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<p>Educação linguística — 14</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 1 12/09/19 10:41</p><p>EDITOR:</p><p>Marcos Marcionilo</p><p>CONSELHO EDITORIAL:</p><p>Ana Stahl Zilles [Unisinos]</p><p>Angela Paiva Dionisio [UFPE]</p><p>Carlos Alberto Faraco [UFPR]</p><p>Celso Ferrarezi Jr. [UNIFAL]</p><p>Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP]</p><p>Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela]</p><p>José Ribamar Lopes Batista Jr. [UFPI/CTF/LPT]</p><p>Kanavillil Rajagopalan [Unicamp]</p><p>Marcos Bagno [UnB]</p><p>Maria Marta Pereira Scherre [UFES]</p><p>Roberto Mulinacci [Universidade de Bolonha]</p><p>Roxane Rojo [UNICAMP]</p><p>Salma Tannus Muchail [PUC-SP]</p><p>Sírio Possenti [UNICAMP]</p><p>Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]</p><p>Tommaso Raso [UFMG]</p><p>Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva [UFMG/CNPq]</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 2 24/02/2021 10:33</p><p>EDITOR:</p><p>Marcos Marcionilo</p><p>CONSELHO EDITORIAL:</p><p>Ana Stahl Zilles [Unisinos]</p><p>Angela Paiva Dionisio [UFPE]</p><p>Carlos Alberto Faraco [UFPR]</p><p>Egon de Oliveira Rangel [PUC-SP]</p><p>Henrique Monteagudo [Universidade de Santiago de Compostela]</p><p>José Ribamar Lopes Batista Jr. [UFPI/CTF/LPT]</p><p>Kanavillil Rajagopalan [UNICAMP]</p><p>Marcos Bagno [UnB]</p><p>Maria Marta Pereira Scherre [UFES]</p><p>Roberto Mulinacci [Universidade de Bolonha]</p><p>Roxane Rojo [UNICAMP]</p><p>Salma Tannus Muchail [PUC-SP]</p><p>Sírio Possenti [UNICAMP]</p><p>Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB]</p><p>Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva [UFMG/CNPq]</p><p>anual</p><p>de pesquisa</p><p>em ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>VERA LÚCIA MENEZES DE OLIVEIRA E PAIVA</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 3 12/09/19 10:41</p><p>Direitos reservados à</p><p>PARÁBOLA EDITORIAL</p><p>Rua Dr. Mário Vicente, 394 - Ipiranga</p><p>04270-000 São Paulo, SP</p><p>pabx: [11] 5061-9262 | 2589-9263 | fax: [11] 5061-8075</p><p>home page: www.parabolaeditorial.com.br</p><p>e-mail: parabola@parabolaeditorial.com.br</p><p>Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reprodu-</p><p>zida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou</p><p>mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema</p><p>ou banco de dados sem permissão por escrito da Parábola Editorial Ltda.</p><p>ISBN: 978-85-7934-169-4</p><p>1a edição, 2a reimpressão: março de 2021</p><p>© do texto: Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva, 2019.</p><p>© da edição: Parábola Editorial, São Paulo, julho de 2019.</p><p>CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE</p><p>SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ</p><p>P171m</p><p>Paiva, Vera Lúcia Menezes de Oliveira e</p><p>Manual de pesquisa em estudos linguísticos / Vera Lúcia Menezes</p><p>de Oliveira e Paiva. - 1. ed. - São Paulo : Parábola, 2019.</p><p>160 p. ; 24 cm. (Educação linguística ; 14)</p><p>Inclui bibliografia</p><p>ISBN 978-85-7934-169-4</p><p>1. Linguística. 2. Linguística - Pesquisa. I. Título. II. Série.</p><p>19-57847 CDD: 410</p><p>CDU: 81'1</p><p>Leandra Felix da Cruz - Bibliotecária - CRB-7/6135</p><p>Direção: AndréiA Custódio</p><p>Capa e projeto gráfico: telmA Custódio</p><p>Revisão: thiAgo Zilio PAsserini</p><p>KAyA Adu PereirA</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 4 24/02/2021 10:33</p><p>Sumário</p><p>1. O QUE É PESQUISA .................................................................................. 7</p><p>1.1. Definir pesquisa .................................................................................... 7</p><p>1.2. Tipos de pesquisa .................................................................................11</p><p>1.2.1. Natureza ...................................................................................11</p><p>1.2.2. Gênero ......................................................................................11</p><p>1.2.3. Fontes de informação ................................................................11</p><p>1.2.4. Abordagem ................................................................................ 12</p><p>1.2.5. Objetivo .................................................................................... 13</p><p>1.2.6. Métodos ou procedimentos ...................................................... 15</p><p>2. ÉTICA NA PESQUISA ...............................................................................17</p><p>2.1. Como assegurar o tratamento ético .................................................... 21</p><p>2.2. Conclusão ........................................................................................... 30</p><p>3. MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA ............................................ 37</p><p>3.1. O experimento clássico ....................................................................... 37</p><p>3.2. Quase-experimentos ........................................................................... 45</p><p>3.3. Pré-experimentos................................................................................. 47</p><p>3.4. Os experimentos hoje .......................................................................... 49</p><p>3.5. Levantamento de opinião ou survey ................................................... 50</p><p>3.6. Avaliação de pesquisas quantitativas ................................................... 55</p><p>3.6.1. Confiabilidade .......................................................................... 56</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 5 12/09/19 10:41</p><p>6 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>3.6.2. Validade .................................................................................... 56</p><p>3.6.3. Avaliando experimentos e surveys ............................................. 57</p><p>4. MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA .......................................... 59</p><p>4.1. Pesquisa bibliográfica .......................................................................... 59</p><p>4.1.1. Metapesquisa ............................................................................ 64</p><p>4.2. Estudo de caso .................................................................................... 65</p><p>4.2.1. Etapas em um estudo de caso .................................................. 68</p><p>4.3. Pesquisa-ação....................................................................................... 72</p><p>4.4. Etnografia............................................................................................ 79</p><p>4.4.1. Fases da pesquisa etnográfica ................................................... 81</p><p>4.5. Pesquisa narrativa ................................................................................ 87</p><p>4.5.1. Tipos de geração de dados narrativos ....................................... 92</p><p>4.5.2. Tipos de pesquisa narrativa ...................................................... 92</p><p>4.6. Teoria fundamentada em dados .......................................................... 95</p><p>4.7. Avaliação de pesquisa qualitativa .......................................................102</p><p>5. DICAS DE PESQUISA .............................................................................105</p><p>6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................... 149</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 6 12/09/19 10:41</p><p>1</p><p>O QUE É PESQUISA</p><p>O universo não é uma ideia minha.</p><p>A minha ideia do universo é que é uma ideia minha.</p><p>Fernando Pessoa</p><p>Certa vez, ouvi um pesquisador da área de ciências biológicas dizer que pes-</p><p>quisa é a busca de solução de problemas. Evidentemente, essa é uma ótima</p><p>definição para muitas áreas em busca de soluções para problemas que afetam</p><p>os reinos da natureza. As pesquisas da vacina contra a dengue, da cura da ci-</p><p>nomose e do manejo de pragas que atacam plantações, por exemplo, estão em</p><p>busca de soluções para problemas que afetam a sociedade, mas a pesquisa não é</p><p>apenas um empreendimento para resolver problemas.</p><p>1.1. Definir pesquisa</p><p>A noção de pesquisa como busca de solução de problemas está presente em várias</p><p>definições, como nas duas citadas por Zacharias (2012, p. 5): “Reunir informações</p><p>necessárias para resolver um problema”1 (BOOTH; COLOMB; WILLIAMS ,</p><p>1995, p. 6) e “processo de se chegar a soluções confiáveis para problemas através</p><p>da coleta, análise e interpretação planejadas e sistemáticas de dados” (MOULY,</p><p>1978, p. 12).</p><p>1 Esta e as demais traduções são de responsabilidade da autora.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 7 12/09/19 10:41</p><p>8 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Na linguística aplicada e</p><p>a uma descrição falha do trabalho citado.</p><p>Sempre que possível consultar a literatura original.</p><p>10: Se um autor tiver necessidade de citar uma fonte secundária (p.ex. uma revisão) para</p><p>descrever o conteúdo de uma fonte primária (p. ex. um artigo empírico de um perió-</p><p>dico), ele deve certificar-se da sua correção e sempre indicar a fonte original da infor-</p><p>mação que está sendo relatada.</p><p>11: A inclusão intencional de referências de relevância questionável com a finalidade de</p><p>manipular fatores de impacto ou aumentar a probabilidade de aceitação do manuscri-</p><p>to é prática eticamente inaceitável.</p><p>12: Quando for necessário utilizar informações de outra fonte, o autor deve escrever de tal</p><p>modo que fique claro aos leitores quais ideias são suas e quais são oriundas das fontes</p><p>consultadas.</p><p>13: O autor tem a responsabilidade ética de relatar evidências que contrariem seu ponto de</p><p>vista, sempre que existirem. Ademais, as evidências usadas em apoio a suas posições</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 34 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 35</p><p>devem ser metodologicamente sólidas. Quando for necessário recorrer a estudos que</p><p>apresentem deficiências metodológicas, estatísticas ou outras, tais defeitos devem ser</p><p>claramente apontados aos leitores.</p><p>14: O autor tem a obrigação ética de relatar todos os aspectos do estudo que possam ser</p><p>importantes para a reprodutibilidade independente de sua pesquisa.</p><p>15: Qualquer alteração dos resultados iniciais obtidos, como a eliminação de discrepâncias</p><p>ou o uso de métodos estatísticos alternativos, deve ser claramente descrita junto com</p><p>uma justificativa racional para o emprego de tais procedimentos.</p><p>16: A inclusão de autores no manuscrito deve ser discutida antes de começar a colabora-</p><p>ção e deve se fundamentar em orientações já estabelecidas, tais como as do Interna-</p><p>tional Committee of Medical Journal Editors.</p><p>17: Somente as pessoas que emprestaram contribuição significativa ao trabalho mere-</p><p>cem autoria em um manuscrito. Por contribuição significativa entende-se realização</p><p>de experimentos, participação na elaboração do planejamento experimental, análise</p><p>de resultados ou elaboração do corpo do manuscrito. Empréstimo de equipamentos,</p><p>obtenção de financiamento ou supervisão geral, por si só não justificam a inclusão de</p><p>novos autores, que devem ser objeto de agradecimento.</p><p>18: A colaboração entre docentes e estudantes deve seguir os mesmos critérios. Os super-</p><p>visores devem cuidar para que não se incluam na autoria estudantes com pequena ou</p><p>nenhuma contribuição nem excluir aqueles que efetivamente participaram do traba-</p><p>lho. Autoria fantasma em Ciência é eticamente inaceitável.</p><p>19: Todos os autores de um trabalho são responsáveis pela veracidade e idoneidade do tra-</p><p>balho, cabendo ao primeiro autor e ao autor correspondente responsabilidade integral,</p><p>e aos demais autores responsabilidade pelas suas contribuições individuais.</p><p>20: Os autores devem ser capazes de descrever, quando solicitados, a sua contribuição</p><p>pessoal ao trabalho.</p><p>21: Todo trabalho de pesquisa deve ser conduzido dentro de padrões éticos na sua execu-</p><p>ção, seja com animais ou com seres humanos.</p><p>RefeRênCias</p><p>Roig, M. (2006) Avoiding plagiarism, self-plagiarism, and other questionable writing practices: A guide</p><p>to ethical writing. http://facpub.stjohns.edu/~roigm/plagiarism/</p><p>Angell, M. and A.S. Relman (1989). Redundant publication. New England Journal of Medicine, 320,</p><p>1212-14.</p><p>Kassirer, J. P. & Angell, M. (1995). Redundant publication: A reminder. The New England Journal of</p><p>Medicine, 333, 449-450. Retrieved, March 7, 2003 from http://content.nejm.org/cgi/content/</p><p>full/333/7/449.</p><p>International Committee of Medical Journal Editors. http://www.icmje.org/ethical_1author.html</p><p>European Science Foundation (2010) Fostering Research Integrity in Europe</p><p>https://oeawi.at/wp-content/uploads/2018/09/ESF-ResearchIntegrity_research_integrity_exreport.pdf</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 35 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA</p><p>QUANTITATIVA</p><p>Este capítulo descreve o experimento clássico, o quase-experimento, o pré-</p><p>-experimento e o survey ou pesquisa de opinião e se encerra com uma discussão</p><p>sobre avaliação de pesquisa quantitativa.</p><p>3.1. O experimento clássico</p><p>“Quantidade alguma de experimentos pode provar que</p><p>estou certo; um único experimento pode provar que estou errado.”</p><p>Albert Einstein</p><p>O método de pesquisa experimental, também cha-</p><p>mado de pesquisa de intervenção, se caracteriza pela</p><p>tentativa de estabelecer relações de causa e efeito e</p><p>envolve a testagem de hipóteses e a manipulação</p><p>de variáveis, por meio de observação controlada.</p><p>Herdado das ciências naturais, onde era usado des-</p><p>de a Idade Média, esse método foi transposto para</p><p>as ciências humanas, especialmente, a psicologia, a</p><p>educação e a linguística aplicada.</p><p>Palavras-chave</p><p>Hipótese</p><p>Variável independente</p><p>Variável dependente</p><p>Grupo experimental</p><p>Grupo de controle</p><p>Distribuição aleatória</p><p>Intervenção ou manipulação</p><p>Pré-teste</p><p>Pós-teste</p><p>Comparação</p><p>3</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 37 12/09/19 10:41</p><p>38 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Lodico, Spaulding e Voegtle (2006, p. 178) afirmam: o que faz a pesquisa ex-</p><p>perimental diferir de outras pesquisas quantitativas é o fato de “o pesquisador</p><p>controlar ou manipular como os grupos de participantes serão tratados e, então,</p><p>medir como o tratamento afetou o grupo”.</p><p>Uma boa definição para esse tipo de pesquisa é fornecida por Perry Jr. (2017, p. 247):</p><p>“Pesquisa que envolve manipulação de variável(veis) independente(s) e observação</p><p>de mudança na(s) variável(veis) em uma amostragem escolhida de forma alea tória”.</p><p>A amostragem se refere a uma porção menor de uma população (conjunto de pes-</p><p>soas investigadas), por exemplo, um grupo de alunos de uma escola. Em outras</p><p>palavras, Anderson (1969), citado por Brown e Rodgers (2002, p. 211), define um</p><p>experimento como “uma situação na qual se observa a relação entre duas variáveis</p><p>ao, deliberadamente, produzir uma mudança na outra”. Outras definições estão</p><p>em Dörnyei (2017) e em Lodico, Spaulding e Voegtle (2006). Dörnyei (2017, p.</p><p>116) explica: o experimento é “um estudo de intervenção com, pelo menos, dois</p><p>grupos: o grupo de ‘tratamento’ ou ‘experimental’, que recebe o tratamento ou</p><p>que é exposto a algumas condições especiais, e o ‘grupo de controle’, cujo papel</p><p>é fornecer uma base de comparação”. Lodico, Spaulding e Voegtle (2006, p. 178)</p><p>concluem: “Em termos técnicos, o pesquisador controla ou manipula uma ou mais</p><p>variáveis independentes e examina o feito que essa manipulação experimental tem</p><p>sobre a variável dependente ou o resultado do estudo”.</p><p>Função do pesquisador é zelar pela validade e pela confiabilidade da pesquisa.</p><p>Cabe a ele controlar a situação de forma objetiva, observar e testar de tal modo</p><p>que se mantenha a validade interna, que se meça exatamente o que se quer</p><p>medir. Além da validade interna, um experimento deve ter validade externa e</p><p>confiabilidade interna e externa.</p><p>Um experimento tem validade externa quando seus resultados podem ser genera-</p><p>lizados para contextos semelhantes. A confiabilidade interna é atingida se outro</p><p>pesquisador chegar aos mesmos resultados ao avaliar os mesmos dados e a confia-</p><p>bilidade externa, se outro pesquisador replicar o estudo e chegar às mesmas con-</p><p>clusões (ver mais sobre confiabilidade e validade na última seção deste capítulo).</p><p>Para entender melhor esse tipo de pesquisa, vamos começar definindo o que são</p><p>tratamento e variável. Para Seliger e Shohamy (1990, p. 137), tratamento</p><p>refere-se a qualquer coisa feita com os grupos para medir seu efeito. O tratamento</p><p>não é uma experiência aleatória que os grupos podem ter, mas uma experiência con-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 38 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 39</p><p>trolada e intencional, como uma exposição a um método de ensino especialmente</p><p>desenvolvido para o experimento, ou materiais apresentados sob circunstâncias con-</p><p>troladas como,</p><p>por exemplo, em um laboratório de línguas.</p><p>Já uma variável é “qualquer coisa que não se mantém constante” (NUNAN,</p><p>1992, p. 25) e se define como “uma propriedade ou característica que pode se di-</p><p>ferenciar de indivíduo para indivíduo ou de grupo para grupo” (NUNAN, 1992,</p><p>p. 232). Nunan (1992) lista três tipos de variáveis:</p><p>(a) nominal: mede características como sexo e nacionalidade;</p><p>(b) ordinal: fornece escala de dados ordenados (primeiro, segundo, terceiro etc.);</p><p>(c) intervalar: além da ordenação dos dados, indica as a distância entre eles.</p><p>Segundo Nunan, na área de ensino de línguas, variáveis envolvem proficiência,</p><p>aptidão, motivação etc. Ele explica:</p><p>Os pesquisadores em linguagem frequentemente querem examinar a relação entre</p><p>as variáveis como um método de ensino e uma segunda variável, como as notas de</p><p>um teste formal de proficiência linguística. Em casos como este, é comum distinguir</p><p>entre duas variáveis ao lhe dar rótulos diferentes. Independente é o rótulo dado à</p><p>variável que o pesquisador espera influenciar. A outra é chamada de variável depen-</p><p>dente. No nosso caso, seria o método de ensino. A variável sobre a qual age a variável</p><p>independente é chamada de variável dependente — em nosso caso, as notas dos</p><p>testes (NUNAN, 1992, p. 25).</p><p>Em outras palavras, a variável independente é aquela manipulada, controlada.</p><p>A dependente é a medida, ou seja, ela depende da reação dos investigados à</p><p>intervenção.</p><p>Um exemplo de experimento é o estudo conduzido por Santoro (2012) com fa-</p><p>lantes adultos, nativos de inglês, aprendendo italiano. Ele investigou “o fenôme-</p><p>no da variação morfológica na produção de determinantes, adjetivos descritivos e</p><p>pronomes objetivos diretos”. A pesquisa pode ser assim sumarizada:</p><p>Objetivo: investigar a aquisição de morfemas de gênero e número em italia-</p><p>no por aprendizes adultos.</p><p>Participantes: 35 adultos, nativos da língua inglesa, aprendizes de italiano</p><p>na City University de Nova York. Todos começaram a aprender italiano no</p><p>final da adolescência e não tinham conhecimento de outra(s) língua(s).</p><p>Grupo de pesquisa: 35 adultos aprendizes de italiano divididos em níveis</p><p>iniciante e intermediário superior.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 39 12/09/19 10:41</p><p>40 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Grupo de controle: 12 falantes nativos de italiano. Monolíngues, que viviam</p><p>nos Estados Unidos há um curto período de tempo.</p><p>Hipótese: A variação morfológica é explicada por</p><p>“(a) diferenças paramétricas das duas línguas, juntamente com uma inacessi-</p><p>bilidade geral para GU1 na idade adulta,</p><p>(b) ou por um atraso no desenvolvimento da competência morfológica ne-</p><p>cessária, ou</p><p>(c) é devida a limitações na produção dos alunos” (p. 177).</p><p>Variável independente: duas tarefas para testar o uso de concordância de gê-</p><p>nero e número; uma escrita e outra oral, em forma de entrevista, solicitando</p><p>descrição de imagens.</p><p>Variável dependente: resultado dos acertos nos testes escrito e oral.</p><p>Medição: análise estatística das médias nos testes.</p><p>Causa: quantidade apropriada de exposição e tempo de instrução.</p><p>Efeito: os erros morfológicos diminuem à medida que os aprendizes se tor-</p><p>nam mais proficientes e é possível a aquisicão completa da morfologia nomi-</p><p>nal e pronominal por adultos.</p><p>A pesquisa indicou que os iniciantes de nível superior foram bastante proficientes</p><p>no uso correto da concordância (oral 75,2%; escrito 83,8%) e os de intermediário</p><p>superior obtiveram 11 pontos a mais na produção oral (86,5%), e um pouco mais</p><p>de 6 pontos na escrita (90,2%).</p><p>Santoro (2012, p. 182) conclui que essas características morfológicas são adquiri-</p><p>das mesmo sendo ausentes da gramática da língua inglesa e que “os aprendizes</p><p>de L2 não dependem de estruturas e mecanismos de sua L1 para lidar com essas</p><p>características, mas sim de seu conhecimento linguístico universal, que parece</p><p>ainda estar disponível na idade adulta”. E acrescenta: “O uso indevido de carac-</p><p>terísticas morfológicas italianas parece se dever a um atraso no desenvolvimento</p><p>da competência morfológica necessária, embora as limitações de desempenho</p><p>não pudessem ser completamente desconsideradas” (p. 184). E, como na maioria</p><p>dos relatos estudos experimentais, o autor recomenda mais pesquisas para chegar</p><p>a conclusões confiáveis.</p><p>Trabalhar com grupos de controle é um problema em contexto educacional, pois</p><p>não é ético privar um grupo de um tratamento que se considera mais eficiente,</p><p>mesmo que após a pesquisa se dê o mesmo tratamento a esse grupo. Assim, é</p><p>1 Gramática Universal</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 40 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 41</p><p>muito comum encontrarmos pesquisas que se denominam experimentais, mas</p><p>que não apresentam grupo de controle.</p><p>Transcrevo, a seguir, o resumo de uma pesquisa experimental conduzida por</p><p>Lan et al. (2016) para entendermos melhor o desenho desse tipo de pesquisa.</p><p>O objetivo desse estudo foi determinar os efeitos de diferentes tipos de tarefas de</p><p>linguagem realizadas no Second Life (SL) sobre o desempenho oral de inician-</p><p>tes de chinês como segunda língua (CSL), com foco na precisão oral. Os trinta</p><p>iniciantes em CSL que participaram deste estudo foram divididos aleatoriamen-</p><p>te em dois grupos (n = quinze por grupo), necessários para realizar dois tipos di-</p><p>ferentes de tarefas: lacuna de informação e lacuna de raciocínio. Durante o estu-</p><p>do, tanto a precisão oral do mandarim quanto a motivação dos dois grupos foram</p><p>medidas e analisadas para determinar em que medida a realização dos dois tipos</p><p>de tarefas diferentes poderia contribuir com as duas variáveis dependentes (ou</p><p>seja, precisão e motivação). Todos os aprendizes melhoraram significativamente</p><p>sua competência de comunicação oral. Os que realizaram a tarefa de lacuna de</p><p>raciocínio tiveram melhora significativamente maior do que aqueles que reali-</p><p>zam a tarefa de lacuna de informação. Verificou-se também que quase todos os</p><p>alunos exibiram motivação positiva e apreciaram as atividades de aprendizagem</p><p>baseadas em tarefas projetadas no SL. Os dois grupos apresentaram melhorias</p><p>significativas na dimensão afetiva. Além disso, o grupo de lacunas de raciocínio</p><p>recebeu pontuações significativamente mais altas na dimensão relacionada ao</p><p>contexto educacional (atitude em relação ao SL como ambiente de aprendizado</p><p>do chinês mandarim) do que o grupo de lacuna de informacão (p. 60).</p><p>Podemos identificar no estudo as seguintes características da pesquisa que a qua-</p><p>lificam como experimental:</p><p>Objetivo: determinar os efeitos de diferentes tipos de tarefas comunicativas</p><p>realizadas no Second Life.</p><p>Participantes: dois grupos de 15 aprendizes iniciantes de chinês distribuídos</p><p>de forma aleatória.</p><p>Grupo de pesquisa: dois grupos de 15 aprendizes cada; um realizou tarefas</p><p>comunicativas com lacuna de raciocínio e outro, com lacuna de informação.</p><p>Grupo de controle: sem grupo de controle.</p><p>Hipótese: Apesar de o autor não ter explicitado a hipótese, fica claro que sua</p><p>hipótese é a de que determinada tarefa comunicativa gera mais aprendiza-</p><p>gem do que outra.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 41 12/09/19 10:41</p><p>42 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Variável independente: tarefa de lacuna de informação versus tarefa de la-</p><p>cuna de raciocínio</p><p>Variável dependente: resultado do teste de precisão oral e de um questioná-</p><p>rio para medir a motivação. Os resultados foram comparados com o resul-</p><p>tado de um pré-teste e de um questionário para medir a motivação antes do</p><p>início do tratamento.</p><p>Medição: estatística descritiva usando ANOVA (análise de variância).</p><p>Causa: tarefa comunicativa com lacuna de raciocínio.</p><p>Efeito: a tarefa com lacuna de raciocínio gera mais aprendizagem do que a</p><p>tarefa com lacuna de informação.</p><p>Uma questão importante para a pesquisa experimental é a distribuição aleatória</p><p>dos participantes entre os grupos. No caso da pesquisa de Lan et al. (2016), como</p><p>em muitos outros relatos de pesquisa, o leitor não é informado como se fez a</p><p>distribuição</p><p>aleatória. Teria sido sorteio?</p><p>A alocação aleatória dos participantes em dois grupos deve se dar de tal forma</p><p>que as chances de estar em um ou em outro grupo sejam iguais. Esse parece ter</p><p>sido o caso da pesquisa brasileira de Gomes e Boruchovitch (2011):</p><p>O objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos de uma intervenção psicopedagó-</p><p>gica na compreensão leitora de alunos de 4ª série de uma escola pública do</p><p>ensino fundamental. Participaram duas turmas, com 28 estudantes cada, que fo-</p><p>ram sorteadas para compor dois grupos: experimental e controle. Os estudantes</p><p>foram avaliados por meio de questionário informativo, de escala de estratégias</p><p>de aprendizagem e de testes de cloze, em três momentos. O grupo experimen-</p><p>tal participou de sete sessões de intervenção recebendo instrução em estratégias</p><p>de aprendizagem gerais e específicas para a leitura, estímulos à metacognição,</p><p>apoio motivacional e orientação para estudo. Os resultados mostram progressos</p><p>em compreensão leitora nos dois grupos, porém os ganhos foram maiores e mais</p><p>consistentes no grupo experimental.</p><p>Dörnyei (2017, p. 116) nos alerta: “De uma perspectiva teórica, o derradeiro</p><p>desafio é encontrar uma forma de encontrar um grupo de controle que seja</p><p>o mais semelhante possível ao grupo de tratamento”. Na pesquisa de Gomes</p><p>e Boruchovitch (2011), o grupo de controle e o experimental “foram consi-</p><p>derados homogêneos quanto à variável idade, gê nero e condições socioeco-</p><p>nômicas, gosto, preferências à leitura e importância atribuída às práticas de</p><p>leitura” (p. 293).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 42 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 43</p><p>A pesquisa pode assim ser descrita:</p><p>Objetivos: verificar os efeitos de procedimentos de intervenção por meio</p><p>do ensino de estratégias de aprendizagem e de estudo na me lhoria da com-</p><p>preensão em leitura, de estudantes de quarta série do ensino fundamental;</p><p>avaliar se houve melhoria na utilização de estratégias cognitivas e meta-</p><p>cognitivas, após a intervenção; avaliar a percepção dos estudantes acerca</p><p>dos trabalhos realizados; comparar o desempenho dos estudantes no grupo</p><p>experimental (GE) com os do grupo de controle (GC) em medidas de</p><p>compreensão da leitura e em uma escala de estratégias de aprendizagem</p><p>(p. 293).</p><p>Participantes: dois grupos de 28 alunos da quarta série do ensino</p><p>fundamental.</p><p>Grupo de pesquisa: 28 alunos que receberam “instrução em estratégias de</p><p>aprendizagem gerais e específicas para a leitura, estímulos à metacognição,</p><p>apoio motivacional e orientação para estudo” (p. 291).</p><p>Grupo de controle: 28 alunos que não receberam “instrução em estratégias</p><p>de aprendizagem gerais e específicas para a leitura, estímulos à metacogni-</p><p>ção, apoio motivacional e orientação para estudo” (p. 291).</p><p>Hipótese: o grupo experimental evidenciaria progresso significativo em</p><p>compreensão leitora e em estratégias de aprendizagem após os procedimen-</p><p>tos de intervenção, quando comparado ao grupo de controle.</p><p>Variável independente: instrução em estratégias de aprendizagem gerais e</p><p>específicas para a leitura, estímulos à metacognição, apoio motivacional e</p><p>orientação para estudo.</p><p>Medição: vários testes estatísticos: teste qui-quadrado, ou exato de Fisher;</p><p>teste de Mann-Whitney, teste de McNemar e ANOVA.</p><p>Variável dependente: comparação de resultados de teste de cloze, um teste</p><p>de leitura com preenchimento de lacunas.</p><p>Causa: ensino de estratégias de aprendizagem.</p><p>Efeito: melhoria na compreensão leitora.</p><p>Esses dois relatos de pesquisa experimental distribuíram, aleatoriamente, os par-</p><p>ticipantes em dois grupos, deram ao grupo experimental um tratamento diferen-</p><p>te e utilizaram pré-testes e pós-testes para medir determinada habilidade ou co-</p><p>nhecimento antes e depois da pesquisa. No entanto, ambos apresentam ressalvas</p><p>muito semelhantes a outras encontradas ao final de relatos de pesquisa experi-</p><p>mental no contexto educacional. No estudo de Lan et al. (2016), os autores dizem</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 43 12/09/19 10:41</p><p>44 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>que “devido ao pequeno tamanho dos participantes, o período de tratamento</p><p>limitado e a falta de grupo controle neste estudo, mais evidências de pesquisa</p><p>devem ser obtidas no futuro para melhor responder às questões levantadas neste</p><p>estudo” (p. 74); e no de Gomes e Boruchovitch (2011), os autores não são taxativos</p><p>e cautelosamente usam “parecem indicar”:</p><p>Os ganhos observados no grupo-classe experimental em relação aos escores totais da</p><p>escala de estratégias, em bora modestos, parecem indicar que os procedimentos de</p><p>intervenção realmente mobilizaram os estudantes que dele participaram e se envol-</p><p>veram (p. 297).</p><p>A pequena diferença entre os dois grupos comumente encontrada em pesquisas</p><p>experimentais parece indicar que os aprendizes aprendem apesar da diversidade</p><p>das ações pedagógicas e que é difícil afirmar determinado efeito ter sido realmen-</p><p>te causado por um tratamento.</p><p>Uma das dificuldades de fazer pesquisa experimental é conseguir dois grupos em</p><p>distribuição aleatória. Outra questão, como lembrado por Lodico, Spaulding e</p><p>Voegtle (2006, p. 178), é a da validade interna e externa.</p><p>De fato, quando se trata de pesquisa com humanos, podemos afirmar: a dife-</p><p>rença entre os grupos está relacionada ao tratamento experimental e não a outra</p><p>variável externa. Quem garante que o resultado não é efeito também de algu-</p><p>ma atividade autônoma por parte de alguns alunos? Quanto à validade externa,</p><p>como podemos garantir serem os resultados generalizáveis a grupos semelhantes</p><p>em outras escolas?</p><p>Por fim, é importante lembrar o conselho de Muijs (2004, p. 21): em pesquisa</p><p>experimental, é necessário “assegurar tanto quanto possível o controle de fatores</p><p>externos” para se ter certeza de qual foi a causa e qual o efeito. Outro cuidado é</p><p>com a condução do experimento para evitar que quem o conduz privilegie um</p><p>dos grupos ou demonstre mais entusiasmo por um deles.</p><p>Apesar de todas as críticas que se possa fazer à pesquisa experimental com hu-</p><p>manos, esse tipo ainda é muito valorizado por alguns centros de pesquisa. No</p><p>entanto, como ressaltam Brown e Rodgers (2002, p. 212), há vários relatos de</p><p>pesquisa ditas experimentais que não apresentam todas as características de um</p><p>experimento típico. A maioria dos estudos na área de ensino de línguas se quali-</p><p>fica, na verdade, como quase-experimentos ou pré-experimentos.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 44 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 45</p><p>3.2. Quase-experimentos</p><p>A palavra “quase” significa semelhante a, ou seja,</p><p>um quase-experimento se assemelha ao experi-</p><p>mento, mas dele difere porque não usa a aleatorie-</p><p>dade para a organização dos grupos. Nas palavras</p><p>de Seliger e Shohamy (1990, p. 148), com base em</p><p>Campbell e Stanley (1963), “quase-experimentos são</p><p>construídos em situações que já existem no mundo</p><p>real, e são provavelmente mais representativos em</p><p>condições encontradas em contextos escolares”.</p><p>Nunan (1992, p. 41) faz a seguinte distinção entre experimentos verdadeiros,</p><p>quase-experimentos e pré-experimentos. Um experimento verdadeiro usa pré e</p><p>pós-testes, grupo experimental e de controle e distribuição aleatória dos sujeitos</p><p>investigados. Um quase-experimento também usa pré e pós-testes, grupo experi-</p><p>mental e de controle, mas a distribuição dos sujeitos não é aleatória, apesar de os</p><p>grupos serem semelhantes, o que significa também um menor controle. O pré-</p><p>-experimento pode usar pré-teste e teste após o tratamento, mas não usa grupo</p><p>de controle. No entanto, outros autores como, por exemplo, Brown e Rodgers</p><p>(2002), não fazem distinção entre quase-experimento e pré-experimento,</p><p>Na área educacional, é mais fácil fazer quase-experimentos do que experimen-</p><p>tos, pois dificilmente uma escola vai permitir que as turmas sejam divididas de</p><p>forma aleatória e que uma parte dela tenha um tratamento diferente da outra.</p><p>Por outro lado, não temos como garantir que o resultado foi obtido em função do</p><p>tratamento</p><p>ou das características do grupo.</p><p>É possível trabalhar com um só grupo de alunos, submetendo todos a um pré-</p><p>-teste, dando o tratamento a metade da turma, administrando posteriormente</p><p>um pós-teste e avaliando estatisticamente os resultados. Nesses casos, por questão</p><p>ética, é recomendável que o mesmo tratamento seja, posteriormente, aplicado ao</p><p>outro grupo, especialmente se os resultados forem positivos.</p><p>Outra possibilidade de pesquisa quase-experimental é a chamada série temporal, em</p><p>que se pesquisa apenas um grupo por meio de várias observações e testes antes de se</p><p>aplicar o tratamento. Depois, são feitas novas observações e medições.</p><p>Dois exemplos de quase-experimento são os estudos de Souza (2009) e de Hakim (2016).</p><p>Palavras-chave</p><p>Hipótese</p><p>Variável independente</p><p>Variável dependente</p><p>Grupo experimental</p><p>Grupo de controle</p><p>Intervenção ou manipulação</p><p>Pré-teste</p><p>Pós-teste</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 45 12/09/19 10:41</p><p>46 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>A pesquisa de Souza (2009) pode ser assim sintetizada:</p><p>Objetivos: investigar os efeitos da instrução foco na forma (FonF), compara-</p><p>tivamente à instrução foco nas formaS, no aprendizado de um tempo verbal</p><p>da língua italiana — o passato prossimo — por aprendizes brasileiros de</p><p>italiano como língua estrangeira (LE).</p><p>Participantes: adultos aprendizes de italiano.</p><p>Grupo de pesquisa: oito participantes com idades entre 20 e 35 anos.</p><p>Grupo de controle: cinco participantes com idades entre 40 e 80 anos.</p><p>Hipótese: o tratamento com foco na forma poderia ser mais eficaz do que</p><p>o tratamento com foco nas formaS para o aprendizado do passado próximo,</p><p>no que diz respeito, especialmente, à escolha dos verbos auxiliares que com-</p><p>põem esse tempo verbal — a saber, os verbos italianos essere (ser, estar) e</p><p>avere (ter).</p><p>Variável independente: instrução com foco na forma.</p><p>Medição: pré-teste e pós-teste para avaliar a produção do passado próximo,</p><p>por parte dos aprendizes, no que tange à escolha do verbo auxiliar.</p><p>Variável dependente: níveis de proficiência no uso de um tempo verbal</p><p>Causa: instrução com foco na forma.</p><p>Efeito: melhoria no uso do passato prossimo em italiano.</p><p>Ao ler o relato da pesquisa, verificamos não ter havido distribuição aleatória dos</p><p>participantes e que os dois grupos são naturais. Além disso, há variação de núme-</p><p>ro de participantes e de idade. O autor conclui também não ter havido variação</p><p>nos grupos em relação ao emprego do verbo avere, e os dois grupos conseguiram</p><p>acertar todas as questões no pré-teste e no pós-teste. O mesmo não aconteceu</p><p>com o outro verbo. Diz ele:</p><p>Com relação ao emprego correto do verbo essere, no entanto, percebeu-se que houve</p><p>uma variação significativa entre o pré-teste e o pós-teste, em ambos os grupos. Houve</p><p>uma diminuição dos acertos, por parte do grupo controle, e um aumento, no número</p><p>de acertos, por parte do grupo de tratamento. Em termos numéricos, enquanto o gru-</p><p>po controle passou de 33% (trinta e três por cento) de acertos, no pré-teste, para 0%</p><p>(zero por cento) de acertos, no pós-teste, o grupo de tratamento passou de 0% (zero</p><p>por cento) para 89% (oitenta e nove por cento) (SOUZA, 2009, p. 49).</p><p>A pesquisa de Souza (2009) indica o foco na forma como mais eficiente do que</p><p>o foco nas formaS. No entanto, o próprio autor alerta para a necessidade de mais</p><p>pesquisas.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 46 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 47</p><p>O quase-experimento de Hakim (2016) foi sobre a eficácia do uso de vídeo para</p><p>melhorar a habilidade de fala de aprendizes de inglês, assim como investigar os</p><p>aspectos que foram mais beneficiados.</p><p>Participantes: aprendizes de inglês do segundo ano do ensino médio em</p><p>Sukabumi, na Indonésia.</p><p>Grupo de pesquisa: uma turma do segundo ano do ensino médio.</p><p>Grupo de controle: uma segunda turma do ensino médio do mesmo nível.</p><p>Hipótese: o uso de vídeo em aula de inglês melhora o desempenho oral.</p><p>Variável independente: ensino de inglês com uso de vídeo.</p><p>Medição: pré-teste e pós-teste para avaliar a produção oral.</p><p>Variável dependente: desempenho oral em inglês.</p><p>Causa: uso de vídeo em aula de inglês.</p><p>Efeito: o uso de vídeo melhorou a habilidade de fala dos alunos.</p><p>O pesquisador verificou uma diferença significativa entre os dois grupos. No</p><p>entanto, o artigo é muito sucinto, e o autor não informa como foram as aulas</p><p>ministradas ao grupo de controle.</p><p>3.3. Pré-experimentos</p><p>Esse tipo de pesquisa tem como característica o uso de um único grupo, geral-</p><p>mente já existente, para verificar se houve alguma mudança após um tratamento.</p><p>O tipo mais comum manipula uma variável dependente e utiliza pré-teste e</p><p>pós-teste.</p><p>Phakiti (2004, p. 57) considera esse tipo de pesquisa “semelhante à pesquisa-</p><p>-ação, quando o objetivo do professor pesquisador é melhorar o desempenho</p><p>de seus alunos, implementando algumas atividades que ele acredita úteis para</p><p>resolver um problema”.</p><p>Ainda para o autor, o rótulo de pré-experimento se justifica porque esse tipo de</p><p>pesquisa “não é suficientemente robusto para chegar a conclusões sobre relações</p><p>de causa e efeito ou sobre o efeito de um tratamento”. Segundo ele, o pré-experi-</p><p>mento é uma versão fraca do quase-experimento.</p><p>Campbell e Stanley (1963) reconhecem haver um crescimento no uso dos pré-</p><p>-experimentos, mas veem esse tipo de pesquisa com reserva devido à ausência de</p><p>controle. No entendimento deles, isso diminuiria seu valor científico.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 47 12/09/19 10:41</p><p>48 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>A mesma avaliação é feita por Baker e Sonden (1997), ao examinarem 16 pes-</p><p>quisas por eles classificadas como pré-experimentais em um conjunto de 200</p><p>artigos sobre o impacto do envolvimento de pais no desenvolvimento escolar dos</p><p>filhos. É interessante observar que os estudos analisados não se classificam como</p><p>pré-experimentos.