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<p>AULA 2</p><p>ERGONOMIA</p><p>Profª Silvana Bastos Stumm</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Vamos dar início a nossa aula, em que falaremos sobre a importância de</p><p>se observar a Norma Regulamentadora n. 17/1978 (NR 17), que é específica para</p><p>ergonomia (Brasil, 1978a). Iremos discutir a diferença entre o trabalho prescrito e</p><p>o real, enfatizando tarefas e atividades e de que forma esse processo é regulado.</p><p>Além disso, estudaremos as estratégias e os modos operatórios, sempre</p><p>pensando na ergonomia como uma disciplina abrangente e diversificada. Por fim,</p><p>vamos tratar das representações e competências. Nosso objetivo é que, a cada</p><p>aula, você some os conteúdos aprendidos e possa crescer profissionalmente.</p><p>TEMA 1 – A NR 17</p><p>Para trabalharmos de forma segura e protegida, devemos respeitar as</p><p>normas regulamentadoras (NR) estabelecidas pela Portaria n. 3.214/1978 (Brasil,</p><p>1978b) do extinto Ministério do Trabalho, hoje Secretaria de Trabalho, vinculada</p><p>ao Ministério da Economia. A ergonomia tem como subsídio a NR 17. Específica</p><p>para dar ao trabalhador condições de conforto, segurança e desempenho, ela tem</p><p>como objetivo “[...] estabelecer parâmetros que permitam a adaptação das</p><p>condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores”.</p><p>Incluem-se nessas condições as atividades voltadas ao “[...] levantamento,</p><p>transporte e descarga de materiais, ao mobiliário, aos equipamentos e às</p><p>condições ambientais do posto de trabalho e à própria organização do trabalho”</p><p>(Brasil, 1978a).</p><p>Fazendo referência a posto de trabalho e a organização de trabalho (OT),</p><p>teremos temas próprios a serem tratados mais a frente, nisso se incluindo,</p><p>também, a análise ergonômica. Contudo, faremos uma pequena abordagem da</p><p>OT, para facilitar o entendimento das temáticas desta aula.</p><p>Em contribuição ao entendimento da NR 17 foi desenvolvido o Manual de</p><p>aplicação da Norma Regulamentadora n. 17 (Brasil, 2002), com o intuito de</p><p>embasar as fiscalizações realizadas por auditores, além de auxiliar a própria</p><p>interpretação da NR 17. Esse manual beneficia a todos os profissionais que atuam</p><p>em áreas voltadas ao bem-estar físico, mental, à saúde e à segurança do trabalho.</p><p>Como mencionamos anteriormente, este nosso primeiro assunto tece uma</p><p>breve introdução aos assuntos que iremos tratar nesta aula, esclarecendo</p><p>algumas denominações. Portanto, já pensando na OT, de acordo com a NR 17</p><p>3</p><p>(Brasil, 1978a) e com o referido manual (Brasil, 2002), temos os seguintes tópicos:</p><p>• Normas de produção: normas que o trabalhador deve seguir para realizar</p><p>suas tarefas.</p><p>• Modo operatório: designa as atividades a serem executadas para se atingir</p><p>um dado resultado e divide-se em prescrito, modo estabelecido pelo</p><p>empregador; e real, modo definido pelo próprio trabalhador.</p><p>• Exigência de tempo (pressão de tempo): estabelece, de forma impositiva,</p><p>quanto deve ser produzido em determinado tempo.</p><p>• Determinação do conteúdo do tempo: determina o tempo para execução</p><p>de trabalhos que envolvem diversas tarefas.</p><p>• Ritmo de trabalho: aspecto subjetivo, que pode ser imposto pela máquina,</p><p>ou livre, ajustado pelo trabalhador.</p><p>• Conteúdo das tarefas: modo como o trabalhador percebe as condições de</p><p>seu trabalho.</p><p>Fazendo a leitura da NR 17, você verá apenas os seus itens, discriminados</p><p>(Brasil, 1978a). A explicação de cada um, na íntegra, você encontrará acessando</p><p>o manual, que, sem dúvida, auxilia na interpretação da NR 17 (Brasil, 1978a,</p><p>2002).