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<p>FILOSOFIA</p><p>GERAL E</p><p>JURÍDICA</p><p>Cássio Vinícius Steiner de Sousa</p><p>Filosofia do Direito</p><p>na Antiguidade</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:</p><p>� Apontar a importância do estudo da filosofia grega para a compre-</p><p>ensão do Direito.</p><p>� Explanar como as teorias de Sócrates, Platão e Aristóteles são impor-</p><p>tantes para o estudo do Direito.</p><p>� Explicar o objeto e método da filosofia.</p><p>Introdução</p><p>Somos herdeiros daquilo que pode ser chamado de “a aposta grega” —</p><p>a ideia de que existe o bem, o belo, o justo e a verdade, e de que somos</p><p>capazes de conhecê-los. Essa aposta, que ecoa ainda nos dias de hoje,</p><p>foi concebida pelo esforço conjunto de grandes filósofos como Sócra-</p><p>tes, Platão e Aristóteles. Ela foi a mola propulsora que nos mobilizou em</p><p>direção a novos horizontes, preenchendo a lacuna deixada pelos mitos</p><p>e determinando as bases para o desenvolvimento cultural, científico e</p><p>tecnológico da humanidade.</p><p>Neste capítulo, você aprenderá sobre o marco fundamental da filosofia</p><p>do Direito na Antiguidade grega, algumas das ideias centrais de Sócrates,</p><p>Platão e Aristóteles, e um pouco sobre o objeto e método em filosofia.</p><p>A superação dos mitos e o problema</p><p>da justificação das normas jurídicas</p><p>Existem pelo menos duas razões que justificam a importância do estudo da</p><p>filosofia grega para a compreensão do Direito. Em primeiro lugar, é no contexto</p><p>da filosofia antiga que surgem as primeiras respostas para perguntas como “o</p><p>que é o Direito?”, “no que o Direito se fundamenta?” e “qual é a finalidade</p><p>do Direito?”. Em segundo lugar, os responsáveis pela própria formulação de</p><p>tais questionamentos são justamente os filósofos gregos. Assim, na medida</p><p>em que foram eles que estabeleceram as bases do debate, não seria exagero</p><p>afirmar que toda a história da filosofia do Direito não passa de uma reação</p><p>aos questionamentos levantados e às respostas oferecidas por filósofos como</p><p>Sócrates, Platão e Aristóteles. Para que você possa avaliar melhor tanto as</p><p>respostas quanto os questionamentos levantados pelos antigos acerca do</p><p>Direito, propomos uma pequena reflexão acerca do contexto histórico do seu</p><p>surgimento — a crise da visão mitológica da realidade.</p><p>Embora seja impossível saber de modo incontestável e definitivo se o</p><p>surgimento da filosofia é consequência do abandono dos mitos ou a sua pró-</p><p>pria causa, é inegável que há uma relação íntima entre ambos. São muitos os</p><p>fatores que marcam o declínio de uma concepção mitológica da realidade e o</p><p>surgimento da filosofia na Grécia Antiga. Entre eles, um dos mais importantes</p><p>é o surgimento da política nas pólis gregas (termo utilizado para denominar</p><p>cidades-Estado como Atenas). Tais pólis eram organizadas com base em uma</p><p>série de leis ou normas, fruto do debate entre os cidadãos que a compunham.</p><p>Assim, o discurso mitológico, embasado na revelação de conjunto, dado de</p><p>dogmas estáveis e inquestionáveis, passou a dar lugar para o discurso dos</p><p>cidadãos no interior da pólis. Este que, por sua vez, caracterizava-se por</p><p>crescente abandono dos dogmas, certa instabilidade social e confronto de</p><p>opiniões divergentes acerca do conteúdo das leis.</p><p>Dito isso, convidamos você a se imaginar um cidadão ateniense do século</p><p>VI a.C. Suponha que não possa justificar mais as suas crenças, opiniões e</p><p>propostas de lei com base nos antigos mitos. Além disso, suponha que você</p><p>precise convencer aqueles que acreditam piamente nos deuses do Olimpo e</p><p>nas velhas histórias contadas por Homero de que os deuses nunca existiram</p><p>e tais histórias não passam lendas. Como você procederia?</p><p>Talvez, em um primeiro momento, você pudesse pensar que a solução</p><p>do problema repousa na arte da retórica — tal qual fizeram os sofistas.</p><p>Procuraria, assim, uma série de frases de efeito com palavras bonitas.