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3 A mulher do CircoA mulher do Circo 4 A mulher do Circo A mulher do Circo 4 5A mulher do Circo Editorial com imensa alegria que apresento a re- vista do 4º Festival Internacional do Circo da Cidade de São Paulo, que tem como tema “O olhar feminino na ribalta”. A Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo (AA- CMC) capitaneia, desde 2018, esse evento que, entre outras coisas, deu oportunidade à clas- se circense de continuar sua longa tradição cultural. Essa sua quarta edição, no entanto, é muito mais que isso, é uma conquista da mes- ma classe circense, que emerge das cinzas de uma devastadora epidemia que inviabilizou a vida nos picadeiros nacionais por dois tene- brosos anos. Isso levou famílias tradicionais a optarem por outras atividades para garantir o seu sustento, nem sempre ligadas às Artes Circenses. Não foram poucas as ocasiões que a AACMC teve de pedir auxílio às instituições assistenciais para conseguir cestas básicas que levassem alimento a essas famílias. Foram ra- ras as oportunidades que o Estado demons- trou disposição para estender uma rede de segurança social aos circenses. Exemplo disso foi que 2021 foi um ano sem FIC, encerrado nos labirintos burocráticos e políticos e manti- do alheio às dificuldades dos artistas que dele tanto precisaram. Por outro lado, o Centro de Memória do Circo, razão de ser da AACMC, que também foi mantido fechado, não interrompeu as suas atividades, entre elas as do projeto Sou de Circo, que prepara jovens pesquisadores inte- ressados no universo circense. Estes, aliás, des- cobriram o canal virtual para dar continuidade às investigações que, por sua vez, ganharam maior visibilidade junto ao público em geral. A pesquisa sobre o circo, aliás, também foi mantida por artistas e pesquisadores, aca- dêmicos ou não, que conseguiram persistir numa atividade que jamais viveu tamanho des- caso do poder público como nos últimos anos. Assim, essa publicação é a coroação do esforço de muitos daqueles que não soltaram a mão da classe circense. Em particular, nomeio três personagens essenciais nesse processo. Verônica Tamaoki, que está à frente do Centro de Memória do Circo desde a sua cria- ção, em 2008. Ela manteve a instituição, reco- nhecida pela classe circense como o centro de sua identidade não só social, mas cultural e histórica, sob as diversas administrações mu- nicipais. Se há o FIC, ele é fruto de uma asso- ciação que congrega pessoas dedicadas a sal- vaguardar o patrimônio material e imaterial do circo brasileiro. Bel Toledo, hoje vice-presidente da AA- CMC e presente na produção desde o primeiro FIC, foi quem assumiu o compromisso de fazer acontecer a quarta versão do festival, que per- maneceu silenciado em 2021, guardado como um soluço. Bel conseguiu fazer emergir do vácuo a força de uma classe entristecida com suas perdas e suas dores, legadas pela pande- mia. Fez, enfim, sanar a ausência do festival, tornando-o mais amplo e democrático para poder atender a toda a classe, dando-lhe, en- fim, a possibilidade de renascer. Mário Fernando Bolognesi, pesquisador e acadêmico, além de circense, que articulou um grupo multidisciplinar e interdisciplinar, com pretensão a ser transdisciplinar, congregando pesquisadores de diversas universidades de todo o país, cujos trabalhos se encontram em pleno desenvolvimento. O tema? A mulher do circo. O mesmo do 4º FIC. Por fim, o tema des- ta revista. Todas as pesquisadoras – e alguns pes- quisadores – que assinam artigos nesta publi- cação e desenvolvem pesquisas sobre perso- nagens femininas do circo brasileiro, além de temas relacionados ao gênero e ao significado da mulher nas artes do circo, merecem igual distinção. Pois proporcionam um vasto pano- rama temático que, se chega com atraso na pesquisa brasileira sobre o circo, tenta liberar, da mesma forma, o soluço preso para transfor- má-lo em grito de afirmação. Pois aqui estamos! Viva o Centro de Me- mória do Circo! Viva o Festival Internacional do Circo da Cidade de São Paulo! VIVA A MULHER DO CIRCO! Walter de Sousa Presidente da AACMC É Fo to : R ob so n Re ga to 6 7A mulher do Circo Políticas Públicas e o ecepciona o descaso do poder público com a arte circense. Não me refiro apenas ao praticado atualmente, pois as políticas públi- cas para com o Circo sempre foram frágeis, quando não, inexistentes. E olha que se trata de uma arte que contabiliza mais de cinco mil anos de existência, comprovados com pinturas descobertas na China, em que acrobatas, con- torcionistas e equilibristas se apresentavam para autoridades. Hoje, em pleno século XXI, ainda não temos uma estrutura de apoio que se mantenha e fortaleça nossa arte. Já dizia o poeta: “A ausência da arte nos diminui a todos”. Se o poeta romano Juvenal vivesse nos tempos atuais, diria que falta ao povo o pão e o Circo! E não há dúvidas sobre a gravidade disso... A falta de cultura aumenta a desigualdade social e empobrece uma nação. Sem falar que uma arte que emprega tanta gente não deveria ter possibilidade de se tornar irrelevante! Vou citar um descaso recente, especifica- mente sobre o Festival Internacional de Circo – FIC. O Festival surgiu na gestão do Secretário André Sturm com o objetivo levar para a po- pulação espetáculos circenses gratuitos e de qualidade. Surpreendeu esse reconhecimento para com a arte circense, já que o Secretário garantia a realização anual do mesmo, como um evento do calendário oficial da Prefeitu- ra de São Paulo. Desde lá, o FIC realizou três edições, se tornando um dos festivais mais im- portante do país, proporcionando qualificação, informação e troca de saberes, ações muito importantes para a categoria circense e para o público. Essas três edições foram de enorme su- cesso, apresentando números impressionantes em cada edição: média de 70 grupos/espetá- culos (cerca de 400 artistas), 75 intervenções artísticas, com 20 apresentações volantes (cer- ca de 400 artistas), mesas formativas, mesas de debates, palestras, exposições e várias lonas montadas dentro da cidade do circo. O Festi- val também gerou emprego direto para segu- ranças, carregadores, equipe de limpeza, con- trarregras, capataz, operadores de som, de luz, técnicos de vídeo, fotógrafos, designer gráfico, costureiras, e muitos outros profissionais. Se para André Sturm era de máxima importância a existência do Festival Internacional de Circo – FIC, para as gestões seguintes ele parece pou- co importar, pois a quarta edição, que deveria se realizar em 2021, simplesmente foi cancela- da! Você não sabia?! Então siga sua leitura só mais um pouquinho... O Edital de aprovação da quarta edição do FIC foi publicado no Diário Oficial, mas houve uma recusa em pagar o que havia sido contemplado. Foi necessário acionar o MP e o Tribunal de Contas, pois a Lei não estava sen- do cumprida. A classe circense realizou uma intensa mobilização e, após muita pressão pú- blica e ações judiciais, a Lei foi cumprida. Cá estamos: realizando a quarta edição, quando na verdade era para ser a quinta. O alijamento do movimento circense é tão evidente que até mesmo o Tendal da Lapa desativou o Centro de Qualificação do Circo. E olha que recente- mente havia sido inaugurada uma lona de cir- co em homenagem ao palhaço Agenor (Do- mingos Montagner). A bem da verdade, essa edição significa muito mais que a continuidade de um festival. É o resultado de uma classe que se uniu e lutou por sua edição! Somos reniten- tes. Tanto que acreditamos na sensibilização e reconhecimento da importância do FIC pelo Poder Público, e que garantam a realização da quinta edição ainda em 2022. O FIC é muito mais que um festival, o FIC é resultado de nos- sa luta. Sim, o FIC é nosso!!! E, Juvenal, vamos levar circo para o povo sim. Bel Toledo Produção Executiva do FIC Circo D Fo to : R ob so n Re ga to 8 9A mulher do Circo Centro de Memória do Circo - CMC - da Secretaria Municipal de Culturade São Paulo, primeira e única instituição da América Latina consagrada exclusivamente à memória e cul- tura circense, tem o prazer de apresentar o 4º FIC, dedicado ao tema “O olhar feminino na ribalta”. Inaugurado em 2009, o Centro de Me- mória do Circo tem como missão pesquisar, resgatar, reunir, registrar, preservar e difundir o patrimônio cultural do circo brasileiro. Seu acervo, constituído por aproximadamente 80 mil documentos de diferentes formatos e su- portes, é o coração da instituição. Sendo as- sim, uma das principais metas do CMC é tra- tar, acondicionar e catalogar esse acervo, num processo realizado conjuntamente com pes- quisa histórica que resulta na construção de trechos importantes da historiografia do circo brasileiro. Para compartilhar o acervo e o trabalho que nele vem sendo realizado, o CMC produz livros, exposições, áudios, audiovisuais e mes- mo experimentos cênicos. Também mantém aberto seu acervo para consultas e prepara uma plataforma digital para melhor comparti- lhá-lo. Respeitável público! Verônica Tamaoki Coordenadora do Centro de Memória do Circo Desde o final de 2018, foi bastante in- tensa, mesmo em período pandêmico, a pro- dução realizada pelo CMC. Foram publicados o livro O diário de Polydoro e os dois primeiros números da revista Sou de Circo. Foram mon- tadas três exposições de pequeno porte: Mes- tre Maranhão, Família Queirolo e Fu Li Chan, na vitrine do seu atelier. Foi criada uma série de audiovisuais a partir do patrimônio material e imaterial da instituição. Foram transmitidas palestras, cursos, debates, oficinas, através do seu canal virtual. Neste ano de 2022, visan- do celebrar a influência do circo no movimen- to modernista, no ano em que se comemora o centenário da Semana de 1922, foi criada a exposição Circo Modernista, a primeira exposi- ção itinerante do CMC, que está fazendo sua primeira temporada no Centro Cultural da Ju- ventude; e prepara Piolin, o palhaço modernis- ta da pauliceia, exposição de trajes do famoso palhaço, doados ao MASP, no cinquentenário da Semana de Arte Moderna, em 1972, e trans- feridos, em 2015 para o Centro de Memória do Circo. Muito da produção do CMC nos últimos anos só foi possível graças ao Sou de Circo - Programa de Formação e Experimentação em Museologia, História e Pesquisa do Circo, an- corado no acervo do CMC e voltado para jo- vens circenses. À primeira edição do progra- ma, realizada em 2018, seguiram-se mais três edições, entre 2019 e 2021. Um dos grandes trunfos do Programa é aliar o trabalho de pre- servação técnica e catalogação ao de pesquisa histórica e artística. Processo que propicia tra- tamento adequado ao acervo ao mesmo tem- po que forma os aprendizes. Nesse sentido o Sou de Circo é não só o presente mas também o futuro do Centro de Memória do Circo. Re- alizado pela Associação de Amigos do CMC, o Programa se prepara para que em 2023 venha a se tornar um curso regular e assim ampliar o número de jovens atendidos. Mas voltemos agora ao tema tão opor- tuno do 4º FIC: as Mulheres do Circo!.. É im- possível dissociar a história do circo brasileiro, com quase 200 anos de atividades, da impres- cindível presença da mulher. Sendo a família o mastro central das companhias circenses que atravessaram esses quases dois séculos do cir- co brasileiro, a MULHER é o seu esteio. O papel da mulher, tanto na consumação da estrutura empresarial quanto do espetácu- lo circense, torna o picadeiro o espaço mais diverso do entretenimento nacional. Seja nas artes circenses – malabarismo, equilibrismo, ilusionismo, e adestramento de animais – nos bailados ou nas peças de circo-teatro, a pre- sença feminina foi essencial para que, no circo contemporâneo, ela conquistasse papéis ainda inéditos na sua trajetória, entre eles, um dos mais nobres, que é o de palhaça. O tema do 4º FIC, “O olhar feminino na ribalta”, faz uma revisão necessária desse pa- pel na extensa história do nosso circo. Por fim, esta publicação reúne pesquisadoras que se dedicaram a investigar o universo feminino no circo, apresentando alguns dos resultados de suas pesquisas. Nesse panorama, o CMC tem a satisfação de ser a casa de todas elas. VIVA AS MULHERES DO CIRCO! O Fo to : R ob so n Re ga to Índice Presentes no espetáculo, ausentes na história ..............................................14 Mário Fernando Bolognesi Entre cavalos e canhões: mulheres circenses do século XIX ...................16 Daniel de Carvalho Lopes e Erminia Silva Dramaturgas no circo-teatro em São Paulo: 1927-1967 .........................18 Cristina Alves de Macedo | Eliene Benício Amâncio Costa | Walter de Sousa Junior Marlene Querubim circo de todos os gêneros ..............................................22 Entrevista Mulheres na música dos circos brasileiros: narrativas, dimensões e pluralidade ....................................................................26 Lívia Mattos A Bela e as Feras ...................................................................................................32 Verônica Tamaoki As mulheres do Circo Theatro Guarany ......................................................38 Mariana Gabriel Gê Pimenta, a encantadora rainha dos pombos ............................................44 Daniele Pimenta Quando a artista se torna mãe ............................................................................50 Maria Carolina Vasconcelos Oliveira Encontros de palhaças: Andrea, Mafalda, Maria e muitas mais! ...........54 Maria Silvia do Nascimento Guaraciaba Malhone e Ediméa Rocha: parceiras na vida e no palco ..................................................................................56 Maria De Maria Políticas Públicas: breve histórico .......................................................................58 Alice Viveiros de Castro Quem fez parte deste espetáculo ......................................................................64 Mulheres circenses em evento do Centro de Memória do Circo em 2018 Foto: Alberto “Tangará” Fernandes 12 13A mulher do Circo prática artística e a de pesquisa na área cir- cense abrem-se às notórias exclusões e distor- ções históricas. Esse movimento aflora a partir das consciências identitárias, em especial às de gêneros e às de etnias. Presentes e com desta- ques nos espetáculos e na formação de artistas, as mulheres, por exemplo, estão ausentes na his- tória. No campo explícito da pesquisa, a abertu- ra a esses horizontes inovadores encontram uma grande barreira. Os estudos da cena de matrizes populares e coletivas não se encaixam plenamen- te nos parâmetros adotados pelos estudos do te- atro erudito. Eles tentam enquadrar o fenômeno fundado