Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
INSTITUTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA
LARISSA DE FÁTIMA RAMALHO PEREIRA
ENTRE OMAR E A PRAÇA,
O TRABALHO ASSOCIADO DOS PESCADORES ARTESANAIS NA ECONOMIA
POPULAR SOLIDÁRIA DE NITERÓI
Niterói
2024
LARISSA DE FÁTIMA RAMALHO PEREIRA
Entre o mar e a praça, o trabalho associado dos pescadores artesanais na Economia
Popular Solidária de Niterói
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
Federal Fluminense, como requisito parcial
para obtenção do grau de Mestre em
Sociologia.
Orientadora:
Prof.ª Dra. Carolina Zuccarelli Soares
Niterói
2024
1
2
Entre o mar e a praça, o trabalho associado dos pescadores artesanais na Economia
Popular Solidária de Niterói
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
Federal Fluminense, como requisito parcial
para obtenção do grau de Mestre em
Sociologia.
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________________________________________
Professora Doutora Carolina Zuccarelli Soares
Universidade Federal Fluminense
___________________________________________________________________________
Professor Doutor André Dumans Guedes
Universidade Federal Fluminense
___________________________________________________________________________
Professor Doutor Sérgio Ricardo Rodrigues Castilho
Universidade Federal Fluminense
___________________________________________________________________________
Doutora Fátima Karine Pinto Joventino
Fundação Instituto da Pesca do Estado do Rio de Janeiro
Niterói
2024
3
mailto:carolinazuccarelli@id.uff.br
Aos pescadores artesanais da Ilha de Boa Viagem
4
Agradecimentos
Há algo aprendido quando direcionamos, de forma repetida e consistente, a escuta às
pessoas. Algo que escapa da descrição científica supostamente neutra, e que interage
continuamente na construção do laço entre pesquisador e interlocutor, nos alterando, enquanto
altera o outro também, mas não sem conflitos, dificuldades e contradições. Mais do que
produzir uma dissertação de mestrado, conhecer os pescadores artesanais aos quais dedico
essa pesquisa me ensinou a sociologia que eu quero. Agradeço a todos os marisqueiros da Boa
Viagem pelo tempo, confiança e cuidado, especialmente à Salete, Cristina, Ellen, Botinha,
Marcelão, Sandro, Fernandes e Yago, sempre receptivos, me alimentando na Ilha, me
buscando de barco em dias de maré cheia e me fazendo gargalhar enquanto me contavam a
lenda do siri de olho azul e da pedra que boia.
Minha aproximação ao grupo não seria possível sem a bolsa de extensão da Fundação
Euclides Cunha, por intermédio do Escritório Escola Engenharia e Design da UFF (E3D),
onde conheci Mariana Freitas, minha parceira de trabalho e de desabafos, que menciono em
alguns momentos do trabalho. Agradeço à professora Suzana, coordenadora do Escritório, que
confiou nas Ciências Sociais, e à Deborah Bronz, que nos guiou em alguns momentos de
desafio.
Essa dissertação não teria sido concluída se não fosse o trabalho de apoio, escuta e
incentivo da minha orientadora de anos, Carolina Zuccarelli. É impossível falar do meu
apreço à Sociologia sem mencioná-la, minha professora no primeiro ano da graduação à
orientadora no mestrado. Obrigada, Carol, por acreditar em mim.
Outras pessoas foram fundamentais ao me escutar divagar sobre os medos, anseios,
angústias e inseguranças que apenas uma autêntica nascida nos anos 1990 carrega, e é incrível
que tantas sejam da minha família: a principal de todas, minha mãe, que me lembrava de
respirar e de descansar, em vez de desistir; meu padrasto, que me incentivou à leitura e que
me permitiu acessar espaços que não seriam possíveis sem ele; minha avó, que mesmo sem
entender direito o que faço, acredita profundamente que eu sou capaz de qualquer coisa, do
mesmo jeito que meu avô faria, se estivesse aqui; e Dudu, que diariamente enuncia que sou
inteligentíssima, iluminada, especial, e que me apresentou a tanta gente que adoro.
Os meus amigos também foram incentivos inquestionáveis. Os mais recentes, que
compartilham o mesmo neurônio que eu, em especial Mariana Gondim, que figura entre as
pessoas mais inteligentes e engraçadas que eu conheço; Jorge e Vitor, amizade iniciada na
Tutoria e aprofundada entre a Cantareira, centro e zona norte do Rio de Janeiro, que me
5
fizeram chorar de rir e questionar as Ciências Sociais na mesma intensidade. Os amigos mais
antigos, na figura de Pedro Issa, que há anos ouve as minhas ladainhas, lê meus textos e me
assusta com nossa semelhança; Bia e Heitor, meus primeiros amigos da faculdade; e Luíza e
Karine, que conhecem todas as minhas versões desde meus quinze anos.
Amo vocês, obrigada, obrigada, obrigada.
6
RESUMO
O presente estudo faz uma análise da Economia Popular Solidária a partir do trabalho
associado dos pescadores e marisqueiros artesanais reunidos coletivamente na TAMBOA,
sigla para Trabalhadores Associados do Mar de Boa Viagem. Tem como objetivo analisar as
motivações para a criação da Associação e do cadastro junto ao Fórum de Economia Solidária
de Niterói, observando as possibilidades de ação coletiva e os modos pelos quais as estruturas
sociais mais amplas e a autonomia dos atores interagem entre si nas estratégias de ação social.
Para isso, utiliza como método o estudo do sentido da ação, principalmente a partir do
conceito de experiência social desenvolvido por Dubet, para observar as diferentes formas de
participação na Economia Solidária, em especial o processo de integração dos pescadores
artesanais ao aparato organizacional e produtivo da Economia Solidária do município. Nesse
sentido, o trabalho inova ao ter como foco a análise sobre a experiência dos pescadores
artesanais, grupo historicamente tutelado e marginalizado pelo poder público, para observar o
sentido que esses atores dão às suas práticas. O estudo apresenta uma revisão sistemática da
bibliografia sobre economia solidária e demais conceitos associados a essa temática para em
seguida mostrar os resultados das entrevistas realizadas com os pescadores membros da
TAMBOA e do trabalho etnográfico realizado ao longo de quase dois anos no Fórum, na Ilha
de Boa Viagem e no Morro do Palácio, em Niterói, no Rio de Janeiro. Os resultados indicam
que a coletivização do trabalho não suscitou fortes laços associativos, como ensejado por
parte dos autores referência na área, assim como nas legislações sobre as políticas municipais
e estaduais sobre esse tipo de atividade econômica e social. Contudo, a formalização da
Associação trouxe benefícios para o grupo analisado, principalmente no que tange ao direito à
memória e ao território, sendo reconhecidos institucionalmente e conquistando a promulgação
do decreto municipal nº15.058, de setembro de 2023, que reconhece os marisqueiros da Ilha
de Boa Viagem como comunidade tradicional da cidade de Niterói.
Palavras-chave: Pescadores Artesanais; Niterói; Economia Solidária.
7
ABSTRACT
The present study analyzes the Solidarity Economy from the associated work of artisanal
fishermen collectively gathered in TAMBOA, an acronym for Trabalhadores Associados do
Mar de Boa Viagem. Its objective is to analyze the motivations behind the creation of the
Association and its registration with the Fórum de Economia Solidária de Niterói, observing
the possibilities of collective action and the ways in which broader social structures and the
autonomy of actors interact in social action strategies. To do this, it uses the method of
studying the meaning of action, mainly based on the concept of social experience developed
by Dubet, to observe the different forms of participation in the Solidarity Economy, especially
the process of integrating artisanal fishermen into the organizational and productive apparatus
of the municipality's Solidarity Economy. In this sense, the work innovates by focusing on the
analysis of theexperience of artisanal fishermen, a group historically tutored and
marginalized by the public authorities, to observe the meaning that these actors give to their
practices. The study presents a systematic review of the literature on solidarity economy and
other concepts associated with this theme to then show the results of the interviews conducted
with the fishermen members of TAMBOA and the ethnographic work carried out over almost
two years at the Fórum, on Ilha de Boa Viagem, and on Morro do Palácio, in Niterói, Rio de
Janeiro. The results indicate that the collectivization of work did not generate strong
associative ties, as envisaged by some authors referenced in the area, as well as in the
legislation on municipal and state policies regarding this type of economic and social activity.
However, the formalization of the Association brought benefits to the analyzed group, mainly
regarding the right to memory and territory, being institutionally recognized and achieving the
promulgation of municipal decree no. 15,058, of September 2023, which recognizes the
artisanal fishermen of Boa Viagem Island as a traditional community of the city of Niterói.
Key words: Artisanal Fishermen; Niterói; Solidarity Economy.
8
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO...................................................................................................................14
2. “UMA COISA É A CASA AZUL, OUTRA COISA É O FÓRUM”: A ECONOMIA
POPULAR SOLIDÁRIA NA ESTRUTURA DA ASSISTÊNCIA SOCIAL.................... 27
2.1. O que é Economia Popular Solidária........................................................................... 28
2.2. Histórico da Economia Solidária no Brasil..................................................................33
2.3. O Fórum de Niterói: “uma coisa é a Casa Azul, outra coisa é o Fórum”.................... 39
2.2.3. O centro público de referência em Economia Solidária de Niterói.......................... 42
3. ONDE ESTÃO OS PESCADORES? A ESTRUTURA DE ORGANIZAÇÃO E
ATUAÇÃO DO FÓRUM DE ECONOMIA SOLIDÁRIA DE NITERÓI.........................47
3.1. A divisão das atividades...............................................................................................50
3.1.1. Os cadastrados...........................................................................................................52
3.1.2. A plenária..................................................................................................................62
3.1.3. A Secretaria Executiva..............................................................................................69
3.1.4. Os Grupos de Trabalho Estruturantes e Temáticos................................................... 72
3.2. A praça......................................................................................................................... 75
4. O TRABALHO ASSOCIADO DOS PESCADORES ARTESANAIS DE NITERÓI.. 78
4.1. Os pescadores da Ilha de Boa Viagem: A TAMBOA, criação e motivações...............79
4.1.2. Etapas de trabalho: organização social e interesses para a associação..................... 85
4.2. Boa Viagem: do vazio identitário ao lócus cultural..................................................... 89
4.4. A ligação da pesca artesanal com o Morro do Palácio.................................................94
4.5. A TAMBOA e o Fórum de Economia Solidária de Niterói.........................................95
4.6. “Aqui também é do Palácio”: os pescadores da Ilha de Boa Viagem e as disputas a
partir do território e patrimônio...........................................................................................97
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................... 101
Referências bibliográficas.................................................................................................... 105
9
LISTA DE IMAGENS
Imagem 1 - Organização do Fórum de Economia Solidária de Niterói a partir dos Grupos de
Trabalho estruturantes e Conselho de Integração………………………………………… p. 71
Imagem 2 - Marisco crescendo na pedra …………………………………………………. p. 85
Imagem 3 - Bay Market e Associação Pescadores e Amigos de São Pedro (APASP)........ p. 88
Imagem 4 - Morro do Palácio…………………………………………………………….. p. 91
Imagem 5 - Intervenção Artística no Museu de Arte Contemporânea (MAC)................... p. 92
10
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Tipo de rendimento obtido com o empreendimento………………………….. p. 55
Gráfico 2 - Grau de Escolaridade dos associados no Fórum de Economia Solidária de Niterói
até dezembro de 2023……………………………………………………………………... p. 56
Gráfico 3 - Renda familiar dos associados ao Fórum…………………………………….. p. 57
Gráfico 4 - Renda familiar por grau de escolaridade……………………………………... p. 57
Gráfico 5 - Tipo de rendimento obtido com o empreendimento de Economia Solidária por
grau de escolaridade………………………………………………………………………. p. 58
Gráfico 6 - Tipo de rendimento obtido com o empreendimento de Economia Solidária por
sexo e cor/raça do associado……………………………………………………………… p. 60
Gráfico 7 - Grau de escolaridade para os associados com quatro ou mais presenças em
plenárias ………………………………………………………………………………….. p. 65
Gráfico 8 - Tipo de rendimento obtido com o empreendimento econômico solidário para os
associados com quatro ou mais presenças em plenárias ………………………………… p. 66
11
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Variável de segmento………………………………………………………… p. 53
12
LISTA DE ABREVIATURAS
ANTEAG - Associação Nacional de Trabalhadores e Empresas de Autogestão
APASP - Associação dos Pescadores e Amigos de São Pedro
E3D - Escritório Escola Engenharia e Design
ECOPOPSOL - Programa de Economia Popular Solidária
ES - Economia Solidária
FEC - Fundação Euclides da Cunha
FES-NIT - Fórum de Economia Solidária de Niterói
FIPERJ - Fundação Instituição da Pesca do Estado do Rio de Janeiro
FUNBIO - Fundo Brasileiro Para a Biodiversidade
IPI - Instituições Parceiras Incubadoras
NQQ - Niterói Que Queremos
PDPA - Programa de Desenvolvimento de Projetos Aplicados
TAMBOA - Trabalhadores Associados do Mar de Boa Viagem
SAEC - Secretaria de Ações Estratégicas e Economia Criativa
SIES - Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária
SENAES - Secretaria Nacional de Economia Solidária
SMASES - Secretaria Municipal de Assistência Social e Economia Solidária
13
1. INTRODUÇÃO
Economia Solidária (ES) é um conceito utilizado para descrever um certo tipo de
atividade econômica e social, se referindo aos trabalhadores reunidos em associações
produtivas de autogestão democrática e propriedade comunitária de capital. Algumas
definições entendem que se trata de um modo de produção alternativo ao capitalismo e que
defende a sustentabilidade, melhores condições de vida, trabalho e direitos igualitários para as
minorias sociais. Para isso, reconhece como legítimas apenas as cadeias produtivas sem
exploração da mão de obra, em que se conhecem todas as etapas da produção e se retiram os
atravessadores, aproximando os produtores dos consumidores, por um lado, e os trabalhadores
da sua própria produção, por outro.
No entanto, não há um consenso estabelecido sobre a caracterização exata desse tipo
de economia, e as delimitações de suas fronteiras têm se dado por meio de seus militantes,
conforme os acordos de cada coletivo ou Fórum, e/ou através das definições jurídicas que se
propagaram no final do século XX e início dos anos 2000. Os teóricos costumam se dividir
em três tipos de análise, cujas visões escalam entre o reconhecimento do potencial
revolucionário, o entendimento de um modo de produção legítimo alternativo às crises
capitalistas, chegando até os que negam seus pressupostos políticos. De todo modo, as
principais críticas sobre os empreendimentos econômicos solidários dizem respeito à sua
escassa capacidade de resistir em meio à concorrência capitalista, o que diminui a vida útil e o
potencial de expansão desses negócios.
O início do século XXI foi o período de maior intensidadedo debate sobre o tema na
agenda pública, científica e política no Brasil, em que mais de um milhão de pessoas estavam
envolvidas em atividades desse tipo (Gaiger, 2013). Nesse momento, intensificaram-se os
efeitos da urbanização e do crescimento das cidades no país, ao mesmo tempo em que
iniciavam-se algumas das transformações no mundo do trabalho que seriam acirradas nas
décadas seguintes, com a desaceleração econômica brasileira, alterações nas leis trabalhistas e
popularização do ideário empreendedor. Apesar da informalidade nos postos de trabalho ser
uma marca das economias do sul global, essas e outras alterações trazem novos impactos aos
indivíduos, que acumulam diferentes ocupações para assegurar a sobrevivência. O estudo
sobre as atividades autodefinidas como economicamente solidárias pode indicar as relações
com o mercado de trabalho formal, mas, mais que isso, é capaz de pavimentar algumas
reflexões sobre a identidade e integração social com o conjunto mais amplo de agentes que
identificam na Economia Solidária uma estratégia de atuação, conscientemente ou não.
14
Um dos grupos sociais especialmente atingidos pelas mudanças nos modos de vida
decorrentes da urbanização recente são as comunidades tradicionais, definidas pelo decreto
6.040, de 2007, como “grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais,
que possuem formas próprias de organização social, que ocupam e usam territórios e recursos
naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica”
(Brasil, 2007). Entre esses povos estão os pescadores artesanais, que, como aponta Bronz
(2023), são tão diversos como a extensa costa brasileira. Apesar disso, existem fatores que
constroem a sua identidade coletiva e que permitem o reconhecimento entre eles, como a
estreita relação com o ideal de liberdade e autonomia de quem vive entre a água e a terra,
garantido pelo respeito que nutrem pelo mar, causador de incertezas (Bronz, 2023). A
sensação de invisibilidade e marginalização ocasionada pela perda do direito aos seus
territórios também é uma condição que aproxima os pescadores artesanais e demais povos
tradicionais, como aponta Almeida (2004), podendo ser fundamental para a criação de
movimentos de ação coletiva.
Em Niterói, os pescadores artesanais estão presentes em quase todas as praias, da Baía
à Região Oceânica. O município possui quase 500 mil habitantes e apenas 13 quilômetros de
distância ao Rio de Janeiro graças à Ponte Rio Niterói, que permite aos habitantes de ambas as
cidades realizarem migrações pendulares em decorrência de suas ocupações de trabalho ou
estudo. No estado fluminense, Niterói ocupa um lugar de destaque, principalmente por conta
de seus indicadores sociais e econômicos positivos, que a colocam na sétima posição de maior
IDH no Brasil, tendo um rendimento mensal médio de 3,1 salários mínimos, superior às taxas
nacionais (IBGE, 2023). Esses indicadores, entretanto, são alçados pelos habitantes dos
principais bairros da região , como Boa Viagem, Ingá, Icaraí, São Domingos, São Francisco e
Charitas. Neste trabalho, os pescadores artesanais aos quais me refiro dizem respeito ao grupo
que tem como território de atuação, trabalho e práticas socioculturais a Ilha de Boa Viagem.
Moradores do Morro do Palácio, uma das principais favelas da cidade, os pescadores deste
grupo se dedicam principalmente à coleta do mexilhão.
Autodenominados marisqueiros artesanais, a prática extrativista depende de fatores
externos, sendo afetados pelas mudanças climáticas e por crimes ambientais como o
derramamento de óleo nas bacias em decorrência da exploração petroleira, que alteram a
qualidade da água e a diversidade das espécies marítimas. Em 2011 e 2012, a Bacia de
Campos foi atingida pelo derramamento de óleo no Campo Frades, resultado da atuação da
petrolífera Chevron na área. Esse evento gerou um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre a
empresa e o Ministério Público Federal, celebrado em 2015, destinando 95 milhões de reais
15
para ações de compensação ambiental. Um dos projetos financiados pelo TAC fomentou a
formalização de associações de pescadores artesanais de Niterói e São Gonçalo. Entre elas,
estão os Trabalhadores Associados do Mar de Boa Viagem, sigla para TAMBOA, coletivo que
reúne o grupo de marisqueiros ao qual esta pesquisa se refere.
Entre 2022 e 2023, a TAMBOA se associou ao Fórum de Economia Solidária de
Niterói (FES-NIT), criado no início de 2009, no lastro da reinvenção desse tipo de economia
(Singer, 2002), para representar e articular informações, saberes e práticas do movimento de
Economia Solidária no município. Observando os distintos grupos sociais que ocupam o
Fórum, e que, pela sua diversidade, apresentam demandas e interesses variados, o objetivo
dessa pesquisa é entender os motivos que levam à associação dos pescadores artesanais à
TAMBOA, em um primeiro momento, e ao Fórum, sequencialmente. Um dos intuitos, assim,
é ponderar se a diversidade dos associados à organização interfere na capacidade de
integração e articulação política.
O interesse no tema surgiu a partir da minha atuação enquanto bolsista no projeto de
extensão Escritório Escola de Engenharia e Design (E3D) da Universidade Federal
Fluminense. O E3D é um dos projetos financiados pelo Programa de Desenvolvimento de
Projetos Aplicados (PDPA), fruto da parceria entre a prefeitura de Niterói e a UFF por meio
da Fundação Euclides Cunha (FEC)1. Buscando incentivar inovação e desenvolvimento
sustentável por meio de assessorias a pequenos negócios sediados em Niterói e municípios
limítrofes, o Escritório tem uma maioria de alunos - voluntários e bolsistas - das engenharias e
ciência da computação. A chamada para alunos das Ciências Sociais foi uma tentativa de
estimular uma atuação interdisciplinar e de reflexão sobre o próprio fazer do E3D.
Inicialmente, o meu papel como mestranda em sociologia seria analisar o impacto do projeto
na formação em engenharia, dada a minha experiência anterior na Sociologia da Educação.
Entretanto, alguns fatores contribuíram para que eu me aproximasse especificamente do
Fórum, uma das iniciativas apoiadas pelo Escritório desde 2021: a rotina no E3D permanecia
sendo majoritariamente online, dificultando a convivência entre os bolsistas e a minha
observação sobre o grupo; além disso, a própria organização atrapalha a integração dos
alunos, uma vez que, em geral, cada um fica responsável pelo seu projeto, em conjunto com o
seu orientador; em contrapartida, as demandas do movimento de Economia Solidária
pareceram muito mais concretas e ao meu alcance, já que desde o início pude participar de
1 O PDPA foi criado em 2020 e destinou 25 milhões de reais para financiar projetos da UFF que
visassem resolver problemas públicos da cidade, alinhados às diretrizes do plano Niterói que
Queremos, que dá centralidade aos ideais de sustentabilidade, tecnologia, informação, alinhados aos
objetivos da Organização das Nações Unidas (ONU). (Seplag, 2020)
16
reuniões presenciais com as coordenadoras de feiras, bem como observar as práticas de
comercialização, formação e cadastro. Além disso, a participação e consequente vitória do
Partido dos Trabalhadores nas eleições presidenciais do final de outubro de 2022 fez revigorar
o debate sobre esse tipo de economia, que voltou a fazer parte da estrutura do Ministério do
Trabalho como um projeto de ação coletiva desenhado pelo governo central, com tradição na
proposta.
A mudança do tema da minha pesquisa e a atuação junto a um escritório de engenharia
foram dificuldades que se impuseram no meio do primeiro semestre do mestrado.
Paralelamente a tentar entender e defender o lugar da sociologia em uma atividade
extensionista de um curso de exatas, tive que me aprofundar em temáticas que até então
ficavam restritas ao meu interesse pessoal, um campo de curiosidade atiçado pela minha
experiência familiar. Anos antes, na graduação, tinha tentado meaproximar de uma
incubadora que prestaria serviços à Economia Solidária. O projeto foi abandonado antes
mesmo de começar, muito em consequência da deflagração da pandemia. Assim, apesar de ter
focado minhas pesquisas e estudos em outra área, a sociologia econômica e a curiosidade
sobre o que alguns chamam de “economia alternativa” me acompanham há algum tempo,
talvez antes mesmo da entrada no curso de Ciências Sociais: minha família nuclear é forjada e
sustentada por meio do trabalho manual e artesanal, passado da minha avó para os meus tios e
minha mãe. A vida no meio de máquinas de costura, de fios encerados, da semente do açaí
trabalhada e da venda em praças, feiras e atacados me permitiu descobrir um tipo de trabalho
e de geração de renda que não depende da relação patronal, mas da relação familiar e da
capacidade inventiva das classes trabalhadoras; e da economia que é feita e refeita diária e
continuamente, mas que só é visível de baixo para cima.
Os principais espaços de venda dos bens e produtos dos associados ao Fórum
compõem o Circuito Araribóia de Feiras, que acontecem nas praças, nas praias e nos
hortos/parques, alterando, assim, a paisagem urbana e o modo de relação dos indivíduos com
a cidade. Nesse sentido, o Fórum serve ao princípio de articulação entre os produtores de
Economia Solidária e é administrado por uma cogestão do movimento social e da Secretaria
Municipal de Assistência Social e Economia Solidária (SMASES). A associação ao FES-NIT
depende da realização de cadastro presencial junto a essas duas frentes, e é uma das etapas
para participar dos espaços de comercialização. Além disso, de modo a assegurar que os
ingressantes se alinhem aos pressupostos do movimento, eles devem realizar uma formação
17
nos princípios da Economia Solidária2 e ter a presença contabilizada em, no mínimo, três
plenárias3. Assim, há o entendimento de que a própria interação com o grupo faz parte do
percurso formativo dos membros. No momento do cadastro, os ingressantes precisam
comprovar a produção de algum bem e/ou serviço a ser comercializado, o que, em tese,
garantiria que não houvesse revenda no circuito econômico solidário para proteger o
pressuposto fundamental de se estabelecer relações de produção justas.
A estrutura organizacional corresponde à divisão de membros interessados em
coordenar atividades nos seguintes Grupos de Trabalho: comercialização, comunicação,
formação, finanças solidárias, articulação institucional e marco legal, cultura, gastronomia,
pesca artesanal, agricultura familiar, mulheres, reciclagem, ações solidárias e sustentabilidade.
Todos os GTs são associados ao conselho de integração, que é ligado à Secretaria Executiva,
cujos representantes são escolhidos pela plenária. A plenária ocorre mensalmente para discutir
assuntos ligados às atividades de gestão e coordenação do Fórum, e sempre é iniciada pela
pauta referente à formação, para garantir a continuidade da educação nos termos da Economia
Solidária. Os encontros acontecem sempre às primeiras segundas-feiras do mês, das 14 às 17
horas, em endereço a ser confirmado momentos antes por meio dos grupos do WhatsApp,
principal forma de comunicação entre os associados. Essa agenda impossibilita a participação
de diversos membros, já que se encontram em horário de trabalho; e o modo de divulgação
dos eventos por meio desse aplicativo de mensagens dificulta o acesso às informações, já que
se misturam com as outras interações dos participantes. As plenárias não acontecem na sede
dado o seu espaço físico limitado, com apenas três salas (uma para os trabalhadores da
prefeitura, outra para o cadastro, e a terceira para realização de cursos e oficinas, mas que
comportam um público reduzido) e uma loja, que exibe alguns produtos dos trabalhadores
associados.
A participação em reuniões com as coordenadoras das feiras de Economia Solidária, a
formação nos princípios do movimento, o acompanhamento das plenárias e a presença na
sede do Fórum facilitaram meu contato com o campo, aguçando o meu interesse como
pesquisadora. Isso aconteceu porque foi possível observar, desde o primeiro momento, as
tensões entre teoria e prática, por um lado, e entre os membros, a gestão do movimento e a
secretaria municipal, por outro. Em um primeiro momento, o apoio do Escritório ao Fes-Nit
se deu com atuação de alunas da graduação em Ciência da Computação no desenvolvimento
3 Após uma presença, permite-se a participação na condição de “expositor visitante”.
2Além dos produtores, membros que participem como Entidades de Apoio também precisam passar
por essa formação.
18
de um formulário online que funcionava como forma de cadastro no cenário de
distanciamento social por conta da pandemia do Coronavírus. A minha entrada em campo, em
meados de 2022, se relaciona, de certa forma, tanto ao novo fôlego do Fórum a partir da
promulgação da lei nº 3.473, de 2020, que dispõe sobre a política municipal de economia
popular solidária, quanto pelo crescimento do Fórum no auge da pandemia. A lei foi
promulgada em janeiro, ou seja, antes da deflagração da pandemia. Entretanto, os programas
de auxílio criados durante esse período contemplavam os trabalhadores de economia solidária,
por meio do Busca Ativa4, o que pode ter motivado a associação ao Fórum para além do
aceite das premissas do movimento. Além disso, a possibilidade de participar das feiras do
circuito também parece ser uma das motivações para a entrada no Fórum e que extrapola o
entendimento sobre os seus objetivos, como o apoio e visibilidade ao movimento nacional
pela Economia Solidária.
Nesse sentido, a minha presença na rotina do Fórum permitiu identificar diferentes
motivações para distintos grupos sociais decidirem pela associação em determinadas
atividades de produção e organização. O trabalho vai observar as diferenças e semelhanças a
partir da divisão social do trabalho, e como impactam na própria forma de organização do
Fórum. Aqui, nos cabe indagar se o modo de organização dos diferentes grupos fortalece ou
enfraquece o uso do espaço, isto é, se existe algum efeito dessa apropriação diversa na coesão
do movimento e, consequentemente, na capacidade de articular maiores capacidades de
divulgação dos seus objetivos e, assim, de venda dos produtos, o que impactaria
especialmente aqueles que tem na associação ao Fórum a única fonte de renda. O grupo que
se concentra na produção da costura criativa dentro do ramo do artesanato, por exemplo, é
marcadamente feminino, com algumas idosas e pensionistas do INSS que utilizam sua
atividade no Fórum com objetivos que extrapolam os ganhos econômicos. Muitas artesãs
entendem a dinâmica do trabalho como constituinte de sua autonomia emocional e como
formação de sua experiência para além do que lhes foi imbuído a vida toda, entendendo o
espaço da Economia Solidária como um escape das obrigações do papel de mãe, esposa e,
portanto, de cuidadora dos laços familiares e conjugais. Nessa visão, a emancipação está
relacionada aos novos laços que se constituem na vivência das feiras; assim, as relações
4 “Os programas Renda Básica Temporária e Busca Ativa beneficiam cerca de 50 mil famílias
niteroienses, com um auxílio de R$ 500 por mês. O Renda Básica Temporária contempla famílias em
situação de vulnerabilidade social inscritas no CadÚnico e famílias de alunos da rede municipal de
ensino que não estão inscritas no CadÚnico. Já o Busca Ativa é destinado a grupos de pessoas que
exercem atividades produtivas específicas, que possuem cadastro no Município, como vendedores
ambulantes regularizados, artesãos, trabalhadores da economia solidária, catadores de recicláveis,
produtores agroecológicos e quiosqueiros” (Prefeitura Municipal de Niterói, 2022).
19
fundadas na divisão das barracas e no compartilhamento de dificuldades, dicas e conselhos
importam mais do que as vendas dos produtos; e mais do que se opor conscientemente à
racionalidade capitalista. Isso significa dizer que muitasnão se entendem enquanto ativistas,
quase negando a ideia da Economia Solidária enquanto movimento social, mas em acordo
com algumas das premissas, como as ideias de cooperação e solidariedade. Essas ideias,
entretanto, são difusas e motivam alguns dos questionamentos sobre a aderência aos ideais do
movimento de Economia Solidária encontrados no segundo capítulo do trabalho.
Entretanto, compartilhar o local de comercialização é uma maneira de ultrapassar o
modo de produção individual, restrito à esfera doméstica, e, de algum modo, ultrapassar os
papéis sociais assumidos por elas até então. As feiras do circuito econômico solidário, por seu
respaldo legal junto à prefeitura de Niterói, são entendidas como um local seguro, que as
possibilitam complementar renda, mas mais que isso, as permitem acessar um espaço de
criação, criatividade e movimento que até então desconheciam. Além disso, essas feiras
demandam um investimento relativamente baixo quando comparadas a outras feiras do Rio de
Janeiro: em torno de trinta reais por barraca, com a possibilidade de dividir os custos e o
espaço. A partir de 2023, a prefeitura passou a ceder trinta barracas gratuitamente, cenário que
o movimento tenta ampliar para que a gratuidade seja estendida integralmente.