</p><p>Tentaria distorcer ou desvalorizar as ideias dos adversários. Agora, di-</p><p>gamos que você tenha sido bem-sucedido, que tenha vencido o debate. O</p><p>problema é que, em um segundo momento, mesmo depois de convencer</p><p>todos os seus concidadãos, você ainda precisaria ser capaz de convencer a</p><p>si mesmo. Pois se é verdade que a retórica é um ótimo instrumento quando</p><p>queremos persuadir os outros de nossas opiniões, ela não é de grande valia</p><p>quando precisamos justificá-las para nós mesmos. É por isso que Sócrates</p><p>não prega a máxima “persuade-te a ti mesmo”, mas sim a ideia da busca</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade2</p><p>pelo autoconhecimento, e que, na mesma linha, Aristóteles não afirma que</p><p>todo ser humano deseja, por natureza, convencer, mas que, ao contrário,</p><p>desejamos o conhecimento.</p><p>Com o crescente abandono do paradigma mitológico como fundamento</p><p>e justificação da realidade, surge justamente o problema de como entender o</p><p>mundo a despeito de explicações fantasiosas, fantásticas e ficcionais. É na busca</p><p>por novos horizontes de explicação que aparece a necessidade de se recorrer</p><p>à razão, à lógica e à experimentação — marco inicial da reflexão filosófica.</p><p>Nesse contexto, perguntas como “qual é a origem do universo (kosmos)?”,</p><p>“quais são os princípios que regem e governam a natureza (physis)?” e “qual</p><p>é a função (ergon) do homem?” começam a demandar novas explicações ou</p><p>pontos de ancoragem.</p><p>Nesse mesmo momento, no que concerne especificamente à filosofia do</p><p>Direito, há a passagem de uma estrutura social estabilizada pela crença em</p><p>uma ordem dada por um panteão de deuses olimpianos para a ideia de que são</p><p>os próprios homens que, responsáveis pela manutenção da ordem social, criam</p><p>as suas leis e se autogovernam — o que gera, por sua vez, um problema para</p><p>a justificação da validade das normas. Se as leis não são dadas (de cima para</p><p>baixo) por uma ordem superior de deuses imortais, mas são positivadas ou</p><p>construídas por humanos (imperfeitos, falíveis, meros mortais), como garantir</p><p>a aceitação geral e qualidade delas? Haveria algum critério suficientemente</p><p>poderoso para fundamentar a validade de leis criadas por mortais para mortais?</p><p>Como distinguir uma norma justa de uma injusta?</p><p>Ainda na época das narrativas de Homero (Ilíada e Odisseia), o Direito</p><p>era representado por Themis. Segundo os mitos gregos, essa divindade seria</p><p>responsável por legar ao homem (com base na autoridade e na força) as normas</p><p>e garantir a ordem social no mundo grego. Posteriormente, a vinculação do</p><p>Direito com Themis deu lugar à ideia de que as normas estavam mais ligadas</p><p>ao comprimento dos desígnios da justiça — representada pela deusa Dike.</p><p>Assim, mesmo que o Direito ainda não fosse considerado a despeito dos mitos,</p><p>é importante que você tenha em mente a passagem que vai de Themis até Dike,</p><p>pois ela marca a mudança do paradigma do Direito fundado na autoridade</p><p>para um de Direito mais ligado à concretização da justiça.</p><p>Embora os maiores avanços na área de filosofia do Direito tenham ocorrido</p><p>na fase socrática, é digno de nota a contribuição dos filósofos pré-socráticos</p><p>na superação da visão mitológica de realidade. Nesse período, a preocupação</p><p>central repousava sobretudo em questões de ordem cosmológica. Isto é, o</p><p>interesse dos pré-socráticos consistia em compreender o cosmos e a natureza</p><p>— a sua existência, origem, causas e os seus princípios fundamentais.</p><p>3Filosofia do Direito na Antiguidade</p><p>A própria ideia de que os mitos surgem como um modo de explicar a realidade só</p><p>surge com o advento da filosofia, pois é no contexto da reflexão filosófica que o próprio</p><p>caráter mitológico dos mitos se revela (como uma explicação de mundo ingênua e</p><p>sem bases na realidade). Afinal de contas, se hoje consideramos os mitos como algo</p><p>fantástico e ficcional, isso se deve ao fato de os primeiros filósofos pré-socráticos</p><p>atribuírem tais características aos mitos.