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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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pessoas que não se enquadram no perfil do grupo, que 
atrapalham o desempenho coletivo e as que estão no nível mais baixo da hierarquia. Este 
pesquisador destacou o papel da área de recursos humanos nos casos de assédio moral, 
dando importância ao envolvimento desta área com a “ouvidoria” (que recebe as denúncias 
dos casos de assédio moral), além de atuar como mediadora dos conflitos e determinar 
normas claras de conduta. Este autor acredita que a área de recursos humanos pode atuar na 
prevenção, desenvolvendo cartilhas e programas de treinamento e trabalhando em conjunto 
com os médicos do trabalho para identificar problemas. 
 
Outra pesquisa sobre assédio moral junto a bancários foi feita pela psicóloga Soboll (2006). 
Ela descobriu que a prática do assédio moral é muitas vezes empregada no trabalho bancário 
e que esta forma de violência só ocorre se houver a “conivência ou estímulo da 
organização” (p. 188), ou seja, a organização é co-responsável. Para esta pesquisadora o 
assédio moral é apenas a ponta do iceberg das violências silenciosas que ocorrem dentro da 
organização do trabalho e que: 
 
... olhar apenas as relações agressivas entre as pessoas no trabalho é tratar os sintomas e 
desconsiderar as causas reais [..] o individualismo extremo, a incorporação de valores da 
 
 
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organização como valores pessoais, a dissolução da instância crítica que são estimulados 
pela forma de organizar as relações de trabalho.. constituem-se expressões de violência a 
partir do momento em que bloqueiam o desenvolvimento.. da criatividade, sensibilidade, o 
livre pensamento, a identidade, a marca pessoal. (p. 190) 
 
Nossa pesquisa bibliográfica nos levou à descoberta de um trabalho feito com polícias 
militares no estado da Bahia, neste trabalho Martins (2006) mostrou como em hierarquias 
rígidas como é a militar, os limites não são bem delimitados e respeitados e os excessos são 
vistos com naturalidade. Na opinião deste autor a subordinação no militarismo é sustentada 
pela hierarquia e “funciona como legitimadora da humilhação, do destrato, do desrespeito, 
da ofensa e das demais formas de relações agressivas e desmoralizantes. Para o 
subordinado, o acatamento é obrigatório face o conceito de disciplina, pela qual tudo se 
justifica pela própria condição de ser militar” (MARTINS, 2006, p. 132). 
 
Em um dos casos estudados Martins (2006) conta a dificuldade da vítima de se livrar da 
situação de assédio, devido à sua condição de funcionário público e ao fato de que as 
queixas e reclamações não serem consideradas precedentes devido à preocupação da 
corporação em preservar o “poder de comando” do agressor. Neste caso a vítima conseguiu 
ser transferida de posto mas o agressor continuou na mesma posição e “de forma alguma o 
agressor [foi] alcançado por medidas administrativas, permanecendo, inclusive, no gozo dos 
mesmos instrumentos para reiniciar suas ações danosas a outros”. (MARTINS, 2006, p. 
117). Face a impunidade de seus atos, este agressor acabou: 
 
..dirigindo suas agressões morais a outros oficiais, acabou tendo como vítima um oficial 
estagiário em início de carreira, e que, portanto, estava em condição probatória. A 
instabilidade da vítima permitiu que as atitudes ofensivas fossem mais intensas, já que não 
podia haver reação, chamando sempre a atenção de todos. Normalmente, os comentários 
eram públicos e colocavam em cheque a conduta técnica do assediado, comprometendo sua 
imagem e sua carreira que se iniciava. Inclusive, detendo o direito de emitir a nota final para 
encerramento do estágio e promoção da vítima, o assediador ameaçava constantemente o 
subalterno de não permitir sua graduação, o que restringia qualquer tipo de reação possível e 
causava forte abalo emocional no assediado. Ao longo dos seis meses de estágio o oficial foi 
alvo do assédio que se caracterizava por agressões verbais e humilhações públicas, além de 
escalas sucessivas de trabalho, de tal modo que para qualquer serviço extra o mesmo era 
escalado. Além da sobrecarga, a discriminação coletiva se constituía a partir dos desabonos 
do Comandante, que levaram a estereotipar o assediado como incompetente perante todo o 
quartel, o que sempre era comentado em tom de chacota nas rodas de trabalho. Toda essa 
conjuntura degradante abalou emocionalmente a vítima, que apresentava sintomas evidentes 
de distúrbios psico-emocionais, tais como depressão, insônia, ansiedade e nervosismo, 
gerando, inclusive, dúvidas de seus colegas quanto a sua sanidade mental. Em face do 
exposto, diversas vezes solicitou afastamento para se recompor da pressão, alegando que 
precisa urgentemente livrar-se de tudo aquilo, pois não suportava mais. No auge da situação, 
 