na cultura oral nos princípios estéticos eruditos. Presentes no espetáculo, ausentes na história Mário Fernando Bolognesi Os equívocos históricos, analíticos e in- terpretativos são inúmeros. Eis alguns: (1) a cultura erudita privilegia o indivíduo cria- dor e a popular tem no coletivo o seu funda- mento: a autoria se irmana com a propriedade privada, ao passo que a cultura oral, como prá- tica coletiva, ignora esse valor. O circo opera com ambos. (2) apontar a suposta falta de ineditismo nas práticas artísticas populares: a cultura popular (incluindo o circo) guia-se pelos critérios da re- posição e transformação; (3) a noção de “obra artística” funda-se na obra em si e seu potencial expressivo, que prevê uma atitude contemplativa: exige-se silêncio em uma sala de espetáculo fechada, enquanto na cena em ambiente circense o público é cha- mado a se manifestar; (5) o teatro erudito privilegia a dramaturgia e a encenação: o popular e sua cena comunicativa tem na interpretação e no jogo cênico com im- provisos os seus nortes. As atrações circenses trabalham com os dois parâmetros. (6) o teatro erudito privilegia os formatos trá- gicos e dramáticos, enquanto que o popular se satisfaz com a potencialidade extrovertida do jogo cômico:o espetáculo de variedades não encontra lugar na estética erudita. Os valores estéticos eruditos nortearam (e ainda norteiam) pesquisas em história das artes cênicas, em estudos teóricos e conceitu- ais. Implícitos e invisíveis, o olhar patriarcal e colonizador se faz presente, acentuando mui- tas ausências, tais como valores e práticas cul- turais de outras etnias, de povos colonizados, A Fo to s: W ik im ed ia C om m on s A bela Adah Isaac Merken no drama Mazepa A mulher de aço Katie Sandwina de classes e extratos sociais dominados, de diversidade de gêneros e, no caso brasileiro, particularmente de indígenas, de negros e ne- gras, de crianças e das mulheres em geral. A história oficial do teatro aponta muito tardiamente a presença e a aceitação do tra- balho das atrizes, que ocorreria apenas com a Commedia dell’Arte, em sua versão francesa. Não foi o caso da cena popular e coletiva. Des- de tempos remotos, famílias de viajantes sal- timbancos colocavam todos os seus no tabla- do, inclusive animais, domésticos ou não. Os critérios morais e comportamentais da cena 14 15A mulher do Circo erudita nem sempre se aplicam à cena popu- lar. Daí o descaso, menosprezo e marginaliza- ção dos jogos de artistas viajantes. O circo moderno, ao lado da aristocrá- tica prática equestre, adotou a herança dos saltimbancos e das matrizes populares e co- letivas em seus espetáculos, rearranjadas, no entanto, para o ambiente e critérios da cultura comercial. Ele manteve a montagem de atra- ções como princípio formativo do espetáculo; não se rege pela noção de obra artística; es- teve e está atento à presença e manifestação do público; manteve a prática popular de dar lugar ao trabalho artístico de mulheres e crian- ças. O espetáculo sempre foi composto com a presença e expressividade feminina. Adian- te, alguns exemplos - incompletos, com toda certeza. Philip Astley (1742-1814) tem lugar de destaque na história do circo por ter organi- zado, empresarial e artisticamente, o circo mo- derno. Sua mulher, Patty Jones, ou Passy Astley (1741-1803) sempre esteve atuante, em igual importância, quer seja na direção, como na ad- ministração e na execução de números acro- báticos ousados com cavalos. Antes de Patty, Jeanne Godefroy (1658- 1710), em parceria com os irmãos Allard, deve ser lembrada por experimentar à exaustão for- matos diversos de espetáculos no Teatro de Feiras, formatos esses que associavam cenas teatrais com números de variedade, base es- trutural para o futuro espetáculo circense. Adah Isaacs Menken (1835-1868), atriz norte-americana, que se destacou por suas qualidades artísticas e pelos enfrentamentos aos costumes e valores da época, atuou no drama equestre Mazeppa, na década de 1860. Interpretou um papel masculino, o principal da peça, vestida apenas com uma malha da cor da pele, dando a ilusão de nudez. Desde os anos de 1830 a obra era encenada em circos e tea- tros. O trabalho de Adah, no entanto, foi mar- co tanto pela qualidade de sua interpretação, como pela ousadia e o consequente escândalo provocado no público e entre os críticos. No âmbito do espetáculo de varieda- des, Marguerite-Antoinette-Sévère Lalanne (1786-1866), em artes, Madame Saqui, se des- tacou pela postura audaciosa em suas atua- ções, como equilibrista, acrobata e diretora de teatro. Maria Spelterini (1853–1912) provocou calafrios quando atravessou as Cataratas do Niágara em cabo de uma polegada, a uma al- tura de 300 metros. Comemorava-se o cente- nário dos Estados Unidos da América. Ela re- petiu a arriscada travessia, sempre ampliando o grau de dificuldade. Catherine Brumbach (1884–1952), ou Ka- tie Sandwina, a “mulher de aço”, com vigor físi- O olhar patriarcal e colonizador acentua ausências nas pesquisas, como valores e práticas culturais de povos colonizados. co e feminilidade, levantava quantidade exor- bitante de peso e de pessoas. Ficou conhecida, também, por vencer vários homens no levan- tamento de peso. Rossa Matilda Richter (1860-1937), em artes, Zazel, acrobata e trapezista, destacou-se como mulher bala, lançada por um canhão a mais de 20 metros de altura. A canadense e trapezista Antoinette Concello (1909-1984), conseguiu o triplo sal- to-mortal. Ocupou, até sua morte, o cargo de diretora de aéreos do então Ringling Bros e Barnum & Bailey Circus. A lista acima é incompleta, porque defici- tário é o trabalho de pesquisa histórica acerca das mulheres. Mas, ainda é possível encontrar algumas informações de natureza jornalística ou memorialista acerca dessas artistas que se consagraram na Europa e nos Estados Unidos. E as artistas brasileiras? Onde estão as in- formações de Jane Alvarenga Fabbri? E Myriam Ortany, e Wanda Zanchettini, e Gê Pimenta, e Elsa Wolf, e Sadja e Mayran Marrocos, e Dirce Militello, e as artistas e posteriormente forma- doras de artistas, como Amercy de Paula Silva, Maria Delisier Rethy, e Marion Brede, e dona Neide Silva? E as tantas outras dançarinas, rumbeiras, partners etc.? Nada delas, ou quase nadas. O 4º Festival Internacional de Circo da ci- dade de São Paulo, neste ano em sua quarta edição, investe na reparação de parte dessa imensa lacuna. Artistas, pesquisadoras e pes- quisadores começam a vasculhar e registrar esse legado. Nunca é tarde. A atenção às limi- tações dos critérios da estética pode contribuir para a história e análises não ortodoxas. Ou- tros segmentos marginalizados e dominados esperam sua vez. Coragem de sobra: Zazel, a mulher bala e Maria Spelterini, no Niágara 16 17A mulher do Circo A Entre cavalos e canhões: mulheres circenses do século XIX Daniel de Carvalho Lopes e Erminia Silva busca por compreender a atuação das mulheres nos circos no Brasil do século XIX, as representações traçadas sobre suas realiza- ções, o “feminino” e o significado da mulher circense nas artes e na sociedade é uma tarefa complexa e árdua. Fato é: só é possível acessar minimamente essas e tantas outras questões de “mãos dadas” com essas artistas e conhe- cendo suas trajetórias e façanhas. Ademais, um mergulho na compreensão desse tema, por mais superficial que seja, é possível somente por meio principalmente de publicações de jornais do período (crônicas, poemas, bilhetes etc.). E aqui vale um alerta: se o tema é por si só difícil como um salto tri- plo sobre lanças, mais difícil se torna tendo em vista que o que foi publicado sobre a atuação dessas mulheres parte do olhar masculino, de uma sociedade patriarcal e machista. Contudo, aprendendo com o próprio cir- co e suas criativas reinvenções, não podemos deixar de olhar pelas “frestas da cortina” e dar uma pirueta para tentar ir além de uma visão enviesada e restrita da imprensa da época so- bre as mulheres circenses. Neste olhar pelas “frestas” observamos, sim, uma representação do feminino com “de- licado”, “belo” e “frágil”, mas o que dizer da “equitação cômica, pela jovem Candinha, no seu cavalinho Riquiqui, e a cena cômica eques- tre Os Pastores, pela jovem Rosinha e mais ar- tistas”do circo de Bartholomeu C. da Silva em 1863 (que aparecem no carioca Correio Mer- cantil de 16/01/1863); e das equestres Luiza e Zilda Casali, “duas mulheres de elegância e perfeição” (como definiu o também carioca A Reforma em 24/07/1875) que estiveram entre as primeiras a disputar uma prova de corri- da de cavalos, juntamente com Emilia Rolam e Annita Lopes (também circenses), no Prado Fluminense, em setembro de 1875; ou mes- mo da “especialíssima representação Femi- nil” (Gazeta de Noticias, do Rio de Janeiro, de 05/09/1888), espetáculo feito somente com as mulheres do elenco (mais de 20) do Circo Ir- mãos Amato em 1888? Poderíamos ainda mencionar, analisar e tensionar centenas de exemplos de mulheres circenses e seus feitos, como Maria Spelterini, que carregou nas costas um homem da plateia durante uma travessia de arame na máxima al- tura do Teatro-Circo fluminense em 1877, ou “a intrépida” EllaZuilla, mulher projétil que foi aos ares lançada por um canhão, em 1878, também no Teatro-Circo. Mas, fiquemos por aqui. Pois é, havia uma frequente representa- ção da mulher circense por parte da impren- sa que, ao mesmo tempo em que enaltecia a sua beleza e delicadeza de forma estereotipa- da, também consagrava sua coragem e força física. Neste diverso imaginário a respeito das circenses no período, traçado sempre pelo olhar masculino, tomam parte simultaneamen- te e contraditoriamente a ideia da artista tanto como uma figura sedutora e sublime, quanto intrépida e emancipada. Complexo, não? Enfim, para o espetáculo não acabar, que possamos ampliar em muito o olhar pelas “frestas” e descortinar ainda mais o comple- xo, essencial e fascinante universo da atuação das mulheres circenses no Brasil do século XIX. Quem vem? O espetáculo já vai começar. Re pr od uç ão Correio Mercantil (RJ, 16/1/1860) A Pátria (RJ, 28/10/1858) A Nação (RJ, 2/9/1872) O Liberal do Pará (PA, 20/10/1875) 18 19A mulher do Circo Dramaturgas no circo-teatro em São Paulo: 1927-1967 Arquivo Miroel Silveira, que por quase duas décadas foi objeto de diversas pesquisas na Escola de Comunicações e Artes de São Paulo e que atualmente se encontra sob a tutela do Arquivo Público de São Paulo, guarda peças de circo-teatro assinadas por 21 autoras, entre textos próprios, traduções, adaptações e arranjos, cujo repertório varia entre dramas, melodramas, comédias, farsas, revistas e outros. Entre as autoras há artistas já consa- gradas pelo circo, assim como autoras que na atualidade são desconhecidas. São elas: Aparecida Pimenta, Arethuza Neves, Aurora Rosani, Claudemira Alves dos Santos Vieira, Gilda de Abreu, Helen Fantucci de Mello, Her- cilia de Freitas, Iracy Vianna, Íris Avanzi Moya da Silva, Laura Corina, Margaret Mayo, Maria Estela Oliveira, Maria Rodrigues, Marieta Ma- cario Novet (ou Navet), Marina Peres, Nancy Tognoli Mello, Nair Bevedê, Nara Navarro, Nina Galhardo, Sarayde Savalla Baxter e Zaide Nacaratti. Muitas interrogações surgem a partir do levantamento do número de mulheres que escreveram para o circo-teatro, princi- palmente quando se sabe que no Arquivo há 1088 peças escritas para o circo-teatro, e que deste total foi possível levantar 348 autores, e entre estes há 21 autoras, o que equivale a 6,03% de mulheres dramaturgas. Tendo como referência o período histórico em que essas mulheres viveram, essa porcentagem é significativa e surpreendente. As obras dessas autoras fazem parte da história do circo no Brasil, e especialmente do circo-teatro pau- lista, as quais passaram pela censura prévia entre os anos de 1927 e 1967. Ao longo da história, as mulheres ocu- param diferentes funções no circo, sendo responsáveis seja no que toca à realização dos espetáculos, seja às diferentes demandas relacionadas à administração do circo. Neste contexto, destaca-se a atuação das escritoras de peças teatrais, as dramaturgas circenses. Fala-se aqui de uma dramaturgia que fez par- te do circo brasileiro, especialmente em mea- dos do século XX, e teve grande destaque na composição do espetáculo dos circos-teatro brasileiros. Essa dramaturgia foi muito apre- ciada por um público que frequentava o circo justamente porque podia assistir determina- das peças, além de apreciar a primeira parte do espetáculo, dedicada às variedades. É importante lembrar que o Brasil vi- veu longo período de censura, dentro e fora de cenários ditatoriais, sempre pautado pela regulação social e cultural, em que a produ- ção artística, fosse radiofônica, audiovisual ou Cristina Alves de Macedo Eliene Benício Amâncio Costa Walter de Sousa O Ar qu iv o Eu lo d e Al m ei da Cena da peça Os dois garotos, Circo François 20 21A mulher do Circo cênica, precisava passar pelo crivo censório antes de serem apresentadas ao grande pú- blico. No caso do circo-teatro, essa vigilância era destinada tanto ao espetáculo de varieda- des quanto à dramaturgia dos textos teatrais a serem apresentados. Havia um departamento específico para a censura das obras artísticas, e para solicitar uma avaliação censória o circo-teatro preci- sava entregar ao serviço de censura duas có- pias do texto dramatúrgico, uma das quais era anexada a um processo interno. Mas o que é o circo-teatro? É considera- do uma modalidade de circo que se firma na primeira década de 1900 após intenso pro- cesso de hibridização de linguagens teatrais e circenses que ocupou as duas décadas de transição entre um século e outro. O circo-te- atro acabou por se tornar uma categoria den- tro do circo tradicional brasileiro, ganhando espaço até a atualidade. Muitas lonas vão se consagrar pela qualidade do espetáculo de circo-teatro que apresenta, entre elas Circo François, Circo São José, Circo Arethuza, Cir- co Liendo e Simplício, Circo Irmãos Almeida, Circo Politeama Bertolli, Circo Garcia, entre outros. A dramaturgia circense se desenvolve efetivamente a partir da década de 1940, com o aparecimento de autores e autoras oriun- dos do próprio circo e que passam a dominar a linguagem dramatúrgica a partir da adap- tação de textos teatrais populares, essencial- mente dramas, melodramas e comédias. Entre as autoras que apresentam maior produção estão: Íris Avanzi Moya da Silva, que assina a autoria de 13 peças, a maior parte melo- dramas encenados no Circo 8 Irmãos Mello (com títulos sempre contundentes: Vingança, O clarão da verdade, A mãe mártir, Consciên- cia