</p><p>Baker e Sonden (1997) consideraram pouco confiáveis essas pesquisas, por eles</p><p>classificadas como pré-experimentais, pois “ou não havia comparação de grupos</p><p>ou a comparação não era feita com distribuição aleatória dos participantes e nem</p><p>houve aplicação de pré-teste ou pós-teste” (p. 7).</p><p>Os pré-experimentos são, muitas vezes, utilizados em estudos exploratórios em</p><p>busca de evidências que possam posteriormente justificar um estudo mais am-</p><p>plo. São também usados em pesquisas de metodologia mista, como foi o caso da</p><p>dissertação de mestrado de Oliveira (2017). O autor associou pré-experimento e</p><p>análise do discurso em um estudo sobre um curso de formação inicial e conti-</p><p>nuada (fic). Ele registrou em nota, na página 17, que seu estudo se classificaria</p><p>como pré-experimento, segundo Nunan (2007), mas que optava por chamá-lo de</p><p>análise experimental. Ao longo do trabalho, contudo, usa apenas experimento.</p><p>O objetivo geral da pesquisa foi:</p><p>identificar, classificar e quantificar as marcas linguísticas das respostas — fornecidas</p><p>nos formulários aplicados via Google Docs — dos alunos participantes do curso fic</p><p>no que concerne às suas percepções do referido curso por uma análise do discurso</p><p>pela perspectiva sistêmico-funcional, bem como mensurar, através de uma análise</p><p>experimental, o impacto do uso de estratégias de leitura para o desenvolvimento da</p><p>compreensão escrita em textos da área de informática. Neste sentido, discutimos se</p><p>essas duas análises (análise do discurso e análise experimental) se harmonizam em</p><p>seus resultados (p. 17).</p><p>O pré-experimento realizado por Oliveira (2017) teve por objetivo “investigar se,</p><p>após o curso fic, os alunos atingiram estatisticamente um desempenho melhor</p><p>na compreensão escrita em textos da área técnica de informática em li” (p. 105).</p><p>O experimento pode ser sumarizado da seguinte forma:</p><p>Participantes: 24 participantes de um curso de formação inicial e continua-</p><p>da de 30 horas, intitulado Inglês para Informática.</p><p>Grupo de pesquisa: 19 alunos (6 participantes não estiveram presentes às</p><p>aulas no dia da aplicação dos testes)</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd</p><p>48 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 49</p><p>Grupo de controle: sem grupo de controle.</p><p>Hipótese: O curso fic poderia aumentar o nível de compreensão escrita</p><p>através do uso de estratégias de leitura contempladas no referido curso com</p><p>abordagem de ife.</p><p>Variável independente: ensino de estratégias de leitura durante o curso fic.</p><p>Medição: pré-teste e pós-teste para medir se houve ou não ganho na capa-</p><p>cidade de compreensão escrita em língua inglesa na área de informática. O</p><p>pré-teste (The First Computer Programmer) e o pós-teste (The Digital Divide)</p><p>foram retirados do sítio UsingEnglish.com2 e aplicados no primeiro e no</p><p>último dia de aula. Ambos compreendiam testes de leitura com textos de</p><p>tamanhos semelhantes e dez questões de múltipla escolha.</p><p>Variável dependente: desempenho em testes de leitura.</p><p>Causa: um curso fic.</p><p>Efeito: “O grupo como um todo não obteve um resultado estatisticamente</p><p>significativo, porém é possível notar que há alguns valores matemáticos im-</p><p>portantes de serem observados” (OLIVEIRA, 2017, p. 105).</p><p>É comum os pré-experimentos serem descritos simplesmente como experimen-</p><p>tos, ou como quase-experimentos ou, ainda, como estudos de caso.</p><p>3.4. Os experimentos hoje</p><p>Para Johnson (1992), os experimentos deixaram de ser con-</p><p>siderados o modelo ideal de pesquisa. Importa usar um</p><p>método adequado a seu propósito. Dörnyei (2007) também</p><p>avalia que, tanto na psicologia educacional como na lin-</p><p>guística aplicada, em geral, as pesquisas experimentais es-</p><p>tão em declínio. Ele menciona a prevalência desses estudos</p><p>na linguística aplicada da década de 1960 com as pesquisas</p><p>em sala de aula sobre comparação de métodos, mas afirma que essa abordagem</p><p>perdeu a popularidade devido a dois motivos:</p><p>(a) muitos dos tópicos de interesse da linguística aplicada não estão diretamente</p><p>ligados a ‘tratamento’ ou ‘intervenção’, isto é, não são facilmente manipulá-</p><p>veis (por exemplo, diferenças de gênero, traços de personalidade, e variações</p><p>etnolinguísticas);</p><p>2 Disponível em: <https://www.usingenglish.com>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Palavras-chave</p><p>População</p><p>Amostra</p><p>Entrevista</p><p>Questionário</p><p>Estatística</p><p>Generalização</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 49 12/09/19 10:41</p><p>50 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>(b) a limitação do escopo da pesquisa experimental, pois apenas uma ou poucas</p><p>variáveis podem ser alteradas de cada vez.</p><p>Espaços típicos de pesquisa em linguística aplicada, como a sala de aula, são</p><p>ambientes complexos onde muitos fatores operam simultaneamente, e mudanças</p><p>significativas só podem ser realizadas se muitas variáveis operarem em conjunto</p><p>ou em combinações especiais. Um desenho experimental, mirando uma ou duas</p><p>variáveis, é inadequado em contextos multivariados (DÖRNYEI, 2007, p. 119).</p><p>De fato, os estudos experimentais foram muito utilizados no início das pesquisas</p><p>em linguística aplicada quando se acreditava que a aprendizagem era efeito de</p><p>intervenção no ensino. No Brasil, eles nunca foram muito populares e ficaram</p><p>restritos às pesquisas em psicolinguística, onde ainda prevalecem.</p><p>3.5. Levantamento de opinião ou survey3</p><p>Os pés de um homem têm de estar plantados em seu país,</p><p>mas seus olhos têm de mapear o mundo.</p><p>George Santayana</p><p>O survey é um tipo de pesquisa descritiva bastante comum nos estudos sociais</p><p>e educacionais. Nunan (1992, p. 232) define survey como “a coleta de dados</p><p>(geralmente relacionada a atitudes, crenças, ou intenções) de sujeitos sem qual-</p><p>quer tentativa de manipular os fenômenos/variáveis sob investigação”. Brown e</p><p>Rodgers (2002, p. 142) o conceituam como “quaisquer procedimentos usados</p><p>para coletar e descrever as características, atitudes, visões, opiniões, e assim por</p><p>diante, de estudantes, professores, administradores e qualquer outra pessoa que</p><p>seja importante para o estudo”.</p><p>Groves et al. (2004, p. 3-4) acreditam que “o tipo mais antigo de survey seja o</p><p>censo, geralmente conduzido pelos governos. Censos são esforços sistemáticos,</p><p>geralmente, para fins de tributação ou representação política”.</p><p>Um tipo de survey muito comum são as pesquisas de opinião públicas sobre eleições</p><p>cujos dados são coletados por meio de entrevistas com uma amostragem dos eleitores.</p><p>Essas entrevistas são orais, feitas pessoalmente ou por telefone. Outro exemplo é o cen-</p><p>so demográfico, realizado pelo Instituto Brasileiro e Geográfico (IBGE), que coleta</p><p>informação sobre todos os habitantes do Brasil com visitas a domicílios.</p><p>3 Usarei o termo survey porque seu uso é bem comum em português.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 50 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 51</p><p>Os dois tipos de pesquisa são feitos em larga escala, mas podemos também usar</p><p>o survey para pesquisas de pequena escala. Saber, por exemplo, quais são as fer-</p><p>ramentas digitais que os alunos de determinada sala de aula usam. Para tanto,</p><p>podemos usar questionários ou formulários eletrônicos. Hoje há ferramentas que</p><p>possibilitam coletar dados e gerar resultados de forma automática, como veremos</p><p>mais à frente. Em suma, os dados de um survey podem ser obtidos por meio de</p><p>entrevista ou de questionário, ou uma combinação dos dois. No entanto, o ques-</p><p>tionário é o tipo mais popular devido à facilidade e à agilidade na coleta de dados.</p><p>Brown (2001, p. 75) lista vários pontos positivos e negativos para esses dois ins-</p><p>trumentos de coleta de dados. Alguns pontos positivos da entrevista são a relativa</p><p>flexibilidade e riqueza dos dados. Entre os negativos estão: o tempo demandado,</p><p>a impossibilidade de 100% de anonimato e a restrição geográfica. Quanto ao</p><p>questionário, entre outros aspectos positivos, é um instrumento barato e ágil,</p><p>pode ser feito em larga escala, de forma anônima, e cobrir uma grande área geo-</p><p>gráfica. Alguns pontos negativos são a baixa taxa de retorno, a rigidez no formato</p><p>e, frequentemente, respostas incompletas.</p><p>Dörnyei (2007, p. 101) afirma ser o questionário o principal instrumento para a</p><p>coleta de dados em surveys e acrescenta que os resultados são tipicamente quan-</p><p>titativos, apesar da possibilidade de inclusão de algumas respostas abertas que</p><p>demandarão uma análise qualitativa. Questionários costumavam ser aplicados</p><p>por correspondência, pessoalmente ou por telefone, mas hoje é muito comum o</p><p>uso de formulários online para coleta e análise de dados. Dois exemplos são os</p><p>formulários do Google4 e do SurveyMonkey5, mas há outras opções.</p><p>No entanto, essa novidade da mediação da tecnologia digital não é garantia de</p><p>coleta bem-sucedida. Assim como é comum as pessoas desligarem o telefone</p><p>e não atenderem os institutos de pesquisa, os internautas também ignoram os</p><p>pedidos de colaboração por e-mail ou redes sociais ou começam a responder e</p><p>abortam o processo, especialmente quando o questionário é muito grande ou</p><p>toma muito tempo do respondente. Meu conselho é evitar questionários grandes</p><p>e, se possível, não usar questões abertas.</p><p>Baseada em Nunan (1992, p. 141) e Johnson (1992, p. 110), listo os seguintes as-</p><p>pectos a serem levados em conta aos se planejar um survey:</p><p>4 Disponível em: <https://www.google.com/forms/about/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>5 Disponível em: <https://pt.surveymonkey.com/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 51 12/09/19 10:41</p><p>52 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>(a) definição do propósito ou objetivos da pesquisa;</p><p>(b) identificação da população a ser investigada;</p><p>(c) determinação da amostra;</p><p>(d) escolha dos instrumentos de coleta de dados;</p><p>(e) desenvolvimento dos instrumentos;</p><p>(f) identificação dos procedimentos de análise;</p><p>(g) determinação dos procedimentos de pesquisa.</p><p>No caso de surveys envolvendo várias pessoas na coleta de dados, é importante</p><p>que elas passem por um treinamento para fazer a coleta se guiar pelo mesmo</p><p>protocolo.</p><p>É impossível investigar grandes populações. O recurso é se valer de uma amos-</p><p>tragem que nos permita chegar a resultados generalizáveis, ou seja, permita pro-</p><p>jetar o resultado obtido</p><p>no universo pesquisado com uma margem bastante se-</p><p>gura de acertos.</p><p>Uma questão recorrente diz respeito ao tamanho da amostra. Quando se estuda</p><p>um grupo grande, é impossível ter acesso a todos os seus membros. Precisamos</p><p>de uma amostra representativa. Brown (1988) descreve dois tipos de estratégia</p><p>para selecionar uma amostra: amostragem aleatória e amostragem aleatória es-</p><p>tratificada e explica: “O objetivo de uma amostragem aleatória é assegurar que</p><p>cada membro de uma população tenha chance igual de ser selecionado para a</p><p>amostra” (BROWN, 1988, p. 111).</p><p>Para obter esse tipo de amostra, podemos atribuir um número para cada mem-</p><p>bro da população e fazer um sorteio ou fazer a seleção com o auxílio de uma</p><p>tabela de números aleatórios que pode ser encontrada na internet ou em livros</p><p>de estatística. Outra possibilidade é o uso de ferramentas digitais, por exemplo, a</p><p>invertexto6. O usuário insere o número de participantes da amostra, e o aplicativo</p><p>gera uma listagem de números aleatórios.</p><p>Na amostragem aleatória estratificada, a população é dividida em subgrupos,</p><p>tais como idade, sexo, anos de escolaridade etc. Depois da divisão de grupo,</p><p>seleciona-se aleatoriamente a amostra de cada subgrupo.</p><p>A pergunta que todos se fazem é: “Qual é o tamanho ideal de uma amostra?”.</p><p>Brown (2001, p. 74) afirma não existir “uma resposta para essa pergunta, porque</p><p>6 Disponível em: <https://www.invertexto.com/numeros-aleatorios>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 52 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 53</p><p>as decisões sobre o tamanho da amostra dependem muito da situação do estudo,</p><p>do tamanho da população, dos tipos de surveys a ser aplicados, assim como dos</p><p>tipos de estatística utilizados”. Ele ainda acrescenta que existe um “número má-</p><p>gico” aconselhado por professores de estatística para uma amostra mínima: 28 ou</p><p>30, mas adverte: se quisermos alta precisão, precisamos de uma amostra grande,</p><p>e o conselho é não usar amostragens com grupos pequenos.</p><p>Em livro anterior, Brown (1988) considerou que quanto maior a amostra, melhor.</p><p>Para ele, não faz sentido, por exemplo, selecionar 20% de 30 alunos para um</p><p>survey. Devemos entrevistar os 30. No livro de 2001, ele diz:</p><p>Prefiro pensar em termos, não de números mínimos, mas de números que serão mais</p><p>úteis para generalizar os resultados para a população que você está investigando.</p><p>Se você está interessado em investigar os alunos em um pequeno curso de idiomas,</p><p>considere investigar todos eles. Mas se isso for impraticável devido a procedimentos</p><p>de entrevista, você deveria selecionar, de forma aleatória, pelo menos 50% deles para</p><p>a pesquisa. Tal decisão dependerá (1) de seu propósito, (2) da importância de seus</p><p>resultados e (3) do grau de generalização dos resultados que você almeja para a po-</p><p>pulação como um todo (brown, 2001, p. 74).</p><p>Mas e se a população for muito grande? Como selecionar o tamanho ideal para</p><p>compor uma amostra? Toda amostra deve levar em conta o tamanho da popu-</p><p>lação, reunir indivíduos com características representativas do todo e levar em</p><p>conta a margem de erros de quando se pesquisa por amostragem.</p><p>Felizmente, não precisamos ser especialistas em estatística para calcular a amos-</p><p>tra. Atualmente, existem calculadoras onde indicamos o tamanho da população,</p><p>o nível de confiança e a margem de erro esperada. Um exemplo é o Sample Size</p><p>Calculator do SurveyMonkey7.</p><p>Vejamos dois exemplos: em uma população de 100 pessoas, com o nível de con-</p><p>fiança em 99% e margem de erro em 2%, essa calculadora indica uma amostra</p><p>de 98 respondentes. Mas se alteramos para 95% de confiança e 5% de erro, a</p><p>amostra cai para 80. Usando os mesmos índices para uma população de 1.000,</p><p>obteremos os seguintes cálculos de amostras: 278 e 8078. Vejamos, a seguir, qua-</p><p>tro exemplos de survey, dois utilizando questionários, outro, entrevistas e o últi-</p><p>mo usando os dois instrumentos.</p><p>7 Disponível em: <https://www.surveymonkey.com/mp/sample-size-calculator/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>8 Outra sugestão de calculadora é o Sample Size Calculator do Calculator.net. Disponível em:</p><p><https://www.calculator.net/sample-size-calculator.html>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 53 12/09/19 10:41</p><p>54 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>O primeiro relata os resultados de uma pesquisa transversal de Chenjing e Dörnyei</p><p>(2016) sobre motivação de aprendizes de inglês em escolas de ensino secundário</p><p>e universidades na China, utilizando uma amostra de 10.413 alunos, distribuídos</p><p>uniformemente por três regiões geográficas. Foi feito um estudo estratificado de</p><p>diferentes contextos de ensino, incluindo participantes de áreas urbanas e rurais.</p><p>As duas populações investigadas, alunos do ensino secundário e do universitário,</p><p>responderam a um questionário utilizando escala Likert9 de 6 pontos, que incluía</p><p>73 questões sobre motivação envolvendo 9 variáveis motivacionais, com base no</p><p>autossistema motivacional de Dörnyei (2005, 2009). O questionário foi traduzido</p><p>do inglês para o chinês e pilotado por 208 aprendizes (109 universitários e 99 se-</p><p>cundários) na mesma faixa etária dos participantes do estudo principal.</p><p>Os autores concluem: os resultados são muito semelhantes aos encontrados em</p><p>outros países; não existe uma especificidade motivacional na cultura chinesa. Os</p><p>estudantes chineses se mostram motivados a estudar inglês como língua estran-</p><p>geira e apresentam uma autoimagem positiva de aprendiz.</p><p>No Brasil, Almeida e Miccoli (2006) utilizaram questionários em surveys para inves-</p><p>tigar quatro instituições do Espírito Santo que oferecem o curso de Letras com ha-</p><p>bilitação em inglês. Os questionários utilizados foram testados em um estudo piloto</p><p>(almeida, 2003) e aperfeiçoados para o novo estudo. Com esses instrumentos, elas</p><p>identificaram os perfis de administradores, professores e estudantes e as condições</p><p>dessas instituições. Conclusão das autoras: “A formação de professores de inglês nos</p><p>cursos oferecidos por essas quatro instituições do Espírito Santo ainda está longe</p><p>daquilo que é desejado por seus estudantes, professores e administradores” (p. 163).</p><p>O terceiro exemplo é uma pesquisa de Krauthaker (2017), que avaliou centros de</p><p>autoaprendizagem de línguas em instituições de ensino básico no Reino Unido</p><p>entre 2014 e 2017. A pesquisadora visitou 11 centros, observou os locais para fazer</p><p>um levantamento dos recursos existentes e entrevistou 12 pessoas responsáveis</p><p>pela administração, sendo uma delas um ex-administrador. Ela concluiu que</p><p>nem todos os centros de autoaprendizagem de línguas são ligados aos departa-</p><p>mentos responsáveis pelo ensino de línguas e, apesar dos benefícios pedagógicos</p><p>reconhecidos pelas instituições, a maioria dos administradores gostaria de ter</p><p>mais recursos e mais apoio institucional.</p><p>9 A escala Likert apresenta variações de nível de concordância ou discordância com afirmações em</p><p>questionários, como por exemplo: concordo, concordo parcialmente, concordo totalmente, discor-</p><p>do, discordo parcialmente, discordo totalmente.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 54 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 55</p><p>O quarto e último exemplo (DIAZ et al., 2010) é uma pesquisa que utiliza um</p><p>questionário com escala Likert e uma entrevista semiestruturada com um grupo</p><p>de dez professores de inglês no ensino secundário do sistema educacional públi-</p><p>co do Chile para analisar suas concepções pedagógicas. O questionário continha</p><p>40 afirmações com cinco alternativas (discordo completamente, discordo, neutro,</p><p>concordo, concordo completamente), e a entrevista apresentava 30 perguntas dis-</p><p>tribuídas pelas seguintes dimensões:</p><p>(1) princípios teóricos;</p><p>(2) papel do professor no processo didático;</p><p>(3) papel do aluno no processo didático;</p><p>(4) relação entre objetivos do ensino, conteúdo, metodologia e atividades no pro-</p><p>cesso didático;</p><p>(5) o conteúdo e os recursos didáticos;</p><p>(6) a avaliação da aprendizagem.</p><p>Para garantir a confiabilidade dos dados,</p><p>os dois instrumentos foram pilotados</p><p>com cinco informantes que não fizeram parte da amostra, e a análise dos dados</p><p>foi validada por outros 10 especialistas.</p><p>Os dados revelam que os professores utilizam modelos didáticos ecléticos e apre-</p><p>sentam evidente orientação comunicativa, pelo menos em seus discursos. Eles</p><p>sugerem como objeto de estudo futuro verificar se isso acontece em sala de aula.</p><p>Por fim, enfatizam:</p><p>O professor deve não apenas ser treinado com novas metodologias ou práticas ava-</p><p>liativas, mas também desenvolver a capacidade de aprender e desaprender velhas</p><p>ou novas práticas pedagógicas que o mantêm em um processo de abertura mental e</p><p>aprendizado contínuo (p. 78).</p><p>Os autores concluem também: no desenvolvimento do professor, além dos</p><p>conteú dos padronizados, deveria haver espaço para as necessidades específicas</p><p>de cada contexto socioeducativo.</p><p>3.6. Avaliação de pesquisas quantitativas</p><p>Confiabilidade e validade são dois construtos essenciais para a avaliação uma</p><p>pesquisa quantitativa.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 55 12/09/19 10:41</p><p>56 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>3.6.1. Confiabilidade</p><p>Na perspectiva quantitativa, pesquisas confiáveis são replicáveis e geram os mes-</p><p>mos resultados, o que comprova serem elas consistentes. Devem apresentar tam-</p><p>bém resultados válidos, realmente gerados pela intervenção da pesquisa. Uma</p><p>pesquisa é válida quando seus resultados são fruto daquilo que se propuseram a</p><p>medir ou avaliar e não decorrem de outra variável. Dörnyei (2007, p. 50), citando</p><p>Chalhoub-Deville (2006, p. 2), explica:</p><p>O termo confiabilidade vem da teoria da medida e se refere a “consistência dos da-</p><p>dos, notas ou observações obtidas por meio de instrumentos de elicitação, que podem</p><p>incluir uma gama de ferramentas desde testes parametrizados utilizados em contex-</p><p>tos educacionais até tarefas realizadas pelos participantes em um estudo de pesquisa”.</p><p>São dois os tipos de confiabilidade: a interna e a externa. Segundo Nunan (1992,</p><p>p. 14), a confiabilidade interna “refere-se à consistência da coleta de dados, da</p><p>análise e da interpretação”. A confiabilidade externa tem a ver com a questão da</p><p>replicabilidade, de “até que ponto pesquisadores independentes podem reproduzir</p><p>um estudo e obter resultados similares ao estudo original” (NUNAN, 1992, p. 14).</p><p>Uma forma de conseguir confiabilidade é recorrer a um ou mais interavaliadores</p><p>(inter-raters). Quanto maior a concordância na análise dos dados entre dois ou</p><p>mais avaliadores, maior a confiabilidade dos resultados. Para Perry Jr. (2007, p.</p><p>144), o índice de confiabilidade ideal varia dependendo do tipo de pesquisa, mas</p><p>os pesquisadores ficariam felizes com 80% de coincidência, pois, “dificilmente</p><p>os coeficientes de confiabilidade ocorrem nos extremos de um continuum (isto</p><p>é, 0,00 ou 1,00)”.</p><p>3.6.2. Validade</p><p>Perry Jr. (2007, p. 254) define validade como “o grau em que um procedimento</p><p>de medição observação captura com precisão os dados e é usado corretamente”.</p><p>A validade também se divide em interna e externa. A primeira está ligada à ques-</p><p>tão da interpretação e a segunda à generalização.</p><p>Uma pesquisa tem validade interna10 quando seus resultados são fruto do efeito</p><p>do tratamento e não sofreram influência de outras variáveis; e tem validade exter-</p><p>10 Explica Dörnyei (2007, p. 96): o termo “validade interna” costuma ser substituído por “credibili-</p><p>dade” em pesquisas qualitativas. Essa questão será discutida no capítulo sobre pesquisa qualitativa.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 56 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA 57</p><p>na quando os resultados podem ser generalizados para outras amostras, popula-</p><p>ções ou situações (NUNAN, 1992; DÖRNYEI, 2007; PERRY JR., 2017).</p><p>Segundo Ross (2005, p. 2), os experimentos são fortes na validade interna (veri-</p><p>ficar se o resultado obtido pelos sujeitos é realmente efeito do tratamento) e os</p><p>surveys na validade externa (verificar se os resultados obtidos podem ser generali-</p><p>zados para uma população maior).</p><p>3.6.3. Avaliando experimentos e surveys</p><p>Finalizo esta parte com os critérios sugeridos por Johnson (1992) para avaliação</p><p>dos dois tipos de pesquisa aqui apresentados. Suas sugestões são para pesquisa</p><p>sobre ensino e aprendizagem de segunda língua, mas podem ser adaptados para</p><p>outros tipos de pesquisa em linguística aplicada ou em educação.</p><p>Para avaliação da qualidade de pesquisas experimentais, Johnson (1992, p. 177)</p><p>propõe as seguintes perguntas:</p><p>1. Qual é a pergunta de pesquisa? Quais são as hipóteses?</p><p>2. Em que contexto a pesquisa foi conduzida?</p><p>3. Qual foi a orientação teórica da pesquisa?</p><p>4. Quem foram os sujeitos/participantes do estudo? Quantos eram e como fo-</p><p>ram selecionados? Quais são suas características relevantes?</p><p>5. Qual foi a variável independente e como ela foi operacionalizada?</p><p>6. Quais foram os procedimentos utilizados na condução da pesquisa?</p><p>7. Quais meios foram usados para controlar variáveis estranhas e para alcançar</p><p>validade interna?</p><p>8. Quais foram as variáveis dependentes e como elas foram definidas e medi-</p><p>das? Quão adequadas (válidas e confiáveis) foram elas?</p><p>9. Que análises foram executadas e com quais resultados? Os resultados podem</p><p>ser atribuídos aos tratamentos? Que outros fatores poderiam ter influenciado</p><p>nos resultados?</p><p>10. Quais foram as conclusões? As generalizações sobre os resultados são</p><p>apropriadas?</p><p>11. Qual é a contribuição do estudo para nosso conhecimento de fatores sociais</p><p>ou contextuais no ensino ou aprendizagem de L2?</p><p>12. Quais são as implicações declaradas?</p><p>Para a análise de surveys, Johnson (1992, p. 118) apresenta doze perguntas que</p><p>nos ajudariam a decidir “como interpretar os resultados, o grau de confiabilidade</p><p>nos resultados numéricos e o que pode ser aprendido com a pesquisa”. São elas:</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 57 12/09/19 10:41</p><p>58 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>1. Qual é a pergunta de pesquisa?</p><p>2. Em qual contexto o survey foi conduzido?</p><p>3. Como a população foi definida?</p><p>4. Quais foram os procedimentos adotados para definir a amostragem? Quão</p><p>representativa é ela?</p><p>5. Como as variáveis foram observadas ou medidas?</p><p>6. Quais procedimentos foram utilizados para coletar os dados?</p><p>7. Quais tentativas foram feitas para aumentar os índices das respostas? Que</p><p>índices de respostas foram alcançados?</p><p>8. Houve enviesamento decorrente das não respostas?</p><p>9. Que análises foram feitas?</p><p>10. Quais foram os resultados e que conclusões foram tiradas? As generalizações</p><p>sobre os resultados são apropriadas?</p><p>11. Qual é a contribuição do estudo para nosso conhecimento de fatores sociais</p><p>ou contextuais no ensino ou aprendizagem de L2?</p><p>12. Quais são as implicações declaradas para a aprendizagem de L2 em contex-</p><p>tos formais?</p><p>Para terminar, reitero: se querem ser vistas como objetivas, as pesquisas quantita-</p><p>tivas precisam demonstrar confiabilidade, validade e apostar em medidas estatís-</p><p>ticas, evitando a interferência da subjetividade do pesquisador.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 58 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA</p><p>QUALITATIVA</p><p>Neste capítulo, apresento seis tipos de pesquisa: pesquisa bibliográfica, estu-</p><p>do de caso, pesquisa-ação, pesquisa narrativa, teoria fundamentada em dados e</p><p>pesquisa etnográfica. E encerro com a proposta de Lincoln e Guba (1985) para</p><p>avaliação de pesquisa qualitativa.</p><p>4.1. Pesquisa bibliográfica</p><p>A habilidade e o sabor da leitura abrem acesso a tudo o que já</p><p>foi descoberto pelos outros. Ela é a chave, ou uma das chaves,</p><p>para os problemas já resolvidos. E não só isso. Ela dá tempero</p><p>e facilidade para conseguir resolver os [ainda] não resolvidos.</p><p>(Abraham Lincoln, 30 de setembro de 1859. Discurso diante da</p><p>Sociedade Agrícola do Estado de Wisconsin)</p><p>Nesta seção, trato da pesquisa bibliográfica1 entendida prioritariamente como</p><p>revisão de literatura e parte essencial de qualquer modalidade de pesquisa. A</p><p>pesquisa bibliográfica tem por objetivo contextualizar uma pesquisa e mostrar</p><p>1 Lima</p><p>e Miotto (2007) distinguem pesquisa bibliográfica de revisão de literatura ou bibliográfica.</p><p>Para eles, a pesquisa bibliográfica vai além da revisão porque busca soluções.</p><p>4</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 59 12/09/19 10:41</p><p>60 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>o que já existe sobre o objeto investigado. Macedo (1994, p. 13) define pesquisa</p><p>bibliográfica da seguinte forma:</p><p>É a busca de informações bibliográficas, seleção de documentos que se relacionam com</p><p>o problema de pesquisa (livros, verbetes de enciclopédia, artigos de revista, trabalhos de</p><p>congressos, teses etc.) e o respectivo fichamento das referências para serem posteriormente</p><p>utilizadas (na identificação do material referenciado ou na bibliografia final).</p><p>E acrescenta: “A ‘revisão bibliográfica’ ou ‘revisão de literatura’ consiste numa</p><p>espécie de ‘varredura’ do que existe sobre um assunto e o conhecimento dos au-</p><p>tores que tratam desse assunto, a fim de que o estudioso não ‘reinvente a roda’!”</p><p>(MACEDO, 1994, p. 13).</p><p>A pesquisa bibliográfica é um tipo secundário porque utiliza estudos já publi-</p><p>cados em livros e artigos acadêmicos, além de informações encontradas em re-</p><p>latórios, podcasts, páginas na web, blogs, vídeos, bancos de dados, apresentações</p><p>digitais, gravações de palestras, folhetos etc. Mas ela vai além da mera busca de</p><p>informações e não é uma simples compilação dos resultados dessas buscas. Ape-</p><p>sar de não trazer nenhum conhecimento novo, o pesquisador deve resumir essas</p><p>informações, avaliando-as, relacionando-as de forma coesa e crítica, adicionando</p><p>explicações, sempre que necessário.</p><p>Corbin e Straus (2008, p. 38) listam sete usos da literatura técnica. Ela pode:</p><p>• ser uma fonte de comparações;</p><p>• aumentar a sensibilidade2;</p><p>• fornecer uma memória (cache) de dados descritivos com muito pouca</p><p>interpretação;</p><p>• fornecer perguntas para observações iniciais e entrevistas;</p><p>• estimular perguntas durante a análise;</p><p>• sugerir áreas para amostra teórica3;</p><p>• confirmar resultados ou exatamente o contrário: eles podem ser usados para</p><p>ilustrar onde a literatura é incorreta, simplista, ou apenas explicar parcial-</p><p>mente o fenômeno.</p><p>2 Os autores se referem à sensibilidade a nuances sutis dos dados, como, por exemplo, a percepção</p><p>da repetição de determinado conceito na literatura que também aparece nos seus dados de pesquisa.</p><p>Dados pouco interpretados também “podem estimular o pensamento e tornar o analista mais sensível</p><p>ao que está em seus próprios dados” (CORBIN; STRAUSS, 2008, p. 38).</p><p>3 “A literatura pode fornecer insights sobre onde (qual lugar, tempo, quais trabalhos) o pesquisador</p><p>deve ir para investigar certos conceitos relevantes. Em outras palavras, pode orientar o pesquisador</p><p>para situações sobre as quais ele, ou ela, não teria pensado” (CORBIN; STRAUSS, 2008, p. 38).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 60 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 61</p><p>Erro comum em pesquisas bibliográficas consiste em apresentar uma mera des-</p><p>crição do material pesquisado sem estabelecer relações e comparações e sem</p><p>mostrar lacunas. Outro problema é não ser fiel às leituras e apresentar traduções</p><p>ou interpretações equivocadas.</p><p>Para Allen (2017, p. 92), o desafio dos pesquisadores “é identificar quais fontes são</p><p>apropriadas para serem incluídas em uma pesquisa acadêmica e como determi-</p><p>nar se a informação fornecida é precisa, confiável e atual”. Segundo ele,</p><p>um pesquisador eficiente é capaz de determinar a extensão da informação necessária;</p><p>acessar as informações necessárias de forma efetiva e eficiente; avaliar criticamente</p><p>as informações e suas fontes; incorporar as informações selecionadas em sua base</p><p>de conhecimento; usar as informações de forma eficiente para atingir um propósito</p><p>específico; compreender as questões sociais, legais e econômicas em torno das infor-</p><p>mações e acessar e usar a informação de forma ética e legal (p. 92).</p><p>Pizzani et al. (2012) sugerem as seguintes etapas para uma pesquisa bibliográfica:</p><p>delimitação do problema, levantamento e fichamento das citações relevantes,</p><p>aprofundamento da busca, relação das fontes a serem obtidas, localização das</p><p>fontes, leitura e sumarização, redação do trabalho.</p><p>Ainda de acordo com os autores, as fontes podem ser primárias (ex.: teses, livros,</p><p>artigos, textos em anais, relatórios técnicos), secundárias (artigos de revisão bi-</p><p>bliográfica, tratados, enciclopédias e artigos de divulgação) e terciárias (bases de</p><p>dados bibliográficos, índices e listas bibliográficas). Quanto às bases de dados, as</p><p>mais úteis para nossa área são o Portal da CAPES e o SciELO.</p><p>No Portal da CAPES4, encontram-se conteúdos gratuitos e outros cujo acesso só</p><p>é possível por meio dos ips5 das instituições participantes. O pesquisador pode</p><p>fazer buscas por assunto, periódicos, livros ou por base.</p><p>O SciELO — Scientific Electronic Library Online6 é fruto de um projeto de</p><p>pesquisa da FAPESP — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Pau-</p><p>lo, em parceria com a BIREME — Centro Latino-Americano e do Caribe de</p><p>Informação em Ciências da Saúde e conta, desde 2002, com o apoio do CNPq</p><p>(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A platafor-</p><p>4 CAPES. Disponível em: <https://www.periodicos.capes.gov.br/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>5 IP (Internet Protocol) é o número que identifica um dispositivo em uma rede de computadores.</p><p>6 SciELO. Disponível em: <www.scielo.br>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 61 12/09/19 10:41</p><p>62 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>ma reúne inúmeras coleções de periódicos, de acesso livre e público. Os periódi-</p><p>cos estão listados em ordem alfabética, e as buscas podem ser feitas por assuntos,</p><p>títulos de periódicos, instituições publicadoras e locais de publicação.</p><p>Para a localização das fontes, as autoras sugerem textos online, material dispo-</p><p>nível em biblioteca, empréstimo entre bibliotecas, Comut (um serviço mediado</p><p>pelas bibliotecas brasileiras que auxilia na obtenção de cópias de teses, artigos,</p><p>etc., disponíveis em outra biblioteca) e diretamente com o autor. Gostaria de</p><p>acrescentar que um pesquisador competente deve também formar sua própria</p><p>biblioteca com livros sobre seu tema de pesquisa.</p><p>Uma boa estratégia para ampliar a pesquisa básica é selecionar outros textos</p><p>nas referências dos documentos primários e tentar localizá-los ou comprá-los.</p><p>É possível, por exemplo, encontrar e comprar artigos isolados de periódicos</p><p>internacionais.</p><p>Outra fonte é o Google Acadêmico7, uma base de dados da Google que reúne</p><p>trabalhos científicos, com destaque para os mais citados. As buscas podem ser</p><p>feitas por temas ou autores. Do lado esquerdo da tela, o pesquisador pode ativar</p><p>filtros para selecionar os resultados da busca, por relevância (número de citações),</p><p>por data, por período específico, por idioma. Podemos também selecionar os</p><p>“artigos relacionados”, ou seja, aqueles que citaram o material (artigo ou livro)</p><p>selecionado. Além de artigos de periódicos, é possível achar também livros total</p><p>ou parcialmente digitalizados pelo Google. Para se ter acesso ao livro inteiro é</p><p>preciso adquirir o e-book no Google Play.</p><p>Um dispositivo inovador é o “alerta”, que nos permite cadastrar palavras-chave</p><p>relacionadas à nossa pesquisa e receber notificações quando novos trabalhos fo-</p><p>rem publicados. Outro dispositivo útil é o “salvar”, que possibilita criar nossa</p><p>biblioteca e ter os textos salvos disponíveis para consulta.</p><p>Outra forma de acesso a artigos e capítulos de livros é contatar diretamente os</p><p>autores por meio da plataforma academia.edu, um serviço online de comparti-</p><p>lhamento de trabalhos acadêmicos. Segundo informação da própria plataforma,</p><p>estão lá disponíveis mais de 83 milhões de acadêmicos que já compartilharam 22</p><p>milhões de trabalhos8. Mesmo quando os trabalhos não estão online, é possível</p><p>fazer contato com os autores e solicitar cópia.</p><p>7 Google Acadêmico. Disponível em: <https://scholar.google.com.br>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>8</p><p>About Academia.edu. Disponível em: <https://www.academia.edu/about>. Acesso em: 07 mai. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 62 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 63</p><p>É relevante lembrar que a maioria das universidades abre ao público suas produ-</p><p>ções acadêmicas, tais como periódicos, livros, teses e dissertações (nos sites dos</p><p>programas de pós-graduação). Esse é o caso, por exemplo, da Faculdade de Le-</p><p>tras da UFMG, cujo site oferece acesso a seus periódicos9 e a livros produzidos</p><p>por seus professores10.</p><p>Com base nos conselhos de Wiersma (1986) para a condução de uma pesquisa</p><p>bibliográfica citados por Nunan (1992, p. 217-218), e com base em Bitchener</p><p>(2010), destaco dois pontos que precisamos observar para fazer uma boa pes-</p><p>quisa bibliográfica.</p><p>O primeiro tem a ver com o conteúdo: insira pontos relevantes para o propósito</p><p>da pesquisa, incluindo argumentos favoráveis e contrários a um tema e se posicio-</p><p>nando. Identifique lacunas ou questões pouco discutidas, além de pontos fracos</p><p>e fortes. Deixe claro para o leitor se sua revisão foi exaustiva ou se se concentrou</p><p>em determinado período apenas ou ainda se precisa ser ampliada.</p><p>O segundo é sobre a organização dos dados. Evite fazer mera listagem de cita-</p><p>ções dos autores pesquisados. Os resultados precisam ser apresentados com a</p><p>mediação da voz do pesquisador, comparando autores, mostrando convergências</p><p>ou divergências e tomando posição. Só opte por incluir as citações em ordem</p><p>cronológica se isso for relevante para mostrar a evolução das ideias.</p><p>Bitchener (2010, p. 67) sugere a seguinte organização retórica para a escrita de</p><p>uma revisão bibliográfica:</p><p>Opções de movimento principal e submovimentos</p><p>movimentos submovimentos</p><p>1. Estabelecer algum</p><p>aspecto do terri-</p><p>tório do conheci-</p><p>mento relevante</p><p>para sua pesquisa.</p><p>(a) Uma apresentação de pressupostos e afirmações teóricas, cren-</p><p>ças, construtos e definições.</p><p>(b) Uma afirmação sobre a centralidade, importância ou significân-</p><p>cia do tema/tópico.</p><p>(c) Uma apresentação de evidência da pesquisa (ex. resultados, me-</p><p>todologia).</p><p>9 Portal de Periódicos da Faculdade De Letras – UFMG. Disponível em: <http://www.periodicos.</p><p>letras.ufmg.br/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>10 UFMG – FALE (Faculdade de Letras). E-Livros – Livros Eletrônicos. Disponível em: <http://www.</p><p>letras.ufmg.br/site/index.php/pt-BR/elivros>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 63 12/09/19 10:41</p><p>64 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>2. Criar um nicho de</p><p>pesquisa/lacuna no</p><p>conhecimento.</p><p>(a) Crítica aos pressupostos teóricos, questões e problemas associa-</p><p>dos ao movimento 1a.</p><p>(b) Apresentação de evidências da pesquisa em relação ao movi-</p><p>mento 2a.</p><p>(c) Identificação de lacuna(s) no conhecimento e/ou pesquisa.</p><p>(d) Continuação ou um desenvolvimento de tradição já estabeleci-</p><p>da, mas que não foi totalmente investigada.</p><p>(e) Apresentação de argumentos para introduzir nova perspecti-</p><p>va teórica ou quadro teórico (como resultado do movimento 1</p><p>pressupostos e afirmações).</p><p>3. Anunciar como</p><p>vai ocupar o nicho</p><p>ou lacuna de</p><p>pesquisa.</p><p>(a) Anúncio do objetivo da pesquisa.</p><p>(b) Anúncio da(s) posição(ões) ou quadro(s) teórico(s).</p><p>(c) Anúncio do projeto de pesquisa e seus processos.</p><p>(d) Anúncio de como você define conceitos e termos em sua pesquisa.</p><p>4.1.1. Metapesquisa</p><p>Outro tipo de pesquisa de natureza bibliográfica que tem emergido na linguísti-</p><p>ca aplicada é a metapesquisa (pesquisa sobre pesquisas) ou meta-análise (análise</p><p>de análises). Mainardes (2018) considera “a metapesquisa (pesquisa sobre pesqui-</p><p>sas) como uma estratégia para a análise sistemática das pesquisas de determinado</p><p>campo ou temática” (p. 304). Ele distingue metapesquisa de meta-análise. Para</p><p>ele, a meta-análise é um procedimento que visa agregar resultados de pesquisas</p><p>empíricas, comparando-as por meio de análise estatística” e a metapesquisa “bus-</p><p>ca analisar, especialmente, os fundamentos teóricos das pesquisas e o significado</p><p>destes no desenvolvimento teórico do campo do qual as pesquisas fazem parte</p><p>(MAINARDES, 2018, p. 306).</p><p>Outro viés de metapesquisa é a síntese de pesquisa que, segundo Cooper (1998,</p><p>p. 3), “foca estudos empíricos e busca fazer um sumário de pesquisas passadas,</p><p>tirando uma conclusão geral de muitas investigações individuais que abordam</p><p>hipóteses relacionadas ou idênticas”.