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<p>Unidade II</p><p>Aquisição da língua escrita na</p><p>alfabetização</p><p>Alfabetização e</p><p>Letramento</p><p>Diretor Executivo</p><p>DAVID LIRA STEPHEN BARROS</p><p>Gerente Editorial</p><p>ALESSANDRA VANESSA FERREIRA DOS SANTOS</p><p>Projeto Gráfico</p><p>TIAGO DA ROCHA</p><p>Autoria</p><p>IRIA HELENA DUARTE</p><p>AUTORIA</p><p>Iria Helena Duarte</p><p>Sou formada em Pedagogia, Especialista em Metodologia do</p><p>Ensino da Língua Portuguesa e Estrangeira com uma experiência técnico-</p><p>profissional na área de ensino híbrido há mais de 10 anos. Concluinte em</p><p>Psicopedagogia e especialização em Língua Espanhola. Iniciei minha</p><p>carreira como docente em diversas escolas do estado de São Paulo,</p><p>estado do Paraná e de Santa Catarina na área da Educação Infantil e Ensino</p><p>Fundamental I. Em 2008, fui convidada por uma empresa em expansão</p><p>em EAD a participar do departamento pedagógico como coordenadora</p><p>pedagógica em EAD e depois como professora conteudista na área</p><p>da Pedagogia e ensino de línguas. Também trabalhei para algumas</p><p>faculdades, para a elaboração de trabalhos e materiais didáticos e</p><p>preparatórios para, por exemplo, o ENADE. Atualmente sou sócia de uma</p><p>escola EAD de ensino de cursos técnicos, profissionalizantes e idiomas</p><p>e também atuo como mediadora do curso de Pedagogia e tutora virtual</p><p>da Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Amo a minha profissão</p><p>e sou apaixonada pelo meu trabalho. Estou sempre em busca de novos</p><p>conhecimentos porque acredito no poder da educação e da reciclagem.</p><p>Adoro poder transmitir minha experiência para todos que estão iniciando</p><p>em suas profissões. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a</p><p>integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder</p><p>ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte sempre comigo!</p><p>ICONOGRÁFICOS</p><p>Olá. Esses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez</p><p>que:</p><p>OBJETIVO:</p><p>para o início do</p><p>desenvolvimento</p><p>de uma nova</p><p>competência;</p><p>DEFINIÇÃO:</p><p>houver necessidade</p><p>de apresentar um</p><p>novo conceito;</p><p>NOTA:</p><p>quando necessárias</p><p>observações ou</p><p>complementações</p><p>para o seu</p><p>conhecimento;</p><p>IMPORTANTE:</p><p>as observações</p><p>escritas tiveram que</p><p>ser priorizadas para</p><p>você;</p><p>EXPLICANDO</p><p>MELHOR:</p><p>algo precisa ser</p><p>melhor explicado ou</p><p>detalhado;</p><p>VOCÊ SABIA?</p><p>curiosidades e</p><p>indagações lúdicas</p><p>sobre o tema em</p><p>estudo, se forem</p><p>necessárias;</p><p>SAIBA MAIS:</p><p>textos, referências</p><p>bibliográficas</p><p>e links para</p><p>aprofundamento do</p><p>seu conhecimento;</p><p>REFLITA:</p><p>se houver a</p><p>necessidade de</p><p>chamar a atenção</p><p>sobre algo a ser</p><p>refletido ou discutido;</p><p>ACESSE:</p><p>se for preciso acessar</p><p>um ou mais sites</p><p>para fazer download,</p><p>assistir vídeos, ler</p><p>textos, ouvir podcast;</p><p>RESUMINDO:</p><p>quando for preciso</p><p>fazer um resumo</p><p>acumulativo das</p><p>últimas abordagens;</p><p>ATIVIDADES:</p><p>quando alguma</p><p>atividade de</p><p>autoaprendizagem</p><p>for aplicada;</p><p>TESTANDO:</p><p>quando uma</p><p>competência for</p><p>concluída e questões</p><p>forem explicadas;</p><p>SUMÁRIO</p><p>A aquisição da língua escrita ................................................................. 10</p><p>Língua, fala e cultura .................................................................................................................... 10</p><p>A influência cultural para a língua escrita .................................................. 13</p><p>Processos de apropriação da língua escrita ................................... 17</p><p>As diferentes perspectivas .................................................................................... 17</p><p>A psicogenética de Ferreiro e Teberosky ................................................... 19</p><p>Métodos de alfabetização: global e fonético .................................22</p><p>Os métodos de alfabetização ................................................................................................24</p><p>Estratégias da leitura – formação do indivíduo .............................30</p><p>Antes da leitura ................................................................................................................................ 30</p><p>O tradicional versus o construtivista .................................................................................35</p><p>7</p><p>UNIDADE</p><p>02</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>8</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Prezado aluno,</p><p>Nossa jornada ainda nem começou! Temos muito pela frente para</p><p>que você possa compreender todos os meios que permeiam essa disciplina</p><p>tão importante na sua formação. Na verdade, nossa intenção é que você</p><p>não somente se aproprie de toda a estrutura teórica, mas que possa fazer</p><p>experimentação de todo o conteúdo quando estiver vivenciando na sua</p><p>prática pedagógica.</p><p>Nesta unidade, serão abordados temas pertinentes à linguagem escrita</p><p>e a suas implicações. Faremos uma análise sobre a aquisição da língua escrita,</p><p>a importância que essa prática tem em nosso meio social e para a criança,</p><p>assim como todos os processos que são envolvidos nessa etapa. Falaremos</p><p>também sobre como a criança faz a apropriação dessa linguagem e quais os</p><p>meios que ela percorre para chegar ao que desejamos ser satisfatório.</p><p>Precisamos ter também o conhecimento sobre os métodos de</p><p>alfabetização no seu sentido global e também fonético não somente com base</p><p>em teorias, mas em vivências dentro de sala de aula. Por fim, falaremos um</p><p>pouco mais sobre as estratégias de leitura, agora mais focadas em ambientes</p><p>específicos.</p><p>Esperamos que você faça um bom uso desse material e que seus</p><p>conhecimentos possam ser expandidos. Sugerimos que faça as atividades</p><p>propostas, participe dos fóruns, realize leituras extraclasse, enfim, seja parte</p><p>integrante nesse processo!</p><p>Bons estudos!</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>9</p><p>OBJETIVOS</p><p>Olá. Seja muito bem-vindo a nossa Unidade 2. Nosso objetivo é</p><p>auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais</p><p>até o término desta etapa de estudos:</p><p>1. Descrever o conceito sobre a aquisição da linguagem escrita por</p><p>meios filosóficos e teóricos.</p><p>2. Construir conhecimentos específicos através dos processos que</p><p>permeiam a apropriação da língua escrita.</p><p>3. Identificar como são utilizados os métodos de alfabetização e</p><p>quais suas principais característica.</p><p>4. Aplicar as estratégias da leitura como parte integrante no processo</p><p>de formação do indivíduo.</p><p>Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento?</p><p>Ao trabalho!</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>10</p><p>A aquisição da língua escrita</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao término deste capítulo você será capaz de descrever o</p><p>conceito sobre a aquisição da linguagem escrita por meios</p><p>filosóficos e teóricos. E então? Motivado para desenvolver</p><p>esta competência? Então vamos lá. Avante!