</p><p>Já na fase socrática houve uma passagem das reflexões cosmológicas para</p><p>a questão sobre o homem no cosmos. Nesse momento, o homem passou a</p><p>ser definido em função da necessidade de viver em sociedade, criando as</p><p>próprias normas de convivência. Isto é, a pólis e as normas que</p><p>os homens</p><p>criavam para a reger não eram tratadas como algo artificial ou antinatural,</p><p>mas como algo que faz parte da própria natureza do homem. É com isso</p><p>em mente que temos, por exemplo, a caracterização aristotélica do homem</p><p>como um animal político (zoon politikon), pois é por natureza que o homem</p><p>se organiza socialmente (em torno das pólis), constituindo as suas próprias</p><p>normas de convívio. Além disso, essas regras deveriam espelhar ou estar em</p><p>harmonia com as regras que regem o cosmos. Agora, se isso garante a acei-</p><p>tação e a validade das normas, resta entender qual é o critério utilizado para</p><p>avaliar se uma norma espelha ou não o cosmos. Qual foi o critério utilizado</p><p>pelos filósofos antigos para distinguir a justiça ou injustiça das normas?</p><p>Nesse período, a noção de justiça (Dike) ligada à mitologia é substituída</p><p>por uma noção fundada em preceitos éticos. É da essência do homem agir,</p><p>segundo critérios racionais, tendo em vista certos fins.</p><p>A ética é a disciplina que trata da capacidade de avaliar e discernir, na ação humana, o</p><p>correto e o incorreto, o justo e o injusto. Por sua vez, a justiça é considerada uma virtude</p><p>que deve ser cultivada pelo hábito. Assim, do mesmo modo que o corajoso é aquele</p><p>que se acostuma a praticar atos de coragem, o justo é aquele que educou o seu caráter</p><p>para agir com justiça e criar leis justas. Em função disso, torna-se possível fundamentar</p><p>na ética das virtudes o critério de avaliação da qualidade das leis, garantindo assim</p><p>um horizonte para a sua elaboração pelos cidadãos/políticos.</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade4</p><p>A título de conclusão parcial, é possível compreender que os gregos, a</p><p>propósito das questões sobre fundamento de validade e do critério de cor-</p><p>reção das normas jurídicas, entendiam que, de um lado, as normas jurídicas</p><p>deveriam estar em harmonia com os princípios gerais que regem o universo</p><p>e a natureza, e, de outro, que uma norma jurídica é boa ou justa se, e somente</p><p>se, vai ao encontro de preceitos éticos ligados à virtude.</p><p>Os três grandes filósofos da Antiguidade</p><p>As ideias filosóficas de Sócrates, Platão e Aristóteles são a base e o ponto de</p><p>partida da reflexão sobre Direito. Até os dias de hoje suas ideias inspiram e</p><p>instruem juristas e filósofos do Direito a pensar com seriedade e rigor sobre</p><p>os diversos questionamentos que eles nos legaram. Quanto a isso, convido-o</p><p>a conhecer algumas de suas muitas ideias.</p><p>Figura 1. Os três grandes filósofos da Antiguidade: Sócrates, Platão e</p><p>Aristóteles.</p><p>Fonte: Imagens de domínio público.</p><p>Sócrates</p><p>Sócrates, que acreditava que a filosofia era uma atividade que deveria ser</p><p>realizada nas ruas da pólis e em conversa com os seus concidadãos, não</p><p>nos legou qualquer texto de sua autoria. A despeito disso, as suas ideias</p><p>5Filosofia do Direito na Antiguidade</p><p>são encontradas fundamentalmente nos diálogos escritos por seu maior</p><p>discípulo, Platão, e em textos de historiadores da época (como Xenofonte).</p><p>Embora nem sempre seja claro distinguir a figura histórica de Sócrates</p><p>do personagem que comparece nos diálogos escritos por Platão, é comum</p><p>atribuir a Sócrates, tido como patrono do pensamento filosófico ocidental, o</p><p>marco inicial de toda uma filosofia fundada em preceitos éticos e na busca</p><p>pelo autoconhecimento.</p><p>Sócrates é sempre lembrado pela icônica frase “Só sei que nada sei”. Ele</p><p>pensava que, quanto mais alguém compreende que nada sabe, aceitando a sua</p><p>própria ignorância sobre as coisas, mais sábio será. Contrariamente, quanto</p><p>mais a pessoa acha que sabe algo sem de fato o saber, maior o seu grau de</p><p>tolice. Não por acaso, Sócrates também é associado à famosa inscrição no</p><p>tempo de Delfos “Conhece-te a ti mesmo”. Conta-se que alguém, ao perguntar</p><p>para o oráculo de Delfos, quem é o homem mais sábio dos homens, teve</p><p>como resposta: “Sócrates”. Ao ficar sabendo disso, Sócrates não acreditou.