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<p>Informativo 14-STJ (Edição Extraordinária) (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 1</p><p>Informativo comentado:</p><p>Informativo 14-STJ (EDIÇÃO EXTRAORDINÁRIA)</p><p>Márcio André Lopes Cavalcante</p><p>ÍNDICE</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO</p><p>▪ As empresas estatais prestadoras de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de atividade</p><p>econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial, são equiparadas à Fazenda Pública no que tange à</p><p>prescrição.</p><p>CONCURSOS PÚBLICOS</p><p>▪ Em concursos públicos, o critério utilizado para determinar se um candidato tem direito a participar das vagas</p><p>reservadas para pessoas negras baseia-se nas características físicas visíveis, como a cor da pele e traços faciais, ao</p><p>invés de sua herança genética ou ascendência.</p><p>SERVIDORES PÚBLICOS</p><p>▪ A GACEN é extensível aos aposentados e pensionistas que se enquadrarem na hipótese legal, pressupondo a</p><p>percepção da gratificação quando o servidor ainda estava em atividade.</p><p>PROCESSO ADMINISTRATIVO</p><p>▪ Negado o recurso administrativo interposto contra a multa, a data de vencimento continua sendo aquela contida</p><p>na primeira notificação, incidindo juros de mora a partir do primeiro dia subsequente ao vencimento do prazo</p><p>previsto para o pagamento da multa.</p><p>PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR</p><p>▪ O art. 57 da Lei 9.784/99 fala que o recurso administrativo tramitará por três instâncias; isso não significa, contudo,</p><p>que a parte poderá interpor três recursos.</p><p>CONTRATOS ADMINISTRATIVOS</p><p>▪ O contrato de financiamento habitacional celebrado por empresa pública com mutuários, ainda que de baixa renda,</p><p>pode conter cláusula de alienação fiduciária e, em caso de inadimplemento, pode ser realizado o leilão do imóvel,</p><p>não havendo ilegalidade nessa prática.</p><p>TEMAS DIVERSOS</p><p>▪ O ente federado pode promover diretamente ação judicial contra operadora privada de plano de saúde para</p><p>ressarcimento de valores referentes a prestação de serviço de saúde em cumprimento de ordem judicial.</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO MILITAR</p><p>▪ O reconhecimento do direito à reforma é devido ao militar temporário não estável no caso de cegueira, sem</p><p>distinção se ela atinge um ou os dois olhos, sendo dispensável a comprovação do nexo de causalidade com o serviço</p><p>castrense.</p><p>DIREITO AMBIENTAL</p><p>INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA</p><p>▪ O autuado por infração ambiental pode ser intimado por edital para apresentar alegações finais no processo</p><p>administrativo federal?</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 2</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO AMBIENTAL</p><p>▪ O desmatamento e a exploração madeireira sem licença ou autorização do órgão ambiental ocasiona danos</p><p>ambientais, constitui infração ambiental e gera indenização por dano moral coletivo in re ipsa, incidindo a Súmula</p><p>629/STJ.</p><p>DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>PLANO DE SAÚDE</p><p>▪ A regulamentação e a fiscalização dos denominados ‘cartões de descontos em serviços de saúde’ são de</p><p>competência da ANS.</p><p>DIREITO PROCESSUAL CIVIL</p><p>COMPETÊNCIA</p><p>▪ Compete à Justiça Federal julgar a causa, estabelecida entre particulares, que tem por objeto reintegração de posse</p><p>de imóvel que faz parte de comunidade quilombola.</p><p>FAZENDA PÚBLICA EM JUÍZO</p><p>▪ A modificação, na fase de liquidação, do índice de juros de mora especificamente estabelecido em decisão transitada</p><p>em julgado e proferida após o advento do Código Civil de 2002 e da Lei 11.960/2009 constitui ofensa à coisa julgada.</p><p>EXECUÇÃO (IMPENHORABILIDADE)</p><p>▪ É possível a penhora dos valores decorrentes de recompra dos Certificados financeiros do Tesouro Série E (CFT-E).</p><p>EXECUÇÃO FISCAL</p><p>▪ O Tema 444/STJ tratou sobre o redirecionamento contra os sócios da pessoa jurídica executada e que foi dissolvida</p><p>irregularmente; apesar disso, esse entendimento pode ser aplicado também para outros responsáveis tributários,</p><p>como é o caso do fiador da pessoa jurídica executada.</p><p>PROCESSO COLETIVO</p><p>▪ Aplica-se o entendimento exarado pelo STF no julgamento do ARE 709.212/DF ao cumprimento de sentença coletiva</p><p>que se pretende a execução individual dos direitos referentes à cobrança de valores não depositados no FGTS.</p><p>DIREITO TRIBUTÁRIO</p><p>IMPOSTO DE RENDA</p><p>▪ Se empresa brasileira contrata serviços técnicos e de assistência técnica, sem transferência de tecnologia, de</p><p>empresas situadas em países como Argentina, Chile, África do Sul e Peru, deverá reter o imposto de renda ao fazer</p><p>a remessa do pagamento.</p><p>▪ O art. 9º, da Lei 9.429/95, não impõe limitação temporal para a dedução de Juros sobre Capital Próprio (JCP)</p><p>referentes a exercícios anteriores.</p><p>▪ O § 1º do art. 7º da IN SRF 213/2002 é ilegal, pois permite a tributação do resultado positivo da equivalência</p><p>patrimonial de empresas controladas ou coligadas no exterior além dos lucros efetivamente realizados,</p><p>contrariando a legislação vigente.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 3</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO</p><p>As empresas estatais prestadoras de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de</p><p>atividade econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial, são equiparadas à</p><p>Fazenda Pública no que tange à prescrição</p><p>ODS 16</p><p>Aplica-se o regime normativo prescricional das pessoas jurídicas de direito público, previsto</p><p>no Decreto nº 20.910/1932 e no Decreto-Lei nº 4.597/1942, às entidades da Administração</p><p>Indireta com personalidade de direito privado que atuem na prestação de serviços públicos</p><p>essenciais sem finalidade lucrativa e sem natureza concorrencial.</p><p>STJ. Corte Especial. EREsp 1.725.030-SP, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 14/12/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>CDHU</p><p>A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) é uma empresa</p><p>pública (pessoa jurídica de direito privado) vinculada ao Estado de São Paulo.</p><p>A empresa tem por finalidade executar programas habitacionais em todo o território do Estado, voltados</p><p>para o atendimento exclusivo da população de baixa renda.</p><p>Desse modo, podemos dizer que é a CDHU é uma entidade da Administração Indireta, com personalidade</p><p>jurídica de direito privado, que atua na prestação de serviços públicos essenciais sem finalidade lucrativa</p><p>e sem natureza concorrencial.</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética:</p><p>A empresa Alfa foi contratada pela CDHU para construir um prédio.</p><p>A contratada fez a obra e, em março de 2015, a CDHU pagou o valor combinado no contrato.</p><p>Ocorre que esse pagamento foi feito com meses de atraso, porém, sem juros e correção monetária.</p><p>Diante disso, em março de 2019, a ALFA ajuizou ação contra a CDHU cobrando juros legais e correção</p><p>monetária considerando que a companhia pagou apenas o valor principal.</p><p>Em contestação, a CDHU alegou a ocorrência da prescrição trienal, com base no art. 206, § 3º, do Código</p><p>Civil. Isso porque o pagamento foi feito em março de 2015 e a ação somente foi proposta em março de</p><p>2019 (quatro anos depois). Veja o dispositivo legal invocado:</p><p>Art. 206. Prescreve:</p><p>(...)</p><p>§ 3º Em três anos:</p><p>(...)</p><p>III - a pretensão para haver juros, dividendos ou quaisquer prestações acessórias, pagáveis, em</p><p>períodos não maiores de um</p><p>os</p><p>b) praças com estabilidade.</p><p>Militar de carreira: são os da ativa que, no</p><p>desempenho voluntário e permanente do serviço</p><p>militar, tenham vitaliciedade assegurada ou</p><p>presumida. Ex: o oficial militar de carreira oriundo</p><p>da Academia Militar de Agulhas Negras.</p><p>Praça com estabilidade: é aquele com 10 anos ou</p><p>mais de efetivo serviço.</p><p>O militar temporário é aquele que permanece na</p><p>ativa por prazo determinado e enquanto for da</p><p>conveniência da administração militar.</p><p>Destina-se a completar as Armas e os Quadros de</p><p>Oficiais e as diversas Qualificações Militares de</p><p>Praças.</p><p>Está previsto no art. 3º, II, da Lei nº 6.391/76 (Lei</p><p>que trata sobre o Pessoal do Ministério do</p><p>Exército.</p><p>Possuem um vínculo permanente com as Forças</p><p>Armadas.</p><p>Possuem um vínculo precário e por tempo</p><p>determinado com as Forças Armadas.</p><p>Importante destacar a definição dada pelo Min. Mauro Campbell Marques:</p><p>“O militar temporário é aquele que permanece na ativa por prazo determinado e enquanto for da</p><p>conveniência do Administrador, destinando-se a completar as Armas e Quadros de Oficiais e as</p><p>diversas Qualificações Militares de Praças, nos moldes do art. 3º, II, da Lei 6.391/1976, de sorte</p><p>que, o término do tempo de serviço implica no seu licenciamento quando, a critério da</p><p>Administração, não houver conveniência na permanência daquele servidor nos quadros das Forças</p><p>Armadas (ex vi do art. 121, II e § 3º, da Lei 6.880/1980), a evidenciar um ato discricionário da</p><p>Administração Militar, que, contudo, encontra-se adstrito a determinados limites, entre eles a</p><p>existência de higidez física do militar a ser desligado, não sendo cabível o término do vínculo, por</p><p>iniciativa da Administração, quando o militar se encontrar incapacitado para o exercício das</p><p>atividades relacionadas ao serviço militar, hipótese em que deve ser mantido nas fileiras</p><p>castrenses até sua recuperação ou, não sendo possível, eventual reforma.” (EREsp 1123371-RS)</p><p>Reforma do militar temporário não estável em caso de incapacidade</p><p>A reforma do militar temporário não estável é devida nos casos de incapacidade:</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO MILITAR</p><p>O reconhecimento do direito à reforma é devido ao militar temporário não estável no caso de</p><p>cegueira, sem distinção se ela atinge um ou os dois olhos, sendo dispensável a comprovação do</p><p>nexo de causalidade com o serviço castrense</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 21</p><p>1) adquirida em função dos motivos constantes dos incisos I a V do art. 108 da Lei nº 6.880/80, que o</p><p>incapacite apenas para o serviço militar e independentemente da comprovação do nexo de causalidade</p><p>com o serviço militar;</p><p>2) quando a incapacidade decorre de acidente ou doença, moléstia ou enfermidade, sem relação de causa</p><p>e efeito com o serviço militar, que impossibilite o militar, total e permanentemente, de exercer qualquer</p><p>trabalho (invalidez total).</p><p>STJ. Corte Especial. EREsp 1123371-RS, Rel. Min. Og Fernandes, Rel. Acd. Min. Mauro Campbell Marques,</p><p>julgado em 19/09/2018 (Info 643).</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética:</p><p>João, militar temporário, sofreu um acidente de moto durante seu tempo livre, resultando em cegueira</p><p>monocular (cegueira em apenas um olho).</p><p>Após o acidente, ficou constatado que ele não estava mais apto para continuar o serviço militar.</p><p>João ingressou com ação contra a União pedindo a reforma, com fundamento no art. 108, V, da Lei nº</p><p>6.880/80 (Estatuto dos Militares):</p><p>Art. 108. A incapacidade definitiva pode sobrevir em consequência de:</p><p>(...)</p><p>V - tuberculose ativa, alienação mental, esclerose múltipla, neoplasia maligna, cegueira, lepra,</p><p>paralisia irreversível e incapacitante, cardiopatia grave, mal de Parkinson, pênfigo,</p><p>espondiloartrose anquilosante, nefropatia grave e outras moléstias que a lei indicar com base nas</p><p>conclusões da medicina especializada; e</p><p>A União contestou alegando que a cegueira monocular de João não pode ser considerada uma</p><p>incapacidade definitiva para o serviço militar, uma vez que não estaria relacionada às atividades militares.</p><p>Além disso, a cegueira unilateral não teria o condão de incapacitar totalmente João.</p><p>O STJ concordou com os argumentos de João ou da União?</p><p>De João.</p><p>Em primeiro lugar, deve-se esclarecer que o inciso V do art. 108 fala em cegueira, sem exigir que seja</p><p>bilateral. Logo, conclui-se que a cegueira é causa de incapacidade definitiva, independentemente de</p><p>atingir um ou os dois olhos. Nesse sentido:</p><p>Consoante jurisprudência pacífica nesta Corte, o inciso V do art. 108 da Lei 6.880/80 estabelece a cegueira</p><p>como causa de incapacidade definitiva, sem fazer distinção se ela atinge um ou os dois olhos. Assim,</p><p>descabido restringir o âmbito de abrangência da norma, a partir da inserção de texto nela inexistente,</p><p>para diminuir a proteção previdenciária que o legislador quis conferir aos casos que especifica.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AgInt no AREsp 1.853.793/RS, Rel. Min. Assusete Magalhães, DJe de 22/9/2022.</p><p>A Corte Especial do STJ, no julgamento dos EREsp 1.123.371/RS - que tratou da reforma de militar</p><p>temporário não estável -, fixou o entendimento no sentido de que: “a reforma do militar temporário não</p><p>estável é devida nos casos de incapacidade adquirida em função dos motivos constantes dos incisos I a V</p><p>do art. 108 da Lei 6.880/1980, que o incapacite apenas para o serviço militar e independentemente da</p><p>comprovação do nexo de causalidade com o serviço militar” (STJ. Corte Especial. EREsp 1123371-RS, Rel.</p><p>Min. Og Fernandes, Rel. Acd. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 19/09/2018. Info 643).</p><p>Ou seja, o militar temporário não estável pode ter direito à reforma se comprovar que é portador de uma</p><p>das doenças previstas no inciso V do art. 108, mesmo que não haja relação de causa e efeito com a</p><p>atividade castrense.</p><p>Em suma:</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 22</p><p>O militar temporário não estável, para ter direito à reforma, deve comprovar que é portador de uma</p><p>das doenças previstas no inciso V do art. 108, mesmo sem relação de causa e efeito com a atividade</p><p>castrense.</p><p>O inciso V do art. 108 da Lei nº 6.880/80 estabelece a cegueira como causa de incapacidade definitiva,</p><p>sem fazer distinção se ela atinge um ou os dois olhos.</p><p>Assim, descabido restringir o âmbito de abrangência da norma, a partir da inserção de texto nela</p><p>inexistente, para diminuir a proteção previdenciária que o legislador quis conferir aos casos que</p><p>especifica.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 2.064.105/RJ, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 2/10/2023 (Info 14</p><p>– Edição Extraordinária).</p><p>DIREITO DO CONSUMIDOR</p><p>PLANO DE SAÚDE</p><p>A regulamentação e a fiscalização dos denominados</p><p>‘cartões de descontos em serviços de saúde’ são de competência da ANS</p><p>ODS 3 E 16</p><p>O art. 1º, § 1º, da Lei nº 9.565/98 prevê que a ANS deverá fiscalizar as empresas que atuam</p><p>com o “oferecimento de rede credenciada ou referenciada”. Esse é exatamente o tipo de</p><p>produto oferecido pelas empresas comercializadoras dos denominados “cartões de desconto</p><p>em serviços de saúde”.</p><p>A vulnerabilidade dos consumidores que contratam e se valem de tais “cartões de desconto</p><p>em serviços de saúde”, via de regra economicamente hipossuficientes</p><p>sob o ponto de vista</p><p>técnico, jurídico e econômico, evidencia e reforça a necessidade da regulamentação e</p><p>fiscalização desse produto pela ANS, de forma a tutelar a vida, a saúde e a segurança dos</p><p>consumidores, nos exatos termos do CDC e da Lei nº 9.656/98.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 2.183.704-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 2/10/2023</p><p>(Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>Cartões de descontos em serviços de saúde</p><p>Os cartões de desconto em serviços de saúde são uma alternativa para pessoas que buscam acesso a</p><p>consultas médicas e exames com valores mais acessíveis, sem a necessidade de aderir a um plano de saúde</p><p>tradicional.</p><p>O usuário paga um valor (taxa de adesão, mensalidade ou anuidade) e, em troca, recebe um cartão que</p><p>oferece descontos em diversos serviços médicos, como consultas e exames, em uma rede de prestadores</p><p>parceiros da empresa que oferece o cartão.</p><p>Após o pagamento da taxa, o consumidor pode começar a utilizar o cartão imediatamente, sem período</p><p>de carência, para obter descontos em consultas, exames e, em alguns casos, em farmácias e outros</p><p>estabelecimentos. Os descontos são possíveis graças a parcerias com clínicas, laboratórios e outros</p><p>profissionais de saúde.</p><p>É importante ressaltar que os cartões de desconto em saúde não são planos de saúde. Eles oferecem</p><p>descontos em procedimentos médicos, mas não cobrem atendimentos emergenciais e internações, como</p><p>fazem os planos de saúde. Alguns cartões podem até oferecer atendimento online em caso de</p><p>emergências, mas isso não substitui um plano de saúde para situações de urgência.</p><p>Feito esse esclarecimento, imagine a seguinte situação adaptada:</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>PLANO DE SAÚDE</p><p>A regulamentação e a fiscalização dos denominados</p><p>‘cartões de descontos em serviços de saúde’ são de competência da ANS</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 23</p><p>O Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública contra a empresa “TODOS Empreendimentos LTDA”,</p><p>bem como contra a ANS e a ANEEL.</p><p>A ANS, Agência Nacional de Saúde Suplementar, é uma autarquia sob regime especial (agência</p><p>reguladora), criada pela Lei nº 9.961/2000, sendo responsável, dentre outras atribuições, por</p><p>regular o setor de planos de saúde no país.</p><p>A ANEEL, Agência Nacional de Energia Elétrica, também é uma autarquia sob regime especial,</p><p>criada pela Lei nº 9.427/96, com a finalidade de regular e fiscalizar a produção, transmissão,</p><p>distribuição e comercialização de energia elétrica no Brasil.</p><p>Argumentação do MPF contra a TODOS: a empresa estaria se apresentando, para o público consumidor,</p><p>como uma operadora de plano de saúde que fornece a seus segurados descontos em serviços de saúde,</p><p>educação e lazer, mediante a utilização do cartão denominado “CARTÃO DE TODOS”. Tratava-se, no</p><p>entanto, apenas de um cartão de descontos em serviços de saúde.</p><p>O serviço era cobrado mediante o débito nas contas de energia elétrica, o que causava confusão aos</p><p>consumidores.</p><p>Além de tudo, tal empresa não estava registrada na ANS para operar como plano de saúde.</p><p>Argumentação do MPF contra a ANEEL: alegou que a inclusão do pagamento dos “cartões de descontos”</p><p>na mesma fatura e código de barras do serviço de energia elétrica é uma prática abusiva, que viola o</p><p>Código de Defesa do Consumidor. A agência teria sido omissa ao permitir as cobranças indevidas nas</p><p>faturas de energia elétrica.</p><p>Argumentação do MPF contra a ANS: alegou que a ANS deveria ter fiscalizado e regulamentado os serviços</p><p>prestados pela TODOS, que estaria oferecendo descontos em saúde mas operando à margem da lei.</p><p>Vejamos o que o STJ decidiu em relação à ANEEL e a ANS.</p><p>É lícita a inclusão do pagamento dos “cartões de descontos” na mesma fatura e código de barras do</p><p>serviço de energia elétrica?</p><p>NÃO.</p><p>Há necessidade do controle de legalidade da forma de cobrança dos multicitados “cartões de desconto</p><p>em serviço de saúde” em razão do que dispõem os arts. 6º, III e IV; 37, §§1º e 3º, e 39, I, do CDC.</p><p>A fatura para pagamento da conta de energia e do multicitado “cartão de desconto em serviço de saúde”</p><p>não admite pagamento parcial, e ao consumidor somente é comunicado o direito à cisão das cobranças</p><p>quando já inadimplente e sujeito à suspensão do fornecimento de energia elétrica.</p><p>Embora seja formalmente facultado ao consumidor notificar a concessionária de energia quanto à</p><p>discordância sobre o valor cobrado pelo “cartão de desconto”, tal faculdade não é clara e intuitiva,</p><p>reverberando o caráter indevido e coercitivo resultante da cobrança conjunta (casada), que retira a</p><p>liberdade de escolha garantida ao consumidor pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC).</p><p>Desse modo, não é admissível a cobrança da energia elétrica e do denominado “cartão de descontos em</p><p>serviços de saúde” em um único código de barras. Isso porque confunde o consumidor que normalmente</p><p>utiliza tal produto - via de regra de baixa renda e portanto mais vulnerável e hipossuficiente - sobre os</p><p>serviços e produtos que estão sendo efetivamente pagos, levando-o a uma falsa percepção de que, em</p><p>não sendo quitada a dívida do “cartão de descontos”, o fornecimento de energia poderá ser interrompido.</p><p>Tal prática desrespeita a legislação consumerista, em especial os arts. 6º, III e IV; 37, §§1º e 3º, e 39, I, do</p><p>CDC.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 2.183.704/SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 2/10/2023.</p><p>A ANS deveria ter fiscalizado a empresa?</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 24</p><p>SIM.</p><p>A Lei nº 9.656/98, que dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde, prevê, em seu</p><p>art. 1º:</p><p>Art. 1º Submetem-se às disposições desta Lei as pessoas jurídicas de direito privado que operam</p><p>planos de assistência à saúde, sem prejuízo do cumprimento da legislação específica que rege a</p><p>sua atividade e, simultaneamente, das disposições da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990</p><p>(Código de Defesa do Consumidor), adotando-se, para fins de aplicação das normas aqui</p><p>estabelecidas, as seguintes definições:</p><p>(...)</p><p>§ 1º Está subordinada às normas e à fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar - ANS</p><p>qualquer modalidade de produto, serviço e contrato que apresente, além da garantia de cobertura</p><p>financeira de riscos de assistência médica, hospitalar e odontológica, outras características que o</p><p>diferencie de atividade exclusivamente financeira, tais como:</p><p>(...)</p><p>b) oferecimento de rede credenciada ou referenciada;</p><p>Tais dispositivos devem ser interpretados sistematicamente com o CDC, especialmente com os arts. 2º e</p><p>6º, I, III, IV e VI, voltados à defesa dos direitos que transcendem o individual, como é o caso da saúde,</p><p>consagrando o direito à tutela da vida, da integridade física e a efetiva prevenção dos danos que puderem</p><p>advir de práticas abusivas.</p><p>A vulnerabilidade dos consumidores que contratam e se valem de tais “cartões de desconto em serviços</p><p>de saúde”, via de regra economicamente hipossuficientes sob o ponto de vista técnico, jurídico e</p><p>econômico, evidencia e reforça a necessidade da regulamentação e fiscalização desse produto pela ANS,</p><p>de forma a tutelar a vida, a saúde e a segurança dos consumidores, nos exatos termos da Lei Consumerista</p><p>e da Lei nº 9.656/98.</p><p>O STJ</p><p>já julgou, na Corte Especial, a legitimidade do ato administrativo da ANS consistente na suspensão</p><p>de comercialização de produtos (planos de saúde) avaliados negativamente pela autarquia federal.</p><p>Tal entendimento deve se estender - principalmente - aos chamados “cartões de desconto em serviços de</p><p>saúde”, que seguem a mesma sistemática de oferta, com descontos, de rede credenciada ou referenciada</p><p>de atendimento em saúde aos consumidores, porquanto se assemelham aos planos de saúde em regime</p><p>de coparticipação, sendo irrelevante, para efeito de tutela dos direitos do consumidor, o fato de os</p><p>pagamentos aos profissionais de saúde serem realizados diretamente pelos usuários, e não pelo plano de</p><p>saúde.</p><p>Desse modo, a atuação da ANS precisa atuar neste caso para garantir a clareza e a adequação das</p><p>informações sobre esses produtos, assegurando que seus usuários compreendam eventuais diferenças</p><p>existentes para com os tradicionais planos de saúde.</p><p>Em suma:</p><p>A regulamentação e a fiscalização dos denominados "cartões de descontos em serviços de saúde" são</p><p>de competência da Agência Nacional de Saúde.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 2.183.704-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 2/10/2023 (Info 14</p><p>– Edição Extraordinária).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 25</p><p>DIREITO AMBIENTAL</p><p>INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA</p><p>O autuado por infração ambiental pode ser intimado por edital para</p><p>apresentar alegações finais no processo administrativo federal?</p><p>ODS 16</p><p>O Decreto nº 6.514/2008 prevê quais são as infrações e sanções administrativas ao meio</p><p>ambiente e estabelece o processo administrativo para apuração destas infrações.</p><p>O autuado pode ser intimado por edital para apresentar alegações finais (razões finais)?</p><p>Entre 2008 e 2019, vigorava o seguinte:</p><p>• se a autoridade julgadora não agravasse a penalidade que a atuação impôs, a intimação</p><p>poderia ser por edital fixado na sede administrativa e na rede mundial de computadores.</p><p>• caso a autoridade pretendesse agravar a penalidade, era necessária a intimação do autuado,</p><p>antes da decisão, por meio de aviso de recebimento.</p><p>Com a alteração promovida pelo Decreto 9.760/2019, estabeleceu-se que a notificação para</p><p>apresentação de alegações finais, em qualquer hipótese, deve ser feita por via postal, com</p><p>aviso de recebimento, ou por outro meio válido, que assegure a certeza da ciência pelo</p><p>interessado.