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<p>esinbsad</p><p>Análise de Conteúdo Puglisi Barbosa</p><p>Análise de Conteúdo Chagas (Pesquisadora Brasília - 2003</p><p>Copyright 2003 Plano Editora Ltda. É proibida a reprodução total ou parcial desta publica- ção, por quaisquer meios, sem autorização prévia, por SUMÁRIO escrito, da editora. Assessoria Editorial: Walter Garcia Coordenação da Série: INTRODUÇÃO 7 Bernardete A. Gatti CAPÍTULO 1 13 Algumas idéias sobre as Bases teóricas da Análise de Capa, Revisão, Projeto Gráfico e Diagramação: Conteúdo 13 CAPITULO 2 DPE Studio - dperevis@terra.com.br 19 Características definidoras 19 Impressão e Acabamento: A polêmica conteúdo manifesto versus conteúdo latente 23 O conceito de inferência 24 Editora Gráfica Ipiranga CAPÍTULO: 3 29 Os campos da Análise de Conteúdo 29 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP/Brasil O delineamento de um plano de pesquisa 32 35 Franco, Maria Laura Puglisi Barbosa. As Unidades de Análise 35 F825 Análise de conteúdo / Maria Laura Puglisi As unidades de registro 35 Barbosa Franco. - Brasília : Plano Editora, 2003. As unidades de contexto 40 72p. CAPITULO 5 43 ISBN: 85-85946-75-X A organização da análise 43 1. Análise de conteúdo. 2. Análise contextual. I. A Pré-Análise 43 51 As Categorias de Análise 51 CDU 37.012.85 Categorias criadas a priori 52 Impresso no Brasil Categorias não definidas a priori 53 Implicações de ambas opções 54 Principais requisitos para a criação de categorias 59 Todos os direitos reservados à Plano Editora Ltda., 61 conforme a Lei 9.610, de 19/02/1998. Um Exemplo da utilização da Análise de Conteúdo na SIA trecho 4, lote 2000, sala 201 realização de uma Pesquisa em Educação 61 A pesquisa e seus objetivos 61 CEP 71200-040 - Brasília - DF Os procedimentos, a pré-análise e a criação de categorias 62 Telefax: (61) 361-1384 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PLANO 71 E-mail: planoeditora@terra.com.br</p><p>INTRODUÇÃO A preocupação com a Análise do Conteúdo das mensagens, dos enunciados do discurso e das informa- ções é muito mais antiga do que a reflexão que se ocupa da formalização de seus pressupostos epistemológicos, teóricos e de seus procedimentos operacionais. A definição dos símbolos, sinais e "mensagens de Deus", marca a primeira tentativa de responder à questão "o que essa mensagem significa?", que teve como foco a exegese dos textos bíblicos para que fosse possível com- preender e interpretar as metáforas e as parábolas. Para além desta maneira de interpretar as mensagens contidas nos textos, cuja tradição é longínqua, a tradição registra alguns casos, geralmente isolados, em que a análi- se do conteúdo das mensagens ou dos enunciados ver- bais pode ser considerada inadequada. Por exemplo: a pesquisa realizada na Suécia, por volta de 1640, sobre os hinos religiosos, com objetivo de saber se esses hinos, em número de noventa, poderiam ter efeitos nefastos nos Luteranos, foi efetuada uma análise dos diferentes temas religiosos, dos valores neles embutidos, sobre suas mo- dalidades de aparição, bem como sobre usa complexida- de (Bardin, 1977, p.14). É certo que tais com- ponentes não deixam de ser importantes quando se fala do conteúdo das mensagens ou dos enunciados expres- por um grupo particular. No entanto, saber se esses hinos "poderiam ter efeitos nos Luteranos" estamos adentrando em uma nova dimensão da análise dos con- 7</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO teúdos das mensagens, que se localiza no impacto social documentação e, por outro lado, devido ao desenvolvi- que está diretamente vinculado a uma orientação para a mento da aplicada. ação. Dai os procedimentos deveriam ser mais seletivos e Apesar de uma considerável quantidade de traba- melhor planejados e mais adequadamente lhos sobre tema, a Análise de Conteúdo mostrou-se, e Mais recentemente, mas ainda no século dezenove, mostra-se ainda hoje, envolta em muita controvérsia. Francês Bourbom (1888-1892) tentou captar a expressão Em 1981, Serge Moscovici tentou explicar os fun- das emoções e das tendências da linguagem. Para isso, damentos desta controvérsia. Dizia ele, "um dos maiores trabalhou sobre uma parte da Bíblia, de uma problemas reside, justamente, no fato de que os de análise de maneira rigorosa, valendo-se, inclusive, de uma classifica- conteúdo se situam na entre os e a Psicologia ção temática e de sua respectiva quantificação. Social. Essas duas disciplinas, em verdade, se dão as costas... os Estava, então, aberto o campo da sistematização da a reivindicam, com toda razão; os assimilam a análise do conteúdo das mensagens, de seus enunciados, linguagem como um conjunto de indicadores de fenômenos não- de seus de seus interlocutores. Dentre as ma- A Psicologia Social se introduz comodamente no campo nifestações do comportamento humano, a expressão ver- da significação; a não dispõe de uma teoria da comunica- bal, seus enunciados e suas mensagens, passam a ser vis- ção. No entanto, na medida em que a análise de conteúdo se interessa tos como indicadores indispensáveis para a compreensão pela linguagem, os reivindicam a exclusividade do dos problemas ligados às práticas educativas e a seus com- rio" (Moscovici, 1981, p. 172). ponentes psicossociais. Não pretendemos entrar no âmbito dessa proble- Surge, inicialmente, a Análise de Conteúdo em uma mática, que nos levaria a discutir conflito entre lingüis- perspectiva de sondagem de opiniões colhidas, de acor- tas e psicólogos. No entanto, a este respeito, cabe sinalizar do com os teóricos da época, a partir de experimentos um breve comentário. Aparentemente, a e a muito bem planejados na tentativa de serem os mais ob- análise de conteúdo têm mesmo objeto: a linguagem. jetivos possíveis e de sofisticados procedimentos de cole- Em verdade, porém, a distinção fundamental proposta ta. Todavia, como era de se esperar, essas sondagens de por F. de Saussure, que fundou a entre lingua e opiniões, que foram divulgadas pela imprensa e, princi- palavra, marca a diferença: "O objeto da é a lingua, palmente, direcionadas aos fatos relativos à Guerra quer dizer, aspecto coletivo e virtual da linguagem, enquanto que Mundial, redundaram em análises predominantemente da análise de a palavra, isto é, aspecto individual e atual descritivas sem que os fundamentais recursos analíticos e (em ato) da linguagem. A lingüistica trabalha com uma lingua interpretativos fossem incorporados. rica, encarada como um conjunto de sistemas que autorizam combi- nações e substituições regulamentadas por elementos definidos... seu Por volta de 1930, uma nova pressão se exerce so- papel resume-se, independentemente do sentido deixado, à semântica, bre os estudiosos em metodologia de análise de conteú- à descrição de funcionamento da lingua, para das variações do; por um lado, devido ao progresso das formas de individuais ou sociais tratadas pela ou Pelo contrário, a de conteúdo trabalha a palavra, quer dizer, a prática da realizada por emissores 1 Aspectos que discutiremos, com mais detalhes, nos itens tica estuda a lingua para descrever seu funcionamento. A análise de</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO conteúdo procura aquilo que está por das palavras aplicação da análise de conteúdo a um espectro mais sobre as quais se (Pêcheux, p. 43). amplo de problemas, especialmente àqueles relativos aos Como já dissemos, não vamos aprofundar este de- antecedentes e efeitos da comunicação, das mensagens e bate, uma vez que objetivo deste livro é oferecer um dos discursos; material didático e prático para que pesquisadores em uso crescente para testar hipóteses em oposição a pesqui- educação possam se orientar no estudo da comunicação sas meramente descritivas; oral, escrita e figurativa, bem como nas tarefas de descri- maior diversidade no que se refere aos materiais a serem ção, análise e interpretação das mensagens/enunciados estudados; emitidos por diferentes indivíduos ou grupos. uso em conexão com outras de pesquisa; Além disso, pretendemos ampliar a discussão acerca de computadores para de conteúdo, da Análise de Conteúdo levando em conta suas bases te- principalmente mediante 0 recurso a programas óricas e metodológicas, a complexidade de sua manifes- computacionais. tação que envolve a interação entre interlocutor e locutor, contexto social de sua produção, a influência manipu- ladora, ideológica e idealizada presentes em muitas men- sagens, os impactos que provocam, os efeitos que orien- tam diferentes comportamentos e ações e as condições históricas, sociais, mutáveis que influenciam crenças, con- ceitos e representações sociais elaboradas e transmitidas via mensagens, discursos e enunciados. Finalmente, é preciso levar em conta que os usos ini- ciais da análise de conteúdo estiveram limitados, princi- palmente, a análises de dados "naturais" ou "disponíveis" isto é, dados que existem sem qualquer participação ativa do investigador, como, por exemplo, jornais, livros, documentos oficiais e documentos pessoais. Dados esses que se colocam no tipo de análise documental. Cada vez mais, porém, a análise de conteúdo passou a ser utilizada para produzir inferências acerca de dados verbais e/ou mas, obtidos a partir de per- guntas e observações de interesse de um determinado pesquisador. Observa-se, então: uso crescente da utilização de análise de conteúdo; crescente interesse por questões teóricas e metodológicas; 10 11</p><p>ANÁLISE DE CONTEÚDO CAPÍTULO 1 ALGUMAS IDÉIAS SOBRE AS BASES TEÓRICAS DA ANÁLISE DE CONTEÚDO O ponto de partida da Análise de Conteúdo é a men- seja ela verbal (oral ou escrita), gestual, silenciosa, sagem, figurativa, documental ou diretamente provocada. Ne- cessariamente, ela expressa um significado e um sentido. Sentido que não pode ser considerado um ato isolado, pois, "os diferentes modos pelos quais 0 sujeito se inscreve no texto correspondem a diferentes representações que tem de si mesmo como sujeito e do controle que tem dos processos discursivos textuais com que está lidando quando fala ou escreve" (Varlotta, 2002). Além disso, torna-se indispensável considerar que a relação que vincula a emissão das mensagens (que podem ser uma palavra, um texto, um enunciado ou até mesmo um estão, necessariamente, vinculadas às con- dições contextuais de seus produtores. Condições contextuais que envolvem a evolução his- tórica da humanidade; as situações econômicas e socioculturais nas quais os emissores estão inseridos, acesso aos códigos grau de competência para saber decodificá-los, que resulta em expressões verbais (ou mensagens) carregadas de componentes cognitivos, afetivos, valorativos e historicamente mutáveis. 1 Somente para citar algumas de suas modalidades. 