humanos. Neste ponto, diante do dever de prevenir violações de direitos humanos, é necessário que o Estado, por sua omissão, permita que um particular viole direitos de outro particular. A devida diligência deve ser aferida como uma obrigação de meio ou de conduta. Caso o Estado tenha agido de modo razoável no sentido de garantir os direitos humanos, os atos de particulares rompem, de regra, o nexo causal, já que não há omissão que tenha contribuído para a ocorrência do resultado lesivo[footnoteRef:14]6. No caso Godinez Cruz vs. Honduras, a Corte IDH explicitou que um fato inicialmente não é imputável diretamente a um Estado por ser obra de um particular, mas pode acarretar a responsabilidade internacional do Estado, não por esse fato em si mesmo, mas por falta da devida diligência para prevenir a violação. [14: 6 Caso X e Y v. Holanda. A Corte Europeia de Direitos Humanos já tomou posição favorável à aplicação direta, às relações privadas, dos direitos contidos na Convenção Europeia de Direitos Humanos. Os Estados são responsabilizados caso sejam omissos na prevenção e repressão de violações dos direitos humanos cometidas por particulares, devendo tomar todas as medidas para garantir o respeito aos direitos humanos, mesmo nas relações privadas.]
Ainda acerca da eficácia horizontal, destacam-se os casos Damião Ximenes Lopes vs Brasil e o Caso Luth.
#NÃOCONFUNDA. Dimensão objetiva: implica reconhecer que os direitos humanos não devem ser entendidos apenas como um conjunto de posições jurídicas conferidas à seus titulares, mas também como um conjunto de regras impositivas de comportamentos voltados à proteção e satisfação daqueles direitos subjetivos conferidos aos indivíduos. A dimensão objetiva faz com que os direitos humanos sejam regras de imposição de deveres, em geral ao Estado, de implementação e desenvolvimento dos direitos humanos.
Eficácia diagonal: A eficácia diagonal dos direitos humanos consiste na invocação de direitos nas relações entre os particulares nas quais uma das partes ostenta vulnerabilidade, fazendo nascer uma prevalência de determinado direito de um particular sobre o outro, por exemplo, nas relações envolvendo crianças, pessoas com deficiência, trabalhadores, consumidores etc. A eficácia diagonal é um subtipo da eficácia horizontal, acrescida do peso maior dado a um dos direitos em conflito.
INTERSECCIONALIDADE E OS DIREITOS HUMANOS[footnoteRef:15]7 A interseccionalidade na temática dos direitos humanos consiste no estudo sistêmico das diferentes formas de opressão e tratamento discriminatório baseadas em raça, gênero, condição social, idade, orientação sexual, entre outras formas de identidade social, que se interrelacionam e exigem, por isso, reparações que levem em conta essas especificidades de modo a fomentar a igualdade material e a justiça social.[footnoteRef:16] [15: 7 No 29º CPR foi considerada correta a seguinte assertiva: A interseccionalidade dos direitos humanos, por detectar diferentes formas de opressão e tratamento discriminatório baseadas em raça, gênero, condição social, idade, orientação sexual, entre outras formas de identidade social que se inter-relacionam, exige reparações às vítimas que levem em conta essas especificidades. ] [16: CRENSHAW é considerada a pioneira na apresentação do conceito com foco na discriminação de gênero e de raça, tendo sustentado que não se pode desconsiderar a raça na análise da opressão e injustiça sobre a mulher. Não se trata de se somar violações por discriminação de raça e de gênero, mas sim de se considerar a identidade do indivíduo como sendo una, cujas especificidades são reconhecidas pela sociedade como um todo, reforçando-se e entrelaçando-se, e não como características independentes. Com isso, não se pode tratar a temática da incidência dos direitos humanos considerando que se trata de "mulher e negra", mas sim de "mulher negra".]
A interseccionalidade na discriminação difere das chamadas discriminações múltiplas, que se constituem em qualquer distinção, exclusão ou restrição fundamentada em dois ou mais fatores de discriminação proibida. Nem toda discriminação múltipla gera uma discriminação interseccional: esta última tem como pressuposto a existência de diversos fatores de discriminação que interagem e reforçam a exclusão e a injustiça.
A discriminação interseccional tem como pressuposto a existência de múltiplos fatores referentes à identidade social do indivíduo que, interagindo em sinergia, criam uma carga de discriminação única e distinta da mera soma de discriminações. A singularidade da interseccionalidade na área dos direitos humanos é fruto de três elementos: (i) não ser possível separar os fatores que geram a discriminação, pois há interação entre eles; (ii) o indivíduo que sofre tal discriminação passa por experiência única, qualitativamente diferente daquele que sofre uma discriminação isolada; e (iii) a reparação deve levar em conta tal sinergia entre os fatores de discriminação, devendo ser especificamente voltada à superação desses obstáculos sociais à igualdade e à justiça material.
Na jurisprudência internacional sobre a interseccionalidade na temática dos direitos humanos, destaca-se o caso Gonzales Lluy e outros vs. Equador (2015) da Corte IDH. Tratou-se de caso de contágio pelo vírus do HIV da menina Talía Lluy, que, à época, possuía três anos, fruto de transfusão de sangue contaminado. Aos cinco anos, Talía foi impedida de ingressar na escola (por suposto risco aos demais estudantes). A Corte IDH reconheceu que, no caso de Talía, confluíram, de modo interseccional, fatores múltiplos de vulnerabilidade e de discriminação associados à condição de criança, mulher, pessoa em situação de pobreza (condição econômica) e pessoa com HIV, que derivaram em uma forma específica de discriminação. A pobreza inicialmente gerou a deficiência no atendimento à saúde (sangue contaminado), impactando ainda no acesso ao sistema de ensino, no que contribuiu também sua situação de criança e pessoa com HIV; como mulher e pessoa com HIV há possibilidade de estigmatização futura. Em outras palavras, o caso de Talía demonstra que a discriminação da pessoa com HIV não impacta de modo homogêneo os indivíduos, mas possui efeitos mais gravosos em grupos que são vulneráveis.
A interseccionalidade é mencionada na Declaração de Durban, firmada na III Conferência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, nos seguintes termos:
54. Insta os Estados a:
a) Reconhecerem que a violência sexual que tem sido sistematicamente usada como arma de guerra e, algumas vezes, com a aquiescência ou pelo instigamento do próprio Estado, é uma grave violação do direito humanitáriointernacional o qual, em determinadas circunstâncias, constitui crime contra a humanidade e/ou crime de guerra e que a interseção das discriminações com base em raça e gênero faz com que mulheres e meninas sejam particularmente vulneráveis a este tipo de violência que é frequentemente relacionada ao racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata;
A Corte IDH reconhece a interseccionalidade dos DH e de sua violação, em diversos casos relacionados à proteção das mulheres, como no Caso Márcia Barbosa vs Brasil e Vicky Hernandez vs Honduras (mulher trans).
5B. A proteção penal dos direitos humanos e seus fundamentos. Mandados internacionais de criminalização. Responsabilidade não penal de indivíduos no direito internacional pela participação em graves violações de direitos humanos.
Atualizado por Renata Souza
Material base: Graal do 29º CPR (Thales Coelho).
Fontes utilizadas para a atualização: Processo Internacional de Direitos Humanos de André de Carvalho Ramos (7ª edição – 2022); Curso de Direitos Humanos de André de Carvalho Ramos (9ª edição – 2022); Teoria Geral dos Direitos Humanos na Ordem Internacional de André de Carvalho Ramos (6ª edição – 2016); A Obrigações Processuais Penais Positivas de Douglas Fischer e Frederico Valdez (1ª edição – 2018); aulas de direitos humanos e direito internacional de Vladimir Aras (2020); aulas de Caio Paiva; (2021) sites do STF e do MPF
A PROTEÇÃO PENAL DOS DIREITOS HUMANOS E SEUS FUNDAMENTOS A vontade de punir do direito internacional dos direitos humanos é reflexo de um novo paradigma dos objetivos e dos limites do direito penal em um Estado de Direito. O principal marco teórico para esse paradigma é a teoria da dupla dimensão dos direitos humanos, que afirma que os direitos protegidos possuem uma dimensão subjetiva e uma dimensão objetiva. A dimensão subjetiva consiste na dotação de direitos subjetivos aos beneficiários da proteção; já a dimensão objetiva é aquela que impõe deveres de proteção ao Estado. Esse dever de proteção dos direitos humanos exige que o Estado os proteja de forma ativa contra lesões perpetradas quer por agentes do Poder Público, quer por particulares. Assim, a dimensão objetiva dos direitos humanos acarreta a constatação de que os direitos humanos não devem ser entendidos apenas como um conjunto de posições jurídicas conferidas a seus titulares, mas também como um conjunto de regras impositivas de comportamentos voltadas à proteção e satisfação daqueles direitos subjetivos conferidos aos indivíduos.