</p><p>Antes de iniciarmos, gostaria que você fizesse uma reflexão sobre</p><p>esse conceito baseado em suas vivências pessoais. Tente recordar qual</p><p>foi o processo que sua professora utilizou com você para que chegasse a</p><p>escrever. Houve alguma dificuldade ou algo que o tenha marcado?</p><p>Você verá que a aquisição da língua escrita não é tão simples</p><p>como podemos imaginar, e temos que ter em conta muitos fatores que</p><p>envolvem a realidade da criança. Um dos fatores culminantes é o que</p><p>diz respeito ao meio cultural em que a criança está inserida. Infelizmente,</p><p>ainda nos dias de hoje, muitos profissionais não estão preocupados</p><p>com esse tema porque simplesmente acreditam que os métodos de</p><p>alfabetização os auxiliarão nessa aquisição. Muito pelo contrário, quanto</p><p>mais informações tivermos sobre a criança, melhor será o processo de</p><p>aquisição.</p><p>Língua, fala e cultura</p><p>Na unidade anterior, você já estudou as diferenças entre língua</p><p>falada e língua escrita. Enquanto a língua falada é dinâmica e sofre</p><p>sempre modificações, a língua escrita é mais regrada e não tem tantos</p><p>dinamismos quanto a outra.</p><p>Mas qual seria a relevância disso no processo da aquisição da</p><p>escrita?</p><p>Vamos imaginar duas situações:</p><p>1. Uma criança de classe média alta, sendo alfabetizada em uma</p><p>escola particular, onde ela está inserida em um projeto pedagógico</p><p>fundamentado na visão construtivista.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>11</p><p>2. Uma outra criança de classe</p><p>média baixa, num processo de</p><p>alfabetização em uma escola pública, cujo método pedagógico</p><p>é calcado em meios tradicionais. A escola ainda utiliza a cartilha</p><p>para alfabetizar a criança.</p><p>Imaginou essas duas situações?</p><p>Ótimo! Então procure responder baseado em todo o material que</p><p>estudou até agora:</p><p>Você acredita que ambas as crianças, inseridas em meios sociais e</p><p>culturais completamente diferentes, terão as mesmas condições no que</p><p>diz respeito aos métodos de alfabetização e aquisição da língua?</p><p>Em 1970, Frank Smith propôs que a criança tem capacidade</p><p>de aprender de forma tão natural quanto o ato de falar. Esse processo</p><p>depende também do meio social em que ela vive, pois isso seria muito</p><p>significativo e determinante. Ele define um ambiente significativo como</p><p>aquele destinado ao meio social em que a criança está inserida, já que até</p><p>mesmo esse ambiente pode ser motivador para que ocorra o processo</p><p>naturalmente. É o que ele mesmo aponta quando diz (SMITH, 1989):</p><p>Tudo que as crianças precisam para dominar a linguagem</p><p>falada, tanto para produzi-la por si mesmas quanto, mais</p><p>fundamentalmente, para compreenderem sua utilização</p><p>pelos outros, é ter a experiência de usar a linguagem</p><p>em um ambiente significativo. As crianças aprendem</p><p>facilmente sobre a língua falada, quando estão envolvidas</p><p>em sua utilização, quanto esta lhe faz sentido. E, da</p><p>mesma forma, tentarão compreender a linguagem escrita</p><p>se estiverem envolvidas em sua utilização, em situações</p><p>onde esta lhes faz sentido e onde podem gerar e testar</p><p>hipóteses. (SMITH, 1989, p.237)</p><p>Nesse pressuposto, é correto afirmar que o ambiente em que a</p><p>criança vive é facilitador desse processo. Voltamos novamente às crianças</p><p>1 e 2 do nosso exemplo.</p><p>Perceba que não depende, muitas vezes, das capacidades</p><p>cognitivas das crianças na construção do conhecimento, mas sim, de</p><p>diversos fatores que influenciam a aquisição. E quando falamos em classe</p><p>social, isso pode ter um impacto muito grande, ou seja, uma criança menos</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>12</p><p>favorecida financeiramente não tem acesso às mesmas informações que</p><p>uma criança mais favorecida financeiramente. Isso não significa que a</p><p>criança menos favorecida financeiramente não irá aprender, porém ambas</p><p>estão inseridas em realidades muito diferentes.</p><p>Na mesma década, Kenneth Goodman propôs uma teoria bem</p><p>parecida com a de Frank Smith. Ele ainda enfatiza os “porquês” da</p><p>finalidade da linguagem escrita e afirma que o indivíduo faz a apropriação</p><p>porque precisa dela em seu meio social. Segue o questionamento de</p><p>Goodman (1986):</p><p>Por que as pessoas criam e aprendem a língua escrita?</p><p>Porque precisam dela! Como aprendem a língua escrita?</p><p>Da mesma forma que aprendem a língua oral, usando-a</p><p>em eventos de letramento autênticos que respondem a</p><p>suas necessidades. Frequentemente as crianças enfrentam</p><p>dificuldades na aprendizagem da língua escrita na escola.</p><p>Isso acontece não é porque é mais difícil aprender a escrita</p><p>que aprender a língua oral, ou porque são aprendizagens</p><p>diferentes. Acontece porque nós tornamos a aprendizagem</p><p>da língua escrita difícil, tentando torna-la fácil. (GOODMAN,</p><p>1986, p.24)</p><p>Concluem, então, que o ato de ler e escrever é um processo natural,</p><p>pois a criança aprende assim como na aquisição da fala. São entendidos</p><p>como dois processos diferentes, mas que ocorrem naturalmente. O que</p><p>deve ser feito é proporcionar um ambiente que seja favorável para a</p><p>criança.</p><p>Outra proposta pedagógica muito significativa foi a do Whole</p><p>language, especificamente em países que falam a língua inglesa. Uma</p><p>visão muito parecida a essa, no Brasil, seria o método construtivista.</p><p>Embora existam distinções entre as duas visões, ambas também</p><p>acreditam que a aprendizagem se dá por um processo natural. Segundo</p><p>Soares (2014, p. 41): “em um contexto de inserção da criança em situações</p><p>em que haja razão e objetivo para compreender e ser compreendido por</p><p>meio da escrita”.</p><p>Para Emília Ferreiro, fundamentada em sua obra, a língua oral</p><p>e a língua escrita são “atividades sociais frente às duas aprendizagens”</p><p>(1992, p. 29). Emília Ferreiro (1992, p.31) ainda reitera que “não se aprende</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>13</p><p>um fonema nem uma silaba e nem uma palavra por vez, também a</p><p>aprendizagem da língua escrita não é um processo cumulativo simples,</p><p>unidade por unidade, mas organização, desestruturação e reestruturação</p><p>contínua”.</p><p>O processo ocorre naturalmente dentro de um contexto cultural</p><p>em que o indivíduo está envolvido, porém é certo lembrar que cada um</p><p>tem a sua especificidade porque “nasceu” em um ambiente diferente.</p><p>Então, duas crianças de classes sociais e culturas diferentes podem, sim,</p><p>aprender também de maneiras diferentes.</p><p>A influência cultural para a língua escrita</p><p>Vimos que nossa cultura faz parte de quem somos e vice-versa.</p><p>É por meio dela que nos espelhamos como cidadãos, pois cada povo</p><p>tem sua maneira de expressar seus sentimentos. Quando falamos de</p><p>“povo”, não estamos falando apenas de diferenças entre países, mas</p><p>de comunidades, de famílias. Cada um tem a sua cultura, seu modo de</p><p>expressão e de interpretação. Devemos à cultura todo o conhecimento</p><p>com o social, é o meio pelo qual você está inserido. Seus gostos, suas</p><p>crenças, tudo vem do que você aprendeu, do que seus pais lhe ensinaram,</p><p>e assim por diante.