 
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o Comandante instaurou um processo interno para apuração de irregularidade de conduta 
do assediado, vindo a sancioná-lo com uma punição administrativa. Tal acontecimento 
suspendeu definitivamente a conclusão com aproveitamento do estágio, mantendo-o sem 
promoção. Ocorre que, no afã de punir sem maiores preocupações com o ato, a sanção 
exarada pelo assediador excedeu o que se previa no Regulamento Disciplinar da PMBA, ou 
seja, a punição ultrapassou o limite regulamentar de competência de um Comandante de 
Unidade. Como anteriormente a intervenção administrativa não tinha surtido efeito, o 
assediado optou em ingressar diretamente na Auditoria Militar com uma denúncia de Abuso 
de Autoridade. Segundo um dos entrevistados, “tal situação foi reconhecida no âmbito da 
corporação como um ato de autoritarismo proveniente de alguém que se achava o dono do 
poder e que não tinha limites para usá-lo. O desdobramento da ação levou alguns anos, mas, 
apesar de não se obter a amplitude punitiva esperada, ao final o queixoso teve vitória em 
todas as instâncias, sendo o Comandante condenado por abuso de autoridade. A grande 
dificuldade processual foi o depoimento dos envolvidos. Todos procuraram ao máximo se 
esquivar de testemunhar contra um Comandante, pois estavam preocupados com retaliações 
futuras, o que é muito comum no contexto militar. De qualquer forma, na instância judicial o 
corporativismo administrativo não ocorre e, portanto, tal acontecimento marcou a instituição 
como uma das poucas vezes em que um subordinado levou ao banco dos réus um oficial 
superior.” (MARTINS, 2006, p. 118 e 119, grifo nosso) 
 
Ente outras conclusões interessantes, este trabalho apontou como na PMBA (Polícia Militar 
da Bahia) é comum aumentar o trabalho da vítima, ou seja, usar o serviço como instrumento 
de assédio, o que causa prejuízos ao trabalho do policial militar e à sua saúde ocupacional e 
pode representar riscos também à população, pois um policial cansado pelo excesso de 
trabalho pode não estar preparado para responder às situações que enfrenta diariamente. 
 
É fundamental mencionar que se nota no país, tanto nos trabalhos acadêmicos quanto nas 
publicações dirigidas ao público em geral, diversos artigos com o objetivo de instruir a 
população, advogados e juristas sobre o que é assédio moral. Isto demonstra uma grande 
preocupação com os aspectos legais das situações de assédio, neste sentido, mencionam-se 
trabalhos acadêmicos (AGUIAR, 2003; DARCANCHY, 2006; FROIO, 2005; SESSO, 
2005; NAKABASHI, 2005; LEITE, 2006; ARAÚJO, 2006) e não-acadêmicos (ALKIMIN, 
2005; SINA, 2007). O pesquisador francês Leclerc (2005) afirma que a adoção de uma lei é 
importante porque reforça a mensagem de que o assédio é uma conduta repreensível e 
inaceitável. 
 
Em trabalhos posteriores (por exemplo, FREITAS, 2007a e FREITAS, 2007b) esta autora 
analisa o fenômeno à luz da realidade do mundo do trabalho e da violência do mundo atual. 
Para Heloani (2003b), o assédio moral sempre existiu na sociedade brasileira, a humilhação 
está enraizada no processo macroeconômico, já que, em seu processo disciplinar, ele