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<p>Irandé Antunes lutar NA PONTA DA LÍNGUA 1. Estrangeirismos - guerras em torno da língua PALAVRA Carlos Alberto Faraco [org.], ed. 2. materna - letramento, variação e ensino Marcos Bagno, Michael Stubbs & Gilles Gagné, ed. coesão e coerência 3. História concisa da linguística, Barbara Weedwood, ed. 4. Sociolinguistica - uma introdução crítica, Louis-Jean Calvet, 3* ed. 5. História concisa da escrita, Charles Higounet, ed. 6. Para entender a linguística - epistemologia elementar de uma disciplina Robert Martin, ed. 7. Introdução aos estudos culturais, Armand Mattelart, Neveu, ed. 8. A pragmática, Françoise Armengaud, ed. 9. História concisa da semiótica, Anne Hénault, ed 10. A Irène Tamba, ed. 11. Linguística computacional - teoria & prática Gabriel de Ávila Othero e Sérgio de Moura Menuzzi 12. Linguística histórica - Uma introdução ao estudo da história das línguas, Carlos Alberto Faraco, ed. 13. Lutar com palavras - coesão e coerência, Irandé Antunes, ed. 14. Análise do discurso - História e práticas, Francine Mazière, ed 15. Mas 0 que é mesmo Carlos Franchi, ed. 16. Análise da conversação: e métodos, Catherine Kerbrat-Orecchioni 17. As políticas linguísticas, Louis-Jean Calvet 18. Práticas de letramento no ensino: leitura, escrita e discurso, ed. Carlos Alberto Faraco, Maria do Rosário Gregolin, Gilvan Müller de Oliveira, Telma Gimenez, Luiz Carlos Travaglia 19. Relevância social da linguística: linguagem, teoria e ensino Luiz Percival Leme Britto, Marcos Bagno, Neiva Maria Jung, Esméria de Lourdes Saveli, Maria Marta Furlanetto 20. Todo mundo devia escrever, Georges Picard 21. A argumentação, Christian Plantin</p><p>A COESÃO E A COERÊNCIA das palavras teria sido proposital, e é ela que funciona como 0 signo, como a instrução visível do que se quer dizer. No caso, ainda, o "sentido" do poema não está nos "sentidos" do que está explicitado. Está na forma como as coisas foram ditas; melhor dizendo, está na desorganização da forma como as coisas foram ditas. CAPÍTULO 10 Tudo isso, para que se conseguisse dizer, de um jei- A COESÃO E A COERÊNCIA to bem particular, que os amantes veem para além das aparências das coisas; que os amantes perdem o sentido unívoco das coisas; veem numa outra ordem; enxergam os significados mais obtusos; subvertem a Subi a porta e fechei a escada. ordem natural das coisas. Tirei minhas orações e recitei meus sapatos. Mas, trazendo esse texto para o âmbito do lin- Desliguei a cama e deitei-me na luz guístico, da composição do texto propriamente, como fica a questão de sua coesão e de sua coerência? Tudo porque Evidentemente, sabemos tratar-se de um texto Ele me deu um beijo de boa noite... poético; um de texto em que podemos exercitar (AUTOR ANÔNIMO) à exaustão nossa capacidade de transcender os limites Seria este texto É possível desco- impostos pela realidade, pelas lógicas todas e, consequen- brir nele alguma ponta de sentido? Melhor dizendo, temente, fugir às determinações das gramáticas e dos é possível recuperar alguma unidade de sentido ou valores semânticos das palavras, sem fugir, no entanto, de intenção? Serve para "dizer" alguma coisa? Se à determinação de ser coerente, de fazer sentido. serve, como encarar o fato de as palavras estarem Ou seja, o texto em análise é coerente, faz sen- numa arrumação linear que resulta sem sentido? A tido. Não pela linearidade de sua composição nem porta sobe? A gente fecha a escada? A gente tira as pela padronização de sua sequência. Mas, exatamente, orações e recita os sapatos? A gente desliga a cama porque quebra essa linearidade; porque viola essa e se deita na luz? padronização com uma função comunicativa definida, Ou o que se pretendeu dizer consta exatamente buscando um efeito comunicativo particular. nessa desarrumação das palavras? No caso, a desordem Vale acrescentar, no entanto, que esse texto é coerente não porque, simplesmente, é um texto 1 Li este texto para uma jovem, que, atenta, escutou-o e poético. Ele é coerente porque se pode, por uma via arrematou, simplesmente: "Que lindo!" qualquer, recuperar uma unidade de sentido, uma 174 175</p><p>LUTAR COM PALAVRAS: COESÃO E COERÊNCIA A COESÃO E A COERÊNCIA unidade de intenção. Poderia não ser um texto poé- que dizer e como fazê-lo, é sempre dos interlocutores, tico; ainda assim, seria um texto coerente, embora conforme seus interesses interacionais em cada cir- requisitasse uma leitura especializada, uma leitura cunstância. Nós é que comandamos, é