</p><p>Pense no Brasil e em todo o seu povo. Perceba que cada região tem</p><p>a sua característica diferente.</p><p>REFLITA:</p><p>Pense sobre nossa língua materna. Todos os mais de 200</p><p>milhões de habitantes da nossa nação falam a língua</p><p>portuguesa porque fomos colonizados pelos portugueses</p><p>e acabamos por herdar essa língua tão rica. Porém, todos</p><p>falam da mesma maneira?</p><p>É claro que existem diferenças na nossa língua. O paulista não fala</p><p>como o carioca e o gaúcho não fala como o mineiro. Cada povo fala de</p><p>uma maneira diferente e não é só de estado para estado e de cidade</p><p>para cidade que podem ocorrer muitas modificações na língua. Essas</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>14</p><p>mudanças chamamos de regionalismo. Além disso, existem os dialetos</p><p>e sotaques brasileiros, pois, em cada região, também se fala de maneira</p><p>diferente, tanto os sons das palavras quanto a entonação mudam. Outra</p><p>característica da língua oral são as expressões. Pense na seguinte situação:</p><p>Uma criança paulista, recém-chegada à Bahia, diz que está</p><p>muito “bolado” com a professora. Para os paulistas, “bolado” quer dizer</p><p>“preocupado”. É claro que a criança baiana não entenderá porque essa é</p><p>uma expressão tipicamente paulistana.</p><p>Podemos citar inúmeros exemplos de expressões e regionalismos</p><p>de nossa língua, porém a intenção é que você se atente à importância</p><p>desses processos no desenvolvimento do indivíduo.</p><p>No processo de alfabetização, o caso não é diferente. Muitos</p><p>pesquisadores acreditam que um dos fatores do fracasso da alfabetização</p><p>é justamente não conhecer essas facetas, pois alfabetização não se</p><p>restringe apenas ao nível cognitivo, mas abarca também os níveis</p><p>psicológico e sociológico.</p><p>Outro fator importante, também, é o nível socioeconômico. Como</p><p>dito anteriormente, crianças de diferentes níveis socioeconômicos não</p><p>aprendem da mesma maneira porque também não têm as mesmas</p><p>experiências de vida. Podemos refletir melhor com a posição de Soares</p><p>(2017):</p><p>Assim, tanto no Brasil quanto em outros países, os estudos</p><p>linguísticos sobre a alfabetização, partindo do pressuposto</p><p>de que há relação entre língua e estratificação social, vêm</p><p>tentando descrever os dialetos de comunidade de fala,</p><p>correlacionando-os com varáveis sociais, particularmente</p><p>com a variável nível socioeconômico, e contrastando-</p><p>os com a língua escrita, para encontrar, nesse contraste,</p><p>explicações das dificuldades que falantes pertencentes a</p><p>determinados grupos sociais enfrentam, no processo de</p><p>aquisição de língua escrita. (SOARES, 2017, p.92)</p><p>A mesma pesquisadora ainda afirma que há uma grande importância</p><p>em entender que os aspectos funcionais têm a mesma relevância que os</p><p>aspectos estruturais. Ela aponta também para a designação da “função</p><p>social da língua escrita” em sua estrutura social e o desempenho que essa</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>15</p><p>função tem em sua sociedade. Portanto, não podemos apenas olhar a</p><p>aquisição da escrita por meios mecânicos e estruturais, mas também por</p><p>meio do seu processo social. Magda Soares reitera que deve existir uma</p><p>certa urgência para essa perspectiva social da língua escrita (SOARES,</p><p>2017, p. 4): “[...] é necessário conhecer o valor e a função atribuídos à língua</p><p>escrita pelas camadas populares, para que se possa compreender o</p><p>significado que tem, para as crianças pertencentes a essas camadas, a</p><p>aquisição da língua escrita – esse significado interfere, certamente, em</p><p>sua alfabetização”.</p><p>Infelizmente, ainda nos dias de hoje, são muito poucas as pesquisas</p><p>sobre as funções da língua escrita em sua diferenciação social por todo</p><p>o país. A atribuição do uso da língua é diferente entre as classes sociais</p><p>diferentes. É o que diz Soares (2017):</p><p>Comecemos pela hipótese de que essas classes sociais</p><p>diferentes atribuem funções diferentes ao uso da língua. [...]</p><p>Ou seja, há uma diferença de classe na relação entre uso</p><p>da língua e as expectativas prévias do falante, a respeito</p><p>do interlocutor e do contexto. (SOARES, 2017, p.96)</p><p>A pesquisadora Magda Soares, em sua obra Alfabetização e</p><p>Letramento, apontou alguns exemplos de produção de textos de crianças</p><p>de classes econômicas diferentes. São textos de uma mesma classe de</p><p>alunos, destinados à mesma turma, tendo a mesma professora, porém</p><p>suas produções são diferentes. Seguem dois exemplos (SOARES, 2017,</p><p>p. 99):</p><p>Exemplo:</p><p>1. Referente a uma menina de nível socioeconômico médio-alto do</p><p>3º ano do ensino fundamental I:</p><p>“Se eu fosse professora iria dar aula de matemática, comunicação,</p><p>integração, ciências, treino e muitos outras coisas. Se precisar de chamar</p><p>atenção do aluno é só chamar. Eu iria contar estórias para os alunos e</p><p>fazer jogos de matemática e também dar matérias novas para eles. Eu</p><p>gostaria muito de ser professora, ensinar os meninos as matérias e isto é</p><p>para o próprio bem deles”.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>16</p><p>2. Referente a uma menina de nível socioeconômico baixo do 3º ano</p><p>do ensino fundamental I:</p><p>“Se eu fosse professora: eu mandaria os alunos calarem a boca,</p><p>fazerem os exercícios completos, não olhar um do outro porque se</p><p>não eles não aprenderiam nada. Eu não quer (sic) ser uma professora</p><p>brava, eu quer ser uma professora que não gritasse com os alunos, mas</p><p>queria que os alunos coperasem (sic) comigo, porque se os alunos não</p><p>coperasem (sic) comigo eu também não podia coperar (sic) com eles.</p><p>Vocês entenderam que professora eu queria ser?”</p><p>Perceba a distinção entre os dois textos. Ambas as meninas</p><p>falam de um mesmo assunto, só que com perspectivas diferentes. Não</p><p>estamos nos atendo somente aos erros de concordância, gramaticais e</p><p>de ortografia, mas à representatividade de um contexto cultural em que</p><p>cada uma está inserida.</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo</p><p>tudinho? Agora, só para termos certeza de que você</p><p>realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos</p><p>resumir algo do que vimos. Você deve ter compreendido</p><p>como descrever o conceito sobre a aquisição da linguagem</p><p>escrita por meios filosóficos e teóricos.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>17</p><p>Processos de apropriação da língua</p><p>escrita</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao término deste capítulo você será capaz de entender</p><p>construir conhecimentos específicos através dos processos</p><p>que permeiam a apropriação da língua escrita. E então?</p><p>Motivado para desenvolver esta competência? Então</p><p>vamos lá. Avante!</p><p>Vimos que a aquisição da língua escrita, para acontecer,</p><p>dependerá de muitos fatores, tanto internos como externos. Neste</p><p>capítulo, estudaremos os processos de apropriação da língua e como se</p><p>desencadeia esse método.</p><p>Pensamos então no desenvolvimento e na aprendizagem como</p><p>partes intrínsecas, pois podem ser originados tanto por causas internas</p><p>como por externas. Por exemplo: quando citamos as causas externas,</p><p>podemos relatar os processos linguísticos do indivíduo; já quanto às</p><p>causas internas, podemos citar o contexto sociocultural.