Nesse contexto, cabe a indagação: quais são os motivos pelos quais a proteção de direitos humanos não pode abrir mão da punição dos violadores de direitos humanos? Essa pergunta deve ser feita em dois momentos de invocação do direito penal pelo direito internacional dos direitos humanos. O primeiro momento é aquele no qual se pugna pela criminalização de determinada conduta violatória de direitos humanos. O segundo momento é justamente o da aplicação da lei penal já existente. Quanto ao primeiro momento (o da criminalização), observa-se que a tipificação penal é tida como essencial para que se realize o efeito dissuasório (ou preventivo) contra a conduta atacada. Essa é a visão dos utilitaristas, que acreditam que o medo de uma punição penal faz com que se evite a repetição por parte do autor da conduta (prevenção específica) e ainda se evite sua multiplicação por parte dos demais membros da coletividade (prevenção geral). Na mesma linha, para Cançado Trindade, o dever dos Estados de investigação e punição dos responsáveis por violações de direitos humanos encontra-se relacionado com o dever de prover reparações devidas às vítimas de tais violações; é, ademais, dotado de caráter preventivo, combatendo a impunidade para evitar a repetição dos atos violatórios dos direitos humanos. Esse dever de prevenção consiste, para a Corte Interamericana de Direitos Humanos, no conjunto de todos os meios de natureza legal, política, administrativa e cultural que promova a proteção de direitos humanos e assegura que todas as violações sejam consideradas e tratadas como atos ilícitos, os quais, como tais, acarretam punição dos responsáveis e obrigação de indenizar as vítimas. Assim, na esteira de ser o direito penal um instrumento de ultima ratio invocado para proteger os bens jurídicos essenciais, justifica-se o uso da sanção penal para proteger os direitos fundamentais.[footnoteRef:17] [17: O Tribunal Constitucional Federal (TCF) da Alemanha adotou esse mesmo entendimento no chamado segundo caso sobre o aborto, de 1993. O TCF reiterou sua aderência ao dever estatal de proteção dos direitos fundamentais por meio da tutela penal e seu apego à tese da proibição da insuficiência. Para o TCF, “por ser a proteção da vida humana de sua morte uma tarefa elementar do Estado, a proibição de insuficiência também não permite que simplesmente se desista do uso do meio direito penal e do efeito de proteção que dele parte”.]
Em relação ao segundo momento (o da aplicação da lei penal), há autores que afirmam que o combate à impunidade dos violadores de direitos humanos relaciona-se com a eficiência do Estado e o respeito à universalidade da aplicação da lei. A universalidade e a objetividade do ordenamento jurídico exigem que o Estado aplique a lei para todos, impedindo que alguns escapem da punição. Por isso, a defesa do fim da impunidade dos autores de violações de direitos humanos, como nos casos emblemáticos do Carandiru e de Eldorado dos Carajás, entre outros, transcende o desejo de se impedir repetições da conduta violadora e vincula-se à exigência de tratamento isonômico e respeito ao Estado de Direito. Dessa forma, fica patente a existência de uma característica democrática da tutela penal, fraturada pela impunidade seletiva dos autores de violações de direitos humanos.
Saliente-se que a proteção penal dos direitos humanos no plano internacional é composta de duas facetas: 1) a obrigação dos Estados de criminalizar determinadas condutas ofensivas a direitos humanos; e 2) a obrigação dos Estados de investigar, processar criminalmente e punir os autores das violações de direitos humanos.
Observação: Quanto ao caso Carandiru, em dezembro de 2022, o PGR ajuizou ADI (7730) contra dispositivos do Decreto 11.302/2022 (que concede indulto natalino), uma vez que as previsões do referido ato normativo, nos termos em que formuladas, alcançam os agentes públicos condenados no Massacre do Carandiru. Conforme sustentado pelo PGR, por força do art. 5º, XLIII, da CF, o indulto natalino não pode alcançar os crimes que, no momento da sua edição, são definidos como hediondos, pouco importando se, na data do cometimento do crime, este não se qualificava pela nota de hediondez. Na ADI, o PGR também destacou que o supracitado decreto, ao permitir, especificamente no caso do Massacre do Carandiru, que os policiais militares condenados sejam beneficiados com o indulto natalino, atinge a dignidade humana e princípios basilares do direito internacional público, apresentando-se como afronta às decisões de órgãos de monitoramento e de controle internacionais relativos a direitos humanos, sendo capaz de ocasionar a responsabilização do Brasil por violações a direitos humanos. Os órgãos do Sistema Interamericano de Proteção a Direitos Humanos estabeleceram que a concessão indevida de benefícios na execução da pena pode resultar em uma forma de impunidade, especialmente quando se trata de graves violações a direitos humanos. Em relação ao caso do Massacre do Carandiru, Relatório da CIDH declarou o Brasil responsável por graves violações a direitos protegidos pela CADH, expedindo recomendações para que o Estado brasileiro reparasse os danos causados e evitasse novas violações. Assevera o PGR que o indulto natalino conferido pelo Presidente da República aos agentes estatais envolvidos no caso do Massacre do Carandiru representa reiteração do Estado brasileiro no descumprimento da obrigação assumida internacionalmente de processar e punir, de forma séria e eficaz,os responsáveis pelos crimes de lesa-humanidade. Em janeiro de 2023, no bojo da ADI 7730, a Min. Rosa Weber deferiu medida cautelar, ad referendum do Plenário, para suspender a eficácia dos dispositivos questionados.
JURISPRUDÊNCIA PENAL INTERNACIONAL. De acordo com Caio Paiva, a jurisprudência penal do Sistema Internacional Penal de Direitos Humanos é classificado em: (i) garantias do devido processo; (ii) legitimação do Direito Penal com fixação de limites ao poder punitivo; (iii) Direitos humanos das pessoas presas; (iv) jurisprudência punitivista.
Resumo da jurisprudência penal do SIPDH. Contenção do poder punitivo do Estado mediante a fixação de parâmetros internacionais, que são excepcionados, porém, no caso de crimes graves contra os direitos humanos. Além disso, são fixados parâmetros para que os Estados cumpram com suas obrigações processuais positivas e evitem a impunidade de crimes graves contra os direitos humanos.
Corte IDH, Caso Acosta Martínez e outros vs. Argentina (2020) "A liberdade e a segurança pessoal constituem garantias para a detenção ou encarceramento ilegal ou arbitrário. Embora o Estado tenha o direito e a obrigação de garantir sua segurança e manter a ordem pública, seu poder não é ilimitado, pois tem o dever de aplicar a todo momento procedimentos conformes ao Direito e respeitosos dos direitos fundamentais a todo indivíduo que se encontre sob sua jurisdição".
Corte IDH, Caso Vélez Loor vs. Panamá (2010) Requisitos para que uma prisão não seja arbitrária: 1. A finalidade deve ser legítima. 2. A medida adotada deve ser idônea para alcançar a finalidade pretendida. 3. A medida deve ser necessária, no sentido de ser absolutamente indispensável para conseguir um fim desejado e que não exista uma medida menos gravosa. 4. A medida deve ser proporcional.
Audiência de custódia. O ato deve ser realizado para toda pessoa presa, e não apenas no caso de prisão em flagrante, embora tenha particular relevância quando se trata de prisão realizada sem ordem judicial (Caso Espinoza González vs. Peru). Neste sentido: a Resolução nº 213/2015 do CNJ e também a decisão do Ministro Fachin na Reclamação 29.303.
A Corte IDH como um Tribunal Penal. A Corte IDH afirma reiteradamente que não é um "tribunal penal", que avalia somente a responsabilidade dos Estados, e não dos indivíduos que tenham causado a violação de direitos humanos. "Um tribunal de direitos humanos não é um órgão de justiça penal. Não compete à Corte estabelecer a responsabilidade penal dos indivíduos" (Caso Lori Berenson Mejía vs. Peru). "É oportuno recordar que a Corte IDH não é um tribunal penal ao qual corresponde determinar a responsabilidade de indivíduos particulares por atos criminosos" (Caso La Cantuta vs. Peru). "Esta Corte não condena nem exige a condenação penal dos sujeitos ativos, mas sim que diante do crime que consta nas atuações perante o Tribunal, este requer que seja investigado e somente se for o caso condenado" (Zaffaroni em voto no Caso Roche Azaña).
A Corte IDH, porém, já decidiu que os Estados devem evitar conceder benefícios carcerários quando se trata de graves violações de direitos humanos (Caso Irmãos Gómez Paquiyari vs. Peru), estabeleceu a incompatibilidade de indulto humanitário presidencial com a obrigação de investigar e punir (Caso Barrios Altos e La Cantuta - supervisão de 2018, Fujimori), avançou para estabelecer medidas compensatórias por condições degradantes de aprisionamento (Caso do IPPSC e Complexo de Curado em relação ao Brasil), afastou garantias como a coisa julgada e o bis in idem diante do surgimento de novas provas (Caso Almonacid Arellano vs. Chile), afastou a prescrição e considerou a interposição de recursos previstos na legislação como abuso processual (Caso Bulacio vs. Argentina) etc.
Caio Paiva entende que a Corte IDH, numa interpretação expansionista das suas competências e dos tratados que lhe conferem competência, se transformou num tribunal penal. Um tribunal penal, porém, que realmente não determina responsabilidades individuais diretamente, mas sim de forma indireta, determinando a reabertura de casos penais por exemplo. Julgando como um tribunal penal que emite responsabilidade penal indireta, verifica-se um cenário de absurda desproteção do réu do processo penal interno perante o processo judicial interamericano. A Corte poderia, p. ex., apenas responsabilizar o Estado pela impunidade, sem necessariamente ou sempre determinar a reabertura de casos penais
MANDADOS INTERNACIONAIS DE CRIMINALIZAÇÃO Os episódios bárbaros dos regimes totalitários na 2ª Guerra Mundial foram utilizados para mobilizar a sociedade internacional, reunida na então recém-criada Organização das Nações Unidas, em torno dos ideais de proteção dos direitos humanos. Tais episódios motivaram também a criação do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg, que reforçou o desejo de combater a impunidade dos autores de tais condutas odiosas e gerou o chamado "Direito de Nuremberg", que consiste em um conjunto de resoluções da Assembleia Geral da ONU e de tratados internacionais voltados para a punição dos autores de crimes contra a humanidade.