Já o grupo de pescadores artesanais permanecia diminuto quando da minha entrada em
campo, sendo, em um primeiro momento composto por coordenadores que visavam
aproximar os marisqueiros e pescadores da cidade, em especial dos bairros de Boa Viagem,
Piratininga e Jurujuba ao Fórum de Economia Solidária de Niterói, associados ao trabalho de
diversos órgãos e setores, como professores das Universidades e Institutos Federais, militantes
e pesquisadores do tema. Um desses setores, entretanto, é relacionado à atividade Pesca
Solidária, projeto de Educação Ambiental que é financiado pela empresa PRIO, antiga
PetroRio, que detém os ativos do campo do Frade, na bacia de Campos, como parte da medida
compensatória do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) Frade5. O gestor financeiro é o
5 “A PRIO comprou a participação de 51,74% da major norte-americana no ativo em 2019 e tornou-se
proprietária de 100%, após a compra das participações de 18,26% e 30%, respectivamente, da Frade
Japão e da Petrobras”. A petroleira americana Chevron foi a responsável pelo vazamento de três mil e
setecentos barris de óleo a 1200 metros de profundidade no campo de Frades, ocorrido no final de
2011. A empresa cometeu diversas fraudes e falhas nos planos de emergência, sendo punida e
impedida de continuar a exploração de petróleo no Brasil duas semanas após o início do vazamento.
Uma das acusações por crime ambiental se refere ao afundamento de óleo no lugar de sua retirada.
Entretanto, apesar de ter causado outro vazamento no início de 2012, no ano seguinte a Chevron
recuperou o direito de produzir petróleo no país. Atualmente, quem controla a exploração na bacia é a
PRIO, financiando o projeto de Educação Ambiental da Pesca Solidária como medida de compensação
aos danos sofridos pela comunidade pesqueira. Bnamericanas, 20 de julho de 2022. Disponível em
20
Funbio, que coloca como objetivo do projeto “a conservação da biodiversidade na zona
costeira e marinha, o uso sustentável dos recursos pesqueiros e a resiliência da pesca
artesanal” (FUNBIO, Educação Ambiental, 2017). O subprojeto Preventório -
Desenvolvimento da Pesca
tem como pilar o princípio da economia solidária, buscando acolher e potencializar
a atividade pesqueira artesanal na disputa que ela trava com a pesca industrial. Com
a lógica da colaboração, a economia solidária se antagoniza à competição que
norteia a disputa na economia de mercado. O objetivo geral da proposta é apoiar
organizações de pescadores de Niterói (...) e São Gonçalo (...), buscando fortalecer
seu processo produtivo, de comercialização e estruturação da cadeia de valor
(FUNBIO, Educação Ambiental, 2017).
Como parte do meu trabalho no E3D, e junto às colegas de Ciências Sociais, iniciei o
processo de cadastramento dos trabalhadores ao Fórum, participando, inicialmente, das
reuniões semanais da associação dos marisqueiros de Boa Viagem, a TAMBOA, entrada
possibilitada por meio da interação com os coordenadores do Projeto Pesca Solidária. Essa
interação só foi possível graças ao trabalho realizado no FES-NIT, dado que esses
coordenadores também atuam como Entidade de Apoio na organização das Plenárias e
percursos formativos. No campo, foi possível observar várias demandas que dizem respeito à
questões ambientais e ao direito à cidade, especialmente no que tange à especulação
imobiliária e à resistência das comunidades tradicionais. A integração dos marisqueiros ao
aparato organizacional da Casa Azul é lenta, sendo atravessada por certa relutância, uma vez
que eles desejam se associar ao Fórum desde que comprovadamente dele retirem algum
benefício jurídico e/ou econômico. Assim, apesar de terem tido aulas e cursos de
cooperativismo, dos princípios da economia solidária e das influências dos coordenadores, em
um incentivo direto para a associação acontecer, os marisqueiros entendem que suas questões
prioritárias não se relacionam nem ao Fórum, nem ao movimento nacional da Economia
Solidária.
Essas demandas são especialmente interessantes quando consideramos o local de
moradia e trabalho desses trabalhadores, assim como sua cor/raça: são um dos últimos grupos,
de maioria negra, que resistiram à especulação imobiliária da orla de Boa Viagem, que hoje se
configura como um dos espaços mais elitizados da cidade, sendo um dos bairros com metro
quadrado mais valorizado no mercado imobiliário do município (CRECI/RJ, 2014). Os
pescadores artesanais residem no Morro do Palácio, comunidade que integra os bairros do
Ingá e Icaraí, próxima ao centro da cidade e aos campi da UFF. A busca por regulamentação
https://www.bnamericas.com/pt/noticias/prio-quer-emitir-debentures-para-projeto-offshore. Acesso em
10 de fevereiro de 2023.
21
https://www.bnamericas.com/pt/noticias/prio-quer-emitir-debentures-para-projeto-offshore
das atividades econômicas se integra ao desejo de valorização de suas práticas, bem como
pelo aumento do retorno comercial/financeiro e de defesa das acusações de moradores do
asfalto, que os confundem com “mendigos” e os acusam de sujar a praia. Frente a essas
acusações, e em resposta a problemas que são típicos do capitalismo contemporâneo, a
decisão de se unir enquanto grupo por meio da fundação de uma associação traduz um dos
propósitos da Economia Solidária na qualidade de movimento social, mas os marisqueiros,
em um primeiro momento, não veem sentido no uso do Fórum, e decidem pela associação por
meio dos incentivos, influências e financiamentos do projeto Pesca Solidária, o que não se
deu sem conflitos.
O conceito de classe é um tema clássico da sociologia, e tem sido utilizado de
maneiras diversas a depender das escolas e tradições teóricas. Atualmente, alguns autores
discutem se ainda é relevante falar sobre classe, dado a complexificação do mundo social e da
perda de sentido associada à construção da identidade em termos de trabalho e atividades
econômicas (Wright, 2015). Entretanto, a própria definição de classe social pode dizer
respeito a esferas que ultrapassam à produtiva, mas que ainda a compõem, sendo importante
instrumento para observar tendências de comportamento, de oportunidades de vida e de
preferências políticas, culturais e de consumo. Isso significa dizer que uma análise de classe
deve levar em conta as características de raça e gênero que estruturam a organização social,
especialmente no Brasil, que tem em sua formação econômica um
desenvolvimento desigual e dependente [que] mescla e integra momentos históricos
diversos. E, em termos de superpopulação relativa, é importante ressaltar que ocorre na
constituição desse sistema não somente um exército industrial de reserva, mas uma massa
marginal crescente, em face do mercado de trabalho do setor hegemônico.Ora, na medida
em que existe uma divisão racial e sexual do trabalho, não é difícil concluir sobre o
processo de tríplice discrimnação sofrido pela mulher negra (enquanto raça, classe e sexo),
assim como sobre seu lugar na força de trabalho. (González, 2020, p. 56)
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2021, tanto em
relação à taxa de ocupação, quanto aos rendimentos do trabalho, a população branca apresenta
índices sistematicamente superiores à população negra, independentemente do nível de
instrução6. A informalidade típica dos países do sul global atinge desproporcionalmente esse
6“Em 2021, a taxa de desocupação foi de 11,3% para pessoas brancas, contra 16,5% para pessoas
pretas e 16,2% para pessoas pardas. Em relação à taxa de subutilização, as pessoas brancas
registraram 22,5%, contra 32,0% para pretas e 33,4% para pardas. Em todos os anos estudados, a
22
grupo, e de forma específica as mulheres, parcela mais afetada pela pandemia do coronavírus:
de 2019 para 2020, a taxa de desocupação feminina foi de 13,9% para 16,8%. Para as
mulheres negras, essa taxa foi de 19,8% contra 13,5% para as não negras (IBGE, 2020). No
Fórum de Niterói, a força de trabalho feminina também é maioria, correspondendo a 87,36%
dos cadastrados entre 2021 e 2022; destas, 55% são negras, contra 40,5% de brancas (Ecosol,
2023)7. O caráter persistente das desigualdades é um dos aspectos a ser considerado na
definição sociológica de classes sociais, uma vez que os padrões de mobilidade
intergeracional fazem parte da análise sobre o modo que as classes sociais se estruturam
(Ribeiro, 2014).
Levando em consideração a centralidade da classe como mecanismo de compreensão
do comportamento dos indivíduos, o debate aqui estabelecido não se reduz somente à renda e
ao tipo de ocupação, mas incorpora a dimensão simbólica, já que a reprodução das
desigualdades através da legitimação de um estilo de vida específico é fundamental para
garantir a distinção entre os grupos. Essa dimensão é importante para uma análise sobre a
mobilização dos indivíduos em um movimento de ação coletiva como o da economia
solidária. Isso acontece porque a defesa por um estilo de vida que se coloca em oposição aos
ideais de uma sociedade de mercado faz com que a discussão sobre os valores simbólicos seja
central no desenvolvimento do trabalho. Por isso, a conceituação de classes de Bourdieu
parece ser a mais adequada para os objetivos aqui pretendidos, já que sua análise incorpora a
formação de coletividades através das ideias de diferenciação e oposição no campo social a
partir dos estilos de vida e da posição objetiva no mercado de trabalho:
A classe social não é definida por uma propriedade (mesmo que se tratasse da mais
determinante, tal como o volume e a estrutura do capital), nem por uma soma de
propriedades (sexo, idade, origem social ou étnica - por exemplo, parcela de brancos e de
negros, de indígenas e de imigrantes, etc -, remunerações, nível de instrução, etc.),
tampouco por uma cadeia de propriedades, todas elas ordenadas a partir de uma
propriedade fundamental - a posição nas relações de produção -, em uma relação de causa e
efeito, de condicionante a condicionado, mas pela estrutura das relações entre todas as
propriedades pertinentes que confere seu valor próprio a cada uma delas e aos efeitos que
ela exerce sobre as práticas. (...) trata-se também de apreender a origem das divisões
objetivas, ou seja, incorporadas ou objetivadas em propriedades distintivas, com base nas
quais os agentes têm mais possibilidades de se dividirem e de voltarem a agrupar-se
7 Antes do cadastramento dos pescadores.
desocupação e a subutilização foram sistematicamente inferiores para as pessoas de cor ou raça
branca” (IBGE, 2021).
23
realmente em suas práticas habituais, além de se mobilizarem ou serem mobilizados - em
função, é claro, da lógica específica, associada a uma história específica, das organizações
mobilizadoras - pela e para a ação política, individual ou coletiva (Bourdieu, 2011, p. 101).
O autor também demarca o caráter multidimensional da dominação no mundo social,
indo além dos aspectos econômicos e culturais, observando outros elementos geradores de
desigualdade responsáveis por estratificar os diferentes grupos sociais, como a questão
regional, de raça e de gênero, como demarca Weininger:
A classe tem que competir em pé de igualdade, e a arena simbólica se torna muitíssimo
mais cacofônica, por assim dizer, espacialmente dada a rígida e durável codificação
alcançada por princípios de divisão tais como gênero e raça em certas sociedades. Isso é
tanto mais verdadeiro porque as combinações de dominação geradas pela intersecção de
diferentes princípios classificatórios não podem mais ser interpretadas de forma automática
em termos predominantemente de classe (Weininger, 2014, p. 127).
Desse modo, observando o objetivo de inclusão social como método de combater as
desigualdades no movimento pela economia solidária, o trabalho visa responder a efetividade
do Fórum enquanto movimento de economia solidária considerando os usos e sentidos dados
pelos diferentes grupos sociais e como ele reflete a estrutura social mais ampla, considerando
as diferentes motivações de organização nas atividades produtivas e nos GTs a partir do
sentido social que os atores dão às suas práticas. O conceito de experiência social é basilar
para o desenvolvimento da pesquisa em um nível metodológico, e aqui se refere aos
postulados de Dubet (1994) principalmente sobre como essa noção permite identificar a
heterogeneidade das lógicas da ação, dado que a multiplicidade de experiências na sociedade
contemporânea inaugura um certo conflito na assunção de papéis unos. Isso significa admitir
a quase completa ambiguidade dos atores, por um lado, e também dos próprios movimentos
sociais, por outro, o que “se poderá considerar como a autonomia do indivíduo” (Dubet, 1994,
p. 98). Dito de outro modo, a construção da identidade não é mais restrita a esferas
específicas, mas está relacionada à diversidade de experiências disponíveis:
A experiência social forma-se no caso em que a representação clássica da sociedade já não
é adequada, no caso em que os atores são obrigados a gerir simultaneamente várias lógicas
da ação que remetem para diversas lógicas do sistema social, que não é então já “um”
sistema, mas a co-presença de sistemas estruturados por princípios autônomos (Idem, p.
94).
24
A rotina de atividades e o funcionamento do Fórum indicam uma tensão entre os
valores da economia solidária e as lógicas acionadas pelos atores na prática, em um contexto
no qual grande parte dos membros articula diferentes atividades econômicas para conseguir
sobreviver; ou que participa dos eventos visando outros objetivos que não a geração de renda.
A internalização dos pressupostos do movimento não se dá integralmente, o que significa
dizer que a socialização nos termos idealizados não se completa, abrindo caminho para
disputas internas que afetam a operacionalização do movimento. A formação da identidade
perpassa a participação no Fórum, mas também é mediada pela experiência de cada ator a
depender dos grupos sociais que ele integra, isto é, como o seu estar no mundo é atravessado
pelas suas características culturais, de raça e gênero. A ação coletiva depende do
reconhecimento dos indivíduos como parte de um mesmo grupo, que partilham interesses em
comum, conforme Alexander (1998). Se a identidade é difusa e a socialização nos
pressupostos da economia solidária não ocorre plenamente, a mobilização e o modo de
organização do movimento são afetados.
Essa ideia é justificada pela hipótese do trabalho, que segue a noção de que a
preferência pela produção individual ou em grupos a partir das diferentes atividades de
produção tem conexão direta com os sentidos atribuídos pelos atores à sua participação no
Fórum, que variam de acordo com as necessidades imediatas dos indivíduos e comos valores
distintos que eles atribuem a cada prática. Essas, por sua vez, se imbricam com o tipo de
produção e classe social de cada associado, dado que a defesa por um estilo de vida não existe
em um vácuo social, mas corresponde à influências de classe nos seus aspectos culturais e
simbólicos, conforme Bourdieu (2006). Para além das dificuldades burocráticas e das ideias
discutidas pela literatura, principalmente por Gaiger (2013), de que o ideário jurídico-formal
não é capaz de abarcar a multiplicidade organizativa da América Latina, o entendimento sobre
a relevância da ideia de "liberdade" apregoada pela subjetividade neoliberal também parece
ser acionado de modo diverso a depender das condições sociais mencionadas anteriormente.
A sociologia da experiência social tem como objeto a experiência dos atores,
importando para a pesquisa alcançar o que os indivíduos interpretam da sua própria
participação no movimento. Assim, o principal material de análise, a ser incorporado aos
dados socioeconômicos, serão as entrevistas com os marisqueiros artesanais de Boa Viagem
em associação ao trabalho etnográfico realizado na Ilha e no Morro do Palácio; e a observação
participante nas Feiras do Circuito Araribóia de Economia Solidária. Segundo Alonso (2016),
a observação participante é o “estudo das rotinas sociais, do que parece trivial e óbvio, mas
25
que, por ser muito disseminado, estrutura as relações sociais” (p. 10). Se valerá, portanto, das
anotações regulares e sistematizadas sobre a atuação direta e constante junto ao cotidiano do
movimento.
Ademais, o trabalho é atravessado pelo diálogo com diferentes áreas do saber pelo
caráter marcadamente interdisciplinar da Economia Solidária, que por seus pressupostos
culturais, ecológicos e de organização social encontra autores da administração pública,
economia, serviço social e planejamento urbano, por exemplo. Os principais resultados
indicam que a coletivização do trabalho não alcançou a divisão igualitária dos rendimentos,
nem a completa integração aos ideais econômicos solidários defendidos pelo Fórum de
Economia Solidária e pela lei municipal sobre Economia Popular e Solidária de Niterói. A
coletivização diz respeito à partilha dos materiais de trabalho, principalmente em relação aos
barcos, e à ocupação do território da Ilha de Boa Viagem. Mesmo assim, a fundação da
TAMBOA se mostra para os pescadores artesanais como basilar na conquista de direitos
fundamentais.
Sendo assim, o trabalho se estrutura em três capítulos, além desta introdução e das
considerações finais. O primeiro faz uma breve revisão bibliográfica sobre a Economia
Solidária, indicando o histórico do Brasil na área e o caminho de construção da lei municipal
que institui o Centro Público de Referência em Economia Solidária de Niterói, com o objetivo
de amarrar as principais ideias e definições em torno do tema. Além disso, indica a gestão do
espaço entre a Secretaria de Assistência Social e Economia Solidária (SMASES) e os
dirigentes do Fórum, o que possibilita algumas reflexões sobre a alocação da Economia
Solidária na pasta da Assistência Social.
No segundo capítulo, apresento a estrutura de organização e atuação do Fórum de
Economia Solidária de Niterói, identificando os cadastrados e o processo de construção do
Fórum como um espaço que mobiliza diferentes grupos sociais e produtivos. Tem, assim, foco
na base de dados do cadastro junto à Prefeitura Municipal e aos dados coletados no trabalho
etnográfico entre 2022 e 2023 para entender qual o lugar dos pescadores da TAMBOA nessas
estruturas. Como sequência, o terceiro capítulo se aprofunda na descrição dessa associação,
detalhando as etapas de trabalho e os motivos que levam ao trabalho associado.
26
2. “UMA COISA É A CASA AZUL, OUTRA COISA É O FÓRUM”: A
ECONOMIA POPULAR SOLIDÁRIA NA ESTRUTURA DA
ASSISTÊNCIA SOCIAL
A história dos lugares e das atividades é fundamental para entendermos os processos
sociais com alguma densidade: em certa medida, o espaço e o tempo importam para a
construção dos movimentos e das experiências compartilhadas entre as pessoas. A história da
Economia Solidária parte de uma organização entre os trabalhadores em um momento
histórico específico e passa por uma institucionalização décadas depois, ponto entendido
como enfraquecimento das demandas, por alguns, ou visto como forma de fortalecimento, por
outros. Para apresentar o movimento, preciso percorrer um caminho que vai das formulações
teóricas para as construções práticas, que quase sempre se manifestam materialmente: a
trajetória dos produtores das chamadas “economias alternativas” pode ser vista se olharmos
para as feiras, para a agricultura familiar e para as associações livres firmadas entre
trabalhadores. Aqui, o olhar recai sobre o Fórum de Economia Solidária de Niterói.
Nos panfletos e livros sobre Economia Solidária, bem como nas máximas repetidas
nos encontros do grupo do FES-NIT, observo que rotineiramente há uma frase entoada quase
como um mantra para os mais integrados no espírito do movimento: “uma outra economia é
possível”. Para quem fala e quem lê, os motivos são óbvios, já que as explicações sobre o
conceito geralmente são feitas em oposição à economia capitalista. Isso fica evidente na
definição de Paul Singer, para quem “a economia solidária é outro modo de produção, cujos
princípios básicos são a propriedade coletiva ou associada do capital e o direito à liberdade
individual” (2002, p. 10). O autor segue na definição demarcando as principais diferenças
entre as empresas capitalista e as solidárias, que se referem ao modo de administração de cada
uma, além dos objetivos de cada grupo. Um dos princípios é a autogestão, que se opõe, por
sua vez, à heterogestão capitalista. Enquanto os capitalistas têm as decisões guiadas por meio
dos interesses dos acionistas, a empresa solidária objetiva manter os laços de cooperação e
solidariedade, com o propósito maior de fomentar a Economia Solidária como um modo de
produção alternativo.
Neste capítulo, exploro essas ideias, percorrendo as formulações dos principais nomes
do campo e apresentando o cenário de surgimento e expansão das políticas de Economia
Solidária, assim como a criação do Fórum de Niterói. Para isso, faço uma revisão
bibliográfica e análise documental da legislação, apresentando os pontos de tensionamento
27
entre os trabalhadores, a gestão da pasta e a articulação dos ideais de inclusão e
desenvolvimento, que se mostra quase sempre conflitante.
2.1. O que é Economia Popular Solidária
Os autores que tentam reconstruir as origens do movimento pela Economia Popular
Solidária parecem se dividir entre os que vislumbram o seu potencial revolucionário, dado
que o surgimento estaria atrelado às iniciativas socialistas na Europa do século XIX, aqueles
que o entendem como um atenuante aos momentos de crise, e os que sublinham o seu caráter
assistencialista e esvaziado de dimensão política. Essas perspectivas esbarram nas
diferenciações conceituais do termo, cujo uso está ligada ao contexto social, político e
histórico de onde nascem, podendo variar entre economia social, economia popular ou, ainda,
fazendo alusão ao terceiro setor8. O último é tipicamente norte-americano e se constitui a
partir das argumentações econômicas neoclássicas. Tal visão é amparada pela ótica da
filantropia, que entende a necessidade de um setor a parte do mercado e do Estado para
mitigar os problemas sociais (França Filho, 2002).
Já os usos de economia social e economia solidária, segundo França Filho (2002), vêm
das experiências europeias de negação dos pressupostos do capitalismo, mas se diferenciam
historicamente a partir das práticas do Estado, que passam a criar definições jurídicas para
regulamentar algumas atividades econômicas, por um lado; e da organização popular em
torno de uma proposta de sociedade, por outro. Nesse argumento, “economia social” se
relaciona ao aparelhamento institucional das noções decooperativismo e associativismo, que
aos poucos abranda as motivações vindouras da luta de classes, reduzindo a dimensão política
a uma mera estrutura formal. Por sua vez, “economia solidária” demarca a revigoração das
proposições de uma nova maneira de organizar a sociedade e as relações de trabalho em uma
nova etapa do capitalismo, que tem como características principais os crescimentos das
cidades e consequente separação e segregação de grupos marginalizados nas periferias. Para o
autor, essas proposições não escapam totalmente dos preceitos da economia de mercado, mas
os ultrapassam por admitir distintos estímulos e comportamentos econômicos que não visam
exclusivamente ao lucro, em consonância com os postulados de Polanyi (1944) sobre a
subordinação da economia aos interesses e relações sociais, que definiram as discussões da
antropologia e sociologia econômica depois da segunda metade do século XX e início dos
anos 2000.
8 Há menção também à “economia informal”, noção explorada abaixo.
28
No Brasil, a Economia Popular passou a fazer parte da legislação associada às ideias
de patrimônio coletivo no Estado Novo (1937 - 1945), fazendo referência, pelo ideal político
do governo, à identidade nacional econômica, que deveria ser protegida - o que significou
penalizar atividades econômicas entendidas como ameaça. A partir das últimas décadas do
século XX, o termo jurídico foi alterado para a genérica noção de “ordem econômica”,
conforme Rabossi (não publicado). Aqui, a escolha pela adição do termo “popular” ao uso
corrente de Economia Solidária em voga no Brasil se dá a partir de duas frentes, tendo a
segunda um cunho mais teórico e político do que a primeira, mais normativa: em um nível, a
escolha abarca a Lei nº 3.473/2020, que dispõe sobre a política municipal de Economia
Popular e Solidária de Niterói; em uma camada mais profunda, é uma tentativa de resgatar as
discussões sobre as especificidades da realidade latino-americana. Essas atentam para a
necessidade de combinação de diversas formas de trabalho para assegurar a sobrevivência em
uma economia do capitalismo periférico. Formas essas que dependem, em grande medida, da
interação entre os indivíduos e das práticas de cooperação daí advindas, fundando uma
maneira de se relacionar economicamente que não se associa meramente à maximização de
lucros e que é típica dos países do sul global, dada a inexistência de um Estado social
conforme o conhecido na Europa. A crise do capitalismo de 2001 se relaciona ao movimento
da economia popular, caracterizado pela atividade econômica baseada nas experiências
comunitárias, que articulam as demandas e os saberes populares, vinculadas à solidariedade,
reciprocidade e mutualismo (Gago, 2015; França Filho, 2002).
O uso de Economia Popular enquanto categoria também se configura como uma
escolha dos autores latino americanos em se opor às noções que associam a ideia de
“informalidade” à debilidade econômica de países do sul global. Essas noções nascem da
marginalização e criminalização das atividades econômicas que não são definidas por relações
assalariadas; e do entendimento que o crescimento dessas atividades, que estão na fronteira do
que é considerado legal, se configura como problemática para a integridade do “mundo
desenvolvido” (Rabossi, 2019). Os usos e reflexões sobre a economia popular e solidária
esbarraram, com alguma frequência, com a "economia informal”, já que a economia solidária
disputa os entendimentos e definições de trabalho na ótica capitalista. Assim, ao demarcar a
legitimidade de atividades econômicas que são independentes das relações fundadas no
assalariamento, a economia solidária demarca a proposta por um outro tipo de sociedade.
Entretanto, a ideia de informalidade e/ou economia popular não necessariamente se coloca
conscientemente como um projeto político que questiona a sociedade de mercado, mesmo que
29
isso ocorra na prática, já que a própria existência das atividades econômicas populares é uma
afirmação sobre as possibilidades de vida típicas da cultura da viração.
A abordagem de Paul Singer (2002) remonta o surgimento da Economia Solidária à
década de 1820, em Londres, com a criação das primeiras cooperativas, na mesma época da
expansão do sindicalismo pós revogação dos Combination Acts9, que limitavam a organização
dos trabalhadores, e como resposta às consequências do capitalismo industrial para os
operários. Além da exploração física e econômica típica da Revolução Industrial, o
crescimento do que Marx chamou de exército industrial de reserva é apontado como marco
zero das contestações ao modo de produção capitalista. As greves passaram a ser momentos
de fundação de cooperativas, que quase sempre contavam com o apoio dos sindicatos, já que
o ponto de partida se dava na disputa por melhores remunerações e condições de trabalho,
culminando, porém, na supressão das relações assalariadas e instituição de práticas
autogestionárias (Singer, 2002).
Nesse processo, um dos principais nomes é o de Robert Owen, socialista britânico
consagrado como pioneiro na fundação de sociedades cooperativas, inspirando seus
seguidores a fazer o mesmo. Essas sociedades são relevantes para entender alguns princípios
que se mantêm até hoje, já que delas derivaram os Armazéns Cooperativos e a iniciativa de
boicotar o consumo que visava somente o lucro, fomentando trocas econômicas dentro do
circuito que defendia os mesmos preceitos de uma produção voltada a repartir as riquezas
entre os trabalhadores, o que garantia a sobrevivência econômica do grupo. Esses Armazéns
tinham como finalidade empregar os trabalhadores e consumir das cooperativas criadas por
eles, em um movimento para gerar renda e alcançar os objetivos políticos do grupo, de modo
a fugir da exploração do trabalho proletário (Lechat, 2002). Assim, para Singer, a Economia
Solidária surge no “cooperativismo revolucionário”, em que houve propostas e tentativas reais
de reorganizar o aparato industrial têxtil capitalista no formato cooperativo (Singer, 2002, p.
34).
Essas tentativas, porém, foram rapidamente abafadas pela reação dos patrões, que
demitiram massivamente os trabalhadores sindicalizados. De todo modo, novos levantes
aconteceram após a crise de 1873-1895; antes da grande depressão; depois da Segunda Guerra
Mundial; e entre as décadas de 1980 e 1990, nas quais surgem também novos estudos sobre o
9As Combination Acts (Leis dos Agrupamentos), de 1799, foram instituídos no pós Revolução
Francesa na Inglaterra para reprimir a agitação dos trabalhadores, isto é, os “agrupamentos operários
que demonstrassem tendências político-revolucionárias'' (de Sant’Anna, 2021). De modo geral,
impediam a criação de Sindicatos e a organização dos trabalhadores, relegando-as à ilegalidade, o que
não neutralizou a luta operária. Foram revogadas em 1825 (Coggiola, 2010).
30
tema, entre eles referentes às especificidades latino-americanas (Lechat, 2002). Nesse último
período, a retomada da Economia Solidária enquanto assunto de interesse público e social
aparece como uma resposta à marginalização de certos grupos, que se encontram excluídos do
mercado de trabalho formal, problema ligado à urbanização crescente e de crise do Estado
providência (França Filho, 2001). Esse argumento parece ir de encontro à constatação de
Lechat (2002), que aponta que, para alguns economistas, o estudo desse tipo de economia
começa na escola de Cornell, nos Estados Unidos, que reuniu pesquisadores críticos à
distância dos objetivos da economia capitalista para as finalidades sociais.
França Filho (2001) aponta que a origem do termo Economia Solidária vem dos anos
1990, na França, em uma tentativa de associar “duas noções historicamente dissociadas, isto
é, iniciativa e solidariedade; e, por outro lado sugere-se (com estas experiências) a inscrição
da solidariedade no centro mesmo da elaboração coletiva de atividades econômicas” (2002, p.
4). O autor demarca que essas práticas surgemcomo uma forma de propor novos tipos de
organização e regulação da sociedade, atentando para atividades socioeconômicas
inauguradas naquele continente que tinham como objetivo melhorar a qualidade de vida, com
o que se denominou “serviços de proximidade” ou “serviços solidários”. França se opõe às
visões que igualam a Economia Solidária às práticas comunitárias e de reciprocidade, por um
lado, e às iniciativas estatais de cunho social, por outro. Isso acontece porque, para o autor, a
Economia Solidária é, acima de tudo, uma proposta de regulação da sociedade, marcando sua
dimensão política para se contrapor também às perspectivas que entendem a Economia
Solidária como um braço do terceiro setor, o que chama de “viés funcionalista”. Seria
justamente o entendimento desse tipo de prática enquanto proposta de regulação que teria
atraído setores da esquerda, segundo Gaiger (2002), dado que no seu cerne estariam as
discussões sobre um modelo de desenvolvimento econômico que tenha como fundamento a
preocupação com os marginalizados pela estrutura de emprego formal, de questionamento dos
ideais neoliberais e do próprio capital.
Esse autor investiga a possibilidade de estabelecer a Economia Solidária como um
novo tipo de produção, analisando o movimento a partir das “grandes categorias econômicas”
de Marx. Para ele, esse tipo de economia precisa enfrentar as contradições de estar inserida na
lógica capitalista, mas sem perder os elementos que a caracterizam enquanto movimento de
oposição à ótica mercadológica. Assim, para sobreviverem, os empreendimentos econômicos
solidários devem adotar algumas regras típicas do capitalismo, o que estressa o movimento,
de modo cauteloso e restrito:
31
Que exigências apresentam-se aos empreendimentos solidários, para que
mantenham os seus traços distintivos? Penso serem três: a) assumir a base técnica
herdada do capitalismo, dela retirando benefícios para a sua forma social de
produção própria ou, ainda, alcançando desenvolver, paulatinamente, forças
produtivas específicas e apropriadas à consolidação dessa última; b) cotejar-se com
os empreendimentos capitalistas, dando provas de superioridade do trabalho
associado perante as relações assalariadas, à medida que impulsionam, em seu
interior, uma dialética positiva entre relações de produção e forças produtivas; c)
resistir às pressões do ambiente econômico, por meio de mecanismos de proteção e
da externalização da sua lógica cooperativa às relações de intercâmbio e de troca.