</p><p>Os termos metapesquisa e meta-análise têm sido usados no mesmo sentido e suas</p><p>definições são semelhantes. Perry Jr. (2017, p. 141), por exemplo, define meta-</p><p>-análise como “[u]m método de pesquisa que analisa resultados qualitativos e</p><p>quantitativos de um número de estudos individuais com um propósito de inte-</p><p>grar os achados”. Esses estudos individuais constituem os dados da metapesquisa</p><p>utilizados de forma comparativa. A combinação dos resultados encontrados pode</p><p>permitir conclusões gerais (TROCHIM; DONNELLY; ARORA, 2016).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 64 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 65</p><p>Um exemplo de metapesquisa é a investigação de Sung, Chang e Yang (2015),</p><p>que analisaram artigos de 44 periódicos, trabalhos apresentados em eventos e</p><p>teses de doutorado, produzidos num intervalo de vinte anos (1993-2013), sobre</p><p>o uso de tecnologia móvel no ensino de língua. Após ler os resumos de 288</p><p>a rtigos, 264 trabalhos em eventos e 56 teses de doutorado, eles selecionaram</p><p>80 artigos, 29 trabalhos em eventos e 10 teses. A análise desses trabalhos levou</p><p>os autores a concluir que o uso de tecnologia móvel tem efeito positivo no</p><p>ensino de línguas.</p><p>Uma metapesquisa pode analisar temas, teorias, métodos de pesquisa ou uma</p><p>combinação desses ou de outros aspectos. Um exemplo de combinação de três</p><p>aspectos é uma metapesquisa que desenvolvi com uma bolsista de iniciação cien-</p><p>tífica (SOUZA PINTO; PAIVA, no prelo). Analisamos objetivos, metodologias</p><p>e resultados em teses e dissertações sobre linguagem, tecnologia e uso de ferra-</p><p>mentas digitais no ensino de língua inglesa, produzidas em programas de pós-</p><p>-graduação da região Norte do Brasil. Ainda há poucas pesquisas sobre o tema e</p><p>predominam estudos de caso. Nosso texto reflete sobre questões particulares da</p><p>região Norte do Brasil e defende a necessidade de formação de professores para</p><p>o uso de tecnologias digitais.</p><p>4.2. Estudo de caso</p><p>Um caso é um exemplo, ocorrência</p><p>ou ilustração singular de algo.11</p><p>Estudo de caso é um tipo de pesquisa que investiga</p><p>um caso particular constituído de um indivíduo ou</p><p>de um grupo de indivíduos em um contexto especí-</p><p>fico. É um estudo naturalístico porque estuda um</p><p>acontecimento em um ambiente natural e não criado</p><p>exclusivamente para a pesquisa.</p><p>Os casos, no entendimento de Dörnyei (2007), “são pri-</p><p>mordialmente sobre pessoas, mas os pesquisadores po-</p><p>dem também explorar, em profundidade, uma instituição, uma organização, ou uma</p><p>comunidade” (p. 151).</p><p>11 Dictionary.com. Disponível em: <https://www.dictionary.com>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Palavras-chave</p><p>Casos únicos ou múltiplos</p><p>Entidade única</p><p>Ambiente natural</p><p>Delimitação</p><p>Contextualização</p><p>Diversas fontes de dados</p><p>Descrição densa</p><p>Triangulação de dados</p><p>Interpretação</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 65 12/09/19 10:41</p><p>66 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Na área de ensino de línguas, os estudos de caso, segundo Johnson (1992, p. 76),</p><p>podem nos informar sobre os processos e estratégias que os aprendizes de L2 usam</p><p>para comunicar e aprender, como suas personalidades, atitudes e objetivos interagem</p><p>com o ambiente de aprendizagem, e sobre a natureza precisa de seus desenvolvimen-</p><p>tos linguísticos.</p><p>“De fato, quase tudo pode servir como um caso desde que se constitua em uma</p><p>entidade única com limites claramente definidos” (DÖRNYEI, 2007, p. 151).</p><p>Esses limites, como pontua Creswell (1998), podem estar relacionados ao tempo</p><p>de coleta (ex.: um semestre) ou ao espaço (ex.: uma sala de aula).</p><p>Uma definição interessante é a de que “estudo de caso é o exame de uma instân-</p><p>cia em ação”,</p><p>atribuída a MacDonald e Walker (1975) por Bassey (1999, p. 24) e</p><p>a Adelman, Jenkins e Kemmis (1976), por Nunan (1992, p. 75). Essa definição</p><p>reforça a afirmação de Yin (2002, p. 27) de que “o estudo de caso é a estratégia</p><p>escolhida ao se examinarem acontecimentos contemporâneos […]”.</p><p>Para Denzin e Lincoln (1988), temos um estudo de caso quando o objeto de es-</p><p>tudo é único e específico. É único porque tem apenas um objeto de estudo, por</p><p>exemplo, um sistema de ensino ou um componente desse sistema: uma de suas</p><p>escolas, vista como um caso único, ou uma sala de aula de uma dessas escolas,</p><p>ou mesmo um grupo específico de alunos, ou o trabalho de uma professora. E é</p><p>específico porque tem como foco uma questão específica sobre aquele caso que</p><p>queremos entender. Como dizem Denzin e Lincoln (2005, p. 378),</p><p>cada instância de um caso ou processo traz o selo da classe geral dos fenômenos ao</p><p>qual pertencem. No entanto, qualquer dada instância provavelmente é particular e</p><p>única. Assim, por exemplo, qualquer sala de aula dada é como todas as salas de aula,</p><p>mas duas salas de aula nunca são idênticas.</p><p>No entendimento de Gerring (2007, p. 1), “[À]s vezes, um conhecimento apro-</p><p>fundado de um exemplo individual é mais útil do que o conhecimento superfi-</p><p>cial sobre um número maior de exemplos. Entendemos melhor o todo, concen-</p><p>trando-nos em uma parte fundamental”.</p><p>Segundo Duff (2006), os tipos de estudo de caso são os seguintes: exploratório,</p><p>descritivo, relacional, explanatório, avaliativo e confirmatório.</p><p>Um estudo exploratório formula novas perguntas de pesquisa; o descritivo res-</p><p>ponde à pergunta “O quê?”; o relacional examina a relação entre variáveis; o</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 66 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 67</p><p>explanatório explica como e por que; o avaliativo avalia efetividade, mérito, re-</p><p>sultados; o confirmatório confirma resultados já existentes.</p><p>Há ainda combinações desses tipos, como, por exemplo, um estudo de caso des-</p><p>critivo-explicativo que não apenas descreve um fenômeno, mas tenta compreen-</p><p>der causas e efeitos.</p><p>Um engano recorrente é pensar que um estudo de caso é sinônimo de etnogra-</p><p>fia, apesar de ser possível um estudo de caso etnográfico. Nunan (1992, p. 75)</p><p>concorda: “O estudo de caso se assemelha à etnografia em sua filosofia, métodos,</p><p>e preocupações com o estudo do fenômeno em contexto”, mas alerta que o foco</p><p>da etnografia é o estudo do contexto cultural, e o escopo do estudo de caso é</p><p>mais limitado. Além disso, o estudo de caso pode utilizar dados quantitativos e</p><p>métodos estatísticos. Outro engano, segundo Yin (2002), é confundir estudo de</p><p>caso com observação direta ou participante.</p><p>Nas palavras de Yin (2002, p. 32),</p><p>1. Um estudo de caso é uma investigação empírica que</p><p>— investiga um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real, espe-</p><p>cialmente quando os limites entre o fenômeno e o contexto não estão claramente</p><p>definidos.</p><p>2. A investigação de estudo de caso</p><p>— enfrenta uma situação tecnicamente única em que haverá muito mais variáveis de</p><p>interesse do que pontos de dados, e, como resultado,</p><p>— baseia-se em várias fontes de evidências, com os dados precisando convergir em</p><p>um formato de triângulo, e, como outro resultado,</p><p>— beneficia-se do desenvolvimento prévio de proposições teóricas para conduzir a</p><p>coleta e a análise de dados.</p><p>Nessa definição técnica, Yin (2002) chama nossa atenção para a importância do</p><p>contexto no estudo de caso em contraste com o experimento, por exemplo, que</p><p>“deliberadamente separa um fenômeno de seu contexto” (p. 32) ou o controla.</p><p>Para ele, “o estudo de caso como estratégia de pesquisa compreende um método</p><p>que abrange tudo — com a lógica de planejamento incorporando abordagens</p><p>específicas de coleta e de análise de dados” (p. 33).</p><p>Duff (2006, p. 23) resume os princípios recorrentes do estudo de caso em: “Deli-</p><p>mitação ou singularidade, estudo aprofundado, múltiplas perspectivas ou trian-</p><p>gulação, particularidade, contextualização e interpretação”.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 67 12/09/19 10:41</p><p>68 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>O pesquisador pode optar por um único caso (por exemplo, avaliar o uso de um</p><p>livro didático em uma sala de aula) ou por casos múltiplos (por exemplo, avaliar o</p><p>uso de diferentes livros didáticos em salas de aula semelhantes). Cada tipo, único</p><p>ou múltiplo, pode se desdobrar em dois, em função da escolha por uma unidade</p><p>de análise (exemplo, avaliar apenas as atividades de leitura) ou por um conjunto</p><p>de unidades de análise (por exemplo, avaliar as atividades de leitura, escrita, pro-</p><p>dução oral e estudos sobre a língua do livro em uso).</p><p>É bom ter em mente a lista de competências necessárias para fazer um estudo de</p><p>caso, segundo Leffa (2006, p. 19):</p><p>• saber fazer perguntas;</p><p>• saber interpretar as respostas;</p><p>• ser um bom ouvinte;</p><p>• ser capaz de se adaptar e ser flexível para reagir adequadamente a diferentes</p><p>situações;</p><p>• conhecer os fundamentos teóricos da questão estudada;</p><p>• não ter ideias preconcebidas.</p><p>Dörnyei (2007, p. 155) considera que “[O] estudo de caso é um excelente</p><p>método para obter uma descrição densa de uma questão social complexa</p><p>inserida em um contexto cultural”. Além disso, o autor acrescenta: esse mé-</p><p>todo tornou-se chave “para se investigarem mudanças ao longo do tempo em</p><p>fenômenos complexos” (p. 155). Para ele pode valer a pena estudar múltiplos</p><p>casos ou usar combinação de estudos de caso como outros métodos, como,</p><p>por exemplo, o survey.</p><p>4.2.1. Etapas em um estudo de caso</p><p>As fases de um estudo de caso incluem “definição de problema, delineamento</p><p>da pesquisa, coleta de dados, análise de dados e composição e apresentação de</p><p>resultados” (YIN, 2002, p. xii), e Bassey (1999) afirma existirem, inicialmente,</p><p>duas formas para criar um estudo de caso:</p><p>(i) um problema ou uma hipótese é dado(a), e um sistema limitado (o caso) é</p><p>selecionado como uma instância de uma classe.</p><p>(ii) um ‘sistema limitado’ (o caso) é dado, e dentro dele questões são indicadas,</p><p>descobertas ou estudadas de forma que seja possível uma compreensão total</p><p>e admissível do caso (BASSEY, 1999, p. 30).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 68 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 69</p><p>Bassey (1999, p. 60) sugere sete estágios de um estudo de caso:</p><p>Estágio 1: identificar a questão, problema ou hipótese de pesquisa.</p><p>Estágio 2: fazer perguntas de pesquisa e elaborar orientações éticas.</p><p>Estágio 3: coletar e armazenar dados.</p><p>Estágio 4: gerar e testar afirmações analíticas.</p><p>Estágio 5: interpretar e explicar as afirmações analíticas.</p><p>Estágio 6: decidir os resultados e escrever o relatório do caso</p><p>Estágio 7: terminar e publicar.</p><p>Perguntas como “o que”, “quem”, onde”, “como”, “por que”, “como e por que”</p><p>podem ser úteis para elaborar as questões de pesquisa. A origem dos dados para</p><p>esse tipo de estudo são: observação (direta ou participante), entrevistas, questio-</p><p>nários, diários, análise de documentos, registros em arquivos e artefatos. Como</p><p>exemplos de artefatos, Leffa (2006, p. 20) lista “ferramentas, livros didáticos</p><p>usados, cadernos dos alunos, computadores, etc.”. Entre os tipos de dados, ele</p><p>inclui ainda “testes de proficiência na língua, gravações de áudio, sessões de</p><p>visionamento, textos produzidos pelo aluno, desempenho escolar etc.” (LEFFA,</p><p>2006, p. 15). É frequente também a utilização de dados quantitativos gerados</p><p>por questionários.</p><p>Bassey (1999, p. 60) alerta: “O estudo de caso requer muitos dados para que o</p><p>pesquisador possa explorar características, criar interpretações e testar a confiabi-</p><p>lidade”. Segundo ele, é necessário ter um número suficiente de dados para:</p><p>(a) explorar características significativas do caso;</p><p>(b) criar interpretações plausíveis do que é encontrado;</p><p>(c) testar a confiabilidade dessas interpretações;</p><p>(d) construir um argumento ou uma história que valha a pena;</p><p>(e) relacionar o argumento ou história a qualquer pesquisa relevante na literatura;</p><p>(f) transmitir esse argumento</p><p>na educação, também se faz pesquisa em busca de solu-</p><p>ção de problemas, especialmente as que se utilizam de pesquisa-ação e também</p><p>de experimentos.</p><p>Dois exemplos de pesquisa-ação são Turkiewicz (2016) — que investigou a prá-</p><p>tica de produção e reescrita de textos em língua portuguesa em séries finais do</p><p>ensino fundamental, contribuindo para a melhoria dessa prática — e Borges</p><p>(2015), cujo objetivo era:</p><p>Investigar abordagens metodológicas significativas e inovadoras no processo ensino</p><p>— aprendizagem com as Novas Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação</p><p>no contexto escolar, visando ao desenvolvimento dos novos multiletramentos e de</p><p>aprendizagens significativas dos estudantes em práticas de letramento digital (p. 18).</p><p>Dois exemplos de experimentos foram os conduzidos por Fernández, Souza e Ca-</p><p>rando (2017) para investigar a interação entre as duas línguas de falantes bilíngues.</p><p>A pesquisa em linguística aplicada, no entanto, não se limita a resolver problemas.</p><p>Ela busca mesmo é compreender a realidade. Assim, são feitos estudos para:</p><p>(1) investigar o saber acumulado sobre determinado tema, como fiz em Paiva</p><p>(2014), ao apresentar uma pesquisa bibliográfica sobre várias teorias de aqui-</p><p>sição de segunda língua e as interpretar por meio de narrativas de aprendiza-</p><p>gem de línguas;</p><p>(2) detectar problemas, como fez Figueiredo (2004), ao identificar os erros mais</p><p>comuns de aprendizes brasileiros de inglês;</p><p>(3) descrever um fenômeno de linguagem, como demonstra Araújo (2006) em</p><p>sua tese sobre chats;</p><p>(4) descrever comportamentos linguísticos, como fez Parreiras (2005), ao abor-</p><p>dar os fluxos interacionais em duas comunidades de aprendizagem online;</p><p>(5) identificar percepções e crenças sobre fenômenos distintos, como fizeram</p><p>Gonzalez (2016), ao investigar a “autopercepção da não natividade na auto-</p><p>imagem dos futuros professores de inglês”, e Barcelos (2000), em sua investiga-</p><p>ção sobre as crenças de professores e alunos sobre a aprendizagem de inglês.</p><p>Além disso, a pesquisa pode:</p><p>(6) chamar a atenção para problemas que precisam ser enfrentados, como são</p><p>os casos de Picanço (2012), em um trabalho sobre planejamento linguístico</p><p>e a necessidade de fortalecer a identidade étnica e cultural de comunidades</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 8 12/09/19 10:41</p><p>O QUE É PESQUISA 9</p><p>indígenas, como a investigada pelo autor; e Alves et al. (2014), que, em uma</p><p>pesquisa sobre remoções de professores de territórios vulneráveis e desigual-</p><p>dades, concluíram que a mobilidade docente é influenciada pela “vulnerabi-</p><p>lidade do território em que está situada a escola e a composição sociocultural</p><p>do corpo discente” (p. 30).</p><p>Mas, afinal, o que é pesquisa?</p><p>Para Dörnyei (2007), “pesquisa significa simplesmente a tentativa de encontrar</p><p>respostas para perguntas, uma atividade que todos nós fazemos o tempo todo</p><p>para saber mais sobre o mundo à nossa volta”. Para exemplificar, ele cita como</p><p>exemplo a comparação de preços que fazemos antes de adquirir um produto, mas</p><p>diferencia essa pesquisa informal da científica, organizada e sistemática.</p><p>Nessa mesma direção, Trochim, Donnelly e Arora (2016) lembram: as pesquisas</p><p>variam de área para área, mas todas têm em comum a investigação sistemática.</p><p>Para eles, a pesquisa é “um tipo de investigação sistemática que tem natureza</p><p>empírica e é feita para contribuir com o conhecimento público” (p. 5).</p><p>Uma forma interessante de explicar o que algo significa é dizer o que não sig-</p><p>nifica. Walliman e Baiche (2001, p. 6-7) apresentam inicialmente quatro falsas</p><p>compreensões do conceito. Segundo eles, pesquisa não é:</p><p>(1) mera reunião de fatos ou informações;</p><p>(2) transposição de fatos de uma situação para outra. Eles enfatizam que, nesses</p><p>casos, falta um ingrediente importante: “A interpretação da informação” (p. 7);</p><p>(3) uma atividade exotérica afastada da vida prática, pois é “motivada pela nossa</p><p>necessidade de satisfazer a nossa curiosidade natural e nosso desejo de dar</p><p>sentido ao mundo ao nosso redor” (p. 7);</p><p>(4) uma palavra para atrair a atenção para um produto e impressionar as pessoas.</p><p>Em seguida, Walliman e Baiche (2001, p. 7) apresentam definições de pesqui-</p><p>sa, uma delas retirada do Oxford Encyclopedic English Dictionary (HAWKINS;</p><p>ALLEN, 1991):</p><p>a) A investigação sistemática em um estudo de materiais, fontes, etc., a fim de estabe-</p><p>lecer fatos e chegar a novas conclusões; b) um esforço para descobrir novos fatos ou</p><p>comparar fatos velhos, etc., pelo estudo científico de um assunto ou por um processo</p><p>de investigação crítica.</p><p>As outras são: “A pesquisa é um procedimento pelo qual tentamos encontrar sis-</p><p>tematicamente, e com o apoio de fato demonstrável, a resposta a uma questão ou</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 9 12/09/19 10:41</p><p>10 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>a solução de um problema” (LEEDY, 1989, p. 5); “é uma atividade de descoberta</p><p>de fato” (DOMINOWSKI, 1980, p. 2); “investigação sistemática, controlada, em-</p><p>pírica e crítica de hipóteses sobre relações presumidas entre fenômenos naturais”</p><p>(KERLINGER, 1970, p. 8).</p><p>Uma definição geral é a oferecida por Walliman (2011, p. 7):</p><p>Pesquisa é um termo muito geral para uma atividade que envolve descobrir, de forma</p><p>mais ou menos sistemática, coisas que você não sabia. Uma interpretação mais aca-</p><p>dêmica é que pesquisa envolve descobrir coisas que ninguém mais conhecia. É fazer</p><p>avançar as fronteiras do conhecimento.</p><p>Nunan (1992) e Perry Jr. (2017) oferecem definições já apontando para as</p><p>fases de uma pesquisa. Para Nunan (1992, p. 3), “pesquisa é um processo de</p><p>investigação sistemática, consistindo de três elementos ou componentes: (1)</p><p>uma pergunta, problema, ou hipótese, (2) dados, (3) análise e interpretação</p><p>de dados”. Se um desses elementos faltar, não haverá pesquisa. Para Perry Jr.</p><p>(2017, p. 8), “pesquisa é o processo pelo qual perguntas são feitas, e respostas</p><p>buscadas por meio de coleta, análise e interpretação de dados”. Na mesma</p><p>direção, Lakatos e Marconi (1991, p. 84-85), com base em Bunge (1980, p.</p><p>25), afirmam que uma investigação científica atinge seus objetivos quando</p><p>segue as seguintes etapas:</p><p>(a) descoberta do problema;</p><p>(b) colocação (sic) precisa do problema;</p><p>(c) procura de conhecimentos ou instrumentos relevantes para o problema;</p><p>(d) tentativa de solução do problema com auxílio dos meios identificados;</p><p>(e) invenção de novas ideias (hipóteses, teorias ou técnicas) ou produção de no-</p><p>vos dados empíricos;</p><p>(f) obtenção de uma solução, investigação das consequências da solução obtida;</p><p>(g) prova (comprovação) da solução;</p><p>(h) correção das hipóteses, teorias, procedimentos ou dados empregados na ob-</p><p>tenção da solução incorreta.</p><p>A principal diferença entre os dois primeiros autores e os últimos é que tanto a</p><p>proposta de Nunan (1992) quanto a de Perry Jr. (2007) são abrangentes o bastante</p><p>para abrigar as pesquisas qualitativas e quantitativas, mas a de Lakatos e Marconi</p><p>(1991) definitivamente privilegia as pesquisas de natureza quantitativa que bus-</p><p>cam solucionar problemas.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 10 12/09/19 10:41</p><p>O QUE É PESQUISA 11</p><p>A partir das definições aqui apresentadas, podemos concluir: fazer pesquisa é</p><p>uma tarefa de investigação sistemática com a finalidade de resolver um problema</p><p>ou construir conhecimento sobre determinado fenômeno.</p><p>1.2. Tipos de pesquisa</p><p>Os tipos de pesquisa podem ser classificados de acordo com</p><p>(1) a natureza;</p><p>(2) o gênero;</p><p>(3) as fontes de informação;</p><p>(4) a abordagem;</p><p>(5) o objetivo;</p><p>(6) os métodos;</p><p>(7) os instrumentos de coleta de dados.</p><p>1.2.1. Natureza</p><p>Tradicionalmente, a pesquisa é dividida, quanto à sua natureza, em duas ca-</p><p>tegorias: básica e aplicada. A pesquisa básica tem por objetivo aumentar o co-</p><p>nhecimento científico, sem necessariamente aplicá-lo à resolução de um proble-</p><p>ma. A pesquisa aplicada também tem por objetivo gerar novos conhecimentos,</p><p>mas tem por meta resolver problemas, inovar ou desenvolver novos processos</p><p>ou história a público de forma convincente;</p><p>(g) fornecer um registro das ações, de forma que outros pesquisadores possam</p><p>validar ou contestar os achados, ou construir argumentos alternativos.</p><p>Para fazer um estudo de caso de qualidade, é importante seguir três princípios</p><p>descritos por Yin (2002, p. 106):</p><p>(a) utilização de várias fontes de evidências, não apenas uma;</p><p>(b) criação de um banco de dados para o estudo de caso;</p><p>(c) manutenção de um encadeamento de evidências.</p><p>Duff (2006, p. 159) ensina: estudos de caso qualitativos, em geral, “estão cada</p><p>vez mais associados à análise de dados iterativa, cíclica ou indutiva, termos inter-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 69 12/09/19 10:41</p><p>70 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>-relacionados” dado que elas acontecem “desde os primeiros estágios de coleta e</p><p>transcrição de dados”.</p><p>A análise dos dados pode incluir categorizações, quadros, tabelas, notas de obser-</p><p>vação, excertos exemplificativos, comentários. É importante fazer a triangulação</p><p>de todos esses dados, pois ela confere coerência ao estudo. Ao triangular, é im-</p><p>portante também reunir as perspectivas dos participantes (perspectiva êmica) e</p><p>do pesquisador ou analista (DUFF, 2006).</p><p>Nas palavras de Denzin e Lincoln (2006, p. 127), a triangulação é “um elemento</p><p>crítico na prática da ciência social. Acrescentar uma camada de dados a outra</p><p>leva a construir um ‘edifício confirmatório’”.</p><p>Yin (2002, p. 133) descreve duas estratégias para a análise: começar pela descri-</p><p>ção do caso ou seguir as proposições teóricas, que geralmente refletem as ques-</p><p>tões de pesquisa e ajudam a “pôr em foco certos dados e ignorar outros”.</p><p>Seja qual for a estratégia escolhida, podemos usar resumos dos dados coletados</p><p>em entrevistas, depoimentos orais, diários etc., utilizando códigos ou palavras-</p><p>-chave (DUFF, 2006, p. 160). Essas palavras-chave podem ser conceitos (ex.: es-</p><p>tratégias metacognitivas), metáforas (ex.: caminhos, obstáculos), lista de padrões</p><p>recorrentes (ex.: experiências fora da sala de aula)</p><p>Segundo Brown (1988, p. 2), os estudos de caso são geralmente longitudinais.</p><p>Infelizmente, ante as limitações dos prazos para mestrado e doutorado, é im-</p><p>possível pesquisadores em formação acompanharem o(s) pesquisado(s) por um</p><p>longo período de tempo. No entanto, Dörnyei (2007, p. 152) adverte: “Estudos</p><p>de caso são, frequentemente, pelo menos parcialmente de natureza longitu-</p><p>dinal”, justificando essa afirmação com o fato de os pesquisadores passarem</p><p>muito tempo examinando o caso em contextos naturais em busca de informa-</p><p>ções detalhadas.</p><p>Um dos estudos de caso individual mais famoso na área de linguística aplicada</p><p>é o estudo de Schumann (1976) sobre aprendizagem informal de língua inglesa</p><p>por Alberto, um costa-riquenho de 33 anos. O estudo era parte de um projeto</p><p>composto de seis estudos de caso envolvendo duas crianças, dois adolescentes e</p><p>dois adultos, sendo Alberto um deles. Esse estudo longitudinal, com duração de</p><p>10 meses, demonstrou que Alberto, um trabalhador latino, teve pouco desen-</p><p>volvimento linguístico e não passou do primeiro estágio. O estudo considerou</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 70 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 71</p><p>três explicações: habilidade, idade e distâncias sociais e psicológicas. As duas</p><p>primeiras foram descartadas. Testes indicaram que Alberto não tinha nenhum</p><p>problema cognitivo e não houve evidências para se atribuir o problema à idade.</p><p>Como Alberto não se integrava à sociedade americana e não se envolvia com</p><p>falantes de inglês, prevaleceu a hipótese de que a distância social e psicológica</p><p>era responsável pelo seu pouco desenvolvimento.</p><p>Outro exemplo foi um estudo de caso realizado no Brasil por Schmidt e Frota</p><p>(1986) sobre a aprendizagem de português do primeiro autor durante sua estada</p><p>de cinco meses no Brasil. Schmidt registrou em um diário suas experiências de</p><p>aprendizagem em cinco semanas de aula e em interações com falantes brasilei-</p><p>ros. Os pesquisadores gravaram mensalmente conversas em português e con-</p><p>cluíram que algumas formas presentes no input só foram adquiridas depois que</p><p>Schmidt tomou consciência delas.</p><p>Dois exemplos de estudos de caso longitudinais mais longos são Leopold (1978)</p><p>e Leal (1999). Leopold (1978), citado por Brown (1988, p. 2), registrou o processo</p><p>de bilinguismo de sua filha, Hildegard, durante dez anos. Ela aprendeu simul-</p><p>taneamente inglês e alemão nos Estados Unidos, sendo a interação dos dois era</p><p>apenas em alemão. Com a mãe, interação apenas em inglês. O estudo de Leal</p><p>(1999) foi desenvolvido na UFMG e assim se resume:</p><p>Este trabalho é o resultado de um estudo longitudinal realizado em escolas que aten-</p><p>dem a sujeitos pertencentes a grupos socioeconômicos diferentes. Durante oito anos,</p><p>foram coletados textos produzidos por esses sujeitos, com o objetivo de discutir os</p><p>destinos escolares, analisar as condições de produção de texto escrito nas escolas que</p><p>atendem a esses sujeitos e detectar, a partir da perspectiva indiciária, as incorporações</p><p>que os mesmos manifestam nos textos produzidos.</p><p>A autora chega à conclusão de que os alunos menos favorecidos não avançam no</p><p>nível de escolaridade porque lhes é incutida uma ideologia da incompetência.</p><p>Seria essa conclusão generalizável? Provavelmente não, mas esse estudo produ-</p><p>ziu um conhecimento que pode contribuir para a formação de professores. Seu</p><p>estudo é um alerta para quem trabalha em contextos semelhantes.</p><p>A dificuldade de generalização é um dos pontos fracos mais citados sobre o</p><p>estudo de caso. No entanto, precisamos lembrar que esse método é utilizado</p><p>para a investigação de uma instância particular e não busca generalização para</p><p>outros contextos.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 71 12/09/19 10:41</p><p>72 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>4.3. Pesquisa-ação</p><p>Se você quer mesmo entender algo, tente mudá-lo.</p><p>(Kurt Lewin)</p><p>A pesquisa-ação é definida por Thiolent (1992, p. 14) como</p><p>um tipo de pesquisa social com base empírica [...] concebi-</p><p>da e realizada em estreita associação com uma ação ou a re-</p><p>solução de um problema coletivo no qual os pesquisadores</p><p>e os participantes representativos da situação ou do proble-</p><p>ma estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo.</p><p>A pesquisa-ação, segundo Burns (2015, p. 187), é um termo guarda-chuva para</p><p>“um conjunto de abordagens de pesquisa que, ao mesmo tempo, investigam sis-</p><p>tematicamente uma dada situação social e promovem mudança democrática e</p><p>participação colaborativa”. Alguns dos termos sob esse guarda-chuva, segundo</p><p>a autora, são: pesquisa-ação participativa, pesquisa-ação crítica, aprendizagem-</p><p>-ação, pesquisa participante, pesquisa do participante e pesquisa colaborativa.</p><p>Para ela, esses tipos de pesquisa compartilham as seguintes características:</p><p>(a) realizar pesquisas para trazer mudanças positivas e melhoria na situação so-</p><p>cial dos participantes;</p><p>(b) gerar conhecimento teórico e prático sobre a situação;</p><p>(c) reforçar a colegialidade, a colaboração e o envolvimento dos participantes</p><p>que são atores na situação e com mais probabilidade de serem afetados pelas</p><p>mudanças; e</p><p>(d) estabelecer uma postura de mudança contínua, autodesenvolvimento e cres-</p><p>cimento (p. 187-188).</p><p>A pesquisa-ação se caracteriza pela intervenção em busca de mudanças positivas</p><p>em determinado contexto. Segundo Thiollent (1992), os objetivos podem ser:</p><p>(a) resolução de um problema prático;</p><p>(b) consciência dos participantes sobre o(s) problema(s);</p><p>(c) produção de conhecimento útil para aquela coletividade investigada.</p><p>Esses três objetivos podem ser alcançados em conjunto ou com ênfase em um de-</p><p>les. Zozzoli (2006) critica a expressão “resolver problemas”, que apontaria “para</p><p>resultados pouco compatíveis com a visão de processo que se insere na perspec-</p><p>tiva da pesquisa-ação” (p. 131). Para ela, “a proposta é conhecer melhor as ques-</p><p>tões em jogo e refletir sobre encaminhamentos de ações” (p. 131) em busca de</p><p>transformação da realidade.</p><p>Palavras-chave</p><p>Colaboração</p><p>Ação planejada</p><p>Intervenção</p><p>Observação</p><p>Ciclos de reflexão</p><p>Triangulação</p><p>Mudança</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 72 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 73</p><p>Burns (2010) relaciona a origem da pesquisa-ação a um movimento que advoga</p><p>a prática reflexiva e considera que o professor deve ser também um pesquisador.</p><p>Esse tipo de pesquisa se apoia no pressuposto filosófico de que “em situações</p><p>sociais, pessoas resolvem problemas com autoestudo e intervenção” (BURNS,</p><p>2009a, p. 291).</p><p>Burns (2009a, p. 289-290) explica: pesquisa-ação</p><p>é a combinação e interação de dois modos de atividade — ação e pesquisa. A ação é</p><p>localizada em processos sociais em curso, em determinados contextos sociais, sejam</p><p>eles salas de aula, escolas ou organizações inteiras, e tipicamente envolve desenvolvi-</p><p>mentos e intervenções nesses processos para trazer melhorias e mudança. A pesquisa</p><p>está localizada dentro da observação e análise sistemáticas dos desenvolvimentos e</p><p>mudanças que ocorrem, a fim de identificar a razão subjacente para a ação e para</p><p>fazer outras mudanças necessárias, com base em descobertas e resultados.</p><p>A pesquisa-ação em linguística aplicada é feita por um professor pesquisador ou</p><p>por um pesquisador em colaboração com um ou mais professores, visando com-</p><p>preender e melhorar um ambiente educacional. A pesquisa-ação é, por natureza,</p><p>participativa, pois os pesquisados, em conjunto com o pesquisador, são os produ-</p><p>tores diretos do conhecimento.</p><p>Kemmis, McTaggart e Nixon (1988) apontam dois aspectos da pesquisa-ação:</p><p>• o reconhecimento da capacidade de as pessoas, vivendo e trabalhando em</p><p>determinado contexto, participarem ativamente, e em todos os aspectos, do</p><p>processo de pesquisa;</p><p>• o propósito da pesquisa conduzida pelos participantes de melhorar as práti-</p><p>cas e seus contextos pelos próprios participantes.</p><p>Kemmis, McTaggart e Nixon (1988, p. 20) lembram:</p><p>A pesquisa-ação investiga práticas reais e não práticas abstratas. Envolve aprender</p><p>sobre práticas reais, materiais, concretas, e particulares de pessoas particulares em</p><p>lugares particulares.</p><p>Dörnyei (2007, p. 193) endossa a seguinte afirmação de Burns (2005, p. 251):</p><p>A pesquisa-ação oferece um meio para os professores se tornarem agentes em vez de</p><p>recipientes de conhecimento sobre o ensino e aprendizagem de segunda língua e</p><p>assim contribuir para a construção de teorias educacionais da prática.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 73 12/09/19 10:41</p><p>74 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Em outro trabalho, Burns (2009b, p. 116) repete essa mesma ideia após explicar:</p><p>A pesquisa-ação oferece aos profissionais insights que são mais imediatamente apli-</p><p>cáveis e relevantes às suas salas de aula do que workshops ou cursos que fornecem re-</p><p>sultados de pesquisa ou defendem abordagens de ensino de uma maneira top-down.</p><p>Os professores, sozinhos ou em conjunto com um pesquisador, identificam um</p><p>problema a ser investigado ou uma questão a compreender e partem para a ação</p><p>e reflexão.</p><p>Burns (2015), então, adverte:</p><p>[T]ipicamente, as situações que os participantes desejam investigar são aquelas que</p><p>eles percebem como “problemáticas”. Em vez de sugerir que os participantes e seus</p><p>participantes sejam “problemáticos”, o termo problemático reflete o desejo por parte</p><p>dos participantes de “problematizar”, isto é questionar, esclarecer, compreender e</p><p>dar significado a uma situação corrente.</p><p>Kemmis e McTaggart (2005, p. 563) descrevem o processo da pesquisa-ação par-</p><p>ticipativa em uma sequência de passos pensados com um ciclo de autorreflexão</p><p>a serem executados colaborativamente. São eles:</p><p>• planejamento de uma mudança;</p><p>• ação e observação do processo e consequências da mudança;</p><p>• reflexão sobre esses processos e consequências;</p><p>• replanejamento;</p><p>• nova ação e observação;</p><p>• nova reflexão, e assim por diante…</p><p>Em síntese, são ciclos de planejamento, ação, observação, e reflexão.</p><p>A figura 1, reproduzida várias vezes em Burns (2015), é uma boa representação</p><p>desses passos e ciclos.</p><p>O planejamento envolve a identificação do problema, as mudanças desejadas,</p><p>o que é necessário para a pesquisa e o delineamento das ações iniciais possíveis</p><p>dentro do contexto. A ação consiste em uma intervenção deliberada e critica-</p><p>mente informada, a observação, na documentação das ações e ocorrências rele-</p><p>vantes para a pesquisa e a reflexão, na avaliação e descrição dos efeitos. Essa re-</p><p>flexão pode levar o(s) pesquisador(res) a iniciar(em) novo ciclo de ação e reflexão</p><p>(BURNS, 1999, 2010, 2015 e KEMMIS; McTAGGART, 2005).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 74 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 75</p><p>Figura 1: Passos e ciclos de uma pesquisa-ação (2015).</p><p>Fonte: Burns (2010, p. 2).</p><p>Sagor (1992, p. 8) propõe três estágios para a ação que ele nomeia como “pesqui-</p><p>sa para a ação”, “pesquisa em ação” e “pesquisa da ação”, que correspondem ao</p><p>que outros autores chamam de ação, observação e reflexão:</p><p>1. Início da ação, como, por exemplo, adoção de um texto, escolha de uma</p><p>estratégia alternativa de avaliação.</p><p>2. Monitoramento e ajuste da ação, como, por exemplo, verificação de como</p><p>está o andamento de um projeto-piloto, avaliação dos primeiros progressos</p><p>de um novo programa, melhoria de uma prática corrente.</p><p>3. Avaliação da ação, na forma de preparação de um relatório final sobre um</p><p>projeto finalizado.</p><p>Kemmis e McTaggart (2005) explicam: essa sequência não precisa ser rígida. Os</p><p>estágios podem se sobrepor, e o planejamento inicial ser logo abandonado em</p><p>função da experiência. Para eles,</p><p>o sucesso da pesquisa não está em seguir os passos, mas na existência de um sólido e</p><p>autêntico senso de desenvolvimento e evolução das práticas, a compreensão dessas</p><p>práticas e dos contextos em que elas acontecem (p. 563).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 75 12/09/19 10:41</p><p>76 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Os dados podem ser gerados por meio de observações, notas de campo, diários,</p><p>gravações de aulas em áudio ou vídeo, transcrições de gravações, discussões em</p><p>grupo, levantamentos de opinião dos participantes, entrevistas, grupos focais,</p><p>além de documentos, entre eles planos de aula, fotografias, trabalhos de alunos</p><p>e testes (BURNS, 2015).</p><p>Wisker (2008) recomenda usar “pelo menos dois, de preferência três, métodos de</p><p>coleta de dados” (p. 231), pois a triangulação é essencial para assegurar a confia-</p><p>bilidade e credibilidade dos dados da pesquisa. Segundo Sagor (1992, p. 45), a</p><p>triangulação traz os seguintes benefícios:</p><p>• compensa as imperfeições dos instrumentos de coleta de dados;</p><p>• aumenta a confiabilidade quando múltiplas medidas chegam aos mesmos</p><p>resultados;</p><p>• pode gerar perguntas de acompanhamento importantes quando múltiplas</p><p>medidas não conseguem chegar aos mesmos resultados.</p><p>Se tem, por um lado, o grande mérito de inserir o professor na pesquisa e fazê-lo</p><p>deixar de ser mero consumidor de dados, por outro, a pesquisa-ação pode en-</p><p>frentar dificuldades na implementação, como relata Burns (1999). Muitas esco-</p><p>las dificultam o desenvolvimento de pesquisa: professores não recebem nenhum</p><p>reconhecimento por ela e nem tempo para desenvolvê-la e reportá-la; colegas</p><p>podem se recusar a colaborar por receio da exposição.</p><p>Burns (1999) chama a atenção para as questões éticas envolvidas na pesquisa-ação:</p><p>Princípios-chave na conduta ética na pesquisa-ação são responsabilidade, confiabili-</p><p>dade e negociação. A confiabilidade assegura que as identidades dos envolvidos na</p><p>pesquisa não venham a público, reduzindo assim a possibilidade de serem negativa-</p><p>mente julgados pelos colegas ou supervisores. Importante também é os pesquisadores</p><p>negociarem que acesso será disponibilizado, dando aos participantes da pesquisa o di-</p><p>reito de vetar a liberação dos dados. Professores que trabalham de forma colaborativa</p><p>também precisam negociar e concordar com “códigos de prática” sobre os princípios</p><p>éticos que guiam sua pesquisa (p. 71).</p><p>Um exemplo de pesquisa-ação é a de Chen (2013,</p><p>p. 20) que investigou</p><p>como os alunos usavam tablets para aprender inglês em contextos informais fora</p><p>da sala de aula e como promover o uso mais eficaz do tablet para a aprendizagem</p><p>independente de língua. O estudo mostra que os tablets são ferramentas ideais para</p><p>criar um ambiente interativo, colaborativo e onipresente para a aprendizagem de</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 76 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 77</p><p>língua, desde que as affordances tecnológicas do dispositivo tenham sido totalmente</p><p>exploradas com os alunos. Essa investigação também revela que os estudantes têm</p><p>uma atitude geralmente favorável em relação à usabilidade, eficácia e satisfação dos</p><p>computadores tablet.</p><p>Participaram da pesquisa 10 calouros sorteados entre 30 voluntários com idade</p><p>entre 17 e 20 anos. Desses alunos, apenas um tinha um tablet. Todos tinham</p><p>celulares, dos quais apenas dois eram smartphones.</p><p>No primeiro dia de estudo, cada um recebeu um tablet e orientação de como</p><p>usá-lo, principalmente para aprender inglês. O estudo teve dois ciclos e, diaria-</p><p>mente, as atividades nos tablets eram avaliadas. Ao final da primeira semana, foi</p><p>feita uma entrevista semiestruturada de cerca de 30 minutos sobre a experiência</p><p>no uso do equipamento para aprender inglês.</p><p>O pesquisador observou que os aprendizes tinham investido pouco tempo em</p><p>atividades interativas e concluiu que a falta de conhecimento sobre o sistema do</p><p>tablet e quais aplicativos poderiam ser usados impediram o uso mais efetivo do</p><p>equipamento.</p><p>No segundo ciclo, o pesquisador teve por objetivo promover o uso mais eficiente</p><p>do tablet para melhorar a autonomia e a aprendizagem colaborativa. Para tanto,</p><p>criou uma plataforma para interação dos alunos, e eles foram também instruí-</p><p>dos a pesquisar sobre o ensino de línguas mediado pelo tablet. Chen observou</p><p>que os alunos fizeram as atividades propostas e continuaram a fazer atividades</p><p>diariamente.</p><p>O estudo levou à conclusão de que não basta dar um recurso móvel aos alu-</p><p>nos. Eles precisam de orientação tecnológica e metodológica. Outra conclu-</p><p>são é a de que “os estudantes precisam de mais oportunidades para se respon-</p><p>sabilizarem por sua aprendizagem informal fora da sala de aula com tablets</p><p>em rede” (p. 29).