Entre tais resoluções, devem ser citadas as Resoluções n. 3 e 95 da Assembleia Geral da ONU de 1946, nas quais se reconheceram como princípios de direito internacional aqueles afirmados durante o processo de Nuremberg. Os Estados, então, apoiaram expressamente a possibilidade de afastar a tradicional imunidade dos agentes públicos para puni-los com severidade pelos crimes bárbaros e odiosos cometidos. Além disso, a Resolução n. 3.074/1973 da Assembleia Geral da ONU estabeleceu regras internacionais de cooperação na detenção, extradição e punição dos acusados de crimes de guerra e crimes contra a humanidade e determinou a persecução criminal no país da detenção do acusado ou sua extradição para países cujas leis permitam a punição (aut dedere aut judicare).
O direito internacional previu também a proibição da concessão de asilo a acusados de cometimentos de crimes contra a humanidade, bem como a impossibilidade de caracterização desses crimes como crimes políticos para fins de concessão da extradição. Ainda, a Convenção sobre a Imprescritibilidade dos Crimes contra a Humanidade (1973) estipulou a inaplicabilidade das chamadas "regras técnicas de extinção de punibilidade", as chamadas statutory limitations, o que acarreta a imprescritibilidade destes crimes, no que foi acompanhada pelo Estatuto de Roma.
Esse entrelaçamento entre a proteção de direitos humanos e o direito penal foi consagrado na Conferência Mundial de Direitos Humanos de Viena, de 1993. Nesse contexto, a Declaração e Programa de Ação da Conferência Mundial de Viena (1993) implantou, em definitivo, o dever dos Estados de punir criminalmente os autores de graves violações de direitos humanos para que seja consolidado o Estado de Direito.
Assim, ficou consagrada uma nova forma de relacionamento entre a proteção dos direitos humanos e o direito penal, com foco, em especial, no revigorado desejo do direito internacional dos direitos humanos pela repressão penal aos violadores de direitos humanos.
Em dezembro de 2005, foi aprovada a Resolução 60/147 da Assembleia Geral das ONU referente aos princípios sobre o direito à reparação das vítimas de violações graves de direitos humanos, ficando consagrado o dever de investigar, processar e punir criminalmente os autores de violações graves de direitos humanos. Com isso, consolidou-se no direito internacional dos direitos humanos o desejo do uso do direito penal como instrumento de repressão aos autores de violação de direitos humanos, estabelecendo-se, para tal fim, os mandados expressos ou implícitos de criminalização.
i. Mandados internacionais expressos de criminalização: consistem em cláusulas, previstas em tratados, ordenando a tipificação penal nacional de determinada conduta, a imposição de determinada pena, a vedação de determinados benefícios (ex.: proibição da prescrição penal) ou tratamento prisional específico. São exemplos de mandados internacionaisexpressos de criminalização:
a) Tortura: a proteção internacional ao direito à integridade física gerou o dever dos Estados de tipificar o crime de tortura. O artigo 4º da Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes dispõe que cada Estado-parte "assegurará que todos os atos de tortura sejam considerados crimes segundo a sua legislação penal". O mesmo aplica-se à tentativa de tortura e a todo ato de qualquer pessoa que constitua cumplicidade ou participação na tortura. A jurisdição universal não foi esquecida pela Convenção e o artigo 5º preconiza que todos os Estados devem estabelecer sua jurisdição sobre tais crimes, nos casos em que o suposto autor se encontre em qualquer território sob sua jurisdição e o Estado não o extradite (aut dedere aut judicare). A Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (1985) também dispôs, no seu artigo 1º, que os Estados-partes obrigar-se-ão a prevenir e a punir a tortura. Já o Comitê estabelecido pela Convenção contra a Tortura, confrontado com as leis internas restringindo a persecução penal ou mesmo extinguindo a punibilidade dessas violações de direitos humanos, decidiu que a Convenção, quando abordar a proteção penal contra a tortura, incluirá a necessidade de investigação e punição. No Brasil, a Lei n. 9.455/1997 cumpriu esse mandado de criminalização, inclusive ampliando o conceito de tortura previsto em ambas as Convenções acima mencionadas, configurando-a como crime comum (e não crime próprio), podendo ser cometido por agente público ou por particular.
b) Discriminação racial, xenofobia e intolerância: a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial expressamente ordenou a criminalização da discriminação racial. A Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de Viena também fez menção ao mandado de criminalização da discriminação racial, xenofobia e intolerância. No Brasil, a Lei n. 7.716/1989 cumpre tal mandado de criminalização, definindo os crimes de discriminação ou preconceito e suas punições. De acordo com seu artigo 1º, serão punidos os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O delito de injúria racial, antes constante do art. 140, § 3º, do Código Penal, com a Lei n. 14.532/2023, passou a ser tipificado como crime de racismo (art. 2º-A da Lei n. 7.716/1989).
c) Violência contra a mulher: a Convenção Interamericana para Prevenir e Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher (Convenção de Belém do Pará) foi explícita em estabelecer mandados de criminalização de condutas de violência contra a mulher. Referida Convenção distinguiu-se da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher da ONU, que tão somente dispôs que os Estados-partes deveriam tomar as medidas apropriadas para combater as diversas formas de exploração e discriminação contra a mulher. Os deveres impostos por referidas Convenções aos Estados-partes foram fundamentais para que o Brasil editasse uma lei específica de combate à violência doméstica, a Lei n. 11.340/2006 ("Lei Maria da Penha").
d) Genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade: o primeiro mandado de criminalização do Direito Internacional relativo a direitos humanos, no caso o direito à vida, foi previsto na Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio. Essa Convenção dispôs que os Estados "confirmam que o genocídio, quer cometido em tempo de paz, quer em tempo de guerra, é um crime contra o Direito Internacional, o qual elas se comprometem a prevenir e a punir" (artigo 1º). Consequentemente, os Estados assumiram o compromisso de "estabelecer sanções penais eficazes aplicáveis às pessoas culpadas de genocídio" (artigo 5º). Posteriormente, o genocídio foi consagrado como um crime internacional pelo artigo 6º do Estatuto de Roma. Já os crimes de guerra contam com mandado expresso de criminalização estabelecido em cada uma das Convenções de Genebra de 1949. Tais Convenções (e o Brasil é parte em todas) retomam a noção de jurisdição universal e estipulam que os Estados contratantes estão obrigados a perseguir criminalmente as pessoas acusadas de violações do Direito Humanitário Internacional ou, ao menos, entregar tais pessoas a outro Estado contratante para que seja feita a punição criminal. Quanto aos crimes contra a humanidade, os horrores da 2ª Grande Guerra acarretaram a criação de mandados de criminalização dessas condutas. O Estatuto de Roma, no seu artigo 7º, as define como um ato odioso especificado (por exemplo, o homicídio, a tortura, a perseguição etc.), quando cometido no quadro de um ataque, generalizado ou sistemático, contra qualquer população civil, havendo conhecimento desse ataque. No Brasil, cumpriu-se o mandado de criminalização do genocídio por meio da Lei n. 2.889/1.956. No caso dos crimes de guerra e crimes contra a humanidade, ainda não foi aprovada a legislação interna de complemento ao Estatuto de Roma.
e) Terrorismo: há um regime global de proibição do terrorismo, formado a partir de 1963, por mais de uma dezena de tratados da OEA, da União Africana, da Liga dos Estados Árabes, do Conselho da Europa, da Organização de Aviação Civil Internacional, da Organização Marítima Internacional, da Agência Internacional de Energia Atômica e da ONU, complementado por Resoluções do Conselho de Segurança da ONU e por Recomendações do GAFI. As convenções antiterrorismo, em geral, trazem mandados expressos de criminalização para que os Estados tipifiquem certas condutas como atos terroristas,tipifiquem o financiamento do terrorismo e tipifiquem a lavagem de dinheiro relacionada ao financiamento do terrorismo.
f) Tráfico de pessoas: o regime global de proibição do tráfico de pessoas conta com mandados expressos de criminalização constantes do Protocolo à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado (Convenção de Palermo de 2000, ou UNTOC) para Repressão ao Tráfico de Pessoas, especialmente de mulheres e crianças e do Protocolo contra o Tráfico de Migrantes.
g) Corrupção: a criminalização da corrupção, do peculato e do suborno (este como corrupção no setor privado) está prevista na Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção (Convenção de Mérida de 2003), na Convenção Interamericana contra a Corrupção (Convenção de Caracas de 1997) e na Convenção da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais.
h) Cibercriminalidade: a Convenção do Conselho da Europa de 2001 (Convenção de Budapeste) é o primeiro texto convencional para a criminalização e a persecução transnacional de cibercrimes. Sobre a Convenção de Budapeste, importante destacar que o MPF, em diversas manifestações (ex.: NT nº 05/2020 – GACC/2ª CCR) se posicionou pela necessidade de adesão do Brasil a tal diploma internacional. Em dezembro de 2021, houve a aprovação congressual do tratado, estando pendente, contudo, a ratificação.