Se isto vier a ocorrer, estaremos presenciando uma experiência econômica
genuinamente sob a ótica do trabalho, fundada em relações nas quais as práticas de
solidariedade e reciprocidade não são meros dispositivos compensatórios, mas
fatores operantes no cerne da produção da vida material e social. (GAIGER, 2002,
p. 32-33)
Dessa maneira, o que caracteriza a especificidade da Economia Solidária, para Gaiger,
é a capacidade de geração de uma nova consciência, fundada a partir do trabalho associativo e
de questionamento às relações assalariadas, em um movimento que une novamente
trabalhador e o fruto de seu trabalho. O autor aponta como um elemento de potência para os
empreendimentos o “forte enraizamento local” (2002, p. 36), que possibilita reunir recursos
marginalizados pela lógica capitalista, como os que se referem a iniciativas e saberes
populares, marcando, assim, a possibilidade de um desenvolvimento sustentável não só pela
recusa à lógica predatória da exploração capitalista, mas pela fundação de relações de trabalho
e comercialização baseadas na confiança e reciprocidade.
Nesse sentido, o que parece nortear as principais visões teóricas sobre a Economia
Solidária é o ideal de tornar novamente a economia submetida mais às relações sociais do que
às regulações do mercado e das leis de oferta e demanda. Assim, é argumentar o papel social
das trocas econômicas de modo que atenda aos objetivos coletivos que ultrapassam as noções
de maximização dos lucros, a serviço da melhoria da qualidade de vida, dos recursos
ambientais e dos direitos políticos, sem que haja uma autoridade central, como acontece no
Estado. As visões mais realistas sobre o movimento entendem as contradições e dificuldades
da imersão de empreendimentos desse tipo na lógica capitalista, assumindo a ambiguidade das
identidades e das próprias relações; do mesmo modo que alcançam a compreensão de que a
própria sociedade de mercado não é livre de ambivalências e não se finda em uma
racionalidade completa e irrestritamente funcionalista, como querem as teorias da escolha
racional.
32
2.2. Histórico da Economia Solidária no Brasil
A institucionalização do movimento pela economia solidária na América Latina pode
ser sentida com alguma intensidade no início dos anos 2000, quando países como Argentina,
Uruguai, Equador e Bolívia promulgaram leis e incluíram pastas para tratar desse tipo de
atividade econômica em seus Ministérios da Economia e/ou do desenvolvimento social
(Chiarello, Fonseca, 2021). No Brasil, o debate sobre economia solidária encontrou espaço
principalmente no final do século XX, notadamente a partir dos anos 1990, quando entrou em
voga nas discussões acadêmicas, influenciadas pelas mudanças institucionais, econômicas e
políticas iniciadas na década anterior e com o fim da ditadura militar. Além da reestruturação
produtiva, que fez cessar os postos de trabalho nas indústrias brasileiras, transformações como
a descentralização administrativa e a abertura da economia ao capital estrangeiro foram um
ponto de inflexão no modo como se organizava o mundo do trabalho até então (Nagem; Silva,
2013). Nagem e Silva (2013) apontam que o tema da economia solidária se intensificou na
segunda metade dos anos 1990, demarcando o papel central da academia na disseminação do
conceito a partir das reflexões sobre o mercado de trabalho, e da organização dos
trabalhadores, que passaram a ter maior liberdade e espaço de atuação com a
redemocratização. As resoluções do governo federal para responder a crise do desemprego
embasavam-se até então “na vertente tradicional de Estado de Bem Estar Social, baseada no
tripé seguro desemprego, qualificação profissional e intermediação de mão de obra,
constituindo assim o Sistema Público de Emprego”, isto é, ainda no paradigma de geração de
renda por meio de relações assalariadas (Nagem e Silva, 2013, p. 162). Chiarello e Fonseca
(2021) relembram que o surgimento das iniciativas de economia solidária está ligado também
às cooperativas que foram marca da vida econômica e comunal da América Latina no século
XIX, além de sua relação com a luta dos trabalhadores organizados em sindicatos e partidos
trabalhistas. Essas iniciativas, porém, não resistiram à concorrência com as empresas
tipicamente capitalistas, aos pressupostos da competição e de heterogestão, que em larga
medida foram apoiados e incentivados pelo aparelho estatal principalmente a partir do século
XX (Chiarello; Fonseca, 2021).
Assim, apesar de programas de financiamento a pequenos negócios existirem nas
áreas urbanas e rurais, a primeira iniciativa governamental que incluiu a economia solidária
como forma de combater o desemprego e incentivar o desenvolvimento local foi o Programa
de Economia Popular Solidária (Ecopopsol) com o governo petista do Rio Grande do Sul
entre 1998 e 2002, seguida pelo Programa Oportunidade Solidária (OS) do município de São
33
Paulo, com governo de Marta Suplicy entre 2001 e 2004 (Nagem; Silva, 2013). A vitória
presidencial do partido alçou a economia solidária em âmbito federal a partir da criação da
Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), comandada por Paul Singer e vinculada
ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em 2003. Silva (2010) aponta que até esse
momento, todas as propostas políticas de institucionalização da economia solidária vinham do
Partido dos Trabalhadores, pressionados pelos sindicatos que reivindicavam mais ações de
apoio à cooperativas e por grupossociais que passaram a se reunir nos Fóruns Nacionais de
Economia Solidária desde 2002. Na década anterior, a Associação Nacional de Trabalhadores
e Empresas de Autogestão (Anteag) foi fundada visando a retomada de empresas falidas por
parte de seus antigos empregados no formato de cooperativas, em um cenário de
desmantelamento das indústrias nacionais. Nesse contexto, o objetivo da Anteag era fornecer
assistência e capacitação administrativa e de gestão aos trabalhadores para geração de renda
em outros termos que não o trabalho assalariado, passando a atuar em convênios e parcerias
governamentais. Outras esferas do governo federal começaram a apoiar ações com o enfoque
da economia solidária, como o “Ministério do Desenvolvimento Agrário, no apoio aos
empreendimentos de agricultura familiar, e o Ministério do Meio Ambiente, com o apoio a
empreendimentos de extrativistas e de reciclagem” (Silva, 2009, p. 53), além de parcerias com
o ministério de Minas e Energia, com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária,
Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) e Secretaria Especial de Políticas Para
Mulheres, por exemplo, o que teria significado, para Chiarello e Fonseca (2021), o seu caráter
de transcendência à geração de emprego e renda, sendo marca de um ideal de governo. Prova
disso seria a articulação internacional da Secretaria, com iniciativas de cooperação com os
países vizinhos, europeus e africanos, mas que encontrou espaço principal no Mercosul
(Chiarello e Fonseca, 2021).
O Ecopopsol foi iniciado a partir de um convênio entre o governo do Rio Grande do
Sul e a Anteag. É significativo que os primeiros esforços governamentais no âmbito da
economia solidária tenham ocorrido neste estado brasileiro, dada as experiências populares de
articulação para geração de emprego e renda desde a década de 1980, principalmente com a
influência dos imigrantes (Cruz, 2006). O programa visava formar, educar e capacitar os
trabalhadores para o exercício da autogestão, bem como financiar os empreendimentos e
comercializar os produtos com a criação de incubadoras, observando a força da economia
solidária para o desenvolvimento local, de modo a reduzir as desigualdades regionais,
buscando explorar conscientemente as capacidades locais, em oposição à abertura ao capital e
grandes corporações estrangeiras (Silva, 2009).
34
Já o programa Oportunidade Solidária da prefeitura de São Paulo objetivava apoiar os
trabalhadores na construção de empreendimentos econômicos solidários para combater o
desemprego e aumentar a renda a partir das Instituições Parceiras Incubadoras (IPI), isto é,
por meio de ONGs, Universidades e a Anteag. As críticas ao projeto se referem à noção de
emancipação, já que a expectativa era a de formação de associações ou cooperativas que
fossem sustentáveis a longo prazo, para garantir a renda dos trabalhadores, o que não
aconteceu de fato. A falta de experiência da população e mesmo da prefeitura paulista em
ações da economia solidária foram entraves que não foram encontrados no Rio Grande do Sul,
por exemplo. A maior dificuldade, entretanto, foi a gestão do próprio programa por parte da
prefeitura, do mesmo modo que ocorreu no estado gaúcho pelas dificuldades políticas e
institucionais em se manter o financiamento e o apoio aos programas (idem).
Apesar do aparente avanço do tema nas estruturas do governo, os recursos destinados
à pasta da Economia Solidária não chegaram a 0,09% do total do Ministério do Trabalho e
Emprego, que continuou focando na geração de renda nos termos do emprego formal (Nagem
e Silva, 2003). Nagem e Silva (2013) apontam que isso acontece porque a economia solidária
continua sendo entendida como uma alternativa ao desemprego, destinada a grupos
historicamente excluídos, em vez de ser vista como uma forma de desenvolvimento que se
opõe aos padrões capitalistas. Silva (2009) apontou que as principais falhas dos programas de
economia solidária no Brasil se referem a dificuldade de encadear vontade política aos
recursos necessários e à adesão popular. Chiarello e Fonseca (2021) entendem que os
principais obstáculos para a sustentabilidade desses negócios são de cunho operacional, como
as dificuldades técnicas, de gestão e de volume de capital, o que dificulta a sobrevivência em
meio a empresas capitalistas, demandando que o tema esteja constantemente em voga nos
governos, possibilitando apoio e fomento governamental. Assim, faltam incentivos aos
empreendimentos econômicos solidários, principalmente com a descontinuação da pasta em
2019. Apesar das dificuldades de financiamento e de sustentabilidade dos negócios, o país viu
crescer a quantidade de iniciativas nos marcos da economia solidária, como os Bancos
Comunitários, crédito social e moedas sociais, baseados na reciprocidade e mutualismo das
relações.
De todo modo, existem diversas formas de organização na ótica da economia
solidária: grupos informais, associações e cooperativas são algumas das possibilidades de
atuação desse tipo de empreendimento, desde que mantidos os pressupostos de gestão
democrática e participação ativa dos trabalhadores nas distintas etapas de produção. Apesar de
não existir consenso sobre as finalidades desse tipo de atividade econômica entre os
35
pesquisadores, os autores latino americanos geralmente abordam o tema em consonância com
as características “utópicas” das iniciativas, isto é, visando a transformação da realidade em
dois níveis: primeiro, da massa de trabalhadores continuamente excluída da estrutura formal
de emprego; segundo, da sociedade em geral, a partir do incentivo e disseminação dos ideais
de cooperação e solidariedade, em oposição à competição e exploração da força de trabalho
(Chiarello, Fonseca, 2021). Gaiger entende que a distância da legislação em relação às
práticas de economia solidária está na fragilidade conceitual do termo (Gaiger, 2013), que se
relaciona ao vácuo de informações sobre o movimento no Brasil. É neste argumento que o
marco teórico do trabalho entende que a investigação sobre essas práticas integra um debate
caro à sociologia econômica, a saber, o estudo das atividades da economia que se afastam dos
pressupostos de uma sociedade de mercado, conforme reconhecido pelo então Ministério do
Trabalho. Essa importância foi admitida em uma das resoluções da Senaes acerca da
realização do Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária (SIES), que mapeou
os empreendimentos econômicos solidários do país entre 2005 e 2007 e entre 2009 e 2012.
Apesar dos problemas metodológicos, os dados indicam uma maioria de associações e grupos
informais, e uma minoria de cooperativas. São as cooperativas os formatos com maior
capacidade de renda, enquanto os grupos informais são mais associados ao desemprego, e as
associações à financiamentos governamentais e externos (Gaiger, 2013).
Associado ao vácuo de informações está o caráter oscilante do tema na agenda
política, o que diminui o financiamento governamental às iniciativas e dificulta o
conhecimento aprofundado e pesquisas de grande escala sobre a economia solidária no Brasil.
Assim, a descontinuação da Senaes e do SIES são entraves para estabelecer estudos
quantitativos atualizados, bem como para entender as estratégias de sobrevivência dos
indivíduos dentro do movimento. De todo modo, na primeira década do século, quase um
milhão e meio de pessoas estavam envolvidas em atividades econômicas solidárias, o que
demonstra a relevância do estudo para compreendermos uma das faces do trabalho no país.
Além disso, o pleno emprego nunca existiu de fato, fazendo com que as atividades chamadas
de informais, temporárias ou intermitentes sejam marca estruturante da realidade do trabalho
brasileiro. Nesse sentido, levando em consideração a predominância da organização informal
dos empreendimentos econômicos solidários e a marca notadamente informal da economia
latino americana, estudos que visem estimular o debate sobre taispráticas parecem
fundamentais tanto para entender um aspecto basilar para nossa organização social, quanto
para reflexão aprofundada sobre a informalidade econômica, rejeitando a tendência de se
36
destacar a sua debilidade organizacional e visando alcançar os sentidos que esses atores dão às
suas práticas.
Esse argumento encontra respaldo no entendimento de que, para além da racionalidade
de maximizar ganhos, a articulação entre produção e os critérios de organização que
ultrapassam as formalidades jurídicas servem também aos interesses sociais. Isso se evidencia
na fala de membros da gestão do FES-NIT sobre a finalidade da associação não se encerrar na
geração de renda, mas dizer respeito também à defesa de um estilo de vida; e nos autores que
pressupõem a incapacidade de separação das esferas econômicas, políticas e sociais. A
economia solidária, assim, ao mesmo tempo em que defende a autonomia econômica, se
coloca contrariamente à sociedade de mercado, uma vez que visa salvaguardar os princípios
de solidariedade, cooperação e respeito à preservação ambiental e aos direitos dos
trabalhadores. Entretanto, é fundamental ressaltar que essas defesas não significam que a
sociedade de mercado exista em um bloco bem delimitado, com fronteiras rígidas e de
unificação das identidades. Um bom exemplo são os novos levantes do capitalismo do século
XXI, que renovam os argumentos sobre exploração sustentável, em uma ótica que pretende
humanizar a produção em larga escala a partir da associação com os temas caros para os
trabalhadores e comunidades tradicionais.
Tendo em vista a “informalidade” característica das economias do sul, uma das
problemáticas em torno dos empreendimentos econômicos solidários reside na dificuldade
burocrática de institucionalizar as iniciativas. Por um lado, a informalidade se apresenta como
estratégia dos indivíduos para maior liberdade de ação; por outro, a legislação limita a
capacidade de comercialização das organizações não institucionalizadas em formatos como
cooperativas e associações - formatos esses com definições rígidas e que não abarcam a
realidade latino-americana. Segundo Gaiger, apesar das cooperativas serem a única maneira
de formalizar integralmente os empreendimentos econômicos solidários, a associação é a
estrutura jurídica mais utilizada, enquadrando “toda agremiação de pessoas que se unem para
desenvolver atividades comuns, desde que se distingam de atividades mais específicas (...) e
não tenham finalidade econômica” (2013, p. 14). Serve, assim, para conferir um caráter de
semi formalidade, pois pode dispor de empregados remunerados, demandando, porém, que as
decisões ocorram em condições de igualdade de todos os associados - um dos ideais do
movimento - e tenham como objetivo, por exemplo, a defesa de uma causa para além dos
ganhos econômicos. O autor chama a atenção para a história do associativismo como meio de
mobilização popular, e que são respaldadas pelo seu aspecto institucionalista, o que também
aproxima esse tipo de organização do movimento pela economia solidária.
37
As complexidades em estabelecer uma cooperativa dizem respeito tanto às críticas à
legislação e ao histórico contraditório do cooperativismo brasileiro, fundada pelo regime
militar e apropriado para reproduzir as elites agrícolas e fragilizando relações de trabalho no
meio urbano10, quanto aos obstáculos burocráticos e administrativos (Gaiger, 2013; Silva,
Carneiro, 2016). Essas dificuldades residem nos critérios legais para a criação de uma
cooperativa, que determinam a necessidade de membros suficientes para uma capacidade de
renovação do quadro administrativo, além das exigências de escrituras de contabilidade e de
livros contendo as matrículas dos associados, suas presenças nas assembleias gerais, as atas
dessas assembléias, as atas do conselho de administração e as atas do conselho fiscal (Brasil,
1971). Além desses critérios, a principal diferença para as associações é a finalidade
econômica das cooperativas. Entretanto, os autores entendem que a organização nesses status
não representa uma real aderência aos seus sentidos legais, mas um aceite que visa meramente
proteger e legitimar as iniciativas.
A perda paulatina de espaço da temática da Economia Solidária nas estruturas do
governo foi observada a partir de 2016, quando a Senaes foi realocada como Subsecretaria,
resultando na sua supressão em 2019, juntamente com o Ministério de Trabalho e Emprego,
quando a “temática da ES foi alojada residualmente no Ministério da Cidadania, na Secretaria
de Inclusão Social e Produtiva Urbana. Também nos demais órgãos federais verificou-se a
retirada da ES da pauta orçamentária” (Chiarello, Fonseca e Morais, 2021, p. 85). O desmonte
coincide com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o início do governo de Michel
Temer, em um primeiro momento, e a sequente vitória de Jair Bolsonaro nas eleições
presidenciais de 2018.
Mais recentemente, o debate sobre a economia solidária, bem como as demais
“economias alternativas” parece ganhar força em um cenário de transformações do mundo do
trabalho. Embora a ideia da necessidade de uma massa de desempregados para pressionar os
trabalhadores não seja novidade, a popularização das moedas sociais e a intensificação das
discussões sobre renda básica universal a nível mundial, remuneração do trabalho doméstico e
o incentivo ao empreendedorismo demarcam uma nova forma de lidar com a marginalização
da estrutura formal de emprego imposta pelo capitalismo, mas reforçada no sul global e
10Em 2012 foi vetado o Projeto de Lei nº 4.622/2004, com a promulgação da Lei nº 12.690, que dispõe
sobre a organização e o funcionamento das Cooperativas de Trabalho; institui o Programa Nacional de
Fomento às Cooperativas de Trabalho - PRONACOOP; e revoga o parágrafo único do art. 442 da
Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, visando combater o uso fraudulento do cooperativismo
como instrumento de ataque aos direitos trabalhistas (BRASIL, 2012).
38
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm#art442p
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/Del5452.htm#art442p
estimulada pelas inovações tecnológicas e que demandam transformação constante dos
trabalhadores.
2.3. O Fórum de Niterói: “uma coisa é a Casa Azul, outra coisa é o Fórum”
O município de Niterói é um dos mais ricos e com maior IDH do país11, com a sétima
posição do índice entre os municípios brasileiros, e o único do estado fluminense a figurar
entre os dez primeiros lugares. A cidade geralmente é citada e comparada com sua vizinha
mais famosa, o Rio de Janeiro, dada a proximidade entre as duas, que garante uma
confluência diária de seus habitantes, que migram diariamente para trabalhar ou estudar.
Entender o local que Niterói ocupa nos cenários estadual e nacional é fundamental
para analisar o histórico da economia solidária da cidade, localizando o objetivo mais amplo
de tornar Niterói uma cidade modelo e internacionalmente relevante como marca da gestão do
Partido Democrático Trabalhista (PDT), a frente da prefeitura desde 1989, com um intervalo
de 2001 a 2008, quando Godofredo Pinto, do PT, passou de vice a prefeito pela renúncia de
Jorge Roberto Silveira (PDT) para concorrer ao governo do estado, sendo reeleito em seguida.
De todo modo, o crescimento exacerbado da cidade foi vivido principalmente nas últimas
décadas da ditadura civil-militar, com a construção da ponte Rio Niterói e maior acesso da
cidade por parte dos cariocas (Idem).
A tentativa de criar uma identidade específica para a cidade perpassou as gestões
municipais a partir do Estado Novo, com o governo de Amaral Peixoto (Luz, 2009) e logrou
certo êxito especialmente com a inauguração do Museu de Arte Contemporânea (1996),
projeto arquitetônico idealizado por Oscar Niemeyer que acabou se tornando cartão postal da
cidade e um aparelho cultural de renome internacional. A população niteroiense foi
constituída principalmente pela migraçãode pessoas oriundas do Norte Fluminense. Em um
primeiro momento, o impulso à urbanização se deu na primeira metade da República,
principalmente a partir dos anos 1940, com a nomeação de Ernani do Amaral Peixoto como
interventor do estado, inaugurando um período de investimentos e parcerias público privadas
que fez intensificar o comércio local (Bittencourt, 2012), e com “a implementação de um
parque industrial no estado” (Corte, Martins, p. 10). A criação da Universidade Federal
Fluminense, em 1960, fomentou a migração para acessar o ensino superior, quando a cidade
11A renda média de Niterói é elevada pelos moradores da região das praias da Baía, que abarca os
bairros de Boa Viagem, Ingá e Icaraí, que chegam a ganhar uma média quatro vezes maior que as
outras localidades da cidade, especialmente na zona norte. Em 2010, quase 60% da população tinha
renda de até dois salários mínimos (NQQ, 2013). Em 2021, o salário médio mensal era de 3,1 salários
(IBGE, 2024).
39
ainda era capital do estado, criando um cenário de letramento acadêmico e de apoio à cultura,
sobretudo a partir da gestão de Jorge Roberto Silveira, em 1989. Ao mesmo tempo em que a
UFF se consolidava em Niterói, a construção da ponte Rio-Niterói em 1968 deu novo impulso
ao crescimento do município.
Niterói apresenta um histórico de iniciativas voltadas ao movimento, principalmente
no que tange ao apoio da Universidade Federal Fluminense (UFF) com a Incubadora de
Empreendimentos Econômicos Solidários (IEES). A intenção de absorver a Economia
Popular Solidária nas estruturas do governo já estava presente desde a promulgação da lei
estadual nº 5.315, de 17 de novembro de 2008, acompanhando a institucionalização que
estava ocorrendo em âmbito federal, sendo regulamentada em 2013. Como projeto político
formal, a economia solidária aparece com mais solidez no plano Niterói Que Queremos,
programa de metas de desenvolvimento social e econômico criado em 2013, durante a gestão
de Rodrigo Neves (PDT), para nortear as políticas públicas municipais.
Nesse argumento, o Projeto Niterói Que Queremos também pode ser entendido como
uma continuidade dos governos do PDT no município no que tange ao fortalecimento da
identidade de Niterói como um município de características próprias, destacando suas
diferenças com a cidade vizinha especialmente ao demarcar a qualidade de vida decorrente da
proximidade com o Rio de Janeiro, mas sem os “malefícios” de ser um ponto turístico de
aporte internacional. O lema do projeto é um demonstrativo desse propósito: “Niterói, a
melhor cidade do Brasil para se viver e ser feliz” (NQQ, 2013). Desse modo, a gestão da
cidade é pensada para alçar a cidade fluminense nas esferas nacional e internacional, seguindo
as diretrizes da ONU para o desenvolvimento sustentável. Nos últimos anos, a proposta de
aliar a tecnologia ao governo municipal, por exemplo, seguiu a esteira do debate sobre as
cidades inteligentes capitaneado em grande medida pela Coréia do Sul; e a ideia de cidade
empreendedora norteia algumas das políticas públicas para a área econômica, levando a
gestão de Axel Grael a receber prêmios pelos planos criados na pandemia do Coronavírus
para “manter a atividade econômica no município” (Prefeitura Municipal de Niterói, 2022).
Os objetivos de desenvolvimento e inclusão social passaram a ser integrados pelo debate da
economia solidária, sempre como argumento para garantir a qualidade de vida. Essa atividade
econômica faz parte de uma das metas do referido plano, denominada “Niterói Inclusiva”, que
agrega medidas variadas, que vão desde o combate a violência contra a mulher, à
escolarização e profissionalização das juventudes, inclusão do idoso, até o apoio à economia
solidária como maneira de promover a igualdade de renda e combater o desemprego da
cidade.
40
A associação entre prefeitura municipal e movimento social se institucionalizou
apenas em 2019. Dez anos antes, o movimento municipal da Economia Solidária se organizou
coletivamente no Fórum de Economia Solidária de Niterói, após a promulgação da lei
estadual nº 5.315, de 17 de novembro de 2008, regulamentada apenas em 2013. Essa instituiu
o Conselho Estadual da Economia Solidária do Estado do Rio de Janeiro, o vinculando às
Secretarias Estaduais de Trabalho e Renda e de Assistência Social, momento em que a
Economia Solidária estava em foco nos mandatos presidenciais da época. A lei visava criar e
atualizar um banco de dados sobre os empreendimentos desse tipo de economia, além de
incentivar parcerias com pesquisadores e de formação e capacitação dos empreendedores,
criando o Selo de Economia Solidária para diferenciar as iniciativas que
I - sejam organizados sob os princípios da cooperação, da solidariedade, da
autogestão, da autodeterminação, da livre adesão, da democracia, do pluralismo, da
sustentabilidade econômica e ambiental, da eqüidade de gênero e etnia; da não
utilização de forca de trabalho infantil, assim como da valorização do ser humano e
do trabalho; sem fazer discriminação de nacionalidade, de opção sexual, de ordem
filosófica, religiosa e político-partidária;
II - que tenham objetivo, patrimônio e resultados obtidos revertidos para melhoria,
sustentabilidade e desenvolvimento de sua organização;
III - que tenham por instância máxima de deliberação, para todos os fins, uma
assembléia periódica de seus associados, onde todos tenham direito a voz e voto;
ou por instâncias que garantam a participação direta dos associados e funcionários
de acordo com as características de cada empreendimento;
IV - que adotem sistemas de prestação de contas detalhadas e transparentes de
acordo com as necessidades e interesses dos associados e da sociedade em geral, e
publicação anual do balanço sócio-ambiental;
V - que a maior remuneração, com base no trabalho, não seja superior a dez vezes a
menor remuneração;
VI - que estimule a formação de redes e fóruns, com vistas a integrar grupos de
consumidores, produtores e prestadores de serviços, que se retroalimentem nas
práticas de consumo, produção, comercialização, trocas, financiamentos/créditos,
desenvolvimento local, cuidado ambiental, poupança e crédito, dentre outros;
VII – que promova a prática de preços justos, sem maximização de lucros nem
busca de acumulação de capital (RIO DE JANEIRO, 2008, ART 3).
Apesar do Fórum de Niterói ter sido criado em 2009, representando o movimento
municipal de Economia Solidária e visando fortalecer e organizar as iniciativas alinhadas com
os princípios desse tipo de economia, o Centro Público de Referência em Economia Solidária,
a Casa Azul, foi inaugurado apenas em 2019, na esteira da promulgação das leis estadual (Lei
Nº 8351/abril de 2019) e municipal de economia solidária, logo após a descontinuação da
Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) e o consequente esvaziamento da
legislação que tratava desse tipo de atividade. Nesse momento, se criou uma cogestão da casa
azul, em que se dividem funcionários da prefeitura, por um lado, e ativistas do movimento de
economia solidária, por outro.
41
A promulgação da lei nº 3.473, que instituiu a criação do Centro Público de
Referência em Economia Solidária, a Casa Azul, foi um movimento contrário ao que vinha se
observando na tradição de enfraquecimento de espaços de ação coletiva. Nesse sentido, o
fortalecimento da Economia Solidária como política pública do município se deu
principalmente a partir da promulgação da lei e da retomada das atividades após o fim do
distanciamento social em decorrência da pandemia do Coronavírus. Um dos objetivos da lei é
criar um sistema de dados atualizado sobre os trabalhadores de economia solidária da cidade,
o que ainda hoje não acontece sem falhas, já que depende do entrevistador que conduz o
cadastro e das respostas dos ingressantes, que não são padronizadas, gerando uma gama muito
diversa de indicadores, dificultando a análise. Entretanto, uma das pressões da Secretaria
Municipal sobre a organização do Fórumé justamente a criação de associações ou coletivos
para demarcar a importância e o tamanho da Economia Solidária no município, bem como o
apoio da prefeitura ao movimento. Isso ficou evidente nas reuniões da subpasta da Economia
Solidária, quando os funcionários e subsecretário entendiam que os princípios do movimento
não se realizavam na prática, já que a maior parte da produção permanecia em escala
individual e/ou familiar; e também a partir da unificação do cadastro e na organização das
feiras, momento no qual se estabeleceu a necessidade de reunir os associados individuais a
algum grupo produtivo. Os apontamentos demonstram, em alguma medida, a visão dos
membros da prefeitura sobre o movimento - e, mais que isso, sobre como o movimento
deveria se comportar e se organizar.
2.2.3. O centro público de referência em Economia Solidária de Niterói
A população do município conhece Ernani do Amaral Peixoto não pelo seu histórico
militar ou pelo casamento com a filha de Getúlio Vargas; a familiaridade dos moradores da
cidade com o nome do militante tenentista vem da avenida batizada em sua homenagem, que
se consagrou como o coração do centro, servindo de acesso às barcas, ao terminal de ônibus e
a praticamente todas as repartições públicas municipais. O fim da avenida é perto o bastante
do Hospital Universitário Antônio Pedro e da rua que é seguida por quem quer chegar na
ponte Rio-Niterói. Na última esquina e mais discreta que a maioria dos prédios, fica a Casa
Azul, formalmente chamada de Centro de Referência Pública em Economia Solidária, que
funciona como sede do movimento municipal e como local de trabalho para alguns
funcionários da prefeitura associados à Secretaria Municipal de Assistência Social e
Economia Solidária (SMASES).
42
A Casa Azul funciona de segunda à sexta-feira, das 10 às 17 horas. A associação ao
movimento demanda o cadastramento presencial, que é feito todos os dias, com exceção das
sextas-feiras. Os funcionários ficam responsáveis por receber pessoas atendidas e
encaminhadas pelos Centros de Referência de Assistência Social (CRAs) e pelos Centros de
Atenção Psicossocial (CAPS), as quais geralmente se tratam de mulheres em situação de
violência ou vulnerabilidade social, e de indivíduos em algum tipo de tratamento psicológico
e/ou psiquiátrico. Os militantes se responsabilizam por cuidar da loja que funciona dentro da
Casa Azul e pelo monitoramento dos produtos comercializados. O espaço interno é dividido
em dois: de um lado, fica a loja da Economia Solidária, que tem uma entrada independente e
comercializa alguns produtos dos associados ao Fórum, sob responsabilidade dos mesmos; o
outro tem quatro salas - a menor é usada para o atendimento individual, feita pelas assistentes
sociais e demais membros da prefeitura; outra, um pouco maior, é equipada com algumas
máquinas de costura, utilizadas por artesãs que não possuem maquinário e materiais próprios;
a terceira, de tamanho intermediário, é o espaço usado para oficinas e cursos rápidos de
capacitação, geralmente voltados para diferentes ramos do artesanato, possuindo uma mesa,
algumas cadeiras, e uma pilha de materiais e produtos ao fundo; a quarta sala fica no final da
casa, atrás da estante que reúne alguns livros sobre Economia Solidária, direitos das mulheres
e combate à discriminações. Esta é a maior sala, servindo como local de trabalho para os
funcionários da Secretaria de Assistência Social e Economia Solidária (SMASES). As
plenárias, que acontecem às primeiras segundas-feiras de cada mês, no entanto, não são
realizadas na Casa Azul, já que não comportam os mais de mil associados.