</p><p>Um segundo exemplo é a pesquisa desenvolvida no Brasil por Damião (2011). No</p><p>resumo de sua pesquisa, ela explica: a pesquisa-ação, fruto de seu doutorado, teve</p><p>como objetivos desenvolver e acompanhar um curso de inglês para fins específicos</p><p>e sua docência, bem como a construção e desenvolvimento de um website. No pri-</p><p>meiro ano do trabalho, o plano de curso foi modificado, devido ao retorno dado pelos</p><p>alunos e o mesmo aconteceu com o site, que foi sendo alimentado e modificado de</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 77 12/09/19 10:41</p><p>78 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>acordo com as produções dos alunos no período. O plano de curso foi reformulado</p><p>no segundo ano do estudo, com base na experiência adquirida no ano anterior, e tare-</p><p>fas foram introduzidas para ir ao encontro das necessidades acadêmicas e futuras ne-</p><p>cessidades profissionais dos alunos. Ao final do segundo ano da pesquisa, foi possível</p><p>confirmar que o plano de curso, com as modificações implementadas, era adequado</p><p>e que o site refletia as tarefas feitas pelos alunos durante o curso, confirmando-se,</p><p>assim, os objetivos propostos no início da pesquisa. Também foi possível propor novos</p><p>encaminhamentos para o ensino de inglês para fins específicos na instituição onde a</p><p>pesquisa ocorreu (p. 913-914).</p><p>Analisando a pesquisa em termos de planejamento, ação, observação e reflexão,</p><p>percebemos que Damião planejou, com base na análise de necessidades acadê-</p><p>micas de graduandos em engenharia, um curso de leitura presencial em inglês e</p><p>atividades para o curso em uma página na internet. A análise de necessidades foi</p><p>feita por meio de um questionário respondido por 48 alunos.</p><p>A pesquisa foi conduzida durante dois anos e teve quatro ciclos de um semestre</p><p>letivo. Em cada fase, houve planejamento, implementação, observação e avalia-</p><p>ção do curso pelos alunos por meio de um questionário. A reflexão, ao final de</p><p>cada ciclo, confirmou e/ou alterou o ciclo seguinte.</p><p>No primeiro ciclo da pesquisa, os estudantes responderam a um questionário</p><p>anonimamente. Eles apontaram vários aspectos positivos no curso. No entanto,</p><p>reclamaram das atividades para fazer em casa e a pouca ênfase em conversação.</p><p>Após essas observações e a reflexão sobre os dados, novas ações foram imple-</p><p>mentadas para atender às necessidades dos alunos. O planejamento do ciclo 2,</p><p>atendendo à avaliação discente, incluiu uma unidade com apresentações orais e</p><p>tarefas de casa com parte feita em sala de aula. Os ciclos 3 e 4 foram influencia-</p><p>dos por insights teóricos sobre desenvolvimento de tarefas relacionadas ao futuro</p><p>profissional e acadêmico.</p><p>A pesquisadora concluiu que, apesar de os alunos terem avaliado o curso positi-</p><p>vamente, eles se ressentiam do fato de ser uma disciplina obrigatória. Ao final da</p><p>pesquisa, com base na avaliação, a pesquisadora propôs à instituição que o curso</p><p>passasse a ser opcional, além de outras sugestões de organização curricular.</p><p>Os dois exemplos de pesquisa-ação demonstram que o método tem como ponto</p><p>positivo a indissociabilidade da pesquisa e ensino. Um professor preocupado com</p><p>sua prática está sempre, recursivamente, identificando problemas, planejando,</p><p>agindo, observando sua própria prática e refletindo.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 78 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 79</p><p>4.4. Etnografia</p><p>Quase-etnográfico</p><p>Entro de soslaio</p><p>Vejo, anoto, fotografo.</p><p>Sinto.</p><p>(Hércules Toledo)</p><p>Etnografia é uma palavra de origem grega composta</p><p>por ethnos (povo, raça) mais graphein (escrita, descri-</p><p>ção), literalmente, descrição de um povo. O método</p><p>de pesquisa etnográfico tem origem nos estudos da antropologia cultural e foi</p><p>apropriado pela linguística aplicada, tendo como foco “questões culturais relacio-</p><p>nadas à linguagem” (PERRY JR., 2017, p. 82).</p><p>Fetterman (1998) define etnografia como “a arte e ciência de descrever um gru-</p><p>po ou cultura” (p. 1) e explica que essa cultura pode ser a de uma tribo ou de</p><p>uma sala de aula. O autor compara o etnógrafo a um repórter investigativo,</p><p>que entrevista pessoas relevantes, revê gravações, compara a credibilidade das opiniõe s</p><p>de uma pessoa à de outra; procura conexões com interesses especiais e organizações e</p><p>escreve a história para um público interessado e para colegas de profissão. A diferença-</p><p>-chave entre o repórter investigativo e o etnógrafo, no entanto, é que enquanto o jorna-</p><p>lista procura o incomum — o assassinato, a queda de um avião, ou o assalto de banco —,</p><p>o etnógrafo escreve sobre a rotina, a vida cotidiana das pessoas. O foco da pesquisa são</p><p>os padrões mais previsíveis do pensamento e comportamento humanos (p. 1).</p><p>Como já ressaltado no item sobre estudo de caso, o foco da etnografia é o estudo</p><p>do contexto cultural. Dörnyei (2007) diz: “Podemos falar em etnografia da sala</p><p>de aula, ou análise etnográfica de uma escola específica, ou outro contexto de</p><p>aprendizagem de língua” (p. 130). Mas a linguística aplicada se interessa também</p><p>pelo funcionamento da linguagem em contextos diversos de trabalho, como, por</p><p>exemplo, a interação médico-paciente-família (ver MAGALHÃES, 2000).</p><p>Na visão de Nunan (1992, p. 53), a pesquisa etnográfica é feita na perspectiva</p><p>naturalística-ecológica e tem como “princípio central, a crença de que o contex-</p><p>to no qual ocorre o comportamento tem uma influência significativa sobre esse</p><p>mesmo comportamento”. Por isso, a investigação não é feita em laboratório.</p><p>É muito comum encontrarmos pesquisas em linguística aplicada classificadas</p><p>como etnográficas pelo simples fato de terem usado observação participante e</p><p>Palavras-chave</p><p>Cultura</p><p>Imersão</p><p>Trabalho de campo</p><p>Não interferência</p><p>Observação participante</p><p>Entrevista</p><p>Visão êmica</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 79 12/09/19 10:41</p><p>80 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>gravações (a respeito disso, ver pesquisa de Rodrigues-Júnior, 2016). Green, Ni-</p><p>xon e Zaharlick (2005) alertam:</p><p>Um observador que adentra o campo da investigação com uma lista de itens predefi-</p><p>nida, com questões e hipóteses predeterminadas, ou com um esquema de observação</p><p>que defina a priori todos os comportamentos ou eventos que serão registrados, não</p><p>está, decerto, se engajando em etnografia, não obstante o nível de profundidade da</p><p>observação feita ou o grau de credibilidade do sistema de observação (p. 18).</p><p>Além disso, uma pesquisa etnográfica não tem como ponto de partida questões e</p><p>hipóteses predeterminadas. O pesquisador até pode ter algumas perguntas antes</p><p>de entrar em campo, mas é no contexto de pesquisa que hipóteses e questões</p><p>emergem e, em um processo dinâmico, são revisadas ou substituídas. Segundo</p><p>Johnson (1992, p. 140), “os pesquisadores etnográficos fazem perguntas amplas</p><p>no início do estudo, mas as refinam, reposicionam e incluem no campo à me-</p><p>dida que o estudo progride”. Isso é feito porque algumas questões só aparecem</p><p>quando o pesquisador entra em campo. Como afirma Dörnyei (2007), a etno-</p><p>grafia é uma pesquisa de natureza emergente porque o etnógrafo entra em uma</p><p>nova cultura e “a pesquisa evoluirá contextualmente e ‘emergirá’ in situ somente</p><p>depois de se fazer algum trabalho de campo” (p. 131).</p><p>Para Johnson (1992), o que caracteriza uma pesquisa etnográfica é a compreen-</p><p>são da cultura de um grupo, não de um indivíduo, incluindo o comportamento</p><p>comunicativo, sem intervir no contexto de pesquisa. É a resposta à pergunta: “O</p><p>que está acontecendo aqui?” que sinaliza “a ênfase no processo, naquilo que está</p><p>ocorrendo e não no produto ou nos resultados finais” (ANDRÉ, 2002, p. 29).</p><p>Green, Nixon e Zaharlick (2005) consideram a etnografia em pesquisa educacio-</p><p>nal como uma lógica de investigação. Quem explica o significado de “lógica” em</p><p>vez de “método específico” é Agar (2006, p. 7): etnografia é uma epistemologia,</p><p>uma forma de conhecer e não um método específico.</p><p>Essa lógica de investigação, segundo Green, Nixon e Zaharlick (2005, p. 30),</p><p>baseia-se em três princípios: estudo de práticas culturais, perspectiva contrasti-</p><p>va e perspectiva holística. Os autores têm a visão de cultura como “um conjun-</p><p>to de princípios de prática que os membros usam para nortear suas ações uns</p><p>com os outros”.</p><p>Os dados são gerados essencialmente por observação e entrevistas. Outras fontes</p><p>são: gravações em áudio e vídeo, fotografias, artefatos produzidos pelo grupo,</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 80 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 81</p><p>diários de aprendizagem, trabalhos de alunos, planejamentos, relatórios, infor-</p><p>mações pessoais sobre os alunos e suas famílias.</p><p>No processo de pesquisa, o etnógrafo levanta questões, participa da comunidade</p><p>por um período geralmente longo e observa o que está acontecendo ali em bus-</p><p>ca do “conhecimento cultural que frequentemente é implícito ou invisível aos</p><p>membros” (GREEN; NIXON; ZAHARLICK, 2005, p. 29). Ele triangula dados e</p><p>perspectivas ao cruzar os diversos dados coletados por diferentes instrumentos e</p><p>também compara suas análises com as dos outros membros do grupo pesquisado,</p><p>pois, dependendo do papel de cada um, mudam-se as perspectivas.</p><p>Um conceito caro à etnografia é o de visão êmica, ou seja, de dentro do grupo in-</p><p>vestigado. Para Johnson (1992, p. 142), “[o] objetivo mais importante da pesquisa</p><p>etnográfica é identificar a visão da realidade dos membros do grupo”. A pesquisa</p><p>etnográfica busca construir conhecimento sobre a cultura de uma comunidade</p><p>a partir do ponto de vista de seus membros. Para tanto, o pesquisador observa e</p><p>ouve os participantes e inclui suas vozes no relato de pesquisa.</p><p>É preciso também trazer a perspectiva ética. Fetterman (1998, p. 11) afirma: “[A]</p><p>tarefa do etnógrafo não é apenas coletar informações sob a perspectiva êmica</p><p>ou de dentro, mas também fazer sentido dos dados em uma perspectiva ética ou</p><p>perspectiva científica social externa”. Para isso, o pesquisador se guia por pressu-</p><p>postos teóricos que o ajudam a entender os dados.</p><p>O pesquisador, nesse tipo de pesquisa, “frequentemente é um observador partici-</p><p>pante, um estranho que fica em cena, talvez por um ano ou mais, para aprender</p><p>sobre o grupo” (JOHNSON, 1992, p. 134) e estuda o fenômeno em seu estado</p><p>natural, sem introduzir alterações como na pesquisa-ação ou manipular variáveis</p><p>como nos experimentos. Ele é, ao mesmo tempo, um observador e um parti-</p><p>cipante da comunidade, pois está sempre em interação com o a comunidade</p><p>pesquisada, podendo, ainda, ajudar o professor em algumas tarefas, ou mesmo</p><p>substituí-lo quando necessário.</p><p>4.4.1. Fases da pesquisa etnográfica</p><p>Segundo Dörnyei (2007), com base em Morse e Richards (2002) e Richards</p><p>(2003), a pesquisa etnográfica em linguística aplicada é um processo complexo</p><p>de entrada e saída do campo de pesquisa em uma sequência de quatro fases.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 81 12/09/19 10:41</p><p>82 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>A primeira fase é a entrada do pesquisador em um contexto ainda desconhecido.</p><p>Essa entrada é negociada com o professor e a direção da escola.</p><p>A segunda fase é a da observação não participante, pois o pesquisador, apesar de</p><p>ter quebrado o gelo inicial e de ter se familiarizado com os participantes e suas</p><p>rotinas, ainda está em busca dos participantes relevantes e começa a fazer as pri-</p><p>meiras entrevistas e a análise preliminar dos dados.</p><p>A terceira fase é considerada por Dörnyei (2007) como a mais produtiva, pois o</p><p>pesquisador já se sente em casa e aceito pela comunidade. Isso lhe permite cole-</p><p>tar dados diversos, garimpá-los, avaliar as ideias iniciais e desenvolver conceito.</p><p>A quarta fase é a da retirada de campo. É a fase de análise final dos dados. Novas</p><p>coletas só serão feitas se for necessário preencher alguma lacuna, resolver alguma</p><p>dúvida ou validar descobertas anteriores.</p><p>A análise dos dados, geralmente discursiva e interpretativa, é sempre em pro-</p><p>gresso. Ela é feita de forma recursiva, fundamentada nos dados, compreensiva e</p><p>interpretativa (JOHNSON, 1992).</p><p>Quanto à recursividade, Johnson (1992) esclarece:</p><p>… somente depois de os pesquisadores analisarem as informações reunidas no início</p><p>do trabalho de campo é que eles tomam outras decisões sobre o que é importante</p><p>investigar e que procedimentos de campo adicionais desenvolver para coletar infor-</p><p>mações (p. 148).</p><p>Para Johnson (1992), a análise fundamentada em dados implica criar conceitos e</p><p>categorias (ver item 6 sobre teoria fundamentada em dados). “Etnógrafos anali-</p><p>sam dados procurando padrões culturais e comunicativos” (JOHNSON, 1992, p.</p><p>148) e a análise deve ser compreensiva, baseada em dados bem representativos do</p><p>todo e também interpretativa porque demanda uma interpretação cultural densa</p><p>dos eventos estudados na comunidade.</p><p>Johnson (1992, p. 150-151) propõe os seguintes critérios para avaliar um relatório</p><p>de pesquisa etnográfica sobre ensino de línguas:</p><p>1. Quais são os objetivos da etnografia? Qual é o problema de pesquisa?</p><p>2. Em qual contexto a pesquisa foi conduzida?</p><p>3. Qual é o grupo ou caso em estudo?</p><p>4. Quais conceitos e quadro teórico dão suporte ao estudo?</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 82 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 83</p><p>5. Que técnicas de campo foram usadas? Por quanto tempo? Em que contexto?</p><p>Quais eram os papéis dos etnógrafos?</p><p>6. Que estratégias de análise foram desenvolvidas e usadas? Que níveis e tipos</p><p>de contexto foram atendidos e usados?</p><p>7. Que padrões recorrentes são descritos?</p><p>8. Que interpretação cultural é fornecida?</p><p>9. Qual é a contribuição do estudo para nosso conhecimento de fatores socio-</p><p>culturais envolvidos na escolarização em uma cultura de segunda língua?</p><p>10. Quais são as implicações declaradas para o ensino?</p><p>Um exemplo de pesquisa etnográfica foi desenvolvida por Brown (2008) sobre a</p><p>adaptação de alunos internacionais</p><p>de pós-graduação na Inglaterra. Passo à des-</p><p>crição da pesquisa, utilizando os critérios propostos por Johnson (1992).</p><p>1. Quais são os objetivos da etnografia? Qual é o problema de pesquisa?</p><p>Investigar, em uma perspectiva êmica, o processo de adaptação de alunos</p><p>(mestrandos) internacionais de pós-graduação no Reino Unido.</p><p>2. Em qual contexto a pesquisa foi conduzida?</p><p>Uma instituição do sul da Inglaterra durante toda a trajetória acadêmica de</p><p>um conjunto de alunos de mestrado (setembro de 2003 a setembro de 2004).</p><p>3. Qual é o grupo ou caso em estudo?</p><p>150 alunos de pós-graduação de diversas nacionalidades. A maioria era do</p><p>sudeste asiático e cerca de um terço era da Europa, África e Oriente Médio.</p><p>4. Quais conceitos e quadro teórico dão suporte ao estudo?</p><p>A autora recorreu a estudos sobre alunos internacionais, choque cultural e</p><p>comunicação étnica.</p><p>5. Que técnicas de campo foram usadas? Por quanto tempo? Em que con-</p><p>texto? Quais eram os papéis dos etnógrafos?</p><p>A pesquisadora usou entrevistas e observação participante durante 12 meses</p><p>do ano acadêmico. Como lecionava inglês acadêmico na instituição, já es-</p><p>tava inserida no campo de pesquisa com amplo acesso aos estudantes. Ela</p><p>entrevistou 13 alunos e considerou a amostra representativa em termos de</p><p>idade, gênero, tipo de visto de permanência, religião e cultura. A primeira</p><p>entrevista foi informal e as subsequentes foram guiadas pelos tópicos que</p><p>emergiram nas entrevistas anteriores e em novos tópicos trazidos pelos entre-</p><p>vistados. Ela também gravou eventos e conversas como pesquisadora partici-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 83 12/09/19 10:41</p><p>84 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>pante e fez observações na sala de aula, no corredor, na biblioteca, no café,</p><p>na cantina, no escritório e em eventos sociais. Utilizou também um diário</p><p>de pesquisa.</p><p>6. Que estratégias de análise foram desenvolvidas e usadas? Que níveis e</p><p>tipos de contexto foram atendidos e usados?</p><p>Ela repetidamente leu as notas de campo, ouviu as gravações, leu as trans-</p><p>crições e codificou os dados em termos de temas, fases, eventos, atividades,</p><p>ideias etc.</p><p>7. Que padrões recorrentes são descritos?</p><p>Um padrão recorrente foi por ela denominado de ansiedade linguística, re-</p><p>ferente ao choque e frustração que os alunos sentiram por não conseguirem</p><p>entender tudo o que era dito em inglês assim que chegaram à Inglaterra</p><p>e também nos primeiros meses na universidade. Os alunos demonstraram</p><p>também problemas com a linguagem não verbal e outros aspectos culturais.</p><p>Ao longo do curso, ela observou também o desenvolvimento linguístico dos</p><p>participantes.</p><p>8. Que interpretação cultural é fornecida?</p><p>A autora conclui que o choque cultural é um estado transitório e que alu-</p><p>nos que minimizavam o contato com seus pares da mesma etnia maxi-</p><p>mizavam o uso do inglês na vida cotidiana, confirmando estudos sobre</p><p>comunicação étnica.</p><p>9. Qual é a contribuição do estudo para nosso conhecimento de fatores</p><p>socioculturais envolvidos na escolarização em uma cultura de segunda</p><p>língua?</p><p>Pode contribuir para que se evitem alguns estereótipos sobre o desempe-</p><p>nho de determinados grupos culturais; para desenvolver teorias mais ade-</p><p>quadas sobre aprendizagem de segunda língua e para mudar crenças dos</p><p>professores.</p><p>10. Quais são a implicações declaradas para o ensino?</p><p>Os alunos mais competentes se sentem prejudicados pela incompetência</p><p>linguística da maioria de seus pares. A necessidade de suporte linguístico</p><p>para os alunos. A pesquisadora sugere que cursos de inglês intensivos seriam</p><p>benéficos para os alunos.</p><p>Apesar de a autora não explicitar, fica claro que as universidades britânicas acei-</p><p>tam alunos internacionais sem a competência linguística necessária porque de-</p><p>pendem economicamente deles.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 84 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 85</p><p>Outro exemplo de pesquisa etnográfica é a relatada por Garcez e Schulz (2015).</p><p>É bom ressaltar que o artigo é um recorte de uma pesquisa maior, pois a pesquisa</p><p>etnográfica investiga o contexto amplo e episódios como o descrito nesse artigo,</p><p>somados a outros, contribuem para entendermos a cultura da comunidade inves-</p><p>tigada, no caso, uma escola da rede pública na periferia de Porto Alegre. Mesmo</p><p>assim, é possível encontrar no artigo respostas para as questões propostas por</p><p>Johnson (1992). Vejamos:</p><p>1. Quais são os objetivos da etnografia? Qual é o problema de pesquisa?</p><p>A pesquisa buscou compreender como se construía na prática interacional o</p><p>projeto político pedagógico (PPP) de uma escola.</p><p>2. Em qual contexto a pesquisa foi conduzida?</p><p>Em uma escola pública da rede municipal de Porto Alegre, na periferia da</p><p>cidade.</p><p>3. Qual é o grupo ou caso em estudo?</p><p>Os autores apresentam uma parte da pesquisa que mostra a resistência de</p><p>um aluno em se unir a um grupo para uma aula de leitura e a ação da profes-</p><p>sora, que não desiste do aluno, não o marginaliza, seguindo o PPP que diz:</p><p>“Todos os alunos podem aprender, todos os alunos devem permanecer na</p><p>escola, diferença não é deficiência, o trabalho de grupo qualifica a apren-</p><p>dizagem, e aprendizagem e ‘disciplina’ não são aspectos excludentes, mas</p><p>ocupam espaços diferentes” (GARCEZ; SCHULZ, 2015, p. 11).</p><p>4. Quais conceitos e quadro teórico dão suporte ao estudo?</p><p>Os autores utilizaram a pesquisa etnográfica como escolha teórico-meto-</p><p>dológica e fundamentam suas reflexões em textos sobre etnografia, escola,</p><p>interação social e conceitos como antietnocentricidade e ecologias culturais.</p><p>5. Que técnicas de campo foram usadas? Por quanto tempo? Em que con-</p><p>texto? Quais eram os papéis dos etnógrafos?</p><p>Dada a impossibilidade de o pesquisador estar o tempo todo mergulhado</p><p>no contexto investigado, a pesquisa foi feita em equipe (um pesquisador e</p><p>duas bolsistas de IC). Por isso dizem os autores: “Multiplicamos olhares, oi-</p><p>tivas, anotações e diários de campo” (GARCEZ; SCHULZ, 2015, p. 14).</p><p>Os dados foram gerados durante mais de um ano de observação na escola,</p><p>notas de campo, dados audiovisuais, entrevistas com professores, direção e</p><p>alunos, análise de materiais e documentos, “textos e cartazes que tratavam</p><p>do projeto PPP, relatos de autoria dos educadores, e exemplares do jornal da</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 85 12/09/19 10:41</p><p>86 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>escola, em que eram publicados textos de autoria de estudantes, professores</p><p>e funcionários” (GARCEZ; SCHULZ, 2015, p. 14).</p><p>6. Que estratégias de análise foram desenvolvidas e usadas? Que níveis e</p><p>tipos de contexto foram atendidos e usados?</p><p>Os pesquisadores analisaram as interações em sala de aula, observaram</p><p>como os entendimentos e conhecimentos eram construídos em conjunto,</p><p>com foco especial nas sequências canônicas de sala de aula e possíveis alter-</p><p>nativas, reparos e correções.</p><p>7. Que padrões recorrentes são descritos?</p><p>Os pesquisadores observaram um padrão recorrente de um aluno em ficar</p><p>“à margem, na periferia da sala de aula” (GARCEZ; SCHULZ, 2015, p. 10)</p><p>e a resistência da professora e seu esforço em não marginalizar o aluno.</p><p>8. Que interpretação cultural é fornecida?</p><p>Os autores mostram que os comportamentos emergem de uma interconexão</p><p>entre a estrutura social, cultura e interação social.</p><p>9. Qual é a contribuição do estudo para nosso conhecimento de fatores</p><p>socioculturais envolvidos na escolarização em uma cultura de segunda</p><p>língua?</p><p>Os autores concluem ser importante ter uma visão aprofundada da cultura</p><p>estudada. Isso os impediu de analisar o episódio do aluno de forma isolada</p><p>e ver apenas uma parte da história. A entrevista com a professora e com a</p><p>supervisora da escola e o PPP os auxiliou a compreender melhor o compor-</p><p>tamento do aluno e o da professora.</p><p>10. Quais são a implicações declaradas para o ensino?</p><p>Segundo os autores, “[t]er um olhar situado para o cotidiano escolar e regis-</p><p>trá-lo minuciosamente nos torna etnógrafos da linguagem conhecedores das</p><p>experiências</p><p>de ensino e aprendizagem que podem ser relevantes para outros</p><p>cenários e contextos” (GARCEZ; SCHULZ , 2015, p. 27).</p><p>O trabalho de Garcez e Schultz (2015) vai ao encontro das características de uma</p><p>pesquisa etnográfica descritas por Nunan (1992, p. 56). Trata-se de uma pesqui-</p><p>sa contextual, pois analisou interações em sala de aula real; não interferiu no</p><p>contexto; foi longitudinal (mais de um ano no campo de pesquisa); colaborativa</p><p>(envolveu pesquisador, bolsistas, professora, alunos, e coordenadora); interpreta-</p><p>tiva (a análise não se limita a descrever, envolve interpretação e explicação); e</p><p>orgânica (interação entre perguntas, coleta de dados e interpretação).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 86 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 87</p><p>4.5. Pesquisa narrativa</p><p>Nós não somos criadores de história. Somos feitos pela história.</p><p>(Martin Luther King Jr.)</p><p>O que é uma narrativa? O que é pesquisa narrativa?</p><p>Uma narrativa é sempre uma história (eventos do pas-</p><p>sado) real ou fictícia, narrada oralmente ou por escrito.</p><p>Polkinghorne (1988, p. 13) explica: “O ‘termo’ ‘nar-</p><p>rativa’ pode se referir ao processo de construção de</p><p>uma história, ao esquema cognitivo de uma história</p><p>ou ao resultado do processo — também chamado ‘es-</p><p>tórias’12 (stories), ‘contos’, ou ‘histórias’”.</p><p>Como ressaltam Cladinin e Rosiek (2007, p. 35):</p><p>Os seres humanos viveram suas vidas e contaram histórias sobre elas desde que co-</p><p>meçamos a conversar. A partir de então, temos conversado sobre as histórias que</p><p>contamos. Essas histórias vividas e contadas e a fala sobre elas é uma das formas que</p><p>usamos para encher o nosso mundo de significado e conseguir assistência mútua na</p><p>construção de vidas e comunidades.</p><p>Na mesma direção, Shkedi (2005, p. 10) explica:</p><p>As experiências em si não existem de forma independente. Nós as experienciamos</p><p>como partes de um todo temporal, e seu significado emerge do todo ao qual per-</p><p>tencem. Reagimos a elas cognitivamente, mas também emocional e esteticamente.</p><p>Assim, quase nunca se aprende e/ou se experiencia algo objetivamente.</p><p>Elliot (2005, p. 3) considera útil a definição de narrativa proposta por Hinchman</p><p>e Hinchman (1997, p. xvi):</p><p>Narrativas (histórias) nas ciências sociais podem ser definidas provisoriamente como</p><p>discursos com uma ordem claramente sequencial que conecta eventos de forma sig-</p><p>nificativa para um público definido e assim oferecem insights sobre o mundo e/ou as</p><p>experiências das pessoas.</p><p>12 O termo story foi traduzido como estória para ser fiel à tradução, já que na língua inglesa, deno-</p><p>minam-se stories as narrativas ficcionais. Em português, houve uma tentativa malsucedida de se usar</p><p>estória para ficção, mas atualmente, usa-se apenas o termo história.</p><p>Palavras-chave</p><p>Histórias de vida</p><p>Exploração de experiências</p><p>Biografias</p><p>Autobiografias</p><p>Voz dos participantes</p><p>Entrevistas</p><p>Narrativas orais</p><p>Narrativas escritas</p><p>Narrativas multimodais</p><p>Análise de conteúdo</p><p>Análise de forma</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 87 12/09/19 10:41</p><p>88 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Elliot defende essa definição porque ela ressalta aspectos centrais de uma narra-</p><p>tiva: sua cronologia (sequência dos eventos), o fato de serem significativos e sua</p><p>característica social, pois eles são produzidos para um público específico.</p><p>Contar uma história não é algo novo; o que é novo, como comentam Cladinin</p><p>e Rosiek (2007, p. 35), é a emergência de metodologias narrativas como campo</p><p>de pesquisa.</p><p>Polkinghorne (1988) e Barkhuizen, Benson e Chick (2014) distinguem “análise</p><p>narrativa” (uso de histórias como dados) de “análise de narrativas” (história como</p><p>um meio de análise e apresentação de dados). Neste livro, opto pelo uso de pes-</p><p>quisa narrativa como sinônimo de análise narrativa.</p><p>Pesquisa narrativa, segundo Lieblich, Tuval-Mashiach e Zilber (1998, p. 2), é</p><p>“qualquer estudo que use ou analise materiais narrativos” e, para Clandinin e</p><p>Connely (2000, p. 20), “uma forma de entender a experiência”, que eles enten-</p><p>dem como colaboração entre pesquisador e pesquisado.</p><p>Quando falamos em pesquisa narrativa, os primeiros nomes que nos vêm à men-</p><p>te são: na linguística, os de Joshua Waletzky e William Labov e, na psicologia, o</p><p>de Jerome Bruner.</p><p>Labov e Waletzky (1967/1997)13 foram pioneiros no estudo de narrativas orais na</p><p>perspectiva linguística, mais especificamente na sociolinguística, pois até en-</p><p>tão apenas as narrativas literárias mereciam atenção. Esses dois sociolinguistas</p><p>concentraram seus estudos na organização estrutural da narrativa, definindo-a</p><p>como “um método de recapitular experiência passadas ao combinar, em uma</p><p>sequência de orações, uma sequência de eventos que realmente aconteceram”</p><p>(LABOV; WALETZKY, 1997, p. 12). Essa sequência de orações “contém pelo</p><p>menos uma junção temporal” (LABOV; WALETZKY, 1997, p. 21). Assim, uma</p><p>narrativa mínima seria aquela em que temos pelo menos uma sequência de</p><p>duas ações no passado, como, por exemplo, “eu pedi permissão à professora e</p><p>observei suas aulas”.</p><p>Labov e Waletzky (1967/1997), ao descreverem a estrutura das narrativas orais,</p><p>observaram que o único elemento obrigatório em uma narrativa é a “ação com-</p><p>plicadora”, correspondente a uma sequência temporal de orações narrativas</p><p>enunciadas no passado. Há também cinco elementos opcionais: resumo (síntese</p><p>13 O texto de 1967 foi republicado em 1997 no periódico Narrative Inquiry.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 88 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 89</p><p>do que vai ser dito); orientação (contextualização sobre tempo, espaço, persona-</p><p>gens); resolução (a consequência da ação complicadora); avaliação (atitude ou</p><p>alinhamento do avaliador em relação ao narrado) e coda14 (quando o autor marca</p><p>o retorno ao presente, exemplo, “e foram felizes para sempre”).</p><p>Em outra perspectiva, a cognitiva, Bruner (1987, 1996) afirma que as experiên-</p><p>cias são por nós estruturadas, organizadas, percebidas e representadas como nar-</p><p>rativas. Essa afirmação tem respaldo na linguística cognitiva. No dizer de Turner</p><p>(1996), nossa mente é literária, ou seja, narrativa, pois</p><p>a imaginação narrativa — história — é um instrumento de pensamento fundamen-</p><p>tal. As capacidades racionais dependem dela. É o nosso principal meio para olhar o</p><p>futuro, fazer previsões, planejar e explicar. É uma capacidade literária indispensável</p><p>para a cognição em geral (p. 4).</p><p>Para Turner (1996), a narrativa serve a dois propósitos cognitivos: imaginar histó-</p><p>rias e projetar histórias em outras para estimular o pensamento. Ele exemplifica</p><p>esse pressuposto com parábolas, fruto da imaginação de um escritor. Recorremos</p><p>a elas, projetando-as em outras, quando queremos provocar o raciocínio. O mes-</p><p>mo pode ser dito dos provérbios, que são exatamente esquemas conceituais que</p><p>nos ajudam a projetar uma história em outra.</p><p>Bruner (1986) afirma a existência de duas formas de pensamento, o lógico-cien-</p><p>tífico, ou paradigmático, e o narrativo. O pensamento lógico-científico “tenta</p><p>preencher o ideal de um sistema formal e matemático de descrição e explicação”</p><p>(p.12). Isso nos remete à metodologia de pesquisa quantitativa. O pensamento</p><p>narrativo está associado ao conhecimento prático, a histórias, não necessaria-</p><p>mente reais, e “localiza a experiência no tempo e no espaço” (p. 13).</p><p>Assim como Labov e Waletzky (1967), Bruner (1990) também aponta a sequên-</p><p>cia de eventos como característica básica da narrativa, mas ressalta que os seus</p><p>constituintes não têm vida própria, “seu significado é dado por sua inserção na</p><p>configuração geral da sequência como um todo, pelo enredo” (p. 43).</p><p>Tanto os estudos de Labov e Waletzky como os de Bruner influenciaram a pes-</p><p>quisa narrativa em estudos da linguagem e em educação. Esse tipo de pesquisa</p><p>utiliza dados retirados de histórias de vida, tais como as de aprendizagem, de</p><p>14 O termo coda foi tomado de empréstimo da música. Em música, coda designa a parte de uma</p><p>composição musical que sinaliza seu final.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 89 12/09/19</p><p>10:41</p><p>90 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>formação de professores, de leituras etc. Segundo Barkhuizen, Benson e Chick</p><p>(2014), a pesquisa narrativa é relevante “porque nos ajuda a entender os mundos</p><p>interiores de professores e aprendizes de línguas e a natureza do ensino de língua</p><p>e de aprendizagem como uma atividade social e educacional” (p. 2).</p><p>Barkhuizen, Benson e Chick (2014) investigaram 175 artigos e capítulos de li-</p><p>vros com relatos de pesquisa na área de linguística aplicada e encontraram dois</p><p>temas: estudo sobre vida de professores e histórias de aprendizes de línguas. No</p><p>segundo grupo, eles listam os seguintes tipos de estudo:</p><p>(a) estratégias de aprendizagem;</p><p>(b) aprendizagem em contextos não formais;</p><p>(c) motivação;</p><p>(d) persistência;</p><p>(e) afeto;</p><p>(f) diferenças individuais;</p><p>(g) autonomia e autoaprendizagem;</p><p>(h) aprendizagem com tecnologia;</p><p>(i) pais bilíngues;</p><p>(j) política linguística;</p><p>(k) experiências de imigrantes;</p><p>(l) perda linguística.</p><p>Usamos histórias para entender os fenômenos que queremos investigar e, ao apre-</p><p>sentar nossos relatórios de pesquisa, também contamos histórias sobre o que pes-</p><p>quisamos, como pesquisamos e as conclusões a que chegamos.</p><p>Riessman (1993, p. 1) explica:</p><p>Contar uma história, para simplificar o argumento, é o que fazemos com nossos</p><p>materiais de pesquisa e o que os informantes fazem conosco. A metáfora da história</p><p>enfatiza que criamos ordem, construímos textos em contextos particulares.</p><p>Nessa perspectiva, os narradores, ao contarem suas experiências, impõem ordem</p><p>ao fluxo de suas memórias criando sentido para suas ações passadas. Segundo</p><p>Riessman (1993, p. 3), “o narrador em uma conversa conduz o ouvinte a um</p><p>tempo ou um ‘mundo’ passado e recapitula o que aconteceu para fazer valer seu</p><p>ponto de vista, geralmente moral”. E acrescenta:</p><p>[O]s narradores criam enredos de uma experiência desordenada e dão à realidade</p><p>“uma unidade que nem o passado e nem a natureza possuem de forma tão clara. Ao</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 90 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 91</p><p>fazer isso, nos movemos bem além da natureza para o reino intensamente humano</p><p>do valor” (Cronon, 1992, p. 1349) (RIESSMAN, 1993, p. 3).</p><p>Quando se faz pesquisa narrativa, nossa preocupação não deve ser com a busca</p><p>da verdade, em saber se os participantes contaram ou não uma história verda-</p><p>deira. O importante é perceber de que modo os narradores representam deter-</p><p>minado fenômeno, como interpretam suas experiências. Como dizem Lieblich,</p><p>Tuval-Mashiach e Zilber (1998, p. 7),</p><p>as histórias imitam a vida e apresentam uma realidade interna ao mundo exterior, ao</p><p>mesmo tempo, no entanto, elas modelam e constroem a realidade e a personalidade</p><p>do narrador. A história é a identidade de alguém, uma história criada, contada, revi-</p><p>sada e recontada ao longo da vida. Nós nos conhecemos ou nos descobrimos, e nos</p><p>revelamos aos outros, por meio das histórias que contamos.</p><p>As autoras não afirmam nem que toda narrativa é uma ficção, nem que é uma</p><p>representação perfeita da realidade. As histórias são construídas com eventos da</p><p>vida, mas permitem também: liberdade de criação, seleção criativa dos fatos e</p><p>ênfases na interpretação desses eventos (LIEBLICH; TUVAL-MASHIACH;</p><p>ZILBER, 1998, p. 7). Como explicam Brockmeier e Carbaugh (2001, p. 7),</p><p>[C]omo toda narrativa é parte de uma vida, inserida num contexto vivido de intera-</p><p>ção e comunicação, intenção e imaginação, ambiguidade e imprecisão, há sempre,</p><p>potencialmente, uma história diferente para contar em uma próxima vez, pois sur-</p><p>gem situações diferentes para contá-la.</p><p>É preciso também ter sensibilidade para interpretar os dados e, muitas vezes,</p><p>ir além das palavras para entender o que o narrador está de fato querendo nos</p><p>dizer. Em narrativas de aprendizagem de inglês, por exemplo, é muito comum</p><p>encontrarmos afirmações como esta: “A professora só ensinava o verbo to be”.</p><p>Provavelmente isso não corresponde à realidade, mas pode ser uma estratégia</p><p>retórica, uma metonímia para dizer que a prioridade era o ensino de gramática.</p><p>Citando Rabinov e Sullivan (1979, p. 12), Riessman (1993) lembra: todo texto</p><p>é “plurivocal, aberto a várias leituras e a várias construções” (p. 14). Mesmo</p><p>para um mesmo leitor, um trabalho pode provocar leituras bastante diferen-</p><p>tes em diferentes contextos históricos. Ela levanta a hipótese de que Madame</p><p>Bovary, por exemplo, seria lida diferentemente antes e depois dos movimen-</p><p>tos feministas.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 91 12/09/19 10:41</p><p>92 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>4.5.1. Tipos de geração de dados narrativos</p><p>Os dados de uma pesquisa narrativa podem ser gerados por meio de gravações</p><p>em áudio ou vídeo, entrevistas (geralmente semiestruturadas), orais ou escritas,</p><p>observação de sala de aula, textos e documentos escritos ou multimodais, in-</p><p>cluindo as autobiografias e os diários de professores ou de aprendizes. Pode-se</p><p>também usar uma combinação desses instrumentos. Segundo Lieblich, Tuval-</p><p>-Mashiach e Zilber (1998, p. 2),</p><p>os dados podem ser coletados como uma história (história de vida fornecida em</p><p>uma entrevista ou em um trabalho literário) ou em um modo diferente (notas de</p><p>campo de um antropólogo que anota suas observações como uma narrativa ou em</p><p>cartas pessoais).</p><p>Riessman (1993, p. 55) alerta: “Diferentes métodos de coleta de dados produzem</p><p>informações diferentes e têm de ser interpretados de formas diferentes” e tam-</p><p>bém que “não é fácil distinguir a análise da transcrição”. Citando Mishler (1991,</p><p>p. 277), ela ainda explica: “A forma como organizamos o texto [entrevista] à luz</p><p>de nossas descobertas é um processo de testagem, esclarecimento e aprofunda-</p><p>mento de nossa compreensão sobre o que está acontecendo no discurso”.</p><p>4.5.2. Tipos de pesquisa narrativa</p><p>A primeira distinção deve ser feita entre pesquisa biográfica e pesquisa auto-</p><p>biográfica. Na pesquisa biográfica, o pesquisador usa como dados a história de</p><p>alguém ou um conjunto de histórias de outras pessoas; na autobiográfica, o pes-</p><p>quisador usa sua própria história como fonte de pesquisa.</p><p>Lieblich, Tuval-Mashiach e Zilber (1998) dividem a pesquisa narrativa em holís-</p><p>tica e categorial, e cada uma delas em foco na forma ou foco no conteúdo. A pes-</p><p>quisa holística tem por unidade de análise uma narrativa integral e a categorial</p><p>utiliza excertos. Ambas podem focar o conteúdo dos textos ou apenas a forma.</p><p>A pesquisa holística com foco no conteúdo analisa toda a história. Mesmo</p><p>quando uma parte é destacada, isso é feito em conexão com o restante do texto.</p><p>Um exemplo de pesquisa holística é a tese de doutorado de Moura Filho (2005),</p><p>uma investigação sobre a aprendizagem autônoma e bem-sucedida de inglês de</p><p>um brasileiro adulto. A história é reconstruída por meio de entrevista, documen-</p><p>tos e fotografias.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 92 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 93</p><p>A pesquisa holística com foco na forma investiga a estrutura das narrativas. Um</p><p>exemplo é o trabalho de Labov e Waletzky (1967/1997), análise de um conjunto</p><p>de 14 narrativas sobre experiências pessoais, retiradas de um corpus de 600 nar-</p><p>rativas que respondiam à seguinte pergunta: “Você já esteve em alguma situação</p><p>de perigo em que corria sério risco de ser morto?” O interesse dos pesquisado-</p><p>res não estava no perigo que cada informante correu, mas sim na estrutura das</p><p>narrativas, mais especificamente, na sequência das orações em narrativas e suas</p><p>funções referenciais e avaliativas.</p><p>Na análise categorial com foco no conteúdo, o pesquisador se concentra em al-</p><p>guns temas ou categorias. Lieblich, Tuval-Mashiach e Zilber (1998, p. 13) explicam:</p><p>A análise categorial com foco no conteúdo é mais conhecida como “análise de con-</p><p>teúdo”. São definidas as categorias do tópico estudado e os enunciados são extraídos,</p><p>classificados e reunidos em categorias ou grupos. Nessa modalidade de análise, é</p><p>com um tratamento quantitativo da narrativa.</p><p>Um exemplo</p><p>de análise categorial com foco no conteúdo é a pesquisa de Borges</p><p>(2008), uma análise da história de vida de professoras de línguas estrangeiras</p><p>(nove professoras pré-serviço e sete em serviço), em 16 narrativas. Seu objetivo</p><p>foi identificar as referências às abordagens de ensino de línguas estrangeiras (in-</p><p>glês, francês, espanhol e português como língua estrangeira), em especial, “as</p><p>menções ao ensino de línguas para fins específicos como uma abordagem ou</p><p>metodologia da abordagem comunicativa” (p. 421).</p><p>A autora solicitou que as participantes escrevessem sobre “sua história de vida no</p><p>que se referia ao processo de ensino/aprendizagem de uma L2/LE e às lembran-</p><p>ças sobre os métodos e abordagens envolvidas nesse processo” (p. 424), envolven-</p><p>do toda a convivência com essa L2/LE. As participantes foram informadas de</p><p>que não seria necessário nomear os métodos ou abordagens, apenas mencionar</p><p>os tipos de atividades. De posse desses dados, a pesquisadora selecionou todos os</p><p>excertos onde as narradoras mencionavam a questão da abordagem metodoló-</p><p>gica, tanto quando se referiam à época em que eram aprendizes como quando</p><p>falavam de suas atuações como professoras.