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<p>TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ</p><p>14ª CÂMARA CÍVEL</p><p>Recurso: 0031899-58.2024.8.16.0000 AI</p><p>Classe Processual: Agravo de Instrumento</p><p>Assunto Principal: Fato Atípico</p><p>Agravante(s): Lacticínios Tirol Ltda</p><p>Agravado(s):</p><p>L.C.F. COMERCIO DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA – EPP</p><p>LUIZ CARLOS FERREIRA</p><p>. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. NOTASAGRAVO DE INSTRUMENTO</p><p>FISCAIS E COMPROVANTES DE ENTREGA DE MERCADORIA. DECISÃO QUE</p><p>INDEFERIU O PEDIDO DE PENHORA DE 20% DOS PROVENTOS DE</p><p>APOSENTADORIA DO DEVEDOR, RECONHECENDO QUE O ÔNUS DA</p><p>DEMONSTRAÇÃO DE QUE A CONSTRIÇÃO NÃO AFETARÁ A SUBSISTÊNCIA</p><p>MITIGAÇÃO DAPERTENCE À PARTE EXEQUENTE. IRRESIGNAÇÃO DESTA.</p><p>IMPENHORABILIDADE DOS PROVENTOS, INCLUSIVE FORA DAS HIPÓTESES</p><p>DO §2º DO ART. 833 DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL, QUANDO</p><p>DEMONSTRADO QUE O BLOQUEIO DE PARTE DA REMUNERAÇÃO NÃO</p><p>PREJUDICARÁ A SUBSISTÊNCIA DIGNA DO DEVEDOR E DE SUA FAMÍLIA, EM</p><p>OBSERVÂNCIA À TEORIA DO MÍNIMO EXISTENCIAL. ÔNUS DO DEVEDOR DE</p><p>DEMONSTRAR QUE A PENHORA PARCIAL DA REMUNERAÇÃO PREJUDICARÁ</p><p>A SUA SUBSISTÊNCIA (CPC, ART. 854, §3º, INC. I). IMPOSSIBILIDADE DE</p><p>EXAME DO CABIMENTO DA MITIGAÇÃO DA IMPENHORABILIDADE NO CASO</p><p>CONCRETO. NECESSIDADE DE OPORTUNIZAR À PARTE EXECUTADA A</p><p>DEMONSTRAÇÃO DE PREJUÍZO À SUBSISTÊNCIA. RETORNO DOS AUTOS À</p><p>ORIGEM QUE SE IMPÕE. RECURSO CONHECIDO E PARCIALMENTE PROVIDO.</p><p>relatados e discutidos estes autos de emVISTOS, AGRAVO DE INSTRUMENTO,</p><p>que figuram como partes: agravante e agravado LACTICÍNIOS TIROL LTDA. L.C.F. COMERCIO DE</p><p>PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA. EPP, LUIZ CARLOS FERREIRA.</p><p>Trata-se de Agravo de Instrumento interposto por LACTICÍNIOS TIROL LTDA, nos1.</p><p>autos de , ajuizada em face de L.C.F.Execução de Título Extrajudicial nº 0002714-70.2019.8.16.0025</p><p>COMERCIO DE PRODUTOS ALIMENTICIOS LTDA – EPP e LUIZ CARLOS FERREIRA, contra a decisão</p><p>proferida pelo Juízo da 2ª Vara Cível da Comarca de Araucária que, ao que aqui interessa, indeferiu o</p><p>pedido de penhora de 20% dos proventos da aposentadoria do ora agravado, pelos seguintes fundamentos:</p><p>“(...)</p><p>2. Requereu a parte exequente a penhora de 20% dos proventos da aposentadoria do</p><p>executado (mov. 122)</p><p>Extrai-se do regime da impenhorabilidade, previsto no art. 833, inc. IV, do CPC, que:</p><p>"Art. 833. São impenhoráveis:</p><p>(...)</p><p>IV - os vencimentos, os subsídios, os soldos, os salários, as remunerações, os</p><p>proventos de aposentadoria, as pensões, os pecúlios e os montepios, bem como as</p><p>quantias recebidas por liberalidade de terceiro e destinadas ao sustento do devedor e</p><p>de sua família, os ganhos de trabalhador autônomo e os honorários de profissional</p><p>liberal, ressalvado o § 2º; ".</p><p>Tratando-se, portanto, de verbas de natureza alimentar, sua constrição só pode</p><p>ocorrer nas hipóteses previstas no §2º do art. 833 do CPC, in verbis:</p><p>"Art. 833. (...)