</p><p>Como poderia ele, cuja única certeza era saber que nada sabe, ser o mais</p><p>sábio dentre os homens?</p><p>Inconformado e decidido a desabonar a afirmação do oráculo, Sócrates</p><p>foi atrás daqueles que eram reputados pela sociedade como os mais sábios</p><p>nas suas respectivas áreas de saber. Qual não foi a sua surpresa quando, ao</p><p>conversar com esses supostos sábios, percebeu que, em verdade, eles não</p><p>detinham aquele conhecimento que eles julgavam deter? Eles não demoravam</p><p>a se perder obscuridades ou contradições e, incapazes de sustentar as suas</p><p>certezas, uns se irritavam, outros abandonavam o debate. Assim, Sócrates foi</p><p>obrigado a reconhecer a procedência das palavras do oráculo. Era, afinal de</p><p>contas, o mais sábio dos homens por ser o único a reconhecer a sua própria</p><p>ignorância. Se todos eram tolos por achar que sabiam o que não sabiam, ele</p><p>era o mais sábio por ser o único a saber que nada sabia.</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade6</p><p>O método socrático foi chamado por ele mesmo de maiêutica. No grego antigo,</p><p>tal palavra significa “a arte de dar à luz” e faz referência à atividade da parteira.</p><p>Inspirado na atividade da sua mãe, Fenareta, cuja profissão consistia em fazer o parto</p><p>de crianças, Sócrates entendia que a atividade do filósofo era parir o conhecimento</p><p>nos homens. Em linhas gerais, é possível explicar a maiêutica como uma técnica</p><p>fundada em três etapas:</p><p>1. perguntar para o interlocutor questões como “o que é o conhecimento?”, “o que</p><p>é a justiça?”;</p><p>2. após a definição do interlocutor, apresentar uma série de problemas e questio-</p><p>namentos que fazem o interlocutor duvidar da própria resposta ou entrar em</p><p>contradição;</p><p>3. estimular o interlocutor para que encontre novos caminhos de resposta, de modo</p><p>que, em função da repetição continuada de tal processo, o interlocutor seja capaz</p><p>de chegar a respostas mais elaboradas e complexas do que aquelas que possuía</p><p>no início do diálogo.</p><p>O pensamento de Sócrates se caracteriza, em parte, como uma reação às</p><p>doutrinas cosmológicas dos filósofos que o antecederam (os pré-socráticos),</p><p>aos sofistas (que chamava de embusteiros ou vigaristas) e à visão homérica,</p><p>cuja explicação da realidade está fundada na mitologia. Quanto a isso, é im-</p><p>portante que você saiba que, na fase socrática da filosofia, há uma passagem</p><p>das preocupações de ordem cosmológica (tipicamente pré-socráticas) para</p><p>questionamentos sobre a essência do ser humano — tal virada é geralmente</p><p>chamada de antropocentrismo socrático. Além disso, Sócrates é considerado</p><p>o grande inimigo da retórica relativista dos sofistas. Os sofistas, homens que</p><p>ensinavam aos cidadãos técnicas de retórica e argumentação em troca de</p><p>7Filosofia do Direito na Antiguidade</p><p>dinheiro, defendiam uma espécie de relativismo moral. Isto é, conforme os</p><p>sofistas, não existem valores intrinsecamente bons, corretos ou justos — os</p><p>valores são puramente relativos, variáveis de acordo com cada homem e</p><p>convencionados pela sociedade.</p><p>Na época, o regime político de Atenas era a democracia. Além disso, o</p><p>exercício da cidadania era representado diretamente pelos cidadãos (diferente-</p><p>mente do Brasil, que adota um sistema de representação semirrepresentativo).</p><p>Nesse caso, se os cidadãos que compunham a democracia eram ensinados pelos</p><p>sofistas, cujo lema era que não existe algo certo ou errado em si mesmo, não</p><p>estariam as próprias leis que regiam a pólis sendo contaminadas por essa ideia?</p><p>Não estariam as leis sendo editadas apenas com base no interesse daqueles</p><p>que detinham mais poder de convencimento?