adormecida, Destino traçado e Demônios em luta); Iracy Viana, com 8 peças, atuante em diversos circos (Marabá, Arethuzza, Piolin, Viana e François) compondo dramas, comé- dias e aventuras; Nair Bevedê, também com oito peças, todas comédias para o Circo Piolin (entre elas Não tem nada e está prosa, Para mim chega! e Os piores dias da minha vida!!!); Nancy Tognoli Mello, com quatro dramas (en- tre eles O direito de nascer, sem relação com a radionovela homônima, e Erro da Humani- dade); e Arethuzza Neves, que assina quatro adaptações de clássicos literários, entre elas A irmã branca, A canção de Bernadete e Branca de Neve e os sete anões. Uma produção variada em consonân- cia com a temática usual do circo-teatro, que não escapou às anotações em lápis vermelho da censura. Assim, ousaram fazer humor de- safiando o patriarcado, e a fazer chorar com melodramas em que a figura materna era o arrimo amoroso de toda a família. Temas que não sairiam das penas masculinas da época. Processo de censura da peça Irmã branca, adaptação do romance feita por Arethuzza Neves (1946) Iracy Viana assina adaptação do clássico O morro dos ventos uivantes (1949) Ironia: censura à peça O clarão da verdade, original de Íria Avanzi Moya 22 23A mulher do Circo Marlene Querubim: picadeiro sempre foi povoado por criaturas sobre- naturais. Pergunte a qualquer um do público se não é ver- dade. Trapezistas que voam sem asas, equilibristas que tiram do mais incrédulo uma exclamação de surpresa, dan- çarinas que hipnotizam e en- cantam. E querubim que sabe planejar, gerir e comandar um circo. Assim é Marlene. Fun- dadora do Circo Spacial em 1985, depois de ter atuado no Circo Vostok na área de marketing, foi a primeira mu- lher a administrar uma lona a partir de uma administração profissionalizada e do uso de técnicas de marketing e de merchandising. As novidades foram logo absorvidas por outros circos, especialmen- te após a publicação do livro Marketing de circo (Orion, 2003), do qual é autora. Mar- lene preside a União Brasileira dos Circos Itinerantes e, nessa entrevista, divide parte da sua experiência empresarial vivida em quase 40 anos de Circo Spacial. Coisa de Querubins… circo de todos circo de todos os gênerosos gêneros O Como foi conquistar espaço no universo cir- cense como empresária? Na década de 1980, quando montei o Circo Spacial, a mulher como gestora, como empresária, como empreendedora,não era bem aceita na sociedade. Imagina isso numa sociedade patriarcal como sempre foi o circo. Claro que, com bom humor, enfrentei todas as dificuldades. Várias vezes eu chegava na ci- dade e, quando ia ser recebida pelo prefeito, perguntavam a que horas chegaria o dono do circo, pois achavam que eu era a secretária. Eu dizia: “enquanto o dono do circo não vem, pode falar comigo mesmo!” As dificuldades foram as mesmas de qualquer empresária que resolve investir em cultura e entretenimento nesse país. Passei por diversos planos eco- nômicos e, por mais que você faça o planeja- mento e se organize, da noite para o dia você acorda com tudo perdido. Você gerir uma em- presa que se desloca toda semana – teve ano que fiz 55 cidades – mesmo que se faça um planejamento, que no circo é semanal, muitas vezes é preciso mudá-lo até três vezes antes de cumpri-lo. Imagine um circo se deslocando de Fortaleza para Juazeiro, 700 quilômetros de distância, 22 carretos, 35 trailers e mais de cem pessoas. Isso exige uma atualização constante dos seus custos operacionais. Mas quando se faz aquilo que gosta, ain- da mais o circo que é uma atividade envolven- te, você faz por prazer. Não é só o lado finan- ceiro, se fosse, certamente ganharíamos muito mais aplicando em outros segmentos. Mas o retorno não financeiro, mas emocional, de ver sua família e seu grupo compartilhando do mesmo prazer de ter o espetáculo funcionan- do e o público gostando, é o mais importante. A tradição empresarial do circo se baseou por anos nos contratos de boca, nos acertos não escriturados. Você também trouxe uma outra concepção, a de tornar o circo uma empresa de fato. Como é que foi isso? Eu brinco que todo circo é praticamente uma empresa, ele só não é oficial. Toda a par- te de planejamento, estratégias, planilhas, eles fazem tudo isso. Mas se baseiam na oralidade. O circense sempre baseou tudo na palavra: o contrato com o terreno, com os artistas, etc. A partir do momento que entrei e comecei a fazer parcerias com as grandes empresas, com as multinacionais, tive de mudar esse forma- to. A primeira experiência que fiz transforman- do o circo numa mídia alternativa foi no Cir- co Vostok, com muito êxito. O patrocínio, na época, foi fundamental para fazer a mudança artística e estética do próprio circo. Era possí- vel fazer um planejamento, uma vez que tinha uma renda garantida, e para isso era preciso se organizar muito. No entanto, isso foi afetado com o advento da Lei Rouanet. Antigamente tínhamos uma relação direta com os diretores de marketing das empresas e a Lei Rouanet ti- rou essa possibilidade, pois os patrocinadores passaram a transferir suas verbas para as em- presas que têm capacidade para bancar as exi- gências da lei de incentivo. Por exemplo, como um circo vai conseguir fazer um planejamento anual? Como vai saber em quais cidades ele vai estar se não há prazos oficiais para as tempo- radas de circos? Isso inviabilizou o patrocínio Fotos: Robson Regato 24 25A mulher do Circo para o circo. O Circo Spacial, ao longo de duas décadas, trabalhou com planejamento, com patrocínio e com grandes campanhas. A partir da Lei Rouanet, a gente já não conseguia fazer essa entrega. Não consigo levar a uma grande empresa o meu roteiro de 12 meses, por mais que eu seja organizada. Não temos terrenos com os quais fechamos contratos com um ano de antecedência. E os circos que vêm de fora conseguem cum- prir essas exigências e acabam levando parte da Lei Rouanet... Porque eles vêm com investimento alto. Conseguem pagar com antecedência os terre- nos mais caros, o que só consigo fazer se tiver patrocínio. Havia alguma dificuldade para uma empre- sária circense negociar com as empresas pa- trocinadoras? Eu nunca tive essa dificuldade. Você leva um produto que vai garantir retorno, pois tra- balha com um público que é a família. No mo- mento do espaetáculo, esse público está apto a receber a mensagem e a retê-la enquanto se descontrai. É um momento lúdico, parte do público o levará em sua memória afetiva para o resto da vida. Você foi além e se tornou pioneira na sistema- tização do uso do marketing no circo. Aliás, escreveu um livro sobre isso. Quando fiz esses patrocínios, muitas uni- versidades de propaganda e marketing me chamaram para falar sobre o assunto. Aí co- mecei a repetidamente falar sobre o mesmo assunto. Pensei: acho melhor escrever um livro que aí o indico e ficará mais fácil. Eu fiz o livro em dois meses e hoje tenho a ideia de revisá- -lo completamente. Ele foi muito importante, a princípio, porque o próprio segmento do circo não tinha uma referência. Depois de dez anos de lançado fui ao interior da Bahia e me sur- preendi muito, pois chegou uma moça de uns 18 anos me falou: “quando a senhora lançou o livro, meu pai leu e mudamos completamente o nosso circo”. Aquilo me emocionou muito. Compartilhar minha experiência, por mais hu- milde que foi no momento, por mais simples que o livro seja, foi importante, ajudou tam- bém as empresas patrocinadoras, que não sa- biam como direcionar suas verbas para o circo. Embora sua atuação tenha conseguido fazer avançar as práticas do circo-empresa, algo que permaneceu estagnado foram as políti- cas públicas para o circo. Há solução possível para essa questão? Se você for na Secretaria de Cultura – municipal, estadual ou na esfera federal – e levantar as demandas que levamos no ano 2000, teremos as mesmas solicitações que levaríamos novamente agora. A burocracia é tão grande que ela faz você repetir todo ano a mesma história. Aí acho muito importante o papel do Centro de Memória do Circo, por- que temos que documentar essas demandas e mostrar o quanto elas são repetitivas sem a devida atenção do setor público. A sensação é que estamos sempre patinando, repetindo as mesmas demandas. Temos que evoluir nisso. O principal seria o reconhecimento do circo como patrimônio cultural nacional. Esse é o meu grande sonho, a minha grande luta, pois com isso conseguiríamos ter uma visibilidade que hoje não temos. Não adianta ir atrás de terreno, de múltiplos editais.. A partir do mo- mento que o circo tiver esse reconhecimento, isso já agregará todos os demais valores. A participação feminina no espetáculo tam- bém aumentou nas últimas décadas? A mulher sempre foi uma presença muito forte no picadeiro. Sempre tivemos 70%, 80%, 90% de mulheres porque ela é muito impor- tante visualmente, esteticamente. Nunca vi re- taliação ou restrição à mulher no espetáculo circense, pois o picadeiro do circo sempre foi muito democrático. Claro que é, sempre, uma dupla jornada. Por fim, o que você deixa como exemplo para quem quer empresariar um circo? A mulher, tendo capacidade e se dispon- do a trabalhar, dispõe hoje de muitos recur- sos. Com a Internet você tem muito mais fa- cilidades. Vejo colegas capacitadas montando companhias. A mulher é muito mais dedicada quando se envolve numa atividade que lhe dá satisfação. Ela procura estudar bem o que está fazendo, se capacita melhor. Acho também que homens e mulheres têm que trabalhar juntos, O que importa é a capacidade profissional. No circo é assim. Você contrata um profissional que é ótimo na sua habilidade. Se é homem, mulher ou transgênero, isso não importa. Sim, sei que tem anos e anos de retaliação contra a mulher. Acho que o discurso deve privilegiar profissionais iguais, com a mesma oportunida- de e capacitação. “O circo como patrimônio nacional é uma grande luta, pois esse reconhecimento dará grande visibilidade e agregará todos os demais valores.” Marlene e parte de seu elenco feminino: Galega, Bella e Jéssica 26 27A mulher do Circo E Mulheres na música dos circos brasileiros: narrativas, dimensões e pluralidade ssa que vos escreve é uma acordeonista circense, uma criadora e criatura dessa interface sobre circo e música, sobre a qual se debruça em campos práticos e teóricos. Honrando a ancestra- lidadedas mulheres que abriram caminho para eu existir hoje, a minha prosa com vocês, respei- tável público, é de demasiados atravessamentos: a presença feminina na música do circo itineran- te brasileiro. Para que vocês possam se localizar nas praças de memórias que estruturam a minha perspectiva, digo-lhes que parto de um amplo material de registro de entrevistas – foram 51 en- tre 2011 e 2020, realizadas em diferentes partes do Brasil, com registro audiovisual – para narra- tivas de circenses veteranos que vivem ou vive- ram sobre a lógica de produção de vida e arte do circo itinerante. Entendendo esses corpos como produtores e transmissores de conhecimento, compreendendo a memória inscrita, dinâmica e editada, é a partir da minha perspectiva sobre “o escutado”, que vou costurando pensamentos, pa- noramas e poéticas de existência. Existem diver- sas dimensões da música no circo, mesmo dentro do espetáculo, e devemos compreender a com- plexidade dessas camadas. Por aqui, irei pontuar Lívia Mattos Fo to s: Ti ag o Li m a 28 29A mulher do Circo onde a presença das mulheres na música foi veementemente sublinhada, nas narrativas escutadas, abrindo um leque panorâmico sobre o tema – vale pontuar que as narra- tivas datam do século XXI, mas voltado às memórias do século XX, de 1930 em diante, principalmente. Pra começo de conversa, compartilho com vocês a minha grande surpresa nessas entrevistas: as rumbeiras! Quando eu per- guntava a respeito da música nos circos, em várias entrevistas, os circenses atribuí- am às rumbeiras, repetidamente, os primei- ros pensamentos quando o assunto era os sons que se tocava no picadeiro. Percebo que muitos sudestinos e sulistas desconhe- cem o que são as rumbeiras de circo, acre- dito que por ser um número mais presente no Norte-Nordeste. Tentarei dar uma ideia, mas, difícil condensar em poucas palavras! Na explicação de jovem Evellyn, do Circo Real Xangai, rumbeira é um número solo de dança, que se difere do bailado por não ser coletivo. Nele, a circense se traja de “rum- beira”, sobre o qual há diversos entendi- mentos e possibilidades de figurino. Mas, de maneira mais emblemática, diz respeito à saia com babados com top de ombros à mostra ou maiô. Pelas narrativas que ouvi, era muito comum que as rumbeiras cantas- sem, além de dialogar com a música em seu número de dança. E não só de rumba viviam as rumbeiras! O repertório que elas canta- vam passeava por sambas, boleros, baião, xotes… canções cheias de duplos sentidos e picardias; bem como músicas que faziam sucesso na rádio e bem assim eram trazidas para o circo. É um número que tem camadas e polêmicas a serem discutidas. Aqui apon- tarei mais panoramicamente sobre a mulher na música do circo brasileiro. O circo itinerante, no século XX, foi um grande difusor da música, nas diferentes dimensões em que ela se apresentava no circo. Ela integrava a cena musical, dentro das possibilidades de espaços que se podia trabalhar, estabelecendo-se como um im- portante local de vis-a-vis com o público – que, em geral, só conhecia os artistas pelo rosto nas capas dos discos. Nessa configu- ração, muitas vezes o espetáculo era com- posto por duas partes: na primeira, varieda- des; na segunda, shows de música. Quando não tinha show, a segunda parte costumava ser uma peça de circo-teatro, onde a mú- sica também estava presente, muitas vezes como tema-título. Algumas vezes o espe- táculo chegava a ter três partes! O fato é que dentro dessa pluralidade de shows que aconteciam nos picadeiros, muitos deles eram de mulheres. Mulheres da música que realizavam shows dentro do circo – uma ou- tra dimensão dentro desse tema, que revela como a música também servia de interface Algumas vezes o espetáculo chegava a ter três partes! O fato é que dentro dessa pluralidade de shows, muitos deles eram de mulheres. entre esse dentro e fora do circo. Artistas da rádio e da TV, como Angela Maria, artistas da cena do forró, como Anastácia – que fez muita turnê em circo com Luiz Gonzaga e Do- minguinhos – artistas da música caipira, como Inhana (da dupla Cascatinha e Inhana), e artis- tas de uma popularidade mais local, nas cida- des e regiões. Dentre essas artistas que faziam shows no picadeiro, acontecia, mais raramente, de ter instrumentistas que se auto-acompanha- vam, como as acordeonistas Adelaide Chiozzo e Alda Lima – esta última, que se apresenta- va tanto solo, quanto com seu grupo musical familiar 7 Pierrot da Lua, integrando e itine- rando por diversos circos. Daí entramos numa dimensão híbrida, que mescla a presença da mulher nos shows dos picadeiros, com a das instrumentistas que faziam parte da banda do circo ou de grupos musicais – como a mencio- nada Alda Lima – ou mesmo faziam números musicais nos espetáculos. Em grandes circos, como Garcia e o Nerino, tivemos a Carola Gar- cia e Ronita Avanzi, respectivamente, também no hall das sanfoneiras – dentre outras san- foneiras maravilhosas circos adentro! Sobre a música excêntrica circense, apenas consegui ter notícia de Wilma Fekete, que fazia uma du- pla excêntrico musical com seu companheiro Walter Carlo. 