</p><p>2 O disposto nos incisos IV e X do caput não se aplica à hipótese de penhora para</p><p>pagamento de o prestação alimentícia, independentemente de sua origem, bem como</p><p>às importâncias excedentes a 50 (cinquenta) salários-mínimos mensais, devendo a</p><p>constrição observar o disposto no art. 528, § 8 o , e no art. 529, § 3o.".</p><p>In casu, tratando-se de execução de título extrajudicial, não se aplica a regra contida</p><p>no dispositivo supra, uma vez que não se trata de verba com caráter alimentar.</p><p>Nesse sentido a jurisprudência do e. TJPR:</p><p>(...)</p><p>Logo, inviável o deferimento do pedido de penhora dos proventos eventualmente</p><p>percebidos pelo executado.</p><p>Ressalte-se, ademais, que não se desconhece a orientação do Colendo Superior</p><p>Tribunal de Justiça no sentido de admitir o reconhecimento de flexibilização da</p><p>impenhorabilidade quando a constrição dos vencimentos do devedor não for capaz de</p><p>atingir a dignidade ou a subsistência do devedor e de sua família (EREsp 1582475</p><p>/MG, Rel. Ministro BENEDITO GONÇALVES, CORTE ESPECIAL, julgado em 03 /10</p><p>/2018, REPDJe 19/03/2019, DJe 16/10/2018).</p><p>Contudo, referida flexibilização depende da demonstração pelo exequente de que o</p><p>estilo de vida da parte executada não condiz com a inexistência de bens em seu</p><p>nome, constatada por meio de buscas judiciais (SISBAJUD, RENAJUD e INFOJUD),</p><p>bem como que a penhora não afetará sua subsistência, o que não ocorreu no caso</p><p>dos autos.</p><p>2.1. Destarte, o pedido de penhora dos proventos do executado para fins deindefiro</p><p>satisfação da dívida.</p><p>Intimações e diligências necessárias.</p><p>(...) ” (mov. 126.1)</p><p>Nas razões recursais, a parte agravante requer a reforma da decisão agravada para</p><p>que seja deferido “ ”, pleito queo pedido de penhora de 20% sobre a aposentadoria recebida pelo executado</p><p>se fundamenta, resumidamente, nas seguintes alegações: a) “a recente jurisprudência do Egrégio Superior</p><p>Tribunal de Justiça, não limita a penhora de proventos aos casos em que a verba em execução é de</p><p>”; “natureza alimentar b) A primeira executada foi extinta por ato voluntário e nos termos de seu distrato</p><p>”; “social, seu único sócio e liquidante assumiu a responsabilidade pelo passivo existente c) todas as</p><p>tentativas de penhora realizadas em nome do executado Luiz Carlos foram frustradas, inclusive a penhora</p><p>”; “pelo SISBAJUD d) Intimado pessoalmente para nomear bens à penhora o executado permaneceu em</p><p>silencio demonstrando sua reticência quanto a satisfação de seu débito e desprezo pela dignidade da</p><p>”; “justiça, ferindo os princípios do processo civil inscritos nos arts. 4º e 5º do CPC e) se não houver o</p><p>”; “deferimento da penhora objetivada pelo presente agravo é certo que a execução restará frustrada f) a</p><p>” (AgInt nos EDcl no REsp:jurisprudência do Egrégio Superior Tribunal de Justiça admite a possibilidade</p><p>1808430 SP 2019/0100536-8 e REsp: 1658069 GO 2016/0015806-6); “g) o pedido de penhora foi de apenas</p><p>20% da aposentadoria do executado, o que em princípio, não lhe impedirá o sustento próprio com dignidade,</p><p>” (agravo de instrumento nº 0014446-21.2022.8.16.0000 julgado pelaconforme o próprio TJPR tem decidido</p><p>15º Câmara Cível).