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Assédio Moral no Local de Trabalho - Estudo FGV

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as distintas contribuições, acreditamos 
que seremos capazes de compreender melhor este fenômeno e delimitar as causas do 
aparecimento deste tema e sua conexão com os acontecimentos recentes no mundo 
organizacional, os impactos que este tipo de violência tem sobre as vítimas, o perfil dos 
agressores e por último, as ações que o mundo jurídico está realizando para coibir este tipo de 
violência. 
 
Pretendemos construir um estado da arte deste tema através da reconstituição, sistematização 
e classificação das categorias de estudo mais freqüentemente apresentadas nas pesquisas 
realizadas nas diferentes áreas e publicadas em veículos acadêmicos internacionais. Nosso 
foco se concentrará em três fontes: 1) livros que tratam deste assunto; 2) websites que tratam 
exclusivamente deste tema; 3) artigos publicados em revistas acadêmicas de primeira linha, 
estrangeiras e nacionais. 
 
Analisando a base de artigos em periódicos acadêmicos levantada até o momento, tais como 
International Jourmal of Manpower, Aggression and Violent Behaviour, Pistes e European 
Journal of Work and Organizational Psychology , percebemos que, fora do país, este tema 
tem raízes bem entrincheiradas na área de Psicologia. Sobre estas duas últimas revistas as 
edições que tratavam unicamente de assédio moral foram muito importantes para o nosso 
entendimento deste assunto, bem como para nos familiarizarmos com os pesquisadores que 
estavam estudando este tema. 
 
Dentre os inúmeros pesquisadores, destacamos as contribuições de Leymann, Andrea Adams 
e Marie-France Hirigoyen no início dos estudos sobre assédio moral e, mais recentemente, os 
 
 
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pesquisadores Einarsen, Sheehan, Keashley, Mikkelsen, Rayner, Davenport, Piñuel y Zabala, 
Grenier-Peze e Salin. No Brasil, notamos que, diferentemente de outros países, pesquisadores 
da área de Administração participam ativamente dos debates sobre assédio moral no trabalho. 
Dentre os quais destacamos os trabalhos de Freitas, Heloani, Margarida Barreto, Liliana 
Guimarães, Adriana Rimoli, Lia Soboll e Martiningo Filho, entre outros. 
 
Na medida em que nossa pesquisa avançava, percebemos que seria muito valioso realizar a 
pesquisa bibliográfica em websites, para investigar como este tema estava sendo pesquisado 
fora do país e descobrir quais pesquisadores estavam mais envolvidos nesta área. Isto se deve 
ao fato de a internet ser um meio valioso de propagação de informação, de fácil acesso e de 
rápida disseminação do conteúdo. O Anexo 1 lista os principais websites consultados. 
Incluímos, quando possível, o país de origem dos organizadores do website, para que se 
perceba como este tema realmente se alastrou e é objeto de interesse de pesquisadores do 
mundo inteiro. 
 
Finalmente, acreditamos que alguns valores não podem deixar de fazer parte do universo 
organizacional, tais como respeito aos colegas e um ambiente de trabalho livre da violência. 
Esperamos contribuir para que as empresas, através das pessoas que as dirigem e que ali 
trabalham possam reconhecer que, independente das pressões por lucros, o ser humano tem o 
direito de ser tratado com dignidade e humanidade. Por tudo que apresentamos, esperamos 
que este trabalho possa contribuir com a preservação dos direitos das pessoas. Como disse 
Pellegrino (1983, p. 4) “a sociedade só pode ser preservada – e respeitada - pelo trabalhador 
na medida em que o respeite e o preserve.” 
 