</p><p>Percebendo isso e tentando combater esse tipo de situação, Sócrates</p><p>defendeu, pelas ruas de Atenas, que valores éticos não são relativos ou</p><p>convencionais, mas existem objetivamente e podem ser conhecidos por</p><p>meio da razão. No entanto, os apetites, as aparências e os preconceitos</p><p>acabam por cegar o pensamento dos homens, fazendo com que ajam de</p><p>modo irracional e inconsequente. Para ele, o homem ético ou virtuoso é</p><p>aquele que compreende o que significa e quais são as consequências dos</p><p>seus atos, de modo que há uma correlação entre agir eticamente e agir</p><p>racionalmente. Com isso</p><p>em mente, propôs que os homens cultivassem</p><p>as virtudes e promovessem uma busca pelo autoconhecimento — como</p><p>caminho para a felicidade. Afinal de contas, ele pensava que, se as leis</p><p>fossem feitas por pessoas moralmente retas, então a pólis, no lugar do</p><p>caos moralmente questionável de interesses antagônicos, seria um local</p><p>que propiciaria o bem comum.</p><p>Não por acaso, Sócrates foi julgado e condenado à pena de morte (beber uma</p><p>dose letal de cicuta) sob a dupla alegação de corromper a alma dos jovens com</p><p>ideias subversivas e pregar a inexistência dos deuses. Mesmo com os diversos</p><p>pedidos dos seus amigos para que fugisse ou pedisse a pena alternativa de</p><p>banimento, preferiu cumprir a pena. Segundo ele, fugir significaria abandonar</p><p>todos os preceitos que ele defendeu e pelos quais viveu, como o dever cívico</p><p>dos homens perante as leis da pólis (mesmo que injusta). Além disso, preferia</p><p>morrer como um cidadão do que viver como um bárbaro.</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade8</p><p>Figura 2. A morte de Sócrates, por Jacques Louis David, 1787.</p><p>Fonte: Everett — Art/Shutterstock.com.</p><p>Platão</p><p>Platão foi maior discípulo de Sócrates. Notabilizado pelos seus diálogos, Pla-</p><p>tão foi o grande responsável por manter as ideias de Sócrates vivas até hoje.</p><p>Credita-se a ele a fundação da primeira instituição de ensino, a Academia,</p><p>cujo modelo serviu de inspiração para a criação das universidades. Os diálogos</p><p>platônicos são muito ricos e variados, tratando de diversos temas, como o</p><p>conhecimento, a ética, a política, a lógica, a linguagem, etc.</p><p>Embora não seja fácil separar aquilo que é propriamente platônico</p><p>daquilo que é puramente socrático, a tradição distingue os diálogos em</p><p>três fases:</p><p>� a fase socrática, em que Platão descreve as desventuras de Sócrates</p><p>em debate com pessoas ilustres ou jovens de Atenas;</p><p>� a fase propriamente platônica, em que o filósofo avança no legado</p><p>socrático e contribui com ideias originais;</p><p>9Filosofia do Direito na Antiguidade</p><p>� a fase de maturidade, em que, já inf luenciado pelas ideias de</p><p>Aristóteles, o seu aluno mais ilustre, começa a tecer críticas às</p><p>suas ideias anteriores e busca novos modos de lidar com diversas</p><p>questões pendentes.</p><p>Entre as várias contribuições de Platão para o estudo do Direito, destacam-</p><p>-se a sua famosa teoria das ideias (apresentada em vários diálogos) e a sua</p><p>concepção ideal de sociedade (apresentada no diálogo República).</p><p>Platão apresenta a sua concepção da verdade na teoria das ideias para dar</p><p>conta do problema do conhecimento (e da possibilidade de se fazer ciência</p><p>sobre as coisas). A solução platônica de tal problema repousa na distinção</p><p>entre “mundo sensível” e “mundo das ideias”. No mundo das ideias, teríamos</p><p>os modelos eternos, imutáveis e perfeitos das coisas perecíveis, mutáveis e</p><p>imperfeitas que percebemos no mundo sensível. Nesse contexto, para cada</p><p>objeto natural do mundo, há uma ideia correlata e perfeita no mundo das</p><p>ideias. Assim, as ideias das coisas sensíveis não estão nelas mesmas, mas</p><p>em um plano superior e fora delas, cujo único acesso se dá pelo intelecto.</p><p>Com efeito, o conhecimento genuíno das coisas viria apenas quando fôsse-</p><p>mos capazes de ir além das aparências para encontrar a verdade no mundo</p><p>superior das ideias.