</p><p>Diante da ausência de pedido de efeito suspensivo ou de antecipação dos efeitos da</p><p>tutela recursal, foi determinado o regular processamento do feito (mov. 13.1).</p><p>Expedida intimação pessoal e devidamente intimada (cf. aviso de recebimento de</p><p>mov. 21.1 e 22.1), a parte agravada não apresentou contrarrazões (cf. certidão de decurso de prazo de mov.</p><p>25 e 26).</p><p>Após, vieram-me conclusos os autos.</p><p>É O RELATÓRIO.</p><p>DECIDO.</p><p>P admissibilidade intrínsecos (legitimidade, interesse,2. resentes os pressupostos de</p><p>cabimento e inexistência de fato impeditivo e extintivo) e extrínsecos (preparo – mov. 1.3, tempestividade e</p><p>regularidade formal), o recurso merece ser conhecido.</p><p>Trata-se, na origem, de execução de título extrajudicial ajuizada por Lactícinios Tirol</p><p>LTDA. em face de L.C.F. Comercio de Produtos alimentícios LTDA. e Luiz Carlos Ferreira, lastreada em</p><p>notas fiscais e comprovantes de entrega de mercadoria.</p><p>A controvérsia recursal cinge-se em averiguar a possibilidade de penhora de parte do</p><p>benefício previdenciário recebido pela parte executada, bem como a quem recai o ônus de demonstrar a</p><p>afetação da subsistência em razão de bloqueio de parte da remuneração.</p><p>Pois bem.</p><p>Como se sabe, nos termos do artigo 7°, inciso X da Constituição Federal cumulado</p><p>com o artigo 833, inciso IV do Código de Processo Civil, o provento de aposentadoria é impenhorável para a</p><p>satisfação de dívidas comuns, tendo em vista a natureza alimentar que permeia tal verba.</p><p>A rigor, salvo as hipóteses taxativamente previstas em lei em que a sua retenção</p><p>parcial é autorizada (entre essas hipóteses de exceção está o empréstimo consignado em folha e dívida de</p><p>natureza alimentar), o provento não pode ser tocado para a quitação de dívidas comuns.</p><p>Todavia, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça admite a penhora de parte</p><p>da remuneração, ainda que fora das hipóteses descritas no art. 833, §2º do Código de Processo civil, desde</p><p>que seja resguardada a dignidade do devedor e de sua família. Confira-se:</p><p>AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL CIVIL. ART. 833, IV,</p><p>CPC. PROVENTOS</p><p>DE APOSENTADORIA. IMPENHORABILIDADE MITIGADA.</p><p>EFETIVIDADE DO PROCESSO. BOA-FÉ. POSSIBILIDADE DE MANUTENÇÃO DO</p><p>PRÓPRIO SUSTENTO. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. A</p><p>impenhorabilidade dos proventos de aposentadoria, prevista no art. 833, IV, CPC, em</p><p>um primeiro momento deve ser analisada sob uma ótica estritamente abstrata- a</p><p>legalidade da constrição de alguma parcela dos valores. Em seguida, analisa-se a</p><p>viabilidade em concreto, ou seja, a possibilidade de manutenção do sustento, apesar</p><p>da penhora de parte da remuneração. 2. É possível a penhora de parcela da</p><p>remuneração do devedor, ainda que fora das hipóteses estritas descritas no art.</p><p>833, §2º, CPC, desde que não afete o mínimo existencial e a possibilidade de</p><p>3. A norma deve sersustento do executado. Precedente da Corte Especial.