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<p>Copyright 2007 by Fditora Betesda faculdade teológica betesda Moldando vocacionados Presidente: Sezar Cavalcante Diretor Teológicos Fábio Lima Diretor Pedagógico: Vanessa Cavalcante Secretaria Executiva: Projetti Corpo docente SEZAR CAVALCANTE Th.B Em Teologia FÁBIO LIMA Th.B Em Teologia, Especialista em MARCIO FALÇÃO Th.B em Teologia e Bacharel em Direito ZEEV HASHALOM Mestrado Em Grego e Hebraico RICARDO MAJOLINI Th.B Em Teologia, Especialista em Mística FRANCISCA DA SILVA Th.B Em Teologia ADRIANO LIMA Th.B em Teologia IZAIAS COUTINHO Th.B em Teologia ALESSANDRO VIEIRA Th.B em Teologia Professores convidados LUIZ WESLEY, Ph.D em Estudos Interculturais e Pós-doutor em Teologia Prática e Práxis Religiosa GABRIELE Ph.D em Filosofia e Pós-doutora em História das Mentalidades MARIA LEONARDO, Ph.D em Teologia e Antropologia Cultural BÁRBARA BURNS, Doutora em Missiologia CÉSAR MARQUES, Mestre em Teologia Prática e Ph.D em Eclesiologia MÁRCIO REDONDO, Ph.D em História e Doutor em Teologia Todas as referências bfblicas foram extraídas da Versão Almeida Revista e Atualizada, Edição de 1995 da Sociedade Biblica do Brasil. Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em breves citações, com indicação da fonte. Coordenação editorial Fábio Lima Projeto gráfico de capa e Valdinei Gomes Revisão Fábio Lima Todos os direitos desta obra em portuguesa reservados por: editora betesda Rua Azir Antonio Salto, 92- Jd. São Paulo São Paulo/SP CEP: 02046-010 Fone: (11) 2976 0899</p><p>APRESENTAÇÃO E INSTRUÇÕES Manual simplificado de uso do material didático FTB e prossigamos em conhecer ao Senhor" (Oseias 6.3). O conhecimento sobre Deus não é apenas uma possibilidade, mas também um direito de todos os homens. A Bíblia Sagrada nos ensina que Deus, graciosamente, revela-se ao homem, convidando a todos para experimenta- sua bendita graça. É com essa visão, e sob o lema "Moldando vocacionados", que a FTB FACULDADE TEOLÓGICA BETESDA, uma instituição interdenominacional filiada às principais entidades da classe, oferece todos os seus cursos. Para que o seu aproveitamento como estudante FTB seja o melhor possível, e para que nós consigamos dar a você o suporte e apoio em sua jornada de estudos, é necessário que você SIGA EXATAMENTE as orientações que daremos a seguir, pois desta maneira você terá uma maior fixação do e nos ajudará a atendê-lo sempre da melhor maneira MODALIDADES DE ENSINO Ensino à Distância: Frequentados por mais de 12 mil alunos, nossos cursos EAD têm sido recomendados por diversas lideranças e denominações evangélicas. Quando se trata de ensino à distância, a FTB é a mais completa do Brasil, oferecendo um suporte acadêmico inigualável. Além disso, todo o material didático necessário é pró- prio e já se encontra incluído no preço final Ensino Presencial: A FTB mantém várias UNIDADES na Capital e na Grande São Paulo ministrando teologia do nível Básico até a Pós-graduação, com aulas semanais em sala de aula, inclusive aos sábados, e com profes- sores altamente qualificados, todos com formação superior e/ou Ensino Semipresencial: Completando nossa atuação educacional, ainda oferecemos essa modalidade que cha- mamos de NÚCLEOS Numa parceria com a igreja local, instalamos uma sala de aula nas suas próprias dependências, onde uma nova turma de alunos estudará com a ajuda da FTB e do ministério local. Encontros presenciais: Com o objetivo de criar uma interação entre alunos de todas as modalidades, profes- sores e a diretoria, a FTB promove uma aula especial (INTENSIVÃO TEOLÓGICO) por mês, com renomados teólogos brasileiros e internacionais. Acesse nosso portal c/ou ouça o programa "Crescendo na Fé" (Rádio Musical FM 105,7) para conhecer a agenda e o local dessas REGRAS GERAIS Material didático: Ao receber seu material, Se tiver alguma dúvida, entre em contato com o nosso SAA: Prazo de estudo: O aluno deve estudar cada módulo por um tempo mínimo de 2 MESES e no máxi- mo de 4 MESES, por isso planeje seus estudos dentro desse prazo, evitando transtornos administra- tivos com a escola. Plantão teológico: Alunos devidamente matriculados e em dia com pagamentos têm direito ao PLANTÃO que funciona de segunda a sexta-feira no horário comercial. Ligue: (11) 2976-0899.</p><p>Diplomação: Em todos os seus cursos a FTB fornece gratuitamente aos alunos aprovados Diploma e/ou Certificado, cerimônias de formaturas programadas ao longo do ano Portal do Aluno: Por meio de nosso site www.faculdadebetesda.com.br o aluno dispõe de rico material acadêmico e serviços exclusivos, tais como: rádio on-line; bate-papo com convidados; estudos bíblicos; reportagens, etc. Visite-o ainda hoje! SOBRE os MÓDULOS Curso Básico possui 05 MÓDULOS, o Curso Médio 09 MÓDULOS e o Curso Bacharel 13 Cada módulo corresponde a um livro de alta qualidade gráfica e de conteúdo, com 05 matérias cada um, sendo quatro tradicionais e uma especial, voltada à prática da teologia e da vida cristã, totalizando 65 ma- térias (ver grade na p. 6 e 7). Ao longo de cada uma das matérias, em todos os módulos, há vários exercícios que chamamos de Verifi- cação de Aprendizagem, que são questões que o ajudarão a fixar melhor o capítulo Você deve copiar e responder essas questões em um caderno à parte e depois conferir no capítulo para certificar se estão corretas ou não. No final de cada matéria há uma Avaliação com 10 questões. Você só deve fazer essa avaliação depois que terminar de estudar todos os capítulos da matéria. A última matéria, identificada como Matéria Suplemen- tar, contém apenas 5 questões. Importante: o aluno deve enviar para a FTB apenas as avaliações. Não é necessário enviar as respostas da Verificação de Aprendizagem. A partir do dia em que a FTB receber as 5 Avaliações, ela terá 15 dias corridos para revisá-las. Se o aluno for aprovado com a NOTA MÍNIMA (7.0), enviará o módulo seguinte automaticamente. Caso não alcance a nota mínima, o aluno terá de refazê-lo. aluno deve enviar as 5 Avaliações juntas para a FTB. Escolha uma das seguintes formas: 1. Pessoalmente: Rua Azir Antonio Salto, Jd. São Paulo ou diretamente nos Intensivões no estande do SAA Serviço de Atendimento ao 2. Pelo correio: Caixa Postal 12025 CEP 02046-010 São Paulo/SP. 3. Por e-mail: PREENCHIMENTO DAS AVALIAÇÕES A avaliação é individual, portanto cada aluno deve fazer a sua própria e não copiar de outro aluno ou enviar cópias com respostas idênticas, mesmo que haja parentesco ou estudo em grupo (somos cristãos e devemos sempre agir com honestidade). Caso sejam detectadas provas idênticas, elas serão automatica- mente canceladas. Coloque no cabeçalho (início da folha) as seguintes informações: nome completo, telefone atualizado, número da matrícula ou contrato, que é o seu RA (Registro do Aluno), e número do módulo. Exemplo: Fulano de tal Fone: (xx) 0000-0000 R.A. 00.000 Módulo 3 Espiritualidade Se a avaliação for manuscrita, escreva com letra legível, em um papel pautado (com linhas); se for digita- da, utilize papel branco, "de preferência" não reutilizado. Se preferir enviar suas avaliações via e-mail, você deve digitá-las em Word, sempre seguindo as orientações descritas neste manual, e anexá-las uma a uma (um documento para cada avaliação). Não coloque todas as avaliações num único documento. Depois envie para: Numere as avaliações na mesma ordem em que se encontram no módulo. Não escreva no verso da folha; faça somente uma avaliação por folha; nunca coloque duas avalia- ções na mesma folha para aproveitar papel; nunca use pedaços de papel para completar respostas; seja ordeiro e caprichoso ao fazer suas avaliações. Já recebemos avaliações totalmente mutiladas, sujas, amassadas, e isso pode gerar o cancelamento da sua prova e consequentemente a reprovação do aluno na matéria correspondente.</p><p>Nunca envie somente as respostas. Sempre digite ou escreva a pergunta e depois a sua respectiva resposta, uma a uma. Fazendo assim você acelera o processo de correção das suas provas. As respostas devem expressar exatamente o conceito apresentado no módulo, exceto aquelas que sejam dissertativas. CURSOS OFERECIDOS BÁSICO EM TEOLOGIA (1 ano em média) MÉDIO EM TEOLOGIA (2 anos em média) BACHAREL EM TEOLOGIA (3 anos em média) PÓS-GRADUAÇÃO (1 ano em média) GREGO E HEBRAICO (6 meses) ARQUEOLOGIA BÍBLICA (6 meses) MISSÕES TRANSCULTURAIS (6 meses) APOLOGÉTICA (1 ano) VOCAÇÃO MINISTERIAL (3 meses em média) TEOLOGIA TEEN (8 meses em média) CONFISSÃO DOUTRINÁRIA A FTB professa fé cristã como exemplificado pelos cinco lemas da Reforma Protestante: Sola Fide (Somente a fé); Sola Scriptura (Somente as Solus Christus (Somente Cristo); Sola Gratia (Somente a Graça); Soli Deo Gloria (A Deus toda glória): Cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus, divinamente inspirada e sem erro quando escrita cm sua forma original, sendo a única regra de fé e de prática do cristão (2 Tm 3.16; 2 Pc 1.21). Cremos um só Deus Eterno que subsiste em uma Trindade de Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo (Jo 15. 26), as quais são coeternas e de igual dignidade e poder (Mt 3.16-17). Cremos na divindade do Filho de Deus, na sua encarnação, no seu nascimento virginal (Lc 1.35), na sua morte expiatória na sua ressurreição, bem como sua ascensão e intercessão como nosso único mediador (Hb 7.25). Cremos na justificação somente pela fé (At 10.43; Rm 3.24, 10.13). Cremos na obra do Espirito Santo para a regeneração e para a santificação (Hb 9.14). Cremos que a verdadeira Igreja - o corpo de Cristo (Ef 1.23) é formada por todos aqueles que confiam em Cristo como seu Salvador, somente pela fé (Ef 2.8-9; 1 Co 12.13), cuja responsabilidade e privilégio é proclamar o Evangelho até os confins da Terra (Mt 28.19-20). Cremos na imortalidade da alma, na segunda vinda do Senhor (Tt 2.13), na ressurreição do cor- po, no julgamento do mundo por Jesus Cristo, na bem-aventurança dos justos e na punição dos impios (1 Co 15.25-27).</p><p>SUMÁRIO INTRODUÇÃO 13 1. RESUMO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA 14 1.1 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA 14 1.2 FILOSOFIA CLÁSSICA 14 1.3 FILOSOFIA PÓS-SOCRÁTICA 15 1,4 FILOSOFIA MEDIEVAL 15 1.5 FILOSOFIA MODERNA 16 1.6 FILOSOFIA 17 2. METAFÍSICA 18 2.1 PRIMEIROS PRINCIPIOS METAFÍSICOS DADOUTRINADODIREITO DEIMMANUELKANT 18 3. CARTESIANISMO 20 4. CETICISMO 21 5. 22 6. DIALÉTICA 23 7. EMPIRISMO 24 8. 26 8.1 ÉTICA 26 8.2 ÉTICA CONTEMPORÂNEA 27 9. FENOMENOLOGIA 28 10. IDEALISMO 29 11. MARXISMO 30 12. MATERIALISMO 31 13. PLATONISMO 32 DE PLATÃO 32</p><p>14. POSITIVISMO 34 15. RACIONALISMO 35 16. ESCOLA DE FRANKFURT 36 17. DOGMATISMO 37 REFERÊNCIAS 39</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL INTRODUÇÃO De origem grega, a palavra filosofia significa amigo da sabedoria (fhilos = amigo + Sofia = sabedoria). Desde a Antiguidade, a surpresa e o espanto perante o mundo levam o homem a formular questões sobre a origem e a razão do universo e buscar o sentido da própria existência. Todos os aspectos da cultura humana podem ser objetos de A questão central de cada corrente filosófica está inserida na estrutura econômica, social e política de determinado momento histórico. A palavra filosofia é utilizada pela primeira vez por Pitágoras, por volta do século VI ao responder a um de seus discípulos que ele não era um "Sábio", mas, apenas um amigo da Nesta época, surgem os primeiros sábios (sophos, em grego), principalmente nas cidades jônicas que estabeleceram relações comerciais com o Oriente. Se tratando do cristianismo, no século II d.C surgiu uma classe de mestres cristãos conhecidos como "apolo- gistas" que se incumbiam, entre outras tarefas, de responder aos filósofos que, diante da visibilidade do Cristia- nismo, começaram a polemizar com a fé propagada pelos apóstolos de Cristo. O mais conhecido dos apologistas foi Justino, nascido em Naplusa, na Palestina, numa família de língua grega. Ele se converteu em 130 d.C. Os apologistas não eram antifilósofos. Pelo contrário, Justino sempre se viu como um filósofo, que se pode perce- ber pela seguinte frase que proferiu: "Reconheci que [o Cristianismo] era a única filosofia segura e proveitosa." Justino morreu martirizado em Éfeso, no ano 165 d.C. Outro aspecto histórico importante é que nem sempre os cristãos encararam os filósofos como adversários. Pascal, por exemplo, chegou a declarar: "Platão prepara o advento do cristianismo". Vale apenas ressaltar outro aspecto interessante; sobre as técnicas utilizadas pelos primeiros cristãos para pregação da palavra, tanto no discurso, quanto na preparação hermenêutica. A hermenêutica surge na mitologia Grega com Hermes deus da comunicação, e adaptada na filosofia por Platão e Aristóteles, que será utilizada até nos dias atuais para elaboração de Muitas vezes há certo tipo de crítica concernente a filosofia por parte de alguns cristãos, julgando de forma precipitada como atcistica e criadora de anticristos. Infelizmente essa maneira de enxergar acaba por prejudicar o pensamento cristão, afinal, existiram sim filósofos ateus que por vários motivos tentaram até mesmo acabar com todo tipo de religião, porém, a filosofia é algo presente na vida de todos os seres humanos, sociedades e portanto, não é diferente no cristianismo. Todas as vezes que paramos para refletir dos problemas que cercam nossas vidas, casas, igrejas, bairros, cidades e nosso mundo, e dentro dessa reflexão tentamos algum meio de ajudar, sem perceber estamos filosofando. È de suma importância que deixemos o preconceito de lado, para aprendermos com grandes pensadores que houve nesse mundo, a refletirmos sobre valores e propostas para vida; de certo, haverá muitos pensamentos a serem descartados, em contra partida, haverá alguns que valerão ser observados mais de perto. Nessa matéria veremos até mesmo de forma resumida algumas das principais correntes CURSO DE TEOLOGIA 13</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 1 RESUMO DA HISTÓRIA DA FILOSOFIA 1.1 FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA Podemos afirmar que foi a primeira corrente de pensamento, surgida na Grécia Antiga por volta do século VI a.C. Pré-socráticos são os filósofos anteriores a Sócrates se preocupavam muito com o universo e com os fenômenos da natureza. Buscavam explicar tudo através da razão e do conhecimento científico. Podemos citar neste contexto, os físicos Tales de Mileto, Anaximandro e Pitágoras desenvolve seus pensamentos e defende a idéia de que tudo à alma, já que esta é imortal. Demócrito e Leupido defendem a formação de todas as coisas a partir da existência dos A era pré-socrática inaugura uma nova mentalidade, baseada na razão, e no conhecimento e não mais no sobrenatural e na tradição mística dos deuses. Infelizmente muito pouco de suas obras estão disponíveis restando apenas pequenos fragmentos. 1.2 FILOSOFIA CLÁSSICA A Filosofia clássica foi o berço de todas as ciências, onde o ser humano começou a cortar o laço com a mi- tologia comum, e a buscar respostas para as grandes questões da Explicações "divinas" já não satisfaziam completamente as pessoas que buscavam conhecimento principalmente através da razão. Os séculos V e IV. Na Grécia Antiga foram de grande desenvolvimento cultural e científico. O esplendor de cidades como Atenas e seus sistemas político democrático, proporcionou o terreno propicio para o desenvolvi- mento do pensamento. Filosofia da Grécia Antiga teve nos sofistas e em Sócrates seus principais expoentes. Eles se distinguem pela preocupação metafísica, ou procura do ser, e pelo interesse político em criar a cidade harmoniosa e justa, que tornasse possível a formação do homem e da vida de acordo com a sabedoria. Este período corresponde ao apogeu da democracia e é marcado pela hegemonia política de Atenas. Os sofistas, filósofos contemporâneos de Sócrates, como Protágoras de Abdera (485 a.C.-410 a.C.) e Górgias de Leontinos (485 a.C.