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Autora: Profa. Ivy Judensnaider Métodos de Pesquisa Professora conteudista: Ivy Judensnaider Natural e residente em São Paulo, formou-se economista pela Faculdade de Economia da Fundação Armando Alvares Penteado (1981), mestre em História da Ciência pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2004) e doutoranda no Programa de Ensino de Ciências e Matemática da Unicamp. Atualmente, é professora da UNIP nos cursos de Ciências Econômicas. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) J92m Judensnaider, Ivy. Métodos de Pesquisa / Ivy Judensnaider. – São Paulo: Editora Sol, 2023. 132 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Pesquisa. 2. Projeto. 3. Comunicação. I. Título. CDU 001.8 U518.54 – 23 Profa. Sandra Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Prof. Dr. Paschoal Laercio Armonia Vice-Reitor de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora das Unidades Universitárias Profa. Silvia Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Prof. M. Ivan Daliberto Frugoli Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Revisão: Prof. Alexandre Ponzetto Kleber Souza Ricardo Duarte Métodos de Pesquisa APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 MÉTODO, METODOLOGIA E PESQUISA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES ............................................. 11 2 OS DIFERENTES TIPOS DE PESQUISA ....................................................................................................... 12 3 EXPLORANDO E DETALHANDO OS MÉTODOS DE PESQUISAS QUALITATIVAS......................... 22 3.1 A análise do discurso .......................................................................................................................... 23 3.2 Os estudos de caso .............................................................................................................................. 25 3.3 Os estudos culturais e etnográficos .............................................................................................. 31 3.4 A pesquisa-ação .................................................................................................................................... 35 3.5 Os experimentos ................................................................................................................................... 38 3.6 A pesquisa documental ...................................................................................................................... 43 3.7 A pesquisa bibliográfica ..................................................................................................................... 45 4 EXPLORANDO E DETALHANDO OS MÉTODOS DE PESQUISAS QUANTITATIVAS ..................... 49 4.1 Os surveys ................................................................................................................................................ 49 4.2 Os web surveys (ou online surveys) .............................................................................................. 62 Unidade II 5 O PROJETO DE PESQUISA ............................................................................................................................. 71 5.1 A escolha do tema ............................................................................................................................... 72 5.2 A problematização ............................................................................................................................... 74 5.3 A formulação da hipótese ................................................................................................................ 76 5.4 A identificação de objetivos ............................................................................................................. 77 5.5 Os métodos e as técnicas: as escolhas metodológicas ......................................................... 78 5.6 A justificativa ......................................................................................................................................... 80 5.7 O referencial teórico............................................................................................................................ 81 5.8 O cronograma de atividades ............................................................................................................ 89 5.9 As referências ......................................................................................................................................... 91 5.10 Outros elementos do projeto ........................................................................................................ 91 6 ASPECTOS ÉTICOS ENVOLVIDOS EM PESQUISAS CIENTÍFICAS ...................................................... 92 7 A APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DE UMA PESQUISA: A COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA PARA A COMUNIDADE ACADÊMICA .............................................. 96 8 A APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DE UMA PESQUISA: A COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA PARA A COMUNIDADE NÃO ACADÊMICA .................................114 Sumário 7 APRESENTAÇÃO Prezado aluno, O livro-texto que aqui apresentamos servirá de apoio ao estudo da disciplina Métodos de Pesquisa. Note que ele está dividido em duas unidades. Em cada uma delas será possível encontrar: • textos explicativos que elucidam a matéria; • resumos do conteúdo estudado; • exercícios comentados; • tópicos para refletir, em que o convidamos a pensar sobre assuntos da atualidade; • a seção saiba mais, em que indicamos filmes e livros que, de alguma forma, complementam os temas investigados; não deixe de explorar essas sugestões: garantimos a ampliação do seu conhecimento sobre os temas apresentados, o que será extremamente útil, não apenas na questão específica da disciplina, mas na sua vida profissional; • lembretes que trazem anotações pontuais que o remetem a alguma informação já conhecida; • observações que apresentam apontamentos que chamam sua atenção para algum ponto que merece ser destacado sobre o assunto em desenvolvimento – são recursos que reforçam algumas questões que quisemos salientar. Na unidade I, você entrará em contato com os conceitos de metodologia, método e pesquisa. Em seguida, refletirá sobre os diferentes tipos de pesquisa e de métodos, e poderá compreender as principais características dos métodos quantitativos e qualitativos; para que possa decidir sobre quais métodos utilizar, traremos exemplos e aplicações de estudos do tipo survey, grupos focais, estudos de caso, observação e pesquisa-ação. Também investigaremos os experimentos, a análise do discurso, os estudos sobre estado da arte e, finalmente, os estudos documentais, culturaisassociação estruturada de indivíduos; o oikos, o ambiente natural e cósmico dentro do qual o homem se encontra a atuar; o chronos, o tempo, condição ao longo da qual, em continuidade de sucessão, se desenvolve a atividade humana. O processo cultural ocorre por meio da ação dos quatro fatores, já que a ação de uma única pessoa deve ser apropriada pela coletividade para que se transforme em parte do patrimônio comum a todos. Por isso, o trabalho de campo requer visitar os domicílios, acompanhar a rotina do grupo que está sendo estudado, observar o comportamento e os rituais tradicionais; tal procedimento torna essencial, portanto, que haja “sensibilidade do pesquisador diante das situações com as quais se depara e da interação que estabelece com a população em estudo” (Lima et al., 1996, p. 24). Os autores (1996, p. 25-26), com base nos trabalhos de outros pesquisadores, resumem as etapas de realização de um estudo etnográfico. 1) Exploração: envolve a seleção e definição de problemas, a escolha do local onde será feito o estudo e o estabelecimento de contatos para a entrada no campo. Nesta fase, são realizadas as primeiras observações com a finalidade de adquirir maior conhecimento sobre o fenômeno e possibilitar a seleção de aspectos que serão mais sistematicamente investigados. Essas primeiras indagações orientam o processo da coleta de informações e permitem a formulação de uma série de hipóteses que podem ser modificadas à medida que novos dados vão sendo coletados. 2) Decisão: consiste numa busca mais sistemática daqueles dados que o pesquisador selecionou como os mais importantes para compreender e 33 MÉTODOS DE PESQUISA interpretar o fenômeno estudado. Assim, os autores, citando Wilson (1977), afirmam que os tipos de dados relevantes são: forma e conteúdo da interação verbal dos participantes; forma e conteúdo da interação verbal com o pesquisador; comportamento não verbal; padrões de ação e não ação; traços, registros de arquivos e documentos. Os tipos de dados coletados podem mudar durante a investigação, pois as informações colhidas e as teorias emergentes devem ser usadas para dirigir a subsequente coleta de dados. 3) Descoberta: consiste na explicação da realidade; isto é, na tentativa de encontrar os princípios subjacentes ao fenômeno estudado e de situar as várias descobertas num contexto mais amplo. Deve haver uma interação contínua entre os dados reais e as suas possíveis explicações teóricas permitindo estruturação de um quadro teórico, dentro do qual o fenômeno pode ser interpretado e compreendido. A pesquisa etnográfica com observação participante requer alguns cuidados por parte do pesquisador, que precisa ter claro o seguinte: • Quais são as características do grupo a ser observado? • Quais são os valores e a cultura do grupo do qual o pesquisador fará parte? • Quais os limites da ação do pesquisador? Até que ponto ele poderá se envolver ou tomar parte de decisões do grupo? Figura 9 – Na pesquisa etnográfica, o pesquisador deve afastar-se do grupo com a mesma delicadeza que usou para dele se aproximar. Afinal, ele integrou-se à comunidade e passou a fazer parte da vida dela Disponível em: https://shre.ink/24di. Acesso em: 18 dez. 2020. São muitas as variáveis envolvidas em um estudo de observação participante etnográfica. Valladares (2007) escreveu uma resenha sobre o trabalho de Whyte (1914-2000), um sociólogo americano que foi pioneiro em estudos de observação participante, em particular para a investigação de aspectos sociais em comunidades urbanas. Na década de 1930, durante três anos, Whyte observou uma área pobre da 34 Unidade I cidade de Boston, com a ajuda de outro pesquisador. Entre os “mandamentos” sugeridos por Whyte para a realização de uma observação participante, destacam-se: rigoroso planejamento dos passos a serem executados; flexibilidade por parte do pesquisador (que não tem como controlar os eventos); consciência de que ele, pesquisador, é um elemento estranho ao ambiente; auxílio de um intermediário que possa colaborar no contato com o grupo e que atue como assistente; consciência de que, além de observar, o pesquisador é observado; generosidade no contato com o grupo, de forma a escutar e ouvir; desenvolvimento de uma rotina de trabalho; capacidade de aprender com os próprios erros; compreensão de que nem todos os resultados poderão/serão divididos com o grupo observado. Saiba mais A fim de conhecer melhor acerca do tema, leia a seguinte resenha: VALLADARES, L. Os dez mandamentos da observação participante. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 22, n. 63, p. 153-155, fev. 2007. Disponível em: https://shre.ink/238q. Acesso em: 31 ago. 2023. Caso queira aprofundar os conhecimentos sobre pesquisas etnográficas com observação participante, sugerimos algumas leituras: MICHEL, T.; LENARDT, M. H. O trabalho de campo etnográfico em instituição de longa permanência para idosos. Escola Anna Nery Revista de Enfermagem, v. 17, n. 2, p. 375-380, 2013. Disponível em: https://shre.ink/24Lr. Acesso em: 31 ago. 2023. Nesse texto os autores, no campo da saúde, mostram os resultados do seu trabalho em uma instituição de longa permanência para pessoas idosas. Eles relatam com detalhes os procedimentos, bem como as dificuldades encontradas ao longo da pesquisa. Outro exemplo interessante de pesquisa etnográfica a partir de observação participante é: ROCHA, A. L. C.; ECKERT, C. Etnografia de rua: estudo de antropologia urbana. Rua: Revista do Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade da Unicamp, Campinas, n. 9, p. 101-127, 2003. Disponível em: https://shre.ink/23Uh. Acesso em: 31 ago. 2023. Aqui foi realizado um estudo etnográfico baseado em narrativas poéticas e visuais nas cidades de Porto Alegre (Brasil) e Paris (França); os pesquisadores utilizaram instrumentos audiovisuais, buscando identificar formas de relacionamento social no meio urbano e suas variações culturais. 35 MÉTODOS DE PESQUISA 3.4 A pesquisa-ação A pesquisa-ação é outro método aplicado em pesquisas qualitativas que, aparentemente, tem pontos de convergência com as técnicas de observação participante, já que se propõe a investigar um fenômeno ou situação no seu ambiente natural. No entanto, ela difere desta outra em função de ter como objetivo desenvolver uma ação com a intenção declarada de transformar a realidade. Veja bem: na observação participante, mesmo quando inserido no ambiente de pesquisa, o investigador deve agir de forma neutra. Na pesquisa-ação, em contrapartida, o pesquisador pode – e deve – intervir na realidade. “Ao enveredar por esse caminho, a pesquisa-ação conduz a uma nova postura e a uma nova inscrição do pesquisador na sociedade” (Barbier, 2004, p. 17). O pesquisador é, acima de tudo, um interventor e um agente de mudança. De forma resumida, a pesquisa-ação tem sua realização orientada para dois objetivos: 1. Objetivo prático (ou de resolução de problemas): a pesquisa-ação visa contribuir para o equacionamento do problema central na pesquisa, a partir de possíveis soluções e de propostas de ações que auxiliem os agentes (ou atores) na sua atividade transformadora da situação. 2. Objetivo de conhecimento (ou de tomada de consciência): a pesquisa-ação propicia que se obtenham informações de difícil acesso por meio de outros procedimentos e, assim, possibilita ampliar o conhecimento de determinadas situações. Desse item, são exemplos da pesquisa: reivindicações dos professores; suas representações, dos alunos e da sociedade sobre a profissão, sobre os alunos, sobre as questões pedagógicas; suas capacidades de ação ou mobilização etc. (Thiollent, 1994 apud Pimenta, 2005, p. 532). Em função do seu caráter intervencionista, a pesquisa-ação insere-se no plano das próprias práticas políticas, já que facilita a decisão e cria as condições para que essa decisão materialize-se no campo da realidade. Por isso mesmo, há quem discuta o caráter puramente “científico”da pesquisa-ação, já que ela se propõe a ir além da mera construção do conhecimento. Em contrapartida, os defensores da pesquisa-ação afirmam que esta modalidade põe em debate a própria noção de construção do conhecimento e o papel do cientista: Se por muito tempo o papel da ciência foi descrever, explicar e prever os fenômenos, impondo ao pesquisador ser um observador neutro e objetivo, a pesquisa-ação adota um encaminhamento oposto pela sua finalidade: servir de instrumento de mudança social. Ela está mais interessada no conhecimento prático do que no conhecimento teórico. Os membros de um grupo estão em melhores condições de conhecer sua realidade do que as pessoas que não pertencem ao grupo. A mudança na pesquisa clássica, quando há lugar para isso, é um processo concebido de cima para baixo. [...] A produção do conhecimento pode ser independente e distinta do progresso social. Contrariamente, a pesquisa-ação postula que não se pode dissociar a produção de conhecimento dos esforços feitos para levar à mudança (Barbier, 2004, p. 53). 36 Unidade I Como Tripp (2005, p. 445) afirma, na pesquisa-ação “planeja-se, implementa-se, descreve-se e avalia-se uma mudança para a melhora de sua prática, aprendendo mais, no correr do processo, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação”. Por conta dessa característica tão distinta de outras estratégias de pesquisa, a pesquisa-ação apresenta diferenças marcantes em relação à abordagem científica clássica. A seguir, resumimos as distinções quanto à maneira usual de se planejar e executar uma investigação no campo da ciência. Quadro 2 – A pesquisa clássica e a pesquisa-ação: quadro comparativo Etapa da pesquisa Pesquisa clássica Pesquisa-ação Formulação de problemas de pesquisa e hipóteses de trabalho A pesquisa clássica tem como origem um problema bem definido (uma pergunta que deverá ser respondida) e uma hipótese de trabalho clara (uma resposta supostamente correta para a pergunta que foi realizada) A pesquisa-ação não formula hipóteses a priori. Nela, o problema já existe, porque está no grupo, e o pesquisador deve apenas determinar os elementos prioritários do problema por meio da conscientização do grupo que é mobilizado para a ação coletiva Coleta de dados A pesquisa clássica descreve a forma de coletar os dados, esclarecendo quanto às fontes de dados, à amostra a ser utilizada, aos instrumentos de investigação etc. As questões são as da coletividade, não sendo suficiente investigar uma amostra. Os instrumentos de coleta de dados são mais interativos, já que envolvem o contato e o aprofundamento das relações com o grupo e com o ambiente Tratamento dos dados O pesquisador busca reduzir a influência de fatores externos na confiabilidade e validade dos seus dados O pesquisador transmite os dados para a coletividade para tornar possível encontrar soluções aos problemas apresentados Análise dos dados Em geral, é feita pelo pesquisador de forma reservada A interpretação e a análise são resultado do esforço do grupo. O feedback – a comunicação dos resultados da pesquisa – é etapa fundamental da pesquisa-ação, já que faz parte do processo intervencionista da pesquisa Adaptado de: Barbier (2004). Há inúmeros casos de pesquisa-ação nas áreas da pedagogia, das ciências sociais aplicadas e da saúde. Em especial no caso da educação, a sua realização tem resultado em transformações profundas no ambiente da escola por meio de mudanças nas atitudes e crenças dos docentes. Com base nesse contexto, Cezar (2014) realizou uma pesquisa-ação junto a uma amostra de 32 alunos da licenciatura em Matemática do Ifes, campus Vitória (27 calouros e 5 concluintes), como ponto de partida. A autora considerou que a ocorrência de problemas em relação aos processos de ensino e aprendizagem da construção dos números reais não era tratada com a devida relevância nos cursos de formação docente de Matemática. Por entender que não bastava desenvolver uma pesquisa que limitasse o pesquisador à simples observação, e que era fundamental que os sujeitos da pesquisa participassem de forma ativa e atuassem como protagonistas de um processo transformador, ela escolheu realizar uma pesquisa-ação. Tal opção permitiu que fossem desenvolvidas as construções dos campos racional, irracional e real de maneira que pesquisador e sujeitos agissem de forma colaborativa e participativa. 37 MÉTODOS DE PESQUISA Figura 10 – A pesquisa-ação entende que a intervenção é um dos passos para a construção do conhecimento Disponível em: https://shre.ink/24dj. Acesso em: 31 ago. 2023. Lodi, Thiollent e Sauerbronn (2017) estão entre aqueles que criticam o uso da pesquisa-ação no campo da administração e contabilidade. Para os autores, este tipo de pesquisa não apenas busca compreender os processos sociais, mas pretende intervir neles e resolver problemas concretos, existentes e reais. Ainda segundo os autores, esta modalidade de pesquisa não é recomendada apenas em situações problemáticas, mas em quaisquer circunstâncias em que pesquisadores e sujeitos estabelecem um acordo em relação à construção do conhecimento sobre a realidade social. Em função dessa característica, a realização de pesquisas-ação no campo empresarial torna-se complexa, já que nem sempre os objetivos dos que as realizam coincidem com os daqueles que são convidados a participar. Thiollent (2005) considera que nenhuma pesquisa dentro do ambiente organizacional é feita sem o consentimento dos empresários e em muitos casos é orientada e financiada por eles. Nesse caso, o resultado da ação será, obviamente, aquele que for mais interessante para o gestor da organização. Em muitos casos as formas de engajamento dos sujeitos e de acesso às suas experiências vividas, assim como as intervenções desenvolvidas nas pesquisas em administração e contabilidade com uso de métodos participativos, passaram a deixar de lado a perspectiva democrática e transformativa. Uma análise crítica da aplicação da PA nas áreas de administração e contabilidade aponta para essa distorção: a pesquisa é aplicada aos interesses particulares de dirigentes em detrimento do proveito dos pesquisados (Lodi; Thiollent; Sauerbronn, 2017, p. 9). 38 Unidade I Figura 11 – No campo da administração, há críticas quanto ao uso da pesquisa-ação, já que a pesquisa é aplicada para defender os interesses da empresa, e não os dos funcionários Disponível em: https://shre.ink/24vR. Acesso em: 18 dez. 2020. Saiba mais Para observar em detalhes as características básicas da pesquisa-ação, contextualizando seu surgimento e desenvolvimento enquanto estratégia de pesquisa, leia: TRIPP, D. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443-466, 2005. Disponível em: https://shre.ink/238K. Acesso em: 31 ago. 2023. 3.5 Os experimentos Os métodos experimentais são também frequentes em pesquisas qualitativas. Segundo Kerlinger (2007), um experimento é uma pesquisa em que variáveis independentes são manipuladas e os resultados são verificados em dois grupos de sujeitos: o grupo experimental e o grupo de controle. Lembrete Quando queremos investigar uma relação de causalidade, estabelecemos algo como “se x, então y”. A variável x é a variável independente; a y é a dependente, quer dizer, ela depende de x. Imaginemos, então, a seguinte situação: um profissional de recursos humanos pretende realizar um experimento no qual possa testar o efeito de determinadas condições no desempenho de candidatos a uma vaga de trabalho. Por suposição, ele imagina que o nível de luminosidade do ambiente da sala pode 39 MÉTODOS DE PESQUISA afetar o comportamento do candidato. Assim, ele reúne um grupo de candidatos e, aleatoriamente, monta dois grupos. O grupo A fará entrevistas individuais em uma sala com a luminosidade bem reduzida (e este será o grupo experimental); o grupo B, em uma sala com condições normais de luminosidade (eeste será o grupo de controle). Como já percebido, o desempenho do candidato é a variável y, e a luminosidade é a variável x. Se x, então y, quer dizer, no nosso caso, se luminosidade baixa, desempenho baixo. Para ser o mais objetivo possível, o profissional de recursos humanos estabelece um roteiro de perguntas que exigem cálculos aritméticos simples, e mede o tempo para a resposta e a quantidade de acertos: estes serão os indicadores de desempenho. Dessa forma, o profissional poderá verificar a existência ou não de desempenhos distintos em função de condições distintas de luminosidade na sala. A realização de experimentos exige, portanto, alguns cuidados: identificação precisa das variáveis dependentes e independentes, mecanismos precisos para medir as variáveis, e possiblidade de criar as condições experimentais necessárias (a formação de um grupo de controle e um grupo experimental). É importante mencionar esses requisitos, já que nem sempre é possível identificar com clareza quais são as variáveis, tampouco planejar uma forma de mensurar os efeitos do experimento. Ainda, nem toda situação é passível de ser organizada sob a forma de um experimento. Na pesquisa experimental, determina-se “um objeto de estudo, selecionam-se as variáveis que seriam capazes de influenciá-lo, definem-se as formas de controle e de observação dos efeitos que a variável produz no objeto” (Silva; Menezes, 2001, p. 21); de forma simplificada, é assim que caracterizamos essa modalidade de pesquisa qualitativa. Na maior parte das vezes, especialmente nas áreas da saúde, elas são realizadas em laboratórios, locais em que “o pesquisador interfere diretamente no fenômeno que está sendo estudado por meio da manipulação e do controle das variáveis” (Zabella, 2013, p. 37). No entanto, elas podem ser realizadas em “campo”, quer dizer, em ambientes nos quais as condições do experimento não precisam ser criadas artificialmente. Ainda, há experimentos que são realizados com dois grupos homogêneos (o grupo experimental e o grupo de controle) e há outros em que um mesmo grupo é observado antes e depois de determinada situação. Observação No caso do nosso exemplo, um mesmo grupo participaria da entrevista: inicialmente, no ambiente ideal; depois, no ambiente com a luminosidade prejudicada. Não à toa, o experimento é tido como uma das formas mais nobres de pesquisa. Kerlinger (2007, p. 124), um reconhecido e renomado psicólogo da área da educação, refletiu sobre a importância da pesquisa experimental da seguinte maneira: Em geral pode-se acreditar mais nos resultados obtidos em pesquisas experimentais do que nos resultados de outras fontes de conhecimento. Colocando de forma diferente, dada a competência e dada a satisfação dos padrões e critérios científicos, pode-se acreditar mais nos resultados 40 Unidade I dos experimentos do que nos resultados de outros tipos de pesquisa. Este é o motivo primordial por que a pesquisa experimental é tão importante e por que os cientistas, podendo escolher, provavelmente farão experimentos. O experimento científico é uma das maiores invenções de todos os tempos. É também a fonte mais segura de conhecimentos e de compreensão dos fenômenos naturais, outras coisas mantidas constantes. Os motivos não são difíceis de compreender. O principal e central é expresso pela palavra “controle”. Num experimento bem conduzido, o controle é relativamente grande. Mas o que significa “controle” em um contexto experimental? Basicamente significa a definição, delimitação, restrição é isolamento das condições da situação de pesquisa de maneira a maximizar a confiança na validade empírica dos resultados. As possibilidades de explanações alternativas dos fenômenos em estudo são minimizadas. Atualmente, dadas as dificuldades de montar grupos de controle e experimentais, bem como as de isolar as variáveis de estudo, os experimentos são mais utilizados nas áreas da saúde. Por exemplo, Taub et al. (2006, p. 293) realizaram um experimento com o objetivo de examinar aspectos neuropsicológicos de antigos trabalhadores de fábricas de lâmpadas fluorescentes que tivessem sido expostos ao vapor de mercúrio metálico. A hipótese de trabalho foi a de que esses colaboradores teriam desempenho pior do que os sujeitos do grupo de controle em uma série de testes. As autoras explicam, com detalhes, os procedimentos do experimento. Foram submetidos à bateria de avaliação neuropsicológica 26 ex-trabalhadores (20 homens e 6 mulheres) de fábricas de lâmpadas fluorescentes, encaminhados pelo Departamento de Medicina Legal, Ética Médica e Medicina Social e do Trabalho da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e 20 indivíduos (18 homens e 2 mulheres) sem histórico de exposição crônica a agentes tóxicos, recrutados dentre os funcionários da USP, que constituíram o grupo de controle. Dados referentes à concentração de mercúrio urinário dos ex-trabalhadores foram coletados nos prontuários médicos do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Foram utilizados como critério de exclusão histórico de distúrbios endócrinos ou metabólicos, lesão ou cirurgia cerebral, patologias vasculares, abuso de álcool ou outras drogas e tratamento prévio com agentes quelantes no grupo exposto. A média de tempo de aplicação do protocolo foi de aproximadamente uma hora e 30 minutos. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da Universidade de São Paulo e os voluntários foram informados sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa e assinaram termo de consentimento informado. Um dos experimentos mais intrigantes e ousados foi o realizado por Stanley Milgram no início da década de 1960, na Universidade Yale. A pergunta que norteou a pesquisa foi a seguinte: sob que condições pessoas normais se submeteriam à autoridade, mesmo que para realizar ações com as quais não concordassem? Essa questão surgiu em função das narrativas provenientes dos campos 41 MÉTODOS DE PESQUISA de concentração nazistas, contextos nos quais indivíduos aparentemente comuns haviam obedecido a ordens cruéis e desumanas. Um experimento foi delineado para responder à seguinte hipótese: “Se autoridade, então submissão”. Em termos básicos, Milgram queria descobrir qual autoridade seria forte o suficiente para que pessoas normais agissem de maneira anormal. Para testar essa assertiva, ele imaginou uma situação na qual sujeitos experimentais aplicariam (falsos) choques em voluntários (supostamente inocentes) para que se pudesse testar a força da punição no processo de aprendizagem. Veja bem: os sujeitos que aplicaram os choques não sabiam que o equipamento elétrico não provocava choque algum; os voluntários, por sua vez, sabiam que o equipamento não provocava qualquer dano, mas fingiam sofrimento. Milgram informou os sujeitos experimentais que a pesquisa tinha a intenção de descobrir se punições diante de respostas erradas poderiam “estimular” os “aprendizes” na direção de respostas corretas. A situação, embora pareça absurda, consistia no seguinte procedimento: Milgram perguntava algo ao “aprendiz”; o “aprendiz” dava uma resposta errada; Milgram ordenava que o sujeito experimental aplicasse um choque no “aprendiz” e, a cada resposta errada, o choque, supostamente, deveria ser mais intenso. Tal experimento pode gerar indignação! Afinal, “ninguém”, em condições normais, aceitaria aplicar um choque doloroso em outra pessoa, mesmo que a título de pesquisa. No entanto, os resultados do experimento foram surpreendentes: os indivíduos experimentais, de forma consistente, demonstraram um alto índice de submissão à autoridade do pesquisador ao obedecerem à ordem de provocar choques elétricos, com a voltagem máxima, em indivíduos inocentes. Sobretudo em razão de suas consequências, o experimento tornou-se um dos mais impactantes e controversos das ciências humanas e sociais (Dahia, 2015, p. 227). Assim, a anterior crença de que comportamentos abomináveis estariam,única e exclusivamente, relacionados a características individuais de personalidade sofreu um forte impacto: não era necessário que a pessoa fosse cruel para agir de maneira imoral; em determinadas circunstâncias, sob condições especiais, pessoas se submeteriam à autoridade e se comportariam de forma moralmente inadmissível. No caso do experimento de Milgram, o fato de a situação ter lugar em uma universidade de prestígio, bem como de a ordem ter sido emitida por um professor renomado, havia conseguido anular quaisquer impedimentos morais na aplicação de choques em pessoas inocentes. Como afirma Dahia (2015, p. 228), como seria possível trair tão facilmente o senso moral, os caros valores humanitários, em favor de uma submissão cega a uma suposta autoridade científica? Em outros termos, por que seres humanos sensíveis e comuns tornaram-se agentes de dor e sofrimento em pessoas inocentes? A mais importante e mais contundente lição da pesquisa é a suposição de que a produção da crueldade humana se relaciona a determinados padrões de interação social de maneira muito mais significativa do que as características de personalidade dos indivíduos. 42 Unidade I Saiba mais O experimento de Milgram não foi alvo de debates e críticas apenas em função dos seus resultados, mas dos métodos que o psicólogo utilizou para testar a sua hipótese. Afinal, do ponto de vista ético, é necessário reconhecer que os sujeitos experimentais foram expostos ao sofrimento emocional, durante e depois da pesquisa. Adiante, falaremos sobre os comitês de ética que normatizam e controlam experimentos que utilizem seres humanos e animais; por ora, deixamos como sugestão a reflexão sobre os limites éticos que Milgram pode ter ultrapassado na sua pesquisa, bem como a seguinte leitura: DAHIA, S. L. M. Da obediência ao consentimento: reflexões sobre o experimento de Milgram à luz das instituições modernas. Sociedade e Estado, Brasília, v. 30, n. 1, p. 225-241, abr. 2015. Disponível em: https://shre.ink/24Hi. Acesso em: 31 ago. 2023. Há também um filme a respeito do assunto: O EXPERIMENTO de Milgram. Direção: Michael Almereyda. Estados Unidos: 2015. 98 min. Figura 12 – O esquema apresentado mostra o modelo experimental adotado por Milgram. O indivíduo E é o entrevistador, o sujeito que dará ordem para que o sujeito S (o sujeito experimental) aplique os supostos choques no indivíduo A (um colaborador, que fingirá sentir dor a cada choque aplicado) Disponível em: https://shre.ink/24v7. Acesso em: 31 ago. 2023. 43 MÉTODOS DE PESQUISA Há inúmeros elementos a serem considerados previamente na elaboração e na execução de um experimento. Talvez por isso tal modalidade de pesquisa seja mais frequente nas áreas em que grupos experimentais e de controle possam ser rigorosamente montados e observados, bem como variáveis ser objetivamente manipuladas. 3.6 A pesquisa documental A pesquisa documental é outra modalidade de pesquisa qualitativa e consiste na análise de algum material que ainda não recebeu qualquer tratamento analítico. Dessa forma, tabelas estatísticas, cartas, documentos pessoais ou oficiais, fotografias e vídeos podem ser objeto de pesquisa documental. Embora muitos confundam a pesquisa documental com a pesquisa bibliográfica, é necessário distingui-las: esta faz uso de artigos ou textos de diversos autores sobre um determinado tema ou assunto; aquela tem como objeto documentos ainda não analisados, ou que foram analisados de outra forma. Assim, por exemplo, caso se queira fazer uma pesquisa bibliográfica sobre o uso da internet para o e-commerce, isso significa que serão reunidos artigos ou trabalhos que já versaram sobre o tema; caso se queira analisar as propagandas de e-commerce em publicações impressas, o material a ser utilizado será um conjunto de documentos que não foram alvo de análise por parte de outros pesquisadores, ou foram analisados por outros pesquisadores com objetivos distintos dos seus. A pesquisa documental, portanto, utiliza documentos que não foram analisados ou sistematizados, e “o desafio a esta técnica de pesquisa é a capacidade que o pesquisador tem de selecionar, tratar e interpretar a informação, visando compreender a interação com a sua fonte” (Kripka; Scheller; Bonotto, 2015, p. 243). Dessa forma, ainda conforme os autores (2015, p. 244), a pesquisa documental é um procedimento que se utiliza de métodos e técnicas para a apreensão, compreensão e análise de documentos dos mais variados tipos. Ainda, uma pesquisa é caracterizada como documental quando essa for a única abordagem qualitativa, sendo usada como método documento. Observação A análise de documentos pode ser uma etapa de outros tipos de pesquisa; quando isso ocorre, ela não recebe a denominação de documental. Por exemplo, a análise do discurso (AD), em geral, tem algum documento como objeto de estudo; caso estejamos fazendo a análise do discurso de um documento, não damos a este trabalho a denominação de pesquisa documental, mas o de AD, já que o foco do trabalho é a análise das condições de produção do discurso. 44 Unidade I Qual a importância de utilizar documentos como evidências? Quando essa tradição tem origem? Segundo Vieira, Peixoto e Khoury (1995 apud Sá-Silva; Almeida; Guindani, 2009, p. 7): a palavra documento com o sentido de prova jurídica, representação que se mantém até a atualidade, já era usada pelos romanos, tendo sido retomada na Europa Ocidental no século XVII. Assim, os historiadores positivistas, ao se apropriarem do termo, conservam o sentido de prova, agora não mais jurídica, e sim com status científico. O próprio fato de nomear a palavra documento aos testemunhos históricos traduz uma concepção de história que confunde o real com o documento e o transforma em conhecimento histórico. Captar o real nessa lógica cartesiana seria conhecer os fatos relevantes e fundamentais que se impõem por si mesmos ao conhecimento do pesquisador. Como resultado desse pensamento, só se considerava relevante para o campo da História aquilo que estava documentado, dando privilégio para os termos e ações da política governamental: ações do governo, atuações de personalidades, questões ligadas à política internacional, e outros assuntos. Mesmo quando os historiadores deixaram de ver seu próprio trabalho como sendo o de mera coleta de evidências do passado, ainda assim os documentos mantiveram-se importantes como pistas ou fontes de informações. Em geral, eles podem ser divididos em documentos solicitados ou não solicitados para a pesquisa. Na primeira situação, estão os documentos que surgiram em função da necessidade da pesquisa; por exemplo, caso alguém queira pesquisar áreas degradadas da cidade, poderá pedir a outros que fotografem regiões que possam ser assim caracterizadas. Neste caso, os documentos foram solicitados especialmente para fins de pesquisa. Em outra situação, temos documentos não solicitados, o que equivaleria a analisar fotografias antigas ou fotografias apresentadas em uma exposição que tiveram como alvo regiões urbanas degradadas; neste caso, as fotografias não teriam resultado de uma solicitação específica (Kripka; Scheller; Bonotto, 2015). Segundo Sá-Silva, Almeida e Guindani (2009), há diversos critérios a serem seguidos por um pesquisador interessado em realizar uma pesquisa documental. Após a confirmação de autenticidade e veracidade de um documento, o pesquisador deverá analisar o seu conteúdo tendo em mente que aquele registro foi realizado por alguém em um determinado momento histórico; isto significa que há um autor do documento, que viveu em certa época e que registrou, dentro de suas possibilidades, um fenômeno também datado. Esse aspecto é extremamente importante, porque não podemos “julgar” um documento a partir dos nossos olhos de agora, do presente; podemos analisá-lo, podemos tentar decifrá-lo, mas esses são propósitos bem distintos de realizar um julgamento. Devemos considerar queo documento reflete as condições e as limitações do tempo em que foi produzido, o que inclui uma linguagem específica e uma lógica interna particular. Da mesma forma, é importante identificar se o documento foi preservado de forma intencional ou não. Por que esse documento chegou a nós? Ele foi preservado de modo a servir como evidência de algum fato especial, ou sua preservação foi devida ao acaso? Todas essas são perguntas que o pesquisador deve se fazer no momento de realizar uma pesquisa documental. 45 MÉTODOS DE PESQUISA Figura 13 – O pesquisador deve procurar identificar o contexto da produção e da preservação do documento que está analisando Disponível em: https://shre.ink/24ve. Acesso em: 31 ago. 2023. Um exemplo de pesquisa documental é o trabalho de Santos (2003): com o objetivo de alimentar os arquivos da International Leprosy Association Global Project on the History of Leprosy, sediado na Universidade de Oxford, na Inglaterra, o autor vasculhou o Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (CPDOC-FGV), o Arquivo Nacional, várias coleções de periódicos e a Biblioteca Nacional para levantar informações a respeito da presença da doença (a hanseníase, mais conhecida como lepra) no território brasileiro, bem como para estudar os tratamentos já utilizados, os relatos médicos de pacientes tratados, os documentos referentes a centros médicos de atendimento aos leprosos, os documentos oficiais a respeito da doença e os registros das medidas sanitárias para seu controle. 3.7 A pesquisa bibliográfica A pesquisa bibliográfica é outra modalidade importante no rol das pesquisas qualitativas; na verdade, ela antecede toda e qualquer pesquisa, já que não há investigação que tenha início em um marco zero, como se nada houvesse sido pesquisado antes. Muitas vezes, ela é chamada de pesquisa do estado da arte, ou seja, do que mais recentemente foi publicado a respeito do tema; outros pesquisadores usam a denominação revisão de literatura, objetivando dizer que se pesquisou o que a “literatura científica” tem a dizer a respeito daquele assunto. De forma geral, a pesquisa bibliográfica é realizada a partir do levantamento de referências teóricas já analisadas, e publicadas por meios escritos e eletrônicos, como livros, artigos científicos, páginas de websites. Qualquer trabalho científico inicia-se com uma pesquisa bibliográfica, que permite ao pesquisador conhecer o que já se estudou sobre o assunto. Existem porém pesquisas científicas que se baseiam unicamente na pesquisa bibliográfica, procurando referências teóricas publicadas com o objetivo de 46 Unidade I recolher informações ou conhecimentos prévios sobre o problema a respeito do qual se procura a resposta (Fonseca, 2002 apud Gerhardt; Silveira, 2009, p. 37). As maiores fontes das pesquisas bibliográficas são as bibliotecas (virtuais ou presenciais), os bancos de dados, os acervos de jornais ou revistas e os arquivos de organismos nacionais e internacionais. Parte considerável do trabalho de pesquisa consiste na utilização de recursos fornecidos pelas bibliotecas. Isso é verdadeiro não apenas para as pesquisas caracterizadas como bibliográficas, mas também para os demais delineamentos. Qualquer que seja a pesquisa, a necessidade de consultar material publicado é imperativa. Primeiramente, há a necessidade de se consultar material adequado à definição do sistema conceitual da pesquisa e à sua fundamentação teórica. Também se torna necessária a consulta ao material já publicado tendo em vista identificar o estágio em que se encontram os conhecimentos acerca do tema que está sendo investigado (Gil, 2008, p. 60). Em geral, as fontes bibliográficas estão sob a forma de livros, dissertações (trabalhos de conclusão de curso de nível de mestrado), teses (trabalhos de conclusão de curso de nível de doutorado), periódicos científicos (também chamados de artigos científicos) e anais de encontros científicos (quando vários pesquisadores se reúnem para apresentar trabalhos e resultados de pesquisas recentes). Observação Não se deve confundir artigos científicos com artigos de revista de grande circulação. Os artigos científicos são publicados em revistas especiais e passam por pareceristas e revisores. Saiba mais São vários os sistemas de busca de trabalhos na web. O mais famoso deles, o Google Acadêmico, reúne trabalhos do mundo inteiro e das mais diversas áreas. Acesse o site a seguir: Disponível em: https://scholar.google.com.br/. Acesso em: 31 ago. 2023. Para que a busca retorne com as informações desejadas, sugerimos que seja específico, identificando exatamente o que está procurando encontrar. Quanto mais focada for a pesquisa, melhores os resultados. O Google Acadêmico também oferece algumas informações adicionais: na figura 14 a seguir é possível ver uma parte da página da web que resultou da busca pelos termos “ensino de metodologia EaD”. 47 MÉTODOS DE PESQUISA Logo abaixo do pequeno e breve resumo sobre o artigo, à esquerda, pode-se observar uma estrela: ela salva o arquivo na sua biblioteca pessoal. As aspas mostram as formas de realizar a referência daquela publicação segundo três diferentes critérios, sendo a NBR 6023 (da ABNT) uma delas. O link “Citado por” mostra todas as publicações que citaram este artigo, e “Artigos relacionados” exibe outras publicações com a mesma temática selecionada. Figura 14 – Página de resultados do Google Acadêmico Saiba mais O formato da referência sugerido pelo Google Acadêmico deve ser checado, de preferência no guia de normalização da instituição em que o aluno estuda. Também é possível formatar a referência por meio da plataforma More, da UFSC, caso deseje padronizar pela ABNT: Disponível em: http://www.more.ufsc.br. Acesso em: 31 ago. 2023. A pesquisa bibliográfica – ou revisão de literatura – costuma abarcar a pesquisa não apenas do tópico do estudo, mas da metodologia utilizada e dos resultados obtidos em estudos semelhantes. Flick (2013, p. 45) sugere os seguintes tipos de pesquisa: a) literatura teórica sobre o tópico do seu estudo; b) literatura metodológica sobre como realizar sua pesquisa e como utilizar os métodos que você escolheu; c) literatura empírica sobre pesquisas anteriores no campo do seu estudo ou em campos similares; d) literatura teórica e empírica para ajudar a contextualizar, comparar e generalizar seus achados. 48 Unidade I O mesmo autor recomenda algumas perguntas que podem ajudar o pesquisador na busca bibliográfica. Ao procurar respostas para essas indagações, é bem provável que o pesquisador consiga coletar um conjunto bastante adequado de informações. a) O que já é conhecido sobre esta questão em particular ou sobre a área em geral? b) Quais são as teorias usadas e discutidas nesta área? c) Quais conceitos são usados ou debatidos? d) Quais são os debates teóricos ou metodológicos e as controvérsias neste campo? e) Quais questões continuam abertas? f) O que ainda não foi estudado? (Flick, 2013, p. 45). - Texto completo online - Material disponível na biblioteca - Empréstimo entre bibliotecas - Comut - Diretamente com o autor Fontes: - Primária - Secundária - Terciária Pesquisa na internet para localização de material bibliográfico Delimitação do tema-problema Levantamento e fichamento das citações relevantes Aprofundamento e expansão da busca Relação das fontes a serem obtidas Localização das fontes Leitura e sumarização Redação do trabalho Figura 15 – Processos e etapas da pesquisa bibliográfica Fonte: Pizzani et al. (2012, p. 57). 49 MÉTODOS DE PESQUISA 4 EXPLORANDO E DETALHANDO OS MÉTODOS DE PESQUISAS QUANTITATIVAS Como vimos no tópico anterior, temos várias estratégias e técnicas de pesquisas a serem utilizadas quando desejamos realizar uma abordagem qualitativa. A partir de agora, iremos explorar e detalhar os métodos maiscomumente empregados em abordagens quantitativas. Como já observado, a pesquisa quantitativa tem como objetivo mensurar e quantificar fenômenos ou comportamentos. Por isso, em geral, ela é realizada quando o assunto já é de domínio do pesquisador (quer dizer, ele conhece as variáveis envolvidas) e há clareza quanto às relações de associação ou causalidade entre as variáveis. Diferentemente da pesquisa qualitativa, que busca lançar luz em um cenário ainda desconhecido, a pesquisa quantitativa pressupõe a existência de investigações anteriores sobre o tema e clareza sobre quais resultados serão medidos e com quais objetivos. A seguir, trataremos de algumas técnicas de pesquisas quantitativas: os surveys, ou levantamentos, como costumam ser chamados. 4.1 Os surveys Os surveys, ou levantamentos, são uma modalidade de pesquisa extremamente apreciada nas áreas das ciências humanas, ciências sociais aplicadas e outros estudos comportamentais. Essa utilização decorre da suposição de ser possível entender, de forma racional, o comportamento social, mesmo se este envolver elementos irracionais. Vejamos, por exemplo, os estudos sobre o comportamento de jogadores compulsivos: é difícil afirmar, nesta situação, que estamos lidando com aspectos racionais do comportamento; no entanto, é possível identificarmos os fatores, os aspectos ou as crenças que fazem com que os indivíduos joguem compulsivamente. Em outras palavras, os levantamentos partem do princípio de que é possível identificar as variáveis que determinam o comportamento humano, os fatores que levam pessoas a agir de tal ou qual modo (Babbie,1999). Figura 16 – O survey tem como pressuposto o fato de se acreditar na possibilidade de identificar as variáveis que determinam o nosso comportamento Disponível em: https://shre.ink/24Rk. Acesso em: 31 ago. 2023. 50 Unidade I Uma pesquisa do tipo survey faz uso da aplicação de um questionário para obter informações relevantes ao tema que está sendo investigado; este questionário é aplicado junto a uma amostra (quer dizer, um grupo de pessoas que tenha as características da população que estamos estudando) e os resultados são, posteriormente, alvo de análises estatísticas. A depender da amostra (do seu tamanho e da maneira como foi composta), estes resultados podem ser projetados para a população como um todo. Os estudos deste tipo têm se aproveitado sobremaneira dos desenvolvimentos tecnológicos em comunicação e informação: se, há 30 anos, era necessário imprimir vias e vias de questionário e ir até o entrevistado para a coleta de dados, hoje podemos realizar o levantamento online, sem quaisquer despesas de impressão ou deslocamento. Ainda, a maioria dos instrumentos disponíveis para a elaboração dos questionários tem interface com softwares estatísticos, o que possibilita a realização de análises avançadas. Aliás, o fato de todos esses instrumentos terem se tornado acessíveis possibilitou que inúmeros profissionais, desde que com os conhecimentos necessários, pudessem realizar pesquisas que, em tempos passados, apenas grandes institutos de pesquisa poderiam fazer. Observação Falaremos destes instrumentos e aplicativos mais à frente, tanto em relação aos que facilitam a captação de informações quanto em comparação aos que podem ser usados para a análise estatística. A pesquisa survey pode ser descrita como a obtenção de dados ou informações sobre características, ações ou opiniões de determinado grupo de pessoas, indicado como representante de uma população-alvo, por meio de um instrumento de pesquisa, normalmente um questionário (Freitas et al., 2000, p. 105). Assim, a pesquisa survey se presta, em especial, para situações em que o objetivo é buscar entender o que está acontecendo, como está acontecendo e por que está acontecendo. Por sua própria natureza, a pesquisa survey pode ser utilizada nos casos de pesquisas explicativas, exploratórias ou descritivas, desde que o objetivo seja mensurar ou quantificar fenômenos ou comportamentos. Isso significa dizer que, a depender do propósito do pesquisador, a pesquisa buscará explicar relações de causalidade, familiarizar-se com uma situação ou descrever determinado fenômeno ou comportamento. Uma das decisões centrais de um pesquisador envolvido em uma pesquisa do tipo survey tem relação com a amostra que será utilizada para o estudo. Como já dissemos, a amostra é um grupo de pessoas que possui as características de interesse para a pesquisa. Em função dos objetivos da pesquisa, portanto, pode ser que se deseje entrevistar pessoas do sexo feminino, jovens entre 18 e 25 anos, profissionais da área da saúde, ou consumidores que já tenham utilizado determinado produto. Como é oneroso e trabalhoso (e, às vezes, impossível) entrevistar todos os elementos de uma população, seleciona-se um grupo para que, a partir dele, os resultados possam ser projetados para o restante. 51 MÉTODOS DE PESQUISA Figura 17 – A amostra é um grupo de pessoas que possui as características de interesse para a pesquisa Disponível em: https://shre.ink/24Rl. Acesso em: 31 ago. 2023. As amostras probabilísticas são aquelas em que todos os participantes de um grupo têm a mesma chance de participarem da composição da amostra. Caso a intenção seja entrevistar funcionários de uma empresa, por exemplo, é possível sortear alguns deles a partir de uma lista da qual todos os funcionários façam parte; nessa situação, todos os funcionários tiveram a mesma chance de participar da amostra. Há casos em que não é possível contar com listas prévias para o sorteio; nessas situações, utilizam-se outros critérios para compor a amostra, como, por exemplo, sorteando as ruas da cidade que serão visitadas pelos entrevistadores. Em função do processo de seleção e composição das amostras probabilísticas, os custos envolvidos costumam ser maiores do que em outros casos. As amostras não probabilísticas são aquelas em que há prevalência de algum critério para a escolha dos participantes: por exemplo, você pode decidir entrevistar os seus amigos pessoais que tenham entre 18 e 25 anos e que gostem de futebol. O critério, nesse caso, foi o da conveniência: você já conhece um grupo de pessoas que atende aos objetivos da pesquisa e, portanto, não vê necessidade alguma de realizar sorteios ou buscar constituir a amostra de forma probabilística. Outro exemplo: caso precise entrevistar consumidoras que façam uso de bancos digitais, você entrevistará pessoas conhecidas ou familiares. Dentre as amostras não probabilísticas, temos: a) por conveniência (convenience): os participantes são escolhidos por estarem disponíveis; b) mais similares ou mais diferentes (most similar/dissimilar cases): os participantes são escolhidos por julgar-se que representam uma situação similar ou, o inverso, uma situação muito diferente; c) por quotas (quota): os participantes são escolhidos proporcionalmente a determinado critério; a amostra é composta por subgrupos; d) bola de neve (snowball): os participantes iniciais indicam novos participantes; 52 Unidade I e) casos críticos (critical cases): os participantes são escolhidos em virtude de apresentarem casos especiais ou chave para o foco da pesquisa; f) casos típicos (typical cases): os participantes são escolhidos por representarem a situação típica, não incluindo extremos (Freitas et al. 2000, p. 106-107). Em relação ao tamanho da amostra, há cálculos estatísticos que indicam o número ideal em função do erro que o pesquisador está disposto a assumir, o nível de confiança que deseja para os dados, a proporção em que o comportamento ou a característica se manifesta na população etc. Como forma de auxiliarmos o pesquisador que pretenda fazer uma pesquisa quantitativa e necessite saber o tamanho de sua amostra, apresentamos a tabela 2. Tenha em mente o seguinte: • A margem de erro indica o quanto o pesquisador imagina que o dado obtido pode variar; por exemplo, caso uma pesquisa mostre que37% do eleitorado prefere o candidato A, e caso a margem de erro seja de 3%, pode-se afirmar que entre 34% e 40% do eleitorado prefere o candidato A, ou seja, 37% mais ou menos 3%. • O tamanho da população indica quantas pessoas ou elementos têm a característica desejada. Imagine que se tenha a intenção de identificar o grau de satisfação de alunos do Ensino Médio, em sua escola, em relação às instalações físicas destinadas aos esportes. Esse número pode ser menor do que 1.000, ou próximo a 2.000. • A primeira coluna da tabela sugere alguns tamanhos da população; em geral, trabalha-se com populações infinitas, difíceis de serem mensuradas. • Devemos ler os dados da seguinte forma: caso tenhamos uma população com menos de 1.000 elementos, e caso aceitemos uma margem de erro de 5% nos nossos dados, nossa amostra máxima deverá ser de 222 elementos; caso aceitemos uma margem de erro de 10% nos nossos dados, nossa amostra máxima poderá ser de 83 elementos. • Observe que o tamanho da amostra necessária diminui à medida que o erro aumenta. Isso quer dizer que, quanto maior for a variação admitida nos dados, menor será o tamanho mínimo da amostra necessária. Se quisermos mais acuidade nos dados (uma menor margem de erro), precisaremos de amostras maiores. • Todas as amostras identificadas na tabela foram calculadas tendo como base um intervalo de confiança de 95%; isto significa que, caso realizemos 100 estudos similares, em 95 vezes os resultados estarão dentro do intervalo imaginado. Em outras palavras, o resultado estará dentro do intervalo indicado em 95 das 100 amostras utilizadas. 