</p><p>Toda fundamentação teórica tem os seus prós e contras, e mais uma</p><p>vez reiteramos que a intenção não é propor as melhores perspectivas,</p><p>e sim relacionar as fundamentações que mais se evidenciam nesse</p><p>processo. Várias são as teorias que identificam a fase de desenvolvimento</p><p>da criança.</p><p>Então, citaremos as teorias mais vivenciadas nesse</p><p>desencadeamento.</p><p>As diferentes perspectivas</p><p>Curiosamente, Vygotsky considerou como pré-história da</p><p>linguagem escrita os desenhos, os rabiscos, os jogos de faz de conta,</p><p>que seriam momentos iniciais da aquisição da escrita. Para ele, a criança</p><p>constrói sistemas de representação. É o que podemos notar em Vygotsky,</p><p>1984, p. 131): “O brinquedo de faz de conta, o desenho e a escrita devem</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>18</p><p>ser vistos como momentos diferentes de um processo essencialmente</p><p>unificado de desenvolvimento da linguagem escrita”.</p><p>A perspectiva de Vygotsky era fundamentalmente semiótica e</p><p>continuou presente após 6 décadas. Nessa perspectiva, é proposto que</p><p>há estágios de desenvolvimento que antecedem formas de representação</p><p>da fala e da forma gráfica também. Segundo a reflexão de Soares (2014):</p><p>Essa análise busca a pré-história da aprendizagem da</p><p>escrita, para usar a expressão de Vygotsky, identificando</p><p>os princípios que regem a construção de significados</p><p>pelas crianças, quando lançam mão de uma multiplicidade</p><p>de formas de representação, por meio de diferentes tipos</p><p>de interação com o mundo – não só por meio da visão,</p><p>como na fala, mas também por meio do tato, do olfato, do</p><p>paladar, dos sentimentos. (SOARES, 2014, p. 58)</p><p>Uma segunda perspectiva acontece com Alexander Luria, psicólogo</p><p>e especialista em psicologia do desenvolvimento. Luria fundamentou sua</p><p>teoria de forma similar à de Vygotsky. Segundo Luria, quando uma criança</p><p>entra na escola, ela já tem bagagens suficientes para possuir habilidades</p><p>que a auxiliarão a escrever em um tempo particularmente curto.</p><p>Esse psicólogo iniciou uma experimentação com crianças de 3</p><p>a 5 anos que não haviam aprendido a escrever. As crianças deveriam</p><p>relembrar alguns números de palavras ou frases que lhes eram passadas.</p><p>Dentro dessas observações, pôde notar Luria (1998):</p><p>em que extensão o pedaço de papel, o lápis e os rabiscos</p><p>que [a criança] fazia no papel deixavam de ser simples</p><p>objetos que a interessavam, brinquedos, por assim dizer, e</p><p>tornavam-se um instrumento, um meio para atingir algum</p><p>fim: recordar um certo número de ideias que lhe foram</p><p>apresentadas. (LURIA, 1998, p. 147-48)</p><p>Luria apresentou, nessa pesquisa, três estágios:</p><p>1. No primeiro estágio, identificou que as crianças “anotavam” as</p><p>frases por meio de rabiscos. Denominou esse estágio de pré-</p><p>escrita.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>19</p><p>2. No segundo estágio, inscreveu marcos não direcionados nas</p><p>páginas. Nesse caso, as crianças lembravam uma ou outra frase,</p><p>pois esse era exatamente o propósito.</p><p>3. O terceiro estágio referia-se à diferenciação dos signos primários.</p><p>As crianças utilizavam os rabiscos curtos para o registro de</p><p>palavras, e os longos, para o registro de frases. O desenho era</p><p>utilizado somente para que elas recordassem, e não como</p><p>reprodução.</p><p>A psicogenética de Ferreiro e Teberosky</p><p>Vamos estudar um pouco sobre essas teóricas fantásticas e que</p><p>nos trouxeram fundamentos riquíssimos para nosso desenvolvimento</p><p>como docentes?</p><p>A obra de Emília Ferreiro e Ana Teberosky teve um impacto</p><p>muito grande em nossa história. Elas não somente contribuíram, como</p><p>revolucionaram os processos de alfabetização que, até então, estavam</p><p>esquecidos no sistema tradicional da cartilha.</p><p>Houve uma diferenciação</p><p>entre as pesquisas de Luria e de Ferreiro.</p><p>O primeiro teve o foco na pesquisa com crianças de 3 a 5 anos. Já Ferreiro</p><p>e Teberosky fizeram experimentação com crianças de 4 a 6 anos. Eles se</p><p>diferenciam entre si quanto ao objeto do conhecimento, como declara</p><p>Soares (2014):</p><p>diferenciam-se em relação ao objeto do conhecimento</p><p>privilegiado: na pesquisa de Luria o foco é posto nos</p><p>grafismos utilizados pela criança para apoio à memória,</p><p>ou seja, o objeto de conhecimento é uso da escrita pela</p><p>criança como instrumento; na pesquisa de Ferreiro e</p><p>Teberosky, o foco é posto nos processos cognitivos da</p><p>criança em sua progressiva aproximação ao princípio</p><p>alfabético da escrita, ou seja, o objeto de conhecimento</p><p>é a escrita como um sistema de representação, que as</p><p>pesquisadoras analisam sob a perspectiva da psicogênese</p><p>no quadro da teoria piagetiana. (SOARES, 2014, p. 62)</p><p>As fases iniciais da psicogênese da língua escrita dão-se pelo</p><p>desenvolvimento da leitura e pela evolução da escrita. Nessa perspectiva</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>20</p><p>construtivista, a evolução da escrita é considerada um ato complexo e</p><p>rico em oportunidades.</p><p>Os níveis de evolução da leitura são reconhecidos mais facilmente</p><p>do que os níveis da leitura. Para Ferreiro e Teberosky, destacam-se alguns</p><p>níveis:</p><p>1. Nível pré-silábico: nessa fase, a criança produz alguns desenhos.</p><p>2. Nível pré-silábico II: a criança já reconhece algumas letras do</p><p>alfabeto e já tem capacidade de diferenciar gravuras de letras e</p><p>números.</p><p>3. Nível silábico: pode ser dividido entre silábico sonoro, silábico sem</p><p>valor sonoro e alfabético.</p><p>4. Nível silábico sem valor sonoro: nesse estágio, a criança não leva</p><p>em conta os sons das letras e faz a assimilação do alfabeto para</p><p>escrever, mas não forma o padrão da grafia tradicional.</p><p>5. Nível silábico com valor sonoro: são utilizados alguns símbolos</p><p>gráficos de maneira aleatória, utilizando-se muitas vezes</p><p>consoantes ou somente vogais.</p><p>6. Nível silábico alfabético: há uma oscilação tanto silábica como</p><p>alfabeticamente.</p><p>7. Nível alfabético: a criança agora compreende que a escrita implica</p><p>a necessidade da análise fonética das palavras.</p><p>Vale lembrar que essas ideias são de cunho construtivista. Outros</p><p>teóricos fundamentaram suas teorias com base em outras experiências.</p><p>Muitas são as perspectivas, e com certeza teríamos um e-book totalmente</p><p>dedicado à análise dessas perspectivas, por isso sugerimos que você</p><p>faça algumas pesquisas sobre as perspectivas de Gentry, Frith e Erhi. Este</p><p>último tem uma semelhança muito grande com Emília Ferreiro.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>21</p><p>REFLITA:</p><p>Baseado em toda argumentação teórica, você acredita</p><p>que a fundamentação da escrita pode ser iniciada com</p><p>desenhos e gravuras? Como você, professor, trabalharia</p><p>com o seu aluno essa perspectiva de Vygotsky?</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu</p><p>mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de</p><p>que você realmente entendeu o tema de estudo deste</p><p>capítulo, vamos resumir algo do que vimos. Você deve ter</p><p>compreendido como construir conhecimentos específicos</p><p>através dos processos que permeiam a apropriação da</p><p>língua escrita.