</p><p>No que diz respeito à teoria política, Platão era um crítico do regime</p><p>democrático de governo. Ele acreditava que a democracia gerava diversas</p><p>desigualdades e injustiças inaceitáveis, pois as leis não eram construídas</p><p>com vistas ao bem comum ou à felicidade dos cidadãos, mas em função</p><p>do interesse dos detentores do poder. Tendo isso em mente, e com vistas a</p><p>superar os problemas intrínsecos da democracia, ele concebeu uma sociedade</p><p>ideal, em que existiam apenas três categorias de cidadãos: os comerciantes,</p><p>os guardiões e os governantes-filósofos. Os primeiros (artesãos, agricultores,</p><p>etc.) seriam responsáveis por realizar os serviços necessários para a manu-</p><p>tenção da cidade; os segundos (guerreiros e militares) seriam responsáveis</p><p>pela proteção da cidade; os terceiros (educadores, magistrados, etc.) seriam</p><p>responsáveis por organizar e governar a sociedade. Nessa cidade ideal, não</p><p>existiria a instituição da família nem do casamento, tampouco qualquer</p><p>discriminação entre os sexos e cidadãos. Todos seriam filhos de todos,</p><p>criados sem privilégios ou discriminação. Além disso, a função de cada um</p><p>na sociedade seria selecionada por meio da educação igual para todos e das</p><p>inclinações naturais dos cidadãos.</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade10</p><p>Figura 3. A escola de Atenas (Rafael, 1509–1511, afresco, Vaticano). Perceba Sócrates apon-</p><p>tando para cima, em clara referência à teoria das ideias, e Aristóteles apontando para baixo,</p><p>referindo-se ao conceito de que as ideias das coisas são extraídas das próprias coisas.</p><p>Fonte: Serato/Shutterstock.com.</p><p>Aristóteles</p><p>Se é verdade que Sócrates foi o homem mais sábio do seu tempo, é difícil competir</p><p>com Aristóteles (o grande discípulo de Platão) pelo posto de maior gênio da história</p><p>da humanidade. Não é de graça que ele é e sempre será mencionado no estudo</p><p>de praticamente qualquer campo do conhecimento. Além de ser o idealizador da</p><p>estrutura científica em áreas do saber tal qual conhecemos, ele também foi o grande</p><p>organizador do conhecimento. Assim como Platão, também fundou um centro</p><p>de ensino, o Liceu, cujo foco central era ensinar as ciências (possuindo biblioteca</p><p>e uma espécie de museu de ciências naturais). Embora a maioria das obras de</p><p>Aristóteles tenha se perdido e tudo que a história nos legou não passe das notas</p><p>que utilizava para apresentar as suas aulas, o que restou é suficiente para atestar</p><p>o seu brilhantismo. Para o presente momento, basta que você guarde duas coisas:</p><p>1. a superação da teoria platônica das ideias;</p><p>2. a concepção aristotélica de ética, política e Direito.</p><p>11Filosofia do Direito na Antiguidade</p><p>Aristóteles foi um crítico ferrenho da teoria das ideias de Platão. Ele en-</p><p>controu nela um problema que hoje é conhecido como “o problema do terceiro</p><p>homem”. Isto é, se precisamos postular um mundo das ideias para conhecer as</p><p>coisas do mundo sensível, então também precisaríamos de um terceiro mundo</p><p>para fazer a ligação entre o primeiro e o segundo. Porém, se precisássemos de</p><p>um terceiro mundo para ligar os dois primeiros, também seria necessário um</p><p>quarto mundo para estabelecer a conexão entre o terceiro e os dois primeiros.</p><p>Assim, um regresso ao infinito seria inevitável e, a rigor, o conhecimento das</p><p>coisas seria impossível. Contra isso, Aristóteles defendeu que as ideias das</p><p>coisas são extraídas, por abstração, das experiências que temos das próprias</p><p>coisas. Com base nisso, entre outras coisas, ele formulou a famosa ideia de</p><p>definição por gênero próprio e diferença específica, que serviu para categorizar</p><p>as coisas e que utilizamos até os dias de hoje (por exemplo, que o gênero do</p><p>homem é animal e a diferença específica é ser racional).