30 31A mulher do Circo Dentre essas parcerias artísticas – e mui- tas vezes, também matrimoniais – temos as duplas, que executavam emboladas e caipi- radas. Em geral, essas duplas se configurava pela junção de uma figura cômica feminina com o palhaço do circo, cantando e tocando desafios e músicas do repertório brasileiro cir- cense, como “Boi na Linha”, “A espingarda e a mulher”, “O patrão e a patroa” etc. Essa fi- gura feminina da música dos nossos circos não tem uma denominação padrão: são cha- madas de caricatas, cômicas, parceira de cena do palhaço, palhaças – os circenses itinerantes não chamam de palhaça, mas considero que também podem ser compreendidas como. O acompanhamento musical, em cima do canto, era feito por eles mesmos, em geral composto por vozes e pandeiro – ou violão – mas muitas vezes só na palma, conclamando o público a acompanhá-los. O momento ápice do núme- ro era o desafio, onde os artistas dividiam o público ao meio, cada metade representando uma espécie de torcida de um deles,, gerando uma competição que envolvia a todos. Nessa dimensão da música no circo, partia-se de um roteiro do número e das estrofes, mas exigia que os artistas envolvidos improvisassem falas e versos, de acordo com a interação direta com o público – configurando um espaço de expe- rimentação e transgressão, certas feitas. Dentro da estrutura do espetáculo, exis- tiram outros espaços de atuação das mulhe- res na música dos circos itinerantes, como por exemplo, “A hora do rádio” e “Um quarto de hora”. A primeira, diz respeito a um momento da apresentação em que os circenses forma- vam um conjunto musical para representar su- cessos do momento, difundidos pela rádio. A segunda diz respeito à abertura do circo para o público, antes de começar oficialmente o es- petáculo – uma espécie de “esquente”, em que a música era protagonista, se configurando como um lugar importante de difusão de re- pertórios Brasil adentro. Os circos que tinham banda – ou contratavam – costumavam fazer a abertura com ela, com temas instrumentais ou acompanhando alguém cantando, que po- deria ser algum(a) circense, ou artistas locais amadores ou profissionais. E não só de ale- grias era composto esse “esquente”. Muitas vezes eram músicas dramáticas, tristes, como serestas e boleros. Sim, o povo ia no circo pra chorar, não só para rir. O povo ia no circo pra sentir. E até hoje vai… Falar sobre a contribuição do circo para o desenvolvimento da música no país, já é um tema profundamente invisibilizado dentro do que se edita sobre essa memória. E ainda fa- lar da mulher, dentro desse contexto, em suas várias dimensões, é abordar o não dito, o não falado, o não oficializado. Trata-se de uma mi- litância, uma luta, uma disputa de memória, sobre a qual venho buscando trazer edifundir outras perspectivas, no intuito de enriquecer o espectro de compreensão da contribuição do circo no Brasil para a nossa cultura e cons- trução de subjetividades, para diversas lingua- gens artísticas – focando na música – e abor- dando a presença das mulheres dentro desses contextos. 32 33A mulher do Circo A Bela e rma Keszy Guranyi nasceu no dia 7 de se- tembro de 1970, em Londrina (PR), numa tem- porada do Circo Orlando Orfei fazia na cidade, filha do casal Walma e Zoltan Guranyi. Ele, ho- landês; chegou ao Brasil em 1953, aos 17 anos de idade, como imigrante. Ela, pernambuca- na, nasceu em Vitória de Santo Antão, cidade em que viveu até o início da década de 1960, quando o circo em que Zoltan trabalhava fez temporada na cidade. Os dois se encantaram um com outro e quando o circo partiu, ela foi junto. Fugiu com o circo, como se costuma di- zer, e, como se nele tivesse nascido, passou a integrar juntamente com o marido a trupe que se apresentava, segundo recorte de jornal da época, “numa pequena plataforma de 13 me- tros quadrados, erigida numa altura de 32 me- tros, com motocicleta que gira em torno de si mesma sem qualquer proteção de parapeitos ou redes”. Zoltan era quem dirigia a motoci- cleta, demonstrando assim sua capacidade de concentração e sua imensa coragem, qualida- des tão importantes para a profissão na qual se destacou no circo: a de adestrador de animais. Verônica Tamaoki Abro parênteses para informar que não utilizarei aqui a palavra “doma” e “domador (a)”, e sim “adestramento” e “adestrador (a)”, em respeito à posição de Zoltan, que afirma ser impossível domar um animal. O que faço, cos- tuma dizer, é ensinar. “Eu sou um professor de animais.” Aproveito o parênteses para também informar que no circo há dois tipos de ades- tradores: o adestrador e o apresentador. O pri- meiro é o que ensina a rotina do número para os animais. O segundo é o que se apresenta com eles em público. Zoltan além de exercer as duas funções, ensinou as mais diferentes espécies: cavalos, pôneis, zebras, camelos, leões, tigres, leopar- dos, elefantes, rinocerontes, chimpanzés e orangotangos. Só não ensinou formigas, como Walma gosta de dizer, Irma cresceu entre os animais do circo. Nas companhias em que os Guranyi atuaram, o trailer da família sempre ficou ao lado da me- nagerie – costume imemorial dos circos, visto serem os adestradores os responsáveis pelos animais da companhia. Assim, se acostumou a dormir com o ressonar das feras. I Irma cresceu entre os ani- mais do circo. O trailer da família ficava ao lado das jaulas, a menagerie. Assim, se acostumou a dormir com o ressonar das feras. Irma Guraniy no Circo Orlando Orfei, década de 1990as Feras Fo to s: Ar qu iv o fa m íli a Gu ra ny i 34 35A mulher do Circo Desde pequena, demonstrou grande amor pelos animais. Se os pais permitissem, trazia para casa todos os cachorros abando- nados que encontrava nas cidades por onde o circo passava. Estreou no picadeiro aos oito anos com um número de adestramento de pô- nei que o pai preparou especialmente para ela. Cresceu, acompanhando e ajudando o pai no seu trabalho, mas quando manifestou o desejo de entrar na jaula com grandes felinos, foi de- sencorajada com o argumento de que o ciclo menstrual impede as mulheres de se dedica- rem ao adestramento de feras. Mas ela sabia da existência de mulheres que adestravam leões, tigres e panteras. Ti- nha visto inclusive fotografias de algumas de- las nos papéis que o pai colecionava. Na Ale- manha, quando acompanhou Zoltan, o mito se desfez quando ela não só assistiu ao traba- lho, mas também conviveu com outras ades- tradoras. Em 1986, Zoltan foi com a família passar uma temporada na Alemanha, em Osnabrü- ck, convidado por Klant Hagenbeck e Fred Garfner para montar número com ursos de diferentes tamanhos. “Deu trabalho mas deu certo”, como Zoltan costuma dizer. Tanto que o número foi premiado na edição do ano se- guinte do Festival de Circo de Monte Carlo. Na volta, em 1987, a família Guranyi, mais uma vez, foi trabalhar no Circo Orlando Orfei. De- certo a chegada de um grupo de oito leoas ainda filhotes exigia os serviços de um profis- sional como Zoltan. Irma, estava então com 17 anos, e se en- cantou com as leoazinhas. “Elas eram crianças ainda. Dava para acarinhá-las. Aconchegá-las nos braços.” Desde então, ela passou a se re- ferir às leoas como “minhas bebês”, mesmo depois que elas cresceram. De maneira ge- nérica, é claro, porque cada uma delas tinha um nome e também uma personalidade, como Irma sempre enfatiza. Quem deu o nome a cada uma delas foi Zoltan: Laika, Deyse, Julia, Sara, Diana, Sophia, Elza e Miutza. “Tem que ser nome curto”, ele me confidenciou, “que possa ser dito rapidamente”. No início da década de 1990, uma das preocupações de todo o elenco do Circo Or- lando Orfei, era com a segurança do diretor da companhia quando entrava na jaula com as oito ainda jovens leoas. Além da idade, Orfei havia sofrido um AVC que lhe deixara seque- las. A situação exigia providências, mas quem poderia, não substituir Orlando Orfei porque isso era impossível, mas entrar na jaula com as jovens leoas? É claro que Zoltan estava sempre a postos para qualquer emergência. Mas ao que tudo indica, para Herta Orfei, casada com Orlando e mãe de seus filhos, Zoltan não era a melhor opção. De origem austríaca, Herta, que adestra- va cavalos e pombos, tornou-se conhecida não só pela sua beleza mas também pela sua astú- cia como empresária. Na verdade, confiden- ciou-me Irma, às gargalhadas, era dona Herta quem mandava no circo e no seu Orlando, Um dia, Herta chamou Zoltan e lhe disse: “A Irma é quem vai entrar na jaula com as leoas”. Desde pequena, demonstrou grande amor pelos animais. Estreou no picadeiro aos oito anos com um número de adestramento de pônei que o pai preparou para ela. No final da década de 1970, Irma e sua habilidade equestre 36 37A mulher do Circo A decisão de dona Herta tinha funda- mento. Irma conhecia as leoas desde que eram crianças. Ela tinha acompanhado o processo de treinamento delas com o pai. Tinha também visto e revisto muitas vezes o número apresen- tado por Orfei. E para ela, entrar na jaula com seus bebês, era tudo o que mais queria. Sua mãe foi contra. Walma, que foi atacada por um leão num acidente que quase lhe tirou a vida, e lhe deixou cicatrizes profundas, foi ter- minantemente contra. Zoltan, que dificilmen- te vai contra uma decisão de Walma, apoiou dona Herta. E justifica sua decisão explicando: “as leoas gostavam de verdade da Irma, dificil- mente lhe fariam mal. Além disso, ela e o Jor- ge já estavam juntos”. Jorge Marzer, argentino de origem alemã, adestrador de ursos polares, com quem Irma se casou, ficaria com Zoltan do lado de fora da jaula dando toda a assistên- cia necessária. Com um pouco mais de um metro e meio de altura e pesando 45 quilos, a apresentação de Irma com as leoas era prova de que a arte do adestramento não é um exercício de força física do homem sob o animal, mas de inteli- gência. E também de encantamento. A imagem de Irma na jaula com as leoas se distanciava da imagem do domador e se aproximava muito mais da de São Januário. Aquele santo católi- co que, tendo sido atirado na arena do Circo Romano, viu os leões virem lamber os seus pés em sinal de respeito. A impressão causada era tão forte que a plateia mal conseguia respirar durante a apresentação. E só aplaudia a artista quando ela, fora da jaula, se mostrava a salvo, fora da zona de perigo. Irma se recorda do desespero do pai e do marido, quando, numa noite durante sua apresentação, faltou energia na cidade e o ge- rador do circo falhou. Assim que o circo ficou no escuro, os dois mandaram ela sair imedia- tamente da jaula. Mas, por respeito às leoas, ela não podia obedecê-los. “Fiquei lá, conver- sando com elas e batendo com o bastão nas grades até a luz voltar eeu poder continuar o número.” Mas mesmo tendo conquistado o amor e a confiança das leoas, mesmo tendo Jorge como seu guardião, Zoltan, nas poucas vezes em que teve que se ausentar do circo, todas por motivo de saúde, só conseguia dormir, depois que falasse com a filha pelo telefone. Só assim tinha certeza de que tudo tinha cor- rido bem. Em 2005, quando o Circo Orlando Orfei baixou de vez a lona, e os Guranyi encerraram suas atividades no picadeiro, das oito leoas restavam apenas duas: Dayze e Miutza (o tem- po médio de vida de uma leoa em liberdade é de 10 a 14 anos). Dayze e Miutza já estavam com 19 anos. Para onde elas iriam com o fi- nal do circo? A pergunta quem faz aqui sou eu, porque ela sequer foi formulada naquele momento entre os Guranyi Marzer. As leoas faziam parte da família, e seguiam com a famí- lia. Em hipótese alguma elas seriam entregues aos zoológicos. Ninguém soltava a mão nem a pata de ninguém! Foi preciso autorização do IBAMA para que a família pudesse levar as leoas para a chácara, próxima a São Paulo, onde a família passou a residir, É possível imaginar o susto da vizinhança quando ouviu os rugidos de Diana e Mitzel. Mitzel, a líder, como previra Zoltan, foi a última a falecer, porque a líder de um ban- do de leoas é sempre a última a falecer. Diana partiu no primeiro domingo de maio de 2008. Mitzel se foi uma semana depois, no Dia das Mães, também num domingo. Irma conta que estava em casa quando pressentiu sua morte e correu até ela. Mais de 20 anos havia se passado desde o dia em que Irma viu pela primeira vez as leo- as ainda filhotes. A ligação entre elas era tão forte que as leoas souberam de sua gravidez antes mesmo dela. “Elas me olhavam, como se estivessem procurando uma pessoa que se es- condia atrás de mim.” Hoje, a vida no circo faz parte do passa- do, que os Guranyi Marzer têm consciência de que não voltará nunca mais. Nevermore como falou o corvo de Alan Poe. Nevermore. Irma, que tinha uma relação muito física com as leoas, gostava muito de afagar-lhes o colo, por onde elas liberam um óleo. Quando sonha com as leoas, o que acontece com fre- quência, sente nas mãos a viscosidade do óleo do pescoço delas. Texto baseado na pesquisa “Os Guranyi e as feras do cir- co”, de Verônica Tamaoki e Renato Figueiredo, que sub- sidia livro e filme com lançamento previsto para 2023. Com um pouco mais de 1,5 m de altura e pesando 45 kg, a apresentação era prova de que a arte do adestramento não é um exercício de força física, mas de inteligência. E também de encantamento. Com suas “bebês” no Circo Orlando Orfei, na década de 1990 A mulher do Circo 3938 As mulheres do Circo Theatro Guarany esse mês de março Dona Eliza, minha avoinha, faria 113 anos! Xamego é memória viva. É presente! Minha pequenina atravessa o tempo. E é presente! Há 13 anos, comecei uma jornada, um mergulho, um divisor de águas na vida... Um reencontro com meus ancestrais circenses. E na ponta da lança estava ela, claro, Maria Eli- za Alves dos Reis, minha inspiração. Minha avó que era palhaço. E como neste mês de março celebramos o dia do Circo e também o dia Internacional das