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<p>1</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>2</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>3</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Núcleo de Educação a Distância</p><p>GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO</p><p>Diagramação: Gildenor Silva Fonseca</p><p>PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira.</p><p>O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para</p><p>a formação de profissionais capazes de se destacar no mercado de trabalho.</p><p>O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por</p><p>fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem.</p><p>4</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Prezado(a) Pós-Graduando(a),</p><p>Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional!</p><p>Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confiança</p><p>em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se</p><p>decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as</p><p>suas expectativas.</p><p>A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma</p><p>nação soberana, democrática, crítica, reflexiva, acolhedora e integra-</p><p>dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a</p><p>ascensão social e econômica da população de um país.</p><p>Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida-</p><p>de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos.</p><p>Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas</p><p>pessoais e profissionais.</p><p>Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são</p><p>outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi-</p><p>ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver</p><p>um novo perfil profissional, objetivando o aprimoramento para sua atua-</p><p>ção no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo</p><p>importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe-</p><p>rior e se qualificar ainda mais para o magistério nos demais níveis de</p><p>ensino.</p><p>E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a)</p><p>nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial.</p><p>Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos</p><p>conhecimentos.</p><p>Um abraço,</p><p>Grupo Prominas - Educação e Tecnologia</p><p>5</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>6</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas!</p><p>É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha</p><p>é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo-</p><p>sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é</p><p>você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve-</p><p>rança, disciplina e organização.</p><p>Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como</p><p>as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua</p><p>preparação nessa jornada rumo ao sucesso profissional. Todo conteúdo</p><p>foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de</p><p>qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho.</p><p>Estude bastante e um grande abraço!</p><p>Professoras: Fernanda E. Barbosa</p><p>Lilian Hoffmann</p><p>7</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao</p><p>longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc-</p><p>nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela</p><p>conhecimento.</p><p>Cada uma dessas tags, é focada especificadamente em partes</p><p>importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in-</p><p>formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao</p><p>seu sucesso profisisional.</p><p>8</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Esta unidade trata de Psicologia e Laço Social, tema de gran-</p><p>de relevância dentro da Psicologia social, que enfatiza os aspectos</p><p>sócio-históricos das relações do ser humano em sociedade e busca</p><p>compreender essas relações. Nosso estudo começa ao entendermos</p><p>a questão do sujeito, sua subjetividade e sua constituição a partir da</p><p>sua vivência em sociedade. A questão subjetiva é importante desde a</p><p>antiguidade clássica. Pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles,</p><p>chegando a Descartes, Hume, Hegel, Foucault, Deleuze, Heidegger, e</p><p>psicanalistas como Freud e Lacan, entre outros tantos nomes alteraram</p><p>a concepção que temos do sujeito. Diversos desses autores são estu-</p><p>dados nesta unidade.</p><p>Psicanálise, Laço social, Constituição do sujeito.</p><p>9</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>CAPÍTULO 01</p><p>PSICANÁLISE: SUJEITO E LAÇO SOCIAL</p><p>Apresentação do Módulo ______________________________________ 11</p><p>13</p><p>39</p><p>23</p><p>28</p><p>O que é o sujeito e como ele se constitui ________________________</p><p>O avesso da psicanálise, o laço social e os discursos _____________</p><p>O complexo de Édipo: mito e processo civilizatório regulador ___</p><p>Recapitulando _________________________________________________</p><p>CAPÍTULO 02</p><p>SUJEITO, DISCURSOS, GOZO E LAÇO SOCIAL</p><p>Lacan: o sujeito e o laço social __________________________________</p><p>Freud: o inconsciente, a divisão do sujeito e a ordenação psíquica</p><p>Introdução à leitura de Lacan ___________________________________</p><p>Recapitulando _________________________________________________</p><p>36</p><p>15</p><p>42</p><p>46</p><p>CAPÍTULO 03</p><p>FUNDAMENTOS E TEORIAS DA PSICANÁLISE</p><p>Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade ______________________</p><p>Estudos iniciais sobre a Psicanálise _____________________________</p><p>Caso clínico: Srta. Anna O. ______________________________________</p><p>Caso clínico: Dora ______________________________________________</p><p>55</p><p>51</p><p>59</p><p>61</p><p>10</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Fechando a Unidade ___________________________________________</p><p>Recapitulando _________________________________________________</p><p>Referências ____________________________________________________</p><p>70</p><p>65</p><p>73</p><p>11</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>A constituição do sujeito é tema essencial para o campo da</p><p>Psicologia, desde a sua configuração enquanto ciência que estuda o ser</p><p>humano em seu ambiente, tendo sido, em sua origem, influenciada de</p><p>um lado pela filosofia e de outro pelos estudos e práticas da medicina</p><p>sobre os corpos e comportamentos humanos.</p><p>A Psicologia social enfatiza os aspectos sócio-históricos das</p><p>relações do ser humano em sociedade e busca compreendê-las se-</p><p>gundo o aspecto da dominação ideológica e vê a conscientização e</p><p>emancipação do sujeito como saídas possíveis diante deste determi-</p><p>nante cultural. Assim, a Psicologia social estuda o comportamento dos</p><p>indivíduos em interação.</p><p>Justamente no decorrer da história da humanidade e do acom-</p><p>panhamento psicológico dos indivíduos em seu meio, percebeu-se que</p><p>o sujeito, para se constituir enquanto tal, precisa da presença de outro</p><p>sujeito, pois, diferente dos demais animais, o ser humano não consegue</p><p>sobreviver sozinho. Ele não nasce pronto e jamais chega a ficar pronto</p><p>naquilo que ele pode vir a ser. Em contrapartida, essa constituição do</p><p>sujeito por meio do outro pode ser um problema para um grande núme-</p><p>ro de pessoas, traz sofrimento e costuma levar ao adoecimento psíqui-</p><p>co e/ou psicossomático.</p><p>Como podemos investigar o porquê disto? Esmiuçando, esgar-</p><p>çando o conhecimento que temos hoje sobre os sujeitos, partindo do</p><p>que se conhece para o que podemos encontrar efetivamente na prática</p><p>clínica. Isso é o que defende a teoria psicanalítica, tema deste módulo.</p><p>Vale apontar que o século XXI traz desafios que vão colocar em</p><p>questão a Psicologia social e comunitária, principalmente com relação</p><p>à constituição do sujeito diante de sua cultura, a relação</p><p>da mãe.</p><p>Esse pai-lei é o pai simbólico.</p><p>É através da castração simbólica que a criança pode ser cons-</p><p>tituída como Eu e, neste momento, ela passa ao terceiro tempo do Édi-</p><p>po. A castração passa a ser tripla: da criança, da mãe e do pai, que</p><p>passa a ser visto não mais como Lei, mas como o representante dela. A</p><p>Lei não pode mais ser representada singularmente e a identificação da</p><p>criança com o eu ideal (perfeição narcísica) passa a ser com o ideal do</p><p>eu (na identificação com o pai).</p><p>A interiorização da lei (lembrando da 2ª tópica freudiana) pos-</p><p>39</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>sibilita que a criança se constitua como sujeito. É através da linguagem</p><p>que a resolução do Édipo vai acontecer, pois a linguagem veicula uma</p><p>herança ancestral que pode romper com o estado natural e fazer in-</p><p>gressar a ordem simbólica familiar, estabelecendo limites e articulações</p><p>(laços) sociais.</p><p>É a linguagem que vai ordenar (aparelhar) o gozo. E a partir</p><p>disso, Lacan vai denominar quatro formas de organizar o gozo pela lin-</p><p>guagem, o que ficou conhecido como os quatro discursos.</p><p>Afirma Coelho (2006) que há uma articulação inovadora entre</p><p>o campo da linguagem e o campo do gozo. O gozo é uma forma de</p><p>tentar reproduzir ou restaurar a satisfação (pulsional) com relação aos</p><p>substitutos dos objetos de desejo (afetivos), através do discurso. Lacan</p><p>nos diz que é o discurso que faz laço, e que a experiência analítica tam-</p><p>bém é a experiência do discurso. No avesso da psicanálise (seminário</p><p>17), Lacan afirma que o motor da cura pela psicanálise é a transferência</p><p>e o vínculo analisante – analista. Vamos esmiuçar a explicação sobre os</p><p>discursos propostos no subtítulo a seguir.</p><p>O AVESSO DA PSICANÁLISE, O LAÇO SOCIAL E OS DISCURSOS</p><p>Conforme apontamos, Jacques Lacan, no Seminário 17, intitu-</p><p>lado O Avesso da Psicanálise, apresenta as formas de vínculo social a</p><p>partir da definição de quatro discursos que pertencem aos: mestre, uni-</p><p>versitário, histérica e analista. A teoria dos discursos instaura um novo</p><p>modo de pensar as estruturas clínicas e o vínculo social ao articular os</p><p>campos da linguagem e do gozo, o sujeito e o saber inconsciente.</p><p>Para Lacan, os discursos são modos de ordenação do gozo por</p><p>meio da linguagem (Cultura). Ainda em Coelho (2013), podemos con-</p><p>siderar que os laços sociais são tecidos e estruturados pela linguagem</p><p>e denominados de discursos. Os quatro discursos que foram propostos</p><p>por Lacan articulando linguagem e gozo têm como base o que Freud</p><p>formulou em 1930 sobre os quatro tópicos impossíveis de realização</p><p>para o sujeito: governar, educar, analisar e fazer desejar (este último</p><p>um adendo lacaniano), enquanto fontes de sofrimento do homem diante</p><p>da sociedade. Essas quatro formas possíveis de vínculo social entre os</p><p>sujeitos, Lacan denominou de discursos: do mestre, do universitário,</p><p>da histérica e do analista e, posteriormente, o quinto discurso que foi</p><p>formulado como o discurso do capitalista.</p><p>Os discursos foram estruturados por Lacan em fórmulas sim-</p><p>ples chamados de matemas. Em cada matema foram determinados</p><p>quatro lugares, a saber, os lugares de: agente, outro, produção e verda-</p><p>40</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>de. O agente representa o agente do discurso, aquele que dá o tom da</p><p>conversa, aquele que fala, enquanto o outro é aquele a quem o agente</p><p>se dirige. Nessa relação discursiva, o agente emerge enquanto sujeito e</p><p>o outro precisa dele para se constituir. A produção é aquilo que resta no</p><p>discurso, o efeito do discurso, aquilo que o discurso produziu. A verdade</p><p>é o que sustenta o discurso, mas é sempre um semi-dito, pois não pode</p><p>ser dita de forma total, há uma interdição entre a produção e a verdade.</p><p>Os discursos representam uma estrutura, em que os lugares são fixos.</p><p>Lacan também definiu os ocupantes de cada lugar que, a partir</p><p>de vetores, circulam em sentido horário ou anti-horário de acordo com</p><p>determinado tipo de discurso. Ou seja, em cada um dos discursos, cada</p><p>lugar é ocupado por um termo, representado por símbolos que repre-</p><p>sentam: o sujeito (S ou ṩ), o objeto causa do desejo (a), o significante</p><p>mestre (S1) e o saber (S2).Q</p><p>Os termos circulam na estrutura do discurso, trocando os luga-</p><p>res de acordo com cada tipo de discurso: mestre, universitário, histérica,</p><p>o analista e o capitalista. Conforme proposto por Lacan no Seminário 17.</p><p>Segundo Coelho (2013) iniciando pelo discurso do mestre, se</p><p>obtém os outros 3 discursos, diferenciando cada estrutura discursiva</p><p>pela posição dos termos. Estes discursos segundo Lacan sustentam</p><p>o mundo social. Os termos do discurso aparecem em uma sequência</p><p>fixa, porém se alternam em termos de posições estruturais. O signifi-</p><p>cante mestre (S1) representa o sujeito atravessado/determinado pela</p><p>ação significante, fazendo assim a articulação da cadeia significante,</p><p>mas sendo ele próprio vazio de significação. O saber (S2) é um sig-</p><p>nificante ante o qual o S1 representa o sujeito, e com ele estrutura a</p><p>cadeia mínima de significação. Para a psicanálise é um saber que não</p><p>se sabe, inconsciente, que vai se articular com o objeto a causa do de-</p><p>sejo, enquanto o ṩ é o sujeito marcado pela barra, que deixa em aberto</p><p>a possibilidade de vir a ser, esvaziado de substância.</p><p>Lacan baseia a elaboração dos discursos na obra de Hegel, A</p><p>Fenomenologia do Espírito (1807) e, a partir do reconhecimento e da</p><p>análise da dialética do senhor e do escravo, propõe refletir sobre a ideia</p><p>hegeliana de que o escravo se libertará do trabalho, ou seja, que renun-</p><p>ciando ao gozo por medo da morte, realizará a sua liberdade. Lacan</p><p>observa nisso um engodo, pois afirma que “o gozo é fácil para o escravo</p><p>e deixará o trabalho na servidão” (Lacan, 1998, p. 825).</p><p>Lacan diz no seminário 17 que: “Não se esperou, para ver isso,</p><p>que o discurso do mestre tivesse se desenvolvido plenamente para</p><p>mostrar sua clave no discurso do capitalista, em sua curiosa copulação</p><p>com a ciência” (1969-1970/1998, p.103).</p><p>Assim, para Coelho (2006), o discurso do capitalista que ele</p><p>41</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>faz menção no Seminário 17 (mas que vai apresentar melhor apenas</p><p>no seminário 19), não é exatamente outro discurso, mas a forma mais</p><p>contemporânea do discurso do Mestre, pois houve um deslizamento do</p><p>discurso do mestre para o discurso do capitalista a partir dos avanços</p><p>das tecnologias e da ciência, sendo que no discurso do capitalista não</p><p>há relação entre o agente e o outro, não há laço social, não há vínculo</p><p>entre o capitalista e o proletário. A única produção entre eles é o gozo</p><p>(...o gozo é fácil para o escravo). A verdade do mestre é que ele é cas-</p><p>trado, um sujeito dividido.</p><p>Podemos dizer que se produz entre eles um laço associal, pois</p><p>ignora a barreira ao gozo e a perda imposta pelo processo civilizatório</p><p>regulador. O discurso do capitalista, para Lacan, incita o imperativo do</p><p>gozo na sociedade de consumo, ou seja, o gozo obtido por meio de ob-</p><p>jetos-mercadorias, considerando uma transformação radical do mundo</p><p>através do capitalismo.</p><p>Os outros discursos também são importantes enquanto alicer-</p><p>ces sociais e demonstram o quanto Lacan estava preocupado com o</p><p>laço social a partir da análise dos avanços científicos e do contexto</p><p>histórico da sua época. No discurso universitário, o saber (S2) ocupa</p><p>o lugar de agente (o professor) e o estudante ocupa o lugar do outro,</p><p>o produto da universidade é o ṩ (incompleto), que deseja saber mais.</p><p>O S1 no lugar da verdade o impulsiona a saber mais, a continuar em</p><p>busca da verdade.</p><p>O discurso da histérica é de extrema importância para a psica-</p><p>nálise, pois remete à sua fundação e à formulação do inconsciente. No</p><p>lugar do Mestre, ela tenta colocar o analista e também destituí-lo e, para</p><p>Lacan, a histérica mantém a pergunta: o que é a relação sexual, como</p><p>sustentá-la? A resposta que Lacan mesmo dá é: a verdade,</p><p>que está</p><p>recalcada. Ao trabalhar o discurso da histérica foi possível abandonar</p><p>outros meios de intervenção não producentes pela associação livre e</p><p>que a interpretação do analista acontece a partir dos atos falhos e dos</p><p>sonhos.</p><p>Os discursos representam modos de uso da linguagem como</p><p>vínculo social, pois se funda na estrutura significante. É a articulação</p><p>da cadeia significante que produz o discurso, e que ordena e regula um</p><p>vínculo social entre os sujeitos.</p><p>Em relação à causação do sujeito, Lacan aponta tanto a aliena-</p><p>ção como a separação, que permitem – pela diversidade cultural – a ex-</p><p>tração da unidade do sujeito. Tanto cifrar, quanto decifrar estão ligados</p><p>ao gozo pulsional do sujeito. A escrita deixa rastos dos pensamentos,</p><p>dos vestígios do percurso da pulsão e podem representar um laço social</p><p>e compartilhado com o mundo, pois há o desejo de que alguém o leia;</p><p>42</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>nesse sentido, há um domínio sobre o real, e de certo modo auxilia na</p><p>elaboração do conteúdo traumático.</p><p>O significante então ganha significados a partir do leitor, uma</p><p>leitura do que se ouve ou se vê desse significante. Exemplos desse laço</p><p>social é observar que a obra sempre escapa do autor no encontro com</p><p>o Outro, seja por meio da arte, da pintura, da literatura, da poesia, da</p><p>tatuagem marcada na pele, o momento em que o significante se encon-</p><p>tra com a leitura do significado que é do Outro. Essas representações</p><p>revelam temas singulares que podem ser analisados.</p><p>INTRODUÇÃO À LEITURA DE LACAN</p><p>Se propor à introdução da leitura lacaniana significa percorrer</p><p>adentro na história de Lacan, que nasceu em 1901, na França, rompeu</p><p>com a comunidade psicanalítica francesa e, em 1964, fundou a “Esco-</p><p>la freudiana de Paris”, que tornou-se a instituição mais importante da</p><p>França. Intelectual poderoso no país, lançou os seminários e as Confe-</p><p>rências, fundamentados com firmeza, principalmente após a recompi-</p><p>lação de seus artigos, denominados “Escritos” (1966) (MILLER, 2016).</p><p>Lacan está ligado, na atualidade, aos ensinamentos de Freud.</p><p>Ele não reinventou a psicanálise, mas começou os seus ensinamentos</p><p>sob o signo de um retorno a Freud, formulando, a propósito, uma per-</p><p>gunta crítica sobre a psicanálise:</p><p>[...] Quais são suas condições de possibilidade? E qual foi a resposta? A</p><p>psicanálise só é possível se, e somente se, o inconsciente está estruturado</p><p>como uma linguagem. O que se chama o ensino de Lacan é o desenvolvi-</p><p>mento dessa hipótese até suas últimas consequências (MILLER, 2016, p. 5).</p><p>O fato é que entender o inconsciente sob a ótica lacaniana sig-</p><p>nifica compreender a sua estrutura, a linguagem, um deciframento dos</p><p>mecanismos primários do inconsciente (condensação e deslocamento),</p><p>que têm como protótipos a metáfora e a metonímia. Essas questões são</p><p>evidências praticamente indiscutíveis no campo analítico. E a pergunta</p><p>central se concentra em como poderiam essa ferramenta da associação</p><p>livre e o dispositivo da cura psicanalítica afetarem o campo real da sinto-</p><p>mática? E de Lacan, a tese parte do princípio de que o axioma freudiano</p><p>é um inconsciente estruturado como uma linguagem que é lida pelo laço</p><p>social e essa estruturação do inconsciente seria a própria experiência</p><p>analítica e o analista seria parte desse conceito de inconsciente propos-</p><p>to por Lacan.</p><p>Lacan lança luz à epistemologia crítica, pois mobiliza ao escre-</p><p>43</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>ver todos os recursos retóricos e homofônicos da linguagem do incons-</p><p>ciente, evidenciando a primazia do significante. E a pedra de toque do</p><p>inconsciente como linguagem é a distinção entre o real, o simbólico e o</p><p>imaginário (MILLER, 2016).