53 MÉTODOS DE PESQUISA Tabela 2 – Tamanho da amostra em função da margem de erro esperada, considerando um intervalo de confiança de 95% População Margem de erro 1% 3% 5% 10% 100.000 10.000 2.500 400 100 Fonte: Opinionbox (s.d.). A pesquisa do tipo survey apresenta uma série de vantagens para o pesquisador e, dentre essas, distinguem-se as relacionadas às possibilidades de conhecimento da realidade, à economia e rapidez com que podem ser realizadas e às possibilidades de quantificação. Conforme explica Gil (2008, p. 56), a pesquisa survey permite: a) Conhecimento direto da realidade. À medida que as próprias pessoas informam acerca de seu comportamento, crenças e opiniões, a investigação torna-se mais livre de interpretações calcadas no subjetivismo dos pesquisadores. b) Economia e rapidez. Desde que se tenha uma equipe de entrevistadores, codificadores e tabuladores devidamente treinados, torna-se possível a obtenção de grande quantidade de dados em curto espaço de tempo. Por outro lado, quando os dados são obtidos mediante questionários, os custos tornam-se relativamente baixos. c) Quantificação. Os dados obtidos mediante levantamentos podem ser agrupados em tabelas, possibilitando a sua análise estatística. As variáveis em estudo podem ser codificadas, permitindo o uso de correlações e outros procedimentos estatísticos. À medida que os levantamentos se valem de amostras probabilísticas, torna-se possível até mesmo conhecer a margem de erro dos resultados obtidos. 54 Unidade I Há, no entanto, algumas limitações na utilização deste modelo de investigação. Por exemplo, no caso de entrevistas com pessoas, há que considerar possíveis erros, percepções distorcidas ou vieses introduzidos pelos próprios entrevistados. Em grande parte das vezes, os indivíduos respondem não o que realmente sentem ou acham, mas aquilo que supõem ser esperado que sintam ou achem; esse problema pode ser contornado por um pesquisador experiente, que formule perguntas que diminuam as chances de o entrevistado manipular respostas. Ainda, deve-se levar em consideração que as pessoas respondem a entrevistas em função das condições específicas do momento em que a abordagem ocorre; isto significa que as respostas dos entrevistados podem estar à mercê de mudanças que não são, e tampouco podem ser, observadas ou previstas pelo entrevistador. Imagine, por exemplo, que um pesquisador entreviste os munícipes a respeito das condições do transporte urbano na cidade: caso essa pesquisa ocorra depois de uma tempestade que tenha alagado vários bairros, as reações dos entrevistados serão bem diferentes daquelas observadas se ela tivesse sido feita depois de uma semana de sol, ou logo depois de um feriado que tivesse diminuído a quantidade de pessoas nos ônibus. Vejamos outro exemplo: caso façamos uma pesquisa para identificar o grau de importância que é atribuído a aspectos de sustentabilidade de um produto, e se a pesquisa for realizada logo depois de um desastre ambiental que tenha sido debatido intensamente pela sociedade, teremos opiniões talvez distintas daquelas que surgiriam caso o desastre não tivesse ocorrido. Por conta disso, por melhor que seja o instrumento de pesquisa e por melhores que sejam os entrevistadores, o survey (assim como outras modalidades de investigação) “fotografa” uma determinada realidade sob determinadas condições; nada garante que a opinião dos entrevistados será a mesma no dia seguinte. Figura 18 – Na pesquisa survey, busca-se identificar e mensurar as variáveis relacionadas ao objeto ou fenômeno de estudo, quantificando-se os resultados sob a forma de dados quantitativos Disponível em: https://shre.ink/24gV. Acesso em: 31 ago. 2023. 55 MÉTODOS DE PESQUISA Quais são os cuidados que um pesquisador deve adotar quando realiza um survey? Segundo Lameirão (2014), o survey deve ser realizado em função de uma pergunta feita, quer dizer, o levantamento precisa ter como objetivo responder a uma pergunta passível de ser respondida. Não adianta fazer uma pesquisa para descobrir qual é o caminho da felicidade, porque esta é uma questão que não pode ser respondida. A resposta provável a uma pergunta é a hipótese de trabalho, que será confirmada ou negada em função dos dados coletados. Vamos exemplificar: imagine uma empresa de serviços de entrega que, nos últimos meses, tenha sido objeto de inúmeras críticas junto aos órgãos de proteção ao consumidor. Uma análise inicial revelou a existência de três áreas problemáticas na empresa, quais sejam, as de atendimento via web, as de atendimento presencial e as de recepção a queixas. O pesquisador pode, então, realizar a seguinte pergunta: caso implantemos um aplicativo que permita ao cliente acompanhar a entrega do produto, haverá uma diminuição significativa no número de reclamações? O pesquisador, assim, oferece uma resposta ao problema levantado: um aplicativo que permita ao cliente fazer o acompanhamento das entregas permitirá a redução do número de reclamações, já que será possível identificar com maior rapidez problemas causados por informações equivocadas ou exigências não cumpridas. O pesquisador fez uma pergunta possível de ser respondida e elaborou uma resposta provável da questão realizada. Os dados coletados no survey deverão ser capazes de confirmar ou negar a resposta provável oferecida pelo pesquisador. Caso o pesquisador tivesse elaborado perguntas do tipo “O que pode ser feito para deixar nossos clientes mais felizes?” ou “Quais os motivos da infelicidade dos nossos clientes?”, seria extremamente difícil supor uma resposta para quaisquer dessas perguntas e, consequentemente, complicado confirmar ou não esta resposta por meio do levantamento de dados. Dessa forma, segundo Lameirão (2014, p. 44-45), para que possam ser postos à prova, os eventos precisam ser observados e mensurados, o que corresponde à etapa da coleta de dados. Contudo, para que possam ser mensurados os fenômenos sociais devem ser especificados por meio de conceitos, da forma mais clara e direta possível, e traduzidos em variáveis (operacionalização dos conceitos), através das quais serárealizada a medição. Na pesquisa de survey as variáveis são codificadas de forma padronizada – as alternativas de respostas serão iguais em todos os questionários aplicados – e os resultados de sua medição compilados de maneira quantitativa (em linguagem matemática, possibilitando, por exemplo, descrever os dados encontrados usando porcentagens), o que permite atender ao princípio de quantificação. Embora possa parecer óbvio, nem sempre o pesquisador tem em mente a pergunta que seu trabalho deverá responder; assim, não são raros os casos em que o pesquisador sequer consegue identificar o que pretende com o seu trabalho, quais são os seus objetivos, qual imagina ser o resultado provável da sua pesquisa. Dessa forma, a elaboração de uma pergunta clara e a formulação de uma hipótese de trabalho são condições essenciais para que um survey possa ser realizado de forma bem-sucedida. 56 Unidade I Observação Teremos a oportunidade de discutir as questões referentes à problematização e à elaboração da hipótese posteriormente, na unidade II. Outros cuidados que o pesquisador deve levar em consideração quando da realização de um survey dizem respeito aos controles metodológicos que garantirão a credibilidade da pesquisa. Neste caso, estamos falando de dois critérios: a confiabilidade e a validade. A confiabilidade diz respeito à precisão da medição, ou seja, quando uma variável for medida repetidamente ela deve apresentar sempre o mesmo resultado. O exemplo mais clássico é o da balança: a cada vez que, por exemplo, um quilo de alimento for pesado em uma mesma balança o resultado deve ser sempre o de um quilo, e não de oitocentos gramas numa pesagem, um quilo noutra e um quilo e duzentos gramas em uma terceira mensuração. Já a validade é entendida como a capacidade de acurácia (ou exatidão) de uma medida, isto é, sua habilidade de medir adequadamente os conceitos que estão sendo investigados (Lameirão, 2014, p. 46). Exemplificando: suponha que um pesquisador queira investigar o grau de satisfação dos funcionários de uma empresa. A pergunta que norteará a pesquisa será: os funcionários da empresa estão satisfeitos com as condições de trabalho? Por hipótese (e podemos ou não concordar com ela), o pesquisador resolve medir o índice de assiduidade ao trabalho, supondo que funcionários assíduos estão satisfeitos com a companhia, e os não assíduos, insatisfeitos com a empresa. Para confirmar ou negar a sua hipótese de trabalho, o pesquisador faz um levantamento no sistema de ponto de horário da instituição, verificando o número de faltas. A partir disso, ele calcula o número de funcionários que faltaram mais de “x” vezes (os insatisfeitos, segundo sua hipótese) e os que faltaram menos de “x” vezes (os satisfeitos). Em conclusão, o pesquisador relata que a maioria dos funcionários da empresa encontra-se satisfeita com as condições de trabalho. Pois bem: caso o pesquisador resolva refazer os cálculos de assiduidade, e retorne aos dados do departamento de horários, é esperado que os resultados sejam iguais aos que ele conseguiu na primeira vez. Se os resultados forem reproduzidos, dizemos que a confiabilidade da pesquisa é elevada, quer dizer, se repetida a investigação, os resultados serão próximos; em outras palavras, a precisão é elevada. No entanto, chega ao conhecimento do pesquisador que muitos funcionários insatisfeitos com as condições de trabalho estão no grupo dos colaboradores assíduos. Isso quer dizer que a pesquisa não mediu o que ela realmente queria medir, ela não alcançou o alvo desejado; nessa situação, dizemos que a pesquisa tem uma validade baixa, ela não foi exata. O pesquisador imaginou uma associação entre duas variáveis não exatamente relacionadas: assiduidade e satisfação com o trabalho. O esquema a seguir representa as possibilidades em termos de exatidão e precisão em pesquisas do tipo survey: 57 MÉTODOS DE PESQUISA Alta precisão Baixa exatidão Baixa precisão Baixa exatidão Alta precisão Alta exatidão Figura 19 – Precisão e exatidão de uma medida Fonte: Kleinke (2017, p. 3). • À esquerda, temos uma pesquisa que, quando repetida várias vezes, alcança sempre os mesmos resultados; no entanto, ela erra completamente o alvo, ou seja, ela não mede o que supostamente deveria ter medido, como no exemplo do qual falamos anteriormente; é uma pesquisa que apresenta alta precisão, mas baixa exatidão. • Ao meio, temos uma pesquisa que, se repetida várias vezes, apresenta resultados distintos e distantes do alvo; é uma pesquisa que demonstra baixa precisão e baixa exatidão. • À direita, temos uma pesquisa que, se repetida várias, apresenta sempre resultados semelhantes e consegue, efetivamente, medir aquilo que se propôs a medir; é uma pesquisa com alta precisão e alta exatidão. O objetivo de todo pesquisador é realizar uma investigação que apresente uma alta precisão e uma alta exatidão; no entanto, esta não é uma meta fácil de ser concretizada. É possível que erros sejam cometidos em cada passo do processo de realização da pesquisa: o pesquisador pode errar no planejamento (na elaboração da pergunta e da hipótese de trabalho, como foi o caso usado como exemplo); no dimensionamento da amostra, entrevistando a mais ou a menos do que deveria ter feito; na coleta dos dados (cometendo erros na formulação das perguntas, não treinando adequadamente os entrevistadores etc.); e na interpretação dos dados, chegando a conclusões que não encontram suporte nas evidências coletadas. Outro erro bastante frequente é o viés de seleção, quando o pesquisador seleciona uma amostra que não representa a população que ele realmente quer estudar. Este tipo de erro pode ocorrer quando uma amostra é selecionada a partir de uma população específica – por exemplo, quando se retira uma amostra de mulheres vítimas de violência doméstica e familiar somente dentre aquelas que registram a ocorrência nas Delegacias das Mulheres, excluindo-seas demais vítimas que não denunciam a violência sofrida – ou quando a amostra é selecionada por conveniência, muito comum em aplicação de questionário na rua, em pontos de grande fluxo, quando o entrevistado é selecionado em decorrência de estar passando pelo local e por disponibilizar-se a responder ao questionário. Mas 58 Unidade I também pode ocorrer da recusa à participação no estudo por parte de muitos indivíduos selecionados pela amostra ou, ainda, pela ausência de respostas quando não se consegue entrevistar todos os componentes da amostra (Lameirão, 2014, p. 49-50). Exemplo de aplicação Pense a respeito das duas situações expostas a seguir: Situação 1: o pesquisador pretende investigar como famílias gastam sua renda, medindo a proporção de recursos financeiros destinados à saúde, ao aluguel, à educação e à alimentação. O pesquisador resolve realizar as entrevistas em um ponto de grande fluxo de pessoas; no entanto, a partir da décima entrevista, ele fica surpreso com a manifestação dos entrevistados em relação à proporção da renda destinada à saúde. Intrigado, ele resolve verificar se há algo errado com o questionário ou com o local em que estão acontecendo as entrevistas e, andando pelas ruas próximas àquela em que está, descobre que há um posto de saúde na redondeza, o que poderia, em parte, explicar os dados colhidos. Indeciso quanto ao que fazer, ele anula os questionários e muda o local das entrevistas. Situação 2: o pesquisador pretende investigar o grau de satisfação dos usuários de um banco com os serviços digitais prestados por meio de aplicativos. Pressionado pelos prazos disponíveis para a realização das entrevistas, o pesquisador resolve fazê-las no dia seguinte a uma pane no sistema de informação do banco, que tirou o site da empresa do ar durante horas. Ao apresentar os dados para o banco, ele sinaliza o elevado grau de insatisfação dos clientes, sem mencionar a data em que foram realizadas as entrevistas. Na sua opinião, houve ou não intencionalidade de erro emcada uma das situações? Os resultados destas pesquisas são confiáveis e exatos? Caso você fosse o pesquisador, como teria agido para aumentar a precisão e a exatidão da pesquisa? O questionário é o formulário por meio do qual os dados serão coletados. O formulário pode ser preenchido pelo próprio entrevistado ou ser preenchido por um entrevistador treinado especialmente para este trabalho. Evidentemente, não são todas as situações de pesquisa que podem fazer uso de questionários; afinal, como lembra Gil (2008, p. 122), o questionário enquanto técnica de pesquisa também apresenta limitações, tais como: a) exclui as pessoas que não sabem ler e escrever, o que, em certas circunstâncias, conduz a graves deformações nos resultados da investigação; b) impede o auxílio ao informante quando este não entende corretamente as instruções ou perguntas; c) impede o conhecimento das circunstâncias em que foi respondido, o que pode ser importante na avaliação da qualidade das respostas; d) não oferece a garantia de que a maioria das pessoas devolvam-no devidamente preenchido, o que pode implicar a significativa diminuição da representatividade da amostra; e) envolve, geralmente, número relativamente pequeno de perguntas, porque 59 MÉTODOS DE PESQUISA é sabido que questionários muito extensos apresentam alta probabilidade de não serem respondidos; f) proporciona resultados bastante críticos em relação à objetividade, pois os itens podem ter significado diferente para cada sujeito pesquisado. Figura 20 – Ao elaborar o questionário, o pesquisador deve ter em mente que questionários extensos e que contenham perguntas de ordem pessoal aumentam a chance de não resposta ou de desistência por parte de quem está sendo entrevistado Disponível em: https://shre.ink/24gL. Acesso em: 31 ago. 2023. A elaboração do questionário requer atenção especial do pesquisador, já que ele deve tomar cuidado com a clareza e a precisão dos termos utilizados na formulação das questões. Há dois formatos de perguntas: as abertas e as fechadas. As questões abertas são perguntas às quais o entrevistado responde livremente, sem ter que escolher alternativas. Em contrapartida, as questões fechadas têm alternativas como respostas, e o entrevistado deverá escolher uma delas. Se, por um lado, as questões fechadas facilitam a contagem das respostas, elas requerem que o pesquisador conheça a fundo o tema que está sendo pesquisado para que as alternativas possam ser oferecidas de maneira clara. Por outro lado, as questões abertas podem fazer surgir informações que de outra forma não surgiriam, embora tornem difícil a contabilização de respostas. A ordem das questões também é importante, já que não se deve induzir o entrevistado a determinada resposta, tampouco confundi-lo com vai e vem de temas. As perguntas devem levar em conta o universo de referência do entrevistado e não podem exigir uma informação que o entrevistado não tem. Mesmo no caso de perguntas abertas, é necessário que não haja ambiguidade na formulação dos questionamentos; cada questionamento deve ter como foco uma única ideia, já que o entrevistado não tem como responder a vários elementos de uma só vez. Finalmente, o questionário não pode ser excessivamente longo, tampouco envolver questões indiscretas ou extremamente pessoais. Uma boa maneira de verificar a adequação do questionário é realizar pré-testes. São escolhidas e entrevistadas algumas pessoas com as características desejadas; caso o questionário apresente certo problema, este é corrigido antes de ser aplicado junto ao total da amostra. 60 Unidade I Saiba mais Algumas pesquisas do tipo survey fazem uso de escalas nos seus questionários. Uma das escalas mais conhecidas é a de Likert, que mede o grau de concordância/discordância do entrevistado em relação a afirmativas especialmente elaboradas pelo pesquisador. Assim, colocado diante de uma assertiva, o entrevistado vai responder por meio de um valor de 1 a 5 (em geral, as alternativas são “concordo totalmente”, “concordo em parte”, “nem concordo nem discordo”, “discordo em parte” e “discordo totalmente”). Caso queira se aprofundar nesse assunto, sugerimos a leitura do artigo a seguir: BERMUDES, L. W. et al. Tipos de escalas utilizadas em pesquisas e suas aplicações. Vértices, Campos dos Goytacazes, v. 18, n. 2, p. 7-20, maio/ago. 2016. A respeito da elaboração de questionários, destacamos o artigo sobre estratégias para a construção de questionários como ferramenta de pesquisa. O texto está disponível em: MELO, W. V.; BIANCHI, C. S. Discutindo estratégias para a construção de questionários como ferramenta de pesquisa. Revista Brasileira de Ensino de Ciência e Tecnologia, v. 8, n. 3, 2015. Disponível em: https://shre.ink/24Lm. Acesso em: 31 ago. 2023. As pesquisas survey são muito utilizadas por agências de propaganda, institutos de pesquisas e centros de opinião pública. Dentre as pesquisas realizadas no modelo survey, as mais conhecidas – e as mais expostas a críticas – são as pesquisas eleitorais. Em função da visibilidade que estas pesquisas costumam ganhar em períodos de eleição, elas têm sido alvo de contestação de suas práticas metodológicas e de seus resultados. Segundo Lameirão (2014, p. 42), não é incomum pessoas fazerem perguntas tais como: “Eu nunca fui entrevistado/a, então, como pode uma pesquisa dessas representar a preferência, opinião e/ou valores de toda a população brasileira?”. Ou ainda, “Se só entrevistaram n eleitores e a população total é na casa dos milhões, como podem esses resultados ser verdadeiros?”. Até mesmo os políticos e os candidatos levantam dúvidas quanto à veracidade dos dados de pesquisas eleitorais, tanto que, de tempos em tempos, ressurge a proposta de proibição de divulgação de seus resultados na mídia com a finalidade de não influenciar a decisão do eleitor. A principal dificuldade reside no fato de ser extremamente complexo para o cidadão comum e o leigo entenderem os conceitos relacionados a amostragem, população, erros e vieses. Afinal, como acreditar que entrevistas com 2 mil pessoas possam representar, realmente, a população como um todo? Assim, embora 61 MÉTODOS DE PESQUISA os pesquisadores tenham a obrigação de instruir os eleitores a respeito dos procedimentos e rigores metodológicos, é necessário reconhecer que esta é uma tarefa muito complexa. O processo de planejamento e execução de um survey é longo e requer atenção a muitos detalhes, e o mesmo pode ser dito em relação à elaboração de um questionário. A seguir, selecionamos uma parte do questionário socioeconômico que os alunos candidatos ao Enem respondem quando da inscrição na avaliação. Será possível notar como as perguntas e as alternativas foram elaboradas de forma precisa e como a ordem das questões foi feita tendo em vista o conforto e a compreensão do respondente. Embora o questionário não faça uso de perguntas abertas, a quantidade de dados e de informações que ele permite coletar é imensa. Figura 21 – Parte do questionário socioeconômico do Enem 2008 Fonte: Inep (2008, p. 3). 62 Unidade I 4.2 Os web surveys (ou online surveys) O web survey é a pesquisa do tipo survey realizada por meio da utilização de tecnologias de informação e comunicação. Segundo Joncew, Cendon e Ameno (2014, p. 193), os surveys constituem investigações que colhem dados de amostra representativa de uma população específica, que são descritos e analiticamente explicados. Pretende-se que os resultados sejam generalizáveis ao universo dessa população, evitando-se realizar o censo, ou seja, ouvir todos os indivíduos, o que é impossível, por questão de custo e de tempo (Babbie, 2005). Embora o conceito de survey não tenha sofrido grandes alterações ao longo dos anos, ele absorveu o impacto positivo das tecnologias de informação e comunicação. Os chamados websurveys alteraram gradualmente o alcance do número de respondentes, a velocidade do trabalho, as técnicas de abordagense os custos das pesquisas. Entre outras implicações, citam-se, ainda, a automatização, a simplificação da coleta e tabulação dos dados e a melhoria da apresentação dos dados. Segundo Carneiro e Dib (2011), o avanço tecnológico ofereceu oportunidades para acesso a um conjunto imenso de pessoas e para a redução dos custos de entrevistas presenciais no caso de pesquisas que necessitam entrar em contato com os entrevistados para a coleta de informações. Dentre os benefícios do uso do ambiente online para a realização de web surveys destacam-se a interatividade possível de ser estabelecida com o entrevistado, o uso de recursos visuais e um número menor de vieses introduzidos na pesquisa em função de características ou opiniões do entrevistador. No entanto, também há desvantagens no uso deste método: • O público com o qual desejamos falar pode não ter acesso à internet, ou pode não ter facilidade para acessar formulários e enviar respostas online; ainda, é difícil obter endereços de e-mails atuais e que não estejam bloqueados para spam ou informações enviadas de forma massiva. • A pesquisa pode ser respondida por outra pessoa que não aquela na qual estamos interessada; caso não haja qualquer restrição, um mesmo indivíduo pode participar da pesquisa várias vezes, comportamento que pode alterar os resultados. • Na ausência de um entrevistador que estimule e resolva quaisquer dúvidas do respondente, é mais fácil desistir da pesquisa ou “pular” etapas, o que aumenta o número de não respostas; alguns elementos do questionário “podem ter influência sobre o padrão de respostas, em especial pelo fato de que, na ausência de um entrevistador para motivar e esclarecer dúvidas, o respondente busca auxílio nas próprias ‘pistas’ providas pelo instrumento, tais como seus elementos verbais e visuais” (Carneiro; Dib, 2011, p. 656). • A dificuldade de garantir o anonimato dos respondentes. Segundo Carneiro e Dib (2011, p. 662), se “a resposta for encaminhada por meio de um e-mail, o respondente estará sendo implicitamente identificado. Mesmo que o questionário seja preenchido em um website, ainda assim é possível ter informação ao menos sobre o computador do respondente, por meio de seu IP (Internet Protocol)”. 63 MÉTODOS DE PESQUISA Os surveys online podem utilizar vários instrumentos para a coleta de informações: anúncio de uma página em um periódico semanal de negócios, chamada colocada em uma comunidade da rede, hyperlinks apresentados em websites que não o da pesquisa, e e-mail, não encontrando nenhum efeito estatisticamente significativo sobre a taxa de resposta (Carneiro; Dib, 2011, p. 649). Caso o pesquisador preveja um alto nível de desistência entre os respondentes, ele pode incorporar alguns mecanismos: publicar um link para que o entrevistado possa entrar em contato a fim de resolver dúvidas ou adicionar um indicador da proporção da pesquisa realizada, mostrando o progresso das respostas ao questionário e estimulando a finalização da pesquisa por parte do respondente. O pesquisador também pode oferecer ao entrevistado algum bônus sob a forma de descontos ou do envio, de forma personalizada, dos resultados da pesquisa. Outros cuidados devem ser tomados em relação ao visual do questionário e à incorporação de “botões” ou “caminhos” supostamente intuitivos. Ainda, trajetos que obrigam a resposta a todos os itens para que o entrevistado “avance” podem produzir respostas “forçadas”, ou respostas dadas de forma descompromissada. Segundo Carneiro e Dib (2011, p. 656), esta exigência tem por objetivo evitar dados ausentes, mas pode acarretar a desistência de alguns respondentes – com o correspondente possível aumento do viés de não resposta – ou forçar outros a darem uma resposta que eles não julgariam como a mais apropriada – aumentando, assim, o erro de mensuração. Uma opção para minimizar esta fonte de erro de mensuração é oferecer uma opção de resposta do tipo “não sei” ou “não se aplica” ou “prefiro não responder”. O pesquisador também deve evitar o uso de palavras, símbolos ou itens gráficos que não são de conhecimento geral, ou que podem gerar ambiguidade. Um exemplo típico é o pedido para que o entrevistado forneça a data de nascimento (dia/mês/ano) em um formato não usual (mês/dia/ano). Figura 22 – No web survey, o planejamento e a elaboração do questionário são fatores fundamentais para o sucesso da pesquisa Disponível em: https://shre.ink/24ox. Acesso em: 18 dez. 2020. 