ii. Mandados internacionais implícitos de criminalização: os mandados implícitos de criminalização consistem em deveres de criminalizar condutas de violação aos direitos humanos, fundados tão somente na menção ao direito protegido em determinado tratado internacional. A justificativa para a existência de mandados implícitos de criminalização está na chamada dupla dimensão dos direitos humanos e também no próprio princípio da proibição da insuficiência (faceta positiva da proporcionalidade). Os mandados implícitos de criminalização pressupõem a atividade judicial de interpretação de textos normativos. No Direito Internacional dos Direitos Humanos, tais mandados foram extraídos de textos convencionais, em especial graças à atividade hermenêutica da Corte IDH e da Corte EDH. Essas interpretaram, respectivamente, a CADH e a CEDH no sentido de reconhecer a necessidade de punição penal aos autores de violações de direitos humanos.Como ambas as Convenções não possuem mandados de criminalização expressos, tal dever dos Estados de investigar, perseguir em juízo e punir os autores de tais violações foi decorrência de dois tipos de dispositivos convencionais. O primeiro tipo foi o que estabelecia os deveres genéricos dos Estados de garantia e respeito aos direitos humanos estatuídos nesses textos convencionais (por exemplo, o artigo 1.1 da CADH). O segundo tipo de dispositivo foi aquele que contemplava o direito à proteção judicial e ao devido processo legal por parte de todos os indivíduos (por exemplo, o artigo 25 da CADH). Assim sendo, o Direito Internacional dos Direitos Humanos estipulou verdadeiros mandados implícitos de criminalização por meio do reconhecimento do dever de investigar e punir criminalmente os autores de violação de direitos humanos. De fato, para que se puna criminalmente, é necessário que o Estado tenha antes tipificado a conduta em tela. Por outro lado, os tribunais internacionais de direitos humanos decidiram que o direito de acesso à justiça e o direito ao devido processo legal não cabe somente ao acusado, mas também à vítima das violações e seus acusados.
O caso Genie Lacayo (conhecido como caso da comitiva de Ortega) é paradigmático. Nesse caso, a Nicarágua foi acusada pela CIDH de delonga injustificada na punição penal contra os responsáveis pelo assassinato de Jean Paul Genie Lacayo. A Corte reconheceu que, além do direito à vida, havia sido violado o direito ao devido processo legal (artigo 8.1 da CADH) titularizado pelo pai da vítima no campo penal. Assim, a Corte IDH revelou a existência de um novo papel da vítima no processo penal: o de exigir a punição dos autores das violações de direitos humanos sem qualquer exigência de prova de interesse material ou indenização na esfera cível.
Na mesma toada, a CIDH publicou o Informe n. 54/2001, no qual o Brasil foi condenado pela Comissão por violação de direitos humanos causada, basicamente, pela delonga do Tribunal de Justiça do Ceará em aplicar a lei penal contra o acusado em prazo razoável. Nessa linha, DENISE ABADE sustenta a existência de um direito ao devido processo legal penal em prazo razoável quer para o acusado, quer para a acusação. Com efeito, no chamado caso "Maria da Penha Maia Fernandes", a Comissão considerou que a delonga por mais de 17 anos em prestar justiça e punir o responsável por fatos graves de violência contra a mulher era atribuída ao Brasil, não importando terem sido os atos realizados pelo Poder Judiciário de ente federado (Ceará).
Assim, o dever de punição dos autores de violações de direitos humanos está fundamentado no artigo 8.1 da CADH (direito da vítima e dos parentes das vítimas ao devido processo legal), no artigo 25 (direito ao acesso à justiça ou proteção judicial) e, finalmente, no artigo 1.1 (obrigação de garantir os direitos humanos, por meio da punição aos autores das violações).
OBRIGAÇÕES PROCESSUAIS PENAIS POSITIVAS: De acordo com Douglas Fischer e Frederico Valdez, “as obrigações processuais penais positivas podem ser caracterizadas como um dever imposto aos Estados Partes de conduzir procedimento investigativo eficiente e processo penal apto a assegurar o acertamento dos fatos ilícitos e a punição dos eventuais autores, sob pena de violação concreta dos dispositivos das convenções regionais de direitos humanos que estipulam a salvaguarda dos direitos fundamentais envolvidos nas prática ilícitas.”
Importante destacar que as obrigações processuais penais positivas consistem em obrigações de meio, e não de resultado. Nesta linha, no caso Presídio Miguel Castro Castro vs. Peru, a Corte IDH explicitou que: “O dever de investigar é uma obrigação de meio, não de resultado. Essa obrigação deve ser assumida pelo Estado como um dever jurídico próprio e não como uma simples formalidade condenada de antemão a ser infrutífera ou como uma mera gestão de interesses particulares, que dependa da iniciativa processual das vítimas ou de seus familiares ou da aportação privada de elementos probatórios”
No caso Myrna Mack Chang (2003), a Guatemala foi condenada, tendo a Corte IDH explicitado que o referido Estado não utilizou todos os meios disponíveis para realizar uma investigação séria e efetiva para o esclarecimento completo de todos os fatos, o processamento, o julgamento e a sanção de todos os responsáveis, dentro de um prazo razoável. A Corte IDH asseverou, ainda, que os juízes, como reitores do processo, têm o dever de dirigir o procedimento judicial com o propósito de não sacrificar a justiça e o devido processo legal em favor do formalismo e da impunidade.
RESPONSABILIDADE NÃO PENAL DE INDIVÍDUOS NO DIREITO INTERNACIONAL PELA PARTICIPAÇÃO EM GRAVES VIOLAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS Uma das encruzilhadas do processo internacional de direitos humanos diz respeito ao papel a ser desempenhado pelos indivíduos autores de violações de direitos humanos nos mecanismos internacionais não penais de proteção de direitos humanos.
Com efeito, os órgãos judiciais e quase judiciais de direitos humanos não penais monitoram a atuação dos Estados, que assumem deveres de garantia e respeito de direitos humanos e por isso são demandados internacionalmente. Consequentemente, só o Estado pode ser réu nesses processos internacionais. Em contrapartida, existe a responsabilização internacional penal do indivíduo perante a jurisdição dos Tribunais Penais Internacionais hoje existentes. Nesse último caso, o autor das violações é processado, porém tem direito à ampla defesa e contraditório.
Já na jurisdição internacional de direitos humanos não penal, o autor imediato (ou direto) das violações de direitos humanos é um indivíduo, mas o Estado transforma-se em réu no plano internacional porque descumpriu seus deveres de prevenção ou repressão das violações de direitos humanos. Graças a esse mecanismo, um ato de particular ofendendo direitos de outro indivíduo é alçado à análise dos mecanismos internacionais de apuração de violação de direitos humanos realizados por Estados. Assim, o Estado é chamado a defender – ou não, pois pode existir o reconhecimento do pedido – um ato que pode ter decisiva repercussão na esfera jurídica de um terceiro. Esse terceiro, o autor da violação de direitos humanos impugnada perante o mecanismo internacional, é o terceiro ausente, pois não tem legitimidade passiva para assistir o Estado-réu na sua defesa ou para exercer o contraditório.
A situação torna-se aguda quando as instâncias internacionais não penais determinam garantias de não repetição específicas que englobam o dever do Estado de investigar, perseguir em juízo e punir os perpetradores, exigindo a superação de teses defensivas como as referentes à anistia, prescrição, irretroatividade da lex gravior e ausência de tipificação por lei formal. Esse exemplo torna evidente a encruzilhada: cada vez mais os violadores de direitos humanos têm suas possíveis teses de defesa debatidas perante órgãos internacionais, nos quais somente a vítima e o Estado têm legimitidade de atuação plena. Até mesmo a participação desses violadores como amici curiae é problemática, pois esse instituto não serve para camuflar a participação de terceiro diretamente atingido pela sentença a ser prolatada, sem contar que o amicus não possui os poderes de uma parte processual.
Após a prolação da sentença internacional que tenha repelido essas teses defensivas (por exemplo, refutando o uso da lei da anistia), esses violadores não poderão mais repetir tais argumentos no plano interno, pois o Estado deve cumprir a sentença internacional e, para tanto, não poderá admitir alegações de anistia, prescrição, e outras teses pro reo.
Em casos que envolvem autores de violações de direitos humanos sem repercussão penal isso também ocorre. No caso Görgülü, a Corte EDH determinou à Alemanha que permitisse a visita do pai natural ao seu filho, agora adotado. Só que os pais adotivos não foram citados como litisconsortes passivos necessários da Alemanha, porque, naturalmente, somenteEstados têm legitimidade passiva perante a Corte EDH.
A origem do “terceiro ausente” é a dimensão objetiva dos direitos humanos, que impõe deveres de promoção de direitos aos Estados, impedindo que fiquem inertes em face das condutas ofensivas aos direitos humanos. Ao mesmo tempo, há ainda a tendência – obsoleta e ideológica – de considerar a proteção de direitos humanos como um antagonismo entre um indivíduo contra um Estado, olvidando que, em geral, há antagonismos entre indivíduos em uma colisão de direitos. No caso Gomes Lund, a defesa brasileira insinuou que a Corte IDH estaria privilegiando um dever do Estado (de investigar e punir) contra os direitos dos indivíduos que cometeram os crimes brutais da ditadura. A resposta da Corte foi óbvia: a defesa brasileira havia esquecido dos direitos das vítimas e de seus familiares, em especial o direito à verdade e à justiça.