Até meados de 2022, aqueles que desejassem se associar ao Fórum precisavam passar
por dois cadastros presenciais (um da prefeitura e outro do movimento) e um online
(desenvolvido pelo E3D no contexto de distanciamento social). Esses cadastros nunca foram
corretamente integrados, e ainda hoje existem dificuldades metodológicas e barreiras
organizacionais para acompanhar os integrantes e estudar os resultados. Isso acontece porque
o movimento fazia o cadastro em papel, armazenando-o em um acervo físico, mas
frequentemente esquecido pela gestão. Além disso, os voluntários do movimento nem sempre
entendiam as finalidades de certas perguntas - como a relevância em se questionar a cor/raça
ou o nível de escolaridade. A prefeitura, por outro lado, tinha um cadastro mais robusto, com
dados de interesse socioeconômico, digitalizados, mas que foi alterado algumas vezes até
chegar no modelo finalizado. Ademais, não era obrigatório fazer ambos os cadastros
simultaneamente, o que gerou uma incongruência no volume e na qualidade dos dados.
43
Paralelo a esses cadastros, existia o cadastro online, desenvolvido pelo Escritório
Escola Engenharia e Design (E3D) da UFF no momento de distanciamento social provocado
pela pandemia do coronavírus e que foi elaborado levando em consideração os dois cadastros
anteriores. A dificuldade em acessar a internet, dispositivos móveis e entender as perguntas do
formulário foram entraves apontados pelos associados que comprometeram a qualidade dos
dados. Em 2021, foi decidido em plenária que todos os associados deveriam refazer o
cadastramento por meio do formulário online, em uma tentativa de organizar e entender quem
continuava ativo no movimento. Este também sofreu modificações, gerou uma grande
quantidade de inscrições e acabou sendo descontinuado no final de 2022, quando a plenária
aprovou a unificação destes cadastros para facilitar a entrada na organização.
De todo modo, é interessante observar que, em um movimento contrário ao que se
vinha se observando na tradição de enfraquecimento de espaços de ação coletiva, o município
de Niterói aprovou no final de 2019 a lei nº 3.473, que dispõe sobre a política municipal, antes
da declaração de emergência da saúde pública decorrente da pandemia de coronavírus, em
março do ano seguinte. Nesse sentido, o fortalecimento da Economia Solidária como política
pública do município se deu principalmente a partir da promulgação da lei e da retomada das
atividades após o fim do distanciamento social em decorrência da pandemia do Coronavírus.
Apesar de já existir antes do distanciamento social, o circuito Araribóia de feiras de Economia
Solidária foi fortalecido e defendido pela pasta como uma forma de alocação de trabalhadores
que procuraram o cadastramento junto à Casa Azul no momento mais grave da pandemia no
Brasil, em meados de 202012. De acordo com a lei:
São objetivos da Política Municipal de Economia Popular Solidária:
I - contribuir para o enfrentamento da pobreza e da extrema pobreza, enfrentar as
vulnerabilidades e riscos sociais e reduzir as desigualdades sociais no Município
estimulando a organização e participação social;
II - contribuir para o acesso dos cidadãos ao trabalho e renda, como indicação
essencial para a inclusão e mobilidade sociais para elevação da autoestima e
melhoria de qualidade de vida. (NITERÓI, 2020, ART 8)
Assim, o viés de geração de renda e emprego na ótica da inclusão social por parte da
economia solidária faz com que haja uma revigoração no debate em momentos de crise. Em
Niterói, por exemplo, o desemprego durante a pandemia do coronavírus foi um contexto de
crescimento do Fórum em mais de 100% (FES-NIT, 2023). Isso significa dizer que, apesar da
12 Economia Solidária é aposta na retomada econômica da cidade. Prefeitura Municipal de Niterói. 17
de jan de 2022. Disponível em
http://www.niteroi.rj.gov.br/2022/01/17/economia-solidaria-e-aposta-na-retomada-economica-da-cidad
e/.
44
http://www.niteroi.rj.gov.br/2022/01/17/economia-solidaria-e-aposta-na-retomada-economica-da-cidade/
http://www.niteroi.rj.gov.br/2022/01/17/economia-solidaria-e-aposta-na-retomada-economica-da-cidade/
perda de influência do movimento nas estruturas do governo federal de modo mais acentuado
a partir de 2016, as conquistas do movimento nos últimos dois anos, que dizem respeito à
promulgaçãoda Política Municipal de Economia Popular Solidária, a tentativa da Prefeitura
em se aliar ao movimento - o que não acontece sem conflitos - e a multiplicação dos
associados vão de encontro com as ideias de Lechat (2002) sobre a tendência desses
empreendimentos surgirem em momentos de instabilidade econômica e insegurança social.
Isso parece ter norteado a decisão de se vincular a pasta da economia solidária na Secretaria
de Assistência Social, seguindo o histórico nacional da institucionalização do movimento nas
estruturas de governo, o que talvez signifique que o movimento segue sendo visto mais como
uma forma de combater a extrema pobreza, sendo destinado aos grupos que não conseguem se
inserir no mercado de trabalho formal, do que como uma nova forma de alavancar o
desenvolvimento social para além dos pressupostos capitalistas. A pasta também foi uma das
responsáveis por promover e divulgar a moeda social Araribóia, programa de transferência de
renda no qual foram cadastrados os trabalhadores associados ao Fórum, bem como as demais
famílias beneficiárias do CadÚnico. Desse modo, integram algumas iniciativas da prefeitura
de Niterói para fomentar o comércio local e aquecer a economia do município.
O aumento do número de membros durante a pandemia demandou uma reestruturação
no fluxo de cadastro, sendo a porta de entrada no campo, e um dos pontos do meu interesse
sobre o tema, uma vez que foi possível identificar um desconforto da gestão acerca da falta de
conhecimento dos recém ingressos sobre os preceitos da economia solidária, que na política
municipal dizem respeito
I – a valorização do ser humano;
II - o bem-estar e a justiça social;
III - o direito do trabalho decente, associado e cooperativado;
IV - o primado do trabalho, com o controle do processo produtivo pelos
trabalhadores;
V - a valorização da autogestão, da cooperação e da solidariedade;
VI - a instituição de relações igualitárias entre homens e mulheres;
VII - o tratamento igualitário a todas as pessoas, sem qualquer discriminação de
raça, cor, sexo, orientação sexual, Identidade de gênero, deficientes, idade, credo
político ou religioso e quaisquer outras formas de discriminação;
VIII - o desenvolvimento local integrado e sustentável com a preservação do
equilíbrio dos ecossistemas;
IX - Transparência na gestão dos recursos e na busca da justa distribuição dos
resultados. (NITERÓI, 2020, ART 7)
As reflexões sobre os tensionamentos entre teoria e prática, e/ou entre forma e
substância frequentemente presentes em debates sociológicos são observadas na rotina do
Fórum. O aceite aos valores é gerador de múltiplas e recorrentes tensões nos espaços de
45
socialização do movimento, que não se resumem às feiras, reuniões e plenárias, mas se
estendem também aos grupos de WhatsApp, principal circuito de articulação e discussão
política. A demarcação da diferença entre a “Casa Azul” e o “Fórum” também se vale desses
valores, relembrados em eventos e rodas de conversa geridas pela coordenação da prefeitura:
recorrentemente, alguns associados entendem que os ideais do movimento de economia
solidária são encarnados mais pelos funcionários públicos do que pelos militantes. Os
primeiros são uma maioria de assistentes sociais, responsáveis por acolhê-los em sua chegada
e em momentos de vulnerabilidade psicossocial. Essa diferenciação entre órgão da prefeitura
e movimento social nem sempre é totalmente entendida por todos os associados, mas é
evocada de tempos em tempos por ambos os lados. De um ângulo, alguns entendem que “o
que a casa Azul constrói, o Fórum destrói”13; de outro, o contato direto com a prefeitura é
entendido com desconfiança, um espaço de disputa aberta que não deve ser abandonado para
garantir o cumprimento da lei municipal e para a conquista de mais direitos, como o aumento
do circuito Araribóia de feiras e gratuidade de todas as barracas. O crescente número de
membros e de espaços de comercialização expande os momentos de conflito, e anima os mais
antigos a afirmarem que a organização não tem mais o “espírito da EcoSol”.
Isso foi especialmente sentido na eleição de abril de 2023 para a composição da
secretaria executiva, que pela primeira vez teve duas chapas concorrendo. Essa instância é a
responsável por fazer a coordenação geral do Fórum, eleita a cada dois anos em plenária e por
garantir que as decisões tomadas em conjunto sejam seguidas. A novidade movimentou os
grupos de mensagens e gerou uma onda de acusações de ambos os candidatos, mas que
sempre retornava ao ponto zero do debate: o que é, afinal, economia solidária? O próximo
capítulo apresenta o Fórum de Economia Solidária para observar quem são os indivíduos que
o constroem, produzindo, portanto, a Economia Solidária de Niterói, e qual o lugar dos
pescadores artesanais nessa dinâmica.
13 Enunciado por uma servidora da prefeitura em uma roda de conversa no mês da mulher, após
algumas associadas apontarem a falta de acolhimento nos espaços do Fórum, que assentiram com sua
fala.
46
3. ONDE ESTÃO OS PESCADORES? A ESTRUTURA DE
ORGANIZAÇÃO E ATUAÇÃO DO FÓRUM DE ECONOMIA
SOLIDÁRIA DE NITERÓI
Para entender o que é a Economia Popular Solidária, interessa alcançar os motivos que
levam à associação. Esse questionamento me acompanha desde o início do trabalho no Fórum
e das leituras sobre o tema. Apesar de ter tentado responder essa pergunta no início do
trabalho, a diversidade das abordagens dos principais autores e as crenças no potencial
revolucionário do movimento para Paul Singer, maior nome da Economia Solidária no Brasil,
fermentaram mais dúvidas que certezas, principalmente quando observo a interação dos
participantes, a atuação da prefeitura e me questiono se esse movimento difere das
empreitadas neoliberais sobre o consumo e o capitalismo conscientes, oposição utilizada pelos
pesquisadores do tema para definir o movimento.
Afirmar a imersão da economia aos interesses sociais parece ser um modo de entender
a economia como um “bem comum”. A qualidade de vida, assim, deveria ser um dos
objetivos da estrutura econômica, em lugar do incentivo ao lucro e à competição. Entretanto,
as demandas e os pressupostos da economia solidária se valem de um ideal quase abstrato de
solidariedade, em que indivíduos com diferentes demandas, interesses e propostas de
sociedade se encontram em um mesmo espaço, que deve acolher a todos, igualmente.
Entretanto, alguns grupos são menos representados que outros, caso de alguns pescadores
artesanais do município, que desde 2022 foram aproximados à estrutura do Fórum por
intermédio de um edital de fomento que tinha, entre outros objetivos, a formalização de
associações de pescadores nos termos da Economia Solidária. Este edital foi financiado pelo
Termo de Ajuste de Conduta (TAC) entre a petrolífera Chevron e o Ministério Público Federal
por conta dos vazamentos de óleo em 2011 e 2012 na Bacia de Campos, mais especificamente
no Campo de Frades, no Rio de Janeiro. Nesse processo, algumas tentativas foram feitas para
uma maior integração dos pescadores aos espaços do Fórum, o que nem sempre logrou êxito.
Sendo os pescadores um grupo historicamente tutelado e marginalizado pelo poder público,
existem uma série de barreiras burocráticas, técnicas e higiênico-sanitárias que impedem até
mesmo a comercialização do pescado sem que seja necessária a figura de um atravessador.
Assim, sem reconhecer algumas especificidades sociais dos diferentes grupos que se
aproximam ou são aproximados da Economia Solidária, as fronteiras entre acolher os
marginalizados pela estrutura de emprego formal e incentivá-los ao “empreendedorismo
solidário” são fluidas demais para perceber a existência de alguma diferença - afinal,
47
enquanto política pública, o município se vale da integração de uma certa massa de
desempregados ou de subempregados ao aparato da Casa Azul, sem que haja algum indicativo
de mudança no ideal de desenvolvimento da cidade. O secretário de Assistência Sociale
Economia Solidária, por exemplo, entende que as feiras da economia solidária são “uma
opção de empreendedorismo que ganhou força no período pós pandemia” (Prefeitura de
Niterói, 2023).
Enunciar o movimento da Economia Popular Solidária como uma expressão do
empreendedorismo reforça a ideia de que a institucionalização do movimento serve para
combater a extrema pobreza, dando a responsabilidade mais aos indivíduos do que à gestão
pública para assegurar o sustento, e sempre como algo “provisório”, enquanto se encontram
desamparados pelo desemprego. Isso parece ir de encontro ao projeto de desenvolvimento da
Prefeitura de modo geral, já que inclusive incentiva o empreendedorismo como forma de
alavancar a geração de renda, sendo um dos pontos do Niterói Que Queremos (2013) e uma
marca da gestão de Axel Grael (PDT, 2021 - atual), ganhador dos prêmios regional e nacional
Sebrae Prefeito Empreendedor em 2022. Essa iniciativa condecora gestores públicos e
municípios envolvidos no desenvolvimento de políticas públicas que incentivem pequenas
empresas e o empreendedorismo.
O município está tão inserido no ideário empreendedor que até o fim de 2024 será
oficialmente a Cidade Empreendedora do Brasil pelo Sebrae (Prefeitura de Niterói, 2024).
Nos eventos que acontecem desde 2022, a lei que institui a economia solidária como política
pública do município é rememorada pelo prefeito e pelo secretário da SMASES em
associação ao desalento provocado pela pandemia de Coronavírus, momento de criação do
Renda Básica Temporária e do Busca Ativa, auxílios financeiros de apoio à famílias em
situação de vulnerabilidade social, no primeiro caso, e aos trabalhadores individuais de ramos
produtivos específicos, a economia solidária inclusa, no segundo. Esses programas são
identificados como o início do planejamento para a criação da Moeda Araribóia, a moeda
social de Niterói, que hoje fomenta empreendimentos econômicos solidários da cidade
selecionados através de uma chamada pública, publicada em agosto de 2023 (Secretaria da
Fazenda de Niterói, 2023). Desse modo, o empreendedorismo e as iniciativas recentes
voltadas para a Economia Solidária estão diretamente relacionadas aos programas
inaugurados pelo cenário pandêmico de meados de 2020.
A principal manifestação da Economia Solidária no município, conforme introduzido
no capítulo anterior, é o Centro Público de Referência em Economia Solidária, chamada
também de Casa Paul Singer e popularmente conhecida como Casa Azul. Demarcar a
48
fronteira entre Casa Azul, órgão da prefeitura, e o Fórum, autoproclamado movimento social
municipal, pode ser um desafio, já que ambos compartilham até o mesmo espaço físico. Como
já argumentei, os espaços importam, nos permitindo alcançar os conflitos e tensões nas
relações sociais que carregam disputas pelo pertencimento, pelo direito à memória e pelas
propostas de diferentes tipos de sociedade. Nesse sentido, observar a integração dos
associados a estes espaços é fundamental, na medida em que possibilita um entendimento
mais amplo sobre a capacidade de ação coletiva e articulação política. De especial interesse é
verificar onde estão os pescadores nesses locais.
Uma forma de traçar o limite entre a gestão da secretaria municipal e a gestão do
movimento social é por meio da investigação do modo de organização interno ao Fórum e dos
locais que este ocupa na cidade, tarefa iniciada no capítulo anterior, mas que permanece
inacabada. Para completá-la, cabe seguir a apresentação das atividades a partir das suas
divisões determinadas pelo regimento interno, o que faço nas próximas seções deste capítulo.
Vale destacar, porém, que a separação delimitada por mim neste trabalho é um exercício de
identificar as diferenças entre as esferas do governo e do movimento, já que o diálogo entre os
dois é contínuo, bem como a convivência nos espaços deliberativos e de comercialização,
contato que dá forma, em alguma medida, às ações do governo para a pasta e às estratégias de
organização do Fórum.
Além disso, também discuto como a produção do Fórum se dá em dois níveis: aqueles
que organizam as atividades e os que se dedicam às próprias produções. Ser coordenador de
alguma feira, integrar a Secretaria Executiva ou representar algum Grupo de Trabalho não
impede a comercialização dos próprios produtos; também não é necessário ser produtor para
fazer parte da Executiva ou dos GTs, já que existem outros dois outros segmentos além dos
empreendimentos econômicos: os gestores públicos, “composto por representantes de
governos municipais, estaduais e federais que tenham em sua gestão programas voltados para
o público da Economia Solidária” (FES-NIT, cap 2, art 2); e as Entidades de Assessoria e
Fomento, compostas por
pessoas jurídicas, na forma de associações, ONGs sem fins lucrativos ou órgãos
universitários (incubadoras tecnológicas e projetos de extensão) que prestam
serviços de apoio e fomento aos Empreendimentos Solidários, na forma de ações
de formação (tanto técnica quanto econômica e política), na forma de apoio direto
(em estrutura, assessoria, consultoria, elaboração de projetos e/ou oferecimento de
crédito) para a incubação e promoção de empreendimentos (FES NIT, sem data, art.
2)
49
Meu trabalho enquanto bolsista do Escritório Escola Engenharia e Design (E3D) da
UFF se integra à atuação no segmento de assessoria e fomento, o que me colocaria distante da
esfera da produção, já que as funções associadas a essa posição são atribuições técnicas, de
acordo com o que é discutido e acordado nas plenárias. Um exemplo é a informatização dos
dados dos associados, que foi feito por estudantes da Ciência da Computação da UFF.
Entretanto, o que se observa é uma certa predominância de membros deste grupo na condução
das discussões, o que vai de encontro ao observado por Nagem e Silva (2013) ao demarcarem
a centralidade da Academia na divulgação dos ideais da Economia Solidária.
Os limites materiais acabam dificultando a articulação completa e irrestrita de todos os
trabalhadores nos espaços de deliberação e de convivência na Casa Azul, já que esta funciona
apenas em horário comercial e se localiza no centro da cidade. Os marisqueiros da TAMBOA,
por exemplo, trabalham de terça à domingo, iniciando a jornada ao raiar do dia e terminando
no meio da tarde, quando vendem o produto para os atravessadores. Às segundas, o descanso.
Realizar o cadastro presencialmente, participar das feiras e das plenárias demanda um tempo
que não está disponível para o grupo: um dia sem trabalhar afeta a renda do mês inteiro. Há
uma distância, portanto, entre a maior parte dos produtores dessas duas esferas (organização e
produção), que se traduz nas dificuldades de comunicação entre as decisões, regras e informes
gerais do grupo como um todo. Um dos objetivos deste capítulo, assim, é refletir sobre as
possíveis relações entre o nível de integração aos espaços de construção política da economia
solidária com a classe social e ramo produtivo dos associados. É uma iniciativa metodológica
conduzida pela noção de experiência social, conforme Dubet (1994), para observar as
condições objetivas do perfil dos associados e o seu reconhecimento e pertencimento ao
Fórum. Para isso, faço uso do material coletado no trabalho de campo, do banco de dados
socioeconômicos dos cadastrados compartilhados pela co-gestão da Casa Azul, além dos
dados de acompanhamento da presença em plenárias e nos ambientes formativos. Também
neste capítulo, apresento a estrutura de organização do Fórum, com foco na plenária, na
Secretaria Executiva e nos Grupos de Trabalho de Comercialização e de Pesca Artesanal.
3.1. A divisão das atividades
Segundo o Regimento Interno, o Fórum possui algumas instâncias representativas,
quais sejam, a Plenária Municipal, os Grupos de Trabalho, a Secretaria Executiva, as redes
associadas à economia solidária e o Conselho de Integração das Instâncias. A instância
representativa máxima é a Plenária,que acontece nas primeiras segundas feiras de cada mês,
50
em local a ser definido nos dias anteriores, e tem como objetivos principais o cumprimento do
regimento interno, a escolha da Secretaria Executiva e das Entidades de Apoio e Fomento, a
constituição de Grupos de Trabalho e Grupos Temáticos, o atendimento às demandas dos
Fóruns nacional e estadual de Economia Solidária, o planejamento e avaliação das ações de
fortalecimento e divulgação do movimento na cidade. O acompanhamento das plenárias em
2022 me permitiu identificar inúmeras dificuldades para o cumprimento da maioria destes
objetivos, o que não é tema deste estudo. Entretanto, cabe ressaltar que alguns aspectos
práticos da organização e realização das plenárias impedem a participação ativa de diferentes
grupos sociais. Isso significa que a autogestão democrática, um dos principais pressupostos do
movimento, não consegue se realizar na prática.
Observando a concentração das atividades a partir do trabalho etnográfico realizado ao
longo de quase dois anos, entendo o Fórum de Niterói a partir de duas esferas de ordenação: a
de organização, isto é, aqueles que organizam as feiras, as plenárias e o próprio cadastro,
envolvidos ativamente nas demandas burocráticas e deliberativas que permitem o uso de
espaços públicos, gerem as relações contratuais com os fornecedores das barracas utilizadas
nas feiras e participam de reuniões privadas com os gestores públicos e funcionários da pasta
de Assistência Social e Economia Solidária do município, articulando politicamente para
ampliar o espaço da economia solidária no debate público; e a de produção das atividades e
bens comercializados dentro da estrutura da Economia Solidária. Apesar das fronteiras serem
borradas, na segunda esfera se concentram os inscritos no Fórum que não participam de
nenhum coletivo imediatamente ligado à organização. Essa divisão me parece apropriada
porque, apesar da maior instância representativa ser a Plenária, no qual todos têm o direito de
votar as decisões que serão acatadas pela Secretaria Executiva, muito escapa deste espaço de
discussão. Para além da baixa adesão a esses encontros, a política que é feita no cotidiano
pelas coordenadoras de feiras e pelos dirigentes dos grupos de trabalho fica à margem do que
é debatido e conhecido pelos associados que não podem, impedidos pelo horário e local de
realização das reuniões, e/ou não querem, por se sentirem distantes subjetivamente das
discussões, participar das outras instâncias representativas.
Do mesmo modo, argumento que há dois tipos de entrada ao Fórum, cujas distinções
se dão nas motivações para a associação. Identifico o primeiro tipo como a entrada orgânica,
que se refere aos indivíduos que se articulam ao Fórum de modo mais espontâneo, ao
perceberem alguma oportunidade imediata nos espaços de comercialização, ou ao entenderem
a organização coletiva como uma estratégia política válida para alcançar algum objetivo. O
segundo grupo é aquele que entra em contato com o Fórum por meio de alguma mediação
51
formalizada14, que quase sempre faz parte do aparato público, como os CAPs ou os CRAS.
Recorrentes neste tipo de entrada estão as mulheres em vulnerabilidade social frequentemente
associada à violência de gênero, e aos usuários das redes de atenção psicossocial que
encontram fins terapêuticos na produção artística e/ou artesanal. Além desses, entretanto, se
aproximam ao Fórum grupos incentivados pelas entidades de assessoria e fomento, que
costumam ser estudiosos, militantes de algum movimento social ou trabalhadores do terceiro
setor. Novamente, essa delimitação busca esgarçar as diferentes circunstâncias de entrada para
fins analíticos.
A integração dos pescadores artesanais ao Fórum foi mediada por uma estrutura mais
ampla e organizada, sobre a qual falarei mais adiante. Isso significa dizer, entretanto, que há
um limite entre a fronteira que separa totalmente o Fórum da Casa Azul, pois essas duas
estruturas interagem continuamente para o estabelecimento de estratégias, acordos políticos e
crenças compartilhadas no fazer cotidiano da Economia Solidária no município.
3.1.1. Os cadastrados
Os dados sobre os cadastrados se acumularam em bases distintas, uma vez que a
gestão compartilhada entre prefeitura e movimento gerou dois tipos de cadastros até meados
de 2022: o da prefeitura continha questões socioeconômicas de interesse para a gestão
municipal, enquanto o do movimento era um cadastro simplificado, feito em papel, para
armazenar principalmente as informações de contato dos recém-inscritos. Além desses, um
terceiro tipo de cadastro foi criado por conta do distanciamento social derivado da pandemia
de Coronavírus, em conjunto à Universidade Federal Fluminense por meio do Escritório
Escola Engenharia e Design (E3D). Superado o cenário de distanciamento social, o trabalho
realizado pelo Escritório foi pensado para unificar os dois questionários - virtual e o da
prefeitura - de modo que pudessem compor um banco de dados robusto, tarefa que se iniciou
em maio de 2022 e ainda não foi completamente finalizada. Os dados que utilizo neste
capítulo dizem respeito à última atualização deste banco unificado, que contém, em adição, o
acompanhamento das presenças dos associados nas plenárias entre dezembro de 2022 e
novembro de 2023. Entretanto, existem lacunas nas respostas das demais variáveis,
principalmente as que se referem às atividades produtivas, comprometidas pelo
14Aqui, a ideia de formalização qualifica a mediação para separar os indivíduos que se aproximam do
Fórum a partir do contato com amigos, vizinhos ou conhecidos, que os estimulam a participar das
atividades. O que quero diferenciar é justamente a influência exercida pela institucionalização da
Economia Solidária, e que pode ser um fator que interfere na capacidade de articulação e mobilização
política deste segundo grupo.
52
preenchimento virtual do questionário, até meados de 2022, por intermédio do distanciamento
social. As dificuldades no manejo com a tecnologia e de interpretação das perguntas
comprometem grande parte das informações contidas no cadastro à distância. Os
questionários aplicados presencialmente pelos funcionários da prefeitura, por sua vez,
sofreram diversas alterações no processo de construção coletiva do modelo entre a gestão
municipal e a gestão do movimento. A concepção do modelo final foi a pauta de algumas
Plenárias e diversas reuniões realizadas pela comissão de cadastro, grupo de trabalho
temporário do Fórum, e as opções de respostas fechadas foram alteradas repetidas vezes,
resultando em uma gama de respostas ampla, abrangente e que dificulta uma análise
aprofundada. Além disso, os pescadores artesanais inscritos no Fórum não deram todas as
informações solicitadas pelo cadastro no momento da inscrição, o que impossibilita
comparações objetivas entre eles e o restante dos associados. As dificuldades que se
impuseram e que impediram um avanço maior são relacionadas justamente à tentativa de
gerar um questionário, e consequentemente uma base de dados, que correspondesse tanto às
demandas do Fórum, quanto às da Casa Azul.
Dito de outro modo, a falta de integração entre os questionários, que se relaciona aos
desacordos entre as gestões, gerou uma gama de respostas que impedem o uso de variáveis
importantes para o trabalho aqui pretendido. A primeira variável apresentada é “categoria do
empreendimento”, que busca identificar os ramos de atuação dos associados. Conforme
demonstrado pela tabela abaixo, contém opções abrangentes e múltiplas.
Tabela 1: Variável de segmento
O Empreendimento pertence a qual das seguintes categorias?
AGROECOLOGIA, PLANTAS ORNAMENTAIS
AGROECOLOGIA, SABOARIA
ARTESANATO
ARTESANATO, COLETA SELETIVA OU RECICLAGEM, CULTURAS E ARTES, ENSINO
AGRICULTURA, ALIMENTAÇÃO, GASTRONOMIA E BEBIDAS, ARTESANATO, BELEZA
E CUIDADOS PESSOAIS, PECUÁRIA, PESCA
ALIMENTAÇÃO, GASTRONOMIA E BEBIDAS, ARTESANATO, BELEZA E CUIDADOS
PESSOAIS,ENSINO
53
ALIMENTAÇÃO, GASTRONOMIA E BEBIDAS, ARTESANATO, BELEZA E CUIDADOS
PESSOAIS, COSTURA, BORDADO E OUTRAS ATIVIDADES TÊXTEIS, CULTURAS E
ARTES
ARTESANATO, CONSERVAÇÃO E LIMPEZA, CULTURAS E ARTES, ENSINO,
ORGANIZAÇÕES REPRESENTATIVAS OU MOVIMENTOS SOCIAIS, TURISMO
BELEZA E CUIDADOS PESSOAIS
BELEZA E CUIDADOS PESSOAIS, SERVIÇOS DE SAÚDE
COSTURA, BORDADO E OUTRAS ATIVIDADES TÊXTEIS
CULTURAS E ARTES
COLETA SELETIVA OU RECICLAGEM
ENTIDADES DE APOIO, ASSESSORIA E FOMENTO
PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS
PRODUÇÃO CULTURAL
Fonte: Elaboração da autora a partir da base de dados dos cadastrados na Casa Azul.
Essa variável contém opções muito abrangentes para afirmar com exatidão o ramo de
atuação de cada associado. A variável seguinte, de especificação da atividade, resolveria o
problema. Entretanto, 61% dos cadastrados não responderam essa pergunta. O trabalho
etnográfico realizado me permitiu identificar uma predominância do segmento da costura e
artesanato nos espaços de comercialização, principalmente produtos como bolsas de tecido,
crochê, macramê e bordado. Para fins metodológicos, na limpeza da base, agreguei as
respostas “artesanato” e “costura, bordado e outras atividades têxteis” para me aproximar,
ainda que com inexatidão, da quantidade de associados relacionados a esse ramo de atividade,
chegando a um total de 54,1%. A superioridade numérica deste ramo, como descrevo nas
próximas seções, é motivo de preocupação das instâncias organizadoras do Fórum e da Casa
Azul, que identificam um baixo consumo desses produtos pelos frequentadores do circuito de
feiras. Na limpeza da base, identifiquei que os pescadores seriam 4,6% dos inscritos15.
Inversamente ao que se observa no restante do Fórum, o trabalho na pesca é marcadamente
masculino.
Os dados socioeconômicos, por sua vez, são mais confiáveis, tendo respostas fechadas
e um preenchimento mais fácil por parte do entrevistador. Até 30 de novembro de 2023, o
Fórum contava com 1.889 associados. Dentre esses, 64,4% são mulheres. Entre elas, 52% são
15A maior parte dos pescadores não informou dados importantes, inviabilizando a comparação com o
total do Fórum. 79,6%, por exemplo, não informou a escolaridade.
54
negras e 43,7% são brancas. A presença feminina é a principal marca da Economia Solidária
em Niterói, e isto é refletido tanto nas posições ocupadas dentro das instâncias deliberativas,
quanto nos espaços de comercialização. São elas as responsáveis por coordenar as feiras,
administrar a loja dentro da Casa Azul e as mais ativas nos espaços de convivência e
comunicação do movimento, principalmente nos grupos no aplicativo de mensagens
Whatsapp. É a presença maciça das mulheres que garante a predominância do ramo da costura
criativa e do artesanato, uma vez que a divisão sexual do trabalho, conforme Hirata e Kergoat
(2007), derivada em partes do processo histórico de superação da produção artesanal e com a
inauguração das primeiras indústrias, e das relações desiguais entre homens e mulheres, é um
ponto fulcral na apropriação dos espaços produtivos por eles e dos espaços reprodutivos por
elas. Nesse mesmo argumento, a produção artesanal feminina se mostra como uma
possibilidade de trabalho para quem possui outras jornadas atreladas ao espaço doméstico.
