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<p>A INTERVENÇÃO NO</p><p>TRABALHO</p><p>PSICOPEDAGÓGICO CLÍNICO</p><p>AULA 4</p><p>Profª Tânia Mara Grassi</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Nesta aula, vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre a intervenção</p><p>psicopedagógica clínica.</p><p>A intervenção psicopedagógica clínica demanda uma organização e um</p><p>planejamento semiestrututado que se coloca em movimento no início do</p><p>processo e vai sendo adaptado e reorganizado à medida que o atendimento</p><p>avança e que as demandas e necessidades do sujeito apontam novos caminhos.</p><p>As escolhas feitas pelo profissional levam em consideração esses fatores</p><p>e consideram, também, as dificuldades que precisam ser equacionadas,</p><p>fundamentando-se em uma concepção específica que lhe dá uma determinada</p><p>conformação.</p><p>Vamos conhecer as concepções de Lino de Macedo e de Jorge Visca de</p><p>modo a caracterizá-las e compreender como organizam o trabalho de</p><p>intervenção e instrumentalizar o psicopedagogo em formação para que possa</p><p>fazer o planejamento da intervenção fundamentando-se em uma concepção</p><p>teórica específica, compreendendo suas características.</p><p>Os objetivos específicos são:</p><p>• Caracterizar a proposta de intervenção de Lino de Macedo,</p><p>compreendendo suas especificidades;</p><p>• Compreender as etapas propostas por Macedo na intervenção</p><p>psicopedagógica por meio dos jogos de regras;</p><p>• Conhecer a proposta de intervenção de Jorge Visca identificando suas</p><p>características;</p><p>• Compreender a importância da atitude operativa de intervenção no</p><p>trabalho, independentemente da proposta escolhida;</p><p>• Conhecer os recursos subjetivos de intervenção psicopedagógica</p><p>desenvolvidos por Visca;</p><p>• Compreender a importância da organização da intervenção</p><p>fundamentada em uma concepção teórica.</p><p>3</p><p>TEMA 1 – CONCEPÇÃO DE LINO DE MACEDO</p><p>O psicopedagogo brasileiro Lino de Macedo (2005) desenvolve sua práxis</p><p>em São Paulo e é conhecido pela utilização dos jogos de regras nas propostas</p><p>de intervenção.</p><p>Ele tem uma visão construtivista de intervenção psicopedagógica</p><p>fundamentada na epistemologia genética de Jean Piaget, fazendo uso dos jogos</p><p>de regras entendidos como objetos do conhecimento e recursos fundamentais</p><p>para propiciar experiências que levem ao desenvolvimento de estruturas mais</p><p>elaboradas de pensamento.</p><p>Segundo Macedo (2005), na intervenção com jogos de regras, objetiva-</p><p>se criar condições para que o sujeito/aprendiz consiga e também deseje</p><p>estabelecer uma relação operatória formal com o conhecimento.</p><p>Utilizar os jogos de regras possibilita o estabelecimento dessa relação,</p><p>uma vez que os jogos apresentam regras que se configuram em limites onde as</p><p>situações-problema são apresentadas e seus resultados podem ser analisados</p><p>e os procedimentos e os esquemas de ação podem ser revistos e modificados.</p><p>Ao longo das partidas de determinado jogo de regras, há a possibilidade</p><p>de analisar as jogadas e os erros que porventura tenham ocorrido, o que é</p><p>comum e natural nas situações de jogo. É possível, também, analisar as</p><p>estratégias utilizadas pelo jogador e que levaram ao cometimento dos erros.</p><p>Macedo destaca que os erros são fruto da interpretação feita pelo sujeito, de</p><p>suas ações e do objeto sobre o qual essas ações acontecem.