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Problema 2 - Avaliando o coração! 1 Problema 2 - Avaliando o coração! Objetivo 1: Descrever a embriologia do coração e grandes vasos (dobramento da quarta semana, formação do septo interatrial, desenvolvimento e fusão dos tubos cardíacos) O sistema cardiovascular é o primeiro a funcionar durante o desenvolvimento embrionário, pois, com o crescimento do embrião, a difusão de O2 e nutrientes não é mais eficaz pra suprir todo o organismo. Originado pelo mesoderma esplênico, na área cardíaca localizada anteriormente a membrana bucofaríngea, é iniciado o processo de formação dos cordões angioblásticos, que em breve darão origem aos tubos endocárdicos do coração. Com o dobramento do embrião na quarta semana, ocorrerá a fusão desses tubos e uma mudança de posição do coração primitivo (antes na região cranial e agora em uma região ventral, cervical). Com a formação do tubo endocárdio único, as câmaras cardíacas começam Problema 2 - Avaliando o coração! 2 seu desenvolvimento. A princípio, o coração primitivo é formado por: seio venoso, átrio, ventrículo e bulbo cardíaco (tronco arterioso, cone arterioso e cone cardíaco). Do tronco arterioso sai o arco aórtico e no seio venoso chegam as veias vitelínica, umbilical e cardinal comum do córion. O bulbo e ventrículo tem um maior crescimento (alça bulboventricular), fazendo com que o coração sofra um dobramento que resulta no posicionamento do átrio e do seio venoso posterior as outras duas câmaras primitivas. Por não ser formado por câmaras de fato, o fluxo sanguíneo ocorre por “movimentos peristálticos”. Problema 2 - Avaliando o coração! 3 A septação atrioventricular ocorre a partir da fusão dos coxins ventral e dorsal. A septação do átrio ocorre a formação do septo primário na parede superior do átrio que delimita o forame primário, que deixará de existir quando o septo chegar ao coxim, porém nesse processo ele sofrerá apoptose na sua parte superior que irá delimitar o forame secundário. A partir da parede ventrocranial do átrio, à direita do septo primário, forma-se o septo secundário, que não irá obliterá completamente a passagem, delimitando o forame oval (permite a comunicação dos átrios no período embrionário). No assoalho do ventriculo esquerdo, forma-se o septo interventricular muscular que não divide completamente as duas câmaras. O forame interventricular será obliterado a partir do desenvolvimento das cristas bulbais e do coxim endocárdico, dividindo assim os ventrículos definitivamente. Problema 2 - Avaliando o coração! 4 Problema 2 - Avaliando o coração! 5 Objetivo 2: Descrever a anatomia do coração e dos grandes vasos. O coração é revestido pelo pericárdio parietal, que é uma camada serosa de tecido conjuntivo. Separa o coração dos outros órgãos torácicos e forma a parede pericárdica, que contém um liquido aquoso e lubrificante. É formado externamente pelo pericárdio fibroso e internamente pelo pericárdio seroso. O coração é uma bomba dupla, composto por quatro câmaras (átrio direito, átrio esquerdo, ventrículo direito e ventrículo esquerdo, sendo os dois primeiros de recepção e os outros dois, de ejeção) e dividido em três camadas (endocárdio, Problema 2 - Avaliando o coração! 6 miocárdio e epicárdio). As ações síncronas das bombas é denominada ciclo cardíaco, em que em seu primeiro momento há um alongamento e enchimento dos ventrículos (diástole) e em seguida há um encurtamento e esvaziamento dessas câmaras (sístole). Os sons auscultados na região do coração são provenientes do fechamento das valvas cardíacas ou semilunares. O endocárdio é uma fina camada de tecido epitelial e tecido conjuntivo, a qual recobre internamente as câmaras e suas valvas. O miocárdio é uma camada muscular cardíaca, helicoidal e espessa. O epicárdio é uma camada do mesotélio formada pela lâmina visceral do pericárdio seroso. As fibras musculares e as valvas estão fixadas no esqueleto fibroso Problema 2 - Avaliando o coração! 7 do coração, que é formado por quatro anéis de colágeno denso, um trígono fibroso direito e esquerdo e as partes membranáceas dos septos interatrial e interventricular. Sua função é manter os óstios das valvas atroventriculares permeáveis, possibilitar as inserções das válvulas nas valvas e ser um isolante elétrico, de forma que a contração das câmaras seja independente. O coração pode ser entendido como uma pirâmide tombada, em que possui um ápice, uma base e quatro faces; além de também ser delimitado por margens (direita, esquerda, inferior e superior). O ápice é formado pela parte inferolateral do ventrículo esquerdo, está situado no 5º espaço intercostal esquerdo, a 9 cm do plano medial, permanece imóvel durante o ciclo cardíaco e é o local de maior intensidade dos sons provenientes da valva mitral (batimento apical). Problema 2 - Avaliando o coração! 