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<p>TERAPIA BIOENERGÉTICA</p><p>AULA 1</p><p>Prof.ª Nathalie Pailo Perozin</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Bem-vindo(a) a esta aula!</p><p>No decorrer dos conteúdos, teremos como objetivo conhecer e aprofundar</p><p>nos fundamentos e nos conceitos teóricos da Bioenergética, além de</p><p>desenvolver a capacidade de realizar a aplicação prática dessa abordagem</p><p>terapêutica dentro do contexto das Práticas Integrativas e Complementares em</p><p>Saúde.</p><p>Começaremos os estudos pelos fundamentos da Bioenergética,</p><p>aprendendo sobre a origem dessa abordagem e alguns conceitos básicos</p><p>referentes à sua visão de homem e de mundo.</p><p>TEMA 1 – DA PSICOLOGIA À BIOENERGÉTICA</p><p>Veremos a seguir a relação entre a Bioenergética, a Psicologia Corporal</p><p>e a Psicologia como um todo. Para isso, utilizaremos uma figura, que nos ajudará</p><p>a compreender essa relação.</p><p>Figura 1 – Guarda-chuva da Psicologia</p><p>Fonte: Elaborada pela autora, 2021.</p><p>3</p><p>Como pudemos ver, para a Bioenergética, o guarda-chuva se abre da</p><p>seguinte forma: dentro da Psicologia existem diversas abordagens, uma delas é</p><p>a Psicologia Corporal; dentro da Psicologia Corporal existem três grandes</p><p>movimentos, que são o reichiano, o pós-reichiano e o neorreichiano; a</p><p>Bioenergética faz parte do movimento neorreichiano. Veremos mais detalhes de</p><p>cada um desses movimentos a seguir.</p><p>O movimento reichiano é aquele que dá origem à abordagem da</p><p>Psicologia Corporal, que tem como fundador Wilhelm Reich. O movimento pós-</p><p>reichiano mantém como base a teoria inicial de Reich, porém, começa a propor</p><p>pequenas alterações de compreensão da teoria, nomenclaturas e práticas</p><p>corporais – tem como principal autor Federico Navarro. Por fim, o movimento</p><p>neorreichiano se enquadra dentro da abordagem corporal devido à visão de</p><p>homem e de mundo de ambas ser compatível, porém, propõe mudanças bem</p><p>significativas na teoria, conceitos e práticas corporais. Podemos ver que dentro</p><p>do movimento neorreichiano existem três autores principais: Alexander Lowen,</p><p>fundador da Bioenergética, David Boadella, fundador da biossíntese e Gerda</p><p>Boyesen, fundadora da Biodinâmica. Nosso objetivo nesta disciplina é estudar a</p><p>primeira delas, a Bioenergética.</p><p>TEMA 2 – A REGULAMENTAÇÃO DA PSICOLOGIA CORPORAL NO BRASIL</p><p>Uma vez que, conforme vimos acima, a Bioenergética é uma disciplina da</p><p>Psicologia, como é possível que um profissional sem formação em Psicologia</p><p>trabalhe com essa abordagem? Essa é uma questão importante de</p><p>esclarecermos, para que você compreenda a regulamentação dessa área de</p><p>atuação e possa se sentir seguro em sua atuação profissional.</p><p>Uma publicação do ano de 2009, feita pelo Conselho Federal de</p><p>Psicologia em parceria com os Conselhos Regionais de Psicologia, com o título</p><p>“Ano da Psicoterapia: Textos Geradores”, traz esse tema para discussão a partir</p><p>de textos de diversos autores. A publicação propõe a reflexão a respeito da</p><p>atividade de psicoterapia ser regulamentada como de uso exclusivo dos</p><p>psicólogos ou continuar sendo permitida também para profissionais de outras</p><p>áreas de formação.</p><p>Para compreendermos um pouco mais a situação dessa discussão e nos</p><p>fortalecermos em nossa prática profissional, veremos a seguir algumas</p><p>reflexões. Conforme Rodrigues (2009, p. 49), “[...] é necessário ter em mente</p><p>4</p><p>que o campo das psicoterapias é antigo, amplo e diversificado. Logo, tratá-lo</p><p>como bem exclusivo da Psicologia nos remete a um equívoco não apenas</p><p>epistemológico, mas também de ordem política”.