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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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quem pudemos encontrar mais trabalhos científicos citamos Michael Sheehan e Michelle 
Barker, além de um trabalho de Knott (2004) com funcionários de um presídio. 
 
1.3 Estados Unidos 
 
Surpreendentemente, há pouca literatura sobre o tema nos Estados Unidos e, diferentemente 
de outros países, nos Estados Unidos nota-se uma nítida preocupação em identificar os 
efeitos negativos destas ações com repercussões econômicas para as empresas. 
 
Embora o fenômeno houvesse sido descrito em 1976 pelo psiquiatra americano Carroll 
Brodsky, a sua pesquisa teve pouco impacto na época. Neste país o tema foi abordado por 
diversos campos do conhecimento, sendo estudado, por exemplo, pela área de Comunicação 
(ALBERTS, LUTGEN-SANDVIK, e TRACY, 2005; LUTGEN-SANDVIK, 2003 apud 
TRACY ET. AL, 2006), pela área de Administração (DAVENPORT, SCHWARTZ, 
ELLIOT, 1999; KEASHLEY e NEUMAN, 2005; NEUMAN, 2004 apud TRACY et. al, 
2006), e pela área de Psicologia (KEASHLEY, 1998, 2001 apud TRACY et. al, 2006; 
NAMIE, 2003). 
 
Ashfort (1994) chamou de petty tyranny (tirania perversa) o conjunto de seis 
comportamentos dos líderes perversos, a saber: 1) arbitrariedade e auto-engrandecimento; 2) 
assediar subordinados; 3) falta de consideração; 4) resolver conflitos através da força; 5) 
desencorajar a iniciativa; 6) punição não-contigencial. Segundo este autor, petty tyranny 
pode ser descrita como uma gestalt ou síndrome que é o conjunto de predisposições 
individuais, situações facilitadoras, comportamento de líderes e efeitos em subordinados que 
formam um conjunto coerente e integrado. 
 
 
 
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É importante mencionar que o grande número de terminologias para designar este 
fenômeno nos Estados Unidos é uma dificuldade inclusive para acadêmicos (TRACY et. al, 
2006) e que o termo mais usado, bullying, pode levar a alguns problemas teóricos e fazer as 
pessoas encarar este problema como um problema infantil ou uma simples manifestação de 
empregados supersensíveis (TRACY et. al, 2006). Estas autoras relatam que as diferentes 
terminologias e definições usadas fazem com que este campo esteja, neste país, menos 
coeso do que acontece com as pesquisas feitas em outros países. 
 
Uma pesquisa conduzida nos Estados Unidos mostra que de 25% a 30% dos empregados 
americanos sofreram abusos morais em algum momento de sua vida profissional. 
(KEASHLEY e NEUMAN, 2005 apud TRACY et. al, 2006). Uma outra pesquisa com uma 
amostra representativa das empresas americanas descobriu que 24% de seus funcionários 
eram vítimas de assédio moral (GRUBB, 2004). A pesquisa de Lutgen-Sandvik, Tracy e 
Alberts (2007) com 406 trabalhadores americanos descobriu que 28% eram assediados, 
(quando era usado um critério objetivo) e 9.4% consideravam-se vitimas (usando um 
critério subjetivo). Para estas pesquisadoras, a diferença entre aqueles que se auto-
intitulavam e o medido objetivamente pode ser devida ao fato de os trabalhadores 
americanos considerarem o assédio parte da vida no trabalho, ou porque eles associam isto 
com passividade ou fraqueza ou, ainda, porque o termo (bullying) não é muito difundido 
neste país. A pesquisa apontou também que os trabalhadores dos Estados Unidos têm de 
20% a 50% mais chance de ser vítimas de assédio que os trabalhadores da Escandinávia. 
 
Um fato que nos chamou a atenção foi que neste país, embora as pesquisas sobre assédio 
moral sejam bastante escassas, há inúmeros trabalhos fronteiriços, sobre temas como 
relações tóxicas dentro do ambiente de trabalho (por exemplo, FROST, 2003), incivilidade 
dentro do trabalho e comportamentos contra-produtivos no ambiente de trabalho (por 
exemplo TEPPER, 2000) que, no nosso entendimento, são muito similares à problemática 
do assédio moral. 
 
