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<p>EPIDEMIOLOGIA E PROCESSO</p><p>SAÚDE-DOENÇA</p><p>AULA 2</p><p>Profª Ivana Maria Saes Busato</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Processo saúde-doença</p><p>A pergunta “por que adoecemos?” é explicada por meio do conhecimento</p><p>do processo saúde-doença. As sociedades sempre buscaram esclarecimentos,</p><p>“o porquê”. Em diferentes sociedades, alguns adoecem e outros não adoecem.</p><p>Assim, várias explicações foram se desenvolvendo com a evolução do</p><p>conhecimento científico.</p><p>Busato (2016, p. 47) aponta que os “diversos modelos explicativos têm</p><p>sido estabelecidos para elucidar a complexidade do processo saúde-doença ao</p><p>longo da história”. Existe uma diversidade de modelos explicativos buscando</p><p>compreender a complexidade do processo saúde-doença que influenciam nas</p><p>medidas de prevenção, promoção e recuperação da saúde.</p><p>TEMA 1 – PRIMEIROS MODELOS EXPLICATIVOS DO PROCESSO SAÚDE-</p><p>DOENÇA</p><p>Durante vários séculos, a ocorrência de uma doença era explicada por</p><p>culpa das pessoas transgredirem os dogmas religiosos, sendo a doença</p><p>resultante de uma punição dos deuses. São conhecidos por modelo mágico-</p><p>religiosos.</p><p>A contribuição da medicina hindu e da medicina chinesa trouxe o modelo</p><p>holístico que explicava as doenças por meio do equilíbrio entre os elementos e</p><p>humores que compõem o organismo humano (Busato, 2016).</p><p>A observação das doenças fez surgir o modelo empírico-racional, que</p><p>também explica a ocorrência das doenças por meio da consequência do</p><p>desequilíbrio dos elementos água, terra, fogo e ar. Na Idade Média, com a teoria</p><p>dos humores trazem o mesmo conceito de desequilíbrio do modelo empírico-</p><p>racional para determinar a ocorrência de saúde ou de doença (Busato, 2016, p.</p><p>48).</p><p>O Modelo Sistêmico foi proposto a partir de 1970. O conceito de sistema</p><p>começou a ganhar força, trazendo uma compreensão mais abrangente do</p><p>processo saúde-doença. O sistema, nesse caso, é entendido como “um conjunto</p><p>de elementos, de tal forma relacionados, que uma mudança no estado de</p><p>3</p><p>qualquer elemento provoca mudança no estado dos demais elementos” (Almeida</p><p>Filho; Rouquayrol, 2013, p. 51).</p><p>Os autores Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 52) explicam: a noção</p><p>de sistema incorpora a ideia de um todo, de contribuição de diferentes elementos</p><p>do ecossistema no processo saúde-doença, fazendo assim um contraponto à</p><p>visão unidimensional e fragmentária do modelo biomédico. Segundo essa</p><p>concepção, a estrutura geral de um problema de saúde é entendida como uma</p><p>função sistêmica, na qual um sistema epidemiológico se constitui num equilíbrio</p><p>dinâmico. Ou seja, cada vez que um dos seus componentes sofre alguma</p><p>alteração, esta repercute e atinge as demais partes, num processo em que o</p><p>sistema busca novo equilíbrio.</p><p>Como estudado anteriormente, esse modelo sistêmico se aproxima dos</p><p>primeiros conceitos epidemiológicos da época de Hipócrates, do pensamento</p><p>hipocrático em relação à doença, explicado pelo desequilíbrio entre terra, ar e</p><p>água, enfim, um desequilíbrio na natureza.</p><p>1.1 Modelo Biomédico</p><p>O Modelo Biomédico surgiu pela evolução das ciências, em especial o</p><p>conhecimento de microbiologia e a descoberta dos agentes etiológicos das</p><p>doenças infectocontagiosas. Esse modelo vem na direção do conceito de saúde:</p><p>ausência de doença.</p><p>Barros (2002) aponta que tem suas raízes históricas vinculadas ao</p><p>contexto do Renascimento e de toda a revolução artístico-cultural que ocorre</p><p>nessa época, associada, igualmente, ao projeto expansionista das duas</p><p>metrópoles de então – Portugal e Espanha.