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 2.021.212-PR, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 21/11/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>Observação inicial</p><p>Este julgado trata de questões relacionadas ao processo administrativo para apuração de infrações</p><p>ambientais e as formas de intimação para apresentação de alegações finais, segundo as regras do Decreto</p><p>nº 6.514/2008, no período de 2008 e 2019.</p><p>O Decreto nº 6.514/2008 prevê quais são as infrações e sanções administrativas ao meio ambiente e</p><p>estabelece o processo administrativo para apuração destas infrações.</p><p>Para explicar o julgado, imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>No dia 22/02/2010, durante fiscalização de rotina, fiscais do IBAMA constataram que a empresa Alfa Verde</p><p>Ltda estaria vendendo madeira serrada em desacordo com a licença obtida, o que configura uma infração</p><p>ambiental.</p><p>Em razão disso, os fiscais lavraram a autuação e multaram a empresa em R$ 14 mil.</p><p>A Alfa não concordou e apresentou defesa preliminar administrativa em 16/02/2012. Na defesa, a</p><p>empresa pediu para reduzir a multa.</p><p>O procedimento administrativo foi devidamente instruído.</p><p>Ao final da instrução, com fundamento no art. 122 do Decreto nº 6.514/2008, a empresa foi intimada, por</p><p>edital, de que o processo administrativo estaria apto para julgamento e que, caso assim desejasse, poderia</p><p>apresentar alegações finais no prazo de 10 dias.</p><p>O edital foi fixado na sede administrativa do IBAMA e na internet.</p><p>Esse prazo de 10 dias transcorreu sem manifestação da empresa.</p><p>Na sequência, em 20/08/2015, sobreveio decisão administrativa confirmando a autuação. Isso significa</p><p>que não houve melhora nem piora da situação da empresa. Ela continuou multada em R$ 14 mil.</p><p>E seria possível piorar a situação da empresa? A multa poderia aumentar? Sim. Isso seria possível, em tese.</p><p>Veja o que diz o art. 123 do Decreto nº 6.514/2008:</p><p>Art. 123. A decisão da autoridade julgadora não se vincula às sanções aplicadas pelo agente</p><p>autuante, ou ao valor da multa, podendo, em decisão motivada, de ofício ou a requerimento do</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>DIREITO AMBIENTAL</p><p>INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA</p><p>O autuado por infração ambiental pode ser intimado por edital para</p><p>apresentar alegações finais no processo administrativo federal? Com a alteração promovida pelo Decreto 9.760/2019, estabeleceu-se que a notificação para</p><p>apresentação de alegações finais, em qualquer hipótese, deve ser feita por via postal, com aviso de recebimento, ou por outro meio válido, que assegure a certeza da ciência pelo interessado.</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 26</p><p>interessado, minorar, manter ou majorar o seu valor, respeitados os limites estabelecidos na</p><p>legislação ambiental vigente.</p><p>Assim, a autoridade julgadora poderia decidir, por exemplo, que a empresa deveria receber multa de R$</p><p>18 mil.</p><p>Voltando ao caso concreto:</p><p>A atuação foi confirmada com a multa em R$ 14 mil.</p><p>Como não houve pagamento, o débito foi incluído em dívida ativa e, na sequência, o IBAMA ajuizou</p><p>execução fiscal contra a Alfa, na Justiça Federal.</p><p>A devedora apresentou embargos à execução alegando que, no processo administrativo, houve violação</p><p>ao contraditório. Isso porque ela foi intimada, por edital, para apresentar alegações finais. Na sua visão,</p><p>ela precisaria ser intimada via postal, mediante carta registrada com aviso de recebimento.</p><p>Em um caso concreto semelhante a esse, considerando o período em que os fatos ocorreram (2015), o</p><p>STJ reconheceu que houve nulidade do processo administrativo em razão da intimação por edital?</p><p>NÃO.</p><p>De 2008 até a alteração promovida pelo Decreto 9.760/2019:</p><p>A pessoa autuada por infração ambiental poderia ser intimada por edital para apresentar alegações finais</p><p>se a autoridade julgadora, ao final, não agravasse a penalidade imposta na autuação. Foi o caso concreto</p><p>aqui analisado. A autoridade julgadora rejeitou a defesa preliminar da empresa, mas manteve a</p><p>penalidade que a autuação já a impusera.</p><p>Por outro lado, para a autoridade julgadora majorar a penalidade, ou seja, para piorar a situação da pessoa</p><p>autuada, ela precisaria fazer a intimação por meio de aviso de recebimento.</p><p>O art. 122 c/c o art. 123 do Decreto nº 6.514/2008, na redação vigente na época, autorizavam essa</p><p>conclusão.</p><p>Assim, caso a autoridade pretendesse agravar a penalidade, o art. 123, parágrafo único, do mencionado</p><p>decreto, previa expressamente que a intimação deveria ser feita, antes da decisão, por meio de aviso de</p><p>recebimento.</p><p>Diante disso, o STJ decidiu que:</p><p>Consoante a sistemática adotada pelo Decreto nº 6.514/2008, entre 2008 e 2019, a intimação por edital,</p><p>fixado na sede administrativa e na rede mundial de computadores, para a apresentação de razões finais,</p><p>só poderia ocorrer, licitamente, quando a autoridade julgadora não</p><p>agravasse a penalidade que a</p><p>autuação impusera ao interessado.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 2.021.212-PR, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 21/11/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>A partir do Decreto 9.760/2019:</p><p>Com a alteração promovida pelo Decreto 9.760/2019, estabeleceu-se que a notificação para apresentação</p><p>de alegações finais, em qualquer hipótese, deve ser feita por via postal, com aviso de recebimento, ou por</p><p>outro meio válido, que assegure a certeza da ciência pelo interessado.</p><p>Em 2023, o art. 122 do Decreto nº 6.514/2008 foi novamente alterado, mas a intimação via postal continua</p><p>sendo a regra. Veja a redação atual:</p><p>Art. 122 (...)</p><p>§ 2º A notificação de que trata o § 1º deste artigo poderá ser realizada por:</p><p>I - via postal com aviso de recebimento; (Incluído pelo Decreto nº 11.373, de 2023)</p><p>II - notificação eletrônica, observado o disposto no § 4º do art. 96; ou (Incluído pelo Decreto nº</p><p>11.373, de 2023)</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 27</p><p>III - outro meio válido. (Incluído pelo Decreto nº 11.373, de 2023)</p><p>DOD PLUS – NÃO CONFUNDIR COM JULGADO CORRELATO</p><p>Quando o interessado poderá ser notificado por edital no processo administrativo?</p><p>Em processo administrativo, a notificação por edital reserva-se exclusivamente para as hipóteses de:</p><p>a) interessado indeterminado;</p><p>b) interessado desconhecido; ou</p><p>c) interessado com domicílio indefinido.</p><p>STJ. 1ª Seção. MS 27227-DF, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 27/01/2021 (Info 716).</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO AMBIENTAL</p><p>O desmatamento e a exploração madeireira sem licença ou autorização do órgão ambiental</p><p>ocasiona danos ambientais, constitui infração ambiental e gera indenização por dano moral</p><p>coletivo in re ipsa, incidindo a Súmula 629/STJ</p><p>ODS 2, 15 E 16</p><p>Caso adaptado: após uma denúncia anônima, agentes ambientais foram fiscalizar uma</p><p>propriedade rural denominada Fazenda Florestal, ocasião em que constataram que o</p><p>proprietário, João, desmatou extensa área de floresta nativa do Bioma Amazônico sem</p><p>autorização ou licença do órgão ambiental competente. Foi lavrado auto de infração.</p><p>O Ministério Público ingressou com ação civil pública contra João pedindo que ele fosse</p><p>condenado: 1) em obrigação de não fazer, consistente em não mais desmatar as áreas de</p><p>floresta nativa do seu imóvel; 2) em obrigação de fazer, consistente em restaurar o meio</p><p>ambiente de todos os danos causados; 3) a pagar danos morais em favor da coletividade.</p><p>Constatando-se que, por meio de desmatamento não autorizado, causaram-se danos à</p><p>qualidade do meio ambiente ecologicamente equilibrado, não tem pertinência, para a solução</p><p>da causa, o chamado princípio da tolerabilidade.</p><p>Trata-se de entendimento consolidado que, ao amparo do art. 225, § 3º, da Constituição</p><p>Federal e do art. 14, § 1º, da Lei nº 6.938/81, reconhece a necessidade de reparação integral</p><p>da lesão causada ao meio ambiente, permitindo a cumulação das obrigações de fazer, não fazer</p><p>e de indenizar, inclusive quanto aos danos morais coletivos.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.989.778-MT, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 19/9/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>REVISANDO A SÚMULA 629 DO STJ</p><p>Súmula 629-STJ: Quanto ao dano ambiental, é admitida a condenação do réu à obrigação de fazer ou à de</p><p>não fazer cumulada com a de indenizar.</p><p>Imagine que determinada empresa causou grave dano ambiental. O Ministério Público (ou outro</p><p>legitimado) poderá ajuizar ação civil pública pedindo que essa empresa seja condenada a recompor o</p><p>meio ambiente (obrigação de fazer)?</p><p>SIM, sem nenhuma dúvida.</p><p>Além disso, é possível que, na ACP, seja pedida a condenação da empresa ao pagamento de danos</p><p>morais em favor da coletividade (obrigação de indenizar)? Em outras palavras, em caso de dano</p><p>ambiental, é cabível a cumulação da obrigação de fazer (ou não fazer) com a obrigação de indenizar?</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO AMBIENTAL</p><p>O desmatamento e a exploração madeireira sem licença ou autorização do órgão ambiental</p><p>ocasiona danos ambientais, constitui infração ambiental e gera indenização por dano moral</p><p>coletivo in re ipsa, (ACP) incidindo a Súmula 629/STJ:</p><p>Súmula 629-STJ: Quanto ao dano ambiental, é admitida a condenação do réu à obrigação de fazer ou à de</p><p>não fazer cumulada com a de indenizar.</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 28</p><p>SIM. É perfeitamente possível que o poluidor seja condenado, cumulativamente, a recompor o meio</p><p>ambiente e a pagar indenização pelos danos causados. Isso porque vigora, em nosso sistema jurídico, o</p><p>princípio da reparação integral do dano ambiental, de modo que o infrator deverá ser responsabilizado</p><p>por todos os efeitos decorrentes da conduta lesiva, permitindo-se que haja a cumulação de obrigações de</p><p>fazer, de não fazer e de indenizar.</p><p>Lei nº 7.347/85 (Lei da ACP)</p><p>O art. 3º da Lei nº 7.347/85 afirma que a ACP “poderá ter por objeto a condenação em dinheiro ou o</p><p>cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer”.</p><p>Para o STJ, essa conjunção “ou” – contida no citado artigo, tem um sentido de adição (soma), não</p><p>representando uma alternativa excludente. Em outras palavras, será possível a condenação em dinheiro</p><p>e também ao cumprimento de obrigação de fazer/não fazer.</p><p>Veja precedente nesse sentido:</p><p>(...) Segundo a jurisprudência do STJ, a logicidade hermenêutica do art. 3º da Lei 7.347/1985 permite a</p><p>cumulação das condenações em obrigações de fazer ou não fazer e indenização pecuniária em sede de</p><p>ação civil pública, a fim de possibilitar a concreta e cabal reparação do dano ambiental pretérito, já</p><p>consumado. Microssistema de tutela coletiva. (...)</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1269494/MG, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 24/09/2013.</p><p>Importante esclarecer que não há “bis in idem” neste caso, considerando que as condenações possuem</p><p>finalidades e naturezas diferentes.</p><p>Vale ressaltar, por fim, que, apesar dessa possibilidade existir em tese, a condenação, no caso concreto, e</p><p>o seu eventual valor dependerão da situação:</p><p>O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento consolidado segundo o qual é possível a cumulação de</p><p>obrigações de fazer, de não fazer e de indenizar nos casos de lesão ao meio ambiente, contudo, a</p><p>necessidade do cumprimento de obrigação de pagar quantia deve ser aferida em cada situação analisada.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1538727/SC, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 07/08/2018.</p><p>DESMATAMENTO, EXPLORAÇÃO MADEIREIRA E DANO MORAL COLETIVO IN RE IPSA</p><p>Imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>No dia 26/07/2013, após uma denúncia anônima, agentes ambientais foram fiscalizar uma propriedade</p><p>rural denominada Fazenda Florestal, ocasião em que constataram que o proprietário, João, desmatou</p><p>extensa área de floresta nativa do Bioma Amazônico sem autorização ou licença do órgão ambiental</p><p>competente.</p><p>Foi lavrado auto de infração e aplicada medida cautelar de embargo na área.</p><p>O Ministério Público foi informado e ingressou com ação civil pública contra João pedindo que ele fosse</p><p>condenado:</p><p>• em obrigação de não fazer, consistente em não mais desmatar as áreas de floresta nativa do seu imóvel;</p><p>• em obrigação de fazer, consistente em restaurar o meio</p><p>ambiente de todos os danos causados;</p><p>• a pagar danos morais em favor da coletividade.</p><p>O juiz e o Tribunal de Justiça não concordaram com a condenação do réu em danos morais coletivos.</p><p>O TJ alegou que não seria possível reconhecer o dano moral, porque, para isso, seria necessário que a</p><p>lesão ambiental tivesse ultrapassado os limites da tolerabilidade. Argumentou ainda que não havia nos</p><p>autos elementos suficientes para confirmar que o desmatamento realizado causou intranquilidade social</p><p>ou alterações relevantes à coletividade local.</p><p>O Ministério Público interpôs recurso especial alegando que, no caso concreto, trata-se de dano moral</p><p>coletivo in re ipsa.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 29</p><p>O STJ deu provimento ao recurso do MP?</p><p>SIM.</p><p>É possível a condenação por dano moral coletivo ambiental em Ação Civil Pública, motivada por</p><p>desmatamento de floresta nativa do Bioma Amazônico, que impôs somente a obrigação de indenizar os</p><p>danos materiais decorrentes do impedimento da recomposição natural da área.</p><p>No caso, o fundamento adotado pelo Juízo a quo de que não seria possível reconhecer o dano moral,</p><p>porque, para isso, seria necessário que a lesão ambiental “desborde os limites da tolerabilidade” não</p><p>possui pertinência para solução da causa. Isso porque, na situação sob exame, houve desmatamento e</p><p>exploração madeireira sem a indispensável licença ou autorização do órgão ambiental competente,</p><p>conduta que ocasionou danos ambientais no local, comprometendo a qualidade do meio ambiente</p><p>ecologicamente equilibrado.</p><p>Nesse sentido, constatando-se que, por meio de desmatamento não autorizado, causaram-se danos à</p><p>qualidade do meio ambiente ecologicamente equilibrado, não tem pertinência, para a solução da causa,</p><p>o chamado princípio da tolerabilidade, construção que se embasa, precisamente, na distinção feita pela</p><p>legislação ambiental entre, de um lado, impacto ambiental - alteração do meio ambiente, resultante das</p><p>atividades humanas, que pode ser benéfica ou adversa (Resolução CONAMA n. 001/1986, arts. 1º e 6º, II)</p><p>- e, de outro, degradação e poluição (Lei 6.938/1981, art. 3º, II e III).</p><p>Como esclarece a doutrina especializada:</p><p>“De um modo geral as concentrações populacionais, as indústrias, o comércio, os veículos, a</p><p>agricultura e a pecuária produzem alterações no meio ambiente, as quais somente devem ser</p><p>contidas e controladas, quando se tornam intoleráveis e prejudiciais à comunidade,</p><p>caracterizando poluição reprimível. Para tanto, a necessidade de prévia fixação técnica dos índices</p><p>de tolerabilidade, dos padrões admissíveis de alterabilidade de cada ambiente, para cada</p><p>atividade poluidora” (MEIRELLES, Hely Lopes. Proteção Ambiental e Ação Civil Pública. Revista dos</p><p>Tribunais nº 611, São Paulo: RT, 1986, p. 11).</p><p>“(...) o princípio do limite de tolerabilidade, compreendido na sua exata significação, longe de</p><p>consagrar um direito de degradar, emerge, diversamente, como um mecanismo de proteção do</p><p>meio ambiente, tendente a estabelecer um certo equilíbrio entre as atividades interventivas do</p><p>homem e o respeito às leis naturais e aos valores culturais que regem os fatores ambientais</p><p>condicionantes da vida” (MIRRA, Álvaro Luiz Valery. Ação civil pública e a reparação do dano ao</p><p>meio ambiente. 2ª ed. atual. - São Paulo: Juarez de Oliveira, 2004, p. 107).</p><p>“Neste sentido, há que se considerar como suficiente para a comprovação do dano</p><p>extrapatrimonial a prova do fato lesivo – intolerável – ao meio ambiente. Assim, diante das</p><p>próprias evidências fáticas da degradação ambiental intolerável, deve-se presumir a violação ao</p><p>ideal coletivo relacionado à proteção ambiental e, logo, o desrespeito ao direito humano</p><p>fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado” (LEITE, José Rubens Morato. Dano</p><p>ambiental, do individual ao coletivo extrapatrimonial. Teoria e prática. 5ª ed. Editora Revista dos</p><p>Tribunais, 2012, p. 288).</p><p>Assim, constatado o dano ambiental - e não mero impacto negativo decorrente de atividade regular, que,</p><p>por si só, já exigiria medidas mitigatórias ou compensatórias -, incide a Súmula 629/STJ: “Quanto ao dano</p><p>ambiental, é admitida a condenação do réu à obrigação de fazer ou à de não fazer cumulada com a de</p><p>indenizar”.</p><p>Trata-se de entendimento consolidado que, ao amparo do art. 225, § 3º, da Constituição Federal e do art.</p><p>14, § 1º, da Lei nº 6.938/81, reconhece a necessidade de reparação integral da lesão causada ao meio</p><p>ambiente, permitindo a cumulação das obrigações de fazer, não fazer e de indenizar, inclusive quanto aos</p><p>danos morais coletivos.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 30</p><p>Ao contrário do que afirmou o TJ, não era exigida uma “situação fática excepcional” para haver a</p><p>condenação por danos morais. O STJ entende que, em matéria ambiental, “os danos morais coletivos são</p><p>presumidos. É inviável a exigência de elementos materiais específicos e pontuais para sua configuração. A</p><p>configuração dessa espécie de dano depende da verificação de aspectos objetivos da causa” (STJ. 2ª</p><p>Turma. REsp 1.940.030/SP, Rel. Min. Og Fernandes, DJe de 6/9/2022).</p><p>Há precedentes no STJ reconhecendo que a prática do desmatamento, em situações como a do caso, pode</p><p>ensejar dano moral:</p><p>Quem ilegalmente desmata, ou deixa que desmatem, floresta ou vegetação nativa responde</p><p>objetivamente pela completa recuperação da área degradada, sem prejuízo do pagamento de indenização</p><p>pelos danos, inclusive morais, que tenha causado.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.058.222/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, DJe de 4/5/2011.</p><p>No caso, o ilícito sob exame não pode ser considerado de menor importância, uma vez que houve</p><p>exploração de 15,467 hectares de floresta nativa, objeto de especial preservação, na região amazônica,</p><p>com exploração madeireira e abertura de ramais, sem autorização do órgão ambiental competente.</p><p>Assim, constatado o dano ambiental e não o mero impacto negativo decorrente de atividade regular,</p><p>incide a Súmula 629/STJ.</p><p>Em suma:</p><p>O desmatamento e a exploração madeireira sem a indispensável licença ou autorização do órgão</p><p>ambiental competente, cuja conduta tem ocasionado danos ambientais no local, constitui infração</p><p>ambiental e gera indenização por dano moral coletivo in re ipsa, incidindo a Súmula 629/STJ.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.989.778-MT, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 19/9/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>DIREITO PROCESSUAL CIVIL</p><p>COMPETÊNCIA</p><p>Compete à Justiça Federal julgar a causa, estabelecida entre particulares, que tem por objeto</p><p>reintegração de posse de imóvel que faz parte de comunidade quilombola</p><p>ODS 16</p><p>Caso adaptado: Regina ajuizou ação de reintegração de posse de um imóvel localizado em uma</p><p>comunidade quilombola. A ação foi proposta contra João, sendo ajuizada inicialmente na</p><p>Justiça Estadual. O Juízo de Direito declinou sua competência, argumentando que se tratava</p><p>de uma área integrante de comunidade quilombola e que o INCRA havia emitido uma licença</p><p>de ocupação para um indivíduo particular. O Juízo Federal devolveu o processo ao Juízo</p><p>estadual, alegando que a disputa ocorria entre particulares e não envolvia discussão sobre o</p><p>domínio do imóvel. No entanto, a controvérsia</p><p>se destaca por envolver uma licença de</p><p>ocupação do INCRA, reconhecendo a posse de João.</p><p>O STJ decidiu que a competência é da Justiça Federal porque há interesse da União. A Instrução</p><p>Normativa nº 49 do INCRA estabelece que cabe a esta autarquia a gestão de questões</p><p>relacionadas às terras ocupadas por comunidades quilombolas. Identificado o interesse</p><p>jurídico da União, devido à atuação do INCRA em matéria fundiária envolvendo área</p><p>quilombola, a competência para julgar o caso recai sobre a Justiça Federal, conforme</p><p>estabelecido pelo art. 109, I, da CF/88. Assim, levando em conta as importantes implicações</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>COMPETÊNCIA</p><p>Compete à Justiça Federal julgar a causa, estabelecida entre particulares, que tem por objeto</p><p>reintegração de posse de imóvel que faz parte de comunidade quilombola (há interesse da União)</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 31</p><p>das ações possessórias e a existência de uma disputa sobre um imóvel demarcado e atribuído</p><p>à comunidade quilombola, cabe exclusivamente ao Juízo federal resolver a questão.</p><p>STJ. 1ª Seção. CC 190.297-AP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 27/9/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>Quilombolas</p><p>O art. 68 do ADCT da CF/88 estabelece:</p><p>Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é</p><p>reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.</p><p>O que são remanescentes das comunidades dos quilombos?</p><p>Existe uma grande discussão antropológica sobre isso, mas de maneira bem simples, os grupos que hoje</p><p>são considerados remanescentes de comunidades de quilombos são agrupamentos humanos de</p><p>afrodescendentes que se formaram durante o sistema escravocrata ou logo após a sua extinção e que se</p><p>originaram não apenas por causa das fugas de escravos, mas também em decorrência de heranças,</p><p>doações, recebimento de terras como pagamento de serviços prestados etc.</p><p>O Decreto 4.887/2003 assim os define:</p><p>Art. 2º Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para os fins deste</p><p>Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica</p><p>própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra</p><p>relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética:</p><p>Em 1998, Regina adquiriu de João um imóvel rural denominado “Sítio Remanso”, situado em Macapá/AP.</p><p>Desde então, Regina sempre exerceu a posse do imóvel, que era todo cercado.</p><p>Em 07/01/2019, Pedro, dono de uma propriedade vizinha ao sítio, destruiu cerca que delimitava o imóvel</p><p>e iniciou a construção de outra, adentrando na área pertencente a Regina.</p><p>Regina ingressou com ação de reintegração de posse perante a Vara Cível de Macapá/AP (Justiça Estadual).</p><p>O requerido foi devidamente citado e apresentou resposta.</p><p>No curso da instrução, o magistrado chamou o feito à ordem e declinou da competência para a Justiça</p><p>Federal.</p><p>De acordo com a decisão, o imóvel rural em questão situa-se em área definida pela lista Coordenação das</p><p>Comunidades Quilombolas do Amapá - CONAQ/AP como sendo de comunidade quilombola no Amapá,</p><p>circunstância que atrairia a competência da Justiça Federal, a teor da Súmula 150, do STJ: “Compete à</p><p>Justiça Federal decidir sobre a existência de interesse jurídico que justifique a presença, no processo, da</p><p>União, suas autarquias ou empresas públicas”.</p><p>O feito, então, foi distribuído para a 1ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária do Amapá.</p><p>O juízo federal declinou da competência e determinou a restituição à Justiça Estadual.</p><p>De acordo com a decisão, a demanda possessória se desenvolve entre particulares e não há nenhuma</p><p>discussão acerca do domínio sobre o imóvel em litígio, muito menos qualquer questão ligada à delimitação</p><p>da área quilombola, o que afasta o interesse do Incra ou de qualquer outro ente da Administração Pública</p><p>Federal em intervir na lide e, consequentemente, a competência da Justiça Federal para processá-la e</p><p>julgá-la.</p><p>Destacou, ainda, que as ações possessórias entre particulares (o que engloba os conflitos dentro de áreas</p><p>quilombolas), mesmo que referentes a terrenos de domínio da União, não são processadas perante a</p><p>Justiça Federal.</p><p>Além disso, mencionou que a disputa possessória estabelecida, ainda que a área quilombola estivesse</p><p>delimitada e o imóvel disputado nela estivesse inserido, não seria da competência da Justiça Federal, pois</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 32</p><p>áreas quilombolas são áreas pertencentes às comunidades dos quilombos, sendo, portanto, particulares</p><p>(art. 68 do ADCT).</p><p>O juízo da 2ª Vara Cível da Comarca de Macapá suscitou, então, conflito negativo de competência perante</p><p>o Superior Tribunal de Justiça.</p><p>O que decidiu o STJ? A competência para julgar essa causa é da Justiça Estadual ou Federal?</p><p>Justiça Federal.</p><p>A ação originária, estabelecida entre particulares, tem por objeto a reintegração de posse de imóvel que</p><p>faz parte da comunidade quilombola, conforme lista da Coordenação das Comunidades Quilombolas do</p><p>Amapá - CONAQ/AP.