</p><p>Ainda de acordo com o autor, o fazer psicoterapêutico se construiu a partir</p><p>de diversos campos de conhecimento, como a Filosofia, a Medicina, a</p><p>Sociologia, a História, e outros. Neubern (2009) confirma esse entendimento de</p><p>Rodrigues quando diz que a história da psicoterapia mostra que esta é composta</p><p>por um conjunto de influências diversas e que, por estar ligada a um campo</p><p>complexo do conhecimento, como a subjetividade, dificilmente pode se constituir</p><p>como campo exclusivo de uma única disciplina, como a Psicologia.</p><p>Rodrigues (2009) destaca ainda que independente da formação</p><p>acadêmica ou graduação de um psicoterapeuta, a sua qualidade profissional</p><p>será determinada pelo investimento que esse faz em um processo</p><p>psicoterapêutico pessoal associado a um processo de supervisão, profundo e</p><p>consistente, que irão pautar sua prática clínica. O autor sugere também que para</p><p>melhor controle de qualidade das práticas psicoterapêuticas sejam criadas</p><p>formas de avaliação, fiscalização e orientação ético-profissional.</p><p>Dutra (2009) complementa esse tema quando diz que a relação</p><p>psicoterapêutica dificilmente será pautada somente na “técnica” e na “teoria”. A</p><p>autora defende que “[...] existe uma dimensão que é da própria singularidade do</p><p>psicólogo, uma vez que seu conhecimento e seu saber, formal e informal,</p><p>passam a constituir o seu modo-de-ser-terapeuta” (Dutra, 2009, p. 63).</p><p>Segundo Neubern (2009), é necessário que a discussão sobre esse tema</p><p>seja aprofundada em torno do aspecto da “formação” do psicoterapeuta. De</p><p>acordo com o autor, mais importante que o título em si é o percurso traçado pelo</p><p>profissional que, compreendendo a complexidade do campo de estudo da</p><p>subjetividade humana, deve extrapolar os limites disciplinares, buscando</p><p>articulações entre disciplinas diferentes.</p><p>Outra questão importante a se considerar para a compreensão desse</p><p>tema é que devido à Psicologia Corporal não ser uma profissão regulamentada</p><p>no Brasil é possível que o profissional interessado faça formações</p><p>independentes na área e tenha exercício livre da profissão.</p><p>Por fim, o que o Conselho Regional de Psicologia 8° Região (Quinelato,</p><p>2021) indica é que o profissional da área da terapia corporal (ou no nosso caso,</p><p>da Bioenergética) respeite na divulgação de seu trabalho o título a ele concedido</p><p>5</p><p>pela instituição de ensino responsável. Deve ficar claro para seus pacientes e</p><p>clientes qual é sua formação, sem espaço para dúvidas – propagandas que não</p><p>deixam nítidas as informações sobre formação e habilitações de profissionais da</p><p>área podem induzir a sociedade ao erro, o que poderia caracterizar exercício</p><p>ilegal da profissão.</p><p>TEMA 3 – FUNDAMENTOS DA PSICOLOGIA CORPORAL</p><p>Antes de nos aprofundarmos no estudo específico da Bioenergética,</p><p>estudaremos sua fundamentação, passando pela origem, história, e principais</p><p>autores da Psicologia Corporal.</p><p>3.1 Wilhelm Reich e a origem da Psicologia Corporal</p><p>A história da Psicologia Corporal começa a partir da teoria desenvolvida</p><p>por Wilhelm Reich, que foi aluno de Sigmund Freud e posteriormente atuou por</p><p>muitos anos como psicanalista.</p><p>Por meio de seus estudos e sua prática clínica, com o passar do tempo,</p><p>Reich constatou que o método utilizado pela psicanálise, de associação livre de</p><p>ideias e análise do sintoma isoladamente, apresentava limitações. Os pacientes</p><p>demonstravam resistência à associação livre de ideias e muitas vezes as</p><p>técnicas da psicanálise não se mostravam suficientes para que os pacientes</p><p>encontrassem a cura para seus desequilíbrios psíquicos.