</p><p>O desenvolvimento das ciências no período do Positivismo e a</p><p>possibilidade de estudar o corpo humano fizeram desenvolver o modelo</p><p>biomédico. A principal justificativa para a ocorrência das doenças está na</p><p>presença de um agente causal que possibilitava adoção de medidas curativas</p><p>(modelo unicausal) e que influenciou os primeiros conceitos de saúde como</p><p>ausência de doença.</p><p>Ao longo do tempo, o modelo biomédico foi assimilado pelo senso comum,</p><p>tendo como foco principal a doença infecciosa causada por um agente,</p><p>dominando a prática de saúde com a medicalização. Nessa abordagem, Puttini</p><p>et al. (2010) apontam que a</p><p>4</p><p>doença é definida como desajuste ou falta de mecanismos de</p><p>adaptação do organismo ao meio, ou ainda como uma presença de</p><p>perturbações da estrutura viva, causadoras de desarranjos na função</p><p>de um órgão, sistema ou organismo, numa lógica unicausal, sempre</p><p>buscando identificar uma causa específica, que explicaria o fenômeno</p><p>do adoecer, direcionando essa explicação a se tornar universal. (Puttini</p><p>et al. 2010, p. 754-755)</p><p>A teoria microbiana passa, já nos fins do século XIX, a se tornar tão</p><p>predominante e absoluta, que qualquer concepção de multicausalidade das</p><p>doenças era rechaçada (Barros, 2002). Esta dominância foi impulsionada pela</p><p>economia da saúde, na produção e comercialização de produtos e insumos.</p><p>Como afirmado por Barros (2002), o fenômeno da medicalização ainda é muito</p><p>presente na saúde e na formação de recursos humanos para a saúde.</p><p>TEMA 2 – O CONCEITO DE SAÚDE</p><p>A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde não apenas como</p><p>a ausência de doença, mas como a situação de perfeito bem-estar físico, mental</p><p>e social (OMS, 1946). Segre e Ferraz (1997) criticam que essa definição é</p><p>inadequada quando distingue separadamente o físico, o mental e o social.</p><p>Contudo, reforçamos a importância dessa definição, em 1946, no pós-guerra. A</p><p>definição da OMS, foi importante para afirmar que ausência de doença não é</p><p>saúde, e que o processo saúde-doença apresenta aspectos multifatoriais que</p><p>não foram considerados por um longo período da história da humanidade.</p><p>O conceito de saúde da OMS influenciou a organização das políticas</p><p>públicas de saúde. No Brasil, a Constituição Federal de 1988, consagrou a saúde</p><p>como direito de todos e dever do Estado, e o conceito de saúde foi</p><p>regulamentado pela Lei Federal n. 8.080/1990, no art. 3º:</p><p>[...] saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre</p><p>outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio</p><p>ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o</p><p>acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da</p><p>população expressam a organização social e econômica do País.</p><p>(Brasil, 1990)</p><p>As condições socioeconômicas e sociais para o processo saúde-doença</p><p>são consideradas na lei ao afirmar que os níveis de saúde são expressões da</p><p>organização social e econômica do país.</p><p>A Lei Federal n. 12.864/2013 (Brasil, 2013) amplia esse conceito de saúde</p><p>para a política pública de saúde acrescentando atividade física, que indica</p><p>claramente a preocupação com a escolha do estilo de vida e as redes sociais e</p><p>5</p><p>comunitárias. A epidemiologia deve considerar o conceito de saúde e os modelos</p><p>explicativos do processo saúde-doença para ser uma ciência aplicada. Barata</p><p>(2005) aponta que os fenômenos estudados pela epidemiologia pertencem ao</p><p>âmbito coletivo e, portanto, devem remeter ao social.</p><p>2.1 A importância da epidemiologia brasileira para o Sistema Único de</p><p>Saúde</p><p>A Fundação Rockefeller teve papel importante no avanço da</p><p>epidemiologia no mundo e, no Brasil, exerceu grande influência na formação do</p><p>pensamento sanitário. Formou a primeira geração de epidemiologistas, dos</p><p>quais destacamos: Guilherme Rodrigues da Silva, José da Rocha Carvalheiro,</p><p>Maria Zélia Rouquayrol, Euclides Castilho e Sebastião Loureiro, citados e</p><p>estudados até hoje.