64 Unidade I Outra questão importante diz respeito ao tamanho do questionário e ao número de questões em cada página: as pesquisas indicam que, quanto maior o questionário, menor a taxa de resposta; ainda, quanto mais agrupadas estiverem as questões em uma mesma página (evitando-se, assim, que o respondente tenha que “mudar” de página várias vezes), menor a taxa de desistência (Carneiro; Dib, 2011). De fato, dada a ausência do entrevistador para corrigir qualquer falha, o planejamento prévio do questionário é etapa fundamental para a realização de um web survey. As pesquisas na web são administradas pelos próprios respondentes, sem intermediação. A fonte de inspiração e elucidação de dúvidas foi transferida para o instrumento de pesquisa, o questionário ou script, que deve conduzi-los ao término da pesquisa, de forma completa, ótima e confiável. A comunicação entre respondente e pesquisador acontece através do questionário. Tal fato maximiza a importância do planejamento e desenho do instrumento de coleta de dados, foco de preocupação de vários estudiosos da área (Joncew; Cendon; Ameno, 2014, p. 194). Ainda, segundo os autores (2014), a realização de exaustivos pré-testes pode diminuir a ocorrência de problemas de incompreensão por parte do entrevistado ou de ineficácia do instrumento. Outros cuidados envolvem usar uma linguagem simples, evitar dúvidas ou duplo sentido na formulação das questões, evitar o uso de cores berrantes ou símbolos piscando, disponibilizar mecanismos para corrigir respostas, usar um layout limpo, construir uma sequência lógica de perguntas, usar poucas opções como alternativas de resposta e disponibilizar a pesquisa para pessoas com necessidades especiais (Joncew; Cendon; Ameno, 2014). É plausível imaginar que o web survey ganhe mais espaço à medida que aumente o número de pessoas com acesso à internet. No Brasil, o crescimento de domicílios conectados à web subiu de 69,3% para 74,9%, de 2016 para 2017. No mesmo período, a posse de telefone fixo caiu de 33,6% para 31,5%, e a posse de celular aumentou de 92,6% para 93,2% dos domicílios, o que pode explicar a mudança de comportamento em relação às formas de usar a internet, conforme pode ser visto a seguir. Figura 23 – Dados do Pnad 2017: equipamentos usados para acesso à internet Fonte: IBGE (2018, p. 6). 65 MÉTODOS DE PESQUISA A porcentagem da população que acessou a internet pelo menos uma vez no período de três meses anteriores à pesquisa corresponde a quase 70%. Entre 2016 e 2017, aumentou o uso da internet entre os jovens (20 a 24 anos) e as pessoas idosas. Ainda, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio), organizada pelo IBGE, revelou que aumentou a porcentagem dos usuários de internet via aparelho celular ou televisão, simultaneamente à diminuição de pessoas que realizaram o acesso por computador. Em adição, a Pnad identificou que quase a totalidade de usuários da internet acessou a web para enviar ou receber mensagens de texto, voz e imagem; parcela extremamente significativa da população utilizou a web para conversar por chamada de vídeo e voz. De 2016 para 2017, o percentual de utilização da internet nos domicílios subiu de 69,3% para 74,9%, ou três em cada quatro domicílios brasileiros. Foi um salto de 5,6 pontos percentuais, em um ano. Na área urbana, esse percentual de utilização cresceu de 75,0% para 80,1%, e na área rural, de 33,6% para 41,0%. Nos 17,7 milhões de domicílios onde não houve utilização da internet no período de referênciae etnográficos. Na unidade II, investigaremos quais os principais passos para a realização de pesquisas, incluídas a elaboração do projeto de pesquisa e a comunicação dos resultados da pesquisa. A respeito da comunicação científica, discutiremos como ela ocorre em dois ambientes: no ambiente acadêmico e no ambiente não acadêmico. Os nossos objetivos não incluem, única e exclusivamente, a transferência de conteúdos. Nossa proposta é, em especial, a de colaborar para o desenvolvimento de competências relacionadas à pesquisa e à investigação científica. Por conta disso, não nos limitaremos a explicar as diferentes modalidades de pesquisas e métodos; procuraremos, também, trazer exemplos de estudos envolvendo escolhas metodológicas distintas, ou em função dos problemas de pesquisa que se colocaram diante dos pesquisadores ou por conta das áreas de conhecimento das quais essas investigações emergiram. Dessa forma, dará para notar que os conteúdos procuram dialogar com as diferentes vertentes do conhecimento científico. 8 INTRODUÇÃO Provavelmente você, universitário, imagina que a pesquisa científica seja privilégio de cientistas trancados em laboratórios ou perdidos nas bibliotecas, sendo assunto de pouca importância para quem está desenvolvendo competências e habilidades no Ensino Superior. No entanto, realizar pesquisa é justamente uma das principais atividades dos alunos que estão em processo de formação nas universidades. A pesquisa científica faz parte do cotidiano dos discentes, sejam quais forem as suas áreas de formação, sejam quais forem os semestres sendo cursados. Estamos fazendo pesquisa quando selecionamos e analisamos artigos acadêmicos sobre determinado tema; fazemos pesquisa quando entrevistamos, de forma sistemática, clientes ou fornecedores; fazemos pesquisa quando observamos o comportamento de pessoas ou animais; fazemos pesquisa quando investigamos a resistência de materiais para a construção de prédios ou viadutos. A atividade profissional requer que dominemos os principais métodos de pesquisa para que possamos dar conta de oferecer respostas aos problemas que encontramos, ou que estão colocados à nossa frente. É claro que qualquer pessoa pode elaborar um questionário e entrevistar clientes ou fornecedores. Qualquer um pode testar um processo de gestão e concluir sobre a viabilidade ou não de sua utilização. Qualquer indivíduo pode selecionar textos em uma plataforma digital e resumi-los. Qualquer um pode afirmar que determinada substância tem poderes curativos. Para realizar essas tarefas, parecem ser suficientes o bom senso e a experiência pessoal. Por que, então, são necessários conhecimentos específicos para efetuar pesquisas? A explicação pode parecer óbvia, mas não o é: conhecer e dominar métodos de pesquisa garantem a formulação de problemas de qualidade, a oferta de soluções com fundamentação científica, a construção de um conhecimento que, embora possa ser modificado no futuro, nos dá alguma certeza, mesmo que probabilística, sobre o mundo no qual vivemos. De fato, será realizada pesquisa científica em cada uma das disciplinas do seu curso, e o desenvolvimento de habilidades metodológicas será essencial para a formação e a atuação profissionais. O conhecimento crítico a respeito dos diferentes métodos de pesquisa lhe permitirá boas escolhas. Afinal, como já dissemos, qualquer um pode achar que está realizando pesquisa; no entanto, qual conhecimento nos proporciona maior grau de confiança? Certamente, aquele que foi produzido em condições nas quais eram conhecidas todas as variáveis envolvidas na situação. Caso alguém diga que o chá de camomila é indicado para doentes que apresentem sintomas de gripe, estaremos mais seguros de utilizá-lo se soubermos que essa indicação foi fruto de um trabalho sistemático de investigação. Ficaremos mais tranquilos se tivermos a garantia de que este procedimento foi testado junto a um número grande de pessoas, que os sintomas anteriores e posteriores foram controlados de forma rigorosa, que a dosagem dele foi medida com instrumentos acurados, que a pesquisa foi realizada em diferentes regiões do país e em períodos distintos do ano. Caso tenhamos que orientar uma empresa na descontinuidade de algum produto, podemos enviar e-mails para nossos amigos próximos e indagar sobre os usos e a satisfação no consumo deste bem. No entanto, garantiremos maior confiança na sugestão a ser dada se os resultados tiverem sido fruto de uma investigação sistemática, usando como amostra um grupo de pessoas que, de forma contínua, 9 consuma o produto. Podemos procurar entrevistar pessoas de diferentes idades, níveis socioeconômicos, profissões e regiões geográficas. Podemos formular um questionário que permita abordarmos todos os entrevistados da mesma forma, buscando diminuir os efeitos e os vieses dos entrevistadores. Podemos submeter nossos dados a tratamento estatístico, buscando compreender se a população como um todo apresenta ou não o mesmo comportamento observado na amostra. Tanto o conhecimento científico quanto o metodológico estão sujeitos a mudanças ao longo do tempo. Um método válido no início do século XIX pode não o ser mais no século XXI. Uma forma específica de estudar fenômenos da natureza pode ter se mostrado ineficaz depois de décadas (ou séculos) de uso. Perguntas que nunca foram colocadas antes podem emergir em função de modificações nas condições nas quais vivemos. Vazamentos de óleo nos oceanos provocaram discussões que não haviam acontecido antes; a pandemia do coronavírus estimulou o debate sobre o papel do isolamento social no controle de doenças e o processo de descoberta de vacinas; a escassez de recursos hídricos tem contribuído para aumentar o volume de pesquisas a respeito de processos produtivos; o aumento populacional nas grandes cidades tem tornado imperativo que discutamos as relações sociais, a violência e a mobilidade urbana. Embora a produção do conhecimento científico seja histórica e socialmente determinada, a validação de métodos de pesquisa e o consenso da comunidade científica em torno deles tornam possível reconhecer como ciência os resultados obtidos a partir de certos procedimentos. Fazer ciência não significa afirmar certezas eternas sobre os fenômenos estudados, mas colocar à disposição da crítica e da mudança tanto os métodos utilizados para a investigação quanto os resultados obtidos. Nossa proposta, a partir de agora, é a de possibilitar a reflexão sobre os métodos atualmente percebidos como válidos pela comunidade científica. Bem distantes da intenção de defender verdades perenes, buscaremos familiarizá-lo com os diferentes tipos de pesquisa e de procedimentos metodológicos. Esperamos que você aprecie o texto. Bons estudos! 11 MÉTODOS DE PESQUISA Unidade I 1 MÉTODO, METODOLOGIA E PESQUISA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES Segundo Zanella (2013), a ciência é a produção humana na sua atividade de conhecer e refletir a respeito do mundo e dos fenômenos da natureza. Assim, a ciência é fruto da reflexão de um sujeito (quem busca saber) sobre um objeto (o alvo dessa reflexão). Por exemplo, o biólogo que busca compreender a transmissão de características genéticas nos seres humanos é o sujeito cognoscente, o indivíduo que busca o conhecimento; o seu objeto de estudo é a transmissão de características genéticas nos seres humanos. O geógrafo que procura entender os movimentos migratórios é o sujeito do conhecimento; os movimentos migratórios fazem parte do conjunto de objetos de estudo sobre os quais ele investiga. O método diz respeito ao caminho que o sujeito cognoscente faz em direção ao seu objeto. Em outras palavras, são os procedimentos que o agente do conhecimento escolhe para que possa refletir, conhecer e entender um fato ou um aspecto da natureza. Essas práticas envolvem atividades e processos intelectuais e técnicos. Em outras palavras, incluem a razão e a ação, a ordenação dos pensamentos de forma a decidir sobreda pesquisa, os motivos indicados pelos entrevistados foram: falta de interesse em acessar a internet (34,9%), serviço de acesso à internet era caro (28,7%), nenhum morador sabia usar a internet (22,0%), serviço de acesso à internet não estar disponível na área do domicílio (7,5%) e equipamento eletrônico para acessar a internet ser caro (3,7%). A indisponibilidade do serviço de acesso à internet foi o motivo indicado em somente 1,2% dos domicílios da área urbana, contra 21,3% daqueles em área rural. [...] A parcela da população que utilizou a conexão discada já era insignificante em 2016 (0,9%) e tornou-se ainda menor em 2017 (0,6%). Já o percentual da banda larga fixa subiu de 81,0% (2016) para 82,9% (2017) e continuou acima da banda larga móvel, que cresceu de 76,9% para 78,3% nesse período. O percentual que utilizou os dois tipos de banda larga subiu de forma mais acentuada, de 2016 (58,3%) para 2017 (61,4%). [...] Os motivos mais apontados pelos 54,8 milhões de pessoas de 10 anos ou mais que não utilizaram a internet nos três últimos meses foram: não saber usar a internet (38,5%), não ter interesse em acessar (36,7%) e achar que serviço de acesso à internet era caro (13,7%). O percentual de pessoas sem interesse em acessar a internet tinha diferença acentuada entre a área urbana (39,7%) e a rural (29,3%). O serviço de acesso à internet não estava disponível nos locais que costumavam frequentar foi o motivo indicado por 12,9% das pessoas que não utilizaram esta rede na área rural, enquanto na área urbana foi de 1,7% (IBGE, 2018b). Finalmente, é importante ressaltar que a banda larga móvel é o tipo de conexão mais frequente na região Norte do país, enquanto a região Sul é a que tem a maior participação de conexão via banda larga fixa. 66 Unidade I 73,5 48,8 74,2 75,2 77,2 74,778,5 88,7 Brasil Norte Nordeste Banda larga fixa Banda larga móvel Domicílios em que havia conexão por banda larga na utilização da internet, segundo o tipo de banda larga (%) Sudeste Sul Centro-Oeste 63,8 83,5 78,6 82,0 Figura 24 – Pnad 2017: conexão para utilização da internet Fonte: IBGE (2018, p. 6). Saiba mais São muitos os instrumentos disponibilizados na web para a elaboração e aplicação de questionários de web surveys. Os mais comuns, e gratuitos, são os fornecidos pelo Google e pela Microsoft. GOOGLE. Formulários. Google, [s.d.]a. Disponível em: https://shre. ink/24Bx. Acesso em: 31 ago. 2023. MICROSOFT. Auxílio e aprendizado do Microsoft Forms. Microsoft, [s.d.]a. Disponível em: https://shre.ink/24Z6. Acesso em: 31 ago. 2023. Ambos permitem a elaboração de questionários com perguntas abertas ou fechadas, com a inserção de imagens, com “desvios” ou “perguntas obrigatórias”. Ainda, os dois instrumentos apresentam a vantagem de transportar os seus resultados para planilhas de Excel, o que facilita sobremaneira o tratamento estatístico de dados. É também possível encontrar na web pacotes estatísticos específicos ao tratamento de dados de pesquisa. O Bioestat foi originalmente pensado para o tratamento de dados de pesquisas ambientais, mas pode ser utilizado em quaisquer outras pesquisas do tipo survey. Ele é bastante amigável e intuitivo, e oferece muitas alternativas para gráficos e tabelas. Elaborado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, ele é gratuito para alunos, pesquisadores e professores, e está disponível no link a seguir: INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL MAMIRAUÁ. Programas. Tefé: Mamirauá, [s.d.]. Disponível em: https://shre.ink/24lw. Acesso em: 21 dez. 2020. 67 MÉTODOS DE PESQUISA Outro software à disposição na web é o PSPP, um programa livre que emula o SPSS, um dos mais famosos e conhecidos pacotes estatísticos. O programa não é amigável e não oferece instrumentos gráficos; no entanto, ele é adequado para pesquisas que façam uso de amostras muito grandes e quando for necessário submeter os dados a técnicas estatísticas multivariadas. Além das pesquisas eleitorais sobre as quais já falamos, há outras situações em que o survey é o método indicado para a coleta das informações: pesquisas sobre comportamento, consumo, satisfação, intenção de compra, viabilidade de políticas públicas e política. Considerando os recursos disponíveis na web, tem se tornado cada vez mais comum que os profissionais façam uso deste método para investigar fatos, fenômenos ou objetos. Saiba mais Sugerimos que você conheça a pesquisa realizada por Amaral (2010) sobre a importância das competências relativas à inteligência competitiva nos perfis de atuação profissional. Em especial, examine com cuidado o questionário utilizado para a realização do survey. A pesquisa está disponível em: AMARAL, R. M. Análise dos perfis de atuação profissional e de competências relativas à inteligência competitiva. 2010. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2010. Disponível em: https://shre.ink/24Db. Acesso em: 31 ago. 2023. Na próxima unidade, trataremos das escolhas relacionadas aos métodos de pesquisa quando da realização de projetos de investigação. A seguir, exibiremos um resumo do conteúdo aqui tratado. 68 Unidade I Resumo Vimos que a ciência é fruto da produção humana na sua atividade de conhecer e refletir a respeito do mundo e dos fenômenos da natureza. Em complemento, o método diz respeito ao caminho que o sujeito cognoscente faz em direção ao seu objeto. Em outras palavras, são os procedimentos que o agente do conhecimento escolhe para que possa refletir, conhecer e entender um fato ou um aspecto da natureza; por sua vez, a metodologia compreende o estudo dos métodos. Costumamos dividir as pesquisas em dois grandes grupos: o das pesquisas teóricas e o das pesquisas aplicadas. As primeiras têm como proposta ampliar o conhecimento em determinada área, propondo novas questões ou novas explicações para problemas já estudados anteriormente. O segundo tipo, em contrapartida, tem como objetivo propor soluções a certos problemas. O campo desta pesquisa é a aplicação prática, ou seja, o uso da ciência em situações concretas para resolver questões existentes. Em geral, as pesquisas podem ser caracterizadas em função dos objetivos, das abordagens e dos procedimentos. Em relação aos seus objetivos, a pesquisa pode ser explicativa, exploratória ou descritiva. A pesquisa exploratória tem o propósito de ampliar o conhecimento a respeito de determinado objeto ou fenômeno. A pesquisa descritiva se propõe a descrever com o máximo de exatidão possível os fatos, os fenômenos ou os objetos. Por sua vez, a pesquisa explicativa tem a finalidade de identificar fatores determinantes que explicam a ocorrência de fenômenos, sejam eles naturais ou sociais. Ela não quer apenas se aproximar do tema, mas quer explicar, quer mostrar a relação de causa e efeito entre variáveis. As pesquisas também podem ser categorizadas em função da sua abordagem: há pesquisas qualitativas e pesquisas quantitativas. A pesquisa qualitativa não está preocupada em mensurar, mas em aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno ou o objeto de estudo. De forma contrária, a pesquisa quantitativa tem a preocupação de mensurar, de medir a ocorrência do fenômeno. Seu material são os dados quantitativos, métricos, quantificáveis. Observamos que outra forma de categorizar as pesquisas diz respeito aos procedimentos adotados para a coleta dos dados e das informações. Segundo esse critério, podemos dividir as pesquisas em dois grandes grupos: as pesquisas do tipo desk research e as pesquisas que envolvem investigação em campo. 69 MÉTODOS DE PESQUISA Dentre os métodos e as técnicas mais comumente utilizados na pesquisa qualitativa, destacam-se a análise do discurso, os estudos de caso (por meio de grupos focais, entrevistas semiestruturadas ou pesquisas de observação), os estudos culturais e etnográficos, a pesquisa-ação, a pesquisa experimental e a pesquisa bibliográfica. Dentre osmétodos e as técnicas mais comumente utilizadas na pesquisa quantitativa, destacam-se os surveys, incluídos aí os realizados pela internet. No caso de surveys realizados online, há uma série de aplicativos e pacotes estatísticos que podem facilitar a coleta de informações e o posterior tratamento dos dados. 70 Unidade I Exercícios Questão 1. (Enade 2011, adaptada) A investigação quantitativa tem como campo de práticas e objetivos trazer à luz dados, indicadores e tendências observáveis. Deve ser utilizada para abarcar, do ponto de vista social, grandes aglomerados de dados, de conjuntos demográficos, por exemplo, classificando-os e tornando-os inteligíveis por meio de variáveis. A investigação qualitativa trabalha com valores, crenças, representações, hábitos, atitudes e opiniões. Adéqua-se a profundar a complexidade dos fenômenos, fatos e processos particulares e específicos de grupos mais ou menos delimitados em extensão e capazes de serem abrangidos intensamente. MINAYO, M. C.; SANCHES, O. Quantitativo-qualitativo: oposição ou complementaridade? Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 9, n. 3, p. 239-262, jul./set. 1993. Adaptado. As diversas áreas do conhecimento dispõem de métodos quantitativos e qualitativos, descritos sinteticamente no texto citado. Considerando essas definições, analise as afirmações que se seguem. I – Os métodos qualitativos e quantitativos não podem ser empregados em uma mesma pesquisa. II – Os métodos quantitativos são mais científicos que os qualitativos. III – Os métodos qualitativos são utilizados em estudos de caso ou contextos delimitados. IV – Métodos quantitativos e qualitativos não são mutuamente excludentes. É correto apenas o que se afirma em: A) I e II. B) I e III. C) II e III. D) II e IV. E) III e IV. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão Os métodos quantitativos e qualitativos podem ser empregados em uma mesma pesquisa. Não há diferença entre a cientificidade dos métodos qualitativos e a dos métodos quantitativos. Os estudos de caso são, tipicamente, exemplos de pesquisas qualitativas. 71 MÉTODOS DE PESQUISA Questão 2. (Enade 2011, adaptada) A amostragem é naturalmente usada em nossa vida diária. Por exemplo, para verificar o tempero de um alimento em preparação, podemos provar (observar) uma pequena porção desse alimento. Estamos fazendo uma amostragem, ou seja, extraindo do todo (população) uma parte (amostra), com o propósito de avaliar a qualidade de tempero de todo o alimento. Nas pesquisas científicas, em que se quer conhecer algumas características de uma população, também é muito comum se observar apenas uma amostra de seus elementos e, a partir dos resultados dessa amostra, obter valores aproximados, ou estimativas, para as características populacionais de interesse. Esse tipo de pesquisa é usualmente chamado de levantamento por amostragem. BARBETTA, P. A. Estatística aplicada às ciências sociais. Florianópolis: UFSC, 1998. p. 37. Adaptado. A partir do texto citado e considerando o tema por ele abordado, conclui-se que: I – A amostragem por conveniência consiste em uma amostragem por julgamento e seleção das pessoas que irão participar da pesquisa. II – Chamamos de amostra ao grupo de pessoas que tenham as características desejadas e que responderão a uma pesquisa. III – Chamamos a amostra de não probabilística quando ela tem as características que o pesquisador acredita necessárias para responder à pergunta de pesquisa de forma científica. Em relação às afirmativas citadas, está correto apenas o que se afirma em: A) I e III. B) II. C) III. D) II e III. E) I e II. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão A amostra não probabilística é aquela na qual os participantes não tiveram a mesma chance (probabilidade) de serem sorteados. A amostra de conveniência é composta em função da conveniência do pesquisador. A amostra é o grupo de pessoas que participarão de uma pesquisa, desde que tenham as características desejadas pelo pesquisador. 72 Unidade II Unidade II Na unidade I, investigamos os principais métodos e as técnicas mais utilizadas em pesquisas qualitativas e quantitativas. Assim, já temos condições de fazer as escolhas mais adequadas em relação aos objetivos do trabalho e à natureza do problema que pretende resolver. Na unidade II, discutiremos duas etapas importantes do processo de realização de uma pesquisa. Evidentemente, não pretendemos com isso impor regras ou “receitas” rígidas; queremos apenas orientá-lo com relação às formas a partir das quais será possível colocar em prática o que já vimos a respeito das várias modalidades de pesquisa. Nossa atenção estará voltada às etapas que dão início e fim a uma pesquisa: o planejamento, sob a forma de um projeto, e a divulgação dos resultados (sob a forma impressa ou não impressa, de maneira formal ou informal, para a comunidade acadêmica ou a comunidade não acadêmica). Também refletiremos sobre alguns aspectos éticos quanto à realização de investigações com seres vivos. A opção por essas duas etapas justifica-se em função da diversidade de métodos e técnicas de pesquisas. Assim, sejam quais forem os objetivos da investigação e os procedimentos utilizados para coletar e analisar os dados, a elaboração do projeto e a divulgação do resultado são sempre realizadas como forma de planejar as etapas da pesquisa e de comunicar a todos a que conclusões o estudo chegou. 5 O PROJETO DE PESQUISA O primeiro passo para realizar uma pesquisa é planejá-la. O planejamento de uma pesquisa costuma ser proposto sob a forma de um projeto. Assim, o projeto é algo similar a uma carta de intenções: expõe-se o que se pretende fazer, por que se pretende fazer, como se pretende fazer, quais os objetivos a serem alcançados e quais os resultados previstos. Posteriormente, e quando aprovado, o pesquisador deverá realizar aquilo que foi proposto no projeto. O projeto de pesquisa reúne informações relevantes a respeito dos procedimentos que o pesquisador pretende realizar para dar conta de responder à problematização proposta. Inicialmente, deve-se escolher o tema; posteriormente, formular a pergunta de pesquisa, elaborar a hipótese de trabalho, expor os objetivos a serem atingidos, definir a metodologia adequada, explicitar o referencial teórico pelo qual o pesquisador pretende se orientar e propor um cronograma de atividades. De maneira simplificada, a tomada de decisões a respeito de uma pesquisa envolve os seguintes aspectos: • A problematização à qual se pretende oferecer uma resposta. • A hipótese que se imagina ser uma resposta plausível para a pergunta. 73 MÉTODOS DE PESQUISA • Os objetivos que se deseja alcançar com a pesquisa. • A metodologia a ser utilizada para confirmar ou não a hipótese elaborada. • Os motivos da escolha do tema/da problematização. • O referencial teórico que dá suporte à problematização e à formulação da hipótese. • O cronograma de atividades. Veja, na figura a seguir, uma representação gráfica dessas etapas. Na sequência, discutiremos cada uma delas com mais detalhe. Problema e hipótese O que fazer Objetivos Para que fazer Metodologia Como fazer Justificativa Por que fazer Referencial Com base em que fazer Cronograma Quando fazer Figura 25 – Etapas do processo de pesquisa 5.1 A escolha do tema A escolha do tema é o primeiro passo para realizar uma investigação científica. O tema é o assunto, o que se pretende pesquisar. Inflação, comportamento organizacional, campanhas de aleitamento materno ou de vacinação, revitalização de centros urbanos, todos esses podem ser temas de pesquisa. Sugere-se que o aluno escolha um tema com o qual ele tenha alguma familiaridade. Afinal, como já vimos, é fundamental o conhecimento prévio a respeito do tema que se pretende investigar. Quanto mais discernimento se tiver sobre o assunto, mais fácil será planejar e executar a pesquisa. Além da familiaridade com o assunto, é recomendável que o aluno gostedo tema. Em geral, um pesquisador dedica entre um e cinco anos a uma pesquisa, considerando o período do planejamento até a finalização: há de se concordar que é tempo demais para se envolver com algo sobre o qual não se tem interesse ou alguma predileção. É importante ter afinidade com o tema. Caso o aluno não goste de 74 Unidade II estatística, sugere-se que ele não escolha um tema que envolva análise estatística; se ele não gosta de analisar documentos históricos, não faz sentido escolher um tema que obrigue a leitura de documentos históricos; se ele não é fluente em línguas estrangeiras, recomenda-se não escolher temas para os quais não há bibliografia em português. Observação O aluno deve gostar do tema; entretanto, caso ele goste demais do tema, poderá introduzir vieses na investigação em função de suas crenças ou opiniões pessoais. Em outras palavras, o pesquisador pode confundir realidade e manifestação de vontade. Vamos imaginar que se goste de determinado candidato e que se deva fazer uma pesquisa sobre a intenção de voto em uma eleição: o fato de se ter preferência pelo candidato pode fazer com que esse sentimento influa no momento de formular as questões, ou escolher a amostra, ou analisar os resultados. Lembre-se que, embora seja impossível de ser alcançada, a objetividade é uma meta do pesquisador. Sugere-se que a grade curricular e os conteúdos programáticos das disciplinas sirvam de base para a escolha do tema. Um dos maiores problemas nesta etapa ocorre quando o aluno escolhe um tema que, a princípio, não é objeto de investigação na sua área do conhecimento: o tema pode ser extremamente oportuno e interessante; no entanto, o discente, ao menos no contexto do seu curso, precisa escolher temas que sejam objetos de estudo na sua área do conhecimento. Figura 26 – Remeter-se à grade curricular pode ser de grande ajuda no momento de escolher o tema de uma pesquisa Disponível em: https://shre.ink/24p3. Acesso em: 31 ago. 2023. 