</p><p>Entre 1953 e 1963, os estudos de Lacan foram voltados para o</p><p>ensino do seminário de textos freudianos e a presença da análise das</p><p>estruturas de linguagem é um fato, inclusive de compreender nesse pe-</p><p>ríodo a dimensão da experiência simbólica, introduzindo a álgebra, que</p><p>ele chamará de organon.</p><p>A partir de 1964 até 1974, Lacan, apesar de comentar os textos</p><p>freudianos, se utiliza dos termos da elaboração de sua tese como cen-</p><p>tral aos ensinamentos.</p><p>Depois de 1974, Lacan fundamenta literalmente seus ensina-</p><p>mentos em sua tese, especialmente a questão do real – simbólico –</p><p>imaginário, onde o real se converteu na categoria central.</p><p>E Lacan entra nos estudos introdutórios da psicanálise com o</p><p>estágio do espelho, que corresponde à análise comportamental e sua</p><p>descrição depende tanto da psicologia animal, quanto da fisiologia hu-</p><p>mana e resume-se ao interesse lúdico na primeira infância, entre os seis</p><p>e os dezoito meses (MILLER, 2016). Miller (2016) aponta para a pro-</p><p>blemática tríade entre a necessidade – o desejo – e a demanda; desse</p><p>modo, a pulsão se expressa sob a forma de um representante.</p><p>O primeiro processo pulsional da criança surge de um despra-</p><p>zer ocasionado pelo estado de tensão devido à fonte de excitação da</p><p>pulsão, é a necessidade, um processo orgânico.</p><p>Esta experiência primeira de satisfação deixa um traço mnésico ao nível do</p><p>aparelho psíquico, na medida em que a satisfação, como tal, irá encontrar-se</p><p>doravante diretamente ligada à imagem/percepção do objeto que proporcio-</p><p>nou esta satisfação. É este traço mnésico que constitui a representação do</p><p>processo pulsional para a criança (DOR, 1992, p. 140).</p><p>Quando o estado pulsional reaparecer, a memória será reativa-</p><p>da. Em um segundo momento não é mais uma necessidade, a dimen-</p><p>são do desejo se torna uma realidade psíquica. A pulsão que mobiliza</p><p>o sujeito em direção ao objeto pulsional. O desejo não tem objeto na</p><p>realidade (DOR, 1992).</p><p>A criança, de certo modo, tende a se satisfazer de forma aluci-</p><p>natória e somente com a experiência que a imagem mnésica da satisfa-</p><p>ção será distinta da satisfação real.</p><p>Falar do desejo na psicanálise significa processar um reinves-</p><p>timento psíquico, uma ligação mnésica de satisfação e excitação pulsio-</p><p>nal. A reaparição da percepção é, de fato, a realização desse desejo, e</p><p>44</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>o total investimento perceptivo, partindo da excitação da necessidade,</p><p>leva à realização desse processo de desejo que é dinâmico, e também</p><p>antecipa a satisfação alucinatória (DOR, 1992).</p><p>A dimensão do desejo tem por via uma realidade psíquica e a</p><p>pulsão que mobiliza o sujeito na direção objetal. Lacan analisa a noção</p><p>de pulsão através de 4 parâmetros freudianos que definem seu prin-</p><p>cípio: fonte, pressão, alvo e objeto e, para ele, a pulsão não se move</p><p>satisfeita necessariamente por seu objeto. Em outras palavras, essa</p><p>pulsão objetal descobre que não é através do objeto que alcançará a</p><p>satisfação (DOR, 1992).</p><p>As primeiras manifestações orgânicas traduzem-se por esta-</p><p>dos de tensão do corpo. A incapacidade da criança de se auto satisfa-</p><p>zer, necessitando do outro. Essas manifestações tomam valor de signo</p><p>para o adulto, uma vez que é ele que alivia e decide compreender que</p><p>a criança está com necessidades. Nessas manifestações, a criança não</p><p>tem intenção de enviar uma mensagem para o outro, mas, em contra-</p><p>partida, elas implicam sentido ao outro e isso a coloca no universo de</p><p>comunicação. Com a experiência da satisfação, ela deseja a mediação</p><p>com o outro.</p><p>Se analisarmos profundamente até aqui a introdução dos estu-</p><p>dos sobre Lacan, podemos observar que:</p><p>[...] o ensino de Lacan começa com a disjunção entre o simbólico e o imagi-</p><p>nário. Pode-se dizer, verdadeiramente, que o ensino de Lacan começa quan-</p><p>do distingue de forma radical o que ao domínio imaginário e o que pertence</p><p>ao domínio simbólico [...] ao mesmo tempo,distingue o eu em sua dimensão</p><p>imaginária e o sujeito com o termo simbólico, e esse é também um dos pri-</p><p>meiros termos que introduz em Freud, e é também um dos primeiros termos</p><p>de sua álgebra (MILLER, 2016, p. 14).</p><p>Observando a lógica lacaniana, o simbólico é</p><p>uma noção muito</p><p>elaborada, pois possui a vertente da palavra e a vertente da linguagem.</p><p>A primeira, para Lacan, possui uma função pacificadora e de identifi-</p><p>cação e o sintoma, nessa posição, nada mais é do que não conseguir</p><p>dizer a sua palavra e o processo de cura se dá no campo analítico por</p><p>meio da simbolização, um processo intersubjetivo de restabelecer a sua</p><p>própria história interrompida pelo sintoma, literalmente a vertente da pa-</p><p>lavra.</p><p>A segunda vertente, da linguagem, é uma linguística simbólica</p><p>e estrutural dentro de um campo relacional, ou seja, apesar da relação</p><p>com o outro, a linguagem estrutural é da criança mesmo antes da inte-</p><p>ração, de modo que ela utiliza formas de linguagem bem elaboradas do</p><p>ponto de vista sintático.</p><p>45</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Lacan elaborou três pontos distintos diante das nuances do</p><p>simbólico:</p><p>1. o significante atua sobre o significado, criando-o, e é a partir</p><p>do sem-sentido do significante que ocorre a significação;</p><p>2. conceito de cadeia significante – correlato com a formação do</p><p>inconsciente e que o automatismo de repetição veicula uma marca inde-</p><p>lével e que o inconsciente provavelmente tem correlação com a memória;</p><p>3. a funcionalidade do simbólico estrutural: de forma íntegra,</p><p>mostra a relação distinta entre a estrutura simbólica e o sujeito X a rela-</p><p>ção imaginária do eu e o outro (da linguagem, do discurso universal, da</p><p>biblioteca total de Borges, da verdade, do diálogo, do pacto, do acordo</p><p>ou do desacordo, da palavra, cujo inconsciente é o discurso, mas sem-</p><p>pre da linguagem) e que possui uma função determinante e de exterio-</p><p>ridade para o sujeito (MILLER, 2016). De certo modo, observa-se que o</p><p>significante desse Outro está implicado com uma ideia de diversidade</p><p>de significações.</p><p>E qual seria então a função do psicanalista? Como ele deve</p><p>conduzir o grande Outro? Deve-se interpretar a excentricidade desse</p><p>simbolismo, desfazendo o sintoma. Essa é a primeira teoria analítica de</p><p>Lacan, em seus estudos introdutórios, sucessivamente vieram outros</p><p>estudos, delimitando de forma mais precisa o seu objeto.</p><p>Lacan desenvolveu uma teoria estrutural lógica e o sujeito não</p><p>era um dado inicial, apenas o grande Outro. A estrutura lacaniana cap-</p><p>tura o ser vivo que fala e por meio da linguagem também se utiliza do</p><p>corpo, porém, essa estrutura escraviza o sujeito, fragmentando-o em</p><p>efeitos de significante, como no caso da histeria, a estrutura significante</p><p>desvitaliza esse corpo (MILLER, 2016).</p><p>Se voltarmos à primeira infância, veremos que Lacan lança</p><p>mão do amor para explicar o fundamental, o laço social, antes mesmo</p><p>da formação da personalidade e da neurose:</p><p>[...] O mais importante que se tem para dar é o que não se tem como uma</p><p>propriedade, como um bem, e esta é, decerto, a definição lacaniana do amor:</p><p>dar o que não se tem. Essa resposta do Outro, a pura resposta do Outro, é</p><p>mais importante que a satisfação da necessidade, e é aí precisamente onde</p><p>Lacan encontra o princípio da identificação simbólica a partir do significante</p><p>da resposta do grande Outro se dá a primeira identificação do sujeito. Acres-</p><p>centa-se a isso que é o intervalo entre a necessidade e o amor que explica</p><p>aquilo que Freud descobriu no sonho com o nome de “Wunsch” - anseio -, e</p><p>que é o desejo (MILLER, 2016, p. 23).</p><p>Lacan, em seus seminários, denominou o desejo freudiano de</p><p>- Mais, ainda, uma metonimia do desejo, ele não estaria subordinado a</p><p>uma lógica, mas suscetível a uma ética, que Lacan formulou em 1950.</p><p>46</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>QUESTÕES DE CONCURSOS</p><p>QUESTÃO 1</p><p>Ano: 2019 Banca: COTEC Órgão: Prefeitura de Turmalina - MG Pro-</p><p>va: Psicólogo Nível: Superior</p><p>Considere a afirmativa: O inconsciente é estruturado como uma</p><p>linguagem. Com base nessa afirmativa, analise as proposições</p><p>abaixo e marque a alternativa CORRETA.</p><p>a) Essa é uma maneira de expressar a revisão que Lacan fez de um dos</p><p>quatro conceitos fundamentais da teoria de Freud.</p><p>b) Essa é uma definição original, conforme a teoria de Sigmund Freud.</p><p>c) Esse é um conceito determinado por Winnicot, na sua obra “A criança</p><p>e o seu mundo”.</p><p>d) Essa definição foi largamente difundida por Erich Fromm, a partir da</p><p>releitura da obra de Freud.</p><p>QUESTÃO 2</p><p>Ano: 2019 Banca: CESGRANRIO Órgão: UFC Prova: Psicólogo Clí-</p><p>nico Nível: Superior.</p><p>“O que chamei de estádio do espelho tem o interesse de manifes-</p><p>tar o dinamismo afetivo pelo qual o sujeito se identifica primor-</p><p>dialmente com a Gestalt visual de seu próprio corpo”. Lacan, J.</p><p>Agressividade em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar,</p><p>1995. A teoria lacaniana do estádio do espelho serve, dentre outras</p><p>coisas, para pensar os episódios em que a criança se torna agres-</p><p>siva. A agressividade entre crianças é explicada, de acordo com</p><p>essa referência, pela:</p><p>a) emergência da diferença na imagem do outro, já que a imagem do</p><p>semelhante coloca em causa sua própria identidade.</p><p>b) falta da referência paterna que regula as relações, sustentada pela</p><p>presença de um adulto.</p><p>c) estagnação do desenvolvimento nessa fase, fixando a criança em</p><p>uma analidade que precisa controlar o semelhante.</p><p>d) dependência do olhar do adulto para a sustentação da autoimagem,</p><p>sendo a agressividade uma convocação desse olhar.</p><p>e) presença de um núcleo psicótico nessa fase do desenvolvimento,</p><p>promovendo com o outro relações paranoicas.</p><p>QUESTÃO 3</p><p>Ano: 2014 Banca: FGV Órgão: TJ-GO Prova: Psicólogo Nível: Superior</p><p>Françoise Dolto, conhecida psicanalista francesa, ressalta em di-</p><p>versos livros a importância de dirigir a palavra à criança enquanto</p><p>47</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>sujeito de desejo, marcado pela linguagem e, logo, pela lei da cas-</p><p>tração. No contexto de separação dos pais, ela recomenda escutar</p><p>a criança na perspectiva de:</p><p>a) considerá-la membro da família, logo, possuidora dos deveres filiais.</p><p>b) sugerir que ela decida com quem deseja ficar, logo, atendendo à sua</p><p>condição de sujeito de direitos.</p><p>c) obter subsídios para a decisão judicial, logo, orientando a conclusão</p><p>das avaliações psicológicas.</p><p>d) induzi-la a expressar seus sentimentos, logo, considerando a sepa-</p><p>ração entre lei e desejo.</p><p>e) considerá-la objeto das leis menoristas, logo, subordinada ao Estado.</p><p>QUESTÃO 4</p><p>Ano: 2014 Banca: FGV Órgão: TJ-RJ Prova: Psicologia Nível: Superior</p><p>Na conhecida Nota sobre a criança (1969), Lacan afirma que o sin-</p><p>toma da criança é capaz de “responder ao que existe de sintomáti-</p><p>co na estrutura familiar” e, portanto, se define “como representan-</p><p>te da verdade”. Ele aponta, assim, para duas formas de articulação</p><p>do sintoma infantil: a primeira, que corresponde à articulação sig-</p><p>nificante orientada pela metáfora paterna; e a segunda, que decor-</p><p>re da subjetividade da mãe e deixa a criança exposta a todas as</p><p>capturas fantasísticas. Assim, pode-se dizer que o sintoma infantil:</p><p>a) na primeira articulação, corresponde ao lugar condensador de gozo;</p><p>na segunda, permite à criança o acesso à significação fálica.</p><p>b) na primeira articulação, está ligado à neurose e à perversão; na se-</p><p>gunda, à psicose infantil.</p><p>c) na primeira articulação, realiza a presença do objeto mais gozar; na</p><p>segunda, deixa uma abertura maior às intervenções do analista.</p><p>d) na primeira articulação, representa a verdade do casal familiar; na</p><p>segunda, realiza a presença da criança como objeto a.</p><p>e) na primeira articulação, corresponde ao terceiro momento do édipo;</p><p>na segunda, ao primeiro momento.</p><p>QUESTÃO 5</p><p>Ano: 2014 Banca: LEGALLE Órgão: TJ-GO Prova: Psicólogo Nível:</p><p>Superior</p><p>Segundo a psicanálise, podemos conceber a constituição do eu</p><p>(moi) como unidade psíquica, correlativamente à constituição do</p><p>esquema corporal no qual a criança se identifica com a imagem</p><p>do semelhante. J. Lacan relacionou esse primeiro momento da for-</p><p>mação do eu com a experiência narcísica fundamental designada</p><p>como:</p><p>48</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>a) complexo fraterno</p><p>b) estádio do espelho</p><p>c) metáfora paterna</p><p>d) complexo do desmame</p><p>e) dialética fálica</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE</p><p>Jaques Lacan, no seminário 17, o Avesso da Psicanálise publicado em</p><p>1970, apresenta quatro discursos que, segundo ele, são os pilares que</p><p>sustentam a nossa sociedade. Porém, mais adiante no seminário 19,</p><p>ao formalizar os discursos, ele apresenta um quinto formato discursivo,</p><p>que ele definiu como sendo o discurso do capitalista. Comente de que</p><p>forma ele apresentou e concebeu esse discurso.</p><p>TREINO INÉDITO</p><p>De acordo com Dor (1992), sobre a sublimação descrita por Freud, o</p><p>que Lacan afirma sobre o sentido da satisfação pulsional?</p><p>a) A pulsão não seria necessariamente satisfeita por seu objeto.</p><p>b) Segundo Freud, a sublimação é um dos destinos da pulsão.</p><p>c) A sublimação para Freud satisfaz a pulsão, evitando o recalque.</p><p>d) A pulsão é inibida quanto a seu alvo.</p><p>e) Lacan concorda com Freud em relação ao sentido da satisfação pul-</p><p>sional.</p><p>NA MÍDIA</p><p>EU + 1 = MUITOS</p><p>Documentário narra a jornada em Saúde Mental voltada para atingidos</p><p>pela construção da hidrelétrica de Belo Monte (por Ana Claudia Peres)</p><p>A entrevista da jornalista Eliane Brum junto à comunidade de Belo Mon-</p><p>te virou projeto social, envolvendo psicólogos, psiquiatras, psicanalis-</p><p>tas, a própria jornalista e o documentário. O depoimento do seu João</p><p>dizia: “Senhora, é doído. Você constrói tudo pra na hora da velhice di-</p><p>zer: ‘Tô sossegado, tenho uma casa, minha família toda estruturada’.</p><p>Aí, você abre a mão assim e, xiuuuuu, é igual a uma poça d´água no</p><p>meio da areia”.</p><p>As pessoas que passaram pela tragédia foram consideradas pelos pro-</p><p>fissionais de saúde mental que os atenderam como “refugiados dentro</p><p>do próprio país, pessoas expulsas do lar sem direito a decidir sobre seu</p><p>destino”.</p><p>49</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Para a psicanalista Ilana Katz, outra idealizadora do projeto, essa foi</p><p>uma das experiências mais profundas que já vivenciou. Ela foi a Belo</p><p>Monte motivada pela pergunta: “Que nome as pessoas dão para o seu</p><p>sofrimento lá?” Podemos ainda perguntar: como se nomeia esse tipo</p><p>de sofrimento? Que laço social pode existir nesse espaço onde as pes-</p><p>soas se veem desamparadas? Illana ouviu como resposta que, para os</p><p>ribeirinhos, o sofrimento tem nome de “cansaço”, “engano”, “traição”,</p><p>“perder a casa”, “pescador sem rio”, “monstruosidade”, “buraco”, “es-</p><p>quecimento”, “fim”. O desejo dessas pessoas: falar de suas dores e do</p><p>que importa para elas, sentirem-se cuidadas. Para cada um dos profis-</p><p>sionais, apesar do pouco tempo, era essencial o exercício da escuta.</p><p>Apesar da controversa judicial, os relatos falam por si, os discursos so-</p><p>bre o sofrimento que viraram testemunhos têm um tom político, de mi-</p><p>litância, uma defesa de políticas públicas que descreve a formação de</p><p>um laço social: “Se for só eu, nós não vamos fazer nada. Se eu vou te</p><p>convidar pra lutar contra alguma coisa, sou eu e mais um, você e mais</p><p>um, aí a história segue”, diz um dos refugiados de Belo Monte, que bem</p><p>explica o título do documentário e o espírito da Clínica de Cuidado.</p><p>Para Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da Univer-</p><p>sidade de São Paulo (USP), Belo Monte foi um “crime psicossocial”. E</p><p>protesta: “Isso é indignante. É a ausência de qualquer consideração</p><p>sobre saúde mental. Nosso processo civilizatório não aprendeu nada”.</p><p>Fonte: RADIS</p><p>Data de Publicação: 01/10/2017</p><p>Site: https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/reportagem/eu-1-muitos</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Na prática, o terapeuta precisa conhecer as bases e raízes da psicanáli-</p><p>se para desenvolver tecnicamente o lado da arte de interpretar proposta</p><p>por esta teoria, pois o método da associação livre é ferramenta do pa-</p><p>ciente e a arte interpretativa é responsabilidade do terapeuta.</p><p>Considerando a questão inicial sobre a prática, Freud considerou o re-</p><p>flexo como protótipo e modelo de comportamento. O estímulo é conce-</p><p>bido como um fator de produção de energia, dele resulta uma elevação</p><p>do potencial, com ruptura do nível ótimo em que deve permanecer o</p><p>organismo. O excesso responsável pelo desequilíbrio terá que ser es-</p><p>coado através de resposta adequada. A função da resposta será de</p><p>descarga, produzindo o escoamento do excesso de energia, cessa o</p><p>estado de desconforto ou de desprazer, recompondo-se a condição de</p><p>equilíbrio (princípio da constância).</p><p>https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/reportagem/eu-1-muitos</p><p>50</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>De acordo com Freud, os estímulos responsáveis por mais acréscimo</p><p>de tensão não são os que procedem do meio exterior, são os que se</p><p>originam no próprio interior do organismo (fome, sede, sexo). Uma des-</p><p>carga imediata, tal como no caso do reflexo é impossível.</p><p>A ação do terapeuta está na responsabilidade diretiva de mobilizar con-</p><p>teúdos inconscientes e traumáticos por meio do método da associação</p><p>livre, em alguns casos, por exemplo, de conteúdo traumático e de forte</p><p>energia pulsional, podem surgir no setting terapêutico por meio da ca-</p><p>tarse, por exemplo, que ocorre uma forte descarga libidinal sem controle</p><p>e de conteúdo inconsciente, pois o princípio básico, o verdadeiro signi-</p><p>ficado da teoria freudiana é o princípio do desprazer, este movimenta</p><p>todo o aparelho mental.</p><p>Entendido o básico, o terapeuta, na prática, deve considerar o tripé da</p><p>psicanálise: conhecimento – prática – análise, ou seja, um terapeuta</p><p>qualificado se preocupa e estuda com afinco a teoria psicanalítica e</p><p>suas técnicas, exerce a função de terapeuta na prática lidando com ca-</p><p>sos clínicos reais e, por fim, jamais se desgarra de sua própria análise,</p><p>condição indispensável para analisar o outro.</p><p>PARA SABER MAIS</p><p>Filme sobre o assunto: Freud, além da alma (Jean-Paul Sartre, 1962)</p><p>Peça de teatro: Antígona (TV Cultura, 2011)</p><p>Acesse os links: https://vimeo.com/142402784 e https://www.youtube.</p><p>com/watch?v=v5rhWLWZlVY</p><p>https://vimeo.com/142402784</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=v5rhWLWZlVY</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=v5rhWLWZlVY</p><p>51</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>ESTUDOS INICIAIS SOBRE A PSICANÁLISE</p><p>A psicanálise nasceu no século XX, e a Interpretação de So-</p><p>nhos (1900) foi uma dos mais célebres tratados de Freud. A princípio,</p><p>a teoria psicanalítica se ocupava de descrever e analisar o objeto que</p><p>eram as doenças nervosas funcionais, e a histeria era, de fato, um enig-</p><p>ma do protótipo de toda a espécie; porém, na análise ainda circulava</p><p>apenas a neurobiologia e não havia um estudioso que se atrevesse a</p><p>discutir a neurose pelo fator psíquico, as paralisias eram analisadas no</p><p>fator orgânico.</p><p>Foi com o hipnotismo que a genuinidade do fenômeno foi to-</p><p>mada pela análise de mudanças somáticas associadas por influências</p><p>mentais e da descrição de que havia processos mentais inconscientes.