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O Inconsciente em Cena: Uma Leitura Psicanalítica das Relações em Espaços Públicos A observação de casais heterossexuais em locais públicos, sob a ótica da Psicanálise, que foi a teoria escolhida para esse trabalho, oferece um rico material para refletir sobre as dinâmicas inconscientes que moldam os laços afetivos e como a cultura, o inconsciente e os desejos se manifestam no palco social. O espaço público não é apenas um cenário, mas um vetor de pressão e um espelho onde a intimidade do par se expõe e é reconfigurada pelo olhar do Outro. As diferenças físicas e etárias no casal com a esposa mais alta que o marido e o marido bem mais velho que a esposa, acabam desafiando os ideias sociais e a estrutura patriarcal arraigada no inconsciente cultural. A preferencia social por homens mais altos simboliza na cultura patriarcal, uma posição de domínio e proteção, mas quando esse padrão se inverte (a mulher mais alta), pode haver uma tensão implícita entre a realidade do casal e o ideal de masculinidade/feminilidade internalizado. A atração por um parceiro que subverte essa regra pode remeter a questões de identificação e desejo que se desviam de uma norma edípica tradicional ou a busca por um equilíbrio de poder menos convencional segundo a psicanalise. O casal, ao se mostrar em publico, pode estar tanto afirmando sua indiferença as convenções quanto sentindo, ainda que inconscientemente, o peso do julgamento alheio (Lacan, 1964; 1985), que tenta restituir a ordem simbólica. Já a diferença de idade onde o marido e bem mais velho que a esposa, pode evocar , em um plano inconsciente, a figura do Pai ou do provedor, remetendo a questão do Complexo de Edipo (Freud, 1913; 1976). Para a mulher mais jovem, a atração pode estar ligada a busca de segurança, experiencia ou proteção (o pai idealizado). Já para o homem, a parceira mais jovem pode representar uma busca pela vitalidade ou uma tentativa de negação do envelhecimento. Embora nem toda relação com grande diferença de idade é motivada pelo complexo de édipo, a psicanalise observa como as diferenças geracionais podem tonar-se pontos de atrito qu exigem uma constante negociação entre os parceiros para manter o vinculo. A cena em que o marido acompanha a esposa nas compras e opina sobre suas escolhas, especialmente em itens ligados à aparência pode ser compreendida como expressão de pactos inconscientes que estruturam a conjugalidade. Segundo Féres-Carneiro (1998), os vínculos conjugais são sustentados por alianças que envolvem expectativas, investimentos e negociações silenciosas, muitas vezes atravessadas por assimetrias de poder. Quando a participação do marido se torna constante e diretiva, ultrapassando o limite da colaboração, pode revelar uma dinâmica de controle que se disfarça de cuidado. Pignataro (2009) aponta que, em muitos casais, há uma lógica de “troca” inconsciente: o investimento afetivo de um parceiro pode vir acompanhado da expectativa de retorno, como submissão ou validação. Nesse contexto, o gesto de “ajudar” nas compras pode carregar a exigência implícita de que a esposa se molde aos desejos do marido, seja na estética, seja na funcionalidade do lar. Mello (2008) observa que, em relações marcadas por pactos patriarcais, a mulher pode ser vista como uma extensão do homem, devendo representar seus valores e reforçar sua imagem social. A escolha de roupas, objetos ou estilos pode, então, deixar de ser uma expressão individual da mulher e passar a ser um campo de disputa simbólica, onde o homem exerce seu poder de decisão. O ato de um casal ir a shows musicais, nos faz pensar que a musica age como um poderoso mediador da emoção e do vinculo do casal, atingindo diretamente o inconsciente. A psicanalise ve a musica como uma forma de sublimação (Freud, 1930; 1976), canalizando pulsões e desejos em uma atividade culturalmente valorizada. A esperiencia compartilhada entre o casal num show, evoca memorias, fantasias e emoções profundas, intensificando o campo afetivo. A identificaão com as letra e melodias pode dar voz a sentimentos