75 MÉTODOS DE PESQUISA O estudante deve evitar modismos no momento de escolher o tema. Em certos momentos, determinados temas entram no “radar” de todos; nem sempre estes serão temas com os quais o aluno poderá se identificar. Outro cuidado a ser tomado diz respeito à assim chamada área de conforto. O estudante precisa escolher um tema com o qual tenha afinidade e familiaridade; isto não quer dizer, entretanto, que o aluno deva se acomodar ou evitar desafios. Outra questão a ser considerada diz respeito ao tempo disponível para realizar a pesquisa, não apenas em relação ao prazo que deverá ser atendido, mas no que se refere ao tempo diário/semanal que o aluno poderá se dedicar à pesquisa. 5.2 A problematização Pesquisas são realizadas para que encontremos respostas a perguntas feitas diante dos fenômenos que nos cercam. A problematização é o momento em que o aluno fará uma pergunta em relação ao tema, pergunta essa possível de ser respondida por meio da pesquisa. A pergunta de pesquisa expressa o que o aluno pretende investigar e conhecer, materializa o problema de pesquisa. Sem a pergunta, ou seja, sem que a pesquisa proponha um problema a ser resolvido, não há como selecionar métodos, técnicas e referencial bibliográfico. A pergunta serve de norte para o pesquisador, já que ele desenvolverá a pesquisa com o objetivo de responder à pergunta feita. Por isso, quando o problema de pesquisa é formulado corretamente, não há como o pesquisador perder o rumo. Segundo Gil (2008, p. 33), quando se diz que toda pesquisa tem início com algum tipo de problema, torna-se conveniente esclarecer o significado deste termo. Uma acepção bastante corrente identifica problema com questão que dá margem a hesitação ou perplexidade, por difícil de explicar ou resolver. Outra acepção identifica problema com algo que provoca desequilíbrio, mal-estar, sofrimento ou constrangimento às pessoas. Contudo, na acepção científica, problema é qualquer questão não solvida e que é objeto de discussão, em qualquer domínio do conhecimento. Há questões que não podem ser objeto de investigação científica e, portanto, não servem como perguntas de pesquisas. Vejamos alguns exemplos. Exemplo 1. Qual é a melhor forma de administrar a área de custos da empresa? Esta é uma pergunta que não pode ser respondida de forma objetiva: o que é melhor para um pode não o ser para outro. Melhor em termos de quais aspectos? O que significa melhor? Não há como responder a essa pergunta por meio de uma pesquisa; no entanto, se formularmos a questão de forma diferente, é possível que consigamos chegar a uma resposta: de que maneira os processos burocráticos na área de custos da empresa auxiliam/dificultam os trabalhos dos funcionários ao final do mês, no fechamento de contas? Esta é uma pergunta que pode ser respondida por meio de pesquisa: podemos formular um questionário e perguntar aos funcionários, ou fazer testes com a inserção ou exclusão de processos burocráticos, cronometrando o tempo de trabalho para o fechamento de contas. Qualquer uma das duas formas possibilita que respondamos à pergunta feita. 76 Unidade II Exemplo 2. Quais aspectos aumentam o bem-estar dos indivíduos? Esta é uma pergunta difícil de ser respondida, ao menos considerando a maneira como foi formulada. Há inúmeras variáveis que podem explicar ou determinar o bem-estar dos indivíduos: o hábito de realizar exercícios físicos, o tipo de alimentação e o acesso a serviços de saúde são algumas delas. Há outras, tais como fatores genéticos e ambientais. Há de se concordar que será muito difícil responder a essa pergunta se não fizermos um “recorte” que nos possibilite formular um problema passível de solução: considerando determinado grupo de pessoas idosas, podemos estabelecer alguma associação entre o hábito de realizar exercícios físicos e a ocorrência de doenças respiratórias? Esta pergunta pode ser respondida. Considerando determinado grupo de pessoas idosas, é possível relacionar a qualidade do sono (horas de sono sem quaisquer interrupções) e uma alimentação que faça menos uso de produtos processados? Esta pergunta também pode ser respondida. Gil (2008) recomenda alguns cuidados quando da formulação da pergunta de pesquisa: • O problema deve ser formulado de forma interrogativa. Ele tem que ser traduzido por meio de uma pergunta. • O problema deve ser viável, ou seja, ele precisa estar sujeito à resolução. • O problema deve ter clareza. Caso ele inclua algum conceito na sua formulação, o seu significado deve estar explicitado. • O problema deve ser preciso. A leitura de jornais e artigos acadêmicos pode auxiliar na formulação do problema de pesquisa. Se tivermos em mente que o problema é uma pergunta que se faz diante dos fenômenos do mundo que nos cerca, a primeira providência que devemos tomar é entrar em contato com esse mundo, de forma crítica e reflexiva. Figura 27 – A primeira atitude que um pesquisador deve tomar é entrar em contato com o mundo de forma crítica e reflexiva Disponível em: https://shre.ink/24p1. Acesso em: 31 ago. 2023. 77 MÉTODOS DE PESQUISA 5.3 A formulação da hipótese O problema da pesquisa é formulado por meio de uma pergunta; em adição, a hipótese é uma resposta à pergunta, e que se supõe provável. A hipótese é uma afirmativa que responde ao problema, e o trabalho de pesquisa dirá se esta é correta ou não. Voltemos aos problemas sobre os quais falamos anteriormente. Exemplo 1. Problema de pesquisa: de que maneira os processos burocráticos na área de custos da empresa auxiliam/dificultam os trabalhos dos funcionários ao final do mês, no fechamento de contas? Hipótese: os processos burocráticos criam novas etapas de trabalho, que, por sua vez, atrasam o fechamento de contas no final do mês. Como vimos anteriormente, é possível oferecer uma resposta à pergunta que fizemos. A hipótese, por sua vez, é uma resposta que entendemos ser provável. É possível, por meio de pesquisa, descobrirmos se a hipóteseestá correta ou não. Exemplo 2. Problema de pesquisa: no caso de pessoas idosas, podemos estabelecer alguma associação entre o hábito de realizar exercícios físicos e a ocorrência de doenças respiratórias? Hipótese: o hábito de caminhar meia hora por dia faz com que pessoas idosas, sem problemas preexistentes de saúde, diminuam o uso de serviços de saúde por conta de problemas respiratórios. A pergunta que fizemos é passível de resposta. A hipótese, por sua vez, é uma resposta que imaginamos plausível e provável. O trabalho de pesquisa permitirá que afirmemos ser a hipótese correta ou não. O questionamento que deve surgir é: há uma infinidade de hipóteses que podem ser elaboradas em relação a um problema; como, então, escolher uma boa hipótese? Para Gil (2008, p. 46), as hipóteses originam-se das mais diversas fontes. Algumas derivam da simples observação dos fatos. Outras de pesquisas já realizadas. Há hipóteses que são obtidas a partir de teorias e outras que têm origem na intuição. [...] As hipóteses decorrentes dos resultados de outra pesquisa conduzem a conclusões mais amplas. À medida que uma hipótese se baseia em estudos anteriores, e se o estudo em que se insere a confirma, o resultado auxilia na demonstração de que a relação se repete regularmente. Por exemplo, se uma pesquisa realizada nos Estados Unidos confirma que empregados de nível elevado são menos motivados por salários que por desafios, e pesquisa posterior a confirma no Brasil, estes resultados passam a gozar de significativo grau de confiabilidade. As hipóteses derivadas de teorias são as mais interessantes no sentido de que proporcionam ligação clara com o conjunto mais amplo de conhecimentos das ciências sociais. Todavia, nem sempre isto se torna possível, visto que muitos campos da ciência social carecem de teorias suficientemente esclarecedoras da realidade. Também 78 Unidade II há hipóteses derivadas de simples palpites ou de intuições. A história da ciência registra vários casos de hipóteses desse tipo que conduziram a importantes descobertas. Segundo Gil (2008), alguns cuidados devem ser tomados quando formulamos hipóteses: • A hipótese deve ser formulada de maneira clara. • A hipótese deve ser formulada de maneira específica. Quanto mais específica for a resposta que imaginamos ser capaz de responder à pergunta feita, mais fácil confirmá-la ou não. • A hipótese não deve implicar julgamentos de valor e deve envolver variáveis possíveis de serem medidas de alguma forma. • A hipótese precisa ser formulada de maneira simples. • A hipótese deve estar relacionada a uma teoria. As teorias servem de guias para as hipóteses, sugerindo caminhos já percorridos e resultados já alcançados. 5.4 A identificação de objetivos Os objetivos estão relacionados aos propósitos da pesquisa, suas finalidades e intenções. Em resumo: se o problema e a hipótese identificam o que será pesquisado, os objetivos mostram por que será pesquisado. Os objetivos podem ser genéricos ou específicos, mas, como regra, eles são representados por meio de verbos de ação, quer dizer, os verbos de ação instrumentalizam os objetivos. Prodanov e Freitas (2013, p. 124) recomendam alguns objetivos e os verbos de ação que podem representá-los. Sugerimos que, inicialmente, você identifique o que quer fazer, ou o que deve ser feito; em seguida, que selecione as ações que podem levá-lo ao que pretende alcançar. a) quando a pesquisa tiver o objetivo de conhecer: apontar, citar, classificar, conhecer, definir, descrever, identificar, reconhecer, relatar; b) quando a pesquisa tiver o objetivo de compreender: compreender, concluir, deduzir, demonstrar, determinar, diferenciar, discutir, interpretar, localizar, reafirmar; c) quando a pesquisa tiver o objetivo de aplicar: desenvolver, empregar, estruturar, operar, organizar, praticar, selecionar, traçar, otimizar, melhorar; d) quando a pesquisa tiver o objetivo de analisar: comparar, criticar, debater, diferenciar, discriminar, examinar, investigar, provar, ensaiar, medir, testar, monitorar, experimentar; 79 MÉTODOS DE PESQUISA e) quando a pesquisa tiver o objetivo de sintetizar: compor, construir, documentar, especificar, esquematizar, formular, produzir, propor, reunir, sintetizar; f) quando a pesquisa tiver o objetivo de avaliar: argumentar, avaliar, contrastar, decidir, escolher, estimar, julgar, medir, selecionar. 5.5 Os métodos e as técnicas: as escolhas metodológicas O problema e a hipótese indicam o que fazer. Os objetivos, para que fazer. A metodologia indica como fazer, ou seja, ela envolve as escolhas a respeito dos processos, procedimentos e operações para investigar os fatos e os fenômenos. O que vai indicar quais os métodos deverão ser escolhidos são o problema, a hipótese e os objetivos. É em função deles que o pesquisador escolhe se fará uma pesquisa qualitativa ou quantitativa, e qual o método de pesquisa mais adequado para coletar as informações necessárias. Figura 28 – No projeto, o item referente à metodologia da pesquisa esclarece quanto aos procedimentos a serem adotados para a investigação do objeto de estudo Disponível em: https://shre.ink/24pp. Acesso em: 31 ago. 2023. A metodologia ainda envolve o detalhamento dos procedimentos a serem adotados. Quanto mais detalhes forem dados, melhor será a compreensão em relação aos procedimentos para a investigação. Estas informações são relevantes não apenas para que se possa acompanhar a realização de pesquisa, mas para auditar o respeito às normas metodológicas e científicas por parte do pesquisador. Afinal uma das características da pesquisa científica é a possibilidade de ela ser replicada; isto quer dizer que, no caso de alguém assim o desejar, poderá repetir todos os procedimentos adotados pelo pesquisador e comparar os resultados. Para a realização de pesquisas qualitativas, o aluno deverá: • No caso de análise do discurso: descrever as fontes discursivas e os procedimentos de análise. • Nos estudos de caso: justificar a escolha da unidade de análise (o caso), detalhando suas características, esclarecer quais técnicas para coleta de informações serão utilizadas (se entrevistas 80 Unidade II semiestruturadas, grupos focais, observação etc.) e qual equipe será necessária para realizar o estudo. Se o estudo de caso envolver observação, deverão ser detalhados os objetos a serem investigados, as técnicas de observação, as condições a serem respeitadas durante a observação e os procedimentos para documentação e mensuração do resultado das observações. • No caso de estudos etnográficos: detalhar qual comunidade ou qual grupo será observado, quais as formas de convívio com o grupo, quais os valores e a cultura do grupo pesquisado, quais os limites de ação do pesquisador. • No caso de pesquisa-ação: explicitar quais os propósitos e objetivos da intervenção, em qual grupo será realizada a intervenção, quais os procedimentos a serem adotados pelos pesquisadores, como será realizada a coleta de dados, como os dados serão tratados. • No caso de experimentos: identificar detalhadamente o grupo experimental e o grupo de controle, esclarecer quanto à seleção amostral, explicitar as relações que serão alvo de investigação e quais as formas de documentação. • No caso de pesquisa documental: indicar quais documentos serão analisados, em que local estão armazenados, com que softwares os documentos serão tratados, qual a natureza dos dados coletados. • No caso de pesquisa bibliográfica: assinalar quais os critérios para a seleção da bibliografia, quais as fontes e bancos de dados, qual a natureza dos dados levantados, quais os sistemas de busca utilizados, como os dados serão registrados ou armazenados. Observação Posteriormente, discutiremos alguns aspectos éticos envolvidos na realização de pesquisas com seres vivos. Em especial no caso de pesquisa-ação e experimentos, é fundamental que o pesquisador siga as normas e regras da instituição em relação a estesaspectos éticos. As pesquisas quantitativas também envolvem o detalhamento de um grande número de etapas, processos e recursos. No caso de surveys, por exemplo, é necessário pormenorizar: • O público a ser entrevistado. • O formato da entrevista: caso seja presencial, quantos entrevistadores serão necessários e qual o treinamento pelo qual eles deverão passar; caso não seja presencial, quais as mídias que serão utilizadas; o pesquisador deverá também esclarecer se o questionário será respondido por meio de autopreenchimento ou não. 81 MÉTODOS DE PESQUISA • O modelo de questionário e os procedimentos de pré-teste do questionário (realização de algumas entrevistas para verificar se há algum problema com a formulação, compreensão ou ordem das perguntas); ainda é importante decidir se o questionário será elaborado com a ajuda ou não de algum software. • A amostra a ser entrevistada (tamanho e composição da amostra): se ela será probabilística ou não, e quais os meios para a seleção dos participantes. • O tratamento estatístico dos dados. Como serão tratados os dados e quais “pacotes” estatísticos serão utilizados. 5.6 A justificativa Imagine que você tenha diante de si mais de uma centena de temas possíveis de serem investigados por meio de uma pesquisa. O que justifica a escolha do tema “A” ou “B”? O que justifica a pergunta que você pretende responder por meio da pesquisa? Quais os motivos que o levaram a escolher esta pergunta, dentre as tantas possíveis de serem feitas? Afinal, o que justifica a pesquisa e por que as pessoas deverão ler os seus resultados? Esses são aspectos que devem ser explicitados no projeto de pesquisa e, em geral, eles estão relacionados à relevância (importância) do tema, à oportunidade (um evento ou acontecimento que possibilita ou facilita a realização da pesquisa), à demanda (no caso de a pesquisa ter sido solicitada por uma empresa ou instituição de pesquisa) e à iniciativa do pesquisador (algum interesse pessoal do pesquisador). A justificativa é um item importante do projeto, já que nesse momento “se expõem as razões de ordem teórica (desenvolvimento da ciência) e de ordem prática (aplicação da ciência) pelas quais a pesquisa proposta é importante” (Gerhardt; Silveira, 2009, p. 98). De acordo com Prodanov e Freitas (2013, p. 82), a justificativa envolve refletir sobre “o porquê” da realização da pesquisa, procurando identificar as razões da preferência pelo tema escolhido e sua importância em relação a outros temas. Perguntamos: o tema é relevante e, se é, por quê? Quais os pontos positivos que você percebe na abordagem proposta? Que vantagens e benefícios você pressupõe que sua pesquisa irá proporcionar? A justificativa deverá convencer quem for ler o projeto, com relação à importância e à relevância da pesquisa proposta. A justificativa, num projeto de pesquisa, como o próprio nome indica, é o convencimento de que o trabalho de pesquisa é fundamental de ser efetivado. Devemos tomar o cuidado, na elaboração da justificativa, de não tentarmos justificar a hipótese levantada, ou seja, tentar responder ou concluir o que vai ser buscado no trabalho de pesquisa. A justificativa exalta a importância do tema a ser estudado, justifica a necessidade imperiosa de levar a efeito tal empreendimento. Interesse pessoal, possibilidade de contribuir para o conhecimento em relação ao assunto. 82 Unidade II Figura 29 – No projeto, o item da justificativa esclarece quanto aos motivos da seleção e da escolha do tema e do problema de pesquisa Disponível em: https://shre.ink/24sY. Acesso em: 31 ago. 2023. 5.7 O referencial teórico O referencial teórico, também chamado de marco teórico, revisão de literatura e estado da arte, diz respeito aos conceitos, teorias e constructos nos quais o pesquisador está se apoiando. Vejamos: caso se pretenda realizar uma pesquisa sobre o comportamento dos jovens diante de aplicativos para relacionamento social, é importante que sejam definidos alguns conceitos: o que se entende por comportamento? Quais as variáveis envolvidas no estudo do comportamento? O que se entende por relacionamento social? Em outras palavras, o referencial teórico é a fundamentação teórica da pesquisa. Ninguém reinventa a roda; portanto, é difícil encontrar um tema ou assunto que já não tenha sido objeto de pesquisa anteriormente. O referencial teórico não envolve apenas o que já foi realizado e pesquisado sobre o tema, mas quais os principais resultados obtidos e as conclusões alcançadas que podem servir de apoio ao trabalho que está sendo realizado naquele momento. Observação A teoria é o conjunto de conhecimentos que se propõe a explicar um fenômeno com algum grau de exatidão; quanto maior o grau de exatidão, melhor a teoria. A teoria busca explicar como ou por que as coisas acontecem. As teorias são diferentes das leis: as leis descrevem fenômenos; as teorias explicam os fenômenos. É importante que o pesquisador estabeleça qual intervalo servirá de base para a coleta bibliográfica de trabalhos anteriores: serão pesquisados apenas os trabalhos dos últimos dois anos? Serão considerados aqueles realizados nos últimos cinco anos? Deverão ser lidos os trabalhos executados apenas no Brasil ou deverão ser analisadas as pesquisas feitas em outros países? Serão lidos trabalhos somente em língua portuguesa ou deverão ser lidos trabalhos escritos em outros idiomas? Quais as teorias que outros pesquisadores utilizaram para investigar o tema? Que autores e pensadores serviram de base para o trabalho que o pesquisador realizou? Quais os acordos e conflitos existentes entre as teorias que já foram utilizadas como referencial para as pesquisas sobre o tema? 83 MÉTODOS DE PESQUISA Como já observamos, não há como realizar qualquer pesquisa sem ter como base algum referencial teórico. Aliás, deve já haver alguma fundamentação teórica no momento em que o pesquisador escolhe o seu tema e formula a sua problematização: afinal, como elaborar uma pergunta, e supor uma resposta, caso já não se conheça bastante sobre o assunto? A revisão da literatura demonstra que o pesquisador está atualizado nas últimas discussões no campo de conhecimento em investigação. Além de artigos em periódicos nacionais e internacionais e livros já publicados, as monografias, dissertações e teses constituem excelentes fontes de consulta. Revisão de literatura difere-se de uma coletânea de resumos ou uma “colcha de retalhos” de citações. Destacamos que a finalidade da pesquisa científica não é apenas um relatório ou uma descrição de fatos levantados empiricamente, mas o desenvolvimento de um caráter interpretativo no que se refere aos dados obtidos. Para tal, é imprescindível correlacionar a pesquisa com o universo teórico, optando por um modelo que sirva de embasamento à interpretação do significado dos dados e fatos colhidos ou levantados (Prodanov; Freitas, 2013, p. 131). Todo e qualquer problema de pesquisa envolve determinados pressupostos teóricos. Veja bem: não estamos falando de hipóteses, afirmativas que iremos ou não confirmar. Os pressupostos teóricos são conhecimentos que assumimos como verdadeiros e que permitem que formulemos indagações. Os pressupostos são premissas, pontos de partida. Vamos exemplificar: caso tenhamos interesse em pesquisar processos de gestão em uma empresa, podemos partir da premissa de que é possível identificar esses processos e que eles são importantes para a compreensão do funcionamento da instituição. Não há dúvidas sobre essa asserção, e a pesquisa não será realizada para confirmar ou não essa asserção. Em várias ocasiões, os pressupostos envolvem conceitos (que materializam a abstração a partir de uma ideia sobre qualquer coisa ou fenômeno), expressos na linguagem científica. Se estamos fazendo uma pesquisa a respeito do desempenho de alunos em relação ao desenvolvimento de determinadas competências, é fundamental conceituarmos “desempenho”, “desenvolvimento” e “competências”.Há ainda situações em que os pesquisadores trabalham com indicadores. O indicador é um instrumento que se presta a dar informações a respeito de um objeto ou fenômeno. Em geral, ele assume características de mensuração e se apoia em fontes de informações confiáveis. O indicador é usado para identificar determinadas características; quando essas são de natureza subjetiva, os pesquisadores buscam formas de mensurá-las a partir de parâmetros claros e precisos. Por conta disso, os indicadores, na maioria das vezes, expressam quantidades; no caso de variáveis qualitativas, são elaborados índices para medir aspectos qualitativos, tais como índices para a mensuração da ansiedade, da expectativa em relação ao futuro, da satisfação a respeito do consumo de um produto etc. Vejamos um exemplo: podemos definir classe social de diversas formas, cada uma delas construída a partir de certos pressupostos e informações. Podemos supor que classe social esteja associada à renda familiar, que ela é determinada pelo grau de instrução do chefe da família etc. Há várias maneiras de se fazê-lo, dependendo de como ela é percebida. Assim, caso queiramos criar um indicador de classe social, 84 Unidade II podemos assumir, por exemplo, que “classe social” representará o padrão de consumo de determinada pessoa. Consequentemente, embora possamos definir classe social por meio de características culturais, sociais, de ocupação profissional ou de valores e crenças, decidimos trabalhá-la em relação ao que representa em termos de potencialidade de consumo. Esta é a forma como, por exemplo, a Associação Brasileira de Anunciantes (ABA) e a Associação Brasileira de Institutos de Pesquisa de Mercado (Abipeme) trabalham com a ideia de classe social. Por meio de um questionário, são mensurados o poder de compra da pessoa em função do consumo de determinados itens e outras variáveis percebidas como indicadoras de renda permanente. A pontuação na posse desses itens, assim, indica a classe social. A Abep (Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa), em documento emitido em 2019, alterou os critérios para a aplicação do Critério Brasil. Este conjunto de procedimentos foi criado para estimar, de forma padronizada, a capacidade de consumo dos domicílios, permitindo que, a partir desses dados, fosse possível identificar grandes grupos com características específicas. Os grupos são, assim, diferenciados em função do nível educacional dos indivíduos, da ocupação, da posse de bens, das condições de moradia, do acesso a serviços públicos, da posse de ativos financeiros e não financeiros e da renda corrente. Portanto, quando, em qualquer trabalho de pesquisa, fizermos menção à classificação social por meio do Critério Brasil da Abep, todos estarão cientes de que essa classificação foi elaborada a partir da pontuação em termos da posse de bens de consumo e de outras variáveis indicativas de renda permanente. O sistema de pontos em uso pela Abep, atualmente, funciona conforme descrito a seguir. Tabela 3 – Mecanismos de pontuação para atribuição de classe social segundo o Critério Brasil da Abep Quantidade 0 1 2 3 4 ou + Banheiros 0 3 7 10 14 Empregados domésticos 0 3 7 10 13 Automóveis 0 3 5 8 11 Microcomputador 0 3 6 8 11 Lava-louça 0 3 6 6 6 Geladeira 0 2 3 5 5 Freezer 0 2 4 6 6 Lava-roupa 0 2 4 6 6 DVD 0 1 3 4 6 Micro-ondas 0 2 4 4 4 Motocicleta 0 1 3 3 3 Secadora de roupa 0 2 2 2 2 Fonte: Abep (2019, p. 2). 85 MÉTODOS DE PESQUISA Tabela 4 Grau de instrução do chefe da família Analfabeto / Fundamental I incompleto 0 Fundamental I completo / Fundamental II incompleto 1 Fundamental II completo / Médio incompleto 2 Médio completo / Superior incompleto 4 Superior completo 7 Serviços públicos Não Sim Água encanada 0 4 Rua pavimentada 0 2 Fonte: Abep (2019, p. 2). Tabela 5 – Cortes do Critério Brasil Classe Pontos 1 – A 45 – 100 2 – B1 38 – 44 3 – B2 29 – 37 4 – C1 23 – 28 5 – C2 17 – 22 6 – D – E 0 – 16 Fonte: Abep (2019, p. 3). Tabela 6 Estrato socioeconômico Renda média domiciliar A 25.554,33 B1 11.279,14 B2 5.641,64 C1 3.085,48 C2 1.748,59 DE 719,81 Total 3.014,01 Fonte: Abep (2019, p. 3). 