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<p>2024 © Maria Andréa Luz da Silva</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos</p><p>de Crianças e Adolescentes</p><p>Autoras</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota</p><p>Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>Coordenação Editorial</p><p>Profa. Dra. Maria Andréa Luz da Silva</p><p>Capa</p><p>Ana Carolina Frota</p><p>Projeto gráfico e diagramação</p><p>Eduardo Freire</p><p>Revisão ortográfica</p><p>Caio Faheina</p><p>MÓDULO II</p><p>Infância(s), família(s)</p><p>e Direitos</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota</p><p>Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>4</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>1.1 Abordagem histórica e evolutiva dos conceitos de</p><p>família</p><p>Os estudos científicos acerca da família compreendem diversas</p><p>áreas do conhecimento: Sociologia, Antropologia, Direito, dentre</p><p>outros. Em cada uma, ocorreu a descoberta de formas de convi-</p><p>vência e cuidado com os membros de um núcleo familiar de for-</p><p>mas diferenciadas, as quais, não necessariamente, compunham o</p><p>entendimento do senso comum1 acerca do que é família.</p><p>A definição dominante de família congrega um conjunto</p><p>de palavras afins: pai, mãe, filho, casa, unidade domésti-</p><p>ca, casamento e parentesco. A família tida como “legíti-</p><p>ma”, “normal”, que se interioriza no imaginário da maioria</p><p>das pessoas, caracteriza-se como um conjunto de indiví-</p><p>duos aparentados que se ligam entre si por aliança, casa-</p><p>mento, filiação, adoção ocasional ou afinidade. É pressu-</p><p>posto comum que esses indivíduos habitem um mesmo</p><p>teto (Osterne, 2004, p. 34).</p><p>1 Senso comum é o entendimento coletivo acerca dos fenômenos que é</p><p>permeado por crenças culturais, sociais e religiosas em um determinado lugar</p><p>e período histórico.</p><p>1.0 Família(s) e infância(s)</p><p>5Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Para a compreensão de como o conceito atual de família foi</p><p>formulado é necessário retornar aos fatos que compõem a for-</p><p>mação sócio-histórica brasileira, do qual destaca-se a colonização</p><p>portuguesa e os valores e tradições importados do continente eu-</p><p>ropeu no século XVI em diante. Uma obra que retrata essa cons-</p><p>trução da ideia de família europeia é “História Social da Criança</p><p>e da Família” de Philippe Ariés. O autor francês descreve como os</p><p>papéis sociais na família foram se modificando e o cuidado com</p><p>as crianças foi se tornando uma prerrogativa para os pais, fazendo</p><p>surgir o sentimento de infância.</p><p>Ariés (2006) aponta que a sociedade moderna capitalista</p><p>traz a preocupação com a infância no seio da família e passa a</p><p>compreender o papel da educação na socialização das crianças,</p><p>diferente do período feudal em que eram considerados adultos</p><p>em miniatura, sendo submetidos a trabalhos braçais que exigiam</p><p>esforço físico. É importante destacar que esse pensamento se re-</p><p>laciona principalmente às famílias da elite, pois, nas famílias das</p><p>classes mais pobres o trabalho continua sendo necessário para</p><p>complemento de renda, sendo mão-de-obra requisitada no cam-</p><p>po e nas fábricas que começavam a se disseminar na Europa, mes-</p><p>mo que as crianças recebessem um menor valor assim como as</p><p>mulheres.</p><p>A necessidade de mudar o pensamento das famílias sobre as</p><p>crianças fez com que uma vasta literatura sobre infância fosse dis-</p><p>seminada para que pudessem lançar um novo olhar sobre as for-</p><p>mas de lidar com os problemas relacionados a essa fase. Salienta</p><p>o autor, que nos séculos XVIII e XIX, o rigor disciplinar para que</p><p>se tornassem adultos dentro dos moldes esperados pela sociedade</p><p>6</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>fazia com que as famílias abastadas da Europa enviassem seus fi-</p><p>lhos para entidades religiosas, onde se propagavam as práticas de</p><p>violência física e aprisionamento, que ficaram conhecidas como</p><p>internatos. Por outro lado, as crianças pobres também eram aten-</p><p>didas por instituições educacionais repressoras, mas a educação</p><p>era voltada para a vida laboral (Ariès, 2006).</p><p>Pensando a família numa perspectiva sociológica, Cristi-</p><p>na Bruschini (2000), propõe concepção de que a família tem três</p><p>funções principais no decorrer da história da sociedade, as quais</p><p>são: a função econômica, a função socializadora e a função de</p><p>reprodução ideológica. A função econômica da família, antes do</p><p>advento do capitalismo, era ser lugar de produção, com papéis de</p><p>homens e mulheres bem definidos. A mulher se concentrava nos</p><p>trabalhos privados, como o cuidado aos animais e a confecção</p><p>de roupas, e tinha o poder de gerência na vida doméstica. Já o</p><p>homem era encarregado da vida pública. As tarefas domésticas</p><p>tinham importância e estavam ligadas à produção social.</p><p>Com o advento do capitalismo, acirra-se a divisão sexual</p><p>do trabalho, na esfera privada, o trabalho é de reprodução social</p><p>e não remunerado, e na esfera pública, o trabalho é produtivo e</p><p>remunerado. Essa divisão foi naturalizada e a casa (unidade de</p><p>produção e consumo) e a família (grupo de laços afetivos e psi-</p><p>cológicos) passaram a ser a mesma coisa. O trabalho doméstico</p><p>se realiza em dois planos: tarefas domésticas para a reprodu-</p><p>ção de pessoas e consumo de mercadorias e produção de novos</p><p>trabalhadores/gerações. Os membros da família se dividem em</p><p>trabalhos para satisfazer as necessidades de consumo, levan-</p><p>do em conta sexo, idade, posição na família e escolaridade. O</p><p>7Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>marxismo é a principal corrente que estuda a função econômica</p><p>(Bruschini, 2000).</p><p>A função socializadora ou educadora da família diz respeito</p><p>à compreensão da família como núcleo de procriação, o qual for-</p><p>ma a personalidade dos indivíduos e realiza a socialização primá-</p><p>ria das crianças. Nessa função de socialização, a família torna-se</p><p>também transmissora de ideologia.</p><p>Quanto à reprodução ideológica, os estudos da vida cotidia-</p><p>na se destacam no estudo da família como espaço de transmissão</p><p>de hábitos, costumes, idéias, valores e padrões de comportamen-</p><p>to. Na vida cotidiana, os membros das famílias amadurecem a in-</p><p>teriorização da ideologia. Dois pontos fundamentais no estudo</p><p>de família são que pequenas mudanças na família podem levar às</p><p>grandes transformações históricas e sociais e que a mulher tem</p><p>importante papel na vida cotidiana porque ela é quem manipula e</p><p>organiza o cotidiano e a interiorização dos elementos ideológicos.</p><p>Para compreender a família, então, é necessário articular cultura,</p><p>psicologia e economia (Bruschini, 2000).</p><p>A realidade brasileira da família apresenta fenômenos e</p><p>configurações que se modificam desde o período colonial até a</p><p>atualidade. Durante o período colonial o modelo de família era</p><p>denominado “extensa”, pois tinha como configuração a inclusão</p><p>de diversos membros, desde o patriarca, que detinha o poder de</p><p>decisão sobre as relações, a mulher, os filhos, escravizados e traba-</p><p>lhadores livres. Esse modelo de família foi retratado na obra “Casa</p><p>Grande e Senzala” de Gilberto Freyre2.</p><p>2 Outros autores considerados clássicos para se entender a formação do Brasil</p><p>são Sérgio Buarque de Holanda e Nestor Duarte, os quais trataram da ques-</p><p>8</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>Tratando da família, durante o período colonial, a socieda-</p><p>de nordestina teve como característica a presença de uma família</p><p>numerosa, composta por pai, mãe, filhos, escravos e outros pa-</p><p>rentes, a qual foi denominada, posteriormente, de família extensa</p><p>(Durham,1982; Almeida, 2001; Itaboraí, 2005). Ao traçar o perfil</p><p>da família brasileira no período descreve a família patriarcal, se-</p><p>gundo Albuquerque Júnior (2003), “Freyre foi o inventor do con-</p><p>ceito de família patriarcal, para descrever as relações familiares no</p><p>Brasil, desde o período colonial até o final do século XIX, quando</p><p>esta teria entrado em declínio, para ser substituída, paulatina-</p><p>mente, pela família nuclear burguesa” (p.135).</p><p>A família, entretanto, não é uma instituição</p><p>civil organizada e</p><p>de universidades” (Neves, 2013, p. 77).</p><p>A articulação entre as políticas públicas é um dos pontos</p><p>centrais do PNCFC/2006, bem como a compreensão da condi-</p><p>ção peculiar de desenvolvimento das crianças e dos adolescentes</p><p>que necessitam ser compreendidos em sua totalidade. A primeira</p><p>parte do plano, que compreende as estratégias, os objetivos e as</p><p>diretrizes, priorizam a prevenção do rompimento dos vínculos</p><p>50</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>familiares, preconizando “o retorno da criança e do adolescente</p><p>ao convívio com a sua família de origem” (Neves, 2013, p. 77). O</p><p>recurso do encaminhamento para família substituta só será utili-</p><p>zado quando esgotadas as possibilidades.</p><p>O encaminhamento de uma criança ou um adolescente</p><p>para uma medida protetiva de acolhimento institucional</p><p>ou familiar somente tem sentido de justiça se ocorrer</p><p>mediante procedimentos legais que garantam o direito</p><p>da família de origem ao recurso do contraditório e à am-</p><p>pla defesa do superior interesse da criança e do adoles-</p><p>cente (Neves, 2013, p. 77).</p><p>O PNCFC/2006 está organizado em algumas seções, a saber:</p><p>os antecedentes, que apresentam a conjuntura para elaboração do</p><p>plano; os marcos legal, conceitual e situacional, que serão melhor</p><p>apresentados na aula seguinte; as diretrizes; os objetivos gerais;</p><p>os resultados programáticos; a implementação, o monitoramen-</p><p>to e a avaliação; o plano de ação, com os eixos de planejamento</p><p>das atividades a serem desenvolvidas; e, por fim, um glossário dos</p><p>termos que se referem às políticas de atendimento à criança e ao</p><p>adolescente.</p><p>51Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>6 Marcos Normativos do Plano de Convivência</p><p>Familiar e Comunitária</p><p>Os marcos normativos apresentados no PNCFC/2006 iniciam pelos</p><p>marcos legais, o primeiro deles, já mencionado, é a Constituição Fe-</p><p>deral de 1988, que aponta a família como base da sociedade no artigo</p><p>226º, tornando-se também a responsável por assegurar às crianças e</p><p>aos adolescentes seus direitos fundamentais no artigo 227º.</p><p>Acerca da adoção, a Constituição elimina a distinção entre fi-</p><p>lhos biológicos e adotivos, bem como em relação aos filhos de pais</p><p>casados ou não. Sobre a assistência à família, o artigo 226º, delega essa</p><p>competência ao Estado na provisão das condições de subsistência e</p><p>na prevenção da violência. Já o artigo 229º trata da responsabilidade</p><p>de cuidado dos pais com os filhos na infância e dos filhos com os pais</p><p>por ocasião de velhice, carência ou enfermidade (Brasil, 2006).</p><p>Anteriormente, outras convenções e outros tratados inter-</p><p>nacionais que o Brasil é signatário já traziam em seus conteúdos</p><p>diretrizes para a convivência familiar e comunitária, que serão</p><p>apresentados na tabela a seguir.</p><p>Tabela 1. Marcos legais internacionais da infância</p><p>NORMATIVA ANO</p><p>Declarações sobre os Direitos da Criança 1924/1959</p><p>Declaração Universal dos Direitos Humanos 1948</p><p>52</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>NORMATIVA ANO</p><p>Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem 1948</p><p>Pacto de São José da Costa Rica 1969</p><p>Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos 1966</p><p>Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais 1966/ ratificado em</p><p>1992</p><p>Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime</p><p>Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e à Punição</p><p>do Tráfico de Pessoas, em Especial de Mulheres e Crianças</p><p>ratificado pelo</p><p>Brasil em 2004</p><p>Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança Referente</p><p>à Venda de Crianças, à Prostituição Infantil e à Pornografia Infantil</p><p>ratificado pelo</p><p>Brasil em 2004</p><p>Convenção sobre os Direitos da Criança ratificada pelo</p><p>Brasil em 1990</p><p>Fonte: PNCFC/2006.</p><p>O último marco legal da tabela possui grande relevância na</p><p>formulação das políticas públicas para a infância, como aponta o</p><p>PNCFC/2006 “no embasamento da criação ou reforma de toda e</p><p>qualquer norma reguladora, no campo da família e no embasa-</p><p>mento de processos de reforma administrativa, de implantação</p><p>e implementação de políticas, programas, serviços e ações públi-</p><p>cas” (p.24). Destaca-se para a efetivação da Convenção sobre os</p><p>Direitos da Criança os princípios:</p><p>• Não discriminação;</p><p>• Interesse superior da criança;</p><p>• Direitos à sobrevivência e ao desenvolvimento;</p><p>• Respeito à opinião da criança (Brasil, 2006, p. 25) .</p><p>No mesmo ano, em 1990, o Estatuto da Criança e do Ado-</p><p>lescente (ECA) entrou em vigor pela Lei nº 8.069, e traz diversos</p><p>53Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>artigos que dispõe sobre a convivência familiar e comunitária,</p><p>como apontado na aula anterior. São destacados no PNCFC/2006:</p><p>o artigo 19º, que ressalta a criação e a educação da criança e do</p><p>adolescente no seio familiar; os artigos 92º e 100º, que tratam da</p><p>excepcionalidade e da provisoriedade do Acolhimento Institucio-</p><p>nal; os artigos 28º e 52º, que definem que a colocação em família</p><p>substituta seja por adoção ou, em caráter de provisoriedade, por</p><p>tutela e guarda. Por fim, aponta os artigos 29º, 5º, 18º e 19º, que</p><p>apresentam o que é considerado um ambiente familiar adequado</p><p>pela legislação, dos quais merecem destaque:</p><p>Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de</p><p>qualquer forma de negligência, discriminação, explora-</p><p>ção, violência, crueldade e opressão, punido na forma da</p><p>lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus di-</p><p>reitos fundamentais.