13</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Sem contar com os componentes ideológicos impregna- O significado de um objeto pode ser absorvido, dos nas mensagens socialmente construídas, via objetivação compreendido e generalizado a partir de suas do discurso, mas com a possibilidade de serem ultrapas- cas definidoras e pelo seu corpus de significação. Já, sen- sadas ou mediante um processo traba- tido implica a atribuição de um significado pessoal e lhoso (mas, não impossível) e dialético, tendo em vista a objetivado, que se concretiza na prática social e que se explicitação do processo de ancoragem e estabelecendo manifesta a partir das Representações Sociais, cognitivas, como meta final Desenvolvimento da Consciência. valorativas e emocionais, necessariamente contextualizadas. Neste sentido, a Análise de Conteúdo assenta-se nos Por exemplo, a palavra "livro" assume um determi- pressupostos de uma concepção crítica e dinâmica da lin- nado sentido por parte de leitores alfabetizados e impli- Linguagem, aqui entendida, como uma constru- ca, igualmente, graduações de sentido diferenciadas entre ção real de toda a sociedade e como expressão da exis- os leitores, digamos, "eruditos" e os leitores "comuns". tência humana que, em diferentes momentos históricos, Já quando transportada para indivíduos ou grupos não- elabora e desenvolve representações sociais no dinamis- alfabetizados, a mesma palavra, "livro", pode até ser com- mo interacional que se estabelece entre linguagem, pensa- preendida mediante mesmo significado que lhe é atri- mento e ação. buído universalmente, porém seu sentido assume uma Pressupostos, estes, que se afastam de uma concep- conotação diferenciada entre os alfabetizados e os não- ção formalista da linguagem no bojo da qual se atribui e um valor exagerado às palavras (bem como à associação Reiterando, diríamos que essa característica elimina, entre elas) negligenciando muitos aspectos semânticos que claramente, análises nas quais apenas os materiais que apói- somente os pesquisadores criativos, informados, compe- em as hipóteses do investigador sejam admitidos como tentes e devidamente esclarecidos podem ser capazes de evidências. Todos os enunciados que suportem a tese da analisar e interpretar as mensagens (explicitas ou latentes), evidentemente levando em conta toda a complexidade 2 Eu gosto de usar O termo "não-alfabetizados" em vez de "analfabetos" que acompanha esse processo. para mostrar a diferença que existe entre oposição e contradição. Como um parêntesis, e por isso coloco em nota de rodapé, quero relatar uma Assim, concordamos com Mucchielli quando nos provocação que, em geral, faço aos meus alunos quando estamos alerta. "Na tradicional, a condenação de todo recurso ao discutindo os conceitos de Representações Sociais, Ideologia e Desenvolvimento da Consciência. Pergunto: "Qual é O contrário de sentido das mensagens elevou a palavra como um dos componentes alfabetizados?" Quase que, invariavelmente, surge a resposta indispensáveis para 0 tão almejado rigor cientifico em relação à des- "analfabetos". Ora, com isso estaremos lidando apenas com uma oposição crição das estruturas da (Muccielli, 1977, p. 26). To- como se ela fosse natural. Em verdade que existe é uma contradição interna que se explicita no paradigma da totalidade. Ou seja, em princípio davia, a semântica, assim excluída, é justamente pão coti- todos teriam (por hipótese) direito de ser alfabetizados, de saber ler, diano da análise de conteúdo. Semântica, aqui entendida escrever e de expressar convenientemente suas desde não apenas como estudo da língua, em geral, mas, como que persista pólo oposto e a contradição interna da totalidade, não devemos designar determinados grupos como "analfabetos", mas sim a busca descritiva, analítica e interpretativa do sentido como "não-alfabetizados". Uma vez que a eles, por condições históricas, que um indivíduo (ou diferentes grupos) atribuem às men- econômicas e sociais, foi negada a possibilidade de, contraditoriamente sagens verbais ou (e por negação da totalidade), pertencer ao grupo daqueles que sabem ler e que, sem dúvida, atribuem um significado diferente ao objeto "livro". 14 15</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO desigualdade devem ser analisados, mesmo que estamos tentando classificar, objetivar e organizar um corroborativos de teses contrárias. discurso." "Sem dúvida esta empreitada é tipicamente inte- Além disso, a análise de conteúdo requer que as desco- lectual". E a partir dessas colocações exemplifica sua po- bertas tenham relevância teórica. Uma informação pura- sição colocando-nos algumas provocações indagativas: mente descritiva não relacionada a outros atributos ou às "Vejamos 0 conjunto de problemas concretos que se colocam, características do emissor é de pequeno valor. Um dado sem cessar no do espirito deste movimento: que é? E, sobre O conteúdo de uma mensagem deve, necessariamente, é mais ou menos? Onde? Quando? Por que motivo? Com que estar relacionado, no mínimo, a outro dado. O liame entre objetivo? Como? etc. Nós constatamos que nenhuma desssas este tipo de relação deve ser representado por alguma for- questões possam ser respondidas de um agrupamento predeter- ma de teoria. Assim, toda a análise de conteúdo., implica minado ou previsível. Portanto, esses agrupamentos devem comparações contextuais. Os tipos de comparações po- ser elaborados a partir das imagens dadas separadamente, de dem ser multivariados. Mas, devem, obrigatoriamente, ser modo que possa urgir suas apesar de suas limita- direcionados a partir da sensibilidade, da intencionalidade e ções... esta é a maneira de reconhecer efetivamente a atitude do da competência teórica do pesquisador. analista no sentido de saber compreender uma situação. É As operações de comparação e de classificação im- necessário que 0 pesquisador compreenda e assuma a da plicam entendimento de semelhanças e diferenças. Quan- história, antes de investir na realização da tarefa!" do mais simples, como, por exemplo, classificar objetos geométricos e de diferentes cores, por parte de crianças das primeiras séries do ensino, podem ser consideradas como aprendizagens condicionadas e transformadas em hábitos cotidianos (Orelon, 1974). Já quando se trata da atividade de classificar objetos mais complexos (por exemplo, os enunciados verbais), esta atividade extrapola um simples condicionamento e não pode mais ser consi- derada como a expressão de um comportamento habi- tual. Isto porque ela exige um julgamento comparativo "e mes- mo anteriormente a esse julgamento, é necessário haver a compreensão dos enunciados a serem classificados, a abstração do significado e do sentido das mensagens e a inferência (ou intuição) das categorias (Mucchielli, 1974). A operação classificatória, para Piaget (1967) pressu- necessariamente, uma atividade intelectual de abstra- ção e agrupamento que pode ser considerada como um corolário da atividade intelectual dos homens. Vejamos, diz ele, quantas questões se colocam no momento que 16 17</p><p>ANÁLISE DE CONTEÚDO CAPITULO 2 CARACTERÍSTICAS DEFINIDORAS Além das considerações já arroladas e que podem contribuir para uma melhor compreensão do que é Aná- lise de Conteúdo, outras devem ser acrescentadas e explicitadas para um entendimento mais efetivo de suas características definidoras. Figura 1: Caracerísticas definidoras da Análise de Conteúdo PARA FAZER INFERÊNCIAS objetiva e sistematicamente características da mensagem Análise de conteúdo é um procedimento Fonte Processo Processo de Mensagem Receptor decodificação (emisssor) de codificação COM QUE QUEM? POR QUÊ? QUÊ? PARA QUEM? EFEITO? 19</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Como se observa na Figura 1, a análise de conteúdo as causas ou antecedentes das mensagens; e é um procedimento de pesquisa que se situa em um deli- efeitos da comunicação. neamento mais amplo da teoria da comunicação e tem como ponto de partida a mensagem. Apesar de muito difundida, em análilse de conteúdo, a mera descrição das características das mensagens con- Com base na mensagem que responde às perguntas: tribui muito pouco para a compreenção das que se fala? que se escreve? com que intensidade? cas de seus produtores. com que frequência? que tipo de símbolos figurativos são utilizados para expressar idéias? e os silêncios? e as entre- Por outro lado, quando direcionada à indagação sobre linhas?... e assim por diante, a análise de conteúdo permi- as causas ou os efeitos da mensagem, a análise de conteú- te ao pesquisador fazer inferências sobre qualquer um dos do cresce em significado e exige maior bagagem teórica elementos da comunicação. do analista. Neste sentido, concordamos com Bardin quando diz Já quando, partindo de uma mensagem, procuramos "A análise de conteúdo pode ser considerada como um conjunto de indagações acerca de "quem" e acerca do "por quê" de técnicas de análises de comunicações, que utiliza procedimentos siste- determinado conteúdo estamos trabalhando com ponto máticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens. A inten- de vista do produtor. E, neste caso, três pressupostos bási- da análise de conteúdo é a de conhecimentos relati- cos garantem relevância a esse enfoque: vos às condições de produção e de recepção das mensagens, inferência 1. Toda mensagem falada, escrita ou sensorial contém, po- esta que recorre a indicadores (quantitativos, ou não)" (Bardin, tencialmente, uma grande quantidade de informações so- 1977, p. 38). bre seu autor: suas filiações teóricas, concepções de mun- Toda comunicação é composta por cinco elementos do, interesses de classe, traços psicológicos, representações básicos: uma fonte ou emissão; um processo codificador que sociais, motivações, expectativas, etc. resulta em uma mensagem e se utiliza de um canal de 2. produtor/ autor é, antes de tudo, um selecionador e trasmissão; um receptor, ou detector da mensagem, e seu essa seleção não é arbitrária. Da multiplicidade de ma- respectivo processo decodificador (ver Figura1). nifestações da vida humana, seleciona que considera À clássica formulação dessas questões "quem diz mais importante para dar seu recado e as inter- que, a quem, como e com que acrecentaríamos preta de acordo com seu quadro de referência. Obvia- uma a mais: "Por que?" Cada uma dessas questões pode mente, essa seleção é preconcebida. Sendo produtor, ele ser considerada, em termos de uma pesquisa planejada, próprio, um produto social, está condicionado pelos inte- para três diferentes propósitos. O investigador pode (e, resses de sua época, ou da classe a que pertence. E, prin- muitas vezes, deve) analisar mensagens a fim de produzir cipalmente, ele é formado no espirito de uma teoria da inferências sobre: qual passa a ser expositor. Teoria que não significa saber erudito e nem se contrapõe ao saber popu- as do texto; lar mas que transforma seus divilgadores muito mais em executores de determinadas concepções do que de seus 1 Grifo nosso. próprios senhores. 