O artesanato como relato biográfico dos papéis sociais femininos já foi explorado por
pesquisas sobre os sentidos dos trabalhos das mulheres, incentivadas aos “ofícios manuais”
tanto como modo de aprendizado sobre a feminilidade, quanto como modo de subverter a
desvalorização de suas atividades (Silva, 2011). Nessa chave, o aprendizado do artesanato e
da costura revela a trajetória social dos vínculos entre as mulheres e as possibilidades de
rentabilizar produções historicamente marginalizadas. Em 2022, durante o acompanhamento
das feiras do circuito araribóia e em conversas informais com as artesãs, identifiquei que, para
além da possibilidade de complementação de renda, a produção artesanal se mostrava como
uma perspectiva criadora para as mulheres, que aprenderam a produção artesanal com suas
mães, avós e amigas, identificando no ofício uma integração entre a apropriação dos espaços
domésticos simultaneamente às consequências terapêuticas e de afirmação de uma identidade
própria, que ultrapassa as responsabilidades de manutenção dos laços familiares e afetivos.
Dentre elas, se destacam as aposentadas e pensionistas, que encontraram no artesanato e nos
espaços de comercialização uma chance de superar os papéis sociais cumpridos durante uma
vida toda. São mulheres que, após a morte ou divórcio dos maridos e a saída dos filhos de
casa, passam pelo processo de se entender como atores sociais. Os espaços de
comercialização, assim, têm um importante papel na criação de redes de sociabilidade com
outras mulheres que possuem trajetórias de vida parecidas.
Parte dessas mulheres não precisa da renda obtida com o empreendimento para
sobreviver, no sentido objetivo da palavra. Entretanto, as particularidades da associação deste
grupo ao Fórum de Niterói indica uma relação de distância com o mercado de trabalho
formal, e o predomínio da vida na esfera privada e doméstica. Por outro lado, existem os
55
associados que gerenciam e acumulam distintos ofícios para ampliar a renda, o que pode ser
definido como a cultura da “viração”, em que os indivíduos utilizam seus saberes e
capacidades para assegurar o sustento, em posições definidas como “bicos” e “biscates”, por
exemplo (Pedrosa, 2022). Uma importante característica desse tipo de trabalho é o
entroncamento entre o tempo dedicado às atividades econômicas e o de lazer e/ou descanso,
que deságua na quase dissolução das fronteiras entre espaço profissional e espaço privado,
como aponta Abílio (2017). A autora demarca as semelhanças entre o trabalho feminino e o
trabalhador informal transformado em microempreendedor, cujas atividades, assim como as
das mulheres, são amalgamadas. Assim, identificar o percentual de rendimento das atividades
ligadas ao fórum na renda da família poderia indicar, em alguma medida, a relação dos
indivíduos com o mercado de trabalho e com a cultura da “viração”. Para isso, observei a
variável “tipo de rendimento obtido com o empreendimento” disponível na base de dados dos
cadastrados.
Embora o empreendimento seja a principal fonte de rendimento para 28,7% dos
associados, a possibilidade de complementar a renda com outras atividades econômicas ou
dos rendimentos recebidos por pensões, aposentadorias e programas governamentais para
41,5% dos inscritos demonstra a necessidade de diversificação de atividades econômicas para
garantir a sobrevivência, conforme aponta o gráfico abaixo.
Gráfico 1: Tipo de rendimento obtido com o empreendimento
56
Fonte: Elaborado pela autora com base no Banco de Cadastro do Fórum de Economia Solidária de
Niterói e da Prefeitura Municipal
Cabe destacar que a opção de resposta “não se aplica” é utilizada para as Entidades de
Assessoria, Apoio e Fomento, que não comercializam seus serviços. Além disso, uma parcela
não desprezível é aposentada ou pensionista. A parcela de associados que escolheu não
informar o tipo de rendimento também chama a atenção, tendo quase o mesmo valor
percentual dos dois maiores grupos.
Observando a importância do grau de escolaridade para a trajetória profissional e de
renda dos indivíduos na sociedade brasileira, quis verificar as possíveis relações entre o nível
de escolaridade com o tipo de rendimento obtido pelo empreendimento, dado que o grau de
escolaridade dos associados é relativamente alto quando comparado ao restante do país: em
2022, 29,9% dos brasileiros acima dos 25 anos tinha concluído o ensino médio, enquanto no
Fórum esta taxa é de 42,4%. Os índices de conclusão do ensino superior para essa parcela da
população no Brasil é de 19,2%, enquanto no Fórum essa taxa é ligeiramente maior, como
demonstra o gráfico abaixo (IBGE educa, 2022).
Gráfico 2: Grau de Escolaridade dos associadosno Fórum de Economia Solidária de Niterói
até dezembro de 2023
Fonte: Elaborado pela autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói e
Prefeitura Municipal.
57
De acordo com o gráfico acima, a maior parte dos cadastrados no Fórum completou o
ciclo básico de ensino. A agregação da taxa daqueles que concluíram o ensino superior e a
pós-graduação indica que 24,4% dos associados possuem algum diploma de cursos
sequenciais.
Gráfico 3: Renda familiar dos associados ao Fórum
Fonte: Elaboração da autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói.
O grau de escolaridade e o rendimento mensal dos associados são superiores ao do
contexto brasileiro, já que 45% têm um rendimento mensal de até 2 salários mínimos. No
Brasil, o rendimento médio mensal domiciliar em 2022 foi de pouco mais de 1 salário mínimo
(IBGE, 2023). Comparado a Niterói, entretanto, o rendimento dos associados é ligeiramente
menor: a renda mensal média na cidade é de 3,1 salários mínimos (idem). Para verificar se há
alguma relação entre o grau de escolaridade e o nível de renda, cruzei as duas variáveis para
gerar o gráfico abaixo.
Gráfico 4: Renda familiar por grau de escolaridade
58
Fonte: Elaboração da autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói e
Prefeitura de Niterói
Os dados de escolaridade foram agregados para uma melhor visualização. Neste caso,
além de excluir da base os indivíduos que não informaram a renda - pois, em geral, não
informaram também a escolaridade -, o indicador referente ao Ensino Fundamental foi
ampliado para abranger os indivíduos que não completaram todos os anos deste nível de
ensino.
Conforme identificado acima, a renda familiar média aumenta conforme o grau de
escolaridade dos associados, indicando a relevância da escola na trajetória dos associados ao
Fórum. Tendo isso em vista, quis identificar qual o tipo de rendimento obtido para cada faixa
de escolaridade, uma vez que esse cruzamento permite algumas inferências sobre as
atividades econômicas dos grupos, que podem ter a necessidade de acumular diferentes
funções e trabalhos.
Gráfico 5: Tipo de rendimento obtido com o empreendimento de Economia Solidária por grau
de escolaridade
59
Fonte: Elaborado pela autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói e
Prefeitura Municipal.
Os gráficos acima mostram a diferença no modo de rendimento de acordo com o grau
de escolaridade do associado. É menos provável que o empreendimento associado ao Fórum
seja a fonte principal de renda conforme o grau de escolaridade aumenta. Para aqueles com
pós-graduação, porém, essa afirmação não é verdadeira. Entretanto, cabe relembrar que o
universo dos pós-graduados é praticamente irrelevante, compondo 1,9% dos associados.
Sendo assim, o dado mais interessante para este segmento é a quantidade de pós-graduados
compondo as Entidades de Apoio, Assessoria e Fomento, o que indica uma atuação de
gestores públicos e pesquisadores dentro do Fórum. Também é interessante notar que a
parcela dos associados que completaram o Ensino Superior é a que tem a maior quantidade
relativa de indivíduos que recebem aposentadoria e pensões e utilizam os bens e serviços
comercializados no Fórum para complementar esses rendimentos. Isso talvez signifique que
esse grupo é o que teve maior acesso ao emprego formal.
Levando esse dado em consideração, um ponto de interesse foi verificar se haveria
diferenças relevantes entre homens e mulheres, negros e brancos para o tipo de rendimento
obtido com o empreendimento registrado na Economia Solidária. Para uma melhor
visualização dos dados, foram excluídos da base os 375 associados que não informaram o
sexo, uma vez que, destes, 371 também não informaram o tipo de rendimento recebido com o
empreendimento.
60
Gráfico 6: Tipo de rendimento obtido com o empreendimento de Economia Solidária por sexo
e cor/raça do associado
Fonte: Elaborado pela autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói e
Prefeitura Municipal.
Conforme mostra o gráfico acima, o grupo que mais obtém nos empreendimentos de
economia solidária a fonte principal de renda é o dos homens brancos. As atividades
relacionadas ao Fórum como complementação de outras fontes de renda aparece para 60,2%
das mulheres brancas e 58,3% das negras. Para os homens negros, essa taxa é de 50,38%,
contra 44,25% dos homens brancos. Nota-se que a fonte de renda de aposentadorias ou
pensões é maior para as mulheres brancas, enquanto as doações ou programas governamentais
concentram-se para as mulheres negras, o que indica uma maior vulnerabilidade
socioeconômica para este grupo.
Como foi mencionado no início desta seção, os pescadores não compartilharam
informações socioeconômicas importantes, o que impossibilita a comparação quantitativa
entre esse grupo e o restante dos associados ao Fórum. Entretanto, o trabalho etnográfico
realizado com a TAMBOA, além do estudo sobre a pesca artesanal permitem algumas
inferências. Ao contrário do que acontece no Fórum de Niterói, os pescadores artesanais são,
em sua maioria, homens. A pesca é uma atividade socialmente identificada como masculina,
apesar do papel fundamental das mulheres para a realização do trabalho. Esse papel, porém, é
61
visto como uma continuação das atividades que exercem no ambiente doméstico, como
apontam Figueiredo e Prost (2014). Do mesmo modo, as atividades realizadas em alto mar, de
extração ou de captura do pescado são entendidas pelos meus interlocutores como mais
adequadas a eles, pelos riscos e incertezas do alto mar, bem como pela categorização dessa
atividade como um trabalho pesado e perigoso, que demanda força e agilidade, que não
seriam inerentes a elas. Santos e Souza (2017) apontam que essa classificação é comum nas
comunidades pesqueiras, sendo o gênero um fator importante para a organização social do
trabalho.
Outra característica do grupo é o baixo grau de escolaridade, que vem aumentando
com as gerações mais jovens. Entre os mais antigos, pais e/ou avós dos mais novos na prática,
o mais frequente é que tenham terminado o ensino fundamental, abandonando a escola nos
anos finais deste ciclo de ensino pela necessidade de se dedicar ao trabalho, tendo na pesca a
principal fonte de renda. Às vezes, pelas condições climáticas, de poluição ou na época do
defeso, os pescadores artesanais se vêem obrigados a realizar outras atividades econômicas,
principalmente no ramo da construção civil, para eles, e como empregadas domésticas, para
elas.
3.1.2. A plenária
A plenária é a maior instância deliberativa do Fórum de Economia Solidária de
Niterói. Ela acontece às primeiras segundas-feiras de cada mês, das 14 às 17 horas, e segue
uma pauta sugerida pelos Grupos de Trabalho e pela Secretaria Executiva. Esses encontros
não têm local definido, e os espaços utilizados variam mensalmente. Sua condução é
estruturada em dois eixos, o primeiro sendo sempre de caráter formativo, atendendo às
exigências de educação continuada nos termos da economia solidária. Nesse momento, podem
acontecer palestras de convidados e/ou associados ao Fórum sobre temas caros ao movimento,
conforme identificados nos regimentos das organizações econômicas solidárias nacional,
estadual e municipal, e atendendo as demandas dos associados segundo a sua convivência nos
espaços de comunicação e comercialização. Entre as pautas, estão, por exemplo, as discussões
sobre machismo estrutural, bem viver e movimentos sociais. Além disso, o eixo de formação
também pode ser usado para apresentar atualizações no regimento, novos integrantes da
Secretaria Executiva, dos integrantes do Conselho de Economia Solidária do município e do
estado.
O segundo momento da plenária é reservado para os informes gerais da gestão da Casa
Azul - sempre apresentado pelo subsecretário de Assistência Social e Economia Solidária -,
62
da Secretaria Executiva, dos Grupos de Trabalho, de Comitêstemáticos temporários, e dos
Conselhos municipais convocados e/ou inscritos na reunião. Os informes são avisos
importantes para a estrutura de organização do movimento, como a necessidade de
voluntários em algum Grupo de Trabalho, e discussões sobre eventuais problemas e
discordâncias internas ao Fórum. Os representantes de cada grupo também aproveitam para
tirar dúvidas dos presentes sobre as ações e o funcionamento dos espaços do Fórum, que
podem ser virtuais ou físicos. Virtualmente, esses espaços são o site de apresentação, os
diversos grupos dentro do aplicativo de troca de mensagens e a ferramenta Google Meet,
utilizada para plenárias remotas. O uso da internet para a comunicação diária acerca das
atividades do Fórum fomenta muitas dúvidas por grande parte dos participantes, tema
constante nos informes gerais. Essas ferramentas são de especial interesse para os produtores,
já que a inscrição para participar das feiras acontece pelos grupos de mensagens. Já os lugares
físicos da economia solidária são a Casa Azul e as feiras do circuito, que acontecem em
diferentes locais da cidade, e apontam uma apropriação significativa do espaço público pelos
expositores, que será tratada adiante neste capítulo.
Para participar das plenárias, é necessário primeiro realizar a formação em economia
solidária, que consiste em uma aula de duas horas sobre os princípios do movimento oferecida
pelo Fórum16, e posteriormente efetuar o cadastro na Casa Azul, momento no qual o
cadastrado seria inserido em um grupo de mensagens do aplicativo WhatsApp. Entretanto,
existe uma desorganização entre essas etapas e no fluxo de informações recebidas e
repassadas pela co-gestão, já que os informes sobre as formações também acontecem através
do aplicativo de mensagens e a etapa do cadastro pode ser realizada antes da formação. Sendo
assim, o processo de associação ao Fórum tem empecilhos de cunho administrativo e
organizacional, no qual informações importantes para a entrada e permanência dos indivíduos
no movimento ficam retidas, o que pode dificultar o acesso às Plenárias e aos demais espaços
de convivência da economia solidária.
Incorporar os ritos da celebração é uma importante iniciação política dos associados,
que muitas vezes tem ali o primeiro contato com discussões políticas formais. Entender as
etiquetas de inscrição, de vaias ou exaltações às falas dos representantes pode ser um dos
determinantes na presença assídua, ou não, dos associados. Isso acontece porque a
apropriação dessas solenidades, que simboliza a integração do associado, e da pauta em
16 A frequência de oferta do curso é de, geralmente, duas vezes por mês, mas pode se alterar de acordo
com a quantidade de pessoas que vão até a Casa Azul buscando informações sobre o processo para
participar do Fórum.
63
discussão é um importante indicador da proximidade subjetiva dos participantes ao espaço. A
adequação aos simbolismos e às práticas demonstra a apreensão de um código específico,
capaz de gerar o reconhecimento coletivo que estrutura a noção de experiência social para os
indivíduos (Dubet, 1994). Reconhecimento esse que, para Dubet (1994), não é imediato, na
medida em que passa pelos processos de julgamento e de auto reflexão, em uma abordagem
que entende a ação de modo menos rígido e homogêneo, reconhecendo a diversidade de
experiências e de lógicas que dão forma às práticas. Isso não significa dizer, entretanto, que a
auto reflexão é apartada das estruturas sociais, e que o conceito de experiência social sirva
para uma visão meramente subjetivista da ação. Cada lógica de ação é inscrita, submetida ao
sistema social por meio de algum “elemento simples”, objetivo (ibidem, p. 139). A
objetividade a qual Dubet se refere é relativa aos fatores que independem das escolhas de cada
ator social e que dizem respeito aos aspectos “educativos” da socialização em cada cultura.
São as imposições, as normas de conduta, as coerções situacionais que regem a integração ao
sistema. A união das noções de integração e estratégia é feita por meio da mediação dos
interesses e possibilidades dos atores sociais pelos “elementos simples” citados acima. Dubet
utiliza também a noção de historicidade da ação, que rege justamente o entendimento sobre as
lógicas heterogêneas sob as quais os atores se movem, dado a multiplicidade de espaços
sociais pelas quais os indivíduos circulam com a queda da imagem da sociedade indivisível a
partir da modernidade.
A historicidade da ação permite que a noção de estratégia não enrede pela linha da
escolha racional, sob a qual as possibilidades são conscientemente analisadas e a escolha,
derivada desse processo minucioso de análise, em um contexto de competição plena. Admitir
as regras de conduta culturalmente determinadas e estruturas de coerção e dominação
preexistentes ao indivíduo abre espaço para reconhecer as desigualdades na distribuição dos
recursos, das próprias possibilidades e da capacidade de escolha. A ideia de experiência social
é central para observar os movimentos de ação coletiva, porque, ao reconhecer a possibilidade
de auto reflexão e de uma certa distância do sistema social do indivíduo, se reconhece a
postura crítica que permite a inscrição da identidade do indivíduo a um movimento social, por
exemplo. A adesão ou não aos valores e normas culturais, entretanto, não acontece apenas em
relação ao sistema social, mas ao próprio quadro de valores do movimento, mediado
justamente pela desigualdade dos espaços sociais. Assim, para além das barreiras de ordem
material, que impedem a participação de certos grupos pela incompatibilidade de horário,
distância geográfica aos locais de deliberação e a falta de letramento formal e tecnológico que
dificultam o uso dos aplicativos de mensagem para se comunicar, a tentativa de aproximar
64
outros grupos sociais, como os pescadores artesanais do município, à estrutura do Fórum
esbarra na distância que esses indivíduos sentem em relação à própria experiência e aos
grupos sociais dotados da capacidade de reconhecimento coletivo em um dado espaço. A
distância social é uma chave para entender as hierarquias entre pessoas pertencentes a
diferentes classes e frações de classe, que compartilham entre si certas práticas culturais
(Bourdieu, 2002). Dito de outro modo, há algum nível de subjetividade compartilhada entre
atores sociais que possuem experiências em comum e que podem orientar a sua
movimentação dentro do espaço social. Para Bourdieu (2002), essa movimentação se articula
às disposições que nascem a partir das experiências de vida repetidas sistematicamente a
ponto de inserir-se na percepção do mundo social, servindo quase como um “instinto” aos
indivíduos. É o que o autor chama de habitus, uma “forma incorporada da condição de classe
e dos condicionamentos que ela impõe” (Bourdieu, 2002, p. 97).
Os pescadores artesanais sentem especialmente essa distância, já que os elementos que
norteiam o reconhecimento entre si dizem respeito a modos de vida e condições de classe
compartilhadas (Bronz, 2023). Apesar de não ser estanque, a socialização ocorre
principalmente no território no qual realizam as práticas extrativistas e ao testemunho das
transformações da terra e do mar, dotados de uma relação específica com os recursos naturais
que escapa aos ideais ditados pela modernidade, conforme O’dwyer (2016). Os trâmites
burocráticos para participar do Fórum tiveram que ser pensados especialmente para o grupo,
que não seria capaz de passar pela formação, por exemplo, dado as condições específicas de
trabalho17.
Segundo a base de dados do acompanhamento dos cadastrados, que utiliza as
informações compartilhadas pela prefeitura municipal e pela gestão do Fórum para observar o
padrão de atividade, até 30 de novembro de 2023 os associados eram 1889, dos quais 42,3%
tinham passado pela formação18. Desses, apenas 2,3% não foram em nenhuma plenária entre
dezembro de 2022 a novembro de 2023. Entretanto, a presençadificilmente é assídua: a maior
parte dos formados, 30,7%, foi apenas a uma plenária.
Esse dado, entretanto, não leva em consideração a data das formações. Para verificar
qual o impacto da data de formação na presença, isto é, se a formação recente diminui ou
aumenta a chance de participação contínua, excluí da base todos que participaram da
formação entre maio e novembro de 2023, resultando em menos 134 associados. No universo
18Entre os cadastrados sem formação em economia solidária, 55,8% não foram a nenhuma plenária
entre os meses registrados e 35,4% foram a apenas uma.
17Para facilitar o acesso do grupo ao Fórum, consideraram a formação dos membros da TAMBOA nos
termos da economia solidária realizada pelo projeto Pesca Solidária.
65
dos 665 formados até maio do referido ano, a porcentagem dos que foram a apenas uma
plenária é maior, totalizando 39%. Isso indica uma tendência de maior participação entre
aqueles que passaram pela formação a partir de maio, já que dentre esses, 28,3% foram a
apenas uma plenária. A partir dessas informações e do que pude observar no trabalho de
campo, entendo que há uma tendência geral de os recém formados participarem mais
ativamente nas plenárias imediatamente após a data de sua formação para poderem expor seus
produtos nos espaços de comercialização. Isso acontece porque uma das regras para a venda
no circuito araribóia de feiras da economia solidária é a presença contabilizada em ao menos
três plenárias.
Tal regra demonstra a importância desse espaço para o funcionamento do Fórum, ou
ao menos para os representantes de cada GT e da Executiva, que evocam em cada encontro a
sua relevância ao indicarem que a participação de todos na Plenária é fundamental para
realizar a autogestão democrática, dado que é a celebração da convivência de diferentes
visões sobre a economia solidária, e o espaço por definição de tomada coletiva de decisões.
Considerando essa regra, quis observar qual o grau de escolaridade e tipo de rendimento
obtido com o empreendimento para os indivíduos que compareceram a quatro plenárias ou
mais.
Gráfico 7 - Grau de escolaridade para os associados com quatro ou mais presenças em
plenárias
Fonte: Elaboração da autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói e
Prefeitura Municipal.
66
Gráfico 8 - Tipo de rendimento obtido com o empreendimento econômico solidário
para os associados com quatro ou mais presenças em plenárias
Fonte: Elaboração da autora com base no Cadastro do Fórum de Economia Solidária de Niterói e
Prefeitura Municipal.
De modo geral, ambos os gráficos acompanham os percentuais da base de dados geral,
que possui as informações de todos os associados. Há uma leve variação para cima entre os
presentes em quatro ou mais plenárias que completaram o ensino médio e o ensino superior
(de 2% e 2,1%, respectivamente), e para baixo para aqueles que concluíram ou não o Ensino
Fundamental (1,3% e 2,1%, respectivamente) em comparação à totalidade dos cadastrados. A
maior variação, entretanto, se refere ao grupo que encontra no empreendimento econômico
solidário complementação para os rendimentos de aposentadoria ou pensão, índice 9,2%
maior para os frequentadores assíduos das plenárias. Esse dado confirma as observações
durante o trabalho de campo, no qual verifiquei uma concentração de idosas nos espaços de
convivência e comercialização, o que talvez ocorra pela disponibilidade de horário e/ou pela
criação de vínculos sociais e afetivos concentrados por essa faixa etária no Fórum, já que os
ambientes de socialização são reduzidos nessa fase da vida.
A primeira plenária que pude participar foi a de julho de 2022, após ter passado pela
formação e pelo cadastro. Naquele momento, as plenárias continuavam acontecendo de modo
remoto, ainda em cumprimento das regras de distanciamento social por conta do coronavírus.
As plenárias remotas também aconteciam às primeiras segundas-feiras de cada mês, das 14 às
67
17 horas, mas o desconhecimento sobre as ferramentas virtuais pela organização e pelos
associados, assim como as falhas de conexão, dificultava o acesso às informações. As
principais dúvidas se referiam ao preenchimento da lista de presença, necessário para o
cumprimento da regra de frequência mínima para a comercialização no Fórum, e às demais
regras para a participação ativa no circuito econômico solidário da cidade - como a
necessidade de completar o ciclo vacinal e comprovar a produção de algum bem ou serviço. A
volta das plenárias presenciais aconteceu no final do segundo semestre de 2022, momento em
que fiquei incapacitada de acompanhar assiduamente pelo fim do recesso e retorno das
atividades acadêmicas fixadas no mesmo dia e horário dos encontros. Em 2023, pude retornar
com o acompanhamento. O crescimento dos associados ao Fórum demandou uma
reestruturação da comissão organizadora para encontrar espaços com capacidade para um
público de mais de mil pessoas. Isso resultou em uma frequente troca de localização,
alternando entre auditórios públicos e salas de diferentes secretarias municipais. Os
desacordos e conflitos experienciados nesses eventos foram fatores que também dificultaram
a permanência em apenas um local, uma vez que a intensa movimentação para a plenária
alterava a rotina dos trabalhadores e demais usuários dos aparelhos.
Assim como nas plenárias virtuais, o foco principal dos participantes nos encontros
presenciais se referia ao preenchimento da lista de presença, o que tem relação direta à
possibilidade de comercializar os produtos ou serviços dos associados. Para assinar a lista, é
necessário procurar o nome de cada associado em uma relação de mais de quinze páginas.
Minha ajuda foi solicitada em todas as plenárias nas quais participei, e eu pude observar a
formação das grandes filas para realizar a assinatura. Contar a presença era mais importante
do que integrar as discussões, o que pode ser um indicativo do pouco reconhecimento que os
indivíduos encontram no espaço, isto é, uma demonstração da distância subjetiva entre o que
acontece nesses encontros. Assim como grande parte dos inscritos no Fórum, os membros da
TAMBOA, além dos limites de participação impostos pela dinâmica de trabalho,
demonstraram pouco interesse em acompanhar as plenárias, em decorrência da baixa
expectativa sobre os efeitos da inscrição ao Fórum, e ao parco reconhecimento para com as
discussões levantadas nos eventos.
Essa conclusão é derivada, em parte, da baixa taxa de retorno e frequência, uma vez
que a regularidade pode inclusive construir o reconhecimento coletivo. Dessa forma, como
ficou evidente nas minhas participações posteriores, existia uma centralidade do GT de
Comercialização nesses eventos, já que as principais preocupações se referiam a capacidade
de geração de renda, apesar de uma então membro da Secretaria Executiva ter afirmado que
68
“a renda é importante, mas não primordial” na economia solidária, fala que vai de encontro
aos 43,3% dos cadastrados no Fórum que identificaram a renda como um dos motivos
principais para a associação, dado que é ainda mais relevante se considerarmos os 34% que
não informaram a motivação (Ecosol, 2023).
A possibilidade de comercializar os produtos nas feiras do circuito araribóia, assim,
aparece como um dos principais fatores de interesse dos que procuram a Casa Azul para
realizar o cadastro, e daqueles que participam das plenárias. Sendo assim, as atribuições deste
GT são de especial importância para os participantes porque estruturam as estratégias de
venda e tratam dos acontecimentos referentes às feiras, espaços que são a “espinha dorsal”19
do movimento por promoverem a convivência regular entre os associados. Por outro lado,
indica que a educação nos termos da economia solidária talvez não esteja se completando,
dado a concentração de um grupo social específico nos ambientes de convivência do
movimento.
3.1.3. A Secretaria Executiva
A secretaria executiva é uma instânciatécnico-administrativa do Fórum, cujo objetivo
principal, estabelecido no artigo 11 do regimento interno, é atuar para o cumprimento das
decisões acordadas nas Plenárias. É composta por, no mínimo, cinco membros titulares e três
suplentes cadastrados no Fórum como empreendimentos econômicos solidários, além de dois
representantes titulares e um suplente das Entidades de Apoio e Fomento. O mandato é de
dois anos, mas os representantes eleitos podem ser afastados em caso de três faltas
consecutivas sem justificativa, ou em caso de afastamento ou desligamento do Fórum. Assim
como as demais decisões, as eleições para este cargo, bem como a contagem dos votos
acontecem no momento de realização das Plenárias. O voto não é obrigatório, e a presença no
dia da eleição não é registrada.
As demais funções da Secretaria Executiva são relacionadas à representação política, à
organização interna, à proposição de pautas e à elaboração de projetos para apoiar os
empreendimentos. Dentre as atribuições, estão a estruturação de um arquivo histórico da
organização, a elaboração e o arquivamento de atas, relatórios e demais documentos sobre as
atividades, a busca e divulgação por informações sobre fomento e órgãos de apoio à
Economia Solidária, e o estímulo ao uso da internet como ferramenta de comunicação entre os
integrantes e todas as instâncias representativas e deliberativas (FES-NIT, sem data). Tais
19Fala da mesma participante da Secretaria Executiva, em reunião privada no GT de comercialização.
69
obrigações evidenciam que a vinculação à Executiva é um trabalho que exige várias horas
semanais de dedicação, o que impede, por questões práticas, a parcela do fórum que tem na
própria produção a fonte exclusiva de renda. É necessário também algum nível de letramento
formal para produção técnica exigida. Além disso, os representantes ocupam um lugar de
centralidade no Fórum, tendo voz ativa ao atuar como comunicadores dos principais avisos
nos ambientes virtuais e físicos, articulando politicamente com os vereadores, secretários,
gestores e funcionários públicos relacionados à pasta da Economia Solidária. Observando a
dinâmica das plenárias, pude constatar que essa posição, fundamentalmente política e
comunicativa, não é percebida como opção para a maioria, que não se sente capacitada para
exercê-la.
A combinação destes fatores pode explicar porque, desde a fundação do Fórum, em
2009, a eleição para a Executiva era apenas um rito democrático, já que concorria uma única
chapa. Em 2023, esse padrão foi alterado, quando duas chapas se inscreveram para disputar o
cargo. O processo eleitoral foi um embate entre dois entendimentos diferentes e antagônicos
sobre Economia Solidária e dos modos como o Fórum deveria se organizar, incômodos
crescentes com a expansão dos associados a partir de 2022, conforme explorado no capítulo
anterior. O grupo vencedor tinha como lema a transparência das informações e a melhoria na
gestão dos dados, enquanto o segundo disputava a definição de “solidariedade” ao
identificar-se como a representação verdadeira do termo. Essa rixa evocava as tensões
existentes entre os associados, conflitos visíveis no dia a dia do Fórum a partir dos
antagonismos surgidos no debate sobre questões práticas, como a distribuição de aventais e o
método de inscrição em feiras. Novamente, os pontos fulcrais das disputas costumavam se
referir à comercialização e a possíveis hierarquias e sistemas de favorecimento dentro do
circuito de feiras, que serão explorados nas próximas seções.
Conforme dito anteriormente, as atribuições da Secretaria Executiva demandam uma
certa proximidade com os funcionários da pasta de assistência social e economia solidária
municipal, bem como com o seu secretário e subsecretário para discutir os temas de interesse
do Fórum, como a ampliação de vagas nas feiras do circuito, a possibilidade de fomento para
os empreendimentos cadastrados, e a disputa por um lugar fixo para sediar as Plenárias.
Atualmente, importantes nomes do movimento da economia solidária da cidade integram esse
espaço representativo do Fórum, sendo ativos em outros movimentos sociais e nas demais
instâncias da organização. A proximidade entre os representantes da Executiva e os gestores
públicos foi intensificada durante 2023, momento fundamental para entender o processo de
70
financiamento de alguns grupos produtivos por meio do Edital celebrado no segundo semestre
do referido ano.