Assim, chega-se a mais uma encruzilhada: na medida em que a dimensão objetiva e a força expansiva dos direitos humanos impelem os Tribunais Internacionais a apreciar casos nos quais há impactos evidentes sobre terceiros, é necessário que se esclareça qual deve ser o papel desses terceiros nesses processos internacionais.
ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS entende que há dois tipos distintos de influência sobre os terceiros: a influência direta e a indireta. Se o caso internacional analisa a situação em geral, sem tecer considerações específicas, como é o caso Gomes Lund, sustenta o autor que o impacto sobre terceiro é indireto, similar ao impacto sobre terceiros fruto de uma decisão do controle abstrato de constitucionalidade no Brasil. Nesse caso, a Corte IDH efetivamente amputou as teses defensivas dos criminosos da ditadura militar no Brasil, porém agiu de modo geral e abstrato, gerando o mesmo impacto indireto que teria uma declaração de inconstitucionalidade ou não recepção de determinada lei. Um segundo tipo de influência é a influência direta sobre terceiros especificados, como é o caso Görgülü, no qual a Corte EDH atinge diretamente os direitos de terceiros identificados, sem contraditório ou ampla defesa. Somente nesse caso (influência direta), a Corte deve ter a sensibilidade de ampliar a sujeição passiva e permitir a participação desses terceiros como intervenientes plenos no processo internacional.
5C. Direito à igualdade. Dimensões da igualdade e dever de inclusão. A proibição de discriminação. Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ONU). Convenção Interamericana contra o Racismo, Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância. Princípios de Yogyakarta sobre orientação sexual. Opinião Consultiva nº 24/2017 sobre a identidade de gênero igualdade e não discriminação a uniões homossexuais (Corte IDH). Sistemas de proteção e monitoramento. Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. O combate à discriminação direta e indireta. Racismo institucional.
Atualizado por Renata Souza
Material base: Graal do 29º CPR (Adriano Lanna).
Fontes utilizadas para a atualização: Curso de Direitos Humanos de André de Carvalho Ramos (9ª edição – 2022); Jurisprudência Internacional de Direitos Humanos de Caio Paiva e Thimotie Heemann (3ª edição – 2020);
DIREITO À IGUALDADE. DIMENSÕES DA IGUALDADE E DEVER DE INCLUSÃO. A igualdade é um direito que visa a assegurar uma vida digna a todos, sem privilégios odiosos, exigindo que todos sejam tratados sem discriminação. A busca pela igualdade surgiu com as revoluções liberais do século XVIII, época em que se alcançou o conceito da igualdade perante a lei. Tal forma de igualdade visava a eliminar os privilégios de tratamento decorrentes de classe social e de castas religiosas.
Embora a igualdade perante a lei tenha sido um avanço para se romper com o absolutismo, Kelsen já apontava que tal forma de igualdade não significa mais do que dizer que o Direito se aplica a todos. Apenas com a ascensão do Estado Social de Direito se preocupou com a igualdade efetiva/material entre as pessoas: a partir de então, buscou-se ir além do reconhecimento da igualdade perante a lei, visando-se erradicar a pobreza e outros fatores que impediam a plena realização das potencialidades individuais.
Martha Nussbaum aponta não bastar a igualdade perante a lei e a igualdade material para se garantir a autonomia dos indivíduos: segundo a autora, é necessário, ainda, estabelecer condições culturais mínimas que permitam que as pessoas desenvolvam suas capacidades internas, já que nossos projetos e planos de vida decorrem, em grande parte, dos valores que internalizamos nos processos de socialização ao qual nos submetemos desde o nascimento. Assim, em sociedades machistas, racistas e homofóbicas, as pessoas tendem a adaptar suas escolhas e preferências ao ambiente, motivo pelo qual é necessário acabar com essas assimetrias culturais para se atingir a plena igualdade.
A PROIBIÇÃO DE DISCRIMINAÇÃO. André de Carvalho Ramos esclarece que “a igualdade exige que sejam evitadas discriminações injustificáveis, proibindo- se o tratamento desigual aos que estejam na mesma situação e, simultaneamente, exige que sejam promovidas distinções justificáveis que resultem em um tratamento mais favorável aos que estão em situação desigual injusta. Com isso, há dois requisitos para comprovarmos a existência de uma discriminação injusta: (i) a existência de uma conduta (ativa ou omissiva) de discriminação e (ii) a ausência de uma justificativa adequada para tanto. Assim, conforme já exposto, a discriminação injusta ou odiosa consiste em qualquer (i) distinção, (ii) exclusão, (iii) restrição ou (iv) preferência em qualquer esfera pública ou privada, que tenha como objetivo ou efeito anular ou limitar o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade, de direitos humanos consagrados em instrumentos internacionais. Assim, a discriminação é todo tratamento de diferenciação, restrição ou mesmo exclusão sem justificativa racional e proporcional, realizado por agentes públicos ou privados, visando a privação ou prejuízo a direitos de outrem. Por sua vez, a discriminação injusta que é combatida pode ser direta ou indireta (também chamada de invisível).”
AS MEDIDAS VOLTADAS À IMPLEMENTAÇÃO DA IGUALDADE. O Estado pode promover a igualdade e eliminar a discriminação injusta de duas maneiras: a) por meio da repressão, como é o caso da previsão de punição de condutas discriminatórias (art. 5º, XLI, CR) e do mandado de criminalização do racismo (art. 5º, XLII, CR); e b) por meio da promoção, que visa à inclusão dos segmentos sociais vulneráveis.
Em relação aos instrumentos promocionais, destaca-se que a Constituição (art. 3º, IV, CR) abriu a porta para a implementação de ações afirmativas/políticas de discriminação positiva, que são o conjunto de medidas adotadas temporariamente, visando compensar uma situação de discriminação que não consegue ser eliminada por políticas generalistas. O Brasil adotou ações afirmativas em alguns casos, como na previsão de cota de candidaturas eleitorais por sexo; na reserva de vagas em concurso público para pessoas com deficiência; e na previsão de cotas para negros nos concursos públicos federais (questão discursiva do G-II, no 29º CPR). Observe-se que o PNDH-3 incentiva a adoção de políticas compensatórias.
No que diz respeito ao sistema internacional global, o Brasil ratificou e incorporou os seguintes tratados que contam com a previsão de ações afirmativas: Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação racial (art. 1º, § 4º); Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher (art. 4.1); Convenção das Nações Unidas sobre os direitos das pessoas com deficiência (art. 5º.4).
O COMBATE À DISCRIMINAÇÃO DIRETA E INDIRETA. O combate à discriminação direta se dá através de políticas repressivas e promocionais. Tal forma de discriminação é aquela que se dá sem qualquer subterfúgio e mostra sua face sem que se precise proceder a qualquer tipo de análise mais complexa. Há, aqui, prática intencional e consciente que adotacritério injustificável para se discriminar determinado grupo.
Por outro lado, há discriminação indireta quando uma política pública ou privada aparentemente neutra tem consequências negativas para determinado segmento vulnerável. Trata-se da teoria do impacto desproporcional, introduzida no Brasil pelo ex-Ministro do STF, Joaquim Barbosa. Exemplos clássicos de discriminação indireta:
a) a EC 20/98 instaurou uma limitação no pagamento de benefícios previdenciários, o que levou ao questionamento sobre quem deveria arcar com o custo que superasse tal valor quando estivesse em jogo o salário maternidade. Entendeu-se que atribuir tal encargo ao empregador causaria uma discriminação indireta, pois inibiria a contratação de mulheres, que representariam um maior custo para as empresas. Por esse motivo, prevaleceu o posicionamento de que a Previdência deveria arcar com tal valor;
b) a exigência de conhecimentos de inglês em concursos públicos nos quais a língua não é necessária implica discriminação indireta da parcela mais pobre da população, que não tem tanto acesso ao aprendizado de outros idiomas;
c) a criminalização do aborto afeta de maneira mais incisiva mulheres negras e pobres, tendo em vista que, ao optarem pelo aborto, elas têm menos condições de realizar o procedimento de forma segura, o que leva a uma maior fatalidade deste grupo vulnerável.
Aponte-se que, classicamente, defende-se que a teoria da discriminação indireta não exige que haja desejo de discriminar, nem sequer que haja consciência dessa possível consequência. Assim, havendo impacto desproporcional decorrente de uma política pública, há discriminação indireta, independentemente de qualquer elemento subjetivo. No entanto, Edilson Vitorelli aponta vários julgados americanos em que este posicionamento foi superado, exigindo a intenção discriminatória para que se configurasse a teoria do impacto desproporcional. Mas, cuidado, esse posicionamento parece minoritário.
IGUALDADE RACIAL. Em 2010 foi editada a Lei 12.228, que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial. Tal dispositivo normativo reconheceu as consequências gravosas do racismo para nossa sociedade. Diversos dados apontam que pretos e pardos têm maior dificuldade de ascensão social quando comparados com brancos que se encontram na mesma posição econômica; e que, pelo contrário, há uma maior queda de posição social de pretos e pardos do que de brancos (Vitorelli). Tudo isso justifica uma política inclusiva, que vise superar as desigualdades que pairam na sociedade.