20 21</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO 3. A "teoria" da qual autor é 0 expositor orienta sua Porém, esta constatação não pode-se constituir em concepção da realidade. Tal concepção (consciente ou um argumento para descartar pesquisas que objetivem ideologizada) é filtrada mediante seu discurso e resulta verificar os efeitos de uma comunicação. Vale, apenas, implicações extremamente importantes para quem se para lembrar que estes tipos de pesquisa apresentam difi- propõe fazer análise de conteúdo. culdades especiais. O ideal seria conjugar pesquisas inter- relacionadas. Uma que se dedique à captação de inferências Por outro lado, se estivermos preocupados em infe- elaboradas por parte do investigador e outra que possa rir os efeitos que determinada mensagem causa ou pode checá-las junto aos possíveis receptores. causar, estamos direcionando nossa análise do ponto de Em ambos os casos, alguns elementos devem ser vista do receptor considerados. Para melhor vislumbrá-los, vamos A questão "com que efeito?" é considerada, por los nos subitens muitos estudiosos, como um dos aspectos mais impor- a polêmica "conteúdo manifesto" versus "con- tantes do paradigma da comunicação: qual seja, estudar, teúdo latente" identificar efeito e/ou impacto que determinada men- conceito de sagem causa no receptor, no leitor, no ouvinte e em diferentes segmentos da Sem dúvida, essa, indagação é extremamente valiosa para avanço dos A polêmica conteúdo manifesto conhecimentos no âmbito das áreas sociais. Por exem- versus conteúdo latente plo, quando se objetiva descobrir os efeitos das propa- gandas políticas, os possíveis efeitos de livros didáticos Quanto ao conteúdo de uma comunicação, a fala como elementos de veiculação ideológica, os progra- humana é tão rica que permite infinitas extrapolações e mas alienantes da televisão, as manchetes dos jornais... e valiosas interpretações. Mas é dela que se deve partir (tal como manifestada) e não falar "por meio dela", para evitar assim por diante. a possível condição de efetuar uma análise baseada, ape- Mas se, por um lado, admitimos que essas questões nas, em um exercício equivocado e que pode redundar são extremamente importantes quando a tarefa é efetuar na situação de uma mera projeção subjetiva. Os resulta- uma consistente análise de conteúdos manifestos, por outro dos da análise de conteúdo devem refletir os objetivos da lado, devemos levar em conta fato de que podemos pesquisa e ter como apoio indícios manifestos e capturáveis esbarrar com processo de decodificação do receptor. no âmbito das comunicações emitidas. Ou seja, investigador tem seu próprio processo de Neste caso, consideramos oportuno recuperar a ana- decodificação e por meio dele analisa, infere e elabora logia divulgada por "O conteúdo para usurário interpretações acerca do processo de codificação do pro- da análise de conteúdo é como líquido para químico analista. dutor. No entanto, quando se trata de uma pesquisa rela- Tudo está lá e não há nada fora. Os componentes estão tiva aos efeitos da comunicação junto aos receptores, existe dentro e presentes por definição. Nada mais bá que se fazer do que perigo de ser vitimado pela falácia do post hoc, ergo propter analisar que se dispõe..." (Mucchielli, 1977, p. 78). É, por- hoc, isto é, a falácia que assume que antecedente causa tanto, com base no conteúdo manifesto e explícito que se (Holsti, 1979) inicia processo de análise. do identi de o de 23</p><p>? ANÁLISE com Maria Laura Puglisi Barbosa Franco DE CONTEÚDO Isso não significa, porém, descartar a possibilidade descobrir por e graças a eles... Tal como a etnografia ne- de se realizar uma sólida análise acerca do conteúdo "ocul- cessita da etnologia, para interpretar suas descrições mi- to" das mensagens e de suas entrelinhas, que nos enca- nuciosas, analista tira partido do tratamento das mensa- minha para além do que pode ser identificado, quantificado gens que manipula, para inferir (de maneira lógica) conhe- e classificado para que pode ser decifrado mediante cimentos que extrapolem conteúdo manifesto nas men- códigos especiais e simbólicos. sagens e que podem estar associados a outros elementos Aliás, esse procedimento tende a valorizar material (como emissor, suas condições de produção, seu meio a ser analisado, especialmente se a interpretação do con- abrangente etc.) Tal como um detetive, analista trabalha teúdo "latente" estipular, como parâmetros, os contextos com cuidadosamente postos em evidência por pro- sociais e históricos nos quais foram produzidos. cedimentos mais ou menos complexos. Resumindo: que está escrito, falado, mapeado, figu- Se a descrição (a enumeração das características do tex- rativamente desenhado e/ou simbolicamente explicitado to, resumida após um tratamento inicial) é a primeira eta- sempre será ponto de partida para a identificação do pa necessária e se a interpretação (a significação concedida a conteúdo manifesto (seja ele explicito ou latente). A análise essas características) é a última fase, a inferência é proce- e a interpretação dos conteúdos obtidos enquadram-se dimento intermediário que vai permitir a passagem, ex- na condição dos passos (ou processos) a serem seguidos. plícita e controlada, da descrição à interpretação. Reiterando, diríamos que, para O efetivo "caminhar neste Produzir inferências é, pois, la raison d'etre da análise processo", a contextualização deve ser considerada como de É ela que confere a esse procedimento um dos principais requisitos, e, mesmo, "o pano de fun- relevância teórica, uma vez que implica, pelo menos, uma do" no sentido de garantir a relevância dos resultados a comparação, já que a informação puramente descritiva, serem divulgados e, de preferência, socializados. sobre conteúdo, é de pequeno valor. Um dado sobre conteúdo de uma mensagem (escrita, falada e/ou figu- o conceito de inferência rativa) é sem sentido até que seja relacionado a outros dados. O vínculo entre eles é representado por alguma Diferente da estocagem e da indexação de informa- forma de teoria. Assim, toda análise de conteúdo impli- ções, da leitura interpretativa ou da crítica literária, uma ca comparações; tipo de comparação é ditado pela importante finalidade da análise de conteúdo é produzir inferências sobre qualquer um dos elementos básicos do competência do investigador no que diz respeito a seu maior ou menor conhecimento acerca de diferentes abor- processo de comunicação: a fonte emissora; processo codificador que resulta em uma mensagem; detectador dagens teóricas. ou recipiente da mensagem; e processo decodificador. Exemplificando: investigador, ao ler ou ouvir um (Ver discurso sobre papel do educador, deve ser capaz de poder Utilizando-se de analogias, Bardin nos leva a concor- compatibilizar conteúdo do discurso (lido ou ouvido) dar que... analista é como um arqueólogo. Trabalha com com alguma, ou algumas teorias explicativas. Assim, po- vestigios... mas, os vestígios são as manifestações de esta- derá descobrir se está lidando com abordagens do tipo dos, de dados e de Há mais alguma coisa a "construtivistas", "behavioristas"; 24 25</p><p>ANÁLISE DE CON Maria Laura Puglisi Barbosa Franco "positivistas", "estruturalistas", "criticas" ...e Reiterando, diríamos que produzir inferências vai por a lise de conteúdo tem um significado bastante pressupõe a comparação dos dados, obtidos m O investigador pode, também, comparar mensagens discursos e símbolos, com os pressupostos de uma única fonte emitidas em diferentes situações, em diferentes concepções de mundo, de indivíduo diferentes momentos, e para diferentes audiências. ciedade. Situação concreta que se expressa a pa Comparações de conteúdo das comunicações atra- condições da práxis de seus produtores e rec vés do tempo, situação ou audiência podem ser concebi- acrescida do momento histórico/social da prod das como análises, interpretações e inferências produzi- ou recepção. das intermensagens. Hipóteses, também, podem ser testadas comparan- do as mensagens produzidas por mais de uma fonte re- ferente. Neste caso, objetivo será sempre relacionar os atributos teoricamente significativos dos emissores às distorções embutidas nas mensagens que produzem. Além disso, os dados obtidos, mediante a análise de conteúdo, podem ser comparados a algum padrão de adequação ou desempenho. Muitas análises dos meios de comunicação de massa empregam padrões definidos a priori. Uma alternativa para produzir inferências acerca dessas abordagens apriorísticas seria derivar padrões indutivamente consubstanciados a partir da análise das mensagens emitidas. É certo que apenas essa providência não permitirá ao analista determinar se desempenho preenche algum absoluto padrão de adequação, mas pode indicar como material analisado se expressa em com- paração a outras fontes similares. Um terceiro tipo de padrão, frente ao qual os dados de conteúdo podem ser comparados, diz respeito ao que se denomina como índices de não-conteúdo. Índices de não-conteúdo aqui entendidos (entre outros) como a opinião de especialistas. Principalmente quando assunto é controvertido, recurso a um grupo de especialistas pode-se constituir em um excelente indicador, no senti- do de garantir a fidedignidade e validade do conteúdo analisado, via comparação entre pares. 27 26</p><p>ep</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Nesse território, estudo dos efeitos do sentido, da de construção e transmissão de mensagens, cada vez mais retórica da língua e da palavra evolui, na lingüística mo- complexas nos dias atuais. derna, para a análise do discurso. No centro do território, localiza-se grupo dos méto- Do outro lado, na fronteira com a hermenêutica, os dos Por que lógico-semânticos? Porque métodos são puramente semânticos, dividindo-se em alcance da análise de conteúdo está, também, vinculada à métodos que investigam as função de um classificador. E sua classificação é uma clas- conotações que formam campo semântico de uma sificação lógica dos conteúdos manifestos, após a análise e imagem ou de um enunciado, em métodos interpretação dos valores semânticos desses mesmos con- ticos-estruturais, que se aplicam a universos psicossocios- teúdos. De uma ou de outra maneira, analista se vale de semânticos ou sociossemânticos mais amplos. definições, e definições são problemas da lógica. Fundamentada na tradição hermenêutica, essa meto- Esta dimensão central da análise de conteúdo inclui dologia de análise deve ser considerada como uma das importantes componentes que devem ser considerados, dimensões do exercício de compreensão e interpretação principalmente se levarmos em conta a lógica embutida a ser enfrentado pelo analista social, uma vez que não nos recentes programas computadorizados que podem exclui radicalmente uma análise lógica, formal e objetiva. ser utilizados como auxílio para uma eficiente análise de conteúdo. Embora esses últimos requisitos devam ser necessaria- mente respeitados, é preciso levar em conta, quando se Vejamos, pois, os aspectos que se referem ao campo trata de uma investigação social, uma outra dimensão igual- central da análise de conteúdo e definidos como lógico- mente importante e fundamental, qual seja: semânticos: "O campo-objeto que está ali para ser observado, ele é tam- Eles não se vinculam às pesquisas que se dedicam à um que é construído, em parte, por sujeitos lise da estrutura formal de um texto, como, por exem- que, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas, estão constan- plo, procedimento de sua construção ou de seu estilo. temente