-380 a.C.), acumulam conhecimento enciclopédico e são educadores pagos pelos alunos. Pretendem substituir a educação tradicional, destinada a formar guerreiros e atletas, por uma nova pedagogia, preocupada em formar cidadão pleno, preparado para atuar politicamente para o crescimento da cidade. Dentro desta proposta pedagógica, os jovens deveriam ser preparados para falar bem (retórica), pensar e manifestar suas qualidades artísticas. Conhecido somente pelo testemunho de Platão, já que não deixou nenhum documento escrito, Sócrates (470 a.C. -399 a.C.) desloca a reflexão filosófica da natureza para o homem, define pela primeira vez, o universo como objeto da Ciência. Dedica-se à procura metódica da verdade identificada com o bem moral. Seu método se divide em duas partes: Pela ironia (eironéia, do grego: disfarce ou interrogação), ele força seu interlocutor a ignorar o que pensava saber. Descoberta a ignorância, Sócrates tenta extrair do interlocutor a verdade contida em sua consciência (método denominado de maiêutica). Discípulo de Sócrates, Platão (427 a.C. -347 a.C.?) afirma que as idéias são o próprio objeto do conhecimento intelectual, a realidade metafísica (ver Platonismo). Para melhor expor sua teoria, utiliza-se de uma alegoria, o mito da caverna, no qual a caverna simboliza o mundo das aparências interiores e da sensibilidade onde só se percebem as sombras das coisas. O exterior é o mundo das idéias, do conhecimento racional ou científico. Feito de corpo e alma, o homem pertenceria simultaneamente a esses dois mundos. A tarefa da Filosofia seria a de CURSO DE TEOLOGIA 14</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL libertar o homem da caverna, do mundo das aparências, para o mundo real, das essências. Platão é considerado o iniciador do Seguidor de Platão, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) aperfeiçoa e sistematiza as descobertas de Platão e Sócra- tes. Desenvolve a lógica dedutiva clássica, como forma de chegar ao conhecimento científico. A sistematização e os métodos devem ser desenvolvidos para se chegar ao conhecimento pretendido, partindo sempre dos conceitos gerais para os específicos. 1.3 FILOSOFIA PÓS-SOCRÁTICA Esta época vai do final do período clássico 320 a.C. até o início da Era trata-se do ultimo período da filosofia antiga, quando a "polis" grega desapareceu como centro político, deixando de ser referencia principal dos filósofos, uma vez que a Grécia encontra-se primeiro sob o domínio da Macedônia e depois do poderio do império Os filósofos dizem, agora, que o mundo é sua cidade e que são cidadãos do As corren- tes filosóficas do ceticismo, epicurismo e estoicismo traduzem a decadência política e militar da Ceticismo: primeira grande corrente filosófica após o aristotelismo, de acordo com os pensadores céticos (Pirro 365 a.C? -275 a.C), a duvida deve estar sempre presente, pois o ser humano não consegue conhecer nada de forma exata e segura. Assim, conclui pela suspensão do julgamento e permanência da Ao recusar toda afirmação dogmática (ver Dogmatismo), prega que o ideal do sábio é o total despojamento, o perfeito equilíbrio da alma, que nada pode perturbar. Epicurismo: Epicuro (341 a.C.-270 a.C.) e seus seguidores, os epicuristas, defendiam que o bem era originá- rio da pratica da virtude. corpo e a alma não deveriam sofrer, para desta forma, chegar-se ao prazer. Estoicismo: seu fundador é Zenão de Citium (334 a.C-262 a.C). Os estóicos, como Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.) e Marco Aurélio (121-180), que se opôcm ao epicurismo, pregam que o homem deve permanecer indiferente as circunstâncias exteriores, como dor, prazer e emoções. Procuram submeter sua conduta à razão, mesmo que isso traga dor e sofrimento, e não prazer. No século III da Era Plotino (205-270) pensa o platonismo na perspectiva histórica do Império Roma- no. As doutrinas neoplatônicas têm grande influência sobre os pensadores 1.4 FILOSOFIA MEDIEVAL Ao retomar as idéias de Platão, Santo Agostinho (354 d.C-430 d.C) identifica o mundo das idéias com o mundo das idéias divinas. Através da iluminação, o homem recebe de Deus o conhecimento das verdades eternas. Esta corrente da Filosofia e seus desenvolvimentos é conhecida como patrística, por ser elaborada pelos padres da Igreja Católica. Entre os séculos V e XIII predomina a escolástica, o conjunto das doutrinas oficiais da Igreja, fortemente influenciadas pelos pensamentos de Platão e Aristóteles. Os representantes da es- colástica estão preocupados em conciliar razão e fé e desenvolver a discussão, a argumentação e o pensamento Uma das principais correntes filosóficas da época é o tomismo, doutrina escolástica do teólogo italiano Santo Tomás de Aquino (1225-1274), que encontra correspondência na estrutura socioeconômica do feudalismo, rigidamente estratificada. CURSO DE TEOLOGIA 15</p><p>MÓDULO 10 I FILOSOFIA GERAL 1.5 FILOSOFIA MODERNA A desintegração das estruturas feudais, as primeiras grandes descobertas da Ciência como o heliocentrismo de Galileu Galilei e as leis das órbitas planctárias de Kepler e a ascensão da burguesia assinalam a crise do pen- samento medieval e a emergência do Renascimento. Em contraste com a filosofia religiosa, dogmática submissa à autoridade da Igreja, a filosofia moderna é profana e Representada por leigos que procuram pensar de acordo com as leis da razão e do conhecimento científico, caracteriza-se pelo antropocentrismo ati- tude que consiste em considerar o homem centro do universo e O único método aceitável de investigação filosófica é o que recorre à razão. René Descartes (1596-1650), criador do cartesianismo, é consi- derado o fundador da filosofia moderna. Descartes inaugura o racionalismo, doutrina que privilegia a razão, considerada fundamento de todo o co- nhecimento possível. Dentro desta corrente destacam-se também Spinoza (1632-1677) e Leibniz (1646-1716). Ao contrário dos antigos pensadores que partiam da certeza, Descartes parte da dúvida metódica, que em questão todas as supostas certezas. Ocorre a descoberta da subjetividade, ou seja, o conhecimento do mundo não se faz sem o sujeito que conhece. foco é desloca do do objeto para o sujeito, da realidade para a razão. percurso da dúvida cartesiana, ao colocar em questão a existência do mundo, descobre o ser pensante ("Penso, logo existo"). Além do racionalismo, as duas principais correntes da filosofia moderna são o em- pirismo e o idealismo, movimentos que têm relação com a ascensão econômica e social da burguesia e com a Revolução Industrial. No século XVII, o inglês Francis Bacon (1561-1626) critica o método dedutivo da tradição escolástica, que parte de princípios considerados como verdadeiros e indiscutíveis, e esboça as bases do método experimental, o empirismo, que considera o conhecimento como resultado da experiência sensível. Na mesma linha, estão os pensamentos de Thomas Hobbes (1588-1679), John Locke (1632-1704) e David Hume (1711-1776). O empirismo pode ser considerado precursor do positivismo. Século XVIII O racionalismo cartesiano e o empirismo inglês preparam o surgimento do iluminismo, no século XVIII, caracterizado pela defesa da Ciência e da racionalidade critica, contra a fé, a superstição e o dogma religioso. Contemporâneo da Revolução Indus- trial representa os interesses da burguesia intelectual da época e influencia a Revolução Francesa. Os principais nomes do movimento são Voltaire (1694-1778) e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Immanuel Kant (1724-1804) deseja fazer a síntese do racionalismo e do empirismo, a partir de uma análise crítica da Supera dois movimentos ao afirmar que o conhecimento só existe a partir dos conceitos de matéria e forma; a matéria vem da experiência sensível e a forma é dada pelo sujeito que conhece. O idealismo, a terceira grande corrente da filosofia moderna, consiste na interpretação da realidade exterior e material a partir do mundo interior, subjetivo e espiritual. Isso implica na redução do objeto do conhecimento ao sujeito conhecedor. Ou seja, o que se conhece sobre o homem e o mundo é produto de idéias, representações e conceitos elaborados pela consciência humana. Um dos principais expoentes é Friedrich Hegel (1770-1831). Para explicar a realidade em constante processo, Hegel estabelece uma nova lógica, a dialética. Defende que todas as coisas e idéias mor- rem. Essa força destruidora é também a força motriz do processo histórico. Século XIX O positivismo de Auguste Comte (1798-1857) considera apenas o fato positivo (aquele que pode ser medido e controlado pela experiência) como adequado para estudo. É uma reação contra o idealismo e as teorias metafísicas do pensamento alemão. método é retomado no século XX, no neopositivismo, cujo principal representante é Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Ainda no século XIX, Karl Marx (1818-1883) utiliza o método dialético e o adapta à sua teoria, o materialis- mo histórico, que considera o modo de produção da vida material como condicionante da História. marxismo critica a filosofia hegeliana é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, ao contrário, é seu ser social que determina sua consciência") e propõe não só pensar o mundo, mas transformá-lo. Assim, formula os princípios de uma prática política, voltada para a revolução. Ganha força com a vigência do socialismo em vários países, como a União onde era a filosofia oficial. Nesta época, surgem também nomes cuja CURSO DE TEOLOGIA 16</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL obra permanece isolada, sem filiar-se a uma escola determinada, como é o caso de Friedrich Nietzsche (1844- 1900). Ele formula uma crítica aos valores tradicionais da cultura ocidental, como o cristianismo, que considera decadente e contrário à criatividade e espontaneidade humana. A tarefa da Filosofia seria, então, a de libertar o homem dessa tradição. No fim do século XIX, o pragmatismo defende o empirismo no campo da teoria do conhecimento e o utili- tarismo (busca a obtenção da maior felicidade possível para o maior número possível de pessoas) no campo da moral. Valoriza a prática mais do que a teoria e dá mais importância às consequências e efeitos da ação do que seus princípios e pressupostos. 1.6 FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA No século XX, vários pensadores reinterpretam o marxismo, como Georg Lukács (1885-1971), Henri Lefe- (1905-1991), Antonio Gramsci (1891-1937), Louis Althusser (1918-1990), Michel Foucault (1926-1984) e os filósofos ligados à Escola de Frankfurt. Paralelamente, Edmund (1859-1938) inicia a Fenomenologia, que tenta superar a cisão entre racionalismo e empirismo. Consiste no estudo descritivo dos fenômenos, ou seja, das coisas como são percebidas pela consciência, que são diferentes das coisas em si mesmas. Seus seguido- res são Martin Heidegger (1889-1976), Maurice Marleau-Ponty (1908-1961) e os filósofos do existencialismo, como Jean-Paul Sartre (1905-1980), que a existência humana (identificada com a liberdade) o pri- meiro objeto da reflexão filosófica ("a existência precede a essência"). Com os avanços da Ciência e da e o maior domínio do homem sobre a natureza, a Epistemo- logia, estudo crítico dos princípios, e resultados das Ciências, alcança grande desenvolvimento estruturalismo surge a partir da pesquisa de duas Ciências humanas: a com Ferdinand de Saussure (1857-1913) e Roman Jakobson (1896-1982), e a Antropologia, com Claude Lévi-Strauss (1908-). estrutura- lismo opõe-se ao historicismo e parte do princípio de que há estruturas profundas comuns a várias culturas, que precisam ser investigadas independentemente dos fatores históricos. CURSO DE TEOLOGIA 17</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 2 METAFÍSICA William James conceituou metafísica como sendo "apenas um esforço extraordinariamente obstinado para pensar com clareza". Trata-se de uma visão simplista e equivocada de pessoas que só conseguem perceber a vida por meio de dimensões praticas. Os homens em geral sentem-se mais à vontade quando pensam sobre como fazer uma coisa ou outra, do que pensar no motivo pelo qual esta fazendo. É por isso que a política, a engenharia e a indústria são consideradas mais naturais pelos homens do que a filosofia, por exemplo. A metafísica não está interessada, de maneira nenhuma, pelos "como" da vida humana, mas sim pelos "porquês", por aquclas questões que uma pessoa pode passar a vida inteira para formular, sem muitas vezes encontrar uma resposta satisfatória. Parte central da Filosofia que constitui a filosofia primaria, o ponto de partida do sistema filosófico. O termo surge por volta de 50 a.C., quando Andrônico de Rodes, ao organizar a coleção das obras de Aristóteles, dá o nome de "ta metà ta ao conjunto de textos que se seguiam aos da Física (Metá=além + physis=fisica). Historicamente, a palavra passa a significar tudo o que transcende à Física, pois, nesses estudos Aristóteles examina a natureza do ser em geral e não de suas formas particulares; postulando a idéia de Deus como subs- tância fundamental. As bases do pensamento de Aristóteles podem ser encontradas no platonismo. Para Platão, a Filosofia é a única ciência capaz de atingir o verdadeiro conhecimento; por meio da dialética, o filósofo pode aproximar-se das idéias puras, como a verdade, a beleza, o bem e a justiça. Na Idade Média, a Metafísica confunde-se com a Teologia. italiano São Tomás de Aquino diz que a Meta- física estuda a causa primaria, e como a causa primaria é Deus, ele é o objeto da Na Idade Moderna a experiência passa a ser extremamente valorizada e a Metafísica deixa de ser considerada a base do conhecimento O escocês David Hume (1711-1776) diz que o homem está completamente submetido aos sentidos, portanto não pode criar idéias e não é possível formular nenhuma teoria geral da realidade. Para ele, nenhuma ciência é capaz de atingir a verdade, seus conhecimentos são sempre probabilidades. No século XVIII, o alemão Immanuel Kant (1724-1804) afirma que o domínio da razão e o rigor científico podem recriar a Metafísica. No século XIX, o positivismo de Auguste Comte (1798-1857) coloca a Metafísica como uma ciência superada. Segundo ele, a história da humanidade (e, por analogia, o conhecimento humano) passa por três períodos: o teológico, o metafísico e positivo. No século XX, o filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976) faz uma revisão da história da Metafísica e diz que ela confunde o estudo do ser, o verdadeiro objeto da Filosofia, com outros temas, como a idéia, a natureza e a 2.1 PRIMEIROS PRINCIPIOS METAFÍSICOS DA DOUTRINA DO DIREITO DE IMMANUEL KANT "A ilustração é à saída do homem de sua menoridade, da qual ele é o próprio responsável. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a condução de outro. homem é o próprio culpado dessa me- noridade quando sua causa reside não na falta de entendimento, mas na falta de resolução e coragem para usá-lo sem a condução de outro. Sapere aude! "Tenha coragem de usar seu próprio esse é o lema da ilustração. Preguiça e covardia são as razões pelas quais uma tão grande parcela da humanidade permanece na menoridade mesmo depois que a natureza a liberou da condução externa (naturaliter maiorennes); e essas são também as razões pelas quais é tão fácil para outros como seus É cômodo ser menor. CURSO DE TEOLOGIA 18</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL Se tenho um livro que substitui meu entendimento, um diretor espiritual que tem uma consciência por mim, um médico que decide sobre a minha dieta e assim por diante, não preciso me esforçar. Não preciso pensar se puder pagar: outros prontamente assumirão por mim o trabalho penoso. Que a passagem à maioridade seja tida como muito e perigosa pela maior parte da humanidade (e por todo o belo sexo) deve-se a que os de bom grado se encarregam da sua tutela. Inicialmente os domesticam o seu gado, e certificam-se de que essas criaturas plácidas não ousarão dar um único passo sem seus cabrestos; em seguida, os lhes mostram o perigo que as ameaça caso elas tentem marchar sozinhas. Na verdade, esse perigo não é tão Após algumas quedas, as pessoas aprendem a andar sozinhas. "Mas cair uma vez as intimida e comumente as amedronta para as tentativas ulteriores" (...) VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM 1) Como William James conceituou a metafísica? 2) Quando e por quem surge o termo 3) Por que na idade média confundiu-se a metafísica com a teologia? 1. (I. "0 que é a In Régis c. Andrade. Kant, a liberdade. 