</p><p>Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança</p><p>e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer trata-</p><p>mento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou</p><p>constrangedor (Brasil, 1990).</p><p>Como parte da operacionalização do Plano, o Ministério de</p><p>Desenvolvimento Social (MFS) e Combate à Fome, juntamente</p><p>ao Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente</p><p>(Conanda) e o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS),</p><p>no ano de 2009, publicaram as “Orientações Técnicas para os Ser-</p><p>viços de Acolhimento de Crianças e Adolescentes”, que, como o</p><p>próprio nome sugere, apresenta orientações de metodologias e</p><p>parâmetros de serviços de acolhimento para alcançar a proteção</p><p>54</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>integral de crianças e adolescentes favorecendo os vínculos fami-</p><p>liares e comunitários (Cruz et. al, 2022). As Orientações Técnicas</p><p>estão organizadas em três capítulos:</p><p>O capítulo um traz uma síntese histórica para a com-</p><p>preensão do aprimoramento de atendimento infan-</p><p>tojuvenil em serviços de acolhimento e reitera os mar-</p><p>cos regulatórios e normativos vigentes, apresentando</p><p>os princípios que devem respaldar o atendimento de</p><p>crianças e adolescentes em situação de acolhimento. O</p><p>capítulo dois trata das orientações metodológicas, com</p><p>diretrizes para a melhoria dos atendimentos nos servi-</p><p>ços de acolhimento e, por fim, o capítulo três apresen-</p><p>ta os parâmetros de funcionamento para as diferentes</p><p>modalidades de serviços de acolhimento e a proposta</p><p>de regionalização da prestação desses serviços para ga-</p><p>rantir atendimento em municípios de pequeno porte e a</p><p>crianças e adolescentes ameaçados de morte (Cruz et al.,</p><p>2022, p. 294).</p><p>Portanto, as Orientações Técnicas se mostram como instru-</p><p>mento normativo de grande relevância para a prestação de servi-</p><p>ços de qualidade nas unidades de acolhimento institucional. Ou-</p><p>tro instrumento legal de referência, lançado no mesmo ano pelo</p><p>MDS (2009), foi a Tipificação Nacional dos Serviços Socioassis-</p><p>tenciais (Neves, 2012). O dispositivo padronizou as fichas de ser-</p><p>viços socioassistenciais, definido o nome do serviço, a descrição,</p><p>quem são os usuários, quais os objetivos, as provisões, as aquisi-</p><p>ções de usuários, as condições</p><p>e as formas de acesso, às unidades,</p><p>55Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>os período de funcionamento, a abrangência, a articulação em</p><p>rede, o impacto social esperado e as regulamentações.</p><p>Ainda mais relevante naquele momento foi trazer expresso</p><p>no documento o que compõe a Proteção Social Básica (PSB), a</p><p>saber: “1. Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família</p><p>(PAIF); 2. Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos;</p><p>3. Serviço de Proteção Social Básica no Domicílio para Pessoas</p><p>com Deficiência e Idosas” (Brasil, 2009b, p. 10). Os serviços da</p><p>PSB são ofertados ou referenciados principalmente pelos Centros</p><p>de Referência da Assistência Social (CRAS).</p><p>Também apresentou os serviços que configuram a Proteção</p><p>Social Especial (PSE), na qual se localizam os serviços de aco-</p><p>lhimento. A PSE é dividida em Média Complexidade, operacio-</p><p>nalizado nos Centros de Referência Especializada da Assistência</p><p>Social (CREAS) e também nos Centros Pop11, que compreende:</p><p>1. Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a</p><p>Famílias Indivíduos (PAEFI); 2. Serviço Especializado em</p><p>Abordagem Social; 3. Serviço de proteção social a ado-</p><p>lescentes em cumprimento de medida socioeducativa</p><p>de Liberdade Assistida (LA) e de Prestação de Serviços à</p><p>Comunidade (PSC); 4. Serviço de Proteção Social Especial</p><p>para Pessoas com Deficiência, Idosas e suas Famílias; 5.</p><p>Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua</p><p>(Brasil, 2009b, p. 10).</p><p>A Alta Complexidade da PSE dispõe dos seguintes servi-</p><p>ços: “6. Serviço de Acolhimento Institucional; 7. Serviço de Aco-</p><p>11 Serviço de atendimento para população em situação de rua.</p><p>56</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>lhimento em República; 8. Serviço de Acolhimento em Família</p><p>Acolhedora; 9. Serviço de proteção em situações de calamidades</p><p>públicas e de emergências” (Brasil, 2009b, p. 10). Em todos es-</p><p>ses serviços há atendimento a crianças e adolescentes, entretan-</p><p>to, o Plano de Convivência vai incidir mais fortemente na alta</p><p>complexidade. Os serviços de acolhimento podem ser: abrigo</p><p>institucional, Casa-lar, Casa de Passagem, Residência Inclusiva.</p><p>A tipificação também apresenta o Serviço de Acolhimento em</p><p>República, o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora e</p><p>o Serviço de Proteção em Situações de Calamidades Públicas e</p><p>de Emergências.</p><p>Outras legislações importantes na contemporaneidade que</p><p>reafirmam os direitos da criança e do adolescente são: a Lei n°</p><p>12.010, de 03 de agosto de 2009, denominada Lei da Adoção – a</p><p>qual será melhor apresentada na quarta aula dessa unidade; a Lei</p><p>n° 13.010, de 26 de junho de 2014, chamada de Lei Menino Ber-</p><p>nardo, que estabelece o direito da criança e do adolescente serem</p><p>cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou</p><p>degradante e a Lei nº 13.257, de 08 de março de 2016, conhecida</p><p>como Marco Legal da Primeira Infância, a qual dispõe sobre as</p><p>políticas públicas para a primeira infância (0 a 6 anos).</p><p>57Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>7 Alinhamento do Plano de convivência</p><p>com os Direitos das Crianças</p><p>Como marco conceitual, o PNCFC/2006 define o entendimento</p><p>adotado na sua criação, para as principais categorias utilizadas, a</p><p>saber: família, criança e adolescente, convivência familiar e co-</p><p>munitária, acolhimento institucional, adoção e questões históri-</p><p>co-estruturais.</p><p>A família é apresentada com base na Constituição de 1988</p><p>e no ECA, em resumo, por meio da “existência de vínculos de</p><p>filiação legal, de origem natural ou adotiva, independentemente</p><p>do tipo de arranjo familiar onde esta relação de parentalidade e</p><p>filiação estiver inserida” (Brasil, 2006, p. 26). Essa indefinição in-</p><p>corpora todos os arranjos familiares: nuclear, monoparental, ex-</p><p>tensa, dentre outras, rompendo com a ideia de uma “estrutura”</p><p>padrão. O cuidado, a proteção e o vínculo devem ser os elementos</p><p>essenciais observados na composição familiar.</p><p>A criança e o adolescente são reafirmados como sujeitos de</p><p>direitos em condição peculiar de desenvolvimento, como preco-</p><p>niza o ECA. A autonomia de ambos é reconhecida no processo</p><p>de tomada de decisões, rompendo com o viés adultocêntrico. Por</p><p>outro lado, também possuem direitos e devem ser protegidos pela</p><p>família, pelo Estado e pela sociedade, para que alcancem todo o</p><p>seu potencial de desenvolvimento biológico, psicoafetivo, cogni-</p><p>58</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>tivo e social. Para tanto, a socialização é um elemento crucial que</p><p>deve ser assegurado desde os primeiros anos de vida, a chamada</p><p>“primeira infância”.</p><p>Nos primeiros anos de vida, a criança faz aquisições impor-</p><p>tantes, desenvolvendo comportamentos dos mais sim-</p><p>ples aos mais complexos – diferenciação e construção de</p><p>seu “eu”, desenvolvimento da autonomia, da socialização,</p><p>da coordenação motora, linguagem, afeto, pensamento e</p><p>cognição, dentre outros. Sua capacidade de explorar e re-</p><p>lacionar-se com o ambiente será gradativamente amplia-</p><p>da. A interação com adultos e outras crianças e o brincar</p><p>contribuirão para o processo de socialização, ajudando-a</p><p>a perceber os papéis familiares e sociais e as diferenças de</p><p>gênero, a compreender e aceitar regras, a controlar sua</p><p>agressividade, a discernir entre fantasia e realidade, a coo-</p><p>perar, a competir e a compartilhar, dentre outras habilida-</p><p>des importantes para o convívio social (Brasil, 2006, p.29).</p><p>Os cuidados, entretanto, não se restringem à primeira</p><p>infância, mas devem continuar acompanhando o processo de</p><p>crescimento até o fim da adolescência. Novos desafios e apren-</p><p>dizados estão ligados a essa fase, como o movimento de aproxi-</p><p>mação com outros grupos e a construção de relações afetivas e</p><p>amorosas, a maturação sexual e as transformações em relação</p><p>à sexualidade, a inserção no mundo do trabalho e as escolhas</p><p>pertinentes a ele.</p><p>A convivência familiar e comunitária, de acordo com PNC-</p><p>FC/2006, deve levar em consideração a diversidade de organizações</p><p>59Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>familiares, incluindo também os grupos étnicos-culturais como os</p><p>povos originários (indígenas e remanescentes quilombolas), e que</p><p>esses são os primeiros vínculos de crianças e adolescentes. Também</p><p>é apontado que o afastamento familiar pode trazer diversas conse-</p><p>quências negativas ao desenvolvimento infantil. Acerca da convi-</p><p>vência comunitária, as crianças e os adolescentes devem ser inseri-</p><p>dos em espaços e instituições sociais que garantam a socialização,</p><p>e quando estão em situação de vulnerabilidade, podem também</p><p>contar com redes de solidariedade da vizinhança e afins12.</p><p>Apesar de ser considerado o primeiro espaço de socializa-</p><p>ção e proteção, a família também pode apresentar um contexto de</p><p>violação de direitos. Quando isso ocorre, as crianças e os adoles-</p><p>centes estão amparados pelos artigos 5º e 18º do ECA, que contam</p><p>com o Estado e a sociedade para a proteção por ocasião da ausên-</p><p>cia da família de origem como lar protetor.</p><p>O conselheiro tutelar, o técnico, a autoridade judicial, ou</p><p>qualquer outro ator institucional ou social, na sua missão de velar</p><p>pelos direitos da criança e do adolescente, ao se deparar com uma</p><p>possível situação de negligência, ou mesmo de abandono, deve</p><p>sempre levar em conta a condição socioeconômica e o contexto</p><p>de vida das famílias bem como a sua inclusão em programas so-</p><p>ciais e políticas públicas, a fim de avaliar se a negligência resulta</p><p>de circunstâncias que fogem ao seu controle e/ou que exigem in-</p><p>tervenção no sentido de fortalecer os vínculos familiares.</p><p>12 Nery (2010) aponta o papel da escola e dos profissionais da educação na</p><p>garantia do direito à convivência familiar e comunitária, tendo em vista que li-</p><p>dam diretamente com a operacionalização da política</p><p>da infância, observando</p><p>situações como negligência e outras violações de direitos que possam ocorrer</p><p>com os estudantes.</p><p>60</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>Para que se confirme a negligência nessas famílias, precisa-</p><p>mos ter certeza de que elas não se interessam em prestar</p><p>os cuidados básicos para que uma criança ou adolescente</p><p>cresça saudável e com segurança […] “(Brasil, 2006, p. 37).</p><p>Os/as conselheiros/as tutelares devem garantir a aplicabili-</p><p>dade de medidas de proteção, previstas no artigo 101 do ECA:</p><p>I – encaminhamento aos pais ou aos responsáveis, me-</p><p>diante termo de responsabilidade; II – orientação, apoio e</p><p>acompanhamento temporários; III – matrícula e frequência</p><p>obrigatórias em estabelecimento oficial de ensino funda-</p><p>mental; IV – inclusão em programa comunitário ou oficial</p><p>de auxílio à família, à criança ou ao adolescente; V – requisi-</p><p>ção de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em</p><p>regime hospitalar ou ambulatorial; VI – inclusão em progra-</p><p>ma oficial ou comunitário de auxílio, orientação e tratamen-</p><p>to a alcoólatras e toxicômanos; VII – abrigo em entidade; VIII</p><p>– colocação em família substituta (Brasil, 2006, p. 37).</p><p>Sobre o acolhimento institucional, o PNCFC/2006, são enten-</p><p>didos como os programas de abrigo em entidade, como estabelece o</p><p>artigo 90º do ECA. É relevante destacar que o abrigo não constitui</p><p>privação de liberdade é uma medida provisória e excepcional (artigo</p><p>101º do ECA). Os princípios que devem ser adotados pelos progra-</p><p>mas de abrigo devem ser, de acordo com o artigo 92º do ECA:</p><p>I - preservação dos vínculos familiares;</p><p>II - integração em família substituta, quando esgotados</p><p>os recursos de manutenção na família de origem;</p><p>61Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>III - atendimento personalizado e em pequenos grupos;</p><p>IV - desenvolvimento de atividades em regime de coe-</p><p>ducação;</p><p>V - não desmembramento de grupos de irmãos;</p><p>VI - evitar, sempre que possível, a transferência para ou-</p><p>tras entidades de crianças e adolescentes abrigados;</p><p>VII - participação na vida da comunidade local;</p><p>VIII - preparação gradativa para o desligamento;</p><p>IX - participação de pessoas da comunidade no processo</p><p>educativo (Brasil, 2006, p.40).</p><p>As instituições de acolhimento da infância devem ser re-</p><p>gistradas nos Conselhos Municipais de Assistência Social e nos</p><p>Direitos da Criança e do Adolescente. Essa regra também é váli-</p><p>da para as casas-lares,</p><p>Nesta modalidade, o atendimento é oferecido em uni-</p><p>dades residenciais, nas quais um cuidador residente se</p><p>responsabiliza pelos cuidados de até dez crianças e/ou</p><p>adolescentes, devendo para tal receber supervisão téc-</p><p>nica” (Brasil, 2006, p.41).