</p><p>A consolidação da epidemiologia no Brasil se mistura com a história da</p><p>Saúde Coletiva. Na década de 1970 foram criados diversos núcleos de saúde</p><p>coletiva que abrigaram os primeiros epidemiologistas brasileiros. A saúde</p><p>coletiva como campo interdisciplinar engloba a epidemiologia na busca do</p><p>desenvolvimento de atividades de investigação sobre o estado sanitário da</p><p>população, a natureza das políticas de saúde, a relação entre processos</p><p>de</p><p>trabalho e doenças e agravos, bem como as intervenções de grupos e classes</p><p>sociais sobre a questão sanitária.</p><p>Em 1979 foi implantada a Associação Brasileira de Pós-Graduação em</p><p>Saúde Coletiva (ABRASCO), que pautou questões de temas de pesquisa, como</p><p>também a formação e intervenção da epidemiologia. A preocupação dos</p><p>epidemiologistas passava pela organização do sistema de saúde brasileiro, com</p><p>engajamento no movimento da Reforma Sanitária que teve seu ápice na VIII</p><p>Conferência Nacional de Saúde, marco na criação do Sistema Único de Saúde</p><p>(ABRASCO, 2022).</p><p>A Organização Pan-Americana (OPAS) e a Organização Mundial da</p><p>Saúde (OMS), impulsionadas pelo governo norte-americano, empreenderam</p><p>diversas ações no controle e erradicação de várias doenças. As campanhas de</p><p>erradicação da varíola na década de 1960 e da poliomielite na década de 1970,</p><p>a grave epidemia da doença meningocócica contribuíram para consolidar o</p><p>Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica no Brasil (Medronho et al., 2009).</p><p>6</p><p>Ressaltamos que a Constituição Brasileira de 1988 (art. 200, inciso II)</p><p>(Brasil, 1988) explicita a aplicabilidade da epidemiologia por meio das ações da</p><p>vigilância epidemiológica como uma das competências do Sistema Único de</p><p>Saúde, mostrando sua importância no contexto da saúde da população e dos</p><p>sistemas de saúde.</p><p>Logo após a promulgação da Constituição Federativa do Brasil de 1988</p><p>foi elaborado o I Plano Diretor para o Desenvolvimento da epidemiologia no</p><p>Brasil. O marco da epidemiologia no Brasil aconteceu em 1990 na realização do</p><p>I Congresso Brasileiro da Epidemiologia e na criação do Centro Nacional de</p><p>Epidemiologia (CENEPI) (ABRASCO, 2022).</p><p>TEMA 3 – HISTÓRIA NATURAL DA DOENÇA</p><p>A História Natural da Doença é um modelo explicativo do processo saúde-</p><p>doença inovador, porque considera múltiplas determinações causais. Institui a</p><p>Tríade ecológica, apontando que a doença é resultado da interação entre o</p><p>agente, hospedeiro e o ambiente. Esse modelo multicausal foi sistematizado por</p><p>Leavell e Clark (1976).</p><p>O Modelo da História Natural das Doenças representa um grande avanço</p><p>em relação ao modelo biomédico e aos modelos anteriores, porque reconhece</p><p>que o processo saúde-doença implica múltiplas e complexas determinações,</p><p>como foi sistematizado por Leavell e Clark (1976). Nessa lógica causal, a</p><p>ocorrência da doença tem início antes do aparecimento dos sinais e sintomas,</p><p>e, para manter e/ou restabelecer a saúde, é preciso realizar ações de promoção</p><p>de saúde e de prevenção, o que traz uma visão positiva do processo.</p><p>O modelo explicativo História Natural das Doenças analisa as</p><p>características das funções de uma doença ou agravo numa linha de tempo</p><p>apontando sua distribuição e levando em consideração pessoas, tempo e</p><p>espaço. A linha de tempo descrita pela História Natural das Doenças inaugura a</p><p>lógica que a doença acontece, ou tem início, antes dos primeiros sinais e</p><p>sintomas, o período pré-patogênico e que leva até a morte ou dano definitivo. A</p><p>explicação da doença nessa linha de tempo permitiu o desenvolvimento de</p><p>ações de prevenção e de promoção da saúde, além de considerar a</p><p>possibilidade da reabilitação.