</p><p>Com essa técnica, foi a primeira vez que o conceito teórico de incons-</p><p>ciente pode ser experimentado de forma tangível.</p><p>FUNDAMENTOS & TEORIAS</p><p>DA PSICANÁLISE</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>52</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>A psicanálise teve às suas ordens um legado que herdou do</p><p>hipnotismo. Alguns teóricos como Charcot, Janet e Breuer contribuíram</p><p>genuinamente com os estudos iniciais da psicanálise. Segundo Char-</p><p>cot, a hipnose foi um auxílio no estudo das neuroses, da descrição dos</p><p>sintomas histéricos, demonstrando que pela sugestão de um trauma,</p><p>sob a técnica da hipnose, poderia provocar artificialmente paralisias.</p><p>Pierre Janet, com o auxílio da hipnose, observou que os sinto-</p><p>mas da histeria eram dependentes de pensamentos ICS. Atribuiu à his-</p><p>teria a uma incapacidade constitucional de manter reunidos processos</p><p>mentais,</p><p>que levava a uma desintegração (dissociação) da vida mental.</p><p>Breuer foi um importante colaborador de Freud e de certo modo</p><p>co-terapeuta / terapeuta conjuntamente com Freud no tratamento da</p><p>histeria do caso de Anna O., e para explicar a origem dos sintomas his-</p><p>téricos, observou-se a vida emocional do sujeito (afetividade) e a ação</p><p>recíproca de forças mentais (dinâmica). Ele induzia a paciente, sob hip-</p><p>nose, a relembrar os traumas esquecidos e reagir a eles com poderosas</p><p>expressões de afeto. Quando isso era feito, o sintoma desaparecia, era</p><p>um procedimento de investigar a neurose e livrar a paciente dela.</p><p>Nos estudos sobre histeria, Freud e Breuer observaram que</p><p>os sintomas histéricos surgiam quando o afeto de um processo mental</p><p>catexizado por um forte afeto era impedido pela força de ser conscien-</p><p>temente elaborado de maneira normal e era desviado para o caminho</p><p>“errado”.</p><p>Na histeria, o afeto passa para uma inversão somática (conver-</p><p>são), mas se podia dar uma outra direção e ver-se livre dele (ab-reagi-</p><p>do), se a experiência fosse vivida sob hipnose. Esse processo ocorria</p><p>por meio da catarse (liberação de um afeto estrangulado). O método da</p><p>catarse foi o precursor da teoria psicanalítica.</p><p>Logo após os estudos sobre a histeria, Breuer abandonou a</p><p>clínica e rompeu com os estudos de Freud e este continuou aperfei-</p><p>çoando o legado de seu colaborador. Ele apresenta a hipnose como</p><p>procedimento técnico, porém, logo abandona, pois não conseguia indu-</p><p>zir a hipnose em alguns pacientes, estava insatisfeito com os resultados</p><p>terapêuticos da catarse baseada na hipnose, dependia das relações</p><p>pessoais do paciente com o analista e os resultados eram temporários.</p><p>Foi nesse momento que Freud substituiu a hipnose pelo méto-</p><p>do da associação livre associada à arte da interpretação e dava um sig-</p><p>nificado de uma compreensão interna (insight) de uma ação recíproca</p><p>de forças que estavam ocultas da hipnose.</p><p>Um conflito entre dois grupos de tendências mentais deve ser</p><p>encarado como o fundamento para a repressão e a causa da neurose. A</p><p>teoria da repressão é de fato uma das pedras angulares da psicanálise.</p><p>53</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>A repressão procedia da personalidade consciente da pessoa</p><p>enferma (seu ego) e baseava-se em motivos estéticos e éticos, os im-</p><p>pulsos sujeitos à repressão eram do egoísmo e da crueldade, porém, os</p><p>impulsos e desejos sexuais eram de espécie grosseira e proibida.</p><p>A pulsão é importante, as experiências e conflitos da infância</p><p>são parte do desenvolvimento e a libido é a força dos instintos sexuais</p><p>que é dirigida para o objeto sexual. As fixações infantis da libido são o</p><p>que determina a forma de qualquer neurose que vem depois. As neuro-</p><p>ses são inibições no desenvolvimento da libido.</p><p>Ao lado da libido objetal está a libido narcísica ou do ego, diri-</p><p>gida para o próprio ego do sujeito e a interação dessas duas forças ex-</p><p>plica tanto processo mentais normais, como anormais, na vida mental.</p><p>Nas neuroses de transferência, a libido é deslocada para os objetos,</p><p>ocorrendo a transferência; na histeria, a angústia e a conversão estão</p><p>presentes. Nos distúrbios narcísicos, as neuroses se apresentam com</p><p>a retirada da libido sobre o ego e as psicoses funcionais se apresentam</p><p>por meio da esquizofrenia, paranoia, mania e depressão.</p><p>A psicanálise teve fatores contribuintes para a sua constituição:</p><p>ênfase na vida instintual (afetividade), na dinâmica mental, os fenôme-</p><p>nos ICS possuem um significado e uma causa, a teoria do conflito psí-</p><p>quico e da natureza patogênica da repressão, os sintomas substituem</p><p>satisfações proibidas, etiologia da vida sexual, primórdios da sexuali-</p><p>dade infantil, a relação das crianças com os pais (Complexo de Édipo),</p><p>e este é o núcleo da neurose e do comportamento transferencial entre</p><p>paciente e terapeuta.</p><p>No Complexo de Édipo, a relação emocional de uma criança</p><p>com seus pais interfere diretamente em sua vida mental e está relacio-</p><p>nada a dois fatores biológicos: o longo período de dependência da crian-</p><p>ça e a maneira que sua vida sexual atinge um primeiro clímax do ter-</p><p>ceiro ao quinto ano de vida e depois inibido, ressurgindo na puberdade.</p><p>Nos estudos de Freud, dois fenômenos pertencem tanto ao</p><p>campo da normalidade, quanto da patologia: as parapraxias e os so-</p><p>nhos. As parapraxias envolvem o lapso de linguagem e de escrita, co-</p><p>locação errada de objetos etc. Acontecimentos dessa natureza ocorrem</p><p>devido à intenção consciente na qual o inconsciente interfere; os so-</p><p>nhos são construídos da mesma maneira que os sintomas neuróticos,</p><p>podem aparecer sem sentido e de conteúdo estranho ou desarticulado</p><p>da realidade entendível.</p><p>Pela técnica psicanalítica, o conteúdo deformado contido na</p><p>manifestação do sonho tem um significado secreto, são os pensamen-</p><p>tos oníricos latentes. A latência é um desejo impulsivo, o qual se realiza</p><p>no sonho. Exceto em crianças e sob forte pressão de necessidades</p><p>54</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>físicas imperativas, esse desejo secreto jamais pode ser identificado,</p><p>ele se submete a uma deformação, pelas forças censurantes do ego.</p><p>O trabalho com os sonhos estuda o processo que transforma</p><p>o desejo latente realizado no conteúdo manifesto do sonho e, se o pro-</p><p>cesso de formação onírica ultrapassa limites, quem sonha o interrompe</p><p>e acorda assustado.</p><p>A teoria analítica baseia-se em três pedras angulares: o reco-</p><p>nhecimento da repressão, da importância do instinto sexual e da trans-</p><p>ferência.</p><p>A repressão (força na mente que exerce as funções de uma</p><p>censura e que exclui da consciência e de qualquer influência sobre a</p><p>ação todas as tendências que a desagradam (conteúdo reprimido).</p><p>A repressão mais intensa incide sobre os instintos sexuais, por</p><p>motivos culturais. Os sintomas neuróticos são manifestações substituti-</p><p>vas da sexualidade reprimida.</p><p>Todas as experiências infantis são importantes para o indivíduo</p><p>e, em combinação com sua constituição sexual herdada, formam dispo-</p><p>sições para o desenvolvimento do caráter da doença.</p><p>Segundo Freud, o curso dos processos mentais é regulado</p><p>pelo princípio de prazer – desprazer. O princípio de prazer original pas-</p><p>sa por uma modificação com referência ao mundo externo, dando lugar</p><p>ao princípio da realidade (o aparelho mental aprende a adiar o prazer</p><p>da satisfação e a tolerar temporariamente sentimentos de desprazer).</p><p>O aparelho mental, do ponto de vista topográfico, é compos-</p><p>to: ID (impulsos instintuais); ego (é a parte mais superficial do id que</p><p>foi modificada pela influência do mundo externo) e o superego (se de-</p><p>senvolve do id, dominando-o e representa as inibições do instinto). Os</p><p>processos do id são totalmente inconscientes. A consciência é a função</p><p>da camada mais externa do ego, que se interessa pela percepção do</p><p>mundo externo.</p><p>Com os avanços da civilização, os processos instintuais tive-</p><p>ram que cada vez mais se adequarem a um sistema regulatório cultural,</p><p>e essa jornada da infância até a maturidade teve que ser recapitulada</p><p>e ressignificada nos quesitos do laço social e da manutenção do status</p><p>quo.</p><p>55</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>A psicanálise demonstrou que foram predominantemente, embora não exclu-</p><p>sivamente, os impulsos instintuais que sucumbiram a essa supressão cultu-</p><p>ral. Parte deles, contudo, apresenta a característica valiosa de se permitirem</p><p>ser desviados de seus objetivos imediatos e colocar assim sua energia à</p><p>disposição do desenvolvimento cultural, sob a forma de tendências ‘sublima-</p><p>das’. Outra parte, porém, persiste no inconsciente como desejos insatisfeitos</p><p>e pressiona por alguma satisfação, ainda que deformada (FREUD, 1996, p.</p><p>257).</p><p>A transferência é uma peculiaridade marcante dos neuróticos.</p><p>Eles desenvolvem com o analista relações emocionais, tanto de caráter</p><p>afetuoso como hostil, que não se baseia na situação real, mas que deri-</p><p>va de suas relações com os pais (Complexo de Édipo).</p><p>TRÊS ENSAIOS SOBRE A TEORIA DA SEXUALIDADE</p><p>Os “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905)” é uma</p><p>das obras mais significativas e originais de Freud. Vamos a uma prévia:</p><p>• I Ensaio: “As aberrações sexuais”, um tratado sobre a perversão.</p><p>• II Ensaio: “A sexualidade infantil”, a própria experiência com a</p><p>histeria conduziu Freud ao ensaio sobre a sexualidade infantil.</p><p>• III Ensaio: “As transformações da puberdade”, uma convoca-</p><p>ção a assumir um papel sexual.</p><p>[...] Freud dispunha de uma explicação completa da histeria, com base nos</p><p>efeitos traumáticos da sedução sexual na primeira infância [...] É verdade que</p><p>se poderia supor uma aparente exceção a isso a partir do contraste traçado</p><p>por Freud entre a causação da histeria e a da neurose obsessiva: a primeira,</p><p>afirmava ele, remontava a experiências sexuais passivas na infância, ao pas-</p><p>so que a segunda se originaria em experiências ativas. […] Foi somente no</p><p>verão de 1897 que Freud se viu forçado a abandonar sua teoria da sedução</p><p>[...] e sua descoberta quase simultânea do complexo de édipo [...] que levou</p><p>inevitavelmente ao reconhecimento de que as moções sexuais atuavam nor-</p><p>malmente nas crianças de mais tenra idade, sem nenhuma necessidade de</p><p>estimulação externa [...] (FREUD, 1972, p. 121)</p><p>Um exemplo de caso clínico que confirma a teoria dos três en-</p><p>saios é o caso de Hans (1909), que evidenciava uma criança se es-</p><p>56</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>truturando desde a fase pré-edípica (pulsões parciais) até o desenvol-</p><p>vimento atual. No processo de estruturação do sujeito, o processo de</p><p>constituição ocorre da seguinte maneira, perceba o esquema gráfico:</p><p>Quadro 1 – O processo de constituição do sujeito</p><p>Fonte: Freud (1972)</p><p>Observe que o processo de constituição do sujeito, proposto</p><p>pelos três ensaios leva a uma primeira escolha objetal na infância, que</p><p>será ressignificada na adolescência. Nesse sentido, o masculino e o</p><p>feminino são parte de um corpo sexual, e não biológico.</p><p>No terceiro Ensaio, Freud afirma que o período da puberdade</p><p>é significativo e a presença dos pais em todo o processo de estrutura-</p><p>ção do sujeito é importante devido ao mecanismo de castração, que</p><p>funciona de certo modo como um dispositivo de reparação psíquica, por</p><p>vias de fato, fazemos escolhas amorosas ICS e de identificação com as</p><p>figuras paterna e materna, de acordo com a teoria psicanalítica.</p><p>Em termos patológicos, o perverso não se angustia com o gozo</p><p>dele e o neurótico se inquieta com a fantasia perversa. A neurose, nesse</p><p>sentido, funciona como uma negação da perversão.</p><p>Em termos de sexualidade, a estrutura não está determinada,</p><p>pois, para a criança, o laço social de identificação sexual é de conteúdo</p><p>recalcado. Observe o caso de Hans, por exemplo, o falo é universal, só</p><p>bem adiante ela irá introjetar a diferença sexual, portanto, a castração</p><p>(que na prática é um corte na relação/objeto) ocorre em nível simbólico,</p><p>real e imaginário. E o primeiro e grande objeto chamado outro é a mãe.</p><p>Para Lacan, é faltosa.</p><p>Na fase pré-edípica, as pulsões parciais (oral, sádica, escó-</p><p>pica, perversão polimorfa) podem ser limitadas e a satisfação ocorrer</p><p>por outras vias ou também pode haver fixação em qualquer uma das</p><p>pulsões parciais, podendo ocorrer desvios sexuais, como por exemplo</p><p>a zoofilia, pedofilia etc., perversões, como por exemplo o fetichismo (su-</p><p>pervalorização de partes corporais).</p><p>De acordo com os estudos psicanalíticos focados nos três en-</p><p>57</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>saios, a única forma de lidar com a pulsão sexual na neurose é por vias</p><p>da investigação psicanalítica e, a princípio, utilizando-se do método ca-</p><p>tártico, pois se tratam de forças pulsionais de cunho sexual e é a única</p><p>fonte energética constante da neurose (FREUD, 1972).</p><p>[...] os sintomas são a atividade sexual dos doentes. A prova dessa afirmação</p><p>deriva do número crescente de psicanálises de histéricos e outros neuró-</p><p>ticos que venho realizando há vinte e cinco anos e sobre cujos resultados</p><p>já prestei contas minuciosamente em outras publicações, como ainda conti-</p><p>nuarei a fazer. A psicanálise elimina os sintomas histéricos partindo da pre-</p><p>missa de que tais sintomas são um substituto - uma transcrição, por assim</p><p>dizer, de uma série de processos, desejos e aspirações investidos de afeto,</p><p>aos quais, mediante um processo psíquico especial (o recalcamento), nega-</p><p>-se a descarga através de uma atividade psíquica passível de consciência.</p><p>Assim, essas formações de pensamento que foram retidas num estado de</p><p>inconsciência aspiram a uma expressão apropriada a seu valor afetivo, a</p><p>uma descarga, e, no caso da histeria, encontram-na mediante o processo de</p><p>conversão em fenômenos somáticos - justamente os sintomas histéricos [...]</p><p>(FREUD, 1972, p.153)</p><p>No segundo Ensaio, Freud aponta que, com a castração, as</p><p>pulsões são satisfeitas, mas subordinadas aos limites da organização</p><p>fálica. Na obra, Freud refere que antes dos 7 anos de idade, a vivência</p><p>infantil fica recalcada como numa espécie de amnésia infantil, no caso</p><p>de Hans, por exemplo, a rivalidade do pai e da irmã e a questão da se-</p><p>xualidade fica recalcada no ICS e essa estruturação vai determinando</p><p>outros elementos da história e do laço social do sujeito.</p><p>A realidade ICS é sexual e os traços psíquicos, significantes,</p><p>ficam no nível do recalque. A pré-história do sujeito é conduzida pela</p><p>filogênese (história da humanidade) e na infância está latente e recal-</p><p>cada. Portanto, a amnésia infantil é apenas o primeiro período. Como</p><p>afirmamos, no período pré-edípico que há predominância das pulsões</p><p>parciais e o Complexo de Édipo – castração – é necessário para a or-</p><p>ganização psíquica da criança. Dessa maneira, as pulsões parciais vão</p><p>subordinando a castração (que, de certo modo, não é mais satisfeita</p><p>como antes, estabelecem-se restrições e limites, pois o recalque opera</p><p>com o discurso externo e o superego da criança vai introjetando essa</p><p>experiência).</p><p>De acordo com os resultados da psicanálise, a forma de resol-</p><p>ver o conflito entre a pulsão e o antagonismo da renúncia sexual é a via</p><p>da doença, não como forma de solução, mas como uma transformação</p><p>das aspirações libidinosas em sintomas (FREUD, 1972).</p><p>58</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Para complementar os estudos sobre a estruturação do sujeito,</p><p>estude o conteúdo também a partir do texto “À guisa de introdução ao</p><p>narcisismo”, que explica o desenvolvimento libidinal a partir do esque-</p><p>ma proposto para a constituição psíquica do sujeito (autoerotismo – nar-</p><p>cisismo – escolha objetal).</p><p>Assim, quando se trata de analisar o narcisismo, não se es-</p><p>queça do entendimento de que Freud retira o narcisismo do campo das</p><p>perversões e o fundamenta como uma constituição egoica e o encaixa</p><p>na etapa do desenvolvimento libidinal, pela qual toda criança passa,</p><p>reconhecendo-o na fase intermediária necessária entre o autoerotismo</p><p>e o amor objetal, ou seja, Freud verificou que um dos limites que se in-</p><p>terpõem à possibilidade desses pacientes serem influenciados se devia</p><p>a um comportamento narcísico dessa ordem.</p><p>Nessa acepção, o narcisismo não seria uma perversão, mas o</p><p>complemento libidinal do egoísmo próprio da pulsão de autoconserva-</p><p>ção, egoísmo que, em certa medida, corretamente pressupomos estar</p><p>presentes em todos os indivíduos (narcisismo primário).</p><p>Quanto ao narcisismo primário (psicose e neurose), a tenta-</p><p>tiva de compreender a dementia praecox (Kraepelin) ou esquizofrenia</p><p>(Bleuler) sob a ótica da teoria da libido levou Freud a se ocupar da ideia</p><p>de um narcisismo primário. Freud chamou-os de parafrênicos (poste-</p><p>riormente manterá esquizofrenia) e estes exibem dois traços fundamen-</p><p>tais: delírio de grandeza e desligamento de seu interesse pelo mundo</p><p>exterior (pessoas e coisas).</p><p>Freud considerou que esta última</p><p>característica torna-os ina-</p><p>cessíveis à influência da psicanálise e não podem ser curados por ela.</p><p>O psicanalista relembra que também o neurótico desiste da relação com</p><p>a realidade, porém, a análise mostra que de modo algum o neurótico</p><p>suspende seu vínculo erótico com as pessoas e as coisas. Ele as con-</p><p>serva em fantasia.</p><p>A escolha objetal é de fato amorosa, real ou fantasiosa, mas</p><p>o objeto é a pessoa. O EU é um objeto libidinal e é dele que retiramos</p><p>a energia sexual para ser investida no mundo externo e o investimento</p><p>libidinal também ocorre no EU.</p><p>Na primeira parte, Freud discute o narcisismo considerando as</p><p>distinções entre neurose e psicose. Nessa etapa ocorre a ruptura com</p><p>59</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Jung. Na segunda parte, Freud discute o narcisismo a partir de outros</p><p>elementos:</p><p>a) a doença orgânica</p><p>b) a hipocondria</p><p>c) a vida amorosa</p><p>O que Freud verificou nessa etapa foi sobre o investimento libi-</p><p>dinal voltado para esses três fenômenos.</p><p>Na parte três, os estudos de Freud se direcionam para o ideal</p><p>do EU, superego, e nessa etapa ocorre o rompimento com Adler. O nar-</p><p>cisismo nesse estudo é identificado na forma primária: autoerotismo, e</p><p>na forma secundária: a construção do EU como objeto/unidade.</p><p>No terceiro Ensaio, Freud descreve as transformações da pu-</p><p>berdade nos processos internos e refere que a pulsão sexual nesse</p><p>período está direcionada para a função de reprodução, concomitante às</p><p>mudanças corporais que ocorrem nessa fase, como por exemplo o cres-</p><p>cimento da genitália. Essas transformações ocorrem no nível externo,</p><p>orgânico e interno e na vida anímica (psicológica), construindo o laço</p><p>social do EU com o outro.</p><p>[...] Do ponto de observação da psicanálise podemos contemplar, como que</p><p>por sobre uma fronteira cuja ultrapassagem não nos é permitida, a movi-</p><p>mentação da libido narcísica, formando assim uma ideia da relação entre</p><p>ela e a libido objetal. A libido narcísica ou do ego parece-nos ser o grande</p><p>reservatório de onde partem as catexias de objeto e no qual elas voltam a ser</p><p>recolhidas, e a catexia libidinosa narcísica do ego se nos afigura como o es-</p><p>tado originário realizado na primeira infância, que é apenas encoberto pelas</p><p>emissões posteriores de libido, mas no fundo se conserva por trás delas [...]</p><p>(FREUD, 1972, p. 205).</p><p>CASO CLÍNICO: SRTA. ANNA O.