</p><p>Outras recomendações para esses serviços são:</p><p>• Estar localizados em áreas residenciais, sem distan-</p><p>ciar-se excessivamente, do ponto de vista geográfi-</p><p>co, da realidade de origem das crianças e dos adoles-</p><p>centes acolhidos;</p><p>• Promover a preservação do vínculo e do contato da</p><p>criança e do adolescente com a sua família de ori-</p><p>62</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>gem, salvo determinação judicial em contrário;</p><p>• Manter permanente comunicação com a Justiça da</p><p>Infância e da Juventude, informando à autoridade</p><p>judiciária sobre a situação das crianças e dos adoles-</p><p>centes atendidos e de suas famílias;</p><p>• Trabalhar pela organização de um ambiente favorá-</p><p>vel ao desenvolvimento da criança e do adolescente e</p><p>pelo estabelecimento de uma relação afetiva e estável</p><p>com o cuidador. Para tanto, o atendimento deverá ser</p><p>oferecido em pequenos grupos, garantindo espaços</p><p>privados para a guarda de objetos pessoais e, ainda, re-</p><p>gistros, inclusive fotográficos, sobre a história de vida e</p><p>desenvolvimento de cada criança e cada adolescente;</p><p>• Atender crianças e adolescentes com deficiência de</p><p>forma integrada às demais crianças e adolescentes,</p><p>observando as normas de acessibilidade e capaci-</p><p>tando seu corpo de funcionários para o atendimento</p><p>adequado às suas demandas específicas; ·</p><p>• Atender ambos os sexos e diferentes idades de crian-</p><p>ças e adolescentes, a fim de preservar o vínculo entre</p><p>grupo de irmãos;</p><p>• Propiciar a convivência comunitária por meio do</p><p>convívio com o contexto local e da utilização dos</p><p>serviços disponíveis na rede para o atendimento das</p><p>demandas de saúde, lazer, educação, dentre outras,</p><p>evitando o isolamento social;</p><p>• Preparar gradativamente a criança e o adolescente</p><p>para o processo de desligamento, nos casos de rein-</p><p>63Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>tegração à família de origem ou de encaminhamen-</p><p>to para adoção;</p><p>• Fortalecer o desenvolvimento da autonomia e a in-</p><p>clusão do adolescente em programas de qualificação</p><p>profissional, bem como a sua inserção no mercado</p><p>de trabalho, como aprendiz ou trabalhador – obser-</p><p>vadas as devidas limitações e determinações da lei</p><p>nesse sentido - visando a preparação gradativa para</p><p>o seu desligamento quando atingida a maioridade.</p><p>Sempre que possível, ainda, o abrigo deve manter</p><p>parceria com programas de repúblicas, utilizáveis</p><p>como transição para a aquisição de autonomia e</p><p>independência, destinadas àqueles que atingem a</p><p>maioridade no abrigo (Brasil, 2006, p.41).</p><p>O Programa de Famílias Acolhedoras é um serviço que or-</p><p>ganiza o acolhimento, tendo como metodologia ações principais:</p><p>Mobilização, cadastramento, seleção, capacitação, acom-</p><p>panhamento e supervisão das famílias acolhedoras por</p><p>uma equipe multiprofissional; acompanhamento psicos-</p><p>social das famílias de origem, com vistas à reintegração</p><p>familiar; e articulação com a rede serviços, com a Justiça</p><p>da Infância e da Juventude e com os demais atores do</p><p>Sistema de Garantia de Direitos (Brasil, 2006, p.42).</p><p>Dentre as análises acerca do plano, há uma abordagem crí-</p><p>tica tanto à ênfase na responsabilização das famílias quanto ao</p><p>Programa de Famílias Acolhedoras que ele propõe. As famílias</p><p>64</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>acolhedoras foram apresentadas na unidade anterior e são</p><p>família de caráter provisório, nas quais as crianças e</p><p>adolescentes que não possam permanecer em suas</p><p>famílias de origem, por motivos de abandono, maus</p><p>tratos, violência doméstica, abuso e exploração sexual</p><p>(SILVA et. al., 2019, p. 5).</p><p>Entretanto, compreendendo que as políticas públicas inseridas</p><p>no contexto neoliberal tendem a transferir a responsabilidade do Es-</p><p>tado para os cidadãos, as autoras Silva et. al. (2019) fazem questiona-</p><p>mentos acerca das condições de execução do Programa de Famílias</p><p>Acolhedoras, em torno dos recursos, dos processos de desvinculação</p><p>das crianças e famílias, do processo de acompanhamento e de fiscali-</p><p>zação durante a permanência da criança ou do adolescente com as fa-</p><p>mílias e da possibilidade de desmembramento de grupos de irmãos.</p><p>Todas essas questões devem ser continuamente debatidas nas esferas</p><p>estaduais e municipais quando da execução dos programas tendo em</p><p>vista o melhor interesse dos/as usuários/as dos serviços.</p><p>As questões histórico-estruturais apontam para as desigual-</p><p>dades e as iniquidades existentes no país. A primeira apontada é</p><p>a desigualdade de renda e patrimônio, situação em que se encon-</p><p>tram as crianças em situação de rua e a maioria das que estão em</p><p>acolhimento institucional. A iniquidade, baseada no conceito de</p><p>Garcia (2003) pode ser entendida como a ausência de liberdade</p><p>de escolha para afirmar sua cidadania (Brasil, 2006). O plano rea-</p><p>firma a necessidade de mudança dessa realidade para a efetivação</p><p>dos direitos da criança e do adolescente. Acerca da adoção, esse</p><p>conceito e a Lei Nacional serão abordadas na aula seguinte.</p><p>65Plano</p><p>de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>8 A Lei Nacional da Adoção.</p><p>A adoção é uma ação histórica, que remonta desde a Antiguidade,</p><p>com relatos como a história de Moisés no livro bíblico do Êxodo,</p><p>que data de aproximadamente 1.250 a.C13. Ainda assim, a prática</p><p>demorou um vasto período de tempo para ser regulamentada. No</p><p>Brasil, por exemplo, vimos que, desde o Período Colonial, as ins-</p><p>tituições de acolhimento voltadas para adoção existiam e ficaram</p><p>conhecidas como “Roda dos Expostos”, no entanto, somente no</p><p>século XX se tornou uma prática legalizada pelo Estado.</p><p>A adoção ainda é um tema que precisa ser constantemen-</p><p>te discutido por ter muitos desafios a serem superados no país,</p><p>dentre eles: as expectativas subjetivas dos adotantes em relação às</p><p>crianças e aos adolescentes, observadas desde o cadastro quando</p><p>ainda há preferências14 explícitas de idade, cor e sexo; esse pode</p><p>13 “Aproximadamente no ano 1250 a.C., por determinação do faraó, todas as</p><p>crianças israelitas do sexo masculino deveriam ser mortas ao nascer. A mãe de</p><p>um desses meninos decidiu colocá-lo em um cesto à beira do rio na esperança</p><p>de que sobrevivesse. A criança, que recebeu o nome de Moisés, foi encontrada</p><p>pela filha do faraó, que o adotou como filho. Futuramente esta criança veio a se</p><p>tornar o herói do povo hebreu” (Maux e Dutra, 2010, p. 359).</p><p>14 Segundo o Estadão (2020), o perfil esperado pelos adotantes é de meninas</p><p>com até dois anos de idade, branca e filha única. No cadastro, apenas 1% dos</p><p>candidatos a pais aceitam crianças com mais de 10 anos. Os fatores que mais</p><p>pesam para a permanência nas instituições de acolhimento é a idade, a presen-</p><p>ça de alguma deficiência e a existência de irmãos na mesma situação.</p><p>66</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>ser um fator que leva ao segundo desafio, a quantidade de tempo</p><p>que crianças e adolescentes permanecem em instituições e, por</p><p>fim, a adoção de forma ilegal e culturalmente disseminada.</p><p>Como visto, o ECA modificou a concepção da infância</p><p>no país, modificando os papéis de adotandos e adotantes, rea-</p><p>firmando o protagonismo dos primeiros. Essas transformações</p><p>objetivam coibir práticas culturais de adoção ilegal, que o PN-</p><p>CFC/2006 denomina de “adoções prontas” e que também são</p><p>conhecidas como “adoção à brasileira”, quando o adotante não</p><p>se inscreve no Cadastro Nacional de Adoção e apenas registra a</p><p>criança em seu nome, após a entrega direta. Para tanto, o docu-</p><p>mento propõe:</p><p>1) todos os esforços devem perseverar no objetivo de ga-</p><p>rantir que a adoção constitua medida aplicável apenas</p><p>quando esgotadas as possibilidades de manutenção da</p><p>criança ou do adolescente na família de origem; 2) que,</p><p>nestes casos, a adoção deve ser priorizada em relação a</p><p>outras alternativas de Longo Prazo, uma vez que possi-</p><p>bilita a integração, como filho, a uma família definitiva,</p><p>garantindo plenamente a convivência familiar e comuni-</p><p>tária; 3) que a adoção seja um encontro entre prioridades</p><p>e desejos de adotandos e adotantes; e 4) que a criança</p><p>e o adolescente permaneçam sob a proteção do Estado</p><p>apenas até que seja possível a integração a uma família</p><p>definitiva, na qual possam encontrar um ambiente fa-</p><p>vorável à continuidade de seu desenvolvimento e que a</p><p>adoção seja realizada sempre mediante os procedimen-</p><p>tos previstos no ECA (Brasil, 2006, p.44).</p><p>67Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>A Lei Nacional de Adoção (Lei nº12.010 de 03 de agosto</p><p>de 2009) altera o ECA de 1990, e, logo em seu primeiro artigo</p><p>reafirma a garantia do direito à convivência familiar e comuni-</p><p>tária de crianças e adolescentes, e, no segundo artigo, assegura a</p><p>orientação, o apoio e a promoção social da família natural, para</p><p>fortalecer o entendimento da excepcionalidade da adoção.</p><p>Uma das principais alterações da Lei Nacional de Adoção</p><p>(2009) se deu acerca do tempo em que crianças e adolescentes</p><p>devem retornar às suas famílias após serem acolhidos institucio-</p><p>nalmente, definido como um período de dois anos, enfatizando o</p><p>processo de reinserção familiar (Silva e Arpini, 2013a). Tal ênfase</p><p>se deu após análises e estudos sobre acolhimento institucional que</p><p>apontavam uma permanência estendida de crianças e adolescentes</p><p>por mais de dois anos, muitas vezes, até à maioridade penal.</p><p>De acordo com a lei, cabe à instituição de acolhimento, por</p><p>meio de sua equipe multidisciplinar, o resgate dos vínculos fami-</p><p>liares. De acordo com Silva e Arpini (2013b), assistentes sociais e</p><p>psicólogos são os profissionais que lidam diretamente com crian-</p><p>ças e adolescentes e suas famílias e cumprem um papel determi-</p><p>nante no estabelecimento dos vínculos, realizando atendimentos,</p><p>em permanente contato com as famílias, e, quando, por algum</p><p>motivo estas não comparecem às instituições de acolhimento,</p><p>realizando busca ativa.</p><p>A convivência familiar e comunitária foi reafirmada na Lei Na-</p><p>cional de Adoção no artigo 19º, o qual se destacam os parágrafos:</p><p>§1º Toda criança ou adolescente que estiver inserido em</p><p>programa de acolhimento familiar ou institucional terá</p><p>sua situação reavaliada, no máximo, a cada 6 (seis) me-</p><p>68</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>ses, devendo a autoridade judiciária competente, com</p><p>base em relatório elaborado por equipe interprofissional</p><p>ou multidisciplinar, decidir de forma fundamentada pela</p><p>possibilidade de reintegração familiar ou colocação em</p><p>família substituta, em quaisquer das modalidades previs-</p><p>tas no art. 28 desta Lei (Brasil, 2009, p.1).</p><p>O primeiro parágrafo estabelece a avaliação a cada seis meses,</p><p>realizada por assistentes sociais e psicólogos da instituição, tendo</p><p>como prerrogativa a reintegração familiar ou colocação em família</p><p>substituta, o que estabelece não somente a avaliação periódica, mas</p><p>a diminuição do tempo em acolhimento institucional ou familiar.</p><p>Outro parágrafo que merece destaque é o segundo “§ 2º A</p><p>permanência da criança e do adolescente em programa de aco-</p><p>lhimento institucional não se prolongará por mais de 2 (dois)</p><p>anos, salvo comprovada necessidade que atenda ao seu superior</p><p>interesse, devidamente fundamentada pela autoridade judiciária”</p><p>(Brasil, 2009, p. 1), o qual é estabelecido o prazo máximo de dois</p><p>anos em acolhimento institucional.</p><p>O terceiro parágrafo reafirma a prioridade da reintegração</p><p>da criança e do adolescente à família:</p><p>“§ 3º A manutenção ou a reintegração de criança ou ado-</p><p>lescente à sua família terá preferência em relação a qual-</p><p>quer outra providência, caso em que será esta incluída em</p><p>programas de orientação e auxílio [...]” (Brasil, 2009, p. 1).</p><p>Como apontado na primeira aula desta unidade, o histórico</p><p>brasileiro em relação ao acolhimento institucional demonstra um</p><p>69Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>Estado que não priorizava o desenvolvimento integral de crianças</p><p>e dos adolescentes, ao contrário, as instituições eram repressoras</p><p>e levavam ao total rompimento dos vínculos familiares. Portanto,</p><p>priorizar a reintegração familiar sobre as outras medidas torna-se</p><p>uma reparação histórica para o entendimento de que a família era</p><p>a fonte dos problemas e que deveria ser afastada (Silva e Arpini,</p><p>2013a).</p><p>Acerca do cadastro, a Lei Nacional de Adoção aponta no ar-</p><p>tigo 50 que devem ser criados cadastros estaduais e nacionais de</p><p>crianças e adolescentes. “§ 5º Serão criados e implementados ca-</p><p>dastros estaduais e nacional de crianças e adolescentes em condi-</p><p>ções de serem adotados e de pessoas ou casais habilitados à adoção”</p><p>(Brasil, 2009, p. 6). A lei também propõe a celeridade do processo</p><p>de inscrição dos adotandos, como aponta o oitavo parágrafo:</p><p>§ 8º A autoridade judiciária providenciará, no prazo de</p><p>48 (quarenta e oito) horas, a inscrição de crianças e dos</p><p>adolescentes em</p><p>condições de serem adotados que não</p><p>tiveram colocação familiar na comarca de origem, e de-</p><p>pessoas ou casais que tiveram deferida sua habilitação à</p><p>adoção nos cadastros estadual e nacional referidos no §</p><p>5º o deste artigo, sob pena de responsabilidade (Brasil,</p><p>2009, p. 6).</p><p>Entretanto, a pesquisa elaborada por Oliveira e Pereira</p><p>(2011) no ano de 2010, com profissionais de abrigos no Rio Gran-</p><p>de do Sul, apontou como resultado a dificuldade no cumprimen-</p><p>to do prazo de 48 horas (quarenta e oito) para as crianças serem</p><p>incluídas no cadastro. O parágrafo 12º determina que deve haver</p><p>70</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>fiscalização acerca da alimentação dos cadastros pelo Ministério</p><p>Público.