</p><p>O modelo explicativo da História Natural da Doença ainda é utilizado na</p><p>vigilância epidemiológica de doenças transmissíveis, em especial de doenças</p><p>7</p><p>emergentes, como é o caso da Covid-19. Isso porque temos que compreender</p><p>toda a linha temporal da evolução da doença que antecede os primeiros sinais e</p><p>sintomas até a morte ou danos definitivos para traçar as estratégias de</p><p>prevenção primária até a prevenção quaternária.</p><p>Para acompanhar o conceito de saúde da Organização das Nações</p><p>Unidas (ONU), por meio da Organização Mundial da Saúde (OMS), desenvolveu</p><p>uma nova compreensão sobre o processo saúde-doença que deve ser</p><p>considerado no conhecimento das doenças para organização do cuidado.</p><p>Neste sentido, o conceito de saúde ganha estruturação explicativa</p><p>proporcionado pelo esquema da tríade ecológica, da interação entre agente,</p><p>hospedeiro e meio ambiente, introduzindo novamente o conceito de</p><p>condicionantes e determinantes, o que inclui o meio ambiente, as condições</p><p>específicas do hospedeiro e o fator de risco (agente). Enquanto para o “modelo</p><p>biomédico (unicausal) no conceito de saúde prevalece a lógica exclusivamente</p><p>em razão da ausência da doença, no modelo multicausal, privilegia-se o</p><p>conhecimento da interação da tríade ecológica” (Puttini et al., 2010, p. 755).</p><p>Nesse modelo os fatores externos como a natureza física, biológica,</p><p>sociopolítica e cultural, e os fatores individuais, os hereditário-congênitos,</p><p>alterações nas defesas e alterações orgânicas, colaboram no adoecer. A História</p><p>Natural da Doença mostra um avanço linear e contínuo de avanço da doença</p><p>até a morte caso não haja ações de promoção, prevenção e recuperação da</p><p>saúde.</p><p>Ainda é um ótimo modelo explicativo para monitorarmos doenças já</p><p>conhecidas e estudarmos doenças desconhecidas, porque foca na descrição de</p><p>sinais e sintomas ao longo de seu tempo, que vai desde incubação até a morte</p><p>e/ou dano permanente, com a busca de ações de promoção da saúde e</p><p>prevenção (primária, secundária e terciária) e recuperação da saúde.</p><p>TEMA 4 – DETERMINAÇÃO SOCIAL DA SAÚDE</p><p>Houve necessidade da associação entre epidemiologia e das ciências</p><p>sociais na busca de explicações para os padrões populacionais de distribuição</p><p>das doenças (Barata, 2005), e o modelo explicativo de Determinação Social da</p><p>Saúde contempla numa maior dimensão o conceito de saúde da OMS.</p><p>Hoje, entendemos o processo saúde-doença pela Determinação Social da</p><p>Saúde. Esse modelo foi proposto por Dahlgren e Whitehead (2007). Os modelos</p><p>8</p><p>anteriores exploram as condições individuais e biológicas para explicar a</p><p>ocorrência de doença ou não, enquanto esse novo modelo da importância aos</p><p>determinantes sociais.</p><p>Esse modelo aponta que as condições individuais (sexo, idade, fatores</p><p>hereditários) não são mais as únicas formas de explicações para as pessoas</p><p>estarem com saúde ou com doença, estão associados com os demais</p><p>determinantes e condicionantes. O estilo de vida e as relações sociais familiares</p><p>e comunitárias têm sua contribuição no processo saúde-doença. Outros</p><p>determinantes também impactam nesse processo, como as condições de vida e</p><p>de trabalho, além das condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais.</p><p>A escolha do Estilo de vida e as redes sociais e comunitárias passam a</p><p>ser consideradas para ocorrência das doenças. As condições socioeconômicas,</p><p>culturais e ambientais gerais como: educação, renda, condições de vida e de</p><p>trabalho, entre outras, são determinantes do processo saúde-doença.</p><p>As determinações sociais da saúde possibilitam evitar as iniquidades em</p><p>saúde. As iniquidades em saúde são diferenças socialmente produzidas,</p><p>sistemáticas em sua distribuição pela população e injustas (Mendes, 2012).