Mulheres, vou contar pra vocês pequenas histórias e descobertas sobre as mulheres do Circo Theatro Guarany: Brígida, Ephigênia e Maria Eliza. Um circo de família e proprietário negros e indígenas, o circo do meu bisavô João Alves. Circo que durou quase 60 anos – pelos registros encontrados até o momento, de 1904 a 1958. N Mariana Gabriel Fo to s: Ro bs on R eg at o 40 41A mulher do Circo Cresci ouvindo histórias do nosso circo. Com tudo o que podia e não podia imaginar. Um circo grande que rodava o Brasil inteiro e que chegava nas cidades do interior do país em vagões de trem fretados, como outros cir- cos da época. Minha avó, quando pequena, brincava com um macaco, chimpanzé... era o “Pescador”. Ela contava que ele cuidava dela. Quando ela tinha um machucado, ele pegava ervinhas, mastigava e colocava nas suas feridas para curar. E o circo tinha elefante, tinha mágico... E tantas atrações! Esse era um período anterior à televisão. O circo era o grande divertimento das pessoas e concentrava o que hoje seriam shows de música, teatro e cinema. No Circo Guarany se apresentavam fa- mosas famílias circenses como os Temperani, do Globo da Morte; os Tangarás, trapezistas voadores; o sanfoneiro Luiz Gonzaga e os afi- nadíssimos Tonico e Tinoco. Tudo isso me en- cantava!... Também por não ter visto o circo da nossa família montado. E por não ter assistido pessoalmente ao “maior espetáculo da terra”. Mas olhos da minha avó brilhavam e os meus juntos com os dela a cada história contada. Aquilo era o máximo. Havia também as peças teatrais. Era a época do circo-teatro, onde eram feitas grandes encenações como Paixão de Cristo e Morro dos ventos uivantes. Em alguns casos era difícil imaginar como en- cenavam a morte de Jesus Cristo em pleno pi- cadeiro. “E éramos nós mesmos que fazíamos todas as roupas, os cenários e até a coroa de espinhos.” E minha avó ensinava: a cena dos milagres era feita com uma simples caixinha de papelão: de um lado continha folhas secas, do outro, uvas. E um cordão imperceptível abria a caixa, que virava, fazendo todo mundo arrega- lar os olhos na plateia. Esse era o Guarany das histórias da minha avó. Que viveu 98 anos. E em 2009, ao entrar num curso de palha- ço, a reviravolta começou. Um novo encontro com a trupe do Circo Guarany. Um novo rumo na vida: conhecer, documentar e registrar, jun- to aos meus pais jornalistas, as histórias dos nossos circenses. Desde então foram quatro trabalhos fina- lizados: a pesquisa não acadêmica Xamego, a primeira palhaça negra do Brasil, o documen- tário Minha avó era palhaço, a outra pesquisa que vai virar livro e também documentário Os caminhos do Negro João Alves por esse país de meu Deus – entre lonas, serragens, picadei- ros e palhaçadas e a série documental Guarany, histórias do Circo dos Pretos, lançada em julho passado nas plataformas YouTube e Facebook do Centro de Memória do Circo. Esses projetos e pesquisas trouxeram no- vas histórias e um universo ainda maior sobre a Família Alves, a minha família materna. Sur- giram muitas revelações e algumas dúvidas: seria a trapezista “Guarany” a minha bisavó Brígida? O que eu sabia sobre a minha bisavó quando eu era pequena? Sabia que ela era lin- da... E pequenina como minha avó. Que tinha cabelos longos e negros. Descendente de in- dígenas uruguaios. Que ela ensinava a minha avó Eliza e a minha tia-avó Ephigênia a andar e a domar cavalos. Minha bisa ensinava como colocar a lonja para garantir a segurança das duas, durante as acrobacias com os animais. Sempre imaginei a minha avó cavalgan- do. Correndo mesmo sobre o cavalo. E seus cabelos compridos balançando com o vento. Mais tarde, quando encontrei, durante as pes- quisas, cartazes do Circo-Teatro Guarany, vi a descrição de que era um circo com números equestres e aquilo reverberou diferente. Cada registro encontrado ecoa forte dentro do pei- to, emocionando fundo. É como uma confir- mação das histórias contadas pela minha avó. E uma conexão com o que me constitui. Com quem sou e de onde vim. Durante as gravações do Minha avó era palhaço, numa entrevista com Alexandre Ma- lhone e a Dona Guaraciaba - do tradicional Cir- co Guaraciaba - ouvi pela primeira vez alguém que não era da família falar sobre a bisa Brí- gida. Alê disse que seu pai, que trabalhou no Circo Guarany, contava que ela era brava e que era quem realmente mandava na “casa”! Disse que meu bisavô João, quando ficava nervoso, chamava por ela rangendo os dentes “Bríiiiigi- da, Brííígida....” pedindo sua ajuda para resol- ver os problemas. Ar qu iv o M ar ia na G ab rie l Ephigênia Alves, a Tita, e sua irmã Eliza, o palhaço Xamego 42 43A mulher do Circo Mais recentemente, durante a pesquisa sobre a trajetória artística do meu bisavô,vi- sitando Uruguaiana, onde a bisa nasceu – que fica na fronteira com a Argentina, pertinho do Uruguai, – descobrimos um registro de uma artista indígena, conhecida como “Guarany”. Era uma passagem em Porto Alegre. Seria ela? Ainda que de etnia charrua, a artista que deu nome ao circo da família? Sigo imaginan- do seus cabelos longos em movimento, agora pendurada no trapézio. E quem vem chegando? Minha tia-avó, Tita. Que eu tanto amo. É engraçado falar da Tita, que faleceu quando eu tinha 7 anos. E que foi a primeira pessoa da família que perdi. Que virou estrela. Minha Tita. “Mas que já já, hein?” Ela dizia quando minha mãe demorava chegar para me buscar na casa das avós! Tita, Ephigênia Alves, era a irmã mais ve- lha da minha avó Eliza. Mais velha dois anos só. Mas as duas brigavam o dia inteiro. Nascida no circo do bisavô, atuava como a “mocinha”, a “ingênua”, nas peças encenadas na segun- da parte dos espetáculos. Quando pequena, e também mais jovem, se apresentava junto com a minha avó: eram “As Cantoras Mignons”, “As Irmãs Alves”. Encontramos recortes de jornais elogian- do a duplinha em 1917 na cidade de Itu. Emo- cionaram a plateia cantando Suculento vatapá e Meu boi morreu, ambas de Eduardo das Ne- ves, um dos primeiros artistas a gravar disco no Brasil. Um artista negro. A minha avó sempre cantava O meu boi morreu pra mim. Foi mágico encontrar um re- corte de jornal que falava sobre as duas pe- quenas cantando aquela música... Música que ela cantou, pelo jeito, dos 8 aos 98 anos! Aliás, havia uma tradição musical na fa- mília. A Tita não só cantava, mas era exímia bandolinista. E tocava muito bem também o violino. Tinha orgulho do seu stradivarius... Ai Tita... Era era uma das intelectuais da família. Feminista. Solteira convicta. O primeiro documento que encontramos quando começamos a pesquisa sobre o bisavô foi meia página de jornal com uma foto dela sendo elogiada por sua atuação na peça A bo- neca. Foi na cidade de Batatais (SP), em 1927. O curioso é que foram 9 anos dedicados à pesquisa sobre a vida da avó Eliza e a pri- meira novidade que descobrimos, ao iniciar um novo projeto, foi justamente essa foto da Tita no jornal. Parecia desforra de irmã! E as historiadoras Luciana Squarizi e Ales- sandra Baltazar, que encontraram o registro, destacaram o documento como algo bem raro para a época. Não era comum ter fotos, em meia página de um folhetim, de mulheres, menos ainda negras, menos ainda de fora da cidade. Comentaram também sobre seu corte de cabelo na foto, que lembrava o de uma fe- minista local conhecida naquele período: Diva Nolf Nazário. Essa era a Tita. A dupla da minha avó de Xamego. Ela a ingênua, minha avó a caricata. São histórias de Dona Eliza. Histórias que são verdade! Essa avó que era palhaço, masculino, numa época em que mulher não podia ser pa- lhaço. Que é tida como uma pioneira da pa- lhaçaria feminina negra no Brasil, no que diz respeito ao palhaço excêntrico do Circo Mo- derno. Isso nos anos 1940. Quando se fala de palhaçaria feminina no país, a data é 1980, com o surgimento das escolas de circo... Mas ela já fazia palhaço por uma necessidade da família. Uma doença degenerativa que acome- teu o irmão caçula, Antônio Alves (o palhaço Gostoso), que teve de cortar as duas pernas, fez com que ela convencesse seu pai João de que podia substituí-lo provisoriamente. Vejam, era uma família de tradição de pa- lhaços. O bisavô João, empresário, dono de cir- co, foi também palhaço cantor. Foi então que avó Eliza soltou os cabelos crespos e armados e colocou uma cartola pequenina na cabeça e começou a fazer graça, uma, duas, três vezes, até que seu pai caiu na gargalhada. Na época o palhaço era a grande atração dos circos. Era o que garantia bilheteria. E mi- nha avó foi Xamego no Circo Guarany até sua venda, em 1958. Seguiu também atuando em outros circos até seus 70 anos. Depois de falecida, segue viva no cora- ção da família, amigos e daqueles que escu- tam suas histórias nos filmes e pesquisas que temos realizado. Vó Eliza se tornou edital de fomento ao circo em 2015, em São Paulo, integrou a Ex- posição dos palhaços brasileiros no Centro de Memória do Circo, foi homenageada no Cen- tro Acadêmico do curso de Artes da UNESP, tem uma sala com seu nome na universidade do Amazonas e está junto de grandes artistas no painel da Ocupação Benjamim de Oliveira do Itaú Cultural, na avenida Paulista. Xamego é presente! VIVA os 113 anos de Maria Eliza Alves dos Reis! 45A mulher do Circo44 eronima Justino Pimenta (1943-2015), ou, como ela gostava de ser chamada, Gê Pimen- ta, foi uma mulher forte, determinada, braba e brava – pra que não fique dúvida sobre o sentido das palavras – e, de todas as minhas memórias da vida no circo, as mais marcantes estão, certamente, ligadas a ela, minha mãe. Reconhecida pela beleza e elegância, no picadeiro e no seu dia a dia, Gê Pimenta foi exemplo de rigor profissional, tanto no desen- volvimento de sua carreira artística, quanto nas demais funções que assumiu, no circo e fora dele. Da vida no interior de São Paulo, para o circo e o teatro, sua trajetória foi atípica, se considerarmos suas origens: filha de sitiantes, a mais velha de uma prole de onze, Gê Pimen- ta poderia, facilmente, ter se tornado uma pa- cata moça da roça, sem grandes aventuras em sua vida além das traquinagens de seus irmãos mais novos, de quem tinha que cuidar. Seria esperado que, naturalmente, se preparasse para um casamento rural, assumisse os cuida- dos dos pais e se tornasse, também, uma si- tiante. Porém, Gê teve o privilégio de ter nascido filha de um homem “fora da curva”, como di- zemos quando queremos falar de alguém ex- traordinário. Waldemar Justino, meu avô, órfão desde bebê - seus pais foram mortos em uma disputa por terras-, apesar de ter sido criado por parentes para ser sitiante, sempre desejou alcançar outro modo de vida e sustento. Es- tudou música, por iniciativa própria e, quan- do teve filhos, determinou que cada um deles aprendesse a tocar um ou mais instrumentos. Ele, Waldemar, tocava clarinete e saxo- fone, minha avó, Maria, por influência dele, aprendeu a tocar gaita e, para os onze filhos, muitos outros instrumentos foram adquiridos e os estudos disciplinadamente praticados. Ri- gor e incentivo que fizeram com que, até hoje a música seja a profissão de todos os irmãos e irmãs de minha mãe ainda vivos, e tenha sido o ganha pão de todos que já se foram. Na adolescência, Gê começou a dar au- las de acordeom na cidade e fazia longas ca- minhadas carregando o pesado instrumento. Com o crescimento de seus irmãos e o avanço de todos nos estudos musicais, meus avós de- Gê Pimenta, a encantadora rainha dos pombosDaniele PimentaJ Fo to s: Ar qu iv o Fa m íli a Pi m en ta Maria Justino 46 A mulher do Circo 47 cidiram vender o sítio, em Fernando Prestes, e se mudaram para Jaboticabal, na mesma re- gião do Estado de São Paulo. A família formou, então, a Orquestra de Crianças de Jaboticabal, composta por meus avós e seus filhos e, em pouco tempo, a em- preitada se tornou um sucesso: faziam bailes em matinês; tocavam em eventos das prefei- turas da região, como inaugurações de obras e comemorações cívicas; festas de casamento e quaisquer outras festividades para as quais fossem contratados. Esse sucesso fez com que, em 1957, o empresário circense Tabajara Pimenta, na épo- ca proprietário do Gran Rosário Circus, em so- ciedade com seu tio Antenor Pimenta (o reco- nhecido autor de ...E o céu uniu dois corações), enxergasse na orquestra uma possível grande atração para seu espetáculo. Propôs a contra- tação da orquestra pelo circo, mas, como Wal- demar priorizava os estudos de seus filhos, re- cusou o convite. Dois anos depois, Tabajara organizou o roteiro das viagens do circo de modo a fazer a temporada em Jaboticabal perto do fim do período letivo, e voltou a procurar Waldemar, desta vez fazendouma proposta diferente: um contrato fechado, de apenas três meses, du- rante as férias escolares, para lançar o circo em uma capital do nordeste com uma atração inédita. E, assim, com prazo marcado para re- tornar e um ótimo acordo financeiro, meu avô aceitou a proposta e viajou, com toda a família e seus instrumentos, para aquela experiência inusitada. No circo, a vida se revelou com muito mais possibilidades do que as imaginadas pelo criativo e inquieto patriarca, e os três meses converteram-se em quatro anos de vivências riquíssimas, com diferentes paisagens, cultu- ras, gentes... Só em 1965 é que Waldemar e Maria de- cidem deixar a itinerância e partem, com nove de seus onze filhos e filhas, para fixar residên- cia na cidade de São Paulo. Ficam no circo: Gê, que se casa com Tabajara Pimenta, e sua irmã Maria Tereza, que se casa com Ary, irmão de Tabajara. Sim, as famílias Justino e Pimenta se unem por dois matrimônios! No circo, Gê desenvolveu outras habi- lidades artísticas e empresariais. Além de ser partner de meu pai, em seu número de ho- mem foca (equilibrismo e malabarismo com bolas), Gê trabalhou como mágica – com a cai- xa de espadas –; desenvolveu seu número de- finitivo, o de pombos amestrados; administrou as vendas de doces no circo e participou das decisões administrativas, a ponto de assumir o rompimento de uma das sociedades estabele- cidas por meu pai, em uma situação que mere- ceria um texto próprio. No picadeiro, Gê era anunciada como Gina ou como Mademoiselle Gigi, com o epíte- to “a rainha dos pombos”, e sua carreira passou por diferentes fases: o contrato familiar como musicista; o período como artista e gestora de vendas no circo, então como coproprietária, pelo casamento com meu pai; o trabalho como artista contratada em outras companhias, após a venda do circo; e o abandono da itinerância No picadeiro, Gê era anunciada como Gina ou como Mademoiselle Gigi, e sua carreira passou por diferentes fases. Waldemar tocava