As reuniões entre membros do Fórum com os coordenadores da Casa Azul, incluindo
o subsecretário da pasta de Assistência Social e Economia Solidária do município (SMASES),
indicam que uma das principais perturbações sentidas pelos “organizadores” da Economia
Solidária de Niterói se refere à concentração de uma atividade produtiva, isto é, a costura, em
detrimento das demais. Frequentemente, a necessidade de incentivar a participação de
agricultores e prestadores de serviços diversos aparecia como uma das estratégias para
aumentar o público das feiras, o que significa dizer, por outro lado, que a predominância dos
serviços oferecidos pelas costureiras e artesãs é entendida como um entrave para o
crescimento da renda do movimento. Do mesmo modo, se criaram meios para coibir a
participação individual no Fórum, estimulando a associação coletiva através de programas de
financiamento a grupos produtivos. Essas movimentações são pouco orgânicas, carecendo de
espontaneidade, não surgindo a partir da educação nos termos da economia solidária e no
convívio com os demais associados nas instâncias deliberativas e nos espaços de
comercialização, mas de estímulos governamentais diretos, como é o caso do Edital de
Fomento à Economia Solidária, lançado pela SMASES em 24 de agosto de 2023 como
resultado do diálogo entre os membros da Secretaria Executiva do Fórum, os GTs e a
secretaria municipal responsável pela gestão da Casa Azul.
Entre os objetivos do edital estão o fortalecimento e estímulo à criação de redes de
cooperativas e associações de economia solidária; o combate à extrema pobreza; a ampliação
do cadastro dos empreendimentos econômicos solidários na Casa Azul; o combate ao trabalho
precarizado e a exploração da mão de obra; e a qualificação e formação profissional dos
trabalhadores da economia solidária. O valor total do programa é de dois milhões de reais,
advindos dos recursos da moeda social Araribóia. Os repasses a cada grupo produtivo
selecionado poderiam chegar a até cem mil reais, a serem distribuídos na compra de material
permanente, insumos para os serviços, capacitação ou assessoria técnica, custos cartoriais,
pagamento dos serviços administrativos e advocatícios para a formalização das associações,
pagamento de impostos e microcrédito local. Para participar, os proponentes deveriam estar
cadastrados na Casa Azul até a data de publicação do edital, organizados em coletivos
produtivos de, no mínimo, cinco pessoas, com sede em Niterói. Um dos principais grupos
incentivados a participar do chamamento foi o de pescadores artesanais, que tiveram duas
propostas ganhadoras do financiamento. Esse foi um dos motivos de aproximação dos
pescadores ao Fórum, já que só poderiam concorrer se nele estivessem cadastrados.
71
Antes disso, entretanto, já era possível observar o incentivo ao cadastro no Fórum e a
organização em grupos de produção ao longo dos meses iniciais de 2023 com base no então
futuro lançamento do edital. Esse estímulo era feito por parte da secretaria executiva e do
subsecretário da pasta nas Plenárias mensais, nas quais eram rememoradas as regras de
organização em grupos e presença em no mínimo três plenárias para participar do
chamamento público.
3.1.4. Os Grupos de Trabalho Estruturantes e Temáticos
Os Grupos de Trabalho estruturantes do fórum são os de comercialização; de
comunicação e cultura; de finanças solidárias; de formação; de articulação institucional e
marco legal (FES-NIT, 2009). Além destes, podem ser criados outrosgrupos de acordo com
demandas específicas e, por vezes, pontuais. Cada GT escolhe um coordenador titular e um
suplente, se organizando a partir do que é estabelecido por seu Acordo de Funcionamento.
Esses Acordos, por sua vez, são debatidos e decididos de forma interna e autogestionária.
Tanto os grupos estruturais quanto os demais devem se reunir periodicamente para tratar de
assuntos voltados para seu tema de trabalho, de modo a organizar as atividades de interesse
para o movimento. Em uma tentativa de viabilizar a comunicação e a interação entre esses
grupos e os seus temas de interesse, há também o conselho de integração, que reúne os
coordenadores titulares e os suplentes de cada GT para fundamentar e orientar os debates que
acontecem nas Plenárias. A figura abaixo é uma representação visual desse modelo de
organização.
Imagem 1: Organização do Fórum de Economia Solidária de Niterói a partir dos Grupos de
Trabalho estruturantes e Conselho de Integração.
72
Fonte: Elaboração da autora com base nos artigos 14, 15, 16, 17, 18 e 20 do regimento interno do
Fórum de Economia Solidária de Niterói (FES-NIT). Não há hierarquia entre os Grupos de Trabalho e
o Conselho de Integração, dado que a representação máxima do movimento é a Plenária.
Atualmente, se somaram a esses os GTs de gastronomia; da agricultura familiar; das
mulheres; da pesca artesanal; de reciclagem; e de sustentabilidade20. Nota-se que os GTs
criados posteriormente à fundação do Fórum dizem respeito a atividades específicas, se
diferenciando dos Grupos de Trabalho estruturantes, que são, fundamentalmente, de cunho
organizacional. A criação desses Grupos Temáticos ocorreu para solucionar alguma questão
relativa ao ramo de produção, em geral para reunir os representantes de cada atividade,
buscando diversificar os bens e serviços oferecidos pelo Fórum21. Nem todos os produtores
21 O Grupo Temático das Mulheres é a exceção, criado para articular ações voltadas para esse grupo,
que é o predominante no Fórum. Nele, se tratam as queixas de assédio e machismo, assim como se
organizam atividades de conscientização sobre violência doméstica, por exemplo.
20 O GT de comunicação e cultura se desmembrou em dois, e o de articulação institucional e marco
legal passou a se chamar apenas de marco legal.
73
desses segmentos estão integrados a algum Grupo de Trabalho, e cada GT se encontra em
diferentes etapas de estruturação, impossibilitando maiores descrições sobre o tema. A falta
de atas das plenárias e reuniões dos GTs foi um dos aspectos que dificultaram o
aprofundamento da discussão até o momento da escrita deste capítulo. Uma das estratégias
adotadas para possibilitar a descrição mais densa sobre essa estrutura foi acompanhar os
grupos de mensagens dos GTs de Comercialização e o de Pesca Artesanal entre julho de 2022
e setembro de 2023, participando também de algumas reuniões de ambos os grupos.
Entre os GTs estruturantes e os Grupos Temáticos, o de comercialização é o que
concentra a maior quantidade de pessoas. Como explicado na imagem acima, é o responsável
por coordenar as estratégias e os espaços de venda e troca do movimento. Entendo a
concentração desproporcional de associados neste grupo em relação aos demais a partir do
interesse geral em melhorar a capacidade de obter renda, o que parece ser a principal
motivação de associação. Entretanto, apesar do grande número de pessoas formalmente
inscritas, que excede duas centenas, poucas participam ativamente das micro-instâncias
deliberativas e das demais funções destinadas ao grupo. Uma importante função deste GT, por
exemplo, é coordenar as feiras. Cada feira tem uma coordenadora ou um grupo de
coordenadores, responsáveis por garantir o bom funcionamento do evento, principalmente no
que diz respeito à estrutura das barracas, a relação entre os feirantes e ao cumprimento das
regras e acordos estabelecidos com a prefeitura. Atualmente, o Circuito Araribóia de
Economia Solidária acontece nos bairros do Ingá, Centro, Icaraí, Barreto, Itaipu e Piratininga.
Das vinte e quatro vagas de coordenação, 19 são ocupadas por mulheres. Uma das regras é a
de experiência comprovada e reconhecida pelo coletivo nas feiras, isto é, de uma participação
ativa na comercialização de seus próprios produtos. É necessário também fazer um curso de
coordenação de feiras ofertado pelo próprio Fórum. Dentre as coordenadoras, mais da metade
é costureira e/ou artesã, o que garante uma gestão de tempo e acesso aos espaços físicos que
facilitam a ocupação dessa função. Como o foco principal do grupo é resolver questões
relacionadas à geração de renda por meio da comercialização dos produtos dos inscritos no
Fórum, são constantes as reuniões e conversas com a secretaria municipal de Assistência
Social e Economia Solidária (SMASES) para a discussão de estratégias de divulgação e de
ocupação de novos espaços na cidade.
Já o GT de Pesca Artesanal ainda está em processo de formação e estruturação do seu
Acordo de Funcionamento, dado que não integra o eixo estruturante do Fórum. É composto
por membros de diferentes associações de pescadores artesanais de Niterói, acadêmicos e
estudiosos do tema, equipe de políticos do município e coordenadores do projeto Pesca
74
Solidária. Esse projeto está relacionado ao Projeto Educação Ambiental, que é uma medida
compensatória estabelecida pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) Frade, atribuída à
empresa PRIO, antiga Petro Rio, que comprou os ativos de exploração do Campo do Frade.
Esse campo era antes explorado pela Chevron, petrolífera americana responsável pelo
derramamento de óleo na Bacia de Campos no final de 2011 e em março de 2012. Parte do
acordo entre Chevron e o Ministério Público consiste na destinação de R$95 milhões a
projetos sociais e ambientais, entre eles, o Pesca Solidária. Como membro do grupo deste GT,
observei que a sua gestão e a condução das reuniões era comandada por uma pessoa
específica, ligada a outros movimentos da Economia Solidária e muito ativa na organização
de grupos de coletores e catadores de lixo. Recentemente, tinha se aproximado de
comunidades de pescadores por intermédio do projeto Pesca Solidária, sobre o qual me
deterei mais no próximo capítulo. Os pescadores artesanais, entretanto, eram minoria,
representantes de associações que foram fundadas, de modo geral, também no escopo do
projeto Pesca Solidária. Os pescadores participantes por vezes questionavam, em tom de
desconhecimento formal, algumas pautas e mensagens enviadas ao grupo. No período de
acompanhamento do grupo, as reuniões foram marcadas sempre na modalidade online para
permitir a participação da maior quantidade de pessoas, que moram entre os municípios do
Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo. Mesmo assim, o comparecimento permaneceu
diminuto. Nas duas reuniões marcadas, bem como nos debates dentro do aplicativo de
mensagens, a discussão girava mais em torno da criação de uma agenda de atuação no campo
da política formal com objetivos de estimular o debate e a elaboração de políticas públicas de
proteção e fomento à pesca artesanal do que à participação no Fórum de Economia Solidária
de Niterói.
A formação deste GT ocorreu entre os anos de 2022 e 2023, parecendo atender uma
das demandas da esfera de organização, que entendia ser necessário a diversificação produtiva
dos integrantes do Fórum.
3.2. A praça
Apesar das propostas e do início da preparação para a abertura de uma loja da
Economia Solidária no centro da cidade, o movimento continua sendo sentido mais
intensamente nas praças: os principais pontos de comercialização dos empreendimentos
econômicos solidários de Niterói acontecem no Circuito de Feiras Araribóia, regulamentado
na lei nº 3473, que se encontra em expansão ainda hoje, conquistando novos espaços de
75
integração com a cidade, mas que ocupam uma maioria de praças. No Brasil, a literatura sobre
as feiras urbanas é ampla e demarca a relevância desse modo de organizaçãopara a
sociabilidade e consumo no país, remontando aos anos coloniais (Moura Araujo; Magalhães
Ribeiro, 2018). Nessa chave, as feiras livres marcam as identidades e culturas locais e
regionais, sendo uma importante fonte de renda para os feirantes, ainda que os ganhos
econômicos sejam baixos, e um modo de assegurar a qualidade e confiança nos alimentos e
demais produtos consumidos, já que aproximam consumidores e produtores (idem).
No Circuito Araribóia, os principais participantes tentam valorizar a feira também
oralmente, quando afirmam que o nome correto é "feira", no lugar de “feirinha”. A
segregação urbana é sentida pelos expositores, uma vez que demarca as preferências em
“fazer” feiras em certa localidade em detrimento de outras, o que quase sempre tem a ver com
o público consumidor, mas também do acolhimento por parte de cada coordenador e
coordenadora. Dado o grande número de associados, não há ainda como viabilizar a
participação de todos; a solução encontrada é circular semanal ou quinzenalmente, a depender
da frequência de cada feira, uma lista para inscrição de participação. A secretaria executiva
costuma aconselhar a rotatividade dos empreendimentos para garantir uma maior
participação. O que acontece, entretanto, é que certos expositores ocupam sempre os mesmos
espaços, comercializando apenas em feiras específicas. Isso se dá principalmente em feiras
nas quais esses empreendimentos têm uma boa relação com as coordenadoras. As
coordenadoras, por sua vez, têm vaga cativa nas feiras que coordenam, não estando
submetidas ao procedimento de rotatividade. Além disso, a posição de coordenar alguma feira
permite ultrapassar algumas regras votadas em plenária e que dizem respeito à formação nos
princípios do movimento e à participação em três plenárias para expor fixamente seus
produtos - algumas coordenadoras afirmam que isso acontece apenas para garantir a
integração de produtores assistidos pelo CRAS ou impossibilitados de participar das plenárias
sistematicamente.
A integração entre os associados é nitidamente maior nesse espaço do que nas
Plenárias, por exemplo. Em parte, isso pode ser explicado pelo ambiente mais descontraído
das praças, e dos ritos de início de cada feira. Nesses momentos, as coordenadoras costumam
fazer rodas de conversa abastecidas com “café da manhã solidário” - no qual cada um é
responsável por levar um prato de comida ou bebida. Caso tenha a participação de algum
“novato”, os demais se apresentam, dando as boas vindas. A presença assídua dos mesmos
expositores garante a formação de vínculos mais profundos, nos quais redes de solidariedade
são firmadas para completar o dinheiro de alguém que não obteve ganhos econômicos na
76
feira, compartilhamento de barracas e de transporte para baratear os custos do deslocamento e
de aluguel do espaço. Esses eventos dificilmente são permeados por conflitos e desacordos,
como acontece na rotina dos grupos de troca de mensagens, nas reuniões de GTs e nas
plenárias.
Além dos expositores, algumas feiras contam com apresentações musicais e atividades
destinadas ao público infantil - essas geralmente são aquelas que acontecem nos finais de
semana e nas praças perto das praias oceânicas e no horto do Fonseca. Comum a todas as
feiras, no entanto, é a concentração de mulheres vendendo artigos de costura e vinculados ao
segmento do artesanato e o vácuo de participação dos pescadores artesanais. No último ano,
cresceu também o número de expositores do ramo da gastronomia, ainda que de modo
reduzido, já que não são todas as feiras que possuem estrutura para armazenar os alimentos.
Como mencionado anteriormente, existiram tentativas de incorporar outros segmentos à
Economia Solidária de Niterói, principalmente no que diz respeito a grupos de agricultura
familiar e orgânica. Entre eles, estão as comunidades de pesca artesanal, tema do próximo
capítulo.
77
4. O TRABALHO ASSOCIADO DOS PESCADORES ARTESANAIS DE
NITERÓI
Desde meados de 2022, tiveram início, entre os gestores da Prefeitura municipal e a
gestão organizadora do Fórum, movimentações na tentativa de se aproximar das diversas
colônias e comunidades de pescadores artesanais de Niterói e do entorno. Essa pressão foi
sentida mais intensamente em 2023 nas ações dos representantes governamentais da
Economia Solidária, principalmente no que tange ao subsecretário da pasta e aos funcionários
do Banco Araribóia, que passaram a trabalhar especificamente em projetos que visassem
diversificar os ramos produtivos dos cadastrados no Fórum, com foco na agricultura familiar,
sobretudo na pesca artesanal. Nesse período, meu contato constante com os pescadores e
marisqueiros da Ilha de Boa Viagem e do Centro da cidade se tornou conhecido por estes
representantes, que passaram a me contatar para que eu mediasse os encontros entre os grupos
e a Prefeitura - o que quase nunca aconteceu. A trajetória que me possibilitou circular entre os
pescadores teve início em outubro de 2022, quando comecei a acompanhar as reuniões de
criação da TAMBOA, sigla para os Trabalhadores Associados do Mar de Boa Viagem, sobre a
qual falarei mais detidamente nas próximas seções, a partir da minha convivência nos
ambientes da Casa Azul.
De todo modo, a minha proximidade com os grupos foi vista como uma espécie de
feito extraordinário por parte da prefeitura, que repetidas vezes demonstrou desconhecimento
sobre o trabalho dos pescadores. A distância formal e subjetiva entre a Casa Azul, a prefeitura
e as comunidades de pescadores foi um dos motivos para o cadastro dos grupos ter sido
finalizado somente no segundo semestre de 2023, mesmo com o incentivo constante das
Entidades de Apoio e Fomento no ano anterior. Parte dos inscritos no Fórum nesse segmento
tem histórico de atuação junto a projetos de financiamento público e privado para iniciativas
de pequenos negócios, empreendimentos sustentáveis e por vezes ligados a comunidades
tradicionais. Os trabalhadores da TAMBOA, comunidade que é o foco deste capítulo,
encaravam com certa desconfiança e suspeição o estímulo para o cadastro, bem como as
tentativas de aproximação dos gestores públicos. No capítulo anterior, expliquei brevemente o
projeto que conduziu à aproximação da maior parte dos pescadores que hoje estão associados
ao Fórum. Essa integração, pouco orgânica, dependeu de um longo processo de
convencimento por parte dos coordenadores do Projeto Pesca Solidária, mas o percurso não
foi linear, vinculando-se mais ao acirramento de conflitos socioambientais anteriores,
78
originários das décadas passadas, do que o decorrer das reuniões do referido projeto e,
consequentemente, da educação nos termos da economia solidária.
Neste capítulo, apresento a história de formação da TAMBOA, tendo como principal
metodologia teórica e analítica o trabalho de campo realizado ao longo de quase dois anos.
Sendo assim, o objetivo deste capítulo é refletir sobre o que motivou a associação destes
pescadores entre si, e a integração deles ao Fórum de Economia Solidária de Niterói. Isso
acontece porque o trabalho da comunidade de pescadores artesanais que está em foco aqui
aconteceu historicamente de modo individual e familiar, isto é, sem a formação de
empreendimentos, associações ou cooperativas formalizadas. A prática coletiva da pesca não
levou, neste caso, ao estabelecimento de lideranças específicas que visassem à formação de
coletivos para salvaguardar os direitos dos trabalhadores do mar conforme ocorreu em outras
áreas da cidade, como é o caso da Associação dos Pescadores e Amigos de São Pedro
(APASP), no centro de Niterói, que existe há mais de trinta anos. Conforme discuto nas
próximas seções, as motivações para a Associação dos pescadores e marisqueiros artesanais
da Ilha de Boa Viagem, a TAMBOA, flutuaram ao longo do tempo, conforme se estreitavam
as disputas pelo território e pelo direito à memória, e se identificavam oportunidades diversas
e, por vezes, antagônicas.
Esses conflitosse relacionam às transformações urbanísticas do município e aos
discursos sobre o tipo de cidade pensada pela gestão pública, que, de algum modo, se
entrelaçam aos planos para a Economia Solidária. Este capítulo utiliza os dados coletados no
trabalho etnográfico realizado entre 2022 e 2023, além de entrevistas semi estruturadas com
oito membros da TAMBOA e quatro marisqueiros e marisqueiras individuais que trabalham
diretamente com a associação. As entrevistas e o trabalho etnográfico tiveram como espaços a
Praia de Boa Viagem, especialmente a Ilha, enquanto meus interlocutores trabalhavam,
acendendo o fogo, descascando ou ensacando o mexilhão; e o Morro do Palácio, após o dia de
trabalho, sentados ao meu lado na arquibancada de frente ao MACquinho, ou em uma das
salas disponibilizadas no ambiente interno da plataforma.
4.1. Os pescadores da Ilha de Boa Viagem: A TAMBOA, criação e motivações
Em 2022, teve início o subprojeto Pesca Solidária, uma das ações do projeto Educação
Ambiental, medida estabelecida pelo Termo de Ajuste de Conduta (TAC) Frade do Ministério
Público Federal com a Chevron por conta do vazamento de petróleo na Bacia de Campos em
novembro de 2011 e março de 2012. Hoje, entretanto, a empresa responsável pelas medidas
compensatórias é a PRIO, antiga PetroRio, que comprou os ativos para a exploração do
79
Campo de Frade. O subprojeto Pesca Solidária apoiou financeiramente a formalização de
quatro associações de Niterói e São Gonçalo, com assessoria jurídica e administrativa, além
do investimento em infraestrutura e em capacitações para os trabalhadores.
A TAMBOA, sigla para Trabalhadores Associados do Mar de Boa Viagem, foi uma
das associações criadas pelo edital aberto por meio do gestor financeiro do projeto Educação
Ambiental, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO). Essa instituição se define
como um “mecanismo financeiro nacional privado, sem fins lucrativos, que trabalha em
parceria com os setores governamental e privado e a sociedade civil para que recursos
estratégicos e financeiros sejam destinados a iniciativas efetivas de conservação da
biodiversidade” (FUNBIO, 2017). O fundo destinado ao subprojeto foi alocado no Banco do
Preventório, banco comunitário focado no “desenvolvimento local das favelas” (Banco
Preventório, 2023). O objetivo do projeto é
executar diagnósticos socioeconômicos e projetos de fortalecimento comunitário,
educação ambiental, geração de renda e melhoria da qualidade ambiental junto a
comunidades de pescadores no litoral do estado. Com isso, promoverá a
conservação da biodiversidade na zona costeira e marinha, o uso sustentável dos
recursos pesqueiros e a resiliência da pesca artesanal. O financiamento do projeto
prevê R$ 23,1 milhões para a iniciativa com recursos decorrentes de um Termo de
Ajustamento de Conduta (TAC) Frade. (Educação Ambiental, FUNBIO, 2017)
As associações foram fundadas no marco da economia solidária, conforme
estabelecido pelo edital. Tive a oportunidade de acompanhar as reuniões de formação da
TAMBOA entre setembro de 2022 e janeiro de 2023, momento de finalização do projeto, a
convite dos coordenadores, que integram o Fórum de Economia Solidária de Niterói. Depois
disso, continuei tendo reuniões com o grupo, nas quais minha presença era solicitada para
auxiliar na resolução de questões burocráticas e nos conflitos entre os pescadores e a
prefeitura. Minha entrada em campo se deu a partir do desejo da esfera organizacional do
Fórum e da Casa Azul pela maior aproximação de grupos produtivos diversos ao circuito
econômico solidário da cidade. Nesse momento, minha função seria cadastrar os integrantes
das quatro associações fundadas pelo Projeto Pesca Solidária ao Fórum, sob justificativa dos
coordenadores de que essa ação era de interesse dos pescadores. Minha estratégia foi
acompanhar as reuniões para que o grupo pudesse me conhecer e ficar à vontade com a minha
presença antes de aplicar o questionário socioeconômico de inscrição. Esse processo durou
meses, nos quais participei de duas reuniões por semana com os pescadores, sempre às terças
e sextas-feiras, e pude identificar o desconhecimento quase total deles em relação ao Fórum e
à própria economia solidária. Mesmo no instante do cadastro, eu e minha colega de trabalho
80
fomos questionadas sobre o motivo do procedimento e a função da Casa Azul. Percebi
também o incentivo e o estímulo dos coordenadores para o cadastramento acontecer, em uma
argumentação de que a inscrição possibilitaria a participação do grupo nas feiras de
comercialização.
Com a minha participação assídua, pude observar a estratégia dos coordenadores do
projeto para adequar a atuação dos pescadores e marisqueiros aos limites das “boas práticas”,
que dizem respeito tanto ao manejo do pescado, quanto ao comportamento nas próprias
reuniões. Embora tanto o projeto, quanto a economia solidária admitam a importância em
reconhecer e respeitar as especificidades de cada grupo social, sendo uma parceria entre uma
grande ONG e um banco comunitário, na prática foram produzidas formas mais veladas de
estigmatização, constrangendo desde o conhecimento geracional da manipulação do marisco
nos encontros eventuais com biólogos, até o modo de falar e de resolver conflitos nos
encontros semanais com os coordenadores. É interessante observar que duas das lideranças do
Fórum participaram ativamente da construção da Associação, com foco na mediação das
decisões e na própria idealização dos motivos que levaram à sua fundação.
Nas reuniões do projeto, os marisqueiros e marisqueiras artesanais tinham suas falas
marcadas pela ideia de melhorar e “profissionalizar” suas práticas, apontando a importância
de usar um uniforme para se diferenciar de pessoas em situação de rua, por exemplo. A
aquisição e a caracterização dos barcos foram passos dados em busca deste mesmo ideal e de
modo a se opor ao que consideravam ser marcas de amadorismo. Faço essa distinção porque
entendo que a prática da pesca artesanal já era profissionalizada antes dessas modificações,
uma vez que o grupo detém o conhecimento necessário para realizar as atividades
extrativistas, que demandam o mapeamento do território aquático, a compreensão sobre as
espécies marítimas e uma rede de contatos que permite a comercialização do produto. Isso
não significa dizer que os pescadores não tenham o desejo de adquirir materiais mais
tecnológicos e que facilitem o trabalho, entretanto, o discurso que associa a
“profissionalização” a uma mera modernização da produção pode levar a uma desvalorização
dos conhecimentos geracionais dos pescadores, que são iniciados na prática por seus
antecessores. As aulas de biologia ministradas para o grupo, por exemplo, tentavam dar conta
da importância social da pesca, repassando os conhecimentos científicos da área. As
informações, porém, não eram de todo desconhecidas pelos pescadores, como indica a fala do
marisqueiro Fernandes, para quem “a maioria das aulas tentaram nos ensinar o que nós já
sabíamos, mas tudo bem, foi legal”22.
22 Fala retirada da entrevista realizada em agosto de 2023.
81
A compra dos barcos foi uma das ações no escopo do projeto Pesca Solidária, que
repassou as verbas do TAC Frades para as comunidades pesqueiras investissem nos materiais
e insumos necessários para suas atividades. Participaram do momento de início do Pesca
Solidária cerca de vinte pessoas, número que flutuou com o passar das semanas e com o
surgimento de conflitos em relação a formação da diretoria e às funções administrativas e/ou
gerenciais estabelecidas para cada associado.
Outra preocupação recorrente dizia respeito à percepção dos turistas e moradores da
orla sobre o grupo, principalmente no que tange à manipulação do fogo e dos instrumentos de
trabalho. Esses incômodos sobre seu modo de agir e estar no mundo revelam o impacto da
discriminação de raça e classe na subjetividade dos indivíduos, que traçam estratégias,
conscientes ou não, de modoa responderem a um padrão de comportamento associado às
demandas do capital expressas pela elite financeira e política que também ocupa a praia.
Aqui, a profissionalização nos termos da melhoria técnica e tecnológica, em uma busca pelo
consenso e pela modernização, se configura quase como um ensaio para a homogeneização,
uma vez que as diferenças são entendidas como risco. Isso acontece porque o saber e a
atividade dos marisqueiros só é reconhecida pelo entorno se for adequada aos ideais de
limpeza, estética e técnica valorizados pelo poder público e pelos habitantes de Boa Viagem.
Essa observação se fundamenta pelo material coletado no trabalho de campo e na
própria fala dos pescadores e marisqueiros, para quem a socialização com os moradores do
asfalto e o diálogo com a gestão pública encontrou uma melhora significativa após a
formalização da TAMBOA, especialmente com a Guarda Municipal:
Antes eles implicavam mais, hoje eles não tão mais implicando. (...) Tem muita
gente envolvida, que já ajuda… agora mesmo, viemos do barco, tiramos nossa
mercadoria, tinha um grupo fumando. Os que estavam fumando aqui são da nossa
cor, chegou o Niterói Presente, parou os neguinhos que estavam fumando e os
playboys com o maior baseado na mão, não mexeram. (...) Eles sabem que nós
somos marisqueiros… se fosse antigamente… a TAMBOA tá ajudando. É só a
carteirada. (Alex, marisqueiro, sobre a interação com a Guarda criada em parceria
firmada entre a Prefeitura de Niterói e o governo do Estado do Rio de Janeiro)
[a criação da associação] Trouxe o reconhecimento que a gente não tinha perante a
prefeitura, perante os órgãos. Fez eles enxergarem que a gente existia, mesmo, só
que a gente era ilegal, né, a gente não era… pelo menos a gente se tornou visível.
Quando você [se] torna uma associação, uma cooperativa, seja lá qual for, quando
você se torna um grupo, que tem seus direitos e seus deveres, você já pode exigir
mais. (Tatiana, marisqueira, sobre a interação com a Prefeitura de Niterói)
A gente começou a passar a ser mais visto. Você passa a ser mais visto, ser mais
conhecido também. Antes trabalhava com medo de acontecer alguma coisa… da
prefeitura tirar a gente daqui. (Yago, marisqueiro, sobre a interação com a
Prefeitura de Niterói)
82
Os relatos acima foram retirados das entrevistas semi-estruturadas realizadas entre
junho e setembro de 2023 com os membros da TAMBOA. A fala de Alex é especialmente
interessante ao reconhecer a desigualdade de tratamento dado pela guarda municipal aos
playboys, termo utilizado para se referir aos jovens brancos e moradores da orla, em relação
ao tratamento dado à população negra. O marisqueiro entende que se ele não fosse
reconhecido pela guarda como um trabalhador membro de um coletivo organizado e
formalizado, sofreria as mesmas repressões que os jovens negros fumando maconha, mesmo
que não estivesse acompanhado deles. Esse medo atravessa a fala de todos os pescadores, que
já sofreram deslocamentos forçados pela gestão pública e repressões arbitrárias pelas forças
policiais. A adequação do trabalho aos ideais jurídicos-burocráticos, porém, não teria tanto
valor se não houvesse outras instituições envolvidas no processo, como demarcam os outros
associados. A consagração do edital da Funbio garantiu uma aproximação a figuras com
capital político na cidade e ao próprio Fórum de Economia Solidária, abrindo espaço para que
o grupo alcançasse outro tipo de atenção do poder público, inaugurando um novo modo de se
movimentar pelo espaço social. Isso não significa que eles fossem por elas desconhecidos23,
mas tão somente que uma outra proximidade foi alcançada, de modo que esses trabalhadores
hoje conquistaram novos espaços e apoios, o que fortalece, de algum modo, a resistência e a
permanência no local.
Entretanto, é interessante notar que nem todos os pescadores e marisqueiros que
ocupam e trabalham na Ilha de Boa Viagem estão integrados à associação. A rotina de visitas
ao Palácio e à Ilha me tornou uma figura conhecida entre a comunidade pesqueira, o que me
permitiu entrevistar não apenas os membros da TAMBOA, mas alguns trabalhadores que
permaneceram na configuração de trabalho individual. Essa observação me interessou, já que
me foi confidenciado, por outros pescadores daquela e outras áreas, que o estímulo para a
integrar a TAMBOA era intenso, girando em torno das possibilidades de crescimento que
seriam proporcionadas pelo fomento financeiro do TAC, fator reconhecido também pelos
associados, que indicaram a compra dos materiais de trabalho e conquista de direitos como
principal fator para a associação formalizada.
23Um dos órgãos que acompanha o trabalho dos marisqueiros anteriormente ao início do Pesca
Solidária é a Fundação Instituição da Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ), que analisa a
produção do pescado fluminense em todas as colônias de pescadores e marisqueiros artesanais. O
órgão é vinculado à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária, Pesca e Abastecimento (SEAPPA).