</p><p>Anna adoeceu em 1880, aos 20 anos de idade. Algumas psi-</p><p>coses haviam ocorrido em seus parentes. Ela tinha dotes poéticos e</p><p>imaginativos controlados por um senso agudo e crítico bom senso. Ela</p><p>não era sugestionável, sendo influenciada por argumentos, e não afir-</p><p>mações. Era sujeita a alteração do humor. Não tinha desenvolvido a</p><p>noção de sexualidade, nunca se apaixonou; nas alucinações, a sexuali-</p><p>dade nunca emergiu. Certas fantasias foram se convertendo em doença</p><p>(FREUD, 1996a).</p><p>O curso da doença foi se enquadrando em várias fases: pas-</p><p>sou por uma incubação latente; a doença manifesta (psicose com pa-</p><p>rafasia, estrabismo convergente, graves perturbações da visão, para-</p><p>60</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>lisias, paresia dos músculos do pescoço). Tinha a presença de grave</p><p>trauma psíquico (a morte do pai); período de sonambulismo persistente;</p><p>cessação gradual dos estados e sintomas até junho de 1882.</p><p>Com a doença do pai, Anna O. se dedicou totalmente a cuidar</p><p>dele e sua saúde foi se deteriorando, debilidade, anemia, aversão a ali-</p><p>mentos e uma tosse intensa (tussis nervosa). Em meados de novembro</p><p>e dezembro adoeceu gravemente e caiu enferma de cama. Surgiram</p><p>perturbações graves e novas no quadro sindrômico.</p><p>Anna O. tinha dois estados de consciência distintos, em um</p><p>reconhecia o ambiente, ficava melancólica e angustiada, mas, relativa-</p><p>mente normal; em outro tinha alucinações, deformações de objetos e</p><p>ficava agressiva. Quando estava lúcida, queixava-se de escuridão na</p><p>cabeça, de não conseguir pensar, de ficar cega e surda e de ter dois EU</p><p>(mau e real). Ocorreu também desorganização da fala (FREUD, 1996a).</p><p>O terapeuta era a única pessoa que ela reconhecia, permane-</p><p>cia animada na conversa e em contato, exceto pelas súbitas interrup-</p><p>ções causadas pelas absences alucinatórias (que ocorriam na trans-</p><p>ferência), eram elas, via caveiras, esqueletos, figuras aterradoras etc.,</p><p>como o fato da transferência voltou a se alimentar.</p><p>Observava-se que de dia as alucinações eram persecutórias e</p><p>à noite estava lúcida, surgiam impulsos suicidas. Segundo seu analista,</p><p>o ponto de partida de Anna O. era a situação central: uma moça ansiosa</p><p>sentada à cabeceira de um doente (seu pai) e quando reproduzia as</p><p>imagens assustadoras e dava expressão verbal a elas, ficava com sua</p><p>mente aliviada. Ela curou literalmente pela fala (FREUD, 1996a).</p><p>Na ausência do terapeuta, sentia angústia e excitação, um mis-</p><p>to desagradável para ela. Os fatos assimilados pela parte patológica de</p><p>sua mente persistiam como estímulo psíquico até a hipnose, depois não</p><p>atuavam mais. Perturbações isoladas do período de incubação que pro-</p><p>duziram os fenômenos histéricos, quando receberam expressão verbal,</p><p>os sintomas desapareceram. Também teve hidrofobia, não bebia água.</p><p>Nessa etapa, os fenômenos histéricos desapareciam após a reprodu-</p><p>ção da hipnose.</p><p>Cada um dos sintomas histéricos surgiu sob a ação de um afe-</p><p>to. Quando o tratamento chegou ao fim, a paciente manifestou a Breuer</p><p>uma transferência, mas não analisada, de natureza sexual.</p><p>Havia em Anna O. características psíquicas que atuaram como</p><p>causas de predisposição para a sua histeria: sua vida familiar monótona</p><p>e a ausência de ocupação intelectual, todo o excedente se encontrou</p><p>na atividade imaginativa e essa questão a levou a fantasias (seu teatro</p><p>particular) que lançou as bases para uma dissociação de sua persona-</p><p>lidade mental e aos sintomas de conversão.</p><p>61</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Só depois do colapso completo, esgotada por falta de alimen-</p><p>tos, insônia e angústia constante e depois de passar mais tempo em</p><p>sua condição secundária que a normal, foi que os sintomas histéricos</p><p>passaram de agudos intermitentes a crônicos. Foi no caso de Anna O.</p><p>que Freud cita pela primeira vez o inconsciente (FREUD, 1996a).</p><p>Filme sobre o assunto: O caso de Anna O. (Dunker, 2017)</p><p>Peça de teatro: Histeria (TVPuc, 2016)</p><p>Acesse os links: https://www.youtube.com/watch?v=sY-</p><p>07tx52ySY e https://www.youtube.com/watch?v=ITjcQ6_aq-8</p><p>Observação: sobre a temática, é importante que o aluno note</p><p>a relevância do assunto dentro do seu campo de atuação.</p><p>CASO CLÍNICO: DORA</p><p>Antes de discutir propriamente a histeria, é necessária uma ex-</p><p>planação geral sobre a neurose, pois se localiza num campo complexo.</p><p>De certo modo, a neurose é uma forma imprópria de negar o gozo in-</p><p>consciente e perigoso e transformarmos essa dor intolerável em sinto-</p><p>mas neuróticos, convertendo o gozo inconsciente, perigoso e irredutível</p><p>em um sofrimento suportável, consciente e redutível.</p><p>Assim, o Eu disponibiliza três maneiras de se defender mobili-</p><p>zando três modos de viver a neurose: a obsessão, a fobia e a histeria. O</p><p>obsessivo promove um deslocamento de um gozo inconsciente para um</p><p>sofrimento do pensar (desarranjo do pensamento). O fóbico realiza uma</p><p>projeção de um gozo inconsciente para o mundo externo, cristalizando-</p><p>-o em um elemento do ambiente, tornando-o um objeto ameaçador. O</p><p>histérico converte um gozo inconsciente num sofrimento corporal.</p><p>No caso de Dora, a narração dessa conversão, a histeria, e</p><p>o tratamento são o foco central. Freud fundamenta a tese sobre a pa-</p><p>togênese dos sintomas histéricos e sobre os processos envolvidos na</p><p>histeria e localiza a psicanálise numa nova proposta de tratamento, dis-</p><p>tinta da catarse e da hipnose, baseada na interpretação dos sonhos e</p><p>na associação livre. O caso de Dora foi redigido em 12/1900 e 01/1901</p><p>e publicado em 1905 (FREUD, 1997).</p><p>Atentemos para a originalidade</p><p>da obra freudiana, que foi es-</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=sY07tx52ySY</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=sY07tx52ySY</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=ITjcQ6_aq-8</p><p>62</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>crita num contexto sócio-histórico que interferiu diretamente no olhar</p><p>da medicina da época em relação às “perturbações corporais”. A teoria</p><p>sobre histeria se consolida como referencial psicanalítico, explicando</p><p>uma teoria geral sobre um modelo do funcionamento psíquico. O escla-</p><p>recimento da etiologia psíquica da histeria é paralelo às principais des-</p><p>cobertas da psicanálise (inconsciente, recalque, fantasia, transferência</p><p>etc.) (FREUD, 1997).</p><p>Vale ressaltar que, apesar do sofrimento da histeria moderna</p><p>ter nuances distintas em relação à do século XIX, a psicanálise continua</p><p>indissociável dessa neurose. A terapêutica analítica ainda está situada</p><p>na cura da neurose e baseada num princípio fundamental: para tratar e</p><p>curar a histeria é preciso criar uma outra histeria, no entanto, ao final do</p><p>processo, essa nova histeria é superada, tornando-se possível a cura</p><p>da neurose primária.</p><p>A história de Dora tem seu plano de fundo em uma família bur-</p><p>guesa (pais, um irmão e ela). O pai era a figura dominante, tanto por in-</p><p>teligência, como pelos traços de caráter, e pelas circunstâncias da vida</p><p>e que lhe serviram de suporte para a sua história infantil e patológica;</p><p>além disso, sua filha era muito apegada a ele.</p><p>Devido às situações de saúde do pai, a família se mudou para</p><p>uma cidade chamada B, onde viveram em torno de 10 anos e por lá</p><p>fizeram amizade íntima com uma família constituída do Sr. e da Sra.</p><p>K e dois filhos. Na história, o pai tinha um caso com a Sra. K e o Sr. K</p><p>desenvolveu grande afetividade por Dora e isto o fez criar situações que</p><p>lhe possibilitaram beijá-la e, em outra ocasião, fazer-lhe uma proposta</p><p>amorosa, fato que fez Dora se afastar da família K.</p><p>Freud designa esse o seu caso como uma “petite hystérie”,</p><p>devido às características de seus sintomas (quando comparados aos de</p><p>Anna O.). Aos 8 anos, ela começou a apresentar sintomas neuróticos,</p><p>tendo dispneia crônica com alguns acessos agudos. Aos 12 anos, apre-</p><p>sentava cefaleia, acessos de tosse e perda da voz, logo seguidos de</p><p>desânimo e alteração do caráter, evitava contatos sociais, tinha fadiga e</p><p>falta de concentração, mas foi a perda da consciência que fez o pai de</p><p>Dora encaminhá-la para tratamento com Freud (FREUD, 1997).</p><p>A histeria se manifesta sob a forma de distúrbios diversificados</p><p>e passageiros, nos quais os mais comuns referem-se a sintomas psi-</p><p>cossomáticos e psicomotores (contrações musculares, problemas na</p><p>marcha, paralisias faciais etc.), distúrbios da sensibilidade (dores locali-</p><p>zadas, enxaquecas, anestesias em campos corporais específicos etc.)</p><p>e distúrbios sensoriais (cegueira, surdez e fobia etc.); além de insônia,</p><p>desmaios, alterações da consciência, da memória e da inteligência até</p><p>situação mais grave de pseudocoma (NASIO, 1991).</p><p>63</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>A primeira teoria freudiana aponta para uma origem da histeria</p><p>em vestígios psíquicos associados a um trauma. A histeria é provocada</p><p>pela ação patogênica de uma representação psíquica inconsciente e</p><p>intensamente carregada de afeto. O que adoece o histérico não é tanto</p><p>o vestígio psíquico do trauma, mas o fato de que ele, sob a pressão</p><p>do recalcamento, ser sobrecarregado de um excedente de afeto que</p><p>insiste no escoamento de sua energia. Consiste no conflito entre uma</p><p>representação portadora de um excesso de afeto, por um lado e, por ou-</p><p>tro, uma defesa – recalcamento – que torna a representação virulenta.</p><p>A histeria de conversão trata-se de um deslocamento de ener-</p><p>gia de um estado primário para um secundário. A região somática afeta-</p><p>da pelo sintoma conversivo corresponde à parte do corpo anteriormen-</p><p>te afetada pelo trauma. Na conversão, a carga energética abandona a</p><p>imagem inconsciente para energizar o órgão do qual essa imagem é</p><p>reflexo (FREUD, 1997).</p><p>Na segunda teoria freudiana, a origem da histeria é uma fan-</p><p>tasia inconsciente. O próprio eu infantil, ao longo da sua maturação</p><p>sexual, era a sede da tensão (denominada desejo). O trauma nessa</p><p>formulação ganha contação microlocal, centrado numa região erógena</p><p>do corpo e fixando uma cena traumática (fantasia).</p><p>FANTASIA – roteiro imaginário em que o sujeito está presente</p><p>e que representa, de modo mais ou menos deformado pelos processos</p><p>defensivos, a realização de um desejo e, em última análise, de um de-</p><p>sejo inconsciente (LAPLANCHE e PONTALIS, 2001). No núcleo da fan-</p><p>tasia, que é o lugar erógeno, jorra uma sexualidade excessiva, não ge-</p><p>nital (autoerótica) – o desejo – com a eventualidade de sua realização,</p><p>chamada gozo, é tão intenso que exige, para ser temperado, a criação</p><p>inconsciente de fabulações, cenas e fantasias protetoras.</p><p>Uma cena fantasística, tão verdadeira quanto a antiga cena</p><p>traumática ocorrida na realidade, dá forma e figura dramática à tensão</p><p>desejante. A angústia é o nome que o desejo e o gozo assumem ao</p><p>serem inscritos no âmbito da fantasia (NASIO, 1991). Quer o excesso</p><p>de energia seja um excedente de afeto resultante de um choque trau-</p><p>mático (primeira teoria), quer seja uma angústia fantasista que reage ao</p><p>despertar espontâneo e prematuro da sexualidade infantil (nova teoria</p><p>64</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>da fantasia), conservamos invariavelmente a tese de que a causa prin-</p><p>cipal da histeria reside na atividade inconsciente de uma representação</p><p>superinvestida.</p><p>A histeria é o nome que damos aos laços e aos “nós” que o</p><p>neurótico tece em relação com os outros a partir de suas fantasias. O</p><p>histérico é aquele que, sem ter conhecimento disso, impõe na relação</p><p>afetiva com o outro a lógica doentia de sua fantasia inconsciente, um ser</p><p>de medo que, para atenuar sua angústia, não encontrou outro recurso</p><p>senão manter inconscientemente, em suas fantasias e em sua vida, o</p><p>doloroso estado de insatisfação. Uma fantasia em que ele desempenha</p><p>o papel de uma vítima infeliz e constantemente insatisfeita. Há apenas</p><p>um perigo essencial que o ameaça: o perigo de viver a satisfação de um</p><p>gozo pleno (FREUD, 1997).</p><p>Esse Eu histericizante percebe seus próprios objetos externos</p><p>ou internos realmente como são, mas transforma sua realidade material</p><p>numa realidade fantasiada, ele histericiza o mundo. Histericizar é ero-</p><p>tizar, sexualizar o que não é sexual, sendo que a sexualidade histérica</p><p>não é uma sexualidade genital. A tristeza desse Eu corresponde ao va-</p><p>zio e à incerteza de sua identidade sexuada, de certo modo, a erotiza-</p><p>ção corporal paradoxalmente acompanha uma inibição concentrada na</p><p>zona genital. Dora, repugna o Senhor K, nesse sentido.</p><p>De certo modo, o histérico vive sua sexualidade de três modos:</p><p>sofrimento corporal, masturbação e se dissociando entre a imagem res-</p><p>plandecente de um ser hipersexual e a dolorosa realidade de um sofri-</p><p>mento vivido com insensibilidade na zona sexual.</p><p>Na escolha narcísica, o amor reflete sua própria imagem e o</p><p>objeto de identificação objetal se constitui segundo o modelo de seus</p><p>objetos anteriores, que podem ser pais ou pessoas de seu meio. E atra-</p><p>vés da escolha objetal, a criança investe libido no outro, por exemplo,</p><p>quando Dora despreza a Sra. K., despreza o que já foi introjetado dela,</p><p>nela mesma.</p><p>No centro do id (determinando a vida psíquica) está o Comple-</p><p>xo de Édipo – um desejo incestuoso pela mãe ou uma rivalidade com</p><p>o pai. É esse o desejo fundamental que organiza a totalidade da vida</p><p>psíquica e determina o sentido da vida. Na mulher histérica, o afeto per-</p><p>passa a fantasia feminina, não é a angústia da castração, mas o ódio e</p><p>ressentimento para com a mãe. Ela já tem uma fantasia de castração</p><p>consumada, já ocorrida também com o desmame.</p><p>Dora anunciava essa organização psíquica quando se referia à</p><p>Sra.</p><p>K., elogiando-a como um adorável “corpo alvo”.</p><p>65</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>QUESTÕES DE CONCURSOS</p><p>QUESTÃO 1</p><p>Ano: 2019 Banca: AOCP Órgão: UFFS Prova: Psicólogo Nível: Su-</p><p>perior</p><p>Assinale a alternativa correta em relação aos aspectos psicodinâ-</p><p>micos da neurose, da psicose e da perversão.</p><p>a) Na segunda teoria do aparelho psíquico postulado por Freud, em</p><p>uma psicose, o ego obedece às exigências da realidade e do superego,</p><p>recalcando reivindicações pulsionais.</p><p>b) Na psicanálise, postula-se que a neurose se inicia por uma ruptura</p><p>entre ego e realidade, deixando o ego sob o domínio do id.</p><p>c) Pode-se designar perversão o conjunto de comportamentos psicos-</p><p>sexuais atípicos na obtenção de prazer sexual, em que há presença de</p><p>um mecanismo de recalcamento intenso, provocando sentimentos de</p><p>culpa.</p><p>d) Freud descreveu como principais mecanismos da histeria de conver-</p><p>são a anulação retroativa e o isolamento.</p><p>e) Seguindo a teoria pulsional da psicanálise, há, na neurose obsessiva,</p><p>uma fixação na fase anal e regressão.</p><p>QUESTÃO 2</p><p>Ano: 2019 Banca: CCV-UFC Órgão: UFC Prova: CCV-UFC - 2019 -</p><p>UFC - Psicólogo - Clínica Nível: Superior</p><p>Sabemos que o conceito de cura para a teoria psicanalítica não</p><p>coincide com o que habitualmente se entende por cura, principal-</p><p>mente nas ciências da saúde. Com relação ao conceito de cura na</p><p>Psicanálise, é correto afirmar que:</p><p>a) A travessia do fantasma se dá no processo de ir contra a inércia libidi-</p><p>nal, ou do gozo, é esse trabalho que possibilita uma mudança subjetiva</p><p>na regulação da dor e do prazer, não que o analisando deixe de ter</p><p>sintomas, mas a relação entre paciente, sintoma e gozo se modifica e o</p><p>permite um plus nessa operação.</p><p>b) Em um dos seus últimos textos, Freud deixa claro que o mal-estar é</p><p>inerente ao homem na condição de civilizado, dito isso não poderia exis-</p><p>tir uma cura para o seu sofrimento; entretanto, segundo ele, a análise</p><p>possibilita uma forma de autoconhecimento que propicia uma aceitação</p><p>dessa realidade, o que aplaca o sofrimento inerente à vida comunitária.</p><p>c) O fim da análise é o que se pode classificar como cura para outras</p><p>áreas, não existe cura propriamente dita porque o analisando não dei-</p><p>xará de sofrer, entretanto, uma vez que ele tenha esgotado o registro</p><p>simbólico, objetivo da análise, poderá construir um novo registro basea-</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/ccv-ufc</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/ufc</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/ccv-ufc-2019-ufc-psicologo-clinica</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/ccv-ufc-2019-ufc-psicologo-clinica</p><p>66</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>do na interseção entre o real e o imaginário, diminuindo significativa-</p><p>mente o sofrimento.</p><p>d) No início da Psicanálise, Freud acreditava que a cura se dava com</p><p>a descoberta do evento traumático que ocasionou o sintoma, com a</p><p>formulação da segunda tópica e os diversos atendimentos de seus pa-</p><p>cientes, e dos pacientes de seus colaboradores, ele descobriu que a</p><p>reformulação, ou ressignificação, do Complexo de Édipo era o fim da</p><p>análise, uma vez que todos os traumas tinham essa origem.</p><p>e) Em Lacan, o fim da análise se dá no que chamou de torção do dis-</p><p>curso do mestre, dentro dos quatro discursos, Lacan afirmou que o ana-</p><p>lisando chega ao analista preso no discurso do capitalista. A função do</p><p>início de análise é torcer esse discurso para que ele se torne o discurso</p><p>da histeria, esse por sua vez, no curso da análise, irá girar para o dis-</p><p>curso do mestre e no fim da análise fará o último giro discursivo virando</p><p>o discurso do universitário.</p><p>QUESTÃO 3</p><p>Ano: 2019 Banca: CONSULPAM Órgão: Prefeitura de Resende - RJ</p><p>Prova: médico Psiquiatra Nível: superior.</p><p>As práticas psicoterápicas são fundamentais para o tratamento de</p><p>pacientes psiquiátricos, sobre contraindicações para o tratamento</p><p>usando a psicanálise, afirma-se:</p><p>I. Os analistas deveriam evitar analisar amigos, parentes ou pes-</p><p>soas com quem tenham outro envolvimento.</p><p>II. Pensamento concreto ou ausência de disposição psicológica</p><p>não são bons indicadores para a prática.</p><p>III. A presença de extrema desonestidade ou transtorno da perso-</p><p>nalidade antissocial não favorece o tratamento analítico.</p><p>Assinale a opção CORRETA:</p><p>a) Apenas os itens I e II são verdadeiros.</p><p>b) Apenas os itens I e III são verdadeiros.</p><p>c) Apenas os itens II e III são verdadeiros.</p><p>d) Os itens I, II e III são verdadeiros.</p><p>e) Apenas o item I é verdadeiro.</p><p>QUESTÃO 4</p><p>Ano: 2019 Banca: FCPC Órgão: UNILAB Prova: Psicólogo Nível:</p><p>Superior</p><p>Acerca do Complexo de Édipo na Psicanálise, é correto afirmar</p><p>que:</p><p>a) Vai sedimentar na neurose a questão do ter o falo, e na perversão o</p><p>ser o falo.</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/consulpam</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/prefeitura-de-resende-rj</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/provas/consulpam-2019-prefeitura-de-resende-rj-medico-psiquiatra</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/bancas/fcpc</p><p>https://www.qconcursos.com/questoes-de-concursos/institutos/unilab</p><p>67</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>b) Estabelece a relação da cadeia significante em função do S1 (falo),</p><p>S2 (significante materno) e Sn (Nome-do-pai).</p><p>c) Cria uma nova relação entre o sujeito-objeto, onde no menino fará</p><p>com que ele se volte para a Mãe e para a menina que ela se volte para</p><p>o Pai como objetos secundários do desejo.