clarinete e saxofone, a avó, Maria, aprendeu a tocar gaita e, para os onze filhos, muitos outros instrumentos foram adquiridos e os estudos disciplinadamente praticados. Abaixo, a multitalentosa Gê Pimenta 48 A mulher do Circo 49 e o trabalho por cachês, em circos e empresas de entretenimento da cidade de São Paulo, sua última fase como artista circense. A decisão de deixar a itinerância foi dela que, sempre atenta aos estudos de seus três fi- lhos, via na constante mudança de cidade, um risco à formação escolar de qualidade e, se- guindo um fluxo que se tornou recorrente en- tre os circenses naquela época, propôs a meu pai que nossa família se fixasse em São Paulo, a partir de 1977. A capital paulista contava, então, com dezenas de circos em seus bairros, muitos dos quais eram companhias de pequeno e médio porte, que contratavam artistas por cachê, ou seja, sem vínculo permanente com a empresa, para complementar seus espetáculos. Os acordos eram feitos às segundas-fei- ras no Café dos Artistas, nome criado pelos cir- censes para seu ponto de encontro, no Largo do Paissandu. Artistas, empresários e secretá- rios reuniam-se em frente a uma lanchonete local, ocupando grande parte da calçada em animadas conversas, as quais, além de gera- rem os contratos da semana, também serviam para trocar informações sobre amigos e paren- tes que ainda itineravam, pois sempre havia al- guém recém chegado a São Paulo, vindo dos mais diferentes pontos do país. Nesse período, para equilibrar a renda que, por cachês avulsos, era inferior à renda habitual no circo, Gê aprendeu a costurar, ten- do trabalhado com confecção de uniformes profissionais, vendidos por meu pai e meu irmão, em São Paulo e, posteriormente, com produção de roupas, em geral, em Ribeirão Preto, onde manteve sua confecção Setecapo- te, por vários anos. Gê interrompeu sua carreira circense, mantendo seu trabalho com a confecção, de- pois que meu pai voltou a viajar, desde então como gerente de circos e parques de diver- sões. Ela permaneceu com os filhos, fixando- -se em Ribeirão Preto, cidade escolhida pela proximidade com familiares e pela existência de um campus da Universidade de São Paulo, o que serviria de estímulo aos estudos dos fi- lhos, dado que, em uma cidade menor que São Paulo, a universidade pública pode ter uma in- fluência maior no cotidiano escolar, como uma referência bastante direta. O estímulo funcionou e seus três filhos cursaram universidades públicas paulistas, po- rém, pelas escolhas das carreiras, nenhum de nós fez faculdade em Ribeirão Preto, exceto meu irmão, Tabajara, que, tendo feito gradu- ação e mestrado em Engenharia mecânica na USP de São Carlos, voltou para Ribeirão para cursar Administração, seguindo com o douto- rado na área e tornando-se professor na mes- ma instituição, a USP de Ribeirão Preto. Minha irmã, Patrícia, fez Economia na UNESP de Araraquara, e atua na área de finan- ças em um banco privado, residindo em São Paulo. Eu estudei Artes Cênicas na Unicamp, onde também me doutorei, tendo passado pela USP para fazer mestrado. Atualmente, sou professora da Universidade Federal de Uber- lândia, após ter atuado por mais de vinte anos como atriz, o que proporcionou a Gê Pimenta o retorno às artes. Ainda mantendo sua confecção, Gê Pimenta voltou à cena, dessa vez novamente como musicista, compon- do a companhia teatral que eu e meu marido mantivemos na grande São Paulo, a Cia. Picnic de Teatro. Viajava regularmente para ensaios e apresen- tações, e nos enchia de alegria, com seu humor inteligente, na convivência nas temporadas e turnês, como Cara- vana Paulista e Circulação por unida- des do Sesi e Sesc, por muitas cidades do estado de São Paulo. Com seus filhos bem encaminha- dos, como ela dizia, e tendo aprovei- tado a convivência com seus netos, Gê Pimenta faleceu aos 72 anos, em Ri- beirão Preto, de parada cardíaca cau- sada por pancreatite, como consequ- ência da diabetes tipo 2, com a qual conviveu por anos. Talvez pelo excesso de discipli- na e determinação, duas caraterísticas muito fortes de sua personalidade, Gê tenha exigido demais de seu corpo. Com a rotina diária de exercícios físi- cos e a dieta seguida à risca, mantinha seus níveis glicêmicos controlados, mas levou seu corpo à exaustão. Esperávamos que vivesse por, pelo menos mais 20 anos, tamanha a sua dedicação aos cuidados com a saúde, e por mais 30, se considerarmos o desejo de tê-la presente em nossas vidas, com sua inteligência e amor. A mulher do Circo 5150 Quando a artista se torna mãe ell hooks, mulher, negra e grande intelectual estadunidense, escreveu, num texto de 1995, refe- rindo-se às mulheres artistas e inte- lectuais: “A maior parte das artistas mulheres que conheço se sentem completamente sobrecarregadas. Trabalhamos para ganhar dinheiro [...], para cuidar de nós mesmas e de nossa família não patriarcal. Pas- samos um tempo excessivo fazendo trabalho político [...] para sustentar as mudanças trazidas pelo movi- mento feminista que permitem que mais mulheres do que nunca façam trabalhos artísticos. E passamos mui- to tempo tentando descobrir como usar nosso tempo com sabedoria. [...] Mulheres continuam a se sentir divididas quanto a alocação de tem- po, energia, compromisso e paixão. Embora importante, em geral não é tranquilizador que algumas de nós consigam incluir tudo na agenda. [...] Há muitos anos decidi que, se quises- se conhecer as condições e circuns- tâncias que levaram homens à gran- deza, deveria estudar a vida deles e compará-la com a vida de mulheres. Li biografias de homens de diferentes etnias, classes e nacionalidades que nossa cultura declarou pensadores criativos e artistas grandiosos e im- portantes. Descobri que as pessoas envolvidas na vida deles [...] não só aceitavam como também esperavam que precisassem de espaço e tempo reservado para que o trabalho diário florescesse, para que se empenhas- sem em uma necessária renovaçãode espírito. [...] A maior parte dos no- mes que conhecemos na poesia da América do Norte, se não todos, são de pessoas que tiveram algum aces- so a liberdade de tempo – privilégio de alguns que é uma necessidade de todos” (hooks, 1995, in Pedrosa et ali, 2019, pp. 237-8) Esse breve trecho abre portas para várias camadas de discussão sobre mulheres e trabalho artístico. Primeiro, uma dimensão bastante concreta, que algumas correntes fe- ministas definem como o acúmulo do trabalho produtivo e do repro- dutivo (este último relacionado à manutenção da vida e ao âmbito b Maria Carolina Vasconcelos Oliveira Foto: Michel Igielka A mulher do Circo 5352 doméstico). Segundo, uma dimensão mais simbólica sobre quem teria “direito” a se de- dicar a assuntos transcendentais, como a arte ou à intelectualidade, ou sobre quem teria o privilégio de decidir o que fazer com seu tem- po. Terceiro, uma discussão sobre o que está em jogo nos processos de valoração dos cir- cuitos artísticos e intelectuais (o que é tomado como parâmetro de valor, os mecanismos de reconhecimento, etc) e os cruzamentos entre as limitações impostas pelo gênero e tais pro- cessos. E sendo hooks uma grande potência do movimento feminista negro, ao ler suas pa- lavras, também é inevitável termos em mente a dimensão da interseccionalidade, já que sa- bemos que as mulheres que são afetadas por outros marcadores de desigualdade, como ra- ciais ou de classe, são ainda mais prejudicadas nesses mercados de trabalho. Ainda que uma mudança pareça estar em curso, ao menos em algumas “bolhas” mais privilegiadas, no sentido de um reequilíbrio da divisão do trabalho reprodutivo, sabemos que isso está longe de ser a realidade na maioria dos meios. Sabemos ainda que as dimensões simbólicas e narrativas relacionadas, por exem- plo, a percepções sobre quem tem direito a ocupar certos espaços, levam ainda mais tem- po para serem mudadas – mesmo no âmbito das artes, ainda notamos que espaços de mais poder (por exemplo, funções como direção ou dramaturgia nas artes cênicas), ainda são mais comumente ocupadas por homens do que por mulheres; por pessoas brancas do que por pessoas pretas; e, ainda mais descaradamente, por pessoas cis do que por pessoas trans. E sa- bemos, por fim, que nos mercados de trabalho há cada vez menos espaço para pessoas que precisam dividir seu tempo com outras tarefas (sobretudo em mercados como os artísticos, que são organizados por projetos e sem gran- des perspectivas de seguridade social). Isso ficou ainda mais explícito na pandemia e na onda de trabalho remoto que vivenciamos nos últimos anos: muitos dos trabalhadores das artes ou do conhecimento tiveram sua carga de horas de trabalho aumentada (muitas vezes com tarefas não remuneradas); e as pessoas que tiveram que dispor de mais tempo para tarefas de cuidado (de crianças ou de idosos, sobretudo) foram nitidamente prejudicadas na vida profissional. Pense nas pessoas que você conhece que brilharam nas lives e que encon- traram na pandemia uma “oportunidade” para reinventar frentes de trabalho: quantas delas são mães? Quantas delas são pretas? Quantas delas são pessoas que vivenciam situações de maior vulnerabilidade econômica? Tendo essas reflexões mais amplas como pano de fundo, meu trabalho traz informações sobre um momento pelo qual algumas traba- lhadoras das artes circenses (e do corpo, de forma geral) passam e que têm impactos de diversas dimensões em sua via profissional: a maternidade. Obviamente não parto do pres- suposto de que a maternidade é o principal ou o mais grave fator de diferenciação no mer- cado de trabalho: sabemos que marcadores de raça, classe econômica ou mesmo cis ou transgeneridade, via de regra, costumam ter impactos muito mais perversos. Tampouco não parto da ideia de um único modelo abstrato e genérico de maternidade: as possibilidades de ter e cuidar de uma criança são diversas e configuram vulnerabilidades de tipos também diferentes (não há dúvidas de que uma mãe chefe de família monoparental que vive em condições de pobreza tem mais dificuldades do que uma mãe de classe mais alta e que divi- de a responsabilidade com outras pessoas; de modo que não se pode tratar a maternidade de maneira essencialista ou universal). Fato é que há alguns anos venho realizan- do entrevistas mais sistemáticas com mulheres artistas de circo que se tornaram mães, e ve- nho ouvindo depoimentos muito interessantes sobre os muitos níveis de transformação que isso desencadeia em suas vidas profissionais. Sendo o circo uma linguagem artística que exige tempo de prática e, em muitos casos, uma alta performance física, como é possível conciliar, num contexto em que o tempo e a própria energia física estão divididos? Sendo o circo uma linguagem que ainda mobiliza algu- mas narrativas bastante limitadas dos corpos de mulheres (como, por exemplo, a da sensu- alidade, ou a de um certo lirismo romântico), como conciliar esses papéis com o novo corpo e os novos pensamentos que costumam che- gar com a maternidade? A comunicação traz relatos e reflexões sobre essas e outras dimen- sões, que nos permitem refletir sobre proces- sos subjetivos/individuais, mas também sobre as dinâmicas do nosso próprio mercado de trabalho – e sobretudo, sobre aquilo que dese- jamos para ele, de um ponto de vista político. Serviço hooks, bell. “Artistas mulheres: o processo criativo.” [1995]. In: PEDROSA, A., CARNEIRO, A. e MESQUITA, A. (org). Histórias das mulheres, histórias feministas. Vol.2: Antologia. São Paulo: MASP, 2019. Ainda que uma mudança pareça estar em curso, ao menos em algumas “bolhas” mais privilegiadas, no sentido de um reequilíbrio da divisão do trabalho reprodutivo, sabemos que isso está longe de ser a realidade na maioria dos meios. 54 55A mulher do Circo EEm meu primeiro encontro com Mafal- da Mafalda, me encantei com a palhaça que arrancava risos por meio de seu mau humor, impaciência e seu carisma sem igual. Em seu espetáculo solo “Sobre tomates, tamancos e tesouras”, admirei a palhaça transitando por diversas formas de ser, tocando em assuntos proibidos e extrapolando limites. Depois, conheci a artista Andrea Macera, que me contou como sua mestra, Sue Morri- son (formadora canadense), a provocou para chegar até Mafalda Mafalda: “Quem é você? Deixe a gente ver quem você é!”. A palhaça re- vela a artista e suas facetas, porém, vai além: mais do que sua essência, ela traz à tona suas potências. Concordo com o que diz Lily Curcio (palhaça Jasmim): o nariz vermelho nos auxilia a tirar as couraças, que criamos ao longo da vida, e a acessar outros estados de consciência. Encontros de palhaças: Andrea, Mafalda, Maria e muitas mais! Maria Silvia do Nascimento Em 2013, Andrea e eu expandimos nos- so encontro para o Pré-Encontro de Mulheres Palhaças em São Paulo. Inspirado em outras ações nacionais e internacionais, torna-se mais um laço para a rede de artistas que procuram refletir acerca de uma arte que se consolidou por meio de corpos masculinos e suas narra- tivas. Na primeira edição, conhecemos a his- tória de Maria Eliza Alves dos Reis, que atuou como palhaço Xamego, entre 1940 e 1960, e mantinha em segredo o fato de ser mulher. A pesquisa realizada por sua neta Mariana Ga- briel é emocionante e fundamental. Quantas outras “Xamegos” podem ter existido e não tivemos conhecimento? Ou ainda: se não fos- sem as opressões existentes em nossa socie- dade, quantas mais poderiam ter existido? Já Sarah Monteath dos Santos nos apresentou o advento das escolas de circo (anos 1970-80) como um marco para a entrada das mulheres no terreno da arte da palhaçada. Mas, se antes as mulheres já trabalhavam em espetáculos, por que não atuavam como palhaças? Alguns pesquisadores do riso alegaram que mulheres não eram capazes de fazer gra- ça. Os motivos? Suas “características naturais”: falta de intelecto, serem emocionais demais, por suafeminilidade. Hoje, essa afirmação soa mais como piada de mau gosto, da qual nos recusamos a rir. Mas se fosse séria... seria risí- vel! Afinal, o discurso que dita o que é natural de mulheres e homens está sendo cada vez mais desconstruído. Entendemos que não há uma “caixinha” para cada, pois feminilidades e masculinidades são produzidas socialmente. Seguindo esse raciocínio, não se aceitava mulheres palhaças por seu potencial de colo- car em questão o discurso vigente. O lugar do improviso, o contato direto com o público, a li- berdade com o corpo, com a sexualidade, com a escatologia, a irreverência às normas... tudo isso pode desestabilizar padrões. Além disso, provocar e ter controle sobre o riso permite às mulheres acesso a ferramentas de ataque e defesa, de