</p><p>Além do que comentamos até aqui e considerando a NR 17, a ergonomia</p><p>engloba diversos aspectos do ambiente de trabalho, como iluminação, ventilação,</p><p>ruído, vibração, temperatura, entre outros (Brasil, 1978a). Esses aspectos estão</p><p>implicados nas condições ambientais do local onde desempenhamos nossas</p><p>atividades. As condições ambientais influenciam, tanto de forma positiva quanto</p><p>negativa, o bem-estar do trabalhador. Abordaremos essa temática com mais</p><p>ênfase nas próximas aulas. No entanto, podemos afirmar que o ambiente ideal</p><p>respeita as condições estabelecidas em norma, tornando a jornada diária mais</p><p>producente e segura.</p><p>4</p><p>Figura 1 – Condições ambientais</p><p>Crédito: Pretty Vectors/Shutterstock.</p><p>Devemos, todavia, saber que relacionamos as condições às características</p><p>psicofisiológicas dos trabalhadores e à tarefa a ser executada. Tais características</p><p>referem-se a saber o funcionamento do ser humano, entendendo que a ergonomia</p><p>preconiza a adaptação do indivíduo ao trabalho, diferentemente do que a</p><p>administração científica preconizava. Anteriormente, falamos sobre isso.</p><p>Para fazermos a relação entre trabalhador e trabalho, levamos em</p><p>consideração o indivíduo e suas particularidades. Entretanto, conforme o próprio</p><p>Manual de aplicação da Norma Regulamentadora n. 17 (Brasil, 2002) descreve,</p><p>não se tem o conhecimento da totalidade do ser humano, mas de algumas de</p><p>suas propriedades psicofisiológicas, como:</p><p>• preferência a escolher a sua postura de trabalho em função da tarefa;</p><p>• preferência a alternar toda a musculatura e não apenas parte dela;</p><p>• dificuldade com tarefas segmentadas em tempo curto, especialmente se</p><p>esse tempo for imposto de alguma forma (por gerência, condições de</p><p>operação de equipamento etc.);</p><p>• preferência a decidir seu próprio modo de trabalho;</p><p>• aceleração dos movimentos desconsiderando seus limites</p><p>musculoesqueléticos;</p><p>• bem-estar ao ser solicitado a solucionar problemas pertinentes às tarefas;</p><p>• capacidades sensitivas e motoras dispostas a respeitar limites;</p><p>• capacidade aumentada de percepção e resolução de problemas em função</p><p>de alterações sensoriais e motoras decorrentes da idade;</p><p>5</p><p>• cooperação coletiva na execução de tarefas, em preferência à</p><p>competitividade, promovendo bem-estar e saúde.</p><p>Mas é válido dizer que todo ambiente laboral, se não projetado em</p><p>conformidade com as normas, causará problemas à saúde. Por esse motivo, é</p><p>fundamental ter profissionais capacitados ou habilitados que observem as</p><p>recomendações com seriedade. Fadiga, estresse, ansiedade são apenas algumas</p><p>das consequências, para a saúde, de condições ambientais desconformes.</p><p>TEMA 2 – TRABALHO PRESCRITO E TRABALHO REAL</p><p>Ferreira Filho e Gontijo (2013) afirmam que, para a ergonomia, há uma</p><p>lacuna entre o prescrito a ser executado e o que de fato é executado. Segundo</p><p>Ferreira (2013, p. 345), a “[...] discrepância irredutível entre a dimensão formal</p><p>(trabalho prescrito) e a informal (real do trabalho) é uma das principais referências</p><p>da psicodinâmica do trabalho”. Brito (2009) afirma que o conceito de trabalho</p><p>prescrito, ou seja, o que se deve de fato fazer, está fundamentado em pesquisas</p><p>que tratam situações reais. A empresa estabelece regras e define objetivos a</p><p>serem alcançados.</p><p>O trabalho é composto por regras, normas, técnicas e conhecimentos; de</p><p>acordo com Ferreira (2013), contudo, dependendo de como ele se apresente,</p><p>pode levar o trabalhador à redução da capacidade criativa. O trabalho prescrito,</p><p>segundo Dias et al. (2018), corresponde ao que antecede a própria realização da</p><p>tarefa, entendido como um registro de orientação, um manual que deve ser</p><p>seguido. O seu não atendimento pode gerar punição.