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Economia Regional e Urbana aplicada ao Brasil_IPEA

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do mesmo segmento. Cada empresa está ciente de que sua escolha de preço 
afeta o segmento de consumidor abastecido por sua rival; a competição espacial 
é, portanto, inerentemente estratégica. Esta é uma das principais inovações 
introduzidas por Hotelling, que utiliza um jogo de duas etapas para modelar 
o processo de competição espacial: na primeira etapa, as lojas escolhem sua 
localização de forma não cooperativa; na segunda, com as localizações 
tornadas públicas, as empresas selecionam o seu preço de venda. O uso de um 
procedimento sequencial significa que as empresas preveem as consequências 
de suas escolhas locacionais em suas escolhas de preços, conferindo assim ao 
3. Ver Dos Santos Ferreira e Thisse (1996) para uma apresentação das ideias de Launhardt sobre a moderna teoria dos jogos.
Economia regional e urbana30
modelo uma estrutura dinâmica implícita. O jogo é resolvido por indução reversa 
(backward induction). Para um par arbitrário de locais, Hotelling começa com 
a solução do subjogo que corresponde à segunda etapa. Os preços de equilíbrio 
resultantes são introduzidos na função lucro, que por sua vez depende apenas da 
localização escolhida pelas empresas. Estas funções representam os lucros que as 
empresas irão maximizar na primeira etapa do jogo. Tal abordagem previu, com 
décadas de antecedência, o conceito do subjogo do equilíbrio perfeito de Nash, 
apresentado por Selten nos anos 1960. 
A conclusão de Hotelling foi a de que o processo de competição espacial levaria 
as empresas a se aglomerar no centro do mercado. Se for verdade, temos a explicação 
para a concentração espacial que observamos, de empresas que vendem o mesmo 
produto (por exemplo restaurantes, cinemas, boutiques etc.). Infelizmente, a análise 
de Hotelling estava contaminada por um erro que invalida sua conclusão principal: 
quando as empresas estão suficientemente próximas, o subjogo correspondente não 
tem um equilíbrio de Nash em estratégias puras, portanto os lucros usados por 
Hotelling na primeira etapa estão errados (D’ASPREMONT et al., 1979). 
Essa conclusão negativa levou d’Aspremont et al. a mudarem o modelo 
de Hotelling, lançando a hipótese de que os custos de transporte pagos pelos 
consumidores são quadráticos na distância percorrida, e não lineares, como 
pensou Hotelling. Esta nova hipótese captura a ideia de que o custo marginal do 
tempo aumenta com a distância percorrida até a loja. Nesta versão modificada, 
d’Aspremont et al. mostram que qualquer subjogo de preço possui um e apenas 
um equilíbrio de Nash em estratégias puras. Ao colocar estes preços nas funções 
lucro, eles demonstram que as empresas optam por se estabelecerem nas duas 
extremidades do segmento linear. As empresas procedem assim porque isto lhes 
permite domar a competição de preços e recuperar a margem de lucro. Este 
resultado, um tanto geral, foi denominado princípio da diferenciação. Portanto, 
a sutil mudança feita por d’Aspremont et al. nos leva a conclusões que são 
completamente distintas daquelas alcançadas por Hotelling. 
(c) Em sua crítica ao livro de Chamberlin, The theory of monopolistic
competition, Kaldor (1935) argumentou de modo convincente que, quando se 
aceita que as empresas atuem no espaço, cada uma compete diretamente com 
apenas algumas poucas empresas vizinhas, independentemente do número to-
tal de empresas na indústria. A própria natureza da competição no espaço é, 
portanto, oligopolista, o que lança sérias dúvidas sobre a relevância da com-
petição monopolística como estrutura de mercado. Beckmann (1972b) de-
senvolveu um tratamento analítico completo da competição espacial num 
bem elaborado artigo que passou despercebido, provavelmente porque foi pu-
blicado por um periódico com pouca visibilidade no mundo da economia. 
Além disso, os principais resultados de Beckmann foram redescobertos 
geografia Econômica 31
por Salop (1979), em um artigo que ficou famoso na organização industrial. 