prazer e de festa. Nos encontros de palhaças, nota-se a busca por referências, a crítica ao repertório que perpetua preconceitos, a criação de novas dramaturgias, a valorização de diversas formas de palhacear e, ainda, a possibilidade de união e reflexão social por meio dessa linguagem. É dada abertura para que a arte da palhaçada não se limite ao que foi até então, mas que se expanda. Maior que um termo guarda-chuva, pode se tornar uma lona que abriga a diversi- dade. E ali, cabem corpos de diferentes etnias, femininos, masculinos, LGBTQIA+, com defici- ência e mais. O encontro com Mafalda – e tantas ou- tras palhaças, palhaços e palhaces! – mostra que não há apenas um roteiro a ser seguido, uma forma única de ser. É um convite para conhecer e fazer parte de diversos universos pessoais! Rimos coletivamente, de êxitos, de saltos, de quedas e de fracassos, rimos até da dor, porém, não queremos que ninguém se machuque... A alegria é o afeto que nos une. Fo to : I m ag in ár io P ro du çõ es Cabaré das Palhaças (2020): Helena Miguel (Migué); Amanda Massaro (Mussarella); Andrea Macera (Mafalda Mafalda), Larissa Lima (Siriema), Má Ribeiro (Iva Lourença Safo), Maria Silvia do Nascimento (Clowndette Maria), Geisa Helena (Chiquita), Iris Fiorello (Carmela), Melina Marchetti (Carmela) A mulher do Circo 5756 Guaraciaba Malhone e Ediméa Rocha: parceiras na vida e no palco ual a primeira imagem lhe vem à cabeça quando dizemos “as mulheres circenses”? Tal- vez a das belas mulheres em seus maiôs, plu- mas e paetês. Emboraessa imagem esteja de acordo com a realidade do circo, é importante saber que elas estavam para muito além disso. Não é de agora que a representação da mu- lher no campo da arte vem sendo questionada e debatida, pois elas sempre atuaram em di- versas funções. Talvez o mais apropriado seria perguntar onde e como elas estavam nesses espaços? No caso do circo, além de assumirem os papéis de atrizes, partners, integrantes do bailado, trapezistas ou cantoras, elas também foram responsáveis pelos cuidados com a fa- mília: mães, esposas, filhas, cozinheiras. Ainda assumiram lugares importantes na criação e na gestão dos espetáculos, como autoras de nú- meros, figurinistas, bilheteiras, administradoras etc. Tudo ao mesmo tempo. No momento em que o patriarcado se revela em crise, podemos dizer que somos res- ponsáveis por essas fissuras. Lembrar de duas circenses da época de ouro do circo - Gua- raciaba Malhone Cavalvanti e Ediméa Rocha Camargo - é lançar luz sobre as histórias de mulheres que foram e ainda são a base de sus- tentação do circo e, no caso das mencionadas, do circo-teatro. Isso, em si, é um ato político e de resistência. Guaraciaba Malhone Cavalcanti, filha úni- ca de Benedicta Dalva Fernandez Malhone e de Antônio Malhone, nasceu em Bragança Paulis- ta (SP) em 20 de agosto de 1944. Seu pai, tam- bém conhecido como o palhaço Pirolito, a ho- menageou dando seu nome ao circo da família. Vindos do Circo-Teatro Modelo, a família deu continuidade à tradição circense com a gestão de lona própria, o Circo-Teatro Guaraciaba. Ediméa Aparecida dos Santos Carneiro da Rocha Camargo nasceu em 10 de abril de 1948, filha de Edna Polydoro e de Edson dos Santos Carneiro, conhecido como o primeiro palhaço Pisca-Pisca. Hoje integrante da “velha guarda” do Circo-Teatro Guaraciaba, chegou à compa- nhia aos seis anos e foi criada com Guaraciaba, tornando-se sua grande amiga, comadre, par- ceira de palco e de vida. A forma como aprenderam as técnicas e as variantes da atuação esteve diretamente ligada à transmissão oral do saber, passada de geração a geração, a partir da observação atenta e cotidiana da atuação dos mais velhos, dentro e fora das coxias. Foi assim o apren- dizado de Guaraciaba e de Ediméa, como de tantas outras circenses, em meio aos afetos e à memória. Em A vida maravilhosa nos Circos-Tea- tros Iracema Cavalcante ressalta que por volta de 1961, o desempenho de Guaraciaba como atriz, ainda aos dezessete anos, já era “consi- derado fantástico”, particularmente atuando no tipo de ingênua. Seus fãs faziam fila para homenageá-la ao final de todas as noites de espetáculo. Ediméa se tornou uma atriz de destaque nos papéis que desempenhava sob os tipos de cínica e de cômica, com um tempo per- feito para a comédia. O Circo-Teatro Guaraciaba estreou em ju- lho de 1946, na região do Jaçanã, na cidade de São Paulo, seguindo para a Baixada Santista e para o interior paulista. Surgiu como um circo que optou preferencialmente por apresentações de teatro, conseguindo atuar dessa forma e go- zar de muito sucesso até meados dos anos 1970. Devido às dificuldades financeiras encerraram as atividades e se estabeleceram nas cidades de Sorocaba e Votorantim. Entre 1995 e 2000, já então como “velha guarda” do Circo-Teatro Guaraciaba, ambas retornaram aos palcos como convidadas em projetos, entre eles Revivendo o Circo (promovido pela Prefeitura de Sorocaba na Biblioteca Infantil, em março de 1995, para preservar a memória do circo e resgatar o reper- tório do circo-teatro) e a Semana do Circo (que substituiu o anterior a partir de 2002). Desde en- tão, não pararam mais, o que tornou constante o convívio com atrizes/atores da nova geração. Remontaram alguns de seus próprios espetácu- los de repertório viabilizados por projetos em editais de cultura e parcerias institucionais. No ano passado lançaram na plataforma de víde- os YouTube o filme A paixão no circo, baseado no clássico de circo-teatro O mártir do Calvário, também conhecido como A paixão de Cristo, produção em parceria com o Coletivo Cê. O Circo-Teatro Guaraciaba pode ser consi- derado uma das mais importantes companhias circenses atuantes no Brasil, se tomarmos como referência a sua trajetória e a sua retomada no século XXI. Q Maria De Maria Fo to : C au P er ác io 59A mulher do Circo58 o longo da sua história, o Circo foi tra- tado como algo menor, entretenimento sem muito valor, divertido, nunca visto como Arte. A luta pelo respeito e pelo apoio às Artes Cir- censes sempre esbarrou em dificuldades que, somadas, inviabilizaram por muito tempo a construção de políticas públicas para o Circo. Enquanto o Teatro recebia apoio e subven- ções desde os tempos da Colônia, a Dança Clássica e a Ópera recebiam facilidades, como o uso dos Teatros oficiais, o Circo nunca fez parte das preocupações dos gestores públi- cos. Pagavam-se taxas às Câmaras Municipais e à polícia, distribuíam-se ingressos para au- toridades e pronto: o circo levantava a lona e começava seu espetáculo. Outra grande di- ficuldade enfrentada pelos circos de lona na defesa de seus interesses é a sua característica fundamental: a itinerância. Políticas Públicas: breve histórico Alice Viveiros de Castro Os grandes circos itinerantes podiam fa- zer extensas temporadas nas grandes cidades, criar sólidas relações com as proeminentes fi- guras de cada localidade, criar relações estrei- tas com as autoridades governamentais, da Igreja ou da maçonaria. Mas isso era uma ação realizada pela empresa-família e não uma ação coletiva, uma busca por conquistas permanen- tes que pudessemser divididas com todos. É importante ter em mente que os circos foram durante mais de um século um negócio de família. Separar o dono do circo dos artistas e técnicos que atuavam nos espetáculos era impossível. O dono era o pai, o tio, o mestre, o sogro tudo misturado. Muitos donos de circo eram a mais importante atração do espetáculo ou artistas que já tinham grande fama quan- do se tornaram também empresários. Faz par- te da formação do artista circense itinerante o aprendizado das relações públicas, desde os comerciantes que poderiam dar algum apoio e fiar as primeiras compras até os delegados de polícia, vereadores e prefeitos. O secretário de frente é quem prepara a chegada do espetácu- lo. Ir primeiro na delegacia tirar um nada cons- ta, visitar e negociar o espaço/terreno, resol- ver todas as burocracias para garantir alvarás e conseguir um ponto de luz e de água. Essas dificuldades são resolvidas pelo próprio circo, a cada vez que a lona muda de cidade ou até mesmo de bairro. As primeiras associações circenses sur- gem na capital federal e na capital de São Paulo por serem pontos de encontro das com- panhias e por contarem com circos que per- maneciam por mais tempo em temporada e A Fo to s: Ca ss an dr a M el lo A mulher do Circo 6160 até mesmo com alguns circos que, na prática, eram fixos. A Casa dos Artistas foi criada no Rio de Janeiro em 24 de agosto de 1918 para abrigar artistas e técnicos que precisam de cuidados na velhice e aqueles que não têm para onde ir. Espaço que garante o convívio entre amigos e colegas, é até hoje uma referência. Em pouco tempo a Casa foi assumindo papel mais ativo na defesa dos interesses dos artistas, tornando-se o embrião do Sindicato. Com as mudanças na legislação e muita dis- cussão, criou-se em 1940 o Sindicato dos Ato- res Teatrais, Cenógrafos e Cenotécnicos. Foram anos de brigas e confusões até que, em 1964, houve a separação definitiva das instituições. A Casa dos Artistas passou a ter exclusivamente o papel beneficente tornando-se o Retiro dos Artistas e o Sindicato passou a representar ar- tistas e técnicos de teatro, cinema, televisão, dança e circo. Com a promulgação da lei 6.533, em 24 de maio de 1978 passou a se chamar Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetácu- los de Diversões. Em São Paulo, a Central Federação Cir- cense Unidos Seremos Fortes, fundada em 1925, foi o embrião da Associação Brasileira de Empresários e Proprietários de Circo que, por sua vez, se transformou em 1977 na Associação Brasileira de Empresários de Circo e Diversões (ABEC) e, em 2004, a ABRACIRCO, em ativida- de até hoje. O Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões de São Paulo foi criado em 1934 e é o órgão representativo dos trabalhadores contemplados na lei 6.533. As lutas dos circenses brasileiros pas- saram por um processo de expansão e se es- palharam por todo o país nos anos 1980. Em 1982 é criada a Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha (ENCLO), pelo então Instituto Nacio- nal de Artes Cênicas e, pela primeira vez, o go- verno federal assume a importância do Circo para a Cultura brasileira. Apesar de limitada à formação, serviu para divulgar a Arte Circense e foi inspiração para inúmeros projetos seme- lhantes. Depois da aprovação da lei que reco- nheceu a profissão de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões o número de sindi- catos cresceu por todo o país. Nem todos ti- nham uma representação circense ativa, mas, na medida em que o movimento circense cres- cia, formaram-se comissões específicas e os circenses voltaram a ter espaço na luta sindical. Encontros Circenses Índia Morena, artista circense e ativista do Recife, estava sempre nos jornais reclamando e pedindo apoio. Figura um tanto folclórica, ela foi fundamental para que um grupo de fun- cionários da Fundação Cultural do Recife co- meçasse a reunir circenses toda segunda-feira em frente ao Teatro Santa Isabel. Ouvindo as reivindicações e entendendo melhor as dificul- dades, criou-se em 1986 o I Encontro dos cir- censes do Nordeste. Esse evento histórico marcou o formato de vários outros que surgiram depois. Debaixo de uma lona, realizaram-se debates e mesas com secretários de Educação e Cultura do Es- tado e dos municípios, Corpo de Bombeiros, empresas de luz e água. Foram quatro encontros no Rio de Ja- neiro, dois em Curitiba, um em Sergipe e mais dois em Recife. Eles mudaram o panorama das Artes Circenses no Brasil. Além de organizarem e unificarem as reivindicações, eles serviram para unir circenses de todo o país, indepen- dentemente das suas formas de produção e de sua história. Na rua, na lona ou em teatros, grandes e pequenos, representantes de es- colas de circo focadas em projetos sociais ou não, passaram a se conhecer pessoalmente e a buscar novos formatos para as políticas públi- cas para o Circo. Uma grande dificuldade enfrentada pelos circos de lona na defesa de seus interesses é a sua característica fundamental: a itinerância. A mulher do Circo 6362 A organização dos circenses deixou de ser uma exclusividade dos grandes empresá- rios e das famílias tradicionais. O circo de gran- de porte seguiu com a ABEC e depois com a Abracirco, mas era preciso somar e criar novas relações. A criação da Associação de Famílias e Artistas Circenses (ASFACI) em 2003 trouxe para o movimento circos de pequeno porte e muitos artistas que, por motivos diversos, não exerciam mais a profissão. Esse segmento não se sentia representado nem pelos Sindicatos nem pelas Associações de Empresários. Com o acesso à internet, a questão da comunicação, que sempre foi um grande em- pecilho na organização dos circenses, deu um salto de qualidade. A Asfaci criou um grupo de email, o circomunicando.com.br, que garantiu a continuidade das discussões e a ampliação dos participantes nos debates. O Estado Por muitos anos o Estado brasileiro ig- norou as atividades circenses. Para os gover- nantes havia os pequenos circos, que não me- reciam atenção, e os grandes circos, que não precisavam dele. Muito do preconceito sofrido pelos circenses vem da ideia de que o negócio das artes é algo espúrio. O “verdadeiro artista” não trabalha por dinheiro, mas sim por amor à Arte. Ars gratia artis! O circo sempre teve claro que era neces- sário sobreviver do respeitável público pagan- te. Negócio de família, negócio para alimentar a família. Circenses exibem sua arte e não têm vergonha disso, não disfarçam isso. A exceção estatal foi o Serviço Nacional de Teatro (SNT, que mais tarde virou INACEN, depois FUNDACEN, IBAC e atualmente é a FU- NARTE). Em 1974, em plena ditadura militar, os empresários de teatro conseguiram reabrir o SNT e indicar Orlando Miranda para presidi-lo. Homem de Teatro, Orlando era empresário e dono do Teatro Princesa Isabel no Rio de Ja- neiro. Legalista, mantinha uma razoável rela- ção com setores do governo e soube como na- vegar nas turvas águas do tempo. Já de início, se comprometeu com a criação de uma escola de formação circense, antigo sonho da catego- ria. Para tanto trouxe Luiz Olimecha, artista de tradicional família circense e ativista que mili- tava no movimento sindical. O exemplo des- sas ações foi seguido por governos estaduais e municipais. A política de editais de apoio aos circos foi replicada e é a base das ações governa- mentais em todas as instâncias. De início eram recursos para empresas circenses itinerantes, mas ao compreender melhor as necessidades da área, pouco a pouco os