</p><p>Com essa contextualização, começamos a perceber a diferença entre o</p><p>que devemos realizar, prescrito, e o que verdadeiramente executamos, real. E</p><p>passamos a entender o significado de tarefa, que é prescrita, e de atividade, que</p><p>é executada. Note que, anteriormente em nossos estudos, ainda não havíamos</p><p>feito essa diferenciação.</p><p>Em relação ao trabalho real, Brito (2009) o entende como resposta às</p><p>imposições externamente estabelecidas. As atividades se desenvolvem conforme</p><p>objetivos determinados pelo próprio trabalhador, com base nos objetivos definidos</p><p>pela organização. Dias et al. (2018, p. 16-17) apresentam o seguinte conceito:</p><p>[...] o trabalho real é o momento de execução, tudo aquilo que</p><p>não será</p><p>prescrito, porque não é o prescrito que realiza o trabalho, porém, a ação</p><p>real do trabalhador. A realidade do trabalho é muito complexa. Nenhuma</p><p>6</p><p>regra, ou manual, pode dar conta de todas as situações. A distância</p><p>entre o planejado e o executado é grande, a prescrição não consegue</p><p>prever todas as dificuldades que aparecem no cotidiano de trabalho. Por</p><p>meio da descrição consegue-se um atestado de qualidade, porém,</p><p>nesse contexto acredita-se que a falha humana nunca é daquele que</p><p>planeja, mas sim daquele que executa.</p><p>A dinamicidade existente nas reais situações de trabalho, bem como a</p><p>instabilidade e os imprevistos, conforme Brito (2009), denotam uma distância</p><p>marcante entre o prescrito e o real. Da mesma forma, Goya e Mansano (2012)</p><p>comentam sobre a lacuna entre os dois perfis. Enquanto o indivíduo é contratado</p><p>para determinada função (trabalho prescrito), no real ele cria formas de executar</p><p>as tarefas solicitadas (atividade de fato).</p><p>Figura 2 – A pergunta que fica: “faço a tarefa ou a atividade?”</p><p>Crédito: Fotogestoeber/Shutterstock.</p><p>Oro et al. (2019) realizaram uma pesquisa para identificar tanto</p><p>semelhanças quanto diferenças entre o trabalho prescrito e o trabalho real,</p><p>adotando a visão de profissionais de enfermagem. Esse estudo foi feito em</p><p>unidades de internação de hospitais universitários federais. Os autores utilizaram,</p><p>entre outros referenciais, a abordagem ergológica. Vamos, então, definir a</p><p>ergologia, que, segundo Cantanhede (1965, p. 12), “[...] é a ciência do trabalho,</p><p>ou a ciência dos fenômenos da atividade humana aplicada à produção”.</p><p>Façamos por ora uma pequena pausa para falar um pouco mais sobre a</p><p>ergologia para, em seguida, retomarmos a pesquisa feita por Oro et al. (2019). A</p><p>ergologia trata do conjunto de conhecimentos referentes ao trabalho humano,</p><p>segundo Cantanhede (1965), agrupados em fatores humanos, fatores técnicos e</p><p>fatores sociais. Faria (1984, p. 90) define ergologia como “[...] a síntese do estudo</p><p>7</p><p>científico do fator humano no trabalho”. É resultado dos estudos voltados à</p><p>aptidão, à capacidade e à adaptação do fator humano com o objetivo de embasar</p><p>a administração e a organização do trabalho, destacando o aspecto do bem-estar</p><p>psicofisiológico do indivíduo (Faria, 1984). Tanto a ergonomia quanto a ergologia</p><p>tratam das condições de trabalho, por isso fizemos essa breve abordagem.</p><p>Retornando à pesquisa de Oro et al. (2019), os seus resultados mostraram</p><p>semelhanças entre o prescrito e o real, em função da divisão do trabalho</p><p>estabelecida pelas categorias profissionais. As diferenças constatadas referem-</p><p>se à gestão dos hospitais analisados e ao ritmo decorrente do trabalho. Contudo,</p><p>sugerem repensar o trabalho em razão de as práticas poderem ser alteradas pelos</p><p>profissionais da área, ao adquirirem novos conhecimentos que respaldem a</p><p>reorganização do trabalho. Existem muitas discussões e complexidades quando</p><p>abordamos esse tema. E, quanto mais nos aprofundamos na leitura e na</p><p>compreensão do assunto, novas formas de entendimento e visão surgem.