</p><p>No que diz respeito à ética, à política e ao Direito, o filósofo as concebia</p><p>como complementares. No momento, basta que você saiba que Aristóteles</p><p>entendia a ética como a disciplina que estuda a conduta humana com vista à</p><p>felicidade. Esta, por sua vez, só seria possível no contexto de uma sociedade</p><p>que educasse e propiciasse os homens a cultivar as virtudes. É por isso que,</p><p>como mencionado anteriormente, Aristóteles considerava o homem um animal</p><p>político. Além disso, a propósito do Direito e da justiça, assim como os seus</p><p>antecessores, Aristóteles a entendia como uma virtude. Entre outras coisas, ele</p><p>é o responsável por distinguir uma série de acepções do termo justiça (justiça</p><p>universal, particular, distributiva, corretiva, doméstica, política, legal e natural).</p><p>Objeto e o método da filosofia</p><p>Não existe consenso entre os filósofos e especialistas acerca de qual é o objeto,</p><p>tampouco de qual é exatamente o método da filosofia. Se você pensar na origem</p><p>etimológica da palavra, terá a ideia de que a filosofia é uma junção das palavras</p><p>gregas</p><p>philia, cujo significado é amizade ou amor fraternal, com a palavra</p><p>sophia, que significa sabedoria. Nesse caso, resulta a ideia segundo a qual o</p><p>filósofo é um “amigo do saber”. Tendo isso em mente, se você parar e pensar na</p><p>cruzada de Sócrates contra a ignorância e a sua busca pelo autoconhecimento,</p><p>verá que o objeto abordado pela filosofia são aquelas coisas que fazem alguém</p><p>não ser uma pessoa sábia: as grandes questões sobre a existência.</p><p>São muitas as razões que fazem com que você acabe não se dispondo a</p><p>pensar a fundo nas grandes questões sobre a existência como “qual é o sentido</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade12</p><p>da vida, do universo e tudo mais?”, “o que é a justiça?”, “como viver uma</p><p>vida feliz?” e “qual é o melhor modo de estruturar a nossa sociedade?”. Elas</p><p>parecem tão grandes, gerais e abstratas que dá até medo de começar. Se você</p><p>não tem medo delas, pode ser que simplesmente falte tempo, pois a vida é</p><p>corrida e você precisa trabalhar, estudar, cuidar da casa, sair com os amigos,</p><p>etc. Seja como for, a falta de reflexão filosófica traz uma série de consequ-</p><p>ências práticas para a sua vida. Por exemplo, você se torna uma pessoa mais</p><p>suscetível a adotar respostas prontas, dadas pelo senso comum.</p><p>Você não precisa se voltar para os ensinamentos dos filósofos antigos</p><p>para perceber que o senso comum tem os seus problemas. Vivemos em uma</p><p>sociedade democrática, em que o que vale é a vontade da maioria. Porém,</p><p>nem sempre essa vontade está em conformidade com aquilo que é melhor ou</p><p>que trará o bem comum. O senso comum é recheado de incoerências, incon-</p><p>sistências e preconceitos. Herdamos dos nossos pais uma visão de mundo que</p><p>raramente nos damos ao trabalho de examinar. Muitas vezes isso é tomado</p><p>como um dogma inquestionável e acima de qualquer suspeita. Pense, por</p><p>exemplo, no caso da discriminação de gênero que afeta até hoje as mulheres</p><p>em nossa sociedade.</p><p>Quando você começa a levantar perguntas sobre o que é uma sociedade</p><p>justa e defende que ela deve propiciar a igualdade, você está fazendo filosofia.</p><p>É nesse tipo de contexto que surge um confronto entre o que o senso comum</p><p>diz e aquilo que você pensa que deveria ser. Com efeito, se você para de aceitar</p><p>as coisas como ela são, tão somente porque sempre foram assim, e começa</p><p>a utilizar a razão para sustentar as suas crenças, você começa a jornada da</p><p>filosofia. Porém, para filosofar, não basta lidar com as grandes questões da</p><p>existência — você também precisa de um método.</p><p>A palavra método, cuja origem remonta à palavra grega methodos, significa</p><p>“o caminho para alcançar algum fim”. Assim, dado um objeto qualquer, o</p><p>método equivale ao conjunto de processos e procedimentos empregados na</p><p>busca e na aquisição de conhecimento sobre esse objeto, do que resulta a</p><p>ideia segundo a qual o método é a ponte que liga o sujeito ao conhecimento</p><p>do objeto de investigação. Além disso, é importante que você tenha em mente</p><p>que o emprego do método x ou y está intimamente ligado ao objeto que se</p><p>deseja conhecer.