preocupados em compreender a si mesmos e aos outros Embora não se preocupem, a principio, com desvelar e em interpretar as ações, falas e acontecimentos que se dão ao do "segundo sentido" de um texto ou com suas impli- seu redor". (Thompson, 2000, p. 358) cações, iniciam sua leitura, basicamente, a partir do con- teúdo manifesto e considerando como evidência (e como Reiterando e acrescentando, diríamos que a vida coti- ponto de partida) conteúdo imediatamente diana não se resume no aqui e agora. Ao contrário, é, Aplicam-se às mais variadas modalidades de textos, após sobretudo, fruto de um longo, conflitivo e complexo pro- dos diversos conceitos utilizados (sua enume- cesso histórico e social. Portanto, para compreender as ração simples e seus desdobramentos) e a classificação dos situações que ocorrem cotidianamente, é indispensável elementos de informação por categorias) considerar que essas situações ocorrem em determinado ...desde a pesquisa, acerca das formas utilizadas para a ambiente (situações, espaços temporais específicos) e no apresentação dos dados, até a análise e interpretação das bojo de certos campos de interação pessoal e institucional tendências, comparações e evolução das tendências que, por sua vez, são mediados por modalidades técnicas explicitadas. Neste sentido, a redação de uma ficha ou 30 31</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO de um resumo as análises veiculadas pela midia, ter uma idéia muito clara da rationalia de sua pesquisa, as pesquisas que se utilizam de categorias ou de temas, as deve ser capaz de especificar tipo de evidência opiniões emitidas sobre diferenciados assuntos, as repre- rio ao teste de suas idéias, bem como deve saber as aná- sentações sociais elaboradas por diferentes grupos, as res- lises que terá de fazer, uma vez que os dados tenham sido postas fornecidas a partir de questões abertas... utilizam colhidos e codificados, para além das inferências que eles esses métodos... ditos e vistos como lhe permitirão estabelecer. Em suma, um bom plano ga- Em suma, esses métodos (os lógico-semânticos), concen- rante que teoria, coleta, análise e interpretação de dados tram semelhanças comuns em relação àqueles que pre- estejam integrados. cedem: inventários, desdobramentos, E aqui, pode ser colocada, em termos mais concre- codificação, pesquisa de eventuais correlações, mas sem- tos, nossa advertência contra "expedições de pesca". A pre, e ao mesmo tempo, a partir da compreensão do ausência de um plano e de estratégias pressupõe que os sentido. Sentido das palavras, sentido expresso nas pala- documentos a serem analisados são escolhidos, mas as vras, imagem e simbolos, sentido das percepções e analo- razões para sua seleção não são claras para analista... gias das mensagens (base de todos reagrupamentos e Documentos são codificados, porém não existe teoria classificações) e sentido das dos sentidos, para guiar a seleção de categorias e de unidades de análi- que implica diagnosticar diferentes valores das mensagens se. Tais condições fundamentais são tomadas na base do e das idéias em uma bierarquia que vai do particular até "que é mais fácil". Comparações entre categorias podem mais geral. ser empreendidas e podem mesmo envolver análises es- A partir das informações já contidas neste livro, e tatísticas sofisticadas, mas não estando ligadas sequer a antes de discutirmos problemas, digamos, "mais práti- uma teoria primitiva, provavelmente servirão mais para confundir do que para esclarecer. cos", consideramos oportuno reiterá-las, complementá- las e correlacioná-las aos principais elementos que defi- Esse ponto pode ser visto de forma algo diversa, nem a função de delineamentos de pesquisas em análise mediante a analogia entre um plano de pesquisa e pro- de conteúdo. jeto de uma construção de uma casa. Sem um projeto, materiais de construção poderão ser reunidos, mas não o delineamento de um plano de pesquisa haverá orientação alguma quanto ao tipo ou quantidade necessários. Carpinteiros, pedreiros e encanadores pode- O delineamento de pesquisa é um plano para coletar rão reunir tais materiais, mas cada um deles terá uma con- e analisar dados a fim de responder à pergunta do inves- cepção diversa da estrutura que deverão erigir. tigador. Um bom plano de pesquisa explicita e integra A casa resultante de gastos talvez inúteis, de esforços procedimentos para selecionar uma amostra de dados desnecessários e de materiais inadequados é muito pro- para análise, categorias de conteúdo e unidades de regis- vável que venha a ser disfuncional. Tanto na casa, quanto tro a serem enquadradas nas categorias, comparações entre em análise de conteúdo sem um bom plano, antecipado e categorias e as classes de inferência que podem ser extra- consistente, pode ser difícil descobrir qualquer uso para ídas dos dados. Isto quer dizer que investigador deve produto final. 32 33</p><p>op op op o and WOO op up E op se op op up op up op op H odu V op op onb op op up 30</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO incluem definidoras e ca do significado de uma palavra e/ou sobre as são, em geral, acompanhadas de algumas limitações. conotações atribuídas a um conceito. Seus Tipos, Caracterização, Campos de atuação e al- E isso, com certeza, envolve não apenas componen- gumas de suas Limitações são apresentadas a seguir. tes racionais, mas, também, ideológicos, afetivos e emo- cionais. Elementos que podem ser percebidos, por exem- plo, em respostas às questões do tipo: "O que representa para você a palavra FÉRIAS"? ou "O que significa para TIPOS: você SER UM BOM ALUNO?" ou "O que você enten- de por VIOLÊNCIA?" 1. A Palavra: é a menor unidade de registro usada em Análise de Conteúdo. Pode ser uma simples palavra Pelo fato de que, mediante a utilização do tema como (oral e/ou escrita), um símbolo ou um termo. unidade de análise, para a interpretação das respostas de Tem sido utilizada em quatro conjunto de pesquisas: determinados grupos de pessoas, acabamos obtendo um grande número de respostas permeadas por diferentes em estudos de fidedignidade para determinar facilidade significados. Por isso, antes da tarefa de recodificá-las e ou dificuldade de compreensão de material escrito, na analisá-las, será necessário analisar e interpretar conteú- base de: referências personalizadas, uso de preposições, do de cada resposta em seu sentido individual e úni- uso de prefixos, sufixos, co" (Mucchielli, 1974, p. 51). em pesquisas que objetivam detectar a relativa, O Tema é considerado como a mais útil unidade na imprensa mundial, de certos simbolos políticos: libera- de registro em análise de conteúdo. Indispensável em es- lismo, neoliberalismo, fascismo, socialismo, comunismo etc.; tudos sobre propaganda, representações sociais, opini- em pesquisas do campo da psicoterapia, mais especial- expectativas, valores, conceitos, atitudes e crenças. mente, no campo da psicanálise; e Algumas limitações: em pesquisas de estudos Algumas limitações: uma das maiores limitações de seu emprego, diz respeito ao tempo que exige para a coleta de dados; O emprego desta unidade acarreta um grande Outra é que seus limites não são facilmente identificáveis, volume de dados. Atualmente, com advento como a palavra, 0 parágrafo ou item. dos programas de computador, essa dificulda- de fica, de certa forma, atenuada. Por exemplo, suponhemos estar diante da seguinte in- formação temática e com compromisso de analisá-la a partir de seus indicadores manifestos: "Os alunos do Ensino 2. o Tema: O Tema é uma asserção sobre determi- nado assunto. Pode ser uma simples sentença (sujeito e Médio, demonstrando agressividade, inconformismo e descontentamento predicado), um conjunto delas ou um parágrafo. Uma contra a resolução de colocar grades nas escolas, foram, com muita dificul- questão temática incorpora, com maior ou menor inten- dade, convencidos de sua necessidade, pela habilidade de diálogo demons- sidade, o aspecto pessoal atribuído pelo respondente acer- trada por parte dos professores e pelos integrantes da equipe de gestão". 36 37</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Ou, como quer Holsti: "Os rebeldes, em sua sangui- terpretação do conteúdo e dos dados privilegiados em nária, foram facilmente contidos pela habilidade e militar livros, cursos, filmes etc. das forças armadas". Algumas limitações: Estas informações (entre outras) contêm asserções a respeito de duas forças em conflito. O analista precisa ser esta é uma unidade muito ampla que pode apresentar capaz de reduzir essa sentença em seus temas componen- problemas de classificação dos atributos em duas ou mais tes para poder classificá-las em suas respectivas categori- categorias. Por exemplo: um filme cômico de Carlitos e as. "Esse processo de redução de unidades de sentido em unidades intitulado "Tempos Modernos", como poderia ser classi temáticas, desde que não seja bem feito, pode prejudicar seriamente a ficado e categorizado? Cômico? Comédia? Critica? Re- fidedignidade da Para evitar equivocos, prejuizos e limitações sistência? Desconforto? Explicitação da desvalorização é importante que as propriedades estruturais das unidades temáticas da a partir da introdução de práticas estejam precisamente definidas" (Holsti, 1969). Tayloristas? Dominação? Tristeza? Conformismo em 3. o Personagem: Refere-se a pessoas particulares relação a uma nova ordem internacional? Enfim, bus- passíveis de serem classificadas de acordo com diferentes quemos as respostas respeitando as variações indicadores: nível sexo, etnia, educação, contidas em toda e qualquer mensagem.. Isto porque, se escolaridade, nacionalidade, religião etc. desavisados sobre as implicações políticas e sociais de men- sagens produzidas, corremos risco de acreditar que um Esta caracterização, embora não apresente limitações filme considerado como cômico e alienado, ou como uma e/ou dificuldades adicionais é indispensável para a comédia inócua, pode esconder uma intenção, proposital- contextualização dos dados. Mais ainda, é particularmen- mente, interessada em camuflar os componentes reais de te útil em análises de autores de histórias, de dramas, de uma realidade concreta, a ser desvelada a partir de com- biografias, de programas de televisão, de filmes e das preensão, análise e interpretação critica desta mesma re- múltiplas modalidades que podem ser enquadradas nos alidade, que somente pode ser desenvolvida e adquirida veículos de comunicação de massa. mediante 0 Desenvolvimento da Consciência; 4. o Item: É a unidade de registro a ser utilizada quan- é apropriada quando as variações a serem encontradas do um texto, um artigo literário, um livro ou um programa no âmbito das categorias, mesmo que sutis, possam se de rádio são caracterizados a partir de alguns atributos tornar relevantes a partir da análise critica do pesquisa- definidores. Por exemplo: "que assunto é privilegiado no dor. No entanto, se um grande número de subcategorias livro?" "do que se trata?" economia doméstica? turismo? for necessário para identificar variações, é preferivel com- educação? trabalho? drogas?..." e