</p><p>Em se tratando de ação possessória, em regra, não cabe a discussão sobre o domínio. Contudo, há duas</p><p>exceções:</p><p>1) quando os litigantes disputam a posse alegando propriedade ou;</p><p>2) quando duvidosa ambas as posses suscitadas.</p><p>No caso, a controvérsia reside na segunda exceção, tendo em vista que há evidente debate sobre a</p><p>legitimidade da posse do imóvel que constitui objeto da ação de reintegração.</p><p>No caso, consta licença de ocupação, expedida pelo INCRA, dando reconhecimento de posse a Pedro.</p><p>O art. 5º da Instrução Normativa n. 49 do INCRA dispõe que lhe compete a identificação, o</p><p>reconhecimento, a delimitação, a demarcação, a desintrusão, a titulação e o registro imobiliário das terras</p><p>ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos.</p><p>Logo, existe interesse jurídico da União, explicitado pela atuação da autarquia federal agrária em matéria</p><p>fundiária coletiva, notadamente envolvendo área quilombola, suficiente para atrair a competência da</p><p>Justiça Federal, ex vi do art. 109, I, da Constituição Federal.</p><p>Além disso, compete ao INCRA (art. 3º do Decreto n. 4.887/2003) a tarefa de demarcação e titulação de</p><p>terras ocupadas por comunidade remanescente de quilombo, o que evidencia o interesse da União na</p><p>demanda, representado por meio da aludida autarquia.</p><p>Assim, considerando as repercussões das ações possessórias, bem como a existência de disputa sobre</p><p>imóvel demarcado e cuja titularidade foi atribuída à comunidade quilombola, cabe exclusivamente ao</p><p>Juízo federal resolver a questão.</p><p>Em suma:</p><p>Compete à Justiça Federal julgar a causa, estabelecida entre particulares, que tem por objeto</p><p>reintegração de posse de imóvel que faz parte de comunidade quilombola.</p><p>STJ. 1ª Seção. CC 190.297-AP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 27/9/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>FAZENDA PÚBLICA EM JUÍZO</p><p>A modificação, na fase de liquidação, do índice de juros de mora especificamente estabelecido</p><p>em decisão transitada em julgado e proferida após o advento do Código Civil de 2002 e da Lei</p><p>11.960/2009 constitui ofensa à</p><p>coisa julgada</p><p>ODS 16</p><p>Caso hipotético: João, servidor público federal, ajuizou ação contra a União pedindo o</p><p>pagamento das parcelas atrasadas de uma gratificação que ele tinha direito.</p><p>Em 2013, o juiz julgou o pedido procedente determinando o pagamento das parcelas</p><p>atrasadas, acrescidas de juros e correção monetária. Na sentença, constou que o índice de</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>FAZENDA PÚBLICA EM JUÍZO</p><p>A modificação, na fase de liquidação, do índice de juros de mora especificamente estabelecido</p><p>em decisão transitada em julgado e proferida após o advento do Código Civil de 2002 e da Lei</p><p>11.960/2009 constitui ofensa à coisa julgada</p><p>IMPORTANTE. Situações nas quais é possível, na liquidação de sentença, aplicar ou modificar os</p><p>consectários legais (juros e correção monetária):</p><p>a) quando não houve prévio debate sobre eles</p><p>b) quando a lei que altera o regime de juros é superveniente à decisão que os fixou</p><p>c) se a decisão que os fixou é posterior a 17/05/2018, data em que o Supremo Tribunal Federal concluiu o julgamento da ADI nº 2.332/DF</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 33</p><p>correção monetária deveria ser a Taxa Referencial (caderneta de poupança), prevista no art.</p><p>1º-F da Lei 9.494/97, com a redação dada pela Lei nº 11.960/2009.</p><p>O autor não recorreu. A Fazenda Nacional, por sua vez, apelou, mas a sentença foi mantida pelo</p><p>TRF. Em julho de 2017 (antes da decisão do STF no Tema 810), houve o trânsito em julgado.</p><p>Em 2018, no cumprimento de sentença, João pediu para que os atrasados fossem calculados</p><p>com base no IPCA-E (e não pela TR). Invocou a decisão do STF no Tema 810 (RE 870.947/SE)</p><p>na qual a TR foi declarada inconstitucional.</p><p>O pedido de João não pode ser acolhido sob pena de violar a coisa julgada.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 2.097.689-PB, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em</p><p>4/12/2023 (Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>A REDAÇÃO ATUAL DO ART. 1º-F DA LEI Nº 9.494/97 É INAPLICÁVEL NO TOCANTE À CORREÇÃO MONETÁRIA</p><p>Antes de explicar o que decidiu o STJ neste Informativo, é necessário relembrar o entendimento</p><p>jurisprudencial segundo o qual a aplicação da TR como índice de correção monetária é inconstitucional.</p><p>Para isso, imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>Em 2018, Pedro, servidor público federal, ajuizou ação contra a União pedindo para que:</p><p>a) fosse reconhecido que ele tem direito à gratificação X;</p><p>b) a gratificação seja incorporada aos seus vencimentos mensais; e que</p><p>c) o Poder Público seja condenado a pagar as parcelas atrasadas desta gratificação relativas aos últimos</p><p>cinco anos.</p><p>Em 2019, o juiz julgou os pedidos procedentes determinando o pagamento das parcelas atrasadas,</p><p>acrescidas de juros e correção monetária.</p><p>Na sentença, constou que o índice de correção monetária deveria ser o IPCA-E.</p><p>A Fazenda Pública recorreu argumentando que a correção monetária deveria seguir a Taxa Referencial</p><p>(caderneta de poupança), prevista no art. 1º-F da Lei 9.494/97:</p><p>Art. 1º-F. Nas condenações impostas à Fazenda Pública, independentemente de sua natureza e</p><p>para fins de atualização monetária, remuneração do capital e compensação da mora, haverá a</p><p>incidência uma única vez, até o efetivo pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e</p><p>juros aplicados à caderneta de poupança. (Redação dada pela Lei nº 11.960, de 2009)</p><p>O argumento da Fazenda Pública será acolhido?</p><p>NÃO.</p><p>Juros e correção monetária em caso de condenações impostas à Fazenda Pública</p><p>Imagine que determinado indivíduo ingressa com uma ação judicial pedindo que a Fazenda Pública seja</p><p>condenada a pagar quantia em dinheiro.</p><p>Ex1: servidor público propõe ação judicial pedindo a condenação da União ao pagamento de gratificação</p><p>funcional de forma retroativa desde a data em que foi publicada determinada lei.</p><p>Ex2: segurado fez requerimento administrativo ao INSS pedindo aposentadoria por invalidez; como o</p><p>pedido foi indeferido, o segurado ingressa com ação judicial pleiteando que o INSS conceda o benefício e</p><p>que pague os valores de forma retroativa à data do requerimento administrativo.</p><p>Levará alguns meses ou anos até que a ação chegue ao fim. Dessa forma, como há essa demora em o</p><p>processo terminar, a legislação prevê que o órgão judicial, ao condenar a Fazenda Pública, deverá</p><p>determinar que ela pague a quantia principal acrescida de juros e correção monetária.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 34</p><p>Assim, em nosso primeiro exemplo, o juiz irá determinar que a União pague as gratificações atrasadas</p><p>acrescidas de juros e correção monetária. No segundo exemplo, o magistrado condenará o INSS a pagar</p><p>as prestações pretéritas da aposentadoria mais juros e correção monetária.</p><p>Quais os índices de juros e correção monetária que a Lei prevê para esses casos?</p><p>O tema é tratado no art. 1º-F da Lei nº 9.494/97:</p><p>Art. 1º-F. Nas condenações impostas à Fazenda Pública, independentemente de sua natureza e</p><p>para fins de atualização monetária, remuneração do capital e compensação da mora, haverá a</p><p>incidência uma única vez, até o efetivo pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e</p><p>juros aplicados à caderneta de poupança. (Redação dada pela Lei nº 11.960/2009)</p><p>Desse modo, de acordo com esse dispositivo, deveriam ser adotados os seguintes parâmetros:</p><p>• correção monetária: índice oficial de remuneração básica da caderneta de poupança (este índice é</p><p>chamado de TR — Taxa Referencial);</p><p>• juros de mora: juros simples no mesmo percentual que é pago na poupança (0,5% ao mês / 6% ao ano).</p><p>Assim, de acordo com o texto da Lei, quando a Fazenda Pública estivesse em débito (atraso), a correção</p><p>monetária e os juros de mora deveriam adotar os índices e percentuais aplicáveis às cadernetas de poupança.</p><p>Esse art. 1ºF da Lei nº 9.494/97 é constitucional? O que decidiu o STF a respeito?</p><p>O tema deve ser analisado de acordo com a natureza dos débitos discutidos em juízo.</p><p>Débitos de natureza não-tributária</p><p>O art. 1º-F trata sobre juros e também sobre correção monetária. São institutos distintos.</p><p>Quanto à CORREÇÃO MONETÁRIA, o STF afirmou que a previsão do art. 1ºF é inconstitucional.</p><p>A correção monetária é simplesmente uma forma de manter o poder de compra da moeda. Se uma pessoa</p><p>tem R$ 100 mil hoje, não significa que daqui a dois anos esses R$ 100 mil conseguirão comprar as mesmas</p><p>coisas. O normal é que não, em virtude da inflação. Logo, a correção monetária tem por objetivo fazer</p><p>com que o valor de compra da moeda seja “atualizado”.</p><p>O art. 1º-F afirma que a correção monetária deve ser feita pelo índice oficial da poupança (que é chamado</p><p>de TR — Taxa Referencial). Ocorre que isso não consegue evitar a perda de poder aquisitivo da moeda.</p><p>Esse índice (TR) é fixado ex ante, ou seja, previamente, a partir de critérios técnicos não relacionados com</p><p>a inflação considerada no período. Em outras palavras, a TR é calculada antes de a inflação ocorrer. Assim,</p><p>a remuneração da caderneta de poupança – diferentemente de qualquer outro índice oficial de inflação –</p><p>é sempre prefixada. Essa circunstância deixa claro que existe uma desvinculação entre a remuneração da</p><p>poupança e a evolução dos preços da economia, isto é, a TR não capta a variação da inflação.</p><p>A inflação é um fenômeno tipicamente econômico-monetário e, portanto, mostra-se insuscetível de</p><p>captação apriorística (ex ante). Não dá para se ter certeza do quanto será a inflação e estabelecer um</p><p>índice antes que ela ocorra.</p><p>Por essa razão, diz-se que todo índice definido ex ante é incapaz de refletir a real flutuação de preços</p><p>apurada no período em referência. É o caso da TR (poupança).</p><p>Dessa maneira, como este índice não consegue manter o valor real da condenação, ele afronta à própria</p><p>decisão judicial, tendo em vista que o valor real do crédito previsto na condenação judicial não será o valor</p><p>que o credor irá receber efetivamente. Este valor terá sido corroído pela inflação.</p><p>A finalidade da correção monetária consiste em deixar a parte na mesma situação econômica que se</p><p>encontrava antes. Nesse sentido, o direito à correção monetária é um reflexo imediato da proteção da</p><p>propriedade.</p><p>A título de curiosidade, veja como a TR é um índice completamente injusto e que não garante o poder de</p><p>compra:</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 35</p><p>Imaginemos que, em maio de 2009, a pessoa possuía um crédito de R$ 100 mil para receber da União.</p><p>Se aplicarmos a TR, em dezembro de 2014 esse crédito estará em R$ 103.572,42 (cento e três mil,</p><p>quinhentos e setenta e dois reais e quarenta e dois centavos). É óbvio que nesses 5 anos o valor da inflação</p><p>foi superior a isso, ou seja, mesmo com a correção monetária, a pessoa perdeu poder de compra.</p><p>Se aplicarmos o IPCA-E como índice de correção monetária neste mesmo período, esse crédito será</p><p>equivalente a R$ 137.913,29 (cento e trinta e sete mil, novecentos e treze reais e vinte e nove centavos).</p><p>Perceba que a diferença supera 30%.</p><p>Em suma, a taxa básica de remuneração da poupança não mede, de forma adequada, a inflação acumulada</p><p>do período e, portanto, não pode servir de parâmetro para a correção monetária.</p><p>O STF assim decidiu, fixando a seguinte tese:</p><p>O art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, com a redação dada pela Lei nº 11.960/2009, na parte em que disciplina a</p><p>atualização monetária das condenações impostas à Fazenda Pública segundo a remuneração oficial da</p><p>caderneta de poupança, revela-se inconstitucional ao impor restrição desproporcional ao direito de</p><p>propriedade (art. 5º, XXII, da CF/88), uma vez que não se qualifica como medida adequada a capturar a</p><p>variação de preços da economia, sendo inidônea a promover os fins a que se destina.</p><p>STF. Plenário. RE 870947/SE, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 20/9/2017 (Repercussão Geral – Tema 810)</p><p>(Info 878).</p><p>Quanto aos JUROS DE MORA relacionados com dívidas não-tributárias, o STF afirmou que o índice previsto</p><p>no art. 1º-F é válido (constitucional).</p><p>O STF entendeu que não há qualquer inconstitucionalidade no fato de a lei ter previsto que os juros</p><p>moratórios das dívidas não-tributárias seriam equivalentes aos da caderneta de poupança.</p><p>Assim, no caso de juros moratórios quanto a débitos não-tributários da Fazenda Pública, continua sendo</p><p>aplicado o art. 1º-F.</p><p>É o que acontece, por exemplo, quando a Fazenda Pública é condenada a pagar benefícios previdenciários</p><p>ou verbas a servidores públicos. Em tais situações, os juros moratórios serão os da poupança.</p><p>O STF assim decidiu, fixando a seguinte tese:</p><p>Quanto às condenações oriundas de relação jurídica não-tributária, a fixação dos juros moratórios</p><p>segundo o índice de remuneração da caderneta de poupança é constitucional, permanecendo hígido,</p><p>nesta extensão, o disposto no art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, com a redação dada pela Lei nº 11.960/2009.</p><p>STF. Plenário. RE 870947/SE, Rel. Min. Luiz Fux, julgado em 20/9/2017 (Repercussão Geral – Tema 810)</p><p>(Info 878).</p><p>Resumindo:</p><p>JUROS DE MORA E CORREÇÃO MONETÁRIA ENVOLVENDO CONDENAÇÕES DA FAZENDA PÚBLICA</p><p>DÉBITOS DE NATUREZA TRIBUTÁRIA DÉBITOS DE NATUREZA NÃO-TRIBUTÁRIA</p><p>O que previa o art. 1º-F da Lei nº 9.494/97?</p><p>• Correção monetária: índice oficial de</p><p>remuneração básica da poupança (TR);</p><p>• Juros de mora: juros no mesmo percentual que</p><p>é pago na poupança (0,5% a.m. / 6% a.a.).</p><p>O que previa o art. 1º-F da Lei nº 9.494/97?</p><p>• Correção monetária: índice oficial de</p><p>remuneração básica da poupança (TR);</p><p>• Juros de mora: juros no mesmo percentual que</p><p>é pago na poupança (0,5% a.m. / 6% a.a.).</p><p>O que decidiu o STF?</p><p>Essa previsão é inconstitucional.</p><p>O que decidiu o STF?</p><p>• Quanto à correção monetária: o art. 1º-F é</p><p>inconstitucional. O índice da poupança não</p><p>consegue capturar a variação de preços da</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 36</p><p>Tanto os índices de juros como de correção</p><p>monetária previstos no art. 1º-F são</p><p>inconstitucionais.</p><p>economia, não sendo capaz de fazer a correta</p><p>atualização monetária. Logo, há uma violação do</p><p>direito à propriedade.</p><p>• Quanto aos juros de mora: o art. 1º-F é</p><p>constitucional.</p><p>O STJ concordou com o STF e afirmou o seguinte:</p><p>Como a TR é inconstitucional, ela não poderá ser utilizada para nenhuma condenação envolvendo a</p><p>Fazenda Pública, não importando a matéria discutida (previdenciário, tributário, administrativo,</p><p>servidores públicos etc.). Veja a tese fixada pelo Tribunal:</p><p>O art. 1º-F da Lei nº 9.494/1997 (com redação dada pela Lei nº 11.960/2009), para fins de correção</p><p>monetária, não é aplicável nas condenações judiciais impostas à Fazenda Pública, independentemente de</p><p>sua natureza.</p><p>STJ. 1ª Seção. REsp 1.495.146-MG, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 22/02/2018 (Recurso</p><p>Repetitivo – Tema 905) (Info 620).</p><p>A redação atual do art. 1º-F da Lei n. 9.494/2007 é inaplicável no tocante à correção monetária.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 638.541-MA, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 21/11/2023</p><p>(Info 798).</p><p>O IPCA-E NÃO DEVERÁ SER APLICADO SE O TÍTULO EXECUTIVO DETERMINOU A INCIDÊNCIA DO ART. 1º-F</p><p>DA LEI Nº 9.494/97 E TRANSITOU EM JULGADO</p><p>Imagine uma segunda situação hipotética:</p><p>Em 2011, João, servidor público federal, ajuizou ação contra a União pedindo para que:</p><p>a) fosse reconhecido que ele tem direito à gratificação X;</p><p>b) a gratificação seja incorporada aos seus vencimentos mensais; e que</p><p>c) o Poder Público seja condenado a pagar as parcelas atrasadas desta gratificação relativas aos últimos</p><p>cinco anos.</p><p>Em 2013, o juiz julgou os pedidos procedentes determinando o pagamento das parcelas atrasadas,</p><p>acrescidas de juros e correção monetária.</p><p>Na sentença, constou que o índice de correção monetária deveria ser a Taxa Referencial (caderneta de</p><p>poupança), prevista no art. 1º-F da Lei 9.494/97:</p><p>Art. 1º-F. Nas condenações impostas à Fazenda Pública, independentemente de sua natureza e</p><p>para fins de atualização monetária, remuneração do capital e compensação da mora, haverá a</p><p>incidência uma única vez, até o efetivo pagamento, dos índices oficiais de remuneração básica e</p><p>juros aplicados à caderneta de poupança. (Redação dada pela Lei nº 11.960, de 2009)</p><p>O autor não recorreu. A Fazenda Nacional, por sua vez, apelou, mas a sentença foi mantida pelo TRF.</p><p>Em julho de 2017 (antes da decisão do STF no Tema 810), houve o trânsito em julgado.</p><p>Cumprimento de sentença</p><p>Logo em seguida, o servidor deu início à execução do julgado.</p><p>A contadoria judicial elaborou planilha de cálculos aplicando</p><p>o índice oficial de remuneração básica da</p><p>caderneta de poupança (TR) para definir o valor das parcelas atrasadas, nos moldes da Lei nº 9.494/97,</p><p>com a redação dada pela Lei nº 11.960/2009.</p><p>Esses cálculos foram homologados pelo juiz.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 37</p><p>Em março de 2018, João interpôs agravo de instrumento afirmando que não deveria incidir a TR, mas sim</p><p>o IPCA-E para fins de cálculos dos atrasados. Invocou a decisão do STF no Tema 810 (RE 870.947/SE).</p><p>O TRF negou provimento ao recurso argumentando que o título judicial foi constituído antes do</p><p>julgamento, em 20/09/2017, do RE 870.947/SE.</p><p>No caso, como não houve a irresignação das partes, seja pela via ordinária ou a da ação rescisória, a</p><p>decisão foi acobertada pelo manto da coisa julgada material.</p><p>Ainda inconformado, João interpôs recurso especial insistindo na alegação de que a TR foi julgada</p><p>inconstitucional e que, portanto, deveria ser aplicado o IPCA.</p><p>O STJ acolheu os argumentos do autor? O recurso especial foi provido?</p><p>NÃO.</p><p>O título executivo judicial, no capítulo sobre juros e correção monetária, determinou expressamente a</p><p>incidência do art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, com a redação dada pela Lei nº 11.940/2009. Constou assim na</p><p>sentença:</p><p>“Por fim, quanto à correção monetária e juros de mora sobre os valores devidos, devem ser</p><p>observados os termos do Manual de Cálculos da Justiça Federal, que se encontra de acordo com</p><p>o art. 1º-F da Lei nº 9.494/97, alterada pela Lei nº 11.940/2009.”</p><p>O título executivo transitou em julgado, de forma que a decisão se encontra acobertada pelo manto da</p><p>coisa julgada material.</p><p>O STJ possui jurisprudência consolidada no sentido de que, em tais casos, não é possível alterar, na fase</p><p>de liquidação da sentença, os índices fixados no título executivo transitado em julgado. Nesse sentido:</p><p>A modificação, na fase de liquidação, do índice de juros de mora especificamente estabelecido em decisão</p><p>transitada em julgado e proferida após o advento do Código Civil de 2002 e da Lei 11.960/2009 constitui</p><p>inegável ofensa à coisa julgada.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 1565926/MT, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe 22/10/2019.</p><p>Não se desconhece a natureza de questão de ordem pública dos juros legais, conforme entendimento</p><p>pacífico do STJ. Todavia, tal natureza não é capaz de se impor sobre outras questões da mesma ordem, tal</p><p>como a coisa julgada e a preclusão.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1783281/PE, Rel. Min. Og Fernandes, DJe 29/10/2019.</p><p>Neste julgado do STJ são discutidas várias hipóteses interessantes. O caso de João se enquadra nos itens</p><p>VI e VII da ementa:</p><p>(...) IV - Segundo a jurisprudência desta Corte, a correção monetária e os juros moratórios constituem</p><p>parcelas de natureza processual, razão pela qual a alteração introduzida pela Lei n. 11.960/2009 se aplica</p><p>de imediato aos processos em curso, no que concerne ao período posterior à sua vigência, à luz do</p><p>princípio tempus regit actum.</p><p>V - A partir de tal compreensão, conclui-se que, na fase de execução, a coisa julgada não impede a</p><p>aplicação da Lei n. 11.960/2009 no tocante aos títulos formados anteriormente à sua vigência ou quando</p><p>o processo de conhecimento, embora transitado em julgado em momento posterior, nele não se debateu</p><p>sobre a incidência de tal norma por motivo não imputável à parte interessada.</p><p>VI - Por outro lado, quando a questão dos juros moratórios e da correção monetária foi esgotada na fase</p><p>cognitiva, examinando-se a controvérsia já na vigência da Lei n. 11.960/2009, deve-se prevalecer a higidez</p><p>da coisa julgada, independentemente do acerto da solução adotada no caso concreto em relação às teses</p><p>definidas no julgamento dos Temas n. 810/STF e n. 905/STJ.</p><p>VII - Nessa hipótese, devem prevalecer os parâmetros fixados na sentença transitada em julgado, sendo</p><p>incabível ao juízo da execução redefinir o título executivo nesse aspecto, sob pena de violação da coisa</p><p>julgada.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 38</p><p>VIII - Na hipótese dos autos, o título exequendo se formou anteriormente à vigência da Lei n. 11.960/2009,</p><p>razão pela qual a alteração de tal critério não importa em afronta à coisa julgada. (...)</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 1.747.882/RS, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 6/3/2023.</p><p>IMPORTANTE. Situações nas quais é possível, na liquidação de sentença, aplicar ou modificar os</p><p>consectários legais (juros e correção monetária):</p><p>a) quando não houve prévio debate sobre eles (STJ. 1ª Turma. AgInt nos EDcl nos EDcl no REsp</p><p>1754427/MS, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe 30/09/2021);</p><p>b) quando a lei que altera o regime de juros é superveniente à decisão que os fixou (STJ. 1ª Turma. AgInt</p><p>no REsp 1487923/RS, Rel. Min. Benedito Gonçalves, DJe 25/08/2021; STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp</p><p>1935719/RS, Rel. Min. Herman Benjamin, DJe 31/08/2021); ou</p><p>c) se a decisão que os fixou é posterior a 17/05/2018, data em que o Supremo Tribunal Federal concluiu o</p><p>julgamento da ADI nº 2.332/DF (STJ. 2ª Turma. REsp 1.975.455/PR, Rel. Min. Assusete Magalhães, DJe de</p><p>7/4/2022).</p><p>Nenhuma dessas três hipóteses excepcionais estava presente no caso de João, razão pela qual não é</p><p>possível alterar o índice da correção monetária.</p><p>Em suma:</p><p>Ofende a coisa julgada a alteração de índices de juros e correção monetária posterior ao advento do</p><p>CC/2002 e à Lei nº 11.960/2009.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no REsp 2.097.689-PB, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 4/12/2023</p><p>(Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>EXECUÇÃO (IMPENHORABILIDADE)</p><p>É possível a penhora dos valores decorrentes de recompra dos</p><p>Certificados financeiros do Tesouro Série E (CFT-E)</p><p>ODS 4 E 16</p><p>As instituições de ensino superior que prestam serviços educacionais para alunos do FIES são</p><p>remuneradas com Certificados financeiros do Tesouro Série E (CFT-E). Esses certificados</p><p>devem ser usados exclusivamente para a quitação de tributos federais, sendo impenhoráveis</p><p>com base no art. 833, I, do CPC.</p><p>Caso a instituição de ensino não possua débitos relativos a esses tributos ou, ainda, caso, após</p><p>a quitação dos tributos, reste algum excedente de títulos em sua posse, ela poderá oferecê-los</p><p>no processo de recompra realizado pelo agente operador. Nesse caso, o FNDE resgata esses</p><p>títulos junto às mantenedoras e entrega o valor financeiro equivalente ao resgate atualizado</p><p>pelo IGP-M (art. 13 da Lei nº 10.260/2001).</p><p>Assim, se esses certificados forem ser recomprados pela FNDE, os valores que a instituição de</p><p>ensino auferir com essa operação poderão ser penhorados.</p><p>STJ. 1ª Turma. REsp 2.039.092-SP, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 22/8/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>FIES</p><p>FIES é a sigla para Fundo de Financiamento Estudantil, programa desenvolvido no âmbito do Plano</p><p>Nacional de Educação (PNE), instituído pelo Ministério da Educação.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 39</p><p>Sua finalidade primordial é a concessão de financiamento a estudantes de cursos superiores não gratuitos</p><p>da educação profissional, técnica e tecnológica, e em programas de mestrado e doutorado com avaliação</p><p>positiva, conforme determinado pelo art. 1º, caput e § 1º, da Lei nº 10.260/2001.</p><p>Trata-se de programa de fundamental importância porque busca concretizar o direito fundamental de</p><p>acesso à educação para todos, previsto no art. 205 da CF/88, principalmente por se tratar de uma política</p><p>pública que prioriza a promoção de acesso de famílias de baixa renda à educação superior.</p><p>Como funciona o FIES para o aluno?</p><p>O estudante interessado, faz a sua pré-inscrição no programa (FiesSeleção), momento em que informará</p><p>os seus dados, o curso desejado e a instituição de ensino superior (IES) em que deseja estudar.