</p><p>interpretada de forma teleológica: objetiva-se ponderar a subsistência e a dignidade</p><p>do devedor com o direito do credor a receber o seu crédito. 4. Se, de um lado, os</p><p>princípios da menor onerosidade e da dignidade da pessoa humana visam a impedir</p><p>a execução abusiva, por outro lado vale lembrar que também cabe à parte executada</p><p>agir de acordo com os princípios da boa-fé processual, da cooperação e da</p><p>efetividade do processo. 5.A modificação do entendimento adotado pelo Tribunal</p><p>acerca da possibilidade concreta de penhora, em razão da capacidade econômica do</p><p>devedor, demandaria a reapreciação de matéria fático-probatória, o que não é</p><p>possível em sede de recurso especial. Súmula 7/STJ. 6. Agravo interno não provido.</p><p>(AgInt no REsp n. 1.987.404/SP, relator Ministro Paulo de Tarso Sanseverino,</p><p>Terceira Turma, julgado em 20/3/2023, DJe de 23/3/2023.)</p><p>Ademais, é firme o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que “a</p><p>regra geral da impenhorabilidade de salários, vencimentos, proventos etc. (art. 833, IV, do CPC/2015), pode</p><p>ser excepcionada quando for preservado percentual de tais verbas capaz de dar guarida à dignidade do</p><p>” (AgInt nos EREsp n. 1.934.570/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segundadevedor e de sua família</p><p>Seção, julgado em 2/5/2023, DJe de 4/5/2023). A propósito:</p><p>PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. ART. 833, IV,</p><p>CPC. SALÁRIO. IMPENHORABILIDADE. MITIGAÇÃO. POSSIBILIDADE DE</p><p>EFETIVIDADE DO PROCESSO. BOA-PENHORA. SUBSISTÊNCIA E DIGNIDADE.</p><p>FÉ. POSSIBILIDADE DE MANUTENÇÃO DO PRÓPRIO SUSTENTO. REVISÃO.</p><p>SÚMULA N. 7/STJ. 1. É possível a penhora de parcela do salário do devedor,</p><p>ainda que fora das hipóteses estritas descritas no art. 833, §2º, CPC, desde que</p><p>não afete o mínimo existencial e a possibilidade de sustento do executado.</p><p>2. A norma deve ser interpretada de formaPrecedente da Corte Especial.</p><p>teleológica: objetiva-se ponderar a subsistência e a dignidade do devedor com o</p><p>direito do credor a receber o seu crédito. 3. Se, de um lado, os princípios da menor</p><p>onerosidade e da dignidade da pessoa humana visam a impedir a execução abusiva,</p><p>por outro lado vale lembrar que também cabe à parte executada agir de acordo com</p><p>os princípios da boa-fé processual, da cooperação e da efetividade do processo. 4.</p><p>No caso, o entendimento adotado pelo Tribunal de origem foi de que há possibilidade</p><p>concreta de penhora, por não afetar a capacidade de subsistência do devedor.</p><p>Revisão obstada pela incidência da Súmula n. 7/STJ. Agravo interno improvido. (AgInt</p><p>no REsp n. 2.035.636/PR, relator Ministro Humberto Martins, Terceira Turma, julgado</p><p>em 25/9/2023, DJe de 27/9/2023.)</p><p>AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CIVIL E</p><p>PROCESSUAL CIVIL. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL. PROVENTOS DE</p><p>(CPCAPOSENTADORIA. RELATIVIZAÇÃO DA REGRA DE IMPENHORABILIDADE</p><p>/1973, ART. 649, IV; CPC/2015, ART. 833, IV). POSSIBILIDADE EXCEPCIONAL.</p><p>AGRAVO INTERNO PROVIDO PARA CONHECER DO AGRAVO EM RECURSO</p><p>ESPECIAL. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Nos termos da jurisprudência</p><p>desta Corte, "Em situações excepcionais, admite-se a relativização da regra de</p><p>impenhorabilidade das verbas salariais prevista no art. 649, IV, do CPC/73, a fim</p><p>de alcançar parte da remuneração do devedor para a satisfação do crédito não</p><p>alimentar, preservando-se o suficiente para garantir a sua subsistência digna e</p><p>" (EREsp 1.518.169/DF, Rel. p/ acórdão Ministra NANCY ANDRIGHI,a de sua família</p><p>CORTE ESPECIAL, j. em 3/10/2018, DJe de 27/2/2019). 2. No caso, a recorrente</p><p>recebe, a título de aposentadoria, o valor bruto de R$ 4.790,20, de forma que não é</p><p>possível a penhora de 20% dos referidos proventos sem o comprometimento de sua</p><p>subsistência digna, sob pena de subverter a premissa basilar insculpida no referido</p><p>precedente - excepcionalidade da relativização da impenhorabilidade - e a própria</p><p>mens legis do instituto, em regra. 3. Agravo interno provido para conhecer do agravo</p><p>e dar provimento ao recurso especial, com o fim de impossibilitar a penhora dos</p><p>proventos de aposentadoria percebidos pela recorrente. (AgInt no AREsp n. 1.751.991</p><p>/MS, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 4/9/2023, DJe de 8/9</p><p>/2023.)</p><p>a parte exequente requereu a penhora de 20% doNo caso específico dos autos,</p><p>benefício previdenciário recebido pela parte executada. Para tanto, acostou cópia de “carta de concessão</p><p>indicando que, em setembro de 2019, a parte executada recebeu o valor líquido de R$/memória de cálculo”</p><p>3.707,00 a título de aposentadoria por tempo de contribuição (mov. 122.2).</p><p>O pedido de penhora, então, foi indeferido pelo Juízo singular, por entender que a</p><p>constrição de verba alimentar se restringe às hipóteses do §2º do art. 833 do Código de Processo Civil e que</p><p>a despeito da reconhecida possibilidade de mitigação da regra de impenhorabilidade pelo Superior tribunal</p><p>de Justiça, a demonstração de que a constrição não afetará a subsistência constitui ônus do exequente, do</p><p>qual não se desincumbiu (mov. 126.1).</p><p>A despeito do entendimento firmado na origem, como visto é possível aalhures,</p><p>penhora de verbas de natureza salarial, independente da natureza da dívida que lastreia o processo</p><p>executivo, desde que não comprometa a subsistência digna do devedor e de sua família.</p><p>Ultrapassado o cabimento da penhora de proventos de aposentadoria, o ônus de</p><p>demonstrar que a penhora de percentual afetará a subsistência digna própria e da família pertencente ao</p><p>devedor e não ao exequente, consoante regra expressa no art. 854, §3º, inciso I do Código de Processo</p><p>Civil, “ :in verbis”</p><p>Art. 854. Para possibilitar a penhora de dinheiro em depósito ou em aplicação</p><p>financeira, o juiz, a requerimento do exequente, sem dar ciência prévia do ato ao</p><p>executado, determinará às instituições financeiras, por meio de sistema eletrônico</p><p>gerido pela autoridade supervisora do sistema financeiro nacional, que torne</p><p>indisponíveis ativos financeiros existentes em nome do executado, limitando-se a</p><p>indisponibilidade ao valor indicado na execução.