</p><p>As autoras Silva e Arpini (2013a) argumentam que a institu-</p><p>cionalização era uma forma de controle dos pobres, pois os classi-</p><p>ficava como inaptos para cuidar dos filhos e, por isso, o retiravam</p><p>do seio familiar, daí a importância da mudança de perspectiva</p><p>acerca da família e das desigualdades e iniquidades históricas no</p><p>país apontadas no PNCFC/2006 e na Lei Nacional de Adoção.</p><p>Para tanto, é necessário que as famílias tenham acesso a po-</p><p>líticas públicas, para que sejam fornecidas condições de sustento</p><p>e desenvolvimento para os integrantes. “A reintegração familiar é</p><p>uma possibilidade de reconstruir a convivência familiar e comu-</p><p>nitária de crianças e adolescentes, permitindo que estes voltem a</p><p>conviver com suas famílias ou, em última análise, que possam ser</p><p>inseridos em família substituta” (Silva e Arpini, 2013a, p. 127). O</p><p>artigo 92º da lei reforça esse entendimento:</p><p>Art. 92. As entidades que desenvolvam programas de</p><p>acolhimento familiar ou institucional deverão adotar os</p><p>seguintes princípios:</p><p>I - preservação dos vínculos familiares e promoção da</p><p>reintegração familiar;</p><p>II - integração em família substituta, quando esgotados</p><p>os recursos de manutenção na família natural ou exten-</p><p>sa (Brasil, 2009, p. 9)</p><p>Assim, fica determinado que as entidades também devem</p><p>se empenhar na reintegração familiar. Oliveira e Pereira (2011),</p><p>apontam que o ideal é que os abrigos tivessem um tamanho re-</p><p>71Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>duzido e que respeitasse a individualidade de crianças e dos</p><p>adolescentes. Acerca das consequências da institucionalização</p><p>prolongada, as autoras apontam os problemas psicológicos e o</p><p>aparecimento de transtornos mentais, como depressão e fobia.</p><p>Portanto, mesmo em condições de acolhimento, as crianças e os</p><p>adolescentes devem ter outras vivências, como creche, escola e</p><p>vizinhança.</p><p>72</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Fede-</p><p>rativa do Brasil. 1988.</p><p>______. Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o</p><p>Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.</p><p>Diário Oficial da União, Brasília, DF, 16 jul 1990.</p><p>______. Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à</p><p>Fome. Política Nacional de Assistência Social. Brasília, 2004.</p><p>______. Presidência da República. Secretaria Especial dos Direi-</p><p>tos Humanos. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente. Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa</p><p>do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar</p><p>e Comunitária Brasília, DF: CONANDA, 2006.</p><p>______. Orientações técnicas: serviços de acolhimento para</p><p>crianças e adolescentes, Brasília: CNAS, Conanda, 2009a.</p><p>______. Tipificação nacional de serviços socioassistenciais. Re-</p><p>solução n. 109, de 11 de novembro de 2009. Brasília: MDS/CNAS,</p><p>2009b.</p><p>______. Lei n° 12.010, de 03 de agosto de 2009. Dispõe sobre</p><p>adoção. Brasília: Conanda, 2009.</p><p>______. Lei n° 13.010, de 26 de junho de 2014. Altera a Lei nº</p><p>8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adoles-</p><p>cente), para estabelecer o direito da criança e do adolescente de</p><p>serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de</p><p>tratamento cruel ou degradante. Brasília: Conanda. 2014.</p><p>______. Lei n° 13.257, de 08 de março de 2016. Dispõe sobre as</p><p>políticas públicas para a primeira infância.Brasília: Conanda. 2016.</p><p>73Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>CRUZ, Dalizia Amaral Cruz; CAVALCANTE, Lília Iêda Chaves;</p><p>COSTA, Elson Ferreira. O direito à convivência comunitária nos</p><p>serviços de acolhimento institucional: Um estudo documental.</p><p>Psicologia Política. vol. 22. n.54. pp. 291-311. 2022</p><p>ESTADÃO. Simulação mostra quais crianças são adotadas (e</p><p>quais não são) no Brasil. Adoção/Interativo. 2020. Disponível</p><p>em https://arte.estadao.com.br/brasil/adocao/criancas/. Acessado</p><p>em 26 de setembro de 2023.</p><p>MAUX, Ana Andréa Barbosa; DUTRA, Elza. A adoção no Brasil:</p><p>algumas reflexões. Estudos e Pesquisas em Psicologia, UERJ: RJ,</p><p>ano 10, nº 2, p. 356-372.</p><p>NERY, Maria Aparecida. A convivência familiar e comunitária é</p><p>direito da criança e do adolescente e uma realidade a ser pensa-</p><p>da pela escola. Cad. Cedes, Campinas, vol. 30, n. 81, p. 189-207,</p><p>mai.-ago. 2010.</p><p>OLIVEIRA, Carmem Aristimunha de; PEREIRA, Elisa Guterres.</p><p>Estudo sobre a Lei Nacional de Adoção: institucionalização, aco-</p><p>lhimento familiar e cadastros. Contextos Clínicos, 4(2):113-122,</p><p>julho-dezembro, 2011.</p><p>SPINELLI, Kelly Cristina. FEBEM na contramão do Estatuto da</p><p>Criança e do Adolescente. Revista Adusp, 2006.</p><p>SILVA, Barbara Karoline de Holanda Azevedo; OLIVEIRA,</p><p>Raiana Marjorie Amaral de; BARROS, Tayane Vieira; GALVÃO,</p><p>Ana Carolina. O plano nacional de convivência familiar e co-</p><p>munitária: um artifício da lógica neoliberal. São Luis: JOINPP,</p><p>2019. Disponível em: < http://www.joinpp.ufma.br/jornadas/</p><p>joinppIV/eixos/12_seguridade/o-planonacional-de-conviven-</p><p>cia-familiar-e-comunitaria-um-artificio-da-logica-neoliberal.</p><p>74</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>pdf>. Acessado em 25 de setembro de 2023.</p><p>SILVA, Milena Leite; ARPINI, Dorian Mônica. A nova lei Nacio-</p><p>nal de Adoção - desafios para a reinserção familiar. Psicologia em</p><p>Estudo, Maringá, v. 18, n. 1, p. 125-135, jan./mar. 2013a.</p><p>______. Nova Lei Nacional de Adoção: revisitando as relações en-</p><p>tre família e instituição. Aletheia 40, p.43-57, jan./abr. 2013.</p><p>VALENTE, Jane. Acolhimento familiar: validando e atribuindo</p><p>sentido às leis protetivas. Serviço Social e Sociedade, São Paulo,</p><p>n. 111, p. 576-598, jul./set. 2012.</p><p>______. Família acolhedora: as relações de cuidado e de prote-</p><p>ção no serviço de acolhimento. São Paulo: Paulus, 2013.</p><p>______. O DIREITO DE CRIANÇAS E DE ADOLESCENTES À</p><p>CONVIVÊNCIA FAMILIAR E COMUNITÁRIA: 30 ANOS DO</p><p>ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. Revista Hu-</p><p>manidades em Perspectivas. v. 2, n. 4. Edição Especial “30 anos</p><p>do ECA”, 2020.</p><p>linear, como</p><p>sustenta Osterne (2004). A autora faz uma análise sobre a família</p><p>brasileira apresentada na obra de Freyre, demonstrando que a his-</p><p>tória da família brasileira por vezes confunde-se com a estrutura</p><p>familiar patriarcal.</p><p>Tal família seria caracterizada pela distribuição de papéis de</p><p>forma rígida e hierárquica que sempre privilegiou os homens, seja</p><p>em relação à sexualidade ou nas relações econômicas. Uma das obras</p><p>importantes para compreender o homem nordestino é o título “O</p><p>Nordestino e a invenção do falo” de Albuquerque Júnior (2003), o</p><p>qual apresenta a construção da imagem do homem no Nordeste</p><p>como forte, viril, que não pode demonstrar fraqueza ou delicadeza</p><p>em oposição ao comportamento esperado para as mulheres.</p><p>tão da influência da família e do cotidiano da vida privada nas ações políticas</p><p>da vida pública. Sérgio Buarque de Holanda escreveu Raízes do Brasil e Nestor</p><p>Duarte, A ordem privada e a organização política nacional. Junto com Freyre,</p><p>formam o conjunto de autores clássicos para se entender a formação sócio-his-</p><p>tórica brasileira.</p><p>9Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Entretanto, isso não significou que as mulheres do Nordeste</p><p>assumiram com total resignação o lugar de submissão. Em todo o</p><p>sertão despontam figuras femininas que chefiam suas casas, negó-</p><p>cios e até mesmo a política na região. Albuquerque Júnior (2003)</p><p>pontua: “É evidente que afirmar a dominação masculina como re-</p><p>gra geral no nível conceitual, não exclui a existência, nas práticas</p><p>concretas, de homens e mulheres relativamente livres” (p. 137).</p><p>Osterne (2011) pondera que nem todos os homens são vio-</p><p>lentos, ou seja, “jamais se pode concluir que a violência faça parte</p><p>da identidade masculina, tampouco que se explique na desistên-</p><p>cia do ato denunciatório, no caso da violência conjugal” (p. 130),</p><p>mas é preciso compreender que nos processos de socialização e</p><p>sociabilidades masculinas há um incentivo para que os homens</p><p>tenham experiências de risco e agressividade. Acrescenta que no</p><p>Nordeste é fomentada a narrativa que a região exigiu a sobrevi-</p><p>vência dos mais fortes frente às adversidades climáticas, presente</p><p>na literatura regionalista e nos discursos literários “homens que</p><p>não devem levar desaforo para casa” (p.132).</p><p>Falci (2006), quando apresenta em seu artigo a mulher nor-</p><p>destina, destaca a formação sócio-histórica do sertão nordestino</p><p>estruturada no patriarcalismo, racismo e na desigualdade de clas-</p><p>ses. Uma das questões centrais dessa discussão é que a região se</p><p>apoia no discurso da “mestiçagem” para imprimir uma imagem</p><p>falseada de coesão social.</p><p>No século XIX se consolida o modelo denominado “nuclear</p><p>de família, apresentado na obra “Ordem Médica e Norma Fami-</p><p>liar” Jurandir Freire Costa (1989), o qual apresenta pela análise</p><p>dos manuais médicos da época, como a família passou a ser vista,</p><p>10</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>os papéis do homem e da mulher e cuidado com os filhos. Esses</p><p>manuais estimulavam a amamentação exclusivamente realizada</p><p>pela mãe biológica, orientavam sobre o controle da sexualidade</p><p>feminina e associam isso à saúde mental feminina. Ao homem</p><p>é reafirmado o papel de provedor e administrador dos bens e da</p><p>organização familiar. Esse modelo se popularizou no século XX</p><p>como padrão normativo a ser seguido e continua sendo propa-</p><p>gado no imaginário coletivo ainda que na contemporaneidade</p><p>tenhamos uma multiplicidade de modelos, que serão melhor de-</p><p>talhados na segunda unidade deste módulo.</p><p>1.2 Abordagem histórica e evolutiva dos conceitos de</p><p>infância</p><p>A infância compreende o período geracional que compreende</p><p>o que a principal legislação brasileira, o Estatuto da Criança e do</p><p>Adolescente - ECA (1990), considera como criança - indivíduo até</p><p>os 12 anos incompletos - e adolescente - até os 18 anos incompletos,</p><p>mas, para os estudiosos das Ciências Humanas e Sociais pode se</p><p>estender até a juventude3. Tais legislações baseiam-se em pesqui-</p><p>sas científicas sobre o desenvolvimento humano, que passaram por</p><p>muitas transformações e reelaborações nas últimas décadas.</p><p>A compreensão do ECA acerca da proteção e dos cuidados</p><p>com a infância é recente no Brasil, pois, no sistema patriarcal que</p><p>prevaleceu durante o Império e a Colônia, a criança ocupava lugar</p><p>secundário na família e estava a serviço do senhor de engenho,</p><p>junto com as mulheres e pessoas escravizadas (Azevedo, 2006).</p><p>3 Segundo o Estatuto da Juventude (2013), são jovens as pessoas com idade</p><p>entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade</p><p>11Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>A infância no Brasil é retrata por uma coletânea de artigos</p><p>denominada “História da criança no Brasil” organizado pela his-</p><p>toriadora Mary Del Priore (2008), desde chegada do colonizador</p><p>nessas terras, no século XVI, passando pelas transformações que</p><p>ocorreram no Período Colonial. no Império, na primeira Repú-</p><p>blica, até a atualidade.</p><p>A infância, nos primeiros séculos de colonização, era vis-</p><p>ta como um período de transição, onde os chamados “miúdos”,</p><p>“ingênuos” ou “infantes” eram classificados como pertencentes</p><p>ao período da infância, uma fase em que estes não tinham maior</p><p>personalidade. Nesse período ocorre a presença massiva da Com-</p><p>panhia de Jesus no processo de educação das crianças, ensinan-</p><p>do-as a ler e escrever e a recitar orações católicas, num trabalho</p><p>puramente catequético que promoveu intenso processo de coloni-</p><p>zação e apagamento da cultura dos povos originários. É relevante</p><p>destacar que havia uma ordem expressa do Rei Dom João III em</p><p>catequizar preferencialmente as crianças, por serem consideradas</p><p>mais fáceis de aprender a doutrina.</p><p>A Companhia de Jesus inicialmente tinha um projeto mis-</p><p>sionário e posteriormente se caracterizou como projeto docente,</p><p>inclusive, na educação de crianças e adolescentes, com o objetivo</p><p>de ensinar letras e bons costumes aos infantes. A companhia era</p><p>proprietária de diversas escolas na Europa e no Brasil, ainda que</p><p>existissem escolas de outras instituições.</p><p>Nos séculos seguintes, XVII e XVIII, a classificação das fai-</p><p>xas etárias das crianças e adolescentes, nos manuais de medicina,</p><p>era descrita da seguinte forma: consideravam a infância como a</p><p>primeira idade do homem, definida como “puerícia”, e segundo,</p><p>12</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>durava do nascimento aos quatorze anos. A segunda idade era a</p><p>adolescência, que estava entre os 14 e 25 anos (Priore, 2008).</p><p>A puerícia dividia-se em três fases. A primeira se iniciava</p><p>com o nascimento, indo até o final da amamentação, por volta</p><p>dos 3 ou 4 anos. A segunda fase se estendia até os 7 anos. Nessa</p><p>fase, as crianças passavam a seguir sempre os pais nas suas ativi-</p><p>dades diárias, vivendo então à sombra destes. A terceira fase seria</p><p>quando as crianças iniciavam suas atividades laborativas, ainda</p><p>que fossem em pequenas atividades, e muitas também estudavam.</p><p>No contexto entre a Colônia e o Império, observam-se pelo</p><p>menos seis tipos distintos de infância: a livre; as crianças esque-</p><p>cidas das Minas Gerais, ou seja, as que não eram mencionadas</p><p>nas correspondências com a metrópole Portugal, principalmen-</p><p>te as crianças negras e pobres; a da elite do Império, na qual as</p><p>crianças tinham educação musical, moral e de como deveriam se</p><p>comportar, além de serem educadas de acordo com os princípios</p><p>europeus, o mesmo acontecendo com os adultos; a das crianças</p><p>escravas, que aprendiam desde cedo a ter obediência e a serem</p><p>adestradas ao trabalho ; a dos aprendizes de guerra, os quais, mui-</p><p>to cedo, eram enviados para os campos de batalha pelos adultos</p><p>no primeiro batalhão, durante os séculos XVI e XVII; e a infância</p><p>indígena, a qual se destaca pela intensa relação afetiva entre pais</p><p>e filhos e por ter a cultura da não violência física na educação in-</p><p>fantil (Priore, 2008).