</p><p>O método filosófico é, por excelência, a argumentação. Diferentemente</p><p>dos cientistas da natureza, que podem confirmar as suas teorias com base na</p><p>experimentação e na observação, os filósofos não podem recorrer aos dados</p><p>empíricos para verificar ou falsificar as suas teses. Por isso, as questões filosó-</p><p>ficas são muito mais ligadas aos conceitos que utilizamos para compreender e</p><p>13Filosofia do Direito na Antiguidade</p><p>interpretar a realidade. Assim, um dos métodos típicos da filosofia é a chamada</p><p>análise conceitual, segundo a qual o filósofo procura estabelecer relações e</p><p>distinções entre termos para, com isso, compreender melhor a realidade. Por</p><p>exemplo, no lugar de ter uma ideia confusa e rudimentar sobre a justiça, o</p><p>filósofo se engaja em distinguir acepções da palavra, como justiça distributiva</p><p>e justiça corretiva. Com base na pura análise conceitual, não é raro que você</p><p>seja capaz de mostrar que a concepção do senso comum sobre alguma coisa</p><p>está fundada na sua confusão e incapacidade de perceber a diferença entre</p><p>um termo x e um termo y.</p><p>Outro método comum na filosofia é o dialético, quando há uma discussão</p><p>sobre uma questão ou conjunto de questões, cujo objetivo é obtenção de</p><p>conhecimento. Nesse caso, apresenta-se uma tese que será posta em análise.</p><p>Contra ela, são apresentadas críticas, contrapontos e, eventualmente, uma</p><p>antítese. Por fim, a título de conclusão, há a extração de uma síntese. Com</p><p>relação ao modo de apresentação, perceba que o método dialético pode ser</p><p>apresentado na forma de um diálogo, tal qual os diálogos platônicos, mas isso</p><p>não é necessário. Quando você está avaliando e “discutindo” consigo mesmo</p><p>qual é a melhor tese e qual é o melhor caminho para sustentá-la, você está</p><p>raciocinando dialeticamente. Você avalia possíveis contra-argumentos e tenta</p><p>superá-los — o que, por vezes, faz com que você adote teses mais sofisticadas;</p><p>por vezes, leva você a simplesmente mudar de opinião.</p><p>Muitos filósofos também adotam o método dos experimentos mentais.</p><p>Embora os filósofos geralmente não possam recorrer aos fatos do mundo para</p><p>sustentar as suas posições, é comum que se valham de experimentos mentais,</p><p>tal qual Platão fez ao conceber a sua sociedade ideal. Esses experimentos</p><p>vêm para trazer esclarecimento, contraexemplos ou novas perspectivas para</p><p>abordar uma questão.</p><p>Um último método que gostaria que você tivesse em mente é o famoso</p><p>método da dúvida. Em função dele, o filósofo coloca sob suspeita tudo</p><p>Filosofia do Direito na Antiguidade14</p><p>aquilo que não possui razões indubitáveis para acreditar. É valendo-se desse</p><p>método que Descartes, em Meditações, chega na famosa conclusão “Penso.</p><p>Logo, existo”. Pois, mesmo que possa duvidar de tudo, enquanto duvido não</p><p>posso duvidar que estou duvidando. E como duvidar é um modo de pensar,</p><p>também é incontestável que, enquanto duvido, estou pensando. Agora, se não</p><p>é possível pensar sem existir, e dado que estou pensando ao colocar tudo em</p><p>dúvida, existo indubitavelmente.</p><p>ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 4. ed. Brasília: UnB, 2001.</p><p>ARISTÓTELES. Política. São Paulo: Atena, 1957.</p><p>BITTAR, E. C. B.; ALMEIDA, G. A. Curso de filosofia do Direito.11. ed. São Paulo: Atlas, 2015.</p><p>FERRAZ JÚNIOR, T. S. Introdução ao estudo do Direito: técnica, decisão dominação. São</p><p>Paulo: Atlas, 1990.</p><p>MASCARO, A. L. Filosofia do Direito. São Paulo: Atlas, 2016.</p><p>MORRIS, C. Os grandes filósofos do Direito: leituras escolhidas em Direito. São Paulo:</p><p>Martins Fontes, 2002.</p><p>NADER, P. Introdução ao estudo do Direito. 24. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004.</p><p>PLATÃO. Apologia de Sócrates. Lisboa: Edições 70, 2009.</p><p>PLATÃO. República. Rio de Janeiro: Best Seller, 2002.</p><p>REALE, M. Introdução à filosofia. São Paulo: Saraiva, 2015.</p><p>REALE, M. Lições Preliminares de Direito. 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.</p><p>VILLEY, M. Filosofia do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2008.</p><p>15Filosofia do Direito na Antiguidade</p>

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