</p><p>§ 3º Incumbe ao executado, no prazo de 5 (cinco) dias, comprovar que:</p><p>I - as quantias tornadas indisponíveis são impenhoráveis;</p><p>Nesse sentido, a propósito:</p><p>AGRAVO DE INSTRUMENTO. EXECUÇÃO DE TÍTULO EXTRAJUDICIAL.</p><p>DECISUM REJEITOU A ARGUIÇÃO DE PRESCRIÇÃO INTERCORRENTE E</p><p>IMPENHORABILIDADE DOS PROVENTOS DE APOSENTADORIA BLOQUEADOS</p><p>VIA SISBAJUD. INSURGÊNCIA DA EXECUTADA.1. PRESCRIÇÃO</p><p>INTERCORRENTE. INOCORRÊNCIA. INAPLICABILIDADE DO RESP 1.340.553/RS,</p><p>INCIDÊNCIA APENAS EM EXECUÇÕES FISCAIS. IRRETROATIVIDADE NOVA</p><p>REDAÇÃO CONFERIDA NO ART. 921, §4°, CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL, PELA</p><p>LEI 14.195/2021 (ART. 14, CPC E ART. 6°, LINDB), APLICABILIDADE APENAS A</p><p>PARTIR DE 26.08.2021. APLICABILIDADE DO IAC 1.604.412/SC E REDAÇÃO</p><p>ORIGINAL DOS ARTS. 791 CPC/73 E 921 CPC/15. PARTE EXEQUENTE</p><p>MANTEVE-SE DILIGENTE A DECORRER DOS ANOS EM BUSCA DE</p><p>SATISFAÇÃO DO CRÉDITO EM SEU FAVOR, COM SUCESSIVOS PEDIDOS DE</p><p>PROSSEGUIMENTO EXECUTÓRIO. INÉRCIA POR TEMPO SUPERIOR AO PRAZO</p><p>PRESCRICIONAL NÃO CONFIGURADA. 2. IMPENHORABILIDADE DE VALORES</p><p>CONSTRITOS MEDIANTE SISTEMA SISBAJUD. AUSÊNCIA DE COMPROVAÇÃO</p><p>DA NATUREZA DA CONTA BANCÁRIA E SE OS VALORES BLOQUEADOS</p><p>CONSTITUEM RESERVA DE PATRIMÔNIO DESTINADO A ASSEGURAR O</p><p>MÍNIMO EXISTENCIAL</p><p>DO DEVEDOR. ART. 854, § 3º, DO CPC. ÔNUS DO</p><p>DEVEDOR DE PROVAR A CONDIÇÃO DE IMPENHORABILIDADE DOS VALORES</p><p>ALTERAÇÃO DO ENTENDIMENTO DA CORTE SUPERIOR NOCONSTRITOS.</p><p>RESP 1.677.144/RS QUANTO À PRESUNÇÃO DE IMPENHORABILIDADE.</p><p>EXTRATO SEM INFORMAÇÃO DA MODALIDADE DA CONTA. INEXISTÊNCIA DE</p><p>DOCUMENTOS SUFICIENTES À ANÁLISE DA AVENTADA IMPENHORABILIDADE.</p><p>CONCESSÃO DE OPORTUNIDADE AO DEVEDOR PARA COMPROVAR A</p><p>CONSTITUIÇÃO DA RESERVA DE PATRIMÔNIO, SOB PENA DE CERCEAMENTO</p><p>DE DEFESA. DECISÃO CASSADA.RECURSO PARCIALMENTE CONHECIDO E,</p><p>NA PARTE CONHECIDA, DESPROVIDO. (TJPR - 14ª Câmara Cível - 0021803-</p><p>81.2024.8.16.0000 - Francisco Beltrão - Rel.: SUBSTITUTA CRISTIANE SANTOS</p><p>LEITE - J. 15.07.2024)</p><p>Agravo de instrumento. Execução de título extrajudicial. Penhora em conta bancária.</p><p>Decisão agravada que rejeita pedido de impenhorabilidade. Alegação de</p><p>impenhorabilidade do numerário bloqueado no processo por ser oriundo de benefício</p><p>previdenciário. Ausência de comprovação. Ônus que incumbe ao devedor. Art. 854,</p><p>Possibilidade de constrição de fração da verba de natureza alimentar.§ 3º, I, do CPC.</p><p>Relativização da regra da impenhorabilidade admitida pelo STJ. Aplicação do</p><p>entendimento firmado nos Embargos de Divergência em REsp nº 1.582.475/MG.</p><p>Comprometimento à subsistência do devedor não comprovado. Decisão mantida.</p><p>Recurso conhecido e não provido. (TJPR - 15ª Câmara Cível - 0058845-</p><p>38.2022.8.16.0000 - Curitiba - Rel.: HAMILTON MUSSI CORREA CORREGEDOR</p><p>- J. 16.12.2022)</p><p>Por outro lado, no caso dos autos, embora a parte ora agravante requeira desde logo</p><p>a penhora de percentual do benefício da parte agravada, para o exame da aplicação ou não da mitigação da</p><p>regra da impenhorabilidade é imprescindível seja oportunizada à parte executada a juntada de documentos</p><p>que atestem que a penhora de percentual do seu benefício previdenciário prejudicará a sua subsistência ou</p><p>de sua família, para só então decidir sobre a mitigação da impenhorabilidade prevista no artigo 833, IV do</p><p>Código de Processo Civil.