</p><p>Reich começou então a fazer sugestões de modificações na teoria e na</p><p>técnica da Psicanálise, porém, suas ideias geraram controvérsias, até que em</p><p>um dado momento ele foi considerado indesejado dentro instituições</p><p>psicanalíticas (como Sociedades e Associações) e foi expulso da maioria delas.</p><p>Seguiu, então, seu próprio caminho, desenvolvendo sua própria teoria.</p><p>Pode-se dizer que a principal característica de sua teoria, que a diferia da</p><p>psicanálise, foi a inclusão do corpo e da energia como aspectos essenciais no</p><p>processo terapêutico.</p><p>Uma das primeiras grandes mudanças realizadas por Reich em suas</p><p>sessões de atendimento foi retirar o paciente do divã (no qual ficava deitado de</p><p>costas para o terapeuta, sem contato direto com ele) e colocá-lo frente a frente</p><p>com o terapeuta. Com essa mudança, Reich passou a observar não apenas</p><p>o</p><p>que era dito, mas também as expressões emocionais e corporais do paciente.</p><p>6</p><p>Foi dessa forma que começou a desenvolver sua nova abordagem terapêutica,</p><p>que passou por algumas fases, conforme veremos a seguir.</p><p>Inicialmente seu método de trabalho foi chamado de Análise do Caráter,</p><p>que consistia em considerar o caráter do paciente como um todo durante o</p><p>processo terapêutico, não apenas os sintomas, como era feito na psicanálise.</p><p>Frente a frente com o paciente, Reich observava as expressões emocionais</p><p>desse, indo além do que era apenas dito. Reich começou a perceber também</p><p>que existiam alguns padrões emocionais e comportamentais em seus pacientes</p><p>e foi reunindo esses padrões em tipos de caráter, os quais chamou de “traços de</p><p>caráter”.</p><p>Para auxiliar na compreensão do termo “caráter” e seu significado prático</p><p>no processo terapêutico, segundo Navarro (1995), o caráter é a maneira habitual</p><p>de agir e reagir de um indivíduo, por intermédio do seu comportamento. Ou seja,</p><p>ao compreender os principais traços de caráter de um indivíduo, era possível</p><p>identificar seus padrões emocionais e comportamentais e direcionar o projeto</p><p>terapêutico de forma mais assertiva.</p><p>A respeito da formação dos traços de caráter, esta ocorre desde a</p><p>fecundação do indivíduo até sua puberdade, principalmente, podendo se</p><p>estender também para a vida adulta. Conforme as experiências vivenciadas pelo</p><p>indivíduo, que podem ser prazerosas ou traumáticas, esse vai desenvolvendo</p><p>sua forma habitual de agir e reagir no mundo. No caso de experiência negativas,</p><p>o indivíduo utiliza mecanismos de defesa naturais para se proteger, e essa forma</p><p>de responder aos acontecimentos, dependendo de sua frequência e intensidade,</p><p>vai se cristalizando em seu comportamento. Ou seja, o indivíduo perde sua</p><p>fluidez, sua capacidade de agir e reagir conforme as situações se apresentam,</p><p>em vez disso, desenvolve um comportamento rígido e encouraçado.</p><p>Em seguida, o seu trabalho seguiu para uma nova fase, chamada de</p><p>Vegetoterapia Caracteroanalítica. Segundo Volpi (2019), nessa fase, a Análise</p><p>do Caráter foi revisada e ampliada por Reich, deixando de ser uma terapia</p><p>apenas psicológica, e passando a ser também biofísica, tendo como base as</p><p>reações neurovegetativas. Aqui, Reich desenvolveu o conceito de “couraças</p><p>musculares” – regiões corporais com tensões musculares crônicas –, e mapeou</p><p>o corpo em sete segmentos de couraça. Foi nessa fase que o aspecto corporal</p><p>ganhou destaque no trabalho de Reich, o que depois veio a se tornar o nome da</p><p>abordagem que dedica sua origem a ele, a Psicologia Corporal.