8 A base é formada pela face posterior do coração (átrio esquerdo e em menor parte o átrio direito), vai desde a bifurcação do tronco pulmonar até o sulco coronário e recebe as veias pulmonares (átrio esquerdo) e as veias cavas inferior e superior (átrio direito). As quatro faces são face diafragmática (ventrículo esquerdo), face esternocostal (ventrículo direito), face pulmonar direita (átrio direito) e face pulmonar esquerda (ventrículo esquerdo). O átrio direito é a primeira câmara, que receberá sangue pobre em oxigênio das veias cavas superior e inferior e do seio coronário. Possui uma bolsa muscular que aumenta sua capacidade chamada aurícula direita. O interior do átrio direito é composto por uma parte posterior lisa onde se encontram os óstios das veias cavas e do seio coronário; uma parte anterior rugosa composta de músculos pectíneos e pelo óstio atrioventricular direito. As partes lisas e rugosas são separadas externamente pelo sulco terminal e internamente pela crista terminal. O septo interatrial possui a fossa oval, que é um remanescente do forame oval do período fetal. Problema 2 - Avaliando o coração! 9 Problema 2 - Avaliando o coração! 10 Em seguida, o sangue flui para o ventrículo direito passando pela valva tricúspide. Em sua parte superior, afila-se formando o cone arterial, que conduz para o tronco pulmonar. Internamente, é formado por uma camada muscular rugosa e irregular na região de entrada, as trabéculas cárneas, por uma camada lisa no cone arterial e pela crista supraventricular, que divide essas duas regiões. O óstio atrioventricular é circundado por um anel do esqueleto fibroso, o qual garante o seu calibre constante. As válvulas da valva tricúspide estão fixadas no anel fibroso e possuem cordas tendíneas fixadas em suas margens livres e faces ventriculares. Dividindo os dois ventrículos, há o septo interventricular, uma divisória formada por partes musculares e membranáceas. Abaixo do septo, encontra-se a trabécula septomarginal (banda moderadora) que conduz parte do ramo direito do fascículo atrioventricular. O sangue nessa câmara faz uma mudança de 140º na direção e é auxiliada pela crista supraventricular. Problema 2 - Avaliando o coração! 11 Problema 2 - Avaliando o coração! 12 Após a oxigenação do sangue nos pulmões, ele volta ao coração pelas veias pulmonares que chegam ao átrio esquerdo. No processo embrionário a veia pulmonar embrionária originará parte da parede dessa câmara, que será, portanto, lisa em sua maior parte e mais espessa que a do átrio direito. Também possui a estrutura tubular muscular, a aurícula esquerda, porém essa é menor quando comparada à direita. No septo interatrial, há uma depressão semilunar, indicando o assoalho da fossa oval. Por fim, o sangue passa pela valva mitral e chega ao ventrículo esquerdo. Devido à maior pressão que a circulação sistêmica necessita, as paredes musculares dessa câmara são de 2 a 3 vezes mais espessas que a do ventrículo direito, o qual é responsável apenas pela circulação pulmonar. Essas paredes são recobertas portrabéculas cárneas mais numerosas e mais finas, uma cavidade cônica mais alongada e músculos papilares mais desenvolvidos em comparação ao átrio direito. Também possui na região da saída (superoanterior) uma parede lisa denominada vestíbulo da aorta. Tanto o óstio atrioventricular esquerdo como o óstio da aorta são circundados por um anel fibroso. A valva mitral tem as mesmas características e funções da tricúspide, diferenciando-se por ter apenas duas válvulas (anterior e posterior). Enquanto o sangue passa por essa câmara, ele sofre duas mudanças perpendiculares em seu trajeto, resultando em uma mudança de 180º. Problema 2 - Avaliando o coração! 13 IRRIGAÇÃO: Seios da porção inicial da aorta ascendente → artérias coronárias esquerda e direita DRENAGEM: Veias cardíacas → seio coronário → átrio direito Problema 2 - Avaliando o coração! 14 Problema 2 - Avaliando o coração! 15 As artérias que saem dos ventrículos também contam com valvas, as valvas semilunares. Ambas possuem três válvulas (direita, esquerda e anterior), não contam com cordas tendíneas, têm área menor e sofrem menos da metade da pressão que as atrioventriculares. As margens das válvulas são mais espessas nas áreas de contato, formando a lúnula, e o ápice é ainda mais espesso, formando o nódulo. Imediatamente acima das valvas, as artérias sofrem uma dilatação que dá origem aos seios. Problema 2 - Avaliando o coração! 