</p><p>Nesse sentido, é relevante destacar que, diferente da concep-</p><p>ção que se tem hoje sobre o exercício de função laborativa pelas</p><p>crianças e adolescentes, observando sua condição peculiar de de-</p><p>senvolvimento, nos séculos XVI a XVIII, atividades importantes</p><p>13Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>eram delegadas a esses sujeitos, como o serviço militar, para os</p><p>pobres e aristocratas, e o trabalho doméstico, na agricultura, na</p><p>mineração e em outras atividades que empregavam a força físi-</p><p>ca, para as crianças negras escravizadas. Priore (2008) afirma que</p><p>muitos adolescentes entre os 14 e 15 anos já tinham ampla expe-</p><p>riência bélica no período imperial.</p><p>No final dos anos 1890, identificamos, em São Paulo e nas</p><p>maiores cidades do Brasil, o aumento da criminalidade infanto-ju-</p><p>venil. Tal fato foi comprovado pela veiculação de um soneto em</p><p>revista feminina, intitulado “O vagabundo”, que retratava a preocu-</p><p>pação da população com esses “desocupados” vítimas da industria-</p><p>lização, urbanização e pauperização das classes populares.</p><p>No século XVIII, as famílias passaram a se preocupar com</p><p>dois novos elementos: a higiene e a saúde física. Era preciso tratar</p><p>de todos os enfermos e os sãos deveriam cuidar da postura, um</p><p>corpo enrijecido poderia significar preguiça e outros vícios, cor-</p><p>respondente ao período da medicina higienista citada no tópico</p><p>anterior por Costa (1979).</p><p>Debortoli (2008) assevera que os conhecimentos adquiridos</p><p>no passado sobre a infância privilegiavam o controle e a domi-</p><p>nação. Prova disso foram tais manuais com normas de conduta,</p><p>criados entre os séculos XVIII e XX, na perspectiva de orientar</p><p>como abandonar os hábitos infantis para obter a maturidade e a</p><p>racionalidade adulta. O autor acrescenta que</p><p>Nesse contexto, a educação/escolarização/socialização</p><p>da infância significou objetivamente moralizá-la, expres-</p><p>sando-se como um processo longo de inscrição de um</p><p>“outro” maduro, moral, racional na infância, encarnado</p><p>14</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>na voz imperativa da vigilância, da representação e da</p><p>punição (Debortoli, 2008, p.73)</p><p>No entanto, tais manuais mostram que a infância passa a</p><p>ser objeto de preocupação da família, que começa a modificar seu</p><p>comportamento negligente em relação aos cuidados com a saúde</p><p>das crianças e a observar as orientações dos médicos.</p><p>Portanto, é a partir do século XIX que a criança começa a ser</p><p>vista de maneira diferenciada, como um ser que necessita de cuida-</p><p>dos e proteção dos membros adultos de sua família, não podendo</p><p>ser negligenciada de suas necessidades básicas. (Azevedo, 2004)</p><p>Desse modo, percebemos que o sentimento de infância</p><p>se modifica durante os séculos de XVII a XX, pois nota-se uma</p><p>exaustiva preocupação com a moral e o psíquico da criança. Esta</p><p>já não era divertida e agradável, mas era considerada um homem</p><p>imperfeito, portanto, essa fase deveria ser superada. A psicologia</p><p>da infância era então bastante explorada com o intuito de aplicar a</p><p>melhor forma de educação a esse ser imperfeito. Havia forte apelo</p><p>para que as crianças se tornassem homens racionais e cristãos.</p><p>Nas primeiras décadas do século XX, assistia-se ao floresci-</p><p>mento da indústria no país e, aliada a esse processo, a exploração</p><p>da mão de obra de crianças e adolescentes, que arriscaram suas</p><p>vidas em fábricas onde eram péssimas as condições de trabalho</p><p>(Priore, 2008). Diversos acidentes ocorriam dentro das fábricas, o</p><p>que gerou denúncias em meios de comunicação, os quais conce-</p><p>biam a criança e o adolescente como seres sagrados. Tal concep-</p><p>ção contribuiu para a organização e a luta das classes operárias</p><p>por melhores condições de trabalho.</p><p>15Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Na contemporaneidade, a criança e o adolescente tomam o</p><p>papel central na família. Os pais planejam trabalhar para cons-</p><p>truir o futuro dos filhos, já que “na modernidade a infância se</p><p>tornou objeto de preocupações, meditações, planos e projetos</p><p>infinitos, tema inesgotável e autônomo de exploração e debate.”</p><p>(CALLIGARES, 2009, p. 62). Sobre esse tema, será discorrido no</p><p>tópico que se segue.</p><p>1.3 Papel da família na formação da identidade e</p><p>desenvolvimento das crianças</p><p>A família possui centralidade nas diversas políticas públicas con-</p><p>temporâneas, tais como: a Assistência Social, a Educação, a políti-</p><p>cas de proteção à infância, dentre outras, enquanto instituição res-</p><p>ponsável pelo desenvolvimento pleno dos indivíduos, Entretanto,</p><p>o desenvolvimento infantil compreende um conjunto de fatores</p><p>que envolvem não somente a influência dos pais/responsáveis,</p><p>mas a questão econômica, cultural, social, bem como a questão</p><p>de gênero, geração e raça/etnia.</p><p>Em relação à centralidade da criança na família, trata-se tam-</p><p>bém de uma questão de classe, pois as infâncias pobres foram histo-</p><p>ricamente marginalizadas, e continuam sendo, como destacamos:</p><p>De desvalido e menor a outros epítetos mais depreciativos</p><p>como ‘pivete’, ‘mirim’, ‘trombadinha’, ‘infrator’, ‘de rua’, ‘da Fe-</p><p>bem’, até a denominação constitucional em vigor − crian-</p><p>ça e adolescente −, para eles, as mudanças mais significa-</p><p>tivas tem ocorrido, infelizmente, no plano dos discursos.</p><p>Lamentavelmente das práticas, muito se tem repetido. É</p><p>a história quem assim o declara (Vasconcelos, 2002, p. 54).</p><p>16</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>Por meio da análise histórica da infância e da família, pode-</p><p>-se perceber que os significados atribuídos à infância são tomados</p><p>segundo uma ótica adultocêntrica, conforme Debortoli (2008):</p><p>Nesse sentido, é significativo problematizar o valor social</p><p>que temos atribuído aos adultos e às crianças. A cultura</p><p>e a civilização moderna nos ensinaram a conceber uma</p><p>infância centrada em um “ponto de vista adulto” (enten-</p><p>de-se homem, branco, ocidental), signo de maturidade,</p><p>perfeição, autonomia da razão. Vislumbraram uma infân-</p><p>cia abstrata, atemporal, relacionada a uma perspectiva</p><p>histórica linear e progressiva. Tomada como irracional,</p><p>espontânea, despreocupada, a infância foi anunciada</p><p>como ponto de partida de um futuro idealizado. (p. 78)</p><p>Nas teorias psicológicas e psicanalíticas há uma reafirmação</p><p>do papel da família na formação do indivíduo. Carl Jung (1999)</p><p>afirma que os pais têm grande influência no desenvolvimento</p><p>psíquico dos filhos e que a criança desenvolve a personalidade</p><p>na infância, por esse motivo, o comportamento dos pais tende a</p><p>ser reproduzido nos filhos. A psicóloga Ferrari (2002) confirma</p><p>tal teoria ao asseverar que a criança é um ser que necessita dos</p><p>vínculos que estabelece na primeira infância para sua formação e</p><p>desenvolvimento.</p><p>A função dos pais para Ferrari (2002) é ensinar os filhos</p><p>suas experiências, o conhecimento das situações vivenciadas, por</p><p>meio do exercício da autoridade. Os pais/responsáveis devem en-</p><p>sinar os filhos a passar pelas frustrações, a como receber resposta</p><p>negativa ao que não podem fazer segundo a concepção dos ge-</p><p>17Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>nitores, para que as crianças/adolescentes aprendam a distinguir</p><p>realidade de fantasia.</p><p>Além da convivência familiar, é necessário apontar a neces-</p><p>sidade de convivência comunitária. Para Agnes Heller (1992), a</p><p>partir da convivência em grupos, o ser social amadurece junto à</p><p>vida cotidiana, assim, é na família e na comunidade que são feitas</p><p>as primeiras mediações entre os indivíduos e os costumes, as nor-</p><p>mas são aprendidas.</p><p>A contemporaneidade trouxe diferentes formas de relacio-</p><p>namento entre as gerações oponentes à família hierárquica, na</p><p>qual o pai exercia toda a autoridade da casa sobre a mulher e os</p><p>filhos, de forma arbitrária. O que observamos no hodierno é:</p><p>As relações entre pais e filhos ganham respeito e flexi-</p><p>bilidade, deixam os modelos centrados na autoridade e</p><p>na disciplina, enquanto</p><p>são incorporados os valores de</p><p>diálogo, negociação, tolerância, no horizonte de um am-</p><p>plo pluralismo ético e religioso. (Kaloustian, 2005 apud</p><p>Petrini et al. p. 6)</p><p>Outro fator observado é a diminuição da quantidade de fi-</p><p>lhos nas famílias das classes médias e altas, pois, o planejamento</p><p>é mais rigoroso, conferindo-lhes maior investimento na saúde e</p><p>na educação dos filhos. Por outro lado, essa nova família planeja-</p><p>da faz com que os pais tenham maior expectativa em relação ao</p><p>futuro, a carreira profissional e a gratificação emocional e afetiva</p><p>dos filhos.</p><p>Segundo Lino (2009), a família é o lugar prioritário do en-</p><p>contro entre diferentes gerações, prevalecendo, em alguns mo-</p><p>18</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>mentos, a cooperação, em outros, o conflito. Nas últimas déca-</p><p>das, emerge um abismo entre as gerações, pois algumas se tornam</p><p>muito divergentes de outras em relação às escolhas, metas e valo-</p><p>res, causando entre elas o estranhamento.</p><p>Pode-se observar que a tecnologia e a rapidez das informa-</p><p>ções também é um fator que intensifica a diferenciação entre as</p><p>gerações, pelos meios de inserção nas mídias digitais, os debates</p><p>sobre temas do cotidiano que circulam por meio das redes e as</p><p>formas de entretenimento, por exemplo. Essas mudanças fazem</p><p>com que, “no quotidiano, prevalecem formas de acomodação prá-</p><p>tica e o diálogo é substituído por negociações pontuais. Os víncu-</p><p>los de pertença, que ligam os pais aos filhos e vice-versa, tendem,</p><p>nesse ambiente, a serem mais frouxos” (Petrini et al. 2005, p. 31).</p><p>Sendo assim, os vínculos se diferem do passado, em relação</p><p>ao histórico familiar, o que foi importante para os pais já não tem</p><p>lugar de destaque para as novas gerações e isso pode gerar uma</p><p>comunicação entre eles fica dificultada e muitos conflitos (LINO,</p><p>2009). Por outro lado, com o aumento da expectativa de vida da</p><p>população, diferentes gerações passam a conviver na mesma fa-</p><p>mília, bem como os filhos demoram mais tempo para sair da casa</p><p>dos pais, pois os casamentos são retardados em consequência dos</p><p>estudos, da busca por estabilidade profissional e afins.</p><p>Com o aumento do número de divórcios, ocorre também o</p><p>retorno dos filhos para a casa paterna, acompanhados dos netos,</p><p>modificando, assim, a relação com os progenitores, pois os idosos</p><p>também passam a ser responsáveis pela educação das crianças.</p><p>Em outros casos, quando um dos pais perde a guarda dos filhos,</p><p>os avós padecem da ausência de contato com os netos.</p><p>19Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Outra situação conflituosa é quando os filhos, já adultos,</p><p>não possuem dependência financeira, mas desejam sua autono-</p><p>mia e os pais não a concedem. Outrossim, quando os filhos adul-</p><p>tos saem de casa, os pais buscam conquistar novas relações de</p><p>convivência e amizade para compensar a ausência desse parente.</p><p>Como temos discutido sobre a relação entre infância, adolescên-</p><p>cia e consumismo contemporâneo, as novas relações produtivas</p><p>interferem também nas relações familiares e na fragilização de</p><p>seus vínculos, que tiveram como consequência o crescimento da</p><p>individualização dos direitos e das responsabilidades.</p><p>20</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>2. Modelos de Famílias e Diversidade Familiar</p><p>2.1 Modelos de família e diversidade familiar</p><p>A família, enquanto instituição que se transforma de acordo com</p><p>o período sócio-histórico, a cultura dos diferentes lugares, apre-</p><p>senta-se contemporaneamente como um combinado dos modelos</p><p>anteriores (extensa e nuclear), incluindo as variações nas relações</p><p>de gênero, classe, geração e etnia. Pode-se dizer que:</p><p>A família encontra-se em constante mudança, por parti-</p><p>cipar dos dinamismos próprios das relações sociais. Inte-</p><p>grada no processo social, ela passa por transformações</p><p>significativas. Em meio a turbulências ao mesmo tempo,</p><p>adaptando-se a elas, a família encontra novas formas de</p><p>estruturação que, de alguma maneira, a reconstituem.</p><p>(Donati E Scabini apud Petrini et al., 2005, p.9).</p><p>A família contemporânea apresenta várias configurações.</p><p>Ela pode ser: nuclear, incluindo duas gerações, com filhos biológi-</p><p>cos; extensas, incluindo três ou quatro gerações; unipessoais; ado-</p><p>tivas; casais sem filhos; monoparentais, chefiadas por pai ou mãe,</p><p>casais homossexuais com ou sem crianças; reconstruídas depois</p><p>da separação; e várias pessoas vivendo juntas, sem laços legais,</p><p>mas com forte compromisso mútuo. Essas várias configurações,</p><p>21Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>nas palavras de Khel (2003), são designadas “família tentacular”.</p><p>Pode-se definir família como a constituição de vários in-</p><p>divíduos que compartilham circunstâncias históricas, culturais,</p><p>sociais, econômicas e afetivas. Família é uma unidade social</p><p>emissora e receptora de influências culturais e de acontecimentos</p><p>históricos. Possui comunicação própria e determinada dinâmica.</p><p>(Ferrari, 2002, p. 28).