83
Por causa dos benefícios, falaram que ia vir uma melhoria para nós, e realmente
chegou esses barcos, o motor… Até o momento, a questão da melhoria foi só esse
barco mesmo. Porque a organização ainda não tem nenhuma. No ritmo que eu
trabalhava antes da associação é o que eu trabalho associado. É a mesma coisa. A
melhoria é a questão dos barcos. Mas o resto não melhorou não. (Djalma,
marisqueiro, sobre o que motivou a associação)
Eu escolhi me associar por conta dos benefícios que iam chegar pra gente, que ia
ter uma forma mais fácil de trabalhar e não se cansar muito. (...) A gente tem esses
benefícios aí, os barcos, os motores pra usar, pra trabalhar, pra pescar, entendeu.
Porque quando não tinha, a gente saia pra pescar, tinha que ir nadando pra pedra,
entendeu? Hoje em dia não, hoje em dia a gente chega aqui, pega um barco desse aí
e vai pra fora, vai mundo afora pescando. (Yago, marisqueiro)
A associação, depois dela organizada, (...) espero que a gente consiga um selo de
qualidade, porque a mercadoria da gente vai ter mais valor. Nós tivemos suporte,
que são os motores e o barco, porque a gente só arrancava mexilhão aqui. Com o
motor e com o barco a gente pode rodar a baía toda. A gente teve suporte pra ter
uma condição de trabalho melhor. (Marcelão, marisqueiro)
Quando chega a temporada aí, a maioria não tem barco e a associação tem barco,
pode ir lá pra fora pegar um produto melhor, de qualidade. Fora os benefícios que
estão por vir aí, que quem não é associado não vai ter direitos, né. Quem não é
associado infelizmente não vai ter direito a nada. (Fernandes, marisqueiro)
Agora tem as melhorias, os barcos.. a venda também, vamos começar a melhorar a
guardar nosso mexilhão, futuro é melhor. Caso aconteça alguma coisa na baía, de
óleo, a associação pode ter uma verba, caso aconteça. (Alex, marisqueiro)
As falas acima são de membros ativos da TAMBOA, indicando que a associação foi
motivada pelos benefícios imediatos do projeto, principalmente os que se referem à aquisição
de barcos e motores, o que facilita o trabalho em dias de maré cheia e permite a pesca de
outras espécies nas épocas reprodutivas do marisco. Além disso, a fala de Alex relembra do
derramamento de óleo que deu origem ao TAC Frades, que financiou o projeto responsável
pela formalização da TAMBOA. Há o entendimento, assim, de que a continuidade da
Associação confere certas garantias legais em caso de desastres ou crimes ambientais, por
exemplo. Apesar dessas mudanças, pouco foi alterado na organização do trabalho, uma vez
que os associados continuam vendendo os produtos individualmente. A principal alteração foi
o compartilhamento dos barcos, que interfere nos acordos entre os marisqueiros sobre o
horário de saída e chegada com as embarcações.
Hoje, o coletivo conta com mais de vinte associados, sendo apenas duas mulheres,
cujos maridos também fazem parte da associação. As outras marisqueiras se distanciaram dos
homens pelas práticas machistas, pela sub remuneração,pelo cansaço associado à tripla
jornada de trabalho que enfrentam e pela falta de benefícios direcionados à função do
84
descasque, majoritariamente feminino. A desvalorização do descasque, nesse caso, impactou
especialmente as mulheres, que se aproximaram da TAMBOA, de modo geral por mediação
dos maridos, e se afastaram da Associação pelos incômodos sentidos nas reuniões, nas quais
tinham suas falas censuradas ou diminuídas.
Quando começou a TAMBOA, as mulheres iam no lugar dos maridos porque eles
trabalhavam, então não dava pra eles participarem. Então fez uma votação, para
quem não pudesse ir, as mulheres iam no lugar. Aí a gente tava indo. Meu marido é
associado, eu estava indo pra representar ele. (Cristina, marisqueira)
Começou a ter muita confusão, não valia a pena ficar me estressando por uma coisa
onde eu não tinha direito a palavra também. Porque se até então ia entrar todo
mundo como sócio, basicamente, assim, então acho que eu tinha direito à palavra,
de tirar minhas dúvidas... não só eu, mas as outras meninas também, a gente
decidiu se afastar. (Rayane, marisqueira)
Meu esposo é associado e porque, assim, pelas coisas que vem acontecendo, não
pelos projetos, pelas ideias das pessoas, mas pela falta de organização de algumas
coisas… A paz, no meu ver, a minha paz vale muito mais. (Mariana, marisqueira)
A representação dos maridos pelas mulheres acontece porque os casais costumam
trabalhar juntos na extração do mexilhão. Apesar disso, os conflitos entre os homens e a perda
de espaço das mulheres provocou a ruptura entre elas e a TAMBOA, embora continuem
trabalhando na praia. Essa separação levou os coordenadores do Pesca Solidária a inaugurar
uma rotina paralela de reuniões exclusivamente feminina, chamada Mar das Marisqueiras, que
buscava fortalecer o trabalho feminino na pesca artesanal, com atividades de empoderamento
feminino e conversas sobre machismo e discriminação. Nesse sentido, apesar de fazerem
parte de um mesmo grupo social, as diferentes posições ocupadas por cada marisqueiro na
divisão social para o trabalho e as desigualdades de gênero foram os principais fatores de
oposição à associação. Para que essas motivações possam ser melhor entendidas, faço uma
breve descrição sobre a organização do trabalho no item abaixo.
4.1.2. Etapas de trabalho: organização social e interesses para a associação
O trabalho no marisco artesanal é organizado em algumas etapas, sendo iniciado ainda
no Morro do Palácio, com a observação do tempo e da flutuação das marés. Os marisqueiros
podem trabalhar individualmente, fazendo cada etapa sozinhos, ou em grupos, divididos de
acordo com suas preferências, necessidades ou experiências. Nem todos os trabalhadores da
região se reúnem formalmente na TAMBOA, mas a associação para o trabalho não depende
disso, necessariamente. Os marisqueiros mais experientes, via de regra, possuem seus
ajudantes, que geralmente não são vinculados à Associação, recebendo uma parte do que é
85
obtido na venda do produto minimamente processado e ensacado. Essas vinculações
dependem das relações familiares, de amizade e/ou de vizinhança, dependendo também da
estima e afeto que possuem uns com os outros. Sendo assim, os marisqueiros geralmente
trabalham com quem têm uma boa relação. Com a consagração da Associação, essas
afinidades direcionam os grupos que compartilham os barcos.
O conhecimento adquirido por anos vividos entre o mar e a terra, observando os
familiares mais velhos e os mais experientes garante que as condições climáticas sejam
conhecidas ainda nos dias anteriores e no raiar de cada dia de trabalho. A cor e o movimento
das águas, as fases da lua e os ciclos de reprodução do mexilhão interferem na prática, que só
pode ser realizada com segurança se o mar não estiver muito escuro, nem muito agitado.
Apesar de conhecerem a localização das pedras submersas, local de reprodução do marisco, as
correntes marítimas podem deslocar os marisqueiros de encontro às rochas. A claridade da
água, por sua vez, permite a localização dos melhores pontos de coleta do marisco. Após a
observação do tempo, os marisqueiros se deslocam em direção à ilha com as madeiras
previamente coletadas24 das calçadas e caçambas, que servem para acender o fogo que
cozinha o mexilhão.
De manhã cedo, momento em que o grupo está chegando na ilha, a maré está baixa, o
que permite a travessia a pé. A maré começa a subir após o meio-dia, sendo necessário nadar
ou voltar de barco para a praia. Ao chegar na Ilha, além dos arranjos paisagísticos naturais, é
possível ver alguns “ranchos”, nome dado aos pontos de descasque do marisco. Os ranchos
são compostos por uma mesa e coberturas feitas com materiais improvisados, apoiados nas
grandes rochas que compõem a paisagem. Alguns são equipados com cadeiras e bancos.
Na ilha, para dar início ao trabalho, é necessário preparar o fogo para aquecer a panela
cheia de água, que receberá o mexilhão coletado. Nesse momento, caso o marisqueiro tenha
mais de um ajudante, o grupo pode se dividir para que o menos experiente observe o fogo e
aguarde a volta dos mergulhadores. A divisão entre os mais e menos experientes é uma
hierarquia construída em torno da capacidade de mergulho e coleta do marisco. Isso acontece
porque o mergulho é visto como a parte mais difícil e perigosa do trabalho, sendo, pelo
mesmo motivo, quase inteiramente restrito às mulheres, que permanecem nas funções em
terra firme, ou coletando o marisco visível nas pedras em dias de maré baixa.
Imagem 2: Marisco crescendo na pedra
24 Uma prática comum entre o grupo é coletar continuamente as madeiras encontradas pelo caminho.
Os vizinhos e amigos também reúnem os objetos e guardam para os marisqueiros.
86
Fonte: Acervo da autora e de Mariana Freitas, julho de 2023.
A imagem acima mostra o marisco filhote fixado nas formações rochosas, que
crescerá se alimentando dos nutrientes disponíveis embaixo do mar. Os marisqueiros utilizam
escavadeiras para raspagem das pedras, batendo nos cachos formados para soltá-los, para, em
seguida, depositá-lo no barco, caso possuam um, ou em um suporte de isopor preso ao seu
pescoço ou quadril. As condições de reprodução do marisco exigem que o mergulhador fique
algum tempo sem respirar, simultaneamente ao exercício de força necessário para a retirada
do animal das pedras. Em dias de mar agitado, a tarefa se complica. As dificuldades impostas
pela natureza do trabalho se associam às construções sociais de gênero, sob as quais as
mulheres não apenas seriam menos aptas para o trabalho físico de força, mas também
estariam condicionadas a funções menos valorizadas. No marisco artesanal, a posição mais
prestigiada é a de mergulhador, com hierarquias vinculadas ao tempo de apneia, de
permanência no mar, de quantidade de idas ao mar e de quantidade de marisco coletado em
quilos. Em oposição a ela, está o descasque, visto como uma tarefa chata e repetitiva pelos
homens, e geracionalmente ocupada pelas mulheres. Apesar dessa função também ser
realizada pelos homens iniciantes, pelos que trabalham individualmente ou ainda pelos
experientes em momentos de necessidade - para que o trabalho acabe mais rapidamente ou
quando os ajudantes não compareceram à praia -, o descasque é um encargo
fundamentalmente associado à figura feminina.
O mexilhão cresce em cachos, sendo revestido por uma casca dura, que precisa ser
cozida antes da etapa do descasque. Portanto, após chegar em terra firme, o animal é colocado
nas panelas, que haviam ficado aquecendo durante a ida ao mar. Passado o cozimento, os
87
mariscos resfriam para poderem ser descascados. O cozimento abre as conchas do marisco,
permitindo que a próxima etapa comece. O descasque é feito manualmente, assim como todo
o resto do trabalho. O procedimento envolve a retirada da concha - descartada na areia da Ilha
-, a limpeza de cada marisco e o descarte daqueles que não possuem valor comercial. Apesar
de ter um papel fundamental na valorização dopescado, o descasque é mal remunerado, como
apontam as mulheres, que reclamam também do modo como a verba disponibilizada pelo
edital foi utilizada, sem incluir equipamentos importantes para as descascadeiras.
Poderia vir melhorias pra cá, pra gente também, porque (...) eles nunca falaram
sobre benefícios para a gente, marisqueira (...). “Ah, vamos comprar uma cabana
para as meninas poderem trabalhar legal”. Não, foi tudo mais relacionado aos
mergulhadores, entendeu? Motor, barco... Tudo bem, é uma ajuda pra gente
também que facilita a entrada aqui pra dentro, mas nunca foi nada relacionado a…
uma bota pra gente poder andar por aqui pra não cortar o pé, entendeu? (...) Às
vezes a gente pega um tabuleiro, um negócio, pra gente poder não machucar a mão
também. Nada disso, tudo foi baseado só pra eles, nada foi relacionado à gente, as
descascadeiras. (...) Até hoje nunca teve nada disso para as meninas que trabalham
descascando. (Rayane, marisqueira, sobre a escolha de não se associar)
Eles tinham que olhar mais pro lado dos ajudantes também, uma bota pra você
andar aqui… se eu for entrar, eu vou falar logo. Uma bota pra andar aí, pra não
cortar o pé nessas paradas. (Marcelo, ajudante)
A última etapa antes da comercialização é o ensacamento, que varia a depender do
comprador. De modo geral, os marisqueiros da área vendem para um atravessador específico,
que compra diariamente e em grande quantidade para revenda. A negociação entre as partes é
feita após o dia de trabalho, no meio da tarde, e quase sempre leva ao rebaixamento do valor
do produto, já que a maioria possui apenas o atravessador como cliente.
Os procedimentos descritos neste item acontecem há, no mínimo, cinquenta anos,
conforme relata o grupo. Nas últimas décadas, entretanto, o aterramento das praias e o
desenvolvimento da urbanização do município impactaram diretamente o modo de
organização para o trabalho e a apropriação do território. Os marisqueiros e pescadores
artesanais são testemunhas fundamentais da transformação do cenário urbano e marítimo,
presenciando todas as grandes construções da área desde os anos 1970 e indicando as espécies
animais que desapareceram com a perda de qualidade da água. O povoamento do entorno
pelas classes de alta renda e o início das obras de interesse turístico e cultural para a região
são dois pontos fundamentais para entender parte das motivações desses marisqueiros para o
trabalho associado, conforme exploro na próxima seção.
88
4.2. Boa Viagem: do vazio identitário ao lócus cultural
Alguns estudiosos apontam o “vazio identitário” sentido por Niterói quando perdeu o
posto de capital do Estado do Rio de Janeiro no momento de fusão deste ao Estado da
Guanabara por meio da lei nº 20 de 1974 (Luz, 2008; Sandri, 2020). Essa sensação de mal
estar pelo então rebaixamento a uma vizinha da cidade mais famosa do Brasil é identificada
em conjunto com outras transformações da época, como a construção da Ponte Presidente
Costa e Silva, popularmente conhecida como Ponte Rio Niterói, e intensificação da
urbanização do município em um cenário de reestruturação produtiva.
Nesse processo, se intensificaram as parcerias público-privadas e o incentivo à criação
de empreendimentos como a antiga Sandiz, uma grande loja de departamentos localizada na
região central da cidade, então pertencente ao grupo Pão de Açúcar. A construção se deu em
paralelo ao aterramento do Morro da Armação até o Morro do Gragoatá (Dechelette, 2014).
Esse projeto incluiu o aterramento da Praia Grande, local de trabalho e moradia de um dos
mais antigos grupos de pescadores da cidade, reunidos na Associação Pescadores e Amigos
de São Pedro (APASP). À Sandiz deu lugar o atual Bay Market, um shopping localizado ao
lado do terminal de ônibus, que conta, por isso, com intenso fluxo de transeuntes. Os
pescadores desapropriados foram realocados ao fundo do comércio, perdendo visibilidade:
Antes da implementação das Barcas (antes de 1959 e da “revolta das barcas”), do
Bay Market, ou também do terminal João Goulart, havia, da Ponta da Areia até são
Domingo, a “maior Praia da Baía de Guanabara”: a chamada Praia Grande. Praia
onde pescadores artesanais exerciam suas atividades de pesca e venda de peixe.
Todavia, com o grande projeto urbanístico do aterro tiveram que sair; embora, na
verdade, ali tenham continuado, sendo cada dia mais oprimidos pelos
empreendimentos, até se tornarem, hoje, quase invisíveis, porém resistentes à
gentrificação produzida por esse tipo de transformações. (DECHELETTE, 2014, p.
32)
Imagem 3: Bay Market e Associação Pescadores e Amigos de São Pedro (APASP)
Fonte: Imagem de satélite do Shopping Bay Market e do local onde a Associação se estabelece hoje.
Ao lado, o terminal de ônibus de Niterói. Antes do aterro, tudo era Praia Grande.
89
A transferência da capital do estado para o Rio de Janeiro resultou na perda de
recursos para completar o projeto urbanístico que visava “modernizar” o agora planificado
terreno entre as zonas norte e sul da cidade (Idem). Nesse contexto, segundo Sandri (2020), o
centro de Niterói sentiu especialmente o impacto da perda de recursos e serviços, cenário no
qual são construídos novos sentidos para o bairro de Icaraí e o seu entorno. Como aponta
Carvalho (2005), interessa, então, investigar quais são as estratégias e intervenções materiais
do empresariado e dos gestores públicos na reordenação urbanística para a construção desses
sentidos, principalmente no que tange às adequações às “novas demandas do capitalismo
mundial” (Carvalho, 2005, p. 4).
A partir daí, os pesquisadores entendem que a política urbanística da cidade foi alçada
para cunhar uma representação baseada no investimento e fortalecimento de aparelhos
culturais conhecidos internacionalmente, em uma tentativa de estabelecer uma identidade que
a singularizasse e a diferenciasse da sua vizinha mais famosa, de modo a promover uma
imagem de qualidade de vida acima da média nacional. Aqui, a cultura é utilizada como
mercadoria para vender um projeto de cidade concebido e desenvolvido ao longo da gestão
PDTista, tradicional localmente, que contou com Jorge Roberto Silveira, eleito quatro vezes
prefeito de Niterói (1989-1992, 1997-2000, 2001-2002 e 2009-2012), como seu principal
expoente:
Em 1990, o Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural coloca em
pauta a elaboração de um Plano Diretor para a cidade, que seria um “instrumento
de preservação cultural”. Ou seja, as ações do Conselho seriam norteadas pela
noção de patrimônio, visto que o patrimônio cultural seria o meio para uma melhor
qualidade de vida e por consequência, a base da identidade urbana ainda a ser
construída (SANDRI, 2020, p. 24).
A criação do Museu de Arte Contemporânea (MAC) é emblemática nesse aspecto,
sendo até hoje palco de disputas de pertencimento, como fica evidente nas falas dos
pescadores e marisqueiros moradores do Morro do Palácio, que recorrentemente lembram que
habitavam e ocupavam a região antes da construção do MAC. Essa afirmação demonstra, em
uma primeira camada, a afirmação de sua importância em consonância com a obra
arquitetônica e cultural mais conhecida da cidade; em outro nível, revela a sensação de
invisibilidade de sua história, marcada pela desapropriação e realocação quando do
aterramento da praia do Gragoatá e Boa Viagem, que permitiu a construção dos campi da
UFF, e das construções dos primeiros prédios na orla. O Museu, assim, funcionou como modo
de valorização da cidade, de modo geral, e dos bairros da zona sul, mais especificamente, que
90
viu crescer os empreendimentos imobiliários, incentivados pela elevação do custo do solo
urbano e do custo de vida. Para isso, entretanto, precisou desapropriar grupos tradicionais dos
seus locais de trabalho e moradia.
Agentes empresariais que acabariam adotando a imagem do MAC (do Museu de
Arte Contemporânea), inaugurado em 1996, como o novo símbolo “oficial” da
cidade. Este novo movimento acabou embalando o inconsciente coletivoda
população local e re-significando a representação dominante na cidade. De signo de
marca indígena e funções complementares à cidade do Rio de Janeiro, Niterói
projetar-se-ia internacionalmente nos anos 1990, por meio da obra de Niemeyer. Do
local ao global, a cidade seria alçada a uma nova condição, por meio de um city
marketing bastante comum a muitas outras cidades do mundo, como a nova face do
planejamento urbano (SÁNCHEZ, 2003).
Uma das entradas para o Morro do Palácio é localizada na rua em frente ao MAC.
Assim como outros moradores do Palácio, é por lá que os pescadores e marisqueiros acessam
a praia de Boa Viagem, levando consigo os seus materiais de trabalho. Os trabalhadores
utilizam um carrinho de supermercado para carregar suas ferramentas, latas de tinta como
panelas para cozimento do marisco e madeira para acender o fogo à lenha. Geralmente, os
marisqueiros coletam a madeira descartada em caçambas ou nas ruas, prática hostilizada pelos
moradores da orla, conforme relata o grupo pesqueiro. Aqui, é importante notar que a crítica
se dá mais pela coleta das madeiras descartadas, se aliando ao argumento de preocupação
ambiental acerca dos resíduos gerados pela queima somente em um segundo momento. A
problematização dos efeitos à natureza sem observar o contexto social e os conhecimentos
tradicionais é um ambientalismo vazio, utilizado inclusive pelas autarquias interessadas na
chamada “revitalização” da Ilha de Boa Viagem, ideia que retomarei mais adiante no trabalho.
Existe, assim, uma confluência entre Boa Viagem, o bairro e a praia, e o Morro do Palácio.
4.3. Morro da Boa Viagem, o Palácio
O Palácio é uma favela localizada entre os bairros do Ingá, São Domingos e de Boa
Viagem, em Niterói. Assim como o Morro do Cavalão, em Icaraí, e o Preventório, em
Charitas, o Palácio também se localiza em uma área valorizada da cidade, que reúne alta
concentração de renda. Tem, além disso, vista para o mar, para os principais pontos turísticos
da cidade e proximidade com alguns campi da Universidade Federal Fluminense (UFF). Essas
particularidades, principalmente as que se referem ao convívio com a praia, são motivo de
orgulho para os seus moradores, que relacionam a economia do Morro à pesca artesanal. Isso
acontece porque a povoação do território, iniciada em algum momento entre o final da década
de 1960 e o início dos anos 1970, é rememorada em associação à exploração do pescado até
91
então abundante. Antes chamado de Morro de Boa Viagem, a designação atual ao espaço faz
referência ao Palácio Nilo Peçanha, hoje conhecido como Museu do Ingá, mas que serviu
como sede do governo fluminense a partir de 1903, permanecendo com essa finalidade
política até a fusão dos governos guanabara e fluminense, em 1975, quando a capital foi
transferida para o Rio de Janeiro. O Palácio fica aos pés da segunda entrada ao morro, na
descida que leva para o Ingá e para o campus da faculdade de direito da UFF. Segundo os
marisqueiros, o Morro do Palácio seria a designação dessa parte da favela. Com o passar do
tempo, porém, o título foi incorporado ao território integral. A imagem abaixo mostra a
superfície de ocupação do morro.
Imagem 4: Morro do Palácio
Fonte: Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (NEPHU), UFF. Disponível em
http://nephu.sites.uff.br/programa/mapeando-conflitos/mapeando-comunidades/comunidades-de-nitero
i/morro-do-palacio/. Acesso em 22 de dezembro de 2023.
Na imagem acima, vemos como o morro se encontra entre dois dos bairros com maior
concentração de renda e aparelhos de ensino e cultura do município. A entrada pelo bairro do
Ingá se dá por meio da rua Onze de Agosto, esquina com o campus da UFF e com o Museu do
Ingá (Palácio Nilo Peçanha), na Presidente Pedreira, principal rua do Ingá. Essa seria a
localização responsável por nomear o morro a partir da antiga sede da capital fluminense. Do
outro extremo do morro, vemos a entrada a partir de Boa Viagem, que se dá por meio da rua
Nair Margem Pereira. Ao fim dessa rua, se chega à escadaria que leva ao morro,
especificamente ao MACquinho, o único aparelho público projetado por Oscar Niemeyer
sediado em uma favela. Inaugurado em 2008, foi projetado como anexo do Museu de Arte
92
http://nephu.sites.uff.br/programa/mapeando-conflitos/mapeando-comunidades/comunidades-de-niteroi/morro-do-palacio/
http://nephu.sites.uff.br/programa/mapeando-conflitos/mapeando-comunidades/comunidades-de-niteroi/morro-do-palacio/
Contemporânea (MAC), batizado de Módulo de Ação Comunitária e apelidado de
MACquinho pela proximidade ao Museu (Agência Estado, 2009). O projeto é descrito por
matérias de jornais como uma tentativa, a partir de 1999, de integrar a população do Palácio
ao MAC, que não costumava ser visitado pelos habitantes do morro (idem). A batalha em
torno do reconhecimento pelo pertencimento do Morro do Palácio à Boa Viagem, o que
significaria uma livre circulação pelo território e pelos bens culturais, é sentida ainda hoje,
como é possível identificar nas falas e ações de intervenção dos moradores.
Imagem 5: Intervenção Artística no Museu de Arte Contemporânea (MAC)
Foto da autora. Intervenção artística no MAC realizada pelo fotógrafo Jefferson Moreira, morador do
Morro do Palácio, onde se lê: “aqui também é do Palácio”. Fevereiro de 2023.
Com o passar dos anos, a gestão do MACquinho foi transferida mais de uma vez, e o
seu uso, restrito por alguns anos pelas reformas e mudanças administrativas. Hoje, o aparelho
foi renomeado como Centro Cultural de Cidadania e Economia Criativa, associado à
Secretaria Municipal de Ações Estratégicas e Economia Criativa (SMAEC). A reabertura do
espaço aconteceu no dia onze de novembro de 2023, marcando o início de uma agenda
cultural com exposições artísticas e históricas sobre o povoamento do território. É utilizado
também para oficinas e cursos destinados à população palaciana, além de ser palco de
mutirões de ações do governo, como o cadastramento no CadÚnico. O MACquinho possui
algumas salas que podem ser reservadas para o uso dos moradores. Foi em uma dessas que
93
aconteceram as reuniões de fundação da TAMBOA, a associação dos pescadores e
marisqueiros artesanais de Boa Viagem.
4.4. A ligação da pesca artesanal com o Morro do Palácio
Apesar da perda de espaço da pesca artesanal com o aterramento das praias, com o
desenvolvimento dos empreendimentos imobiliários da orla e do desequilíbrio ecológico que
afetou a diversidade das espécies marítimas, ainda hoje as famílias do Palácio têm na pesca
artesanal e na extração do mexilhão uma das atividades econômicas seguras, para a qual
podem voltar em caso de necessidade, ou como fonte principal de renda. A segurança diz
respeito ao lugar que a pesca ocupa na trajetória dos indivíduos, isto é, como possibilidade e
modo de vida. Se antes essa atividade realizada pelos moradores do Palácio se estendia por
todo o mar das Praias da Baía, paulatinamente foi sendo comprimida até se limitar à Ilha de
Boa Viagem. A restrição envolveu a maior fiscalização da atividade e os projetos urbanísticos
da cidade, com a modernização das orlas, dos portos e da planificação do terreno para
construção de empreendimentos comerciais e imobiliários, além dos campi do Gragoatá e da
Praia Vermelha da UFF. Além do impedimento de ordem prática, com o desaparecimento de
faixas inteiras de mar, o povoamento dos bairros do entorno foi um ponto de inflexão para o
reordenamento dos pescadores, que passaram a lidar com novos frequentadores da areia e do
asfalto, testemunhando a valorização do solo urbano e a transmutação dos ideais niteroienses
conforme a cidade crescia, em um cenário de reestruturação produtiva e de rearranjo dos
aparelhos públicos do município, que se recuperava da perda do status de capital do estado
(Dechelette, 2014).
Os conflitos envolvendo a pesca artesanal na região fazem parte do que Albernaz
(2018) chamou de “regulação do cotidiano”, em que a pauta da moralidade e do prestígiosocial está diretamente relacionada ao local de moradia dos pescadores e à crescente
preocupação acerca dos pobres urbanos na segunda metade do século XX. Nesse processo, a
associação da produção da violência à presença dos favelados em Boa Viagem foi mediada
pelo Estado, que passou a reprimir as atividades dos pescadores e marisqueiros artesanais
utilizando argumentos de cunho ambiental, patrimonial e sanitário para a desapropriação dos
seus territórios de trabalho. Entretanto, ainda hoje a Ilha permanece sendo utilizada pela
comunidade pesqueira do Palácio, que consegue um acesso à cidade que estaria restrito às
elites, não fosse a possibilidade de moradia mais barata e localizada perto dos postos de
trabalho e das opções de lazer. Isso significa dizer que o acesso ao território da Ilha para a
continuidade da pesca artesanal só é possibilitado pela proximidade com o seu local de
94
moradia, em uma relação no qual as fronteiras entre trabalho e habitação são borradas, já que
os procedimentos necessários para o trabalho na pesca começam ainda em cima do Morro, e a
iniciação na prática depende, via de regra, das relações estabelecidas entre os familiares,
amigos e vizinhos (Ramalho e Freitas, 2023).
No processo de deslocamento e apropriação territorial dos marisqueiros e pescadores
artesanais em Boa Viagem, é visível o desconforto dos moradores da orla, e uma das
expressões das desigualdades de raça e classe, que marcam quem pode frequentar a praia e o
seu entorno sem ser percebido como outsider, para usar o termo de Elias e Scotson (2000).
Essa percepção motivou novos deslocamentos nos últimos anos, acarretando em
transferências seguidas da Ilha para a faixa de areia abaixo do MAC e/ou para o pé do morro,
somente para, em seguida, retornarem para a Ilha - devido ao “desconforto” associado ao
“mau cheiro” do pescado para os moradores do asfalto. Assim como fica evidente no trabalho
dos autores mencionados acima, o processo de estigmatização dos marisqueiros artesanais
interfere na autoimagem do grupo, que passa a se incomodar com o próprio modo de agir e
trabalhar na praia, dado que interferem na capacidade de gerar renda. Essa capacidade foi um
dos argumentos utilizados para aproximar os pescadores do circuito econômico solidário da
cidade, tema do próximo item do capítulo.
4.5. A TAMBOA e o Fórum de Economia Solidária de Niterói
A aproximação do grupo de marisqueiros e pescadores artesanais da TAMBOA ao
Fórum de Economia Solidária foi mediada pelos coordenadores do projeto Pesca Solidária,
que participavam como Entidade de Apoio e Fomento no Fórum. Esses coordenadores foram
os responsáveis por me convidar para participar das reuniões de fundação da Associação para
que eu pudesse cadastrá-los. É importante demarcar que, para o restante dos produtores, a
inscrição é feita presencialmente na Casa Azul. A realização de um cadastro específico para
os pescadores artesanais demonstra o interesse por parte da organização do Fórum e da Casa
Azul de integrá-los ao espaço. As particularidades do trabalho na pesca dificultam o
comparecimento do grupo nos dias úteis, das 10 às 16 horas. Essas condições, entretanto, não
são restritas a essa atividade, mas são compartilhadas, na verdade, por grande parte dos
trabalhadores que complementam a renda com outras atividades econômicas e/ou que são os
únicos responsáveis pela produção dos bens e serviços comercializados.
Em um primeiro momento, as informações que eu tinha acesso sobre o grupo eram
passadas pelos coordenadores do projeto Pesca Solidária. Pesquisando a Economia Solidária
no município, me interessei pela Associação para entender melhor o funcionamento do
95
trabalho coletivizado, já que a organização individual era predominante no Fórum. O cadastro
presencial foi o que permitiu a entrada em campo e, até então, eu entendia que a inscrição era
de interesse dos pescadores. A minha presença nas reuniões, no entanto, me permitiu observar
que eles não conheciam a Casa Azul, tampouco o circuito de feiras de economia solidária da
cidade. A inscrição era incentivada abertamente pelos coordenadores, sempre em associação a
capacidade de geração de renda que seria ampliada pela possibilidade de participação das
feiras, e rememorando os auxílios financeiros que os inscritos tiveram no momento da
pandemia do Coronavírus. Esses argumentos eram repetidos a cada reunião, até o momento de
início do cadastramento. No momento da realização do cadastro, os marisqueiros e pescadores
se mostraram desconfiados, questionando as razões e se teriam acesso a algum benefício.