</p><p>7</p><p>Por fim, ao se aprofundar nos estudos referentes à energia – para a qual</p><p>Reich deu o nome de “orgone” – a última fase de seu trabalho foi chamada de</p><p>Orgonoterapia, que, posteriormente, consolidou-se como uma ciência natural,</p><p>denominada Orgonomia (VOLPI, 2019). A partir de suas pesquisas e estudos,</p><p>Reich descobriu a importância da energia para a saúde do organismo. Constatou</p><p>que se um organismo estava bem energeticamente, ou seja, a circulação e a</p><p>vibração energética estavam fluindo positivamente, esse apresentava maior</p><p>potencial para a saúde (física e emocional). Já se um organismo estava com a</p><p>circulação e a vibração energética estagnada, ele apresentava maiores chances</p><p>de desenvolver desequilíbrios em sua saúde (física e emocional).</p><p>Reich concluiu, então, que os traços de caráter e as couraças musculares</p><p>não geravam apenas rigidez no comportamento e no corpo do indivíduo, mas</p><p>também bloqueavam a circulação saudável de energia no organismo. A partir</p><p>desse momento de seu trabalho, a base da teoria e da prática da Psicologia</p><p>Corporal, conforme é seguida até hoje, foi definida e nela se considera que os</p><p>aspectos mente, corpo e energia são inseparáveis na construção do bem-estar</p><p>e da saúde de cada indivíduo, assim como devem fazer parte do processo</p><p>terapêutico.</p><p>Algumas das principais obras de Reich, para se aprofundar mais, são A</p><p>análise do caráter e A função do orgasmo.</p><p>3.2 Federico Navarro, a metodologia da vegetoterapia caracteroanalítica</p><p>e a disseminação da Psicologia Corporal no Brasil</p><p>Federico Navarro foi um autor pós-reichiano muito importante, pois foi</p><p>responsável por desenvolver a metodologia de exercícios da Vegetoterapia</p><p>Caracteroanalítica, os quais têm como o objetivo desbloquear as couraças</p><p>musculares de cada segmento corporal mapeado por Reich (VOLPI, 2019).</p><p>Após Reich definir o conceito de couraças musculares e mapear os</p><p>segmentos corporais, optou por pedir que Ola Raknes, seu aluno, amigo e</p><p>colaborador, desenvolvesse para ele os exercícios para o desbloqueio deles. Ola</p><p>Raknes, por sua vez, considerou que seu conhecimento em anatomia e fisiologia</p><p>não eram suficientes para criar tal metodologia, decidindo juntamente com Reich</p><p>repassar essa missão para alguém de seu confiança. Foi assim que Ola Raknes</p><p>convidou Federico Navarro para realizar essa tarefa (Volpi, 2019).</p><p>8</p><p>Navarro também se destaca na história da Psicologia Corporal, pois</p><p>divulgou o trabalho de Reich mundo afora, inclusive no Brasil, a partir do ano de</p><p>1986 (Volpi, 2019). O autor vinha para o país ministrar formações de</p><p>orgonoterapeutas, além de participar de congressos e realizar sessões</p><p>terapêuticas. Foi também responsável por escrever algumas obras que</p><p>organizam a metodologia reichiana, facilitando aos profissionais da área e</p><p>interessados a acessar, compreender e aplicar as técnicas da abordagem.</p><p>Uma curiosidade, inclusive, é que Navarro foi um dos grandes</p><p>responsáveis pela formação de José Henrique Volpi, um dos diretores do Centro</p><p>Reichiano em Curitiba, que hoje ministra formações em Psicologia Corporal,</p><p>juntamente com sua esposa Sandra Mara Volpi. O casal é também responsável</p><p>por organizar e promover o Congresso Brasileiro de Psicoterapias Corporais,</p><p>que, em 2021, completa sua 25° edição.</p><p>Algumas das principais obras de Navarro são Caracterologia pós-</p><p>reichiana, Metodologia da vegetoterapia caractero-analítica e</p><p>Somatopsicopatologia.</p><p>3.3 Alexander Lowen e a Bioenergética</p><p>Alexander Lowen foi responsável pela criação da Bioenergética,</p><p>abordagem neorreichiana da Psicologia Corporal. Reich foi professor de Lowen</p><p>por 12 anos (1940-1952) e seu terapeuta por três anos (1942-1945), mas antes</p><p>de conhecer Reich, Lowen já se interessava pela relação mente-corpo devido à</p><p>sua experiência pessoal com atividades esportivas (Lowen, 2017).