que o casal não consegue verbalizar, fortalecendo a sensação de intimidade e cumplicidade. O comportamento de casais que permanecem conectados ao celular durante uma refeição em público exemplifica como as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) passaram a ocupar o lugar de um “terceiro elemento” na dinâmica conjugal. Féres-Carneiro (1998) aponta que os vínculos afetivos são sustentados por pactos inconscientes que podem ser desestabilizados por interferências externas, como o uso excessivo de dispositivos tecnológicos. O celular, nesse contexto, pode funcionar como um mecanismo de defesa ou de evitação da interação face a face. Ao disputar a atenção do parceiro, ele introduz uma triangulação relacional, desviando o foco da intimidade conjugal para o universo virtual. Essa triangulação pode ser interpretada como uma tentativa inconsciente de preencher o vazio gerado pelo silêncio, pelo tédio ou pela dificuldade de comunicação no casal (FÉRES-CARNEIRO, 1998). Casais que não saem do celular durante uma refeição, introduzem um “terceiro elemento” na relação, o qual disputa o foco de atenção do parceiro. Sob a ótica da Psicanálise Vincular, o cellular pode ser visto como forma de evitação de iinteração face a face, preenchendo o “vazio” na conjugalidade ou atuando como um mecanismo de triangulação para lidar com o estresse (Berenstein & Puget, 1997 - em estudos da lógica vincular contemporânea). A desatenção é uma exposição de desvalorização do parceiro real pelo virtual. Quanto ao machismo no mundo corporativo podemos dizer que é uma manifestação do patriarcado estrutural, onde a busca por poder e domínio é sustentada por uma ideologia de superioridade masculina A posição ocupada pela esposa de um executivo frequentemente a insere em uma zona ambígua de privilégio e restrição. Espera-se que ela desempenhe o papel de suporte incondicional e mantenedora da imagem social do marido, atuando como “curadora da vida doméstica” e “acompanhante ideal”. Essa expectativa social, ao exigir a identificação com o sucesso do esposo, pode implicar o silenciamento do próprio sujeito desejante da mulher. Sob a perspectiva da Psicanálise, especialmente na leitura lacaniana do desejo e da função do Outro, esse apagamento subjetivo pode ser compreendido como uma renúncia simbólica em prol da manutenção do laço conjugal e da imagem pública. Lacan (1960; 1998) aponta que o desejo do sujeito é sempre estruturado em relação ao desejo do Outro, e, nesse contexto, a mulher pode ser levada a ocupar um lugar de representação, mais do que de expressão. A vertente crítica e feminista da Psicanálise busca desnaturalizar essa estrutura de dominação, revelando como os papéis de gênero são sustentados por pactos inconscientes e reforçados por expectativas sociais que limitam a autonomia feminina no espaço conjugal. Em última análise, a observação pública desses casais serve como um convite à reflexão: o que é revelado no comportamento explícito (altura, idade, uso do celular, opinião) é apenas a ponta do iceberg dos desejos inconscientes, dos conflitos de poder e das estruturas culturais que negociam, a cada instante, o frágil e complexo vínculo afetivo entre dois sujeitos. 📚 Referências (ABNT) · FÉRES-CARNEIRO, Terezinha. Casal e família: permanências e mudanças. Rio de Janeiro: NAU Editora, 1998. · MELLO, Renata. A constituição da conjugalidade: pactos inconscientes e alianças familiares. Pensando Famílias, v. 12, n. 1, p. 49–60, 2008. · PIGNATARO, Marina Beatriz. A escolha amorosa e os investimentos inconscientes na constituição da conjugalidade. 2009. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009. · BERENSTEIN, Benjamin; PUGET, Janine. A lógica do vínculo: clínica e teoria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. · · LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. · LACAN, Jacques. Subversão do sujeitoe dialética do desejo no inconsciente freudiano. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 807–842. (Texto original de 1960). · · O Inconsciente em Cena: Uma Leitura Psicanalítica das Relações em Espaços Públicos A observação de casais heterossexuais em locais públicos, sob a ótica da Psicanálise, que foi a teoria escolhida para esse trabalho, oferece um rico material para refletir sobre as dinâmicas inconscientes que moldam os laços afetivos e como a cultura, o inconsciente e os desejos se manifestam no palco social. O espaço público não é apenas um cenário, mas um vetor de pressão e um espelho onde a intimidade do par se expõe e é reconfigurada pelo olhar do Outro. As diferenças físicas e etárias no casal com a esposa mais alta que o marido e o marido bem mais velho que a esposa, acabam desafiando os ideias sociais e a estrutura patriarcal arraigada no inconsciente cultural. A preferência social por homens mais altos simboliza, na cultura patriarcal, uma posição de domínio e proteção, mas quando esse padrão se inverte (a mulher mais alta), pode haver uma tensão implícita entre a realidade do casal e o ideal de masculinidade/feminilidade internalizado. A atração por um parceiro que subverte essa regra pode remeter a questões de identificação e desejo que se desviam de uma norma edípica tradicional ou a busca por um equilíbrio de poder menos convencional, segundo a psicanálise. O casal, ao se mostrar em público, pode estar tanto afirmando sua indiferença às convenções quanto sentindo, ainda que inconscientemente, o peso do julgamento alheio (LACAN, 1964; 1998), que tenta restituir a ordem simbólica. Já a diferença de idade, onde o marido é bem mais velho que a esposa, pode evocar, em um plano inconsciente, a figura do Pai ou do provedor, remetendo à questão do Complexo de Édipo (FREUD, 1913; 1976). Para a mulher mais jovem, a atração pode estar ligada à busca de segurança, experiência ou proteção (o pai idealizado). Já para o homem, a parceira mais jovem pode representar uma busca pela vitalidade ou uma tentativa de negação do envelhecimento. Embora nem toda relação com grande diferença de idade seja motivada pelo complexo de Édipo, a psicanálise observa como as diferenças geracionais podem tornar-se pontos de atrito que exigem uma constante negociação entre os parceiros para manter o vínculo. A cena em que o marido acompanha a esposa nas compras e opina sobre suas escolhas, especialmente em itens ligados à aparência, pode ser compreendida como expressão de pactos inconscientes que estruturam a conjugalidade. Segundo Féres-Carneiro (1998), os vínculos conjugais são sustentados por alianças que envolvem expectativas, investimentos e negociações silenciosas, muitas vezes atravessadas por assimetrias de poder. Quando a participação do marido se torna constante e diretiva, ultrapassando o limite da colaboração, pode revelar uma dinâmica de controle que se disfarça de cuidado. Pignataro (2009) aponta que, em muitos casais, há uma lógica de "troca" inconsciente: o investimento afetivo de um parceiro pode vir acompanhado da expectativa de retorno, como submissão ou validação. Nesse contexto, o gesto de "ajudar" nas compras pode carregar a exigência implícita de que a esposa se molde aos desejos do marido, seja na estética, seja na funcionalidade do lar. Mello (2008) observa que, em relações marcadas por pactos patriarcais, a mulher pode ser vista como uma extensão do homem, devendo representar seus valores e reforçar sua imagem social. A escolha de roupas, objetos ou estilos pode, então, deixar de ser uma expressão individual da mulher e passar a ser um campo de disputa simbólica, onde o homem exerce seu poder de decisão. O ato de um casal ir a shows musicais nos faz pensar que a música age como um poderoso mediador da emoção e do vínculo do casal, atingindo diretamente o inconsciente. A psicanálise vê a música como uma forma de sublimação (FREUD, 1930; 1976), canalizando pulsões e desejos em uma atividade culturalmente valorizada. A experiência compartilhada entre o casal num show evoca memórias, fantasias e emoções profundas, intensificando o campo afetivo. A identificação com as letras e melodias pode dar voz a sentimentos que o casal não consegue verbalizar, fortalecendo a sensação de intimidade e cumplicidade. O comportamento de casais que permanecem