que escolhemos que ultrapassasse a mera recuperação dos sentidos como dizer, embora, em todos contextos, haja sempre isolados de cada palavra. alguma determinação linguística inviolável. Não existe, A coerência não é, portanto, uma propriedade portanto, uma coerência absoluta, pura, idealizada, de- estritamente linguística nem se prende, apenas, às finida fora de qualquer situação. A coerência depende determinações meramente gramaticais da língua. Ela de cada situação, dos sujeitos envolvidos e de suas supõe tais determinações linguísticas; mas as ultra- intenções comunicativas, como tudo o mais em relação passa. E, então, o limite é a funcionalidade do que à língua (ou relação à vida dos fatos sociais). é dito, os efeitos pretendidos, em função dos quais Pelas considerações feitas acima, já poderíamos escolhemos esse ou aquele jeito de dizer as coisas. supor que as relações entre a coesão e a coerência Em síntese: a coerência é uma propriedade que são bastante estreitas e interdependentes. Quer dizer, tem a ver com as possibilidades de o texto funcionar não há uma coesão que exista por si mesma e para como uma peça comunicativa, como um meio de intera- si mesma. A coesão é uma decorrência da própria ção verbal. Por isso, ela é, em primeira mão, linguística. Não se pode avaliar a coerência de um texto sem se continuidade exigida pelo texto, a qual, por sua vez, ter em conta a forma como as palavras aparecem, ou a é exigência da unidade que dá coerência ao texto. ordem de aparição dos segmentos que o constituem. O Existe, assim, uma cadeia facilmente reconhecível texto supõe uma forma material, e essa forma material entre continuidade, unidade e coerência. De maneira supõe uma organização padronizada, definida. que é artificial separar coesão e coerência, assim como Só que aparato linguístico que o texto assu- é artificial separar forma de conteúdo, ou sintaxe de me vai depender também do que se pretende dizer semântica, por exemplo. O máximo que se pode dizer é e de como se pretende interagir com o interlocutor. que a coesão está em função da coerência, no sentido Isso equivale a admitir que a coerência do texto é: de que as palavras, os períodos, os parágrafos, tudo, linguística, mas é, também, contextual, extralinguís- qualquer segmento se interliga no texto para que ele tica, pragmática, enfim, no sentido de que depende faça sentido, para que ele se torne interpretável. Se também de outros fatores que não aqueles puramente nos valemos de repetições, de substituições, de elipses, internos à língua. de conectores etc., é para que aquilo que dizemos Esse aspecto revela, ainda, que não é a língua possa ter um sentido e uma intenção reconhecidos. que comanda totalmente nossas atuações Pelo Para isso, até nos podemos valer de uma ordem contrário, a decisão última, em qualquer texto, sobre o das palavras totalmente inusitada, como no caso do 176 177</p><p>LUTAR COM PALAVRAS: COESÃO E COERÊNCIA A COESÃO E A COERÊNCIA poeminha que abre esse capítulo, contanto que essa coesivos apontados por outros autores (veremos isso nova ordem preencha também a condição de ser um logo mais adiante). recurso para se dizer algo inteligível. Ou seja, parece mais produtivo não se prender a Vale a pena lembrar ainda que a continuidade e a essas diferenciações entre propriedades tão interligadas unidade textuais de que falamos aqui não se justificam e tão intercondicionantes. Cuidemos, isso sim, para que por si mesmas. Elas são decorrência do próprio aparato façam sentido as coisas que dizemos ou que escreve- cognitivo com que processamos as informações e as mos. A arrumação das palavras vai vir por demanda; estocamos em nossa memória. De fato, conhecemos as vai vir na esteira de nossas pretensões, como quem se coisas e as agrupamos em blocos congruentes, conforme descreveu subindo a porta e fechando a escada. essas coisas se apresentem como itens que guardam Não é que as duas propriedades se confundam, características comuns. A arrumação aleatória dos no sentido de que não se possa defini-las. O que não é fatos, dos significados em nossa memória anda longe possível, ou, pelo menos, não parece muito produtivo, de ser um procedimento comum. é que queiramos demarcar com precisão onde acaba Essa determinação cognitiva vai refletir-se, con- uma e começa a Por sinal, são muitas as coisas sequentemente, na arrumação também coesa (e não que, em linguagem, não se pode chegar a delimitações aleatória) das unidades com que construímos nossos rígidas. (Ainda bem