</p><p>Segundo Lowen (2017), nos anos de 1930, ele foi coordenador de</p><p>esportes em acampamentos de férias e percebeu que um programa regular de</p><p>atividades físicas melhorou não apenas sua saúde, mas também seu estado</p><p>mental. De acordo com o autor, outros estudos também indicavam para ele que</p><p>um indivíduo pode influenciar suas atitudes mentais por meio de um trabalho</p><p>com o corpo. Conhecer o trabalho de Reich complementou e confirmou suas</p><p>ideias, assim como foi essencial para ajudá-lo a avançar na direção de seus</p><p>objetivos e sua autorrealização.</p><p>Apesar de confiar muito no trabalho de Reich e ter experimentado</p><p>pessoalmente seus benefícios, Lowen sentia que algumas alterações no método</p><p>eram necessárias e se propôs a seguir estudando e aperfeiçoando a abordagem</p><p>corporal, adequando-a às suas percepções pessoais.</p><p>9</p><p>A Bioenergética foi desenvolvida após o falecimento de Reich, a partir de</p><p>uma união terapêutica que Lowen fez com um colega de profissão, John</p><p>Pierrakos. Segundo o autor, nas sessões, Lowen experimentava em si mesmo</p><p>exercícios corporais, acompanhado por Pierrakos, e ia avaliando a melhor forma</p><p>de executá-los, assim como seus efeitos e resultados (Lowen, 2017). Sempre</p><p>acreditou na importância de vivenciar em seu próprio corpo aquilo que fosse</p><p>aplicar para seus pacientes, e foi dessa forma que desenvolveu as posições e</p><p>os exercícios básicos da bioenergética (Lowen, 2017).</p><p>Reconhecendo também a importância do processo analítico</p><p>dentro da</p><p>sessão terapêutica, Lowen desenvolveu sua própria teoria em relação aos tipos</p><p>de caráter e, inclusive, mudou a nomenclatura utilizada por Reich e Navarro de</p><p>“traços de caráter” para “estruturas de caráter” – no decorrer de nossos estudos</p><p>utilizaremos a nomenclatura definida por Lowen, uma vez que estamos</p><p>estudando a abordagem desenvolvida por ele.</p><p>Pode-se dizer que na base de seu trabalho estão os princípios: da busca</p><p>pelo relaxamento das tensões musculares crônicas; do contato com o chão por</p><p>meio de exercícios de grounding; e da liberação e ampliação da respiração. Mais</p><p>para frente veremos detalhes dos exercícios bioenergéticos, como esses citados</p><p>anteriormente e outros.</p><p>O nome “Bioenergética” foi definido por Lowen, pois este acredita que</p><p>além do entendimento de que o que acontece com o corpo afeta a mente, os</p><p>processos energéticos do corpo determinam o que acontece tanto na mente</p><p>como no corpo (Lowen, 2017).</p><p>Podemos finalizar esse sobrevoo pela fundamentação da Psicologia</p><p>Corporal e da Bioenergética com uma frase de Lowen (2017, p. 36), que diz: “A</p><p>bioenergética é uma técnica terapêutica que ajuda o indivíduo a reencontrar-se</p><p>com o seu corpo e a tirar o mais alto grau de proveito possível da vida que há</p><p>nele”.</p><p>Algumas das principais obras do autor são Bioenergética, O corpo em</p><p>terapia e Medo da Vida.</p><p>TEMA 4 – VISÃO DE HOMEM E DE MUNDO DA PSICOLOGIA CORPORAL</p><p>Seguiremos agora para o estudo da visão de homem e de mundo da</p><p>Psicologia Corporal, ou seja, a forma como essa abordagem interpreta e</p><p>compreende o homem, sua relação com o meio, a sociedade, o mundo e a</p><p>10</p><p>realidade na qual ele está inserido. Pode-se dizer que a visão de homem e de</p><p>mundo de uma abordagem é o que caracteriza essa abordagem e aqueles</p><p>métodos e trabalhos que quiserem se encaixar dentro dela devem compactuar</p><p>com a mesma visão, como é o caso da Bioenergética em relação à Psicologia</p><p>Corporal.