</p><p>Caso o estudante atenda aos critérios estabelecidos pelo MEC (nota igual ou superior a 450 pontos no</p><p>Enem, nota maior que zero na redação e renda familiar de até 3 salários mínimos de renda bruta familiar</p><p>mensal per capita), poderá ser selecionado para obter o financiamento conforme lista de classificação.</p><p>A instituição de ensino superior deverá ter previamente aderido ao Fies.</p><p>Se o estudante for selecionado, ele deverá comparecer ao agente financeiro escolhido (Banco do Brasil ou</p><p>Caixa Econômica Federal) para formalizar o contrato de financiamento do Fies.</p><p>A partir daí o estudante estará apto para começar seus estudos com recursos do Fies.</p><p>Durante o curso, ele pagará, a cada três meses, somente um valor relativo aos juros (algo em torno de R$</p><p>150,00).</p><p>Ao término de cada semestre, ele deverá realizar o aditamento de seu contrato para o próximo semestre</p><p>letivo, podendo ser de forma simplificada, quando não há necessidade de novo comparecimento ao</p><p>agente financeiro, ou não simplificada, quando há necessidade de comparecimento do estudante ao</p><p>agente financeiro em virtude de alguma alteração contratual mais relevante (por exemplo, troca dos</p><p>fiadores).</p><p>Após a conclusão do curso, o beneficiário terá um período de carência para que comece a pagar as parcelas</p><p>relativas à amortização do seu financiamento. É como se fosse um prazo para que ele possa ser inserido</p><p>no mercado de trabalho.</p><p>Terminado o período de carência, o estudante inicia o pagamento das parcelas mensais de seu</p><p>financiamento, cujo prazo de pagamento poderá ser de até três vezes o período do curso objeto de</p><p>financiamento.</p><p>Como funciona o FIES para a instituição de ensino superior (chamada de IES)?</p><p>Para poder participar do Fies, as mantenedoras de IES devem atender determinadas condições</p><p>estabelecidas pelo MEC, e assinar o Termo de Adesão ao programa.</p><p>Posteriormente, antes do início de cada semestre letivo, deverão firmar o Termo de Participação, no qual</p><p>detalharão os cursos e as vagas que serão ofertadas no âmbito do programa.</p><p>Após o estudante estar matriculado na IES, inicia-se o curso financiado pelo programa.</p><p>Como contrapartida (“pagamento”), a IES não recebe diretamente “dinheiro”. Ela recebe um título público</p><p>conhecido pela sigla CFT-E, que significa Certificados Financeiros do Tesouro - Série E.</p><p>CFT-E</p><p>O CFT-E está disciplinado no art. 7º da Lei nº 10.260/2001:</p><p>Art. 7º Fica a União autorizada a emitir títulos da dívida pública em favor do FIES.</p><p>§ 1º Os títulos a que se referem o caput serão representados por certificados de emissão do</p><p>Tesouro Nacional, com características definidas em ato do Poder Executivo.</p><p>§ 2º Os certificados a que se refere o parágrafo anterior serão emitidos sob a forma de colocação</p><p>direta, ao par, mediante solicitação expressa do FIES à Secretaria do Tesouro Nacional.</p><p>§ 3º Os recursos em moeda corrente entregues pelo FIES em contrapartida à colocação direta dos</p><p>certificados serão utilizados exclusivamente para abatimento da dívida pública de</p><p>responsabilidade do Tesouro Nacional.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 40</p><p>Na medida em que há a prestação do serviço educacional, os títulos CFT-E são repassados às Instituições</p><p>de Ensino Superior (IES).</p><p>A instituição pode utilizar esses títulos para pagar contribuições sociais previdenciárias. Se a instituição</p><p>não tiver débitos de contribuições previdenciárias, pode utilizá-los para quitar os demais tributos federais,</p><p>conforme determinam o art. 10, caput e o § 3º, da Lei nº 10.260/2001:</p><p>Art. 10. Os certificados de que trata o art. 7º serão utilizados para pagamento das contribuições</p><p>sociais previstas nas alíneas a e c do parágrafo único do art. 11 da Lei nº 8.212, de 24 de julho de</p><p>1991, bem como das contribuições previstas no art. 3º da Lei nº 11.457, de 16 de março de 2007.</p><p>(...)</p><p>§ 3º Não havendo débitos de caráter previdenciário, os certificados poderão ser utilizados para o</p><p>pagamento de quaisquer tributos administrados pela Secretaria da Receita Federal do Brasil, e</p><p>respectivos débitos, constituídos ou não, inscritos ou não em dívida ativa, ajuizados ou a ajuizar,</p><p>exigíveis ou com exigibilidade suspensa, bem como de multas, de juros e de demais encargos legais</p><p>incidentes.</p><p>E se a IES não tiver mais débitos tributários para pagar com os títulos?</p><p>Caso a mantenedora não possua débitos relativos a esses tributos ou, ainda, caso, após a quitação dos</p><p>tributos, reste algum excedente de títulos em sua posse, ela poderá oferecê-los no processo de recompra</p><p>realizado pelo agente operador.</p><p>Nesse caso, o FNDE resgata esses títulos junto às mantenedoras e entrega o valor financeiro equivalente</p><p>ao resgate atualizado pelo Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M). Veja a redação do art. 13 da Lei nº</p><p>10.260/2001:</p><p>Art. 13. O Fies recomprará, no mínimo a cada trimestre, ao par, os certificados aludidos no art. 9º,</p><p>mediante utilização dos recursos referidos no art. 2º, ressalvado o disposto no art. 16, em poder</p><p>das instituições de ensino que atendam ao disposto no art. 12.</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética 1:</p><p>Um credor ajuizou execução contra uma faculdade que aderiu ao FIES.</p><p>Esse credor requereu a penhora de créditos que a instituição de ensino possuía e que eram oriundos do</p><p>FIES. Essa penhora é possível?</p><p>NÃO.</p><p>São absolutamente impenhoráveis os créditos vinculados ao programa Fundo de Financiamento</p><p>Estudantil FIES constituídos em favor de instituição privada de ensino.</p><p>STJ. 3ª Turma. REsp 1.588.226-DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 17/10/2017 (Info 614).</p><p>Qual é o fundamento legal para essa impenhorabilidade?</p><p>A 3ª e a 4ª Turmas do STJ, que julgam matéria de direito privado, afirmam que os títulos CFT-E são</p><p>impenhoráveis com base no art. 833, IX, do CPC/2015:</p><p>Art. 833. São impenhoráveis:</p><p>(...)</p><p>IX - os recursos públicos recebidos por instituições privadas para aplicação compulsória em</p><p>educação, saúde ou assistência social;</p><p>O programa Fundo de Financiamento Estudantil-FIES destina-se à concessão de financiamento a</p><p>estudantes de cursos superiores não gratuitos, considerando sua renda familiar mensal bruta per capita,</p><p>a qual, atualmente, está limitada a 03 (três) salários mínimos. Trata-se, portanto, de programa que</p><p>concretiza política pública voltada a promover educação para a população de menor renda.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>ano, com capitalização ou sem ela;</p><p>O juiz rejeitou a alegação de prescrição sob o argumento de que o prazo prescricional seria de 5 anos, com</p><p>base no art. 1º do Decreto 20.910/32:</p><p>Art. 1º As dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e qualquer</p><p>direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja qual for a sua natureza,</p><p>prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou fato do qual se originarem.</p><p>A CDHU interpôs recurso, no qual defendeu que não o art. 1º do Decreto 20.910/32 não poderia ser</p><p>aplicado para sociedades de economia mista.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO</p><p>As empresas estatais prestadoras de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de</p><p>atividade econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial, são equiparadas à</p><p>Fazenda Pública no que tange à prescrição (5 naos)</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 4</p><p>O STJ concordou com a CDHU? O prazo prescricional é de 3 ou 5 anos?</p><p>NÃO. O prazo prescricional é de 5 anos. Aplica-se a prescrição quinquenal do Decreto nº 20.910/1932 às</p><p>empresas estatais prestadoras de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de atividade</p><p>econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial, como é o caso da CDHU.</p><p>O art. 1º do Decreto nº 20.910/1932 fala em Fazenda:</p><p>Art. 1º As dívidas passivas da União, dos Estados e dos Municípios, bem assim todo e qualquer</p><p>direito ou ação contra a Fazenda federal, estadual ou municipal, seja qual for a sua natureza,</p><p>prescrevem em cinco anos contados da data do ato ou fato do qual se originarem.</p><p>Esse prazo de 5 anos, contudo, também é aplicável para “autarquias ou entidades e órgãos paraestatais”</p><p>por expressa disposição do art. 2º do Decreto-Lei nº 4.597/1942:</p><p>Art. 2º O Decreto nº 20.910, de 6 de janeiro de 1932, que regula a prescrição quinquenal, abrange</p><p>as dívidas passivas das autarquias, ou entidades e órgãos paraestatais, criados por lei e mantidos</p><p>mediante impostos, taxas ou quaisquer contribuições, exigidas em virtude de lei federal, estadual</p><p>ou municipal, bem como a todo e qualquer direito e ação contra os mesmos.</p><p>As empresas públicas e sociedades de economia mista - comumente designadas de empresas estatais -,</p><p>possuem um regime jurídico híbrido, caracterizando-se pela convivência entre normas de Direito Público</p><p>e de Direito Privado.</p><p>Assim, essas empresas, por mais que tenham sido constituídas como pessoas jurídicas de direito privado,</p><p>sofrem também influxo (influência) de normas de direito público.</p><p>Se as empresas públicas e sociedades de economia mista...</p><p>• forem prestadoras de serviços públicos essenciais;</p><p>• não se dedicarem à exploração de atividade econômica com finalidade lucrativa; e</p><p>• tiverem natureza concorrencial...</p><p>... receberão tratamento jurídico assemelhado ao das pessoas jurídicas de direito público, operando-se</p><p>verdadeira extensão do conceito de Fazenda Pública.</p><p>Logo, as empresas estatais prestadoras de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de</p><p>atividade econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial são equiparadas à Fazenda Pública.</p><p>Como são equiparadas à Fazenda Pública, as regras de prescrição estabelecidas no Código Civil não vão</p><p>ter incidência quando a demanda envolver empresa estatal prestadora de serviços públicos essenciais,</p><p>não dedicada à exploração de atividade econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial.</p><p>Em tais casos, aplica-se a prescrição quinquenal do Decreto nº 20.910/1932, por se tratar de entidade que,</p><p>conquanto dotada de personalidade jurídica de direito privado, faz as vezes do próprio ente político ao</p><p>qual se vincula e, com isso, pode, em certa medida, receber tratamento assemelhado ao de Fazenda</p><p>Pública.</p><p>Em suma:</p><p>Aplica-se o regime normativo prescricional das pessoas jurídicas de direito público, previsto no Decreto</p><p>nº 20.910/1932 e no Decreto-Lei nº 4.597/1942, às entidades da Administração Indireta com</p><p>personalidade de direito privado que atuem na prestação de serviços públicos essenciais sem finalidade</p><p>lucrativa e sem natureza concorrencial.</p><p>STJ. Corte Especial. EREsp 1.725.030-SP, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 14/12/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 5</p><p>Não confundir:</p><p>REGRA: em regra, o prazo de prescrição quinquenal, previsto no Decreto nº 20.910/1932 e no Decreto-Lei</p><p>nº 4.597/1942, não se aplica para as sociedades de economia mista e empresas públicas.</p><p>EXCEÇÃO: Aplica-se a prescrição quinquenal do Decreto nº 20.910/1932 às empresas estatais prestadoras</p><p>de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de atividade econômica com finalidade</p><p>lucrativa e natureza concorrencial.</p><p>CONCURSOS PÚBLICOS</p><p>Em concursos públicos, o critério utilizado para determinar se um candidato tem direito a</p><p>participar das vagas reservadas para pessoas negras baseia-se nas características físicas visíveis,</p><p>como a cor da pele e traços faciais, ao invés de sua herança genética ou ascendência</p><p>ODS 10 E 16</p><p>O critério de orientação para a confirmação do direito à concorrência especial funda-se no</p><p>fenótipo, e não meramente no genótipo, na ancestralidade do candidato.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt nos EDcl no RMS 69.978-BA, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em</p><p>23/10/2023 (Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>Imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>João inscreveu-se em concurso público para o cargo de auditor fiscal no Estado da Bahia. Ele se candidatou</p><p>às vagas reservadas para negros, tendo se declarado como pardo.</p><p>João foi aprovado em 1º lugar nas vagas reservadas para negros.</p><p>Ele foi então convocado para se submeter a um procedimento chamado de “aferição da condição</p><p>autodeclarada”, a ser realizado por uma comissão especial. Vale ressaltar que esse procedimento estava</p><p>previsto no edital, que afirmava que o critério de orientação para a confirmação do direito à cota era o</p><p>fenótipo, e não meramente o genótipo ou a ancestralidade do candidato.</p><p>Primeira pergunta: isso é possível? O edital do concurso pode exigir que o candidato autodeclarado</p><p>preto ou pardo se submeta a uma banca de heteroidentificação?</p><p>SIM.</p><p>É legítima a utilização, além da autodeclaração, de critérios subsidiários de heteroidentificação, desde que</p><p>respeitada a dignidade da pessoa humana e garantidos o contraditório e a ampla defesa.</p><p>STF. Plenário. ADC 41/DF, Rel. Min. Roberto Barroso, julgado em 8/6/2017 (Info 868).</p><p>O critério da autodeclaração é, em princípio, válido. Isso porque deve-se respeitar as pessoas tal como</p><p>elas se percebem. Entretanto, é possível também que a Administração Pública adote um controle</p><p>heterônomo, até mesmo para evitar abusos na autodeclaração.</p><p>Exemplos desse controle heterônomo: exigência de autodeclaração presencial perante a comissão do</p><p>concurso; exigência de apresentação de fotos pelos candidatos; formação de comissões com composição</p><p>plural para entrevista dos candidatos em momento posterior à autodeclaração.</p><p>Segunda pergunta: o que é fenótipo e genótipo?</p><p>• Fenótipo: refere-se às características observáveis de um indivíduo, como cor da pele, textura do cabelo,</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 41</p><p>Muito mais que constituir simples remuneração por serviços prestados, os créditos recebidos</p><p>do FIES retribuem a oportunidade dada aos estudantes de menor renda de obter a formação de nível</p><p>superior, de aumentar suas chances de inserção no mercado de trabalho formal e, por conseguinte, de</p><p>melhorar a qualidade de vida da família.</p><p>Como se vê, são recursos vinculados a um fim social, e, portanto, impenhoráveis.</p><p>Permitir a penhora desses recursos públicos transferidos às instituições particulares de ensino poderia</p><p>frustrar a adesão ao programa e, em consequência, o atingimento dos objetivos por ele traçados.</p><p>A 1ª Turma do STJ, que julga matérias de direito público (como recursos decorrentes de execuções fiscais),</p><p>entende que a impenhorabilidade decorre do art. 833, I, do CPC:</p><p>Art. 833. São impenhoráveis:</p><p>I - os bens inalienáveis e os declarados, por ato voluntário, não sujeitos à execução;</p><p>A 1ª Turma do STJ afirma que essa impenhorabilidade não pode se basear no inciso IX do art. 833 porque,</p><p>para que incida esse dispositivo, não basta a demonstração da origem pública dos recursos transferidos a</p><p>instituições privadas, sendo imprescindível atestar a vinculação dos valores a despesas com educação,</p><p>saúde ou assistência social. Os encargos financeiros decorrentes da prestação de serviços educacionais</p><p>abrangidos pelas operações do Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) são custeados pelo Poder</p><p>Público mediante a entrega dos Certificados Financeiros do Tesouro Série E (CFT-E) às instituições de</p><p>ensino superior aderentes ao programa, com expressa previsão legal de seu emprego para a quitação, em</p><p>caráter exclusivo, de tributos federais, vencidos ou vincendos, nos termos do art. 10, caput e § 3º da Lei</p><p>nº 10.260/2001. Tais títulos, portanto, não são compulsoriamente aplicados em educação, o que afasta a</p><p>incidência da regra de impenhorabilidade descrita no art. 833, IX, do CPC.</p><p>É possível, no entanto, considerar que esses títulos sejam impenhoráveis com base no inciso I do art. 833</p><p>porque eles são bens inalienáveis por força de lei.</p><p>Com efeito, o art. 10, § 1º, da Lei nº 10.260/2001 afirma que é vedada a negociação dos CFT-E entre</p><p>pessoas jurídicas de direito privado. Logo, a lei qualifica os CFT-E como bens fora do comércio, de sorte</p><p>que se enquadram no art. 833, I, do CPC.</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética 2:</p><p>O Fisco ajuizou execução fiscal contra uma IES que aderiu ao FIES.</p><p>A Fazenda Pública requereu a penhora dos recursos obtidos pela IES com a “venda” dos títulos CFT-E que</p><p>ela não utilizou para pagamento de seus débitos tributários.</p><p>Essa penhora é possível?</p><p>SIM. Tanto as Turmas de direito privado como de direito público do STJ afirmam que é possível a penhora.</p><p>Nesse sentido:</p><p>É possível a penhora de recursos oriundos da recompra pelo FIES dos valores dos títulos Certificados</p><p>Financeiros do Tesouro - Série E (CFT-E), de titularidade das instituições de ensino, que eventualmente</p><p>sobrepujam as obrigações legalmente vinculadas.</p><p>STJ. 3ª Turma. REsp 1.761.543/DF, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 23/03/2021 (Info 690).</p><p>Os certificados em poder das instituições de ensino, recomprados pelo FIES e que excederem os débitos</p><p>previdenciários e tributários destas, estão sujeitos à penhora.</p><p>STJ. 4ª Turma. REsp 1.760.784-DF, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 6/6/2023 (Info 12 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>É possível a penhora dos valores decorrentes de recompra dos Certificados financeiros do Tesouro Série</p><p>E (CFT-E).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 42</p><p>STJ. 1ª Turma. REsp 2.039.092-SP, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 22/8/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>A impossibilidade de excussão dos CFT-E per se não é extensível ao numerário entregue às instituições de</p><p>ensino superior em decorrência do procedimento de recompra descrito no art. 13 da Lei nº 10.260/2001,</p><p>pois uma vez cumpridos os requisitos previstos no art. 12 do mesmo diploma normativo, o FIES pode</p><p>readquirir os títulos creditícios, hipótese na qual o montante decorrente da operação deve ser depositado</p><p>diretamente em conta dos entes beneficiários, passando, assim, à esfera de livre disponibilidade das</p><p>pessoas jurídicas aderentes ao programa governamental, sem qualquer imposição legal ou regulamentar</p><p>de sua aplicação compulsória em atividades educacionais.</p><p>A constrição de valores de recompra dos CFT-E equivale a penhora de crédito regulada pelo art. 855 do</p><p>CPC, medida judicial cujo deferimento antecede a operação de resgate de títulos representativos de dívida</p><p>mediante a vinculação das quantias futuras ao processo executivo, de modo a obstar o pagamento direto</p><p>ao executado.</p><p>EXECUÇÃO FISCAL</p><p>O Tema 444/STJ tratou sobre o redirecionamento contra os sócios da pessoa jurídica executada</p><p>e que foi dissolvida irregularmente; apesar disso, esse entendimento pode ser aplicado também</p><p>para outros responsáveis tributários, como é o caso do fiador da pessoa jurídica executada</p><p>ODS 16</p><p>O entendimento firmado pelo STJ no REsp 1.201.993/SP (Tema 444), no sentido de que “a</p><p>decretação da prescrição para o redirecionamento impõe seja demonstrada a inércia da</p><p>Fazenda Pública, no lustro que se seguiu à citação da empresa originalmente devedora”, pode</p><p>ser aplicado em relação aos demais responsáveis tributários.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt nos EDcl no REsp 1.733.325-SP, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em</p><p>23/10/2023 (Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>NOÇÕES GERAIS SOBRE O REDIRECIONAMENTO DA EXECUÇÃO FISCAL</p><p>Execução fiscal</p><p>Execução fiscal é a ação judicial proposta pela Fazenda Pública (União, Estados, DF, Municípios e suas</p><p>respectivas autarquias e fundações) para cobrar do devedor créditos (tributários ou não tributários)</p><p>inscritos em dívida ativa.</p><p>A execução fiscal é regida pela Lei nº 6.830/80 (LEF) e, subsidiariamente, pelo CPC.</p><p>Redirecionamento</p><p>Quando a Fazenda Pública ajuíza uma execução fiscal contra a empresa e não consegue localizar bens</p><p>penhoráveis, o CTN prevê a possibilidade de o Fisco REDIRECIONAR a execução incluindo no polo passivo</p><p>como executadas algumas pessoas físicas que tenham relação com a empresa, desde que fique</p><p>demonstrado que elas praticaram atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou</p><p>estatutos. É o que prevê o art. 135 do CTN:</p><p>Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias</p><p>resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou</p><p>estatutos:</p><p>I - as pessoas referidas no artigo anterior;</p><p>II - os mandatários, prepostos e empregados;</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>EXECUÇÃO FISCAL</p><p>O Tema 444/STJ tratou sobre o redirecionamento contra os sócios da pessoa jurídica executada</p><p>e que foi dissolvida irregularmente; apesar disso, esse entendimento pode ser aplicado também</p><p>para outros responsáveis tributários, como é o caso do fiador da pessoa jurídica executada</p><p>O entendimento firmado pelo STJ no REsp 1.201.993/SP (Tema 444), no sentido de que “a</p><p>decretação da prescrição para o redirecionamento impõe seja demonstrada a inércia da</p><p>Fazenda Pública, no lustro que se seguiu à citação da empresa originalmente devedora”, pode</p><p>ser aplicado em relação aos demais responsáveis tributários.</p><p>A dissolução irregular da empresa</p><p>caracteriza infração à lei</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 43</p><p>III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.</p><p>Assim, os sócios, como regra geral, não respondem pessoalmente (com seu patrimônio pessoal) pelas</p><p>dívidas da sociedade empresária. Isso porque vigora o princípio da autonomia jurídica da pessoa jurídica</p><p>em relação aos seus sócios. A pessoa jurídica possui personalidade e patrimônio autônomos, que não se</p><p>confundem com a personalidade e patrimônio de seus sócios. No entanto, se o sócio praticou atos com</p><p>excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos (art. 135, III), ele utilizou o instituto da</p><p>personalidade jurídica de forma fraudulenta ou abusiva, podendo, portanto, ser responsabilizado</p><p>pessoalmente pelos débitos.</p><p>Vale ressaltar, no entanto, que o simples fato de a pessoa jurídica estar em débito com o Fisco não autoriza</p><p>que o sócio pague pela dívida com seu patrimônio pessoal. É necessário – repito – que ele tenha praticado</p><p>atos com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou estatutos (art. 135, III). A fim de que</p><p>não houvesse dúvidas quanto a isso, o STJ editou o seguinte enunciado:</p><p>Súmula 430-STJ: O inadimplemento da obrigação tributária pela sociedade não gera, por si só, a</p><p>responsabilidade solidária do sócio-gerente.</p><p>A dissolução irregular da empresa caracteriza infração à lei</p><p>Uma das situações mais comuns em que ocorre o redirecionamento da execução fiscal é quando a</p><p>empresa é dissolvida irregularmente. Se isso acontece, a jurisprudência entende que houve infração à lei</p><p>(art. 135 do CTN), já que o procedimento para a extinção de sociedades empresárias é disciplinado em lei,</p><p>devendo ser cumpridas uma série de formalidades, de sorte que se essa dissolução ocorre de forma</p><p>irregular, a legislação está sendo desrespeitada.</p><p>Assim, a dissolução irregular constitui, por si só, ato de infração à lei e autoriza o redirecionamento (para</p><p>a cobrança da dívida ativa tributária e da não tributária).</p><p>Empresa que deixa de funcionar no seu domicílio fiscal e não comunica aos órgãos competentes,</p><p>presume-se que foi dissolvida irregularmente</p><p>Domicílio tributário (ou fiscal) é o lugar, cadastrado na repartição tributária, onde o sujeito passivo poderá</p><p>ser encontrado pelo Fisco. Dessa feita, se a Administração Tributária tiver que enviar uma notificação fiscal</p><p>para aquele contribuinte, deverá encaminhar para o endereço constante como seu domicílio fiscal.</p><p>As regras para a definição do domicílio tributário estão previstas no art. 127 do CTN.</p><p>Se a empresa deixa de funcionar no seu domicílio fiscal, presume-se que ela deixou de existir (foi</p><p>dissolvida). E o pior: foi dissolvida de forma irregular, o que caracteriza infração à lei e permite o</p><p>redirecionamento da execução.</p><p>Assim, por exemplo, em uma execução fiscal, caso não se consiga fazer a citação da empresa porque ela</p><p>não mais está funcionando no endereço indicado como seu domicílio fiscal, será possível concluir que ela</p><p>foi dissolvida irregularmente, ensejando o redirecionamento da execução, conforme entendimento</p><p>sumulado do STJ:</p><p>Súmula 435-STJ: Presume-se dissolvida irregularmente a empresa que deixar de funcionar no seu domicílio</p><p>fiscal, sem comunicação aos órgãos competentes, legitimando o redirecionamento da execução fiscal para</p><p>o sócio-gerente.</p><p>Segundo explica o Min. Mauro Campbell Marques ao comentar a origem da súmula, “o sócio-gerente tem</p><p>o dever de manter atualizados os registros empresariais e comerciais, em especial quanto à localização da</p><p>empresa e a sua dissolução. Ocorre aí uma presunção da ocorrência de ilícito. Este ilícito é justamente a</p><p>não obediência ao rito próprio para a dissolução empresarial (...)” (REsp 1.371.128-RS).