</p><p>Durante a vivência de cada jogada podemos refletir sobre nossas ações,</p><p>analisando-as de modo a procurar estratégias que nos permitam ganhar, cumprir</p><p>as tarefas requeridas ou superar os desafios apresentados pelo jogo.</p><p>Para o autor, nas situações de jogo são propostos problemas que causam</p><p>a desequilibração e isso é o que mobiliza o sujeito/aprendiz a buscar respostas.</p><p>Para solucionar o problema e alcançar a equilibração, ele vai desenvolver</p><p>estratégias de ação colocando o pensamento em movimento.</p><p>Na intervenção, o psicopedagogo vai apresentar ao sujeito os desafios</p><p>e/ou as situações problema e acompanhar o processo operando a mediação. Ele</p><p>vai questionar, perguntar, argumentar, provocar determinadas ações, de modo</p><p>que o sujeito possa perceber os erros, tomar consciência deles,</p><p>compreendendo-os como resultado de seus procedimentos e ações, refletir</p><p>4</p><p>sobre suas ações e conhecer seus limites e suas possibilidades para, então,</p><p>ultrapassá-los.</p><p>O trabalho desenvolvido com jogos, além de prevenir dificuldades no</p><p>processo de aprendizagem, equaciona as dificuldades já presentes; possibilita o</p><p>desenvolvimento de estruturas de pensamento mais complexas, o que</p><p>caracteriza sua utilização como prática construtivista.</p><p>Vamos conhecer como Macedo (2005) propõe o desenvolvimento da</p><p>intervenção por meio dos jogos de regras!</p><p>TEMA 2 – INTERVENÇÃO PSICOPEDAGÓGICA COM JOGOS DE REGRAS</p><p>A intervenção psicopedagógica proposta por Macedo faz uso dos jogos</p><p>de regras de modo operatório, o que direciona a ação do psicopedagogo como</p><p>mediador que promove situações possibilitadoras de aprendizagem.</p><p>Antes de detalhar sua proposta, vamos conhecer mais alguns aspectos</p><p>importantes sobre os jogos!</p><p>A seleção dos jogos que serão utilizados considera o sujeito/aprendiz,</p><p>suas características e demandas, suas necessidades e interesses, seu nível de</p><p>pensamento, bem como as dificuldades a equacionar, elementos levantados ao</p><p>longo do processo de avaliação diagnóstica.</p><p>Há grande diversidade de jogos que podem ser escolhidos para o trabalho</p><p>psicopedagógico de intervenção. Macedo (2005), baseando-se em Piaget, utiliza</p><p>a sua classificação em jogos de exercício, jogos simbólicos e jogos de regras,</p><p>optando pelos jogos de regras para compor sua proposta de intervenção que</p><p>denomina de “oficinas com jogos de regras”.</p><p>Em jogos de regras e em desafios escritos, há a presença, direta e</p><p>também indireta, de conteúdos escolares de diversas disciplinas, por exemplo,</p><p>de matemática, língua portuguesa, entre outros, além do requerimento de</p><p>variadas funções psicológicas superiores. Estes devem ser escolhidos</p><p>considerando-se o perfil do sujeito ou do grupo de sujeitos que participará da</p><p>intervenção. É importante atentar para a faixa etária, nível de pensamento,</p><p>interesses, necessidades e dificuldades, de modo a não subestimar nem</p><p>superestimar as capacidades dos sujeitos.</p><p>Podemos escolher entre os “jogos de estratégia” que podem ser jogos de</p><p>tabuleiro ou de mesa. Nesses jogos há regras, há competição e disputa e é</p><p>possível jogar várias partidas. Existem os jogos individuais e os destinados a</p><p>5</p><p>duplas ou a grupos maiores. Há os que dependem basicamente de sorte, os que</p><p>exigem conhecimentos gerais ou específicos e os que requerem estratégias,</p><p>análise e síntese; e os jogos de desafio, apresentados por meio de situações-</p><p>problema escritas, orais ou gestuais, que em sua resolução vão exigir análise e</p><p>síntese, reflexão, discussão, comparação, formulação de hipóteses e utilização</p><p>de diferentes estratégias, com possibilidade de mais de uma solução, podendo</p><p>ser desenvolvidos individualmente ou em grupos, subgrupos, ou duplas. Em</p><p>todos há a mobilização de funções psicológicas superiores e de estruturas de</p><p>pensamento.