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>22</p><p>Métodos de alfabetização: global e</p><p>fonético</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao término deste capítulo você será capaz de identificar</p><p>como são utilizados os métodos de alfabetização e quais</p><p>suas principais característica. E então? Motivado para</p><p>desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante!</p><p>Entende-se por métodos de alfabetização um conjunto de</p><p>valores, procedimentos que são baseados em teorias e princípios com a</p><p>intenção de orientar a aprendizagem que é iniciada pela leitura e escrita.</p><p>Procuramos entender que não existe um único método no processo de</p><p>alfabetização, pois, em se tratando de um assunto tão complexo, seria</p><p>enganoso dizer que exista apenas um único método realmente eficaz. É o</p><p>que sugere Soares (2014):</p><p>a questão dos métodos mencionada neste livro não é qual</p><p>método ou quais são os melhores ou os mais adequados;</p><p>a resposta que se pode inferir reverte os termos da</p><p>expressão métodos de alfabetização para alfabetizar com</p><p>método: orientar a criança por meio de procedimentos</p><p>que, fundamentados em teorias e princípios, estimulem</p><p>e orientem as operações cognitivas e linguísticas que</p><p>progressivamente a conduzam a uma aprendizagem bem-</p><p>sucedida da leitura e uma ortografia alfabética. (SOARES,</p><p>2014, p.331)</p><p>Sabemos que a aprendizagem da língua possui muitas etapas.</p><p>Magda Soares chama essas etapas de “facetas”. Segundo Soares (2014), a</p><p>reunião dessas “facetas” dificilmente pode constituir um método:</p><p>Em outras palavras, o que propõe é que uma alfabetização</p><p>bem-sucedida não depende de um método, ou,</p><p>genericamente, de métodos ou processos cognitivos e</p><p>linguísticos do processo de alfabetização, e com base</p><p>neles desenvolvem atividades que estimulem e orientem</p><p>a aprendizagem da criança, identificam e interpretam</p><p>dificuldades em que terão condições de intervir de forma</p><p>adequada – aqueles/aquelas que alfabetizam com um</p><p>método. (SOARES, 2014, p.333)</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>23</p><p>Em meados do século XX, pode-se notar que a linguagem escrita</p><p>tornou-se objeto de pesquisa no campo das ciências linguísticas e têm-se</p><p>observado novos debates sobres os métodos no processo de alfabetização</p><p>vindo da necessidade criada pelo fracasso do sistema de alfabetização</p><p>no Brasil. Muitos estudiosos acreditam que os métodos tradicionais não</p><p>são mais eficientes porque acabam minando o desenvolvimento da</p><p>criança, embora, ainda nos dias de hoje, essa prática tradicional acabe</p><p>por predominar.</p><p>REFLITA:</p><p>Você pode imaginar o motivo dos métodos tradicionais</p><p>ainda prevalecem no ambiente escolar? E qual foi o método</p><p>de alfabetização que a sua professora usou com você?</p><p>É muito provável que, para os que tenham nascido a partir dos</p><p>anos de 1980 até os dias atuais, o método seja o mesmo, o da cartilha</p><p>de Comenius. Um conceito bastante relevante é o pressuposto de</p><p>que os métodos tradicionais acabam por não priorizar uma reflexão de</p><p>leitura e escrita, dando ênfase à memorização. No método tradicional,</p><p>é utilizado um sistema de codificação e decodificação, sem mencionar</p><p>suas atividades com fragmentos e de modo artificial, além da aplicação</p><p>de ditados. É o que propõem Brito, Albuquerque, Cabral e Tavares (2007):</p><p>As práticas de alfabetização e os livros didáticos a elas</p><p>vinculados, passaram a ser amplamente criticados, uma</p><p>vez que continham textos forjados (os pseudotextos)</p><p>e atividades que, de certa forma, destruíam a língua,</p><p>reduzindo, equivocadamente, a iniciação da criança no</p><p>mundo da escrita às tarefas de codificar e decodificar</p><p>palavras tolas ou estranhas, sem qualquer proposito</p><p>comunicativo. (BRITO et al., 2007, p.1)</p><p>Perceba que os autores citam que esse método tradicional acaba</p><p>por destruir a língua, porque não insere a criança no processo real</p><p>educativo, e como anteriormente já vimos, o processo é complexo e exige</p><p>do educador muito mais do que simplesmente ser o transmissor desse</p><p>conhecimento.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>24</p><p>Na tentativa de trazer novos horizontes para nossa realidade, Emilia</p><p>Ferreiro entra em cena com a sua obra Psicogênese da língua escrita, e</p><p>coloca em dúvida todo o trabalho realizado até o momento. Calcada em</p><p>ideais construtivistas, propõe uma codificação para a representação da</p><p>linguagem, assim como mostra que existe uma grande complexidade na</p><p>linguagem escrita. Ferreiro vai contra o método tradicional, especialmente</p><p>a prática de cópias, ditados e leitura de textos, pois, para ela, esses</p><p>artefatos não permitem ao professor identificar os níveis de alfabetização</p><p>em que as crianças se encontram.</p><p>Mediante o desencadeamento dessas vertentes, surge a ideia de</p><p>letramento. A alfabetização divide-se na ideologia de que o indivíduo</p><p>deve não somente saber ler e escrever, mas fazer uso real dessa pratica,</p><p>por meio de interpretação e domínio de sua linguagem. A pesquisadora</p><p>Magda Soares acentuou ainda mais essa visão em suas obras e nos deu</p><p>um direcionamento sobre os inúmeros questionamentos da definição de</p><p>letramento.</p><p>Outro teórico bastante significativo foi Artur Gomes de Morais,</p><p>que fundamentou o papel da consciência fonológica de alfabetização e</p><p>enfatizou que os métodos tradicionais não seriam totalmente eficientes,</p><p>pois promovem o aprendizado da língua de uma maneira bastante artificial</p><p>e muitas vezes sem nenhum sentido para as crianças. Segundo Artur,</p><p>muitos educadores ainda recorrem aos métodos tradicionais porque têm</p><p>dificuldade de transpor os métodos atuais em sala de aula.</p><p>Os métodos de alfabetização</p><p>Até o final do Império, o sistema de alfabetização não era</p><p>sistematizado, somente com a proclamação da República é que o ensino</p><p>passou, de fato, a ser institucionalizado. É o que diz Mortatti (2006):</p><p>A leitura e a escrita – que até então eram práticas culturais</p><p>cuja aprendizagem se encontrava restrita a poucos e</p><p>ocorria por meio de transmissão assistemática de seus</p><p>rudimentos no âmbito privado do lar, ou de maneira</p><p>menos informal, mas ainda precária, nas poucas “escolas”</p><p>do Império (“aulas régias”) – tornaram-se fundamentos da</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>25</p><p>escola obrigatória, leiga e gratuita e objeto de ensino e</p><p>aprendizagem escolarizados. (MORTATTI, 2006, p.2)</p><p>Por meio, então, de contextos históricos, podem-se notar as grandes</p><p>mudanças e os avanços nos conceitos econômicos, sociais e culturais da</p><p>nossa nação. Ao longo desse tempo, os métodos foram divididos em dois</p><p>grupos:</p><p>1. Método sintético ou método fonético.</p><p>2. Método analítico ou método global.</p><p>Os métodos sintéticos subdividem-se em:</p><p>a. Método alfabético ou método de soletração.</p><p>b. Método fônico.</p><p>c. Método silábico.