</p><p>O modelo explicativo da Determinação Social da Saúde é desenvolvido</p><p>com base na crítica ao raciocínio epidemiológico tradicional do processo saúde-</p><p>doença, que foca nas características individuais, sem diferenciar o âmbito</p><p>biológico e o que pertence ao social ao analisar uma doença.</p><p>Nesse contexto, é importante conhecer a afirmação de Puttini et al. Sobre</p><p>a medicina social:</p><p>medicina social como campo de novos saberes e conhecimentos vem</p><p>em contraposição ao modelo biomédico, aonde a classe social passa</p><p>a ser uma categoria que representa uma condição a ser utilizada na</p><p>exploração epidemiológica de uma coletividade. Isso significa dizer que</p><p>a condição social é um pressuposto primordial para o conhecimento</p><p>epidemiológico. (Puttini et al., 2010, p. 758)</p><p>No processo saúde-doença da população de uma dada sociedade estão</p><p>presentes determinantes sociais, por isso é de fundamental importância para a</p><p>atuação dos profissionais de saúde saber conhecê-los e interpretá-los.</p><p>São</p><p>especialmente importantes para suscitar medidas de promoção da saúde e</p><p>prevenção das doenças.</p><p>No Brasil, houve uma Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais</p><p>em Saúde (CNDSS), “que estuda os determinantes sociais das doenças e</p><p>agravos da população brasileira, para adoção do modelo explicativo do processo</p><p>9</p><p>saúde-doença de Dahlgren e Whitehead, para elaboração das políticas públicas</p><p>de saúde” (CNDSS, 2008, p. 14).</p><p>TEMA 5 – TRANSIÇÃO DEMOGRÁFICA, EPIDEMIOLÓGICA E NUTRICIONAL</p><p>A palavra transição vem do latim transitione e significa atos, efeitos ou</p><p>modos de passar lentamente de um lugar, estado ou assunto para outro. No</p><p>dicionário remete à noção de passagem, trajeto ou trajetória.</p><p>5.1 A Transição demográfica</p><p>A teoria da transição demográfica surgiu no início do século XX com as</p><p>observações realizadas nos países europeus desde o século XVIII, avaliando a</p><p>mortalidade por idade e natalidade, verificando as transformações demográficas</p><p>influenciadas pelo processo de industrialização, com o envelhecimento e a</p><p>melhoria da saúde.</p><p>Há três períodos clássicos de transição, a fase pré-industrial com</p><p>crescimento populacional lento, a fase de industrialização caracterizada pelo</p><p>crescimento populacional intenso e, por fim, a terceira fase, a pós-industrial, com</p><p>tendência populacional estável ou regressiva. Essa teoria se consolidou como</p><p>explicação para as mudanças demográficas verificadas no decorrer da história</p><p>das sociedades e seus determinantes históricos, sociais e econômicos.</p><p>Transição demográfica é a alteração do contexto populacional de um</p><p>território (como um país, por exemplo) que passa de valores elevados nos</p><p>indicadores de mortalidade e natalidade para indicadores de valores muito</p><p>reduzidos, transformando o perfil demográfico desse território.</p><p>Em termos demográficos, uma sociedade possui quatro fases distintas de</p><p>transição demográfica:</p><p>• Primeira fase ou fase 1: “caracterizada por sociedades com altas</p><p>natalidades e mortalidades, principalmente mortalidade infantil, com</p><p>crescimento populacional lento. Abrange a história desde suas origens até</p><p>a Revolução Industrial, meados do século XVIII” (Busato, 2016, p. 118-</p><p>119).</p><p>• Segunda fase ou fase 2: chamada de fase intermediária, própria dos</p><p>países em processo de industrialização, apresenta redução da</p><p>mortalidade, com a natalidade ainda elevada, provocando um grande</p><p>10</p><p>crescimento populacional. Países ricos estiveram nessa fase a partir do</p><p>século XVIII. Há países que iniciaram essa fase somente no século XX.</p><p>• Terceira fase ou fase 3: a natalidade inicia importante redução associada</p><p>a uma decrescente mortalidade, provocando ainda um crescimento</p><p>demográfico alto. O efeito importante desta fase é o envelhecimento</p><p>populacional. Os países ricos completaram o processo de passagem da</p><p>fase 2 para a 3 no século XX.