</p><p>Uma vez escolhido o jogo que será utilizado em uma determina sessão</p><p>de intervenção. Macedo (2005) propõe sua utilização de uma maneira especial</p><p>em que o jogo é um objeto do conhecimento e sua prática é operatória. As etapas</p><p>são as seguintes:</p><p>• Exploração dos materiais e aprendizagem das regras – apresenta-se aos</p><p>sujeitos o jogo e o material que o compõem, explorando-se os seus</p><p>elementos, questionando-se os sujeitos sobre os seus conhecimentos</p><p>sobre o jogo, sobre outros jogos semelhantes, sobre os materiais de que</p><p>são confeccionados, sobre o seu nome e procede-se à análise do material</p><p>que compõe o jogo, Em seguida, trabalha-se com a aprendizagem das</p><p>regras desse jogo, uma a uma, sem pressa, de modo que sejam</p><p>apreendidas e compreendidas;</p><p>• Prática do jogo e construção de estratégias – o jogo será praticado pelos</p><p>sujeitos com mediação do psicopedagogo, diversas vezes, até que suas</p><p>possibilidades</p><p>ou o interesse por ele tenham se esgotado;</p><p>• Construção de situações problema – nessa etapa, acontece a elaboração</p><p>de situações problemas com base no jogo de modo a possibilitar a análise</p><p>das situações de jogo, das estratégias utilizadas e da forma de pensar do</p><p>sujeito. O psicopedagogo fará a mediação, intervindo de modo a propiciar</p><p>situações em que o sujeito possa construir o próprio conhecimento,</p><p>aprender e superar suas dificuldades;</p><p>• Análise das implicações de jogar – momento em que se analisam as</p><p>experiências vivenciadas durante as situações de jogo, estabelecendo</p><p>relações entre a experiência lúdica e as experiências pedagógicas</p><p>vivenciadas na escola e àquelas vivenciadas no dia a dia. O</p><p>psicopedagogo faz a mediação e, levando em conta as situações vividas</p><p>6</p><p>durante o jogo, estabelece relação com as aprendizagens escolares.</p><p>Constrói tabelas e gráficos sobre as jogadas realizadas e as estratégias</p><p>utilizadas, propiciando a análise das situações de jogo.</p><p>Por meio dessa forma de intervenção, estimula-se a construção de</p><p>estruturas de pensamento mais elaboradas. O sujeito/aprendiz realiza ações de</p><p>exploração, manipulação e movimentação, que, segundo Grassi (2013), são</p><p>inicialmente psicomotoras, e, progressivamente, passam a ações</p><p>acompanhadas pelo pensamento, com planejamento e intencionalidade.</p><p>Durante a vivência do jogo a problematização, promovida pelo mediador,</p><p>possibilita ao sujeito uma experiência de análise e reflexão que leva à</p><p>aprendizagem sobre si, sobre suas dificuldades, sobre suas habilidades, sobre</p><p>suas formas de pensar, sobre seus esquemas de ação, sobre a escola, sobre os</p><p>outros e sobre as experiências em outros contextos. O sujeito pode</p><p>experimentar, arriscar-se, errar, refazer e aprender, expressando seus</p><p>pensamentos e sentimentos, acolhido pelo mediador.</p><p>TEMA 3 – PROCESSO CORRETOR: A CONCEPÇÃO DE JORGE VISCA</p><p>Visca (2010) denomina o processo de intervenção psicopedagógica de</p><p>processo corretor. O psicopedagogo argentino desenvolveu a epistemologia</p><p>convergente, fundamentando-se na psicanálise, na epistemologia genética e na</p><p>psicologia social.