0 individuo a In F. Weffort (org). Os clássicos da politica, 2 p. 83-85.) CURSO DE TEOLOGIA 19</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 3 CARTESIANISMO Movimento filosófico criado pelo francês René Descartes (1596-1650), considerado o fundador da Fi- losofia moderna. desenvolveu um sistema de raciocínio que se baseia na dúvida metódica e não pressupõe certezas e verdades, como era tradição entre os pensadores que o método carte- siano em dúvida tanto o mundo das coisas sensíveis quanto o das inteligíveis, ou seja, que pode ser aprendido por meio das sensações ou do conhecimento intelectual. Para Descartes, os sentidos enganam e as idéias são confusas. Nem um nem outro podem nos dar certezas, portanto, não nos conduzirá ao entendi- mento da realidade. método cartesiano está fundamentado no principio de jamais acreditar em nada que não tivesse fundamento para provar a verdade. Com essa regra nunca aceitará o falso por verdadeiro e chegará ao verdadeiro conhecimento de tudo. A evidência da própria existência, o "Penso, logo existo", traz uma primeira certeza. A razão seria a única coisa verdadeira, da qual se deve partir para alcançar o conhecimento. "Eu sou uma coisa que pensa, e só do meu pensamento posso ter certeza ou intuição imediata", diz Descartes. Para reconhecer algo como verdadeiro, ele considera necessário usar a razão como filtro e decompor esse algo em partes isoladas, em idéias claras e distintas. Para garantir que a razão não se deixa enganar pela realidade, tomando como evidência o que de fato não passa de um de pensamento ou ilusão dos sentidos, Descartes formula sua segunda certeza: a existência de Deus. Entre outras provas, usa a idéia de Deus como o ser perfeito. A noção de perfeição não poderia nascer de um ser imperfeito como o homem, mas de outro ser perfeito, argumenta Descartes. Logo, um ser é perfeito, deve ter a perfeição da existência. Caso contrário, lhe faltaria algo para ser perfeito. Portanto, Deus existe. método cartesiano revoluciona todos os campos do pensamento de sua época, possibilitando o desenvolvimento da ciência moderna e abrindo caminho para o homem dominar a natureza. A realidade das idéias claras e distin- tas, que Descartes apresenta a partir do método da dúvida e da evidência, transforma o mundo em algo que pode ser quantificado. Com isso, a ciência, que até então se bascava qualidades obscuras e duvidosas, a partir do início do século XVII, torna-se de reduzir o Universo a coisas e mecanismos mensuráveis que a geometria pode explicar. VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM 1) O que você entendeu sobre cartesianismo? 20 CURSO DE TEOLOGIA</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 4 CETICISMO Escola filosófica fundada pelo grego Pirro (365? a.C.-275 a.C.) que questiona as bases do conhecimento me- tafísico, científico, moral e, especialmente, religioso. Nega a possibilidade de se com certeza qualquer verdade e recusa toda afirmação dogmática (aquela que é aceita como verdadeira, sem provas). O termo deriva do verbo grego "sképtomai", que significa "olhar, observar, investigar". Para os céticos, uma afirmação para ser provada exige outra, que requer outra, até o infinito. O conhecimento, para eles, é relativo: depende da natureza do sujeito e das condições do objeto por ele Costumes, leis e opiniões variam segundo a sociedade e o período histórico, tornando impossível chegar-se a do real e irreal, do correto e incorreto. Condições como juventude ou velhice, saúde ou doença, lucidez ou embriaguez influenciam o julgamento e, consequentemente, o conhecimento, por isso, os seguidores de Pirro defendem a suspensão do juízo, o total despojamento e uma postura neutra diante da realidade. Se for impossível conhecer a verdade, tudo se torna indiferente e equilibrado. Para eles, ideal do sábio é a indiferença. Ainda na Antiguidade, o grego Sexto Empírico (século III?) 2 e os empiristas vêem o ceticismo como um modo de obter o conhecimento pela experiência. Não excluem a ciência, mas procuram fundamentá-la sobre representações e fenômenos encontrados de modo indiscutível e inevitável na experiência. Esse ceticismo posi- tivo tem papel fundamental no pensamento do escocês David Hume (1711-1776), um dos maiores expoentes da filosofia moderna (ver Empirismo). Derrubando dogmas e religiosos, a filosofia moderna baseia-se nas relações terrenas e coloca o homem como dono de seu próprio destino. 2. Sexto Empírico foi um médico filósofo Grego que viveu entre os séculos II e III CURSO DE TEOLOGIA 21</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 5 LÓGICA Entendida popularmente como estudo do raciocínio correto, a lógica surge no Ocidente com o filósofo grego Aristóteles, para mostrar que os sofistas (mestres da retórica e da oratória) podiam enganar os cida- dãos utilizando argumentos incorretos, Aristóteles estuda a estrutura lógica da argumentação; revela, assim, que alguns argumentos podem ser convincentes embora não sejam corretos. A lógica, segundo Aristóteles, é um instrumento para atingir o conhecimento Só se pode chamar de ciência aquilo que é metódico e sistemático, ou seja, lógico. Na obra Aristóteles define a lógica como método do discurso demonstrativo, que se utiliza de três operações da inteligência: o conceito, o juízo e o raciocínio. O é a representação mental dos ob- jetos. juízo é a afirmação ou negação da relação entre o sujeito (o objeto) e o seu predicado. E o raciocínio é o que leva à conclusão sobre os vários juízos contidos no discurso. Os raciocínios podem ser analisados como silogismos, nos quais uma conclusão se segue de duas premissas. "Todo homem é mortal. Sócrates é homem, logo, Sócrates é mortal", diz ele, para exemplificar. "Sócrates", "homem" e "mortal" são conceitos. "Sócrates é mortal" e "Sócrates é homem" são raciocínio é a progressão do pensamento que se dá entre as premis- sas "Todo homem é mortal", "Sócrates é homem" e, a conclusão, "Sócrates é mortal". O matemático e filósofo alemão G.W. Leibniz (1646-1716) critica a lógica aristotélica por demonstrar verdades conhecidas, mas não revelar novas verdades. Além disso, a lógica tradicional sistematiza apenas juízos do tipo sujeito e predicado, como "Sócrates é mortal". Já os modernos sentem necessidade de um método capaz de estudar também relações entre objetos, como "A Terra é maior do que a No final do século XIX, o alemão Gottlob Frege (1848-1925) cria uma lógica baseada em simbolos mate- máticos e na análise formal do discurso, lançando as bases da lógica moderna, que formaliza os raciocínios, organizando-os numa espécie de gramática, que pode ser empregada a diversas linguagens, como a proposi- cional, que estuda a relação dos juízos entre si, a de predicados, que analisa a estrutura interna das sentenças. Como a matemática, ambas se utilizam de símbolos lógicos (de negação, conjunção e implicação, por exemplo) e não-lógicos (que representam proposições, funções, relações etc.) para criar cálculos ou sistemas de dedução. A validade de um argumento depende exclusivamente de sua fórmula lógica e não do conteúdo das afirmações. Então, se no exemplo aristotélico o conceito "mortal" for substituído pelo conceito "verde" ("Todo homem é verde. Sócrates é homem, logo, Sócrates é verde"), o argumento permanece válido, ou correto, embora não exis- tam homens verdes. Válido, porém, não quer dizer verdadeiro. Para que a conclusão de um argumento válido seja as premissas têm de ser verdadeiras. Ao estudar a estrutura e a natureza do raciocínio humano e reproduzi-las em fórmulas matemáticas, tornou-se possível, por exemplo, a criação de uma linguagem binária, que é à base de funcionamento do software para o computador. VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM 1) Quais são as três operações da inteligência segundo Aristóteles? 3. Organon é o conjunto das obras de lógica do Filósofo Grego CURSO DE TEOLOGIA 22</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 6 DIALÉTICA Originalmente, é a arte do diálogo, da contraposição de idéias que leva a outras O conceito de dialética, porém, é apropriado por diferentes doutrinas filosóficas e, de acordo com cada uma, assume um significado distinto. Para Platão, a dialética é sinônimo de filosofia, o método mais eficaz para se aproximar as idéias particulares das idéias universais ou puras. É a técnica de perguntar, responder, e refutar que cle te- ria aprendido com Sócrates. Platão considera que apenas através do diálogo o filósofo pode procurar atingir 0 verdadeiro conhecimento, partindo do mundo sensível e chegando ao mundo das Pela decomposi- ção e investigação racional de um conceito, chega-se a uma síntese, que também deve ser examinada, num processo infinito que busca a verdade. Aristóteles define a dialética como a lógica do provável, do processo racional que não pode ser demonstrado. "Provável é o que parece aceitável a todos, ou à maioria, ou aos mais conhecidos e ilustres", diz o filósofo. alemão Immanuel Kant retoma a noção aristotélica quando define a dialética como a "lógica da aparência". Para ele, a dialética é uma ilusão, pois se baseia em princípios que, na verdade, são subjetivos. Dialética e História No início do século XIX, Friedrich Hegel (1770-1831) apresenta à dialética como um movimento racional que permite ultrapassar uma contradição. Uma tese inicial contradiz-se e é ultrapassada por sua por sua vez, essa que conserva da é superada pela síntese, que combina elementos das duas primeiras, num progressivo enriquecimento. A dialética hegeliana não é um método, mas um movimento, con- junto do pensamento e da realidade. Segundo Hegel, a história da humanidade cumpre uma trajetória dialética que é marcada por três momentos: tese, antitese e síntese. O primeiro vai das civilizações orientais antigas até o surgimento da Filosofia na Grécia. Hegel o classifica como objetivo, porque considera que o espírito está imerso na natureza. segundo é influenciado pelos gregos, mas começa efetivamente com o cristianismo e termina com Descartes (1596-1650). É um momento subjetivo, no qual o espírito toma consciência de sua existência e surge o desejo de liberdade. terceiro, ou a síntese absoluta, acontece a partir da Revolução Francesa, quando o consciente controla a natureza e o desejo de liberdade se concretiza na concepção do Estado moderno. Dialética marxista Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) reformam o conceito hegeliano de dialética; utilizam a mesma forma, mas introduzem um novo conteúdo; chamam essa nova dialética de materialista (ver Materia- lismo), porque o movimento histórico, para eles, é derivado das condições materiais da vida. A dialética mate- rialista analisa a história do ponto de vista dos processos econômicos e sociais, e, a divide em quatro momentos: feudalismo, capitalismo e socialismo. Cada um dos três primeiros é superado por uma contradição interna, que eles chamam de "germe da destruição". A contradição da Antiguidade é a escravidão; do feudalismo, os servos; e do capitalismo, o proletariado. E o socialismo seria a sintese final, em que a História cumpre seu desenvolvimento dialético. CURSO DE TEOLOGIA 23</p><p>MÓDULO 10 1 FILOSOFIA GERAL 7 EMPIRISMO Nome genérico das doutrinas filosóficas em que o conhecimento é visto principalmente como resultado da experiência sensível. De modo geral, limita o conhecimento à vivência, só aceitando verdades que possam ser comprovadas pelos sentidos, por isso, rejeita os enunciados metafísicos (ver baseados em conceitos que extrapolam o mundo devido à impossibilidade de teste ou controle. A noção de gravidade, por exem- plo, faz parte do mundo sensivel, enquanto o conceito de bem é do mundo metafísico. empirismo provoca uma revolução na ciência, a partir da valorização da experiência, o conhecimento cien- tífico, que antes contentava-se em contemplar a natureza, passa a querer dominá-la, buscando resultados práticos. O inglês Francis Bacon (1561-1626) é o precursor do empirismo moderno; teoria e experiência. John Locke (1632-1704), também inglês, funda a escola empirista, considerada a segunda mais importante da Filo- sofia moderna a primeira é o cartesianismo. Apesar de partir do cartesianismo, Locke discorda de Descartes sobre a existência de idéias inatas, nascidas com o do tipo "penso, logo existo". Locke defendeu que as experiências formam as idéias em nossa mente, no seu livro Ensaio acerca do entendimento humano, de 1690; na introdução, ele escreve que "só a experiência preenche o com idéias". Para argumentar a favor, Locke critica o conceito de que já existem idéias em nossa mente (idéias inatas). Ele procura demonstrar que qual- quer idéia que temos não nasce conosco, mas se inicia na experiência. Experiência, para Locke, não são as experiências de vida. Experiência para ele são as nossas sensações (sen- tidos). Ouvimos, enxergamos, tocamos, saboreamos e cheiramos; cada um dos cinco sentidos leva informações para nosso cérebro. Quando nascemos não sabemos o que é uma maçã, mas formamos a idéia de maçã a partir dos sentidos: Vemos a sua cor, sentimos o seu aroma, tocamos sua casca e mordemos a fruta. Cada uma dessas sensações simples forma em nossa mente a idéia de maçã. A partir da sensação, há a Dessa forma, nos- sas idéias são um reflexo daquilo que nossos sentidos perceberam do mundo. Com essa constatação, Locke afirma que, ao nascermos, somos como uma folha em branco. São, então, os sentidos responsáveis pelo preenchimento dessa folha. Para confirmar sua teoria, o filósofo antecipa futuras críticas. Entre as possibilidades de existe o argumento de que somos capazes de ter idéias de coisas que nunca foram percebidas pelos nossos sentidos. Locke argumenta contra este tipo de crítica, pois mesmo idéias de seres mitológicos como sereias, e faunos são apenas junções de idéias que já tivemos anteriormente. Uma sereia é a união da idéia de mulher e peixe. Um é a união da idéia de cavalo com a de chifre. Um fauno é a mistura de homem com bode. Não há nada nessas idéias que não tenha sido conhecida previamente. Até mesmo a idéia recente de alienígenas nada mais é do que a idéia de um homem deformado (com cabeça e olhos maiores, corpo pequeno etc...). Depois de Locke, o empirismo britânico conheceu a reformulação feita pelo irlandês George Berkeley (1685- 1753). Para ele, o que conhecemos do mundo não é realmente o que o mundo é. mundo não é que percebe- mos dele. Podemos perceber o mundo através dos sentidos, mas não conhecê-lo de Mais radical do que o empirismo de Berkeley está o que pensou David Hume (1711-1776), natural de Edim- burgo, Escócia. De acordo com Hume, só existe o que percebemos. Todas as relações que fazemos entre o que conhecemos não são conhecimentos verdadeiros. Podemos conhecer uma bola e podemos conhecer um pé, po- rém, se chutamos uma bola não há nada que confirme que a bola se move porque foi o pé que a moveu. Com isto, Hume critica as ciências, pois trabalham com a idéia de causa e efeito, Essa relação de causalidade (causa-efeito) 24 CURSO DE TEOLOGIA</p><p>MÓDULO 10 I FILOSOFIA GERAL é uma relação entre idéias e, portanto, não é verdadeira. Tudo o que pensamos ser verdadeiro, como a causa do movimento da bola, é imaginação. Para o empirismo contemporânco, também chamado de positivismo lógico, representado pelo austríaco Lu- dwig Wittgenstein (1889-1951), a Filosofia deve limitar-se à análise da linguagem científica, expressão do co- nhecimento baseado na experiência. VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM 1) Por que o Empirismo rejcita os enunciados Metafísicos? 2) Em que o inglês John Locke discorda do cartesianismo? 3) Quais são as idéias de George Berkeley? CURSO DE TEOLOGIA 25</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 8 ÉTICA homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: "Como devo agir perante os outros?". Trata-se de uma pergunta fácil de ser formulada, mas difícil de ser respondida. Ora, esta é a questão central da Moral e da A palavra "ética" vem do grego "ethos" que significa costume, ou seja, ética é a ciência dos costumes, que tem como objeto, a moral. Moral vem do latim "mores" que tem o mesmo sentido de costumes, apesar de ser considerada uma Podemos concluir dizendo que ética é a área da Filosofia que estuda os valores morais, reflete sobre o bem e o mal, o que é certo ou errado e procura responder, por exemplo, se os fins justificam os meios ou os meios justificam os fins. A partir de Sócrates, a Filosofia, que antes estudava a natureza, passa a se ocupar de problemas relativos ao valor da vida, ou seja, das virtudes. primeiro a organizar essas questões é o filósofo grego Aristóteles. Em sua obra, entre outros pontos, destacam-se os estudos da relação entre a ética individual e a social, e entre a vida teó- rica e a prática. Ele também classifica as virtudes. A justiça, a amizade e os valores morais derivam dos costumes e servem para promover a ordem política. A sabedoria e a prudência estão vinculadas à inteligência ou à razão. 