86 Unidade II É possível formularmos outros indicadores de forma a operar com a ideia de classe social? Sim, é possível. Ao explicarmos o Critério Brasil, da Abep, desejamos apenas mostrar a complexidade envolvida na elaboração de um constructo, bem como a importância dos procedimentos adotados para esta elaboração. Outros referenciais teóricos envolvem constructos, muito similares aos conceitos. O constructo estabelece relações entre variáveis, supondo um conjunto de propriedades que será assumido como consensual. Ele permite a operação do conceito. Vejamos um exemplo. Roberts et al. (2002) questionaram-se a respeito do constructo “inteligência emocional”. O que vem a ser inteligência emocional, afinal? Quais teorias já foram desenvolvidas com o objetivo de mensurá-la ou qualificá-la? É deveras instrutivo o que os autores identificam como obstáculos para a definição deste constructo. A psicologia de vez em quando se vê surpreendida com o surgimento de conceitos que caem rapidamente no gosto popular. Não há nada de errado em que isso aconteça, dado que é desejo de toda ciência que seus preceitos sejam compreendidos e aceitos pela população leiga. O problema reside em popularizar o termo antes de comprovar a veracidade dele. Na década de 1990, o termo inteligência emocional (IE) tornou-se conhecido graças à obra Emotional intelligence de Goleman (1995), um professor da Universidade de Harvard. Em um breve período, o termo entrou no vocabulário de diversos segmentos da sociedade. Inclusive, diversas instituições de Ensino Infantil propõem atualmente, como atrativo, a educação da IE para crianças cujos pais se mostram ansiosos por um ensino diferenciado e voltado para o desenvolvimento do cidadão. Também, no mundo do business se realizam numerosas palestras, cursos de treinamento, consultorias, seminários e outros congêneres oferecendo “dicas” sobre como aumentar a IE. No mercado editorial pode-se encontrar diversas obras com o mesmo objetivo. Por que as pessoas têm se interessado tanto pela chamada “inteligência emocional”? Ao que parece, a resposta pode estar relacionada com a suposição de que pessoas com melhor gerenciamento das próprias emoções são aquelas que provavelmente são mais bem-sucedidas no mercado de trabalho e apresentam melhor qualidade de vida. Numa época altamente tecnológica e competitiva, mas com baixo nível de emprego, o investimento na IE surge como uma alternativa promissora para aumentar o potencial de empregabilidade, se não o próprio pelo menos o dos filhos. Dado o impacto atual do conceito de “inteligência emocional”, a impressão que se tem é que a psicologia, enquanto ciência, ignorou a relação entre a condução adequada das emoções de um indivíduo e o alcance do bem-estar, social e profissional. Assim, a IE constituiria um novo construto na psicologia científica e viria preencher a lacuna deixada pelos tradicionais estudos da psicologia das diferenças individuais. A IE seria, então, um tipo de inteligência e diferente da personalidade. Como se verá a seguir, é prematuro considerar a IE como 87 MÉTODOS DE PESQUISA um novo construto científico. Embora as perspectivas sejam interessantes, as evidências sobre a natureza e estrutura da IE, veiculadas na literatura especializada, ainda não são suficientemente sólidas, pois existem problemas conceituais e, principalmente, dificuldades de mensuração (Roberts et al., 2002, p. 78). Em conclusão, os autores (2002, p. 78) consideraram extremamente necessário fazer o “estado da arte” sobre a pesquisa a respeito da inteligência emocional, identificando “os instrumentos propostos para medi-la, sua relação com construtos clássicos como inteligência e personalidade e algumas tendências para pesquisas futuras“. Figura 30 – O constructo explicita a operacionalizaçãodas relações que existem entre as variáveis Disponível em: https://shre.ink/24s0. Acesso em: 31 ago. 2023. Vários pesquisadores adotam como padrão organizar o seu referencial teórico sob a forma de um quadro, no qual podem ser identificados os autores estudados e os principais conceitos/constructos por eles utilizados. Por exemplo, Zacharias, Figueiredo e Almeida (2008) resumiram em um quadro o seu referencial teórico de forma a associá-lo com as hipóteses elaboradas. O trabalho para o qual eles se dedicaram dizia respeito aos determinantes da satisfação dos usuários de serviços bancários nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Veja, a seguir, como os autores justificaram o referencial teórico utilizado. Quadro 3 – Autores referenciados no trabalho de Zacharias, Figueiredo e Almeida em função das hipóteses elaboradas Hipóteses da pesquisa Autores cujos estudos suportam as hipóteses enunciadas H1: A satisfação com os produtos e serviços oferecidos pelo banco é fator determinante da satisfação geral do cliente Levesque e McDougall, 1996; Krishnan e outros, 1999 H2: A satisfação com o uso dos caixas eletrônicos do banco é fator determinante da satisfação geral do cliente Goode e Moutinho, 1995; Moutinho e Smith, 2000; Souza Neto, Fonseca e Oliveira, 2005 88 Unidade II Hipóteses da pesquisa Autores cujos estudos suportam as hipóteses enunciadas H3: A satisfação com o uso do banco por telefone é fator determinante da satisfação geral do cliente Levesque e McDougall, 1996; Krishnan e outros, 1999; Souza Neto, Fonseca e Oliveira, 2005 H4: A satisfação com o uso do banco por internet é fator determinante da satisfação geral do cliente Krishnan e outros, 1999; Moutinho e Smith, 2000; Oliveira, 2001; Souza Neto, Fonseca e Oliveira, 2005; Gerrard, Cunningham e Devlin, 2006 H5: A satisfação com o atendimento nos caixas é fator determinante da satisfação geral do cliente Jamal e Naser, 2002 H6: A satisfação com os gerentes é fator determinante da satisfação geral do cliente Lassar, Manolis e Winsor, 2000; Madill e outros, 2002; Souza Neto, Fonseca e Oliveira, 2005 H7: A satisfação com a forma como o banco resolve os problemas (recuperação do serviço) é fator determinante da satisfação geral do cliente Hart, Heskett e Sasser, 1990; Levesque e McDougall, 1996; Smith e Bolton, 1998; Duffy, Miller e Bexley, 2006 Fonte: Zacharias, Figueiredo e Almeida (2008, p. 10). Outro exemplo é fornecido por Oliveira et al. (2017), que realizaram uma revisão sistemática da produção científica sobre saberes escolares relacionados à saúde. Eles sistematizaram o seu referencial teórico da seguinte forma: no quadro 4, sintetizaram os estudos que foram utilizados para a análise; no quadro 5, identificaram a relevância da abordagem de cada estudo para a área da saúde. Quadro 4 – Relação de estudos Relação dos estudos que atendem aos critérios de seleção estabelecidos Autor(es) Título Periódico Ano Leonardo Docena Pina Atividade física e saúde: uma experiência pedagógica orientada pela pedagogia histórico-crítica Motrivivência – UFSC 2008 Evelyn Helena C. Ribeiro; Alex Antonio Florindo Efeitos de um programa de intervenção no nível de atividade física de adolescentes de escolas públicas de uma região de baixo nível socioeconômico: descrição dos métodos utilizados Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde 2010 Angélica Caetano da Silva Tematizando o discurso da mídia sobre saúde com alunos do Ensino Médio Motrivivência – UFSC 2011 Heraldo Simões Ferreira; Braulio Nogueira de Oliveira; José Jackson Coelho Sampaio Análise da percepção dos professores de educação física acerca da interface entre a saúde e a educação física escolar: conceitos e metodologias Revista Brasileira de Ciências do Esporte 2013 Luiz G. B. Rufino; Suraya C. Darido Educação física escolar, tema transversal, saúde e livro didático: possíveis relações durante a prática pedagógica Revista Brasileira de Ciência & Movimento 2013 Daniel Zancha; Gabriela Bongiorno Sica Magalhães; Jessica Martins; Thais Argentini da Silva; Thaís Borges Abrahão Conhecimento dos professores de educação física escolar sobre a abordagem saúde renovada e a temática saúde Conexões 2013 Carla Francieli Spohr; Milena de Oliveira Fortes; Airton José Rombaldi; Pedro Curi Hallad; Mario Renato Azevedo Atividade física e saúde na educação física escolar: efetividade de um ano do projeto “Educação Física +” Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde 2014 Daniel Teixeira Maldonado; Daniel Bocchini Educação física escolar e as três dimensões do conteúdo: tematizando os esportes na escola pública Conexões 2014 Fonte: Oliveira et al. (2017, p. 100). 89 MÉTODOS DE PESQUISA Quadro 5 – Relevância dos estudos para a área de saúde Seleção Referência Relevância para o tratamento dos saberes da saúde Referenciais teóricos Pina (2008) Superação da concepção de saúde e do papel atribuído e reproduzido pelos estudantes à educação física na escola, unicamente associados à prática de atividades físicas sem estabelecimento de uma contextualização mais ampla das relações sociais saúde = exercício Soares et al. (2014) Saviani (2006) Ribeiro & Florindo (2010) Superação de índices de comportamento relacionados negativamente à saúde. Especificamente, o comportamento sedentário Nahas et al. (2009) PCN (1998) Silva (2011) Proporcionar a análise do discurso midiático que mascara a realidade inerente aos determinantes sociais da saúde, articulando-a apenas à aquisição de hábitos Fantin (2006) Gomes (2009) Ferreira, Oliveira & Sampaio (2013)* Proporcionar o aprendizado acerca da relevância da prática do exercício físico para a saúde do ponto de vista físico, mental e relacional entre os seres humanos, considerando a importância da realização das atividades físicas para a saúde dos estudantes nas aulas de educação física N/A Rufino & Darido (2013) O incentivo à prática da atividade física e a manutenção de um estilo de vida ativo pelo conjunto de disciplinas com o fim de permitir aos alunos o entendimento acerca da complexidade da saúde enquanto tema transversal, contemplando dimensões profiláticas, curativas e de reabilitação, assim como dimensões históricas e sociais acerca do tema PCN (1998) Zancha et al. (2013)* Introduzir a saúde como um eixo norteador nas aulas da educação física, procurando atender a todos os estudantes, inclusive os que mais necessitam de suas aulas, como os sedentários, os pouco aptos fisicamente, os deficientes e os obesos, com o fim de garantir autonomia ao aluno com relação à prática de atividades físicas e hábitos saudáveis para toda a vida Nahas (1997; 2001) Spohr et al. (2014) Relacionada à diminuição da prática de atividade física na transição entre infância e adolescência Nahas et al. (2009) Maldonado & Bocchini (2014) Compreender os conceitos de saúde explorados pela mídia acerca da prática esportiva, no sentido de evidenciar que nem sempre tais conceitos estão corretos Kunz (2004) PCN (1998) N/A = Não apresenta o item correspondente. *Nestes estudos, especificamente, a não apresentação de um ou mais itens relacionou-se ora à não menção, ora ao não objetivo do texto em tratar tais elementos. Fonte: Oliveira et al. (2017, p. 102). Qual o material que temos à disposição para a elaboração do referencial teórico? Os sistemas de busca na internet permitem que acessemos uma boa parte de tudo já publicado sob a forma de livros, artigos em revistas acadêmicas, monografias, dissertações e teses. A revisão bibliográfica, portanto, envolve buscar as fontes de informação, ler e criticar o material disponível por meio de critérios de sistematização e registro, dialogar com o material pesquisado em função das necessidades da pesquisa em termos de teorias, conceitos e constructos. 90 Unidade II Lembrete Na unidade I, tivemos a oportunidade de discutir vários aspectos relacionados à pesquisa bibliográfica. Recomendamosque retorne a ela caso queira rever esse conteúdo. 5.8 O cronograma de atividades O cronograma de atividades responde à questão de “quando” o trabalho será realizado. A pesquisa deve ser realizada conforme uma sequência de etapas, e precisa ser concluída dentro do prazo que há disponível. Algumas etapas podem ocorrer de forma simultânea: por exemplo, podemos redigir o referencial teórico e, ao mesmo tempo, analisar os dados estatísticos que foram encontrados; outros estágios devem ocorrer de forma concatenada, ordenada: ou seja, precisamos definir o referencial teórico antes de ir coletar os dados secundários. Para que se possa elaborar o cronograma de atividades, sugerimos alguns aspectos que deverão estar nele contemplados: • Leitura exploratória de artigos sobre o tema. • Seleção de artigos e textos que serão a base do referencial teórico. • Elaboração da pergunta e da hipótese de trabalho. • Nova coleta de material bibliográfico. • Elaboração do referencial teórico. • Elaboração do instrumento de pesquisa (no caso de surveys ou outras modalidades que envolvam coleta de dados). • Pré-teste do instrumento de pesquisa. • Seleção da amostra, dos documentos e das fontes de informação. • Coleta de dados. • Tratamento de dados. • Elaboração do relatório final. • Revisão do relatório final. 91 MÉTODOS DE PESQUISA Os cronogramas, em geral, identificam as etapas e o momento em que serão realizadas. Eles podem ser elaborados em função de dias, semanas ou meses. Na maioria das vezes, eles assumem a forma de quadros ou tabelas, de forma a mostrar cada etapa, as atividades de cada tempo e o período de duração de cada estágio. Vejamos, no quadro a seguir, um exemplo de cronograma realizado em função das tarefas e das semanas. Quadro 6 – Cronograma de atividades (etapa versus semanas) Etapa Sem 1 Sem 2 Sem 3 Sem 4 Sem 5 Sem 6 Sem 7 Sem 8 Sem 9 Sem 10 Etapa 1 Etapa 2 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 5 Etapa 6 Etapa 7 Saiba mais Há muitos aplicativos disponíveis na web para a elaboração de cronogramas. A Microsoft disponibiliza, gratuitamente, o Microsoft To Do, um planejador diário que permite criar e compartilhar listas de tarefas, sincronizando-as com o Outlook e possibilitando o acesso remoto. Ele está disponível em: MICROSOFT. Microsoft To Do: lists, tasks & reminders. Microsoft, [s.d.]b. Disponível em: https://shre.ink/24ZE. Acesso em: 31 ago. 2023. O Trello permite organizar projetos com o uso de quadros, listas e cartões. Ele pode ser acessado em: Disponível em: https://trello.com/. Acesso em: 31 ago. 2023. O Freedcamp é um aplicativo bastante utilizado para a gestão de projetos e pode ser acessado em: Disponível em: https://freedcamp.com/. Acesso em: 31 ago. 2023. A Agenda do Google também tem recursos interessantes para montar cronogramas e encontra-se em: GOOGLE. Google Agenda. Google, [s.d.]b. Disponível em: https://shre. ink/24BD. Acesso em: 31 ago. 2023. 92 Unidade II Figura 31 – Há vários aplicativos disponíveis na web que podem ajudar na elaboração do cronograma de atividades Disponível em: https://shre.ink/24sR. Acesso em: 31 ago. 2023. 5.9 As referências O pesquisador deverá arrolar as referências utilizadas para a elaboração do projeto. Elas deverão estar identificadas de acordo com as normas ABNT ou Vancouver, em ordem alfabética pelo sobrenome do autor. 5.10 Outros elementos do projeto Em algumas situações, e a depender do pedido explícito de quem está orientando ou coordenando a pesquisa, outros elementos são adicionados ao projeto: • Sumário do relatório final: para que o leitor possa apreender o quadro geral em que a pesquisa está inserida, sugere-se anexar o sumário do que deverá ser o relatório final da investigação. Isso mostra o quanto o pesquisador tem claros os objetivos que pretende alcançar, bem como os conteúdos que resultarão da sua investigação. Em alguns casos, o pesquisador também pode fazer uma breve descrição de qual será o conteúdo de cada item identificado no sumário. • Listagem bibliográfica: as referências dizem respeito às fontes utilizadas para a elaboração do projeto; em contrapartida, a listagem bibliográfica indica quais fontes deverão ser consultadas para a realização da pesquisa. Assim, a listagem bibliográfica indica o que ainda será lido para que a investigação possa ocorrer dentro do planejado. • Apresentação dos pesquisadores: em alguns casos, sugere-se apresentar os pesquisadores que farão parte da investigação. A apresentação pode ser feita por meio de um breve resumo do percurso profissional ou acadêmico e/ou ser acompanhada pelo link do histórico Lattes. 93 MÉTODOS DE PESQUISA Saiba mais A plataforma Lattes reúne as informações de todos os pesquisadores e acadêmicos do Brasil. Caso queira montar o seu Currículo Lattes, acesse o seguinte site: Disponível em: http://lattes.cnpq.br/. Acesso em: 31 ago. 2023. Nossa sugestão é a inclusão apenas das informações que possam ser documentadas e provadas, tais como: cursos realizados, palestras dadas ou assistidas, trabalhos publicados etc. 6 ASPECTOS ÉTICOS ENVOLVIDOS EM PESQUISAS CIENTÍFICAS Entre 1945 e 1946, mais de duas dezenas de oficiais nazistas foram julgados em Nuremberg, na Alemanha. Contra eles foram lançadas acusações de crimes contra a humanidade, crimes de guerra e ações visando limpeza étnica. Dentre os vários crimes pelos quais foram julgados, incluíram-se os de violação da ética em pesquisa científica. Segundo Alves e Tubino (2006, p. 27), foram cerca de trinta experimentos diferentes, evidentemente sem o consentimento das vítimas, que provocaram dor intensa, mutilação, deficiência permanente e morte. No campo de concentração de Dachau, por exemplo, os prisioneiros foram submetidos a uma pressão de ar comparável à encontrada a 15.000 metros de altitude, na tentativa de determinar quão alto um piloto alemão poderia voar e sobreviver. Eram imersos em água gelada ou deixados na neve, sem roupas, de nove a 15 horas, na pesquisa de um método de tratamento para soldados expostos ao frio e ao congelamento. Em estudos que buscavam tornar a água do mar potável, eram privados de todos os alimentos e recebiam apenas água do mar processada quimicamente. Ainda em benefício do exército alemão, cujos soldados sofriam com gangrena gasosa, os médicos do campo de concentração de Ravensbrück, testaram a eficiência da sulfanilamida e outras drogas no controle da infecção. Para tal, provocaram ferimentos nas vítimas, infectaram as lesões com várias bactérias e agravaram a infecção resultante passando vidro moído, serragem e areia no local para simular um ferimento de guerra. Vinte e três pessoas, das quais 20 médicos nazistas, foram acusadas de crimes contra prisioneiros de guerra e julgadas no tribunal de Nuremberg [...]. Os acusados tentaram justificar seus crimes com a desculpa de que, na época, não havia regras governamentais explícitas que regulamentassem a pesquisa médica na Alemanha e que as práticas de pesquisa na Alemanha não eram diferentes das existentes nos países aliados. As sentenças foram divulgadas em agosto de 1947, com um documento 94 Unidade II formulado pelos juízes que conduziram o julgamento e que ficou conhecido como Código de Nuremberg. Dezesseis dos acusados foram considerados culpados e sete foram executados. Os debates sobre as questões éticas envolvendo pesquisas vêm ganhando cada vez mais espaço na comunidade científica. É correto observar pessoas sem que elas assim o autorizem? É ético entrevistar pessoas alegando determinado motivo quando, na verdade, a intenção do pesquisador é outra? Em experimentos controlados, é ético negar tratamentos já consagrados para o grupo experimental com o objetivo de comparar resultados com os do grupo de controle? É ético ministrar medicamentos sem avisar aos indivíduos quais os riscos que eles estão correndo? Todas essas questões são discutidas no âmbito da ética em pesquisa. Vale a pena, aqui, distinguirmos moral e ética.Moral pode ser definida como qualquer conjunto de regras, valores e proibições, impostos pela política, costumes sociais, religiões ou ideologias. Por sua vez, a ética sempre implica reflexão sobre a validade da conduta humana, ou seja, é uma análise crítica das regras impostas pela moral (Alves; Tubino, 2006, p. 29). Não incorramos, porém, no erro de imaginarmos que as aberrações éticas aconteceram há muito tempo, e apenas em regimes totalitários de exceção, como o nazista da década de 1940. Em 1932, em Tuskegee, no Alabama (Estados Unidos), 400 homens negros foram convidados a participar de um atendimento médico gratuito, na verdade inexistente. De fato, eles eram portadores de sífilis, e estavam sendo pesquisados para que fossem identificados os sintomas, problemas e evolução da doença. Para que esse objetivo fosse possível de ser concretizado, a todos eles foi negado o direito de tratamento, inclusive depois da descoberta da penicilina, em 1947. “Quando o estudo foi denunciado, em 1972, 28 homens haviam morrido de sífilis, 100 tiveram complicações associadas, 40 esposas haviam sido infectadas e 19 crianças contraíram a doença ao nascimento” (Alves; Tubino, 2006, p. 27). Aliás, os “voluntários” para o estudo sequer haviam sido avisados que eram portadores de problemas médicos. Saiba mais Uma boa indicação sobre o assunto é o filme a seguir. A narrativa dele refere-se ao experimento de Tuskegee, que foi realizado durante 30 anos, nos Estados Unidos, com homens negros, portadores de sífilis. COBAIAS. Direção: Joseph Sargent. Estados Unidos: Anasazi Productions; HBO NYC Productions, 1997. 118 min. Há outras questões éticas extremamente relevantes quando tratamos de pesquisas científicas. Por exemplo, é ético que laboratórios farmacêuticos experimentem medicamentos novos em países mais pobres, na África ou na América Latina? Por conta desse e de outros dilemas éticos, em 1996, 95 MÉTODOS DE PESQUISA em Helsinque, associações médicas de todo o mundo assinaram uma declaração de princípios éticos relacionados à pesquisa com seres humanos. Por meio dessa declaração, eram garantidos, a todos os sujeitos que participassem de uma pesquisa biomédica, os melhores métodos existentes de diagnóstico e tratamento, incluindo-se os participantes do grupo de controle, caso houvesse. O uso de placebo foi permitido apenas nos casos em que não existissem métodos diagnósticos ou terapêuticos consagrados. Entretanto, em 1999, a Associação Médica Americana propôs, oficialmente, trocar “melhores métodos existentes” por “métodos disponíveis” com a argumentação de que os países pobres não têm acesso aos tratamentos ideais e que os indivíduos devem ser tratados de acordo com o padrão de cuidado existente em seu país, o que pode significar nada. Excluía-se, portanto, a obrigatoriedade de fornecer a terapêutica mais eficaz e legitimava-se o uso do placebo. Essas propostas são particularmente perigosas para os países pobres do terceiro mundo, além de representarem um flagrante retrocesso ético com o estabelecimento de um duplo padrão ético em pesquisa. Felizmente não foram aceitas, sobretudo pela ação firme dos representantes do Brasil e da Argentina (Alves; Tubino, 2006, p. 31). Saiba mais Esta declaração foi revisada ao longo dos anos. Caso haja interesse, ela poderá ser lida em sua integralidade em: ASSOCIAÇÃO MÉDICA MUNDIAL. Declaração de Helsinque. AMM, 2001. Disponível em: https://shre.ink/24h0. Acesso em: 31 ago. 2023. Em 1996, na Nigéria, durante um surto de meningite, cem crianças participaram de um teste para identificar os efeitos de um novo tratamento médico. As famílias não foram avisadas do diagnóstico, tampouco que as crianças seriam tratadas com uma medicação de eficácia ainda não comprovada. Recentemente, médicos franceses sugeriram testar medicamentos contra o coronavírus na África, sob a alegação de que lá não estava sendo realizado qualquer controle ou isolamento social por conta da doença. Segundo Santos (2012, p. 69), se partirmos da premissa de que bioética é, segundo Singer (1994), uma ética aplicada (prática) que tem como foco principal resolver conflitos e controvérsias morais relacionados às ciências da vida e da saúde tendo como pressuposto filosófico algum tipo de sistema de valores éticos, a realização de testes com medicamentos em uma população humana sem o prévio consentimento dos pacientes fere tais valores. Complementando este raciocínio, podemos encontrar em Vergez e Huisman (1984) uma definição 96 Unidade II de ética: uma ciência do comportamento que busca explicar, compreender, justificar e criticar a moral de uma sociedade (sendo a moral entendida, aqui, como o conjunto de costumes, normas, princípios e valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social). Não ser informado acerca de testes para determinada doença já é um desrespeito ético, mas receber um medicamento novo para tratar doenças, ainda não totalmente testado, é um atentado à bioética. Saiba mais Com o objetivo de se aprofundar mais no tema, sugerimos que se assista ao filme a seguir. A narrativa dele envolve um fictício teste de medicamentos, no Quênia, para tratamento de tuberculose e aids. O JARDINEIRO fiel. Direção: Fernando Meirelles. Estados Unidos; Reino Unido: 2005. 129 min. Figura 32 – Um dos eixos do intenso debate a respeito da ética em pesquisa científica diz respeito aos limites entre o que pode ser considerado ajuda humanitária (no caso de surtos e epidemias em países subdesenvolvidos) e a realização de pesquisas com seres humanos para a testagem de medicamentos de eficácia não comprovada Disponível em: https://shre.ink/24si. Acesso em: 31 ago. 2023. Os códigos de ética em pesquisa envolvendo seres vivos têm como base quatro princípios oriundos do corpo da ética em medicina e tratamento de seres humanos: o princípio da não maleficência, o princípio da beneficência, o princípio da autonomia e o princípio da justiça. Embora genéricos, eles dão conta de resolver a maior parte dos conflitos que surgem quando da pesquisa com seres humanos ou animais. O princípio da beneficência diz respeito à obrigação de maximizar o benefício e minimizar o prejuízo ao sujeito. Em outras palavras, o tratamento deve trazer mais resultados positivos do que negativos ao 97 MÉTODOS DE PESQUISA participante, não sendo ético causar dano deliberado. O princípio da não maleficência é correlato ao anterior: não se deve causar o mal ou prejudicar a saúde. O princípio da autonomia defende que o paciente tem todo o poder para tomar decisões relacionadas ao seu tratamento; tal princípio pressupõe que o paciente esteja em posse de suas capacidades mentais e que toda a informação necessária seja dada a ele. O princípio da justiça está relacionado à noção de equidade: os indivíduos são diferentes e merecem tratamento diferenciado, de acordo com suas fragilidades e vulnerabilidades. Toda e qualquer pesquisa com seres vivos que aconteça no âmbito do ambiente acadêmico deve receber autorização prévia para a sua realização. Esta autorização se dá mediante os esclarecimentos que o pesquisador faz em relação aos métodos e procedimentos da pesquisa, bem como aos cuidados tomados acerca dos princípios éticos que normatizam este tipo de investigação, de acordo com as Normas e Diretrizes Regulamentadoras da Pesquisa Envolvendo Seres Humanos - Resolução n. 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. Observação A aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa é necessária quando a investigação envolve animais ou seres humanos, diretamente (entrevistas, experimentos com animais, coleta de células, amostras de tecidos humanos ou animais etc.) ou indiretamente (observação de pessoas ou animais, prontuários, banco de dados não acessível ao público etc.). 