</p><p>Os métodos analíticos subdividem-se em:</p><p>a. Método da palavração.</p><p>b. Método da sentenciação.</p><p>O método fonético ou método sintético</p><p>Esse método foi proposto pelo linguista americano Bloomfield,</p><p>que reforça que a criança é estimulada a repetir os sons que absorve do</p><p>seu meio, como se fosse um processo mecânico. Vale dizer que todas as</p><p>funções da linguagem são totalmente descartadas nesse método.</p><p>Para a linguagem escrita, a criança deve internalizar padrões</p><p>regulares de correspondência no que diz respeito ao som e à soletração,</p><p>por meio de leitura das palavras, ou seja, a escrita serviria apenas para</p><p>representar, em formas gráficas, a fala.</p><p>Outro fator muito importante nesse método é a postura do</p><p>professor, pois nesse caso, ele pode decidir como e quando as crianças</p><p>devem aprender por meio de padrões regulares (mais fáceis) e padrões</p><p>irregulares (mais difíceis).</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>26</p><p>Por essa razão, o método fonético é subdividido em três partes:</p><p>método alfabético ou de soletração, que tem como função principal a</p><p>letra; o método fônico, que conduz aos fonemas; e o método silábico, que</p><p>tem como unidade principal as sílabas. Você lembra da cartilha? Pois é</p><p>exatamente isso o que acontece.</p><p>Figura 1 - Letra</p><p>Fonte: Freepik .</p><p>Que tal nos aprofundarmos um pouco mais? Faça a leitura de duas</p><p>reportagens que separamos para você para que tenha um pouquinho</p><p>mais de compreensão sobre esse método. Uma delas é referente a uma</p><p>entrevista com Magda Soares e sua percepção sobre o assunto.</p><p>Método global ou método analítico</p><p>Esse método tem, como seu precursor, Nicolas Adam, o qual</p><p>propõe uma metáfora sobre a aprendizagem da criança. Ele afirma que o</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>27</p><p>aprendizado da linguagem escrita é o mesmo que apresentar um casaco</p><p>para a criança, ou seja, o casaco é apresentado como um todo e não é</p><p>subdividido em gola, bolsos, botões etc. Assim deve ser com a aquisição</p><p>da língua escrita. Segundo ele, é exatamente isso que se faz com o</p><p>método sintético, a aprendizagem é desmembrada.</p><p>Outro fator bastante importante que Nicolas enfatiza é a importância</p><p>da leitura e afirma que, quando a criança faz a leitura, muitas vezes não</p><p>faz a compreensão exata, pois, para que exista essa decifragem, a criança</p><p>deve ter contato com o significado afetivo das palavras.</p><p>O método global é composto por:</p><p>1. Método de palavração: referente aos estudos das palavras, sem</p><p>que exista nenhuma decomposição delas. Por esse motivo é que</p><p>são propostos, para as crianças, pequenos textos para que elas</p><p>possam fazer o conhecimento das palavras.</p><p>2. Método de sentenciação: nesse método, a proposta é formar</p><p>orações de acordo com os interesses comuns. Depois que essa</p><p>oração for exposta, ela será desmembrada em palavras e, depois,</p><p>em sílabas. Outra proposta é o conto, pois a ideia é fazer que a</p><p>criança que está realizando a leitura descubra o que está escrito.</p><p>Portanto, para o método global, o educador apresenta a forma</p><p>global das palavras e, depois, faz sua decomposição em sílabas.</p><p>Os métodos e os desafios</p><p>REFLITA:</p><p>Por que o uso da cartilha ainda se faz presente em nossas</p><p>escolas, mesmo sabendo que hoje existem outros métodos</p><p>muito mais completos e eficazes?</p><p>Já vimos que a cartilha ainda é usada por muitos professores e em</p><p>muitas instituições. Ainda há uma grande necessidade de fazer uma auto</p><p>avaliação sobre as necessidades de nossas crianças de hoje. Sabemos que</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>28</p><p>não existe nenhum método perfeito, milagroso e que seja adequado para</p><p>todas as pessoas, porém existem, sim, métodos que propõem um melhor</p><p>desenvolvimento cognitivo, sem esquecer que o processo de educação</p><p>é complexo e demanda também a necessidade do desenvolvimento por</p><p>completo, respeitando sempre o meio em que a criança está inserida.</p><p>A principal questão é o descobrimento de novas estratégias e</p><p>metodologias de ensino que possam possibilitar um avanço significativo</p><p>nas práticas docentes, sempre levando em consideração o conhecimento</p><p>prévio do indivíduo.</p><p>Apesar da evolução dos métodos e também da obra Psicogênese da</p><p>língua escrita, de Ferreiro e Teberosky, ainda há uma grande preocupação</p><p>porque os professores ainda enfrentam desafios dentro de sala de aula,</p><p>sem mencionar que muitos ainda se deparam com dificuldades para</p><p>alcançar os objetivos na difícil tarefa de ensinar a criança a ler e escrever.</p><p>Para alguns, o ponto de partida é compreender que não é somente</p><p>ler e escrever, e sim fazer uma leitura do mundo e, infelizmente, as cartilhas</p><p>não proporcionam esse viés, pois limitam o aluno na sua aquisição por</p><p>um todo. O que as crianças necessitam, na verdade, é que elas possam</p><p>fazer a interação com textos de seus cotidianos e serem inseridas dentro</p><p>do seu ambiente educacional. O ensino não pode ser desmembrado, o</p><p>professor deve ter autonomia suficiente na construção das atividades em</p><p>sala de aula, pois só ele tem o conhecimento das necessidades de seus</p><p>alunos, da particularidade de cada um.</p><p>É notório que muitos professores têm muita dificuldade em colocar</p><p>em prática a abordagem construtivista por falta de formação e informação.</p><p>Por esse motivo, muitos ainda utilizam os métodos tradicionais e, por</p><p>consequência, o fazem uso da cartilha. Esses métodos, infelizmente, não</p><p>consideram o processo de aquisição da língua escrita na perspectiva da</p><p>criança, pois ela não é o sujeito ativo nesse processo, muito pelo contrário.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>29</p><p>RESUMINDO:</p><p>E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu</p><p>mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de</p><p>que você realmente entendeu o tema de estudo deste</p><p>capítulo, vamos resumir algo do que vimos. Você deve</p><p>ter compreendido como identificar como são utilizados</p><p>os métodos de alfabetização e quais suas principais</p><p>característica.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>30</p><p>Estratégias da leitura – Formação do</p><p>indivíduo</p><p>OBJETIVO:</p><p>Ao término deste capítulo você será capaz de aplicar as</p><p>estratégias da leitura como parte integrante no processo de</p><p>formação do indivíduo. E então? Motivado para desenvolver</p><p>esta competência?</p><p>Então vamos lá. Avante!</p><p>No capítulo anterior, estudamos as estratégias que são mais</p><p>utilizadas na sala de aula. Neste momento, abordaremos algumas</p><p>estratégias que você pode utilizar como docente com seus alunos e</p><p>até mesmo com você. O hábito da leitura pode se fazer muitas vezes</p><p>monótono, porém essa percepção somente desaparece com a prática</p><p>da leitura por si só e também com a utilização de algumas estratégias na</p><p>hora da leitura. Faça uma experimentação consigo mesmo!</p><p>Antes da leitura</p><p>Primeiramente, deve ser definido um objetivo para a leitura, a fim de</p><p>que possamos antecipar alguns pontos. Faça alguns questionamentos como:</p><p>REFLITA:</p><p>Por que ler?</p><p>O que vai ler?