</p><p>• Quarta fase ou fase 4: é típica das sociedades pós-industriais que</p><p>apresentam indicadores de mortalidade e natalidade reduzidos e</p><p>crescimento populacional em equilíbrio. Conhecida também pela fase da</p><p>modernidade. Caracteriza-se por apresentar aumento da expectativa de</p><p>vida, envelhecimento da população de uma forma geral, principalmente à</p><p>custa da participação das mulheres.</p><p>No Brasil, até meados da década de 1960, mesmo que desde a</p><p>urbanização e industrialização a partir de 1930, os níveis de fecundidade eram</p><p>elevados e estáveis (Simões, 2016). Somente a partir de 1970 houve mudanças</p><p>significativas no comportamento reprodutivo da população brasileira, alterando</p><p>níveis e padrões de mortalidade e fecundidade de todas as regiões do país por:</p><p>fatores econômicos, sociais e político-institucionais, bem como as</p><p>chamadas variáveis intermediárias, inibidoras da fecundidade, como</p><p>determinadas características de natureza demográfica e</p><p>socioeconômica (entrada mais intensa da mulher no mercado de</p><p>trabalho), além do acesso a informações sobre a utilização e uso de</p><p>métodos anticoncepcionais. (Simões, 2016, p. 18)</p><p>O Brasil teve uma transição demográfica acelerada com mudanças</p><p>significativas na estrutura etária da população. O formato triangular da pirâmide</p><p>populacional, com uma base larga, vem dando lugar a uma pirâmide etária típica</p><p>de uma população envelhecida, com a redução da participação relativa de</p><p>crianças e jovens e o aumento proporcional de adultos e idosos.</p><p>5.2 A transição epidemiológica</p><p>A transição epidemiológica mostra o resultado das mudanças ocorridas</p><p>no tempo nos padrões de mortalidade, morbidade e invalidez de uma população</p><p>que, em geral, ocorrem em conjunto com as transformações demográficas,</p><p>sociais e econômicas. O processo engloba três mudanças básicas: substituição</p><p>das doenças transmissíveis por doenças não transmissíveis e causas externas;</p><p>11</p><p>deslocamento da carga de morbimortalidade dos grupos mais jovens aos grupos</p><p>mais idosos; e, por último, a modificação de mortalidade pela morbidade</p><p>(Schramm et al., 2004, p. 898).</p><p>No Brasil, a transição epidemiológica não tem ocorrido de acordo com o</p><p>modelo experimentado pela maioria dos países industrializados, porque ocorre</p><p>superposição entre as etapas. Há predomínio das doenças transmissíveis e</p><p>crônico-degenerativas, com reintrodução de doenças como dengue e a</p><p>manutenção de doenças como malária, hanseníase e leishmaniose,</p><p>caracterizando uma transição prolongada, com contrastes entre as diferentes</p><p>regiões em um mesmo país com discrepantes situações epidemiológicas.</p><p>A transição epidemiológica brasileira caracteriza-se pela dificuldade do</p><p>Estado em estabelecer controle sobre as doenças transmissíveis e a redução da</p><p>mortalidade infantil, “no desenvolvimento e aplicação de estratégias para a</p><p>efetiva prevenção e tratamento das doenças crônico-degenerativas e suas</p><p>complicações levando a uma perda de autonomia e qualidade de vida”</p><p>(Schramm et al., 2004, p. 898).</p><p>Os processos de transição demográfica e epidemiológica colocaram as</p><p>doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) como principal causa de</p><p>morbimortalidade no Brasil. Mais recentemente, a pandemia da COVID-19,</p><p>causada pelo novo coronavírus, se constitui como um desafio sanitário mundial,</p><p>exigindo resposta rápida e coordenada dos governos e sistemas de saúde, frente</p><p>a uma doença de alta transmissibilidade em um mundo globalizado (Peixoto,</p><p>2020). O avanço da transição epidemiológica da carga de doenças e melhoria</p><p>da qualidade do dado de óbito no Brasil foram interrompidos pela COVID-19,</p><p>aumentando a carga das doenças infecciosas (Filho; França; Malta, 20220</p><p>Nesse contexto, vivemos com a tripla carga de doenças: condições</p><p>crônicas aumentando, doenças transmissíveis agravadas pela Covid-19 e com</p><p>ocorrência elevada de violência.