8.1 ÉTICA Na Idade Média, predomina a ética cristã, baseada no amor ao próximo, que incorpora as noções gregas de que a felicidade é um objetivo do homem, e a prática do bem constitui um meio de atingi-la. Os filósofos cristãos partem do pressuposto de que a natureza humana tem um destino predeterminado e de que Deus é o princípio da felicidade e da virtude. Entre a Idade Média e a modernidade, o italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527) provo- ca uma revolução na ética ao romper com a moral cristã, que os valores espirituais como superiores aos políticos. Defende a adoção de uma moral própria em relação ao Estado, O que importa são os resultados, e não a ação política em si, Por isso, considera legítimo o uso da violência contra os que se opõem aos interesses es- tatais. Maquiavel influencia o inglês Thomas Hobbes (1588-1679) e o holandês Benedito Spinoza (1632-1677), pensadores modernos extremamente realistas no que se refere à ética. Nos séculos XVIII e XIX, o francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e os alemães Immanuel Kant (1724- 1804) e Friedrich Hegel (1770-1831) são os principais filósofos que discutem a Segundo Rousseau, o homem é bom por natureza, e seu espírito pode sofrer um aprimoramento quase ilimitado. Para Kant, ética é a obrigação de agir segundo regras universais com as quais todos O reconhecimento dos outros ho- mens é o principal motivador da conduta individual. Hegel transforma a ética em uma Filosofia do Ele a divide em ética subjetiva, ou pessoal, e ética objetiva, ou social. A primeira é uma consciência de dever, e a segunda é formada pelos costumes, pelas leis e normas de uma sociedade. O Estado, para Hegel, reúne esses dois aspectos numa "totalidade ética". 26 CURSO DE TEOLOGIA</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 8.2 ÉTICA Na Filosofia contemporânea, os princípios do liberalismo influenciam o conceito de ética, que ganha traços de moral utilitária. Os indivíduos devem buscar a felicidade e, para isso, fazer as melhores escolhas entre as alternativas existen- tes. Para o filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970), a ética é subjetiva. Não contém afirmações verdadeiras ou falsas. É a expressão dos desejos de um grupo. Mas Russell diz que o homem deve reprimir certos desejos e reforçar outros, se pretende atingir a felicidade ou o equilíbrio. VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM 1) O que é ética? 2) Em qual época a ética ganhou mais terreno? CURSO DE TEOLOGIA 27</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 9 FENOMENOLOGIA Tomada em sentido etimológico, o termo "fenomenologia" provém de duas palavras gregas, "phainome- non e "logos". Assim, seu sentido primário é ciência ou estudo dos A amplitude deste sentido per- mite identificar a fenomenologia com a própria investigação filosófica, uma vez que esta deve, necessariamente, partir disso que se apresenta dos fenômenos, de modo a conferir-lhes uma unidade de sentido. O termo fenomenologia foi empregado em várias acepções, por vários pensadores, ao longo da história da filosofia. Assim, no século XVIII, Lambert denomina fenomenologia como: "A investigação que visa distinguir entre verdade e aparência, de modo a destruir as ilusões que com se apresentam ao pensamento. Esta investigação é afirmada como o fundamento de todo saber empírico". Para Kant, fenomenologia é o nome da ciência que estuda a matéria enquanto objeto possível da experi- ência. Este filósofo postula, ainda, a necessidade de uma "phenomenologia generalis", que trace a distinção entre os âmbitos sensíveis e Hegel denomina "fenomenologia do a ciência do movi- mento da consciência, que parte da consciência sensível e alcança, após vários estágios, a consciência de si, esta caracterizada como um saber absoluto. Para Peirce, a fenomenologia constitui uma das partes constituintes da filosofia, e compreende o estudo dis- SO que se apresenta de qualquer modo à mente, independente de qualquer correspondência à realidade. Contudo, a fenomenologia ganhou um novo e rigoroso direcionamento no pensamento de Edmund Husserl, de maneira tal que o sentido atualmente vigente deste termo liga-se, por ao significado que lhe outorgou este autor. Fenomenologia husserliana é um método que visa encontrar as leis puras da consciência intencional. A in- tencionalidade é o modo próprio de ser da consciência, uma vez que não há consciência que não esteja em ato, dirigida para um determinado objeto. Por sua vez, todo objeto somente existe enquanto apropriado por uma consciência. "Sujeito" "objeto" constituem, para esta concepção, dois pólos de uma mesma Contudo, é preciso encontrar um procedimento que faça ver a estrutura integral da consciência. A fenome- nologia consiste, pois, em apresentar as coisas nelas ela deve alijar todos os pressupostos de conhe- cimento, a fim de apreender a consciência em seu puro caráter fenomenal. Para realizá-lo, ela parte do processo de redução (em grego, este consiste cm o mundo entre parêntesis, liberando, assim, o puro Este se manifesta, assim, de maneira dupla: como redução eidética, que faz aparecer à apreensão, pela consciência, de essências puras, unidades ideais formadoras de sentido. Assim, o que é visado pela consci- ência se manifesta em seu âmbito essencial, como sentido. segundo momento deste processo é o da redução transcendental, em que a própria existência da cons- ciência é posta entre parêntesis. Voltando sobre si própria, a consciência se apreende como eu puro ou transcen- dental, que confere sentido a toda experiência de egoidade Vários autores posteriores a Husserl voltaram a tratar da fenomenologia. Entre eles, podemos citar: Max Scheler, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty. Contudo, por maiores que sejam as diferenças entre estas concep- ções, seu fundamento continua sendo o pensamento husserliano. CURSO DE TEOLOGIA 28</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 10 IDEALISMO Tendência filosófica que reduz toda a existência ao pensamento. Opõe-se ao realismo, que afirma a existência dos objetos independentemente do pensamento. No absoluto, o ser é reduzido à consciência. No decorrer da história da Filosofia, o idealismo apa- rece sob formas menos radicais ele não nega categoricamente a existência dos objetos no mundo, mas reduz o problema à questão do conhecimento. idealismo toma como ponto de partida para a refiexão filosófica o sujeito, e não o mundo exterior. O idealismo metódico de Descartes é uma doutrina racionalista que, colo- cando em dúvida todo o conhecimento estabelecido, parte da certeza do pensar para deduzir, através da idéia da existência de Deus, a existência do mundo material. idealismo dogmático surge com Berkeley (1685-1753), criador da doutrina que considera que a re- alidade do mundo exterior só é justificada pela sua existência anterior na mente divina ou na mente humana. Para ele, "ser é ser percebido". Immanuel Kant formula o idealismo transcendental, no qual o objeto é algo que existe apenas em uma relação de conhecimento. Ele distingue, portanto, o conhecimento que temos dos objetos, sempre submetidos a modos especificamente humanos de conhecer, como as idéias de espaço tempo, dos objetos em si, que jamais poderão ser conhecidos. Na Literatura, o romantismo adota boa parte dessas Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) e Friedrich Von Schelling (1775-1854) desenvolvem esse conceito e tornam-se expoentes do idealismo alemão pós-kantiano. Eles conferem às idéias de Kant um sentido mais subjetivo e menos crítico; des- consideram a noção da coisa em si e toma o real como produto da consciência humana. Friedrich Hegel emprega o termo idealismo absoluto para caracterizar sua metafísica. Ao considerar a realidade como um processo, Hegel discute o desenvolvimento da idéia pura (tese), que cria um objeto oposto a si - a natureza - e a supe- ração dessa contradição no espírito (síntese), isto é, a idéia que tomou consciência de si através da natureza. Esse movimento dá-se na História, até que o espírito se torne espirito absoluto, ou seja, supera todas as contradições, por meio da dialética, e vê o mundo como uma criação sua. CURSO DE TEOLOGIA 29</p><p>MÓDULO 10 I FILOSOFIA GERAL 11 MARXISMO Doutrina filosófica, econômica, política e social formulada pelos filósofos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), entre 1848 e 1867. O pensamento marxista tem como fontes principais o idealis- mo alemão, cujo apogcu é marcado por Friedrich Hegel (1770-1831); o materialismo filosófico francês do século XVIII; e a economia política inglesa do começo do século XIX. Para o marxismo, a característica central de qual- quer sociedade está no modo de produção (escravista, feudal ou capitalista), que varia de acordo com a História e determina as relações sociais. Através do processo produtivo, os homens produzem as próprias condições de sua existência. A História seria, então, o resultado das lutas entre os interesses das diferentes classes sociais. Esse conflito só desapareceria com a instalação da sociedade comunista, concebida como igualitária e justa. Nela, o Estado é abolido, não há divisão social nem exploração do trabalho humano e cada indivíduo rece- be recompensas de acordo com sua capacidade e necessidade. Segundo o marxismo, o capitalismo é um sistema no qual a burguesia concentra o capital e os meios de produção (instalações, máquinas e matérias-primas), e explora o trabalho do proletariado, mantendo-o numa situação de pobreza e alienação. Por estar baseado nessa característica contraditória, a de explorar o seu próprio alicerce - a classe trabalhadora -, o sistema prepara o caminho para a sua própria destruição. O capitalismo levaria a luta de classes a um ponto crítico, em que o pro- letariado, privado de sua liberdade por meio da contínua exploração, acabaria por se unir. A derrota da burguesia coincidiria, assim, com a instalação do comunismo. CURSO DE TEOLOGIA 30</p><p>MÓDULO 10 I FILOSOFIA GERAL 12 MATERIALISMO Doutrina filosófica que admite como realidade apenas a matéria. Nega a existência da alma e do mundo espiri- tual ou divino. Formulada pela primeira vez no século a.C., na Grécia. Ganha impulso no século XVI, quando assume diferentes formas. Para os gregos, os fenômenos devem ser explicados não por meio de mitos religiosos, mas pela observação da realidade. A matéria é a substância de todas as A geração e a degeneração do que existe obedecem a leis A matéria encontra-se em permanente metamorfose. A alma faz parte da natureza e obedece às suas leis. Essas teses desenvolvidas pelos gregos são à base de todo o materialismo posterior. O empirismo inglês e o cartesianismo francês são essencialmente materialistas. No século XVIII, os franceses Julien de La Mettrie (1709-1751), os pensadores da Enciclopédia e Holbach (1723-1789) lançam o materialismo filosófico, doutrina de inspiração anti-religiosa que considera o homem uma máquina e nega a existência da alma, em oposição ao espiritualismo. No século XIX, surge na Alemanha o materialismo científico, que substitui Deus pela razão ou pelo homem, prega que toda explicação científica é de ordem psicoquímica e que o pensamento é apenas um produto do cérebro. Seus principais formuladores são Karl Vogt (1817-1895), Louis Büchner (1824-1890) e Ludwig Feuerbach (1804-1872). marxismo baseia-se numa concepção materialista da história denominada materialismo histórico por Friedrich Engels (1820-1895) pela qual a história do homem é a da luta entre as diferentes classes sociais, determinada pelas relações eco- nômicas da época. O materialismo dialético é constituído como doutrina por (1870-1924) e recebe este nome porque sua teoria é materialista e seu método, a dialética. No início do século XX, as idéias de pensadores como Richard Avenarius (1843-1896), Ernst Mach (1838-1916) e Wilhelm Ostwal (1855-1932) dão surgimento ao materialismo energetista, teoria mais filosófica que científica, pela qual espírito e matéria são apenas formas da energia que constituem a realidade. CURSO DE TEOLOGIA 31</p><p>MÓDULO FILOSOFIA GERAL 13 PLATONISMO Nome dado às teorias do filósofo grego Platão e de seus discípulos. Platão foi seguidor de Sócrates, que propositalmente nunca escreveu seus pensamentos. O método de investigação filosófica empregado por Sócrates é a dialética por meio do diálogo, dois ou mais interlocutores buscam esgotar um tema, aproxi- mando-se ao máximo de sua essência. Platão procura compatibilizar a filosofia socrática com a necessidade de uma vida política. A Teoria das idéias é a parte central do pensamento platônico. Segundo ela, existe uma esfera superior ao mundo físico, onde estão as idéias puras. É o mundo inteligível e espiritual formado por conceitos puros, como o bem, a beleza e a justiça que é a causa primária de tudo. Esse mundo é real e o mundo sensível é apenas uma cópia dele. Alma dividida Antes de encarnar, as almas viviam nessa esfera superior, a origem das idéias inatas que, com maior ou menor clareza, todos os homens possuem. método dialético consiste, por meio do diálogo, lembrar o humano dessas reminiscências e elevar o conhecimento do mundo sensível para o mundo inteligível. Platão cria a imagem da alma dividida em três: razão, emoção e instintos. E diz que a razão é quem deve comandar as outras duas partes nesse processo de elevação. Em 387 a.C., Platão funda a "Academia", uma escola para formar filósofos. Ela dura até 529 da era cristã, quando o imperador romano Justiniano ordena que se fechem todas as escolas pagãs de Durante o helenismo, o platonismo ganha grande importância e, no século surge o neoplatonismo, que dá uma interpretação e espiritualista às doutrinas. Por isso, influencia o pensamento do cristianismo durante toda a Idade Média. Reestudado durante o Renascimento e combatido durante a Idade Moderna, principalmente pelo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), o platonismo e as questões por ele tratadas permanecem na base de várias escolas filosóficas 13.1 A REPÚBLICA DE PLATÃO Os estudiosos do pensamento filosófico concordam em afirmar que A Republica é a obra mais importante de Obra de caráter político, A Republica é uma utopia criada por Platão; um Estado ideal que deveria ser governado por homens justos, sábios e Para ele, homem capaz de reunir essas qualidades seria filósofo. Ele mesmo teve a oportunidade de fazer a experiência, por três vezes, todas fracassadas, como conse- do tirano Dionísio, na cidade de Siracusa, sul da Itália, que fazia parte, na época, da Magna Grécia, ou império Grego que abrangia grande parte das costas mediterrâneas, desde a própria Grécia, norte da África, sul da Itália, chegando até a Espanha. Em A Republica, Platão passa em revista todos os sistemas de governo existentes na época e analisa, sobre- tudo, a aristocracia, a oligarquia, a democracia e a ditadura que ele chama de tirania. Seu pensamento, na cria- ção de seu Estado ideal ou perfeito, segue uma tríplice direção: a produção, a defesa, a administração da coisa publica. sistema produtivo abrange agricultura, indústria e comércio. terceiro eixo é o próprio governo que administra os bens do Estado e viabiliza a comercialização, mediante leis justas e pertinentes. Para que a socie- dade produza e cresça em harmonia e paz, é necessário constituir e manter um grupo de defensores do Estado e do povo, o exército, que deverá manter a harmonia e a paz contra as ameaças de inimigos internos e externos. CURSO DE TEOLOGIA 32</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL Para estabelecer esse Estado ideal, virtudes e qualidades são fundamentais. Platão se delonga em anali- sar as qualidades físicas, morais e intelectuais