</p><p>Borges concluiu que a abordagem gramatical foi a mais citada pelas participan-</p><p>tes, tanto no processo de aquisição quanto no ensino, mas que houve uma mu-</p><p>dança de abordagem pelas professoras que eram mestras em linguística aplicada:</p><p>elas tratavam o tema com mais facilidade.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 93 12/09/19 10:41</p><p>94 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>A análise categorial com foco na forma examina “características estilísticas</p><p>ou linguísticas de determinadas unidades da narrativa. Por exemplo, o tipo de</p><p>metáfora usada pelo narrador, ou a frequência da voz passiva em contraponto</p><p>à ativa” (LIEBLICH; TUVAL-MASHIACH; ZILBER, 1998, p. 13-14). Como</p><p>exemplo, cito Paiva e Gomes Junior (2016) e sua análise das metáforas da viagem</p><p>em histórias de aprendizagem de língua inglesa retiradas do corpus de histórias</p><p>de aprendizagem de inglês do projeto AMFALE15. Os pesquisadores, por meio</p><p>de palavras-chave em português e inglês, identificaram trechos onde a metáfora</p><p>da viagem foi utilizada.</p><p>Paiva e Gomes Junior (2016, p. 164) concluíram: “A maioria das metáforas de</p><p>viagem se concentra no percurso (caminhos, passos, obstáculos, voltas)” e “o pro-</p><p>cesso de aprendizagem parece uma viagem que nunca termina, pois sempre se</p><p>tem mais para aprender, mais caminhos a percorrer, novos destinos a alcançar”.</p><p>Além das quatro categorias propostas por Lieblich, Tuval-Mashiach e Zilber</p><p>(1998), é possível também combinar a análise categorial, incluindo forma e con-</p><p>teúdo. Cito meu próprio trabalho (MENEZES, 2008), republicado em portu-</p><p>guês (PAIVA, 2008), onde analiso 38 narrativas multimídia com dois objetivos:</p><p>verificar como se davam as aberturas e fechamentos e analisar as experiências de</p><p>aprendizagem à luz de conceitos da complexidade.</p><p>Em relação à forma, verifiquei que a maioria dos narradores inseriam suas fotos</p><p>coloridas nas aberturas; outros apenas diziam seus nomes, falavam sobre sua in-</p><p>fância ou descreviam seus interesses iniciais pela língua. Quanto aos fechamen-</p><p>tos, eles geralmente incluíam reflexões sobre a aprendizagem.</p><p>Já no que se refere ao conteúdo, demonstro, por meio de excertos, que a aquisi-</p><p>ção de segunda língua “é um sistema complexo e que a segunda língua não é</p><p>produto de contextos formais de aprendizagem. Ela emerge da interação entre</p><p>diferentes redes sociais (família, produção cultural, escola, outros falantes) e fato-</p><p>res cognitivos e afetivos” (PAIVA, 2008, p. 337).</p><p>Seja qual for o tema ou a forma de coleta, a pesquisa narrativa tem o mérito de</p><p>dar voz ao participante e levar o pesquisador a entender determinados fenômenos</p><p>por meio de experiências narradas. Por isso mesmo, ela é entendida como cola-</p><p>borativa, pois é um trabalho conjunto entre pesquisado e pesquisador.</p><p>15 Disponível em: <http://www.veramenezes.com/amfale/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 94 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 95</p><p>4.6. Teoria fundamentada em dados</p><p>É um pecado capital teorizar antes de ter informações. Sem</p><p>perceber, começa-se a distorcer os fatos para que caibam</p><p>nas teorias, em vez de deixar que as teorias caibam nos fatos.</p><p>Sir Arthur Conan Doyle, Sherlock Holmes,</p><p>no livro Um Escândalo na Boêmia</p><p>A teoria fundamentada em dados (grounded theory,</p><p>em inglês) tem como característica o estudo induti-</p><p>vo dos fenômenos, pois são os dados que fornecem</p><p>fundamentos para a geração de teoria, em vez de se</p><p>usar uma teoria ou mais de uma como lente(s) para a</p><p>interpretação dos dados. Teorias, nesse contexto, são</p><p>entendidas como explicações abstratas sobre um fenômeno.</p><p>Dörnyei (2007) alerta: “Apesar do nome, ‘teoria fundamentada’ não é uma teo-</p><p>ria, mas uma metodologia” (p. 258), cujo objetivo é desenvolver teoria. Dörnyei</p><p>(2007, p. 258) concorda com Charmaz (2005), que usa o termo para designar um</p><p>modo específico de análise de dados:</p><p>Essencialmente, os métodos da teoria fundamentada são um conjunto de diretrizes</p><p>analíticas flexíveis que permitem aos pesquisadores se concentrarem em seu conjun-</p><p>to de dados para construir teorias lógicas de médio alcance por meio de sucessivos</p><p>níveis de análise de dados e de desenvolvimento conceitual (p. 507).</p><p>Como explica Willig (2013), a metodologia da teoria fundamentada em dados foi</p><p>desenvolvida por dois sociólogos, Barney Glaser e Anselm Strauss, inconforma-</p><p>dos com as teorias dominantes na sociologia.</p><p>Eles argumentaram que os pesquisadores precisavam de um método que lhes per-</p><p>mitisse avançar dos dados para a teoria, fazendo emergir novas teorias. Tais teorias</p><p>seriam específicas para o contexto em que tivessem sido desenvolvidas. Seriam “fun-</p><p>damentadas” nos dados dos quais emergiram, em vez de se basearem em construtos</p><p>analíticos, categorias ou variáveis de teorias preexistentes. A teoria fundamentada,</p><p>portanto, foi pensada para abrir espaço ao desenvolvimento de teorias novas e con-</p><p>textualizadas (WILLIG, 2013, p. 69).</p><p>Nas palavras de Wisker (2008), “em vez de se partir da teoria e desenvolver a</p><p>ideia e as questões de pesquisa, o pesquisador começa com sua experiência e,</p><p>dessa experiência em ação, gera a teoria” (p. 213); “as teorias são geradas em-</p><p>Palavras-chave</p><p>Pergunta de pesquisa</p><p>Geração de dados</p><p>Categorização dos dados</p><p>Nomeação das categorias</p><p>Categorização aberta</p><p>Análise comparativa</p><p>Categorização axial</p><p>Categorização seletiva</p><p>Geração de teoria</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 95 12/09/19 10:41</p><p>96 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>piricamente dos dados e são constantemente conferidas e testadas à luz desses</p><p>mesmos dados” (p. 214).</p><p>A pesquisa se inicia com uma pergunta, de forma a direcionar a atenção do</p><p>pesquisador para o objeto de estudo. A coleta de dados pode ser feita por meio</p><p>de entrevistas, observação, grupos focais e diários. Segundo Willig (2013), “[a]</p><p>questão de pesquisa inicial deve servir para identificar, não para fazer suposições</p><p>sobre o fenômeno que interessa ao pesquisador” (p. 72). Ela aconselha que “[a]</p><p>pergunta oriente o pesquisador para a ação e o processo (ex. ‘Como as pessoas</p><p>fazem x’) em vez de estados e condições (ex. ‘O que as pessoas querem?’ ou ‘Por</p><p>que as pessoas fazem x?’)”. Esta pergunta, dependendo do que emerge dos dados,</p><p>pode mudar ao longo da pesquisa.</p><p>A autora (2013, p. 70) diz: “Os princípios básicos da teoria fundamentada en-</p><p>volvem a identificação e a integração progressiva de categorias de significados</p><p>encontrados nos dados”, sendo o produto final a geração de teoria, e acrescenta:</p><p>Para identificar, refinar e integrar categorias e, finalmente, desenvolver a teoria, os</p><p>pesquisadores da teoria fundamentada utilizam várias estratégias-chave, incluindo</p><p>análise comparativa recorrente, amostragem teórica e codificação teórica (WILLIG,</p><p>2013, p. 70).</p><p>Ao analisar os dados, o pesquisador agrupa seus achados em categorias. Uma ca-</p><p>tegoria</p><p>é entendida, segundo definição de Creswell (1998), como uma “unidade</p><p>de informação analisada na pesquisa de teoria fundamentada. Ela pode ser com-</p><p>posta de eventos, acontecimentos e exemplos do fenômeno (Strauss & Corbin,</p><p>1990) “nomeados com pequenos rótulos” (p. 239).</p><p>Após a reunião dos dados, o primeiro passo é examiná-los e separá-los em grupos</p><p>de categorias, ou seja, codificá-los. Essa codificação pode ser feita com destaques</p><p>de pequenos trechos ou de enunciados menores.</p><p>Dörnyei (2007), com base em Strauss e Corbin (1998), descreve três fases da</p><p>codificação de dados:</p><p>Primeiro dividimos os dados em blocos e atribuímos categorias conceituais aos seg-</p><p>mentos de dados (“codificação aberta”). Depois, identificamos as relações entre</p><p>essas categorias (“codificação axial”). Em seguida, explicamos as relações em um</p><p>nível superior de abstração (“codificação seletiva”). Assim, o processo parece ser</p><p>sequencial, movendo-se do descritivo para o abstrato, mas em função da natureza</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 96 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 97</p><p>inerentemente iterativa da pesquisa qualitativa, não seria surpresa se as três fases</p><p>ocorressem simultaneamente.</p><p>O processo de codificação dos dados pode ser feito por linha, períodos, parágra-</p><p>fos ou por ocorrências. Outra opção é focar segmentos maiores.</p><p>Willig (2013) divide os tipos de categoria em descritivas (nível baixo de abstração)</p><p>e analíticas (nível alto de abstração). E afirma: “Nos estágios iniciais de análise,</p><p>a codificação é amplamente descritiva” (p. 70). A fase é também chamada de co-</p><p>dificação aberta, fase durante a qual “o pesquisador, segmentando informações,</p><p>forma categorias iniciais sobre o fenômeno em estudo” (CRESWELL, 1998, p.</p><p>57). Para exemplificar o que é categorização descritiva, Willig (2013, p. 70) diz:</p><p>“Referências à ‘ansiedade’, ‘raiva’, ‘dó’ podem ser agrupadas em uma categoria</p><p>intitulada ‘emoções’”.</p><p>Após essa primeira codificação aberta, a autora aconselha o pesquisador a iden-</p><p>tificar as diferenças entre os itens agrupados em uma categoria e identificar</p><p>subcategorias. Dois exemplos seriam ‘ódio e ciúme’ e ‘alegria e ansiedade’, que</p><p>poderiam emergir após o reexame dos itens inseridos na categoria emoção. Essa</p><p>é a fase que se denomina de codificação axial (STRAUSS; CORBIN, 1998).</p><p>Como explica Charmaz (2006, p. 60), “a codificação axial relaciona categorias</p><p>a subcategorias, especifica as propriedades e dimensões de uma categoria e rea-</p><p>grupa os dados fragmentados durante a codificação inicial para dar coerência à</p><p>análise emergente”.</p><p>Willig (2013, p. 70) ainda diz: “À medida que a análise da teoria fundamentada</p><p>progride, o pesquisador é capaz de identificar categorias em um nível maior de</p><p>abstração” e dá como exemplo a categoria “escape”, que poderia reunir as ações</p><p>de ficar bêbado, correr e escrever poesia, se essas ações “parecem ter como obje-</p><p>tivo distrair o indivíduo para que ele não pense sobre os problemas”.</p><p>Um conselho dado pela pesquisadora é “utilizar palavras ou frases usadas pelos</p><p>participantes do estudo. Isto ajuda o pesquisador a evitar a importação, para a</p><p>análise, de teorias já existentes” (p. 70).</p><p>Após a categorização, os dados devem ser recorrentemente comparados para se</p><p>ter certeza de que foram agrupados nas categorias adequadas. A comparação é</p><p>essencial para se acharem semelhanças e diferenças entre os fatos observados.</p><p>Isso auxilia na precisão da categorização, assegurando a reunião de fenômenos</p><p>semelhantes em uma mesma categoria (STRAUSS; CORBIN, 1990b).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 97 12/09/19 10:41</p><p>98 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>A última fase de categorização é denominada de categorização seletiva. Segun-</p><p>do Corbin e Strauss (1990, p. 14), “[a] codificação seletiva é o processo pelo qual</p><p>todas as categorias são unificadas em torno de uma categoria ‘principal’ e são</p><p>incluídos mais detalhes nas categorias que precisam de mais explicações”. Eles</p><p>acrescentam:</p><p>A categoria central representa o fenômeno central do estudo e é identificada por</p><p>meio de perguntas como: qual a principal ideia analítica apresentada nessa pesquisa?</p><p>Se meus resultados forem conceptualizados em poucas frases, o que eu diria? Sobre o</p><p>que toda ação/interação parece ser? Como posso explicar a variação que vejo entre as</p><p>categorias? A categoria central poderia emergir entre as categorias já identificadas ou</p><p>um termo mais abstrato poderia ser necessário para explicar o fenômeno principal.</p><p>Charmaz (2006, p. 49) sugere as seguintes orientações para a codificação de dados:</p><p>— Tenha abertura.</p><p>— Respeite os limites estabelecidos.</p><p>— Mantenha registros de códigos simples e precisos.</p><p>— Construa códigos pequenos.</p><p>— Preserve as ações.</p><p>— Compare dados com dados.</p><p>— Mova-se rapidamente através dos dados.</p><p>Já Glaser e Strauss (2017, p. 105)16 propõem um método comparativo: “(1) com-</p><p>paração de ocorrências aplicáveis a cada categoria, (2) integração de categorias e</p><p>suas propriedades, (3) delimitação da teoria e (4) escrita da teoria”. Eles explicam</p><p>se tratar de um processo contínuo, no qual cada estágio se transforma no próxi-</p><p>mo, mas continua simultaneamente em operação.</p><p>Segundo Strauss e Corbin (1990b), a coleta de dados e a análise são processos</p><p>inter-relacionados e “a análise começa assim que o primeiro dado é coletado” (p.</p><p>6). O dado pode ser uma pista para coletas subsequentes, como, por exemplo,</p><p>auxiliar na formulação de novas perguntas nas próximas entrevistas. Mas os au-</p><p>tores alertam: “Cada conceito inserido no estudo ou descoberto no processo de</p><p>pesquisa é inicialmente considerado provisório” (p. 7), e acrescentam:</p><p>Cada conceito ganha seu lugar na teoria se estiver repetidamente presente em entre-</p><p>vistas, documentos e observações de alguma forma ou outra — ou se estiver signifi-</p><p>16 Publicado inicialmente em 1967: GLASER, Barney; STRAUSS, Anselm. The Discovery of Groun-</p><p>ded Theory. Chicago: Aldine. 1967.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 98 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 99</p><p>cativamente ausente (isto é, deveria estar presente, mas não está, o que levará à sua</p><p>inclusão nas próximas perguntas).</p><p>A teoria gerada dessa forma não depende de conceitos preexistentes e se funda-</p><p>menta nos dados analisados, isto é, emerge deles.</p><p>Sintetizando o que é o processo de uma pesquisa característica da teoria funda-</p><p>mentada, reproduzo as palavras de Henwood (2008, p. 241), citada por Willig</p><p>(2013, p. 80):</p><p>Reunimos e comparamos dados, mantemo-nos abertos a todos os possíveis entendi-</p><p>mentos teóricos desses dados e desenvolvemos interpretações preliminares sobre eles</p><p>por meio de nossos códigos e categorias emergentes. Em seguida, voltamos ao campo</p><p>e coletamos mais dados para verificar e refinar nossas categorias.</p><p>É importante lembrar, concordando com Charmaz (2005), que nenhuma análi-</p><p>se é neutra. “[O] que conhecemos modela, mas não necessariamente determina</p><p>o que “encontramos” (p. 510) e “os produtos da teorização refletem como o pes-</p><p>quisador agiu sobre aqueles pontos” (p. 510). Como defende a autora,</p><p>o que observamos e ouvimos depende de nossos enquadramentos interpretativos,</p><p>biografias e interesses, assim como do contexto de pesquisa, de suas relações com os</p><p>participantes da pesquisa, das experiências concretas de campo e dos modos de gerar</p><p>e registrar material empírico. Nenhum método qualitativo se baseia na indução pura</p><p>— as perguntas que fazemos sobre o mundo empírico estruturam o que sabemos</p><p>sobre ele (p. 509).</p><p>Outro alerta feito por Charmaz (2006) é não podermos ignorar que a teoria</p><p>fundamentada não é uma metodologia oposta a outras abordagens de análise de</p><p>dados. Na verdade, pode complementá-las.</p><p>Uma última questão a ser examinada é como relatar uma pesquisa que utiliza a</p><p>teoria fundamentada. Corbin e Strauss (1990, p. 17) apresentam sete critérios em</p><p>forma de perguntas para orientar a escrita do relatório final:</p><p>1. Como a amostragem foi selecionada?</p><p>2. Quais categorias principais emergiram?</p><p>3. Quais foram os eventos, incidentes, ações, etc. que indicaram essas catego-</p><p>rias principais?</p><p>4. Com base nas categorias, prosseguiu-se com a amostragem teórica? Isto é,</p><p>como a formulação teórica guiou a coleta de alguns dados?</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 99 12/09/19 10:41</p><p>100 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>5. Quais foram algumas das hipóteses relativas às relações entre categorias? Em</p><p>que base elas foram formuladas e testadas?</p><p>6. Houve casos em que as hipóteses não se sustentavam em relação ao que foi</p><p>realmente visto? Como as discrepâncias foram explicadas? Como elas afeta-</p><p>ram as hipóteses?</p><p>7. Como e por que a categoria principal foi selecionada? A seleção foi repenti-</p><p>na ou gradual, difícil ou fácil? Com base em que foram tomadas as últimas</p><p>decisões analíticas? Como o “poder explicativo” extensivo em relação aos</p><p>fenômenos em estudo e a “relevância” são indicados nas decisões?</p><p>O texto final se enriquecerá se, pelos critérios de Corbin e Strauss (1990), levar-</p><p>mos também em conta a estrutura retórica proposta por Creswell (1998, p. 179).</p><p>Segundo ele:</p><p>• Um estudo inclui as principais perguntas de pesquisa, como ela se desenvol-</p><p>veu e as definições dos termos-chave.</p><p>• O autor inclui a revisão de literatura, mas essa revisão “nem fornece nem</p><p>sugere hipóteses como se faz em pesquisa hipotético-dedutiva” (MAY, 1986,</p><p>p. 149).</p><p>• Escrever a metodologia no início do estudo impõe dificuldades porque ela</p><p>evolui durante o curso do estudo.</p><p>• A seção dos resultados apresenta o esquema teórico.</p><p>• A seção final discute a relação entre a teoria e outro conhecimento existente</p><p>e as implicações da teoria para pesquisas e práticas futuras.</p><p>A seguir, descrevo dois relatos de pesquisa que utilizaram a teoria fundamentada</p><p>com o intuito de deixar mais claro como se faz esse tipo de pesquisa.</p><p>Um exemplo de pesquisa que utilizou a teoria fundamentada é a de Pinto (2012).</p><p>A autora descreve em detalhes a metodologia e apresenta os resultados de seu tra-</p><p>balho sobre as práticas sociais de interação observadas em comentários postados</p><p>nos fóruns online de um curso de oito semanas sobre preparação e produção de</p><p>material didático para o ensino da leitura em língua portuguesa, ministrado em</p><p>um ambiente virtual (ava), no caso a plataforma Moodle.</p><p>Pinto (2012) informa ter coletado 145 comentários e utilizado também notas de</p><p>campo. Após fazer uma codificação aberta, a pesquisadora chegou a seis categorias:</p><p>(a) dúvidas;</p><p>(b) comentários gerais;</p><p>(c) agradecimentos;</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 100 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 101</p><p>(d) reclamações;</p><p>(e) pedidos.</p><p>(f) respostas a dúvidas e comentários.</p><p>Em seguida, foi feita uma categorização axial para selecionar as categorias</p><p>mais relevantes, e a pesquisadora concluiu haver “uma prática de perguntar,</p><p>responder e agradecer muito presente no grupo do AVA” (p. 90), acrescentando:</p><p>“[O]bserva-se também que os acadêmicos parecem valorizar tanto as respostas</p><p>dadas pelos tutores como os comentários feitos pelos colegas, evidenciando que</p><p>a prática social do grupo é de colaboração”.</p><p>Na última etapa, a “codificação seletiva ou redação da teo ria” (p. 92), a autora</p><p>conclui que o recurso fórum auxilia os participantes na construção colaborativa</p><p>do conhecimento e que as práticas sociais podem ser representadas por uma</p><p>grande categoria: aprendizado.</p><p>Outro exemplo vem de Mirzaei, Zoghi e Asl (2017), que investigaram um fenô-</p><p>meno denominado “o platô da aprendizagem de línguas”, tendo como contexto</p><p>a aprendizagem de inglês no Irã. Eles explicam que platô é uma hipótese de</p><p>que os aprendizes não fazem progressos perceptíveis quando chegam ao nível</p><p>intermediário. Foram entrevistados 31 alunos (entre 14 e 24 anos) e, por meio da</p><p>teoria fundamentada, desenvolveu-se uma teoria sobre o platô da aprendizagem</p><p>de línguas. Eles também utilizaram as codificações aberta, axial e seletiva e</p><p>concluíram que três fatores inter-relacionados contribuíam para o platô: variá-</p><p>veis em relação ao aprendiz, à instrução e à abordagem.</p><p>Na codificação aberta, identificaram 102 temas, que foram reexaminados na</p><p>codificação axial e reduzidos a três categorias e suas respectivas subcategorias.</p><p>As variáveis relacionadas ao aprendiz incluem: afeto, cognição, metacognição,</p><p>estratégias de aprendizagem e automatismos linguísticos. As variáveis relacio-</p><p>nadas à instrução incluem currículo e programa de estudos, ação do professor,</p><p>trabalhos e atividades de aprendizagem. Na última categoria, passando por</p><p>problemas, foi incluída apenas uma subcategoria, “experiências desagradáveis</p><p>de aprendizagem”.</p><p>Na fase final, a de codificação seletiva, essas categorias foram reunidas em uma</p><p>categoria central, “influências contribuidoras para o platô”, ou seja, a contribui-</p><p>ção teórica. A teoria proposta por Mirzaei, Zoghi e Asl (2017) sugere que o ponto</p><p>inicial do platô de aprendizagem são as questões relacionadas à instrução. Ele é</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 101 12/09/19 10:41</p><p>102 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>reforçado pelas características do aprendiz e, por último, os problemas (experiên-</p><p>cias desagradáveis) sinalizam que os aprendizes chegaram ao platô.</p><p>Esses dois estudos ajudam a entender os três processos de classificação e, se for de</p><p>interesse do leitor, podem ser acessados na web e lidos de forma mais detalhada.</p><p>4.7. Avaliação de pesquisa qualitativa</p><p>A pesquisa qualitativa é frequentemente julgada com base nos parâmetros de</p><p>avaliação de pesquisas quantitativas: confiabilidade, validade e objetividade.</p><p>Lincoln e Guba (1985) entendem esses critérios como derivados de “axiomas</p><p>convencionais, tais como realismo ingênuo e causalidade linear” (p. 293) e ina-</p><p>dequados para julgar pesquisas em outra perspectiva. Na perspectiva qualitativa,</p><p>não existe uma realidade, mas “um conjunto de construções mentais” (LIN-</p><p>COLN; GUBA, 1985, p. 295).</p><p>Em contraposição aos critérios tradicionais de avaliação de pesquisa, eles ofere-</p><p>cem outros, tidos como mais adequados para uma perspectiva mais qualitativa:</p><p>(1) credibilidade em substituição à validade interna;</p><p>(2) aplicabilidade ou transferibilidade em substituição à validade externa;</p><p>(3) dependabilidade em substituição à confiabilidade;</p><p>(4) confirmabilidade em substituição à objetividade.</p><p>A credibilidade consiste em demonstrar que os resultados da pesquisa e sua</p><p>interpretação são apresentados de forma crível. Lincoln e Guba (1985) ressaltam:</p><p>não devemos nos esquecer de que “os resultados e interpretações são também</p><p>construções” (p. 296). Eles sugerem que a credibilidade pode ser produzida por</p><p>envolvimento prolongado, observação persistente, triangulação e discussão com</p><p>pares, refinamento das hipóteses, suficiência referencial (guardar parte dos dados</p><p>sem analisar e depois voltar a eles para comparar com os resultados) e validação</p><p>dos participantes da pesquisa. A validação pelos participantes é uma oportunida-</p><p>de para corrigir erros de interpretação, acrescentar mais informações e comparar</p><p>insights dos participantes.</p><p>A aplicabilidade se refere à possibilidade de os resultados de pesquisa em um</p><p>contexto serem transferidos ou aplicados a contexto semelhante. Os autores es-</p><p>clarecem que o ônus da aplicação dos resultados em outro contexto não é do</p><p>pesquisador original, mas daquele que está em busca da aplicação.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 102 12/09/19 10:41</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA 103</p><p>A dependabilidade se opõe à ideia de confiabilidade porque parte do pressupos-</p><p>to de que é impossível replicar uma pesquisa, pois nenhum contexto é igual ao</p><p>outro. A replicação de uma pesquisa tem de levar em conta a instabilidade e as</p><p>mudanças nos fenômenos.</p><p>A confirmabilidade tem a ver com a qualidade dos dados que permitem a outro</p><p>pesquisador confirmar os resultados.</p><p>Para que um estudo possa ser avaliado, é importante que o pesquisador — em</p><p>seu relato de pesquisa — descreva com clareza os objetivos, o contexto onde se</p><p>e</p><p>tecnologias.</p><p>1.2.2. Gênero</p><p>Em relação ao gênero, as pesquisas podem ser teóricas, metodológicas, prá-</p><p>ticas, ou empíricas. A pesquisa teórica se propõe a estudar teorias, construir</p><p>ou modificar uma teoria ou ainda contribuir com novos conceitos. A pesquisa</p><p>metodológica é o estudo de métodos e procedimentos de pesquisa. A pesquisa</p><p>prática se caracteriza por intervir no contexto pesquisado se apoiando em co-</p><p>nhecimentos científicos, e a empírica se baseia na observação e em experiên-</p><p>cias de vida.</p><p>1.2.3. Fontes de informação</p><p>Quanto às fontes de informação, a pesquisa pode ser primária, secundária ou</p><p>terciária. A pesquisa primária se baseia em dados coletados pelo próprio pesqui-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 11 12/09/19 10:41</p><p>12 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>sador como, por exemplo, um banco de dados criado por ele, notas de campo,</p><p>gravações feitas com grupos de alunos aprendendo uma língua.</p><p>A pesquisa secundária utiliza dados de pesquisas já divulgadas, o que é típico</p><p>da revisão bibliográfica, parte essencial de toda boa pesquisa. É necessário saber</p><p>o que já foi investigado antes de partirmos para novas pesquisas. A utilização de</p><p>um banco de dados coletados por outro(s) pesquisador(es) é um exemplo de pes-</p><p>quisa secundária. Segundo Brown (1988, p. 1), esse tipo de pesquisa pode gerar</p><p>“insights criativos e produtivos sobre um tópico”.</p><p>A pesquisa terciária se baseia em compilações de fontes primárias e secundárias</p><p>e se utiliza da consolidação de informações, como os catálogos de bibliotecas e</p><p>listas de leitura. Dois bons exemplos são os diretórios de grupos de pesquisa e os</p><p>portais de publicações. O Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil2 é um in-</p><p>ventário permanentemente atualizado dos grupos em atividade no País. Por meio</p><p>desse diretório, podemos localizar os pesquisadores que trabalham com determi-</p><p>nado tema, conferir sua lista de publicações em seus currículos na Plataforma</p><p>Lattes3 (outra forma de pesquisa terciária) e localizar os textos (fonte secundária)</p><p>que nos interessam nos sites dos periódicos.</p><p>Um exemplo de portal bastante utilizado no Brasil é o Portal de Periódicos da</p><p>Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior4 (CAPES). Trata-</p><p>-se, segundo informação do próprio site, de “uma biblioteca virtual que reúne e</p><p>disponibiliza a instituições de ensino e pesquisa no Brasil o melhor da produção</p><p>científica internacional”. Em maio de 2019, o portal contava</p><p>com um acervo de 45 mil títulos com texto completo, 130 bases referenciais, 12</p><p>bases dedicadas exclusivamente a patentes, além de livros, enciclopédias e obras de</p><p>referência, normas técnicas, estatísticas e conteúdo audiovisual.</p><p>1.2.4. Abordagem</p><p>Quanto à abordagem metodológica, a pesquisa pode ser quantitativa, qualitati-</p><p>va ou mista.</p><p>2 CNPq. O que é. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/web/dgp/o-que-e/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>3 Plataforma Lattes. Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>4 CAPES. Missão e objetivos. Disponível em: <http://www.periodicos.capes.gov.br/index.php?option</p><p>=com_pcontent&view=pcontent&alias=missao-objetivos&Itemid=102>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 12 12/09/19 10:41</p><p>O QUE É PESQUISA 13</p><p>Aliaga e Gunderson (2002), citados por Muijz (2004, p. 1), definem a pesquisa</p><p>quantitativa como “explicação de fenômenos por meio de coleta de dados nu-</p><p>méricos usando métodos de base matemática (em particular os estatísticos)”. Ela</p><p>testa hipóteses, realiza experimentos e compara resultados, comprova teorias e</p><p>busca padrões que podem ser generalizados para contextos semelhantes.</p><p>Para Chizzotti (2011, p. 22), a pesquisa quantitativa, muitas vezes entendida</p><p>como sinônimo de experimental, é assim denominada “porque necessita de</p><p>meios quantificáveis para estabelecer o determinismo funcional” (p. 22). O autor</p><p>explica: ela tem como pressuposto ser a natureza “uniforme e logicamente orga-</p><p>nizada” (p. 22) e ser possível “reproduzir um evento, reconstruindo as mesmas</p><p>circunstâncias em que ocorreu e, a partir da constância e frequência que o even-</p><p>to mostrar, fazer predições do que ocorrerá” (p. 22).</p><p>Mas a pesquisa quantitativa não se limita aos experimentos. Existem outros tipos</p><p>de pesquisa que envolvem quantificações, tais como os levantamentos de opinião</p><p>(survey) e os testes psicométricos.</p><p>A pesquisa qualitativa acontece no mundo real com o propósito de “compre-</p><p>ender, descrever e, algumas vezes, explicar fenômenos sociais, a partir de seu</p><p>interior, de diferentes formas” (FLICK, 2007, p. ix). Tais formas incluem análise</p><p>de experiências individuais ou coletivas, de interações, de documentos (textos,</p><p>imagens, filmes ou música), etc. Esse tipo de pesquisa é também chamado de</p><p>pesquisa interpretativa ou naturalística.</p><p>A pesquisa mista, geralmente denominada quali-quanti, se utiliza de métodos</p><p>qualitativos e quantitativos para a coleta de dados, de forma a oferecer melhor</p><p>compreensão do fenômeno estudado. Um exemplo de pesquisa quali-quanti é a</p><p>eleitoral, quando combina levantamentos de opinião por meio de questionários</p><p>ou entrevistas e grupos focais. Além de estimar o resultado da eleição (quanti), os</p><p>grupos focais ajudam a entender o que os eleitores pensam dos candidatos, o que</p><p>os ajuda no planejamento das campanhas.</p><p>1.2.5. Objetivo</p><p>Em relação a seus objetivos, a pesquisa pode ser exploratória, descritiva, explica-</p><p>tiva ou experimental.</p><p>A pesquisa exploratória é um estudo preliminar voltado a familiarizar o pesqui-</p><p>sador com o fenômeno sob investigação. Nela, “o objetivo é ampliar seu conhe-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 13 12/09/19 10:41</p><p>14 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>cimento sobre o tópico escolhido” (LODICO; SPAULDING; VOEGTLE, 2006,</p><p>p. 26). Gonsalves (2003, p. 65) define esse tipo de pesquisa da seguinte forma:</p><p>A pesquisa exploratória é aquela que se caracteriza pelo desenvolvimento e esclare-</p><p>cimento de ideias, com o objetivo de oferecer uma visão panorâmica, uma primeira</p><p>aproximação a determinado fenômeno que é pouco explorado. Esse tipo de pesquisa</p><p>também é denominado “pesquisa de base”, pois oferece dados elementares que dão</p><p>suporte à realização de estudos mais aprofundados sobre o tema.</p><p>Cervo e Bervian (2002, p. 69) a recomendam “quando há poucos conhecimentos</p><p>sobre o problema a ser estudado”.</p><p>A pesquisa descritiva tem como alvo descrever o fenômeno estudado e “não está</p><p>interessada no porquê, nas fontes do fenômeno; preocupa-se em apresentar suas</p><p>características” (GONSALVES, 2003, p. 65). Nas palavras de Cervo e Bervian</p><p>(2002, p. 66), “[a] pesquisa descritiva observa, registra, analisa e correlaciona fatos</p><p>ou fenômenos (variáveis) sem manipulá-los”.</p><p>Esse tipo de pesquisa, segundo Barros e Lehfeld (2000, p. 70), “engloba dois</p><p>tipos: a documental e/ou bibliográfica e a pesquisa de campo”. A pesquisa do-</p><p>cumental é um tipo de pesquisa primária que estuda documentos em forma de</p><p>textos, incluindo a transcrição de textos orais, imagem, som ou textos multimo-</p><p>dais. A pesquisa bibliográfica é secundária e se utiliza de livros e artigos sobre</p><p>determinado tema.</p><p>A pesquisa descritiva se diferencia da exploratória porque, ao contrário dela, já</p><p>parte de informações acumuladas sobre o tema investigado.</p><p>A pesquisa explicativa, definida por Gonsalves (2003, p. 66), “pretende identifi-</p><p>car os fatores que contribuem para a ocorrência e o desenvolvimento de determi-</p><p>nado fenômeno. Buscam-se aqui as fontes, as razões das coisas”. Gil (2008, p. 28)</p><p>esclarece: as pesquisas explicativas “têm como preocupação central identificar</p><p>os fatores que determinam ou que contribuem para a ocorrência dos fenômenos.</p><p>Este é o tipo de pesquisa que mais aprofunda o conhecimento da realidade, por-</p><p>que explica a razão, o porquê das coisas”.</p><p>Finalmente, a pesquisa experimental, também nos dizeres de Gonsalves (2003, p.</p><p>66), “se refere a um fenômeno que é reproduzido de forma controlada, submetendo</p><p>os fatos à experimentação (verificação), buscando,</p><p>realizou a investigação, o suporte teórico, e os procedimentos de geração e aná-</p><p>lise dos dados.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 103 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA</p><p>Ao longo do ano de 2017, publiquei dicas de pesquisa no Facebook e as repro-</p><p>duzo no formato como foram publicadas.</p><p>5</p><p>DicaPesquisa 1. Muitos trabalhos acadêmicos fazem confusão entre tabela</p><p>e quadro. As tabelas apresentam dados numéricos, e os quadros, informações</p><p>textuais. Ambos devem ter título e fonte. Se você é o autor, a fonte pode ser</p><p>“elaborado pelo(a) autor/autora”.</p><p>DicaPesquisa 2. A dica do dia é suporte teórico. Vou citar trabalhos meus nas</p><p>dicas, não por vaidade, e sim porque poderia ofender outros autores. É comum</p><p>encontrarmos, em projetos e outros textos acadêmicos, a seguinte forma de falar</p><p>sobre o suporte teórico. “Meu suporte teórico é Paiva (2015)*, fulano, beltrano”. Ora,</p><p>Paiva (2015) não é um suporte teórico, pois é um texto sobre história da tecnologia.</p><p>Ou ainda, “meu suporte teórico é Paiva (2007)**”. Paiva 2007 não propõe nenhuma</p><p>teoria nova: nem sobre habilidades orais nem sobre narrativas de aprendizagem.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 105 12/09/19 10:41</p><p>106 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 3. Hoje vou falar sobre citação. Sei que todo pesquisador sério</p><p>tem preocupação com plágio, mas há situações em que não cabem referências a</p><p>autores. Vamos ao exemplo. Suponhamos que você esteja escrevendo um texto</p><p>sobre metáforas em propagandas e que já resenhou exaustivamente os conceitos</p><p>que mobilizou para fazer sua análise de dados, como por exemplo, a metáfora</p><p>multimodal, como conceituada por Forceville (2009)*. Na análise, você só deve citar</p><p>Forceville, quando o texto for realmente dele. Explico melhor, não deve escrever</p><p>algo como: “Em 70% das propagandas analisadas, é possível identificar metáforas</p><p>multimodais (FORCEVILLE, 2009)”. Esta afirmação é sua, não de Forceville (2009).</p><p>O leitor sabe que sua análise se baseia nele porque isso já ficou claro no seu texto</p><p>quando você apresentou sua base teórica. Ninguém vai te acusar de plágio nessa</p><p>circunstância.</p><p>*FORCEVILLE, Charles. Non-verbal and multimodal metaphor in a cognitivist</p><p>framework: agendas for research. In: FORCEVILLE, Charles; URIOS-APARISI, Eduardo</p><p>(Eds.). Applications of cognitive linguistics: multimodal metaphor. New York: Mouton</p><p>de Gruyter, 2009, p.19-42.</p><p>O texto fala sobre o desejo de aprender a falar. Ele tem como suporte a teoria do</p><p>caos, que não é uma teoria desenvolvida por mim. Se você vai trabalhar com teoria</p><p>do caos, o correto seria dizer: “Meu suporte teórico é a teoria do caos e me baseio</p><p>nos seguintes autores…”. Sempre recorra a textos sobre a teoria e evite textos de</p><p>segunda mão. Será que Paiva (2007) é a melhor fonte para falar da teoria do caos?</p><p>Ou seria melhor deixar esse texto para a revisão da literatura, mostrando outras</p><p>pesquisas que trabalharam com essa perspectiva teórica?</p><p>Conclusão: ao falar de seu suporte teórico ou referencial teórico, diga qual é a teoria</p><p>que vai dar suporte a sua pesquisa. Explicite quais são os conceitos que você vai</p><p>usar para iluminar seu objeto de estudo.</p><p>*Paiva, V. L. M. O. P. O uso da tecnologia no ensino de línguas estrangeiras: breve</p><p>retrospectiva histórica. In: JESUS, Dánie Marcelo de; MACIEL. Ruberval Franco</p><p>(Orgs.). Olhares sobre tecnologias digitais: linguagens, ensino, formação e prática</p><p>docente. Coleção: Novas Perspectivas em Linguística Aplicada, v. 44. Campinas:</p><p>Pontes Editores, 2015, p. 21-34.</p><p>**Paiva, V. L. M. O. P. As habilidades orais nas narrativas de aprendizagem.</p><p>Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 46, n. 2. p. 165-179, 2007.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 106 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 107</p><p>DicaPesquisa 4. A dica de hoje é bem simples. Não diga que seu objetivo é</p><p>contribuir com as pesquisas na área X. Esse é ou deveria ser o objetivo de qualquer</p><p>pesquisa. O seu objetivo deve dizer com clareza o que você pretende investigar.</p><p>DicaPesquisa 5. O tema de hoje é cronograma. São dois os requisitos para se</p><p>obter o título de mestre ou de doutor: cumprir créditos e fazer uma pesquisa.</p><p>Logo são duas tarefas diferentes e não se inclui, no cronograma, cumprimento de</p><p>créditos. O cronograma é da pesquisa, não de seu curso.</p><p>DicaPesquisa 6. Evite títulos longos e seja objetivo. O título deve ser informativo,</p><p>indicando sobre o que é o seu trabalho. Evite também títulos que induzam o leitor</p><p>a achar que você investigou toda a população do mundo ou do país. Um exemplo</p><p>hipotético seria o título “As dificuldades de leitura de alunos brasileiros” para uma</p><p>pesquisa que investigou apenas as dificuldades de leitura de um grupo de alunos</p><p>em uma única escola. Uma sugestão seria “Dificuldades de leitura: um estudo de</p><p>caso”. Um exemplo de título objetivo é o da tese de Resende (2009) — “Identidade</p><p>e aprendizagem de inglês sob a ótica do caos e dos sistemas complexos”. Se você</p><p>gosta de títulos chamativos ou poéticos, uma solução é colocar dois pontos e, em</p><p>seguida, apresentar um subtítulo que descreva seu trabalho. Um bom exemplo é</p><p>o título da tese de Moura Filho (2005) — “Pelo inglês afora: carreira profissional e</p><p>autonomia na aprendizagem de inglês como língua estrangeira”. Os dois trabalhos</p><p>foram defendidos na UFMG.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 107 12/09/19 10:41</p><p>108 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 7. Normas Gerais de Pós-Graduação da UFMG</p><p>Art. 2° A Pós-Graduação da UFMG abrange Cursos de Especialização, que</p><p>levam à obtenção do Certificado de Especialista, e Cursos de Mestrado e</p><p>Doutorado, nas modalidades Acadêmica e Profissional, que levam, respectivamente,</p><p>à obtenção dos Diplomas de Mestre e de Doutor.</p><p>§ 1° A Especialização tem por objetivo aprofundar a qualificação</p><p>profissional em campo específico ou interdisciplinar do conhecimento, podendo ser</p><p>ofertada nas modalidades presencial, semipresencial ou a distância.</p><p>§ 2° O Mestrado tem por objetivos aprofundar o conhecimento acadêmico e</p><p>profissional, bem como aprimorar a capacidade de realizar pesquisas em área</p><p>específica ou interdisciplinar do conhecimento.</p><p>§ 3° O Doutorado tem por objetivo desenvolver a capacidade de propor e</p><p>conduzir, de forma autônoma, pesquisas originais em área específica ou</p><p>interdisciplinar do conhecimento.</p><p>Sintetizando, a especialização aprofunda conhecimentos, o mestrado é uma</p><p>iniciação à pesquisa, e o doutorado é geração de CONHECIMENTO NOVO.</p><p>DicaPesquisa 8. Hoje quero falar sobre ética e escola pública. Quando se trata de</p><p>pesquisa em sala de aula, a escola pública é a mais escolhida, pois as particulares</p><p>não costumam acolher pesquisadores. Falar mal da escola pública não é ético.</p><p>Se seu objetivo é esse, sugiro que desista e escolha outro. Não podemos ajudar</p><p>a generalizar a crença de que a escola pública é ruim. Há experiências boas e</p><p>desastrosas em qualquer sistema educacional. Um estudo de caso não pode</p><p>manchar a imagem de todas as escolas públicas ou particulares.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 108 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 109</p><p>DicaPesquisa 9. RESUMO. Segundo a ABNT, “o resumo deve ressaltar o objetivo,</p><p>o método, os resultados e as conclusões do documento” e “deve ser composto de</p><p>uma sequência de frases concisas, afirmativas e não de enumeração de tópicos”.</p><p>Indica-se ainda que os resumos de teses e dissertações devem ter de 150 a 500</p><p>palavras e os de artigos de 100 a 250. O resumo deve explicitar os objetivos, a</p><p>metodologia, os resultados e conclusões.</p><p>DicaPesquisa 10. Citações de mais de 3 linhas são indentadas e não se usam aspas.