 
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PARTE I – CONTEXTO SÓCIO-ORGANIZACIONAL 
 
 
Homo homni lupus est 
Thomas Hobbes 
 
 
1 A propósito da violência e da violência no trabalho 
 
 
Na sociedade atual o tema assédio moral articula-se dentro de um tema muito maior que é o 
tema da violência. A questão da violência aparece nos dias atuais como grande ameaça à vida 
em sociedade; ela domina as conversas, monopoliza a atenção da mídia e figura como um 
tema sério de estudo entre acadêmicos de todo o mundo. Para Johnson e Indivik (2001) a cada 
semana atingimos um novo patamar de incivilidade. Agamben (2002) defende que o que 
temos hoje diante dos olhos é de fato uma vida exposta a uma violência sem precedentes 
precisamente nas formas mais profanas e banais. Enriquez (2006) diz que o vínculo social se 
desfaz cada vez mais rapidamente e que a violência a que assistimos não é fundadora do 
direito e nem necessária à relação humana, mas que é uma violência excessiva que visa 
suprimir não somente o indivíduo, mas o próprio sentido, fazendo com que nada na vida tenha 
sentido. Golding (apud SANTOS E DIAS, 2004) afirma que este é um dos mais importantes 
problemas de Saúde Pública hoje, devido às conseqüências para as vítimas, ao temor que 
causa na comunidade, e a seu enorme custo para a sociedade. 
 
Santos e Dias (2004) na sua abrangente revisão da literatura sobre a questão da violência 
dizem que a maneira como encaramos a violência muda historicamente, pois, atos que não 
eram considerados violentos passam a ser assim considerados. Fraga (apud SANTOS E 
DIAS, 2004, p. 3) explica que “a violência dos primatas é chamada de “violência original”, já 
que “era praticada como necessidade incontornável no processo de luta pela sobrevivência, 
num grau de desenvolvimento histórico que não oferecia outras saídas ou possibilidades de 
ação e relação”. Este mesmo autor explica que existe atualmente outro tipo de violência, mais 
sutil e destrutiva, desestruturante e desagregadora. 
 
 
 
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O tema é tão difícil que até mesmo uma definição simples de violência é complicada. Ferreira 
(1986, p. 1779), por exemplo, diz que “violência é um ato contrário ao direito e à justiça, 
impetuoso, tumultuoso e intenso, em que se faz uso da força causando constrangimento físico 
ou moral”. O dicionário Michaelis (2007, p. 2205) define como “qualquer força realizada 
contra a vontade, liberdade ou resistência da pessoa ou coisa; constrangimento físico exercido 
sobre a pessoa para obrigá-la a submeter-se à vontade de outrem.” Para Moser (1987) uma 
conduta é considerada agressiva se atende a três critérios independentes: 1) a constatação de 
dano possível ou real para a vítima; 2) a intenção, por parte do autor, de produzir 
conseqüências negativas; e 3) o fato de que o comportamento seja considerado pela vítima 
e/ou um observador como inapropriado. 
 
Santos e Dias (2004) situam a violência como uma estratégia de sobrevivência das camadas 
populares vitimadas pelas contradições do capitalismo. Para estes autores, as desigualdades 
sociais, o contraste brutal entre opulência e indigência e as poucas oportunidades de emprego 
e de remuneração dignas, levariam os pobres a se rebelarem e tentarem recuperar o excedente 
a que foram expropriados. Outra abordagem é desenvolvida por Koop e Lundberg (apud 
SANTOS E DIAS, 2004), eles dizem que a violência, dinheiro e conhecimento são os três 
pilares do poder humano, mas que a violência é o que tem menor poder porque só pode ser 
utilizada para punir. Sendo que os outros dois, ao contrário, podem ser usados positivamente 
ou negativamente. 
 
Hannah Arendt (2001) discorda daqueles que associam violência a poder, pois para ela o 
poder resulta da capacidade humana de agir em conjunto, de conseguir agir em consenso, 
portanto vê poder e violência como diametralmente opostos, visto que a presença absoluta de 
um significa a ausência de outro. Para ela, é a desintegração de poder que permite a violência, 
e que “a violência aparece onde o poder está em risco, mas, deixada em seu próprio curso, ela 
conduz à desaparição do poder.” (p. 44). 
 
Rifiotis (apud SANTOS E DIAS, 2004) diz que a violência é o caos, é a falta de limite, o 
imprevisível. Para este teórico a violência significa uma ruptura, provocada por um elemento 
não integrado, que está fora de tempo e de lugar. Agudelo (apud SANTOS E DIAS, 2004) 
define-a como a utilização de força física ou de coação