do cidadão, do guerreiro e do chefe de Estado. Critica vícios existentes nas sociedades e nos governos da época, condena atos e modos de vida que levam à degradação da sociedade, do exército e da cúpula de governo. A vícios e erros, virtudes, qualidades e a ma- neira ideal de agir, de se comportar, de conduzir, de guerrear, de governar em seu Estado ideal ou em sua republica utópica. Ele mesmo reconhece que sua republica é uma utopia, que provavelmente jamais haveria de ser implantada em lugar algum do mundo, nem por isso, contudo, deixa de demonstrar de modo convicto que esse seria o caminho para uma sociedade perfeita. CURSO DE TEOLOGIA 33</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 14 POSITIVISMO Corrente de pensamento fundada na França por Auguste Comte (1798-1857). termo identifica a Filosofia bascada nos dados da experiência como a única verdadeira. O positivismo busca seus fundamentos na ciência e na organização técnica e industrial da sociedade moderna. O método é o único válido para se chegar ao conhecimento. Reflexões ou juízos que não podem ser comprovados pelo método científico, como os postulados da metafísica, não levam ao conhecimento e não têm valor. Entre suas formulações principais, está a que considera que as sociedades humanas passam por três estágios, ao longo de sua evolução: primeiro é o mitológico, típico das comunidades primitivas. O segundo é o teológi- co, existente naquelas sociedades que se estruturam em torno de grandes como a cristandade medieval. último estágio é o moderno, no qual as organizações sociais ancoram-se sobre bases racionais e científicas, ou positivas, como as sociedades industriais contemporâneas. "Discurso sobre o Espírito Positivo, de Auguste Comte" "O verdadeiro espírito positivo não está menos afastado, no fundo, do empirismo do que do misticismo. É entre essas duas aberrações, igualmente funestas, que se deve sempre caminhar. A necessidade de tal atitude de reserva continua tão difícil como importante, bastaria, aliás, para verificar, conforme as nossas explicações ini- ciais, quanto à verdadeira positividade deve ser maduramente preparada, de maneira a não poder de modo algum convir ao estado nascente da Humanidade. Nas leis dos fenômenos consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, em que pese a sua exatidão e a seu número, não forneccm mais do que os materiais indispen- sáveis. Ora, considerando a destinação constante dessas leis, pode-se dizer, sem exagero algum, que a verdadeira ciência, longe de ser formada por simples observações, tende sempre a dispensar, quanto possível, a exploração direta, substituindo-a por essa previsão racional que constitui, sob todos os aspectos, o principal caráter do espí- rito positivo, como o conjunto dos estudos astronômicos nos fará sentir claramente. Tal previsão, necessária das relações constantes descobertas entre os fenômenos, não permitirá nunca confundir a ciência real com essa erudição, que acumula maquinalmente fatos sem aspirar a deduzi-los uns dos outros. Esse grande atributo de todas as nossas especulações sadias não interessa menos à sua utilidade efetiva do que à sua própria dignidade; pois a exploração direta dos fenômenos acontecidos não bastará para nos permitir modificar-lhes o acontecimento, se não nos conduzisse a prevê-los convenientemente. Assim, o verdadeiro espírito positivo con- siste, sobretudo, em ver para prever, em estudar o que é, a fim de concluir disso o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais". CURSO DE TEOLOGIA 34</p><p>MÓDULO 10 I FILOSOFIA GERAL 15 RACIONALISMO Doutrina que afirma que tudo que existe tem uma causa inteligível, mesmo que não possa ser demonstrada de fato, como a origem do Universo. Privilegia a razão em detrimento da experiência do mundo sensível como via de acesso ao conhecimento. Considera a dedução como o método superior de investigação filosófica. René Descartes, Spinoza e Leibniz introduzem o racionalismo na filosofia moderna, segundo Friedrich Hegel. O ra- cionalismo é baseado nos princípios da busca da certeza e da demonstração, sustentados por um conhecimento a priori, ou seja, a razão. Na passagem do século XVIII para o XIX, Immanuel Kant revê essa tendência de associar o pensamento à análise pura e simples e inaugura o neo-racionalismo. A nova doutrina aceita os conceitos sustentados pela ra- mas identifica a necessidade de relacioná-los aos dados da experiência, ou da razão prática, como forma de ampliar o conhecimento. racionalismo dos séculos XVII e XVIII influencia a religião e a ética até hoje. Está presente nas várias seitas do protestantismo, que dispensam a autoridade e a revelação religiosa em virtude dos princípios da existência a priori de Deus. Influencia, também, a conduta moral que atribui à razão e aos princi- pios inatos de bondade, entre outros, a capacidade humana de se bem conduzir. CURSO DE TEOLOGIA 35</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 16 ESCOLA DE FRANKFURT Grupo de filósofos e pesquisadores alemães que, na década de 20, dedica-se a reflexões e críticas sobre a ra- zão, a ciência e o avanço do capitalismo. Consideram a racionalidade tecnológica do mundo moderno uma nova forma de dominação cultural. O grupo, que divulga suas idéias na Revista de Pesquisa Social, desenvolve várias teorias e conceitos, como a Teoria da Manipulação, elaborada para explicitar os mecanismos de dominação na Alemanha. Influenciado pelas idéias de Karl Marx (1818-1883) e Max Weber (1864-1920), contrapõe-se ao iluminismo e ao funcionalismo de Émile Durkheim (1858-1917), que concebe a sociedade como um organismo com funções específicas, desconsiderando o processo histórico. Expressão da teórica e política do século XX, a Escola de Frankfurt está inserida na conjuntura política dos anos 30, quando surge a república de Weimar, o nazismo e o stalinismo. Com a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha, em 1933, a Escola de Frankfurt transfere-se para Genebra, depois para Paris e, finalmente, para Nova York. A partir da vitória dos aliados na Guerra Mundial (1939-1945), os principais filósofos retornam à Alemanha, em 1950, e reorganizam o Instituto de Pesquisas So- ciais. Entre os pesquisadores vinculados ao grupo de Frankfurt, destacam-se Walter Benjamin (1892-1940), The- odor Adorno (1903-1969) e Max Horkheimer (1895-1973). Junta-se a eles, posteriormente, Jürgen Habermas (1929-), responsável pela difusão da Teoria Crítica (conjunto de textos dos principais filósofos frankfurtianos). A idéia de deixar a ciência mais acessível à sociedade e, assim, favorecer a reflexão coletiva marca trabalho des- ses pensadores. Suas idéias influenciam os movimentos estudantis alemães e norte-americanos no final dos anos 60. Walter Benjamin discute a arte e a cultura do século XX. Em "A Obra de Arte" na Época de sua Reprodutibi- lidade Técnica, reflete sobre a perda da aura, aquilo que faz do objeto de arte algo único e A obra de Horkheimer volta-se para a investigação das características da sociedade capitalista e para questões como a legitimidade do Estado e a luta de classes. Entre seus escritos estão "Um Novo Conceito de Ideologia", "O Pro- blema da Moral" e "Teoria Tradicional e Teoria Critica". Theodor Adorno, autor de "Idéias para a Sociologia da dissemina o conceito de Indústria Cultural, que diz respeito aos bens (produtos) culturais difundidos pelos meios de comunicação de massa, que impõe formas de comportamento e consumo. Segundo Adorno, a in- dústria cultural caracteriza-se pela exploração comercial e a vulgarização da cultura, produzindo entretenimento e não reflexão. Uma de suas principais obras é "Dialética do em co-autoria com Horkheimer. CURSO DE TEOLOGIA 36</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL 17 DOGMATISMO Termo usado pela Filosofia e pela religião, dogmatismo (do grego, dogmatikós, que se funda em princípios) é toda doutrina ou atitude que afirma a capacidade do homem de atingir a verdade absoluta e Na religião, corresponde ao conjunto de dogmas - crenças que não admitem contestação considerado a palavra de Deus. Na Filosofia, é o pensamento contrário à corrente do ceticismo, que contesta a possibilidade de conheci- mento da verdade. dogmatismo filosófico pode ser entendido de três formas: a possibilidade de se conhecer a verdade, a confiança nesse conhecimento e a submissão a essa verdade, sem questionamentos. Desde a Antiguidade, existem filósofos dogmáticos - como Parmênides (515 a.C.-440 a.C.), Platão e Aristó- teles; e céticos, que se recusam a crer nas verdades estabelecidas. No século XVIII, o dogmatismo racionalista prega a confiança na razão depois de submetê-la à experiência. Com Immanuel Kant, o termo adquire novo sen- tido. Em "Critica da Razão Pura", o filósofo faz uma oposição entre o criticismo - doutrina que estuda as con- dições de validade e os limites do uso da razão -, o dogmatismo e o empirismo, que se diferencia daqueles por reduzir o conhecimento à experiência. Para Kant, o dogmatismo é "toda atitude de conhecimento que consiste em acreditar na posse da certeza ou da verdade antes de fazer a crítica da faculdade de conhecer". O antagonismo entre dogmatismo e ceticismo aparece também na obra de Auguste Comte, que considera que a vida humana existe em estado dogmático ou estado céptico. Este último, segundo ele, não é mais do que uma passagem de um dogmatismo anterior a um novo dogmatismo. Para os filósofos de tradição marxista, o termo dogmático é usado para a tendência de se manter uma teoria com fórmulas estereotipadas, tirando-a da prática e da análise concreta. Segundo Friedrich Engels, "o marxismo não é um dogma, mas um guia para a ação". CURSO DE TEOLOGIA 37</p><p>MÓDULO 10 FILOSOFIA GERAL REFERÊNCIAS BOCHENSKI, Joseph, M. A filosofia contemporânea. Ed. São Paulo, 1962. BRÉHIER, História da Filosofia. São Paulo, Mestre Jou, 1977 MONDOLFO, pensamento antigo. São Paulo, Ed. Atica, 1991. ARANHA, Maria Lúcia de. Introdução à filosofia. 1 edição, São Paulo, ed. Moderna, 1996. CASSIRER, Ernst. Antropologia Filosófica. São Paulo, mestre Jou, 1972. GARCÍA MORENTE, Manuel. Fundamentos de filosofia, lições preliminares. 2 edição. São Paulo, mestre Jou, 1997. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo, mestre Jou, 1980. NETO, Henrique Filosofia básica, São Paulo, ed. Atual, 1989. COELHO, José Texeira Neto. A construção no sentido filosófico, São Paulo, ed. Perspectiva, 1989. CURSO DE TEOLOGIA 39</p><p>faculdade betesda Moldando vocacionados AVALIAÇÃO MÓDULO X FILOSOFIA GERAL 1) Existe relação entre e Teologia e a Filosofia? Explique. 2) Como a Filosofia pode ajudar na formação de pensadores cristãos? 3) Em quantos períodos é dividida a história da Filosofia? 4) que é Metafísica? 5) Leia o tópico 2.1 e faça um breve comentário sobre o que você entendeu "primeiros princípios Metafísicos da doutrina do direito de Imannuel Kant" 6) O que é o cartesianismo? 7) O que é o ceticismo? 8) Como e Porque Aristóteles desenvolveu o conceito de lógica? 9) são os principais filósofos que desenvolveram a dialética? 10) Em que o inglês John Locke discorda do cartesianismo? 11) Como você responderia a seguinte pergunta: homem vive em sociedade, convive com outros homens e, portanto, cabe-lhe pensar e responder à seguinte pergunta: "Como devo agir perante os outros? 12) o que é fenomenologia? 13) Com que surge o idealismo dogmático? 14) Além de corrente filosófica, o que mais é o marxismo? 15) Por que os cristãos rejeitam o materialismo? 16) Quem foi Platão? 17) Onde o positivismo busca seus fundamentos? 18) O que era a escola de Frankfurt? 19) Como é usado o termo dogmatismo na religião? CARO(a) ALUNO(a): Responda cada QUESTÃO acima em folhas pautadas (com linhas) em letras de forma ou digite no computador, se preferir enviar via Tanto via correio ou via e-mail, envie-nos as 5 Avaliações desse Módulo todas juntas, de acordo com as Regras Gerais (p.6): Via Correio: CAIXA POSTAL 12025 - CEP 02046-010 SÃO PAULO/SP Via E-mail: Em caso de dúvidas ligue para nosso SAA Serviço de Atendimento Aluno.</p><p>SOCIOLOGIA GERAL</p><p>SUMÁRIO DEFINIÇÃO DE SOCIOLOGIA 47 1. PRIMEIROS ENSAIOS 49 2. TEÓRICOS INICIAIS 51 2.1 AUGUSTE COMTE 51 2.2 EMILÉ DURKHEIM 53 2.3 KARL MARX 55 2.4 MAX WEBER - VIDA E OBRA 56 3. SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO 60 3.1 CRISTÃO EM UMA SOCIEDADE NÃO 61 3.2 RELIGIÃO NO BRASIL 62 4. SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO 66 4.1 IMPORTANCIA DA SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO 66 4.2 OBJETIVOS DA SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO 67 4.3 APLICANDO SOCIOLOGIA NA EDUCAÇÃO 67 4.4 EDUCAÇÃO E ESCOLA 67 4.5 EDUCAÇÃO E A SOCIEDADE 68 4.6 EDUCAÇÃO, EDUCANDO E EDUCADOR 69 4.7 VISÃO DE EDUCAÇÃO, ESCOLA E SOCIEDADE 70 CONCLUSÃO 72 REFERÊNCIAS 73</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL DEFINIÇÃO DE SOCIOLOGIA Podemos encontrar traços de estudos do homem em sociedade nos escritos de vários pensadores antigos e modernos, mesmo daqueles que não se preocuparam especificamente com esta área. Todavia, a sociologia como ciência autônoma tem sua origem no século XIX. Auguste Comte, pensador pode ser apontado facilmen- te como o pai da sociologia, embora outros teóricos posteriores a tenham desenvolvido muito mais do que ele. homem é um ser social por natureza ou como diria Aristóteles: homem é um animal um animal da "polis", da cidade. Ele necessita de outros para sua sobrevivência, não só em termos de necessidades básicas, mas também com relação às necessidades psicológicas. A sociologia estuda o ser humano dentro de suas relações com outros scres humanos, isto pode envolver aspectos psicológicos, históricos e geográficos, porém é a soma de tudo isto que caracteriza a sociologia, sendo assim, podemos definir sociologia como "estudo dos homens em pois esta é a sua caracterização. A Sociologia é uma das ciências humanas que estuda a sociedade, ou seja, estuda o comportamento humano em função do meio, e os processos que interligam os indivíduos em associações, grupos e instituições. Enquanto o indivíduo na sua singularidade é estudado pela psicologia, a Sociologia tem uma base que serve para estudar os fenômenos sociais, tentando explicá-los, analisando os homens em suas relações de interdependência. Compreender as diferentes sociedades e culturas é um dos objetivos da sociologia. Embora em muitos aspectos a sociologia ainda esteja lutando para garantir seu lugar no rol das ciências, grandes desenvolvimentos, não apenas teóricos, mas também práticos, tem acontecido. Todas as manifestações que cercaram e cercam a sociologia ajudam a identificar sua importância e sua interferência no mundo moderno. Essa situação foi expressa de modo interessante, por Carlos Benedito Martins quando ele escreve: "A sociologia constitui um projeto intelectual tenso e contraditório. Para alguns ela representa uma poderosa arma a serviço dos interesses dominantes, para outros ela é a expressão teórica dos movimentos revolucionários. A sua posição é notavelmente contraditória. De um lado, foi proscrita de inúmeros centros de ensino. Foi fustigada, em passado recente, nas universidades brasileiras, congelada pelos governos militares argentino, chileno e outros do gênero. Em 1968, os coronéis gregos acusavam-na de ser disfarce do marxismo e teoria da revolução. Enquanto isso, os estudantes de Paris escreviam nos muros da Sorbone que "não mais problemas quando o último sociólogo fosse estrangulado com as tripas do último Como compreender as avaliações tão diferentes dirigidas com relação a esta ciência? Para esclarecer esta questão, torna-se necessário conhecer, ainda que de forma bastante geral e com algumas omissões, um pouco de sua história, isto me leva a situar a sociologia este conjunto de conceitos, de técnicas e de métodos de investigação produzidos para explicar a vida social no contexto histórico que possibilitou seu surgimento, formação e Embora nosso estudo seja apenas uma breve introdução, torna-se profundamente necessário, uma vez que a igreja é uma comunidade, ou melhor, uma sociedade inserida em outra ou outras sociedades; por isso a sociolo- gia é profundamente eficaz no entendimento do cristianismo em seu desenvolvimento histórico e em sua inser- ção dentro de um contexto social. A igreja é o "novo homem" coletivo (Ef 2.15), formada por diversos "novos homens" individuais CURSO DE TEOLOGIA 47</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL Por outro lado, vale conhecer a sociologia não como informação infalível à cerca dos assuntos, mas até como caminhos errados tomados pelas ciências sociais. marxismo, por exemplo, apresentou toda uma concepção anti-bíblica sobre o que é o homem e por causa disto falhou em seu objetivo de transformar a sociedade. Cabe a cada aluno analisar as diversas teorias sociológicas, para absorver delas o que de bom houver (ITs 5.21), a fim de realizar uma aplicação prática. Por fim, veremos a relação entre sociologia, sociedade, educação e escola, para conhecermos a importância fundamental de nosso papel como educadores cristãos, seja como professores cristãos, professores de escolas dominicais ou mesmo pregadores; somos educadores que estão continuamente influenciando a sociedade e de- terminando seus rumos para o futuro. Seria útil fazer uma leitura prévia de 1 Coríntios 12.12-31, mesmo porque alguns sociólogos desenvolveram modelos sociológicos semelhantes ao de "corpo" conforme Paulo expõe nesta e em outras passagens. Embora o pensamento da sociologia vá muito além ou até mesmo contra esta concepção, ela serve de base para compreendermos o que significa analisar o homem em sociedade. 