Em decorrência disso, foram previstas algumas ações afirmativas, primeiramente no âmbito de ingresso nas Universidades Públicas; depois disso, através da Lei 12.990/14, que reserva aos negros 20% das vagas oferecidas nos concursos públicos federais. Tal lei apresenta recorte meramente racial, não exigindo qualquer condição socioeconômica para sua aplicação. O STF reconheceu sua constitucionalidade, inclusive no que diz respeito à adoção do critério misto de identificação, ou seja, o interessado deve proceder à autodeclaração, mas esta forma de autoidentificação está sujeita à verificação por parte de um Comitê (heteroidentificação). Visa-se, com isso, evitar falsidades, cujas consequências seriam: a) a ineficácia desta ação afirmativa, que só atingirá os fins a que se propõe se houver respeito aos critérios legalmente estabelecidos; b) a desconfiança da sociedade em relação a políticas inclusivas, o que poderia levar à erosão social de sua legitimidade.
RACISMO INSTITUCIONAL. Racismo institucional é o conjunto de práticas e comportamentos discriminatórios adotados por organizações públicas ou privadas, motivadas por estereótipos ou preconceitos, que impõe a membros de um grupo vulnerável situação de desvantagem no acesso a benefícios gerados pelo Estado e pelas demais organizações. Ele é constatado, por exemplo, na manutenção das diferenças entre escolaridade, média salarial, acesso à saúde, aprisionamento etc., entre brancos e negros.
O Caso Simone André Diniz vs. Brasil é considerado paradigma do denominado racismo institucional. O jornal A Folha de São Paulo publicou em seus classificados anúncio para a contratação de uma empregada doméstica, que deveria ser branca. Simone André Diniz se apresentou como candidata ao emprego e foi recusada em razão de sua cor. O Ministério Público se manifestou em favor do arquivamento do caso, por entender não haver base para o oferecimento de denúncia. O caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que expediu Recomendações ao Estado Brasileiro por ter violado o direito à igualdade.
CONVENÇÃO SOBRE A ELIMINAÇÃO DE TODAS AS FORMAS DE DISCRIMINAÇÃO RACIAL (ONU).
A Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial foi adotada pela Resolução nº 2.106 da Assembleia Geral da ONU, em dezembro de 1965. Foi elaborada em um momento no qual ainda existiam Estados com políticas internas oficiais de segregação racial, com a finalidade de promover e encorajar o respeito universal e efetivo pelos direitos humanos, sem qualquer tipo de discriminação.
Em seu preâmbulo, a Convenção condena todas as práticas de segregação e discriminação. O Preâmbulo ressalta, ainda, que “qualquer doutrina de superioridade baseada em diferenças raciais é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, em que, não existe justificação para a discriminação racial, em teoria ou na prática, em lugar algum” e que ainda subsistiam práticas de discriminação racial no mundo, inclusive lastreadas em políticas governamentais baseadas em superioridade e ódio raciais, como o apartheid.
O Brasil ratificou a Convenção em 27 de março de 1968. Foi promulgada pelo Decreto n. 65.810, de 8 de dezembro de 1969.
A Convenção é dividida em três partes e composta de 25 artigos. Na primeira parte, enunciam-se as obrigações assumidas pelo Estado que a adotem (artigos I a VII); na segunda, estabelece a constituição e o funcionamento do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial (artigos VIII a XVI) e, na terceira parte, prevê as disposições finais (artigos XVII a XXV).
No artigo I, consta a definição de discriminação racial, que é entendida como qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tem por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano (em igualdade de condição), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio de sua vida. Ficam excluídas dessa proibição as ações afirmativas.
Entre as obrigações assumidas, destaca-se que os Estados se comprometem a adotar uma política de eliminação da discriminação racial, devendo cada Estado abster-se de praticar ato de discriminação racial contra pessoas, grupos de pessoas ou instituições e de abster-se de encorajar, defender ou apoiar a discriminação racial praticada por uma pessoa ou organização qualquer.
De outro lado, o Estado compromete-se também a tomar medidas eficazes, a fim de rever as políticas governamentais nacionais e locais que tenham por objetivo criar a discriminação ou perpetrá-la; a proibir e colocar fim à discriminação racial praticada por pessoa, por grupo ou organizações; e a favorecer organizações e movimentos multirraciais e outros meios vocacionados a eliminar as barreiras entre as raças e a desencorajar o que tende a reforçar a divisão racial. Fica aqui estipulada a obrigação do Estado de impedir que particulares pratiquem discriminação nas relações privadas.
Ademais, cabe citar que os Estados assumem o compromisso de adotar medidas especiais e concretas, nos campos social, econômico, cultural e outros, para assegurar o desenvolvimento ou a proteção de certos grupos raciais de indivíduos pertencentes a estes grupos, tendo por objetivo garantir-lhes o pleno exercício dos direitos do homem e das liberdades fundamentais. Aqui consta o fundamento expresso a permitir a adoção de cotas raciaispara a consecução do objetivo de promover a igualdade material. Tais medidas devem perdurar apenas enquanto subsistir a situação de desigualdade.
A Convenção, traz, ainda, mandado internacional de criminalização.
CONVENÇÃO INTERAMERICANA CONTRA O RACISMO, DISCRIMINAÇÃO RACIAL E FORMAS CONEXAS DE INTOLERÂNCIA. A Convenção Interamericana contra o Racismo, Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância foi aprovada, pela OEA, em 2013. No Brasil, foi aprovada pelo rito do art. 5º, § 3º, da CF/88 (status constitucional), havendo sido promulgada, em 2022, pelo Decreto nº 10.932/2022.
A Convenção estabelece, em seus “Considerandos”, o dever dos Estados de erradicar total e incondicionalmente o racismo, a discriminação racial e toda forma de intolerância. Por isso, fica estabelecido que o Estado democrático deve fomentar a igualdade jurídica efetiva e ainda criar mecanismos que favoreçam a igualdade de oportunidade, combatendo a discriminação racial em todas as suas manifestações individuais, estruturais e institucionais.
O tratado diferencia racismo, discriminação racial e intolerância:
Racismo consiste em qualquer teoria, doutrina, ideologia ou conjunto de ideias que enunciam um vínculo causal entre as características fenotípicas ou genotípicas de indivíduos ou grupos e seus traços intelectuais, culturais e de personalidade, inclusive o falso conceito de superioridade racial. O racismo ocasiona desigualdades raciais e a noção de que as relações discriminatórias entre grupos são moral e cientificamente justificadas.
Discriminação racial é qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência, em qualquer área da vida pública ou privada, cujo propósito ou efeito seja anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício, em condições de igualdade, de um ou mais direitos humanos e liberdades fundamentais consagrados nos instrumentos internacionais aplicáveis aos Estados Partes. A discriminação racial pode basear-se em raça, cor, ascendência ou origem nacional ou étnica.
Intolerância é um ato ou conjunto de atos ou manifestações que denotam desrespeito, rejeição ou desprezo à dignidade, características, convicções ou opiniões de pessoas por serem diferentes ou contrárias. Pode manifestar-se como a marginalização e a exclusão de grupos em condições de vulnerabilidade da participação em qualquer esfera da vida pública ou privada ou como violência contra esses grupos.
A Convenção é composta por 22 artigos e, entre seus principais dispositivos, estão: os direitos protegidos; o reconhecimento do dever do Estado em prevenir, eliminar, proibir e sancionar todos os atos e manifestações de racismo, discriminação racial e formas conexas de intolerância; a adoção de políticas e ações afirmativas; a adoção de leis contra o racismo, a discriminação racial e formas conexas de intolerância e mandados de criminalização.
SISTEMAS DE PROTEÇÃO E MONITORAMENTO. No âmbito da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ONU), esta determina a criação do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial. Ademais, estabelece o mecanismo de relatórios periódicos, o procedimento de comunicações interestatais e a possibilidade de petição individual ao Comitê. O Comitê elabora, ainda, as chamadas “Observações Gerais” ou “Comentários Gerais”, que contêm a interpretação do Comitê sobre como alcançar o fim da discriminação racial.
No âmbito da Convenção Interamericana contra o Racismo, Discriminação Racial e Formas Conexas de Intolerância foi estabelecido um sistema de petições individuais e interestatais para a CIDH, que pode enviar o caso à Corte IDH, caso o Estado infrator tenha reconhecido a jurisdição contenciosa obrigatória da Corte. Além disso, foi criado o Comitê Interamericano para a Prevenção e Eliminação do Racismo, Discriminação Racial e Todas as Formas de Discriminação e Intolerância, composto por especialistas independentes nomeados pelos Estados Partes, que tem a atribuição de monitorar os compromissos assumidos perante tal Convenção e também perante a Convenção Interamericana contra Toda Forma de Discriminação e Intolerância.
PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA SOBRE ORIENTAÇÃO SEXUAL[footnoteRef:18]. Os Princípios de Yogyakarta foram elaborados, em 2006, por especialistas em direitos humanos, reunidos em Yogyakarta, na Indonésia. Possuem natureza jurídica de soft law, sendo que sua origem privada os insere na soft law derivada (produzida por associações ou indivíduos). Consoante André de Carvalho Ramos, os Princípios de Yogyakarta buscam invocar direitos genericamente previstos em tratados internacionais de direitos humanos, declarações ou resoluções já consagrados para aplicá-los especificamente aos temas essenciais envolvendo a orientação sexual, visando assegurar igualdade e vedar discriminação, estigmatização e violência contra pessoas em razão de sua identidade de gênero e orientação sexual. [18: OBS.: Temática objeto de cobrança na prova subjetiva do 30º CPR. ]
São elencados 29 princípios relacionados à orientação sexual e identidade de gênero. Ademais, são prescritas recomendações específicas para os Estados, visando esclarecer as suas obrigações internacionais e garantir a plena implementação de cada um desses direitos.