</p><p>O processo corretor é definido por Visca (2010, p. 115) como “um conjunto</p><p>de operações clínicas por meio do qual se facilita o aparecimento e a</p><p>estabilização de condutas”.</p><p>No processo corretor são utilizados tanto os recursos objetivos</p><p>(instrumentos materiais) quanto os recursos subjetivos (instrumentos e/ou</p><p>corporais). Tais recursos promovem a tomada de consciência da pertinência ou</p><p>não de suas ações, o que provoca desequilibração, mobilizando-o para procurar</p><p>o alcance da equilibração e a consequente aprendizagem.</p><p>Os recursos subjetivos de intervenção utilizados ao longo do processo</p><p>corretor dizem respeito às maneiras como o psicopedagogo faz as intervenções</p><p>durante as sessões, enquanto o sujeito/aprendiz realiza as atividades ou tarefas.</p><p>Essas intervenções são feitas verbalmente ou por meio de gesto. A fala, um</p><p>comentário, a expressão facial ou a expressão corporal são recursos subjetivos</p><p>7</p><p>utilizados para provocar a desequilibração, a reflexão e estimular ou desafiar o</p><p>sujeito/aprendiz a alcançar novo estado de equilibração, como já mencionamos.</p><p>Entre esses recursos, temos os desenvolvidos por Visca (2010), que são</p><p>a mudança de situação, a informação, a informação com redundância, a mostra,</p><p>o modelo de alternativas múltiplas, o acréscimo de modelo, o assinalamento, a</p><p>explicação intrapsíquica, a interpretação e o desempenho de papéis; e os</p><p>acrescentados por Barbosa (2012), que são o destaque do comportamento, a</p><p>vivência do conflito e a problematização. Esses recursos de intervenção podem</p><p>ser utilizados pelo psicopedagogo em qualquer proposta de intervenção e com</p><p>qualquer instrumento ou recurso objetivo.</p><p>O recurso objetivo proposto pelo autor é a caixa de trabalho, que</p><p>abordaremos mais adiante.</p><p>Vamos conhecer agora os recursos subjetivos de intervenção utilizados</p><p>no processo corretor.</p><p>TEMA 4 – RECURSOS SUBJETIVOS DE INTERVENÇÃO</p><p>Os recursos subjetivos de intervenção, propostos por Visca, promovem</p><p>mudanças na organização da personalidade do sujeito/aprendiz, por meio de</p><p>mudanças que acontecem ao seu redor.</p><p>São utilizados durante o processo corretor na medida em que se fazem</p><p>necessários em função da vivência de determinadas situações ou da</p><p>manifestação de determinados comportamentos ou atitudes por parte do</p><p>sujeito/aprendiz nas sessões.</p><p>Entre esses recursos temos:</p><p>• Mudança de situação – esse recurso se caracteriza pela modificação de</p><p>uma das constantes do enquadramento, relacionada ao tempo, horário, a</p><p>frequência, local, entre outras. Mudar a constante do enquadramento</p><p>provoca uma quebra na rotina, alterando comportamentos ou hábitos, o</p><p>que é necessário em função do que foi observado pelo psicopedagogo</p><p>em relação ao sujeito. Tomar consciência da mudança operada pode</p><p>provocar no sujeito/aprendiz uma reflexão e o encontro de alternativas</p><p>que levem à superação das dificuldades e à modificação de</p><p>comportamentos;</p><p>8</p><p>• Informação – recurso verbal cujo objetivo é informar ao sujeito/aprendiz</p><p>em que local ele pode encontrar o que precisa para realizar a tarefa ou</p><p>responder às questões propostas, estimulando-o a procurar por elas;</p><p>• Informação com redundância – a informação dada é acompanhada por</p><p>gestos que a reforçam, por uma entonação ou pela repetição de palavras</p><p>que facilitam a sua compreensão;</p><p>• Mostra – forma de intervenção não verbal, por meio de gestos e ações,</p><p>mostrando ao aprendiz alguma coisa sobre a tarefa ou sobre suas ações,</p><p>objetivando