</p><p>Desse modo, podemos afirmar que o que constitui uma fa-</p><p>mília atualmente são os laços afetivos existentes entre os indiví-</p><p>duos, que podem compartilhar o mesmo ambiente domiciliar ou</p><p>não, mas possuem vínculo.</p><p>2.2 Famílias de acolhimento</p><p>A proteção das crianças e adolescentes não devem se restringir às</p><p>instituições públicas e privadas destinadas a este fim quando não</p><p>puderem permanecer na sua família originária, seja por situação</p><p>de violação de direitos, negligência, dentre outras motivações.</p><p>Uma alternativa que tem sido fomentada nas últimas duas déca-</p><p>das são as denominadas “famílias de acolhimento” ou “famílias</p><p>acolhedoras”.</p><p>O Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direi-</p><p>to de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comuni-</p><p>tária (2006) é um importante instrumento de estabelecimento de</p><p>estratégias para a proteção de crianças e adolescentes em situação</p><p>de abandono e vulnerabilidade. Pois,</p><p>Ele busca incorporar na sua plenitude a “doutrina da</p><p>proteção integral”, tendo mobilizado no processo de sua</p><p>construção discussões sobre o acolhimento familiar en-</p><p>22</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>tre os órgãos de classe, entre grupos de pesquisa e de in-</p><p>tervenção ligados à infância e juventude, entre magistra-</p><p>dos, promotores da infância e juventude, além de outros</p><p>atores que compõem o Sistema de Garantia de Direitos</p><p>(Costa e Rossetti-Ferreira, 2009, p. 112).</p><p>O acolhimento familiar consiste em uma programa onde as</p><p>crianças e adolescentes permanecem por um período com uma</p><p>família que adere voluntariamente e se compromete com o cui-</p><p>dado e a proteção daqueles que ficam sob sua responsabilidade.</p><p>Sua principal função é evitar longos períodos de institucionali-</p><p>zação dessas crianças e adolescentes ao passo em que promove a</p><p>convivência familiar e comunitária prevista no ECA. A medida</p><p>apareceu pela primeira vez em uma legislação nacional na Polí-</p><p>tica Nacional de Assistência Social do Ministério do Trabalho e</p><p>Desenvolvimento Social (2004).</p><p>Ou seja, o acolhimento familiar é compreendido como</p><p>uma medida protetiva, a qual possibilita à criança e ao</p><p>adolescente em vulnerabilidade e afastado de sua família</p><p>de origem ser colocado sob a guarda de uma outra famí-</p><p>lia. Essa família é previamente selecionada, cadastrada e</p><p>vinculada a um programa. Ela acolherá a criança ou ado-</p><p>lescente por um período. Paralelamente ao acolhimento,</p><p>é necessário trabalhar as causas do afastamento junto à</p><p>família de origem de maneira a contribuir, efetivamente,</p><p>para uma reintegração familiar como preconizado pelo</p><p>ECA (1990).</p><p>23Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Historicamente, essa prática era realizada nas famílias brasi-</p><p>leiras de modo informal, no entanto, com os devidos debates jurí-</p><p>dicos e das instituições competentes,</p><p>passou a ser regulamentado e</p><p>legalizado no país. É importante ressaltar que somente “[...]quando</p><p>esgotados os recursos ou possibilidades da permanência da criança</p><p>na família de origem, dispõe a lei que os operadores sociais e do</p><p>direito devem buscar a colocação da criança em família substituta</p><p>na forma de guarda, tutela ou adoção ou, ainda, a colocação em</p><p>acolhimento institucional” (Costa e Rossetti-Ferreira, 2009, p. 115).</p><p>2.3 Famílias em situação vulnerabilidade social</p><p>A contemporaneidade e o desenvolvimento do modo capitalis-</p><p>ta de produção trouxeram novas formas de sociabilidade e novas</p><p>necessidades para a infância, pois as crianças estão cada vez mais</p><p>inseridas no mercado consumidor e de consumidores são afirma-</p><p>das como cidadãos (CANCLINI,2006), influenciadas pela mídia e a</p><p>fluidez das relações, aprofundando ainda mais a desigualdade entre</p><p>as infâncias pobres e esquecidas e as infâncias das classes abastadas:</p><p>As crianças se veem envolvidas em um mundo de ima-</p><p>gens, tecnologias, produtos e desejos individuais que a</p><p>maioria sequer tem condições de se apropriar (não por</p><p>competência, mas por meio de acesso e inserção), mas</p><p>que, como norma ou moda, impõe ser consumidos como</p><p>expressão do novo cidadão contemporâneo. (Debortoli,</p><p>2008, p.76)</p><p>Essas desigualdades expressam a questão social na qual</p><p>crianças e adolescentes estão inseridos e evidencia a fratura exis-</p><p>24</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>tente entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações</p><p>sociais, que, segundo Iamamoto (2007): “Fratura esta que vem se</p><p>traduzindo na banalização da vida humana, na violência escondi-</p><p>da no fetiche do dinheiro e na mistificação do capital ao impreg-</p><p>nar todos os espaços e esferas da vida social” (p. 164).</p><p>Apesar da tentativa de desconstruir esse padrão adultocên-</p><p>trico e da tentativa de transformá-los em adultos, percebemos que</p><p>a linha divisória entre infância e adolescência tem se atenuado,</p><p>pois as crianças são levadas a consumir produtos para adolescen-</p><p>tes e a desejar experienciar as vivências da adolescência, enquanto</p><p>os adultos procuram manter-se permanentemente jovens.</p><p>25Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>3. Prevenção da violência, abuso e negligência.</p><p>3.1 Orientação e apoio</p><p>A violência doméstica contra crianças e adolescentes é uma rea-</p><p>lidade no Brasil que deve ser enfrentada para que haja a devida</p><p>proteção desses indivíduos. Para Ferrari (2002), quando ocorre</p><p>a violência física ou sexual contra crianças, denota-se que a rela-</p><p>ção hierárquica de pais e filhos se deteriorou. Segundo ela, os pais</p><p>não cumpriram sua função de proteção e transmissão dos valores</p><p>funcionais.</p><p>Diante desse fenômeno social, aparece um questionamento:</p><p>quais as possibilidades de orientação e apoio à crianças e adoles-</p><p>centes em situação de violência, abuso ou negligência? Para tanto,</p><p>partiremos da reflexão sobre os ambientes seguros e a rede de de-</p><p>núncia e de suporte de crianças e adolescentes na atualidade.</p><p>3.2 Ambientes seguros</p><p>Para o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes é ne-</p><p>cessário que lhe sejam oferecidos ambientes que ofereçam con-</p><p>forto, segurança e condições dignas de convivência. Sobre esse</p><p>tema, o Terre des hommes (Tdh)4 publicou a cartilha “Lugar Segu-</p><p>4 Terre des hommes Lausanne no Brasil (Tdh) é uma instituição sem fins lu-</p><p>crativos que faz parte da Fondation Terre des hommes Lausanne, organização</p><p>26</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>ro para crianças e adolescentes: Guia prático sobre como proteger</p><p>crianças e adolescentes de situação de violência no espaço institu-</p><p>cional” publicado em 2014, o qual oferece subsídios para pensar</p><p>quais as condições necessárias para acolhimento da na infância.</p><p>Um lugar seguro para crianças e adolescentes é estabe-</p><p>lecer ideias, ações, formas de relacionar-se e de lidar com</p><p>os conflitos, envolvendo adultos, crianças e adolescentes;</p><p>que possibilita sentirem-se confortáveis, alegres, tranqui-</p><p>los, encorajados e apoiados para estarem juntos e apren-</p><p>derem juntos. Uma convivência sem medo, sem dor, sem</p><p>abandono; uma convivência de respeito, compreensão e</p><p>cuidado, na qual a preocupação pela segurança, saúde e</p><p>bem-estar das crianças e dos adolescentes seja sempre</p><p>uma prioridade. E onde os adultos sabem como buscar</p><p>apoio para também estarem seguros e estabelecerem re-</p><p>lacionamentos saudáveis e de proteção entre si e com as</p><p>crianças e os adolescentes (TDH, 2014, p. 9).</p><p>Portanto, esse espaço deve oferecer as condições de supe-</p><p>ração das situações de violências, negligências e abusos sofridos</p><p>para garantir a proteção integral de crianças e adolescentes. A</p><p>cartilha foi elaborada para nortear os atendimentos em institui-</p><p>ções diversas, como escolas, centros socioeducativos, equipa-</p><p>mentos da Política de Assistência Social, Conselhos Tutelares,</p><p>dentre outros. A principal questão que se coloca é em relação a</p><p>internacional, fundada em 1960, e que age com compromisso e eficácia em</p><p>prol dos direitos de crianças e adolescentes em qualquer circunstância social,</p><p>na perspectiva de sua proteção e valorização como sujeitos de direitos, partíci-</p><p>pes do desenvolvimento da cidadania (TDH, 2014, p. 2).</p><p>27Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>proteção e a segurança que devem constituir uma política insti-</p><p>tucional, preconizando:</p><p>• Proteger a criança e o adolescente de toda e qualquer</p><p>forma de violência;</p><p>• Proteger e orientar os profissionais que desenvolvem</p><p>seus trabalhos diretamente com crianças e adolescentes</p><p>de forma que saibam exatamente como prevenir e agir</p><p>frente a situações de violência contra a criança e o ado-</p><p>lescente;</p><p>• Proteger a instituição de complicações jurídicas;</p><p>• Sensibilizar, informar e orientar crianças, adolescen-</p><p>tes e famílias sobre formas de prevenção, identificação,</p><p>denúncia e tratamento diante casos de violência contra</p><p>crianças e adolescentes (TDH, 2014, p. 11).</p><p>A cartilha propõe três passos para a construção da política</p><p>de segurança para crianças e adolescentes no espaço institucional,</p><p>são eles: 1º compreender o que se entende por violência - promo-</p><p>ver estudos e debates sobre o tema nas instituições; 2º entender</p><p>as relações existentes - entre as crianças, adolescentes e adultos, a</p><p>forma de comunicação e de administração de conflitos; 3º iden-</p><p>tificar as situações de risco - conhecimento da rede de proteção e</p><p>mecanismos de denúncias institucionais (TDH, 2014).</p><p>Em uma outra perspectiva, para crianças e adolescentes que</p><p>residem com seus familiares em lugares de alta vulnerabilidade</p><p>social também é necessário pensar no conceito de ambiente se-</p><p>guro. Um estudo realizado em uma escola pública de Fortaleza</p><p>e publicado no artigo “Manutenção do ambiente seguro e ado-</p><p>28</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>lescência: um estudo baseado no modelo de atividade de vida”</p><p>(2016), desenvolvido por pesquisadoras da área da enfermagem,</p><p>demonstrou o que os adolescentes entrevistados entendiam sobre</p><p>ambiente seguro:</p><p>Diante dos dados expostos, verifica-se que muitas vulne-</p><p>rabilidades envolvem os adolescentes na atividade de vida</p><p>manutenção do ambiente seguro, a saber: os acidentes de</p><p>trânsitos; pois eles conhecem condutores que dirigem al-</p><p>coolizados e existem áreas próximas às suas residências</p><p>percebidas como locais onde frequentemente ocorrem</p><p>acidentes; os assaltos e criminalidade, pois residem em</p><p>um bairro com alta incidência desses eventos; o risco do</p><p>contágio de doenças, como a dengue, e a falta de compro-</p><p>misso com a vacinação (BEZERRA et. al., 2016, p.17) .</p><p>Assim, pode-se compreender que o ambiente seguro, além</p><p>do lar - espaço onde ocorrem as principais violências contra</p><p>crianças e adolescentes</p><p>no país5- também o espaço institucional</p><p>e o exterior destes, como a comunidade onde residem precisam</p><p>oferecer condições de proteção e segurança e essa deve ser uma</p><p>prioridade nas políticas públicas.</p><p>5 Anuário Brasileiro de Segurança Pública, produzido pelo Fórum Brasileiro</p><p>de Segurança Pública, em 2022, entre os crimes não letais contra crianças e</p><p>adolescentes de zero a 17 anos, foram registrados no Brasil, em 2021, 45.076¹</p><p>casos de estupro, 7.908 casos de abandono de incapaz, 19.136 de maus-tratos</p><p>e 18.461 de lesões corporais em violência doméstica, entre outras violações de</p><p>direitos. Já no que se refere a crimes letais, o registro contabiliza 2.555 crianças</p><p>ou adolescentes vítimas fatais de violência (Farias (EPSJV/Fiocruz. Disponível</p><p>em : https://portal.fiocruz.br/noticia/violencia-contra-criancas-e-adolescentes-</p><p>-pesquisadores-reforcam-importancia-da-notificacao acesso em 16 de out de</p><p>2023).</p><p>29Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>3.4 Denúncia e suporte</p><p>Após a constatação da situação de violência sofrida pela crian-</p><p>ça e o adolescente é necessário viabilizar a denúncia aos órgãos</p><p>competentes e dar suporte no processo de atendimento nas insti-</p><p>tuições pela escuta e do atendimento especializado, com vistas a</p><p>superação da situação e os traumas decorrentes destas violações.</p><p>Nacionalmente, o DISQUE 100 é o serviço que registra de-</p><p>núncias de violação dos direitos humanos. Nas instâncias esta-</p><p>duais e municipais, algumas das instituições em que é possível</p><p>registrar denúncias são:</p><p>• CEDCA (Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente)</p><p>• COMDICA (Conselho Municipal dos Direitos da Criança</p><p>e do Adolescente)</p><p>• CONSELHO TUTELAR</p><p>• EQUIPAMENTOS DE SAÚDE</p><p>• SEGURANÇA PÚBLICA (Delegacia Especializada da</p><p>Criança e do Adolescente)</p><p>• MINISTÉRIO PÚBLICO</p><p>• DEFENSORIA PÚBLICA (TDH, 2014)</p><p>Na aula seguinte as políticas públicas para a infância serão</p><p>melhor detalhadas, desde seu histórico no Brasil até as legislações</p><p>atuais e os equipamentos que realizam a operacionalização atra-</p><p>vés das equipes multiprofissionais.</p><p>30</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>4. Políticas públicas voltadas para infância,</p><p>adolescência e família</p><p>4.1 Desenvolvimento integral na primeira infância</p><p>Os estudos sobre a infância, como vimos nas aulas anteriores, de-</p><p>monstraram a relevância dessa fase para o desenvolvimento de</p><p>uma fase adulta que alcance todas as potencialidades psíquicas,</p><p>cognitivas e emocionais. Os anos iniciais demonstraram-se cru-</p><p>ciais pois também é um período de maturação biológica de órgãos</p><p>relevantes no criança e pode ser definida como:</p><p>A primeira infância compreende a fase dos 0 aos 6 anos.