</p><p>Quando nos perguntamos, de forma objetiva, o que diferencia a visão da</p><p>Psicologia Corporal das demais abordagens da Psicologia, a resposta é: sua</p><p>visão de que mente, corpo e energia são inseparáveis e igualmente</p><p>determinantes na formação e no modo de ser e se comportar de um indivíduo. É</p><p>dessa união que as características do indivíduo se formam e é também a partir</p><p>desses três aspectos que a terapia corporal deve ser conduzida.</p><p>O aspecto mental do indivíduo, ou sua psique – um termo muito utilizado</p><p>por psicólogos – sempre foi o foco da psicologia. Ao pesquisar no dicionário é</p><p>possível constatar que “psique” tem muitos significados, como: mente, intelecto,</p><p>sentimentos, a parte imaterial do ser humano, entre outros. Por muito tempo se</p><p>acreditou que a mente e o corpo do indivíduo funcionavam de forma totalmente</p><p>independente e o que se apresenta em um desses aspectos nada tinha a ver</p><p>com o outro aspecto. Devido a isso, a psicologia e a medicina trabalharam</p><p>também de forma independente, acreditando que uma tinha o objetivo único de</p><p>tratar o corpo, enquanto a outra de tratar a mente.</p><p>Na Psicologia Corporal, esse conceito foi reavaliado. Como vimos, por</p><p>meio de seus estudos e prática clínica, Reich percebeu que a mente e o corpo</p><p>estavam diretamente relacionados e que o que acontecia com um desses</p><p>aspectos influenciava o outro.</p><p>A partir disso, o aspecto corporal – ou somático – foi incorporado ao</p><p>trabalho terapêutico da abordagem. Na visão da corporal, todas as experiências</p><p>vivenciadas por nós, desde a fecundação e durante toda nossa vida, geram</p><p>respostas emocionais e corporais. Quando passamos por uma situação positiva,</p><p>experimentamos emoções positivas, assim como nosso corpo responde de</p><p>forma fluida e expansiva. Já quando passamos por uma situação negativa, o</p><p>contrário acontece, experimentamos emoções negativas e nosso corpo</p><p>responde com contrações e contenções, perdemos a fluidez.</p><p>Dessa forma, as marcas deixadas em nós por essas experiências</p><p>impactam tanto a nossa mente, criando padrões emocionais e comportamentais,</p><p>como também nosso corpo, criando padrões posturais, modo de se movimentar,</p><p>11</p><p>regiões corporais com excesso ou falta de tônus, podendo gerar inclusive</p><p>doenças físicas. Podemos chamar essas marcas de “estruturas de caráter” e</p><p>“couraças musculares”, como já vimos brevemente e nos aprofundaremos nos</p><p>próximos conteúdos.</p><p>Mais adiante, o aspecto energético foi incorporado na visão de homem e</p><p>de mundo da abordagem. A energia está presente em todo organismo vivo, tudo</p><p>que há na terra, que possui qualquer centelha de vida, possui energia. A energia</p><p>é responsável por nos manter vivos, por possibilitar o movimento, a troca, a</p><p>vitalidade, a sexualidade, a reprodução, o trabalho, as emoções, e muito mais.</p><p>Um organismo saudável é aquele com energia circulando e disponível para os</p><p>processos de carga e descarga. É necessário que haja um equilíbrio entre esses</p><p>aspectos, para que não haja excesso ou falta de energia.</p><p>Uma das causas de nossos desequilíbrios físicos e psíquicos é esse</p><p>excesso de energia, que não é descarregada conforme deveria, ou a falta de</p><p>energia, pela incapacidade de absorvê-la e permitir que circule no organismo. As</p><p>couraças musculares são responsáveis por limitar esse ciclo de carga e</p><p>descarga que deveria acontecer naturalmente, considerando um organismo</p><p>saudável.</p><p>TEMA 5 – AUTORREGULAÇÃO</p><p>Finalizaremos esta aula estudando o conceito de autorregulação, muito</p><p>utilizado na Psicologia Corporal e abordagens relacionadas. O processo de</p><p>autorregulação consiste na capacidade de um organismo em executar as</p><p>adaptações necessárias em si mesmo para que seu estado de saúde e vida seja</p><p>mantido.