assim por diante. binar as unidades de registro ancoradas no tema com Quando usada conjuntamente com categorias com- aquelas definidoras do item. plementares e bem articuladas, permite julgamentos ex- Quase no encerramento deste capítulo, resta tecer al- tremamente úteis e valiosos para validação dos atributos gumas considerações importantes. Embora, para fins di- implícitos em diferentes mensagens, e pode-se constituir dáticos, os tipos de Unidades de Registro tenham sido em um importante guia de referência para a análise e in- apresentados como unidades estanques e, provavelmen- 38 39</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO te, interpretadas como independentes, vale levar em con- las registradas nos antigos manuais, que abordam este tema, ta que não existe nenhuma razão plausível para endossar com a pretensão de fornecer procedimentos (muitas vezes que um estudo particular se utilize, apenas, de um tipo de importantes e úteis, mas, ao mesmo tempo, iniciantes e res- unidade de registro. tritos) a serem utilizados quando a tarefa que se coloca é Ao contrário, elas podem e devem ser combinadas, Analisar Conteúdo das Mensagens. compartilhadas e inter-relacionadas para garantir a possi- A unidade de contexto deve ser considerada e trata- bilidade de realização de análises e interpretações mais da como a unidade básica para a compreensão da amplas e que levem em conta as variadas instâncias de codificação da unidade de registro e corresponde ao seg- sentido e de significados implícitos nas comunicações orais, mento da mensagem, cujas dimensões (superiores às da escritas ou simbólicas. unidade de registro) são excelentes para a compreensão do significado exato da unidade de registro. "Isto pode, por As Unidades de Contexto exemplo, ser a frase para a palavra e parágrafo para tema" (Bardin, 1977, p. 107). A Unidades de Contexto podem ser consideradas Reiterando que já foi colocado, diríamos que se como "pano de fundo" que imprime significado às torna, indiscutivelmente, necessário fazer referências ao Unidades de Análise. Podem ser obtidas mediante re- contexto próximo ou longínquo da unidade a curso a dados que explicitem a caracterização dos infor- Se vários codificadores trabalham em um mesmo corpus, mantes; suas condições de subsistência; a especificidade ou se diferentes corpus são objetos de análise é imprescin- de suas inserções em grupos sociais diversificados: na fa- dível ou um acordo prévio entre os diferentes mília de origem, no mercado de trabalho, em Instituições codificadores ou uma análise contextual que recupere os consagradas e reconhecidas, sejam elas: religiosas, bene- diferentes contextos das mensagens, levando em conta as méritas, concebidas para divulgação de programas volta- características prévias das mensagens a serem emitidas por dos ao apoio pessoal, ligadas a organismos do Sistema diferentes grupos a serem analisados. "Por exemplo, no caso Nacional ou direcionadas para intercâmbio a ser efetu- da análise de mensagens palavras, tais como liberdade, or- ado junto a organismos Internacionais e assim por diante. dem, progresso, democracia, têm necessidade de contexto A Unidade de Contexto é a parte mais ampla do con- para serem compreendidas em seu verdadeiro significado" (Bardin, teúdo a ser analisado, porém é indispensável para a neces- 1977, p. 107). Da mesma forma, significado de "pro- sária análise e interpretação dos textos a serem decodificados cessos educativos", "avaliação educacional", "capacitação (tanto do ponto de vista do emissor, quanto do receptor) profissional", "projetos", "autonomia da Escola", "aqui- e, principalmente, para que se possa estabelecer a necessária sição de competências", "participação da comunidade" diferenciação resultante dos conceitos de "significado" e entre tantos outros slogans embutidos no vocabulário edu- de "sentido" os quais devem ser consistentemente respei- cacional devem levar em conta e esclarecer, mediante a tados, quando da análise e interpretação das mensagens utilização das unidades do contexto, as contingências disponíveis. Diferenciação esta que ainda não tem sido su- contextuais em que foram produzidos, uma vez que as ficientemente incorporada pelos modernos autores que análises das mensagens emitidas (sejam elas opiniões, re- discutem Análise de Conteúdo e muito menos junto àque- presentações sociais e/ou expectativas) podem variar, sen- 40 41</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO sivelmente, segundo as diferentes e diversificadas dimen- sões de uma unidade de contexto. A determinação das unidades de contexto é presidi- da por dois critérios: custo e a É evidente que CAPITULO 5 uma unidade de contexto alargada, exige uma releitura do meio, mais vasta. Por outro lado, existe uma dimensão ótima, no nível do sentido: se a unidade de contexto for demasiado pequena ou demasi- ado grande, já não se encontra adaptada; aqui, são A ORGANIZAÇÃO DA ANÁLISE determinantes, quer tipo de material, quer quadro De qualquer modo, testar as unidades de contexto em pequenas amostras, a fim de que nos asseguremos que operamos com instru- mentos mais adequados" (Bardin, 1977, p.108). Definidas as unidades analíticas, chega O momen- Incorporando as Unidades de Registro, as Unidades to da organização da análise e da definição de categorias. de Contexto podem ser explicitadas via confecções de Vejamos, em uma primeira instância, os componentes tabelas de Caracterização (sempre acompanhadas de suas previstos para sua Pré-Análise devidas análises); podem ser relatadas sob forma de his- tórias de vida, de depoimentos pessoais, de um conjunto A Pré-Análise de palavras, de um parágrafo ou mesmo de algumas sen- tenças. O importante é ressaltar que qualquer que seja a A pré-análise é a fase de organização propriamente forma de explicitação, fique claro contexto a partir do dita. Corresponde a um de buscas iniciais, de intuições, qual as informações foram elaboradas, concretamente de primeiros contatos com os materiais, mas tem por vivenciadas e transformadas em mensagens personaliza- objetivo sistematizar os "preâmbulos" a serem incorpo- das, socialmente construídas e expressas via linguagem rados quando da constituição de um esquema preciso para (oral, verbal ou simbólica) que permitam identificar desenvolvimento das operações sucessivas e com vistas contexto específico de vivência, no bojo do qual foram à elaboração de um plano de análise. construídas, inicialmente, e, com certeza, passives de trans- formações e reconstruções. Geralmente, esta primeira fase possui três incumbên- cias: a escolha dos documentos a serem submetidos à análise; a formulação das hipóteses e/ou dos objetivos; e a elaboração de indicadores que fundamentem a interpretação final. (Bardin, 1977). Continuando recorrendo a Bardin, acres- centamos: estes três fatores não se sucedem, obrigatoria- mente, segundo uma ordem cronológica, embora se mantenham estreitamente ligados uns aos outros; a esco- lha dos documentos depende dos objetivos da investiga- ção, O alcance dos objetivos só será possível a partir da 42 43</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO disponibilidade dos documentos; os indicadores serão dados e as mensagens comentadas sobre de evasão construídos em função das hipóteses, ou pode até ser que e repetência de um determinado nível de as hipóteses venham a ser construídas em função da iden- Exemplo: objetivo é detectar as representações sociais tificação de certos que professores e alunos desenvolvem sobre as Práticas Em suma, a pré-análise tem por objetivo a organiza- Educativas (em geral) e sobre a Avaliação ção, embora ela própria possa se constituir em um mo- Opta-se, então, pela análise dos discursos e das mensa- mento não estruturado, por oposição à exploração siste- gens que incidam sobre tema mática dos documentos e das mensagens. Estando universo demarcado (o gênero de do- cumentos sobre os quais se vai efetuar a análise), Bardin As atividades da Pré-Análise nos alerta "que é, muitas vezes, necessário proceder-se à consti- tuição de um corpus. corpus é conjunto de documentos Inclui-se aqui: tidos em conta para serem submetidos aos procedimentos analiti- a) A leitura "Flutuante" A primeira atividade da Pré- A sua constituição implica escolhas, seleções e (Bardin, Análise consiste em estabelecer contatos com os documen- 1977, p. 96). tos a serem analisados e conhecer os textos e as mensagens neles contidas, deixando-se invadir por impressões, repre- Eis as principais regras: sentações, emoções, conhecimentos e expectativ. No dizer Regra de Exaustividade de Bardin, "esta fase é chamada de leitura flutuante, por analogia com a atitude do psicanalista. Pouco a pouco, a leitura vai-se tornando Uma vez definido campo do corpus (entrevistas, mais precisa, em função das hipóteses emergentes, da projeção de teorias respostas a um questionário, editoriais, notícias da imprensa, adaptadas sobre material e da possível aplicação de técnicas utiliza- emissões de televisão e etc.) sobre determinado assunto, é das com materiais (Bardin, 1977. p. 96). preciso considerar todos os elementos desse corpus. Mes- mo que se apresentem dificuldades de acesso a impor- b) A escolha dos documentos. A escolha dos documentos tantes informações complementares, sempre será neces- pode ser definida a priori, ou objetivo é determinado pelo pesquisador e, por conseguinte, convém colher sário direcionar todos os esforços para buscá-las, com universo de narrativas adequadas para fornecer informa- objetivo de configurar e esclarecer contexto e as condi- ções sobre problema levantado. ções sociais e políticas presentes e, historicamente, conti- das nas mensagens emitidas. Exemplo: uma secretaria de estado solicita a um grupo de especialistas que explorem e analise recortes divulgados Regra de Representatividade pela imprensa acerca dos dados referentes às condições infra- A análise pode efetuar-se em uma amostra, desde que estruturais das instituições de ensino público, ou sobre material a ser analisado seja demasiadamente "A amostragem pode ser considerada rigorosa se a amostra for uma parte representativa do universo inicial. Neste caso, resultados obti- 1 Este item será aprofundado, posteriormente, quando da discussão do levantamento de hipóteses e da construção de categorias. dos poderão ser generalizados ao todo" (Bardin,1977, p. 97). 