</p><p>Trata-se de um período importantíssimo, pois é quando</p><p>ocorre o desenvolvimento de estruturas e de circuitos</p><p>cerebrais, bem como a aquisição de capacidades essen-</p><p>ciais que permitirão o aperfeiçoamento de habilidades</p><p>futuras mais complexas (SOUSA e SOUSA, 2023, p. 153).</p><p>Segundo o estudo “O impacto do desenvolvimento na pri-</p><p>meira infância sobre a aprendizagem” do Núcleo Ciência pela</p><p>Infância” (2014) aponta que a aprendizagem (capacidade de</p><p>aprender) e o aprendizado (conteúdo a ser aprendido) no Bra-</p><p>sil apresenta baixos desempenho em relação à crianças de outros</p><p>países, e a superação dessa realidade perpassa a um desenvolvi-</p><p>mento integral saudável na primeira infância.</p><p>31Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Por esse motivo, as políticas públicas são essenciais para a</p><p>proteção e a promoção do desenvolvimento da criança na pri-</p><p>meira infância, por meio de ações coordenadas de múltiplos</p><p>parceiros dos mais diversos setores da sociedade. Tais políticas</p><p>públicas têm um papel preponderante de acompanhar e auxiliar</p><p>nas condições de vida da criança desde o momento da concep-</p><p>ção até a tenra idade, e para isso, devem ter uma visão integral</p><p>(SOUSA e SOUSA, 2023).</p><p>4.2 Políticas de proteção infantil</p><p>As políticas de proteção à infância no Brasil passaram por di-</p><p>versas transformações de acordo com o entendimento acerca do</p><p>que se considerava como “criança” e do “adolescente” ao longo da</p><p>história. Ainda no Período Colonial, as formas iniciais de pres-</p><p>tar assistência às famílias pobres tinham caráter de benemerên-</p><p>cia. Naquele período surgiram instituições de acolhimento para</p><p>crianças abandonadas6 como e ficaram conhecidas pelas “rodas</p><p>dos expostos”.</p><p>Tais instituições tinham caráter disciplinador, e cultivavam</p><p>a ideia de que a criança deveria ser corrigida para se tornar um</p><p>adulto racional. A criança e o adolescente das classes pobres tive-</p><p>ram o lugar de controle e punição nas instituições de atendimen-</p><p>to dos séculos passados, como afirmado por Debortoli (2008) “a</p><p>propósito, desde os séculos XVII e XVIII, vem se consolidando</p><p>6 O termo “crianças abandonadas” foi utilizado por ser recorrente na literatura</p><p>sobre a criança, mas os debates mais atuais como de Itaboraí (2005), apontam</p><p>que o termo correto seria “famílias abandonadas” pelo Estado e pelas políticas</p><p>públicas, pois essas famílias, para garantir os mínimos sociais para as crianças,</p><p>abdicam da guarda de seus filhos.</p><p>32</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>um conjunto de representações, discursos, teorias, sentimentos e</p><p>crenças sobre as crianças, estruturando dispositivos de socializa-</p><p>ção e controle” (p.71).</p><p>Com o surgimento do sentimento de infância no país - em</p><p>meados do século XIX, o período higienista - surgem as primeiras</p><p>instituições de assistência às crianças desfavorecidas, bem como</p><p>os institutos profissionalizantes, tais como: o Instituto de Proteção</p><p>e Assistência no Rio de Janeiro (1901), o Instituto Disciplinar de</p><p>São Paulo (1902) e os institutos profissionais de menores pobres</p><p>(1909) (Azevedo, 2004).</p><p>No contexto do Brasil Republicano, emerge a preocupação</p><p>em inserir as camadas populares e desvalidas na esfera produti-</p><p>va, para evitar a “criminalidade” e a “vagabundagem” ou qualquer</p><p>manifestação contrária à ordem. Nesse sentido, a assistência a</p><p>crianças e adolescentes pobres deveria ser baseada na disciplina</p><p>para a aptidão ao trabalho. Diante disso, é criado o primeiro Có-</p><p>digo de Menores em 1927 (Vasconcelos, 2002).</p><p>Azevedo (2004) aponta que o Código de Menores de 1927,</p><p>ou “Código Mello Mattos”, teve como principal objetivo permitir</p><p>que o juiz pudesse tutelar o “menor” que estivesse em situação</p><p>irregular, como a negligência com a moral, a saúde e a segurança</p><p>por parte dos pais, se estes fossem considerados falecidos, igno-</p><p>rados, desaparecidos, estivessem em situação de rua ou exercem</p><p>trabalhos considerados “proibidos”. As medidas aplicadas a essas</p><p>situações eram os internatos provisórios ou até mesmo a destitui-</p><p>ção do poder familiar.</p><p>Em 1941, foi criado o Serviço de Atendimento ao Menor –</p><p>SAM – destinado a prestar assistência a crianças e adolescentes</p><p>33Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>pobres no Brasil, no período em que o presidente Getúlio Vargas</p><p>estava no poder. Segundo Vasconcelos (2002),</p><p>O SAM adotou uma política de exclusão-reclusão, carac-</p><p>terizada pela retirada do “menor” do convívio social e o</p><p>seu consequente encaminhamento aos espaços institu-</p><p>cionais de reclusão, por ele, criados, como recurso de ma-</p><p>nutenção da “ordem”. Já o “progresso” ficava resguardado</p><p>no discurso que referendava a necessidade de inclusão</p><p>dessa população no processo produtivo: o preceito de</p><p>“redenção pelo trabalho” (p. 54).</p><p>Para alcançar a meta de inserir a criança e o adolescente no</p><p>processo produtivo, foram criadas casas de trabalho para meno-</p><p>res. No Ceará, num período anterior à criação do SAM, foi criada</p><p>a Escola de Menores Abandonados e Delinquentes de Santo An-</p><p>tônio do Pitaguari (1936), em Maracanaú, posteriormente deno-</p><p>minada Instituto Carneiro de Mendonça (ICM) (Azevedo, 2004).</p><p>É relevante destacar que, em 1948,</p><p>a Assembleia Geral da</p><p>Organização das Nações Unidas (ONU) ressaltou o direito das</p><p>crianças à assistência e, posteriormente, em 1958, promulgou a</p><p>Declaração Universal dos Direitos da Criança, incluindo o direito</p><p>à assistência (Azevedo, 2004).</p><p>O SAM perdurou até a instauração do regime da Ditadu-</p><p>ra Militar, em 1964, quando foi criada a Fundação Nacional do</p><p>Bem-Estar do Menor – Funabem – articulada à política estadual</p><p>Febem (Fundação Estadual do Bem-estar do Menor), na perspec-</p><p>tiva de tirar crianças e adolescentes pobres das ruas e colocá-los</p><p>em “centros de reeducação” (Azevedo, 2004; Vasconcelos, 2002).</p><p>34</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>Ainda sob o regime ditatorial no Brasil, em 1979 foi sancio-</p><p>nado o Novo Código de Menores (Lei nº 6.697), que aparecia com</p><p>um formato mais repressivo e punitivo para com as crianças e os</p><p>adolescentes pertencentes às classes pobres (Vasconcelos, 2002).</p><p>No viés desse novo código, a questão do “menor” pobre devia ser</p><p>tratada como questão de polícia. Nele, os pais estariam sujeitos à</p><p>multa caso fossem negligentes com os filhos, ainda que estivessem</p><p>em condição de pobreza.</p><p>Com a expressiva participação dos movimentos sociais e da</p><p>sociedade civil em geral, busca-se, na década de 80, transformar</p><p>a perspectiva do Estado em relação às classes pobres por meio da</p><p>proteção da responsabilização pela garantia de políticas públicas,</p><p>sejam elas de educação, saúde, assistência, previdência, dentre ou-</p><p>tras. Diante disso, em 1988, foi promulgada a nova Constituição</p><p>brasileira, popularmente conhecida como “Constituição cidadã”,</p><p>por garantir os direitos básicos dos cidadãos.</p><p>A Constituição de 1988 tem a premissa de observar os di-</p><p>reitos das crianças e adolescentes e, por meio da publicação do</p><p>Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069 de 1990) foi</p><p>instaurada a Doutrina da Proteção Integral7.</p><p>Em 1990, a partir do Estatuto da Criança e do Adolescen-</p><p>te (ECA), é introduzida a Doutrina da Proteção Integral,</p><p>superando a Doutrina de Situação Irregular. Embora o</p><p>ECA não utilize o termo risco, o artigo 98º, nas disposi-</p><p>ções gerais relativas às medidas de proteção, postula</p><p>7 Tal conquista deveu-se a mobilização pela Declaração dos Direitos da</p><p>Criança após a realização do I Seminário Latino de Alternativas Comunitárias</p><p>de Atendimento a Meninos e Meninas de Rua, em Brasília, patrocinado pela</p><p>Organização das Nações Unidas (ONU) (Azevedo, 2004).</p><p>35Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>que “as medidas de proteção à criança e ao adolescente</p><p>são aplicáveis sempre que os direitos reconhecidos nes-</p><p>ta Lei forem ameaçados ou violados”, levando a pensar</p><p>que uma vez que há uma ameaça de violação, existe um</p><p>perigo, uma probabilidade, uma incerteza, ou seja, risco.</p><p>(Hillesheim e Cruz, 2009, p. 75)</p><p>A partir de então as crianças e os adolescentes passaram a</p><p>ser compreendidos como sujeitos de direitos em condição espe-</p><p>cial de desenvolvimento e a Política de Assistência Social8. Ela traz</p><p>como pontos centrais a questão do direito social e o incentivo ao</p><p>protagonismo do usuário. Essa política transforma radicalmente</p><p>a noção de direito do cidadão, pois de acordo com o histórico de</p><p>assistência social no Brasil. A Política de Assistência Social apre-</p><p>senta-se como possibilidade de redução das desigualdades sociais</p><p>e econômicas do país, à medida que promove a distribuição de</p><p>renda por meio dos benefícios Bolsa Família e Benefício de Pres-</p><p>tação Continuada – BPC – e da rede preventiva e protetiva dos</p><p>sujeitos em situação de violação de direitos.</p><p>Para a legalização da Política de Assistência Social, foi</p><p>aprovada a Lei Orgânica da Assistência Social (Loas) em 1993.</p><p>Entretanto, foi necessário criar subsídios normativos para que a</p><p>Lei Orgânica pudesse se materializar no cotidiano. Entre eles, a</p><p>aprovação da Política Nacional de Assistência Social (Pnas) em</p><p>2004, pelo Conselho Nacional de Assistência Social, afirmando-a</p><p>8 A Constituição Federal de 1988 define a Assistência como política pública,</p><p>dever do Estado e direito do cidadão, inserida no critério da Seguridade Social,</p><p>junto com a Saúde e a Previdência Social.</p><p>36</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>como direito do cidadão. Debortoli (2008) assevera que é neces-</p><p>sário considerar a questão das desigualdades sociais, entretanto, é</p><p>preciso também observar o simbólico das relações sociais, as ma-</p><p>nifestações de gênero e etnia, para então construir políticas que</p><p>atendam o universal e o particular da infância e da adolescência.</p><p>A Política de Assistência Social, a Política de Saúde e de</p><p>Educação atualmente são as principais responsáveis por atender</p><p>as demandas da infância em situação de vulnerabilidade e risco</p><p>social. Nas aulas da segunda unidade, serão apresentados a rede</p><p>de proteção social atual das crianças e dos adolescentes.</p><p>4.3 Prevenção da violência, abuso e negligência</p><p>O Núcleo Ciência pela Infância (NCPI) lançou o estudo “Preven-</p><p>ção de violência contra crianças no ano de 2023, e apresenta al-</p><p>guns dados e fatos sobre a violência contra crianças no país: em</p><p>2021 foram registradas 30.604 denúncias de violação de direitos</p><p>humanos envolvendo crianças de 0 a 6 anos, e, no primeiro se-</p><p>mestre de 2022 esse número alcançou o total de 25.377 superando</p><p>o mesmo período do ano anterior.</p><p>O estudo ainda apresenta é que a violência ocorre predomi-</p><p>nantemente no ambiente familiar da vítima, quando se analisa a</p><p>morte violenta intencional de crianças de 0 a 11 anos em 2021, a</p><p>maioria das vítimas é do sexo masculino (58,9%) e pertencente à</p><p>população negra (66,3%) (NCPI, 2023).</p><p>Os dados apresentados retratam um país que apesar das legis-</p><p>lações de proteção à infância ainda possui um longo caminho para</p><p>efetivar a prevenção da violação de direitos. Acerca da prevenção à</p><p>violência, o documento propõe algumas reflexões para embasá-la:</p><p>37Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>1. Trata-se de uma grave violação de direitos humanos</p><p>que não pode ser ignorada.</p><p>2. Ela destrói recursos e potencial humano.</p><p>3. Para enfrentá-la, deve-se contar com uma estratégia</p><p>de atuação integrada, intersetorial e centrada na criança.</p><p>4. É preciso quebrar o ciclo intergeracional da violência,</p><p>em que crianças que sofreram violência na infância ten-</p><p>dem a repeti-la com seus filhos.</p><p>5. Combatê-la é um dever de todos, especialmente dos</p><p>gestores públicos (NCPI, 2023, p.10).</p><p>A Organização Pan-Americana da Saúde - OPAS em 2017</p><p>lançou o documento “ NSPIRE”. Sete estratégias para pôr fim à</p><p>violência contra as crianças”, o qual abrange diversas propostas</p><p>para a prevenção da violência pela intersetorialidade das políticas</p><p>públicas (ver Figura 1, na página seguinte).</p><p>Em cada uma dessas estratégias a OPAS apresenta os resul-</p><p>tados esperados, em sua maioria, a redução da violência física,</p><p>violência sexual, e maus-tratos infantis no ambiente doméstico,</p><p>do bulling nas escolas, da violência urbana e também de todas</p><p>as formas de violência de gênero. Esse instrumental deve ser fo-</p><p>mentado pelos agentes públicos para o fortalecimento da rede de</p><p>prevenção e proteção à infância.</p><p>38</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>Figura 1. Propostas do INSPIRE para prevenção da violência contra crianças e</p><p>adolescentes.</p><p>Fonte: OPAS, 2017.</p><p>39Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>Referências</p><p>ARIÉS, P. História social da criança e da família. 2ª Ed. Rio de</p><p>Janeiro: LTC, 2006.</p><p>AZEVEDO, M. A. Pesquisando a violência doméstica contra</p><p>crianças e adolescentes. A ponta do iceberg. Lacri, Universidade</p><p>de São Paulo; 2007. Disponível em: http://www.ip.usp.br/labora-</p><p>torios/lacri/iceberg.htm. Acessado em 05/06/2023.</p><p>AZEVEDO, M. e GUERRA, V. N. A. MANIA DE BATER; A pu-</p><p>nição corporal</p><p>doméstica de crianças e adolescentes no Brasil, SP,</p><p>Iglu (2001).</p><p>______. Crianças vitimizadas: a síndrome do pequeno poder.</p><p>São Paulo: Iglu, 1989.</p><p>AZEVEDO, M. A. “Prostituição infantil: uma incursão indignada</p><p>pelo lado não respeitável da sociedade”. Quando a criança não</p><p>tem vez: violência e desamor. São Paulo: Pioneira, 1986. p. 109-</p><p>113.