que nos sobrou a linguagem...) textos; e essa arrumação coesa corresponde a uma Vamos às tais regras da coerência propostas por das condições para que as coisas que dizemos tenham Charolles. sentido, o que é o mesmo que dizer: para que nossos Antes de apresentar o conjunto de regras, Charol- textos sejam coerentes. les fala da necessidade de uma certa "ordem" quanto Tal interdependência entre a coesão e a coerên- à combinação de um conjunto de morfemas para que cia ou essa quase impossibilidade de estabelecer possam constituir uma frase. Assim, tal ordem aparece entre elas limites inconfundíveis foi comumente na língua sob a forma de prescrições imperativas e sentida por muitos estudiosos da linguística de texto. implícitas, a partir das quais o falante pode reconhecer Por exemplo, para Halliday & Hasan, tudo é coesão; uma frase como pertencendo ou não à sua pelo menos, em seu livro Cohesion in English (1976), Todo falante tem uma consciência intuitiva e uma em apenas pouquíssimas passagens, eles falam em prática imediata dessas prescrições. coerência. Por outro lado, Charolles (1978), linguista Acontece que tais princípios, válidos para a frase, europeu que propôs algumas regras da coerência, se aplicam também ao texto. Ou seja, assim como um o faz sem se referir à questão da coesão, embora inclua, entre as regras da coerência, determinações 2 Essas prescrições da língua podem ser explicitadas por uma que coincidem claramente com alguns dos recursos gramática descritiva. 178 179</p><p>LUTAR COM PALAVRAS: COESÃO E COERÊNCIA A COESÃO E A COERÊNCIA conjunto qualquer de palavras não constitui uma frase, trutural (ou pontual), ambas correspondendo a dois um conjunto qualquer de frases não constitui um texto. níveis distintos de organização do texto. O primeiro, Tal como para o plano da frase, existem critérios que o global, concerne às relações que se estabelecem regulam a boa formação textual ou, em outros termos, entre as sequências maiores do texto de forma a lhe existe uma norma mínima de composição textual. Em conferir unidade. O segundo, o local, concerne às termos gerais, essa norma é comum a todos os membros relações que se estabelecem entre palavras em con- de uma comunidade linguística e constitui a competên- texto de proximidade ou entre frases sucessivamente cia textual dos falantes dessa comunidade. ordenadas da sequência textual. O previsível é que, numa comunidade linguística, Tomando como referência esses dois níveis, os sujeitos tenham o domínio dessas regras da boa admite-se que a coerência de um texto deve estar formação da frase e do texto. No caso de o ouvinte ou conjuntamente determinada não apenas no plano o leitor se confrontarem com eventuais manifestações local, mas ainda no plano global. Daí por que, discrepantes, o normal é que eles procurem fazer aco- como admite Charolles, não há diferença funda- modações e restabelecer a normalidade supostamente mental entre as regras da macrocoerência e aque- pretendida. Isso porque, sabemos todos, o comum é las da microcoerência do texto, embora se possa que as pessoas digam coisas que têm sentido; por reconhecer que há certas restrições que aparecem isso mesmo, alimentamos a expectativa de que há preferencialmente no âmbito da macroestrutura, um sentido naquilo que o outro diz e, com base nesse como a questão do título, das paráfrases ou das pressuposto, insistimos em encontrar esse sentido, sínteses, por exemplo. O que significa dizer que mesmo quando ele não pareça muito transparente. incoerências pontuais podem, em alguns casos, É, assim, que descobrimos um sentido para alguém atingir a coerência global do texto. afirmar que desligou a cama e deitou-se na luz. E as regras de coerência? Em primeiro lugar, elas Vale a pena, ainda, trazer uma outra linha de regulam a constituição da sequência do texto ou a consideração: a que diz respeito a aspectos do texto forma como se organiza a cadeia textual. As restrições como um todo e a aspectos relativos a alguma parte que elas estipulam incidem, assim, sobre as condições do texto. Este ponto está na raiz de uma indagação morfossintáticas e semânticas de uso das palavras em maior: existe um texto totalmente (ou globalmente) textos, isto é, sobre seu componente linguístico. Isso incoerente? Ou o que existe, por vezes, são incoerências significa dizer que não se pode usar impunemente pontuais, localizadas aqui e ali? Se existem incoerências qualquer palavra em qualquer lugar da frase ou do pontuais, elas podem atingir a coerência global? texto. Nem que seja uma palavra como O normal tem sido distinguir entre uma coerência uma preposição, um artigo, por exemplo. Todas as macroestrutural (ou global) e uma coerência microes- palavras têm um peso para o texto. 