Estes dois autores mostram como a entrada livre pode determinar o número equili-
brado de empresas operando com retornos crescentes e competindo de forma oligo-
polista com as empresas vizinhas. Entre outras coisas, suas análises demonstram, de 
forma bastante precisa, como é que o mercado resolve o trade-off entre os retornos 
crescentes (interno às empresas) e os custos de transporte.
Eaton e Lipsey (1977) e Gabszewicz e Thisse (1986) aprofundaram o 
trabalho de Kaldor e Hotelling, e apresentaram uma síntese que ajuda a escla-
recer o que é realmente a teoria da competição espacial e o que ela pode fazer. 
Este trabalho foi oportuno. Na verdade, Salop não tinha conhecimento das con-
tribuições feitas por seus quatro predecessores (Launhardt, Hotelling, Kaldor, e 
Beckmann), todos com uma clara compreensão da natureza da competição no 
espaço. Esta lista de contribuições desconectadas, que cobrem quase um século, 
é prova da natureza bastante dispersa e fragmentada da pesquisa em economia 
espacial, até que surgiu a nova geografia econômica, que serviu de catalisador. 
Os retornos crescentes e a competição estratégica são, portanto, os ingredientes 
básicos para uma teoria relevante de equilíbrio espacial. A dificuldade desta tarefa já 
confundiu alguns intelectuais. Exagerando um pouco, podemos dizer que a capaci-
dade do modelo competitivo de atacar várias questões, juntamente com a ausência 
de modelos alternativos, geraram um efeito lock-in do qual os economistas tiveram 
muita dificuldade de escapar. Não é, portanto, de surpreender que o aparecimento 
repentino da nova geografia econômica ocorreu poucos anos depois da retomada da 
competição monopolista e da organização industrial, das quais ela toma emprestado 
muitas ideias e conceitos. 
(d) Como vimos acima, quando as empresas vendem um produto 
homogêneo, elas evitam a aglomeração espacial porque a competição de preços 
impõe efeitos devastadores sobre elas. No entanto, é preciso ter em mente que 
este resultado baseia-se numa sensibilidade extrema do consumidor aos preços: se 
duas empresas se estabelecerem lado a lado com preços idênticos, uma pequena 
redução de preço numa das empresas atrairá todos os clientes. Este comporta-
mento extremo parece desnecessário. Quando o produto é diferenciado e quando 
o consumidor gosta de variedade, a reação agregada a um corte de preço não será 
tão abrupta porque a qualidade do produto é importante para o consumidor. 
Esta observação sugere que as empresas que vendem produtos diferenciados talvez 
desejem se agrupar numa localização central do mercado, porque a competição de 
preços se enfraquece (DE PALMA et al., 1985).
Quando os custos de transporte são baixos, os benefícios da separação 
geográfica serão reduzidos e os preços serão mais baixos. As empresas então 
optam por refazer suas margens de lucro diferenciando seus produtos com 
Economia regional e urbana32
algumas características não geográficas, que podem ser tangíveis ou intangíveis. 
Em outras palavras, a diferenciação de produtos é substituída pela dispersão 
geográfica. Neste caso, as empresas não mais temem os efeitos da competição de 
preços e se esforçam em permanecer o mais próximo possível do consumidor, 
com quem a correspondência (matching) for a melhor. Como estes consumidores 
estão espalhados pelo espaço do mercado, as empresas se estabelecem no centro, 
minimizando assim sua diferenciação geográfica. Este resultado está em acordo 
com a teoria de potencial de mercado, desenvolvida por Harris (1954) na geografia 
econômica clássica, segundo a qual as empresas tendem a se localizar onde elas 
têm o “melhor” acesso aos mercados nos quais podem vender seus produtos.
4 A NovA gEogrAFiA ECoNômiCA
A existência de desigualdades regionais há muito atrai a atenção dos economistas, 
especialmente na área conhecida como economia regional. Por muito tempo, 
entretanto, os conceitos,