48 CURSO DE TEOLOGIA</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL 1 PRIMEIROS ENSAIOS Podemos entender a sociologia como uma das manifestações do pensamento moderno. A evolução do pensamento científico, que vinha se constituindo desde Copérnico, passa a cobrir, com a sociologia, uma nova área do conhecimento ainda não incorporada ao saber científico, ou scja, o mundo social Surge posteriormente à constituição das ciências naturais e de diversas ciências sociais. A sua formação constitui um acontecimento complexo para o qual concorre uma constelação de circunstâncias históricas, intelectuais, e determinadas intenções práticas. O seu surgimento ocorre num contexto histórico específico, que coincide com os derradeiros momentos da desagregação da socieda- de feudal e da consolidação da civilização capitalista. A sua criação não é obra de um único filósofo ou cientista, mas representa o resultado da elaboração de um conjunto de pensadores que se empenharam em compreender as novas situações de existência que estavam em curso. Muitas das idéias básicas da sociologia podem ser remontadas aos filósofos gregos e mesmo a doutrinas antigas como o "confucionismo", a princípio não mais que uma filosofia do poder e da sociedade. Poderíamos até citar o célebre clássico "A Arte da Guerra", do chinês "Sun Tzu", como uma forma de análise sociológica da guerra. A lentidão no seu processo de formação, o surgimento de diferentes escolas com diferentes aborda- gens, as críticas e analises de sua validade e utilidade, e principalmente o fato de pertencer ao rol das ciências humanas, torna a sociologia uma ciência cm constante desenvolvimento e mudança de dire- ção. Diante de uma população mundial na casa dos bilhões e uma pluralidade de idéias e interpretações da realidade, a necessidade de compreender o homem dentro da coletividade é cada vez maior. As contribuições chegam de todos os lados, e algumas vezes se chocam, outras se complementam, e outras ainda se anulam. Tudo isso na tentativa de compreender nosso mundo Se a ciência da psique vê um mundo interior complexo e desafiador, imagine uma miríade de psiques juntas e in- teragindo permanentemente. Não se pode culpar ou condenar a sociologia pelas suas dificuldades e Ela não é, contudo, uma mera divagação teórica. Pelo contrário, ela emerge da realidade vivida e para cla se destina. Seu elemento de pesquisa são as ações concretas da coletividade e seu intento é interferir nessa coletividade. Na verdade, a sociologia, desde o seu início, sempre foi algo mais do que uma mera tentativa de reflexão sobre a sociedade moderna. Suas explicações sempre contiveram intenções práticas, um forte desejo de interferir no rumo desta civilização. Se o pensamento científico sempre guarda uma correspondência com a vida social, na sociologia esta influência é particularmente marcante. Os interesses econômicos e políticos dos grupos e das classes sociais, que na sociedade ca- pitalista apresentam-se de forma divergente, influenciam profundamente a elaboração do pensamento sociológico. CURSO DE TEOLOGIA 49</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM Capítulo 1 1) Como podemos definir sociologia? 2) Por que dizemos que a sociologia é uma ciência contraditória? 3) Que relação há entre a psicologia e a sociologia? 4) Que obra de Sun Tzu pode ser relacionada com sociologia e por quê? 50 CURSO DE TEOLOGIA</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL 2 TEÓRICOS INICIAIS Ainda que pudéssemos traçar a origem da sociologia até os filósofos gregos a partir de Sócrates, já vimos que como ciência autônoma sua origem é relativamente recente. As grandes contribuições começam com os pensa- dores iluministas e se estendem até os dias atuais. Por tratar-se de uma ciência da área de humanas, a multiplicação de escolas não é motivo de espanto. Seus primeiros pensadores tinham diante de si um objeto de estudo muito diversificado e dinâmico a sociedade. Variando de lugar para lugar e época para época, número infinito de coletividades e a variabilidade entre elas é fator que torna a sociologia sempre sujeita a novas visões, novos métodos, novas teorias e mesmo novas apli- cações dessa ciência. Esses iniciadores nada mais fizeram do que lançar fundamentos sobre os quais os cientistas sociais pode- riam começar a trabalhar. Suas propostas também tornaram a sociologia uma ferramenta de grande ajuda para o entendimento da história, da política, da economia e mesmo da psicologia. Sem essas idéias básicas propostas inicialmente, sem os roteiros fornecidos pelos mesmos, não haveria o desenvolvimento atual dessas Se porventura algumas das parecerem obsoletas ou simplistas, isso se dará simplesmente porque estamos diante das idéias iniciais ligadas à sociologia. Ainda assim a envergadura intelectual desses homens mostrará quanto essa ciência se torna imprescindível diante de uma população mundial na casa dos e diversificada cm termos econômicos culturais. Tornou-se não apenas essencial para os currículos, mas para a própria sobrevivência humana. 2.1 AUGUSTE COMTE A sociologia como ciência distinta teve origem com Auguste Comte, fundador da corrente filosófica conheci- da como "positivismo". Sua importância para a das ciências sociais foi de fato grande, ainda que boa parte de suas idéias esteja atualmente em desuso. Em seu tempo sua influência foi extensa, haja visto, a frase "Ordem e Progresso" exposta em nossa bandeira fazer parte da visão geral do Positivismo. Auguste Comte nasceu em Montpellier, França, em 19 de janeiro de 1798, filho de um fiscal de impostos. Suas relações com a família foram sempre tempestuosas e contêm elementos explicativos do desenvolvimento de sua vida e talvez até mesmo de certas orientações dadas às suas obras, sobretudo em seus últimos anos. Freqüen- temente, com a idade de anos, em 1814, Comte ingressou na Escola Politécnica de Paris, fato que teria significativa influência na orientação posterior de seu pensamento. Em carta de 1842 a John Stuart Mill (1806- 1873), Comte fala da Politécnica como a comunidade verdadeiramente científica, que deveria servir como modelo de toda educação superior. A Escola Politécnica tinha sido fundada em 1794, como fruto da volução Francesa e do desenvolvimento da ciência e da técnica, resultante da Revolução Industrial. Embora per- manecesse por apenas dois anos nessa escola, Comte ali recebeu a influência do trabalho intelectual de cientistas como o físico Sadi Carnot, (1796-1832), o matemático Lagrange (1736 -1813) e o astrônomo Pierre Simon de Laplace (1749-1827). importante foi à influência exercida pela Mecânica Analitica de Lagrange: nela Comte teria se inspirado para vir a abordar os princípios de cada ciência segundo uma perspectiva histórica. Um ano depois de sair da Escola Politécnica, em Comte tornou-se secretário de Saint-Simon (1760 1825), do qual receberia profunda influência. Essa íntima ligação intelectual foi extremamente proveitosa para CURSO DE TEOLOGIA 51</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL Comte, pois acclerou seu processo de desenvolvimento. Terminou, contudo, de maneira tempestuosa, como acontecia com quase todas as suas relações pessoais. e Saint-Simon eram de temperamentos muito diferentes para que pudessem trabalhar juntos durante muito tempo; o rompimento ocorreu quando o discípulo começou a sentir-se independente do mestre, discordando de suas idéias sobre as relações entre a ciência e a reorganização da sociedade. Comte não aceitava o fato de Saint-Simon, (nesse período), deixar de lado seus planos de reforma teórica do conhecimento e dedicar-se a tarefas práticas no sentido de formar uma nova elite industrial e científica, que teria como alvo a reforma da ordem social. O conflito culminou com a publicação do Plano de Trabalhos Científicos Necessários à Reorganização da Sociedade, escrito por Comte e do qual Saint-Simon discordou. Em 1838, as relações com a esposa pioraram sensivelmente até a completa separação cm 1842. Dois anos após separar-se de Comte publicou o "Discurso sobre o Espirito ao mesmo tempo em que perdeu o posto de examinador de admissão na Escola A exclusão definitiva da Escola resultou, sobretudo, das críticas aos matemáticos, feitas no prefácio do último volume do "Curso de Filosofia Positiva", editado em 1842. Auguste Comte afirmava ter chegado tempo de os biólogos e sociólogos ocuparem o primeiro posto no mundo intelectual. Os últimos anos de sua vida transcorreram em grande solidão e desencanto, sobretudo por ter sido abando- nado por Littré; seu mais famoso discípulo não concordava com a idéia de uma nova Auguste Comte faleceu no dia 5 de setembro de 1857. Comte e a Sociologia da filosofia de Comte radica na idéia de que a sociedade só pode ser convenientemente reorganizada através de uma completa reforma intelectual do homem. Com isso, distingue-se de outros filósofos de sua época como Saint-Simon e Fourier, preocupados também com a reforma das instituições, mas que prescreviam modos mais diretos para efetivá-la. Enquanto esses pensadores pregavam a ação prática imediata, Comte achava que antes disso seria necessário fornecer aos homens novos hábitos de pensar de acordo com o estado das ciências de seu tempo. Por essa razão, o sistema comteano estruturou-se em torno de três temas básicos: Em primeiro lugar, uma filosofia da história com o objetivo de mostrar as razões pelas quais, certa maneira de pensar (chamada por ele filosofia positiva ou pensamento positivo) deve imperar entre os homens. Em segundo lugar, uma fundamentação e classificação das ciências baseadas na filosofia positiva. E finalmente, uma sociolo- gia que, determinando a estrutura e os de modificação da sociedade permitisse, a reforma prática das instituições. A esse deve-se acrescentar a forma religiosa assumida pelo plano de renovação social, proposto por Comte nos seus últimos anos de vida. Em seu conceito, a sociologia estuda a sociedade, onde os seres vivos unem por laços independentes de seus organismos. A sociologia é vista por Comte como "o fim essencial de toda a filosofia positiva". Matemá- tica, astronomia, física, química e biologia atingem o estado positivo antes da sociologia, mas, permanecendo adstritas a parcelas do real, não conseguem instaurar a filosofia positiva em sua plenitude. A totalização do saber somente poderia ser alcançada através da sociologia, na qual culminaria a formulação de "um sistema verdadei- ramente indivisível, onde toda decomposição é radicalmente artificial (...), tudo relacionando-se com a Huma- nidade, única concepção completamente universal". A sociologia é entendida por Comte no mais amplo sentido da palavra, incluindo uma parte essencial da psi- cologia, toda a economia política, a ética e a filosofia da história. Da mesma forma como protesta contra a abor- dagem dos fenômenos psicológicos individuais independentemente do desenvolvimento mental da raça, Comte opõe-se também ao isolamento da política e da ética em relação à teoria geral da sociedade. Comte ressaltou ainda que os objetos das ciências sociais não devem ser tratados independentes do curso de desenvolvimento revelado pela história. Aspecto fundamental da sociologia comteana é a distinção entre a estática e a dinâmica social. A primeira es- as condições constantes da sociedade; a segunda investigaria as leis de seu progressivo desenvolvimento. CURSO DE TEOLOGIA 52</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL A idéia fundamental da estática é a ordem; a da dinâmica, o progresso. Para Comte, a dinâmica social subordina- -se à estática, pois o progresso provém da ordem e aperfeiçoa os elementos permanentes de qualquer sociedade: religião, família, propriedade, linguagem, acordo entre poder espiritual e temporal, etc. A reforma das instituições terceiro tema básico da filosofia de Comte tem seus fundamentos teóricos na sociologia que cle concebeu. A sociologia conduziria à política, cumprindo-se, assim, o desígnio que Comte sempre se propôs; de fazer da filosofia positivista um instrumento para a reforma intelectual do homem, e através desta, a reorganização de toda a sociedade. No seu modo de ver, a Revolução Francesa destruiu as instituições sociais do homem europeu que impunha-se, estabelecer uma nova ordem. A Revolução fora necessária, pensava Comte, porque as antigas instituições sociais e políticas eram ainda teológicas, não corres- pondendo, portanto, ao estado de desenvolvimento das ciências da época. A Revolução, porém, não ofereceu fundamentos para a reorganização da sociedade, por ter sido negativa e metafísica em seus pressupostos. A tarefa a ser cumprida deveria, portanto, ser a instauração do espírito positivo - na organização das estruturas sociais e políticas. Para isso, seria necessária uma nova elite científico-industrial, capaz de formular os fundamentos po- sitivos da sociedade e desenvolver as atividades técnicas correspondentes a cada uma das ciências, tornando-as bem comum. 