180 181</p><p>LUTAR COM PALAVRAS: COESÃO E COERÊNCIA A COESÃO E A COERÊNCIA Em segundo lugar, as regras de coerência também tivos, como a paráfrase, o paralelismo e todos os exigem que se tenha em conta parâmetros pragmá- recursos da substituição. Como se vê, essa primeira ticos, que, por sua vez, incluem os participantes do regra da coerência coincide com toda aquela primeira evento comunicativo e outros fatores presentes na parte da coesão, o que comprova aquele aspecto da situação. Dessa forma, qualquer regra de coerência, interseção entre a coesão e a coerência. como já foi sublinhado acima, exige componentes Segundo Charolles, esta primeira regra cobre a linguísticos, mas exige também que se ultrapasse esse ideia intuitiva que temos acerca de um texto coerente, quadro linguístico, para atingir todos os elementos a saber: seu caráter sequenciado; seu desenvolvimento que entraram na produção e na circulação do texto. homogêneo e contínuo; a ausência de ruptura. Lembremos o poeminha mostrado atrás: do ponto de Já vimos como, para assegurar essa recorrên- vista estritamente linguístico, constitui uma peça sem cia, a língua dispõe de vários recursos, como as sentido; do ponto de vista das pretensões interativas, repetições, as pronominalizações, as substituições constitui uma peça com muito sentido e capaz de lexicais, a elipse. provocar admiração e gosto estético. 2. METARREGRA DA PROGRESSÃO Chegamos, finalmente, às metarregras de coerên- cia ditadas por Charolles. Para que um texto seja (microestruturalmente ou macroestruturalmente) coerente, é preciso que seu desenvolvimento contenha elementos semânticos 1. METARREGRA DA REPETIÇÃO constantemente renovados. Para que um texto seja (microestruturalmente ou macroestruturalmente) coerente, é preciso que ele comporte em seu desenvolvimento linear elementos de estrita Esta segunda regra completa a primeira, já que recorrência. ela estipula que um texto, para ser coerente, não deve repetir indefinidamente (ou circularmente) o Falar em "elementos de estrita recorrência" é mesmo conteúdo. Ou seja, um texto coerente exige tocar na questão dos diferentes tipos de retomada, ou progressão O ato de comunicar supõe, em os diferentes modos de voltar a uma parte anterior geral, "qualquer coisa nova a ser dita, a ser acrescen- do texto para estabelecer com ela um tipo qualquer tada". Por outras palavras: a produção de um texto de ligação. coerente supõe equilíbrio entre continuidade temática Neste sentido, está claro que se trata aqui daquela e progressão semântica. relação coesiva que chamamos de reiteração e que Além disso, a informação nova não pode ser Charolles chama de 'repetição'; evidentemente, uma introduzida no texto de qualquer maneira. Existem repetição em sentido amplo, que supõe a repetição restrições para a progressão, segundo as quais um propriamente dita e aqueles outros recursos reitera- elemento novo deve estar em relação de contigui- 182 183</p><p>LUTAR COM PALAVRAS: COESÃO E COERÊNCIA A COESÃO E A COERÊNCIA dade, de associação com outros previamente intro- Um texto coerente não foge às determinações duzidos (o que nos remete para a metarregra 4). daqueles quadros cognitivos; o que nos faz dizer, bem É por isso que, em um texto que narra o episódio intuitiva e genericamente, que é coerente aquilo que de um assalto, por exemplo, a referência a polícia faz sentido, aquilo que não contradiz a percepção que já é dada como esperada e é introduzida no texto já sobressai na "normalidade" das situações. sob a forma de uma expressão definida (a polícia e, É interessante observar que, na palavra coerente não, uma polícia). existe o prefixo co, o que nos leva a admitir que, 3. METARREGRA DA se um texto é coerente, ele o é em relação a algum outro elemento. Na verdade, esse outro elemento é Para que um texto seja (microestruturalmente ou macroestruturalmente) coerente, a imagem do mundo representado sob as palavras e é preciso que em seu desenvolvimento não se introduza nenhum elemento semân- tico que contradiga um conteúdo posto ou pressuposto anteriormente. sob as intenções do texto. Há um aspecto, no âmbito dessa discussão, que Na verdade, existem diferentes tipos de contra- merece ser destacado e que até nos conforta: é que, dições, que não vamos, no