</p><p>• Pense, discuta e compartilhe ideias que estão relacionadas com o</p><p>texto que vai ler.</p><p>• Faça uma previsão sobre o conteúdo que lerá com base em seus</p><p>próprios conhecimentos.</p><p>• Por exemplo: suponha que seu texto seja sobre a abordagem</p><p>sociointeracionista. Pergunte para si mesmo: “o que é essa</p><p>abordagem?” - “Quais suas principais características?”</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>31</p><p>Durante a leitura</p><p>Iniciaremos a análise prévia do texto. Visualize as imagens, as fotos,</p><p>os mapas, as legendas ou títulos e procure formar uma ideia central do</p><p>tópico e da intenção de um texto escrito.</p><p>Faça uma leitura do texto rapidamente para que possa captar sua</p><p>ideia geral. Uma maneira ótima para se fazer isso é ler a primeira e a última</p><p>frase do parágrafo. Devemos sempre ter em mente:</p><p>1. Qual a ideia principal do texto?</p><p>2. Após a leitura rápida do artigo, decida qual título se adequa.</p><p>Vamos praticar? Faça a leitura rápida do texto abaixo. Leia a primeira</p><p>e a última frase:</p><p>“Shannon Grimm é uma  professora  de uma  escola primária  do</p><p>Texas, nos Estados Unidos, que adora o seus alunos. Recentemente, ela</p><p>até fez uma mudança no visual para ajudar uma de suas alunas que estava</p><p>sendo importunada pelos colegas de classe por causa do cabelo. A boa</p><p>ação da professora rendeu até um prêmio da Meador Elementary School,</p><p>em Willis, cidade do Texas.</p><p>A americana já havia notado que Priscilla Perez, de 5 anos, estava um</p><p>pouco mais fechada depois de ter cortado o cabelo, e depois das férias de</p><p>dezembro, Shannon fez uma surpresa a seus alunos: apareceu com um</p><p>visual igual ao de Priscilla.</p><p>Os alunos ficaram encantados com o cabelo da professora e ela</p><p>aproveitou o momento para dar uma lição de vida nas crianças. “Eu tinha</p><p>que mostrar que garotos têm cabelo comprido como garotas e garotas</p><p>têm cabelo curto como garotos”, comentou Shannon em conversa</p><p>ao TODAY Style.</p><p>Ela ainda revelou que a decisão de cortar o cabelo não foi fácil, mas</p><p>que ela viu na ocasião a oportunidade perfeita para fazer uma afirmação.</p><p>“Eu sabia em meu coração que era o que eu tinha que fazer”, contou.”</p><p>Fonte: https://paisefilhos.uol.com.br/pfnoinsta/professora-corta-</p><p>cabelo-igual-ao-de-aluna-que-sofria-bullying-eu-precisava-fazer-isso/</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/bebe/professora-segura-filha-de-aluna-para-que-ela-possa-estudar/</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/mais/finlandia-ira-substituir-escrita-a-mao-por-digitacao-nas-escolas-primarias/</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/pfnoinsta/deborah-secco-faz-mudanca-radical-no-visual-e-o-video-da-reacao-da-filha-esta-imperdivel/</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/pfnoinsta/veja-como-esta-o-bebe-que-nasceu-de-cabelo-branco-e-conquistou-a-internet/</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/familia/malvino-salvador-escolhe-o-melhor-jeito-de-aproveitar-o-fim-das-ferias-das-filhas/</p><p>https://www.today.com/style</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/familia/familia-deixa-tudo-para-tras-e-muda-de-pais-passamos-por-muitos-perrengues/</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/pfnoinsta/professora-corta-cabelo-igual-ao-de-aluna-que-sofria-bullying-eu-precisava-fazer-isso/</p><p>https://paisefilhos.uol.com.br/pfnoinsta/professora-corta-cabelo-igual-ao-de-aluna-que-sofria-bullying-eu-precisava-fazer-isso/</p><p>32</p><p>Responda:</p><p>1. Após fazer a leitura rápida do texto, qual a principal ideia do texto</p><p>que vem em mente?</p><p>2. Depois de fazer a leitura por completo, você acredita que se</p><p>basear em seus conhecimentos prévios ajudou na compreensão?</p><p>Por quê?</p><p>Outra estratégia bastante significativa é encontrar palavras, sons e</p><p>exemplos, ou seja, tudo que possa ajudar o leitor na compreensão do</p><p>texto. Perceba que, no texto anterior, não conseguimos ter uma visão</p><p>ampla fazendo a leitura da primeira e da última frase, porém já podemos</p><p>deduzir que se trata da história de uma professora que é apaixonada pelo</p><p>seu trabalho. Não fizemos a compreensão de todo o texto, mas a prática</p><p>dessa técnica nos ajuda a ter noções sobre do que se trata o texto e se,</p><p>de fato, queremos prosseguir com a leitura.</p><p>Para fazer uma compreensão no que se refere à organização e à</p><p>coerência do texto, você deve identificar o número de seções ou das</p><p>partes do texto e verificar como as ideias se relacionam com a ideia</p><p>principal.</p><p>1. Dividir o texto em três partes lógicas.</p><p>2. Ler alguns excertos e sublinhas.</p><p>Para a compreensão da coesão do texto, devemos compreender</p><p>as relações entre as diferentes partes, por meio de referência e seus</p><p>conectores.</p><p>Para que possamos fazer a identificação de palavras-chave ou</p><p>pistas contextuais, podemos propor:</p><p>1. Destaque as palavras-chave desconhecidas para determinar o</p><p>significado por meio de algumas pistas no texto.</p><p>A leitura das entrelinhas é um fator também muito importante</p><p>na leitura de um texto. São palavras que transmitem, implicitamente,</p><p>um outro significado, ou seja, o significado de palavras que não estão</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>33</p><p>explícitas no texto. Muitas piadas ou até mesmo fábulas podem conter</p><p>esse tipo de recurso textual.</p><p>Veja alguns exemplos de entrelinhas:</p><p>Exemplo:</p><p>Frequentemente surgiam brigas, e seus estremecimentos</p><p>repercutiam longe, derrubavam paredes distantes e causavam novas</p><p>brigas, até que os empurrões, chifradas, ancadas forçassem uma</p><p>arrumação temporária. O boi que perdesse o equilíbrio e ajoelhasse nesses</p><p>embates não conseguia mais se levantar, os outros o pisavam até matar,</p><p>um de menos que fosse já folgava um pouco o aperto – mas só enquanto</p><p>os empurrões vindos de longe não restabelecessem a angústia.  [...]</p><p>(Trecho extraído do livro “A hora dos ruminantes”, de José J. Veiga)</p><p>A obra de J. J. Veiga é um marco em nossa literatura, pois nesse</p><p>livro ele indica que os animais são os seres humanos, na época em que</p><p>as pessoas sofriam uma pressão da ditadura. Perceba que ele não se</p><p>refere aos animais, e sim às pessoas. A censura punia todas as pessoas</p><p>que fossem contra toda a ideologia política daquela época e alguns foram</p><p>exilados, punidos e até mesmo mortos por conta disso.</p><p>Exemplo:</p><p>O bicho</p><p>Vi ontem um bicho</p><p>Na imundície do pátio</p><p>Catando comida entre os detritos.</p><p>Quando achava alguma coisa,</p><p>Não examinava nem cheirava:</p><p>Engolia com voracidade.</p><p>O bicho não era um cão,</p><p>Não era um gato,</p><p>Não era um rato.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>34</p><p>O bicho, meu Deus, era um homem.</p><p>(MANUEL BANDEIRA)</p><p>Mais uma vez, uma oposição à política vigente, em que o poeta fez</p><p>o seu desabafo. Somente no final do texto é que percebemos que se trata</p><p>da raça humana, e não de animais.</p><p>Depois da leitura</p><p>A primeira etapa é fazer uma avaliação geral do texto. Podemos:</p><p>1. Fazer juízos após a leitura e avaliar de forma crítica ou imparcial.</p><p>2. Procurar distinguir se existe compatibilidade entre as suas ideias e</p><p>a do autor do texto.