“Orientação sexual” refere-se à capacidade de cada pessoa de experimentar uma profunda atração emocional, afetiva ou sexual por indivíduos de gênero diferente, do mesmo gênero ou de mais de um gênero, assim como de ter relações íntimas e sexuais com essas pessoas.
“Identidade de gênero” refere-se à experiência interna, individual e profundamente sentida que cada pessoa tem em relação ao gênero, que pode, ou não, corresponder ao sexo atribuído no nascimento, incluindo-se aí o sentimento pessoal do corpo (que pode envolver, por livre escolha, modificação da aparência ou função corporal por meios médicos, cirúrgicos ou outros) e outras expressões de gênero, inclusive o modo de vestir-se, o modo de falar e maneirismos.
Os 29 princípios são: Direito ao gozo universal dos direitos humanos (Princípio 1); Direito à igualdade e a não-discriminação (Princípio 2); Direito ao reconhecimento perante a lei (Princípio 3); Direito à vida (Princípio 4); Direito à segurança pessoal (Princípio 5); Direito à privacidade (Princípio 6); Direito de não sofrer privação arbitrária da liberdade (Princípio 7); Direito a julgamento justo (Princípio 8); Direito a tratamento humano durante a detenção (Princípio 9); Direito de não sofrer tortura e tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante (Princípio 10); Direito à proteção contra todas as formas de exploração, venda e tráfico de seres humanos (Princípio 11); Direito ao trabalho (Princípio 12); Direito à seguridade social e a outras medidas de proteção social (Princípio 13); Direito a um padrão de vida adequado (Princípio 14); Direito à habitação adequada (Princípio 15); Direito à educação (Princípio 16); Direito ao padrão mais alto alcançável de saúde (Princípio 17); Proteção contra abusos médicos (Princípio 18); Direito à liberdade de opinião e expressão (Princípio 19); Direito à liberdade de reunião e associação pacíficas (Princípio 20); Direito à liberdade de pensamento, consciência e religião (Princípio 21); Direito à liberdade de ir e vir (Princípio 22); Direito de buscar asilo (Princípio 23); Direito de constituir família (Princípio 24); Direito de participar da vida pública (Princípio 25); Direito de participar da vida cultural (Princípio 26); Direito de promover os direitos humanos (Princípio 27); Direito a recursos jurídicos e medidas corretivas eficazes (Princípio 28); e Responsabilização (“accountability”) (Princípio 29).
Princípios de Yogyakarta Mais 10: em homenagem aos 10 anos da primeira edição, em 2017, foram adotados os “Princípios de Yogyakarta Mais 10”, trazendo nove novos princípios e 111 obrigações dos Estados, que devem ser lidos em conjunto com os 29 princípios anteriores (totalizando 38princípios). Nesta linha: Direito à proteção do Estado (Princípio 30); Direito ao reconhecimento legal (Princípio 31); Direito à integridade física e mental (Princípio 32); Direito de toda pessoa humana de não ser sujeita a criminalização e sanção baseada na sua orientação sexual, identidade de gênero, expressão de gênero ou nas suas características sexuais (Princípio 33); Direito à proteção contra a pobreza (Princípio 34); Direito ao saneamento (Princípio 35); Direito ao gozo de direitos humanos relativos a tecnologias da informação e a comunicação (Princípio 36); Direito à verdade (Princípio 37); Direito a praticar, proteger, preservar e reviver a diversidade cultural (Princípio 38).
OPINIÃO CONSULTIVA Nº 24/2017. Trata-se de OC solicitada pela Costa Rica sobre identidade de gênero e sobre o reconhecimento de direitos patrimoniais derivados de um vínculo entre pessoas do mesmo sexo.
Sobre a resposta da Corte IDH, na OC, André de Carvalho Ramos explica:
“Para a Corte, é possível que uma pessoa seja discriminada a partir da percepção social a respeito de sua relação com um grupo social, independentemente da realidade ou ainda com a autoidentificação da pessoa. Essa 'discriminação por percepção' tem o efeito de impedir ou prejudicar o gozo de direitos humanos. Por isso, a proteção da identidade deve abarcar a identidade social, sendo a expressão de gênero uma categoria protegida pela Convenção Americana de Direitos Humanos. A Corte reconheceu que a identidade de gênero compõe o 'direito à identidade', que é protegido pelo art. 13 da Convenção (liberdade de expressão). Além disso, tal direito é um instrumento para o exercício de outros, como direito à personalidade, ao nome, à nacionalidade, entre outros. Assim, o direito de decidir autonomamente sobre a identidade de gênero encontra-se protegido pela Convenção, em especial nos artigos referentes à liberdade (art. 7º), privacidade (art. 11.2), personalidade (art. 3º) e ao direito ao nome (art. 18). Quanto à modificação da identidade de gênero, a Corte exigiu que os Estados, embora com certa margem de escolha dos meios, devem realizar a adequação integral da identidade de gênero autopercebida com base unicamente no consentimento livre e informado do solicitante (afastando, expressamente, a certificação médica ou intervenções cirúrgicas e hormonais). Por fim, a Corte enfatizou que todos os direitos (e não só os patrimoniais) dos casais heterossexuais devem ser também reconhecidos às uniões homoafetivas. No que tange ao casamento, a Corte realçou que proibir o matrimônio de pessoas do mesmo sexo é ofensa à Convenção, inexistindo razão convencionalmente adequada e proporcional para tanto.”
JURISPRUDÊNCIA DA CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Quanto à temática objeto deste subponto, podem ser citados alguns casos julgados pela Corte IDH:
- Caso Atala Riffo e Filhas vs. Chile (2012): Foi o primeiro caso em que a Corte IDH afirmou que orientação sexual e identidade de gênero são categorias protegidas pela CADH, no âmbito do direito à igualdade e não discriminação do artigo 1.1. Consignou-se que o melhor interesse da criança não pode ser utilizado para fundamentar a discriminação sexual contra qualquer um dos pais. Ademais, a Corte explicitou que a CADH não estabelece um modelo único de família e nem o reduz ao matrimônio, devendo abarcar outros laços familiares de fato.
- Caso Duque vs. Colômbia (2016): Neste caso, a Corte IDH condenou a Colômbia por discriminação por orientação sexual, haja vista que o Sr. Duque foi impedido de receber a pensão por morte de seu companheiro do mesmo sexo em 2002.
- Caso Flor Freire vs. Equador (2016): O caso se refere ao desligamento do Exército do tenente Homero Flor Freire pela prática de atos homossexuais. O Equador foi condenado porque houve tratamento discriminatório, uma vez que a sanção aplicável a este caso era mais grave do que a aplicável a “atos sexuais ilegítimos”.
- Caso Azul Rojas Marin e outros vs. Peru (2020): O caso se relaciona ao contexto de violações de direitos da população LGBTQI+ cometidas por agentes estatais do Peru. Azul Rojas Marin foi presa e, durante todo o período da prisão, foi insultada por sua orientação sexual, desnudada forçadamente, além de ter sido vitima de agressões físicas, tortura e violência sexual. No caso, a Corte reafirmou sua jurisprudência sobre o direito à igualdade e não discriminação derivadas de orientação sexual e identidade de gênero, considerando que a violência contra pessoas LGBTQI+ tem um aspecto simbólico e comunica uma mensagem de exclusão e subordinação.
- Caso Acosta Martínez e outros vs. Argentina (2020): O caso se refere à prisão e à subsequente morte do Sr. José Delfín Acosta Martínez em 1996. Os irmãos uruguaios afrodescendentes José Delfin e Angel Acosta Martinez fundaram o Grupo Cultural Afro e, em virtude de seu ativismo, José Delfin interveio quando a polícia argentina deteve dois jovens brasileiros na saída de uma discoteca. No caso, ficou comprovada a arbitrariedade da prisão dos jovens brasileiros e do Sr. José Delfin, pois, para a Corte, foi baseada mais no perfil racial dos três (afrodescendentes) do que em uma verdadeira suspeita de prática de crime. Por este motivo a Corte condenou a Argentina a implementar treinamento sobre a natureza discriminatória dos estereótipos de raça, cor, nacionalidade ou etnia, assim como o uso do perfil racial na efetuação da prisão pela polícia, e a conscientização do impacto negativo de seu uso sobre as pessoas de ascendência africana.
- Caso Vicky Hernández vs. Honduras (2021): O caso envolve violações ao direito à vida e à integridade pessoal de Vicky Hernández, mulher trans, trabalhadora sexual e defensora de direitos das mulheres trans. Em tal caso, a Corte IDH reconheceu a discriminação estrutural contra as pessoas LGBTQI+, submetidas a várias formas de violência e violações dos seus direitos humanos, recordando que a orientação sexual e identidade de gênero são categorias protegidas pela CADH. Ainda, a Corte IDH entendeu aplicável a Convenção de Belém do Pará às situações de violência baseada no gênero contra mulheres trans.
6A. Direitos humanos e seu caráter erga omnes. Exigibilidade dos direitos humanos. Aplicabilidade imediata dos direitos humanos. As dimensões subjetiva e objetiva dos direitos humanos.