</p><p>d) É considerada uma etapa decisiva na estruturação psíquica, pois é</p><p>através dela que a organização libidinal vai apontar para uma economia</p><p>psíquica que será fechada dentro do processo de individuação.</p><p>e) Se dá na interdição do(a) filho(a) pelo Pai na relação incestuosa Mãe-</p><p>-criança, a efetivação dessa interdição cria o terreno para a significação</p><p>do narcisismo primário frente à impossibilidade do objeto, criando a eco-</p><p>nomia psíquica que desembocará em um dos grupos estruturais para a</p><p>psicanálise: neurose, fobia, perversão, psicose ou autismo.</p><p>QUESTÃO 5</p><p>Ano: 2019 Banca: FADESP Órgão: Prefeitura de Marabá - PA Prova:</p><p>Psicólogo Nível: superior</p><p>Analise as assertivas abaixo, sobre a teoria da psicanálise.</p><p>I- A infância é uma época decisiva na organização da personalidade.</p><p>II- A ação educacional tem valor primordial na estruturação e no</p><p>ajustamento da personalidade.</p><p>III- Sonhos, arte, cultura, sintomas neuróticos são válvulas de es-</p><p>cape da libido recalcada.</p><p>Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s)</p><p>a) I, II e III.</p><p>b) I e III.</p><p>c) II e III.</p><p>d) I.</p><p>e) II.</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE</p><p>Discuta sobre a amnésia infantil. Qual sua relação com o recalque?</p><p>TREINO INÉDITO</p><p>Sobre o narcisismo primário, é correto afirmar:</p><p>a) se refere à psicose e à neurose.</p><p>b) não há presença de delírio de grandeza.</p><p>c) não se desliga do mundo exterior.</p><p>d) o narcisismo não tem influência sobre o autoerotismo.</p><p>e) o narcisismo não tem ligação com o amor objetal.</p><p>68</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>NA MÍDIA</p><p>Os artigos do dossiê Sonhos aprisionados são o primeiro material de</p><p>análise publicado a respeito da pesquisa Sonhos confinados em tempos</p><p>de pandemia, que recebeu, entre abril e outubro de 2020, mais de 1.500</p><p>sonhos relatados por meio das redes sociais, vindos de várias regiões</p><p>do país e alguns do exterior.</p><p>O estudo é coordenado pelos psicanalistas e professores doutores Rose</p><p>Gurski e Cláudia Maria Perrone (Nuppec/UFRGS), Miriam Debieux Rosa</p><p>(Psopol/USP), Christian Dunker (Latesfip/USP) e Gilson Iannini (Depar-</p><p>tamento de Psicologia/UFMG), com a participação de Carla Rodrigues</p><p>(UFRJ) e de vários colaboradores, entre eles equipes compostas por</p><p>bolsistas de iniciação científica, mestrandos, doutorandos e pós-douto-</p><p>randos, somando cerca de 80 pesquisadores. A publicação do primeiro</p><p>livro sobre a pesquisa, com o título</p><p>Sonhos confinados, está prevista</p><p>para este primeiro semestre de 2021, pela editora Autêntica.</p><p>Segundo Rose Gurski, “os núcleos e laboratórios envolvidos vêm bus-</p><p>cando a construção de modos de levar a escuta psicanalítica, tradi-</p><p>cionalmente marcada pela experiência em clínica privada, para outros</p><p>espaços das cidades, aproximando a universidade das demandas da</p><p>sociedade”.</p><p>Fonte: Revista Cult</p><p>Data: 04 de fevereiro de 2021</p><p>Leia a notícia na íntegra:</p><p>https://revistacult.uol.com.br/home/dossie-sonhos-aprisionados/</p><p>NA PRÁTICA</p><p>“Não posso dizer que uma tentativa dessas, de transferência da psica-</p><p>nálise para a comunidade cultural, não teria sentido ou estaria conde-</p><p>nada à esterilidade. Mas teríamos de ser muito prudentes, e não es-</p><p>quecer que se trata apenas de analogias, e que não apenas com seres</p><p>humanos, também com conceitos é perigoso retirá-los da esfera em</p><p>que surgiram e evoluíram. O diagnóstico das neuroses da comunidade</p><p>também encontra uma dificuldade especial. Na neurose individual nos</p><p>serve de referência imediata o contraste que distingue o enfermo de seu</p><p>ambiente, tido como ‘normal’. Tal pano de fundo não existe para um gru-</p><p>po igualmente afetado, teria que ser arranjado de outra forma. E no que</p><p>diz respeito à aplicação terapêutica da compreensão, de que adiantaria</p><p>a mais pertinente análise da neurose social, se ninguém possui a auto-</p><p>ridade para impor ao grupo a terapia? Apesar de todas essas dificulda-</p><p>69</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>des, pode-se esperar que um dia alguém ouse empreender semelhante</p><p>patologia das comunidades culturais.”. (FREUD, 1930/2011, p.120).</p><p>Os estudos de Freud já apontavam os desafios de que trabalhar com a</p><p>psicanálise no campo cultural é um rearranjo na aplicação terapêutica</p><p>da compreensão.</p><p>PARA SABER MAIS</p><p>Filme sobre o assunto: Janela da alma (Carvalho, 2001)</p><p>Peça de teatro: Pantomima e mímica (TVOficina, 2017)</p><p>Acesse os links: https://www.youtube.com/watch?v=_I9l7upG0DI e</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=emWXzCxmNC4</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=_I9l7upG0DI</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=emWXzCxmNC4</p><p>70</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>GABARITOS</p><p>CAPÍTULO 01</p><p>QUESTÕES DE CONCURSOS</p><p>01 02 03 04 05</p><p>C A D C A</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO</p><p>DE RESPOSTA</p><p>Descartes defende uma concepção subjetiva baseada na razão e na</p><p>verdade, como descreve no cogito: “Penso, logo sou”. Com a concep-</p><p>ção do inconsciente pela psicanálise não é mais possível pensar em</p><p>um Eu, sujeito, como detentor da verdade e da razão como única e</p><p>absoluta.</p><p>O sujeito, quando fala de si, mente. A maioria de suas verdades está</p><p>guardada no inconsciente, e elas não podem ser expressas em pala-</p><p>vras. Como está no texto: assim, inaugurando o conceito de incons-</p><p>ciente, tira-se a consciência do lugar da verdade do sujeito e a coloca</p><p>no lugar da distorção, ilusão e de ocultamento. O Eu consciente, que</p><p>costumamos identificar a partir de então como o próprio sujeito, é o</p><p>lugar epistemológico em que as verdades são distorcidas e alteradas.</p><p>Então, a partir da psicanálise, passa a se conceber o sujeito não como</p><p>um todo unitário, lugar do conhecimento e da verdade, mas dividido em</p><p>dois grandes sistemas: o inconsciente e o consciente. É nessa divisão</p><p>que o sujeito se constitui.</p><p>TREINO INÉDITO</p><p>Gabarito: E</p><p>71</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>CAPÍTULO 02</p><p>QUESTÕES DE CONCURSOS</p><p>01 02 03 04 05</p><p>A A A D B</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO</p><p>DE RESPOSTA</p><p>O discurso do capitalista não é exatamente outro discurso, mas a forma</p><p>mais contemporânea do discurso do mestre, pois houve um desliza-</p><p>mento do discurso do mestre para o discurso do capitalista a partir dos</p><p>avanços das tecnologias e da ciência, sendo que no discurso do capita-</p><p>lista não há relação entre o agente e o outro, não há laço social, não há</p><p>vínculo entre o capitalista e o proletário.</p><p>No discurso do mestre, o agente é o significante mestre, enquanto que</p><p>no discurso capitalista, o lugar do agente é ocupado pelo sujeito barra-</p><p>do. Ele se dirige ao proletário, e não mais ao escravo, e este como o</p><p>outro tem o saber em seu lugar. A produção é o objeto que causa o de-</p><p>sejo e a verdade, o significante mestre. É por isso que Lacan afirma que</p><p>se produz entre eles um laço associal, o capitalista ignora a barreira ao</p><p>gozo e a perda imposta pelo processo civilizatório regulador. O discurso</p><p>do capitalista incita o imperativo do gozo na sociedade de consumo, ou</p><p>seja, o gozo obtido por meio de objetos-mercadorias.</p><p>TREINO INÉDITO</p><p>Gabarito: A</p><p>72</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>CAPÍTULO 03</p><p>QUESTÕES DE CONCURSOS</p><p>01 02 03 04 05</p><p>E A D A A</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO</p><p>DE RESPOSTA</p><p>A realidade ICS é sexual e os traços psíquicos, significantes, ficam no</p><p>nível do recalque. A pré-história do sujeito é conduzida pela filogênese</p><p>(história da humanidade) e, na infância, está latente e recalcada, por-</p><p>tanto, a amnésia infantil é apenas o primeiro período. Como afirmamos,</p><p>no período pré-edípico há predominância das pulsões parciais e o Com-</p><p>plexo de Édipo – castração – é necessário para a organização psíqui-</p><p>ca da criança, dessa maneira, as pulsões parciais vão subordinando a</p><p>castração (que, de certo modo, não é mais satisfeita como antes, esta-</p><p>belecem-se restrições e limites, pois o recalque opera com o discurso</p><p>externo e o superego da criança vai introjetando essa experiência).</p><p>TREINO INÉDITO</p><p>Gabarito: A</p><p>73</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>BARATTO, G. A Descoberta do Inconsciente e o Percurso Histórico de</p><p>sua Elaboração. PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2009, 29 (1),</p><p>74-87. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_art-</p><p>text&pid=S1414-98932009000100007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt</p><p>DOR, Joel. Introdução à leitura de Lacan. 3ª ed. Ed. Artes Médicas, 1992.</p><p>FREUD, S. Estudos sobre Histeria (1893-1895). In: Obras Psicológicas</p><p>Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. II. Rio</p><p>de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>FREUD, S. Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. Edição Stan-</p><p>dard Brasileira, Vol. VII., Editora: Imago - RS, 1972.</p><p>FREUD, S. Casos clínicos (Breuer e Freud) Caso 1 Srta. Anna O. In:</p><p>Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard bra-</p><p>sileira. Vol II. RS, Imago, 1996a.</p><p>FREUD, S. Fragmento da análise de um caso de histeria: (O caso Dora)</p><p>(1856-1939). Tradução de Paulo Dias Correa. Rio de Janeiro: Imago</p><p>Ed., 1997.</p><p>__________. O mal-estar na civilização (1930). In: Obras Completas</p><p>de Sigmund Freud – Volume 18. Tradução e notas de Paulo César de</p><p>Souza. SP: Companhia das Letras, 2011.</p><p>__________. Primeiras Publicações Psicanalíticas (1893-1899). In:</p><p>Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard</p><p>Brasileira. Vol. III. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________.. A interpretação dos sonhos (1900-1895). In: Obras Psico-</p><p>lógicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol.</p><p>IV e V. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905). In:</p><p>Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard</p><p>Brasileira. Vol. VII. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Fragmentos de um caso de Histeria (1905). In: Obras Psi-</p><p>cológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira.</p><p>Vol. VII. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000100007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt</p><p>https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932009000100007&lng=en&nrm=iso&tlng=pt</p><p>74</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>__________. Moral Sexual Civilizada e Doença Nervosa Moderna</p><p>(1908). In: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição</p><p>e a formação</p><p>dos seus laços sociais (família, vizinhança, amigos, escola, comunida-</p><p>de), na questão dos direitos humanos, da inclusão e da exclusão social</p><p>e mediação dos conflitos nos processos sociais, da saúde, bem-estar</p><p>e de sustentabilidade possíveis, e sobre as produções socioculturais e</p><p>incremento das tecnologias e seus impactos na sociedade.</p><p>Assim, no primeiro capítulo iremos abordar a constituição do</p><p>sujeito e a construção do laço social, considerando os aspectos histó-</p><p>rico, antropológico, científico e filosófico que conformam os estudos do</p><p>homem em sociedade.</p><p>No segundo capítulo deste módulo discutiremos questões re-</p><p>ferentes ao sujeito, considerando a importância da função paterna na</p><p>definição da psicanálise como organizadora do sujeito e, enquanto fun-</p><p>damentada na cultura, a construção dos laços sociais que ele forma no</p><p>decorrer da vida; a importância do aspecto afetivo para o desenvolvi-</p><p>12</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>mento humano e da função civilizatória reguladora; além das questões</p><p>referentes ao enfrentamento do sofrimento humano e à criação de ilu-</p><p>sões frente ao desamparo social como medidas defensivas.</p><p>Para finalizarmos, no capítulo três trataremos das questões</p><p>relativas ao sujeito e ao laço social, pensando nas exigências organi-</p><p>zacionais governamentais e não governamentais de atendimento e pro-</p><p>dução de conhecimento no trabalho profissional inovando práticas que</p><p>auxiliem o sujeito no desenvolvimento de sua emancipação diante dos</p><p>desafios contemporâneos.</p><p>Bons estudos e boas reflexões!</p><p>13</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Para a filosofia clássica, a questão humana se relacionava com</p><p>o saber e a verdade. Podemos afirmar que o sujeito é o objeto próprio</p><p>da Psicologia como ciência e pode ser estudado sob a ótica de qual-</p><p>quer corrente psicológica, mas vamos aprimorar nossos conhecimentos</p><p>sobre a importância da constituição do sujeito para a Psicologia social,</p><p>tomando por base a teoria psicanalítica criada por Sigmund Freud no</p><p>final do século XIX.</p><p>O QUE É O SUJEITO E COMO ELE SE CONSTITUI</p><p>A questão subjetiva é importante desde a antiguidade clássica.</p><p>Pensadores como Sócrates, Platão e Aristóteles, chegando em Descar-</p><p>tes, Hume, Hegel, Foucault, Deleuze, Heidegger, e psicanalistas como</p><p>Freud e Lacan, entre outros tantos nomes, alteraram a concepção que</p><p>temos do sujeito.</p><p>PSICANÁLISE:</p><p>SUJEITO & LAÇO SOCIAL</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>14</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Enquanto o sujeito platônico era o sujeito das ideias (logos),</p><p>o aristotélico era o do simulacro (imagem malfeita do divino). Enquan-</p><p>to para Descartes (1596-1650), o sujeito era o da razão, aquele que</p><p>conhecia a verdade, para Hegel (1770-1831) e Freud (1856-1939), o</p><p>sujeito se configurava a partir do desejo (inconsciente, na concepção</p><p>freudiana) e, a partir disso, o eu não mais vai ser concebido como uma</p><p>entidade plena de verdade, ou, pelo menos, essa entidade do eu como</p><p>o lugar da verdade do sujeito vai ser abalada.</p><p>Descartes defende uma concepção subjetiva baseada na ra-</p><p>zão e na verdade que abre caminho para toda uma forma de pensar</p><p>científica e positivista (Comte, 1788-1857). Hegel, apesar de defender</p><p>a verdade enquanto racionalidade real, aponta para a lógica do desejo</p><p>como o lugar da própria gênese do ser humano, pois é negando a natu-</p><p>reza que o sujeito se constitui como humano.</p><p>Para a Psicologia social, de forma geral, o sujeito se constitui</p><p>historicamente e dentro de uma determinada cultura ou sociedade, por</p><p>isso não temos uma forma de sujeito, mas sujeitos que se constituem</p><p>em interação. Somos nós, sujeitos que atribuímos ao mundo a nossa</p><p>própria subjetividade.</p><p>Na psicanálise inaugurada por Freud em 1896 – apesar de</p><p>percebermos claramente a influência da lógica platônica – há um rom-</p><p>pimento com o conceito do centramento do homem consciente e de</p><p>razão plena, uma verdadeira inversão do cartesianismo, segundo Gar-</p><p>cia-Roza (1993).</p><p>Assim, inaugurando o conceito de inconsciente, tira-se a cons-</p><p>ciência do lugar da verdade do sujeito e a coloca no lugar da distorção,</p><p>ilusão e de ocultamento. O eu consciente, que costumamos identificar a</p><p>partir de então como o próprio sujeito, é o lugar epistemológico em que</p><p>as verdades são distorcidas e alteradas. Então, a partir da psicanálise,</p><p>passa a se conceber o sujeito não como um todo unitário, lugar do co-</p><p>nhecimento e da verdade, mas dividido em dois grandes sistemas: o</p><p>inconsciente e o consciente. É nessa divisão que o sujeito se constitui.</p><p>Assim, na base da constituição dos sujeitos temos os instintos</p><p>diferenciados, as pulsões, que são carregadas de afetos e ambivalentes</p><p>e são sexualizadas, da concepção freudiana; mas também o sujeito só</p><p>pode ser pensado enquanto um ser que se constitui pela presença indis-</p><p>pensável do outro desde o início de sua vida, e pelo seu posicionamento</p><p>dentro de uma determinada lei, no contexto de uma cultura, e batizado</p><p>a partir da linguagem e do campo de inscrição simbólica que, principal-</p><p>mente, na leitura lacaniana pode ser representado pela dicotomia sujeito</p><p>do enunciado/significado/razão e sujeito da enunciação/significante/ex-</p><p>cêntrico (excêntrico aqui considerado no sentido de fora do centro).</p><p>15</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>FREUD: O INCONSCIENTE, A DIVISÃO DO SUJEITO E A ORDENA-</p><p>ÇÃO PSÍQUICA</p><p>Freud era um médico austríaco que ao final do século XIX e</p><p>início do século XX, ao atender pacientes que desafiavam a lógica na-</p><p>turalista da medicina por apresentar comportamentos e sintomas que</p><p>se expressavam fisicamente no corpo, sem ter o nexo causal ou im-</p><p>pedimento fisiológico, descobriu uma característica importante no ser</p><p>humano, a saber, que possui duas lógicas de funcionamento: a lógica</p><p>consciente, que em última instância busca manter a sobrevivência do</p><p>sujeito frente às desventuras da realidade (da vida), e a lógica do de-</p><p>sejo, que tem como objetivo sua plena satisfação. Para chegar nes-</p><p>sa concepção houve um longo caminho, muitos estudos, diálogos com</p><p>outros pesquisadores de sua época e definição de vários conceitos e,</p><p>conforme vemos em sua obra publicada, muito trabalho.</p><p>Não podemos negar que a psicanálise muito contribuiu para a</p><p>compreensão do funcionamento psíquico e do sofrimento humano em</p><p>sociedade, pois, a partir da psicanálise, o sujeito não pode mais ser</p><p>definido como o sujeito pleno de razão e verdade, mas também como o</p><p>sujeito do afeto/desejo.</p><p>Silva (2013) defende que Freud não foi apenas um investiga-</p><p>dor do funcionamento interno do aparelho psíquico, pois, ao longo do</p><p>seu trabalho, ele foi moldando seus conceitos em um movimento dialé-</p><p>tico que iniciou com uma concepção biologicista, em consonância com</p><p>sua formação, mas se manteve crítico e acompanhou o processo social,</p><p>político e histórico de seu tempo, mantendo diálogo com as ciências</p><p>humanas, principalmente com a arqueologia e as artes. O tempo e o</p><p>espaço também são importantes meios nos quais o sujeito vai se consti-</p><p>tuir, e ajudam a formar o seu juízo de realidade. Nas cartas a Fliess, por</p><p>exemplo, o autor fala que Freud (1950 [1892-1899] 1990) apresenta:</p><p>[...] a tese de que a memória não se faz presente de uma só vez, mas se</p><p>desdobra em vários tempos” (p. 324). Prossegue sugerindo que a memó-</p><p>ria passa por diferentes registros que de tempos em tempos se rearranjam,</p><p>são transcritos de diferentes formas, e ao final, numa camada chamada Vor-</p><p>bewusstsein (pré-consciência), os traços que continuam sendo inscritos e</p><p>rearranjados se juntam a restos de palavras, representações verbais, dando</p><p>origem ao nosso Eu (SILVA, 2013, p. 18).</p><p>O autor destaca esse texto porque acredita que, desde a dé-</p><p>cada de 1890, Freud já dava importância à comunicação e à linguagem</p><p>para a constituição do</p><p>Standard Brasileira. Vol. IX. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Totem e Tabu (1913). In: Obras Psicológicas Completas</p><p>de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. XIII. Rio de Janeiro,</p><p>Imago: 1996.</p><p>__________. Conferências Introdutórias à Psicanálise (1913). In: Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira.</p><p>Vol. XIII. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914). In: Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira.</p><p>Vol. XIV. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. As pulsões e suas vicissitudes (1915). In: Obras Psicológi-</p><p>cas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV.</p><p>Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. O Inconsciente (1915). In: Obras Psicológicas Completas</p><p>de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV. Rio de Janeiro,</p><p>Imago: 1996.</p><p>__________. Luto e Melancolia (1915-1917). In: Obras Psicológicas</p><p>Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. XIV. Rio</p><p>de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Inibições, Sintomas e Angústias (1925-1926). In: Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira.</p><p>Vol. XVII. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. O Ego e o ID (1923-1925). In: Obras Psicológicas Com-</p><p>pletas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. XIX. Rio de</p><p>Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Uma breve descrição da psicanálise (1924 [1923]). In:</p><p>Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard</p><p>Brasileira. Vol. XIX. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Um estudo autobiográfico (1925). In: Obras Psicológicas</p><p>Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira. Vol. XX. Rio</p><p>75</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>__________. Novas Conferências Introdutórias (1932-1936). In: Obras</p><p>Psicológicas Completas de Sigmund Freud: Edição Standard Brasileira.</p><p>Vol. XXII. Rio de Janeiro, Imago: 1996.</p><p>GARCIA-ROZA, L. A. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro, Jorge</p><p>Zahar Editor: 1993.</p><p>LAPLANCHE, Jean. Vocabulário de psicanálise/ LAPLANCHE e PON-</p><p>TALIS; sob a direção de Daniel Lagache. 3 ed. São Paulo: Martins Fon-</p><p>tes, 2001.</p><p>MANSO, Rita; CALDAS, Heloisa. Escrita no corpo: gozo e laço social.</p><p>Ágora (Rio J.). Rio de Janeiro, v. 16, n. spe, p. 109-126, abril de 2013.</p><p>Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-</p><p>d=S1516-14982013000300008&lng=en&nrm=iso>. acesso em 07 de</p><p>maio de 2021. http://dx.doi.org/10.1590/S1516-14982013000300008.</p><p>NASIO, J.-D. A histeria: teoria clínica e psicanalítica. Rio de Janeiro:</p><p>Jorge Zahar Ed., 1991.</p><p>76</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>_heading=h.30j0zll</p><p>_heading=h.gjdgxs</p><p>_heading=h.3g8pobze7rlk</p><p>_heading=h.v4z2u3jutz7s</p><p>ser humano e a construção do laço social.</p><p>16</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>A teoria psicanalítica freudiana vai se construindo a partir de</p><p>uma prática clínica, nos seus estudos com pacientes histéricas e, em seu</p><p>percurso, lança luz sobre impasses relacionados ao social, ao fato de</p><p>que o homem está marcado por uma ordem social. Desde seus primeiros</p><p>escritos no Projeto para uma psicologia científica (1895), conhecido no</p><p>meio acadêmico por escritos pré-psicanalíticos, Freud ressalta a impor-</p><p>tância da presença de outro ser humano na formação do sujeito (eu).</p><p>A partir da descoberta do inconsciente, atendendo pacientes</p><p>histéricas, Freud foi definindo como o ser humano se constitui, diferente</p><p>dos demais animais, e esquematiza o aparelho psíquico e suas fun-</p><p>ções. Um dos conceitos mais importantes apontados nessa diferencia-</p><p>ção e presente na própria origem de constituição do sujeito é o conceito</p><p>de pulsão.</p><p>A pulsão e suas vicissitudes</p><p>Um dos principais fatores que diferencia o ser humano do resto</p><p>dos animais é que a maioria deles já nascem prontos (dotados de todas</p><p>as condições de se levantar pouco depois de nascer e procurar o seu</p><p>alimento), e o homem nasce como se ainda fosse uma espécie de em-</p><p>brião, ou seja não pronto, um “vir a ser”, e necessita da presença de ou-</p><p>tro ser humano para sobreviver e para finalmente se constituir enquanto</p><p>sujeito. Ele se forma a partir de sua concepção e vai se desenvolver até</p><p>o final de sua vida de forma incompleta. Assim, na teoria freudiana, o</p><p>sujeito se constitui não a partir dos instintos, mas das pulsões.</p><p>É óbvio que, como pertencentes da espécie animal, desen-</p><p>volvemos comportamentos a partir de instintos, como no exemplo dos</p><p>movimentos de arco reflexo; porém, desde cedo, em nossas primeiras</p><p>experiências de vida e a partir da relação com o desejo do outro, há</p><p>uma diferenciação instintual, pois ela passa a ser carregada de afeto e</p><p>também sexualizada, em decorrência da satisfação dos estímulos (ex-</p><p>ternos e internos). Dizendo de outra forma, a satisfação da pulsão se</p><p>diferencia da satisfação do instinto porque nesta há um retorno sob a</p><p>forma de alívio da excitação, mas na realização de uma pulsão há além</p><p>do alívio, o prazer ou o gozo.</p><p>Assim, ainda no projeto de 1895, Freud já analisava o vínculo</p><p>mãe – bebê como experiência de satisfação erógena, que ele veio cha-</p><p>mar de autoerotismo. A experiência de satisfação autoerótica determina</p><p>o processo dinâmico mental na dualidade prazer – desprazer.</p><p>Para Testi (2012), a experiência de satisfação em Freud se ca-</p><p>racteriza pelo encontro entre o bebê e a pessoa que permite as descar-</p><p>gas das tensões internas, promovendo o apaziguamento dessas ten-</p><p>17</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>sões, reconhecida aqui por vivência de satisfação, produzindo, assim,</p><p>a primeira sensação de prazer para além da saciedade de uma pura</p><p>necessidade orgânica. Nesse sentido, tomando a mãe como geralmen-</p><p>te aquela pessoa que permite o alívio dessas descargas endógenas,</p><p>quando cuida do filho, o alimenta e promove sua higiene básica está</p><p>também despertando a diferenciação da pulsão sexual (libido).</p><p>Podemos começar a entender agora que, segundo a psicaná-</p><p>lise freudiana, o encontro com o desejo do outro produz uma dimen-</p><p>são traumática e, assim, Freud desenvolve o conceito de sexualidade</p><p>infantil, um assunto polêmico na sociedade em que ele vivia e ainda</p><p>muito mal trabalhado em nossa sociedade, mesmo entre os psicólogos,</p><p>psicanalistas, assistentes sociais e educadores. Dessa forma, em Três</p><p>ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905) afirma que:</p><p>Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual que ela está ausente na</p><p>infância e só desperta no período de vida designado da puberdade. Mas este</p><p>não é um erro qualquer, e sim um equívoco de graves consequências, pois é</p><p>o principal culpado de nossa ignorância de hoje sobre as condições básicas</p><p>da vida sexual. (FREUD, 1905/1990, p. 162).</p><p>Podemos considerar então que o ser humano, enquanto sujei-</p><p>to, é formado por um corpo orgânico dotado de instintos que se trans-</p><p>formam no decorrer de sua constituição, que se dá a partir da inscrição</p><p>do desejo do outro em seu próprio corpo.</p><p>Numa fase muito primordial, o ser humano se dirige ao mundo</p><p>sem compreender a diferenciação entre este e seu próprio corpo, por-</p><p>que essa noção e esses conceitos ainda não estão estabelecidos. Os</p><p>instintos que regulam a manutenção do ser vivo para que este sobreviva</p><p>são acionados e respondidos por outro sujeito. A satisfação desse incô-</p><p>modo orgânico produz além do alívio da tensão algo mais, que Freud</p><p>chamou de prazer e Lacan de gozo, diferenciando, assim, o instinto (au-</p><p>torregulatório e autômato referente ao organismo animal) das pulsões</p><p>(movidas por desejo e por afeto).</p><p>De uma forma resumida, a pulsão para Freud é um conceito</p><p>que faz fronteira entre a mente e o corpo, uma representação psíquica</p><p>de estímulos internos, e se difere de instinto principalmente pelo fator</p><p>da hereditariedade, por este ser fixo e ter um objeto determinado. A</p><p>pulsão, por sua vez, não tem um objeto específico ou padrão de com-</p><p>portamento, e se expressa como afeto (que determina a quantidade e a</p><p>qualidade da pulsão) ou ideia, e não participa da dualidade consciente</p><p>– inconsciente.</p><p>O afeto descrito por Freud não é sinônimo de afetividade. O</p><p>afeto se expressa em descargas que nós denominamos sentimentos,</p><p>18</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>mas os afetos não podem ser recalcados (sofrer repressão dos meca-</p><p>nismos conscientes), mas sofrem as consequências do recalcamento.</p><p>As ideias são representações, catexias ideativas, traços de memória e</p><p>elas, sim, podem ser recalcadas.</p><p>Fazemos aqui um adendo explicativo ao conceito de recalque</p><p>na concepção freudiana para melhor entendermos o conceito de pul-</p><p>são. A vida anímica do sujeito aqui é marcada pela dualidade dos prin-</p><p>cípios de prazer e desprazer, assim, o mecanismo do recalque surge a</p><p>partir de uma falha motora em evitar o desprazer provocado por uma</p><p>exigência pulsional, que é chamada de hiância, um vazio entre o desejo</p><p>de fuga, que não pode ser realizado por um motivo real, e a elaboração</p><p>de um juízo de valor adequado em relação à fonte de tensão. É neste</p><p>espaço (hiância) que o recalque se faz presente. O sujeito vai repetindo</p><p>esse processo durante toda a sua vida, frente ao mundo, ao desconhe-</p><p>cido, ao outro com quem estabelece laços sociais.</p><p>Segundo Silva (2013), devido à divisão do psiquismo humano,</p><p>a satisfação de uma pulsão pode trazer desprazer à parte consciente,</p><p>enquanto proporciona satisfação à parte inconsciente, assim, no recal-</p><p>camento localiza-se a fonte causadora das psiconeuroses, porque ele</p><p>não é um arremedo perfeito, é ele que instaura no sujeito o reino da</p><p>fantasia. Para mostrar-se e passar pela clivagem da consciência, ele</p><p>deve sofrer um deslocamento ou uma deformação.</p><p>Com relação ao juízo de realidade e o recalcamento, Freud nos</p><p>diz que:</p><p>[...] um determinado tipo de atividade do pensar foi apartado do teste de</p><p>realidade, permaneceu livre deste e ficou submetido apenas ao princípio do</p><p>prazer. É ele o fantasiar, que já se inicia com o brincar das crianças e mais</p><p>tarde prossegue com o devanear, deixando então de sustentar-se em objetos</p><p>reais (FREUD, 1911/2004, p. 67).</p><p>A presença indeterminada do inconsciente impossibilita a rela-</p><p>ção do sujeito com o social de forma objetiva, pois as representações</p><p>fantasmáticas costumam prevalecer. Assim, para Freud, o conflito psí-</p><p>quico é resultante do embate de forças instintivas (inconscientes) e re-</p><p>pressoras (oriundas do ego e de outra instância que ele vai chamar de</p><p>superego), expressando-se em sintomas.</p><p>O conceito de pulsão sofre mudanças no decorrer de sua obra.</p><p>Passando pelo trabalho que o próprio Freud reconhece como um dos</p><p>seus mais importantes, a Interpretação dos sonhos,</p><p>em 1900, leva ao</p><p>estabelecimento de muitos conceitos que caracterizam a dinâmica do</p><p>aparelho psíquico, o fenômeno do recalcamento e os mecanismos de</p><p>defesa do ego contra as exigências do meio (baseadas no princípio da</p><p>19</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>realidade) e do inconsciente (baseadas no princípio do prazer). O recal-</p><p>que é um procedimento defensivo bem trabalhado nesse texto e os me-</p><p>canismos de deslocamento e associações aparecem como formadoras</p><p>do recalque, servindo para encobrir lembranças/ideias que não podem</p><p>ficar conscientes, pois desestabilizariam ou ameaçariam o eu.</p><p>Voltamos à descrição das pulsões e sua ligação com a libido</p><p>e os afetos, pois estes são capazes de fazer com que o sujeito formule</p><p>os laços sociais.</p><p>Freud afirma que as pulsões possuem fonte, pressão, finali-</p><p>dade e objeto. A fonte das pulsões é orgânica e está localizada nas</p><p>excitações corporais que precisam de um trabalho de representação,</p><p>simbolização. A pressão é a quantidade de energia/força necessária</p><p>para realizar a sua vicissitude, tendo como finalidade a satisfação da</p><p>pulsão. O objeto é a coisa (indeterminada) através da qual a pulsão</p><p>tenta se realizar. A pulsão sustenta toda a vida anímica do sujeito e vai</p><p>estar presente na construção dos laços sociais.</p><p>Vemos, através destes conceitos, que Freud fala desde o início</p><p>em uma dualidade das pulsões (ideias – afetos), demarcando a pulsão</p><p>afetiva como libido. A libido procura objetos para sua satisfação, mas,</p><p>no seu investimento no mundo real, pode não encontrar o objeto em</p><p>que a pulsão possa se satisfazer. Diz-se que há um interdito na realiza-</p><p>ção pulsional, que Freud chamou, em 1915, de “prova de realidade”. A</p><p>pulsão sem se vincular a um objeto (livre), vincula-se a uma ideia ou ao</p><p>próprio ego (eu). Entramos, então, na seara do narcisismo ou da satis-</p><p>fação narcísica da pulsão.</p><p>O narcisismo é outro conceito importante para a formação do</p><p>sujeito, pois demarca o momento em que fica patente a diferenciação</p><p>que o ser humano em formação faz em relação a ele mesmo e ao mun-</p><p>do. Vamos voltar a essa questão um pouco mais adiante.</p><p>Os conceitos da psicanálise freudiana estão descritos em seu</p><p>extenso trabalho publicado pela editora Imago no Brasil em 24 volumes.</p><p>Hoje em dia, você o encontra na internet em domínio público.</p><p>http://satepsi.cfp.org.br/imprimelistateste.cfm?status=1</p><p>http://satepsi.cfp.org.br/imprimelistateste.cfm?status=1</p><p>20</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Retomando o conceito de pulsão e suas características dico-</p><p>tômicas, no artigo Luto e Melancolia (1915) também aparece a relação</p><p>do investimento libidinal quando não se é possível encontrar o objeto de</p><p>satisfação da pulsão na realidade. Por exemplo, quando uma pessoa</p><p>querida morre, o sujeito parece perder interesse nas coisas do mundo,</p><p>ou mesmo parece perder a capacidade de amar, deixa de investir nas</p><p>atividades diárias e diminui os sentimentos de autoestima. Essas carac-</p><p>terísticas podem ser normais ou patológicas. Assim, afirma Freud que,</p><p>quando a libido não pode mais encontrar o objeto investido de afeto na</p><p>realidade, a tendência é prolongar sua existência psiquicamente (repre-</p><p>sentação/ideia). No luto, esse fenômeno é visto de forma consciente</p><p>e pode ser superado no tempo, através de um processo de trabalho</p><p>psíquico de elaboração da perda do objeto. No fenômeno patológico,</p><p>como no caso da melancolia, a insuportabilidade da perda faz com que</p><p>o sujeito retire esse investimento da consciência e passe a direcioná-lo</p><p>ao ego, não mais ao objeto perdido, realizando a identificação narcísica</p><p>com o objeto.</p><p>Relembrando, Freud apreciava explicitar as suas definições</p><p>para o funcionamento anímico do sujeito em pares dicotômicos (prin-</p><p>cípio de prazer X princípio de realidade); assim, no início, ele define as</p><p>pulsões em dois tipos: as de autopreservação e as sexuais. Depois ele</p><p>reformula esses conceitos em pulsão de vida e pulsão de morte. A pul-</p><p>são de vida são as catexias (impulsos de afetos) que procuram manter</p><p>o ego (eu). As pulsões do ego não necessariamente levam à busca por</p><p>novos objetos e criam novas oportunidades, mas, sim, ao mecanismo</p><p>de repetição. Elas se fixam no sujeito de forma narcísica, segura do</p><p>ponto de vista imaginário, mas que se mostram potencialmente produ-</p><p>toras de doença psíquica.</p><p>O conceito de pulsão de morte em Freud (1920) transforma-se</p><p>em um reposicionamento do psicanalista frente a diversas questões de</p><p>difícil elucidação que acompanhava na clínica, como por exemplo, por-</p><p>que uma pessoa pode fazer mal e sentir prazer agredindo a si mesma?</p><p>Na teoria freudiana, isso iria contra o princípio do prazer. A dicotomia</p><p>pulsional se mostra presente, os afetos podem ser de amor e ódio e</p><p>esse afeto pode estar direcionado ao objeto externo, mas, principalmen-</p><p>te ao ego, pois o eu para Freud é o primeiro objeto afetivo do sujeito.</p><p>A pulsão de morte caracteriza tudo o que não pode ser repre-</p><p>sentado, pulsão sem significantes, ao mesmo tempo destrutiva e cria-</p><p>tiva. Percebemos que no desenvolvimento de suas teorias sobre as</p><p>pulsões, a representação já traz a marca do campo da linguagem e</p><p>da cultura. A própria sublimação e criatividade artística são formas de</p><p>expressar essa dinâmica conflituosa, ao invés do sofrimento psíquico.</p><p>21</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>O narcisismo, os objetos de amor e idealização</p><p>Voltemos a partir deste ponto ao conceito de narcisismo, pois</p><p>o investimento libidinal do ego é inseparável da própria constituição do</p><p>sujeito e do aparelho psíquico.</p><p>Segundo Garcia-Roza (1993), o narcisismo é uma categoria</p><p>criada por Freud para representar um investimento libidinal no ego.</p><p>Freud diferencia também narcisismo primário e secundário: no primário,</p><p>a criança investe toda a sua libido em si mesma, enquanto no secun-</p><p>dário há um retorno da libido ao ego após a retirada dos investimentos</p><p>objetais (libido de objeto), antes direcionados ao mundo externo.</p><p>O narcisismo primário é uma realidade psíquica formulada a</p><p>partir do mito primário de regresso ao “seio materno” e é uma fase de</p><p>desenvolvimento da sexualidade infantil, posterior ao autoerotismo, que</p><p>seria uma fase preparatória para o narcisismo. O recalque se inscreve</p><p>nesta fase e serve como função normalizante, imposta por exigências</p><p>culturais com a finalidade de lidar com o narcisismo infantil. Freud en-</p><p>tende que o objeto original de amor é a mãe para as crianças de ambos</p><p>os sexos e, em determinado momento, esse objeto de amor é barrado/</p><p>abandonado com a categoria descrita como Complexo de Édipo.</p><p>O complexo de Édipo também é uma alegoria criada a partir</p><p>de um mito da literatura clássica. É um conceito de extrema importância</p><p>para a conformação do sujeito, para sua maturação, e para instituir a lei,</p><p>as regras de determinada cultura, por isso vamos tratá-lo em um item</p><p>à parte.</p><p>Retomando as fases do desenvolvimento infantil, a partir das pul-</p><p>sões sexuais, Freud demarca quatro fases: oral, anal, genital e fálica. Não</p><p>se trata aqui de fases cronológicas, mas de fases que correspondem ao</p><p>processo de organização psíquica do sujeito frente ao objeto da pulsão.</p><p>Segundo Testi (2012), na constituição psíquica do sujeito,</p><p>Freud classifica duas etapas de organização que chamou pré-genital:</p><p>a oral e a sádico-anal, pois a busca por satisfação está a serviço da</p><p>função de autopreservação (referência ao mecanismo de nutrição, di-</p><p>gestão, excreção). A organização sexual infantil se dá pela primazia do</p><p>falo (coisa que falta) até o amadurecimento e a resolução (dissolução)</p><p>do Complexo de Édipo.</p><p>Concluindo, no narcisismo infantil é o ego que vai se colocar</p><p>como objeto da libido, e do ponto de vista da economia libidinal, orga-</p><p>niza-se a troca energética entre o ego, os objetos do meio externo e os</p><p>objetos internos (fantasmáticos), de acordo com a analogia dos pseu-</p><p>dópodes da ameba criada</p><p>por Freud em 1914 para explicar que quando</p><p>um dos objetos é mais investido, o outro sofre um esvaziamento.</p><p>22</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Para visualizar o conceito de investimento e esvaziamento li-</p><p>bidinal e a analogia freudiana da ameba, disponibilizamos o link de um</p><p>vídeo que representa a descrição desta e de seu movimento no micros-</p><p>cópio.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=bPwVOggUp4M&featu-</p><p>re=emb_rel_end</p><p>Podemos afirmar que a partir do texto sobre o narcisismo,</p><p>Freud caracteriza dois tipos básicos de escolha de objeto amoroso que</p><p>vai guiar a orientação para o laço afetivo que estabelecemos em socie-</p><p>dade para o resto da vida: um se baseia no modelo das figuras parentais</p><p>(tipo anaclítico), ou seja, baseado no apoio das pulsões sexuais sobre</p><p>as de autoconservação e o outro que se baseia no modelo da própria</p><p>pessoa (tipo narcísico). De acordo com Garcia-Roza (1993), tomar a</p><p>si próprio como modelo não é simples, pois uma pessoa pode amar o</p><p>que ela própria é, ou o que ela própria foi ou o que gostaria de ser ou</p><p>ainda alguém que foi uma vez parte dela mesma. Relacionado ao tipo</p><p>anaclítico, geralmente temos o modelo de afeto na mulher que alimenta</p><p>ou no homem que protege (tipos ideais, e não necessariamente reais).</p><p>Lembramos que essas são categorias descritivas, e que po-</p><p>dem não corresponder exatamente ao tipo descrito por Freud e se di-</p><p>ferenciar, inclusive, pelo tipo de contexto familiar e cultural em que o</p><p>sujeito está inserido.