</p><p>TEMA 3 – REGULAÇÃO DA ATIVIDADE</p><p>Segundo Pinho, Abrahão e Ferreira (2003), a regulação constitui um dos</p><p>pilares teóricos da ergonomia, entendido como um paradigma usado em</p><p>disciplinas variadas. Os autores afirmam ainda que a eficiência, a eficácia e o</p><p>bem-estar do ser humano, no que tangem ao trabalho, relacionam-se diretamente</p><p>à sua capacidade de regulação (Pinho; Abrahão; Ferreira, 2003). O objetivo disso</p><p>é gerenciar as variações das condições externas e internas que dizem respeito à</p><p>atividade e controlar seus efeitos.</p><p>Regulação é o ato de agir seguindo regras estabelecidas, normalmente em</p><p>formato de lei. Esse termo, usado na esfera da saúde, refere-se à função</p><p>desenvolvida pelos sistemas de saúde de maneira geral, tendo um sentido mais</p><p>abrangente se comparado ao da regulamentação mercadológica nessa mesma</p><p>área (Magalhães Junior, 2006). Podemos, então, entender a regulação como estar</p><p>sujeito(a) a regras e a leis. Leplat (1986, 2006, citado por Trierweiller et al., 2008)</p><p>entende que a definição de regulação vincula-se à existência da “[...] interação</p><p>entre elementos instáveis e que a resultante do funcionamento do sistema não</p><p>depende somente da ação do trabalhador, mas também das condições das quais</p><p>ele não utiliza controle direto”.</p><p>Guérin, Kerguelen e Laville (2001, citados por Trierweiller et al., 2008)</p><p>afirmam que o trabalhador desenvolve um modo próprio de agir no desempenho</p><p>8</p><p>de suas atividades. Considerando sua condição de saúde e seu conhecimento, o</p><p>indivíduo faz uso dos recursos disponíveis para trabalhar. Dessa forma, segundo</p><p>Trierweiller et al. (2008):</p><p>a estratégia de regulação é um processo multideterminado por fatores</p><p>de natureza distinta, a saber: interação do trabalhador com a tarefa</p><p>prescrita (que veicula uma carga de trabalho específica com suas</p><p>exigências físicas, cognitivas e afetivas); condições pessoais do</p><p>trabalhador (estado de saúde, objetivos pessoais e experiência</p><p>profissional); meios disponibilizados (materiais, instrumentais e</p><p>tecnológicos); condições ambientais (espaço, luminosidade,</p><p>temperatura, ruído) e mecanismos de retroalimentação de dois vetores</p><p>da atividade: performance (eficiência e eficácia quanto aos objetivos</p><p>estabelecidos) e bem-estar (condição de saúde enquanto estado em</p><p>construção que abarca o sentir-se bem física, psicológica e</p><p>socialmente).</p><p>Observam Pinho, Abrahão e Ferreira (2003), que “o mecanismo de</p><p>regulação que o sujeito adota, tem, por objetivo, não só obter o resultado a que</p><p>se visa, mas também compensar ou prevenir os disfuncionamentos”. Portanto,</p><p>afirmam, compreender o significado de regulação na área da ergonomia passa a</p><p>ser uma inter-relação entre o que a tarefa exige e as condições para executá-la,</p><p>e seu estado pessoal (indivíduo) (Pinho; Abrahão; Ferreira, 2003). De forma mais</p><p>objetiva, chama-se regulação o processo em que um mecanismo ou um</p><p>organismo permanece em equilíbrio ou altera seu comportamento com o objetivo</p><p>de se adequar às circunstâncias (Kruger, 2007).</p><p>Na ergonomia, particularmente na participativa, que definimos</p><p>anteriormente, a regulação divide-se em externa e interna (Iida, 2014):</p><p>• Regulação externa: é o estado inicial da regulação da ergonomia</p><p>participativa, em que não há, praticamente, participação interna e os</p><p>conhecimentos de ergonomia são apenas do consultor externo.</p><p>• Regulação interna: os conhecimentos fundamentais de ergonomia já estão</p><p>incorporados por todos da empresa, que já têm capacidade de assumir o</p><p>seu controle, dispensando o consultor externo.