2.2 EMILÉ DURKHEIM (Durkheim e os homens de seu tempo) Durkheim nasceu em Épinal, Departamento de Vosges, que fica exatamente entre a Alsácia e a Lorena, em 15 de abril de 1858 e morreu em 1917. De família judia, seu pai cra rabino e ele próprio teve seu período de misticis- mo, tornando-se, porém agnóstico após a ida para Paris. Aqui, no Lycée Louis-le-Grand (é um estabelecimento de ensino publico, em pleno coração do Bairro Latin, entre a Sorbonne, o Colégio da França e a faculdade de Di- reito), preparou-se para o bacharel, que lhe permitiu entrar para a "École Normale Supérieure" (escola superior normal). Bastou-lhe, pois, atravessar a praça do Panthéon para atingir a famosa rua d'Ulm, sem sair, portanto do mesmo bairro, para completar sua formação. Na Normale vai se encontrar com alguns homens que marcaram sua época. Durante os anos em que ensinou Filosofia em vários liceus da província Sens, St. Quentin, Troyes, volta seu interesse para a Sociologia. A França, apesar de ser, num certo sentido, a pátria da Sociologia, não oferecia ainda um ensino regular dessa disciplina, que sofreu tanto a reação antipositivista do fim do século como certa confusão com socialismo havia certa concepção de que a Sociologia constituía uma forma científica de socialismo. Para compensar essa deficiência específica de formação, Durkheim tirou um ano de licença (1885-86) e se dirigiu à Alemanha, onde assistiu aulas de Wundt e teve sua atenção despertada para as "ciências do de Dilthey, para o formalismo de Simmel, além de tomar direto da obra de Tönnies, que lançara sua tipologia da comunidade e sociedade. Mas é surpreendente verificar-se que, apesar de certa familiaridade com a literatura filosófica e sociológica Durkheim não chegou a tomar conhecimento da obra de Weber e foi por este desconhecido também. Em Paris é nomeado assistente de Buisson na cadeira de Ciência da Educação na Sorbonne, em 1902. Quatro anos após, com a morte do titular, assume esse cargo. Mantém a orientação laica imprimida por seu antecessor, mas cm 1910 consegue transformá-la cátedra de Sociologia que, pelas suas mãos, penetra assim no recinto tradicional da maior instituição universitária francesa, consolidando, pois o status acadêmico dessa disciplina. A sociologia de Durkheim Embora Comte seja considerado o pai da sociologia e tenha-lhe dado esse nome, Durkheim é apontado como um de seus primeiros grandes teóricos. Ele e seus colaboradores se esforçaram por emancipar a sociologia das demais teorias sobre a sociedade e como disciplina rigorosamente científica. CURSO DE TEOLOGIA 53</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL Em livros e cursos, sua preocupação foi definir com precisão o objeto, o método e as aplicações dessa nova ciência. Sociedade: um organismo em adaptação Para Durkheim, a sociologia tinha por finalidade não só explicar a sociedade como também encontrar solu- para a vida social. A sociedade, como todo organismo, apresentaria estados normais e patológicos, isto é, saudáveis e doentios. Durkheim considera um fato social como normal quando se encontra generalizado pela sociedade ou quando desempenha alguma função importante para sua adaptação ou sua evolução. Assim, afirma que o crime, por exemplo, é normal não apenas por ser encontrado em toda e qualquer sociedade e em todos os tempos, mas também por representar um fato social que integra as pessoas em torno de uma conduta valorativa, que pune o comportamento considerado nocivo. A generalidade de um fato social, isto é, sua unanimidade, é garantia de normalidade na medida que re- presenta o consenso social, a vontade coletiva, ou o acordo de um grupo a respeito de determinada questão. Diz Durkheim: "para saber se o estado econômico atual dos povos europeus, com sua característica ausência de organização, é normal ou não, no passado o que deu origem. Se estas condições são ainda aquelas em que atualmente se encontra nossa sociedade, é porque a situação é normal, a despeito dos protestos que Partindo, pois, do princípio de que o objetivo máximo da vida social é promover a harmonia da sociedade consigo mesma e com as demais sociedades, e que essa harmonia é conseguida por meio do consenso social, a "saúde" do organismo social se confunde com a generalidade dos acontecimentos. Quando um fato em risco a harmonia, o acordo, o consenso c, portanto, a adaptação e a evolução da sociedade, estamos diante de um acontecimento de caráter mórbido e de uma sociedade doente. Portanto, normal é fato que não extrapola os limites dos acontecimentos mais gerais de uma determi- nada sociedade e que reflete os valores e as condutas accitas pela maior parte da população. Patológico é aquele que se encontra fora dos limites permitidos pela ordem social e pela moral vigente. Os fatos patológicos, como as doenças, são considerados transitórios e excepcionais. Durkheim e a sociologia cientifica Durkheim se distingue dos demais positivistas porque suas idéias ultrapassaram a reflexão filosófica e chega- ram a constituir um todo organizado e sistemático de pressupostos teóricos e metodológicos sobre a sociedade. empirismo positivista, que pusera os filósofos diante de uma realidade social à ser especulada, em Durkheim, transformou-se numa rigorosa postura empírica, centrada na verificação dos fatos que poderiam ser observados, mensurados e relacionados através de dados coletados diretamente pelos cientistas. Encontramos em seus estu- dos um inovador e fecundo uso da matemática estatística e uma integrada utilização das análises qualitativa e quantitativa. Observação, mensuração e interpretação eram aspectos complementares do método durkheimiano. Para isso, Durkheim procurou estabelecer os limites e as diferenças entre a particularidade e a natureza dos acontecimentos filosóficos, históricos, psicológicos e sociológicos. Elaborou um conjunto coordenado de concei- tos e de técnicas de pesquisa que, embora norteado por princípios das ciências naturais, guiava o cientista para o discernimento de um objeto de estudo próprio e dos meios adequados para interpretá-lo. Ainda que preocupado com as leis gerais capazes de explicar a evolução das sociedades humanas, Durkheim ateve-se também às particularidades da sociedade em que vivia, aos mecanismos de coesão dos pequenos grupos e à formação de sentimentos comuns resultantes da convivência social; distinguiu diferentes instâncias da vida social e seu papel na organização social, como a educação, a família e a 54 CURSO DE TEOLOGIA</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL 2.3 KARL MARX Economista, filósofo e socialista alemão, Karl Marx nasceu em Trier em 5 de Maio de 1818 e morreu em Lon- dres a 14 de Março de 1883. Estudou na universidade de Berlim, principalmente a filosofia e formou- -se em em 1841, com a tese Sobre: "as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro". Em 1842 assumiu a chefia da redação do Jornal Renano em Colônia, onde seus artigos radical-democratas irritaram as autoridades. Em 1843, mudou-se para Paris, editando em 1844 o primeiro volume dos Anais -Franceses, órgão principal dos hegelianos da esquerda. Entretanto, rompeu logo com os líderes deste movimen- to, Bruno Baucr e Ruge. Em 1844, conheceu em Paris Friedrich Engels, foi o começo de uma amizade íntima que durou a vida toda. Foi, no ano seguinte, expulso da França, radicando-se em Bruxelas e participando de organizações clandestinas de operários e exilados. Ao mesmo tempo em que na França estourou a revolução, em 24 de feverciro de 1848, Marx e Engels publicaram o folheto "O Manifesto Comunista", primeiro esboço da teoria revolucionária que, mais tarde, seria chamada Voltou para Paris, e logo assumiu a chefia do Novo Jornal Renano em colônia, primeiro jornal diário francamente socialista. Depois da derrota de todos os movimentos revolucionários na Europa e o fechamento do jornal, cujos reda- tores foram denunciados e processados, Marx foi para Paris e dai expulso, para Londres. onde fixou residência. Em Londres, dedicou-se a vastos estudos econômicos e históricos, sendo da sala de leituras do British Museum. Escrevia artigos para jornais norte-americanos, sobre politica exterior. mas sua situação ma- terial esteve sempre muito precária. Foi generosamente ajudado por Engels, que vivia em Manchester em boas condições financeiras. Em 1864, Marx foi co-fundador da Associação Internacional dos Operários, depois chamada Internacional, desempenhando dominante papel de direção. Em 1867 publicou o primeiro volume da sua obra principal, "O Dentro da Internacional encontrou Marx a oposição tenaz dos anarquistas, liderados por Bakunin, e em 1872, no Congresso de Haia, a associação foi praticamente dissolvida. Em compensação, em 1875 Marx podia patrocinar a fundação, do Partido Social-Democrático alemão, que foi, logo depois, proibido. Não viveu bastante para assistir às vitórias eleitorais deste partido e de outros agrupamentos socialistas da Europa. Em 1867 publicou Marx o primeiro volume de sua obra mais importante: o Capital. É um livro principal- mente econômico, resultado dos estudos no British Museum, tratando da teoria do valor, da mais-valia, da acumulação do capital etc. Marx reuniu documentação imensa para continuar esse volume, mas não chegou a publicá-lo. Os volumes II e III de Capital foram editados por Engels, em 1885 e em 1894. Outros textos foram publicados por Karl Kautsky como volume IV (1904-10). Materialismo histórico Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende a explicação da história das sociedades humanas, em to- das as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infra-estrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifi- cio em si, a superestrutura, representaria as idéias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc). A propósito, Marx escreveu, na obra "A Miséria da filosofia' (1847) na qual estabelece polêmica com Proudhon: "As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; moinho a vapor, a sociedade com capitalismo industrial". Tal afirmação, defendendo rigoroso determinismo econômico em todas as sociedades humanas, foi estabe- lecida por Marx e Engels dentro do permanente clima de polêmica que mantiveram com seus opositores, e ate- nuada com a afirmativa de que existe constante interação e interdependência entre os dois níveis que compõe a estrutura social; da mesma maneira pela qual a infra-estrutura atua sobre a superestrutura, sobre os reflexos desta, embora, em última instância, sejam os fatores econômicos as condições finalmente determinantes. CURSO DE TEOLOGIA 55</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL A luta de classes Pretendendo caracterizar não apenas uma visão econômica da história, mas também uma visão histórica da economia, a teoria marxista também procura explicar a evolução das relações econômicas nas sociedades huma- nas ao longo do processo histórico. Haveria, segundo a concepção marxista, "uma permanente dialética das for- ças entre poderosos e fracos, opressores e oprimidos", a história da humanidade seria constituída por uma perma- nente luta de classes, como deixa bem claro a primeira frase do primeiro capítulo Manifesto Comunista". "A história de toda sociedade passado é a história da luta de classes". Classes essas que, para Engels são "os produtos das relações econômicas de sua época". Assim apesar das diversidades aparentes, escravidão, servidão e capitalismo seriam essencialmente etapas sucessivas de um pro- cesso único. A base da sociedade é a produção econômica. Sobre esta base econômica se ergue uma superestru- tura, um estado e as idéias econômicas, sociais, políticas, morais, filosóficas e artísticas. Marx queria a inversão da pirâmide social, ou seja, pondo no poder a maioria, os proletários, que seria a única força capaz de destruir a sociedade capitalista e construir uma nova sociedade, socialista. Para Marx os trabalhadores estariam dominados pela ideologia da classe dominante, ou seja, as idéias que eles têm do mundo e da sociedade seriam as mesmas idéias que a burguesia espalha. O capitalismo seria atingido por crises econômicas porque ele se tornou o impedimento para o desenvolvimento das forças produtivas. Seria um absurdo que a humanidade inteira dedique-se apenas em trabalhar e produzir subordinada a um punhado de grandes empresários. A economia do futuro que associaria todos os homens e povos do planeta, só poderia ser uma produção controlada por todos os homens e povos. Para Marx, quanto mais o mundo se unifica economica- mente mais ele necessita de Não basta existir uma crise econômica para que haja uma revolução. O que é decisivo são as ações das classes sociais que, para Marx e Engels, em todas as sociedades em que a propriedade é privada existem lutas de classes (senhores X escravos, nobres feudais X servos, burgueses X proletariados). A luta do do capitalismo não deveria se limitar à luta dos sindicatos por melhores salários e condições de vida. Ela deveria também ser a luta ideológica para que o socialismo fosse conhecido pelos trabalhadores e assumido como luta pela tomada do poder. Neste campo, o proletariado deveria contar com uma arma fundamental, o partido político, o partido político revolucionário que tivesse uma estrutura democrática e que buscasse educar os trabalhadores e levá-los a se organizar para tomar o poder por meio de uma revolução socialista. Marx tentou demonstrar que no capitalismo sempre haveria injustiça social, e que o único jeito de uma pessoa ficar rica e ampliar sua fortuna seria explorando os trabalhadores, ou seja, o capitalismo, de acordo com Marx é selvagem, pois o operário produz mais para o patrão do que o seu próprio custo para a sociedade, e o capitalismo se apresenta necessariamente como um regime econômico de exploração, sendo a mais-valia a lei fundamental do sistema. 2.4 MAX WEBER VIDA E OBRA (Uma educação humanista apurada) Max Weber (1864 1920) nasceu e teve sua formação intelectual no período que as primeiras disputas sobre a metodologia das ciências sociais começavam a surgir na Europa, sobretudo em seu país, a Filho de uma família da alta classe média, Weber encontrou em sua casa uma atmosfera intelectualmente es- timulante. Seu pai era um conhecido advogado e desde cedo o orientou no sentido das humanidades. Weber recebeu excelente educação secundária em línguas, história e literatura clássica. Em 1882, começou os estudos superiores em Heidelberg; continuando-os em Göttingen e Berlim, em cujas universidades dedicou-se simultane- CURSO DE TEOLOGIA 56</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL amente à economia, à história, à filosofia e ao direito. Concluído o curso, trabalhou na Universidade de Berlim, na qual idade de livre-docente, ao mesmo tempo em que servia como assessor do governo. Em 1893, casou-se e, no ano seguinte, tornou-se professor de economia na Universidade de Freiburg, da qual se transferiu para a de Heidelberg, em 1896. Dois anos depois, sofreu sérias perturbações nervosas que o levaram a deixar os trabalhos docentes, só voltando à atividade em 1903, na qualidade de co-editor do Arquivo de Ciências Sociais (Archiv tür Sozialwissenschatt), publicação extremamente importante no desenvolvimento dos estudos sociológicos na A partir dessa época, Weber somente deu aulas particulares, salvo em algumas ocasiões, em que proferiu conferências nas universidades de Viena e Munique, nos anos que precederam sua morte, em 1920. Sua obra mais famosa foi "A Ética protestante e o espirito do capitalismo" Compreensão e explicação Dentro das coordenadas metodológicas que se opunham à assimilação das ciências sociais aos quadros te- óricos das ciências naturais, Weber concebe o objeto da sociologia como, fundamentalmente, "a captação da relação de sentido" da ação humana. Em outras palavras, conhecer um fenômeno social seria extrair o conteúdo simbólico da ação ou ações que o configuram. Por ação, Weber entende "aquela cujo sentido pensado pelo sujeito jeito ou sujeitos jeitos é referido ao comportamento dos outros; orientando-se por ele o seu comportamento". Tal colocação do problema de como se abordar o fato significa que não é possível propriamente explicá-lo como resultado de um relacionamento de causas e efeitos (procedimento das ciências naturais), mas compreendê-lo como fato carregado de sentido, isto é, como algo que aponta para outros fatos e somente em função dos quais poderia ser conhecido em toda a sua amplitude. O método compreensivo, defendido por Weber, consiste em entender o sentido que as ações de um indivíduo contêm e não apenas o aspecto exterior dessas mesmas ações. Se, por exemplo, uma pessoa dá a outra um pedaço de papel, esse fato, em si mesmo, é irrelevante para o cientista social. Somente quando se sabe que a primeira pessoa deu o papel para a outra como forma de saldar uma dívida (o pedaço de papel é um cheque) é que se está diante de um fato propriamente humano, ou seja, de uma ação carregada de fato cm questão não se esgota em si mesmo e aponta para todo um complexo de significações sociais, na medida em que as duas pessoas envolvidas ao pedaço de papel a função do servir como meio de troca ou pagamento; além disso, essa função é reconhecida por uma comunidade maior de Segundo Weber, a captação desses sentidos contidos nas ações humanas não poderia ser realizada por meio, exclusivamente, dos procedimentos metodológicos das ciências naturais, embora a rigorosa observação dos fatos (como nas ciências naturais) seja essencial para o cientista social. Contudo, Weber não pretende cavar um abismo entre os dois grupos de ciências. Segundo ele, a consideração de que os fenômenos obedecem a uma regularidade causal envolve referência a um mesmo lógico de prova, tanto nas ciências naturais quanto nas humanas. se a lógica da explicação causal é idêntica, o mesmo poderia dizer dos tipos de leis gerais a formulados para cada um dos dois grupos de disciplinas. As leis sociais, para Weber, estabelecem relações causais em termos de regras de probabilidades, segundo as quais a determinados processos devem seguir-se, ou ocorrer simultaneamente, outros. Essas leis referem-se a construções de "comportamento com sentido" e servem para explicar processos particulares. Para que isso seja Weber defende a utilização