conectados ao celular durante uma refeição em público exemplifica como as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) passaram a ocupar o lugar de um "terceiro elemento" na dinâmica conjugal. Féres-Carneiro (1998) aponta que os vínculos afetivos são sustentados por pactos inconscientes que podem ser desestabilizados por interferências externas, como o uso excessivo de dispositivos tecnológicos. O celular, nesse contexto, pode funcionar como um mecanismo de defesa ou de evitação da interação face a face. Ao disputar a atenção do parceiro, ele introduz uma triangulação relacional, desviando o foco da intimidade conjugal para o universo virtual. Essa triangulação pode ser interpretada como uma tentativa inconsciente de preencher o vazio gerado pelo silêncio, pelo tédio ou pela dificuldade de comunicação no casal (FÉRES-CARNEIRO, 1998). Casais que não saem do celular durante uma refeição introduzem um "terceiro elemento" na relação, o qual disputa o foco de atenção do parceiro. Sob a ótica da Psicanálise Vincular, o celular pode ser visto como forma de evitação de interação face a face, preenchendo o "vazio" na conjugalidade ou atuando como um mecanismo de triangulação para lidar com o estresse (BERENSTEIN; PUGET, 1997). A desatenção é uma exposição de desvalorização do parceiro real pelo virtual. Quanto ao machismo no mundo corporativo, podemos dizer que é uma manifestação do patriarcado estrutural, onde a busca por poder e domínio é sustentada por uma ideologia de superioridade masculina. A posição ocupada pela esposa de um executivo frequentemente a insere em uma zona ambígua de privilégio e restrição. Espera-se que ela desempenhe o papel de suporte incondicional e mantenedora da imagem social do marido, atuando como "curadora da vida doméstica" e "acompanhante ideal". Essa expectativa social, ao exigir a identificação com o sucesso do esposo, pode implicar o silenciamento do próprio sujeito desejante da mulher. Sob a perspectiva da Psicanálise, especialmente na leitura lacaniana do desejo e da função do Outro, esse apagamento subjetivo pode ser compreendido como uma renúncia simbólica em prol da manutenção do laço conjugal e da imagem pública. Lacan (1960; 1998) aponta que o desejo do sujeito é sempre estruturado em relação ao desejo do Outro, e, nesse contexto, a mulher pode ser levada a ocupar um lugar de representação, mais do que de expressão. A vertente crítica e feminista da Psicanálise busca desnaturalizar essa estrutura de dominação, revelando como os papéis de gênero são sustentados por pactos inconscientes e reforçados por expectativas sociais que limitam a autonomia feminina no espaço conjugal. Em última análise, a observação pública desses casais serve como um convite à reflexão: o que é revelado no comportamento explícito (altura, idade, uso do celular, opinião) é apenas a ponta do iceberg dos desejos inconscientes, dos conflitos de poder e das estruturas culturais que negociam, a cada instante, o frágil e complexo vínculo afetivo entre dois sujeitos. Referências BERENSTEIN, B.; PUGET, J. A lógica do vínculo: clínica e teoria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. FÉRES-CARNEIRO, T. Casal e família: permanências e mudanças. Rio de Janeiro: NAU Editora, 1998. FREUD, S. O mal-estar na civilização. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 21. (Trabalho original publicado em 1930). FREUD, S. Totem e tabu. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. 13. (Trabalho original publicado em 1913). LACAN, J. O seminário,livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. (Seminário original de 1964). LACAN, J. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano. In: LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p. 807–842. (Trabalho original publicado em 1960). MELLO, R. A constituição da conjugalidade: pactos inconscientes e alianças familiares. Pensando Famílias, [S. l.], v. 12, n. 1, p. 49–60, 2008. PIGNATARO, M. B. A escolha amorosa e os investimentos inconscientes na constituição da conjugalidade. 2009. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2009.