</p><p>5.3 A transição nutricional</p><p>A transição nutricional refere-se à mudança no padrão alimentar de uma</p><p>sociedade, acarretando alterações no estado nutricional, uma vez que se trata</p><p>da passagem da desnutrição e carências nutricionais para a obesidade e</p><p>morbidades como diabetes mellitus e dislipidemias. Há profunda relação entre a</p><p>transição demográfica, epidemiológica e nutricional.</p><p>12</p><p>Importante acompanhar a evolução nutricional das populações,</p><p>subsidiando os formuladores e executores de políticas públicas na criação ou</p><p>ajuste de intervenções condizentes com a dinâmica dos processos nutricionais</p><p>(Oliveira, 2004).</p><p>A transição nutricional no Brasil traçou um caminho singular, tanto a</p><p>desnutrição quando obesidade acontecem nos seus extremos etários, menores</p><p>de um ano de idade e os maiores de sessenta anos. São grupos que apresentam</p><p>vulnerabilidades que refletem em adoecimentos e óbitos (Martins et al., 2022).</p><p>No art. 2ª da Lei Orgânica n. 11.346, de 15 de setembro de 2006 de</p><p>Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN), aponta que</p><p>alimentação adequada é direito fundamental do ser humano, inerente</p><p>à dignidade da pessoa humana e indispensável à realização dos</p><p>direitos</p><p>consagrados na Constituição Federal, devendo o poder público</p><p>adotar as políticas e ações que se façam necessárias para promover e</p><p>garantir a segurança alimentar e nutricional da população. (Brasil,</p><p>2006)</p><p>É essencial definir políticas públicas para segurança alimentar e</p><p>nutricional. Segurança Alimentar e Nutricional é a realização do direito de todos</p><p>ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade</p><p>suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo</p><p>como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a</p><p>diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente</p><p>sustentáveis, conforme a Lei Orgânica n. 11.346, de 15 de setembro de 2006 de</p><p>Segurança Alimentar e Nutricional (LOSAN) (Brasil, 2006).</p><p>NA PRÁTICA</p><p>As transições demográfica, epidemiológica e nutricional apontam as</p><p>perspectivas para a análise epidemiológica de determinada população, aliada ao</p><p>conhecimento dos modelos explicativos da História Natural da Doença e a</p><p>Determinação Social da Saúde, em que medida podem contribuir na organização</p><p>e gestão de serviços de saúde?</p><p>Reflita: como esse conhecimento poderá ajudar na sua futura atividade</p><p>profissional?</p><p>13</p><p>FINALIZANDO</p><p>O pensamento epidemiológico sempre vai buscar as respostas para as</p><p>indagações: por quê, quando, como adoecemos. Ter o pensamento</p><p>epidemiológico pelos modelos explicativos do processo saúde-doença buscando</p><p>conhecer o perfil demográfico, o perfil epidemiológico, as características</p><p>nutricionais e a segurança alimentar de uma população permite estabelecer</p><p>estratégias de cuidado individual, bem como tomada de decisão para</p><p>planejamento e programação em saúde e estabelecer estratégias de promoção</p><p>da saúde e prevenção da doença.</p><p>14</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Sobre a Revista Brasileira de</p><p>Epidemiologia – ABRASCO. Disponível em: <</p><p>https://www.abrasco.org.br/site/revistas/revista-brasileira-de-epidemiologia/>.</p><p>Acesso em: 17 jan. 2023.</p><p>ALMEIDA FILHO, N.; ROUQUAYROL, M. Z. Introdução à Epidemiologia. 4.</p><p>ed. rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013.</p><p>BARATA, R. B. Epidemiologia social. Rev Bras Epidemiol, v. 8, n. 1, p. 7-17,</p><p>2005.</p><p>BARROS, José Augusto C.Pensando o processo saúde doença: a que responde</p><p>o modelo biomédico?. Saúde e Sociedade [online], v. 11, n. 1, p. 67-84, 2002.