Para Gimeno Lahoz (2004) a dificuldade encontrada pelas pesquisas nos Estados Unidos é 
porque este país, em comparação aos países europeus, há pouca estabilidade trabalhista, o 
que faz com que este tema se dilua com outros temas dentro da categoria “violência no 
trabalho”, que abarca termos tão distintos como os assassinatos nas escolas, os estupros, o 
 
 
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assédio sexual e os insultos no trabalho. Para ele, é preciso que um país tenha alcançado 
estabilidade trabalhista para poder outorgar autonomia científica para o estudo deste 
fenômeno. 
 
1.4 Japão 
 
A ocorrência deste fenômeno e disponibilidade de dados empíricos numa sociedade fechada 
como a japonesa nos surpreendeu. Segundo Meek (2004), na metade dos anos 90, quando a 
bolha econômica estourou, superiores e colegas começaram a assediar seus subordinados e 
colegas como maneira de “descontar” suas frustrações e também como uma maneira não-
oficial de levá-los a abandonar seus trabalhos sem violar tecnicamente o princípio de 
emprego vitalício. 
 
Segundo pesquisa de Yamanaka (apud HIRIGOYEN 2001), o assédio apareceu neste país 
em 1972, no momento em que a indústria estava enfrentando um crescimento vertiginoso e 
precisava de jovens trabalhadores já adaptados ao padrão do trabalho, sem marcas de 
individualismo ou personalidades fortes e, sobretudo, nada críticos. Mais tarde, segundo esta 
mesma pesquisa, nos anos noventa, devido à recessão, o mundo do trabalho requisitava 
trabalhadores preparados para ajustar-se a um novo modelo, capazes de ter idéias originais. 
 
Segundo pesquisa da Tokyo Managers Union, o assédio moral no Japão se apresenta de 
cinco maneiras: ser privado das funções normais; ser obrigado a trabalhar excessivamente 
(há neste país o termo “karoshi” que designa morte por excesso de trabalho); ser levado ao 
ostracismo; insultos e tratamentos ofensivos; assédio sexual (MEEK, 2004). Meek (2004), 
entretanto, faz a distinção de que muitos casos de assédio moral no Japão não são usados 
para diminuir o tamanho da força de trabalho, ao contrário, são simplesmente resultado da 
ênfase da cultura japonesa na conformidade e da aceitação de que o assédio moral e 
ostracismo são táticas válidas de modificação de comportamento daqueles que são 
diferentes e que denigrem a harmonia do grupo. 
 
 
A ocorrência de ações de assédio moral no trabalho, conhecido neste país como “ijime”, 
começou a aumentar e levou algumas vítimas ao suicídio, chamando a atenção das 
 
 
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autoridades. Segundo dados de Meek (2004), o número de suicídios resultantes de assédio 
moral passou de 1.032 em 1990 para 1.824 em 1999, um aumento de mais de 77%, sendo 
que, devido ao aumento nos casos de suicídios relacionados com situações de assédio moral, 
há neste país uma central telefônica para apoiar as vítimas de assédio moral. (MEEK, 2004) 
 
Segundo Japan Labor Flash (CHAPPEL e DI MARTINO, 2006) o número de queixas 
contra violência no trabalho está aumentando no Japão, em 2003 foram 32,000 ações na 
justiça, e este crescimento fez com que a Agência do Trabalho de Tóquio (Tokyo Labor 
Bureau) instalasse 21 centros de consultas sobre o trabalho em Tóquio para explicar aos 
trabalhadores maneiras de resolver os conflitos e como contatar agências especializadas em 
resolver conflitos. 
 
É interessante perceber que nas nossas pesquisas descobrimos uma obra de 1986 onde um 
pesquisador brasileiro já alertava para os desastrosos efeitos psicossociais e econômicos da 
política japonesa. Para este pesquisador, “..através da falência como instrumento de 
demissão, das demissões em casos especiais ou das pressões para a aposentadoria, os 
trabalhadores (japoneses) são colocados em situação de desemprego ou desemprego 
disfarçado” (MOTTA, 1986) 
 
1.5 África do Sul 
 
Na África do Sul, segundo dados de Di Martino (apud CHAPPEL e DI MARTINO, 2006), 
um estudo feito em conjunto pelas organizações ILO/ICN/WHO/PSI sobre trabalhadores da 
área da saúde descobriu que os trabalhadores deste país eram vítimas de várias formas de 
violência, e que 20% destes trabalhadores eram