a promoção de mudanças;</p><p>• Modelo de alternativas múltiplas – o psicopedagogo oferece ao sujeito,</p><p>utilizando-se da enumeração, alternativas de ação diferentes que ele</p><p>pode desenvolver, nos momentos ou situações em que há dependência</p><p>ou paralisação;</p><p>• Acréscimo de modelo – a intervenção feita pelo profissional leva o sujeito</p><p>à ampliação de modelos de ação já utilizados por ele, o que permite o</p><p>acréscimo de novos elementos;</p><p>• Assinalamento e interpretação – refere-se à comunicação incompleta e</p><p>completa sobre uma conduta, em que no assinalamento verbaliza-se com</p><p>base em uma parte dos elementos de um segmento da conduta e, na</p><p>interpretação, verbaliza-se sobre um segmento da conduta em função da</p><p>análise de todos os seus elementos;</p><p>• Explicação intrapsíquica – o psicopedagogo evidencia, por meio da</p><p>descrição ou da explicação, os sentimentos do sujeito/aprendiz frente a</p><p>uma tarefa ou situação;</p><p>• Desempenho de papéis – há uma mudança de papéis em que o aprendiz</p><p>ocupa o lugar de outra pessoa, objeto, animal ou situação, representando-</p><p>os e o profissional faz as intervenções necessárias.</p><p>A lista proposta por Visca foi complementada por Barbosa (2006), que</p><p>incluiu o destaque do comportamento, a vivência/proposição do conflito e a</p><p>problematização:</p><p>• Destaque do comportamento – destaca-se um comportamento atual</p><p>positivo que resulta da evolução operada durante a intervenção;</p><p>9</p><p>• Proposição do conflito – apresenta-se ao sujeito uma tarefa desafiante</p><p>cuja resolução é de sua responsabilidade, destacando que ele deve tentar</p><p>fazer, experimentar ou fazer como quiser.</p><p>A proposição do conflito é acompanhada pela sua vivência em que se</p><p>deixa o sujeito buscar as soluções, sozinho. A mediação acontece depois, se</p><p>necessário.</p><p>• Problematização – apresenta-se ao aprendiz uma questão relacionada às</p><p>ações e situações vivenciadas no processo corretor, estimulando-o à</p><p>reflexão. Também pode acontecer por meio da devolução de uma</p><p>pergunta que o leve a refletir sobre ela.</p><p>TEMA 5 – ATITUDE OPERATIVA</p><p>A intervenção psicopedagógica clínica acontece por meio da mediação</p><p>em que o profissional atua de maneira operativa. O profissional faz a mediação</p><p>entre o sujeito e o conhecimento, promovendo vivências que levem à</p><p>aprendizagem, à superação de dificuldades e ao alcance</p><p>da autonomia e do</p><p>protagonismo.</p><p>A atitude operativa do psicopedagogo é essencial para que a intervenção</p><p>se efetive e seus objetivos sejam alcançados. Por meio dela o aprendiz se coloca</p><p>em movimento, reflexões são provocadas, relações são modificadas, o que o</p><p>retira da situação em que se encontra, causa desequilibração e indica a</p><p>necessidade de mudanças e o alcance de um novo estado de equilibração.</p><p>A maneira de interação do psicopedagogo com o sujeito/aprendiz no</p><p>processo corretor tem uma especificidade que a caracteriza e que denominamos</p><p>de atitude operativa.</p><p>Portilho et al. (2018) definem a atitude operativa como a forma como o</p><p>psicopedagogo age na relação de aprendizagem estabelecida como um</p><p>aprendiz. Essa atitude promove um movimento desse sujeito, ao longo do</p><p>processo de intervenção, considerando elementos e situações de sua história</p><p>pregressa, elementos e situações do momento presente, além das perspectivas</p><p>futuras. Há nessa atitude a crença na capacidade de aprendizagem do sujeito, o</p><p>desejo de que ele aprenda e possa construir conhecimentos com autonomia e</p><p>autoria.