</p><p>Na saúde, o entendimento é similar. A regulação tem como funções</p><p>principais definir normas, monitorar, fiscalizar, controlar e avaliar os serviços de</p><p>saúde, afirmam Vilarins, Shimizu e Gutierrez (2012). Os responsáveis por exercer</p><p>tais funções são os órgãos reguladores da esfera nacional ou estadual.</p><p>9</p><p>TEMA 4 – ESTRATÉGIAS OPERATÓRIAS E MODO(S) OPERATÓRIO(S)</p><p>Para facilitar a compreensão e tornar o assunto mais dinâmico, vamos</p><p>dividir nosso tema, abordando separadamente estratégias e modos. Ao final, você</p><p>verá que todas as temáticas se interligam.</p><p>4.1 Estratégias operatórias</p><p>Antes de nos aprofundarmos neste tópico, vamos iniciá-lo definindo</p><p>estratégias operatórias, que, de acordo com Pinho, Abrahão e Ferreira (2003), são</p><p>estratégias específicas para a regulação da atividade, em trabalhos que precisam</p><p>de instrumentos para serem realizados. Relacionadas à competência do</p><p>trabalhador, Silvino e Abrahão (2003) as definem como um processo de</p><p>categorização, de resolução de problemas e de tomada de decisão que tem como</p><p>resultado uma sequência de ações e operações denominada modo operatório. As</p><p>estratégias operatórias regulam o trabalho, com base na identificação do trabalho</p><p>prescrito e do real.</p><p>Também entendidas como um conjunto de regras que resultam</p><p>em ação,</p><p>as estratégias operatórias devem ser seguidas ordenadamente, envolvendo para</p><p>isso o raciocínio e a resolução de problemas (Montmollin, 1995, citado por</p><p>Abrahão; Silvino, Sarmet, 2005). Executar determinada atividade exige maior ou</p><p>menor mecanismo cognitivo como forma de categorização, resolução de</p><p>problemas e tomada de decisão. Seguindo o mesmo raciocínio, temos como</p><p>resultados as possíveis formas de interpretação das informações, a necessidade</p><p>de ter conhecimento e os registros de memória do trabalhador (Silvino; Abrahão,</p><p>2003).</p><p>Produto da regulação entre objetivos, meios disponibilizados, resultados</p><p>gerados e estado interno do operador, as estratégias operatórias designam as</p><p>ações que implicam um processamento controlado, de acordo com Silvino e</p><p>Abrahão (2003). Em outras palavras, exigem um processo de contínua atenção,</p><p>aumentando a carga cognitiva envolvida na atividade.</p><p>10</p><p>Figura 3 – Processamento mental de informações</p><p>Crédito: ProStockStudio/Shutterstock.</p><p>Os procedimentos que se desenvolvem como resultantes das estratégias</p><p>operatórias são denominados modos operatórios (Guérin, 2001, citado por</p><p>Gonçalves; Camarotto, 2008), que veremos a seguir.</p><p>4.2 Modos operatórios</p><p>O modo operatório é consequência da regulação entre os objetivos, os</p><p>meios disponíveis, os resultados e o estado interno do trabalhador, como</p><p>apresentado por Guérin (2001, citado por Silvino; Abrahão, 2003). O trabalhador</p><p>participa diretamente de todo o processo. Percebemos, então, a relação entre a</p><p>estratégia operatória e o modo operatório, tornando-se nítido esse vínculo.</p><p>Conforme Silvino e Abrahão (2003), essa relação surge pela necessidade de se</p><p>gerar novos modos diante dos limites da própria atividade. Consequentemente,</p><p>reinterpreta-se a situação atual e elaboram-se as estratégias com o objetivo de</p><p>resolver os problemas e prever possíveis incidentes. As estratégias estabelecem</p><p>as ações; as ações necessitam de constante atenção; a constante atenção</p><p>aumenta a carga cognitiva envolvida no desempenho da tarefa (Silvino; Abrahão,</p><p>2003).