</p><p>DicaPesquisa 11. Hoje inicio uma série de comentários sobre a questão da</p><p>teoria. O referencial teórico ou suporte teórico fornece os conceitos que vão ajudar</p><p>o pesquisador a interpretar seus dados. Se a(s) teoria(as) apresentada(s) não</p><p>dialogar(em) com sua análise, você tem duas opções:</p><p>(1) desapegue-se e jogue fora, pois não faz o menor sentido fazer uma revisão</p><p>teórica e depois não usar nada do que apresentou;</p><p>(2) reveja sua análise e estabeleça o diálogo com a(s) teoria(s) que você escolheu.</p><p>Há alguns casos em que a teoria emerge dos dados, mas isso fica para outro dia.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 109 12/09/19 10:41</p><p>110 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 12. Não confunda teoria com descrições históricas ou reflexões</p><p>ensaísticas sobre um tema. Esses textos até podem te ajudar na introdução de seu</p><p>trabalho, mas teorias são conjuntos de ideias, conceitos ou pressupostos que nos</p><p>ajudam a entender um fenômeno. Vou dar dois exemplos de teoria de forma ligeira</p><p>e incompleta:</p><p>(1) A teoria dos sistemas complexos tem como pressuposto que os sistemas</p><p>complexos adaptativos se constituem de elementos que se inter-relacionam. Outros</p><p>conceitos associados são: os sistemas são abertos (sofrem influência do meio</p><p>externo), se retroalimentam, mudam, se adaptam etc.</p><p>(2) A teoria sociocultural de Vygotsky parte do pressuposto de que a interação</p><p>social é essencial para o desenvolvimento cognitivo. Outros conceitos associados</p><p>são: mediação, zona próxima do desenvolvimento (prefiro essa forma à zona do</p><p>desenvolvimento proximal) etc. (Ver mais em Paiva, 2014*). Assim, se meu suporte</p><p>é (1), vou procurar ver no fenômeno em estudo a inter-relação dos elementos,</p><p>as mudanças, as adaptações etc. Se for (2), vou observar, por exemplo, se a</p><p>colaboração entre os aprendizes gera aprendizagem. Convido meus colegas</p><p>estudiosos de teorias diversas a darem suas contribuições.</p><p>*PAIVA, V. L. M. O. Aquisição de segunda língua. São Paulo: Parábola, 2014.</p><p>DicaPesquisa 13. Não inclua em sua pesquisa uma revisão de tudo o que estudou</p><p>até chegar à escrita do trabalho. Escolha a teoria que realmente vai te ajudar a</p><p>entender o fenômeno escolhido e cite pesquisas anteriores para contextualizar a</p><p>sua. Leia as fontes originais. Citar de segunda mão aquilo que é fundamental para</p><p>seu trabalho é imperdoável. Mas você deve citar as críticas, se houver, e apresentar</p><p>seu posicionamento. Você não precisa concordar com tudo, desde que faça uma</p><p>crítica consistente. Não se esqueça de fazer uma revisão de outros trabalhos no</p><p>Brasil e no exterior sobre o mesmo tema. Cuidado com colchas de retalhos. Não faça</p><p>uma lista de citações. Comente, mostre semelhanças e diferenças, aponte lacunas e</p><p>pontos positivos, use argumentos contra e a favor e fale das controvérsias. Coloque</p><p>sua voz no seu trabalho.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 110 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 111</p><p>DicaPesquisa 14. Junia Zaidam sugeriu que eu desse a seguinte dica: Evite citar</p><p>ipsis litteris sem comentar a citação. Concordo com ela que as citações não podem</p><p>ficar soltas no meio do texto, “solicitando esforço do leitor para fazer a conexão com</p><p>o que o pesquisador quis dizer e/ou por que trouxe aquela citação”.</p><p>DicaPesquisa 15. Não é ético criticar um trabalho que usa uma teoria para falar</p><p>de um fenômeno só porque a teoria que você abraça vê o mesmo fenômeno com</p><p>outra lente. Nada te impede de mostrar as formas distintas como um fenômeno</p><p>é visto, mas não jogue pedra em quem não reza pela sua cartilha. Os trabalhos</p><p>alheios devem ser lidos dentro da perspectiva adotada naquele texto e não pela</p><p>perspectiva de outra teoria. Não use a visibilidade de outro pesquisador para tentar</p><p>conseguir seus 15 minutos de fama. Abraçar uma teoria é muito semelhante a</p><p>abraçar uma religião. Não queira que todos sigam a mesma igreja. E, finalmente,</p><p>cuidado com os modismos. O fato de todo mundo estar trabalhando com X não é</p><p>motivo para criticar quem está trabalhando com Y.</p><p>DicaPesquisa 16. Na revisão bibliográfica, não cite apenas autores estrangeiros.</p><p>Não se esqueça de citar os trabalhos de seu próprio grupo de pesquisa. Inclua</p><p>também os brasileiros que pesquisaram sobre o mesmo tema, especialmente, se</p><p>apresentarem uma boa contribuição. Não cite alguém apenas para bajular.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 111 12/09/19 10:41</p><p>112 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 17. Resista à tentação de se aproveitar do trabalho do outro</p><p>sem a devida citação. Não corra o risco de o próprio autor ou o leitor atento</p><p>perceber que aquele texto foi “chupado” de outro e reproduzido com alguns</p><p>disfarces. Às vezes, um autor consegue sintetizar várias ideias sobre um assunto</p><p>ou listar um bom número de trabalhos sobre um tema em poucas linhas ou</p><p>parágrafos, após muito trabalho para chegar àquela síntese. Se você gostou e</p><p>quer reproduzir, cite o autor que fez essa síntese. Sei que muita gente não o faz</p><p>para evitar a citação de segunda mão, mas o esforço de quem trabalhou merece</p><p>respeito. As citações de segunda mão não são proibidas. O excesso é que é</p><p>ruim. Não se iluda, o autor usurpado e leitores atentos vão perceber o deslize.</p><p>Podem até não reagir, mas você ficará mal na fita. Sugestões de redação para</p><p>esses casos: Fulano/a (ano, p.) apresenta uma lista (exaustiva) sobre pesquisas/</p><p>teorias/trabalhos que…</p><p>Fulano/a (ano, p.) cita os seguintes trabalhos… e eu gostaria de acrescentar</p><p>também ….</p><p>Com base na revisão de fulano/a (ano) sobre X, passo agora a discutir alguns</p><p>dos trabalhos mencionados …</p><p>DicaPesquisa 18. Tenha pena de seu/sua orientador(a). Não envie seu</p><p>trabalho para ele ou ela ler no finalzinho de seu prazo. Faça uma boa revisão</p><p>do texto, pois não é tarefa do orientador fazer revisão textual. Preste atenção</p><p>ao corretor do processador de texto. Um trabalho que chega cheio de marcas</p><p>de correção não atendidas indica que o autor não teve cuidado com o texto.</p><p>O ideal é pedir para alguém revisá-lo antes de o enviar ao/à orientador(a),</p><p>pois assim a atenção dele(a) poderá se concentrar, exclusivamente, no</p><p>conteúdo.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 112 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 113</p><p>DicaPesquisa 19. No momento das revisões bibliográficas, fiquem atentos às</p><p>referências bibliográficas dos textos que vão ler. Vocês vão encontrar muita coisa</p><p>preciosa lá para enriquecer sua pesquisa.</p><p>DicaPesquisa 20. Em que pessoa se escreve um relato de pesquisa? Na linguística</p><p>aplicada, a tendência é usar a primeira pessoa do singular, mas, que eu saiba, não</p><p>existe uma norma sobre isso. É uma questão de estilo. Eu assumo a minha voz no</p><p>texto e uso também a terceira pessoa. Exemplo: os dados revelam, a narradora</p><p>demonstra…</p><p>DicaPesquisa 21. Antes de contratar um revisor ou tradutor para seu artigo, tese</p><p>ou dissertação, procure referências. Esse tipo de trabalho exige muita qualificação.</p><p>Se aparecer algum anúncio aqui, não significa que tem meu aval e nem que o</p><p>profissional é bom ou ruim. Já vi algumas pessoas entrarem em roubada porque um</p><p>amigo(a) se ofereceu para fazer de graça, e o produto final foi um desastre.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 113 12/09/19 10:41</p><p>114 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 22. Cuidado com os vícios de linguagem. Acho que todos nós</p><p>temos apreço por determinadas expressões, mas é bom prestar atenção para evitar</p><p>a repetição que incomoda o leitor ou ouvinte. Dilma, por exemplo, repetia muito</p><p>“veja bem” e o golpista evidentemente abusa do “evidentemente”.</p><p>Em trabalhos acadêmicos, devemos usar a norma culta. Não use “a nível de”. Eu não</p><p>aconselho nem “em nível de”, pois há expressões melhores, como, por exemplo:</p><p>“em relação a”, “no que concerne a”, “no que diz respeito a”. Sei que a língua está</p><p>mudando, mas usar adequadamente os demonstrativos “esse” e “este” é sempre</p><p>bom. Há momentos em que lemos “esse trabalho” e ficamos em dúvida se o autor</p><p>quis dizer “este trabalho” ou está mesmo se referindo a algum trabalho que acabou</p><p>de citar.</p><p>Outros vícios comuns são:</p><p>1. Implica em: Implica não precisa da preposição em, pois “em” (in) já faz parte da</p><p>palavra.</p><p>2. Vai de encontro a: na maioria das vezes em que vejo essa expressão, a pessoa</p><p>está usando no sentido de “vai ao encontro de”. “Vai de encontro a” significa se</p><p>chocar com a opinião do outro, ou seja, entrar em desacordo.</p><p>3. Através (ideia de movimento transversal): melhor usar “por</p><p>meio de” quando a</p><p>ideia é “por intermédio”</p><p>4. Haviam em vez de havia: o verbo haver é impessoal no sentido de existir.</p><p>Não se esqueça também de que o subjuntivo ainda não morreu na norma culta</p><p>e que o gerundismo ainda não entrou na norma culta. Use o subjuntivo (ex. “se a</p><p>tendência se mantiver” e não “se a tendência se manter”) e esqueça o gerundismo</p><p>(ex. “você vai entregar seu trabalho” e não “vai estar entregando”). Evite o/a qual; o</p><p>mesmo como pronome pessoal; fazer uma colocação; como coloca; e excesso de</p><p>“De acordo”.</p><p>DicaPesquisa 23. Em teses e dissertações, coloque as citações traduzidas</p><p>no corpo do texto e o texto original em nota de rodapé. A ABNT recomenda:</p><p>“Quando a citação incluir texto traduzido pelo autor, deve-se incluir, após a</p><p>chamada da citação, a expressão “tradução nossa” entre parênteses.” EX.</p><p>“xxxxxxxxxxxxxx.” (FULANO, ano, v., p. tradução nossa). Em artigos, siga as</p><p>instruções do periódico. Quando são muitas, sempre coloco uma nota na</p><p>primeira ocorrência de citação traduzida e digo que todas as traduções são de</p><p>minha responsabilidade. Quando é uma só, escrevo na nota: Minha tradução</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 114 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 115</p><p>de XXXX (xxx= texto original), ou apenas “Minha tradução”. Acho tão estranha</p><p>a expressão “tradução nossa” ou mesmo “tradução minha”. Apelo aos colegas</p><p>professores de português para explicar isso. Se estou certa eu não sei, mas</p><p>ninguém nunca implicou.</p><p>DicaPesquisa 24. Antes de usar uma sigla, coloque a expressão por extenso na</p><p>primeira vez em que ela aparecer. Um trabalho cheio de siglas pouco conhecidas,</p><p>ou desconhecidas, é muito difícil de ser entendido, mesmo que o autor tenha o</p><p>cuidado devido de colocar a lista de siglas no início do trabalho. Se elas forem</p><p>inevitáveis, que tal criar um marcador de texto para que o leitor não tenha que ficar</p><p>voltando à listagem?</p><p>DicaPesquisa 25. Revisão de literatura é diferente de pesquisa teórica.</p><p>Revisar literatura não é fazer pesquisa teórica, e sim bibliográfica. Uma</p><p>pesquisa teórica é “dedicada a reconstruir teoria, conceitos, ideias,</p><p>ideologias, polêmicas, tendo em vista, em termos imediatos, aprimorar</p><p>fundamentos teóricos” (Demo, 2000, p. 20).</p><p>DEMO, Pedro. Pesquisa e construção do conhecimento: metodologia científica no</p><p>caminho de Habermas. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 115 12/09/19 10:41</p><p>116 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 26. Análise de dados não é uma mera descrição do que você</p><p>observou ou gerou. Os dados devem ser interpretados à luz dos conceitos teóricos</p><p>que você anunciou que iria usar. A análise de dados tem de dialogar com a teoria.</p><p>DicaPesquisa 27. Metodologia é o estudo dos métodos (os procedimentos de</p><p>pesquisa, o como). É comum usarmos metodologia no lugar de métodos. A rigor,</p><p>o capítulo deveria se chamar método, mas a metonímia já está consagrada. Não é</p><p>mais necessário “pedir desculpas” se for usar método(s) qualitativo(s). Isso é coisa</p><p>do passado. Não perca tempo com isso. A pesquisa qualitativa já é muito bem aceita</p><p>em várias áreas. E não precisa se defender também se sua opção for pela pesquisa</p><p>quantitativa. O que importa é você escolher o(s) método(s) adequado(s) aos seus</p><p>propósitos e o(s) descrever para que o leitor entenda como sua pesquisa será (no</p><p>caso de projeto) ou foi desenvolvida em uma monografia, dissertação ou tese.</p><p>DicaPesquisa 28. Tenha dó de seu leitor. Nada pior que ler uma tese ou</p><p>dissertação com uma longa revisão bibliográfica e poucas páginas com a</p><p>contribuição real do autor. O leitor fica louco para saber o que você tem para lhe</p><p>contar, mas fica preso em uma conversa sem fim.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 116 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 117</p><p>DicaPesquisa 29. O fato de você apresentar dados numéricos (ex. número</p><p>de alunos e idades) em sua pesquisa não significa que está fazendo uma</p><p>pesquisa quantitativa ou quanti-quali. A pesquisa qualitativa interpreta os dados</p><p>subjetivamente, mesmo quando se apoia em pressupostos teóricos. É a visão do</p><p>pesquisador. A pesquisa quantitativa interpreta os dados por meio de técnicas</p><p>estatísticas. O problema estudado é quantificado, e os resultados de uma amostra</p><p>são generalizados para uma população maior (ex. pesquisas eleitorais). É possível</p><p>fazer uma pesquisa mista (quanti-quali). Um exemplo, ainda dentro da política,</p><p>é o uso de grupos focais para saber a opinião dos eleitores sobre os candidatos</p><p>indicados na pesquisa de opinião (survey).</p><p>DicaPesquisa 30. Gravar ou observar não são sinônimos de fazer pesquisa</p><p>etnográfica. O método surgiu na antropologia e tem sido apropriado em pesquisas</p><p>na educação e em linguística aplicada, mas raramente as pesquisas ditas</p><p>etnográficas são mesmo etnográficas. Etnografia implica observação participante,</p><p>uma vivência dentro da comunidade estudada e a perspectiva êmica, ou seja, o</p><p>ponto de vista dos participantes.</p><p>Sugiro algumas leituras</p><p>RODRIGUES JÚNIOR, A. S. Ethnography : method only or logic of inquiry in EFL</p><p>research in Brazil? Trabalhos em Linguística Aplicada, v. 51, n.1, p.35-49, jan-jun.</p><p>2012. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tla/v51n1/v51n1a03.pdf</p><p>A etnografia como uma lógica de investigação:</p><p>https://www.academia.edu/2663747/A_etnografia_como_uma_l%C3%B3gica_de_in</p><p>vestiga%C3%A7%C3%A3o?auto=download</p><p>O artigo completo está em GREEN, J.; DIXON, C.; ZAHARLICK, A. A etnografia como</p><p>uma lógica de investigação. Tradução de Adail Sebastião Rodrigues Júnior e Maria</p><p>Lúcia Castanheira. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 42, p. 13-79, 2005 (só</p><p>versão em papel).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 117 12/09/19 10:41</p><p>118 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 31. Cuidado com o autoplágio. Ao gerar artigos ou capítulos de livros</p><p>de sua pesquisa de pós-graduação, não se esqueça de avisar o leitor de que o que</p><p>ele vai ler é uma síntese de sua dissertação ou tese. Confesso que, no início de minha</p><p>carreira acadêmica, eu mesma cometi esse erro. Confira as “Diretrizes básicas para</p><p>a integridade na atividade científica” em http://cnpq.br/diretrizes. O item 7 diz: “Para</p><p>evitar qualquer caracterização de autoplágio, o uso de textos e trabalhos anteriores do</p><p>próprio autor deve ser assinalado, com as devidas referências e citações.”</p><p>Lembre-se também de que seu orientador não é coautor desses trabalhos, a não ser</p><p>que haja contribuições com novos conteúdos e análises. Nesse caso, na introdução,</p><p>avise ao leitor que o trabalho é fruto de sua dissertação ou tese com o acréscimo</p><p>de novas contribuições do segundo autor. Resista à pressão para promover falsa</p><p>coautoria. Isso tem nome: falsidade ideológica. Em tempo: não sou contra coautoria.</p><p>Tenho várias delas, todas reais.</p><p>Vejam os itens 17 e 18 do documento acima citado:</p><p>17. Somente as pessoas que emprestaram contribuição significativa ao trabalho</p><p>merecem autoria em um manuscrito. Por contribuição significativa entende-se</p><p>realização de experimentos, participação na elaboração do planejamento experimental,</p><p>análise de resultados ou elaboração do corpo do manuscrito. Empréstimo de</p><p>equipamentos, obtenção de financiamento ou supervisão geral, por si só não justificam</p><p>a inclusão de novos autores, que devem ser objeto de agradecimento.</p><p>18. A colaboração entre docentes e estudantes deve seguir os mesmos critérios.</p><p>Os supervisores devem cuidar para que não se incluam na autoria estudantes</p><p>com pequena ou nenhuma contribuição nem excluir aqueles que efetivamente</p><p>participaram do trabalho. Autoria fantasma em ciência é eticamente inaceitável.</p><p>DicaPesquisa 32. Cuidado com o achismo. Afirmações precisam de comprovação.</p><p>Evite fazer generalizações se você não pode se apoiar em alguma pesquisa. Por exemplo,</p><p>não diga que a maioria dos professores não utiliza tecnologia em sala de aula. Pode até</p><p>ser verdade, mas é um achismo. Se você tem evidências para a afirmação, cite a fonte.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 118 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 119</p><p>DicaPesquisa 33. Sabe quando você copia a citação de um texto em pdf e ele</p><p>fica todo desformatado? A solução é selecionar o trecho, clicar em “substituir” e</p><p>escrever ^p em “localizar”. Em “substituir por”, apenas dê um espaço e, em seguida,</p><p>clique em “substituir tudo”.</p><p>Ao terminar, vai aparecer a pergunta se é para continuar, marque “não” para evitar</p><p>perder a formatação do resto do documento. Veja a imagem para entender melhor.</p><p>DicaPesquisa 34. OPINIÃO PESSOAL.</p><p>Sou contra o modismo de criação de novos termos para substituir termos já</p><p>consagrados. Três exemplos são: ensinagem, aprendente, ensinante. Sei que</p><p>meus colegas que usam esses termos pretendem dar novas dimensões a ensino e</p><p>aprendizagem, aprendiz e professor. Não os condeno. Vejo seis problemas nessas</p><p>substituições. (1) Não há na maioria dos textos uma justificativa para essa adoção, e o</p><p>leitor nem sempre sabe o que significam. A primeira vez que li “ensinagem”, lembrei-me</p><p>de “engrenagem” e fiquei achando que era ensinar como se fosse uma linha de</p><p>montagem. O termo definitivamente não nos leva à ideia de ensino+aprendizagem. (2)</p><p>O sentido não está na palavra, e é uma ilusão achar que quem lê esses termos dá a eles</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 119 12/09/19 10:41</p><p>120 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>a interpretação que o autor quer. (3) As pessoas adoram modismos e algumas passam</p><p>a adotar os novos termos sem mudar, necessariamente, seus conceitos. Em breve, o</p><p>novo termo se desgasta. (4) O uso desses termos é um problema quando há citação</p><p>de outros autores. Por exemplo, será que o conceito de professor em uma citação é</p><p>diferente do de quem adota “ensinante”? O texto vai usar os dois termos sem uma</p><p>justificativa? (5) Autores traduzidos gostariam de ver seus textos com esses termos nas</p><p>traduções? Eu ficaria muito incomodada. (6) Quando o próprio autor apresenta seu</p><p>texto em um evento em outro idioma, ele não consegue traduzi-lo.</p><p>Mas se sua opção é pelos novos termos, pelo menos justifique e explique o que</p><p>essas inovações lexicais significam para ajudar seu leitor. Lembre-se de que o jargão</p><p>de seu grupo nem sempre é entendido pelos que não pertencem à sua igreja.</p><p>Em tempo: não me perguntem o que significam os termos usados como exemplo</p><p>porque até hoje não os entendi. Já achei explicações diferentes e continuo perdida.</p><p>DicaPesquisa 35. É muito comum o pesquisador finalizar seu trabalho de</p><p>pesquisa e perder o contato com os pesquisados. Isso pode impedi-lo de conferir</p><p>alguns dados. Assim, sugiro que faça um cadastro dos participantes com telefone</p><p>fixo, móvel, e-mail, Facebook, endereço, para você fazer contato se necessário,</p><p>esclarecer alguma informação e também para dar-lhes ciência do seu texto final.</p><p>DicaPesquisa 36. Muitos manuais de pesquisa ainda sugerem o uso de voz</p><p>passiva para demonstrar distanciamento do autor e a primeira pessoa do plural para</p><p>indicar modéstia. Exemplo: “Depois de analisados os dados concluímos que…” Hoje</p><p>não existe mais essa orientação. Há momentos em que o “nós” cai como uma luva,</p><p>especialmente quando queremos envolver o leitor, exemplo “como podemos ver no</p><p>quadro x”. Quanto à voz passiva, a dica é “use com moderação”.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 120 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 121</p><p>DicaPesquisa 37. A dica de hoje pode ser trivial, como me disseram recentemente</p><p>a respeito de outra postagem, mas como me deparo com isso o tempo todo, vou me</p><p>arriscar na trivialidade.</p><p>Desde agosto de 2002, a ABNT recomenda que as citações no texto sejam feitas no</p><p>seguinte formato: Paiva (2016, p. 394) afirma que “a duplicação de mesmo emoji …”</p><p>ou “A duplicação do mesmo emoji é usada para enfatizar a emoção” (PAIVA, 2016,</p><p>p. 394). No entanto, muita gente boa continua usando *Paiva (2016: 394) e *(Paiva,</p><p>2016: 394).</p><p>PAIVA, V. L. M. O. A linguagem dos emojis. Trabalhos em Linguística Aplicada.</p><p>Campinas, v. 2, n. 55, p. 379-399, 2016.</p><p>DicaPesquisa 38. Orientador não é coautor, mas suas contribuições devem</p><p>ser reconhecidas. É muito comum o orientador, ao discutir com o orientando o</p><p>trabalho, trazer ideias inovadoras, que serão incorporadas ao texto. O orientando</p><p>não pode se apropriar das ideias do orientador como se fossem suas. O mesmo</p><p>reconhecimento merece um colega que lê seu trabalho e lhe dá sugestões.</p><p>Nesse caso, o correto é indicar que foi uma informação verbal e colocar uma</p><p>nota de rodapé com a informação. Algumas sugestões são: “Comunicação</p><p>pessoal de fulano, durante sessão de orientação no dia X”/ “Comunicação</p><p>pessoal de fulano recebida por e-mail no dia x”. / “Este conceito foi desenvolvido</p><p>por fulano e ainda não foi publicado”/ “Esta ideia/este procedimento foi</p><p>sugerida(o) por fulano”.</p><p>Veja: NBR 10520 5 Regras gerais de apresentação</p><p>5.5. Quando se tratar de dados obtidos por informação verbal (palestras, debates,</p><p>comunicações, etc.), indicar, entre parênteses, a expressão informação verbal,</p><p>mencionando-se os dados disponíveis, em nota de rodapé.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 121 12/09/19 10:41</p><p>122 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 39. Junior, Filho, Neto não são sobrenomes e sim agnomes,</p><p>usados para diferenciar pessoas da mesma família. Nas referências, eles devem vir</p><p>acompanhados dos sobrenomes. Exemplos: Moura Filho; Gomes Junior, Lima-Neto.</p><p>DicaPesquisa 40. Ao redigir sua dissertação ou tese, vá construindo o sumário</p><p>de seu trabalho. Veja orientações aqui para fazer isso de forma muito prática</p><p>“https://support.office.com/pt-br/article/Criar-um-sum%C3%A1rio-5eaadd8f-</p><p>efa5-4791-84ba-746383b97ecb” ou em “https://support.office.com/pt-br/</p><p>article/Introdu%c3%a7%c3%a3o-a-Sum%c3%a1rios-0af555b1-fa51-4790-be03-</p><p>53f022cc086a?ui=pt-BR&rs=pt-BR&ad=BR”.</p><p>DicaPesquisa 41. Pare de jogar pedra em Descartes e de desvinculá-lo de seu</p><p>tempo. Ele não escreveu para a turma da linguagem e do ensino. Não precisa</p><p>criticá-lo para defender seu peixe. Muita gente adora falar mal do cartesianismo</p><p>sem nunca ter lido os trabalhos de Descartes. Aconselho a leitura de O discurso do</p><p>método e Meditações metafísicas. Sua argumentação sobre a dúvida é sensacional.</p><p>A proposta de Descartes é ainda muito apropriada para determinados tipos de</p><p>pesquisa, especialmente, nas áreas físicas e biológicas. Criticar Descartes dentro de</p><p>um trabalho de nossa área é o mesmo que criticar a álgebra booliana, que também</p><p>não foi escrita para uso nos estudos da linguagem e não tem nada a ver com</p><p>pensamento binário.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 122 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 123</p><p>DicaPesquisa 42. Cuidado com os experimentos. Nem sempre os resultados</p><p>podem ser atribuídos à intervenção. Quando investigamos seres humanos, é muito</p><p>difícil controlar todas as variáveis.</p><p>DicaPesquisa 43. Antes de fazer um experimento, avalie todas as implicações</p><p>éticas. Um experimento envolve um grupo de controle e um grupo experimental.</p><p>Este último sofre uma intervenção e é comparado ao primeiro. É aí que mora o</p><p>perigo em contextos educacionais, pois não é ético privar o grupo de controle de</p><p>uma intervenção (ex. uso de um material inovador) que poderia lhe ser benéfica.</p><p>DicaPesquisa 44. O objetivo de uma pesquisa não deve ser verificar se os</p><p>conceitos de uma teoria estão presentes nos dados, e sim lê-los à luz dos conceitos</p><p>dessa teoria para entender o objeto de estudo. Exemplo: o objetivo não deve ser</p><p>verificar se o dialogismo (conceito desenvolvido pelo filósofo Mikhail Bakhtin) está</p><p>presente em um texto, mas sim como esse texto articula várias vozes.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 123 12/09/19 10:41</p><p>124 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 45. Fazer uma pesquisa teórica não é uma tarefa fácil, mas é</p><p>possível. Pedro Demo (1995, p. 13) a define como aquela “dedicada a formular</p><p>quadros de referência, a estudar teorias, a burilar conceitos”. Eu acrescento que</p><p>uma pesquisa teórica pode aprimorar uma teoria, contrapor teorias e até mesmo</p><p>mostrar que dada teoria não se</p><p>sustenta.</p><p>DEMO, Pedro. Metodologia científica em ciências sociais. 3. ed. São Paulo: Atlas,</p><p>1995.</p><p>DicaPesquisa 46. Os resumos de textos acadêmicos devem apresentar os</p><p>objetivos da pesquisa, o suporte teórico, o método de pesquisa, os resultados e</p><p>conclusões. A rigor, não devem ser citados autores e obras.</p><p>DicaPesquisa 47. Até três autores, é necessário inserir os três nas referências.</p><p>Quando uma obra tem quatro ou mais autores, menciona-se o primeiro seguido</p><p>de et al. Ex: PAIVA, V. L. M. O. et al. Leitura em inglês na rede: a trajetória do projeto</p><p>Ingrede. In: Educação & Tecnologia, v. 17, n. 3, p. 20-37, 2012. Disponível em:</p><p><https://seer.dppg.cefetmg.br/index.php/revista-et/article/view/478/446>. Acesso</p><p>em: 17 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 124 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 125</p><p>DicaPesquisa 48. Para não identificar os participantes, alguns pesquisadores</p><p>usam números e outros pseudônimos. Eu sugiro que peçam aos participantes para</p><p>escolherem seus pseudônimos.</p><p>DicaPesquisa 49. Terminada a tese ou a dissertação, produza artigos e publique</p><p>para divulgar sua pesquisa. Não se esqueça de mencionar que o artigo teve</p><p>origem em sua tese ou dissertação. Mas seja humilde e não ache que todo mundo</p><p>é obrigado a te citar. Se você publicar em bons periódicos, participar de eventos e</p><p>tiver, realmente, algo inovador e que não seja repetição do que já está amplamente</p><p>dito, a comunidade acadêmica vai reconhecer seu mérito.</p><p>DicaPesquisa 50. Como paginar um trabalho sem numerar a capa, páginas iniciais</p><p>e o sumário? Posicione o cursor na página onde dever ser iniciada a numeração</p><p>e clique em “Layout de página”. Em seguida, clique em “quebras” e depois em</p><p>“próxima página”. Depois clique duas vezes no início ou no final da página para</p><p>abrir cabeçalhos e rodapés. Clique em “Ir para cabeçalho” e depois em “Vincular ao</p><p>anterior” para desvincular esta página das demais. Repita a mesma operação com</p><p>o rodapé. Depois é só inserir a número de páginas e os números não aparecerão na</p><p>página anterior. Se seu documento tiver capa, vá em formatar número de páginas e</p><p>insira em “iniciar em”: o número 2.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 125 12/09/19 10:41</p><p>126 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 51. Um problema recorrente nos textos acadêmicos é sobrarem</p><p>ou faltarem itens nas referências bibliográficas. Atire a primeira pedra quem nunca</p><p>passou por isso. Sugestão: ao reler seu texto, marque o nome de cada autor e clique</p><p>em localizar para ver se ele está nas referências. Se estiver, marque em amarelo ou</p><p>outra cor. Ao terminar a releitura, veja o que ficou sem marcar e faça a localização a</p><p>partir desse item. Se você prefere ler em papel, use um marcador de texto para marcar</p><p>os autores no texto e nas referências. Assim fica fácil ver se faltou ou sobrou alguém.</p><p>DicaPesquisa 52. Na introdução de seu trabalho, anuncie logo a seu leitor o que é</p><p>o seu trabalho. O leitor fica agoniado quando vai sendo enredado em uma conversa</p><p>sem fim, que não lhe indica aonde aquilo vai chegar.</p><p>DicaPesquisa 53. Uma grande frustração sofrida por todos nós é procurar</p><p>um artigo e descobrir que ele não está disponível na web, e o periódico não</p><p>está no portal da CAPES. No entanto, hoje é muito fácil descobrir o contato dos</p><p>pesquisadores com uma busca no Google, em redes acadêmicas como o LinkedIn,</p><p>o Academia.edu ou mesmo em redes sociais. Vale a pena tentar solicitar o texto.</p><p>A maioria colabora e envia. Mas não seja invasivo, não crie intimidade, tentando</p><p>discutir seu trabalho ou pedindo para avaliar seu projeto ou seu texto. Isso a gente</p><p>pede ao orientador ou a uma pessoa com quem tenhamos bastante intimidade. Se</p><p>se tratar de um livro, não coloque o autor em situação constrangedora, pois ele tem</p><p>compromisso com a editora que detém os direitos autorais. Neste caso, o melhor é</p><p>comprar o livro, procurá-lo na biblioteca ou consegui-lo emprestado.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 126 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 127</p><p>DicaPesquisa 54. Ao terminar sua dissertação ou tese, verifique se não elencou</p><p>objetivos diferentes ao longo do trabalho. É muito comum aparecer um objetivo na</p><p>introdução, outro na metodologia ou em outras partes do texto.</p><p>DicaPesquisa 55. Para mestrado ou doutorado, a expectativa é que você</p><p>apresente um projeto de pesquisa e não de ensino. Apenas melhorar uma</p><p>prática pedagógica não se caracteriza como ação de pesquisa, e sim de ensino.</p><p>Um projeto de pesquisa visa investigar um fenômeno e responder a uma ou</p><p>mais perguntas de pesquisa. Você até pode melhorar uma prática pedagógica,</p><p>mas precisa ter objetivos, como por exemplo, investigar se essa prática aumenta</p><p>o desempenho dos alunos, se aumenta a motivação, etc. Não basta descrever</p><p>as aulas e atividades.</p><p>DicaPesquisa 56. Falsa colaboração não se dá apenas por pressão de quem tem</p><p>mais poder; pode acontecer também por pacto corrupto. Não aceite nenhuma</p><p>proposta do tipo “você coloca meu nome no seu artigo e eu coloco o seu no meu”.</p><p>Ou ainda, você me cita e eu te cito.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 127 12/09/19 10:41</p><p>128 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 57. Desapegue-se de sua bibliografia do coração se ela não for</p><p>relevante para o texto que você está escrevendo. Só cite autores que você admira se</p><p>o trabalho deles dialogar com o seu e se o texto não estiver muito datado. Verifique</p><p>se não há contribuição mais recente e mais atualizada. Há citações que não cabem</p><p>em determinado texto, e tudo indica que é uma questão de hábito automático e</p><p>apego do escritor. Há outras que estão datadas porque o conhecimento avança e</p><p>nem o próprio autor defende mais aquilo.</p><p>DicaPesquisa 58. Insira a transcrição dos dados de sua dissertação ou tese</p><p>em um apêndice ou, se forem muitos, em um pen-drive para que a banca possa</p><p>consultá-los. Não aconselho mais arquivo em CD, pois nem todos os computadores</p><p>hoje, infelizmente, têm leitores de CD-ROM.</p><p>DicaPesquisa 59. Na conclusão de seu estudo, retome os objetivos e/ou suas</p><p>perguntas de pesquisa e faça uma síntese de seus achados. É também o momento</p><p>de avaliar a importância de seu estudo e suas contribuições. Mas redija essa parte</p><p>com modéstia para não cair no ridículo. Aponte também as limitações da pesquisa e</p><p>faça sugestões para pesquisas futuras.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 128 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 129</p><p>DicaPesquisa 60. Ao descrever uma teoria, explicite quais são os pressupostos</p><p>teóricos invocados como suporte de sua pesquisa, caso opte por não usar</p><p>todos. Defina todos os conceitos teóricos que você vai mobilizar para o</p><p>desenvolvimento de seu estudo. Quando escolhemos uma teoria, temos de</p><p>escrever sobre ela, fornecendo uma visão geral e definindo os conceitos, mas</p><p>pode acontecer de você eleger apenas um dos pressupostos. Por exemplo,</p><p>a teoria da complexidade tem vários pressupostos teóricos, mas você pode</p><p>escolher trabalhar só com “emergência”, por exemplo. Esse conceito deve</p><p>merecer mais atenção e ser aprofundado. Diga ao seu leitor que você vai</p><p>privilegiar esse conceito para ele não ficar na expectativa de encontrar outros</p><p>conceitos na análise dos seus dados.</p><p>DicaPesquisa 61. Quantidade não é sinônimo de qualidade. Teses e dissertações</p><p>muito longas só servem para torturar os examinadores. Evite longas introduções,</p><p>principalmente quando elas repetem o já dito exaustivamente, evite o lugar-comum.</p><p>Evite aquele discurso que defende a importância de X e Y com as mesmas frases</p><p>feitas que estão por toda parte.</p><p>DicaPesquisa 62. Sabe quando você quer usar uma imagem em seu trabalho, mas</p><p>não tem a fonte? Use a busca reversa no Google para encontrá-la.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 129 12/09/19 10:41</p><p>130 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 63. Uma das coisas que dão a maior aflição quando lemos um</p><p>trabalho é ficar procurando todos os itens prometidos. Por exemplo, o pesquisador</p><p>escreve: “são cinco as características…”; “Fulano sugere seis passos…”.</p><p>O leitor grava</p><p>o número e espera encontrar todos os itens, e eles não aparecem. Sugiro que use</p><p>numeração (1, 2, 3 ou a, b, c) toda vez que registrar a existência de número de itens.</p><p>Isso ajuda o escritor na organização do texto e o leitor no acompanhamento de sua</p><p>argumentação.</p><p>DicaPesquisa 64. Uma fase importante da pesquisa é a divulgação de resultados</p><p>parciais ou finais em eventos acadêmicos. O público que vai te assistir merece</p><p>respeito e espera que você tenha algum resultado de pesquisa para apresentar. Se</p><p>você tem apenas um projeto, não se inscreva como apresentador. Congressos não</p><p>são locais para apresentação de projetos, e sim de divulgação de resultados.</p><p>DicaPesquisa 65. Os eventos acadêmicos são momentos de aprendizagem e de</p><p>muitas oportunidades de criação de redes acadêmicas. Por isso, não vá ao evento</p><p>só para ouvir sua própria voz. Assista os outros trabalhos e se enriqueça com o que</p><p>o congresso tem a te oferecer. Se você vai com patrocínio de sua escola ou de uma</p><p>agência de fomento, lembre-se de que a verba não foi destinada para turismo. Deixe</p><p>para fazer turismo nos horários que não coincidam com a programação do evento.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 130 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 131</p><p>DicaPesquisa 66. A dica de hoje atende ao pedido de um amigo e vale para</p><p>apresentação de trabalhos em eventos e para defesas. Por segurança, leve sua</p><p>apresentação em dois pen-drives e a salve nas nuvens (ex. em sua conta de e-mail).</p><p>Leve um apoio em papel. Chegue mais cedo e confira se o equipamento de</p><p>projeção está funcionando. No caso de uso de Skype ou de outro tipo de tecnologia</p><p>para transmissão a distância (webex, RNP), teste a conexão.</p><p>DicaPesquisa 67. Ao apresentar seu trabalho, não faça longas introduções e evite</p><p>digressões. O tempo é curto, e não devemos invadir o espaço reservado para o</p><p>próximo apresentador ou para o término da sessão. Vá logo ao ponto: objetivo(s),</p><p>rápida contextualização da pesquisa, método(s) de investigação e resultados. Se</p><p>não tiver resultados, você está no lugar errado. Fico aflita vendo o tempo passar e</p><p>nada do apresentador falar da pesquisa. Aí alguém avisa que restam cinco minutos</p><p>e é aquela correria, pula slides, fala correndo, e o essencial fica sem a atenção</p><p>merecida. Quem nunca viu esse filme?</p><p>DicaPesquisa 68. Planeje sua apresentação. Produza poucos slides e, de</p><p>preferência, crie seu próprio design (dica de amanhã). Utilize um design sem</p><p>elementos de distração do leitor. Lembre-se de que a apresentação deve conter</p><p>apenas as ideias principais. Não se faz transposição de um artigo inteiro. No máximo,</p><p>um slide a cada dois minutos de apresentação. Menos é ainda melhor. Insira pouco</p><p>texto e use FONTE GRANDE (no mínimo fonte 20, mas o ideal é 28 e fonte maior para</p><p>os títulos). Lembre-se de que uma boa imagem vale mais que 1.000 palavras. Use</p><p>fotos, imagens, diagramas, quadros, mas não transponha aquela tabela ou quadro</p><p>com fonte 11 ou 12 e nem a lista de referências para um slide porque ninguém vai</p><p>conseguir ler. Se for adequado, um pequeno vídeo vai enriquecer sua apresentação.</p><p>Se for tão importante assim, imprima e distribua sua apresentação à plateia. Não use</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 131 12/09/19 10:41</p><p>132 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>pirotecnia. Muita animação só serve para deixar a plateia tonta. Finalmente, lembre-</p><p>-se de que a apresentação não é para ser lida. Os slides devem ser apenas um apoio</p><p>para você desenvolver seu raciocínio e um suporte visual para você se conectar</p><p>com a plateia. Eu costumo colocar meus slides no slideshare e compartilhar o</p><p>endereço no primeiro slide.</p><p>Se você tem pouca experiência em apresentações, ensaie antes.</p><p>Se você foi convidado pelo evento, coloque o logotipo do evento, pelo menos no</p><p>primeiro slide. Não se esqueça também da referência à sua instituição e à agência</p><p>de fomento que te financia para estar naquele evento.</p><p>DicaPesquisa 69. Veja como criar um modelo personalizado do PowerPoint:</p><p><https://support.office.com/pt-br/article/Criar-um-modelo-do-PowerPoint-</p><p>254a0db6-1311-4a98-b829-e09b5019512b>;</p><p><https://blog.hubspot.com/marketing/easy-powerpoint-design-tricks-ht#sm.0001ip</p><p>nnv1pmhdz5q2017xw1pbf8k>;</p><p><https://support.office.com/en-us/article/Basic-tasks-for-creating-a-PowerPoint-</p><p>presentation-efbbc1cd-c5f1-4264-b48e-c8a7b0334e36>.</p><p>DicaPesquisa 70. Um simpósio reúne vários trabalhos de especialistas que</p><p>trabalham com o mesmo tema. Não se inscreva em um simpósio apenas para</p><p>apresentar seu trabalho e ir embora. Quem participa espera contribuições dos demais.</p><p>Os eventos me inspiram e aprendo muito. Fico impressionada como alguns jovens se</p><p>iniciando na pesquisa sem demonstrar interesse em ouvir os trabalhos dos colegas ou</p><p>mesmo de pesquisadores experientes. Apresentam o seu trabalho e vão embora.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 132 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 133</p><p>DicaPesquisa 71. Não seja arrogante ao apresentar seu trabalho. Você não precisa</p><p>destruir o trabalho de nenhum colega para defender seu ponto de vista. Lembre-se de</p><p>que há sempre muitos olhares diferentes para o mesmo objeto. Não insinue que a plateia é</p><p>ignorante e que não tem suas mesmas leituras. É muito mais elegante dizer: “Provavelmente</p><p>vocês conhecem o último livro/artigo de fulano, mas gostaria de lembrar que…” do que</p><p>lamentar que as pessoas não têm as leituras que você gostaria que elas tivessem.</p><p>DicaPesquisa 72. Ao final de palestras e apresentações há, geralmente, um tempo para</p><p>perguntas. Não se aproveite desse tempo apenas para demonstrar seu conhecimento</p><p>e fazer outra palestra para complementar a fala do convidado. Você pode até discordar</p><p>do palestrante e manifestar isso educadamente, mas o que a plateia espera — e o</p><p>palestrante também — são solicitações de esclarecimentos, perguntas ou “provocações”</p><p>que instiguem o apresentador a falar mais sobre o tema da palestra.</p><p>DicaPesquisa 73. Se seu trabalho foi recusado para ser apresentado em um</p><p>evento ou publicado em uma revista, procure avaliar bem seu resumo/artigo antes</p><p>de sair jogando pedra nos organizadores ou editores. Congressos e revistas contam</p><p>com pelo menos dois pareceristas para avaliarem os trabalhos. Em caso de duas</p><p>recusas, um terceiro é acionado. Se você achar que foi realmente injustiçado(a),</p><p>tente entrar com um recurso EDUCADO e aponte suas discordâncias dos pareceres.