</p><p>10</p><p>Durante a intervenção, a atitude operativa provoca no sujeito/aprendiz um</p><p>movimento que o leva à ação, a realizar a tarefa proposta com o máximo possível</p><p>de autonomia, mas com o acompanhamento do psicopedagogo, que faz</p><p>assinalamentos e/ou interpretações por meio dos recursos subjetivos propostos</p><p>por Visca (2010). Esses recursos, como já vimos, promovem um movimento</p><p>operativo que faz o aprendiz tomar consciência de suas modalidades de</p><p>aprendizagem, adaptar-se de maneira ativa e modificar-se para enfrentar os</p><p>conflitos cognitivos presentes nas situações de aprendizagem.</p><p>Ao fazer as intervenções, de modo operativo, o psicopedagogo possibilita</p><p>que o aprendiz faça escolhas, levante hipóteses, experimente e construa seu</p><p>próprio conhecimento.</p><p>A operatividade tem como objetivo promover uma intervenção efetiva que</p><p>leve à conquista da aprendizagem autônoma e autoral. Durante a intervenção,</p><p>em função da relação única estabelecida entre o profissional e o aprendiz e de</p><p>suas necessidades, a operatividade vai se organizando e a mediação se</p><p>desenvolve, portanto não há um modelo, mas indicações que norteiam nossa</p><p>práxis. Portilho et al. (2018) exemplificam algumas atitudes que são classificadas</p><p>como operativas e que nos auxiliam na organização da intervenção</p><p>psicopedagógica:</p><p>• Atuar e modo operativo pressupõe fazer questionamentos que colocam</p><p>em dúvida as certezas do aprendiz e o levam ao levantamento de</p><p>hipóteses;</p><p>• Ao se propor uma tarefa para o aprendiz, é necessário fornecer</p><p>informações que possam ser relacionadas à própria tarefa, aos seus</p><p>objetivos, aos conhecimentos requeridos para sua realização e às</p><p>necessidades dele;</p><p>• Observar com atenção e ouvir com interesse o que é trazido pelo aprendiz</p><p>e que direciona a intervenção;</p><p>• Apresentar ao sujeito consignas claras que permitam a realização da</p><p>tarefa, o exercício da escolha, a reflexão, a criação e a tomada de decisão;</p><p>• Promover assinalamentos e intervenções que norteiem a realização da</p><p>tarefa;</p><p>• Apresentar, ao aprendiz, alternativas que lhe permitam fazer escolhas</p><p>com autonomia e experimentar diferentes possibilidades;</p><p>11</p><p>• Indicar caminhos, exemplificar e estimular a reflexão e a ação,</p><p>promovendo as mudanças necessárias;</p><p>• Propor situações que ampliem e aprofundem os conhecimentos,</p><p>possibilitem a construção de conhecimentos novos, estimulando e</p><p>desafiando o aprendiz;</p><p>• Desafiar o sujeito por meio de situações de aprendizagem que requeiram</p><p>modificação em suas ações e cujos resultados sejam variados;</p><p>• Provocar a vivência do “erro”, dos conflitos cognitivos e da dificuldade de</p><p>aprendizagem, estimulando o aprendiz a resolver os problemas testando</p><p>hipóteses, experimentando, refazendo e refletindo sobre o processo;</p><p>• Estimular o aprendiz a refletir e analisar seu próprio processo de</p><p>aprendizagem, promovendo a tomada de consciência de seus avanços, a</p><p>percepção de dificuldades ainda presentes e o estabelecimento de</p><p>objetivos a alcançar;</p><p>• Fazer assinalamentos e interpretações que informem ao sujeito sobre</p><p>seus modos de ação e interação na realização das tarefas, na resolução</p><p>de situações-problema, na relação com o psicopedagogo, além das</p><p>dificuldades observadas.</p><p>Atuar de maneira operativa é uma característica da práxis</p><p>psicopedagógica, portanto a operatividade conduz todo o processo de</p><p>intervenção, o que independe do instrumento ou recurso escolhido ou utilizado.