</p><p>Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-12902002000100008>. Acesso</p><p>em: 17 jan. 2023.</p><p>BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do</p><p>Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República.</p><p>_______. Lei n. 8.080, de 19 de setembro de 1990. Diário Oficial da União,</p><p>Poder Executivo, Brasília, DF, 19 set. 1990.</p><p>______. Lei n. 12.864, de 24 de setembro de 2013. Diário Oficial da União,</p><p>Poder Executivo, Brasília, DF, 24 set. 2013.</p><p>_____. Lei n. 11.346, de 15 de setembro de 2006. Diário Oficial da União, Poder</p><p>Executivo, Brasília, DF, 15 set. 2006.</p><p>BUSATO, Ivana Maria Saes. Epidemiologia e processo saúde-doença.</p><p>Curitiba: InterSaberes, 2016.</p><p>CAVALCANTI, Cintia. Transição nutricional: da desnutrição à obesidade.</p><p>ComCiência, Campinas, n. 145, fev. 2013. Disponível em</p><p><http://comciencia.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-</p><p>76542013000100002&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 17 jan. 2023.</p><p>Comissão Nacional sobre Determinantes Sociais da Saúde – CNDSS. As causas</p><p>sociais das iniquidades em saúde no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2008.</p><p>15</p><p>DAHLGREN, G.; WHITEHEAD, M. Policies and strategies to promote social</p><p>equity in health. Background document to WHO – Strategy paper for</p><p>Europe. Stockolm: Arbetsrapport/ Institutet for Framtidsstudier, 2007.</p><p>FILHO, A. M. S.; FRANÇA, G. V. A. de; MALTA, D. C. Tripla carga de doenças</p><p>no Brasil, 1990-2021: Mudanças, inflexões e o fator COVID-19. REME-Revista</p><p>Mineira de Enfermagem, [S. l.], v. 26, 2022. DOI: 10.35699/2316-</p><p>9389.2022.39410.</p><p>LEAVELL, H.; CLARK, E. G. Medicina preventiva. São Paulo: McGraw-Hill do</p><p>Brasil, 1976.</p><p>MARTINS, K. P. dos S. et al. Transição nutricional no Brasil de 2000 a 2016, com</p><p>ênfase na desnutrição e obesidade. ASKLEPION: Informação em Saúde, Rio de</p><p>Janeiro, v. 1, n. 2, p. 113-132, out. 2021/mar. 2022.</p><p>MEDRONHO, R. A. et al. Epidemiologia. São Paulo: Atheneu, 2009.</p><p>MENDES, E. V. O cuidado das condições crônicas na atenção primária à</p><p>saúde: o imperativo da consolidação da estratégia da saúde da família. Brasília:</p><p>Organização Pan-Americana da Saúde, 2012.</p><p>OLIVEIRA, R. C. de O. A transição nutricional no contexto da transição</p><p>demográfica e epidemiológica. Rev. Min. Saúde Púb., a. 3, n. 5, p. 16-23,</p><p>jul./dez. 2004.</p><p>ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE – OMS. Carta da Organização Mundial</p><p>de Saúde, 1946.</p><p>PEIXOTO, S. V. A tripla carga de agravos e os desafios para o Sistema Único</p><p>de Saúde. Ciência & Saúde Coletiva [online], v. 25, n. 8 p. 2912, 2020.</p><p>Disponível em: <https://doi.org/10.1590/1413-81232020258.14672020>. Acesso</p><p>em: 17 jan. 2023.</p><p>PUTTINI, R. F.; PEREIRA JUNIOR, A.; OLIVEIRA, L. R. de. Modelos explicativos</p><p>em saúde coletiva: abordagem biopsicossocial e auto-organização. Physis, Rio</p><p>de Janeiro, v. 20, n. 3, p. 753-767, 2010.</p><p>SEGRE, Marco; FERRAZ, Flávio Carvalho. O conceito de saúde. Revista de</p><p>Saúde Pública [online], v. 31, n. 5, p. 538-542, 1997. Disponível em:</p><p><https://doi.org/10.1590/S0034-89101997000600016>. Acesso em: 17 dez.</p><p>2023.</p><p>16</p><p>SIMÕES, C. C. da S. Relações entre as alterações históricas na dinâmica</p><p>demográfica brasileira e os impactos decorrentes do processo de</p><p>envelhecimento da população. Rio de Janeiro: IBGE, Coordenação de</p><p>População e Indicadores Sociais, 2016.</p><p>SCHRAMM, J. M. de A. et al. Transição epidemiológica e o estudo de carga de</p><p>doença no Brasil. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 9, n. 4, p. 897-908,</p><p>dez. 2004.</p><p>OLIVEIRA, R. C. de O. A transição nutricional no contexto da transição</p><p>demográfica e epidemiológica. Rev. Min. Saúde Púb., a. 3, n. 5, p. 16-23,</p><p>jul./dez. 2004.</p>

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