Jéssica Flores Silva
DIREITO HUMANOS E SEU CARÁTER ERGA OMNES: O caráter erga omnes dos direitos humanos no plano internacional tem duas facetas. A primeira consiste no reconhecimento do interesse de todos os Estados da comunidade internacional em ver respeitados os direitos protegidos pelo Direito Internacional. A segunda faceta diz respeito à aplicação geral das normas protetivas a todos os seres humanos sob a jurisdição de um Estado. Assim, as normas internacionais de direitos humanos aplicam-se a todos os indivíduos, pela simples condição humana, sem qualquer consideração referente à nacionalidade, orientação política, etnia, credo e outras.
Essa aplicação das normas de direitos humanos a todos que estejam sob a jurisdição a jurisdição de um Estado é reconhecida pelos diversos instrumentos do Direito Internacional dos Direitos Humanos (ex: art. 1º da CADH).
O impacto do caráter erga omnes da proteção internacional de direitos humanos, portanto, é evidente, uma vez que todos sob a jurisdição de um Estado podem invocar tais direitos, não importando a nacionalidade ou estatuto jurídico. Assim, um grupo vulnerável (ex: estrangeiro em situação irregular) que, em geral, não são protegidos pelo Direito Interno, não podem ter seus direitos básicos amesquinhados, tendo acesso às instâncias internacionais de proteção de direitos humanos.
OBS: O tema obrigações erga omnes foi abordado no ponto 3.a. Neste ponto, vale lembrar brevemente seu conceito. Obrigações erga omnes são aquelas que protegem valores de todos os Estados da comunidade internacional, fazendo nascer o direito de qualquer um dos membros da comunidade em ver respeitada tal obrigação. Assim, por exemplo, todos os Estados da comunidade interancional– e não somente os que firmaram a obrigação – têm interesse jurídico em sua proteção. A partir desse conceito, ACR preleciona que, quando se utiliza a expressão “obrigação erga omnes” de direitos humanos, consagra-se o direito subjetivo de toda a comunidade interancional na proteção de tais direitos.
Opinião Consultiva nº 17 (2002) – Foi solicitada pela CIDH. A Corte emitiu parecer no sentido de que as obrigações de proteção dos direitos das crianças devem ser consideradas como obrigações erga omnes.
EXIGIBILIDADE DOS DIREITOS HUMANOS: a exigibilidade dos direitos humanos diz respeito à própria implementação desses direitos. O tema é de suma importância, visto que se trata de problema grave de nosso tempo, e, de acordo com a feliz expressão de BOBBIO, não é mais declarar ou fundamentar os direitos humanos, mas sim de protegê-los com efetividade.
Para ACR, a implementação dos direitos humanos, na prática, é efetivada por meio da responsabilização do Estado infrator e de sua condenação à reparação do dano causado. Ou seja, a exigibilidade dos direitos humanos perpassa pela análise da responsabilidade interancional do Estado. Nesse ponto, insta ressaltar que existem dois modos de se constatar a responsabilidade de um Estado pela violação de seus compromissos internacionais: o modo unilateral e o modo coletivo ou institucional.
O modo unilateral é aquele pelo qual o Estado dito ofendido afirma ter ocorrido violação de seu direito e exige reparação do Estado dito ofensor. Esse mecanismo, por definição, não possui condições de admissibilidade e requisitos para julgamento como ocorre nos mecanismos coletivos. Pelo contrário, o Estado é livre para fixar as formas pelas quais analisa a responsabilidade internacional de outro Estado por violações de direitos humanos. Ou seja, o pretenso Estado ofendido transforma-se em juiz e parte, o que acarreta perda de objetividade e de imparcialidade na aferição da conduta lesiva.
Já no modo coletivo ou institucional utiliza-se de mecanismos coletivos (criados por tratados internacionais) nos quais órgãos compostos por pessoas independentes e imparciais analisam os fatos, ouvem os interessados e decidem sobre a responsabilidade internacional do Estado pretensamente infrator.
APLICABILIDADE IMEDIATA DE DIREITOS HUMANOS: Para a melhor defesa dos direitos humanos, adota-se a aplicabilidade imediata dos textos normativos às situações fáticas existentes, segundo a qual tais direitos, sob o aspecto formal (jurídico-normativo), são tendencialmente completos, ou seja, aptos a serem invocados desde logo pelo jurisdicionado. A Constituição brasileira de 1988 expressamente estabelece, em seu artigo 5º, parágrafo primeiro, que as normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata.
O Direito Internacional, por sua vez, possui regra própria (sem referência ao Direito Constitucional interno) para determinar a necessidade ou não de normas internas que regulamentem a obrigação internacional no Direito interno, que consiste em diferenciar, na seara internacional, as normas internacionais self-executing e as normas not-self executing.
No contexto internacional, a diferenciação entre normas autoaplicáveis e normas que carecem de intermediação legislativa ou administrativa interna é revelada pela própria redação da norma, que permitirá ou não a sua aplicação imediata pelo juiz nacional. Ademais, o conceito de "normas autoaplicáveis" também pode ser estendido para normas internacionais não convencionais (como exemplo, às normas consuetudinárias).
Indaga-se se o Estado seria livre para decidir se determinada norma internacional seria ou não autoaplicável. Para ACR, o entendimento do órgão internacional sobre a autoaplicabilidade ou não de norma internacional deve prevalecer sob o do órgão nacional, tendo em vista não ser este tema considerado como um "tema de Direito Interno”. Assim, uma vez em vigor a Convenção, os direitos protegidos devem ser aplicados perante todos os órgãos estatais (tribunais inclusive), sem que haja ainda a necessidade de novas leis ou atos de aplicação dos citados direitos.
Opinião Consultiva nº 7 (1986) – Foi solicitada pela Costa Rica. A Corte esclareceu que o direito de resposta deve ser protegido pelos Estados, sendo adotadas as medidas legislativas que forem necessárias, independentemente de limitações do ordenamento jurídico interno. Assim, ficou estabelecido que a Convenção Americana de Direitos Humanos é autoaplicável.
OBS: Autoaplicabilidade vs. Direitos Sociais: PIDH, ponto 3.a.
29 Objetiva – 16, I – A Corte Interamericana de Direitos Humanos, na Opinião Consultiva n. 07, decidiu que cabe aos Estados a decisão sobre a autoaplicabilidade das normas internacionais de direitos humanos. FALSO. Na referida OC, a Corte decidiu que não cabe aos Estados tal decisão.
DIMENSÃO SUBJETIVA E OBJETIVA DOS DIREITOS HUMANOS: A dimensão subjetiva consiste na dotação de direitos subjetivos aos beneficiários da proteção do Estado, quanto aos direitos humanos. Por sua vez, a partir do século XX, passou a ser reconhecida a dimensão objetiva, que parte da ideia de que os DH não funcionam apenas como mecanismos de proteção e promoção individual, cabendo ao próprio Estado uma postura proativa na tutela desses direitos, prescindindo de sujeitos a demandar uma determinada pretensão jurídica. Essa dimensão objetiva faz com que direitos humanos sejam regras de imposição de deveres, em geral ao Estado, de implementação e desenvolvimento dos direitos individuais.
A nova perspectiva impõe ao Estado uma conduta vigilante e ativa na proteção dos DH, o que gera uma série de desdobramentos, podendo ser citados como principais: (a) Eficácia vinculante: vinculação das funções estatais (executivo, legislativo e judiciário); (b) Eficácia irradiante: irradiação dos DH sobre o ordenamento jurídico, gerando uma constitucionalização do direito e uma eficácia dos direitos entre os particulares; e (c) Eficácia processual: eficácia vinculante aos processos públicos relativos a DH
Esse caráter objetivo decorre a chamada força expansiva dos direitos humanos, que consiste no fenômeno pelo qual os direitos humanos contaminam as mais diversas facetas do ordenamento jurídico. Tal fenômeno iniciou-se a partir da expansão qualitativa dos direitos humanos, com o surgimento da da constitucionalização do direito internacional, ou seja, o direito internacional mimetiza (adapta) institutos reservados ao direito interno, por exemplo, tribunais internacionais, separação dos poderes. Há, portanto, uma eficácia irradiante dos direitos humanos, que devem ser aplicados a todas as relações sociais e não somente às relações entre o indivíduo e o Estado.
Ressalte-se que a dimensão objetiva revela um dever contraído pelos Estados de fornecer um amplo arcabouço institucional no qual os direitos humanos possam florescer, a exemplo da criação de procedimentos e estruturas que previnam a ocorrência de violações de direitos protegidos.
Esses deveres de proteção e a consequente dimensão objetiva dos direitos humanos já foram reconhecidos pelo Direito Internacional. Como exemplo, cite-se o artigo 1.1 da Convenção Americana de Direitos Humanos que estabelece que o Estado fica obrigado a zelar pelo respeito dos direitos humanos reconhecidos e a garantir o exercício destes por parte de toda pessoa que é sujeita à sua jurisdição.
Por outro lado, é importante destacar a correlação existente entre dimensão objetiva com a proibição da proteção insuficiente (entendida como a dimensão positiva do princípio da proporcionalidade), uma vez que essa decorre justamente do reconhecimento dos deveres de proteção, fruto da dimensão objetiva dos direitos humanos.
Frise-se que as dimensões subjetiva e objetiva mantêm uma relação de complementariedade, traduzindo o duplo caráter, também conhecido como dupla dimensão, dupla abordagem ou duplo conteúdo (Häberle) dos direitos fundamentais.
Na jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, é possível destacar o caso Villagrán Morales e outros vs.