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Francisco, Renato, Eduardo e Pedro, alunos do 2º ano do ensino</p><p>fundamental I, todos com 7 anos, iniciaram a intervenção psicopedagógica em</p><p>função das dificuldades no processo de alfabetização. A intervenção foi</p><p>desenvolvida segundo a proposta de Macedo (2005) com jogos de regras.</p><p>Em uma das sessões foi escolhido o jogo de dominó para trabalhar com</p><p>os quatro meninos. O psicopedagogo apresentou o jogo seguindo as etapas</p><p>propostas.</p><p>Na primeira etapa, “exploração dos materiais e aprendizagem das regras”,</p><p>apresentou o jogo tradicional, com peças plásticas na cor preta e com os círculos</p><p>coloridos segundo o padrão. Exploraram-se com eles as peças do jogo e o</p><p>material de que eram confeccionadas, além do número de peças e de suas</p><p>12</p><p>cores. Em seguida, conversou-se sobre o jogo, momento em que puderam dizer</p><p>se o conheciam, suas variações, se já tinham jogado, mencionaram nome,</p><p>descreveram as peças e os materiais; falaram sobre o modo de jogar o jogo, e o</p><p>psicopedagogo apresentou as regras, que foram explicadas e utilizadas uma a</p><p>uma.</p><p>Passou-se para a segunda etapa, prática do jogo e construção de</p><p>estratégias, em que os meninos, com a mediação do psicopedagogo, jogaram</p><p>várias partidas de dominó. Divertiram-se bastante, conversando durante o jogo</p><p>e cometendo alguns erros, principalmente por distração ou por errar a contagem</p><p>das bolinhas. Eduardo auxiliou Pedro, que não conseguia fazer a contagem das</p><p>bolinhas e que não havia percebido a relação entre quantidade e cor</p><p>Na terceira etapa, construções de situações-problema, o psicopedagogo</p><p>construiu situações-problema levando em conta as jogadas feitas pelos meninos,</p><p>durante as partidas. Questionando as ações e apresentando alternativas para as</p><p>jogadas, chamou a atenção para alguns erros cometidos durante o jogo.</p><p>E, na quarta etapa, análise das implicações de jogar, o psicopedagogo e</p><p>os meninos analisaram a experiência, momento em que algumas relações foram</p><p>estabelecidas entre o jogo e os conteúdos escolares, entre as situações vividas</p><p>no jogo, vividas na escola e vividas em casa.</p><p>Juntos registraram em uma tabela o número de partidas jogadas, os erros</p><p>e os ganhadores. Depois, construíram um gráfico representando os resultados</p><p>do jogo.</p><p>Falaram sobre as dificuldades enfrentadas e sobre os conteúdos</p><p>necessários para jogar. Combinaram a construção de um jogo de dominó de</p><p>figuras de personagens de desenhos animados para a próxima sessão, definindo</p><p>quais personagens seriam utilizados.</p><p>Essa forma de utilização de jogos contribui para a análise das situações</p><p>de jogo e possibilita a mediação por parte do psicopedagogo e dos próprios</p><p>jogadores</p><p>FINALIZANDO</p><p>Vimos a concepção de Lino de Macedo (2005) sobre intervenção</p><p>psicopedagógica, que se fundamenta na epistemologia genética, propondo a</p><p>utilização dos jogos de regras, entendidos como objetos do conhecimento.</p><p>13</p><p>Trabalha-se com os jogos de uma maneira operativa, organizada em</p><p>quatro etapas: exploração dos materiais e aprendizagem das regras; prática do</p><p>jogo e construção de estratégias; construções de situações-problema; e análise</p><p>das implicações de jogar.