</p><p>Os modos operatórios são variáveis, em função das alterações que a</p><p>matéria-prima sofre, do estado do equipamento ou máquina e das condições</p><p>psicofisiológicas do indivíduo. Designam as atividades ou operações a serem</p><p>realizadas com o intuito de alcançar o objetivo da tarefa, que é o resultado</p><p>pretendido. Nesse contexto, também dizemos que o modo operatório pode ser</p><p>prescrito ou real, dependendo da forma com que o trabalho é organizado. Um</p><p>trabalhador com mais liberdade adota o modo operatório de acordo com a</p><p>11</p><p>situação. Um exemplo simples é ele executa determinada tarefa alternando a sua</p><p>postura ao fazer isso (Brasil, 2002).</p><p>Figura 4 – Alternância de posturas durante a execução de tarefas</p><p>Crédito: Lilanakani/Shutterstock.</p><p>Deve-se observar que, para alternar a postura durante a execução de uma</p><p>atividade, é de suma importância que qualquer postura adotada mantenha a</p><p>pessoa segura e confortável. Faça uma breve consulta ao que dissemos</p><p>anteriormente sobre as posturas corretas para o desempenho do trabalho.</p><p>TEMA 5 – COMPETÊNCIAS E REPRESENTAÇÕES</p><p>Seguindo o mesmo formato do tema anterior, iremos abordar competências</p><p>e representações separadamente. Você deve ter percebido que, por diversas</p><p>vezes, parece haver uma sobreposição de assuntos. Na realidade, como os temas</p><p>se entrelaçam, em alguns momentos pode haver essa sensação. Entretanto, não</p><p>é possível abordar um tema em detrimento de outro, devido à complexidade, à</p><p>dinamicidade e à inter-relação da ergonomia com as mais diversas áreas.</p><p>5.1 Competências</p><p>Neste item, abordamos enfaticamente o conhecimento sob diversos</p><p>aspectos, mas sempre relacionado à cognição. Novos conhecimentos são</p><p>adquiridos durante as práticas de trabalho e, nesse processo, as competências</p><p>também são desenvolvidas. Se fizermos uma pesquisa na Norma ERG BR 1001:</p><p>competências essenciais para os ergonomistas certificados (Abergo, 2003, p. 2),</p><p>12</p><p>encontramos a seguinte definição: “uma competência é definida como uma</p><p>combinação de atributos que sublinham algum aspecto de desempenho</p><p>profissional de sucesso”. Entendemos, dessa forma, que a competência é o que</p><p>o trabalhador consegue na prática realizar e está relacionada à sua formação e</p><p>experiência, à sua capacidade e desenvolvimento.</p><p>Figura 5 – Competência</p><p>Fonte: Elaborado com base em Abrahão; Silvino; Sarmet, 2005.</p><p>Silvino e Abrahão (2003) conceituam a competência como uma matriz</p><p>compreendida por conhecimentos, representações e estratégias operatórias com</p><p>o objetivo de regular o que é exigido, em função das condições disponibilizadas</p><p>ao operador. Por permitir a ação, torna possível recomendar mudanças quando</p><p>necessárias em situações de trabalho, afirmam Gonçalves e Camarotto (2008). A</p><p>competência é a articulação de conhecimentos, habilidades e experiências</p><p>construídas e modificadas enquanto a atividade é realizada.</p><p>As competências determinam o conhecimento para realizar uma ação e</p><p>para ser hábil ao agir. Segundo Montmollin (1995, citado por Gonçalves;</p><p>Camarotto, 2008, p. 3), é preciso considerar o “aspecto cotidiano da competência”,</p><p>pois o trabalhador, além de ser ativo do presente, também o é do passado e do</p><p>futuro. A mobilização das competências adquiridas, como citam Gonçalves e</p><p>Camarotto (2008), é o marco para que os modos operatórios sejam elaborados,</p><p>podendo ser considerados estratégias. Torna-se cada vez mais fácil, desde que a</p><p>empresa concorde, adaptar as estratégias em função do seu custo físico, dos</p><p>esforços necessários e do tempo para realizar as tarefas. Poderíamos talvez</p><p>resumir a competência compreendendo que ela se desenvolve ou se adquire com</p><p>13</p><p>base no conhecimento, nas habilidades e nas qualidades pessoais e está</p><p>diretamente ligada à tarefa que deve ser cumprida.