</p><p>O natural seria que todos os organismos preservassem essa capacidade</p><p>de autorregulação durante toda sua vida, porém, devido a interferências</p><p>externas, essa capacidade é afetada e prejudicada, dando espaço para o</p><p>desenvolvimento de desequilíbrios e doenças.</p><p>Um organismo saudável tem a capacidade de reagir às situações de vida</p><p>conforme elas se apresentam e logo após retornar ao seu estado natural. Ou</p><p>seja, se passamos por uma situação de medo, por exemplo, nosso organismo</p><p>deve responder a isso e estar preparado para reagir conforme for necessário.</p><p>Muitas vezes, nesse caso, a reação do organismo será a retenção da respiração,</p><p>o tensionamento de alguns músculos, os olhos e ouvidos mais atentos, a</p><p>12</p><p>priorização da racionalização em vez do emocional, o aumento dos batimentos</p><p>cardíacos, entre outras alterações. Isso é normal e esperado, pois são reações</p><p>que garantem a sobrevivência. São mecanismos de defesa que estão sendo bem</p><p>aplicados. A questão é que, assim que a situação de medo se resolver ou se</p><p>dissipar, o organismo irá retornar para seu estado natural, relaxado, fluído,</p><p>libertando-se de todas as reações ativadas no momento do medo.</p><p>Quando perdemos essa capacidade, as reações geradas pelo nosso</p><p>mecanismo de defesa ficam cristalizadas ou encouraçadas em nosso organismo.</p><p>Ou seja, após uma experiência de tensão, de susto, de medo, o organismo retém</p><p>algumas das alterações ativadas no organismo e não retorna totalmente ao seu</p><p>estado natural. Quanto maior for a frequência, a intensidade e a relevância das</p><p>experiências negativas vivenciadas, maior é a tendência de um indivíduo adquirir</p><p>couraças, caracteriais e musculares.</p><p>Existe um conceito desenvolvido por Reich, chamado de “fórmula do</p><p>orgasmo” ou “curva orgástica”, que é baseado no orgasmo sexual propriamente</p><p>dito, mas que se aplica na prática clínica das abordagens corporais de forma</p><p>mais abrangente. Essa fórmula considera que em qualquer processo de</p><p>autorregulação o organismo passa por uma primeira fase, chamada de fase de</p><p>tensão, em seguida, alcança uma carga que leva a curva até seu ápice, após</p><p>atingir o ápice, inicia-se uma fase de descarga, e por fim, alcança-se a fase de</p><p>relaxamento ou relaxação. Quando vivenciamos as experiências de</p><p>forma</p><p>saudável, essa curva se completa, mantendo nosso organismo sempre</p><p>autorregulado. Segue a imagem dessa curva para melhor compreensão.</p><p>Figura 2 – Curva orgástica</p><p>Fonte: Elaborada pela autora, 2021.</p><p>13</p><p>Um dos principais objetivos da Corporal, assim como da Bioenergética, é</p><p>restaurar a capacidade, ou parte da capacidade, de autorregulação do</p><p>organismo do paciente. Para isso, é necessário considerar diversos caminhos,</p><p>que veremos mais adiante, mas, resumidamente, entre eles estão: o trabalho</p><p>com as estruturas de caráter a partir da análise verbal (conversa com o paciente),</p><p>para amadurecimento emocional e da personalidade do paciente; aplicação de</p><p>práticas corporais com o objetivo de flexibilizar as couraças musculares e o</p><p>restabelecer o fluxo energético; estimular o paciente a ter mais contato com o</p><p>seu corpo e sua potência energética; buscar desenvolver a liberdade do paciente</p><p>em lidar com suas emoções e sensações; entre outros.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Tivemos um conteúdo bastante teórico nesta aula, porém, essenciais</p><p>como base para nossa prática terapêutica.