16 Problema 2 - Avaliando o coração! 17 Apesar do coração ter um padrão inato de contração, ele também é inervado pelo sistema nervoso autônomo, em que os nós sinoatrial e atrioventricular são inervados pelas vias simpáticas e parassimpáticas. A estimulação simpática é feita por fibras de gânglios cervicais e torácicos superiores, enquanto a parassimpática, por ramos do nervo vago (ramo direito inervando o nó sinoatrial e o esquerdo, o nó atrioventricular). A maioria dos receptores adrenérgicos são os receptores β1 e os colinérgicos são os receptores muscarínicos. Problema 2 - Avaliando o coração! 18 Problema 2 - Avaliando o coração! 19 Problema 2 - Avaliando o coração! 20 Objetivo 3: Explicar a fisiologia da circulação coronariana O coração recebe cerca de 5% do débito cardíaco de repouso. De todo o O2 consumido pelo coração, apenas 40% é utilizado na oxidação de carboidratos, sendo que os outros 60% são direcionados à oxidação de ácidos graxos. Com um fornecimento adequado de O2, o coração capta lactato e piruvato para oxidá-los, porém, quando há uma maior demanda, ele libera o lactato e consume as reservas de glicogênio. Problema 2 - Avaliando o coração! 21 A anatomia pode ter variações, mas geralmente a artéria coronária direita supre o átrio e ventrículo direito, enquanto a artéria coronária esquerda, o átrio e ventrículo esquerdo. Artéria coronária direita → Ramo do nó sinoatrial, ramo marginal direito, ramo interventricular posterior e ramo do nó sinoatrial Artéria coronária esquerda → Ramo interventricular anterior, ramo circunflexo e ramo marginal esquerdo Seio coronário recebe as tributárias: veia cardíaca magna, veia interventricular posterior, veia cardíaca parva, veia ventricular esquerda posterior e veia marginal esquerda. O fluxo sanguíneo acompanha o perfil de pressão do coração, porém a circulação coronariana foge dessa regra. Devido a contração do miocárdio, o suprimento vascular do coração é comprimido (menos sangue chega), logo o fluxo sanguíneo das coronárias depende tanto da pressão da aorta como da compressão dos ventrículos, especialmente do esquerdo. Na medida em que a pressão aórtica aumenta tardiamente na sístole, a pressão das coronárias aumenta, mas nunca chegando em seu pico. No início da diástole quando os ventrículos já estão relaxados e a pressão na aorta ainda está relativamente alta, o fluxo coronariano esquerdo aumenta rapidamente, atingindo seu pico. Apesar disso, o perfil da coronária direita é muito parecido com a aorta, tendo seu maior suprimento durante a sístole, já que a pressão na parede do ventrículo direito não é tão alta e não causa a oclusão dos vasos como acontecem no lado esquerdo. A frequência cardíaca também interfere no fluxo sanguíneo, tendo, em uma taquicardia, um menor tempo de diástole, o que impacta diretamente o suprimento da coronária esquerda. Em Problema 2 - Avaliando o coração! 22 um coração saudável, as coronárias se dilatam para compensar o encurtamento da diástole. Outra variável no fluxo coronariano é a profundidade dos vasos. Durante a sístole, a pressão no endocárdio é maior que no epicárdio, mas o fluxo é aproximadamente igual, devido a menor resistência vascular intrínseca do endocárdio. Na circulação coronariana, há correspondência linear do consumo de O2 pelo miocárdio e seu fluxo sanguíneo. O miocárdio não pode responder a maiores demandas extraindo mais O2 do que aquela esperada de um indivíduo em repouso, então o coração aumenta o fluxo sanguíneo para que essa demanda seja suprida. Durante o exercício, isso ocorre por meio da vasodilatação. Outro modo de reduzir a resistência vascular coronariana é uma maior PCO2 e menor PO2. Em suma, o coração tem a sua própria autorregulação. A inervação autônoma também pode alterar a circulação coronariana, uma vez que uma resposta simpática desencadeia uma maior frequência cardíaca, que levará o coração a responder de acordo com o seu metabolismo. No estímulo parassimpático, o nervo vago se restringe às regiões vizinhas do nó sinoatrial, alterando mais a frequência cardíaca do que a resistência vascular. Bibliografia MOORE, Keith L.; DALLEY, Arthur F.; AGUR, Anne M. R. Anatomia orientada para a clínica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2020. NETTER, Frank H. Atlas de anatomia humana. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. VAN DE GRAAFF, Kent M. Anatomia humana. 6. ed. São Paulo: Manole 2003. BORON, Walter F.; BOULPAEP, Emile L. Fisiologia médica: uma abordagem celular e molecular. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier 2015.