44 45</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Para se recorrer à amostragem, é preciso identificar a fase habitual em análise de conteúdo, por outro lado, a distribuição das características dos elementos da amostra. fase ou regra de homogeneidade não se impõe quando Um universo heterogêneo requer uma amostra maior do se trata da análise do conteúdo de um documento único que quando se trata de um universo homogêneo. Se esti- e singular, como, por exemplo, a análise de certas análises vermos trabalhando com alunos de diferentes segmentos monográficas (uma entrevista aprofundada, a estrutura econômicos, teremos necessidade de uma amostra maior de um sonho, a simbologia de uma imagem ou a temática do que aquela que prevê um trabalho direcionado, ape- de um livro). nas, a alunos de um mesmo segmento econômico e soci- c) A formulação das uma hipótese é uma afir- al. Tal como para a sondagem, a amostragem pode fa- mação provisória que nos propomos verificar (confir- zer-se ao acaso ou por quotas (sendo conhecidas as fre- mar, ou não) recorrendo aos procedimentos de análise. das características da população em estudo), re- Trata-se de uma suposição que permanece em suspenso tomando-as na amostra, em proporções reduzidas. enquanto não for submetida à prova de dados fidedig- No entanto, é preciso lembrar que nem todo mate- nos. Sua origem é fornecida por uma instância exterior: rial a ser analisado é à obtenção de uma quadro órico/pragmático no qual nos apoiamos e no amostragem. E, nesse caso, é preferível reduzir próprio âmbito do qual os resultados serão utilizados. Trata-se, universo (e, portanto, alcance da análise) para pois, de hipóteses levantadas a priori. maior relevância, maior significado e maior consistência Simplificando, diz Bardin: "levantar uma é daquilo que é realmente importante destacar e aprofundar interrogarmo-nos: será verdade que, tal como é sugerido pela análise no estudo em questão. a priori do problema e pelo conhecimento que dele possuo, ou como as Regra da Homogeneidade minhas primeiras leituras me levam a pensar, que...?" (Bardin, 1977, p. 98). Os documentos a serem analisados devem ser ho- mogêneos. Isto é, devem obedecer a critérios precisos de Mas, as hipóteses nem sempre são estabelecidas quan- escolha e não apresentar demasiada singularidade que do da pré-análise. Da mesma forma, não é obrigatório extrapole os critérios e os objetivos definidos. Ou seja, ter-se como guia um corpus de hipóteses, para se proceder por exemplo, as entrevistas realizadas para captar mensa- à análise dos dados. Algumas análises podem ser efetuadas gens sobre um determinado tema devem (todas elas) sem hipóteses preconcebidas. Porém, isso não significa dei- conter questões que se refiram ao tema escolhido; as res- xar de utilizar técnicas adequadas e sistemáticas para fazer postas dadas às questões formuladas devem ser obtidas "falar" material selecionado para mediante a utilização de técnicas semelhantes em situa- A propósito do problema da primazia do quadro ções, igualmente, semelhantes; e devem, também, ser rea- de análise sobre as técnicas, e vice-versa, parece-nos opor- lizadas por indivíduos similares. "Esta regra é, sobretudo, uti- tuno recuperar que P. Henry e S. Moscovici deixaram lizada quando se deseja obter resultados globais comparar en- registrado no texto "Problèmes de l'analyse de contenu" tre si resultados individuais" (Bardin, 1977, p. 101). em Langage, Bulletin du CERP, II, Setembro, 1968. Todavia, é importante levar em conta fato de que se, por um lado, a definição de um corpus passa a ser uma 2 Isto é O que sucede, muitas vezes, quando recorremos à 46 47</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Muitos autores parecem privilegiar os procedimentos No entanto, em muitos casos, trabalho do analista é exploratórios (nos quais "o quadro de análise não está de- orientado por hipóteses implícitas. Daí, é preciso destacar terminado" embora levem em conta a evidência das pro- a importância que as interpretações latentes passam a ter priedades dos textos") em relação ao que estes autores no âmbito do processo da análise de conteúdo. São inter- chamam de procedimentos fechados. pretações que não estão, estritamente, ancoradas nas men- sagens emitidas. Mas, mesmo não estando presentes nas Ao comentar os desdobramentos dos procedimen- mensagens a serem analisadas, devem ser consideradas tos fechados P. Henry e S. Moscovici dizem: "por em evi- como informações extremamente relevantes, uma vez que, dência um procedimento fechado, significa iniciar uma investigação a além do recurso à dedução e, muitas vezes, à hermenêutica partir de um quadro empirico ou teórico de análise de certos estados dos sentidos dos textos, concentram a possibilidade de psicológicos, psicossociológicos ou que se tentam par- fornecer interpretações complementares valiosas e na jun- ticularizar, ou, então, a propósito dos quais se formularam hipóteses ção que se estabelece entre a dedução e os mecanismos ou se levantaram questões. Reúnem-se textos... Depois, observam-se de indução, passam a se constituir em elementos úteis para esses textos mediante referencial de um determinado quadro teórico a experimentação de novas hipóteses. preestabelecido que não pode ser modificado... (op.cit.). d) A referência aos indices e a elaboração de indicadores. O Enquanto que os procedimentos de exploração não ape- índice pode ser a menção explícita, ou subjacente, de um nas podem como devem incluir técnicas sistemáticas de tema em uma mensagem. análise, permitem, a partir dos próprios textos, apreen- der as ligações entre as diferentes variáveis, funcionam Em grande parte das investigações, qualquer que segundo o processo dedutivo e facilitam a construção de seja tema explicitado, o mesmo passa a ter mais im- novas hipóteses. portância para a análise dos dados, quanto mais for mencionado. Neste caso, indicador Uma minuciosa leitura do texto dos autores mencio- correspondente será a observada acerca do tema nados nos permite concluir que insistem na e justificam, em questão. Para tal, deve-se recorrer a uma análise quan- muito bem, a necessidade de investir quer nas condições de titativa sistemática para que seja possível identificar a fre- produção ou campo de determinações dos textos no relativa ou absoluta do tema escolhido e a sentido lato (situação de comunicação, meio sociocultural, proporcionalidade de sua menção em relação a outros psicologia individual, valores cognitivos e/ou afetivos etc.), temas igualmente presentes. quer nas relações entre os próprios documentos e as suas condições de produção. Acrescentam, ainda, que os mé- Da mesma forma do que ocorre com conteúdo todos exploratórios sistemáticos concentram a vanta- latente, podem existir temas não explicitamente mencio- gem de poder servir de introdução "aos únicos procedimentos nados, mas subjacentes às mensagens, passíveis de obser- experimentais capazes de apreender as ligações funcionais entre que vação por parte do investigador e cuja de ocor- estes autores chamam de plano vertical (nível de condições de produ- rência passa a ser, também, um elemento indispensável como variáveis independentes) e plano horizontal (nível dos para que se possa efetuar uma análise mais consistente e textos analisados como variáveis dependentes") (op. cit.). uma interpretação mais significativa. 48 49</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO "Por exemplo: supõe-se que a emoção e a ansiedade se manifes- tam por perturbações da palavra, durante uma entrevista. Os indi- ces retidos, tais como: frases interrompidas, repetições, gagueiras, fra- ses incoerentes... e associados às suas respectivas de ocor- CAPÍTULO 6 rência, transforman-se em indicadores do estado emocional subjacente do emissor" (Mahl, 1969, p. 100). Uma vez escolhidos os índices, procede-se à constru- ção de indicadores seguros e precisos. Geralmente, AS CATEGORIAS DE ANÁLISE certificamo-nos da eficácia e pertinência dos indicadores testando-os em alguns recortes de textos ou em alguns elementos dos documentos, via pré-teste da análise. Definidas as unidades de análise, chega momento da definição das categorias. A é uma operação de classificação de ele- mentos constitutivos de um conjunto, por diferenciação seguida de um reagrupamento baseado em analogias, a partir de critérios definidos. "O critério de categorização pode ser semântico (categorias temática: por exemplo, todos os temas que signifiquem ansiedade ficam agrupados na categoria "ansiedade", enquanto que os que signifiquem a descontração ficam agrupados sob 0 conceitual "descontração" (Bardin, 1977). Além disso, critério de categorização também pode ser sintático (os verbos, os adjetivos) ou léxico (classificação das palavras segundo seu sentido, com emparelhamento dos sinônimos e dos sen- tidos próximos) ou, ainda, expressivo (por exemplo, cate- gorias que podem ser classificadas como diversas pertur- bações da linguagem) (op. cit.). Em verdade, a criação de categorias é ponto crucial da análise de conteúdo. No dizer de Holsti, "A análise de conteúdo se sustenta ou não por suas categorias" (Holsti, 1969). Formular categorias, em análise de conteúdo, é, por via de regra, um processo longo, difícil e desafiante. 50 51</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Mesmo quando problema está claramente defi- verificar quanto as experiências de aprendizagem, tal nido e as hipóteses (explícitas ou implícitas) satisfatoria- como previstas e executadas, favorecem 0 alcance dos re- mente delineadas, a criação das categorias de análise exige sultados desejados; grande dose de esforço por parte do pesquisador. Não efetuar um julgamento de tendo como existem "fórmulas mágicas" que possam orientá-lo, nem parâmetros objetivos educacionais já fixados e em razão é aconselhável estabelecimento de passos apressados dos quais serão apreciados os resultados a serem obti- ou muito rígidos. Em geral, pesquisador segue seu pró- dos... e assim por prio caminho baseado em seus conhecimentos e guiado por sua competência, sensibilidade e intuição. As respostas que expressarem esta postura (já desmembrada em categorias) serão classificadas em uma Esse longo processo da definição das categorias ou mais delas e serão indicativas (indicadoras) da presença -, na maioria dos casos, implica constantes idas e vindas de uma concepção próxima à de Tyler entre os professo- da teoria ao material de análise, do material de análise à res pesquisados. Se diretor quiser saber quanto dessa teoria, e pressupõe a elaboração de várias versões do sis- aproximação, pode quantificar em termos de tema categórico. As primeiras, quase sempre aproximati- absolutas ou relativas, conforme número dos enuncia- vas, acabam sendo lapidadas e enriquecidas para dar ori- gem à versão final, mais completa e mais satisfatória. dos que couberem nas categorias. Afirmações e respostas de outros tipos serão desprezadas, por não se encaixarem Para a elaboração de categorias existem dois cami- em nenhuma das categorias criadas para responder a um nhos que podem ser seguidos: interesse bastante específico do investigador. 