</p><p>5.2 Representações</p><p>A representação, assim como a competência, também está ligada ao</p><p>processo mental, à cognição e ao conhecimento. Podemos entendê-la como a</p><p>forma de o trabalhador organizar seu conhecimento, elaborando um modelo</p><p>mental. Essa observação nos leva à ergonomia cognitiva, que é tema de nossas</p><p>próximas aulas. Note que, quanto mais evoluímos em nosso processo de</p><p>aprendizado, mais facilmente percebemos a ligação entre todos os assuntos da</p><p>disciplina.</p><p>Weill-Fassina, Rabardel e Dubois (1993, citados por Pinho; Abrahão;</p><p>Ferreira, 2003) afirmam que “as representações para e na ação são definidas</p><p>como: processos mentais ativos de tomada de consciência e de apropriação das</p><p>situações nas quais os indivíduos estão envolvidos e, ao mesmo tempo, são</p><p>produtos, resultados de suas atividades”. De acordo com Wisner (2004), deve-se</p><p>entender que representações são utilizadas pelo indivíduo para assimilar a</p><p>situação de trabalho e de quais estratégias faz uso. À medida que esse indivíduo</p><p>armazena as informações, elabora as suas representações e cria as suas</p><p>competências, pois o próprio sujeito formula o problema que precisará resolver.</p><p>As representações, segundo Abrahão, Silvino e Sarmet (2005),</p><p>armazenam informações sobre o mundo em forma de modelos mentais,</p><p>esquemas, mapas, entre outros elementos. No entanto, a forma de armazenar</p><p>depende da especificidade da informação a ser memorizada, afirmam os mesmos</p><p>autores (Abrahão; Silvino; Sarmet, 2005). Os trabalhadores criam as</p><p>representações no contexto da ação, pois é a ação que as define e as altera em</p><p>função das variações das atividades (Weill-Fassina, Rabardel; Dubois, 1993,</p><p>citados por Abrahão; Silvino; Sarmet, 2005).</p><p>Os indivíduos, por meio das representações selecionam as informações</p><p>entendidas como essenciais, bem como os procedimentos mais apropriados para</p><p>a realização da tarefa. E o papel do ergonomista, nesse contexto, traduz-se em</p><p>compreender como o trabalhador utiliza as representações em situações reais.</p><p>Não é suficiente</p><p>buscar as representações para a ação (Abrahão; Silvino; Sarmet,</p><p>2005). Pensando de um modo claro e objetivo, vamos entender a representação</p><p>14</p><p>como a organização do conhecimento por meio de processos mentais que</p><p>permitam facilmente interpretar a situação do trabalho.</p><p>15</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ABRAHÃO, J.; SILVINO, A. M. D.; SARMET, M. M. Ergonomia, cognição e</p><p>trabalho informatizado. Psicologia: teoria e pesquisa, Brasília, v. 21, n. 2, p. 163-</p><p>171, maio/ago. 2005. Disponível em:</p><p><https://www.scielo.br/pdf/ptp/v21n2/a06v21n2.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>ABERGO – Associação Brasileira de Ergonomia. Norma ERG BR 1001:</p><p>competências essenciais para os ergonomistas certificados. Ouro Preto, 2003.</p><p>Disponível em:</p><p><http://www.abergo.org.br/arquivos/normas_ergbr/norma_erg_br_1001_compete</p><p>ncias_essenciais.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>BRASIL. Ministério do Trabalho. Manual de aplicação da Norma</p><p>Regulamentadora no 17. Brasília, 2002. Disponível em:</p><p><https://enit.trabalho.gov.br/portal/images/Arquivos_SST/SST_Publicacao_e_Ma</p><p>nual/CGNOR---MANUAL-DE-APLICAO-DA-NR-17.pdf>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>_____. NR 17 – Ergonomia. In: _____. Portaria n. 3.214, de 8 de junho de 1978.</p><p>Diário Oficial da União, Brasília, 6 jul. 1978a. Disponível em:</p><p><https://enit.trabalho.gov.br/portal/images/Arquivos_SST/SST_NR/NR-17.pdf>.</p><p>Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>_____. Portaria n. 3.214, de 8 de junho de 1978. Diário Oficial da União, Brasília,</p><p>6 jul. 1978b. Disponível em:</p><p><http://www.lex.com.br/doc_308880_PORTARIA_N_3214_DE_8_DE_JUNHO_D</p><p>E_1978.aspx>. Acesso em: 1 dez. 2020.</p><p>BRITO, J. C. de. 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