</p><p>TERMO INICIAL DA PRESCRIÇÃO PARA REDIRECIONAMENTO EM CASO DE DISSOLUÇÃO IRREGULAR DA</p><p>EMPRESA (TEMA 444)</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 44</p><p>O STJ discutiu, no REsp 1.201.993-SP, qual seria o termo inicial da prescrição para redirecionamento da</p><p>execução fiscal em um caso específico: a dissolução irregular da empresa.</p><p>Primeira pergunta: existe um prazo prescricional para o redirecionamento da execução fiscal? Existe um</p><p>prazo para que o Fisco (exequente) requeira ao juiz que redirecione a execução fiscal (que estava</p><p>tramitando apenas contra a pessoa jurídica) para incluir também a pessoa física?</p><p>O legislador não disciplinou, de forma particularizada, a prescrição para as hipóteses de redirecionamento</p><p>da execução fiscal. Em outras palavras, não existe um dispositivo específico tratando sobre o tema.</p><p>O art. 174 do CTN trata, de forma genérica, sobre prescrição da obrigação tributária:</p><p>Art. 174. A ação para a cobrança do crédito tributário prescreve em cinco anos, contados da data</p><p>da sua constituição definitiva.</p><p>Apesar disso, o STJ afirmou, com razão, que o redirecionamento não pode ser imprescritível.</p><p>Logo, o STJ afirmou que esse mesmo prazo de 5 anos deve ser utilizado para o caso de redirecionamento.</p><p>Assim, vigora o seguinte: o redirecionamento da execução fiscal deve ocorrer no prazo de 5 anos, sob pena</p><p>de prescrição.</p><p>A partir de quando é contado esse prazo?</p><p>Depende:</p><p>1) Se a dissolução irregular (ato ilícito previsto no art. 135, III, do CTN) ocorreu antes da citação da pessoa</p><p>jurídica: o prazo de 5 anos para redirecionamento será contado da diligência de citação da pessoa jurídica.</p><p>2) Se a dissolução irregular ocorreu após a citação da pessoa jurídica (ou seja, no curso da execução fiscal):</p><p>o prazo de 5 anos para redirecionamento será contado da data em que foi praticado o ato inequívoco</p><p>indicador do intuito de inviabilizar a satisfação do crédito tributário já em curso.</p><p>As teses fixadas pelo STJ foram as seguintes:</p><p>i) o prazo de redirecionamento da Execução Fiscal, fixado em cinco anos, contado da diligência de citação</p><p>da pessoa jurídica, é aplicável quando o referido ato ilícito, previsto no art. 135, III, do CTN, for precedente</p><p>a esse ato processual;</p><p>ii) a citação positiva do sujeito passivo devedor original da obrigação tributária, por si só, não provoca o</p><p>início do prazo prescricional quando o ato de dissolução irregular for a ela subsequente, uma vez que, em</p><p>tal circunstância, inexistirá, na aludida data (da citação), pretensão contra os sócios-gerentes (conforme</p><p>decidido no REsp 1.101.728/SP, no rito do art. 543-C do CPC/1973, o mero inadimplemento da exação não</p><p>configura ilícito atribuível aos sujeitos de direito descritos no art. 135 do CTN). O termo inicial do prazo</p><p>prescricional para a cobrança do crédito dos sócios-gerentes infratores, nesse contexto, é a data da prática</p><p>de ato inequívoco indicador do intuito de inviabilizar a satisfação do crédito tributário já em curso de</p><p>cobrança executiva promovida contra a empresa contribuinte, a ser demonstrado pelo Fisco, nos termos</p><p>do art. 593 do CPC/1973 (art. 792 do novo CPC - fraude à execução), combinado com o art. 185 do CTN</p><p>(presunção de fraude contra a Fazenda Pública); e,</p><p>iii) em qualquer hipótese, a decretação da prescrição para o redirecionamento impõe seja demonstrada a</p><p>inércia da Fazenda Pública, no lustro que se seguiu à citação da empresa originalmente devedora (REsp</p><p>1.222.444/RS) ou ao ato inequívoco mencionado no item anterior (respectivamente, nos casos de</p><p>dissolução irregular precedente ou superveniente à citação da empresa), cabendo às instâncias</p><p>ordinárias</p><p>o exame dos fatos e provas atinentes à demonstração da prática de atos concretos na direção da cobrança</p><p>do crédito tributário no decurso do prazo prescricional.</p><p>STJ. 1ª Seção. REsp 1.201.993-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 08/05/2019 (recurso repetitivo</p><p>- Tema 444) (Info 662).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 45</p><p>O ENTENDIMENTO FIRMADO NO TEMA 444 PODE SER APLICADO PARA OS DEMAIS RESPONSÁVEIS</p><p>TRIBUTÁRIOS</p><p>O REsp 1.201.993-SP tratou sobre o redirecionamento contra os sócios da pessoa jurídica executada e que</p><p>foi dissolvida irregularmente.</p><p>Apesar disso, o STJ afirmou que o mesmo entendimento pode ser aplicado para outros responsáveis</p><p>tributários, como é o caso do fiador da pessoa jurídica executada.</p><p>Em suma:</p><p>O entendimento firmado pelo STJ no REsp 1.201.993/SP (Tema 444), no sentido de que "a decretação</p><p>da prescrição para o redirecionamento impõe seja demonstrada a inércia da Fazenda Pública, no lustro</p><p>que se seguiu à citação da empresa originalmente devedora", pode ser aplicado em relação aos demais</p><p>responsáveis tributários.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt nos EDcl no REsp 1.733.325-SP, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em</p><p>23/10/2023 (Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>PROCESSO COLETIVO</p><p>Aplica-se o entendimento exarado pelo STF no julgamento do ARE 709.212/DF ao cumprimento</p><p>de sentença coletiva que se pretende a execução individual dos direitos referentes à cobrança</p><p>de valores não depositados no FGTS.</p><p>ODS 16</p><p>Aplica-se o entendimento exarado pelo STF no julgamento do ARE 709.212/DF ao</p><p>cumprimento de sentença coletiva que se pretende a execução individual dos direitos</p><p>referentes à cobrança de valores não depositados no FGTS.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 2.084.126-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 24/10/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>PRAZO PRESCRICIONAL PARA COBRANÇA EM JUÍZO DO FGTS (ARE 709.212, TEMA 608/STF)</p><p>FGTS</p><p>FGTS é a sigla para Fundo de Garantia por Tempo de Serviço.</p><p>O FGTS foi criado pela Lei n.º 5.107/66 com o objetivo de proteger o trabalhador demitido sem justa causa.</p><p>Atualmente, o FGTS é regido pela Lei n.º 8.036/90.</p><p>Em que consiste o FGTS?</p><p>O FGTS nada mais é do que uma conta bancária, aberta em nome do trabalhador e vinculada a ele no</p><p>momento em que celebra seu primeiro contrato de trabalho.</p><p>Nessa conta bancária, o empregador deposita, todos os meses, o valor equivalente a 8% do salário pago</p><p>ao empregado, acrescido de atualização monetária e juros.</p><p>Assim, vai sendo formado um fundo de reserva financeira para o trabalhador, ou seja, uma espécie de</p><p>“poupança”, que é utilizada pelo obreiro quando fica desempregado sem justa causa ou quando precisa</p><p>para alguma finalidade relevante assim considerada pela lei.</p><p>Se o empregado for demitido sem justa causa, o empregador é obrigado a depositar, na conta vinculada</p><p>do trabalhador no FGTS, uma indenização compensatória de 40% do montante de todos os depósitos</p><p>realizados na conta vinculada durante a vigência do contrato de trabalho, atualizados monetariamente e</p><p>acrescidos dos respectivos juros (art. 18, § 1º da Lei n.º 8.036/90).</p><p>O trabalhador que possui conta do FGTS vinculada a seu nome é chamado de trabalhador participante do</p><p>Fundo de Garantia do Tempo de Serviço.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>PROCESSO COLETIVO</p><p>Aplica-se o entendimento exarado pelo STF no julgamento do ARE 709.212/DF ao cumprimento</p><p>de sentença coletiva que se pretende a execução individual dos direitos referentes à cobrança</p><p>de valores não depositados no FGTS.</p><p>A partir do julgamento do ARE 709.212/DF, proferido pelo STF, em repercussão geral, assentou-se que</p><p>não é trintenário, mas quinquenal, o prazo prescricional para a cobrança de valores não depositados do</p><p>FGTS.</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 46</p><p>O trabalhador poderá levantar (“sacar”) o valor depositado em sua conta do FGTS?</p><p>SIM, mas somente em algumas situações previstas na Lei. O art. 20 da Lei n.º 8.036/90 prevê as hipóteses</p><p>em que o trabalhador poderá movimentar a sua conta vinculada no FGTS. São exemplos:</p><p>• Se o trabalhador for despedido sem justa causa;</p><p>• Se se aposentar;</p><p>• Se ele (ou algum dependente) for acometido de neoplasia maligna (câncer), HIV ou outra doença grave;</p><p>• Se houver necessidade pessoal, cuja urgência e gravidade decorra de desastre natural.</p><p>De quem é a competência para julgar as ações envolvendo FGTS?</p><p>Depende:</p><p>• Se a ação for proposta pelo trabalhador contra o empregador envolvendo descumprimento na aplicação</p><p>da Lei nº 8.036/90, a competência será da Justiça do Trabalho;</p><p>• É da competência da Justiça Estadual autorizar o levantamento dos valores relativos ao PIS/PASEP e</p><p>FGTS, em decorrência do falecimento do titular da conta (Súmula 161-STJ);</p><p>• Se a ação for proposta pelo trabalhador contra a CEF, em sua atuação como agente operadora dos</p><p>recursos do FGTS, a competência será da Justiça Federal, considerando que a CEF é uma empresa pública</p><p>federal (art. 109, I, da CF/88).</p><p>Súmula 82-STJ: Compete à Justiça Federal, excluídas as reclamações trabalhistas, processar e julgar os</p><p>feitos relativos à movimentação do FGTS.</p><p>Se o empregador não faz os depósitos de FGTS na conta do empregado, o empregado poderá ajuizar</p><p>uma ação contra o empregado cobrando esses valores?</p><p>SIM.</p><p>Qual é o prazo prescricional nesse caso?</p><p>A jurisprudência entendia que o prazo era de 30 anos. Havia, inclusive, uma súmula do TST nesse sentido:</p><p>Súmula 362-TST: É trintenária a prescrição do direito de reclamar contra o não-recolhimento da</p><p>contribuição para o FGTS, observado o prazo de 2 (dois) anos após o término do contrato de trabalho.</p><p>Esse prazo está previsto no art. 23, § 5º, da Lei n. 8.036/90 (Lei do FGTS) e no art. 55 do Decreto 99.684/90</p><p>(Regulamento do FGTS).</p><p>Em 2014, no entanto, o STF, analisando novamente o tema em sede de repercussão geral, alterou a</p><p>jurisprudência até então dominante e decidiu que o prazo prescricional para a cobrança judicial dos</p><p>valores devidos relativos ao FGTS é de 5 anos.</p><p>O prazo prescricional aplicável à cobrança de valores não depositados no Fundo de Garantia por Tempo</p><p>de Serviço (FGTS) é quinquenal, nos termos do art. 7º, XXIX, da Constituição Federal.</p><p>STF. Plenário. ARE 709212, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 13/11/2014 (Repercussão Geral – Tema</p><p>608).</p><p>Por quê?</p><p>A verba do FGTS possui natureza jurídica de verba trabalhista. Logo, aplica-se a ela a regra prevista no art.</p><p>7º, XXIX, da CF/88, que traz o prazo prescricional de 5 anos para cobrança de direitos trabalhistas:</p><p>Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de</p><p>sua condição social:</p><p>(...)</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 47</p><p>XXIX - ação, quanto aos créditos resultantes das relações de trabalho, com prazo prescricional</p><p>de</p><p>CINCO anos para os trabalhadores urbanos e rurais, até o limite de DOIS anos após a extinção do</p><p>contrato de trabalho;</p><p>Após sair do emprego (extinção do contrato de trabalho), o empregado tem até 2 anos para ingressar com</p><p>a ação (reclamação trabalhista) na Justiça do Trabalho, sob pena de prescrição. Nesta ação, ele poderá</p><p>pleitear apenas os direitos referentes aos últimos 5 anos, contados da data da propositura. As verbas</p><p>anteriores a esses 5 anos não mais poderão ser cobrados porque prescreveram.</p><p>Como existe regra expressa na CF/88 determinando o prazo prescricional de 5 anos para cobrança de</p><p>verbas trabalhistas, e como o FGTS se enquadra nessa natureza jurídica, não há motivo para se aplicar o</p><p>prazo de 30 anos.</p><p>E o art. 23, § 5º, da Lei nº 8.036/90 e o art. 55 do Decreto 99.684/90?</p><p>O STF entendeu que esses dispositivos são INCONSTITUCIONAIS porque não poderiam trazer um prazo</p><p>prescricional para verbas trabalhistas diferente daquilo que é previsto no art. 7º, XXIX, da CF/88.</p><p>Modulação dos efeitos da decisão</p><p>Durante muitos anos, tanto o STF como o TST entenderam que o prazo prescricional era de 30 anos. Diante</p><p>dessas mudança de entendimento, o STF decidiu modular os efeitos da decisão por razões de segurança</p><p>jurídica.</p><p>• Para aqueles casos cujo termo inicial da prescrição – ou seja, a ausência de depósito no FGTS – ocorrer</p><p>após a data do julgamento, aplica-se, desde logo, o prazo de 5 anos.</p><p>• Por outro lado, para os casos em que o prazo prescricional já esteja em curso, aplica-se o que ocorrer</p><p>primeiro: 30 anos, contados do termo inicial, ou 5 anos, a partir deste julgamento.</p><p>O MESMO ENTENDIMENTO SE APLICA PARA EXECUÇÃO INDIVIDUAL DE SENTENÇA COLETIVA PARA</p><p>COBRANÇA DE VALORES NÃO DEPOSITADOS NO FGTS</p><p>Imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>João trabalha em emprego formal desde 1977 junto à empregadora Alfa.</p><p>Em decorrência do seu vínculo empregatício, João possui saldo em sua conta vinculada ao FGTS.</p><p>Acontece que, em 1989 e 1990, por ocasião do implemento dos Planos Verão e Collor, o saldo de sua conta</p><p>FGTS foi atualizado monetariamente por índice inferior àquele previsto em lei. Isso também ocorreu com</p><p>os demais empregados da Alfa.</p><p>Em razão disso, o sindicato de sua categoria ingressou com ação coletiva em desfavor da empregadora e</p><p>da Caixa Econômica Federal (CEF), objetivando obrigar as requeridas a fazerem o pagamento dos expurgos</p><p>inflacionários, ou seja, a diferença correspondente ao índice de correção monetária efetivamente aplicado</p><p>e aquele previsto em lei.</p><p>Essa ação coletiva foi julgada procedente, condenando-se a CEF a pagar os expurgos inflacionários a todos</p><p>os filiados do sindicato autor, relativamente aos períodos de dezembro/1988, fevereiro/1989 e abril/1990.</p><p>O trânsito em julgado da ação coletiva ocorreu em 19/02/2013.</p><p>Como a CEF não efetuou voluntariamente os pagamentos, João, em 28/10/2018, ingressou com ação</p><p>individual de cumprimento de sentença, objetivando receber os expurgos inflacionários que, segundo seus</p><p>cálculos, perfaziam a quantia de R$ 9 mil.</p><p>Juiz Federal reconheceu a prescrição com base no Tema 515 do STJ</p><p>O Juiz Federal, de ofício, reconheceu a prescrição da pretensão executória e extinguiu o feito.</p><p>De acordo com a decisão, os contemplados pela decisão coletiva teriam o prazo de 05 (cinco) anos para</p><p>ajuizar a execução individual respectiva, conforme orientação estabelecida no Tema 515 do STJ:</p><p>No âmbito do Direito Privado, é de cinco anos o prazo prescricional para ajuizamento da execução</p><p>individual em pedido de cumprimento de sentença proferida em Ação Civil Pública.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 48</p><p>STJ. 2ª Seção REsp 1.273.643-PR, Rel. Min. Sidnei Beneti, julgado em 27/2/2013 (Recurso Repetitivo –</p><p>Tema 515).</p><p>No caso dos autos, o trânsito em julgado da ação coletiva ocorreu em 19/02/2013.</p><p>Logo, o prazo prescricional se findou em 19/02/2018, ou seja, antes da data da distribuição da ação.</p><p>A sentença foi mantida? Ocorreu, no caso, a prescrição?</p><p>NÃO.</p><p>Aplica-se aqui o entendimento fixado pelo STF no ARE 709.212/DF</p><p>A partir do julgamento do ARE 709.212/DF, proferido pelo STF, em repercussão geral, assentou-se que</p><p>não é trintenário, mas quinquenal, o prazo prescricional para a cobrança de valores não depositados do</p><p>FGTS.</p><p>Entretanto, aquele julgado teve seus efeitos modulados, definindo-se que: “para aqueles cujo termo inicial</p><p>da prescrição ocorra após a data do presente julgamento, aplica-se, desde logo, o prazo de 5 anos. Por</p><p>outro lado, para os casos em que o prazo prescricional já esteja em curso, aplica-se o que ocorrer primeiro:</p><p>30 anos, contados do termo inicial, ou 5 anos, a partir desta decisão.”</p><p>Desse modo, o STF atribuiu efeitos ex nunc a esse julgado, de forma que, para os prazos prescricionais em</p><p>curso, o prazo de 5 anos deveria ser contado a partir da data da publicação do ARE 709.212, ocorrida em</p><p>18/02/2015.</p><p>Como a execução de João foi proposta em 28/11/2018, ou seja, antes dos cinco anos, não há que se falar</p><p>em prescrição.</p><p>Inaplicabilidade do Tema 515/STJ.</p><p>De fato, o STJ, no julgamento do REsp 1.273.643/PR (Tema 515), decidiu que “no âmbito do Direito</p><p>Privado, é de cinco anos o prazo prescricional para ajuizamento da execução individual em pedido de</p><p>cumprimento de sentença proferida em Ação Civil Pública”.</p><p>Todavia, esse entendimento deve ser compatibilizado com o entendimento consolidado pelo STF na</p><p>Súmula 150, que dispõe que “prescreve a execução no mesmo prazo de prescrição da ação”.</p><p>Assim, se o próprio STF decidiu que o prazo de 5 (cinco) anos determinado no ARE 709.212/STF aplica-se</p><p>de forma ex nunc, não cabe ao STJ decidir de forma diversa.</p><p>Acrescentou, ainda, que “eventual aplicabilidade do Tema 515/STJ, é fato que se trata de limitação, no</p><p>âmbito privado, não havendo pronunciamento desta Corte Superior para ações de diferenças dos</p><p>depósitos do FGTS, a quem incumbe a gestão a Caixa Econômica Federal, gestora pública das contas. Daí</p><p>o prazo da maneira em que fixado no ARE 709.212/STF em que “declarou-se a inconstitucionalidade do</p><p>art. 23, § 5º, da Lei nº 8.036/1990, e do art. 55 do Decreto nº 99.684/1990, na parte em que ressalvam o</p><p>“privilégio do FGTS à prescrição trintenária” e fixou-se o prazo de 5 (cinco) anos à partir do julgamento, o</p><p>que ocorrer primeiro. Os microssistemas das ações coletivas e das ações de complementação das</p><p>diferenças de depósitos do FGTS se harmonizam no julgado do Supremo Tribunal Federal.”</p><p>Em suma:</p><p>Aplica-se o entendimento exarado pelo STF no julgamento do ARE 709.212/DF ao cumprimento de</p><p>sentença coletiva que se pretende a execução individual dos direitos referentes à cobrança de valores</p><p>não depositados no FGTS.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 2.084.126-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 24/10/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 49</p><p>DIREITO TRIBUTÁRIO</p><p>IMPOSTO DE RENDA</p><p>Se empresa brasileira contrata serviços técnicos e de assistência técnica, sem transferência de</p><p>tecnologia, de empresas situadas em países como Argentina, Chile, África do Sul e Peru, deverá</p><p>reter o imposto de renda ao fazer a remessa do pagamento</p><p>Menor relevância</p><p>para concursos</p><p>ODS 16</p><p>O caso discutia a incidência de IRRF sobre pagamentos de serviços técnicos e de assistência</p><p>técnica, sem transferência de tecnologia, para empresas situadas no exterior, especificamente</p><p>em países como Argentina, Chile, África do Sul e Peru.</p><p>A Fazenda Nacional alegou que a remessa de valores para tais empresas no exterior estaria</p><p>sujeita à tributação de IRRF. Argumentou que nos protocolos anexos aos tratados firmados</p><p>entre o Brasil e tais países está previsto que os rendimentos de serviços técnicos e assistência</p><p>técnica são equiparados a royalties, permitindo a tributação no Brasil.</p><p>O STJ concordou com a Fazenda Nacional. Os protocolos anexos aos tratados internacionais</p><p>com Argentina, Chile, África do Sul e Peru preveem a equiparação dos rendimentos</p><p>provenientes da prestação de serviços técnicos e assistência técnica a royalties, permitindo a</p><p>tributação no Brasil. Assim, apesar do artigo 7 dos tratados ter natureza residual, a análise</p><p>primordial deve ser das previsões específicas de tributação contidas nos protocolos anexos.</p><p>Dessa forma, confirmou-se a incidência do IRRF sobre as remessas internacionais em questão.</p><p>As convenções firmadas pelo Brasil com Argentina, Chile, África do Sul e Peru estabelecem,</p><p>com disposições de similar conteúdo, no protocolo adicional, que aos rendimentos</p><p>provenientes da prestação de assistência técnica e serviços técnicos são aplicáveis as</p><p>disciplinas dos arts. 12 dos apontados tratados, que cuidam da tributação dos royalties.</p><p>STJ. 1ª Turma. REsp 2.102.886-RS, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 28/11/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>Imagine a seguinte situação adaptada:</p><p>Alfa Alimentos S.A é uma sociedade empresária industrial dedicada às atividades de fabricação e</p><p>comercialização atacadista de rações para animais.</p><p>No curso de suas atividades, a empresa contrata diversos serviços, sem transferência de tecnologia, de</p><p>empresas domiciliadas na Argentina, Chile, África do Sul e Peru, compreendidos entre eles serviços</p><p>técnicos e de assistência técnica.</p><p>Em razão disso, Alfa faz constantemente remessa de valores ao exterior para pagamento dos mencionados</p><p>serviços.</p><p>Para o Fisco, a empresa, ao fazer essa remessa, é obrigada, na qualidade de responsável tributária, a reter</p><p>o Imposto de Renda na fonte.</p><p>A Alfa, por sua vez, alegou que as partes contratadas são domiciliadas em países com os quais o Brasil</p><p>mantém atualmente Tratados Internacionais para Evitar a Dupla Tributação (TDTs) e que os serviços já</p><p>estão sendo tributados nos países destinatários dos pagamentos.</p><p>Desse modo, a Alfa ajuizou ação contra a União para que fosse declarado que ela não tem a obrigação de</p><p>fazer a retenção do Imposto de Renda na fonte quando efetuar as remessas ao exterior para pagamento</p><p>de serviços prestados, sem transferência de tecnologia, por empresas domiciliadas na Argentina, Chile,</p><p>África do Sul e Peru, com os quais o Brasil mantém tratados internacionais para evitar a dupla tributação.</p><p>O Juízo Federal de 1ª instância julgou procedente o pedido.</p><p>A Fazenda Nacional recorreu, mas o TRF 4 manteve a sentença.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>IMPOSTO DE RENDA</p><p>Se empresa brasileira contrata serviços técnicos e de assistência técnica, sem transferência de</p><p>tecnologia, de empresas situadas em países como Argentina, Chile, África do Sul e Peru, deverá</p><p>reter o imposto de renda ao fazer a remessa do pagamento</p><p>As convenções firmadas pelo Brasil com Argentina, Chile, África do Sul e Peru estabelecem,</p><p>com disposições de similar conteúdo, no protocolo adicional, que aos rendimentos</p><p>provenientes da prestação de assistência técnica e serviços técnicos são aplicáveis as</p><p>disciplinas dos arts. 12 dos apontados tratados, que cuidam da tributação dos royalties.</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 50</p><p>Recurso Especial da Fazenda Nacional</p><p>Inconformada, a Fazenda Nacional interpôs recurso especial alegando que a Alfa pretende caracterizar as</p><p>remessas ao exterior como lucro das empresas estrangeiras para que somente sejam tributadas no país</p><p>de residência destas, conforme preceitua o Artigo 7 da Convenção Modelo da Organização de Cooperação</p><p>e Desenvolvimento Econômico (OCDE):</p><p>ARTIGO 7</p><p>Lucros das empresas</p><p>1. Os lucros de uma empresa de um Estado Contratante só podem ser tributados nesse Estado, a</p><p>não ser que a empresa exerça sua atividade no outro Estado Contratante por meio de um</p><p>estabelecimento permanente aí situado. Se a empresa exercer sua atividade desse modo, seus</p><p>lucros poderão ser tributados no outro Estado, mas unicamente na medida em que forem</p><p>imputáveis a esse estabelecimento permanente.</p><p>2. Quando uma empresa de um Estado Contratante exercer sua atividade no outro Estado</p><p>Contratante por meio de um estabelecimento permanente aí situado, serão imputados, em cada</p><p>Estado Contratante, a esse estabelecimento permanente os lucros que este obteria se constituísse</p><p>uma empresa distinta e separada que exercesse atividades idênticas ou similares, em condições</p><p>idênticas ou similares, e transacionasse com absoluta independência com a empresa da qual é um</p><p>estabelecimento permanente.</p><p>3. No cálculo dos lucros de um estabelecimento permanente, é permitido deduzir as despesas que</p><p>tiverem sido feitas para a realização dos fins perseguidos por esse estabelecimento permanente,</p><p>incluindo as despesas de direção e os gastos gerais de administração igualmente realizados. 4.</p><p>Nenhum lucro será imputado a um estabelecimento permanente pelo simples fato de esse</p><p>estabelecimento permanente comprar mercadorias para a empresa.</p><p>5. Quando os lucros compreenderem elementos de rendimentos tratados separadamente nos</p><p>outros artigos da presente Convenção, as disposições desses artigos não serão afetadas pelas</p><p>disposições deste Artigo.</p><p>Ocorre que, segundo a Fazenda Nacional, o parágrafo 5 afasta a aplicação do Artigo 7 nos casos em que</p><p>houver previsão de tratamento tributário específico a determinados rendimentos que compõem o lucro</p><p>das empresas nos demais dispositivos do acordo.</p><p>Assim, se a remessa ao exterior se enquadra em qualquer outra categoria prevista no Tratado, não se</p><p>aplica a disciplina do Artigo 7, inclusive quanto à regra do estabelecimento permanente no país da fonte</p><p>pagadora. Ou seja, não se deve tratar as remessas ao exterior como lucro até que se exclua o</p><p>enquadramento em qualquer outra categoria como royalties ou serviços profissionais independentes.</p><p>Diante disso, a Fazenda Nacional argumentou que, no caso em comento, a remessa tratada nos autos deve</p><p>ser equiparada ao conceito de royalty, uma vez que a Convenção Modelo da OCDE, em seu Artigo 12,</p><p>autoriza a tributação, no país da fonte, das remessas efetuadas para empresa estrangeira para pagamento</p><p>de royalties.