</p><p>Se não tiver recebido um parecer, solicite esse documento. Se serve de consolo, eu</p><p>já tive trabalhos recusados nas duas modalidades. É assim nossa vida acadêmica.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 133 12/09/19 10:41</p><p>134 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 74. Infelizmente, as mesas-redondas foram desvirtuadas em nossos</p><p>eventos. Reproduzo a definição de mesa-redonda da Wikipedia, que eu abono: “Um</p><p>tipo de reunião entre pessoas, onde se discute um tema ou assunto, sobre o qual</p><p>todos os participantes têm o direito de manifestar suas opiniões de forma democrática,</p><p>simbolizado por uma mesa-redonda”. Esse debate entre os apresentadores nunca</p><p>acontece. Adoraria se os eventos apresentassem mesas-redondas de verdade, com</p><p>pontos de vista diferentes sobre um tema, e não sessões de comunicações plenárias.</p><p>DicaPesquisa 75. Só se inscreva para um evento se você tiver certeza de que</p><p>poderá ir. Se seu trabalho foi aceito e você não puder comparecer por algum</p><p>motivo, avise imediatamente à coordenação do evento. Nada mais chato do que</p><p>chegar para uma sessão de comunicação cheia de buracos porque as pessoas não</p><p>se deram ao trabalho de avisar que não estariam presentes. Os organizadores não</p><p>merecem ver o evento criticado por culpa dessas ausências.</p><p>DicaPesquisa 76. Esta semana vou me dedicar ao tema publicação de artigos em</p><p>periódicos acadêmicos.</p><p>Antes de enviar um artigo para publicação, observe as normas do periódico</p><p>escolhido. As orientações para publicação costumam ser muito semelhantes, mas</p><p>há variações. Leia-as com atenção e faça as modificações necessárias para que seu</p><p>texto atenda às normas.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 134 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 135</p><p>DicaPesquisa 77. O Qualis Periódicos é um instrumento de avaliação anual da</p><p>produção de artigos dos professores e alunos da pós-graduação brasileira. Isso</p><p>significa que se ninguém publicar em uma revista em um ano, ela não aparecerá na</p><p>lista daquele ano. Além disso, a classificação pode variar de ano para ano. Logo, é</p><p>urgente deixar de usar esse instrumento para avaliar a produção de candidatos em</p><p>concursos de todos os tipos. Para entender melhor, leia o artigo “Dez coisas que</p><p>você deveria saber sobre o Qualis” (http://ojs.rbpg.capes.gov.br/index.php/rbpg/</p><p>article/view/947).</p><p>DicaPesquisa 78. Se você está começando a sua vida acadêmica, leia muito antes</p><p>de tentar publicar. Comece suas leituras pelos periódicos consolidados, como os</p><p>que estão na base Scielo (http://www.scielo.br/). As leituras te ajudarão a entender</p><p>como é o gênero artigo acadêmico e como se relata uma pesquisa.</p><p>DicaPesquisa 79. Antes de submeter um artigo para publicação se pergunte.</p><p>O que eu escrevi é novidade ou várias pessoas já falaram sobre isso antes? Estou</p><p>falando o óbvio? Se a resposta for sim, não submeta. Um bom texto precisa oferecer</p><p>alguma contribuição relevante para o leitor.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 135 12/09/19 10:41</p><p>136 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 80. Se você não domina a(s) língua(as) exigidas para os resumos do</p><p>artigo a ser submetido para publicação, contrate um tradutor competente. Jogar o</p><p>texto em português no Google tradutor só funciona para quem conhece a língua e</p><p>consegue fazer as correções necessárias. Não cause má impressão com um abstract</p><p>ou um resumen mal escrito.</p><p>DicaPesquisa 81. No link a seguir, você encontrará uma lista imensa de periódicos</p><p>na área de Letras e Linguística.</p><p><https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/</p><p>veiculoPublicacaoQualis/listaConsultaGeralPeriodicos.jsf>.</p><p>Você pode visitar as páginas na web para conhecê-los melhor.</p><p>DicaPesquisa 82. Muito cuidado ao transformar sua tese ou dissertação em um</p><p>ou mais artigos. Em primeiro lugar, informe o leitor de que seu artigo é uma síntese</p><p>da tese, dissertação ou de um de seus capítulos. Isso evita acusação de autoplágio.</p><p>Os pecados mais comuns são: textos sem a devida coesão e coerência devido</p><p>aos cortes mal editados, a menção a capítulos que se transformaram em seções, a</p><p>retirada de autores sem fazer o mesmo nas referências. Não se esqueça também de</p><p>que seu/sua orientador(a) não é seu/sua coautor(a), mas merece um agradecimento</p><p>no(s) artigo(s) gerados de trabalho por ele ou por ela orientado.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 136 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 137</p><p>DicaPesquisa 83. Escreva de forma objetiva. Evite períodos longos, cheios de</p><p>orações subordinadas e inversões que dificultem a identificação do sujeito.</p><p>DicaPesquisa 84. Antes da submissão de um artigo para publicação, faça uma</p><p>boa revisão e peça sempre a um amigo para ler seu texto. Quando eu falo amigo,</p><p>é amigo de verdade e não amigo de Facebook. Esse tipo de favor só é feito para</p><p>um amigo com quem você tem intimidade. Ler e avaliar um artigo demanda</p><p>muito tempo e trabalho. Não constranja pesquisadores com quem você não tem</p><p>intimidade com esse tipo de solicitação.</p><p>DicaPesquisa 85. Ao escolher um periódico para submeter sua publicação,</p><p>verifique se ele possui conselho editorial com pesquisadores de várias instituições,</p><p>se os editores cuidam da periodicidade, se dão acesso à revista na web e se ela</p><p>é indexada em mais de uma base de dados. Dê preferência aos periódicos que</p><p>incluam data de recebimento e de aprovação de cada artigo.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 137 12/09/19 10:41</p><p>138 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 86. Você terá mais chance de conseguir ter um texto aceito para</p><p>publicação se for um relato de pesquisa. Um ensaio só é publicável se o autor</p><p>demonstrar muito conhecimento sobre o tema e conseguir problematizar, analisar e</p><p>avaliar o tema de forma crítica e original.</p><p>DicaPesquisa 87. Se seu artigo foi aceito com correções obrigatórias, revise com</p><p>cuidado e só rejeite revisar aquilo que você considera ser impossível. Apresente</p><p>uma forte justificativa para manter o trecho não revisado.</p><p>DicaPesquisa 88. Ao contrário de outras áreas, não costumamos pagar para</p><p>publicar em periódicos. Só pague para ser publicado se for um periódico</p><p>internacional de grande impacto na sua área. Desconfie das editoras predatórias</p><p>que só querem o seu dinheiro.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 138 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 139</p><p>DicaPesquisa 89. Se você for convidado para publicar sua tese ou dissertação por</p><p>uma dessas editoras caça-níqueis, avalie se vale a pena gastar tanto dinheiro que,</p><p>dificilmente, retornará para seu bolso. Uma editora de peso não vai te cobrar se seu</p><p>texto for vendável. Se você quer realmente ser lido, transforme sua tese em um texto</p><p>mais leve, faça um e-book e o disponibilize gratuitamente na web.</p><p>DicaPesquisa 90. Você sabia que é possível publicar um e-book de graça</p><p>na Saraiva e na Amazon? Acho que é uma boa saída para transformar sua</p><p>tese ou dissertação em livro. Veja como fazê-lo em: <http://www.saraiva.</p><p>com.br/publique-se e em https://kdp.amazon.com/signin?language=pt_</p><p>BR&ref_=kdpgp_p_br_psg_kw_ad42.</p><p>Outra opção é http://www.lulu.com/create/ebooks>.</p><p>DicaPesquisa 91. Se você é parecerista de uma revista, tenha dó do editor e tente</p><p>agilizar os pareceres para não atrasar o serviço de editoração. Uma revista bem</p><p>avaliada não pode demorar a publicar os trabalhos aceitos.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 139 12/09/19 10:41</p><p>140 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 92. Se você é editor de uma revista, zele pela agilidade dos</p><p>pareceres. Não hesite em substituir pareceristas que demoram meses para emitir</p><p>seus pareceres. Em uma reunião do Scielo onde todos os editores reclamavam</p><p>dos pareceristas, ouvi um conselho interessante: convidem jovens pesquisadores</p><p>para os conselhos editoriais. Eles provavelmente vão colaborar com mais rapidez.</p><p>Mas isso nem sempre funciona. Nem todo jovem pesquisador fará a avaliação</p><p>com agilidade. Durante os dezesseis anos em que fui editora, atesto que alguns</p><p>pesquisadores renomados eram bastante ágeis para enviar os pareceres. Entendo</p><p>que é uma questão de organização dos pareceristas. Enfim, uma revista só funciona</p><p>com essa ajuda importante.</p><p>DicaPesquisa 93. Se você é editor de uma revista, mantenha a página web do</p><p>periódico atualizada e com os artigos visíveis assim que forem publicados. Exigir</p><p>inscrição e senha para acesso aos artigos não contribui para lhes dar visibilidade.</p><p>DicaPesquisa 94. Se você é editor de uma revista, sugiro que adote um sistema</p><p>semelhante ao ahead of print, como faz o Scielo. “…Ahead of Print (AOP) publica</p><p>artigos separadamente antes da composição dos números. Quando o conjunto</p><p>dos artigos estiver publicado compõe-se o número correspondente. O objetivo é</p><p>contribuir para o avanço da pesquisa científica por meio da rápida comunicação</p><p>dos resultados” (http://www.scielo.org/local/content/pdf/6_.pdf).</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 140 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 141</p><p>DicaPesquisa 95. Se você é editor de uma revista e vive recorrendo a pareceristas</p><p>ad hoc*, sugiro que amplie o conselho editorial. Não é justo pareceristas trabalharem</p><p>regularmente para o periódico sem ter seu nome incluído na lista de pareceristas.</p><p>Durante anos, fui parecerista de uma revista sem saber que meu status era ad hoc. Só</p><p>descobri quando me enviaram um atestado. Daí para a frente, não colaborei mais com</p><p>aquele periódico, pois quem colabora regularmente não deveria ser considerado ad hoc.</p><p>Entendo que só se deve recorrer a pareceristas ad hoc quando o tema for muito específico</p><p>e não houver ninguém que realmente possa fazer o parecer sobre aquele tema.</p><p>*Ad hoc significa “para este propósito”.</p><p>DicaPesquisa</p><p>96. Os e-mails padrão do Sistema Eletrônico de Editoração de</p><p>Revistas (SEER) sempre me incomodam. Eles podem e devem, em minha opinião, ser</p><p>mudados. Os textos que são gerados pelo sistema invertem os papéis, de forma que o</p><p>parecerista é quem agradece pelo serviço prestado. Quem deve agradecer é o editor</p><p>que solicita o serviço e não quem faz o serviço gratuito. Eu sempre retiro aquela parte</p><p>que diz “agradeço lembrar-se de mim…” ou “agradeço a oportunidade”. É uma simples</p><p>questão de pragmática. Quando se faz um favor, quem agradece é quem o recebe.</p><p>DicaPesquisa 97. Se você é editor de uma revista que faz números temáticos, anuncie</p><p>os temas com bastante antecedência para conseguir a submissão de bons textos.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 141 12/09/19 10:41</p><p>142 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 98. Objetivos X Perguntas de pesquisa</p><p>Um problema de pesquisa deve ser formulado com uma pergunta de pesquisa, por</p><p>exemplo, “Qual é o melhor aplicativo de celular para aprender o idioma x?”. Toda</p><p>pesquisa deve ter um objetivo geral que traduza aquilo que você pretende alcançar com</p><p>sua investigação. Já os objetivos específicos detalham o que você vai fazer para atingir</p><p>esse objetivo. Por exemplo, um projeto pode ter como objetivo geral “Avaliar aplicativos</p><p>de celular para a aprendizagem de determinada língua”. Os específicos podem ser:</p><p>catalogar os aplicativos/descrever cada aplicativo/comparar os aplicativos etc. A</p><p>diferença básica entre objetivos específicos e perguntas de pesquisa é que os primeiros</p><p>são escritos na afirmativa e os últimos na interrogativa. Assim os objetivos acima seriam</p><p>reescritos como: quais são os aplicativos para a aprendizagem do idioma X? Quais são</p><p>as características desses aplicativos? Quais são as semelhanças e diferenças entre os</p><p>aplicativos para a aprendizagem do idioma X? Essas perguntas não são elementos</p><p>obrigatórios, mas podem ser úteis para conduzir o raciocínio do pesquisador.</p><p>DicaPesquisa 99. Se você tem alguma bolsa de pesquisa, não se esqueça de colocar</p><p>um agradecimento a quem te financia nos seus artigos e apresentações em eventos.</p><p>DicaPesquisa 100. Uma tese ou dissertação é fruto do trabalho do pós-graduando</p><p>e, como todo trabalho humano, terá aspectos positivos e também imperfeições. Logo,</p><p>cuidado para não atribuir esse produto a Deus, Alá ou outro deus, pois deuses fariam</p><p>trabalhos perfeitos. Se você quer agradecer ao seu deus, faça isso na sua igreja, na sua</p><p>mesquita, nas suas orações, no seu ilê, no seu terreiro, mas não misture religião com</p><p>academia. São departamentos diferentes.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 142 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 143</p><p>DicaPesquisa 101. Resultados e discussão ou análise de dados X Conclusão</p><p>Resultados (dados obtidos) e discussão (interpretação e análise dos resultados à luz da</p><p>teoria de suporte) são geralmente apresentados em uma mesma seção, denominada</p><p>por alguns também de análise de dados. Na conclusão, se apresenta aquilo que foi</p><p>aprendido com os resultados, fazendo-se uma síntese do que foi discutido em resposta</p><p>aos objetivos, perguntas de pesquisa e ou hipóteses, quando for o caso. Poderá ainda</p><p>falar das limitações da pesquisa e sugerir novas pesquisas.</p><p>Verifique sempre se sua instituição tem normas de como organizar seu trabalho.</p><p>DicaPesquisa 102. Dois fragmentos de Umberto Eco em Como se faz uma tese:</p><p>“A primeira tentação do estudante é fazer uma tese que fale de muitas coisas” (p. 7). Eco</p><p>demonstra que isso é um perigo e conclui: “Quanto mais se restringe o campo, melhor e</p><p>com mais segurança se trabalha” (p. 10).</p><p>ECO, Umberto. Como se faz uma tese. Trad.: G. C. C. de Souza. 3. ed. São Paulo:</p><p>Perspectiva, 1986.</p><p>DicaPesquisa 103. Três frases de Einstein que adoro:</p><p>“A mente que se abre a uma ideia jamais voltará ao seu tamanho original”.</p><p>“Falta de tempo é desculpa daqueles que perdem tempo por falta de métodos”.</p><p>“Nem tudo o que pode ser contado conta e nem tudo o que conta pode ser contado”.</p><p>Albert Einstein em “http://www.frasesinteligentes.com.br/autor/albert-einstein”.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 143 12/09/19 10:41</p><p>144 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 104. Tenho recebido muitas mensagens inbox de pessoas querendo</p><p>conferir se procede o que o orientador disse. Claro que não dou opinião, mas resolvi dar</p><p>esta dica: um mestrando ou doutorando precisa dialogar com seu (sua) orientador(a),</p><p>questionar com educação, pedir mais esclarecimentos se um comentário não ficou</p><p>claro. Essa é uma relação sempre de diálogo. Se a relação for de medo, é melhor mudar</p><p>de orientador(a). Resolva seus problemas com ele(a) sem envolver outras pessoas.</p><p>DicaPesquisa 105. Ser crítico não é sinônimo de ser do contra. Ser crítico não é</p><p>sair falando mal ou achando defeito em tudo. Isso é ser chato e inconveniente. Ser</p><p>crítico é ser capaz de analisar um texto ou uma pesquisa de forma independente,</p><p>identificar aspectos relevantes, observar pontos fortes e fracos, se colocar no lugar</p><p>do autor e propor soluções ou alternativas.</p><p>DicaPesquisa 106. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>Nome em citações bibliográficas — Nome utilizado pelo usuário para as citações</p><p>bibliográficas. O Sistema o preenche automaticamente, mas o usuário pode alterá-</p><p>lo, segundo sua preferência. Você pode inserir mais de uma alternativa. Eu, por</p><p>exemplo, uso o meu nome todo, Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva, ou apenas</p><p>Vera Menezes.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 144 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 145</p><p>DicaPesquisa 107. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>Os artigos aceitos para publicação devem ser inseridos no módulo “Produção</p><p>bibliográfica”/“Artigos aceitos para publicação” e, quando publicados, você os</p><p>transfere para o item “Artigos completos publicados em periódicos”. Mas, atenção,</p><p>isso não vale para capítulos de livros aceitos para publicação.</p><p>DicaPesquisa 108. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>“Texto retirado do módulo de ajuda do Lattes”</p><p>“Intercâmbio de informações entre eventos e produção bibliográfica</p><p>Nas situações em que os usuários participaram de eventos e apresentaram</p><p>trabalhos nesses eventos e/ou publicaram nos anais, os dados relativos ao evento</p><p>(nome, data etc.) podem ser recuperados. Como proceder?</p><p>1. Clique na lupa para selecionar um evento já cadastrado. Uma nova janela se</p><p>abrirá.</p><p>2. Na nova janela selecione o evento entre os que já foram inseridos no seu</p><p>currículo.</p><p>3. Clique em avançar. A janela de produção bibliográfica se abrirá.”</p><p>DicaPesquisa 109. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>Se você fez a tradução de um livro, não a cadastre como livro. Há uma entrada</p><p>específica em “Produção bibliográfica” para cadastro de tradução de artigos, livros</p><p>ou outras traduções. Da mesma forma, prefácio e posfácio também não são artigos.</p><p>Há uma entrada específica para isso.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 145 12/09/19 10:41</p><p>146 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Se uma publicação não se encaixa em nenhum dos itens listados, insira em “Outra</p><p>produção bibliográfica”. Ao preencher os dados, observe que o item “natureza” é</p><p>um campo livre para preenchimento, isto é, você pode descrever a publicação sem</p><p>restrição de denominação. É também em “Outra produção bibliográfica” que você</p><p>insere artigos publicados em periódicos sem ISSN.</p><p>DicaPesquisa 110. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>Você sabia que você pode cadastrar no Lattes suas redes sociais, websites e blogs?</p><p>Há uma entrada para isso em produção técnica.</p><p>DicaPesquisa 111. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>Um dos módulos no Lattes é o de citações (último módulo à direita), onde podemos</p><p>incluir nossos índices de citação nos indexadores (base de dados de publicações)</p><p>ISIS, SciELO e Scopus. É possível também inserir dados de outro indexador. Eu</p><p>sugiro o Google Scholar Citations, porque nele você pode também inserir dados de</p><p>livros e capítulos de livros.</p><p>Crie seu perfil no Google Scholar Citations, uma base de dados que vai te informar</p><p>sempre que você for citado(a). A ferramenta cria uma</p><p>página para você na web e lá</p><p>você encontrará quem te citou, gráfico de citações por períodos de tempos, o total</p><p>de citações por texto, o total de citações de todos os textos e os índices h-index</p><p>(índice de impacto de suas citações, baseado nos textos mais citados) e i10-index</p><p>(número de publicações com pelo menos 10 citações).</p><p>Aprenda como criar seu perfil em um tutorial da Biblioteca do Instituto de Física</p><p>Gleb Wataghin da Unicamp.</p><p><https://www.slideshare.net/Biblioteca_IFGW/tutorial-my-citations-google-scholar-</p><p>abril-2015>.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 146 12/09/19 10:41</p><p>DICAS DE PESQUISA 147</p><p>DicaPesquisa 112. Sobre a Plataforma Lattes</p><p>Ao preencher seu Curriculum Lattes, não confunda vínculo com atividade.</p><p>O vínculo descreve a relação empregatícia ou não: servidor público, celetista,</p><p>bolsista, estagiário, colaborador, voluntário. Exemplos de atividade são: direção,</p><p>ensino, pesquisa, estágio etc.</p><p>“Portanto, Se a instituição descreve ‘onde’ você atuou, o vínculo descreve ‘quem’</p><p>você era (sua posição) e a atividade descreve ‘o que’ você fez” (texto extraído da</p><p>ajuda do Lattes).</p><p>DicaPesquisa 113. A qualidade de uma pesquisa quantitativa é avaliada levando-</p><p>-se em conta os critérios de validade (interna e externa) e a confiabilidade (interna</p><p>e externa). Se uma pesquisa tem validade interna, ela investigou exatamente o</p><p>que se propôs a pesquisar. Se tiver validade externa, seus resultados permitem</p><p>fazer generalizações. Confiabilidade interna avalia se outra pessoa, analisando</p><p>os mesmos dados, chegaria ao mesmo resultado. Confiabilidade externa avalia</p><p>se outro pesquisador, replicando a pesquisa, chegaria à mesma conclusão. Para</p><p>a pesquisa qualitativa, Guba e Lincoln (1985) propõem a substituição desses</p><p>critérios por credibilidade (a pesquisa é crível na perspectiva do participante),</p><p>transferibilidade (os resultados são passíveis de transferência para outro</p><p>contexto), dependabilidade (que mudanças do contexto afetam a pesquisa) e</p><p>confirmabilidade (se os resultados podem ser confirmados ou corroborados por</p><p>outros pesquisadores).</p><p>Lincoln, Y. S.; Guba, E. G. Naturalistic Inquiry. Newbury Park: Sage, 1985.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 147 12/09/19 10:41</p><p>148 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>DicaPesquisa 114. Leia muito sobre o tema que decidiu investigar. Quanto mais</p><p>você ler, mais ideias terá para desenvolver sua pesquisa.</p><p>DicaPesquisa 116. Cuidado ao fazer uma citação. Veja se o que está citando</p><p>foi mesmo dito pelo autor do texto que você leu ou está lendo, ou se esse autor</p><p>está citando outro autor. Não coloque o citado em risco, pois isso pode ser uma</p><p>indicação falsa de que o autor citado cometeu um plágio.</p><p>É que uns defendem formulação de hipóteses na abordagem qualitativa (na</p><p>pesquisa educacional); outros negam a formulação de asserções para cada</p><p>objetivo; outros defendem pressuposto. E aí vem uma discussão muitas vezes</p><p>conturbada.</p><p>DicaPesquisa 115. Pesquisa não é delação premiada!</p><p>O fato de você participar de uma disciplina online e ter acesso aos dados escritos</p><p>não te permite usar esses dados em uma pesquisa/artigo sem conhecimento dos</p><p>envolvidos. Para mim, isso equivale a gravar uma aula e usar a transcrição sem</p><p>conhecimento dos participantes. Seguir princípios éticos não é uma opção, mas</p><p>uma obrigação. Estou cansada de ler textos expondo professores sem que eles</p><p>tenham conhecimento. Isso pode ter consequências jurídicas.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 148 12/09/19 10:41</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BIBLIOGRÁFICAS</p><p>AUSTRALIAN ASSOCIATION FOR RESEARCH IN EDUCATION (AARE). Code of ethics. 1993.</p><p>Disponível em: <https://www.aare.edu.au/research-and-advocacy/research-ethics/>. Acesso em: 14</p><p>jun. 2019.</p><p>ADELMAN, Clem; JENKINS, David; KEMMIS, Stephen. Rethinking case study: notes from the</p><p>second Cambridge conference. Cambridge journal of Education, Cambridge, v. 3, n. 6, p. 139-</p><p>-150, 1976.</p><p>AGAR, MICHEL. An ethnography by any other name… Forum: Qualitative Social Research, v. 7, n.</p><p>4, art. 36, p.1-7, 2006.</p><p>ALIAGA, Marta; GUNDERSON, Blenda. Interactive statistics. Thousand Oaks: Sage, 2002.</p><p>ALLEN, Mike. (Ed.). The SAGE encyclopedia of communication research methods. Thousand Oaks:</p><p>Sage, 2017.</p><p>ALMEIDA, Christine; MICCOLI, Laura Stella. Formação de professores de inglês em nível</p><p>universitário no Espírito Santo: uma avaliação através da voz de instituições, professores e</p><p>estudantes. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizonte, v. 6, n. 2, 2006. Disponível</p><p>em: <http://www.scielo.br/pdf/rbla/v6n2/08.pdf>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>ALVES, Luciana et al. Remoção de professores e desigualdades em territórios vulneráveis. Cadernos</p><p>Cenpec, São Paulo, v. 4, p. 122-145, 2014.</p><p>ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência: introdução ao jogo e suas regras. 8. ed. São Paulo: Brasiliense,</p><p>1981.</p><p>ANDERSON, Barry F. The psychological experiment. Belmont: Brooks/Cole, 1969.</p><p>ANDRADE, Otávio Goes de. Ética em pesquisas envolvendo seres humanos. Londrina: Universidade</p><p>Federal de Londrina, 2017.</p><p>ANDRÉ. Maria Elisa Dalmazo Afonso. Etnografia da prática escolar. 8. ed. Campinas: Papirus, 2002.</p><p>APA. Ethical principles of psychologists and code of conduct, 2010. 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Using narrative in social research: qualitative and quantitative approaches. Los Angeles:</p><p>Sage, 2005.</p><p>FERNÁNDEZ, Eva M.; SOUZA, Ricardo Augusto; CARANDO, Agustina. Bilingual innovations:</p><p>Experimental evidence offers clues regarding the psycholinguistics of language change. In:</p><p>Bilingualism: Language and Cognition, v. 20, n.2, p. 251-268, 2017.</p><p>FETTERMAN, David M. Ethnography: step by step. Thousand Oaks: Sage, 1998.</p><p>FIGUEIREDO, Francisco José Quaresma. Aprendendo com os erros. Goiânia: UFG, 2004.</p><p>FLICK, Uwe. Designing qualitative research. Los Angeles: Sage, 2007.</p><p>GARCEZ, Pedro de Moraes; SCHULZ, Lia. Olhares circunstanciados: etnografia da linguagem e</p><p>pesquisa em Linguística Aplicada no Brasil. In: D.E.L.T.A., São Paulo, v. 31, p. 1-34, 2015. Dis-</p><p>ponível em: <http://www.scielo.br/pdf/delta/v31nspe/1678-460X-delta-31-spe-00001.pdf>. Acesso</p><p>em: 14 jun. 2019.</p><p>GARCIA, C.; SILVA, Evando Mirra de Paula. Processos irreversíveis e natureza criadora de estruturas</p><p>a partir daí, evidenciar as relações</p><p>entre os fatos e as teorias”. Como lembram Cervo e Bervian (2002, p. 66),</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 14 12/09/19 10:41</p><p>O QUE É PESQUISA 15</p><p>A pesquisa experimental caracteriza-se por manipular diretamente as variáveis rela-</p><p>cionadas com o objeto de estudo. Nesse tipo de pesquisa, a manipulação das variáveis</p><p>proporciona o estudo da relação entre causas e efeitos de um determinado fenômeno.</p><p>1.2.6. Métodos ou procedimentos</p><p>Cohen, Manion e Morrison (2005, p. 135) lembram: “Frequentemente, os méto-</p><p>dos são confundidos com metodologia, e metodologia com design”, ou seja, com</p><p>o desenho da pesquisa. Para eles, métodos são abordagens usadas para “recolher</p><p>dados usados como base para inferência e interpretação, para explicação e previ-</p><p>são” (p. 44), ao passo que metodologia “descreve e analisa esses métodos, mostran-</p><p>do suas limitações e recursos, esclarecendo seus pressupostos e consequên cias e</p><p>relacionando suas potencialidades na penumbra das fronteiras do conhecimento”</p><p>(p. 45). Podemos simplificar: metodologia é o estudo dos métodos, e os métodos</p><p>são os procedimentos de pesquisa. No entanto, o termo ‘metodologia’ tem sido</p><p>metonimicamente empregado no sentido de método.</p><p>Um método de pesquisa é uma tecnologia para conduzir uma investigação cien-</p><p>tífica. Walliman (2011, p. 1) define métodos como “ferramentas e técnicas para</p><p>fazer pesquisa”; e o Cambridge Business English Dictionary como “um modo</p><p>particular de estudar algo com o propósito de descobrir novas informações ou</p><p>entender melhor”, no verbete research method.</p><p>São vários os métodos de pesquisa e, neste livro, vou tratar dos seguintes:</p><p>(a) experimento;</p><p>(b) quase-experimento;</p><p>(c) pré-experimento e levantamento de opinião (survey);</p><p>(d) pesquisa bibliográfica</p><p>(e) estudo de caso;</p><p>(f) pesquisa-ação;</p><p>(g) pesquisa etnográfica;</p><p>(h) pesquisa narrativa;</p><p>(i) teoria fundamentada (grounded theory).</p><p>Neste capítulo, vimos, de forma resumida, os vários tipos de pesquisa de acordo</p><p>com a sua natureza, o gênero, as fontes de informação, a abordagem, o objetivo,</p><p>os métodos e os instrumentos de coleta de dados. O que discutimos até aqui está</p><p>relacionado com o modus operandi da pesquisa em termos técnicos, mas precisa-</p><p>mos também pensar nos aspectos éticos, objeto de nosso próximo capítulo.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 15 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA</p><p>Apesar de pouco abordada em manuais de metodologia, a questão ética é dis-</p><p>cussão cada vez mais relevante quando se faz pesquisa com humanos, como é</p><p>nosso caso, e também com animais.</p><p>Neste capítulo, reproduzo, com atualizações, alterações e complementações, o</p><p>conteúdo do artigo “Reflexões sobre ética na pesquisa” (PAIVA, 2005), publicado</p><p>na Revista Brasileira de Linguística Aplicada.</p><p>A ética, segundo Cenci (2002, p. 09), “nasce amparada no ideal grego da justa</p><p>medida, do equilíbrio das ações”. Ele explica: “A justa medida é a busca do agen-</p><p>ciamento do agir humano de tal forma que o mesmo seja bom para todos”. Se a</p><p>pesquisa envolve pesquisadores e pesquisados — ou pesquisadores e participan-</p><p>tes —, é importante ser a ética a condutora das ações de pesquisa, de modo que</p><p>a investigação não traga prejuízo para nenhuma das partes envolvidas. Andrade</p><p>(2007, p. 19) ressalta:</p><p>Deflui da construção do contínuo aprimoramento do princípio da dignidade humana.</p><p>O princípio da dignidade da pessoa humana se faz presente quando o indivíduo está</p><p>em pleno exercício de seus direitos e deveres; na esteira desse entendimento (p. 41).</p><p>e ainda acrescenta:</p><p>O participante não deve deixar de exercê-los, e não pode o pesquisador limitá-los. A</p><p>relação a ser estabelecida entre o participante e o pesquisador deve ser de reciproci-</p><p>dade e de cooperação no andamento da pesquisa (p. 41-42).</p><p>2</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 17 12/09/19 10:41</p><p>18 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Os comitês de ética em pesquisa são instâncias essenciais para a garantia do</p><p>respeito à dignidade da pessoa humana. Dupas (2001, p. 75), lembrando Ha-</p><p>bermas — para quem “a teoria deve prestar contas à práxis” —, alerta: “O</p><p>saber não pode, enquanto tal, ser isolado de suas consequências”. Diante da</p><p>imprevisibilidade das consequências de uma investigação, é imperativo ter a</p><p>ética sempre presente ao elaborarmos um projeto de pesquisa, principalmente,</p><p>quando lidamos com seres humanos.</p><p>A reflexão sobre ética é uma preocupação bem recente em todas as áreas cientí-</p><p>ficas. Uma análise, em 2005, de quinze livros de metodologia de pesquisa brasi-</p><p>leiros e estrangeiros e de três manuais de orientações sobre pesquisa publicados</p><p>por universidades brasileiras revela que apenas um livro (SCHACHTER; GASS,</p><p>1996) incluía considerações sobre a ética na pesquisa1.</p><p>As demais obras não dedicavam uma seção sequer à discussão do problema e,</p><p>nos livros que apresentavam índices onomásticos, não se localizou nenhuma</p><p>ocorrência da palavra. Os livros brasileiros analisados, em sua maioria na área</p><p>de ciências sociais, ensinam a elaborar projetos de pesquisa, mas, quando tratam</p><p>da coleta e análise de dados, o alvo é apenas orientar o leitor a ser bem-sucedido.</p><p>Em um dos livros, o pesquisador é aconselhado a dar todas as instruções ao</p><p>pesquisado, a demonstrar a importância da pesquisa, a deixar claro qual é o seu</p><p>destino final e a lhe garantir o anonimato. No entanto, esses conselhos parecem</p><p>ser muito mais uma estratégia para conseguir a colaboração dos pesquisados do</p><p>que para enfatizar o direito de quem colabora com a pesquisa de ter pleno conhe-</p><p>cimento do destino dos dados que está produzindo.</p><p>Em um dos livros, a afirmação: “[A] boa vontade, a disposição do pesquisado</p><p>para responder ao questionário é outra dificuldade a ser superada” corrobora</p><p>minha hipótese de que o foco é o sucesso da pesquisa e de que as questões éticas,</p><p>envolvidas no processo de desenvolvimento de uma investigação científica, são</p><p>ignoradas. Não se questiona, por exemplo, se a falta de disposição para colaborar</p><p>pode ou não estar associada ao tipo de investigação ou às questões propostas, que</p><p>poderiam trazer constrangimentos ao colaborador.</p><p>Posteriormente, tive acesso a Walliman (2001), que inclui em seu livro uma seção</p><p>intitulada “Ethics, Honesty and Respect for People” (p. 213-218) e à terceira edição</p><p>1 Por ética, omito as referências completas às 14 obras que não incluem nenhuma menção à questão.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 18 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 19</p><p>do The Sage Handbook of Qualitative Research, com um capítulo (CHRISTIAN ,</p><p>2005) sobre ética e política.</p><p>Aos interessados em aprofundar o tema, recomendo a leitura de um capítulo sobre</p><p>ética na pesquisa em Dörnyei (2007), intitulado “Quality Criteria, Research Ethics,</p><p>and Other Research Issues” (p. 48-72); indico ainda, em Creswell (2009), o capítu-</p><p>lo intitulado “Writing Strategies and Ethical Considerations” (p. 73-92) e o livro de</p><p>Brooks, Riele e Maguire (2017) sobre ética e pesquisa em educação. Esse livro chama</p><p>a atenção do leitor para os dilemas éticos, entre outros tópicos relevantes.</p><p>Em medicina, pelo risco mais evidente que a pesquisa pode representar para seus</p><p>pesquisados, o debate sobre a ética começou a avançar na década de 1970. Mota</p><p>(1998), em sua tese de doutorado, analisou periódicos na área de pediatria entre</p><p>1928 e 1996 e concluiu: até a década de 1970, as diretrizes éticas existentes não</p><p>eram observadas. O autor ainda acrescenta que hoje o desafio para a ciência é</p><p>responder a novas perguntas, respeitando os limites éticos.</p><p>Apesar de estarmos inseridos em uma área de investigação bastante diferente</p><p>da biomédica, podemos traçar alguns paralelos entre as questões éticas das duas</p><p>áreas. Mota (1998, p. 17) afirma:</p><p>Na primeira metade do século XX, reproduzindo o que ocorria extensa e intensa-</p><p>mente nos EUA e seguramente em todo o mundo ocidental na prática de ensino</p><p>médico (a utilização, sem limites éticos, de indigentes), os pacientes sem recursos</p><p>financeiros para bancar</p><p>ativas. In: Kriterion, Belo Horizonte, v. 15, n. 73, p. 103-113, 1984.</p><p>GERRING, John. Case study research: principles and practices. New York: Cambridge University</p><p>Press, 2007.</p><p>GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2008.</p><p>GLASER, Barney; STRAUSS, Anselm. The Discovery of Grounded Theory. London: Routledge, 2017.</p><p>GOMES, Maria Aparecida Mezzalira; BORUCHOVITCH. Evely. Aprendizagem autorregulada da</p><p>leitura: resultados positivos de uma intervenção psicopedagógica. In: Psicologia: Teoria e Pesquisa,</p><p>v. 27, n. 3. p. 291-299, 2011. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ptp/v27n3/04.pdf>. Acesso</p><p>em: 14 jun. 2019.</p><p>GONSALVES, Elisa Pereira. Iniciação à pesquisa científica. 3. ed. Campinas: Alínea, 2003.</p><p>GONZALEZ, John Jairo Viafara. A autopercepção da não natividade na Autoimagem dos Futuros</p><p>Professores de Inglês. In: Revista Brasileira de Linguística Aplicada, Belo Horizzonte, 2016, v. 16,</p><p>n. 3, p. 461-491. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-</p><p>63982016000300461&lng=pt&nrm=iso&tlng=en>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>GREEN, Judith L.; NIXON, Carol N.; ZAHARLICK, Amy. A etnografia como uma lógica de</p><p>investigação. Tradução de Adail Sebastião Rodrigues Júnior e Maria Lúcia Castanheira. In:</p><p>Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 42, p. 13-79, 2005.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 152 12/09/19 10:41</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 153</p><p>GROVES, Robert et al. Survey Methodology. New York: Wiley, 2004.</p><p>HAKIM, Muchamad Iqbal Ali Akbar. 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Do campo para a cidade: estudo sociolinguístico sobre migrações e redes sociais</p><p>Stella Maris Bortoni-Ricardo</p><p>7. Questões de linguagem: passeio gramatical dirigido</p><p>Sírio Possenti</p><p>8. Escrita e sociedade</p><p>Florian Coulmas</p><p>9. Arquitetura da conversação: teoria das implicaturas</p><p>Roberta Pires de Oliveira; Renato Miguel Basso</p><p>10. Gramática brasileña para hablantes de español</p><p>Orlene Lúcia S. Carvalho; Marcos Bagno</p><p>11. Pedagogia da variação linguística: língua, diversidade e ensino</p><p>Ana Maria Stahl Zilles; Carlos Alberto Faraco [orgs.]</p><p>12. História sociopolítica da língua portuguesa</p><p>Carlos Alberto Faraco</p><p>13. Saberes gramaticais: formas, normas e sentidos no espaço escolar</p><p>Juanito Ornelas de Avelar</p><p>14. Manual de pesquisa em estudos linguísticos</p><p>Vera Lúcia Menezes de Oliveira e Paiva</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 158 12/09/19 10:41</p><p>DIGA NÃO</p><p>À CÓPIA</p><p>pratique essa ideia</p><p>Quando você copia uma obra, está contribuindo para que nos próximos anos os</p><p>alunos não tenham mais o que copiar, porque:</p><p>1. Não haverá autores interessados em produzir textos. A produção de um livro</p><p>demanda muito tempo, formação específica e dedicação, e eles precisam</p><p>trabalhar para viver.</p><p>2. Também não haverá editoras interessadas em investir em uma obra que ficará</p><p>estocada, especialmente quando se tratar de obras traduzidas. Os alunos do</p><p>futuro terão de ler as obras na língua em que foram editadas.</p><p>3. E mais: você está contribuindo para acabar com o emprego de funcionários de</p><p>gráficas, editoras, para o fechamento de livrarias, para o empobrecimento da</p><p>cultura do país, além, é claro, de violar a lei de direitos autorais (Lei n° 9.610/98),</p><p>praticando um CRIME previsto no artigo 184 do Código Penal, sem prejuízo de</p><p>ter que reparar o dano causado.</p><p>E para que isso? A cópia custa em média R$ 0,15 por página. Este livro, R$ 0,16. POR</p><p>QUE, ENTÃO, NÃO TÊ-LO?</p><p>Além do mais, cópias se perdem ao longo do temppo. O livro não. Ele é para sem-</p><p>pre, pode ser repassado a outras pessoas, é fundamental para a formação de todo</p><p>profissional que se pretenda competente. Todo bom profissional precisa de uma</p><p>biblioteca própria. Para isso a Parábola Editorial contribui pondo no mercado livros</p><p>com qualidade gráfica e de conteúdo a melhor preço que a cópia.</p><p>Quando você diz não à cópia, está dizendo não à violência e à falta de ética... Pode</p><p>não parecer, mas quando copia uma obra na qual se empenhou tanto trabalho</p><p>para que ela virasse um livro e chegasse ao mercado, você está colaborando com a</p><p>corrupção que alimenta nosso crônico atraso!</p><p>no</p><p>ta</p><p>da</p><p>ed</p><p>ito</p><p>ra</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 159 12/09/19 10:41</p><p>Esta obra foi composta em Electra LH 11/15</p><p>e impressa em papel Chambril Book 70g</p><p>para a Parábola Editorial em março de 2021.</p><p>Impressão e acabamento:</p><p>Gráfica Paym</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 160 24/02/2021 10:33</p><p>Capa</p><p>Folha de rosto</p><p>Página de direitos autorais</p><p>Sumário</p><p>O QUE É PESQUISA</p><p>ÉTICA NA PESQUISA</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUANTITATIVA</p><p>MÉTODOS DE PESQUISA QUALITATIVA</p><p>DICAS DE PESQUISA</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>2021-04-20T09:34:33+0000</p><p>Preflight Ticket Signature</p><p>sua assistência à saúde passaram a ser cada vez mais utiliza-</p><p>dos em experimentos biomédicos, seu uso sendo justificado como a maneira desses</p><p>pobres recompensarem a sociedade pelos gastos com sua saúde.</p><p>Entre nós, é cada vez mais recorrente a coleta de dados em instituições de ensino</p><p>público. Parece haver um consenso tácito de que quem não “paga” pelos seus</p><p>estudos teria mais obrigação de aceitar a presença de um pesquisador em sua</p><p>escola. Há também um preconceito generalizado contra as escolas públicas e</p><p>um desejo de expor suas deficiências sem, contudo, lhes dar o devido retorno ou</p><p>ainda sem fazer uma análise dos riscos que os resultados de uma pesquisa podem</p><p>representar para a imagem da instituição.</p><p>Como nos lembra Morin (2003, p. 35), ao discorrer sobre ética, as atividades</p><p>científicas necessitam de um reforço moral. Para ele, a “moral tem dois tipos</p><p>de alinhamento: o sentimento de responsabilidade e o sentimento de solidarie-</p><p>dade”. Apontar as falhas no ensino público sem trazer nenhum retorno para os</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 19 12/09/19 10:41</p><p>20 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>pesquisados contribui apenas para desestabilizar o que já está fragilizado, algo,</p><p>no mínimo, irresponsável e não solidário.