Meses depois do meu contato inicial com o grupo, foi realizada uma grande feira em
celebração ao dia nacional da Economia Solidária, em 15 de dezembro de 2022, na Praça
Juscelino Kubitschek, entre os bairros do Centro e do Gragoatá, em Niterói. Ainda neste
momento o cadastro não tinha sido finalizado. Mesmo sem ter passado por todos os
procedimentos de inscrição, formação e plenárias, os pescadores puderam expor seus
produtos, que foram vendidos rapidamente. Nesse evento, marisqueiros e marisqueiras
participaram de rodas de conversa, sendo chamados ao centro para compartilhar as
experiências do trabalho associado, apresentados já como membros do Fórum pelos
representantes da prefeitura do evento.
O ano seguinte, 2023, foi um ponto de inflexão na minha relação com o grupo. Desde
as primeiras reuniões, eu e minha colega de trabalho, Mariana Freitas, identificamos tensões
e receios sobre o território ocupado por eles nas práticas econômicas e culturais particulares à
pesca. Frequentemente relatavam as situações de desapropriação da área, da perda de seus
materiais de trabalho e do receio de serem expulsos de vez. Esses relatos indicavam um
conflito territorial crescente na região, relacionados à socialização com os moradores de alta
renda, à interação com as forças policiais e às obras de revitalização da Ilha. Iniciamos um
trabalho mais autônomo e totalmente separado dos coordenadores do projeto Pesca Solidária,
construindo laços e vínculos que nos permitiram acessar mais profundamente a rotina na Ilha,
os saberes geracionais dos pescadores e os conflitos internos ao grupo. Nesse processo, pude
observar mais detidamente a distância material e subjetiva do grupo não só à Casa Azul
enquanto aparelho público e ao Fórum enquanto movimento social, mas da maior parte dos
órgãos municipais, estaduais e federais e das políticas de assistência aos quais tinham direito.
Os pescadores se instituíram, ao longo dos anos, como um grupo tutelado pelo Estado
brasileiro a partir de suas regulamentações sobre a gestão dos territórios marítimos, que foi
96
juridicamente extinta com a promulgação da Constituição de 1988, conforme relata Bronz
(2023). A criação de Ministérios e normativas específicas para as atividades pesqueiras não
foi acompanhada pelo investimento na infraestrutura e na valorização cultural e econômica
das comunidades tradicionais baseadas na pesca artesanal, com pouca articulação política dos
pescadores (Bronz, 2023). Esse vácuo abre espaço para projetos como o Pesca Solidária, que
fornecem os meios de assegurar o registro profissional desses trabalhadores e algum tipo de
fomento necessário para a melhoria dos modos de trabalho, simultaneamente à criação de
associações pouco orgânicas.
No caso da TAMBOA, o conflito territorial e o edital de fomento à Economia
Solidária mencionado no capítulo anterior foram fundamentais para que a inscrição no Fórum
se completasse. Isso aconteceu porque o grupo identificou nas instituições que o apoiavam -
como a Universidade Federal Fluminense e a Casa Azul - elementos de força para garantir a
permanência no local. Isso não significou, entretanto, uma completa integração ao aparato da
Economia Solidária: somente três dos associados, representantes da Diretoria Executiva da
Associação, já foram até a Casa Azul e participaram de alguma plenária. Além disso, nunca
mais comercializaramseus produtos no circuito de feiras da cidade.
4.6. “Aqui também é do Palácio”: os pescadores da Ilha de Boa Viagem e as disputas a
partir do território e patrimônio
A Prefeitura de Niterói noticia as reformas de restauração da Ilha de Boa Viagem
desde 2021. Tombada como patrimônio histórico e cultural em 1938 pelas edificações que
datam do século XVII e pelo histórico de ser o refúgio de “homens do mar”, é conhecida
pelas festas religiosas, pela capela erguida em homenagem a Nossa Senhora de Boa Viagem e
pela ponte que a liga até a terra. A Ilha e o seu entorno se estabelecem hoje como pontos de
interesse de agentes públicos e privados. Na orla, vemos alguns dos prédios mais luxuosos da
cidade, com varandas cercadas de vidro para não apagar o aspecto mais cobiçado do local: a
vista para a Ilha.
A Ilha da Boa Viagem foi reaberta ao público em setembro de 2023 como um “museu
a céu aberto”, parte integrante do Parque Natural Municipal de Niterói (PARNIT), e se
instituindo como a primeira “Ilha Museu” do país. Essa ação faz parte de uma série de obras e
realizações do governo municipal para comemorar os 450 anos da cidade, completados em
novembro de 2023 (IPHAN, 2023). Passa a fazer parte do já conhecido circuito turístico da
orla, ao lado do Museu de Arte Contemporânea, o MAC.
97
Há outra história sobre a Ilha, que apesar de ser vista pelos frequentadores da praia e
pelos moradores do bairro, tem sua importância histórica e cultural reduzida. Nesse processo
de invisibilização, outros homens e mulheres do mar que usam a Ilha como refúgio há mais de
cinquenta anos correm o risco de perderem seu local de trabalho e socialização de seus
conhecimentos. A história dos marisqueiros e pescadores artesanais apresenta uma outra
Niterói, marcada pela segregação urbana e consequente desapropriação de pescadores
artesanais, constantemente realocados para atenderem ao interesse do capital imobiliário, dos
moradores de alta renda e da prefeitura preocupada com o esvaziamento do potencial turístico
da região.
Os planos da gestão municipal para a Ilha envolvem, além do museu a céu aberto, a
criação do Parque Natural Municipal de Niterói (PARNIT) por meio do decreto nº 11.744, de
outubro de 2014, como uma Unidade de Conservação, conforme a lei federal nº 9.985/2000.
As Unidades de Conservação se configuram como um espaço de aspectos naturais relevantes,
sendo submetido, por isso, a uma administração e regras específicas dentro de seus limites
territoriais, garantindo a preservação ambiental, restauração de ecossistemas e
desenvolvimento sustentável. Essa legislação estabelece a necessidade de um plano de manejo
como método técnico para determinar os setores e as zonas da Unidade, bem como as
disposições normativas de uso e manipulação dos recursos naturais (BRASIL, 2000).
Ambas iniciativas colocam restrições ao trabalho dos marisqueiros e pescadores
artesanais da área, já que o plano de manejo do PARNIT, por exemplo, não reconhece o
espaço como território tradicionalmente ocupado pelo grupo. Em julho de 2023, os
marisqueiros foram comunicados pela Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de
Janeiro (FIPERJ) sobre uma potencial desapropriação da área. Foi apenas nesse momento que
os trabalhadores tiveram conhecimento do motivo das obras na Ilha. A partir de então, a
FIPERJ convocou uma série de reuniões para discutir os efeitos das intervenções para a vida
dos marisqueiros artesanais de Boa Viagem com as autarquias envolvidas, principalmente nas
figuras da Secretaria de Ações Estratégicas e Economia Criativa (SAEC) e a SMARHS. Esse
comunicado era direcionado especialmente à TAMBOA, embora existam outros trabalhadores
individuais que ocupam o território. Acompanhei os marisqueiros em três das cinco reuniões.
Nesse processo, o grupo dos pescadores artesanais foi apoiado por outras comunidades
pesqueiras do entorno, como a Associação dos Pescadores e Amigos de São Pedro (APASP),
e por professores e alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF).
A organização do grupo e o apoio de outras instituições foram aspectos fundamentais
para a pressão política sobre a gestão municipal, que assinou o decreto nº 15.058/2023,
98
reconhecendo os marisqueiros artesanais da Ilha de Boa Viagem como comunidade
tradicional (Niterói, 2023). Essa conquista é importante porque o reconhecimento de um povo
como tradicional deve garantir certos direitos estabelecidos na lei 6.040/2007, como o acesso
ao território e aos recursos naturais necessários para a reprodução social, cultural e
econômica, conforme o artigo terceiro (Brasil, 2007). Destaca-se, porém, o debate em torno
dos termos do tombamento, que teve como opção reconhecer apenas a TAMBOA como
comunidade tradicional, excluindo do decreto os demais pescadores e marisqueiros artesanais
da área. Essa discussão, além de demonstrar o descompasso e desconhecimento dos gestores
públicos sobre a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades
Tradicionais, indica que o poder público sobrevaloriza o aceite aos ideais
jurídico-burocráticos pelo grupo, que formalizou a Associação no final de 2022, em
detrimento do direito à expressão cultural e econômica específica das comunidades
pesqueiras. Nas reuniões e nas interações com representantes dos órgãos citados nesta seção,
observou-se o estímulo à modernização e anuência aos padrões técnico-científicos ditados
pelas legislações que visam ordenar o território marítimo.
Entendo que
Um dos principais desafios do Movimento [por justiça ambiental] tem sido,
definitivamente, o de alterar a "cultura" das entidades públicas responsáveis pela
intervenção estatal sobre o meio ambiente, que se caracterizam por terem um
padrão de intervenção tecnicista e a posteriori, pouco sensível às variáveis sociais e
culturais do gerenciamento do risco ambiental. (ACSELRAD; MELLO;
BEZERRA; 2009, p. 33).
Nesse sentido, compreendo que a observação de como se trata jurídica e politicamente
a questão ambiental e patrimonial consegue indicar, em alguma medida, os padrões de
desigualdade social, em especial de raça e classe, que já mobilizaram as discussões
institucionais em torno da construção de novos empreendimentos, mas que, conforme
considero, também pautam o legislado sobre as áreas de preservação ambiental e de gestão
dos recursos naturais, em especial o território marítimo. Isso acontece com a distribuição
desigual dos efeitos de tratar o meio ambiente e a natureza como bens intocados, que
resultam, em vários casos, na "privatização" de espaços públicos, capitaneada em grande
medida pelos poderes municipais e estaduais, dado que a transformação de uma área em uma
Unidade de Conservação, ao se tratar do estabelecimento de Parques Municipais, limita o
acesso a grupos social e economicamente privilegiados. Além disso, retira de vista
comunidades tradicionais, ignorando seus conhecimentos e a especificidade de seus trabalhos.
A promulgação do decreto municipal 15.058/2023 deu novo ânimo aos pescadores e
marisqueiros artesanais, que apresentam a criação da Associação de modo diverso a depender
99
do contexto e do momento no qual se fala. A TAMBOA, assim, é entendida como uma
maneira de valorizar seus produtos e de proteção contra a coerção de suas práticas, sendo uma
forma de fortalecer o argumento pela permanência no espaço.
100
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao longo do trabalho, fiz movimentos para tentar entender o que é a Economia
Popular Solidária. Em campo, o que observei foi uma multiplicidade de entendimentos e usos
dos espaços deste tipo de atividade econômica: a Casa Azul, o Centro Público de Referência
em Economia Solidária de Niterói, um aparelho público na estrutura da Assistência Social,
atendendo grupos marginalizados pela estrutura do emprego formal e pela organização social
brasileira, que discrimina desproporcionalmente pessoas em vulnerabilidade socioeconômica
e usuários da rede de atenção psicossocial; o Fórum de Niterói, que compartilhaos espaços
físicos com a Casa Azul, tem uma concentração de mulheres artesãs, ocupando as praças da
cidade com seus produtos têxteis, aprendidos ao longo da vida no ambiente doméstico; e a
Secretaria Municipal de Assistência Social e Economia Solidária, que encampa projetos e
campanhas de transferência de renda, principalmente a partir da moeda Araribóia, a moeda
social da cidade, estimulando o crescimento do Fórum e o fortalecimento da Casa Azul.
Esses espaços, que não gozam de completa autonomia, são utilizados por diferentes
grupos sociais, detentores de diferentes tipos e níveis de capitais, que interagem
continuamente na construção da Economia Popular de Niterói. Para entender o que é esse tipo
de atividade econômica e social, mais do que ler o que os autores discutem sobre o tema, é
necessário investigar as motivações que levam os atores sociais até ela. Isso acontece porque
as motivações permitem uma análise mais ampla, que pode dizer respeito à relação dos
indivíduos com o mercado de trabalho formal, com as atividades informais e com a identidade
social de cada grupo, que pode garantir ou não maior integração aos espaços de convivência
do movimento, por exemplo. A razão fundamental desta pesquisa foi observar os sentidos das
práticas dos atores sem enredar pela linha argumentativa que insiste na “debilidade
econômica” das atividades informais e dos microempreendimentos.
Nesse processo, me interessei especialmente pelos pescadores artesanais, dotados de
uma prática social, cultural e econômica particular, que os aproximam entre si de outras
comunidades pesqueiras. Essa aproximação subjetiva acontece mesmo cada comunidade
sendo única, com organizações e conhecimentos diversos, já que compartilham um certo tipo
de experiência, que diz respeito ao testemunho das transformações ambientais e urbanas, além
da desapropriação de seus territórios de origem e/ou de trabalho, e da negação de seus direitos
fundamentais.
Uma das primeiras iniciativas do trabalho foi tentar delimitar quem seriam os grupos
da Economia Solidária de Niterói, o que possibilitaria, em alguma medida, a comparação da
101
integração dos pescadores artesanais ao aparato organizacional e produtivo do Fórum. Apesar
de ter tido acesso ao banco de dados a partir dos procedimentos do cadastro, dificuldades
metodológicas se impuseram para maiores avanços, já que diversas variáveis estavam
comprometidas pelo preenchimento inadequado e pelas constantes mudanças no questionário
socioeconômico. A desorganização da gestão compartilhada pode ser sentida em diversos
momentos do trabalho, não apenas para os objetivos pretendidos com a pesquisa, que
dificultou o acesso a atas de reuniões e plenárias, mas para os próprios associados que
visavam se aproximar do movimento e encontravam dificuldades na obtenção de informações
ou na compreensão dos debates nos espaços de deliberação e comunicação. Apesar disso, foi
possível notar uma concentração desproporcional de mulheres e pessoas com um grau de
escolaridade relativamente alto quando comparado à realidade brasileira, informação que,
associada à observação das feiras do circuito araribóia corroboram para o entendimento de
que uma parcela significativa dos mais assíduos nos espaços de comercialização não depende
diretamente dos produtos ali expostos. Existem outras motivações para a participação que
extrapolam os ganhos econômicos e que parecem dizer respeito à criação de vínculos afetivos
e redes de sociabilidade entre indivíduos que possuem uma trajetória social similar.
Além disso, diferentemente dos projetos de pesquisa que dão conta de uma quantidade
significativa de regulamentações, abrangendo longos períodos de tempo, o trabalho alçado por
mim nestas páginas tentou alcançar o percurso dos principais atores na organização e
produção do Fórum, observando especialmente a co-gestão com a pasta da Assistência Social
e o modo pelo qual os gestores agiram ativamente para integrar mais ramos de produção aos
ambientes de comercialização, principalmente no que diz respeito à pesca artesanal.
Simultaneamente, outras secretarias municipais e representantes do governo construíam
agendas conflitantes com a permanência da pesca artesanal enquanto prática cultural e
econômica de parcela considerável da população de Niterói, que construiu sua sociabilidade
nas costas marítimas. O trabalho de campo me permitiu reconhecer os discursos diversos das
instituições, que são construídos em torno de certos ideais e que acabam revelando os
múltiplos interesses dentro de um mesmo nível de governo.
O estímulo à aproximação dos pescadores artesanais ao cenário econômico solidário,
entretanto, acontecia de modo tímido, impossível de ser visto a olhos externos à rotina de
reuniões e conversas dos GTs e da Casa Azul. Do mesmo modo, essa proximidade não era
ativamente construída pelos gestores e representantes, mas direcionada para outros atores
sociais, como os coordenadores da Pesca Solidária, por exemplo. Esses coordenadores, por
sua vez, já integram redes mais amplas de financiamento a iniciativas de trabalho associado,
102
tendo certa ingerência nos debates locais sobre o tema. Dito de outra forma, a aproximação
dos pescadores às estruturas do governo municipal não foi feita a partir de políticas públicas
específicas para este grupo social, mas dependeu, em primeiro lugar, da realização de um
projeto externo à prefeitura - o Pesca Solidária - e, depois, de incentivos financeiros a partir
da abertura do edital de financiamento para empreendimentos cadastrados na Casa Azul e no
Fórum. Nesse sentido, assim como a maior parte dos associados ao Fórum, a inscrição dos
pescadores não significou a apreensão dos ideais da Economia Solidária conforme enunciados
pela Secretaria Executiva, tampouco a apropriação dos espaços destinados à deliberação e
articulação política, por um lado, e de comercialização, por outro. Há, assim, distâncias
significativas entre o que é decidido e debatido nessas esferas e o cadastro para conquistar
algum auxílio governamental ou ganho financeiro. Esse distanciamento pode estar associado
ao tipo de entrada que cada grupo tem no Fórum, identificada por mim neste trabalho como as
associações espontâneas e as que acontecem por intermédio de mediações formalizadas.
Do mesmo modo, a celebração da TAMBOA não trouxe grandes mudanças na
organização do trabalho, que continua sendo realizado de modo individual ou em pequenos
grupos, que não compartilham igualmente os rendimentos da produção. A coletivização diz
respeito aos materiais de trabalho, principalmente os barcos, e a associação entre esses
trabalhadores se mostrou para o grupo como uma forma de fortalecer uma luta identificada
por eles como mais imediata do que a integração à Economia Solidária, e que se refere ao
direito de apropriação da Ilha de Boa Viagem e dos bairros do entorno. A inscrição na Casa
Azul foi finalizada em um momento em que se uniram os possíveis ganhos financeiros pelo
chamamento público de agosto de 2023 e os acirramentos dos conflitos territoriais referentes
às obras de revitalização da Ilha e da retomada da visitação pública às construções. A Casa
Azul, enquanto órgão público, foi mencionada por eles como uma instituição municipal que
os reconhecia enquanto trabalhadores, isto é, um argumento na direção da formalização do
negócio e que respalda a permanência no local. O reconhecimento do grupo como
comunidade tradicional pela prefeitura de Niterói por meio do decreto nº 15.058/2023 foi uma
conquista que demonstra as possibilidades de ação coletiva do grupo (Niterói, 2023).
Assim, a participação no projeto Pesca Solidária, embora não tenha resultado nos
objetivos imediatos esperados pelos coordenadores, que tinham metas específicas
relacionadas à natureza do trabalho, encadeou a conquista de benefícios materiais e subjetivos
para os membros da TAMBOA, que passaram a ser reconhecidos por outras instituições,
moldando novas interaçõesentre eles e a gestão municipal. Isso acontece porque os
pescadores e marisqueiros artesanais da Ilha de Boa Viagem passaram a receber certa atenção
103
após a formalização da Associação. Como grupo historicamente marginalizado, o trabalho
associado se revela como uma forma de defender seus direitos e interesses mais fundamentais,
como o direito à memória e ao território, do que aos ideais do trabalho coletivizado nos
termos jurídico-burocráticos que apregoam os principais autores do tema, as legislações mais
recentes e os militantes do Fórum de Economia Solidária de Niterói.
104
Referências bibliográficas
Abílio, Ludmila Costhek. Uberização do trabalho: subsunção real da viração. Passa Palavra,
19 de fevereiro de 2017. Disponível em https://passapalavra.info/2017/02/110685/. Acesso em
20 de dezembro de 2023.
Acselrad, Henri; Mello, Cecilia C.A. e Bezerra, Gustavo N. O que é justiça ambiental. Rio de
Janeiro: Garamond. 2009. 156 p.
Albernaz, Elizabete. Palácios sem reis, democracias sem cidadãos: política, cotidiano e a
formação de mercados da exclusão em dois contextos do “sul-global”. 2018. Tese (Doutorado
em Antropologia) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal
Fluminense, Niterói.
Alexander, Jeffrey. Ação coletiva, cultura e sociedade civil: Secularização, atualização,
inversão, revisão e deslocamento do modelo clássico dos movimentos sociais. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, vol 13, n. 37: 5-31. 1998
Alonso, A. Métodos qualitativos de pesquisa: uma introdução. Em: Cebrap, Métodos de
pesquisa em ciências sociais: bloco qualitativo. Sesc São Paulo: São Paulo, 2016.
Almeida, Alfredi W. B. de. Terras tradicionalmente ocupadas: processos de territorialização e
movimentos sociais. R. B. Estudos Urbanos e Regionais, p.9-32, V.6, N.1/ Maio, 2004.
Disponível em URL: http://dx.doi.org/10.22296/2317-1529.2004v6n1p9
Brasil. Lei nº 5.764 de 1971. Define a Política Nacional de Cooperativismo, institui o regime
jurídico das sociedades cooperativas, e dá outras providências. Brasília, 1971
Brasil. Decreto 6.040, de 7 de fevereiro de 2007. Institui a Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais. Brasília, DF: Diário
Oficial da União, 2007.
Brasil. Lei nº 12.690 de 19 de julho de 2012. Dispõe sobre a organização e o funcionamento
das Cooperativas de Trabalho; institui o Programa Nacional de Fomento às Cooperativas de
Trabalho - PRONACOOP; e revoga o parágrafo único do art. 442 da Consolidação das Leis
do Trabalho - CLT , aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Brasília,
2012
Bronz, Deborah. Da tutela à luta pela autonomia. Políticas e direitos da pesca artesanal no
Brasil. TESSITURAS, Pelotas-RS, V.11, N1, p. 76-94, JAN-JUN, 2023. Disponível em URL:
https://revistas.ufpel.edu.br/index.php/tessituras/article/view/5547/5784
Bourdieu, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Edusp, 2006.
Carneiro, Leandro Marcondes; Silva, Sandro Pereira. Os novos dados do mapeamento de
economia solidária do Brasil: nota metodológica e análise das dimensões socioestruturais dos
empreendimentos. Relatório de pesquisa. Brasília: Ipea, 2016.
105
https://passapalavra.info/2017/02/110685/
https://revistas.ufpel.edu.br/index.php/tessituras/article/view/5547/5784
Chiariello, Caio Luis. Fonseca, Sergio Azevedo. Morais, Leandro Pereira. Abordagem
política e institucional da economia solidária na América Latina e a experiência da Senaes no
Brasil (2004-2019). Otra Economía, vol. 14, n. 25: 76-95, janeiro- junho 2021.
Coggiola, Osvaldo. Os inícios das organizações dos trabalhadores. Aurora, ano IV, número 6,
ago de 2010, p. 11-20.
Corte, Andréa Tello da; Martins, Ismênia de Lima. 50 anos da Universidade Federal
Fluminense – 1960-2010 / Andréa Tello da Corte e Ismênia de Lima Martins (Orgs.) Niterói –
RJ. Niterói : Editora da UFF, 2010. 144 p.
Com prorrogação de programas sociais, Niterói ultrapassa R$ 1 bilhão investidos na
pandemia. Prefeitura de Niterói. Niterói, 08 de julho de 2021. Disponível em
<http://www.niteroi.rj.gov.br/2021/07/08/com-prorrogacao-de-programas-sociais-niteroi-ultra
passa-r-1-bilhao-investidos-na-pandemia/>. Acesso em 07 de dez de 2022.
Costa Ribeiro, Antonio Carlos. Mobilidade e estrutura de classes no Brasil contemporâneo.
Sociologias, Porto Alegre, ano 16, no 37, set/dez 2014, p. 178-217
Cruz, Antônio. A diferença da igualdade: a dinâmica da economia solidária em quatro
cidades do Mercosul. Campinas: UNICAMP, 2006. Tese (Doutorado em Economia)
Dechelette, Ismael. “O mexilhão é ouro preto”: ressignificação e resiliência num grupo de
marisqueiros de Niterói. Orientador: Pedro Heitor Barros Geraldo. Co-orientador: José Colaço
Dias Neto. 2014. Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós Graduação em Sociologia e
Direito, Faculdade de Direito, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2014
Dubet, François. Sociologia da Experiência. Lisboa, 1994
de Sant’Anna e Silva, S. (2021). Os Sindicatos na Inglaterra. Revista Do Serviço Público,
2(3), 20 - 23. https://doi.org/10.21874/rsp.v2i03.5532
Figueiredo, Marina Morenna. Prost, Catherine. O trabalho da mulher na cadeia produtiva da
pesca artesanal. Revista feminismos, Vol.2, N.1 Jan/Dez 2014, p. 82-93
França Filho, Genauto Carvalho de. A problemática da economia solidária: uma perspectiva
internacional. Sociedade e Estado [online], v. 16, n. 1-2, 2001, pp. 245-275.
França Filho, Genauto Carvalho de. Terceiro setor, economia social, economia solidária e
economia popular: traçando fronteiras conceituais. Bahia Análise & Dados, Salvador, v. 12, n
1, jun 2002, pp. 9-19.
Fórum de Economia Solidária de Niterói, 2022. Disponível em
<https://www.ecosolniteroi.org/>. Acesso em 01 de outubro de 2022.
Gaiger, Luiz Inácio. Mapeamento nacional e o conhecimento da economia solidária. Revista
ABET: Brazilian journal of labour studies, vol 12, n 1, p. 7-24, jun 2013
Gago, Verónica. Introducción e Capítulo 1 (Entre La Salada y el taller: la riqueza comunitaria
en disputa"). In Verónica Gago La razón neoliberal: economías barrocas y pragmática popular.
Tinta Limón e Traficantes de Sueños. Pp.23-108. 2015.
106
http://www.niteroi.rj.gov.br/2021/07/08/com-prorrogacao-de-programas-sociais-niteroi-ultrapassa-r-1-bilhao-investidos-na-pandemia/
http://www.niteroi.rj.gov.br/2021/07/08/com-prorrogacao-de-programas-sociais-niteroi-ultrapassa-r-1-bilhao-investidos-na-pandemia/
https://doi.org/10.21874/rsp.v2i03.5532
https://www.ecosolniteroi.org/
González, Lélia. A mulher negra na sociedade brasileira: Uma abordagem
político-econômica. In: Org Flávia Rios, Márcia Lima. Por um feminismo afro latino
americano: ensaios, intervenções e diálogos.. Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 49-64.
IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios. PNAD . Rio de Janeiro: 2019.
_______________________________________________________________ 2021
Hirata, Helena; Kergoat, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho.
Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, set./dez. 2007
Lechat, N. M. P. As raízes históricas da economia solidária e seu aparecimento no Brasil. In
Luiz Inácio Gaiger (org). Economia Solidária, volume 1. 2002
Luz, Margareth. “Nasce uma nova Niterói”: representações, conflitos e negociações em torno
de um projeto Niemeyer. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 273-300,
jul./dez. 2009
Moura Araujo, Alexandro; Magalhães Ribeiro, Eduardo Feiras, feirantes e abastecimento:
uma revisão da bibliografia brasileira sobre comercialização nas feiras livres. Estudos
Sociedade e Agricultura, vol. 26, núm. 3, 2018, Outubro-, pp. 561-583. Universidade Federal
Rural do Rio de Janeiro, Brasil.
Nagem, Fernanda Abreu. Silva, Sandro Pereira. Institucionalização e execução das políticas
públicas de Economia Solidária no Brasil. Revista de Sociologia e Política, v. 21, n 46:
159-175, jun de 2013
Niterói. Lei municipal nº 3473 de 20 de janeiro de 2020. Dispõe sobre a política municipal de
Economia Popular Solidária. Niterói, 2021
Niterói.Decreto municipal nº 15.058 de 18 de setembro de 2023. Reconhece os marisqueiros
da Ilha de Boa Viagem como comunidade tradicional do município de Niterói. Niterói, 2023
O’dwyer, E. C. Nas fronteiras do Estado-nação: conflitos socioambientais e incêndios
florestais nas terras indígenas dos Awá-Guajá no Maranhão. Revista Pós Ciências Sociais,
V.13, N.26, 31–48, 2016. Disponível em URL: https://doi.org/10.18764/2236
Pedrosa, Renata. Viração: direitos trabalhistas em xeque. Co.Lab Puc Minas, 06 de junho de
2022. Disponível em https://blogfca.pucminas.br/colab/viracao/. Acesso em 18 de dezembro
de 2023.
Pesquisa revela alguns dos bairros mais valorizados de Niterói. Creci, Rio de Janeiro, 24 de
março de 2004. Disponível em
https://creci-rj.gov.br/pesquisa-revela-alguns-dos-bairros-mais-valorizados-de-niteroi/. Acesso
em 29 de janeiro de 2024.
Polanyi, K. A Grande Transformação. As origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus.
Pp. 62-98. 2000 [1944].
107
https://doi.org/10.18764/2236
https://blogfca.pucminas.br/colab/viracao/
https://creci-rj.gov.br/pesquisa-revela-alguns-dos-bairros-mais-valorizados-de-niteroi/
Prefeitura de Niterói vai investir R$ 25 milhões em projetos da UFF. Seplag, Niterói, 19 de
dez de 2020. Disponível em <http://www.seplag.niteroi.rj.gov.br/artigo_detalhe.jsf?id=348>.
Acesso em 20 de outubro de 2022.
Prefeitura de Niterói. Plano de Manejo: Parque Natural Municipal de Niterói. Niterói:
Secretaria do Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade. 2021
Ramalho, Larissa. Freitas, Mariana. Caracterização dos modos de vida e das formas de
ocupação tradicional da comunidade de marisqueiros da Ilha de Boa Viagem, Niterói.
Relatório apresentado ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, 2023.
Santos, Eliane A.; Souza, Rosemeri M. Conflitos Socioambientais na pesca artesanal: um
olhar sobre o cotidiano de pescadoras do Recife. In: Martinez, Silva A. e Hellebrandt, Luceni.
Mulheres (Orgs). Mulheres na Atividade Pesqueira no Brasil. 1ed.Campos dos Goytacazes:
Eduenf, 2019, v. 1, p. 111-138.
Silva, Marcia Alves. Abordagem sobre trabalho artesanal em histórias de vida de mulheres.
Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 55, p. 247-260, jan./mar. 2015. Editora UFPR
Silva, Katia Bittencourt Soares. O papel dos campi universitários da Universidade Federal
Fluminense nos bairros de São Domingos, do Gragoatá e de Boa Viagem e na cidade de
Niterói - RJ. Orientadora: Maria de Lourdes Pinto Machado Costa. Dissertação (Mestrado) -
Escola de Arquitetura e Urbanismo. Pós Graduação em Arquitetura e Urbanismo,
Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2012
Silva, Sandro Pereira. Crise de paradigma?: a política nacional de economia solidária no PPA
2016-2019. Mercado de trabalho: conjuntura e análise, n. 64, p. 163-172. Brasília, abr. 2018
Silva, Sandro Pereira. Economia Solidária e políticas públicas de desenvolvimento local: uma
análise de dois programas de gestão pública no Brasil. Perspectivas em Políticas Públicas,
Belo Horizonte, Vol. 2, Nº 3, P. 45-67, jan/jun 2009
Singer, Paul. Introdução à Economia Solidária. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo,
2002.
Weininger, Elliot. Fundamentos de uma análise de classe de Pierre Bourdieu. In Wright, Erik
Olin (org). Análise de Classe: Abordagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, p. 97-132.
Wright, Eric Olin. Análise de Classe: Abordagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015, p. 15-18
108
http://www.seplag.niteroi.rj.gov.br/artigo_detalhe.jsf?id=348

Mais conteúdos dessa disciplina