</p><p>Argumentou que a maioria dos Tratados assinados pelo Brasil contemplam Protocolos anexos que detém</p><p>disposições interpretativas destinadas a equiparar os pagamentos relativos a contratos de serviços</p><p>técnicos e de assistência técnica aos royalties sem qualquer ressalva quanto à transferência de tecnologia.</p><p>O caso chegou ao STJ. O recurso da Fazenda Nacional foi provido?</p><p>SIM.</p><p>A controvérsia consiste em definir o tratamento tributário a ser dispensado aos rendimentos remetidos</p><p>por fonte situada no Brasil à pessoa jurídica estrangeira em razão de prestação de serviços técnicos e de</p><p>assistência técnica a serem executados no exterior, sem transferência de tecnologia, à luz dos tratados</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 51</p><p>destinados a evitar a dupla tributação e prevenir a evasão fiscal, celebrados pelo Brasil com a Argentina,</p><p>Chile, África do Sul e Peru.</p><p>A legislação interna do Brasil que dispõe acerca da cobrança e fiscalização do Imposto sobre a Renda</p><p>prescreve que a retenção e o recolhimento do tributo cabem à fonte quando pagar, creditar, empregar,</p><p>remeter ou entregar o rendimento, consoante estabelecem os arts. 100 e 101 do Decreto-Lei nº</p><p>5.844/1943:</p><p>Art. 100. A retenção do imposto, de que tratam os arts. 97 e 98, compete à fonte, quando pagar,</p><p>creditar; empregar, remeter ou entregar o rendimento.</p><p>Parágrafo único. Excetuam-se os seguintes casos, em que competirá ao procurador a retenção:</p><p>a) quando se tratar de aluguéis de imóveis;</p><p>b) quando o procurador não der conhecimento à fonte de que o proprietário do rendimento reside</p><p>ou é domiciliado no estrangeiro.</p><p>Art. 101. Às pessoas obrigadas a reter o imposto compete o recolhimento às repartições fiscais.</p><p>Por sua vez, as convenções firmadas pelo Brasil com Argentina, Chile, África do Sul e Peru estabelecem,</p><p>com disposições de similar conteúdo, no protocolo adicional, que aos rendimentos provenientes da</p><p>prestação de assistência técnica e serviços técnicos são aplicáveis as disciplinas dos arts. 12 dos apontados</p><p>tratados, que cuidam da tributação dos royalties.</p><p>Para o STJ, os tratados contra dupla tributação celebrados com a Argentina, Chile, África do Sul e Peru</p><p>exibem, em seus protocolos anexos, previsão acerca da sujeição, por equiparação, dos pagamentos pela</p><p>prestação de serviço técnico, sem distinção quanto à transferência de tecnologia, ao regime jurídico de</p><p>royalties, não tendo tais diplomas normativos internacionais, como exposto, o condão de afastar, na</p><p>hipótese, o dever de retenção e recolhimento do Imposto sobre a Renda.</p><p>As normas contidas nos protocolos anexos, por serem especiais, prevalecem sobre a disciplina radicada</p><p>nos arts. 7º das convenções. Trata-se da aplicação do critério da especialidade para a solução de conflitos</p><p>normativos. Além disso, é preciso ter presente, de um lado, que o Brasil já celebrou, mais de uma vez,</p><p>convenção sem a equiparação em análise (e.g. Áustria, Finlândia e França) e segue, de outro lado,</p><p>negociando de modo a manter a tributação dos serviços técnicos na remessa.</p><p>Portanto, a solução adotada para determinado tratado internacional não pode, pura e simplesmente, ser</p><p>replicada para distinto diploma internacional com arrimo em qualquer dos modelos de convenção (ONU</p><p>ou OCDE), porque há prevalência da vontade materializada entre as nações contratantes nos acordos</p><p>firmados.</p><p>Logo, a retenção e o recolhimento de Imposto sobre a Renda devem ser mantidos, justamente por se</p><p>cuidar de regramento especial com disposições de similar conteúdo, as quais se encontram radicadas nos</p><p>protocolos anexos dos apontados acordos internacionais.</p><p>Em suma:</p><p>As convenções firmadas pelo Brasil com Argentina, Chile, África do Sul e Peru estabelecem, com</p><p>disposições de similar conteúdo, no protocolo adicional, que aos rendimentos provenientes da</p><p>prestação de assistência técnica e serviços técnicos são aplicáveis as disciplinas dos arts. 12 dos</p><p>apontados tratados, que cuidam da tributação dos royalties.</p><p>STJ. 1ª Turma. REsp 2.102.886-RS, Rel. Min. Regina Helena Costa, julgado em 28/11/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 52</p><p>IMPOSTO DE RENDA</p><p>O art. 9º, da Lei 9.429/95, não impõe limitação temporal para a dedução de</p><p>Juros sobre Capital Próprio (JCP) referentes a exercícios anteriores</p><p>Somente para concursos que exijam IRPJ</p><p>de forma muito aprofundada</p><p>Caso hipotético: no período de 2001 a 2005, Alfa S/A não pagou os juros sobre capital próprio</p><p>(JCP). Somente em 2006, ela pagou o JCP aos seus acionistas e, em consequência, descontou R$</p><p>12 milhões na apuração dos lucros para efeito de apuração do IRPJ e da CSLL. O Fisco não</p><p>concordou e lavrou Auto de Infração contra a empresa dizendo que o JCP de 2006 foi apenas</p><p>de R$ 3 milhões. A empresa afirmou que esses outros R$ 9 milhões eram referentes aos outros</p><p>anos. O Fisco rejeitou essa defesa argumentando que o pagamento de juros sobre capital</p><p>próprio referente a exercícios anteriores representa burla ao limite legal de dedução do</p><p>exercício. Para a Receita Federal, a empresa não poderia ter deduzido em 2006 despesas de</p><p>JCP incorridas naquele ano, ainda que relativa aos períodos de 2001 a 2005, admitindo a</p><p>dedução apenas do JCP calculado em 2006. Por outro lado, para a empresa contribuinte o</p><p>procedimento adotado está amparado pelo art. 9º da Lei nº 9.249/95, inexistindo vedação na</p><p>legislação de regência para a dedução de juros sobre o capital próprio relativos a exercícios</p><p>anteriores.</p><p>O STJ concordou com os argumentos da empresa.</p><p>O pagamento de juros sobre capital próprio referente a exercícios anteriores não representa</p><p>burla ao limite legal de dedução do exercício, desde que, ao serem apurados, tomando por</p><p>base as contas do patrimônio líquido daqueles períodos com base na variação pro rata die da</p><p>TJLP sobre o patrimônio líquido de cada ano, o pagamento seja limitado ao valor</p><p>correspondente a 50% do lucro líquido em que se dá o pagamento ou a 50% dos lucros</p><p>acumulados e reservas de lucros.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.950.577-SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 3/10/2023 (Info</p><p>14 – Edição Extraordinária).</p><p>IRPJ</p><p>IRPJ é a sigla para Imposto de Renda de Pessoa Jurídica.</p><p>A base de cálculo do IRPJ é o montante, real, arbitrado ou presumido, da renda ou dos proventos</p><p>tributáveis (art. 44 do CTN).</p><p>Em outras palavras, a base de cálculo do IRPJ é o lucro (real, presumido ou arbitrado) correspondente ao</p><p>período de apuração.</p><p>Conforme mencionado acima, existem três formas de tributação das pessoas jurídicas:</p><p>a) Lucro real;</p><p>b) Lucro presumido;</p><p>c Lucro arbitrado.</p><p>Lucro real é forma de tributação do imposto de renda de pessoa jurídica.</p><p>O cálculo do IRPJ devido é feito pela aplicação da alíquota sobre o “lucro líquido” da empresa (e não sobre</p><p>um percentual presumido do faturamento).</p><p>A principal vantagem do lucro real é que nele a empresa poderá descontar do valor de lucro as despesas</p><p>que teve com a atividade produtiva. Assim, o tributo é pago com base no lucro real do negócio (receitas</p><p>menos despesas), com os ajustes previstos em lei.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 53</p><p>CSLL</p><p>CSLL é a sigla para Contribuição Social sobre o Lucro Líquido.</p><p>Segundo a Lei que rege a CSLL, a base de cálculo dessa contribuição “é o valor do resultado do exercício,</p><p>antes da provisão para o imposto de renda” (art. 2º da Lei nº 7.689/88).</p><p>Desse modo, a base de cálculo da CSLL também é o lucro, mas apurado antes da provisão para o IRPJ.</p><p>Juros sobre capital próprio (JCP)</p><p>Os juros sobre o capital próprio são um tipo de remuneração a ser paga aos sócios ou acionistas de</p><p>uma</p><p>sociedade empresária em virtude do investimento que eles realizam na atividade empresarial explorada</p><p>pela companhia pagadora. Vale ressaltar que o sócio ou acionista recebe o JCP independentemente da</p><p>distribuição de lucros a que terá direito, ou seja, em tese, ele pode receber os dois.</p><p>O JCP é considerado como um instituto híbrido de Direito Tributário e Direito Empresarial, possuindo</p><p>natureza jurídica sui generis.</p><p>A Lei nº 9.249/95 autoriza que a empresa que recolhe imposto de renda com base no lucro real possa</p><p>deduzir o valor do JCP, pagando, com isso, menos IRPJ e menos CSLL:</p><p>Art. 9º A pessoa jurídica poderá deduzir, para efeitos da apuração do lucro real, os juros pagos ou</p><p>creditados individualizadamente a titular, sócios ou acionistas, a título de remuneração do capital</p><p>próprio, calculados sobre as contas do patrimônio líquido e limitados à variação, pro rata dia, da</p><p>Taxa de Juros de Longo Prazo - TJLP.</p><p>(...)</p><p>§ 11. O disposto neste artigo aplica-se à Contribuição Social sobre o Lucro Líquido.</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética:</p><p>No período de 2001 a 2005, Alfa S/A não pagou os juros sobre capital próprio (JCP).</p><p>Somente em 2006, ela pagou o JCP aos seus acionistas e, em consequência, descontou R$ 12 milhões na</p><p>apuração dos lucros para efeito de apuração do IRPJ e da CSLL.</p><p>O Fisco não concordou e lavrou Auto de Infração contra a empresa dizendo que o JCP de 2006 foi apenas</p><p>de R$ 3 milhões.</p><p>A empresa afirmou que esses outros R$ 9 milhões eram referentes aos outros anos.</p><p>O Fisco rejeitou essa defesa argumentando que o pagamento de juros sobre capital próprio referente a</p><p>exercícios anteriores representa burla ao limite legal de dedução do exercício. Para a Receita Federal, a</p><p>empresa não poderia ter deduzido em 2006 despesas de JCP incorridas naquele ano, ainda que relativa</p><p>aos períodos de 2001 a 2005, admitindo a dedução apenas do JCP calculado em 2006.</p><p>Por outro lado, para a empresa contribuinte o procedimento adotado está amparado pelo art. 9º da Lei</p><p>nº 9.249/95, inexistindo vedação na legislação de regência para a dedução de juros sobre o capital próprio</p><p>relativos a exercícios anteriores.</p><p>A questão foi judicializada e chegou até o STJ.</p><p>O STJ concordou com o argumento da Receita Federal? O pagamento de juros sobre capital próprio</p><p>referente a exercícios anteriores representa necessariamente burla ao limite legal de dedução do</p><p>exercício?</p><p>NÃO.</p><p>Conforme já explicado, a empresa contribuinte alegou, no STJ, que sofreu autuação pela Receita Federal</p><p>do Brasil para cobrança de IRPJ e CSLL decorrente da glosa de juros sobre o capital próprio (JCP), relativos</p><p>a exercícios anteriores.</p><p>Para a empresa, a Lei nº 9.249/95 prevê limites e condições para a apuração do valor de JCP em cada ano-</p><p>calendário, mas não exige que o seu pagamento seja realizado no mesmo ano-calendário a que se referem,</p><p>ficando a critério da empresa decidir quando e quais valores poderão ser deliberados, creditados e/ou</p><p>pagos.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 54</p><p>Com isso, a discussão que o STJ travou foi a respeito da possibilidade de deduzir da base de cálculo do IRPJ</p><p>e da CSLL as despesas com o pagamento ou crédito de juros sobre capital próprio de exercícios anteriores.</p><p>O STJ tem posicionamento consolidado por ambas as Turmas de competência tributária no sentido de que</p><p>a legislação - notadamente o art. 9º, da Lei nº 9.429/95 - não impõe limitação temporal para a dedução</p><p>de juros sobre capital próprio referentes a exercícios anteriores. A limitação temporal a que se refere a</p><p>norma diz respeito à data de pagamento dos JCP aos sócios/acionistas.</p><p>Além disso, o pagamento de juros sobre capital próprio referente a exercícios anteriores não representa</p><p>burla ao limite legal de dedução do exercício, desde que, ao serem apurados, tomando por base as contas</p><p>do patrimônio líquido daqueles períodos com base na variação pro rata die da TJLP sobre o patrimônio</p><p>líquido de cada ano, o pagamento seja limitado ao valor correspondente a 50% do lucro líquido em que se</p><p>dá o pagamento ou a 50% dos lucros acumulados e reservas de lucros.</p><p>Em suma:</p><p>O art. 9º, da Lei nº 9.429/95, não impõe limitação temporal para a dedução de Juros sobre Capital</p><p>Próprio (JCP) referentes a exercícios anteriores.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.950.577-SP, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 3/10/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>No mesmo sentido:</p><p>O pagamento de juros sobre capital próprio referente a exercícios anteriores não representa burla ao</p><p>limite legal de dedução do exercício, desde que, ao serem apurados, tomando por base as contas do</p><p>patrimônio líquido daqueles períodos conforme a variação pro rata die da Taxa de Juros de Longo Prazo</p><p>sobre o patrimônio líquido de cada ano, o pagamento seja limitado ao valor correspondente a 50% do</p><p>lucro líquido em que se dá o pagamento ou a 50% dos lucros acumulados e reservas de lucros.</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.946.363-SP, Rel. Min. Francisco Falcão, julgado em 22/11/2022 (Info 761).</p><p>Não confundir com PIS e CONFINS</p><p>Não são dedutíveis da base de cálculo das contribuições ao PIS e COFINS o valor destinado aos acionistas</p><p>a título de juros sobre o capital próprio, na vigência da Lei nº 10.637/2002 e da Lei nº 10.833/2003.</p><p>Não é possível classificar os juros sobre capital próprio como sendo “lucros e dividendos” em razão de</p><p>possuírem diferenças jurídicas. Logo, não se pode excluir da base de cálculo do PIS e da COFINS os JCP</p><p>(juros sobre capital próprio) invocando o art. 1º, §3º, V, "b", da Lei nº 10.637/2002 e o mesmo dispositivo</p><p>da Lei nº 10.833/2003, considerando que eles tratam apenas de "lucros e dividendos".</p><p>STJ. 1ª Seção REsp 1200492-RS, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Mauro</p><p>Campbell Marques, julgado em 14/10/2015 (recurso repetitivo) (Info 577).</p><p>IMPOSTO DE RENDA</p><p>O § 1º do art. 7º da IN SRF 213/2002 é ilegal, pois permite a tributação do resultado positivo da</p><p>equivalência patrimonial de empresas controladas ou coligadas no exterior além dos lucros</p><p>efetivamente realizados, contrariando a legislação vigente</p><p>Somente para concursos que exijam IRPJ</p><p>de forma muito aprofundada</p><p>A variação positiva ou negativa do valor do investimento em empresa controlada ou coligada</p><p>situada no exterior, apurada pelo método de equivalência patrimonial, embora influencie o</p><p>lucro líquido da empresa investidora, não tem impacto nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 55</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt nos EDcl no REsp 1.760.205-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em</p><p>22/8/2023 (Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>Imagine a seguinte situação adaptada:</p><p>A Duratex Exportadora, uma empresa brasileira, é a controladora da Duratex North América, localizada no</p><p>exterior.</p><p>A Duratex Exportadora (empresa controladora) realiza investimentos na Duratex North América (empresa</p><p>controlada situada no exterior).</p><p>A Receita Federal cobrava Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e Contribuição Social sobre o Lucro</p><p>Líquido (CSLL) sobre o lucro auferido com essa empresa estrangeira.</p><p>A Duratex Exportadora não concordou e impetrou mandado de segurança</p><p>com o objetivo de afastar a</p><p>incidência do IRPJ e da CSLL sobre resultado positivo da equivalência patrimonial advindo de investimentos</p><p>realizados em empresa controlada no exterior.</p><p>A impetrante fundamentou seu pedido na ilegalidade do § 1º do art. 7º da IN/SRF nº 213/2002:</p><p>EQUIVALÊNCIA PATRIMONIAL</p><p>Art. 7º A contrapartida do ajuste do valor do investimento no exterior em filial, sucursal,</p><p>controlada ou coligada, avaliado pelo método da equivalência patrimonial, conforme estabelece</p><p>a legislação comercial e fiscal brasileira, deverá ser registrada para apuração do lucro contábil da</p><p>pessoa jurídica no Brasil.</p><p>§ 1º Os valores relativos ao resultado positivo da equivalência patrimonial, não tributados no</p><p>transcorrer do ano-calendário, deverão ser considerados no balanço levantado em 31 de</p><p>dezembro do ano-calendário para fins de determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL.</p><p>(...)</p><p>A autora alegou que é titular de investimentos relevantes no exterior que sempre foram avaliados pelo</p><p>método da equivalência patrimonial, como previsto na Lei nº 6.404/76, e que a legislação fiscal determina</p><p>que o resultado positivo da equivalência patrimonial não será computado no lucro líquido para efeito de</p><p>apuração do lucro real e da base de cálculo da contribuição social.</p><p>A discussão chegou até o STJ. Os argumentos da impetrante foram acolhidos?</p><p>SIM.</p><p>O § 1º do art. 7º da IN/SRF nº 213/2002 é ilegal. Esse dispositivo excedeu o que era permitido pela</p><p>legislação vigente, particularmente o art. 25 da Lei nº 9.249/95.</p><p>A ilegalidade está no fato de que a IN prevê a tributação não apenas dos lucros auferidos pelas empresas</p><p>investidas no exterior, mas também de qualquer resultado positivo da equivalência patrimonial, o que</p><p>poderia incluir ganhos não realizados e não correspondentes ao lucro efetivo. Isso contraria as normas</p><p>existentes, como o Decreto-Lei nº 1.598/77 e a Lei nº 7.689/88, que proíbem a tributação da totalidade</p><p>do resultado positivo da equivalência patrimonial na determinação do lucro real para o IRPJ e na base de</p><p>cálculo da CSLL.</p><p>O STJ possui entendimento consolidado em favor da tese defendida pela impetrante. Nesse sentido:</p><p>É ilícita a tributação, a título de IRPJ e CSLL, pelo resultado positivo da equivalência patrimonial, registrado</p><p>na contabilidade da empresa brasileira (empresa investidora), referente ao investimento existente em</p><p>empresa controlada ou coligada no exterior (empresa investida), previsto no art. 7º, §1º, da Instrução</p><p>Normativa SRF n. 213/2002, somente no que exceder a proporção a que faz jus a empresa investidora no</p><p>lucro auferido pela empresa investida, na forma do art. 1º, §4º, da Instrução Normativa SRF n. 213, de 7</p><p>de outubro de 2002.</p><p>Muito embora a tributação de todo o resultado positivo da equivalência patrimonial fosse em tese</p><p>possível, ela foi vedada pelo disposto no art. 23, caput e parágrafo único, do Decreto-Lei n. 1.598/77, para</p><p>o Imposto de Renda da Pessoa Jurídica - IRPJ, e pelo art. 2º, §1º, "c", 4, da Lei n. 7.689/88, para a</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 56</p><p>Contribuição Social sobre o Lucro Líquido - CSLL, mediante artifício contábil que elimina o impacto do</p><p>resultado da equivalência patrimonial na determinação do lucro real (base de cálculo do IRPJ) e na</p><p>apuração da base de cálculo da CSLL, não tendo essa legislação sido revogada pelo art. 25, da Lei n.</p><p>9.249/95, nem pelo art. 1º, da Medida Provisória n. 1.602, de 1997 (convertida na Lei n. 9.532/97), nem</p><p>pelo art. 21, da Medida Provisória n. 1.858-7, de 29, de julho de 1999, nem pelo art. 35, Medida Provisória</p><p>n. 1.991-15, de 10 de março de 2000, ou pelo art. 74, da Medida Provisória n. 2.158-34, de 2001 (edições</p><p>anteriores da atual Medida Provisória n. 2.158-35, de 24 de agosto de 2001).</p><p>STJ. 2ª Turma. REsp 1.211.882/RJ, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 5/4/2011.</p><p>Assim, embora fosse possível, em tese, a tributação de todo o lucro do investimento na empresa</p><p>controlada/coligada, o art. 23 do Decreto-Lei nº 1.598/1977 e o art. 2º da Lei nº 7.689/88 expressamente</p><p>eliminam o impacto do resultado (positivo ou negativo) nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL.</p><p>Em suma:</p><p>A variação positiva ou negativa do valor do investimento em empresa controlada ou coligada situada</p><p>no exterior, apurada pelo método de equivalência patrimonial, embora influencie o lucro líquido da</p><p>empresa investidora, não tem impacto nas bases de cálculo do IRPJ e da CSLL.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt nos EDcl no REsp 1.760.205-SP, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 22/8/2023</p><p>(Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>EXERCÍCIOS</p><p>Julgue os itens a seguir:</p><p>1) As empresas estatais prestadoras de serviços públicos essenciais, não dedicadas à exploração de</p><p>atividade econômica com finalidade lucrativa e natureza concorrencial, são equiparadas à Fazenda</p><p>Pública no que tange à prescrição. ( )</p><p>2) Em concursos públicos, o critério utilizado para determinar se um candidato tem direito a participar das</p><p>vagas reservadas para pessoas negras somente da herança genética ou ascendência. ( )</p><p>3) A GACEN é extensível aos aposentados e pensionistas que se enquadrarem na hipótese legal,</p><p>pressupondo a percepção da gratificação quando o servidor ainda estava em atividade. ( )</p><p>4) Negado o recurso administrativo interposto contra a multa, a data de vencimento continua sendo aquela</p><p>contida na primeira notificação, incidindo juros de mora a partir do primeiro dia subsequente ao</p><p>vencimento do prazo previsto para o pagamento da multa. ( )</p><p>5) O art. 57 da Lei 9.784/99 fala que o recurso administrativo tramitará por quatro instâncias; isso não</p><p>significa, contudo, que a parte poderá interpor quatro recursos. ( )</p><p>6) O contrato de financiamento habitacional celebrado por empresa pública com mutuários, ainda que de</p><p>baixa renda, não pode conter cláusula de alienação fiduciária. ( )</p><p>7) O ente federado pode promover diretamente ação judicial contra operadora privada de plano de saúde</p><p>para ressarcimento de valores referentes a prestação de serviço de saúde em cumprimento de ordem</p><p>judicial. ( )</p><p>8) O reconhecimento do direito à reforma é devido ao militar temporário não estável no caso de cegueira,</p><p>sem distinção se ela atinge um ou os dois olhos, sendo dispensável a comprovação do nexo de</p><p>causalidade com o serviço castrense. ( )</p><p>9) O desmatamento e a exploração madeireira sem licença ou autorização do órgão ambiental não ocasiona</p><p>danos ambientais. ( )</p><p>10) A regulamentação e a fiscalização dos denominados ‘cartões de descontos em serviços de saúde’ são de</p><p>competência da ANS. ( )</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 57</p><p>11) Compete à Justiça Estadual julgar a causa, estabelecida entre particulares, que tem por objeto</p><p>reintegração de posse de imóvel que faz parte de comunidade quilombola. ( )</p><p>12) A modificação, na fase de liquidação, do índice de juros de mora especificamente estabelecido em</p><p>decisão transitada em julgado e proferida após o advento do Código Civil de 2002 e da Lei 11.960/2009</p><p>constitui ofensa à coisa julgada. ( )</p><p>13) Não é possível a penhora dos valores decorrentes de recompra dos Certificados</p><p>financeiros do Tesouro</p><p>Série E (CFT-E). ( )</p><p>14) O Tema 444/STJ tratou sobre o redirecionamento contra os sócios da pessoa jurídica executada e que foi</p><p>dissolvida irregularmente; apesar disso, esse entendimento não pode ser aplicado também para outros</p><p>responsáveis tributários, como é o caso do fiador da pessoa jurídica executada. ( )</p><p>Gabarito</p><p>1. C 2. E 3. C 4. C 5. E 6. E 7. C 8. C 9. E 10. C</p><p>11. E 12. C 13. E 14. E</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>traços faciais etc. É o fenótipo que é considerado nos concursos públicos para determinar se um candidato</p><p>é elegível para concorrer nas cotas raciais.</p><p>• Genótipo: refere-se à composição genética de um indivíduo, que inclui informação sobre seus ancestrais</p><p>e herança genética. O candidato não pode ser incluído nas cotas raciais de concursos públicos com base</p><p>unicamente no critério do genótipo.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>CONCURSOS PÚBLICOS</p><p>Em concursos públicos, o critério utilizado para determinar se um candidato tem direito a</p><p>participar das vagas reservadas para pessoas negras baseia-se nas características físicas visíveis,</p><p>como a cor da pele e traços faciais, ao invés de sua herança genética ou ascendência (fenótipo e nao genotipo)</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 6</p><p>Voltando ao caso concreto:</p><p>A comissão de heteroidentificação não reconheceu João como pardo, sob o argumento de que ele não</p><p>apresentava os respectivos traços fenotípicos. Afirmou a comissão:</p><p>“Considerando a análise das imagens, verificou-se que o candidato, não apresenta traços</p><p>fenotípicos negroides, que no seu conjunto ou isoladamente o remetam ao grupo destinatário da</p><p>política de cotas.”</p><p>Inconformado, ele impetrou mandado de segurança alegando, dentre outros argumentos, que a</p><p>Administração Pública, ao analisar se um candidato tem direito de concorrer à vagas reservadas para</p><p>negros, não pode fazer uma a avaliação baseada no fenótipo do candidato, devendo analisar seu genótipo</p><p>ou ancestralidade. Argumentou que seus ancestrais são negros e que, portanto, tem o genótipo de negro.</p><p>O Tribunal de Justiça da Bahia denegou a segurança (julgou improcedente o pedido).</p><p>Ainda inconformado, João interpôs recurso ordinário em mandado de segurança dirigido ao STJ:</p><p>Constituição Federal</p><p>Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de Justiça:</p><p>II - julgar, em recurso ordinário:</p><p>(..)