7 A APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DE UMA PESQUISA: A COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA PARA A COMUNIDADE ACADÊMICA Vimos, nas seções anteriores, os aspectos que devem ser contemplados quandodo planejamento de uma pesquisa. Em geral, eles são detalhados no projeto de pesquisa, documento em que estão reunidas as informações básicas a respeito dos objetivos do trabalho, do problema que se pretende resolver, da resposta que se imagina alcançar, da metodologia a ser utilizada e do cronograma a ser seguido. A realização da pesquisa tem, portanto, esses parâmetros a serem obedecidos. Quase sem exceção, um bom planejamento permite a realização da pesquisa sem grandes contratempos, embora eles possam sempre surgir. Em outras palavras, o pesquisador não consegue controlar todas as variáveis envolvidas na execução de sua pesquisa; no entanto, ele pode traçar algumas rotas e supor algumas soluções caso surjam problemas do tipo “A”, “B” ou “C”. Se a realização da pesquisa encontra suas bases no planejamento, há outro instante no processo da execução de uma investigação que merece nossa atenção: a divulgação dos resultados. Seja quando a pesquisa for encomendada por uma instituição (e, portanto, for necessário respeitar o sigilo das informações coletadas), seja quando for promovida com o objetivo de esclarecer a comunidade em relação a um tema, as decisões relativas à publicação dos dados de uma investigação devem ser consideradas com bastante critério. De forma resumida, temos duas modalidades de comunicação científica: 98 Unidade II • A acadêmica, destinada à própria comunidade científica. • A não acadêmica, em geral associada à divulgação científica para o público em geral. Figura 33 – A comunicação científica para a comunidade acadêmica pode ocorrer de maneira formal (por meio de artigos, publicações, apresentação em congressos ou seminários) ou informais (por meio de conversas, debates e grupos de estudo) Disponível em: https://shre.ink/24s3. Acesso em: 31 ago. 2023. Em relação aos canais de comunicação, Rosa e Gomes (2010, p. 20) fazem a seguinte diferenciação: Os canais formais – ou de literatura – são representados pelas publicações impressas, que podem ser de natureza primária, secundária ou terciária. Os canais informais (interpessoais) caracterizam-se pela oralidade – conversas, telefonemas, palestras, discussões técnico-científicas, discursos, comunicações em eventos, e também cartas e documentos pré-impressos. A comunicação científica para o público acadêmico é aquela realizada entre pesquisadores e instituições de pesquisa. Segundo Rosa e Gomes (2010, p. 13), a comunidade acadêmica envolve “pesquisadores/professores, pesquisadores/alunos, universidades/centros de pesquisa, órgãos de financiamento, editores, publicações científicas com dimensão comercial, publicações científicas de acesso livre e repositórios institucionais”. Assim, no caso da comunicação realizada no âmbito da própria comunidade acadêmica, temos cientistas falando com seus pares, mantendo uma tradição que, do ponto de vista histórico, teve início com a troca de correspondência entre pesquisadores e que, por conta do surgimento das universidades e das associações científicas, materializou-se por meio da criação de revistas acadêmicas e outros instrumentos formais de comunicação. Dessa forma, a comunicação científica inclui todos os espectros das atividades associados à produção, disseminação e uso da informação a partir do momento que o cientista tem a ideia para sua pesquisa, até as informações sobre os resultados desta pesquisa para que eles sejam aceitos como um componente do conhecimento científico (Garvey, 1979 apud Rosa; Gomes, 2010, p. 19). 99 MÉTODOS DE PESQUISA Há também que ser considerado o fato de a comunicação científica legitimar e institucionalizar a “propriedade intelectual” dos resultados de uma pesquisa. São conhecidos os confrontos entre instituições e pesquisadores quando da invenção ou descoberta de algum fenômeno: em geral, aquele que publica primeiro os resultados tem a primazia da autoridade e da patente dos achados, e as circunstâncias pouco amigáveis que costumam cercar esses conflitos ajudam a desmistificar o caráter solidário e desinteressado, em geral, atribuído aos cientistas. Saiba mais O filme E a vida continua, de 1993, sob a direção de Roger Spottiswoode, resgata a narrativa da descoberta do vírus da aids, desde que a doença fez surgirem os primeiros casos nos Estados Unidos, em São Francisco, na década de 1980. Tratada como “câncer gay” (já que se manifestou, inicialmente, entre a comunidade homossexual dos Estados Unidos), a doença assumiu as dimensões de uma epidemia; por conta de estar associada ao comportamento sexual, os órgãos de governo e centros de pesquisa demoraram para tomar iniciativas e dedicar verbas à investigação do vírus. Foi apenas com a mobilização política dos homossexuais que a pesquisa da doença tornou-se uma prioridade. De fato, a imagem de “grupos de risco” foi desconstruída somente quando surgiram os primeiros casos entre hemofílicos e crianças recém-nascidas, eventos esses explicados pela transmissão sanguínea do vírus, o que esgarçou a construção da doença como uma “punição” pelo mau comportamento sexual. Um dos momentos interessantes do filme está relacionado ao embate que cercou a descoberta do vírus HIV e que contrapôs o Instituto Pasteur de Paris e o médico americano Robert Gallo: o conflito durou vários anos e o governo americano resolveu a contenda quando reconheceu os franceses como legítimos descobridores do vírus. E A VIDA continua. Direção: Roger Spottiswoode. Estados Unidos: HBO, 1993. 141 min. Segundo Carmo e Prado (2005, p. 1), “a ciência, com uma atividade social, precisa ser divulgada, debatida, refletida. Uma das funções dos cientistas é exatamente a de possibilitar um amplo debate em torno de suas ideias, descobertas, teorias e proposições em geral”. Em consequência, a comunicação científica deve cumprir com determinados propósitos, entre eles os de 1) fornecer respostas a perguntas específicas; 2) contribuir para a atualização profissional do cientista no campo específico de sua atuação; 100 Unidade II 3) estimular a descoberta e a compreensão de novos campos de interesse; 4) divulgar as tendências de áreas emergentes, fornecendo aos cientistas ideia da relevância de seu trabalho; 5) testar a confiabilidade de novos conhecimentos, diante da possibilidade de testemunhas e verificações; 6) redirecionar ou ampliar o rol de interesse dos cientistas; 7) fornecer feedback para aperfeiçoamento da produção do cientista (Rosa; Gomes, 2010, p. 19). São várias e diferentes as circunstâncias relacionadas à publicação dos resultados de uma pesquisa no ambiente acadêmico. As conclusões podem ser apresentadas sob a forma impressa (por meio de relatórios ou artigos acadêmicos) ou fazendo-se uso de apresentações orais, sendo que cada uma dessas modalidades envolve decisões especiais. Os relatórios são a modalidade mais comum: em geral, eles assumem a forma textual e são entregues para os solicitantes, antes ou depois de uma banca de avaliação (em especial, nos casos de monografias e trabalhos de conclusão de curso). Longe de desejarmos impor uma receita rígida e inflexível, sugerimos que os relatórios sejam organizados da seguinte forma: • Introdução: o texto deverá informar o tema da investigação, o problema que norteou o trabalho, a hipótese que conduziu a pesquisa, a metodologia utilizada e a forma como serão organizados os capítulos seguintes. A intenção é que o leitor seja capaz de apreender o contexto todo do trabalho e se orientar em relação ao conteúdo que irá acessar. • Capítulo com o referencial teórico: nessa etapa, o aluno/pesquisador deverá explicitar quais os referenciais utilizados, os conceitos e os constructos adotados, e as premissas e as teorias que deram suporte ao problema e à hipótese de trabalho; como já vimos, essa “revisão bibliográfica” pode envolver as teorias propriamente ditas, os trabalhos mais recentes sobre o tema ou os trabalhos mais importantes sobre a metodologia utilizada. • Capítulo com a apresentaçãocomo compreender algo, e a subsequente atividade realizada com o objetivo de apreender este objeto. Por sua vez, a metodologia compreende o estudo dos métodos. Quais são, afinal, os métodos adequados para conhecer o comportamento de uma coelha junto à sua cria? Quais são os caminhos para que se possa identificar falhas no processo de produção de uma lâmpada? Como compreender uma obra literária a partir da análise das personagens? Como identificar traços culturais comuns em dois grupos étnicos distintos? As maneiras como os sujeitos do conhecimento dirigem-se ao objeto: este é o campo da metodologia. Veja bem: não se trata de estudar a coelha, refletir sobre os processos de produção da lâmpada, realizar uma análise literária ou compreender as diferenças culturais entre dois grupos. Trata-se de discutir sobre as formas a partir das quais a coelha será observada, o processo de produção da lâmpada será investigado, as personagens serão interpretadas e os grupos serão estudados. Estamos, aqui, falando dos caminhos escolhidos pelos pesquisadores para atingir determinados objetivos, em geral associados a oferecer respostas a perguntas feitas; em outras palavras, associados à realização da pesquisa, este conjunto de procedimentos sistemáticos para a construção do conhecimento. 12 Unidade I Figura 1 – O método é o conjunto de procedimentos que o agente do conhecimento (o pesquisador) escolhe para que possa entender um fato ou um aspecto da natureza Disponível em: https://shre.ink/24qw. Acesso em: 31 ago. 2023. Cada área do conhecimento legitima e consagra determinados métodos. Claro que há métodos comuns a todas as áreas do saber, mas, em geral, há especificidades metodológicas que surgem em função da especificidade dos problemas colocados à frente dos pesquisadores. As formas de investigar um objeto, portanto, dependem das intenções dos sujeitos do conhecimento e da natureza dos objetos que se deseja conhecer. Os biólogos desenvolveram métodos particulares para estudar a natureza e os seres vivos. Os físicos, por sua vez, têm feito uso de outros métodos para estudar a matéria, a energia e os movimentos. Os economistas vêm utilizando certos métodos para investigar como a sociedade utiliza recursos escassos para o atendimento de necessidades ilimitadas. Os psicólogos apropriaram-se de processos a fim de estudar os comportamentos e os fenômenos psíquicos humanos. É plausível que os procedimentos para estudar processos inflacionários sejam distintos daqueles utilizados para estudar as relações sociais entre membros de “tribos urbanas”. Da mesma maneira, os métodos utilizados para compreender as variáveis associadas à produtividade do solo podem ser diferentes dos aplicados no estudo das bactérias patogênicas. O que há em comum é que todos os métodos buscam isolar fatores subjetivos na investigação dos objetos de estudo, fazer uso de formas racionais de entender as relações de causalidade entre variáveis, e sistematizar procedimentos que permitam o alcance de resultados e a redução de incertezas. 2 OS DIFERENTES TIPOS DE PESQUISA Em geral, e provavelmente você fez isso até agora, costumamos dividir as pesquisas em dois grandes grupos: o das pesquisas teóricas e o das pesquisas aplicadas. As pesquisas teóricas têm como proposta ampliar o conhecimento em determinada área, propondo novas questões ou novas explicações para problemas já estudados. Um exemplo de pesquisa teórica é o trabalho de Scognamillo-Szabó e Bechara (2010), no qual os autores propuseram uma revisão sobre a filosofia da acupuntura, em particular quanto às suas origens na China, a posterior expansão no Ocidente e suas aplicações em termos de efeitos terapêuticos na veterinária. Partindo do pressuposto de que a acupuntura defende a associação entre saúde e variáveis neurais e endócrinas – que, por sua vez, relacionam-se com a nutrição, os hábitos de vida e as condições do ambiente – os autores buscaram resgatar a aplicação de técnicas de acupuntura na veterinária no contexto brasileiro. 13 MÉTODOS DE PESQUISA A pesquisa aplicada, em contrapartida, tem como objetivo propor soluções a determinados problemas. Seu campo é a aplicação prática, ou seja, o uso da ciência em situações concretas para resolver questões existentes. Em outras palavras, ela busca controlar ou provocar mudanças nos fenômenos da natureza e na sociedade; ela intervém e se pretende intervencionista, já que precisa lidar com situações reais. Um exemplo de pesquisa aplicada pode ser visto no trabalho de Ilha e Cruz (2006), que envolveu conhecimentos nas áreas de pedagogia, geografia e engenharia de jogos eletrônicos. Os professores fizeram uso do SimCity4, um game no qual o usuário torna-se prefeito de uma cidade, tendo que decidir sobre assuntos financeiros e outras questões nos âmbitos estéticos, ambientais, culturais e burocráticos. O jogo foi utilizado por três professores (das disciplinas matemática, geografia e língua portuguesa) junto a alunos de 1ª série do Ensino Médio da Escola Técnica do Vale do Itajaí (SC), considerada problemática em função da quantidade de estudantes repetentes na sala. Como objetivos, os professores se propuseram a identificar os resultados de aprendizagem com a utilização do game, a importância de atividades lúdicas durante a aula e as possibilidades de trabalhar o desenvolvimento do conhecimento e de habilidades com o uso de tecnologia. A intenção envolveu a intervenção em sala de aula com o propósito de resolver uma questão prática: o desempenho dos alunos poderia melhorar caso fosse utilizado um jogo eletrônico em sala de aula? É possível que surja o seguinte questionamento: essa tipificação (teórica versus aplicada) envolve categorias excludentes? Quer dizer, uma pesquisa é sempre puramente teórica ou aplicada? A resposta é negativa: pesquisas teóricas podem gerar tecnologias e instrumentos práticos; ao mesmo tempo, pesquisas aplicadas podem fazer surgir perguntas novas, antes não pensadas, e que exigem a ampliação do conhecimento teórico para serem resolvidas. Veja, por exemplo, o caso da pesquisa teórica sobre a radiação emitida por estrelas e planetas; esta investigação acabou por permitir o desenvolvimento de termômetros auriculares (que medem a temperatura do ouvido). Os estudos teóricos sobre física quântica originaram o conhecimento necessário para o surgimento e a utilização das tomografias computadorizadas e das ressonâncias magnéticas. Figura 2 – A pesquisa teórica e o desenvolvimento tecnológico nem sempre caminham juntos, já que os desenvolvimentos tecnológicos não são, necessariamente, previstos pela pesquisa teórica em qualquer área. Em outras palavras, há ocasiões em que os artefatos tecnológicos ocorrem quase que desvinculados das pesquisas por meio das quais aquele conhecimento foi desenvolvido Disponível em: https://shre.ink/24qX. Acesso em: 31 ago. 2023. 14 Unidade I Há casos de descompasso entre o conhecimento teórico e o desenvolvimento de equipamentos tecnológicos. Um caso extremamente interessante é o da radiatividade e da aplicação tecnológica desse conhecimento. No século XIX, Marie Curie (1867-1934) já estudava o fenômeno da radiatividade, o que permitiu que ela descobrisse novos elementos, tais como o polônio e o rádio. No entanto, os efeitos do contato com materiais radiativos permaneceram desconhecidos por muito tempo, sendo que um dos exemplos mais simbólicos dessa falta de informação foi o das assim chamadas “garotas do rádio”. No início do século XX, uma empresa norte-americana utilizava uma tinta à base de rádio para pintar relógios, recurso utilizado para que os ponteiros brilhassem no escuro. Dada a necessidade de afinar o traço, as operárias lambiam a base do pincel para a aplicação da tinta. Anos depois, essas moças começaram a apresentar fortes dores nas bocas e deformidades ósseas. Após um árduo processo na justiça, elas conseguiram uma indenização da empresa em que trabalhavam. A pergunta que moveu o processoe a análise dos dados coletados: nessa etapa, o aluno/pesquisador deverá apresentar os dados obtidos durante a pesquisa; sejam qualitativos ou quantitativos, eles deverão ser organizados e explicitados ao leitor. Em geral, eles são expressos a partir de textos, tabelas, gráficos ou figuras. É importante lembrar que devem ser adicionadas apenas as informações que são pertinentes e necessárias à compreensão da pesquisa: em outras palavras, via de regra, não são incluídas, no relatório, imagens apenas a título de ilustração. Ainda, é importante que todo dado apresentado seja analisado: isto significa dizer que os dados apresentados em uma tabela, por exemplo, devem ser descritos e alvo de reflexão por parte do aluno/pesquisador. 101 MÉTODOS DE PESQUISA • Capítulo com as conclusões e recomendações finais: nessa etapa, o aluno/pesquisador irá resumir o conteúdo de cada capítulo. Ainda, deverá retomar o problema e a hipótese do trabalho, mostrando ao leitor que a pergunta da pesquisa foi respondida e que a hipótese de trabalho pôde ou não ser confirmada. Lembrete Os guias de normalização de cada instituição explicam as regras para a apresentação de tabelas, gráficos e imagens, tanto para os casos de trabalhos formatados no padrão ABNT quanto no padrão Vancouver. Ainda, há que ser considerado o fato de que, em alguns casos, os cursos e/ou orientadores adotam regras e exceções especiais em relação a essas normas. Observação Se você ainda duvidava da importância da pergunta e da hipótese de trabalho no contexto de uma pesquisa, agora deve ter percebido que, sem esses eixos condutores, não há propósito na investigação. A pergunta da pesquisa possibilita a formulação da hipótese; por sua vez, a pesquisa permitirá que o aluno/pesquisador confirme ou negue essa hipótese. No caso de negação da hipótese, alguma outra resposta deverá ser oferecida. Em outras palavras: o aluno/pesquisador deve propor uma resposta à pergunta, negando ou confirmando a hipótese, e isso deve ser explicitado no capítulo de conclusão. Outras informações podem ser adicionadas à conclusão do trabalho: • Quais as limitações encontradas pelo pesquisador durante a sua investigação? Quais foram os principais obstáculos e as dificuldades com os quais o pesquisador teve que lidar? Estas dificuldades puderam ser transpostas? Quais as lacunas que a pesquisa deixou em aberto? Essa autocrítica é importante, já que mostrará ao leitor que o pesquisador assume a impossibilidade de uma investigação sem falhas e algum grau de incerteza nas suas conclusões. • Quais as sequências e continuidades permitidas pelo trabalho? Toda pesquisa abre novas rotas de investigação, adiciona perguntas, faz surgir outras dúvidas. Assim, caso o aluno ou qualquer outro pesquisador tenha interesse em dar sequência à investigação, quais outros aspectos poderiam ser investigados? A possibilidade de dar continuidade à pesquisa mostra, no mínimo, o quanto ela foi frutífera. Os relatórios monográficos costumam ter entre 40 e 60 páginas e, em geral, cada capítulo contém entre 10 e 15 páginas. O aluno deve ficar atento: uma pesquisa pouco extensa pode sugerir falta de profundidade e reflexão; em contrapartida, relatórios muito extensos podem revelar falta de foco. 102 Unidade II Ainda, recomenda-se que o trabalho seja organizado de forma a não fragmentar demasiadamente as informações, fenômeno que pode ocorrer caso o pesquisador distribua o conteúdo em muitos capítulos. No caso de monografias de conclusão de curso (de graduação ou especialização), dissertações (relatórios de pesquisa em nível de mestrado) ou teses (relatórios de pesquisa em nível de doutorado), a entrega de um relatório impresso é acompanhada por uma apresentação oral e pela avaliação da banca. Isso significa que, em situações como essas, não é suficiente que o pesquisador apresente os resultados sob a forma de texto impresso: ele deve, também, defender suas ideias perante professores ou colegas, e se submeter à arguição. Cada universidade tem as suas próprias regras em relação às bancas, em especial no que respeita à duração, ao número de componentes e ao formato (se presencial ou online, se há apenas questionamentos por parte da banca ou se o pesquisador ainda realiza alguma apresentação concisa sobre os resultados): em geral, o pesquisador tem de 10 a 30 minutos para apresentar sua pesquisa e os professores da banca (de dois a cinco) fazem questionamentos sobre escolhas, critérios e referenciais utilizados pelo pesquisador. Figura 34 – As bancas de avaliação têm o propósito de oportunizar a apresentação dos resultados de pesquisa por parte do aluno e possibilitar a arguição e a discussão destes resultados pelos pares Disponível em: https://shre.ink/24sS. Acesso em: 31 ago. 2023. O quadro 7 resume a estrutura dos trabalhos de monografia, indicando a obrigatoriedade ou não de cada um dos elementos. Lembre-se que: • Cada curso sugere uma cor da capa diferente para os trabalhos de monografia. Convém certificar-se com os orientadores quanto às exigências de cor da encadernação e das letras da capa. • A epígrafe é um pequeno texto, em geral de autoria identificada e conhecida, que resume o sentido da obra ou os sentimentos do pesquisador. • O resumo deve conter as informações básicas do relatório, tais como problema de pesquisa, hipótese de trabalho, metodologia e principais conclusões. • Nos agradecimentos, é recomendado mencionar os orientadores, os professores que colaboraram com o trabalho e os professores da banca de qualificação (quando ela tiver acontecido). 103 MÉTODOS DE PESQUISA Quadro 7 – Elementos de uma monografia Estrutura Elemento Opção Parte externa Capa Obrigatório Lombada Opcional Parte interna Elementos pré-textuais Folha de rosto Obrigatório Errata Opcional Folha de aprovação Obrigatório Dedicatória Opcional Epígrafe Opcional Resumo na língua vernácula Obrigatório Resumo em língua estrangeira Obrigatório Lista de atribuições Opcional Lista de tabelas Opcional Lista de abreviaturas e siglas Opcional Lista de símbolos Opcional Sumário Obrigatório Elementos textuais Introdução Obrigatório Desenvolvimento Obrigatório Conclusão Obrigatório Elementos pós-textuais Referências Obrigatório Glossário Opcional Apêndice(s) Opcional Anexo(s) Opcional Índice(s) Opcional O aluno também deve se lembrar de elaborar a ficha catalográfica. Esta ficha, presente em todas as publicações, impressas ou não, dá as informações básicas a respeito da obra: autor(es), título, área temática, instituição, data e número de folhas. Biblioteca da Instituição de Ensino Superior. Guia de normalização para apresentação de trabalhos acadêmicos da Instituição de Ensino Superior: ABNT / Biblioteca da Instituição de Ensino Superior; revisado e atualizado pelos Bibliotecários. - 2019. 52 p. : il. color. 1. Normalização. 2 Trabalhos acadêmicos. 3. ABNT. I. Biblioteca da Instituição de Ensino Superior. Figura 35 – Exemplo de ficha catalográfica 104 Unidade II Observação Para a elaboração da ficha catalográfica, o aluno deverá colocar o nome correto e completo do(a) orientador(a) e, se for o caso, do(a) coorientador(a) (em geral, um professor que colaborou na realização do trabalho). A errata é um documento que se insere na monografia, em papel avulso, caso sejam necessárias correções após a impressão. Assim, se o aluno notar que algum erro foi cometido, ele não precisará imprimir outra cópia, bastando anexar algo parecido com o conteúdo a seguir. Errata Guia de normalização para apresentação de trabalhos acadêmicos da Instituição de Ensino Superior. 51 p. Folha Linha Onde se lê Leia-se 32 3 publicacao publicação Figura 36 – Exemplo de errata Além dos relatórios, outra forma de comunicação científica escrita e formal para a comunidade acadêmica ocorre por meio de publicação em revistas especializadas. Estas revistas têm características especiais e são diferentes das revistas voltadas para o públicoem geral, já que reúnem resultados de pesquisas de áreas específicas do conhecimento e possuem regras próprias para aceite e publicação de textos. Normalmente, essas normas estão explicitadas em seção específica e orientam autores e pareceristas para o processo de submissão e avaliação de trabalhos. As revistas acadêmicas brasileiras são categorizadas por meio de critérios estabelecidos pela Capes e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Segundo Rosa e Gomes (2010, p. 17), “estes órgãos são atores de destaque na rede de associações, tendo em vista que ao mesmo tempo avaliam e financiam a pesquisa nacional e a edição de periódicos”. O indicador Qualis tem sido utilizado para avaliar revistas, categorizando-as em A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C. Os primeiros quatro estratos (A1, A2, B1 e B2) são identificados a partir do fator de impacto que apresentam. Os periódicos B3, B4 e B5 são atribuídos em função da base de dados em que estão indexados: bases internacionais de dados conferem indicador B3; a indexação no SciElo confere indicador B4; e a indexação em outras bases nacionais confere indicador B5. A ausência de indexação confere indicador C para a revista. Em consequência dessa categorização, quanto mais elevado for o indicador da revista, mais renome e prestígio uma publicação alcança, e mais bem avaliada é a pesquisa apresentada. 105 MÉTODOS DE PESQUISA Saiba mais Para consultar revistas de todas as áreas do conhecimento, acesse uma das mais importantes bibliotecas virtuais brasileiras: Disponível em: https://scielo.org/. Acesso em: 31 ago. 2023. Em relação à classificação de publicações acadêmicas realizada pela Capes, é possível fazer consultas sobre a categoria das principais revistas publicadas no Brasil, por meio da pesquisa na Plataforma Sucupira: PLATAFORMA SUCUPIRA. Qualis periódicos. [s.d.]