</p><p>Exemplo:</p><p>“As pessoas que possuem mais de uma língua não estão somente</p><p>aptas à uma nova demanda de profissões no mercado como também</p><p>estão preparadas para novas conquistas. Pessoas bilíngues ganham mais</p><p>de 50% comparado as que possuem somente uma língua”</p><p>Você concorda com esse texto?</p><p>Um outro exemplo é o uso do resumo. Por meio dele, você pode</p><p>organizar as ideais principais e ignorar as partes que não requerem tanta</p><p>atenção assim.</p><p>Entendemos que a aquisição da língua envolve uma gama de</p><p>possibilidades,</p><p>questionamentos e também habilidades tanto do corpo</p><p>docente como do discente. A língua é, por si só, um emaranhado de</p><p>saberes dentro de uma determinada cultura, e desmembrar todo um</p><p>conteúdo demanda muito esforço e tempo.</p><p>Dá-se, então, a importância entre a distinção entre língua oral e</p><p>língua escrita. Enquanto a língua falada é dinâmica e vive em constantes</p><p>modificações, a língua escrita é mais regrada, porém ela tem, sim,</p><p>influências da língua oral.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>35</p><p>Nesse pressuposto, quando falamos na aquisição da língua escrita,</p><p>temos que nos ater a muitos fatores internos e externos. Nunca se</p><p>esqueça de que o seu aluno é um ser em formação, porém ele já vem</p><p>com a sua própria bagagem cultural. Não estamos mencionando aqui que</p><p>devemos incentivar alguns problemas existentes na relação entre língua</p><p>oral e escrita, como, por exemplo: vícios de linguagem, uso do pleonasmo</p><p>etc. Nosso intuito é que você, futuro professor, possa compreender a</p><p>dimensão desse processo e também o seu aluno, pois ele é um ser único,</p><p>e cada um aprende da sua forma, de acordo com as experiências que</p><p>possui.</p><p>Como anteriormente vimos, uma criança que vive em um ambiente</p><p>menos favorecido não conseguirá ter a mesma aquisição da língua escrita</p><p>do que aquela que se encontra em um lar mais favorecido. Não estamos</p><p>citando apenas a condição financeira da criança, mas também a sua</p><p>experiência cultural. Muitas vezes, uma criança da periferia fala de modo</p><p>diferente de uma criança de uma área não periférica. Ambas possuem</p><p>expressões distintas uma das outras, e isso interfere no processo de</p><p>desenvolvimento da aquisição da língua escrita.</p><p>Cabe, então, ao professor conhecer seus alunos, para que, baseado</p><p>em suas experiências culturais, possa encontrar alguns caminhos</p><p>alternativos para alfabetizar essas crianças.</p><p>Muitos pesquisadores verificaram que a aquisição da língua escrita</p><p>se dá por um processo tão natural quanto o ato de falar, por exemplo. O</p><p>professor deve estimular esse conhecimento e proporcionar um ambiente</p><p>educacional motivador.</p><p>O tradicional versus o construtivista</p><p>Você já deve ter percebido que muito falamos sobre essas</p><p>abordagens e que, na visão de alguns, elas estão em conflito. Depois da</p><p>Psicogênese da língua escrita, de Ferreiro e Teberosky, o país praticamente</p><p>se dividiu. Enquanto uns ainda continuam nos métodos tradicionais, outros</p><p>são categóricos em dizer que o método construtivista é o mais adequado</p><p>para nossas crianças.</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>36</p><p>E você? O que pensa sobre isso?</p><p>Há muito para se discutir e ser planejado, porém não podemos</p><p>ignorar alguns fatos que acontecem em nossas escolas. Apesar de muitas</p><p>crianças serem alfabetizadas pela cartilha (talvez eu e você), ainda sim é</p><p>um método muito aquém para o desenvolvimento cognitivo da criança.</p><p>A cartilha possui, é claro, algumas características interessantes, mas</p><p>infelizmente não permite que a criança seja o sujeito ativo no processo do</p><p>seu conhecimento. Já a abordagem construtivista, apesar de ser bastante</p><p>utilizada em muitas instituições, ainda é o “bicho-papão” de muitos</p><p>professores, coordenadores e escolas. Existe uma grande necessidade de</p><p>formação para os docentes sobre esse assunto, pois muitos profissionais</p><p>não tendo o domínio total da abordagem e acabam optando por utilizar os</p><p>métodos tradicionais por acreditarem que são mais fáceis.</p><p>E, nessa reconstrução de valores, nossas crianças ainda sofrem as</p><p>consequências. O fracasso da alfabetização no Brasil aumenta a cada ano.</p><p>Para que você tenha uma ideia, há mais de um século o país vem sofrendo</p><p>com a não diminuição do número crianças não alfabetizadas. Perceba</p><p>que não estamos falando de crianças letradas, e sim alfabetizadas. Até os</p><p>anos 1980, a 1ª série do ensino fundamental I era utilizada para o processo</p><p>de alfabetização, e somente conquistaria a 2ª serie quem fosse aprovado.</p><p>Hoje em dia, com a formação continuada, não existe a obrigatoriedade de</p><p>reprovação e, por isso, muitas crianças seguem para o 2º ano sem saber</p><p>ler e escrever. Magda Soares afirma que nós somos um país que reincide</p><p>no fracasso de alfabetização.</p><p>REFLITA:</p><p>Você acredita que exista um método revolucionário, capaz</p><p>de ser assertivo com todas as crianças, sejam elas da</p><p>mesma classe social ou de diferentes classes? Qual é o</p><p>melhor método para você?</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>37</p><p>RESUMINDO:</p><p>Vimos que não existem métodos perfeitos e que possam</p><p>ter o pleno funcionamento com todas as pessoas. Cada</p><p>método de alfabetização tem a sua particularidade. Embora</p><p>as técnicas sejam muito importantes, não podemos deixar</p><p>de levar em conta outros fatores que também fazem parte</p><p>integrante no processo de alfabetização. Podemos, sim,</p><p>trabalhar com um método especifico, mas fazer pequenas</p><p>adequações quando se achar necessário, pois, no processo</p><p>de alfabetização, nada é estático.</p><p>Esperamos que você tenha usufruído deste material e que</p><p>ele sirva para que novos horizontes de conhecimentos</p><p>possam se expandir. Como você pode notar, o caminho a</p><p>percorrer é longo, mas muito prazeroso.</p><p>Como educador, fique atento a seus alunos, faça parte do</p><p>mundo deles. Eles darão a você, muitas vezes, a resposta</p><p>sobre como lidar com eles. Olhe nos olhos, saiba o nome de</p><p>cada aluno seu, perceba quando ele está bem ou não está.</p><p>Tenha a percepção de encarar seus alunos como pessoas</p><p>como você e que são diferentes. Estude! Faça reciclagem</p><p>dos seus conhecimentos! O mundo da leitura pode ser tão</p><p>importante na vida de uma criança quanto na sua! Viva a</p><p>sua profissão e procure entender que você é essencial em</p><p>todo esse processo!</p><p>Alfabetização e Letramento</p><p>38</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>CAGLIARI, L. C. Alfabetização e Linguística. São Paulo: Scipione,</p><p>1994.</p><p>COMENIUS, J. A. Didática Magna: tratado da arte universal de</p><p>ensinar tudo a todos. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985.</p><p>FERREIRO, E. Reflexões sobre alfabetização. São Paulo: Cortez,</p><p>1984.</p><p>SOARES, M. Alfabetização e letramento. São Paulo: Contexto,</p><p>2003.</p><p>VIGOTSKY, L. S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins</p><p>Fontes, 2001.</p><p>Alfabetização e Letramento</p>

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