</p><p>b) os mandados de segurança decididos em única instância pelos Tribunais Regionais Federais ou</p><p>pelos tribunais dos Estados, do Distrito Federal e Territórios, quando denegatória a decisão;</p><p>O STJ acolheu os argumentos de João?</p><p>NÃO.</p><p>O entendimento do STJ é o de que o critério de orientação para a confirmação do direito à concorrência</p><p>especial deve se basear no fenótipo, e não meramente no genótipo, na ancestralidade do candidato. Nesse</p><p>sentido:</p><p>O critério de orientação para a confirmação do direito à concorrência especial há de fundar-se no fenótipo</p><p>e não meramente no genótipo, na ancestralidade do candidato.</p><p>STJ. 2ª Turma. AREsp 1.407.431/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 14/5/2019.</p><p>(...) IV. O Edital que regula o referido concurso público prevê a adoção do critério de fenotipia (e não do</p><p>genótipo ou ancestralidade) - ou seja, a manifestação visível das características físicas da pessoa -, para a</p><p>seleção de candidatos autodeclarados negros (pretos ou pardos), estabelecendo que a autodeclaração</p><p>étnico-racial deve ser aferida por uma Comissão de Verificação, adotando, ainda, o sistema misto de</p><p>identificação do sistema de cotas raciais, no qual o enquadramento do candidato como negro não é</p><p>efetuado somente com base na autodeclaração do candidato, mas sim em uma posterior análise por</p><p>comissão especial, especialmente designada heteroidentificação.</p><p>(...)</p><p>VI. No caso, apesar da declaração da parte recorrente ser pessoa de etnia negra, a questão foi submetida,</p><p>posteriormente, a uma Comissão para aferição dos requisitos, a qual, seguindo os termos do edital, não</p><p>reconheceu a condição autodeclarada da autora, com base nos critérios fenotípicos. Diante do que ora</p><p>sustenta, a análise da irresignação acerca do enquadramento nos requisitos para concorrência especial e</p><p>da fundamentação do ato que determinou sua exclusão do concurso exigiria a dilação probatória, o que é</p><p>sabidamente inviável na via escolhida, sem prejuízo das vias ordinárias. (...)</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no RMS 61.579/RS, Rel. Min. Assusete Magalhães, julgado em 27/6/2022.</p><p>Em suma:</p><p>O critério de orientação para a confirmação do direito à concorrência especial funda-se no fenótipo, e</p><p>não meramente no genótipo, na ancestralidade do candidato.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 7</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt nos EDcl no RMS 69.978-BA, Rel. Min. Paulo Sérgio Domingues, julgado em</p><p>23/10/2023 (Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>Vale ressaltar que existem julgados do STJ nem admitindo mandado de segurança nesses casos quando o</p><p>impetrante busca a reanálise de provas:</p><p>É inadequado o manejo de mandado de segurança com vistas à defesa do direito de candidato em</p><p>concurso público a continuar concorrendo às vagas reservadas às pessoas pretas ou pardas, quando a</p><p>comissão examinadora de heteroidentificação não confirma a sua autodeclaração.</p><p>STJ. 1ª Turma. RMS 58785-MS, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 23/08/2022 (Info 746).</p><p>No caso concreto acima explicado, João não pretendia a reanálise de provas, razão pela qual foi conhecido</p><p>o mandado de segurança.</p><p>Vale registrar, por fim, que o candidato só pode ser excluído de concurso público por não se enquadrar na</p><p>cota para negros se houver contraditório e ampla defesa:</p><p>A exclusão do candidato, que concorre à vaga reservada em concurso público, pelo critério da</p><p>heteroidentificação, seja pela constatação de fraude, seja pela aferição do fenótipo ou por qualquer outro</p><p>fundamento, exige o franqueamento do contraditório e da ampla defesa.</p><p>STJ. 2ª Turma. RMS 62040-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 17/12/2019 (Info 666).</p><p>SERVIDORES PÚBLICOS</p><p>A GACEN é extensível aos aposentados e pensionistas que se enquadrarem na hipótese legal,</p><p>pressupondo a percepção da gratificação quando o servidor ainda estava em atividade</p><p>ODS 16</p><p>A Gratificação Especial de Atividade de Combate e Controle de Endemias – GACEN possui</p><p>natureza pro labore faciendo. Apesar disso, como ela é paga de forma indistinta a todos os</p><p>servidores da ativa, no mesmo percentual, ela é considerada pelo STJ como uma gratificação</p><p>de natureza genérica, sendo, portanto, extensível a todos os aposentados e pensionistas, desde</p><p>que a parte autora demonstre que se enquadra na hipótese legal, o que pressupõe a percepção</p><p>da gratificação quando o servidor ainda estava em atividade.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1.966.052-PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 2/10/2023</p><p>(Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>GACEN</p><p>A GACEN, ou Gratificação de Atividade de Combate e Controle de Endemias, é uma gratificação paga aos</p><p>servidores públicos federais do Ministério da Saúde e da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) que</p><p>realizam, em caráter permanente, atividades de saneamento, prevenção de doenças e promoção da</p><p>saúde, em áreas urbanas ou rurais, incluindo terras indígenas, áreas de remanescentes quilombolas, áreas</p><p>extrativistas e ribeirinhas.</p><p>A GACEN foi instituída pela Lei nº 11.784/2008:</p><p>Art. 54. Fica instituída, a partir de 1o de março de 2008, a Gratificação de Atividade de Combate</p><p>e Controle de Endemias - GACEN, devida aos ocupantes dos cargos de Agente Auxiliar de Saúde</p><p>Pública, Agente de Saúde Pública e Guarda de Endemias, do Quadro de Pessoal do Ministério da</p><p>Saúde e do Quadro de Pessoal da Fundação Nacional</p><p>de Saúde - FUNASA, regidos pela Lei no 8.112,</p><p>de 11 de dezembro de 1990.</p><p>Art. 55. A Gecen e a Gacen serão devidas aos titulares dos empregos e cargos públicos de que</p><p>tratam os arts. 53 e 54 desta Lei, que, em caráter permanente, realizarem atividades de combate</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 8</p><p>e controle de endemias, em área urbana ou rural, inclusive em terras indígenas e de</p><p>remanescentes quilombolas, áreas extrativistas e ribeirinhas.</p><p>§ 1º (Revogado pela Lei nº 12.778, de 2012)</p><p>§ 2º A Gacen será devida também nos afastamentos considerados de efetivo exercício, quando</p><p>percebida por período igual ou superior a 12 (doze) meses.</p><p>§ 3º Para fins de incorporação da Gacen aos proventos de aposentadoria ou às pensões dos</p><p>servidores que a ela fazem jus, serão adotados os seguintes critérios: (Redação dada pela Lei nº</p><p>12.702, de 2012)</p><p>I - para as aposentadorias e pensões instituídas até 19 de fevereiro de 2004, a Gacen será:</p><p>a) a partir de 1º de março de 2008, correspondente a 40% (quarenta por cento) do seu valor; e</p><p>b) a partir de 1º de janeiro de 2009, correspondente a 50% (cinqüenta por cento) do seu valor; e</p><p>II - para as aposentadorias e pensões instituídas após 19 de fevereiro de 2004:</p><p>a) quando aos servidores que lhes deram origem se aplicar o disposto nos arts. 3o e 6º da Emenda</p><p>Constitucional nº 41, de 19 de dezembro de 2003, e no art. 3º da Emenda Constitucional nº 47, de</p><p>5 de julho de 2005, aplicar-se-ão os percentuais constantes do inciso I deste parágrafo; e</p><p>b) aos demais aplicar-se-á, para fins de cálculo das aposentadorias e pensões, o disposto na Lei no</p><p>10.887, de 18 de junho de 2004.</p><p>§ 4º A Gecen e a Gacen não servirão de base de cálculo para quaisquer outros benefícios, parcelas</p><p>remuneratórias ou vantagens.</p><p>§ 5º A Gecen e a Gacen serão reajustadas na mesma época e na mesma proporção da revisão geral</p><p>da remuneração dos servidores públicos federais.</p><p>§ 6º A Gecen e a Gacen não são devidas aos ocupantes de cargo em comissão ou função de</p><p>confiança.</p><p>§ 7º A Gecen e a Gacen substituem para todos os efeitos a vantagem de que trata o art. 16 da Lei</p><p>nº 8.216, de 13 de agosto de 1991.</p><p>§ 8º Os servidores ou empregados que receberem a Gecen ou Gacen não receberão diárias que</p><p>tenham como fundamento deslocamento nos termos do caput deste artigo, desde que não exija</p><p>pernoite.</p><p>O valor da GACEN sempre foi fixo, ou seja, todos os servidores que estão na atividade e que recebem</p><p>GACEN, ganham o mesmo valor. Inicialmente era R$ 590,00 e depois foi sendo aumentado.</p><p>Os aposentados e pensionistas, por outro lado, não recebem o valor integral da GACEN. Eles ganham um</p><p>percentual, conforme previsto no art. 55, § 3º, inciso I, alíneas “a” e “b”, e inciso II, alíneas “a” e “b” da Lei</p><p>nº 11.784/2008.</p><p>Ação coletiva</p><p>O Sindicato dos Servidores Públicos Federais ajuizou ação contra a União afirmando que essa diferença de</p><p>pagamento entre os servidores ativos e inativos seria inconstitucional, porque violaria o princípio da</p><p>paridade.</p><p>Requereu que fosse declarado que os servidores públicos aposentados e pensionistas possuem o direito</p><p>de receber a GACEN em valor igual ao recebido pelos servidores ativos.</p><p>Requereu, ainda, a condenação da ré ao pagamento das diferenças entre os valores pagos e os devidos a</p><p>título de GACEN, acrescidas de juros de mora e correção monetária.</p><p>O que é o princípio da paridade?</p><p>O princípio da paridade era uma garantia que os servidores públicos aposentados possuíam, segundo a</p><p>qual todas as vezes que havia um aumento na remuneração percebida pelos servidores da ativa, esse</p><p>incremento também deveria ser concedido aos aposentados.</p><p>No dicionário “paridade” significa a qualidade de ser igual. Assim, o princípio da paridade enunciava que</p><p>os proventos deveriam ser iguais à remuneração da ativa.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 9</p><p>A regra da paridade estava prevista no art. 40, § 8º, da CF/88, incluído pela EC 20/1998.</p><p>O princípio da paridade foi revogado pela EC 41/2004. No entanto, alguns servidores tiveram direito</p><p>adquirido de continuar com a paridade.</p><p>Quem são esses servidores que ainda possuem direito à paridade?</p><p>• servidores que já estavam aposentados quando entrou em vigor a EC 41;</p><p>• servidores que ainda estavam na atividade, mas que já preenchiam os requisitos para se aposentar</p><p>quando entrou em vigor a EC 41;</p><p>• servidores que se enquadrarem nas regras de transição do art. 6º da EC 41 e do art. 3º da EC 47.</p><p>Desse modo, apesar de não mais existir atualmente a paridade para as novas aposentadorias, inúmeros</p><p>aposentados possuem esse direito.</p><p>No lugar da paridade, existe hoje o chamado “princípio da preservação do valor real”, previsto no art. 40,</p><p>§ 8º, da CF/88, segundo o qual os proventos do aposentado devem ser constantemente reajustados para</p><p>que seja sempre garantido o seu poder de compra.</p><p>Art. 40 (...)</p><p>§ 8º É assegurado o reajustamento dos benefícios para preservar-lhes, em caráter permanente, o</p><p>valor real, conforme critérios estabelecidos em lei. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº</p><p>41/2003)</p><p>Contestação</p><p>A União contestou alegando que a GACEN se constitui em vantagem de caráter “pro labore faciendo”, na</p><p>medida em que vinculada ao custeio do exercício de uma atividade determinada, motivo pelo qual não</p><p>existe justificativa para a sua extensão, pelo mesmo valor, aos aposentados e aos pensionistas que não</p><p>trabalham sob as condições especiais que lhe dão ensejo.</p><p>O que é uma gratificação de natureza propter rem?</p><p>Gratificação propter rem, também chamada de pro labore faciendo, é aquela paga ao servidor em</p><p>atividade por conta de um trabalho que ele está desempenhando (pro labore faciendo = por um trabalho</p><p>que está fazendo).</p><p>Trata-se de uma gratificação instituída para recompensar o servidor pelo ônus que ele está tendo ao</p><p>desempenhar serviços que estão fora das atribuições normais de seu cargo.</p><p>Como a gratificação pro labore faciendo é paga por causa desse serviço “a mais” que o servidor está</p><p>desempenhando, essa verba somente se justifica enquanto o agente público estiver no efetivo exercício</p><p>da atividade. Logo, não há razão jurídica para pagar a quantia se o servidor está aposentado.</p><p>Ex.: Guilherme ocupa o cargo de técnico A1 do Ministério da Fazenda. É criada uma gratificação de R$ 2</p><p>mil para os técnicos A1 que estejam cuidando do processo de reformulação da arrecadação tributária.</p><p>Nem todos os técnicos A1 irão receber essa quantia, mas somente aqueles que estiverem no exercício</p><p>dessa atividade específica. Isso significa que essa gratificação é pro labore faciendo. Logo, ela não será</p><p>paga aos servidores inativos, mesmo que eles tenham se aposentado na época em que vigorava o princípio</p><p>da paridade.</p><p>A gratificação pro labore faciendo é uma verba que não está abrangida pelo princípio da paridade.</p><p>O STJ concordou com os argumentos do sindicato ou da União?</p><p>Do sindicato.</p><p>O caput do art. 54 da Lei nº 11.784/2008 instituiu, a partir de 1º de março de 2008, a Gratificação de</p><p>Atividade de Combate e Controle de Endemias - GACEN, devida aos ocupantes dos cargos de Agente</p><p>Auxiliar de Saúde Pública, Agente de Saúde Pública e Guarda de Endemias, do Quadro de Pessoal</p><p>do</p><p>Ministério da Saúde e do Quadro de Pessoal da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA, regidos pela Lei</p><p>nº 8.112/90.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 10</p><p>A norma estabeleceu que a GACEN seria devida, de forma genérica, ou seja, independentemente de</p><p>avaliação de produtividade, “aos titulares dos empregos e cargos públicos de que tratam os arts. 53 e 54</p><p>desta Lei, que, em caráter permanente, realizarem atividades de combate e controle de endemias, em</p><p>área urbana ou rural, inclusive em terras indígenas e de remanescentes quilombolas, áreas extrativistas e</p><p>ribeirinhas”.</p><p>A Lei previu que seria possível incorporar essa gratificação na aposentadoria. No entanto, para que ocorra</p><p>a incorporação é necessário que a parte demonstre que:</p><p>• desempenhava atividades de combate e controle de endemias, em área urbana ou rural, inclusive em</p><p>terras indígenas e de remanescentes quilombolas, áreas extrativistas e ribeirinhas; e</p><p>• que recebia a gratificação quando ainda estava em atividade.</p><p>Além disso, a Lei previa o pagamento de um valor menor para os aposentados.</p><p>O STJ não concordou com essa previsão legal.</p><p>Segundo a jurisprudência do STJ e do STF, se a gratificação de desempenho, ainda que possua caráter pro</p><p>labore faciendo, for paga indistintamente a todos os servidores em atividade, no mesmo percentual, isso</p><p>significa que essa gratificação tem, na realidade, uma natureza genérica, sendo, portanto, extensível a</p><p>todos os aposentados e pensionistas.</p><p>Dessa forma, os aposentados e pensionistas têm direito ao recebimento da GACEN no mesmo valor que</p><p>os servidores da ativa, nos termos do art. 40, §8º da Constituição Federal, desde que tenham preenchido</p><p>os requisitos para a aposentação antes de 31 de dezembro de 2003 (art. 7º da EC 41/2003) ou que se</p><p>aposentaram com a aplicação das regras de transição do art. 6º da EC 41/2003 ou no art. 3º da EC 47/2005,</p><p>com a paridade de vencimentos.</p><p>Em suma:</p><p>A Gratificação Especial de Atividade de Combate e Controle de Endemias - GACEN é extensível aos</p><p>aposentados e pensionistas que se enquadrarem na hipótese legal, pressupondo a percepção da</p><p>gratificação quando o servidor ainda estava em atividade.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1.966.052-PR, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 2/10/2023 (Info 14</p><p>– Edição Extraordinária).</p><p>PROCESSO ADMINISTRATIVO</p><p>Negado o recurso administrativo interposto contra a multa, a data de vencimento continua</p><p>sendo aquela contida na primeira notificação, incidindo juros de mora a partir do primeiro dia</p><p>subsequente ao vencimento do prazo previsto para o pagamento da multa</p><p>ODS 16</p><p>A interposição de recurso administrativo não afasta a incidência dos juros moratórios, os</p><p>quais devem incidir a partir do primeiro dia subsequente ao vencimento do prazo previsto</p><p>para o pagamento da multa administrativa, conforme disposição do art. 61, § 1º, da Lei nº</p><p>9.430/96.</p><p>Exemplo: em 19/06/2009, a empresa foi notificada da decisão que aplicou a multa, sendo</p><p>informada de que tinha 30 dias para realizar o pagamento (até o dia 21/07/2009). A empresa,</p><p>em vez de efetuar o pagamento, decidiu interpor recurso administrativo. Em 19/11/2009, o</p><p>recurso administrativo foi desprovido. A Administração Pública irá cobrar a multa acrescida</p><p>de juros moratórios contados desde 21/07/2009, quando se encerrou o prazo de 30 dias que</p><p>a empresa tinha para pagar.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>PROCESSO ADMINISTRATIVO</p><p>Negado o recurso administrativo interposto contra a multa, a data de vencimento continua</p><p>sendo aquela contida na primeira notificação, incidindo juros de mora a partir do primeiro dia</p><p>subsequente ao vencimento do prazo previsto para o pagamento da multa (recurso nao altera vencimento multa)</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 11</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no AREsp 1.716.010-RJ, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 25/9/2023 (Info 14</p><p>– Edição Extraordinária).</p><p>Imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>Determinada operadora de plano de saúde foi multada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar</p><p>(ANS), com base no art. 25, II, da Lei nº 9.656/98 (Lei dos Planos de Saúde):</p><p>Art. 25. As infrações dos dispositivos desta Lei e de seus regulamentos, bem como aos dispositivos</p><p>dos contratos firmados, a qualquer tempo, entre operadoras e usuários de planos privados de</p><p>assistência à saúde, sujeitam a operadora dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1º do art. 1º</p><p>desta Lei, seus administradores, membros de conselhos administrativos, deliberativos,</p><p>consultivos, fiscais e assemelhados às seguintes penalidades, sem prejuízo de outras estabelecidas</p><p>na legislação vigente:</p><p>(...)</p><p>II - multa pecuniária;</p><p>Em 19/06/2009, a empresa foi notificada da decisão que aplicou a multa, sendo informada de que tinha</p><p>30 dias para realizar o pagamento. Isso significa que a empresa tinha até o dia 21/07/2009 para quitar o</p><p>débito. Se não houvesse o pagamento, haveria a incidência de juros moratórios.</p><p>A empresa, em vez de efetuar o pagamento, decidiu interpor recurso administrativo.</p><p>Em 19/11/2009, o recurso administrativo da operadora foi julgado desprovido.</p><p>A ANS cobrou, então, a multa imposta acrescida de juros moratórios. A agência considerou que os juros</p><p>deveriam ser calculados desde 21/07/2009, quando se encerrou o prazo de 30 dias que a empresa tinha</p><p>para pagar.</p><p>A empresa, por sua vez, argumentou que os juros de mora deveriam ser contados somente depois de 30</p><p>dias do julgamento definitivo, ou seja, depois de 30 dias contados de 19/11/2009.</p><p>A operadora do plano de saúde defendeu, portanto, a impossibilidade de incidência dos juros de mora</p><p>enquanto não julgado o recurso administrativo, visto que ainda não teria havido a constituição definitiva</p><p>do crédito.</p><p>Quem tem razão: a operadora ou a ANS?</p><p>A ANS.</p><p>A Lei nº 10.522/2002 dispõe sobre o Cadastro Informativo dos créditos não quitados de órgãos e entidades</p><p>federais.</p><p>O art. 37-A dessa Lei prevê que:</p><p>Art. 37-A. Os créditos das autarquias e fundações públicas federais, de qualquer natureza, não pagos</p><p>nos prazos previstos na legislação, serão acrescidos de juros e multa de mora, calculados nos termos</p><p>e na forma da legislação aplicável aos tributos federais. (Incluído pela Lei nº 11.941/2009)</p><p>Desse modo, temos que buscar a regra que existe na legislação aplicável aos tributos federais, que, no</p><p>caso, é a Lei nº 9.430/96.</p><p>O art. 61, § 1º, da Lei nº 9.430/96, corrobora o argumento da ANS:</p><p>Art. 61. Os débitos para com a União, decorrentes de tributos e contribuições administrados pela</p><p>Secretaria da Receita Federal, cujos fatos geradores ocorrerem a partir de 1º de janeiro de 1997,</p><p>não pagos nos prazos previstos na legislação específica, serão acrescidos de multa de mora,</p><p>calculada à taxa de trinta e três centésimos por cento, por dia de atraso.</p><p>§ 1º A multa de que trata este artigo será calculada a partir do primeiro dia subsequente ao do</p><p>vencimento do prazo previsto para o pagamento do tributo ou da contribuição até o dia em que</p><p>ocorrer o seu pagamento.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 12</p><p>(...)</p><p>Mas a interposição do recurso administrativo não interrompe a incidência dos juros?</p><p>NÃO.</p><p>A interposição de recurso administrativo suspende a exigibilidade da multa, mas não suspende a</p><p>exigibilidade dos juros moratórios. Nesse sentido:</p><p>A interposição do recurso administrativo apenas pode ensejar a suspensão da exigibilidade da multa</p><p>administrativa, mas não interfere no termo inicial dos encargos da mora, os quais incidem a partir do</p><p>primeiro dia subsequente ao vencimento do prazo previsto para pagamento do crédito.</p><p>STJ. 2ª Turma. AgInt no AREsp 1.705.876/PR, Rel. Min. Og Fernandes, DJe 29/03/2021.</p><p>Desse modo, a interposição de recurso administrativo não afasta a incidência dos juros moratórios. Esse</p><p>entendimento encontra amparo nos arts. 2º e 5º do Decreto-Lei nº 1.736/79, que dispõe sobre débitos</p><p>para com a Fazenda:</p><p>Art. 2º Os débitos de qualquer natureza para com a Fazenda Nacional serão acrescidos, na via</p><p>administrativa ou judicial, de juros de mora, contados do dia seguinte ao do vencimento e à razão</p><p>de 1% (um por cento) ao mês calendário, ou fração, e calculados sobre o valor originário.</p><p>Art. 5º A correção monetária e os juros de mora serão devidos inclusive durante o período em que</p><p>a respectiva cobrança houver sido suspensa por decisão administrativa ou judicial.</p><p>Registre-se, por oportuno, que a impossibilidade de a agência reguladora dar início aos atos executivos,</p><p>para fins de cobrança de seu crédito, antes da conclusão definitiva do processo administrativo, não altera</p><p>a data do vencimento da dívida nem impede a constituição em mora do devedor, nos termos da legislação</p><p>aplicável aos tributos federais.</p><p>Em suma:</p><p>A interposição de recurso administrativo não afasta a incidência dos juros moratórios, os quais devem</p><p>incidir a partir do primeiro dia subsequente ao vencimento do prazo previsto para o pagamento da</p><p>multa administrativa, conforme disposição do art. 61, § 1º, da Lei n. 9.430/1996.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no AREsp 1.716.010-RJ, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 25/9/2023 (Info 14 –</p><p>Edição Extraordinária).</p><p>No mesmo sentido:</p><p>Negado o recurso administrativo pela ANS, a data de vencimento do crédito continua sendo aquela</p><p>contida na primeira notificação, passando a incidir os juros de mora a partir do primeiro dia subsequente</p><p>ao vencimento do prazo previsto para o pagamento da multa administrativa, conforme disposição do art.</p><p>61, § 1º, da Lei nº 9.430/96.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no AREsp 1.494.736/RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 29/5/2023.</p><p>A interposição de recurso administrativo não afasta a incidência dos juros moratórios, ex vi do disposto</p><p>nos arts. 2º e 5º do Decreto-lei n. 1.736/1979, os quais devem incidir a partir do primeiro dia subsequente</p><p>ao vencimento do prazo previsto para o pagamento da multa administrativa, conforme disposição do art.</p><p>61, § 1º, da Lei nº 9.430/96.</p><p>STJ. 1ª Turma. AgInt no REsp 1.890.217/RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 12/6/2023.</p><p>A interposição de recurso administrativo suspende a exigibilidade da multa, mas não suspende a</p><p>exigibilidade dos juros moratórios.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 13</p><p>Desse modo, a interposição de recurso administrativo não afasta a incidência dos juros moratórios, por</p><p>força dos arts. 2º e 5º do Decreto-Lei nº 1.736/1979, os quais devem incidir a partir do primeiro dia</p><p>subsequente ao vencimento do prazo previsto para o pagamento da multa administrativa, conforme</p><p>disposição do art. 61, §1º, da Lei nº 9.430/96.</p><p>STJ. 1ª Turma. AREsp 1574873-RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 18/10/2022 (Info 754).</p><p>PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR</p><p>O art. 57 da Lei 9.784/99 fala que o recurso administrativo tramitará por três instâncias; isso não</p><p>significa, contudo, que a parte poderá interpor três recursos</p><p>ODS 16</p><p>Ainda que o art. 57 da Lei nº 9.784/99 preveja o curso recursal por até três diversas instâncias</p><p>administrativas, não será dado ao sucumbente manejar três sucessivos recursos, mas somente</p><p>dois (um perante a instância de origem e um segundo, junto à instância administrativa</p><p>imediatamente superior), sob pena de se percorrer quatro instâncias administrativas.</p><p>STJ. 1ª Seção. MS 27.102-DF, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 23/8/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>Imagine a seguinte situação hipotética:</p><p>João, Delegado Federal, respondeu a processo administrativo disciplinar.</p><p>Ao final, o Superintendente Regional da PF aplicou contra o Delegado a penalidade de suspensão por 15</p><p>dias.</p><p>João interpôs recurso hierárquico para o Diretor-Geral da Polícia Federal, tendo sido desprovido.