</p><p>Abordamos a intervenção segundo a concepção de Visca (2010), que é</p><p>denominada pelo autor de “processo corretor”. O autor desenvolveu a</p><p>epistemologia convergente, baseada na epistemologia genética, na psicanálise</p><p>e na psicologia social.</p><p>O processo corretor é uma das constantes do enquadramento proposto</p><p>por Visca e, em seu desenvolvimento, utilizam-se os recursos objetivos e os</p><p>recursos subjetivos de intervenção. Recursos objetivos são os materiais e</p><p>metodologias que utilizamos, e os recursos subjetivos são os modos de intervir</p><p>pela fala ou pela expressão facial ou gestual.</p><p>Entre os recursos subjetivos, vimos os construídos por Visca (2010) e</p><p>utilizados ao longo do processo corretor, independente do instrumental objetivo</p><p>usado; e os desenvolvidos por Barbosa (1998; 2012), complementando-os.</p><p>Esses recursos são utilizados para provocar desequilibração, desafiando</p><p>o sujeito a alcançar novo estado de equilibração e novas estruturas de</p><p>pensamento: mudança de situação, informação, informação com redundância,</p><p>mostra, modelo de alternativas múltiplas, acréscimo de modelo, assinalamento,</p><p>explicação intrapsíquica, interpretação e desempenho de papéis. Barbosa</p><p>completa essa lista com o destaque do comportamento, a vivência do conflito/a</p><p>proposição do conflito e a problematização.</p><p>Concluímos nossa aula abordando a atitude operativa, que é a forma</p><p>específica de o psicopedagogo fazer as intervenções provocando reflexão,</p><p>desequilibração, desafiando e levando o sujeito a mudanças e ao alcance de</p><p>novos estados de equilibração, aprendizagem, autonomia e autoria.</p><p>O profissional da psicopedagogia, segundo sua abordagem e concepção</p><p>que lhe dá fundamento, desenvolve a intervenção psicopedagógica. Seleciona</p><p>os recursos objetivos, faz a mediação, utiliza-se de recursos subjetivos de modo</p><p>operativo, fazendo assinalamentos, pontuações e interpretações, considerando</p><p>sempre as necessidades do sujeito, os resultados da avaliação, os progresso da</p><p>intervenção, as habilidades, as dificuldades, as modalidades de aprendizagem,</p><p>a faixa etária, o nível de pensamento, as situações vivenciadas nas sessões e</p><p>os interesses do aprendiz.</p><p>14</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARANTES, V. A. (org.).; MACEDO, L. de.; MACHADO, N. J. Jogo e projeto:</p><p>pontos e contrapontos. São Paulo: Summus, 2006.</p><p>BARBOSA, L. M. S. O projeto de trabalho: uma forma de atuação</p><p>psicopedagógica. Curitiba: L. M. S. Barbosa, 1998.</p><p>_____. (org.). Intervenção psicopedagógica no espaço da clínica. Curitiba:</p><p>InterSaberes, 2012.</p><p>BRENELLI, R. P. O jogo como espaço para pensar. São Paulo: Papirus, 1996.</p><p>CARLBERG, S. Caixa de trabalho. In: BARBOSA, L. M. S. (org.). Intervenção</p><p>psicopedagógica no espaço da clínica. Curitiba: InterSaberes, 2012, p. 6-53.</p><p>GRASSI, T. M. Oficinas psicopedagógicas. Curitiba: InterSaberes, 2013.</p><p>MACEDO, L. de. Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar. Porto Alegre:</p><p>Artmed, 2005.</p><p>MACEDO, L. de.; PETTY, A. L. S.; PASSOS, N. C. Aprender com jogos e</p><p>situações-problema. Porto Alegre: Artmed, 2000.</p><p>_____. 4 cores, senha e dominó: oficinas de jogos em uma perspectiva</p><p>construtivista e psicopedagógica. São Paulo: Casa do psicólogo, 1997.</p><p>PETTY, A. L. S. Os jogos e o lúdico na aprendizagem escolar. Porto Alegre:</p><p>Artmed,2005.</p><p>PORTILHO, E. M. L. et al. A instituição que aprende sob o olhar da</p><p>psicopedagogia. Rio de Janeiro: WAK, 2018.</p><p>VISCA, J. Clínica psicopedagógica: epistemologia convergente. São José dos</p><p>Campos: Pulso, 2010.</p>