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Tópicos emergentes em psicologia clínica Me. Marco Aurélio Araújo Corrêa de Oliveira Lima 1 Abrem-se as cortinas. No palco, quatro paredes brancas fechadas em torno de si mesmas, dentro delas sabe-se que há duas pessoas: uma que sofre e outra que lhe suportando o sofrimento promete curá-la. Após uma hora aquela que sofre sai da sala e torna-se espectador. Outro ator que antes era espectador sobe ao palco adentrando a sala e ficando ali por mais uma hora, e assim continuamente. HISTÓRIA PSICOLOGIA CLÍNICA A expressão Psicologia Clínica foi usada pela primeira vez em 1896, por Lightner Witmer ao se referir a procedimentos de avaliação empregados com crianças deficientes. É, portanto, no século XIX que ocorre a gestação do espaço psicológico. A configuração cultural contemporânea impôs à Psicologia Clínica o lugar de escuta dos excluídos, do dejeto, do não-positivo. Após a Segunda Guerra Mundial, a Psicologia conhece sua época de maior avanço. Os contatos com a medicina ocorreram quase que na totalidade e as atividades de psicodiagnóstico ganham lugar de destaque na sociedade. Partindo deste raciocínio, entendemos que a Psicologia Clínica veio ocupar um lugar determinado, não por ela, mas pela configuração cultural de uma época. Em 1935, uma declaração do American Psychological Association anunciava que a Psicologia Clínica tinha como finalidade: "definir capacidades e características de comportamento de um indivíduo através de testes de medição, análise e observação e, integrando esses resultados e dados recebidos de exames físicos e histórico social, fornecer sugestões e recomendações, tendo em vista o ajustamento apropriado do indivíduo" acarretou para a Psicologia Clínica uma trajetória de distorções e uma complicada definição do que seja seu campo de conhecimento. 5 A Psicologia Clínica caracterizava-se por um sistema de atenção voltada ao indivíduo com foco na compreensão e tratamento da doença, vinculada fortemente ao modelo médico, sobretudo na década de 30 com a evolução do psicodiagnóstico. O que é clínica Etimologicamente o termo clínico significa aquele que cuida. Segundo estudiosos de etimologia, como Mauricea Filho (1961) e Magne (1961), o clínico é aquele que se debruça, que se inclina sobre a criatura que sofre. E o personagem que lhe possibilita a atuação, o cliente – cliens – é aquele que encontra amparo, aquele que se apoia. O que é a psicologia clínica? A concepção clássica de psicologia clínica afirma ser esta uma disciplina que tem como preocupação o ajustamento psicológico do indivíduo e como princípios o psicodiagnóstico, a terapia individual ou grupal exercida de forma autônoma em consultório particular sob o enfoque intraindividual com ênfase nos processos psicológicos e centrado numa relação dual na qual o indivíduo é percebido como alguém a-histórico e abstrato. A dominância deste modelo de Psicologia Clínica corresponde ao elevado status do clínico em comparação com outras identidades profissionais do psicólogo. Figueiredo (1995) considera que as representações sociais do psicólogo que acabam por gerar a dominância do modelo estão baseadas em algumas confusões como: o lugar do clínico (consultório particular), a clientela (clientes particulares) e, por fim, o regime de trabalho (profissional liberal). Parece que a Psicologia Clínica está condenada a ser confundida com uma área de atuação ou aplicação de conhecimentos. Em muitos casos, a clínica é definida pelo local onde é exercida e não propriamente pela função que exerce, como se não fosse possível fazer clínica fora das quatro paredes de um consultório. Psicologia clínica atual Não se trata mais apenas de receber o paciente entre quatro paredes brancas tendo a cura como promessa, �(.) tratando apenas da realidade interna; remetendo todo e qualquer sentimento de mal-estar existencial para o território da falta, e reduzindo o inconsciente à sua dimensão familiarista-edipiana.� (Rodrigues, 1998: 68). Não procura-se mais descobrir a doença, a patologia que o sujeito possui. Estamos, sim, em busca de uma psicologia clínica que, levando em conta os saberes dos quais dispomos, efetue intervenções nas vidas, nas relações, nas subjetividades das pessoas. Uma clínica que invente práxis éticas e politicamente comprometidas. Uma revolução que levará a psicologia clínica à um caráter definitivamente preventivo, onde até mesmo a ideia de cura, assumiria este lugar. Cura como atitude de zelo, como ocupação prévia e responsabilidade sobre o cliente. Precisamos construir para uma psicologia clínica nova, também um novo psicólogo. Um inventor, um artista, um grande maestro que em suas composições arranje escalas de intervenções clínicas dentro de uma dimensão ética e política. E é este o psicólogo que se quer em movimento, que se quer inquieto, que se quer comprometido com a transformação social e capaz de estranhar a naturalização de si mesmo e do mundo. Um psicólogo em movimento. Essa deve ser a nossa meta. Um psicólogo aliado da transformação social, do movimento da sociedade e dos interesses da maioria da população. Um psicólogo inquieto, que saiba estranhar aquilo que na realidade se torna tão familiar que chega a ser pensado como natural. Um psicólogo permeável às inovações que aceite o desafio de, coletivamente, produzir alternativas à Psicologia tradicional (Bock, 1997:41). Referencias Bock, A. M. B. (1997) Formação do Psicólogo: Um Debate a Partir do Significado do Fenômeno Psicológico Em: Psicologia Ciência e Profissão. 17, no 2, 37-42. Figueiredo, L. C. M. (1995) Revisitando as Psicologias: Da Epistemologia à Ética nas práticas e discursos psicológicos. São Paulo: EDUC; Petrópolis: Vozes. Rodrigues, H. de B. C. (1998) Direitos Humanos e Intervenção Clínica. Em: C. M. B. Coimbra, (coord.). Psicologia, Ética e Direitos Humanos: Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia. Brasília. SILVA, Édio Raniere da. Psicologia clínica, um novo espetáculo: dimensões éticas e políticas. Psicol. cienc. prof., Brasília , v. 21, n. 4, p. 78-87, Dec. 2001 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932001000400009&lng=en&nrm=iso>. access on 09 Mar. 2020. https://doi.org/10.1590/S1414-98932001000400009. image1.jpeg image2.jpg