1. Categorias criadas a priori. Neste caso, as categorias 2. As categorias não são definidas a priori. Emergem e seus respectivos indicadores são predeterminados em da "fala", do discurso, do conteúdo das respostas e impli- função da busca a uma resposta específica do investiga- cam constante ida e volta do material de análise à teoria dor. Por exemplo, vamos supor que um diretor de escola esteja interessado, apenas, em saber até que ponto seus Serão tanto mais ricas quanto maior for a clareza con- professores apóiam-se na proposta difundida por Tyler e ceitual do pesquisador e seu respectivo domínio acerca seus seguidores sobre Avaliação Para tal, de diferentes abordagens teóricas. solicita aos professores que respondam, por escrito, a se- Nesse processo, inicia-se pela descrição do significa- guinte questão "Qual é a função da avaliação?". ou que do e do sentido atribuído por parte dos respondentes, serve a avaliação?" Concomitantemente, recorrendo aos salientando-se todas as nuanças observadas. pressupostos que indiquem uma avaliação centrada em objeti- vos, define categorias que atribuem à avaliação papel de: Prossegue-se com a classificação das convergências e respectivas divergências. verificar se objetivos educacionais estão sendo atingidos pelo programa de ensino; Feito isto com algumas respostas (uma amostra), co- fornecer informações quanto ao desempenho do aluno em meça-se a criar um código para a leitura (sempre aberto a face dos objetivos esperados; novas categorias) dos demais respondentes. 52 53</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO As categorias vão sendo criadas, à medida que sur- quantidade de perguntas, indagamos "quais teriam sido gem nas respostas, para depois serem interpretadas à luz principais problemas vivenciados como ex-alunos dessas escolas" das teorias explicativas. Em outras palavras, conteúdo, (Franco, 1998). que emerge do discurso, é comparado com algum tipo Inicialmente, classificamos as respostas em categorias de teoria. Infere-se, pois, das diferentes "falas", diferentes de menor amplitude e, em seguida, sem nos afastar dos concepções de mundo, de sociedade, de escola, de indi- víduo etc. significados e dos sentidos atribuídos pelos respondentes, criamos marcos interpretativos mais amplos para Implicações de ambas opções reagrupá-las. No primeiro caso (categorias criadas a prior), a ten- Mediante este procedimento, as categorias iniciais, frag- dência é levar a uma simplificação e a uma fragmentação mentadas e extremamente analíticas, passaram a ser muito grande do conteúdo manifesto. Além disso, pes- indicadoras de categorias mais amplas que, ao serem for- quisador, muitas vezes, se vê induzido a imprimir uma muladas, passaram, igualmente, a incorporar pressupos- tos teóricos. na fala dos respondentes, procurando indícios daqui e dali para classificar as respostas em seu A Tabela 1, a seguir, ilustra resultado do procedi- sistema categórico. mento que acabamos de relatar. Por outro lado, trabalhar com um sistema aberto (ca- tegorias criadas a posterior), como já dissemos, exige mai- or bagagem teórica do investigador. Do ponto de vista operacional, gera uma tendência de se iniciar trabalho, criando-se uma grande quantida- de de categorias. Às vezes, principalmente os iniciantes abrem uma categoria para cada resposta. Isso, também, fragmenta discurso e prejudica a análise das convergências. Redunda uma grande quantidade de dados e prejudi- ca a análise do todo. Quando isto ocorrer, é importante encontrar alguns princípios organizatórios, que seriam as categorias mais amplas ou molares, para depois classificar os indicadores (categorias moleculares) em módulos interpretativos menos fragmentados. Por exemplo, em pesquisa por nós desenvolvida junto a egressos de três escolas agrotécnicas e dentre uma boa 54 55</p><p>sop 0'8 ep - 0'81 0'6 op 9W 9W 3 0'21 0'21 - a 0'61 no 3 D was op so 0'61 - oa % % 1 8</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO na escola e encaminhamento dado em busca de sua ção e de envolvimento com os pais. São novas categorias solução. que emergem da "fala" dos entrevistados e que devem Já de início, um dos primeiros entrevistados ser incorporadas à análise que se torna, em mais rica e relevante. alunos da série do curso noturno do Ensino Médio. Outro dia, resolveram abrir clas- Principais requisitos para a criação de categorias ses noturnas para as e séries do Ensino Fundamental. como não havia espaço su- Existem boas e más categorias. Assim como para a ficiente, nos tiraram de nossas salas de aula e constituição do corpus de análise, torna-se necessário res- nos colocaram em barrações sem janelas, mal peitar algumas regras, um conjunto de categorias iluminados, sem lousa e sem nada. Fomos che- satisfatórias deve possuir as seguintes qualidades: gando na escola e fomos comunicados que A exclusão princípio de exclusão mútua de- ir para os barrações. Não gosta- pende da homogeneidade das categorias. Um único prin- mos da história e decidimos protestar. Escre- cípio de classificação deve orientar sua organização. "Em vemos um manifesto, mandamos para a dire- um mesmo conjunto categorial, só se pode funcionar com um registro tora, mas não deu em nada! Então, resolvemos e com uma dimensão de Diferentes níveis de análise devem ser fazer greve. Combinamos que todo separados em outras tantas análises sucessivas" (Bardin, 1977). deveria comparecer na escola, no horário cer- to, mas ninguém podia entrar nos barrações A pertinência: Uma categoria é considerada pertinen- para assistir às aulas. A gente tinha que ficar de te quando está adaptada ao material de análise escolhido fora, sentados no pátio, quietos e sem fazer e ao quadro teórico definido. O sistema de categorias bagunça... Isto também foi combinado. Rece- deve, também, refletir as intenções da investigação, as bemos, então, a visita da diretora que falou que questões do analista e/ou corresponder às se a gente continuasse a ficar de fora, não cas das mensagens. para as aulas e não aceitar a decisão da coorde- A objetividade e a Estes princípios, tidos nação e da Secretaria, iria haver suspensão em como muito importantes no início da história da análise massa e nós tínhamos que ir embora da escola, de conteúdo, continuam sendo válidos. A esse respeito, ficaríamos reprovados, por falta, e nossos pais os comentários de vários autores são esclarecedores. As seriam avisados..." diferentes partes de um mesmo material, ao qual se aplica A partir desse relato a pesquisadora já consegue saber uma determinada matriz de categorias, devem ser codifi- que a participação dos alunos na solução do problema cadas da mesma maneira, mesmo quando submetidas a foi nula, na medida em que entrevistado diz "fomos comu- várias análises. "As possíveis distorções devidas à extrapolação da nicados de que deveriamos ir para os No entanto, subjetividade dos codificadores e à variação individual de juizes não descobre, também, novos dados: houve reação: "escrevemos serão produzidas se a escolha e a definição das categorias forem bem um manifesto, fizemos greve". E, finalmente, percebe a existên- estabelecidas" (White, 1971 p. 121). cia autoritária da repressão quando os alunos foram amea- Finalmente, gostaríamos de acrescentar às condições çados de suspensão em massa, de expulsão, de reprova- geralmente prescritas para a construção de "boas" cate- 58 59</p><p>ria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO rias, uma qualidade mais qual seja: a produ- idade. Um conjunto de categorias é produtivo desde e concentre a possibilidade de fornecer resultados fér- Férteis em índices de inferências, em hipóteses novas CAPÍTULO 7 em dados relevantes para aprofundamento de teorias para a orientação de uma prática construtiva e insformadora. UM EXEMPLO DA UTILIZAÇÃO DA ANÁLISE DE CONTEÚDO NA REALIZAÇÃO DE UMA PESQUISA EM EDUCAÇÃO A pesquisa e seus objetivos O exemplo que escolhemos para ilustrar a utiliza- ção do procedimento de Análise de Conteúdo foi um trabalho de pesquisa de Carelli (2002) realizado durante O primeiro semestre de 2001, com 20 alunos da série do Ensino Fundamental com idade variando de 9 e 11 anos, sendo 12 do sexo masculino e oito do sexo feminino. Na sua maioria, filhos de migrantes nordestinos em busca de trabalho e/ ou trabalhando no litoral norte do Estado de São Podendo ser enquadrada na modalidade de "pes- teve por objetivo propor estratégias diversificadas (no caso, "contar histórias") e sempre res- peitando e incluindo a participação da professora da clas- se, pretendeu promover, no âmbito escolar, o incremen- to do prazer de Ler e, a aquisição mais qualificada da Habilidade de saber Ler e Escrever, por parte dos alunos das primeiras séries do Ensino Funda- mental. 60 61</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Os procedimentos, a pré-análise e a Quadro 2: Respostas das crianças à questão: Você gosta de criação de categorias ouvir histórias e por quê? (Alunos registrados pelos números de 1 a segundo a ordem cronológica das entrevistas.) Alunos Respostas Entre outras atividade e de acordo com previsto 1 porque quando a gente pega uma história e começa a ler, a gente vai aprender mais coisas para a coleta de dados, a pesquisadora, inicialmente, utili- 2 Gosto, porque eu acho interessante 3 porque eu acho bom zou-se do recurso de uma entrevista semi-estruturada para 4 Gosto, porque depois que uma pessoa conta uma história para mim eu conto para obter respostas às seguintes questões: mim eu conto para eu escuto uma história depois conto para minha para minhas que eu não falo com as mesmas letras porque eu esqueço 5 porque é muito importante. História é muito boa para a gente aprender Você gosta de ouvir histórias? Por quê? alguma coisa 6 porque as histórias são muito legais para mim Pergunta feita com objetivo de inferir até que pon- 7 Gosto, porque a gente aprende mais 8 Gosto, porque é legal to contar e ouvir histórias poderia significar um proce- 9 Gosto, porque é legal dimento adequado para despertar interesse pela leitura 10 Gosto, porque é legal 11 e escrita. Gosto, porque eu acho muito bonito 12 porque é legal Quem conta histórias para você e onde? 13 Gosto, porque é Porque a professora conta é gostoso 14 porque é legal Pergunta feita para identificar outros possíveis espa- 15 Gosto, para aprender a ler outras pessoas que preencham esta lacuna, para 16 porque eu acho interessante 17 porque eu acho legal além da professora e do ambiente escolar 18 porque eu acho legal 19 Gosto. porque é legal Por que precisamos saber ler? 20 porque a gente fica escutando enquanto outro Questão importante para identificar os motivos, as finalidades e a importância da leitura, na condição de atri- Prosseguindo, a pesquisadora elaborou butos, explicitados pelas crianças, que dizem respeito à Quadro 3: Transcrevendo as respostas dos alunos e relativas aquisição da habilidade de saber ler e escrever. à questão "Quem conta histórias para você e onde?" A partir das respostas obtidas, a pesquisadora pas- Alunos Respostas sou a construir quadros ilustrativos para facilitar os pro- 1 Tem algumas vezes que a minha mãe me conta e eu pego e conto cedimentos de agrupamentos, de classificações, de pré- de volta para ela. Do em Ela CO nta todos os dias e depois eu conto para ela de volta análise, procedimentos, estes, vistos como indispensáveis 2 meu meu primo, a minha No quarto De vez em quando 3 A Em casa ninguém conta. e fundamentais para auxiliar a posterior criação de cate- 4 A minha avó e a minha Contam de vez em Na minha casa ou gorias e, a efetiva possibilidade de in- quando eu you na casa da minha E quando tem dia de chuva, a gente fica lá em casa. Dai a minha mãe conta ferir, analisar e interpretar os dados a serem submetidos à 5 Mais a minha mas em casa meu pai é mais chegado em De vez em ele conta como era a vida assim como era a vida uma Análise de dele antes Vejamos os quadros elaborados: 1 O cuidado com a identificação de registro é um importante facilitador para associação e interpretação dos dados em contexto. 