</p><p>Ainda segundo o autor, o narcisismo primário na teoria freu-</p><p>diana é responsável pela formação do ego e, assim, pela formação do</p><p>recalque, um provém do outro, tendo como suas fontes de exigência o</p><p>tabu presente em uma cultura.</p><p>No narcisismo primário, o indivíduo erige um ideal (de ego), o</p><p>que condiciona o recalque. Com a criação deste ego imaginário, dotado</p><p>da perfeição narcísica da infância, procuramos sempre buscá-la na re-</p><p>lação com a realidade e com o outro sob a forma de ideal do ego. Então</p><p>podemos afirmar que a relação com o outro e a criação do laço social</p><p>passa, antes de tudo, por uma idealização. O ego ideal tem seu modelo</p><p>no narcisismo primário, enquanto o ideal de ego aponta para uma ins-</p><p>tância diferenciada, um modelo em que o sujeito tenta conformar-se,</p><p>promovendo uma nova identificação, que Freud chamou de narcisismo</p><p>secundário.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=bPwVOggUp4M&feature=emb_rel_end</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=bPwVOggUp4M&feature=emb_rel_end</p><p>23</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Como já falamos anteriormente no artigo de 1915, Luto e Me-</p><p>lancolia, Freud vai propor uma visualização deste processo de identifi-</p><p>cação do narcisismo secundário, com o retorno da libido que foi direcio-</p><p>nada ao mundo externo para o próprio ego, na reação diante da perda</p><p>do objeto.</p><p>Deste momento até 1923, vemos Freud se debater com novos</p><p>conceitos para descrever o funcionamento psíquico, que anteriormente</p><p>se referia como instâncias inconscientes, pré-conscientes e conscien-</p><p>tes. Em o Ego e o Id, Freud expõe seu esquema psíquico, que foi no-</p><p>meado como segunda tópica do aparelho mental.</p><p>O Ego tem sua origem no esquema perceptivo-consciente</p><p>(Pcpt-Cs), enquanto efeito das sensações corporais, por isso, a defini-</p><p>ção freudiana de que o ego é, antes de tudo, um ego corporal. O Id é a</p><p>parte inacessível ao psiquismo, está aberto a influências somáticas e os</p><p>representantes pulsionais buscam a satisfação (princípio do prazer). O</p><p>superego é um representante do mundo externo no aparelho psíquico e</p><p>herdeiro do Complexo de Édipo, possuindo tríplice função: auto-obser-</p><p>vação, consciência moral e ideal do ego. Vamos trabalhar mais esses</p><p>conceitos no próximo tópico.</p><p>Para concluir, o Ego vai se posicionar entre os dois mundos,</p><p>como um mediador, que vai procurar atender às exigências do Id, se-</p><p>gundo Garcia-Roza (2013), com um mínimo de conflito com a realidade</p><p>e com o superego (que é tirano) e vai se apropriar de partes do id para</p><p>se fortalecer e se ampliar.</p><p>É assim que funciona a dinâmica psíquica do sujeito em nosso</p><p>mundo, em nossa sociedade, guardadas algumas mudanças culturais,</p><p>mesmo nos dias atuais.</p><p>O COMPLEXO DE ÉDIPO: MITO E PROCESSO CIVILIZATÓRIO RE-</p><p>GULADOR</p><p>Até aqui falamos do campo constitutivo da subjetividade que</p><p>está intimamente relacionada à fantasia, que Freud delimitou como sen-</p><p>do um campo imaginário, e sua relação com o mundo real, aquele que</p><p>está à volta do sujeito, onde ele nasceu e começou a se desenvolver;</p><p>mas no qual, porém, não tem quase nenhum controle. Para preparar o</p><p>sujeito em formação, seu ego, para lidar com as frustrações a respeito</p><p>das inacessibilidades na realidade (com suas regras), começa a delimi-</p><p>tar o campo simbólico, aquele que através da palavra e das convenções</p><p>sociais vai organizar o posicionamento do ego em relação ao mundo</p><p>externo.</p><p>24</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Vimos que na organização psíquica freudiana, além do ego e</p><p>do id, há a instância denominada superego, que é o representante mo-</p><p>ral das leis do mundo introjetado na subjetividade. Porém, as leis do</p><p>mundo também foram estabelecidas para que o sujeito – a partir do pro-</p><p>cesso civilizador enquanto regulador das normas de conduta em uma</p><p>sociedade – pudesse coexistir com outros sujeitos.</p><p>Mas como é possível estabelecer essas relações de civilidade,</p><p>quando o sujeito é um ser governado por uma dinâmica pulsional?</p><p>Há a necessidade de instaurar uma lei. Essa lei é formada por</p><p>palavras e por referenciais de organização de uma determinada cultura.</p><p>Essa lei, representada pela linguagem, determina uma ordem e um im-</p><p>pedimento à liberdade pulsional. É uma lei simbólica que é internalizada</p><p>pelos sujeitos. Essa lei é passada através das gerações pelo mito, que</p><p>Freud descreve em Totem e Tabu, retomando suas hipóteses sobre o</p><p>Complexo de Édipo.</p><p>Sobre o Complexo de Édipo, Moreira (2004) afirma que não</p><p>é apenas um “complexo nuclear” das neuroses (uma das psicopatolo-</p><p>gias investigadas por Freud na psicanálise); mas, um ponto decisivo</p><p>na sexualidade humana, pois irá estruturar e organizar como o sujeito</p><p>se posicionará em sua vida ou, de forma mais contundente, como este</p><p>sujeito vai diferenciar o eu e o outro, o mundo interno e o externo, os</p><p>sexos e como se posicionará diante da “angústia de castração”, que em</p><p>última instância seria uma barreira social do “incesto”, que tem como</p><p>origem o conceito de “amor” pelas figuras materna/paterna. A resolução</p><p>do Complexo de Édipo (Freud, 1924) é um texto fundamental para a de-</p><p>finição desta estrutura complexa, lembrando que a “castração” também</p><p>anuncia a presença irredutível do outro na constituição do sujeito.</p><p>Então, podemos afirmar que o momento da construção deste</p><p>campo simbólico de funcionamento do psiquismo humano pode ser lo-</p><p>calizado no Complexo de Édipo.</p><p>Freud trabalha o conceito de Complexo de Édipo em vários</p><p>textos como A interpretação dos sonhos (1900) e em Os Três Ensaios</p><p>sobre a Teoria da Sexualidade (1905), e neste descreve as fases do</p><p>desenvolvimento da sexualidade: oral, anal, fálica e genital. Ao entrar na</p><p>fase fálica, há afetos direcionados geralmente à figura materna, afetos</p><p>que inconscientemente querem se satisfazer plenamente. Neste mo-</p><p>mento surge uma interdição à satisfação desse desejo, estabelecido</p><p>geralmente na própria fala e atitude da figura materna, que se chamou</p><p>de lei instaurada pela inscrição no campo simbólico.</p><p>Assim, as crianças tanto do sexo feminino quanto do sexo mas-</p><p>culino têm esse mesmo primeiro objeto de amor e desejo e, na entrada</p><p>na fase fálica, vê surgir uma figura que interdita a sua livre expressão</p><p>25</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>pulsional, identificada pela figura paterna presente no discurso da mãe.</p><p>O que antes era uma relação dual passa a sofrer interferência de um</p><p>terceiro</p><p>elemento (outro) e esse terceiro elemento, identificado como</p><p>um objeto, será fonte de afetos ambivalentes expressos em sentimen-</p><p>tos de amor e ódio, ciúme e medo.</p><p>Na psicanálise freudiana estão estabelecidos dois momentos</p><p>do complexo de Édipo, o momento em que surge o impedimento, que</p><p>Freud chamou de barreira contra o incesto, e um segundo em que no-</p><p>vamente o sujeito, tendo que escolher um objeto de amor, pode optar</p><p>por um tipo relacionado à figura materna ou paterna. O que acontece</p><p>geralmente é que o menino escolhe como objeto de desejo a figura ma-</p><p>terna e se identifica com a figura paterna, e a menina se identifica com</p><p>a figura materna e toma como objeto de desejo a figura paterna. Mas,</p><p>nem sempre isso acontece, as inversões também são comuns, pois es-</p><p>tamos falando em lógica do desejo, e não em norma.</p><p>O complexo de Édipo tem origem por analogia à relação amo-</p><p>rosa tríplice entre pai-mãe-filho presente num Mito clássico publicado</p><p>por autoria de Sófocles em sua trilogia Tebana com o título de Édipo</p><p>Rei. A história descreve de forma dramática a sequencia de aconteci-</p><p>mentos e enganos que levam Édipo a matar seu próprio pai e desposar</p><p>a própria mãe. Você pode conhecer a história clássica no site:</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf</p><p>Baseado numa peça grega, sobre o mito de Édipo, Freud</p><p>(1897) diz que:</p><p>Cada pessoa da plateia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um</p><p>Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de so-</p><p>nho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que</p><p>separa seu estado infantil do seu estado atual (FREUD, 1990, 1897, p. 365).</p><p>No artigo Mal-Estar na Cultura (Civilização) e Doença Nervosa</p><p>Moderna (1908), Freud articula a relação do complexo de Édipo com a</p><p>cultura, localizando o complexo de Édipo na base do processo civilizatório.</p><p>Para Costa e Endo (2014), Freud, no artigo supracitado, abor-</p><p>da a importância de compreendermos que a sociedade de seu tempo,</p><p>http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/cv000024.pdf</p><p>26</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>da forma como estava organizada, para o psicanalista austríaco, se</p><p>configurava como a maior produtora da doença nervosa.</p><p>Desde muito cedo essa questão do indivíduo com a sociedade</p><p>se acha presente, pois aparece no Rascunho N (na carta a W. Fliess,</p><p>em 1897). O tema do incesto também aparece na carta, além da hipóte-</p><p>se de formação da histeria e da neurose obsessiva, e há um debate so-</p><p>bre a tensão social que impõe ao homem o sacrifício de sua liberdade,</p><p>com base no mais primitivo conceito regulador, o horror ao incesto, que</p><p>condiciona as organizações sociais e limita a vida sexual. A afirmação</p><p>de Freud sugere que a base de uma sociedade está fundamentada na</p><p>imposição da renúncia ao gozo. Essa interdição funda o laço social,</p><p>mas, por outro lado, também incrementa a doença nervosa.</p><p>Esses mesmos autores comparam essa concepção freudiana</p><p>sobre o processo civilizador e regulador dos corpos humanos com as</p><p>concepções do sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990), no sentido</p><p>de autocontrole e autorregulação. Assim, o corpo passa a ser condição</p><p>de coletividade. O processo civilizador marca o corpo humano e muda</p><p>comportamentos (condutas) e sentimentos (afetos e desejos), através</p><p>das proibições sociais transformadas em autocontrole e autorrestrições.</p><p>Na concepção de Norbert Elias, o processo civilizatório tem</p><p>a tendência de “tornar íntimas todas as funções corporais, a encerrá-</p><p>-las em enclaves particulares, a coloca-las atrás de portas fechadas”</p><p>(ELIAS,1939/1990, p. 188 apud COSTA & ENDO, (2014).</p><p>Assim, através do processo civilizador, há uma continuidade</p><p>entre a estrutura da personalidade e a estrutura social. A sociedade</p><p>transmite valores ao indivíduo, este deve abdicar do gozo sobre cer-</p><p>tos objetos pulsionais, assim, a sociedade se inscreve nos indivíduos</p><p>(como na alegoria do superego), sob a forma de Lei (regras e controle).</p><p>Em Totem e Tabu, artigo de 1913, Freud retoma o Complexo de</p><p>Édipo comparando estudos antropológicos realizados com aborígenes</p><p>australianos que, em sua época, eram considerados povos muito primi-</p><p>tivos, pois não possuíam uma organização social como na sociedade</p><p>europeia, não tinham instituições, funcionavam baseados na lógica to-</p><p>têmica e se dividiam em clãs e tribos.</p><p>Para Silva (2013), as relações de um indivíduo com seu totem</p><p>organizavam os laços sociais, sobrepondo-se às suas relações con-</p><p>sanguíneas. Mesmo nas sociedades chamadas primitivas, temos uma</p><p>ordem simbólica (Totem) que organiza as relações sexuais e impõe in-</p><p>terditos. Freud localiza que em quase todas as culturas há uma lei pri-</p><p>mordial que se configura como a proibição do incesto. A linguagem que</p><p>instaura o campo simbólico aparece como um terceiro elemento que diz</p><p>que o sujeito tem que inscrever um laço entre um indivíduo e o grupo.</p><p>27</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Desta forma, o processo civilizatório se torna regulador e man-</p><p>tenedor das leis sociais que controlam os desejos do sujeito dentro de</p><p>uma cultura. A ideia de linguagem constituinte do sujeito e do laço social</p><p>vem sendo trabalhada desde a Interpretação dos sonhos (1900).</p><p>Vamos finalizar esse capítulo com algumas reflexões: se a ver-</p><p>dadeira identidade do sujeito está na dinâmica pulsional inconsciente e</p><p>a sociedade (enquanto função reguladora) está representada no supe-</p><p>rego, como o ego se mantém em relação aos laços sociais que constrói</p><p>em sua vida, como ele lida com as frustrações desse jogo que envolve</p><p>três instâncias e que está balizado pela cultura?</p><p>O psicanalista francês Jacques Lacan relê Freud e esmiúça</p><p>muitos dos conceitos que foram abordados até aqui. Ele vai retomar a</p><p>descoberta freudiana sobre inconsciente e a formação do eu. Lacan re-</p><p>pensa a tradução de uma enigmática frase freudiana de edição inglesa,</p><p>traduzindo-a do alemão para o francês, que podemos transcrever como:</p><p>“onde o id está então o ego deve ser”. Não importando a tradução mais</p><p>correta aqui, o sentido é marcar a divisão do sujeito, que Lacan passa a</p><p>chamar de sujeito barrado.</p><p>Esse conceito de sujeito barrado na teoria lacaniana vai per-</p><p>mitir uma maior elucidação sobre as questões humanas. Lacan afirma</p><p>algo que Freud já havia sugerido durante a elaboração da psicanálise:</p><p>o inconsciente está estruturado como linguagem e, assim, reformula al-</p><p>guns conceitos que contribuem para a constituição do sujeito e do laço</p><p>social, analisando os discursos. Vamos desenvolver essa concepção no</p><p>próximo capítulo.</p><p>28</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>QUESTÕES DE CONCURSOS</p><p>QUESTÃO 1</p><p>Ano: 2017 Banca: IADES Órgão: Fundação Hemocentro de Brasí-</p><p>lia-DF Prova: Psicólogo Nível: Superior</p><p>De acordo com a psicanálise freudiana, a instância concebida</p><p>como um conjunto de conteúdos de natureza pulsional e de ordem</p><p>inconsciente é conhecida como:</p><p>a) pulsão</p><p>b) sublimação</p><p>c) isso</p><p>d) inconsciente</p><p>e) eu</p><p>QUESTÃO 2</p><p>Ano: 2018 Banca: Instituto Excelência Órgão: Prefeitura de São</p><p>Luís do Piraitinga-SP Prova: Psicólogo Nível: Superior</p><p>O elemento central da concepção freudiana da pulsão é seu caráter</p><p>eminentemente parcial, especificado por uma fonte pulsional (oral,</p><p>anal etc.) e por um alvo (a resolução de uma tensão interna). Sobre</p><p>a pulsão, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) Enquanto a sexualidade humana é pulsional e obedece a uma força</p><p>constante da libido, o sexo no animal é cíclico e biologicamente teleoló-</p><p>gico, visando exclusivamente à reprodução.</p><p>b) Para Freud, a sexualidade humana é de modo algum passível de</p><p>ser subsumida à genitalidade, através da qual a função reprodutora se</p><p>perpetua.</p><p>c) Freud, em seus estudos, diz por mais estranho que possa parecer, há</p><p>algo na natureza mesma da pulsão sexual que é ‘’favorável à realização</p><p>da plena satisfação’’.</p><p>d) A pulsão de vida realiza a função de preservação do indivíduo,</p><p>como</p><p>a alimentação, ao passo que as pulsões sexuais realizam as funções de</p><p>manutenção da espécie apenas.</p><p>QUESTÃO 3</p><p>Ano: 2019 Banca: Consel Concursos Órgão: Prefeitura de Cássia</p><p>dos Coqueiros-SP Prova: Psicólogo Nível: Superior</p><p>Freud, na primeira concepção sobre a estrutura e o funcionamento</p><p>da personalidade. Essa teoria refere-se à existência de três siste-</p><p>mas ou instâncias psíquicas:</p><p>a) inconsciente, subconsciente e pré-consciente.</p><p>b) subconsciente, pré-consciente e consciente.</p><p>29</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>d) inconsciente, subconsciente e consciente.</p><p>e) inconsciente, pré-consciente e consciente.</p><p>QUESTÃO 4</p><p>Ano: 2020 Banca: Instituto UniFil Órgão: Prefeitura de Sertaneja–</p><p>PR Prova: Psicólogo Nível: Superior</p><p>Sobre o Desenvolvimento da Personalidade, de acordo com a Teo-</p><p>ria Psicanalítica de Freud, analise as assertivas e assinale a alter-</p><p>nativa correta.</p><p>I. Não há nenhuma descontinuidade na vida mental. Cada evento</p><p>mental é causado pela intenção consciente ou inconsciente e é</p><p>determinado pelos fatos que o precederam.</p><p>II. O ego é uma das estruturas da personalidade sendo original-</p><p>mente criado pelo id na tentativa de enfrentar a necessidade de</p><p>reduzir a tensão e aumentar o prazer. Contudo, para fazer isto, o</p><p>ego, por sua vez, tem de controlar ou regular os impulsos do id de</p><p>modo que o indivíduo possa buscar soluções menos imediatas e</p><p>mais realistas.</p><p>III. O sonho é uma forma de satisfazer desejos que não foram ou</p><p>não podem ser realizados durante o dia. Os “resíduos diurnos”</p><p>que formam o conteúdo manifesto do sonho servem como estrutu-</p><p>ra do conteúdo latente ou dos desejos disfarçados.</p><p>IV. A formação reativa é um mecanismo de defesa, cujo recurso</p><p>configura em achar motivos aceitáveis para pensamentos e ações</p><p>inaceitáveis. É o processo através do qual uma pessoa apresenta</p><p>uma explicação que é ou logicamente consistente ou eticamente</p><p>aceitável para uma atitude, ação, ideia ou sentimento que emerge</p><p>de outras fontes motivadoras:</p><p>a) apenas I e II estão corretas.</p><p>b) apenas II e IV estão corretas.</p><p>c) apenas I, II e III estão corretas.</p><p>d) todas estão corretas.</p><p>QUESTÃO 5</p><p>Ano: 2019 Banca: CCV-UFC Órgão: UFC Prova: Psicólogo Clínico</p><p>Nível: Superior</p><p>Sobre o processo denominado de Complexo de Édipo, teorizado</p><p>pela Psicanálise, é correto afirmar que:</p><p>a) Pai e Mãe são funções, e não necessariamente os genitores da criança.</p><p>b) A teoria do Édipo foi abandonada por Freud ainda no início da Psica-</p><p>nálise.</p><p>c) O Pai cria o vínculo com a criança a partir de sua função biológica de</p><p>30</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>genitor.</p><p>d) O Édipo só acontece nos homens, as mulheres passam pelo Com-</p><p>plexo de Electra.</p><p>e) Quando a criança se distancia naturalmente da Mãe, a função pater-</p><p>na não precisa existir.</p><p>QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE</p><p>O sujeito para a psicanálise é dividido, e não pleno de verdade. Basea-</p><p>do nesta concepção e no que você estudou até aqui, como você poderia</p><p>definir o sujeito?</p><p>TREINO INÉDITO</p><p>De acordo com Santos (2013), desde a década de 1890, Freud já dava</p><p>importância à comunicação e à linguagem para a constituição do ser</p><p>humano e a construção do laço social. Desta forma, para o ser humano</p><p>é imprescindível a presença:</p><p>a) Da sexualidade</p><p>b) Do inconsciente</p><p>c) Do ego</p><p>d) Da consciência</p><p>e) Do outro</p><p>NA MÍDIA</p><p>A Pandemia, o vírus e a virada do mundo</p><p>Por: Marcos Antonio Ribeiro Morais</p><p>O psicanalista reflete, a partir da situação desnorteante que se desen-</p><p>cadeou no início do ano devido à pandemia vinculada à Covid-19, sobre</p><p>o sofrimento humano na atualidade, que já estava virado do avesso de-</p><p>vido às situações precárias que vimos enfrentando em nossa sociedade</p><p>como crises na saúde, na política, na economia e nas relações sociais.</p><p>Para o autor desta matéria: “Antes mesmo que irrompesse a atual pan-</p><p>demia viral, já estávamos arranjados e inscritos num modo de subje-</p><p>tividade e laço social que sinalizava importantes questões acerca do</p><p>mal-estar e sofrimento psíquico do sujeito na atualidade. Questões es-</p><p>sas articuladas em torno do vazio e da falta constitutiva, que inevitavel-</p><p>mente faz comparecer o sujeito desejante. Mas que também podem ser</p><p>traduzidas em diferentes formas de sofrimentos, desamparo, alteração</p><p>do humor, pânico, paranoia, ansiedade, compulsões, tédio e depressão,</p><p>entre outros”.</p><p>31</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Ele analisa essa crise na existência e a relação do sujeito com o ou-</p><p>tro, que já tinha a ver com os mal-entendidos, mas que se percebe em</p><p>posturas frente ao outro marcadas por ideologias, intolerâncias, discur-</p><p>sos negacionistas ou fundamentalistas. E defende que o sujeito entrou</p><p>numa nova ordem diante do Coronavírus, fazendo o mundo novamente</p><p>virar num instante, atribuindo à música de Chico Buarque, exigindo que</p><p>nos adaptássemos a novos espaços, novas formas de amar, de convi-</p><p>ver e de trabalhar imediatamente.