editais se tornaram mais abrangentes e passaram a não ser a única forma de apoio. Até 2016, a coordenação de Circo da Fu- narte, em especial Marcos Teixeira, concedia o Prêmio Carequinha em formato de Edital aber- to e apreciado por uma comissão formada por artistas, empresários, pesquisadores e profes- sores. Dividido em categorias o prêmio atendia circos grandes, pequenos, grupos, projetos de formação, projetos de circo social, montagemde aparelhos e pesquisas diversas. Além dos editais, a Coordenação deu início a uma série de encontros com artistas de cada região, em que debatia a realidade do dia a dia e que con- tavam com a participação de especialistas e profissionais artistas de alto nível que dividiam suas experiências. Com a criação do Conselho Nacional de Política Cultural, das Câmaras Setoriais e a rea- lização das Conferências Nacionais de Cultura, o circo passou a estar no mesmo nível de todas as outras formas de arte. Os nomes dos repre- sentantes de cada segmento eram indicados em assembleias estaduais e depois eleitos em um encontro nacional. Neste mesmo encon- tro eram eleitos titular e suplente no Conse- lho Nacional de Políticas Culturais. De 2005 a 2016 o governo federal esteve atento ao cir- co e aberto para receber as reivindicações da área. A maioria das demandas seguiram e se- guem sem solução efetiva e as conquistas fo- ram atropeladas com o fim do Ministério da Cultura. Hoje O Circo precisa de espaço adequado para montar sua lona. Um local com água e luz, de fácil acesso. Precisa de leis que regulamentem sua atividade sem exigências esdrúxulas e des- cabidas. Circo não precisa de laudo de enge- nharia. Circo não é uma construção, é monta- gem, é instalação. Precisa de uma legislação adequada, que não tenha que ser renovada a cada mudança no mesmo estado, ou, como acontece na maioria dos municípios a cada mudança de bairro. O circo precisa de crédito a juros baixos e apoio quando atingido por desastres natu- rais. O circo precisa de apoio na formação e na inovação. Apoio para pesquisa e nas relações com estudiosos e ativistas de outros países. O circo precisa de festivais, de encontros, convenções e promoção. O circo precisa de agentes públicos preparados. O circo precisa que as políticas e formas de apoio sejam am- pliadas e não arrasadas. Hoje alguns governos estaduais e muni- cipais continuam realizando editais. Durante a pandemia muitos circos puderam contar com o apoio da lei Aldir Blanc. No entanto, peque- nos circos itinerantes foram impedidos de con- correr na maioria dos municípios por não te- rem endereço fixo... Hoje todos os projetos de lei referentes às Artes Circenses, até mesmo os que já foram aprovados pelas Comissões competentes, es- tão parados no Congresso ou na presidência da República. Hoje, circenses de todo o Brasil, continu- am lutando por respeito e mandam avisar que não vão parar. O circo sempre teve claro que era necessário sobreviver do respeitável público pagante. Negócio de família, negócio para alimentar a família. 64 65A mulher do Circo Alice Viveiros de Castro é acrobata mental e se desdobra entre a pesquisa, a expressão artística e a militância política. É autora do livro O elogio da bobagem: palhaços no Brasil e no mundo e fez parte do Conselho Nacional de Política Cultural do extinto Ministério da Cultura. Bel Toledo atuou como diretora do Circo Escola Picadeiro, OZ Academia de Circo e Centro de Qualificação do Circo - Tendal da Lapa. Como presidente da Cooperativa Brasileira de Circo, criou e produziu o Panorama Paulista de Circo, Palhaçaria Paulistana, Palhaçaria do Litoral, Palhaçaria do Nordeste e Festival Paulista de Circo. Produtora do FIC desde a primeira edição, atualmente é vice-presidente da AACMC e realiza a produção executiva do FIC 4ª edição. Cristina Alves de Macedo é artista, diretora e produtora na área de circo. Integra os grupos de pesquisa Núcleo de Estudos em Teatro Popular da UFBA e O circo e o riso da UNESP. Membro sócio efetivo da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas - ABRACE. Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia - PPGAC/UFBA. Quem fez parte deste espetáculo Daniel de Carvalho Lopes é graduado em licenciatura pela Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (FEF/UNICAMP - 2010); Mestre em Artes pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (IA/ UNESP - 2015); Doutor pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE/USP - 2020); educador de Circo Social no Instituto de Incentivo à Criança e ao Adolescente de Mogi Mirim; integrante desde 2006 do Grupo de Pesquisa em Circo (CIRCUS - FEF - UNICAMP - CNPq). É um dos coordenadores website www. circonteudo.com. Daniele Pimenta é atriz, diretora e pesquisadora. É professora do Curso de Teatro e do Programa de Pós- graduação em Artes Cênicas – PPGAC, da Universidade Federal de Uberlândia – UFU e coordenadora do GT Circo e Comicidade, da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas – ABRACE. Eliene Benício Amâncio Costa é Professora Titular do Departamento de Técnicas do Espetáculo da Escola de Teatro, da Universidade Federal da Bahia e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, integrando a linha de pesquisa: Tradições contemporaneidades e pedagogias da cena. Líder do Núcleo de Estudos em Teatro Popular (NETPOP) e vice-líder do grupo O Circo e o Riso, ambos certificados pelo CNPQ. Membro da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas - ABRACE, participa dos GT Etnocenologia e o GT Circo. Atua nos seguintes temas: encenação, direção teatral, teatro popular, teatro de grupo, circo, circo-teatro e teatro de rua. Erminia Silva é Doutora em História Social da Cultura (IFCH-UNICAMP). Cocoordenadora do site www. circonteudo.com. Cocoordenadora do CIRCUS (FEF-UNICAMP). Professora da ESLIPA - Escola Livre de Palhaços, Palhaças e Palhaces desde 2012. Coorganizadora do Grupo PSIRCOS, voltado para o estudo, pesquisa e troca de conhecimento a respeito das articulações entre circo e Psicologia. Vencedora do Prêmio Governador do Estado para a Cultura – SP, 2012. Cocuradora da 54ª Ocupação Benjamim de Oliveira do Itaú Cultural. Lívia Mattos é circense, acordeonista cantautora e socióloga. Artista da cena, começou a sua história no picadeiro e seguiu pelos palcos como instrumentista. Apresentou-se nos festivais Accordions Around the World, em NYC; International Macau Parede, em Macau; Akkorden Festival Wien, em Viena; Sommerwerft Festival, em Frankfurt; entre outros. Integrou a Companhia Picolino (BA), fundou a Fulanas Cia de Circo (BA), integrou o grupo Acrobático Fratelli (SP) e seguiu seu caminho autoral no circo e na música. Pesquisa e documenta narrativas de circenses veteranos. Desenvolve trabalhos como A Sanfonástica Mulher-lona, Trigêmeas, Mono Amour, Sanfona aérea e A Lira da Lona. Em 2016, foi convidada pelo Ministério da Cultura de Cabo Verde para colaborar com o nascente Circriolo. Em 2017, lançou o seu álbum autoral Vinha da ida, pelo Natura Musical, além de participar do programa OneBeat, apresentando-se por quatro estados estadunidenses. Atualmente, é mestranda em Artes, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Maria Carolina Vasconcelos Oliveira é realizadora circense, professora e pesquisadora em temas relacionados a artes e cultura. É mãe de uma criança de 3 anos. Desenvolve pesquisa de Pós- doutorado no Instituto de Artes da Unesp, sobre poéticas e políticas do circo contemporâneo. Artista circense há mais de 20 anos, atua em criação, direção, escrita e direção de movimento. É fundadora e atua no coletivo A Penca, que trabalha na intersecção entre estudos de gênero, natureza e artes cênicas. Também colabora com a Cia Restô d’Onté. É uma das idealizadoras e organizadoras da Circa Festivália, festival de artes circenses feitas por mulheres, que considera a ampla diversidade contida nesses dois termos. Maria De Maria é atriz, diretora, pesquisadora e professora de Teatro. Graduada em Artes Cênicas e Mestre pela UFU/MG com a dissertação A contemporaneidade da interpretação melodramática: um olhar à luz de Almodóvar e Doutora em Artes pela UNESP/SP com a tese Perspectivas melodramáticas na formação de atrizes e atores: um olhar pelo viés docirco-teatro brasileiro. Com 20 anos de carreira, atuou em diversos espetáculos teatrais e em produções audiovisuais. Como artista/docente ministrou aulas no Curso de Teatro da Universidade Federal de Uberlândia, por 6 anos, onde dirigiu a montagem Por ti não importa matar ou morrer uma adaptação da versão original Vem buscar-me que ainda sou teu de Carlos Alberto Soffredini com o grupo Mito 8 de Teatro. Atualmente realiza pós- doutoramento em estudos de género em Estudos Culturais na Universidade de Aveiro em Portugal. Maria Silvia do Nascimento é doutoranda e Mestra em Artes e licenciada em teatro (UNESP), com intercâmbio pela Université Charles de Gaule/Lille-3. Coautora do livro Tubinho: o teatro no circo (Paco editorial-2019). Foi coordenadora de pesquisa do Programa Sou de Circo, do Centro de Memória do Circo/SP (2018-2020) e fez parte da equipe do livro Diário de Polydoro e das revistas Sou de Circo 2018 e 2020. Integra a Cia. Asfalto de Poesia, onde investiga a arte da palhaçada e é criadora de diversos espetáculos e intervenções artísticas. Dá vida à palhaça Clowndete Maria e vice-versa! 66 A mulher do Circo Mariana Gabriel é cineasta, jornalista e palhaça. Diretora do curta-metragem Iara do Paraitinga, dos documentários Mar Português (gravado em Lisboa, exibido na ESPN Brasil), Circo Paraki (codireção Priscila Jácomo), Minha avó era palhaço (codireção Ana Paula Minehira) e da série Guarany, Histórias do Circo dos Pretos, lançada em 2021, com o 1º Edital de Apoio à Cultura Negra de SP. Recentemente, dirigiu 5 episódios da série Vida por Esporte para o SESC TV. Em 2017, realizou com seus pais jornalistas a pesquisa Os Caminhos do Negro João Alves por esse país de Meu Deus contemplada pelo Itaú Rumos 2017/18 – que vai virar livro e documentário. Trabalhou como jornalista e produtora na ESPN Brasil (2007/2015) e no Manos e Minas da TV Cultura (2009/2011). Hoje retoma a história da sua família do Grande Circo Theatro Guarany. Mário Fernando Bolognesi é professor visitante junto ao Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da UFBA Universidade Federal da Bahia. Professor Titular (aposentado) da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, Campus de São Paulo (SP). Bolsista em Produtividade e Pesquisa, nível 2, do CNPq. Graduado em Filosofia pela UNESP (1978). Mestre (1988) e Doutor (1996) em Artes/Teatro pela Universidade de São Paulo, USP. Livre-Docente em Estética e História da Arte pela UNESP (2003). Pesquisa temas nas áreas de teatro e circo, com ênfase nos estudos dos palhaços, da comédia e do cômico circense. Marlene Querubim é compositora, artista plástica, escritora e circense. É a única mulher brasileira, não nascida em circo, a montar e dirigir há mais de trinta e cinco anos o Circo Spacial, um dos maiores do Brasil. Participou ativamente na elaboração da primeira normatização de circo no mundo (ABNT/233), fundou a ABC (Academia Brasileira de Circo), realizou o Cirque Festival Contest e atualmente preside a União Brasileira de Circos Itinerantes (UBCI). Integrante da comissão parlamentar em defesa da Cultura. Palestrante e autora do livros Marketing de Circo, Coração na lona, Momentos mágicos, Any a bailarina, Serragens nas Veias. É idealizadora da série infantil Família Spacial. Fez várias exposições com suas obras em ferrugem e óleo sobre tela. Compôs mais 150 músicas de vários gêneros. Verônica Tamaoki é pesquisadora. Coautora do livro Circo Nerino, com Roger Avanzi, organizadora do livro O Diário de Polydoro, e curadora de exposições como Circo Modernista. Em 2016 foi agraciada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, com o prêmio Rodrigo Mello Franco de Andrade. Walter de Sousa é pesquisador, professor e escritor. Fez Doutorado na Escola de Comunicações e Artes (ECA- USP) sobre a presença do circo-teatro em São Paulo a partir das peças do Arquivo Miroel Silveira, da ECA-USP e Pós-doutorado sobre o palhaço Abelardo Pinto Piolin. É autor dos livros Mixórdia no picadeiro – Circo- teatro em São Paulo (1930-1970) (Terceira Margem), Piolin, o corpo e alma do circo (ECA-USP), além do infantil Nina tem medo de palhaço (Kapulana). É presidente da Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo (AACMC). Expediente Edição Walter de Sousa Projeto gráfico, diagramação e tratamento de imagens Roberta Regato Foto de capa Robson Regato (artista circense Bella - Circo Spacial) Impressão Murc Editora Gráfica FICHA TÉCNICA Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo Presidente: Walter de Sousa Junior Vice-presidente: Bel Toledo 1ª Secretária: Mônica Alla 2º Secretário: Ramon Marambio 1ª Tesoureira: Nana Porto 2ª Tesoureira: Renata Pezzotta Conselho Fiscal João Batista Lima Artur Faleiros Neves Juliano Querobin Vargas FIC – Festival Internacional de Circo da Cidade de São Paulo – 4ª Edição Realização: Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e Associação dos Amigos do Centro de Memória do Circo Direção Geral: Bel Toledo Direção Artística: Monica Alla Coordenação Geral de Produção: Gisele Tressi Assistente de Produção: Danny Passos Diretor Técnico: Pablo Nordio Coordenação de Infraestrutura e Logística: Robson Mol Coordenação de Contratação Artística Nacional: Lu Gualda Coordenadora de Infraestrutura e Logística Artistico: Julieta Regazzoni Assistente de Contratação Artística: Ronaldo Valente Produtora de Contratação Artística Internacional: Fernanda Vilela Coordenação de Comunicação: Elaine Frere Assessoria de Imprensa: Moretti Cultura e Comunicação Desenho Gráfico e Planejamento Visual: Fábrica de Caleidoscópios Assistente de Comunicação: Tatiana Lucky Gestora de Tráfego Pago (redes Sociais): Alessandra Thomazini Curadoria: Samara Garcia, Monica Alla, Bel Toledo, Ceu Barbosa e Marina Zan Equipe de Filmagem: Ronaldo Cahin Fotografia: Melissa Haidar Coordenadora do Financeiro: Nana Porto Assistente do Financeiro: Layla Batista Contabilidade: Carvalho Ramos Contábil e Tributária Assessoria Jurídica: Martha Macruz Engenheiros Responsáveis: Sérgio Rogério Cesário Costa e Liliana Prieto Rodriguez Coordenação de Iluminação: Bruna Isumavut Coordenação SOM: Bia Wolf Equipe Técnica: Alexandre Ferreira Mesquita, Dennis Inoue, Dodô Giovanetti, Everton Maximo, Hilton Esteves de Sousa, Felipe Ricardo de Oliveira, Luka Ianchity e Mateus Bonassa Eletricistas: Valdinei Pereira da Silva 68 A mulher do Circo