</p><p>Moita Lopes (1996, p. 9) também avança na mesma direção ao ressaltar:</p><p>Certamente, o pesquisador deve ter cuidado para que sua pesquisa não seja usada</p><p>para tirar a voz e caçar o poder de quem está em situação de desigualdade. Fazer</p><p>pesquisa, i.e., produzir conhecimento, é uma forma de construção de significado</p><p>prestigiada na sociedade e, portanto, impregnada das relações de poder inerentes à</p><p>prática discursiva.</p><p>Os resultados de nosso trabalho podem ser usados para desempregar, condenar,</p><p>criar incompetência etc. Uma de minhas ex-mestrandas relatou ter tido de aban-</p><p>donar uma coleta de dados, pois a direção da escola ameaçara demitir a profes-</p><p>sora colaboradora caso ela não voltasse atrás em informações dadas à pesquisa-</p><p>dora sobre suas ações pedagógicas. No caso em pauta, a professora admitira não</p><p>conhecer determinadas abordagens de estudos textuais. A direção da instituição</p><p>condicionou a coleta de dados a uma censura prévia, o que sepultou qualquer</p><p>possibilidade de continuar com a investigação.</p><p>Segundo Mota (1998, p. 46), nos países ricos, há restrições mais rigorosas na pes-</p><p>quisa médica. Podemos dizer que os mesmos princípios econômicos regulam as</p><p>relações entre os linguistas e os contextos pesquisados. Se, por um lado, o poder</p><p>econômico não chega a seduzir e nem mesmo a corromper eticamente as ativi-</p><p>dades científicas em nossa área, por outro, serve de barreira para os pesquisadores</p><p>não adentrarem certos ambientes.</p><p>Raramente temos notícia de uma pesquisa sendo realizada em instituições pri-</p><p>vadas por pesquisador totalmente alheio àquele contexto. Geralmente, quando a</p><p>pesquisa acontece, o pesquisador também pertence à escola e, por isso, consegue</p><p>investigar naquele ambiente sem muita dificuldade. O fator econômico é, por-</p><p>tanto, um impedimento para o pesquisador adentrar espaços privados. Mesmo</p><p>quando ele consegue permissão, restrições lhe são impostas com frequência. Um</p><p>exemplo está relatado na pesquisa de doutorado de Mello (2002), orientada por</p><p>John Schmitz. Ao pesquisar bilinguismo em uma escola de elite, Mello, além da</p><p>autorização da escola, também solicitou o consentimento dos pais para gravar,</p><p>em vídeo, alunos em interação espontânea na sala de aula. Diz ela:</p><p>Mais ou menos 50% dos pais não autorizaram as gravações de seus filhos, o que gerou</p><p>um certo tumulto na rotina da escola e das aulas, pois foi necessário retirar das salas</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 20 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 21</p><p>de aula parte das crianças durante os momentos de filmagem. O choro e o descon-</p><p>tentamento de algumas crianças que queriam ser filmadas, mesmo sem a autorização</p><p>dos pais, foram fonte de constrangimento para mim e para as professoras (MELLO,</p><p>2002, p. 153).</p><p>Esse e outros incidentes levaram a pesquisadora a interromper as gravações em</p><p>vídeo. A doutoranda, em respeito à ética, preferiu abrir mão de importante ins-</p><p>trumento de pesquisa. Além de não ter a autorização de metade dos pais, ela</p><p>percebeu que a pesquisa estava alterando a rotina da sala de aula, algo que não</p><p>considerava ético. As gravações “continuaram a ser feitas apenas em áudio, para</p><p>as quais a direção da escola considerou desnecessária a solicitação de autorização</p><p>dos pais, uma vez que a identidade das crianças estaria preservada” (MELLO,</p><p>2002, p. 154).</p><p>A pesquisa de Mello nos remete às reflexões de Mota. Segundo ele, até recen-</p><p>temente, as crianças eram vistas não como titulares de direito, mas como uma</p><p>extensão de seus pais, que decidiam quais eram seus interesses. As perguntas que</p><p>Mota (1998, p. 47-48) faz sobre a pesquisa biomédica também são pertinentes</p><p>em nossa área:</p><p>(a) Os pais podem permitir que as crianças sejam submetidas à pesquisa?</p><p>(b) Têm as crianças o direito de dar ou negar seu consentimento?</p><p>(c) O Estado pode proibir, apesar da permissão dos primeiros?</p><p>Eu acrescentaria:</p><p>(d) O professor, ou a direção da escola, tem o direito de autorizar a observação</p><p>de seus alunos ou a utilização de seus dados sem que eles ou seus pais te-</p><p>nham consentido?</p><p>(e) Em contextos de trabalho, a administração tem o direito de permitir a grava-</p><p>ção de interação entre seus funcionários e clientes sem a permissão dos dois</p><p>segmentos?</p><p>Essas são perguntas nem sempre feitas em nossa área e que deveriam merecer</p><p>nossa atenção.</p><p>2.1. Como assegurar o tratamento ético</p><p>Duff e Early (1996, p. 22) apresentam as seguintes considerações para assegurar</p><p>o tratamento ético à pesquisa humana.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 21 12/09/19 10:41</p><p>22 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Privacidade e confidencialidade</p><p>— proteção aos indivíduos ou pessoas cujos pontos de vista ou vozes possam ser</p><p>identificados;</p><p>— consciência de que a pesquisa pode ser intrusiva.</p><p>Os autores alertam: não basta garantir o anonimato dos participantes. A depen-</p><p>der, por exemplo, de suas falas ou do cargo que ocupam, sua identidade pode ser</p><p>facilmente identificada. Alertam também para o cuidado em não alterar a rotina</p><p>dos contextos pesquisados.</p><p>Segurança</p><p>— consequências futuras da identificação de dissidentes;</p><p>— consequência da intrusão do pesquisador.</p><p>Entendem-se como dissidentes os pesquisados que emitam opiniões contrárias</p><p>ao sistema e que poderiam sofrer represálias, caso fossem identificados. O pes-</p><p>quisador deve, ainda, assegurar que suas ações não se configurem como intru-</p><p>sões que tragam prejuízo ao contexto pesquisado.</p><p>Integridade da pesquisa</p><p>— equidade com todos os interessados.</p><p>Quanto à integridade da pesquisa, Duffy e Early (1998) chamam a atenção para a</p><p>necessidade de garantir, por exemplo, que a pesquisa não beneficie apenas quem</p><p>a financia.</p><p>Metodologia</p><p>— recusa de tratamentos experimentais/inovadores para grupos de controle tendo</p><p>em vista a falta de consenso.</p><p>Esse último aspecto é particularmente importante quando se trata de pesqui-</p><p>sa experimental. Não é justo negar aos grupos de controle tratamentos expe-</p><p>rimentais ou inovadores que o pesquisador entende serem benéficos ao grupo</p><p>de pesquisa.</p><p>A linguística aplicada brasileira vem se afastando dos modelos experimentais em</p><p>prol de investigações de base etnográfica, o que minimiza a última questão. No</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 22 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 23</p><p>entanto, outros problemas emergem e nos levam a outros tipos de reflexões, que</p><p>desenvolvo a seguir, divididas em dois aspectos: relação entre pesquisadores e</p><p>relação entre pesquisador e pesquisado ou participante de pesquisa. Na relação</p><p>entre pesquisadores, levanto cinco questões.</p><p>(a) O respeito ao trabalho do colega</p><p>Há cerca de 250 anos, o filósofo Hume “advertia que nada poderia ser mais con-</p><p>trário à filosofia do que ser taxativo e dogmático” (MOTA, 1998, p. 164) e, mais</p><p>recentemente, Garcia e Silva (1984, p. 107) criticam a “epistemologia purista”,</p><p>sempre disposta a levantar acusações que apontam defeitos ideológicos nos ou-</p><p>tros discursos, isentando, ao mesmo tempo, o próprio discurso.</p><p>Na história da linguística aplicada, houve a repetição de momentos desconfortá-</p><p>veis ocorridos outrora em outras áreas, inclusive na linguística, em que correntes</p><p>teóricas se digladiavam, menosprezando o trabalho do outro e advogando a su-</p><p>premacia do próprio. Um exemplo é a disputa entre gerativistas e funcionalistas,</p><p>linguistas formais e analistas do discurso, além do desprezo de outros tantos pe-</p><p>los profissionais que fazem investigações na área do ensino, considerada como</p><p>inferior e não científica, principalmente se a opção for por uma metodologia</p><p>qualitativa, sem tratamento estatístico.</p><p>O grupo de linguistas aplicados cresceu, a área criou identidade e conseguiu o</p><p>reconhecimento da academia e das agências de fomento. No entanto, o cresci-</p><p>mento trouxe uma diversidade de correntes teóricas e algumas divergências e ge-</p><p>neralizações precipitadas. Alguns pesquisadores que, paradoxalmente, se identifi-</p><p>cam como linguistas aplicados passaram a criticar a própria linguística aplicada,</p><p>atribuindo-lhe alguns qualificativos, tais como autoritária, dogmática, positivista,</p><p>ingênua etc., ignorando que as respostas dadas aos problemas são sempre solu-</p><p>ções temporárias e que a mudança de paradigma de uma visão positivista para</p><p>uma visão não linear não é uma descoberta privilegiada desses pesquisadores,</p><p>mas algo que começa a se refletir em várias áreas do conhecimento. A ciência</p><p>está se questionando, e teorias como a da complexidade ou do caos estão sendo</p><p>adotadas por várias áreas, tais como a física, a matemática, a economia, a admi-</p><p>nistração, a educação física e até a linguística aplicada, a partir do pontapé inicial</p><p>dado por Larsen-Freeman (1997).</p><p>É preocupante ver que pesquisados abrem sua sala de aula, fornecem dados,</p><p>expõem sua produção acadêmica e colaboram com os pesquisadores, mas, em</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 23 12/09/19 10:41</p><p>24 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>troca, veem todo o seu trabalho desconstruído, sem que lhes seja apresentada</p><p>nenhuma alternativa, interrompendo a cadeia ação-reflexão-ação, pois a reflexão</p><p>desses pesquisadores aponta para conclusões niilistas sem saída e sem indicação</p><p>de caminhos alternativos.</p><p>Esse tipo de “epistemologia purista” vem sendo contestado pela filosofia da ciên-</p><p>cia, pois nenhuma afiliação teórica é detentora da verdade. Afinal, como diz</p><p>Bourdieu (2001, p. 64),</p><p>(…) o pesquisador oferece o mundo tal como ele o pensa (isto é, como objeto de con-</p><p>templação, representação, espetáculo), como se fosse o mundo tal como ele se apresen-</p><p>ta àqueles que não têm a disponibilidade (ou o desejo) de se retirar dele para pensá-lo;</p><p>situa como princípio de suas práticas, ou seja, em sua “consciência”, suas próprias re-</p><p>presentações espontâneas ou elaboradas, ou pior, os modelos que teve de construir (por</p><p>vezes contra sua própria experiência ingênua) para dar conta de suas práticas.</p><p>(b) Autoria e coautoria</p><p>Coautoria só se justifica se houver uma participação substancial no trabalho a ser</p><p>publicado, como recomendado pelo grupo de Vancouver2:</p><p>O crédito à autoria deveria levar em conta apenas as contribuições substanciais (1) para</p><p>a concepção e planejamento, ou análise e interpretação dos dados; e (2) em forma de</p><p>rascunho do artigo ou revisão crítica com conteúdo intelectual importante; e (3) com</p><p>aprovação final da versão a ser publicada. As condições (1), (2) e (3) devem ser respeita-</p><p>das. A participação apenas na captação de recursos ou na coleta de dados não justifica</p><p>a autoria. A supervisão geral de grupo de pesquisa não é suficiente para se ter autoria.</p><p>Também se posicionam contrariamente à nomeação de orientadores como co-</p><p>autores, segundo Brooks, Riele e Maguire (2017, p. 184), a American Psychologi-</p><p>cal Association (APA, 2010), a Australian Association for Research in Education</p><p>(AARE, 1993) e o Committee on Publication Ethics (COPE, 2013).</p><p>(c) Pareceres sobre os trabalhos dos colegas</p><p>Ao avaliar projetos, artigos e pedidos de auxílio para pesquisa ou apoio a even-</p><p>tos, os pareceristas devem ser abertos a opções teóricas ainda não consagradas e</p><p>2 Pequeno grupo de editores de periódicos de clínica geral se encontrou informalmente em Vancou-</p><p>ver, em 1978, para estabelecer normas para os manuscritos a serem submetidos a seus periódicos. O</p><p>grupo ficou conhecido como o Grupo de Vancouver. International Committee of Medical Journal</p><p>Editors. Disponível em: <http://www.icmje.org/index.html>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 24 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 25</p><p>verificar sem preconceito o mérito dos projetos e dos trabalhos. Devem, ainda,</p><p>emitir os pareceres usando um tom respeitoso e construtivo e respeitar os prazos.</p><p>Outra questão diz respeito aos editores de revista que têm seu trabalho muitas</p><p>vezes dificultado e até duplicado em função dos atrasos dos pareceristas em emi-</p><p>tir seus pareceres. Quando a demora ultrapassa o limite do aceitável, o editor é</p><p>obrigado a acionar outro parecerista e a atrasar a publicação de alguns textos.</p><p>Uchiyama e Simone (1999) apresentam os seguintes conselhos aos pareceristas:</p><p>Quanto à ética, olhe o mérito, “a competência com a qual o argumento é conduzido</p><p>e a importância dos resultados” (APA, 1992). Cuidado com suas próprias tendências.</p><p>Pergunte a si mesmo se sua orientação teórica poderia estar em conflito com a do</p><p>autor e se tal conflito pode afetar seu parecer. Evite conflitos de interesses. Isto tem</p><p>sido descrito como “competição acadêmica, relações pessoais e de financiamento”</p><p>(APA, 1992). Quanto à etiqueta, seja rápido ao fazer os pareceres e escolha um tom</p><p>construtivo e respeitoso.</p><p>Certamente, esses conselhos, se seguidos, poderiam facilitar o trabalho dos edi-</p><p>tores. Outra questão relacionada a pareceres diz respeito ao anonimato, tanto</p><p>dos autores dos trabalhos quanto dos nomes dos pareceristas. Nos periódicos e</p><p>agências de fomento, o anonimato dos pareceristas é sempre garantido. Mas há</p><p>outras instâncias da vida acadêmica, como a análise de projetos de pesquisa em</p><p>cursos de pós-graduação e a análise de trabalhos submetidos a eventos, em que</p><p>fica mais difícil a garantia do anonimato dos pareceristas.</p><p>No caso de eventos, não há consenso, ainda, se os pareceres sobre os trabalhos</p><p>devem ou não ser divulgados. Minha opinião é contrária à sonegação do conteú-</p><p>do dos pareceres, pois a questão ultrapassa a ética e avança para o campo da</p><p>legalidade. Na Constituição Brasileira, existe um instrumento chamado habeas</p><p>data, que pode ser utilizado para evitar a sonegação de qualquer informação que</p><p>diga respeito ao interessado.</p><p>O inciso XIV do artigo 5 diz: “É assegurado a todos o acesso à informação e</p><p>resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”. O</p><p>inciso LXXII diz: “Conceder-se-á habeas data (a) para assegurar o conhecimento</p><p>de informações relativas à pessoa do impetrante, constante de registros e bancos</p><p>de dados de entidades governamentais ou de caráter público”. Pelo menos nas</p><p>instituições públicas, o acesso a pareceres é direito dos interessados.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 25 12/09/19 10:41</p><p>26 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>(d) Citações de trabalhos de outros pesquisadores</p><p>A utilização responsável de trabalhos alheios é outra questão que merece nossa</p><p>atenção. Surgem dúvidas sobre os graus de apropriação, mas as reclamações mais</p><p>constantes dizem respeito ao plágio.</p><p>O que é plágio? Ele tem sido considerado como cópia integral ou parcial de</p><p>trabalho intelectual alheio, sem a devida menção ao autor. Os problemas, no</p><p>entanto, não se restringem à cópia. Informar ao leitor, no início de um texto, por</p><p>exemplo, que aquele trabalho é baseado em outro não dá ao autor o direito de</p><p>reproduzir, ipsis litteris, o texto de outrem, sem as</p><p>devidas aspas. Apropriar-se de</p><p>uma ideia e tratá-la com outras palavras é, na minha opinião, outra modalidade</p><p>de plágio.</p><p>Com o advento da internet, o acesso rápido a grande quantidade de textos e a</p><p>pressão cada vez maior por produção acadêmica, são crescentes as ocorrências de</p><p>cópias de trechos inteiros de artigos, dissertações e teses disponibilizados na rede</p><p>mundial de computadores, principalmente nas produções discentes. Há ainda</p><p>outro problema que merece a atenção: algumas citações são retiradas de um con-</p><p>texto e transportadas para outro, desvirtuando, muitas vezes, a intenção inicial</p><p>do autor citado.</p><p>(e) Cooperação com outros pesquisadores</p><p>Se ser ético é ser responsável e solidário, outro contexto onde a ética se mani-</p><p>festa é a cooperação com os colegas responsáveis por organização de eventos e</p><p>gerenciamento de projetos e líderes de grupos de pesquisa. Os pesquisadores</p><p>éticos fornecem as informações necessárias para alimentar bancos de dados ou</p><p>documentar projetos de eventos em tempo hábil sendo solidários, por exemplo,</p><p>com quem organiza um evento e necessita de informações, tais como resumos e</p><p>curricula vitae para documentar um projeto.</p><p>Passo, agora, a discutir a relação entre pesquisador e pesquisado por meio de oito</p><p>perguntas.</p><p>Ø A coleta é feita sem alterar o ritmo e o planejamento da instituição?</p><p>Mota (1998, p. 212) afirma: os interesses da pessoa têm prioridade sobre os inte-</p><p>resses da ciência e da sociedade. Felizmente, os interesses de pesquisa em nossa</p><p>área são muitas vezes contrariados em função da ética, pois o pesquisador precisa</p><p>se adequar aos espaços que lhe são abertos, sem interferir no dia a dia da sala de</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 26 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 27</p><p>aula ou do ambiente de trabalho que investiga. Como lembra Rounds (1996, p.</p><p>53), cabe ao pesquisador conseguir o máximo de informação possível sem violar</p><p>a privacidade ou quebrar a confiança dos pesquisados.</p><p>Ø A instituição e os informantes/participantes estão devidamente</p><p>informados sobre os objetivos da pesquisa?</p><p>Projetos que envolvem pesquisa com seres humanos precisam ser acompanhados</p><p>por um termo de consentimento esclarecido. Segundo Brooks, Riele e Maguire</p><p>(2017, p. 104), “o conceito de consentimento esclarecido está intimamente ligado</p><p>ao princípio ético de garantir o ‘respeito às pessoas’”. Eles advogam que “a pes-</p><p>quisa deve respeitar a autonomia daqueles que estão sendo estudados e que as</p><p>pessoas devem ser livres para decidir o que é melhor para elas, portanto, partici-</p><p>par ou não” (p. 108).</p><p>O termo de consentimento esclarecido tem por objetivo explicar, dar conheci-</p><p>mento aos participantes do projeto de pesquisa com o qual vão colaborar, dando</p><p>a eles total liberdade para se recusar a participar, sem qualquer ameaça de repre-</p><p>sália caso se recusem.</p><p>Em caso de menor de idade e de pessoas com deficiências, o aceite em participar</p><p>de uma pesquisa deve ser acompanhado do aceite de seu responsável.</p><p>A ética indica que o consentimento esclarecido deveria ser observado e, se não</p><p>for possível um esclarecimento total no momento da coleta de dados, novo con-</p><p>sentimento deveria ser obtido logo após a coleta. Caso não haja a devida autori-</p><p>zação, os dados deveriam ser descartados. É o que Polio (1996, p. 74) aconselha:</p><p>[q]uando um pesquisador consegue o consentimento de professores para observar</p><p>ou gravar suas salas de aula, apenas parte do objetivo do estudo pode ser revelado</p><p>para não afetar o comportamento do professor. No entanto, depois da conclusão do</p><p>estudo, qualquer pesquisador tem a obrigação de informar ao professor os detalhes</p><p>do estudo.</p><p>Ø A forma de transcrição de dados coloca o informante em situação</p><p>constrangedora?</p><p>Certa vez, uma professora de escola pública, colaboradora de uma pesquisa, fi-</p><p>cou profundamente magoada quando, após a defesa da dissertação, descobriu</p><p>que a pesquisadora havia usado um tipo de transcrição típica dos trabalhos sobre</p><p>variação linguística, sinalizando a ausência dos s finais, marcadores de plural, e</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 27 12/09/19 10:41</p><p>28 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>de outras características do discurso oral mineiro. A falante não se reconhecia</p><p>na transcrição e afirmava que o registro dos dados deturpava sua forma de falar.</p><p>No caso em pauta, a forma de transcrição era irrelevante, pois o objetivo da</p><p>pesquisa não era investigar a fala da professora, e sim aspectos de sua atuação</p><p>pedagógica. O desconhecimento da pesquisada sobre a opção de transcrição feita</p><p>pela pesquisadora gerou constrangimentos que poderiam ter sido evitados.</p><p>Advogo sempre assegurar ao informante a oportunidade de ler as transcrições e</p><p>dar seu aval antes da conclusão do trabalho.</p><p>Ø O anonimato do participante foi garantido?</p><p>Dependendo do contexto da pesquisa, mesmo quando o pesquisador usa pseu-</p><p>dônimos, corre-se o risco de algum leitor identificar o pesquisado. Como co-</p><p>mentam Brooks, Riele e Maguire (2017, p. 159), citando Schutt (2013, p. 354),</p><p>“pode ser fácil para os participantes do estudo identificarem um ao outro em</p><p>uma descrição qualitativa, mesmo que os alheios não consigam identificar”. Eles</p><p>consideram que é responsabilidade ética dos pesquisadores garantir a confiden-</p><p>cialidade dos dados.</p><p>Outro cuidado a se ter é com o uso de fotos. Muitas vezes, mesmo quando usadas</p><p>técnicas que velem os rostos dos participantes, outras informações como vesti-</p><p>mentas e cenário podem levar à identificação da pessoa.</p><p>Ø O pesquisador se preocupa em dar retorno a seus informantes?</p><p>A mesma professora, citada no item 5.3, ressentiu-se por não ter sido convidada</p><p>para a defesa da dissertação e por ter tido acesso ao trabalho só depois da defesa.</p><p>No caso específico, as conclusões eram bastante positivas em relação ao contexto</p><p>pesquisado, mas, geralmente, os trabalhos ressaltam mais aspectos negativos do</p><p>que positivos.</p><p>Principalmente em pesquisas de natureza etnográfica, os resultados devem ser</p><p>apresentados aos participantes antes mesmo do fechamento do texto, pois é im-</p><p>portante que as vozes dos pesquisados também estejam presentes no trabalho e</p><p>que o pesquisador se disponha, de alguma forma, a contribuir com quem lhe</p><p>abre as portas.</p><p>Compartilhar com o professor os resultados da pesquisa pode ser uma questão</p><p>muito delicada, principalmente quando o trabalho é eivado de críticas negati-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 28 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 29</p><p>vas. Spada, Ranta e Lightbown (1996, p. 41) aconselham o pesquisador a não</p><p>usar o resultado de sua pesquisa para acusar o professor ou ditar regras de como</p><p>ensinar. No entanto, acreditam que o pesquisado tem o direito de saber qual foi</p><p>o resultado de sua participação e de ter sua colaboração recompensada. Uma</p><p>sugestão das autoras seria a distribuição de resumo da pesquisa em formato</p><p>acessível aos envolvidos.</p><p>Todo participante tem direito a ter acesso ao texto integral da pesquisa, seja ela</p><p>positiva ou negativa. Ainda do ponto de vista ético, é importante que o anoni-</p><p>mato do participante seja garantido, de forma a evitar que ele sofra qualquer</p><p>consequência advinda dos resultados da pesquisa.</p><p>Ø O pesquisador omite informações sobre o pesquisado de forma</p><p>a ressaltar o foco de seu trabalho?</p><p>É muito comum lermos relatos de pesquisa sobre a sala de aula em que apenas</p><p>os aspectos negativos são relatados, passando a impressão errônea de que o(s)</p><p>pesquisado(s) não tem (têm) nada de positivo para ser registrado. Mesmo que os</p><p>aspectos positivos não sejam o foco do trabalho, é justo eles serem menciona-</p><p>dos, mesmo quando o anonimato está preservado. Como alertam Brooks, Riele</p><p>e Maguire (2017, p. 154), existem “tentações de ‘trabalhar demasiadamente’ os</p><p>dados, bem como colocar de lado alguns dos achados ‘menos convenientes’ que</p><p>podem desfazer quaisquer afirmações”. Isso nos leva a concluir que exageros e</p><p>ocultações podem afetar as análises.</p><p>Ø No caso dos experimentos e pesquisa-ação, as interferências</p><p>propostas</p><p>são benéficas às pessoas que estão contribuindo</p><p>para a pesquisa? Nos experimentos, haverá algum prejuízo</p><p>para o grupo de controle?</p><p>Segundo Mota (1998), nas pesquisas biomédicas, foram feitas atrocidades em</p><p>nome da ciência. O autor cita como exemplo a pesquisa da vacina contra a po-</p><p>liomielite realizada nos Estados Unidos por Albert Sabin na década de 1950,</p><p>quando o grupo de controle daquele experimento deixou de receber a vacina. Por</p><p>outro lado, Albert Sabin foi profundamente ético ao não patentear sua descober-</p><p>ta, tornando a imunização universal e plenamente acessível.</p><p>Em linguística aplicada, é decrescente o número de experimentos no Brasil, e não</p><p>temos registro recente de nenhuma pesquisa que negue aos participantes um tra-</p><p>tamento que pudesse contribuir com sua aprendizagem. Quando muito, o pesqui-</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 29 12/09/19 10:41</p><p>30 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>sador interfere em um grupo e o compara com outro, conduzido por um profes-</p><p>sor com opção de trabalho diversa. Mesmo apostando que o tratamento inovador</p><p>possa ser benéfico a todos, insistir que todos mudem de opção esbarra em outro</p><p>aspecto ético, que é o de evitar impor comportamentos a determinado grupo. Mes-</p><p>mo acreditando na validade da própria pesquisa, é desejável que o pesquisador</p><p>não seja dogmático e não imponha suas crenças, até porque, quando falamos de</p><p>aprendizagem, outros fatores interferem nesse processo, e as alterações metodoló-</p><p>gicas não são as únicas responsáveis pelo sucesso ou pelo fracasso dos aprendizes.</p><p>Ø Ao usar questionários e entrevistas, o pesquisador respeita as</p><p>preocupações do informante?</p><p>Bourdieu (2001, p. 73) questiona a relação entre entrevistados e entrevistadores.</p><p>Segundo o autor,</p><p>… haverá pesquisadores (sobretudo entre os especialistas em pesquisas de opinião)</p><p>capazes de formular perguntas às quais os entrevistados podem sempre fornecer uma</p><p>resposta mínima, sim ou não, mas que eles mesmos jamais haviam formulado até o</p><p>momento em que elas lhes haviam sido, por assim dizer, impostas, e que eles nem</p><p>poderiam de fato formular (ou seja, produzi-las com seus próprios recursos) a menos</p><p>que estivessem dispostos e preparados por suas condições de existência a assumir em</p><p>relação ao mundo social e à sua própria prática o ponto de vista escolástico a partir</p><p>do qual tais perguntas foram produzidas, como se eles fossem uma coisa totalmente</p><p>diversa do que de fato são, sendo isso justamente o que é preciso compreender.</p><p>Faz-se necessário questionar os próprios questionários. Muitas vezes, o informan-</p><p>te responde a qualquer coisa para ficar livre do pesquisador ou, até mesmo, para</p><p>agradá-lo. Outras vezes, as questões propostas não são relevantes para o indivíduo</p><p>ou ele nunca se questionou sobre aquilo, e o entrevistador não lhe dá tempo su-</p><p>ficiente para refletir antes de responder. Não seria isso uma forma de imposição?</p><p>2.2. Conclusão</p><p>Como diz Mota (1998, p. 75), ética não é algo dado pela natureza, mas um</p><p>produto de nossa consciência histórica. Não vem pronta para ser consumida; é,</p><p>antes, construída na ação humana, que sempre exige a presença de um outro.</p><p>Quem exercita a ética são indivíduos que fazem parte de uma comunidade. Seus</p><p>atos são morais somente se considerados nas suas relações com os outros. Sem os</p><p>outros, não há ética.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 30 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 31</p><p>Algumas universidades, em especial nos países ricos, possuem normas muito</p><p>claras sobre as questões éticas. Considero relevante descrever pelo menos um</p><p>exemplo de como essas questões são tratadas.</p><p>Na Universidade de Melbourne, existe um código de ética3 a ser observado por</p><p>qualquer pessoa que participe de uma equipe de pesquisa (orientadores, alunos</p><p>e funcionários) sempre que os projetos envolvam o uso de dados arquivados em</p><p>que as pessoas possam ser identificadas ou haja coleta de informações sobre seres</p><p>humanos (e organizações) através de entrevistas, levantamento de opinião, ques-</p><p>tionários, observação de comportamento humano, gravações em áudio e vídeo,</p><p>administração de testes e estímulos, para citar apenas alguns dos instrumentos</p><p>de pesquisa utilizados em linguística aplicada. O código de ética de Melbourne</p><p>prescreve aos pesquisadores observarem a integridade e o profissionalismo, evita-</p><p>rem conflito de interesses e garantirem a segurança dos envolvidos na pesquisa.</p><p>Além disso, os métodos e resultados devem estar abertos a exame e debate.</p><p>Uma das exigências daquela universidade é que os dados sejam gravados de for-</p><p>ma a ficarem intactos nos departamentos por, pelo menos, cinco anos. Os dados,</p><p>relacionados às publicações, devem ficar disponíveis para discussão com outros</p><p>pesquisadores, admitindo-se uma exceção quando prevalecem informações con-</p><p>fidenciais, como, por exemplo, em caso de proteção de direitos autorais.</p><p>As universidades brasileiras também criaram seus comitês e passaram a exigir</p><p>que os projetos de pesquisas com humanos, em todas as áreas, sejam aprovados</p><p>por seus comitês. Atualmente, somos obrigados a registrar nossos projetos en-</p><p>volvendo seres humanos na Plataforma Brasil4, uma base nacional e unificada</p><p>de registros de pesquisas onde o pesquisador preenche o formulário e insere os</p><p>arquivos a serem submetidos aos respectivos comitês de cada universidade. No</p><p>entanto, o formulário foi pensado para as áreas de saúde, e isso tem causado des-</p><p>conforto nas áreas humanas e sociais.</p><p>Concluo essa discussão reproduzindo, na íntegra, o documento sobre ética na</p><p>pesquisa, produzido pela Comissão de Integridade na Atividade Científica do</p><p>CNPq5.</p><p>3 The University of Melbourne. Ethics and Integrity. Disponível em: <http://research.unimelb.edu.</p><p>au/#ethics-integrity>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>4 Plataforma Brasil. Disponível em: <http://plataformabrasil.saude.gov.br/login.jsf >. Acesso em: 17</p><p>jun. 2019.</p><p>5 CNPq. Relatório da Comissão de Integridade de Pesquisa do CNPq. Disponível em: <http://www.</p><p>cnpq.br/documents/10157/a8927840-2b8f-43b9-8962-5a2ccfa74dda>. Acesso em: 14 jun. 2019.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 31 12/09/19 10:41</p><p>32 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>RelatóRio da Comissão de integRidade de Pesquisa do CnPq</p><p>A comissão instituída pela portaria PO — 085/2011 de 5 de maio de 2011, constituída pe-</p><p>los pesquisadores Alaor Silvério Chaves, Gilberto Cardoso Alves Velho, Jaílson Bittencourt</p><p>de Andrade, Walter Colli e coordenada pelo Dr. Paulo Sérgio Lacerda Beirão, diretor de</p><p>Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde do CNPq, vem apresentar seu relatório final.</p><p>intRodução</p><p>A necessidade de boas condutas na pesquisa científica e tecnológica tem sido motivo de</p><p>preocupação crescente da comunidade internacional, e no Brasil não é diferente. A má</p><p>conduta não é fenômeno recente, haja vista os vários exemplos que a história nos dá de</p><p>fraudes e falsificação de resultados. As publicações pressupõem a veracidade e idoneidade</p><p>daquilo que os autores registram em seus artigos, uma vez que não há verificação a priori</p><p>dessa veracidade. A Ciência tem mecanismos de correção, porque tudo o que é publicado</p><p>é sujeito à verificação por outros, independentemente da autoridade de quem publicou.</p><p>Como ilustração, podemos citar alguns exemplos emblemáticos, como o chamado “Ho-</p><p>mem de Piltdown” — uma montagem de ossos humanos e de orangotango conveniente-</p><p>mente manipulados, que alegadamente seria o “elo perdido” na evolução da humanidade.</p><p>Embora adequada para as ideias então vigentes, a farsa foi desmascarada quando foi con-</p><p>ferida com novos métodos de datação com carbono radioativo. Outros exemplos podem</p><p>ainda ser citados, como o da criação de uma falsa linhagem de células-tronco embrionárias</p><p>humanas que deu origem a duas importantes publicações na revista Science em 2004 e</p><p>2005. Por esse feito, o autor principal foi considerado o mais importante pesquisador de</p><p>2004. O que seria um feito extraordinário mostrou ser uma fraude e resultou na demissão</p><p>desse pesquisador e na exclusão</p><p>desses artigos da revista.</p><p>Essa autocorreção, no entanto, não é suficiente para impedir os efeitos danosos advindos</p><p>da fraude, seja por atrasar o avanço do conhecimento ou mesmo por consequências eco-</p><p>nômicas e sociais resultantes do falso conhecimento. Um caso exemplar das consequências</p><p>danosas que podem ser causadas por fraudes científicas foi a rejeição dos princípios da</p><p>genética, por meio da manipulação de dados e informações com objetivos ideológicos e</p><p>políticos, feita pelo então presidente da Academia Soviética de Ciências, Trofim Lysenko.</p><p>Essa falsificação, mesmo sendo posteriormente contestada cientificamente, trouxe grande</p><p>atraso na produção agrícola da então União Soviética, o que contribuiu sobremaneira para</p><p>a deterioração econômica e sustentabilidade do regime soviético.</p><p>Esses casos mostram que resultados falsos ou errados podem atrasar acentuadamente o</p><p>avanço do conhecimento, sem contar com o custo, financeiro e humano, envolvido na cor-</p><p>reção dos desvios. Mais difíceis de serem corrigidos são os problemas advindos de plágios,</p><p>onde o verdadeiro autor, seja de descobertas ou de textos, pode ter seu mérito subtraído,</p><p>com possíveis prejuízos profissionais.</p><p>A falsificação de dados pode ser caracterizada quando as manipulações introduzidas alte-</p><p>ram o significado dos resultados obtidos. Por exemplo, introduzir ou apagar imagens em</p><p>figuras podem alterar a interpretação dos resultados. Algumas situações são consideradas</p><p>legítimas, como, por exemplo, o emprego de software de aumento de contraste usado por</p><p>astrônomos pode revelar objetos celestes dificilmente identificáveis de outra maneira. Alte-</p><p>rações de contraste ou brilho para melhorar a qualidade global de uma imagem são con-</p><p>sideradas legítimas se aplicadas a toda a imagem e descritas na publicação. Nesses casos</p><p>a imagem original deve ser mantida, e publicada como informação suplementar quando</p><p>possível.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 32 12/09/19 10:41</p><p>ÉTICA NA PESQUISA 33</p><p>Além das referidas consequências danosas da falsificação e do plágio, essas práticas podem</p><p>favorecer indevidamente seus autores para conseguirem vantagens em suas carreiras e na</p><p>obtenção de auxílios financeiros. Em relação a isso, surge também como significativa a</p><p>prática crescente de autoplágio. Em um ambiente de competição para a obtenção de au-</p><p>xílios financeiros, isso pode significar o investimento em pessoas e projetos imerecidos, em</p><p>detrimento daqueles que efetivamente são capazes de produzir avanços do conhecimento.</p><p>A existência de software capaz de identificar trechos já publicados de manuscritos subme-</p><p>tidos tem facilitado a prevenção de plágio e de autoplágio.</p><p>Por todas essas razões, as más condutas na pesquisa são assunto de interesse das agências</p><p>de financiamento, que devem zelar pela boa aplicação de seus recursos em pessoas que se-</p><p>jam capazes de produzir avanços efetivos (isto é, confiáveis) do conhecimento. Isso significa</p><p>instituir mecanismos que permitam identificar e desestimular as práticas fraudulentas na</p><p>pesquisa, e estimular a integridade na produção e publicação dos resultados de pesquisa.</p><p>Para lidar com esses problemas, a comissão recomenda que o CNPq tenha duas linhas de</p><p>ação: 1) ações preventivas e pedagógicas e 2) ações de desestímulo a más condutas, inclu-</p><p>sive de natureza punitiva.</p><p>Com relação às ações preventivas, é importante atuar pedagogicamente para orientar, prin-</p><p>cipalmente os jovens, nas boas práticas. É também importante definir as práticas que não</p><p>são consideradas aceitáveis pelo ponto de vista do CNPq. Como parte das ações preventi-</p><p>vas, o CNPq deve estimular que disciplinas com conteúdo ético e de integridade de pesqui-</p><p>sa sejam oferecidas nos cursos de pós-graduação e de graduação. Também a produção de</p><p>material com esses conteúdos em língua portuguesa deve ser estimulada e disponibilizada</p><p>nas páginas do CNPq. Como ponto de partida, algumas diretrizes orientadoras das boas</p><p>práticas nas publicações científicas, inclusive nos seus aspectos metodológicos, devem ser</p><p>imediatamente publicadas, podendo ser aperfeiçoadas com contribuições subsequentes.</p><p>Há que se salientar nessa direção a importância dos orientadores acadêmicos.</p><p>Com relação às atitudes corretivas e punitivas, recomenda-se a instituição de uma comis-</p><p>são permanente pelo Conselho Deliberativo do CNPq, constituída de membros de alta</p><p>respeitabilidade e originados de diferentes áreas do conhecimento. Deverá caber a esta</p><p>comissão examinar situações em que surjam dúvidas fundamentadas quanto à integridade</p><p>da pesquisa realizada ou publicada por pesquisadores do CNPq — detentores de bolsa de</p><p>produtividade ou auxilio a pesquisa. Com relação a denúncias, é de se cuidar para não</p><p>estimular denúncias falsas ou infundadas. Caberá a essa comissão examinar os fatos apre-</p><p>sentados e decidir preliminarmente se há fundamentação que justifique uma investigação</p><p>específica, a ser realizada por especialistas da área nomeados ad hoc. Caberá também a</p><p>essa comissão, a partir dos pareceres dos especialistas, propor à Diretoria Executiva do</p><p>CNPq os desdobramentos adequados. Será também incumbência dessa comissão avaliar a</p><p>qualidade do material disponível sobre ética e integridade de pesquisa, a ser publicado nas</p><p>páginas do CNPq.</p><p>definições</p><p>Podem-se identificar as seguintes modalidades de fraude ou má conduta em publicações:</p><p>Fabricação ou invenção de dados: consiste na apresentação de dados ou resultados</p><p>inverídicos.</p><p>Falsificação: consiste na manipulação fraudulenta de resultados obtidos de forma a alterar-</p><p>-lhes o significado, sua interpretação ou mesmo sua confiabilidade. Cabe também nessa</p><p>definição a apresentação de resultados reais como se tivessem sido obtidos em condições</p><p>diversas daquelas efetivamente utilizadas.</p><p>Manual de pesquisa_miolo.indd 33 12/09/19 10:41</p><p>34 MANUAL DE PESQUISA EM ESTUDOS LINGUÍSTICOS</p><p>Plágio: consiste na apresentação, como se fosse de sua autoria, de resultados ou conclusões</p><p>anteriormente obtidos por outro autor, bem como de textos integrais ou de parte substan-</p><p>cial de textos alheios sem os cuidados detalhados nas Diretrizes. Comete igualmente plágio</p><p>quem se utiliza de ideias ou dados obtidos em análises de projetos ou manuscritos não</p><p>publicados aos quais teve acesso como consultor, revisor, editor, ou assemelhado.</p><p>Autoplágio: consiste na apresentação total ou parcial de textos já publicados pelo mesmo</p><p>autor, sem as devidas referências aos trabalhos anteriores.</p><p>diRetRizes</p><p>1: O autor deve sempre dar crédito a todas as fontes que fundamentam diretamente seu</p><p>trabalho.</p><p>2: Toda citação in verbis de outro autor deve ser colocada entre aspas.</p><p>3: Quando se resume um texto alheio, o autor deve procurar reproduzir o significado</p><p>exato das ideias ou fatos apresentados pelo autor original, que deve ser citado.</p><p>4: Quando em dúvida se um conceito ou fato é de conhecimento comum, não se deve</p><p>deixar de fazer as citações adequadas.</p><p>5: Quando se submete um manuscrito para publicação contendo informações, conclu-</p><p>sões ou dados que já foram disseminados de forma significativa (p.ex. apresentado</p><p>em conferência, divulgado na internet), o autor deve indicar claramente aos editores e</p><p>leitores a existência da divulgação prévia da informação.</p><p>6: Se os resultados de um estudo único complexo podem ser apresentados como um</p><p>todo coesivo, não é considerado ético que eles sejam fragmentados em manuscritos</p><p>individuais.</p><p>7: Para evitar qualquer caracterização de autoplágio, o uso de textos e trabalhos anterio-</p><p>res do próprio autor deve ser assinalado, com as devidas referências e citações.</p><p>8: O autor deve assegurar-se da correção de cada citação e que cada citação na biblio-</p><p>grafia corresponda a uma citação no texto do manuscrito. O autor deve dar crédito</p><p>também aos autores que primeiro relataram a observação ou ideia que está sendo</p><p>apresentada.</p><p>9: Quando estiver descrevendo o trabalho de outros, o autor não deve confiar em resumo</p><p>secundário desse trabalho, o que pode levar</p>

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