</p><p>A partir da compreensão a respeito da visão de homem e de mundo da</p><p>Psicologia Corporal, como profissionais da abordagem Bioenergética, devemos</p><p>ter em mente que nosso trabalho consiste sempre em compreendermos e</p><p>trabalharmos cada indivíduo/paciente em seus aspectos energéticos, corporais</p><p>e mentais. Na sequência, estudaremos em detalhes cada um desses aspectos</p><p>e como atuar de fato em cada um deles. Neste momento, registrar que o nosso</p><p>trabalho abrange esses três fatores é o primeiro passo.</p><p>O estudo a respeito do conceito de autorregulação é essencial para nossa</p><p>prática profissional. Ao compreendermos que todos os desequilíbrios advêm de</p><p>um distanciamento da capacidade de autorregulação do indivíduo, devemos</p><p>manter em mente que um de nossos objetivos profissionais é proporcionar mais</p><p>contato com essa capacidade.</p><p>Aprenderemos, mais adiante, que faremos isso a partir do trabalho verbal</p><p>(para conhecer mais a história do paciente, seus padrões e suas estruturas de</p><p>caráter) e práticas corporais e energéticas (para flexibilização das couraças</p><p>musculares, melhor circulação energética e equilíbrio na capacidade de carga e</p><p>descarga dela). Esses três pilares de atuação compreendem também outros</p><p>aspectos do indivíduo, como o ego, as emoções, os comportamentos etc., mas</p><p>isso veremos com calma mais à frente.</p><p>14</p><p>FINALIZANDO</p><p>Nesta aula, iniciamos nossos estudos referentes à Terapia Bioenergética.</p><p>O primeiro conteúdo abordado foi a respeito de onde se encontra a</p><p>Bioenergética dentro da Psicologia. Vimos que essa é uma abordagem que faz</p><p>parte da Psicologia Corporal, neorreichiana e desenvolvida por Alexander</p><p>Lowen.</p><p>Em seguida, estudamos como é possível um profissional que não é</p><p>psicólogo trabalhar com a Bioenergética. Compreendemos que existem diversas</p><p>discussões a respeito da regularização da prática psicoterapêutica no Brasil.</p><p>Atualmente, essa é uma profissão não regulamentada no país e, portanto, é</p><p>possível fazer formações independentes na área, sendo importante apenas</p><p>respeitar o título dado ao profissional pela instituição de ensino pela qual se</p><p>formou e fazer a divulgação adequada do seu trabalho, sem gerar dúvidas para</p><p>os pacientes e clientes que o procuram.</p><p>Na sequência, estudamos a respeito da fundamentação da Bioenergética,</p><p>passando pela sua origem, sua história, conceitos básicos e principais autores,</p><p>assim como indicações de suas principais obras.</p><p>Caminhamos, então, o estudo da visão de homem e de mundo da</p><p>Psicologia Corporal, compreendendo que a característica principal dessa</p><p>abordagem é a visão de que a mente, o corpo e a energia são inseparáveis e</p><p>determinantes na formação do indivíduo, assim como são pilares do processo</p><p>terapêutico da abordagem.</p><p>Finalizando a parte teórica desta aula, estudamos o conceito de</p><p>autorregulação e como ele é fundamental na teoria e na prática da Psicologia</p><p>Corporal e da Bioenergética.</p><p>Por fim, foram apresentadas as aplicações práticas dos conteúdos</p><p>estudados. Como esta aula foi bastante teórica, não tivemos um conteúdo tão</p><p>aprofundado sobre a prática, porém, foi destacada a importância desses</p><p>conhecimentos como base para a prática terapêutica dentro da abordagem e de</p><p>que forma serão úteis para isso.</p><p>15</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>LOWEN, A. Bioenergética. São Paulo: Summus, 2017.</p><p>NAVARRO, F. Caracterologia pós-reichiana. São Paulo: Summus, 1995.</p><p>QUINELATO, D. L. L. Dúvida Psicologia Corporal. Mensagem recebida por e-</p><p>mail em 4 de fevereiro de 2021.</p><p>VOLPI, J. H. Psicoterapia Corporal – Um trajeto histórico de Wilhelm Reich. 2.</p><p>ed. Curitiba: Centro Reichiano. 2019.</p>

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