62 63</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Continuação Continuação 6 Tem vezes que é a minha prima que conta para Agora ela não está mais 15 Para quando a professora der a lição eu poder fazer contando porque ela foi embora. Agora é a professora que me conta histórias 16 Senão quando a gente for trabalhar e a pessoa perguntar: você sabe ler? quem 7 Minha meu pai e a minha Quando a gente vai dormir, eles contam não souber não vai poder trabalhar De vez em quando, porque, às vezes, eles chegam cansados e dormem 17 também Não sei para que Acho que é porque a professora quer 8 A professora. Em casa os meus irmãos me contam vezes 18 Para a gente saber mais 9 Meus irmãos, meu pai, meus primos. Quando meu primo vai dormir lá em ele 19 Para poder tirar carta de motorista e para quando tiver alguma coisa para ler a conta no quarto gente conseguir ler 10 A professora. Em casa meu pai, minha mãe e a minha De vez em quando 20 Para aprender e passar de série 11 Meu pai mora em São Paulo. Então, de vez em quando, é a minha mãe 12 Minha minha meu pai. Eles contam sempre. Na minha casa ou quando you na casa da minha avó 13 Na minha casa Eu leio para meu Na escola, a professora Conhecidas as respostas dos alunos, elas passam a se 14 Eu mesmo. Só a professora constituir em indicadores para a próxima tarefa: qual seja, a 15 A Minha criação de categorias. 16 A professora. Na minha casa, ninguém conta histórias 17 Eu mesmo Para isso, a pesquisadora que estava trabalhando com 18 A professora. Na minha casa ninguém me conta histórias 19 A professora Maira e, às a Na minha casa, minha me conta tema como unidade de registro, foi em busca do signifi- histórias cado e do sentido das asserções explicitadas e, valendo-se 20 Minha Não na hora de dormir ela Ela conta todos os dias de seu referencial teórico, buscou classificá-las em categori- E, as molares. Na medida em que, também, estava interessada em saber a intensidade do aparecimento dos diferentes significados decidiu quantificá-los, Quadro 4: "Por que precisamos saber ler?" utilizando-se de absolutas e relativas. (Seguindo mesmo procedimento e a elaboração de mais um Quadro) Foram, pois, elaborados as Tabelas que se seguem e Alunos Respostas que explicitam as categorias criadas e alguns de seus indi- 1 Porque senão a gente vem para a escola e a professora a gente na frente para cadores ilustrativos. ler e a gente não sabe e passa maior carão. Eu já por Eu não sabia ler na primeira (série) 2 Porque a gente pode estar perdido em uma cidade, passa ônibus a gente perde Obs.: Além disso, após a apresentação de cada uma porque não sabe Também quando os outros mandam a gente ler e a gente não sabe das Tabelas, é recomendável redigir uma análise prelimi- 3 Para aprender as coisas nar de seus respectivos conteúdos, para auxiliar em uma 4 Porque a gente pode in que, por exemplo, se você não souber ler você não pode fazer uma assinatura que precisar. Se você não souber ler você também não vai saber escrever posterior análise contextualizada e para uma efetiva inter- Por exemplo, se eu chego em um lugar a pessoa manda eu ler e eu não sei, ai eu passo Porque muitas pessoas perguntam, você está andando na rua e pretação dos dados, bem como para a redação de uma 5 te perguntam "olha aquela placa para a gente fica com a maior cara de pau se disser que não Até minha mãe que não sabe ler nada, diz que é síntese conclusiva, com vistas à compatibilização intra e muito dificil viver sem saber ler Mas, eu saber ler e escrever entre dados e sua necessária adequação em relação aos 6 Para poder in ao banco e faze r Ler um que está Quando você for você sabe muitas coisas objetivos propostos pela pesquisa e pelo pesquisador. 7 Para a gente aprender e poder ser alguém na vida 8 Para não ser burro Vejamos, pois, as Tabelas. 9 Para poder trabalhar em algum lugar que precisa saber ler e tem que estudar 10 Para aprender 11 Para aprender, porque quando a professora pedir para a gente ler a gente sabe ler 12 Para contar histórias 13 Para quando precisamos assinar alguma Saber que estamos assinando 14 Para trabalhar de advogado, no Exército, na Marinha, na Policia 64 65</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO Tabela 2: Distribuição dos motivos explicitados pelos Tabela 3: Distribuição das respostas (n° %) explici- alunos para justificar porque gostam de ouvir histórias tadas nas entrevistas em relação a quem conta histórias, onde e com que ALUNOS % MOTIVOS EXPLICITADOS ALUNOS % RELACIONADOS SITUAÇÃO DE ENSINO/APRENDIZAGEM 04 20 SITUAÇÕES EXPLICITADAS é muito importante para aprender alguma coisa porque a gente aprende mais coisas para aprender a ler SITUAÇÕES RELACIONADAS AO CONTEXTO FAMILIAR (FREQUENTE) 03 15 minha ela conta todos os dias e depois em conto para ela a história RELACIONADOS A SITUAÇÕES DE ENTRETENIMENTO E PRAZER minha mãe, minha meu pai, eles contam sempre, na minha casa ou quando 14 70 eu you na casa da minha avó porque eu acho interessante minha mãe, ela conta quase todos os dias porque eu acho porque as são muito legais para mim porque eu acho muito bonito SITUAÇÕES RELACIONADAS AO CONTEXTO FAMILIAR (ESPORÁDICO) 08 40 porque a professora conta e é gostoso minha avó e minha mãe, quando tem dia de chuva a gente fica lá em casa ouvindo histórias MOTIVOS LIGADOS INTERAÇÃO ENTRE PARES o meu pai é mais chegado em de vez em quando ele me conta histórias 02 10 de sua vida gosto, porque depois que uma pessoa conta uma história para mim eu conto para eles me contam histórias quando não chegam cansados em casa outra algumas vezes, o meu tio. o meu primo e minha me contam no quarto deles quando eu escuto uma epois eu conto para minha para minhas em de vez em quando, os meus irmãos me contam histórias colegas, só que eu não falo com as mesmas porque eu esqueço minha prima me contava quando estava aqui, agora ela foi embora e não tem mais porque a gente fica escutando enquanto o outro histórias em casa porque eu escuto e depois conto como eu sei SITUAÇÕES RELACIONADAS AO CONTEXTO ESCOLAR 11 55 Obs.: as porcentagens foram calculadas a partir do total de motivos a em casa conta a minha professora explicitados e não a partir do número de agora é a professora que me conta histórias só a professora a Professora a Diretora Como pode ser observado, em sua maioria (70%), O NINGUÉM 01 05 ouvir história está ligado ao prazer, ao lúdico, e em 10% eu mesmo das respostas acrescentam-se a este prazer a relação entre Obs.: as porcentagens foram calculadas a partir do total de motivos pares: a escuta e a fala, ouvir e contar. Esta constatação explicitados e não a partir do número de pode, a princípio e erroneamente, levar leitor a inferir que contar apresenta-se como uma atividade desvinculada das reais necessidades de aprendizado strictu Considerando as precárias condições familiares em que sensu, uma vez que, neste caso, ela aparece em apenas 20% estão inseridos os alunos investigados, é possível compre- dos casos. No entanto, em nosso entender, prazer, ender os dados categorizados na Tabela 3. Ou seja, 55% lúdico, a interação e diálogo concentram uma grande (um pouco mais do que a metade) declaram que as situa- possibilidade no que diz respeito ao desenvolvimento efe- ções de ouvir histórias estão unicamente concentradas no tivo do aluno em sua caminhada em busca da aquisição contexto escolar. Além disso, mesmo quando constatamos, das habilidades e competências de ler e escrever. em 40% dos casos, que essas situações estão, também, rela- cionadas ao contexto familiar, observamos que as mesmas ocorrem de maneira esporádica. É diminuto número de respostas (3,15%) indicativas da oportunidade de "ouvir histórias" no contexto familiar e/ou em seus desdobramentos. Neste sentido, reiteramos O impor- tante papel da escola, a necessidade de infra-estrutura ade- 66 67</p><p>Maria Laura Puglisi Barbosa Franco ANÁLISE DE CONTEÚDO quada como bibliotecas, livros diversificados e a valoriza- Como se observa na Tabela 4, 55% das respostas in- ção do professor quando a meta é a democratização do cidem na categoria que explicita motivos ligados estrita- ensino, bem como O desenvolvimento integral das crianças mente à situação de Por outro lado, que tanto confiam e precisam da escola. é igualmente expressiva (45%) a ocorrência de motivos vinculados às necessidades básicas de Além Tabela 4: Distribuição dos motivos explicitados pelos disso, há que se considerar as respostas vinculadas à pre- alunos para justificar porque precisamos saber ler servação da auto-estima (20%) e aquelas relacionadas às ALUNOS expectativas de realização profissional e pessoal (15%). % MOTIVOS EXPLICITADOS Sem dúvida, essas outras categorias extrapolam âmbito restrito do saber e do aprender e vinculam-se a compo- MOTIVOS LIGADOS ÀS NECESSIDADES BÁSICAS DE SOBREVIVÊNCIA 09 45 para assinar papeis nentes práticos, operacionais e fundamentais para a so- ler uma placa na rua in ao banco e conseguir ler um cheque brevivência em numa "sociedade letrada", e mais, apon- para poder trabalhar em algum lugar precisa saber ler para quando precisarmos assinar alguma coisa saber o que estamos assinando tam para e reiteram a importância dos aspectos psicos- para poder tirar carta de motorista quem não souber ler vai perder a vaga de um trabalho para quem sabe ler sociais e emocionais a serem respeitados e resguardados porque a gente pode estar perdido em uma cidade, passa ônibus a gente perde porque não sabe ler no âmbito das expectativas daqueles que querem e preci- sam "saber ler e escrever!" MOTIVOS RELACIONADOS ESTRITAMENTE À SITUAÇÃO DE ENSINO/APREN-DIZAGEM 11 55 para quando a professora pedir para fazer a lição para conseguir ler na lousa para conseguir ler para os outros colegas para passar de série para aprender para estudar para saber mais se você não souber ler você também não vai saber escrever AUTO-ESTIMA 04 20 para não ser burro porque senão a gente vem para a escola a professora a gente na frente para ler e a gente não sabe e passa maior carão quando os outros mandam a gente ler e a gente não sabe passa vergonha MOTIVOS RELACIONADOS ÀS EXPECTATIVAS PROFISSIONAIS E PESSOAIS 03 15 Para ser professor para trabalhar de advogado, no Exército, na Marinha, na para a gente ser alguém na vida Obs.: as porcentagens foram calculadas a partir do total de motivos explicitados e não a partir do número de Mesmo que a Representação acerca do poder da es- cola possa ser considerada como um componente real, histórico, oportuno e construído socialmente como ele- mento indispensável para O desenvolvimento individual daqueles que a outros elementos devem, tam- bém, ser considerados, tendo em vista as respostas dadas à pergunta "por que precisamos saber ler?" 68 69</p><p>ANÁLISE DE CONTEÚDO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARDIN, J. 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