</p><p>Faz constatar aos psicanalistas os ensinamentos freudianos: “Nosso</p><p>próprio corpo condenado a decadência; o mundo externo, com suas</p><p>forças de destruição esmagadoras e impiedosas e nossos relaciona-</p><p>mentos com os outros” (Freud, 1980, p. 95).</p><p>A matéria vai além e questiona o que o psicanalista pode fazer diante</p><p>dessa nova realidade, desse dito “novo normal”? Dentro do discurso</p><p>psicanalista de Lacan, ele aponta para uma prática possível.</p><p>Fonte: Jornal Opção</p><p>Data de publicação: 16/06/2020</p><p>Site: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/a-pan-</p><p>demia-o-virus-e-a-virada-do-mundo-261665/</p><p>NA PRÁTICA</p><p>A psicanálise freudiana surgiu a partir dos estudos dos sintomas histé-</p><p>ricos, sendo uma das principais pacientes de Freud aquela que ficou</p><p>conhecida como Dora, em seu artigo: Fragmento da análise de um caso</p><p>de histeria, publicado em 1905. O tratamento desta paciente foi curto e</p><p>considerado de certa forma fracassado pelo próprio analista, pois este</p><p>admite alguns equívocos. Psicanalistas apontam equívocos com rela-</p><p>ção às interpretações precipitadas sobre os reais desejos da paciente.</p><p>Freud, na época do atendimento de Dora (Ida Bauer), estava tentando</p><p>comprovar suas teorias sobre a interpretação dos sonhos, os mecanis-</p><p>mos de defesa e sobre a teoria da sexualidade. O caso apareceu como</p><p>uma forma de comprovar científica e clinicamente suas descobertas por</p><p>meio da associação livre e justificando o abandono da catarse e da hip-</p><p>nose como técnicas de tratamento.</p><p>Tomar o caso Dora para pensar o atendimento clínico da paciente his-</p><p>térica na prática é muito proveitoso e, por isso, uma leitura essencial. A</p><p>paciente traz em poucos meses dois sonhos que Freud interpretou. Ela</p><p>apresentava-se como uma jovem agradável e inteligente, mas também</p><p>diversos sintomas corporais. Em seus relatos, há o questionamento so-</p><p>bre o desejo feminino e o enigma psicanalítico: o que quer uma mulher?</p><p>https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/a-pandemia-o-virus-e-a-virada-do-mundo-261665/</p><p>https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/a-pandemia-o-virus-e-a-virada-do-mundo-261665/</p><p>32</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Além de servir para a discussão sobre o Complexo de Édipo no caso</p><p>feminino.</p><p>Descrevendo o caso clínico, em resumo, a paciente apresentava: enu-</p><p>rese noturna, cansaço por esforço físico, dispneia, enxaqueca, tosse</p><p>nervosa, afonia, repugnância, alucinação sensorial, rouquidão, apendi-</p><p>cite e paralisia de membro. Ou seja, o corpo era o palco onde sua neu-</p><p>rose ganhava expressão, onde percebemos claramente seu sofrimento</p><p>em vir a ser mulher.</p><p>Seus sintomas corporais são produzidos desde a infância em algumas</p><p>identificações com os sintomas da doença paterna (ele tinha sífilis, ad-</p><p>quirida antes do casamento). Ela sofre por excitação de ordem sexual e</p><p>identificação com a figura paterna.</p><p>A paciente é levada ao consultório pela família, pois apresenta uma</p><p>alteração de caráter,</p><p>relacionada ao relacionamento dos pais dela com</p><p>um outro casal. A história idílica e amorosa desta paciente gira em tor-</p><p>no desses dois casais: sua mãe e seu pai e o Sr. e a Sra. K. Podemos</p><p>considerar que Freud precipitou-se ao interpretar a excitação sexual de</p><p>Dora com relação ao senhor K. Por este, ela apresenta uma certa re-</p><p>pugnância, mas uma afeição bastante particular pela senhora K, que é</p><p>a amante de seu pai. Ao invés de se dedicar aos afazeres domésticos,</p><p>como exigia a sua mãe, a paciente gostava das relações sociais e de</p><p>atividades voltadas mais à intelectualidade, como a Sra. K.</p><p>Apesar do fracasso de Freud no tratamento de Ida (Dora), a descrição</p><p>do caso é muito rica em termos de correlação com os fundamentos da</p><p>teoria psicanalítica que ele criou, o que nos leva a refletir sobre nossa</p><p>prática quando nos encontramos diante de pacientes que apresentam</p><p>esses sintomas conversivos, riqueza de relatos e de material incons-</p><p>ciente, de modo que devemos privilegiar a releitura deste texto, con-</p><p>siderado até hoje como um dos mais importantes na obra freudiana.</p><p>Podemos tentar reconhecer o funcionamento do Complexo de Édipo e</p><p>como a relação com o outro pode estabelecer laços sociais e sofrimento</p><p>psíquico para um sujeito.</p><p>PARA SABER MAIS</p><p>Para ampliar seus conhecimentos no tema psicanálise e laço social,</p><p>sugerimos a leitura do livro:</p><p>COSTA-MOURA, F. (2009) Psicanálise e laço social. Rio de Janeiro:</p><p>7 Letras</p><p>33</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Podemos afirmar, a partir do que aprendemos até aqui, que</p><p>o psiquismo humano é bastante complexo, já que o ser humano é for-</p><p>mado por um corpo biológico (anatomofisiológico), no qual podem ser</p><p>identificados processos fisico-químicos atuando o tempo todo na ma-</p><p>nutenção da vida. Ainda assim, o sujeito não se resume a esse corpo</p><p>materializado, mas também é um ser constituído pela linguagem, uma</p><p>linguagem inigualável em comparação com as demais espécies vivas,</p><p>apresentando uma variedade infinita de significantes, pois a língua está</p><p>sempre em transformação. Uma linguagem que é aprendida na rela-</p><p>ção com o outro, e com as regras de uma determinada cultura. Ela é</p><p>responsável pelas representações e, junto com a capacidade de nosso</p><p>cérebro, a memória, por manter nossa história pessoal e cultural.</p><p>A psicanálise criada por Freud explica alguns determinantes</p><p>que levam à formação do sujeito e do laço social. Vamos ver agora</p><p>alguns destes conceitos à luz da releitura freudiana feita por Lacan.</p><p>SUJEITO DISCURSOS,</p><p>GOZO & LAÇO SOCIAL</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>34</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>Partimos da análise dos efeitos da linguagem no corpo correlacionadas</p><p>à escrita, por exemplo:</p><p>[...] o sujeito contemporâneo vem adotando diversas formas de escrita para</p><p>encontrar, na pluralidade crescente de significantes, a especificidade de seu</p><p>desejo e um sentido para seu gozo. Desta forma, tecemos considerações so-</p><p>bre a escrita no corpo, tão frequentemente encontrada na forma de tatuagens</p><p>e cortes, como maneiras possíveis e singulares de enlaçamento do sujeito ao</p><p>Outro, marcando uma forma possível de estabelecimento de laço social [...]</p><p>(MANSO; CALDAS, 2013, p. 110)</p><p>Apesar de haver diferenças entre a fala e a escrita, Lacan foca</p><p>na representação significante do sujeito. Em relação à linguagem é a</p><p>própria essência de fala do sujeito; no entanto, ela remete à pulsão que</p><p>está a serviço do gozo. Lacan aponta no Seminário 20 que esse signi-</p><p>ficante tem duas vertentes: o simbólico, que presta-se ao laço social,</p><p>e o campo do real, que é movido pelo inconsciente. Nesse sentido, o</p><p>significante é a causa do gozo (MANSO; CALDAS, 2013, p. 110).</p><p>Desde os primórdios dos estudos de Freud, o inconsciente tem</p><p>ligação com o conceito de corpo, representado pelos sintomas da neuro-</p><p>se e veiculando as formações do inconsciente, porém, Lacan avança nos</p><p>estudos sobre essa correlação, pois o inconsciente é parte censurada</p><p>de uma história, que já está escrita no sintoma, no estilo de vida. Lacan,</p><p>então, trabalha o conteúdo significante que envolve e liberta um sentido</p><p>aprisionado, mas ele reformula o conceito de real no Seminário 17.</p><p>De acordo com o discurso lacaniano, a dimensão do corpo pos-</p><p>sui três aspectos no campo da linguagem corporal: o corpo que goza,</p><p>fora da linguagem; o corpo do outro que, por meio da realidade social,</p><p>goza através da linguagem e o corpo do semelhante que não transita</p><p>pela representação sexual e só tem a função de regular as parcerias.</p><p>Na atualidade, o corpo tem sido tomado como um objeto de</p><p>desejo não só da ciência, como do sujeito. A reação psicossomática se</p><p>circunscreve neste espaço, como por exemplo a Síndrome do Pânico,</p><p>um sujeito que tem medo do seu corpo ser tomado pelo medo e nesse</p><p>estranhamento do que é familiar é onde mora a angústia, uma falta que</p><p>ela mesma anuncia.</p><p>Para a psicanálise, o corpo alimenta um ideal narcisista, como</p><p>no caso das cirurgias plásticas, numa tentativa de negar uma falta na-</p><p>tural de um corpo desejante, um ideal narcisista que vai de encontro à</p><p>nostalgia de integrar imagem e natureza como parte da mesma unida-</p><p>de, fato que retoma novamente ao laço social. A figura feminina, nesse</p><p>sentido, é um símbolo dessa incompletude anunciada no corpo, o peri-</p><p>go reside na eterna insatisfação que, agregada aos valores capitalistas,</p><p>35</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>inflige as exigências pulsionais e o supereu entra em um estado de ciclo</p><p>vicioso.</p><p>E tudo que envolve o corpo tem sua representatividade sin-</p><p>gular, num contexto cultural e sofre mutações conforme o laço social.</p><p>Um exemplo clássico é a tatuagem, um significante que poderia ser</p><p>uma tentativa de garantir uma escrita indelével, em tempos volúveis,</p><p>em que nada é estável, segundo Bauman (MANSO; CALDAS, 2013).</p><p>Ela demarca a unidade, dentro da diversidade e convoca o laço social</p><p>por meio da escrita, pois o significado está no olhar de quem lê, nesse</p><p>sentido, a tatuagem se aproxima do sintoma. Esse corpo é um corpo</p><p>social e também político.</p><p>Um jovem deu um exemplo da tatuagem conectada ao sintoma em sua deci-</p><p>fração ao relatar: “Minha primeira tatuagem foi a de um tubarão porque é um</p><p>animal solitário, que se vira sozinho, é guerreiro. Isso dizia muito de mim.”</p><p>Afirmação subjetiva que podemos revirar: solitário como todo sujeito, recebo</p><p>do Outro minha imagem invertida e a ela respondo sintomático tomando-a</p><p>no plano de uma idealização: da agressividade especular ao animal guer-</p><p>reiro; da solidão à autonomia daquele que se vira sozinho; do dizer autista</p><p>à tatuagem mais pública no meio do peito. Em outro caso, uma jovem e seu</p><p>parceiro tatuaram a palavra ‘família’ em caracteres orientais na promessa</p><p>de vir a construir uma. Ou ainda outro sujeito que se tatuou para marcar</p><p>para seus pais sua autonomia subjetiva, tatuando em seu corpo uma palavra:</p><p>‘determinação’. Além do texto herdado de seus pais, passou a escrever seu</p><p>próprio texto. Mas por que no corpo? Para nunca esquecer, pois se corre o</p><p>risco de não deixar vestígios, apagando-se os rastos na memória (MANSO;</p><p>CALDAS, 2013, p. 122).</p><p>No entendimento de Lacan sobre o Ideal do Eu que é Ideal do</p><p>Outro - I (A), a tatuagem serve bem a esse serviço, considerando que a</p><p>expressão de Ideal do Outro carrega uma identificação desse olhar do</p><p>Outro na direção do significante.</p><p>Considerando as questões abordadas sobre a tatuagem e as</p><p>cirurgias plásticas, há uma distinção sobre o Ideal do Outro e o Supe-</p><p>reu, o primeiro está a serviço da produção do sentido e ao desejo, e</p><p>ligado ao princípio do prazer. A inscrição da letra na pele está a serviço</p><p>da decifração e do sujeito, contribuindo para a construção do laço social</p><p>e da psique humana, o segundo está a serviço direto da pulsão e do</p><p>gozo e a escrita na pele, significante, coloca a margem para a pulsão,</p><p>fronteira para o gozo. Assim, o corpo, para Lacan, é um espaço de rein-</p><p>serção social, de reconstrução psíquica.</p><p>36</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>LACAN: O SUJEITO E O LAÇO SOCIAL</p><p>Quem nunca ouviu a frase: o inconsciente é estruturado como</p><p>linguagem? Ela foi proferida por Lacan (1964), retomando os estudos psi-</p><p>canalíticos de Freud para delimitar o objeto principal da psicanálise e seu</p><p>distanciamento do campo da Psicologia, afirmando o inconsciente (e a</p><p>linguagem), e não o eu (ego), como o lugar do sujeito na psicanálise.</p><p>O eu ou sujeito tanto para Freud quanto para Lacan não é total</p><p>ou absoluto como o é para Descartes. Ele é dividido, barrado, atrope-</p><p>lado por outro sujeito que lhe é estranho na sua consciência, e que se</p><p>caracteriza por uma lacuna, por um lugar sem sentido, sem reconheci-</p><p>mento. Lacan vai denominar esse lugar lacunar no próprio discurso do</p><p>sujeito como o lugar do Outro (com letra maiúscula ou o grande Outro),</p><p>do simbólico, onde se situa a cadeia significante e onde o sujeito apare-</p><p>ce. O que Lacan chama de outro em minúsculo são os outros sujeitos,</p><p>indivíduos, semelhantes, segundo Garcia-Roza (2013).</p><p>Pensando no aparelho psíquico descrito por Freud (Id, Ego e</p><p>Superego), o Outro não é uma instância psíquica, mas é a própria or-</p><p>dem simbólica constituída pela linguagem e composta por elementos</p><p>significantes formadores do inconsciente. O Ego, então, é uma imagem</p><p>que o sujeito tem de si mesmo, uma representação, e se manifesta</p><p>como defesa e produz desconhecimento. O eu não deve se confundir</p><p>com o ego, que é um termo verbal que se refere ao outro na materiali-</p><p>zação do discurso, enquanto o ego aparece anteriormente ao discurso</p><p>no plano imaginário.</p><p>Lacan descreveu a concepção do eu através de uma alegoria</p><p>que denominou estágio do espelho, uma fase entre 6 a 18 meses de</p><p>idade em que a criança forma uma representação de sua unidade cor-</p><p>poral a partir da identificação da imagem do outro. Na alegoria criada</p><p>por Lacan, imagina-se uma criança diante do espelho, que começa a</p><p>representar mentalmente uma imagem para si mesmo (primeiro esboço</p><p>do ego), uma demarcação dos limites do seu próprio corpo, uma ima-</p><p>gem gestáltica. Lacan diz que esse Ego é especular e que só se cons-</p><p>tituirá como sujeito quando este passar da representação imaginária ao</p><p>campo simbólico através da linguagem. O eu especular corresponde ao</p><p>que Freud denominou narcisismo primário.</p><p>Para Lacan, a relação imaginária é dual, uma relação entre o</p><p>interior e o exterior. Segundo Garcia-Roza (2013), por não haver ainda</p><p>a mediação da linguagem, o ser procura a realidade de si na imagem</p><p>do outro, com o qual vai se identificar ou alienar, esse outro primeiro é</p><p>o lugar da mãe, que Lacan delimita através do a minúsculo. Vale deixar</p><p>37</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>claro que o lugar materno não deve ser identificado com a mãe real e</p><p>que as fases não são fixas, pois a criança é falada pelo outro muito an-</p><p>tes de apreender a linguagem: ele é nomeado, é paparicado, acariciado</p><p>com palavras mesmo dentro da barriga da mãe.</p><p>Assim, para Lacan, o sujeito tem 3 registros: o imaginário, o</p><p>simbólico e o real. Sendo o imaginário essa fase de idealização/aliena-</p><p>ção, o simbólico é determinado pela linguagem e pela cultura, é a Lei</p><p>(ordem), o que distingue, por fim, o ser humano do resto dos animais e</p><p>que funda o inconsciente; e o real é tudo o que é barrado, tudo que é</p><p>impossível de ser definido, pois não tem expressão simbólica, apesar</p><p>de poder ser apreendido por intermediação do simbólico.</p><p>Mas, para Lacan, o que promove essa relação dual do imagi-</p><p>nário é a indistinção entre si mesmo e o outro, esse corpo no processo</p><p>de distinção de outro corpo não é o biológico, é um corpo imaginário,</p><p>demarcado pelas “inscrições maternas”; por isso, Lacan afirma que o</p><p>desejo na relação imaginária é o desejo do outro. O que rompe a re-</p><p>lação dual também é a inscrição materna através da linguagem, o in-</p><p>gresso na cultura, na ordem das trocas simbólicas, a entrada do pai em</p><p>cena, ou seja, entrada de um terceiro elemento na relação dual, que</p><p>entendemos como o momento do Édipo.</p><p>O momento do Édipo na psicanálise lacaniana é justamente</p><p>um ponto em que ocorre a passagem do imaginário para o simbólico</p><p>e a divisão (clivagem) dos sistemas Inconsciente X Pré-consciente/</p><p>Consciente. Retomando a questão antropológica trabalhada por Freud,</p><p>a passagem da instância natural à cultural é marcada por um interdito.</p><p>Garcia-Roza (2013) cita Levi Strauss, afirmando que o natural é o uni-</p><p>versal e que o cultural são os costumes, as técnicas, as instituições,</p><p>sendo a passagem do indivíduo do mundo natural para o cultural situa-</p><p>da universalmente no campo social, na proibição do incesto.</p><p>O interdito marcado pela proibição do incesto está na barreira</p><p>à relação de consanguinidade e defesa da relação de aliança. O com-</p><p>plexo de Édipo vai, portanto, constituir o homem (indivíduo) como um</p><p>ser social sob: do incesto em relação à individuação daquilo que é um</p><p>constituinte social e do Édipo uma interdição ao desejo. Lacan vai fazer</p><p>essa diferença de Complexo de Édipo e Lei instaurada a partir do Com-</p><p>plexo de Édipo.</p><p>Percebendo a complexidade da proposta freudiana sobre o</p><p>Complexo de Édipo, principalmente levando em consideração as simi-</p><p>laridades e as diferenças demarcadas no fenômeno entre os meninos e</p><p>as meninas, Lacan vai propor três tempos para o Complexo de Édipo: o</p><p>primeiro marcado pela relação dual com a mãe (imaginário); o segundo</p><p>pela entrada do pai em cena (simbólico) e o terceiro caracterizado por</p><p>38</p><p>P</p><p>SI</p><p>C</p><p>A</p><p>N</p><p>Á</p><p>LI</p><p>SE</p><p>E</p><p>L</p><p>A</p><p>Ç</p><p>O</p><p>S</p><p>O</p><p>C</p><p>IA</p><p>L</p><p>-</p><p>G</p><p>R</p><p>U</p><p>P</p><p>O</p><p>P</p><p>R</p><p>O</p><p>M</p><p>IN</p><p>A</p><p>S</p><p>uma identificação com o pai, iniciando o declínio do Édipo.</p><p>Assim como a mãe, não estamos falando do pai real, o pai na</p><p>fase da relação dual (imaginária) funciona como um espelho, como a</p><p>mãe. No primeiro tempo do Édipo, a relação da criança – mãe é mar-</p><p>cada pela falta (falo), na incompletude fundamental do sujeito, que o</p><p>joga em uma busca infindável, e movimenta o desejo. Nas sociedades</p><p>ocidentais, o falo representa poder, ninguém o possui. O falo é um sím-</p><p>bolo para preencher o vazio e organizar as relações entre os sexos. O</p><p>pênis é o eleito, para homens e mulheres, como símbolo que preenche</p><p>a falta, ou qualquer outra coisa que preencha a falta no nível imaginário.</p><p>No primeiro tempo do Édipo, a criança quer se colocar enquanto objeto</p><p>fálico, enquanto desejo da mãe.</p><p>Mas o falo tem uma dupla concepção, segundo Garcia-Roza</p><p>(2013). Ele pode ser vivido pelo sujeito como substituição de um objeto</p><p>que sirva imaginariamente para tamponar a falta, mas também é o signi-</p><p>ficante (dentro da teoria lacaniana) articulador do Édipo, e esse falo não</p><p>pode ser representado pela linguagem, ele estrutura o Édipo.</p><p>O pai entra na relação dual da mãe – criança para demarcar o</p><p>segundo momento do Édipo, com o advento do simbólico, e vem inter-</p><p>vir, privar tanto a criança quanto a mãe. Ele é o pai poderoso, violento e</p><p>ciumento do Totem e Tabu, que quer ter todas as fêmeas apenas para</p><p>si. Lacan define esse pai totêmico como duplamente privador, pois priva</p><p>a criança de se colocar enquanto objeto do desejo materno e a mãe de</p><p>seu objeto fálico.</p><p>Essa privação permite que a criança supere a perfeição narcí-</p><p>sica, segundo a Lei do Pai (metáfora paterna, Nome do Pai) presente</p><p>no discurso da mãe que o reconhece como homem e também como</p><p>representante da Lei (reguladora do desejo e da civilização). O desejo é</p><p>nomeado, simbolizado, e ao fazer isso, o Nome do Pai produz ao mes-</p><p>mo tempo a clivagem subjetiva e a castração, o recalque do desejo de</p><p>união com a mãe. A castração é simbólica, pois não se refere ao pênis,</p><p>mas ao falo (imaginário). A mãe deixa de ser para a criança o falo, e o</p><p>pai (Lei) é posto nesse lugar, pois interdita e desloca o desejo</p>

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