dos chamados "tipos ideais", que representam o primeiro nível de generalização de conceitos abstratos e, correspondendo às exigên- cias lógicas da prova, estão intimamente ligados à realidade concreta particular. o legal e o típico O conceito de tipo ideal corresponde, no pensamento weberiano, a um processo de conceituação que abstrai de fenômenos concretos o que existe de particular, constituindo assim um conceito individualizante ou, nas pa- lavras do próprio Weber, um "conceito histórico concreto". A ênfase na caracterização sistemática dos padrões CURSO DE TEOLOGIA 57</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL individuais concretos (característica das ciências humanas) a conceituação típico-ideal à conceituação ge- neralizadora, tal como esta é conhecida nas ciências naturais. A conceituação generalizadora, como revela a própria expressão, retira do fenômeno concreto aquilo que ele tem de geral, isto é, as uniformidades e regularidades observadas em diferentes fenômenos constitutivos de uma mesma classe. A relação entre conccito genérico e o fenômeno concreto é de natureza tal que permite classificar cada fenômeno particular de acordo com os traços gerais apresentados pelo mesmo, considerando como aciden- tal tudo o que não se enquadre dentro da gencralidade. Além disso, a conceituação generalizadora considera o fenômeno particular como um caso cujas características gerais podem ser deduzidas de uma lei. A conceituação típico-ideal chega a resultados diferentes da generalizadora. o tipo ideal, segundo Weber, expõe como se desenvolveria uma forma particular de ação social se o fizesse racional- mente em direção a um fim, e se fosse orientada de forma a atingir um e somente um Assim, o tipo ideal não descreveria um curso concreto de ação, mas um desenvolvimento normativamente ideal, isto é, um curso de ação "objetivamente possível". O tipo ideal é um conceito vazio de conteúdo real: ele depura as propriedades dos fenômenos reais desencarnando-os pela análise, para depois Quando se trata de tipos complexos (formados por várias propriedades), essa reconstrução assume a forma de síntese, que não recupera os fenômenos em sua real concreção, mas que os idealiza em uma articulação significativa de abstrações. Desse modo, se constitui uma "pauta de contrastação", que permite situar os fenômenos reais em sua relatividade. Por conseguinte, o tipo ideal não constitui nem uma hipótese nem uma proposição e, assim, não pode ser falso nem verdadeiro, mas válido ou não-válido, de acordo com sua utilidade para a compreensão significativa dos acontecimentos estudados pelo investigador. No que se refere à aplicação do tipo ideal no tratamento da realidade, ela se dá de dois modos: O pri- meiro é um processo de contrastação conceituai que permite simplesmente apreender os fatos segundo sua maior ou menor aproximação ao tipo ideal. O segundo consiste na formulação de hipóteses explicativas. Por exemplo: para a explicação de um pânico na bolsa de valores, seria possível, em primeiro lugar, supor como se desenvolveria o fenômeno na ausência de quaisquer sentimentos irracionais; somente depois se poderia introduzir tais sentimentos como fatores de perturbação. Da mesma forma se poderia proceder para a explicação de uma ação militar ou política. Primeiro se fixaria, hipoteticamente, como se teria desenvolvi- do a ação se todas as intenções dos participantes fossem conhecidas e se a escolha dos meios por parte dos mesmos tivesse sido orientada de maneira rigorosamente racional em relação a certo fim. Somente assim se poderia atribuir os desvios aos fatores irracionais. Nos exemplos acima é patente a dicotomia estabelecida por Weber entre o racional e o irracional, ambos os conceitos fundamentais de sua metodologia. Para Weber, uma ação é racional quando cumpre duas condições. Em primeiro lugar, uma ação é racional na medida em que é orientada para um objetivo claramente formulado, ou para um conjunto de valores, também claramente formulados e logicamente consistentes. Em segundo lugar, uma ação é racional quando os meios escolhidos para se atingir o objetivo são os mais adequados. Uma vez de posse desses instrumentos analíticos, formulados para a explicação da realidade social concreta ou, mais exatamente, de uma porção dessa realidade, Weber elabora um sistema compreensivo de conceitos, estabelecendo uma terminologia precisa como tarefa preliminar para a análise das inter-relações entre os fenô- menos sociais. De acordo com o vocabulário weberiano, são quatro os tipos de ação que cumpre distinguir cla- ramente: ação racional em relação a fins, ação racional em relação a valores, ação afetiva e ação Esta última, baseada no hábito, está na fronteira do que pode ser considerado como ação e faz Weber chamar a atenção para o problema de fluidez dos limites, isto é, para a virtual impossibilidade de se encontrarem "ações puras". Em outros termos, segundo Weber, muito raramente a ação social orienta-se exclusivamente conforme um ou outro dos quatro tipos. Do mesmo modo, essas formas de orientação não podem ser como exaustivas. Seriam tipos puramente conceituais, construídos para fins de análise sociológica, jamais encontrando-se na reali- dade em toda a sua na maior parte dos casos, os quatro tipos de ação encontram-se misturados. Somente os resultados que com eles se obtenham na análise da realidade social podem dar a medida de sua CURSO DE TEOLOGIA 58</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL Para qualquer um desses tipos tanto seria possível encontrar fenômenos sociais que poderiam ser incluídos neles, quanto se poderia também deparar com fatos limítrofes entre um e outro tipo. Entretanto, observa Weber, essa fluidez só pode ser claramente percebida quando os próprios conceitos tipológicos não são fluidos e estabelecem fronteiras rígidas entre um e outro. Um conceito definido estabelece nitidamente propriedades cuja presença nos fenômenos sociais permite diferenciar um fenômeno de outro; estes, contudo, raramente podem ser classifi- cados de forma rígida. o sistema de tipos ideais Na primeira parte de Economia e Sociedade, Max Weber expõe seu sistema de tipos entre os quais os de lei, democracia, capitalismo, feudalismo, sociedade, burocracia, patrimonialismo, sultanismo. Todos esses tipos ideais são apresentados pelo autor como conceitos definidos conforme critérios pessoais, isto é, trata-se de conceituações do que ele entende pelo termo empregado, de forma a que o leitor perceba claramente do que ele está falando. O importante nessa tipologia reside no meticuloso cuidado com que Weber articula suas definições e na maneira sistemática com que esses conceitos são relacionados uns aos outros. A partir dos conceitos mais gerais do comportamento social e das relações sociais, Weber formula novos conceitos mais específicos, porme- norizando cada vez mais as características concretas. Sua abordagem em termos de tipos ideais coloca-se em oposição, por um lado, à explicação estrutural dos fenômenos, e, por outro, à perspectiva que vê os fenômenos como entidades qualitativamente diferentes. Para Weber, as singularidades históricas resultam de combinações específicas de fatores gerais que, se isolados, são quantificáveis, de tal modo que os mesmos elementos podem ser vistos numa série de outras combinações sin- gulares. Tudo aquilo que se afirma de uma ação concreta, seus graus de adequação de sentido, sua explicação compreensiva e causal, seriam hipóteses suscetíveis de verificação. Para Weber, a interpretação causal correta de uma ação concreta significa que desenvolvimento externo e o motivo da ação foram conhecidos de modo certo e, ao mesmo tempo, compreendidos com sentido em sua relação". Por outro lado, a interpretação causal correta de uma ação típica significa que o acontecimento considerado típico se oferece com adequação de sentido e pode ser comprovado como causalmente adequado, pelo menos em algum grau. VERIFICAÇÃO DE APRENDIZAGEM Capítulo 2 1) Escreva o nome de quatro teóricos ligados à formação da sociologia 2) Que pensador teve grande influência sobre Auguste Comte? 3) Para Marx, qual era o motor da história? 4) Quem foram os autores de Capital e Ética Protestante e o do Capitalismo? CURSO DE TEOLOGIA 59</p><p>MÓDULO 10 GERAL 3 A SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO Para percebermos a importância da sociologia aplicada à religião, basta lembrar que o livro "Ética Protes- tante e o Espírito do Capitalismo", de Max Weber, não só é leitura obrigatória em ciências humanas como foi eleito o livro do século. A partir da visão protestante do trabalho, o autor demonstra o impulso calvinista por trás do desenvolvimento do sistema capitalista. Independente das opiniões favoráveis ou contrárias à tese de Weber, a questão é a relevância da religião até mesmo para os aspectos não religiosos da sociedade. A luta contra a religião, principalmente na sociedade ocidental, vem de longa data. Desde a Revolução Fran- cesa que sua existência e natureza são questionadas, acompanhada de tentativas e projetos para eliminá-la ou modificá-la. É um elemento universal presente nas sociedades e o entendimento de seus mecanismos e principais elementos tem sido objeto de estudo da sociologia, fazendo surgir diferentes teorias sobre a mesma. Mesmo sem consenso sobre o assunto, os sociólogos têm fornecido diversas visões que podem ser bem interessantes na compreensão da Sociologia da religião busca explicar as relações mútuas entre religião e sociedade. Os estudos fundamentam- -se na dimensão social da religião (a religião é uma instituição social) e na dimensão religiosa da sociedade (os indivíduos que compõem a sociedade são seres religiosos e praticam rituais revestidos de sacralidade). WACH, (1990, p. 11, 205) diz que a sociologia da religião estuda a inter-relação da religião com a sociedade, e as formas de interação que ocorrem de uma com a outra, e dá como básica para a sociologia da religião a hipó- tese de que "os impulsos, as idéias e as instituições religiosas influenciam as formas sociais e, por sua vez, são por elas influenciados, além de receberem o influxo da organização social e da estratificação. Já NOTTINGHAM, entende que sociólogo da religião ocupa-se dela como um aspecto do comportamento de grupo e estuda os papéis que a religião tem desempenhado através dos tempos." São campos de pesquisa da sociologia da religião: a) influências gerais do grupo sobre a religião; b) funções dos rituais nas sociedades: c) tipologias de organizações religiosas e de respostas religiosas ao mundo ou a ordem social; d) influências diretas ou indiretas dos sistemas ideais religiosos na sociedade e seus componentes ou elementos (como classes, grupos de nacionalidades, grupos étnicos) e da sociedade nos sistemas ideais; e) análise específica de números de seitas religiosas e movimentos tais como Mormonismo e Testemunhas de Jeová f) interação de entidades religiosas significativas em âmbito local ou de comunidade; g) avaliações conscientes ocasionais, feitas por porta-vozes para grupos religiosos mais importantes, das cir- cunstâncias sociais nas quais os grupos se Esta relação está incompleta e por isso seus itens aparecem menos especificamente sugeridos do que poderiam ser, mas o caráter geral dos interesses da sociologia da religião aparece, assim, razoavelmente bem indicados. Considerando que religião diz respeito a todos os homens, devemos, antes de mais nada, proceder a um auto-exame, Não existe uma definição de religião genericamente aceita, a sua concepção varia naturalmente de sociedade para sociedade, cultura para cultura. Não obstante a isto, pode-se enumerar algumas das principais características "comuns" ou "partilhadas" entre todas as religiões. CURSO DE TEOLOGIA 60</p><p>MÓDULO 10 SOCIOLOGIA GERAL 3.1 CRISTÃO EM UMA SOCIEDADE NÃO Vivemos em uma sociedade de indivíduos alienados. Como cristãos, temos o dever de atuar como partici- pantes da história de transformação deste sistema pervertido; não podemos nos acomodar a margem Devemos ser atuantes, participantes (militantes) do projeto de Deus para este mundo. Um projeto de invocação, arrebatamento e construção. Esse é o desafio que o cristão, comprometido em "trazer o reino de Deus" (Mt 6.10), tem à sua frente, além de um piedoso exercício de cspiritualidade integral. Observemos três textos do Gênesis: "Sete também teve um filho, a quem deu nome de Enos. Este foi pri- meiro a invocar o nome de (4.26), "Enoque andou com Deus e desapareceu, porque Deus o arrebatou". (5.24). "Então Deus disse a Noé: 'Para mim chegou o fim de todos os homens, porque a terra está cheia de violência por causa deles. Vou destrui-los junto com a terra. Faça para você uma arca de madeira resinosa..." (6.13-14). Não pretendemos fazer uma exposição biográfica (o que nos levaria à utilização do Método Monográfico, de Le Play). Desses três personagens ilustres do relato histórico, pretendemos apresentar três mensagens que na História pretendemos mesmo é profetizar três desafios, requisitos para vivenciar, individual e coleti- vamente, uma espiritualidade integral, ou seja, uma vida de comunhão com Deus e com os homens, que integre a oração, o e o trabalho; que abranja a horizontalidade e a verticalidade do indivíduo social; que vá ter com Deus, mas que assista aos homens. Em resumo, podemos simplificar a significação desses três atos litúrgicos e dizendo: A invocação significa chamar Deus para perto de nós; arrebatamento significa ser levado ou absorvido (absorto) por Deus; A construção significa trabalhar na contramão do caos Que é invocação? A invocação é um chamado veemente, um apelo que implora, uma súplica, uma prece... De modo que, para ouvirmos as mensagens que evocam da invocação, é preciso, pelo menos, três posturas de escuta: saber quem está invocando; onde o suplicante está invocando; quem o suplicante está Quem invoca? Texto Sagrado parece sugerir que, depois da morte de Abel, ninguém invocava mais o Se- Até o diálogo entre Caim e Deus é iniciado pelo próprio Deus: "Caim: onde está teu irmão?" (Gn 4.8). Os homens casavam-sc, trabalhavam, desenvolviam seus talentos sem invocar Deus; viviam semelhante aos dias de hoje um ateísmo prático. Foi Enos quem, depois desse período de silêncio (escuridão) espiritual, primeira- mente invocou a Deus. Diz o Texto Sagrado que "este foi primeiro a invocar nome de (Gn 4.26). nome de Enos significa "fraco", "debilitado". Isto nos sugere que a invocação está para os fracos, para aqueles que pedem socorro, que suplicam auxílio; pois sabem que são impotentes. A invocação não está para os "fortes", ou pelo menos para os que se acham "fortes", pois vivem como se não dependessem de Deus (e dizem que Deus é apenas uma "muleta" aos fracos), são auto-suficientes. É o pecado originário da insubordinação. Onde Enos invoca o nome de Javé? Foi na cidade de Caim que Enos invocou o nome do Senhor. Foi em um ambiente ateisante que Enos invocou a Deus; num local que, o Texto indica; ninguém clamava a Deus. Geralmen- te, invocamos ao Senhor num ambiente religioso e num local "propício" para isso. que Enos ensina é que Deus precisa ser invocado não cm "um", mas "no" ambiente que precisa de Deus. O ambiente secularizado e caótico. A cidade, além de amplamente secularizada, era uma fábrica de ateísmo e, também, uma habitação social edificada sob uma maldição; pois o seu construtor, Caim, carregava uma maldição consigo. Em Gênesis 4.11-12, lemos: "E agora maldito és tu desde a terra que abriu a boca para receber de tua mão sangue do teu Era uma cidade construída sob os fundamentos da auto-suficiência (Deus não é convidado para participar da sua edificação); da violência (Lameque mata um jovem por ter pisado no seu pé: Gn 4.23); do machismo (duas mu- lheres para ser subserviente a Lameque); do homicídio (Caim mata Abel); da hostilidade e impunidade (Lameque havia matado dois e ainda estava impune); da religião ritualística ("Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor": Gn 4.3); da rivalidade e competição (a disputa de Caim com seu irmão); do progresso tecnológico e cultural (não eram nômades, mas pastores Revolução Pastoril; trabalhavam com ferro fundido; Revolução Metalúrgica; os instrumentos musicais foram criados...). CURSO DE TEOLOGIA 61</p>