</p><p>Para tanto, veja-se que, segundo as informações extraídas da cópia da carta de</p><p>concessão de benefício previdenciário, colacionado pela parte exequente, ora agravante, indica o</p><p>R$ 3.707,00 (três mil, setecentos e sete reais), derecebimento, em setembro de 2019, da quantia líquida de</p><p>tal modo que o almejado percentual de 20% equivaleria aproximadamente o valor de R$ 741,40 (setecentos</p><p>e quarenta e um reais e quarenta centavos). Logo, subtraído o valor da penhora, restaria à parte executada</p><p>o montante de R$ 2.965,60 (dois mil, novecentos e sessenta e cinco reais e sessenta centavos).</p><p>A despeito do resultado da subtração, que não se revela ínfimo, no caso dos autos,</p><p>não há qualquer informação a respeito das possíveis despesas básicas de subsistência, como água, luz e</p><p>alimentação, ônus que, como visto, pertence à parte executada.</p><p>Assim, considerando que não há informação nos autos acerca de eventual prejuízo à</p><p>subsistência em decorrência da penhora sobre percentual de seu benefício previdenciário, a determinação</p><p>de penhora levando-se em consideração somente o valor líquido recebido não se mostra adequada,</p><p>devendo ser oportunizada, na origem, a comprovação de que a penhora de percentual do seu benefício</p><p>prejudicará a sua subsistência ou de sua família.</p><p>Logo, o presente recurso comporta parcial provimento apenas e tão somente para</p><p>reconhecer a possibilidade de penhora de percentual dos proventos de aposentadoria, bem como que</p><p>pertence à parte executada o ônus de demonstrar que o bloqueio de parte de sua remuneração prejudicará</p><p>a sua subsistência e de sua família, cumprindo oportuniza-la, na origem, a juntada de documentos que</p><p>atestem a violação à teoria do mínimo existencial para que então seja proferida nova decisão sobre a</p><p>possibilidade de mitigação da impenhorabilidade.</p><p>Ante o exposto, voto no sentido de ,3. conhecer e dar parcial provimento</p><p>determinando o retorno dos autos à origem para oportunizar ao executado a juntada de documentos que</p><p>atestem que a penhora de percentual do seu benefício previdenciário prejudicará a sua subsistência ou de</p><p>sua família, para então decidir sobre a mitigação da regra da impenhorabilidade prevista no artigo 833, IV do</p><p>nos termos da fundamentação despendida.Código de Processo Civil,</p><p>Ante o exposto, acordam os Desembargadores da 14ª Câmara Cível do TRIBUNAL</p><p>DE JUSTIÇA DO PARANÁ, por unanimidade de votos, em julgar CONHECIDO O RECURSO DE PARTE E</p><p>PROVIDO EM PARTE o recurso de Lacticínios Tirol Ltda.</p><p>O julgamento foi presidido pelo (a) Desembargador João Antônio De Marchi, com</p><p>voto, e dele participaram Desembargador Francisco Eduardo Gonzaga De Oliveira (relator) e</p><p>Desembargadora Josély Dittrich Ribas.</p><p>Curitiba, 30 de agosto de 2024.</p><p>FRANCISCO EDUARDO GONZAGA DE OLIVEIRA</p><p>DESEMBARGADOR – RELATOR</p><p>(assinado digitalmente)</p>