</p><p>Ainda inconformado, João ingressou com novo recurso hierárquico, agora para o Ministro da Justiça. Mais</p><p>uma vez, o recurso foi desprovido.</p><p>João, em seguida, interpôs recurso hierárquico dirigido ao Presidente da República.</p><p>O Ministro da Justiça negou o envio dos autos à Presidência da República para análise do mérito recursal,</p><p>sob o fundamento de João teria esgotado os três níveis hierárquicos de interposição de recurso, nos</p><p>termos do art. 57 da Lei nº 9.784/99:</p><p>Art. 57. O recurso administrativo tramitará no máximo por três instâncias administrativas, salvo</p><p>disposição legal diversa.</p><p>Obs: a Lei nº 9.784/99 regula o processo administrativo no âmbito da Administração Pública Federal.</p><p>Mandado de segurança</p><p>João impetrou mandado de segurança contra o ato do Ministro da Justiça.</p><p>O impetrante argumentou que o art. 57 da Lei nº 9.784/99 asseguraria a possibilidade de o servidor</p><p>público federal interpor três recursos. Afirmou ter utilizado apenas duas instâncias recursais. Logo, teria o</p><p>direito de ter seu terceiro recurso analisado pelo Presidente da República.</p><p>O STJ acolheu os argumentos do impetrante?</p><p>NÃO.</p><p>O § 1º do art. 56 da Lei nº 9.784/99 afirma que o recurso “será dirigido à autoridade que proferiu a</p><p>decisão”.</p><p>O art. 57 do mesmo diploma legal estabelece que sua tramitação será de “no máximo por três instâncias</p><p>administrativas, salvo disposição legal diversa”.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>PROCESSO ADMINISTRATIVO DISCIPLINAR</p><p>Ainda que o art. 57 da Lei nº 9.784/99 preveja o curso recursal por até três diversas instâncias</p><p>administrativas, não será dado ao sucumbente manejar três sucessivos recursos, mas somente</p><p>dois (um perante a instância de origem e um segundo, junto à instância administrativa</p><p>imediatamente superior), sob pena de se percorrer quatro instâncias administrativas.</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 14</p><p>Percebe-se, portanto, que não há uma garantia legal de interposição de três sucessivas insurgências</p><p>recursais (três recursos). Ao contrário. A regra legal limita a tramitação recursal por apenas três instâncias,</p><p>assegurando, portanto, a interposição de duas impugnações recursais, exceto se existente, para o</p><p>respectivo rito, “disposição legal diversa”.</p><p>Vejamos:</p><p>• o servidor que deseja recorrer, irá dirigir (endereçar) o recurso para a autoridade que proferiu a decisão.</p><p>É o que prevê o art. 56,</p><p>§ 1º, da Lei;</p><p>• assim, o servidor interpõe o primeiro recurso na instância administrativa de base (instância decidiu);</p><p>• a autoridade que nesse primeiro nível hierárquico proferiu a decisão impugnada poderá reconsiderá-la</p><p>ou não. Essa é a 1ª instância administrativa. Em nosso exemplo, o Superintendente Regional da PF;</p><p>• se a decisão for mantida (não houver reconsideração), esse mesmo recurso, será agora encaminhado</p><p>para ser apreciado pela autoridade hierárquica imediatamente superior, ou seja, perante a 2ª instância</p><p>administrativa. Em nosso exemplo, o Superintendente manteve a sua decisão e, em razão disso,</p><p>encaminhou o recurso para ser apreciado pelo Diretor-Geral da PF;</p><p>• se o servidor for novamente sucumbente, ele ainda terá direito a uma segunda e nova insurgência</p><p>recursal (segundo recurso). Esse segundo recurso será encaminhado e decidido no âmbito da terceira</p><p>instância administrativa. Em nosso exemplo, o Ministro da Justiça;</p><p>• se esse segundo recurso (que é apreciado pela terceira instância administrativa) for desprovido, não</p><p>haverá mais lugar para um terceiro recurso porque isso estaria fora daquilo que prevê o art. 57 da Lei;</p><p>• se houvesse um terceiro recurso, como quer João, ele seria apreciado por uma quarta instância</p><p>administrativa, o que violaria o art. 57.</p><p>Não se deve, portanto, confundir três instâncias administrativas com três recursos administrativos.</p><p>O recurso do impetrante passou por três instâncias: 1) o Superintendente Regional da Polícia Federal; 2)</p><p>o Diretor-Geral da Polícia Federal; e 3) o Ministro da Justiça.</p><p>Ainda que a lei preveja o curso recursal por até três diversas instâncias administrativas, não será dado ao</p><p>sucumbente manejar três sucessivos recursos, mas somente dois (um perante a instância de origem e um</p><p>segundo, junto à instância administrativa imediatamente superior), sob pena de se percorrer quatro</p><p>instâncias administrativas.</p><p>Cumpre salientar que a Lei nº 8.112/90, embora não defina o número de instâncias percorríveis, traz</p><p>previsão similar quanto ao processamento do recurso, no sentido de que o recurso será interposto perante</p><p>a autoridade que proferiu a decisão recorrida, isto é, a instância a quo. Veja:</p><p>Art. 107 (...)</p><p>§ 2º O recurso será encaminhado por intermédio da autoridade a que estiver imediatamente</p><p>subordinado o requerente.</p><p>Aplica-se ao caso, portanto, a regra geral do art. 57 da Lei do Processo Administrativo Federal, no que toca</p><p>à limitação de instâncias recursais (tramitação por até três instâncias, dando ensejo, nesse iter, a no</p><p>máximo duas interposições recursais).</p><p>Em suma:</p><p>Ainda que o art. 57 da Lei n. 9.784/1999 preveja o curso recursal por até três diversas instâncias</p><p>administrativas, não será dado ao sucumbente manejar três sucessivos recursos, mas somente dois (um</p><p>perante a instância de origem e um segundo, junto à instância administrativa imediatamente superior),</p><p>sob pena de se percorrer quatro instâncias administrativas.</p><p>STJ. 1ª Seção. MS 27.102-DF, Rel. Min. Sérgio Kukina, julgado em 23/8/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 15</p><p>CONTRATOS ADMINISTRATIVOS</p><p>O contrato de financiamento habitacional celebrado por empresa pública com mutuários, ainda</p><p>que de baixa renda, pode conter cláusula de alienação fiduciária e, em caso de inadimplemento,</p><p>pode ser realizado o leilão do imóvel, não havendo ilegalidade nessa prática</p><p>ODS 16</p><p>É possível manter a cláusula de alienação fiduciária nos contratos regidos por empresa</p><p>pública estadual criada para executar a política de habitação, como também é admissível o</p><p>leilão público dos imóveis quando houver a execução daquela garantia.</p><p>STJ. 1ª Turma. AREsp 1.776.983-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 19/9/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>Alienação fiduciária</p><p>“A alienação fiduciária em garantia é um contrato instrumental em que uma das partes, em confiança, aliena</p><p>a outra a propriedade de um determinado bem, ficando esta parte (uma instituição financeira, em regra)</p><p>obrigada a devolver àquela o bem que lhe foi alienado quando verificada a ocorrência de determinado fato.”</p><p>(RAMOS, André Luiz Santa Cruz. Direito Empresarial. Salvador: Juspodivm, 2021, p. 827).</p><p>Regramento</p><p>O Código Civil de 2002 trata de forma genérica sobre a propriedade fiduciária em seus arts. 1.361 a 1.368-</p><p>B. Existem, no entanto, leis específicas que também regem o tema:</p><p>• alienação fiduciária envolvendo bens imóveis: Lei nº 9.514/97;</p><p>• alienação fiduciária de bens móveis no âmbito do mercado financeiro e de capitais: Lei nº 4.728/65 e</p><p>Decreto-Lei nº 911/69. É o caso, por exemplo, de um automóvel comprado por meio de financiamento</p><p>bancário com garantia de alienação fiduciária.</p><p>Nas hipóteses em que houver legislação específica, as regras do CC aplicam-se apenas de forma subsidiária:</p><p>Art. 1.368-A. As demais espécies de propriedade fiduciária ou de titularidade fiduciária submetem-</p><p>se à disciplina específica das respectivas leis especiais, somente se aplicando as disposições deste</p><p>Código naquilo que não for incompatível com a legislação especial.</p><p>Resumindo:</p><p>Alienação fiduciária de</p><p>bens MÓVEIS fungíveis e</p><p>infungíveis quando o credor</p><p>fiduciário for instituição</p><p>financeira</p><p>Alienação fiduciária de</p><p>bens MÓVEIS infungíveis</p><p>quando o credor fiduciário for</p><p>pessoa natural ou jurídica (sem</p><p>ser banco)</p><p>Alienação fiduciária de</p><p>bens IMÓVEIS</p><p>Lei nº 4.728/65</p><p>Decreto-Lei nº 911/69</p><p>Código Civil de 2002</p><p>(arts. 1.361 a 1.368-B)</p><p>Lei nº 9.514/97</p><p>Alienação fiduciária de bens imóveis</p><p>Na alienação fiduciária de bem imóvel alguém (fiduciante) toma dinheiro emprestado de outrem</p><p>(fiduciário) e, como garantia de que irá pagar a dívida, transfere a propriedade resolúvel de um bem imóvel</p><p>para o credor, ficando este obrigado a devolver ao devedor o bem que lhe foi alienado quando houver o</p><p>adimplemento integral do débito.</p><p>Veja agora o conceito dado pela Lei nº 9.514/97:</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>CONTRATOS ADMINISTRATIVOS</p><p>O contrato de financiamento habitacional celebrado por empresa pública com mutuários, ainda</p><p>que de baixa renda, pode conter cláusula de alienação fiduciária e, em caso de inadimplemento,</p><p>pode ser realizado o leilão do imóvel, não havendo ilegalidade nessa prática</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 16</p><p>Art. 22. A alienação fiduciária regulada por esta Lei é o negócio jurídico pelo qual o fiduciante, com</p><p>o escopo de garantia de obrigação própria ou de terceiro, contrata a transferência ao credor, ou</p><p>fiduciário, da propriedade resolúvel de coisa imóvel. (Redação dada pela Lei nº 14.711, de 2023)</p><p>O que acontece em caso de inadimplemento do mutuário?</p><p>Havendo mora por parte do mutuário, o credor deverá fazer a notificação extrajudicial (“intimação”) do</p><p>devedor de que este se encontra em débito, comprovando, assim, a mora.</p><p>Não havendo a purgação da mora, a propriedade do imóvel será consolidada em nome do fiduciário. Uma</p><p>vez consolidada a propriedade em seu nome, o fiduciário, no prazo de 60 dias, deverá promover um leilão</p><p>público para alienar o imóvel (art. 27).</p><p>Feita essa revisão, veja agora o caso concreto enfrentado pelo STJ:</p><p>A Companhia de Desenvolvimento</p><p>Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) é uma empresa</p><p>pública estadual criada para executar a política de habitação.</p><p>A CDHU celebra contratos de financiamento habitacional para emprestar dinheiro a fim de que pessoas</p><p>de baixa renda possam ter sua casa própria.</p><p>Nesses contratos, existe uma cláusula de alienação fiduciária, regida pela Lei nº 9.514/97, segundo a qual,</p><p>se o mutuário (pessoa que foi beneficiada com o empréstimo) deixar de pagar as parcelas, a propriedade</p><p>do imóvel se consolida em nome do fiduciário (CDHU) e o bem será vendido em um leilão, na forma dos</p><p>arts. 26 e 27 da Lei nº 9.514/97:</p><p>Art. 26. Vencida e não paga, no todo ou em parte, a dívida e constituído em mora o fiduciante,</p><p>consolidar-se-á, nos termos deste artigo, a propriedade do imóvel em nome do fiduciário.</p><p>Art. 27. Uma vez consolidada a propriedade em seu nome, o fiduciário, no prazo de trinta dias,</p><p>contados da data do registro de que trata o § 7º do artigo anterior, promoverá público leilão para</p><p>a alienação do imóvel.</p><p>A Defensoria Pública do Estado ingressou com ação civil pública contra a CDHU e o Estado de São Paulo,</p><p>alegando que a inclusão da cláusula de alienação fiduciária em garantia é incompatível com a política</p><p>habitacional estadual e que gera consequências muito negativas para os mutuários pois leva à remoção</p><p>de famílias de baixa renda de suas moradias em caso de inadimplência.</p><p>Argumentou que a execução extrajudicial e o leilão dos imóveis pela CDHU limita o direito de defesa dos</p><p>mutuários e possibilita a especulação imobiliária, contrariando o objetivo da política habitacional.</p><p>A Defensoria Pública pediu que a CDHU fosse proibida:</p><p>• de executar a garantia de alienação fiduciária nos contratos habitacionais já assinados;</p><p>• de realizar leilões dos imóveis dos mutuários inadimplentes; e de</p><p>• incluir essa cláusula de garantia de alienação fiduciária nos novos contratos.</p><p>A discussão chegou até o STJ. Os argumentos da Defensoria Pública foram acolhidos? É ilegal a inclusão</p><p>de cláusula de alienação fiduciária nos contratos de financiamento habitacional celebrados pela CDHU</p><p>com a população de baixa renda?</p><p>NÃO.</p><p>Em primeiro lugar, o STJ afirmou que não havia motivo para o Estado de São Paulo figurar no polo passivo</p><p>da demanda, sendo ele, portanto, parte ilegítima.</p><p>A CDHU é empresa pública, sendo ela a responsável pelos contratos de financiamento habitacional.</p><p>As empresas estatais componentes da administração indireta gozam de personalidade jurídica própria e</p><p>autonomia em relação ao ente que as criou. No caso, mesmo que o ente federativo (Estado de São Paulo)</p><p>seja, a princípio, o responsável pela política de habitação estadual, o ordenamento jurídico faculta-lhe a</p><p>possibilidade de delegar tal atribuição à entidade criada com essa finalidade. Foi esse o caso.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 17</p><p>Se fosse exigido que o ente delegante (Estado de São Paulo) compusesse o polo passivo com o delegatário</p><p>(CDHU) - embora contra aquele primeiro não haja pedido explícito -, haveria o esvaziamento do instituto</p><p>da descentralização administrativa, que faculta à administração direta transferir poderes e atribuições a</p><p>sujeito de direito distinto e autônomo.</p><p>Superado esse ponto, o STJ afirmou que o pedido deveria ser julgado improcedente quanto à CDHU.</p><p>Não há, no ordenamento jurídico, dispositivo legal que proíba a inclusão da cláusula de alienação fiduciária</p><p>nas aquisições de imóveis para moradia popular. Ao contrário. O atual art. 26-A da Lei nº 9.514/97</p><p>expressamente admite o emprego da garantia nos contratos de operações de financiamento habitacional:</p><p>Art. 26-A. Os procedimentos de cobrança, purgação de mora, consolidação da propriedade</p><p>fiduciária e leilão decorrentes de financiamentos para aquisição ou construção de imóvel</p><p>residencial do devedor, exceto as operações do sistema de consórcio de que trata a Lei nº 11.795,</p><p>de 8 de outubro de 2008, estão sujeitos às normas especiais estabelecidas neste artigo. (Redação</p><p>dada pela Lei nº 14.711, de 2023)</p><p>Assim, o pedido da Defensoria Pública seria, inclusive, contra legem.</p><p>Ademais, a Lei nº 9.514/97 estabelece expressamente as consequências relacionadas à execução da</p><p>garantia, sendo a principal delas a possibilidade de realização de consolidação da propriedade em nome</p><p>do agente fiduciário e a promoção de leilão público (art. 27). Tal situação só ocorre nos casos mais graves</p><p>de inadimplemento, de modo que a possibilidade de ofertar esses imóveis para mais interessados</p><p>incrementa a possibilidade de alienação do bem e, consequentemente, reduz bastante as chances de o</p><p>sistema ser deficitário e benéfico à manutenção do próprio programa de moradia popular.</p><p>Portanto, não só é possível manter a cláusula de alienação fiduciária nos contratos regidos por empresa</p><p>pública estadual criada para executar a política de habitação, como também é admissível o leilão público</p><p>dos imóveis quando houver a execução daquela garantia.</p><p>Em suma:</p><p>É possível manter a cláusula de alienação fiduciária nos contratos regidos por empresa pública estadual</p><p>criada para executar a política de habitação, como também é admissível o leilão público dos imóveis</p><p>quando houver a execução daquela garantia.</p><p>STJ. 1ª Turma. AREsp 1.776.983-SP, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 19/9/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>TEMAS DIVERSOS</p><p>O ente federado pode promover diretamente ação judicial contra operadora privada de plano</p><p>de saúde para ressarcimento de valores referentes a prestação de serviço de saúde em</p><p>cumprimento de ordem judicial</p><p>ODS 16</p><p>O art. 32 da Lei nº 9.656/98 prevê o chamado “ressarcimento ao SUS”, segundo o qual as</p><p>operadoras de planos de saúde possuem a obrigação de reembolsar o Sistema Único de Saúde</p><p>(SUS) pelos custos de tratamentos prestados a seus clientes. Este mecanismo funciona da</p><p>seguinte maneira: quando um paciente coberto por um plano de saúde é atendido por uma</p><p>instituição pública ou privada integrante do SUS. A Agência Nacional de Saúde Suplementar</p><p>(ANS) identifica esses pacientes cruzando dados entre os sistemas do SUS e o Sistema de</p><p>Informações de Beneficiários. A ANS notifica a operadora de saúde sobre os atendimentos</p><p>prestados a seus clientes e cobra o ressarcimento dos valores ao SUS.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Guilherme</p><p>Realce</p><p>TEMAS DIVERSOS</p><p>O ente federado pode promover diretamente ação judicial contra operadora privada de plano</p><p>de saúde para ressarcimento de valores referentes a prestação de serviço de saúde em cumprimento de ordem judicial</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 18</p><p>Se esse tratamento de saúde foi fornecido ao paciente por força de decisão judicial, o STJ</p><p>afirma que o ente federativo poderá buscar judicialmente o ressarcimento das despesas</p><p>diretamente contra a operadora do plano de saúde.</p><p>STJ. 1ª Turma. REsp 1.945.959-RS, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 17/10/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>Antes de explicar o julgado, é importante relembrarmos em que consiste o chamado ressarcimento ao</p><p>SUS.</p><p>Ressarcimento ao SUS</p><p>O art. 32 da Lei nº 9.656/98 prevê que, se um cliente do plano de saúde utilizar-se dos serviços do SUS, o</p><p>Poder Público poderá cobrar</p><p>do referido plano o ressarcimento que ele teve com essas despesas. Veja:</p><p>Art. 32. Serão ressarcidos pelas operadoras dos produtos de que tratam o inciso I e o § 1º do art.</p><p>1º desta Lei, de acordo com normas a serem definidas pela ANS, os serviços de atendimento à</p><p>saúde previstos nos respectivos contratos, prestados a seus consumidores e respectivos</p><p>dependentes, em instituições públicas ou privadas, conveniadas ou contratadas, integrantes do</p><p>Sistema Único de Saúde - SUS. (Redação dada pela Medida Provisória nº 2.177-44/2001)</p><p>Assim, o chamado “ressarcimento ao SUS”, criado pelo art. 32 da Lei nº 9.656/98, é uma obrigação legal</p><p>das operadoras de planos privados de assistência à saúde de restituir as despesas que o SUS teve ao</p><p>atender uma pessoa que seja cliente e que esteja coberta por esses planos.</p><p>Apenas a título de curiosidade, na prática funciona assim:</p><p>1) O paciente é atendido em uma instituição pública ou privada, conveniada ou contratada, integrante do</p><p>SUS;</p><p>2) A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) cruza os dados dos sistemas de informações do SUS</p><p>com o Sistema de Informações de Beneficiários (SIB) da própria Agência para identificar as pessoas que</p><p>foram atendidas na rede pública e que possuem plano de saúde;</p><p>3) A ANS notifica a operadora informando os atendimentos que realizou relacionados com seus clientes;</p><p>4) A operadora pode contestar isso nas instâncias administrativas, dizendo, por exemplo, que aquele</p><p>serviço utilizado pelo seu cliente no SUS não era coberto pelo plano, que o paciente já havia deixado de</p><p>ser usuário do plano etc.</p><p>5) Não havendo impugnação administrativa ou não sendo esta acolhida, a ANS cobra os valores devidos.</p><p>6) Caso não haja pagamento, a operadora será incluída no CADIN e os débitos inscritos em dívida ativa da</p><p>ANS para, em seguida, serem executados.</p><p>7) Os valores recolhidos a título de ressarcimento ao SUS são repassados pela ANS para o Fundo Nacional</p><p>de Saúde.</p><p>O art. 32 da Lei nº 9.656/98 é constitucional? É válida a sistemática do ressarcimento ao SUS?</p><p>SIM.</p><p>É constitucional o ressarcimento previsto no art. 32 da Lei nº 9.656/98, o qual é aplicável aos</p><p>procedimentos médicos, hospitalares ou ambulatoriais custeados pelo SUS e posteriores a 4.6.1998,</p><p>assegurados o contraditório e a ampla defesa, no âmbito administrativo, em todos os marcos jurídicos.</p><p>STF. Plenário. RE 597064/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes, julgado em 7/2/2018 (Repercussão Geral – Tema</p><p>345) (Info 890).</p><p>Imagine agora a seguinte situação hipotética:</p><p>Regina precisou realizar uma cirurgia bariátrica, que foi negada pelo SUS.</p><p>Inconformada, Regina ingressou com ação contra o Estado do Rio Grande do Sul a fim de obrigá-lo a</p><p>custear o procedimento.</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 19</p><p>O juiz deferiu a tutela provisória de urgência e a Regina realizou a cirurgia custeada pelo SUS.</p><p>Ao final, a tutela foi confirmada e o pedido julgado procedente. Houve o trânsito em julgado.</p><p>Depois de um tempo, a Administração Pública constatou que Regina era cliente do plano de saúde</p><p>Unimed, que tinha obrigação contratual de custear a bariátrica.</p><p>O Estado-membro tentou, administrativamente, conseguir o ressarcimento das despesas com o plano de</p><p>saúde, mas o pedido foi negado.</p><p>Diante desse cenário, o Estado-membro ajuizou ação contra a Unimed buscando o ressarcimento ao SUS,</p><p>com base no art. 32 da Lei nº 9.656/98.</p><p>A Unimed contestou apresentando dois argumentos principais:</p><p>1) o art. 32 não se aplicaria em casos de serviço prestado pelo SUS por força de decisão judicial;</p><p>2) a ANS é quem seria a responsável pelo ressarcimento, e não o Estado.</p><p>O STJ concordou com os argumentos do Estado-membro ou da Unimed?</p><p>Do Estado-membro.</p><p>O art. 32 da Lei nº 9.656/98 permite que os entes federados, ao cumprirem diretamente ordem judicial</p><p>de prestação de saúde pelo SUS, possam, posteriormente, reclamar judicialmente o ressarcimento das</p><p>despesas contra a operadora privada de plano de saúde.</p><p>Esse art. 32 não faz nenhuma ressalva, de forma que ele admite, de maneira ampla, a possibilidade de</p><p>ressarcimento do serviço prestado em instituição integrante do SUS, independentemente de esse</p><p>procedimento ter sido oferecido espontaneamente ou por determinação judicial.</p><p>Não há como excluir, das hipóteses de ressarcimento, os casos em que o atendimento (do segurado de</p><p>plano particular) pelo SUS é determinado por ordem judicial, sob pena de “culminar com o patrocínio</p><p>estatal da atividade privada” (STF, RE 597.064/RJ).</p><p>O art. 32 prevê um processo administrativo para o reembolso. Neste rito, a Agência Nacional de Saúde</p><p>Suplementar (ANS) é a responsável por determinar o valor do serviço prestado pelo SUS, cobrar esse valor</p><p>da operadora de plano de saúde privado, repassar o dinheiro ao Fundo Nacional de Saúde e, depois,</p><p>compensar financeiramente a entidade que pagou pelo serviço.</p><p>No entanto, em casos específicos onde uma decisão judicial já determinou que o SUS forneça o</p><p>procedimento/tratamento, não faria sentido seguir esse processo administrativo. Isso porque a decisão</p><p>judicial já traz em si todas as informações necessárias para justificar o reembolso ao ente federativo que</p><p>prestou o serviço.</p><p>Portanto, o processo administrativo conduzido pela ANS é uma das vias de ressarcimento, sendo a</p><p>principal, que atende os casos ordinários (comuns). Mas não é o único meio. Os Estados-membros, Distrito</p><p>Federal e Municípios, após fornecerem serviços de saúde por ordem judicial, também podem promover</p><p>diretamente a ação judicial contra o plano de saúde pedindo o reembolso dos valores gastos com o</p><p>tratamento fornecido por força de decisão judicial.</p><p>Em suma:</p><p>O ente federado pode promover diretamente ação judicial contra operadora privada de plano de saúde</p><p>para ressarcimento de valores referentes a prestação de serviço de saúde em cumprimento de ordem</p><p>judicial.</p><p>STJ. 1ª Turma. REsp 1.945.959-RS, Rel. Min. Gurgel de Faria, julgado em 17/10/2023 (Info 14 – Edição</p><p>Extraordinária).</p><p>B</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>r D</p><p>izer o</p><p>D</p><p>ireito</p><p>- w</p><p>w</p><p>w</p><p>.b</p><p>u</p><p>scad</p><p>o</p><p>rd</p><p>izero</p><p>d</p><p>ireito</p><p>.co</p><p>m</p><p>.b</p><p>r</p><p>D</p><p>isponibilizado para: G</p><p>uilherm</p><p>e R</p><p>odrigues | guilherm</p><p>e.g.rodrigues89@</p><p>gm</p><p>ail.com</p><p>| C</p><p>P</p><p>F</p><p>: 022.567.000-38</p><p>Informativo</p><p>comentado</p><p>Informativo 14-STJ (15/01/2024) – Márcio André Lopes Cavalcante | 20</p><p>DIREITO ADMINISTRATIVO MILITAR</p><p>O reconhecimento do direito à reforma é devido ao militar temporário não estável no caso de</p><p>cegueira, sem distinção se ela atinge um ou os dois olhos, sendo dispensável a comprovação do</p><p>nexo de causalidade com o serviço castrense</p><p>ODS 16</p><p>O militar temporário não estável, para ter direito à reforma, deve comprovar que é portador</p><p>de uma das doenças previstas no inciso V do art. 108, mesmo sem relação de causa e efeito</p><p>com a atividade castrense.</p><p>O inciso V do art. 108 da Lei nº 6.880/80 estabelece a cegueira como causa de incapacidade</p><p>definitiva, sem fazer distinção se ela atinge um ou os dois olhos.</p><p>Assim, descabido restringir o âmbito de abrangência da norma, a partir da inserção de texto</p><p>nela inexistente, para diminuir a proteção previdenciária que o legislador quis conferir aos</p><p>casos que especifica.</p><p>STJ. 1ª Turma. Processo em segredo de justiça, Rel. Min. Benedito Gonçalves, julgado em 2/10/2023</p><p>(Info 14 – Edição Extraordinária).</p><p>Militar estável x militar temporário</p><p>MILITAR ESTÁVEL MILITAR TEMPORÁRIO</p><p>Existem dois grupos de militares estáveis:</p><p>a) militares de carreira; e</p>

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