momento, discriminar. De normalmente, não andamos por aí dizendo coisas sem qualquer forma, vale a pena destacar que um dos sentido, contraditórias, absurdas, ou seja, produzindo metros para avaliar a natureza das contradições são as textos incoerentes. Por isso é que, a rigor, a escola "não percepções, as crenças, que alimentamos e que consti- nos ensina a fazer textos". Apenas deve se dedicar a tuem nosso repertório de representações do mundo. ampliar as competências que já trazemos. Tais representações, a partir das quais o sujeito Por fim, vamos à quarta metarregra da coerência. desenvolve sua atividade de apreensão das coisas, 4. METARREGRA DA RELAÇÃO não são (totalmente) subjetivas mas, antes, são cul- turalmente determinadas. O indivíduo não inventa Para que um texto seja (microestruturalmente ou macroestruturalmente) coerente, é preciso que os fatos que ele expressa estejam relacionados entre si no mundo livremente suas sobre o estado do mundo; representado. ele as constrói na vivência com as práticas sociais que realiza; ou seja, ele as constrói no meio em que Essa metarregra é fundamentalmente pragmática: vive. Toda sociedade impõe a seus membros "qua- ela estabelece que os indivíduos, os fatos, as ações, as dros cognitivos" a partir dos quais se constitui um ideias, os acontecimentos ativados em um texto sejam fundo de percepções mais ou menos estáveis que se percebidos como congruentes, isto é, guardem algum refletem nos discursos em circulação nessa sociedade. tipo de associação, de ligação. Lembremos daquelas Exatamente por essas percepções serem estruturadas múltiplas relações de parte/todo que estão na base é que se pode ir para além do linguístico. de muitas associações entre as coisas e, naturalmen- 184 185</p><p>LUTAR COM PALAVRAS: COESÃO E COERÊNCIA te, entre as palavras. Por isso é que, em um texto, uma expressão vai dando acesso a outra ou a outras seguintes, de forma que tudo vai constituindo uma cadeia, um todo, de fato, interligado. Naturalmente, o reconhecimento das relações estabelecidas está em consonância com as qualidades que são atribuídas CAPÍTULO 11 ao mundo interpretado. Algumas dessas relações, no QUE A LUTA NÃO SEJA discurso ordinário, vêm manifestadas pelos diferentes tipos de conectores. Em suma, como se pode ver, as metarregras da coerência textual mantêm visíveis ligações com as Como herança de uma compreensão equivoca- determinações da coesão. Isto é, elas corroboram o da do que seja uma língua e, consequentemente, do princípio fundamental de que coesão e coerência são que seja a gramática, carregamos até hoje a ideia de propriedades que conjugam elementos linguísticos e ele- que "questões de língua" se reduzem a "questões de mentos pragmáticos. Intuitivamente, todo interlocutor gramática"; mais precisamente, a questões de certo e sabe disso. Como sabe admitir também que, a priori, errado. A grande maioria das pessoas somente vê a qualquer atividade verbal de seu parceiro é coerente língua sob o prisma da correção gramatical. Estudam e, devido a isso, se esforça (através de muitas estra- por exemplo, para "não falar errado". Como tégias) para construir (ou restabelecer) a unidade de se a correção gramatical fosse a única exigência de sentido de seu discurso, até mesmo quando ela parece um texto bem falado ou bem escrito. comprometida. Por isso, as questões linguísticas ficaram restritas De qualquer forma, um texto é coerente (ou ao professor de português, melhor dizendo, ao pro- "bem formado"), para um determinado sujeito, numa fessor de gramática, ou à área de letras. Esses é que determinada situação. Nunca no vazio da não iden- têm que se interessar por tais questões. Aos outros, tidade ou do despropósito. nada do que é linguístico lhes diz respeito. Por isso é que o estudo apenas da frase é limitan- Ora, a língua não pode ser reduzida a uma te e não corresponde aos diferentes usos que fazemos questão de "certo e errado". Seus usos incluem muitos da linguagem verbal: os usos convencionais, aqueles outros elementos e mobilizam muito mais conheci- ditados pela razão e pela objetividade das coisas, mentos do que aqueles puramente gramaticais. Nem e aqueles menos comuns, em que nos declaramos, pode ser circunscrita a um determinado campo da desligando a cama e deitando-nos na luz, autorizados atividade humana. Todos nós sabemos que tudo passa pelas contradições da paixão. pela linguagem; tudo tem origem na linguagem, isto é, 186 187</p>

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