</p><p>AZEVEDO, R. C. de. “Negligência familiar como manifestação</p><p>das relações de gênero”. In: FROTA, M. H. de P.; Osterne, M. S. F.</p><p>(Org.). Família, Gênero e Geração: temas transversais. Fortaleza:</p><p>EDUECE, 2004, p. 95-116.</p><p>BEHRING, E. R.; BOSCHETTI, I. Política Social: Fundamentos</p><p>e História. 2ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 2007. v. 1. 213 p.</p><p>BESERRA, Eveline Pinheiro; ALVES, Maria Dalva Santos; GU-</p><p>BERT, Fabiane do Amaral; SOUSA, Leilane Barbosa de; PIMEN-</p><p>TEL, Vanessa Peres Cardoso. MANUTENÇÃO DO AMBIENTE</p><p>SEGURO E ADOLESCÊNCIA: um estudo baseado no modelo de</p><p>atividade de vida. Santa Maria, v. 42, n.1, p. 11-20, jan./jun. 2016</p><p>BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente: Lei Federal</p><p>40</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>8.069/1990. Fortaleza: Conselho Estadual dos Direitos da Criança</p><p>e do Adolescente, 2003. 104p.</p><p>Bruschini, Cristina. “Teoria crítica da família”. In: AZEVEDO,</p><p>Maria Amélia; GUERRA, Viviane Nogueira de Azevedo (Orgs).</p><p>Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. 3ª</p><p>Ed. São Paulo, Cortez, 2000.</p><p>CALLIGARIS, C. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.</p><p>CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadãos: conflitos multicul-</p><p>turais da globalização. Tradução: Maurício Santana Dias. 6. Ed.</p><p>Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2006.</p><p>COSTA, Jurandir Freire. Ordem Médica e Norma Familiar. Edi-</p><p>tora Graal: RJ, 1989, 3ª edição.</p><p>COSTA, N. R. A; ROSSETTI-FERREIRA, M. C. (2009). Acolhi-</p><p>mento familiar: Uma alternativa de proteção para crianças e ado-</p><p>lescentes. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(1), 111-118</p><p>COTTLE, T. J. O segredo na Infância. São Paulo: Livraria Mar-</p><p>tins Fontes, 1993.</p><p>Debortoli, J. A. 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São Paulo: Paz e Terra, 1992.</p><p>HILLESHEIM, B e CRUZ, L. R. “Risco, vulnerabilidade e infân-</p><p>cia: Algumas aproximações”. In: CRUZ, L. R e GUARESCHI, N.</p><p>M. F (Org.). Políticas Públicas e Assistência Social: Diálogos</p><p>com as práticas psicológicas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.</p><p>ITABORAÍ, Nathalie Reis. A proteção social da família brasi-</p><p>leira contemporânea: reflexões sobre a dimensão simbólica das</p><p>políticas públicas. Porto Alegre. In: Anais do Seminário Famílias</p><p>e Políticas Públicas - ABEP, 2005.</p><p>KEHL, Maria Rita. “Em defesa da família tentacular”. In: PEREI-</p><p>RA, Rodrigo da Cunha et alli. Direito de Família e Psicanálise.</p><p>Rio de Janeiro: Imago, 2003.</p><p>LASCH, C. Refúgio num mundo sem coração. Rio de Janeiro:</p><p>Paz e terra, 1991.</p><p>LEAL, M. L. P. “A Construção Teórica sobre a Violência Sexual”.</p><p>In: CEDECA, Marcos Passerini (Org.). Rompendo o Silêncio. 1ª</p><p>ed. 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Prevenção de violência contra criança. São Paulo : Fun-</p><p>dação Maria Cecilia Souto Vidigal, 2023.</p><p>ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE - OPAS. INS-</p><p>PIRE. Sete estratégias para pôr fim à violência contra crianças.</p><p>Washington, D.C. : OPAS, 2017</p><p>PALÁCIOS, J. “O que é a adolescência”. In: COLL, C.; PALACIOS,</p><p>J.; MARCHESI, A. Desenvolvimento psicológico e educação:</p><p>psicologia evolutiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. p. 263 -</p><p>272. v. 1.</p><p>PEREIRA, L. D. Políticas Públicas de Assistência Social bra-</p><p>sileira: avanços, limites e desafios. Disponível em: http://www.</p><p>cpihts.com/PDF02/Larissa%20Dahmer%20Pereira.pdf. Acessado</p><p>em 25/12/11.</p><p>PEREIRA, P. A. “Sobre a Política de Assistência Social no Brasil”.</p><p>In: BRAVO, Maria I. S. e PEREIRA, Potyara A. P. Política Social e</p><p>Democracia. São Paulo: Cortez; Rio de Janeiro: UERJ, 2001.</p><p>PETRINI, J. C.; ALCÂNTARA, M. A. R.; MOREIRA, L. V. C.</p><p>Família na contemporaneidade: uma análise conceitual. Dis-</p><p>ponível em: http://www.humanaaventura.com.br/arquivos/file/</p><p>Fam%C3%83%C2%ADlia_na_contemporaneidade.pdf. Acesso</p><p>em: 20/12/11.</p><p>PINHEIRO, Ângela. Criança e adolescente no Brasil: porque o</p><p>43Família e Infância</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 1</p><p>abismo entre a Lei e a Realidade. Fortaleza: Editora UFC, 2006.</p><p>Priore, M. L. M. . História das crianças no Brasil. 1. ed. São Pau-</p><p>lo: Contexto, 1999. v. 1.</p><p>__________. “O Papel Branco, a Infância e os Jesuítas na Colô-</p><p>nia”. In: DEL Priore, M. (org.) História da Criança no Brasil. São</p><p>Paulo: Contexto, 1998. p. 10-27.</p><p>SAFFIOTI, H. I. B. “No fio da navalha: violência contra crianças</p><p>e adolescentes no Brasil atual”. In: MADEIRA, F. R. (org.). Quem</p><p>mandou nascer mulher?: estudos sobre crianças e adolescentes</p><p>pobres no Brasil. 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Um lugar seguro. 2014.</p><p>VASCONCELOS, Rejane B. “Infância e Adolescência (en)fim”. In:</p><p>PINHEIRO, Ângela; LUSTOSA, Patrícia; XIMENES, Verônica.</p><p>(Org.). Práxis em Psicologia. 1ª ed. Fortaleza: Imprensa Univer-</p><p>44</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>sitária UFC, 2002, v. 01, p. 51-72.</p><p>VAZ, M. “A situação do abuso sexual e da exploração sexual co-</p><p>mercial contra crianças e adolescentes no Brasil”. In: CEDECA,</p><p>Marcos Passerini. (Org.). Rompendo o Silêncio. 1ª ed. São Luís:</p><p>Estação Gráfica Ltda., 1997, v. 01, p. 17-34.</p><p>VELHO, Gilberto. O desafio da violência. Estudos avançados,</p><p>São Paulo, v. 14, n. 39, p.56-60, ago 2000.</p><p>45Plano de Convivência</p><p>Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>O direito à convivência familiar e comunitária constitui um</p><p>importante marco da democracia brasileira, pois garante que</p><p>cidadãos e cidadãs possam viver e se desenvolver socialmente</p><p>em comunidade, fazendo parte dos espaços de integração com</p><p>outros indivíduos, rompendo com a ótica tradicional da segre-</p><p>gação dos sujeitos que eram considerados “indesejáveis” para a</p><p>sociedade, tais como: pessoas com deficiência intelectual e/ou</p><p>física, pessoas com transtornos mentais, crianças e adolescentes</p><p>em situação de abandono, mulheres que não correspondiam aos</p><p>padrões sociais da época, homossexuais, pessoas em situação</p><p>de rua e mendicância, adolescentes autores de ato infracional9,</p><p>dentre outros.</p><p>Como visto na aula anterior, havia uma cultura de inserção</p><p>dessas pessoas, consideradas à margem da sociedade, em institui-</p><p>ções de longa permanência, como internatos, abrigos, colônias,</p><p>fundações, manicômios, tudo isso de forma involuntária e impe-</p><p>dindo seus direitos de liberdade, de convivência em sociedade, à</p><p>educação e ao trabalho.</p><p>9 É relevante destacar que essa é a nomenclatura atual para adolescentes</p><p>que cometem ato infracional, no período das instituições citadas, ainda era</p><p>usual o termo “menor infrator”.</p><p>5 O Plano de Convivência Familiar e o ECA</p><p>46</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>[...] as crianças e os adolescentes atendidos pelo dispo-</p><p>sitivo da internação traziam consigo o peso de adjetivos</p><p>estigmatizantes, que os descreviam como desvalidos,</p><p>abandonados, órfãos, delinquentes, entre outras deno-</p><p>minações. Veja-se que o principal mecanismo de atendi-</p><p>mento, à época, era a internação em espaços fechados</p><p>(internatos, educandários, orfanatos), uma das carac-</p><p>terísticas da dimensão política de controle dos corpos</p><p>(Cruz et al., 2022, p. 293).</p><p>A história dessas instituições, como a Fundação Estadual</p><p>do Bem-Estar do Menor de São Paulo (Febem) predecessora</p><p>da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem),</p><p>demonstram que os adolescentes sofriam castigos físicos e di-</p><p>versos tipos de privações, denotando uma grave violação dos</p><p>direitos humanos. Os motivos pelos quais os adolescentes eram</p><p>encaminhados a essas instituições também eram diversos, por</p><p>vezes, sem correlação com uma ação classificada como crimino-</p><p>sa. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) veio mudar</p><p>essa perspectiva, ainda assim, muitas denúncias demonstraram</p><p>a persistência dessas violações, como demonstra essa notícia da</p><p>jornalista Spinelli (2006)</p><p>O Governo promete resolver o problema construindo</p><p>unidades pequenas e regionalizadas, como prevê o Es-</p><p>tatuto da Criança e do Adolescente (ECA). As unidades</p><p>não se materializam, em parte por falta de vontade po-</p><p>lítica, em parte por resistência dos municípios. Recorre-</p><p>-se novamente aos grandes complexos da capital — e,</p><p>47Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>eventualmente, à transferência de adolescentes para</p><p>penitenciárias. A superlotação não se resolve e o círculo</p><p>recomeça (p.21).</p><p>O artigo 227 da Constituição de 1988 traz como direitos</p><p>fundamentais que devem ser garantidos pela família, pelo Estado</p><p>e pela sociedade, o direito à vida, à saúde à alimentação, à cultura,</p><p>à dignidade e à liberdade. Pela primeira vez na carta constitucio-</p><p>nal, também define o direito à convivência familiar e comunitária</p><p>como fundamental (Neves, 2020). Como dito na unidade ante-</p><p>rior, é um marco na mudança de perspectiva do estado de direito</p><p>no país, entretanto, para sua efetivação, são necessárias leis com-</p><p>plementares que apresentem diretrizes para execução, como esta-</p><p>tutos e planos.</p><p>Refletindo sobre a realidade de violações de direitos nos es-</p><p>paços institucionais voltados para a infância, ocorreram também</p><p>as lutas dos movimentos sociais para garantir o que está preconi-</p><p>zado no Capítulo III do ECA (1990) como direito fundamental - o</p><p>direito à convivência familiar e comunitária - e, na contempora-</p><p>neidade, é ressaltada a importância deste para o desenvolvimento</p><p>integral da criança e do adolescente.</p><p>É necessário destacar a mudança do conteúdo da legisla-</p><p>ção, pois, na redação do Estatuto de 1990, o artigo 19º assegurava:</p><p>“Toda criança ou adolescente tem direito a ser criado e educado</p><p>no seio da sua família e, excepcionalmente, em família substitu-</p><p>ta, assegurada a convivência familiar e comunitária, em ambiente</p><p>livre da presença de pessoas dependentes de substâncias entorpe-</p><p>centes” (ECA, 1990). Na atualidade, com a publicação da Lei nº</p><p>48</p><p>Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes</p><p>Profa. Dra. Maria Helena de Paula Frota • Profa. Dra. Kelyane Silva Sousa</p><p>13.257 de 2016, o artigo foi modificado para “É direito da criança</p><p>e do adolescente ser criado e educado no seio de sua família e, ex-</p><p>cepcionalmente, em família substituta, assegurada a convivência</p><p>familiar e comunitária, em ambiente que garanta seu desenvolvi-</p><p>mento integral” (ECA, 2023).</p><p>No ano de 2004 o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada</p><p>(IPEA) publicou uma pesquisa sobre o abrigamento de crianças e</p><p>adolescentes10 que demonstrou um quadro nacional de uma per-</p><p>sistente violação do direito à convivência familiar e comunitária.</p><p>Foi a partir desses resultados que se intensificou o debate em tor-</p><p>no da criação de um plano nacional que assegurasse o direito já</p><p>previsto no ECA (Valente, 2013).</p><p>O Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direi-</p><p>to de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comuni-</p><p>tária (PNCFC) foi publicado no ano de 2006, durante o primeiro</p><p>mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, e é fruto de um</p><p>amplo debate entre instituições como o Conselho dos Direitos</p><p>da Criança e do Adolescente, do Conselho Nacional de Assistên-</p><p>cia Social (CNAS), da Secretaria Especial dos Direitos Humanos</p><p>10 A pesquisa foi intitulada “O Direito à Convivência Familiar e Comunitária:</p><p>os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil” , coordenada por Enid Rocha</p><p>Andrade da Silva e publicada em Brasília no ano de 2004. “Essa pesquisa revelou</p><p>que, das quase 20.000 crianças e adolescentes que viviam nos abrigos, 87%</p><p>tinham família; 58,5% eram meninos; 63,6% eram afrodescendentes; 61,3% ti-</p><p>nham idade entre sete e quinze anos; 24,2% tinham a pobreza como o princi-</p><p>pal motivo de abrigamento; 18,9% estavam abrigados por abandono; 11,7%,</p><p>por violência doméstica; 11,4%, por dependência química dos pais ou respon-</p><p>sáveis; 7%, por vivência de rua; 5,2%, por motivo de orfandade. Acrescido a isso,</p><p>revelou-se também que, nas situações de possibilidade de retorno à família de</p><p>origem, as dificuldades financeiras apresentavam-se como o principal desafio”</p><p>(Valente, 2013, p. 76) .</p><p>49Plano de Convivência Familiar e Comunitária</p><p>MÓDULO II • UNIDADE 2</p><p>(SEDH) e do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à</p><p>Fome (MDS), sociedade civil e agentes públicos. Na apresentação</p><p>do plano, está expresso que</p><p>As estratégias, objetivos e diretrizes deste Plano estão</p><p>fundamentados primordialmente na prevenção ao rom-</p><p>pimento dos vínculos familiares, na qualificação do aten-</p><p>dimento dos serviços de acolhimento e no investimento</p><p>para o retorno ao convívio com a família de origem. So-</p><p>mente se forem esgotadas todas as possibilidades para</p><p>essas ações, deve-se utilizar o recurso de encaminha-</p><p>mento para família substituta, mediante procedimentos</p><p>legais que garantam a defesa do superior interesse da</p><p>criança e do adolescente (Brasil, 2006, p. 13).</p><p>Destaca-se que o PNCFC/2006 prioriza a prevenção do</p><p>rompimento dos vínculos familiares, somente esgotadas as pos-</p><p>sibilidades da criança e do adolescente permanecerem na família</p><p>originária e na sua comunidade. Sobre o processo de construção</p><p>do plano, “a sua formulação foi realizada a partir de um processo</p><p>participativo de elaboração, envolvendo representantes de todos</p><p>os poderes e esferas de governo, da sociedade</p>