. Disponível em: https://shre.ink/kHTo. Acesso em: 31 ago. 2023. O fator de impacto é medido pelo ISI (Institute for Scientific Information) e se configura como uma métrica para avaliar a influência exercida por pesquisadores e publicações. Segundo a Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica (Aguia) (2020), o impacto de citação (citation impact) é calculado dividindo o número total de citações recebidas pelo número total de publicações. O impacto da citação mostra o número médio de citações que um documento recebeu em um dado período. O impacto de citação tem sido amplamente utilizado como um indicador bibliométrico na avaliação do desempenho de pesquisa e pode ser aplicado em todos os níveis organizacionais (autor, instituição, país/região, campo de pesquisa ou periódico). No entanto, há limites para o indicador, pois ignora o volume total da produção científica. Por exemplo, o Pesquisador A tem apenas uma publicação que recebeu 50 citações, enquanto o Pesquisador B publicou 10 documentos que receberam 200 citações. O Pesquisador A tem um maior impacto de citação (50) do que o Pesquisador B (20), embora o Pesquisador B tenha publicado mais documentos e tenha recebido mais citações em geral. No nível do campo de conhecimento, o impacto da citação de certas disciplinas é muitas vezes maior do que em outros campos científicos devido a características próprias de cada área, como frequência e volume de publicações e citações. Por esse motivo, é preciso ter cuidado ao utilizar esse indicador. Além da comunicação escrita, há a comunicação científica realizada por meio de apresentações orais durante eventos científicos. De acordo com Carmo e Prado (2005, p. 1), a necessidade de divulgar os resultados das pesquisas científicas faz com que se organizem ocasiões especiais destinadas ao intercâmbio entre profissionais e à divulgação do conhecimento que produzem. Essas ocasiões podem ser acadêmicas ou, mais restritamente, científicas. Constituem-se nos 106 Unidade II congressos, simpósios, seminários, encontros, reuniões, os quais congregam comunidades de cientistas, pesquisadores, estudantes de vários níveis e outros interessados no debate e na divulgação científica. Figura 37 – Congressos, seminários, encontros e simpósios são realizados com o propósito de apresentar os resultados de uma investigação para a comunidade acadêmica Disponível em: https://shre.ink/24sD. Acesso em: 31 ago. 2023. Segundo a Capes, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, órgão vinculado ao Ministério da Educação, os eventos científicos podem ser categorizados e definidos da seguinte forma: Congresso: reunião ou encontro de pesquisadores e/ou profissionais com interesse em pesquisa acadêmica com vistas à apresentação de resultados de pesquisa em andamento, de desenvolvimentos em uma dada linha de pesquisa ou estado da arte em um dado campo ou tópico de interesse. Pode incluir várias atividades, tais como mesas-redondas, conferências, simpósios, palestras, comissões, painéis e minicursos, entre outras. Simpósio: reunião de iniciativa de determinada comunidade científica em torno de um assunto específico com vistas a agregar resultados e considerações de modo a promover avanço no sentido de sua clarificação. Pesquisadores convidados apresentam suas considerações e/ou resultados sobre o tema, para debate amplo com um público com interesses comuns. Encontro: reunião de iniciativa de determinada comunidade científica na qual pesquisadores, docentes, estudantes de pós-graduação e de graduação ou outros profissionais têm a possibilidade de apresentar seus resultados de pesquisa e relatos de experiências em determinada área ou tema para colocá-los em debate, com vistas a qualificá-los e validá-los. Nos encontros também pode haver atividades, tais como mesas-redondas, conferências, palestras, painéis, minicursos, entre outras atividades de atualização e divulgação com vistas ao avanço da área, bem como debates sobre temas relevantes, atuais e polêmicos no âmbito da área. 107 MÉTODOS DE PESQUISA Colóquio: evento de menor porte do que um encontro, com vistas a intensificar o diálogo de pesquisadores, alunos e/ou profissionais em torno de um tópico ou questão específica, de modo a promover avanço no entendimento deste ou gerar questões a serem investigadas como continuidade. Workshop: reunião de pesquisadores e/ou técnicos que dão apoio à pesquisa, em torno do desenvolvimento de técnicas, metodologias ou práticas que sejam úteis à condução de pesquisa em determinado campo. O workshop pode ser conduzido por um pesquisador/profissional ou sua condução pode ser compartilhada em função de seus objetivos específicos. Reunião: reunião de pesquisadores, podendo ser estendida a profissionais vinculados à atividade científica e aos alunos, para a apresentação e discussão de assuntos pertinentes à atividade científico-acadêmica ou à gestão em ciência. Seminário: reunião de um grupo de estudos/pesquisa em torno de um tópico exposto oralmente por um ou mais dos participantes, usualmente relativo à pesquisa em andamento a ser discutida pelos participantes. Painel: exposição de visões, abordagens relativas a um tema por um pequeno número de especialistas. Usualmente, uma das atividades programadas em congressos. Fórum: tipo de reunião menos técnica cujo objetivo é envolver a efetiva participação de um público interessado para o tratamento de questões relevantes sobre desenvolvimento científico, ações sociais em benefício de grupos específicos ou da humanidade em geral. Conferência: apresentação pública ou preleção sobre tema (assunto técnico, artístico, científico ou literário) de interesse de uma comunidade por parte de pesquisador/profissional/especialista com notoriedade na área em que atua. Palestras e ciclo de palestras: sequência de apresentações públicas sobre determinado tema de interesse oriunda de iniciativas da parte de instituições científicas/educacionais ou profissionais para as quais a apresentação do produto da pesquisa acadêmica seja relevante, ou oriunda deredes de cooperação nacionais ou internacionais. Jornada: encontro curto (de um dia de duração), usualmente organizado por grupos de pesquisa, de âmbito regional ou local, para discutir assuntos de interesse do grupo. As conclusões podem definir linhas norteadoras para trabalho futuro. Feira (ou mostra ou festival): exposição pública de trabalhos, materiais e outros produtos decorrentes de atividade acadêmica (científica, literária, artística) (Brasil, 2017). 108 Unidade II Há modalidades híbridas, que mesclam formas impressas e orais para a comunicação científica. Assim, outra modalidade bastante utilizada na comunicação dos dados de uma pesquisa no ambiente acadêmico é o pôster, ou banner, como alguns denominam. O pôster nada mais é do que a síntese de um trabalho impressa em um cartaz. Esse cartaz pode ser pendurado ou exposto em local previamente escolhido ou pode ser apresentado sob a forma de seminário ou palestra. Assim, pode acontecer de ser agendada uma apresentação de pôsteres e, nesse caso, o pesquisador ficar diante de uma plateia ou de interessados, explicando o conteúdo da sua pesquisa; em outras ocasiões, os pôsteres podem ficar expostos durante algum tempo, sem que o pesquisador tenha o compromisso de estar à disposição para quaisquer esclarecimentos. Há regras e normatização específicas para a realização de um pôster. A ABNT, por exemplo, sugere um padrão em termos de tamanho do pôster, tamanho de letras e outras disposições. Na maioria dos casos, os professores ou os organizadores do evento detalharão as características e os elementos obrigatórios do pôster. Observação A realização de exposição de pôster é muito comum na comunidade acadêmica; no entanto, nada impede que o pôster seja colocado em um local de acesso público; caso isso aconteça, o pesquisador deve ter em mente a necessidade de utilizar uma linguagem que seja acessível a todos. Outro aspecto a ser considerado diz respeito ao uso intensivo de tecnologias de informação e comunicação, ou seja, de aparatos tecnológicos desenvolvidos pela informática, para efeitos de comunicação científica, em especial para a própria comunidade acadêmica. Figura 38 – Nas últimas décadas, a comunicação científica intensificou-se em função das inovações tecnológicas, em especial das tecnologias de informação Disponível em: https://shre.ink/2DeI. Acesso em: 31 ago. 2023. Como vimos anteriormente, as revistas acadêmicas são as principais vias para a publicação de resultados de investigações dentro da comunidade acadêmica. Há mais ou menos duas décadas, uma 109 MÉTODOS DE PESQUISA das maiores dificuldades para a criação e a gestão de revistas acadêmicas era o altíssimo custo de impressão e distribuição. Assim, apenas as instituições mais antigas e com acesso a verbas conseguiam publicar revistas acadêmicas. A revolução da informática mudou completamente esse quadro: não há mais custos de papel e gráfica, tampouco a necessidade de uma logística especial para distribuir a publicação. Como afirmam Rosa e Gomes (2010, p. 21), o surgimento da internet e da www, em fins dos anos 80, veio acelerar mudanças na forma de publicação da produção científica, que passou do suporte exclusivamente em papel para o uso também do suporte digital, alterando o fluxo da comunicação científica. Entre os fatores que contribuíram para as mudanças no modelo clássico da comunicação científica destacam-se o custo alto das assinaturas de periódicos científicos e os avanços das tecnologias de informação e comunicação (TIC). Este cenário mudou bastante em função da inovação tecnológica: nos dias de hoje, desde que haja um grupo de pesquisadores comprometidos com uma proposta editorial sólida e algum recurso financeiro, é possível publicar virtualmente uma revista acadêmica da melhor qualidade. Aliás, o fato de a tecnologia permitir a publicação virtual de revistas fez com que um maior número de pesquisadores, alunos e professores tivessem acesso a revistas de instituições pouco conhecidas ou distantes do centro de produção do conhecimento. Ainda, é importante considerar que os acervos virtuais de revistas eletrônicas dispensaram a criação e a manutenção de espaços especialmente preparados para abrigar grandes coleções impressas. Apesar dessas mudanças, não se deve pensar que a inovação criou um “paraíso” no qual todos podem acessar quaisquer informações e todos podem publicar em quaisquer revistas. As revistas mais reconhecidas, por exemplo, só podem ser acessadas, via de regra, mediante assinaturas caras e impossíveis de serem realizadas por pessoas físicas ou instituições com poucos recursos financeiros. Ainda, quanto mais renomada for a revista, mais difícil e demorado é o processo de aceite de textos e artigos. Segundo Rosa e Gomes (2010, p. 22), os altos custos das assinaturas tornaram difícil a manutenção atualizada das coleções de periódicos pelas bibliotecas, dificultando o acesso à informação pela comunidade leitora. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma corrida para a publicação dos resultados das pesquisas nos periódicos científicos internacionais por parte dos pesquisadores, para atender a critérios de avaliação estabelecidos para as grandes áreas do conhecimento. Como já demonstramos, nem tudo é perfeição no contexto da publicação científica: os pesquisadores são mais bem qualificados em função do acesso e do impacto que suas publicações conseguem; as revistas mais bem qualificadas são cada vez mais exigentes no aceite e na publicação de textos; os pesquisadores dependem da publicação de textos para divulgarem suas ideias e obter o reconhecimento dos seus pares; quanto mais renomada for uma revista, mais acessos os artigos por ela publicados conseguem obter. Essa estrutura rígida cria obstáculos difíceis de serem ultrapassados, embora a iniciativa de criar 110 Unidade II plataformas para consulta sem necessidade de assinatura e a publicação de livros e textos no formato de acesso livre tenham favorecido autores e leitores. Segundo Rosa e Gomes (2010, p. 23), a Iniciativa de Arquivos Abertos e o Movimento de Acesso Livre modificaram inteiramente o cenário da comunicação científica. Tanto no que diz respeito ao processo de aquisição, quanto ao processo de produção, disseminação, uso e modo como os cientistas publicam os resultados de suas pesquisas e se relacionam com seus pares. Estes fenômenos possibilitaram mudanças estruturais no sistema de comunicação da ciência. Figura 39 – Os repositórios e os bancos virtuais de dados têm desempenhado um importante papel no que diz respeito ao intercâmbio de informação nos mundos acadêmico e científico Disponível em: https://shre.ink/2DPT. Acesso em: 18 dez. 2020. De qualquer forma, são inegáveis os benefícios que a informática e a inovação tecnológica proporcionaram à comunicação científica. Por conta dessas mudanças, podemos acessar revistas de países africanos, do Oriente Médio e de todos os cantos da América Latina: o intercâmbio de ideias é cada vez maior e a conhecida dicotomia entre centro produtor de conhecimento versus periferia consumidora de conhecimento parece estar se enfraquecendo. Segundo Rosa e Gomes (2010, p. 27), a comunicação científica foi bastante favorecida pelo uso das redes de computadores no ambiente de pesquisa. A velocidade da disseminação de resultados, o intercâmbio das ideias, a colaboração entre pesquisadores são contributos possibilitados pelo uso das TICs. Os pesquisadores incorporaram, de fato, no seu cotidiano científico, tecnologias da rede, na ação de desenvolver pesquisas e gerar conhecimentos, mas também nas dinâmicas de publicação e disseminação do conhecimento produzido. De igual modo, têm consciência crescente dos impactos decorrentes dessas redes eletrônicas, que favorecem a expansão das comunidades científicas, facilitando e intensificando a comunicação e ampliando o acesso aos diversos recursos de informação criados. 111 MÉTODOS DE PESQUISA Vamos contextualizaressa discussão a partir da reflexão sobre a comunicação científica em uma área bem específica do conhecimento: a saúde. Segundo Castro (2006), a internet mudou não apenas a comunicação científica, mas provocou transformações na sociedade como um todo, em particular no que respeita à importância da informação. A informação, de forma bem diferente do que havia acontecido até então, passou a ser produzida e disseminada com extrema intensidade; por conta disso, as pesquisas e as redes de colaboração entre pesquisadores de diferentes países e especialidades cresceram em número e qualidade. Afinal, “o processo de globalização no século XXI teve maior desenvolvimento quando os indivíduos perceberam a capacidade de colaboração em redes no âmbito mundial, utilizando amplamente os recursos tecnológicos existentes” (Castro, 2006, p. 58). Em relação ao caso específico da saúde, essas novas tecnologias prestaram-se perfeitamente para a disseminação do conhecimento: exemplo disso foi a criação da Biblioteca Virtual da Saúde, que acolheu diferentes autores e promoveu um fluxo de comunicação que, colocado à disposição de todos, transformou o conhecimento científico em bem público. Saiba mais Atualmente, a Biblioteca Virtual da Saúde encontra-se disponível no link a seguir: Disponível em: http://brasil.bvs.br/. Acesso em: 31 ago. 2023. No portal, é possível acessar material de pesquisa em diferentes temáticas, bem como literatura técnica e científica em bases especializadas nacionais, diretórios e portais. Segundo Castro (2006, p. 61), o Portal de Revistas Científicas da BVS registra cerca de 8.600 revistas científicas correntes da área da saúde, das quais 50% estão disponíveis em formato eletrônico. Das 5.236 revistas indexadas na base Medline e registradas no Portal da BVS, 3.457 (66%) estão em formato eletrônico, em acesso aberto ou controlado. No caso das revistas publicadas em países da América Latina e Caribe e indexadas na base de dados Lilacs, a percentagem de revistas eletrônicas passou de 18% em 2001 para 78% em 2006. Ainda segundo o autor, as tecnologias de comunicação e informação também possibilitaram a criação de novos espaços para discussão e reflexão sobre a ciência, o que incluiu não apenas a criação de revistas acadêmicas, mas o surgimento de novos formatos de publicação que favorecessem o acolhimento de debates (por exemplo, fóruns e espaços para comentários ao final de artigos). Assim, para Castro (2006, p. 60) 112 Unidade II a linearidade e a sequencialidade, inerentes ao modelo tradicional, foram substituídas por um fluxo de comunicação ágil, rápido, dinâmico e, por vezes, interativo, desenvolvido no espaço virtual criado pela internet. O novo fluxo permite a convergência entre autores, revisores e editores (produtores da informação), bibliotecas e centros de informação (intermediários) e usuários (leitores e pesquisadores) e estimula o compartilhamento de ideias e experiências. A comunicação se dá por meio de mensagens e arquivos digitais transferidos automaticamente de uma etapa a outra, que podem estar visíveis e acessíveis a vários desses atores simultaneamente, independentemente de distâncias físicas. Uma das primeiras iniciativas de acesso aberto a conteúdo científico, no Brasil, foi criação da SciELO, em 1997: se no início o portal abrigava apenas dez títulos de revistas (sendo quatro da área da saúde), em 2006, a SciELO Brasil incluiu 160 títulos, 83 (52%) das ciências da saúde e também indexados na base de dados Lilacs. Em toda a rede de coleções SciELO, que abrange países da América Latina e Caribe, Espanha e Portugal, há 167 títulos da área da saúde (Castro, 2006, p. 61). Saiba mais Caso exista o interesse de investigar com mais detalhes o panorama da comunicação científica em outras áreas, sugerimos, a título de exemplo: Na área da administração de empresas: MIRANDA, A. C. C.; CARVALHO, A. V.; RAMOS, A. S. M. Comunicação científica em administração. Revista de Ciência da Administração, Fortaleza, v. 22, n. 2, p. 573-604, jul./dez. 2016. Disponível em: https://shre.ink/24Zv. Acesso em: 31 ago. 2023. Na área do turismo: SANTOS, G. E. O.; REJOWSKI, M. Comunicação científica em turismo no Brasil: análises descritivas de periódicos nacionais entre 1990 e 2012. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, v. 7, n. 1, p. 149-167, 2013. Disponível em: https://shre.ink/23rb. Acesso em: 31 ago. 2023. 113 MÉTODOS DE PESQUISA Na área da educação científica: OLIVEIRA, J. R. S.; QUEIROZ, S. L. Considerações sobre o papel da comunicação científica na educação em química. Química Nova, São Paulo, v. 31, n. 5, p. 1263-1270, 2008. Disponível em: https://shre.ink/244b. Acesso em: 31 ago. 2023. Na área da ciência da informação: COSTA, L. F. et al. O uso de mídias sociais por revistas científicas da área da ciência da informação para ações de marketing digital. Revista ACB, Santa Catarina, v. 21, n. 2, p. 338-358, 2016. Disponível em: https://shre.ink/24HU. Acesso em: 31 ago. 2023. Figura 40 – As bibliotecas virtuais dispensaram a reserva de grandes espaços e verbas para manutenção de imensos arquivos de dados, textos, imagens e livros Disponível em: https://shre.ink/2DPS. Acesso em: 31 ago. 2023. De maneira geral, as tecnologias da informação mudaram o panorama da comunicação científica: a informação passou a ser produzida e armazenada em diferentes locais, e o modelo de trabalho passou a privilegiar o formato de rede, na qual vários colaboradores trabalhavam ao mesmo tempo, compartilhando dados e processos. A realização de pesquisas colaborativas envolvendo um grande número de pesquisadores e instituições facilitou a transmissão de informação e incentivou a elaboração de artigos de autoria coletiva. De fato, as inovações tecnológicas favoreceram a democratização do processo de produção e distribuição de 114 Unidade II informação, distribuição essa realizada tanto de maneira formal quanto informal. Há, entretanto, que contextualizar esta democratização: se a velocidade da produção e do compartilhamento de informação aumentou significativamente, a importância das tecnologias de informação e comunicação fez surgirem dois mundos paralelos: o mundo no qual as TICs estavam acessíveis, e o mundo no qual não havia acesso algum às TICs. Em outras palavras, surgiram novos periódicos, simplificou-se e se tornou mais barato produzir cópias de textos e artigos, grupos periféricos puderam se fazer ouvir, novas estruturas organizacionais foram criadas e aspectos culturais e da oralidade passaram a ser compartilhados independentemente da distância geográfica; no entanto, aumentou o fosso existente entre países ricos e pobres, entre os digitalmente incluídos e os excluídos. Segundo Oliveira e Noronha (2005), a inovação tecnológica também provocou problemas em relação à inconsistência das informações, à complexidade do armazenamento e à banalização da autoria. Inconsistência das informações: ao lado da quantidade de informações disponíveis na rede, não há uma forma de avaliação de sua qualidade e credibilidade; a facilidade de qualquer pessoa produzir e disponibilizar seus textos faz com que estes estejam acessíveis sem nenhum critério de avaliação; pré-prints que são colocados na rede para que o autor possa testar suas descobertas através de uma consulta prévia à comunidade, e que comumente são usados e citados em outros trabalhos. Complexidade de armazenamento e do controle bibliográfico: devido à característica de imediatez, da facilidade de disponibilização e quantidade de informações da internet, torna-se complexo o armazenamento da informação por um longo período de tempo; é comum os relatos de usuários que tiveram acesso a um documento/informação, o imprimiram e posteriormente, ao tentarem recuperá-lo, este já não estava mais disponível na rede; este fato é de extrema importância para a elaboração de trabalhos científicos, onde as fontes de informações devem estar disponíveis paraconsulta e verificação dos dados. Outro ponto é como garantir a prioridade da descoberta científica e da produtividade dos pesquisadores em documentos que não têm garantia de permanência e conservação. Banalização da autoria: ao mesmo tempo que agiliza o intercâmbio e compartilhamento de informações e a colaboração entre pesquisadores distantes geograficamente, inclusive com a elaboração de trabalhos com autoria múltipla, possibilita a facilidade de acesso ao texto original e sua modificação no ambiente digital, inclusive com o plágio de obras; isso é um ponto-chave no ambiente acadêmico, onde a produtividade e o reconhecimento são calcados na autoria (Oliveira; Noronha, 2005, p. 87). 115 MÉTODOS DE PESQUISA 8 A APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS DE UMA PESQUISA: A COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA PARA A COMUNIDADE NÃO ACADÊMICA Não é apenas a comunidade acadêmica que tem interesse na divulgação de resultados de pesquisa: na verdade, e cada vez mais, o público em geral busca informações sobre a ciência, já que é dela que resultam processos, instrumentos e equipamentos que fazem parte da nossa vida. Assim, da mesma forma como as pessoas sentem que precisam estar informadas a respeito de política, elas percebem que o conhecimento científico é um diferencial para a compreensão do mundo. Em função da necessidade crescente de informações a respeito de ciência, uma série de veículos foram criados e vêm sendo utilizados para levar o conhecimento às pessoas, em linguagem adequada e compreensível. Tal tarefa tem se mostrado imensamente difícil, já que, cada vez mais, a ciência trabalha no terreno da especialização, exigindo conhecimentos muito específicos e complexos. Por meio de documentários ou através de revistas eletrônicas, blogs e vídeos, a comunidade científica tem buscado aproximar o público do conhecimento produzido nos laboratórios e institutos de pesquisa. É importante salientar: tal esforço não tem única e necessariamente a proposta de “educar” ou ampliar o conhecimento do público, mas orientá-lo quanto a cuidados a serem tomados ou a comportamentos a serem modificados. Valeiro e Pinheiro (2008, p. 165) refletem a respeito da importância da disseminação do conhecimento científico por meio de um exemplo. Com o título “Tsunami disaster: a failure in science communication”, o editorial de 17 de janeiro da Scidev.net (2005), ao comentar o desastre que provocou a tragédia divulgada ao mundo em poucos instantes, relata como foi possível salvar do efeito tsunami inúmeras vidas. O fato ocorreu em uma vila de pescadores em Nallavadu, na costa nordeste da Índia, no estado de Tamil Nadu. Essa vila, assim como outras, faz parte do projeto da Swaminathan Research Foundation, sendo beneficiada por um pequeno centro de telecomunicações ligado à internet, prestando serviços de prevenção quanto a fenômenos geológicos, evitando situações de perigo. Nesse fatídico dia, o responsável pelo centro de telecomunicações se ausentou para ir a Cingapura, justamente para procurar novos dados sobre recente terremoto ocorrido na Indonésia. Ciente do iminente perigo, ainda fora da vila, mandou a família abandonar o local e avisar a outros habitantes do perigo de inundação pelas ondas gigantes. Imediatamente, a notícia correu e houve tempo para que o centro de telecomunicações desse o alerta para a população, que se salvou a tempo. Em função da eficiente articulação da informação, da comunicação científica e da divulgação – enfatiza o editorial –, coordenadas na prestação de um serviço público, foram salvas cerca de 500 famílias. Nos outros locais o efeito tsunami, ao contrário, causou a tragédia que foi apontada como a maior falha da comunicação científica, dando origem ao título do editorial que também chama a atenção para o papel do cientista na sociedade. 116 Unidade II Saiba mais Um filme bastante interessante sobre o tema é O informante. Ele narra a história de um ex-funcionário da indústria de tabaco que resolve contar os segredos da indústria para o público, em especial sobre o uso de substâncias destinadas a viciar os consumidores. O INFORMANTE. Direção: Michael Mann. Estados Unidos, 1999. 157 min. Há, atualmente, uma série de revistas destinadas ao público em geral que têm como proposta divulgar a ciência: a ComCiência é uma revista eletrônica organizada pela equipe de jornalismo científico da Unicamp (SP), e seus temas envolvem desde os relativos às ciências sociais aplicadas até os referentes às ciências naturais. Ela está disponível no link a seguir: Disponível em: https://www.comciencia.br/. Acesso em: 31 ago. 2023. Outra publicação que vale a pena conhecer é a Superinteressante, focada em adolescentes e curiosos em relação à divulgação científica, podendo ser acessada em: Disponível em: https://super.abril.com.br/. Acesso em: 31 ago. 2023. Entre as demais publicações, destacamos a mundialmente conhecida Scientific American, que tem uma plataforma disponível em português no link: Disponível em: https://sciam.com.br/. Acesso em: 31 ago. 2023. Outras formas de divulgação científica são os vídeos apresentados em canais do YouTube ou em outras plataformas de produções audiovisuais. Dado o alcance desse tipo de mídia, muitos pesquisadores têm procurado divulgar os seus trabalhos dessa forma, ampliando o acesso da população ao conhecimento científico de qualidade. 117 MÉTODOS DE PESQUISA Resumo Observamos que o planejamento de uma pesquisa costuma ser proposto sob a forma de um projeto. A escolha do tema é o primeiro passo para realizar uma investigação científica. O tema é o assunto, é sobre o que se pretende pesquisar. Pesquisas são realizadas para que encontremos respostas a perguntas feitas diante dos fenômenos que nos cercam. A problematização é o momento em que o aluno fará uma pergunta em relação ao tema, pergunta essa possível de ser respondida por meio da pesquisa. A hipótese é uma resposta à pergunta, e que se supõe provável. A hipótese é uma afirmativa que responde ao problema, e o trabalho de pesquisa dirá se esta resposta é correta ou não. Os objetivos estão relacionados aos propósitos da pesquisa, suas finalidades e intenções. Em resumo: se o problema e a hipótese identificam o que será pesquisado, os objetivos mostram por que será pesquisado. Eles podem ser genéricos ou específicos mas, como regra, são representados por meio de verbos de ação, quer dizer, os verbos de ação instrumentalizam os objetivos. Vimos que a metodologia indica como fazer, ou seja, ela envolve as escolhas a respeito dos processos, procedimentos e operações para investigar os fatos e os fenômenos. O que vai indicar quais os métodos deverão ser escolhidos são o problema, a hipótese e os objetivos. O referencial teórico, também chamado de marco teórico, revisão de literatura e estado da arte, diz respeito aos conceitos, teorias e constructos nos quais o pesquisador está se apoiando. O cronograma de atividades responde à questão de “quando” o trabalho será realizado. A pesquisa deve ser realizada conforme uma sequência de etapas, e precisa ser concluída dentro do prazo que há disponível. Entendemos que há que tomar cuidados especiais quando a pesquisa envolver seres vivos: nas universidades, há comitês especializados em avaliar as questões éticas envolvidas na realização da pesquisa, e a continuidade da pesquisa, nesses casos, depende de aprovação para que possa ser executada. 118 Unidade II A comunicação científica é ainda uma etapa importante do processo de pesquisa, já que ela tem o propósito de divulgar os resultados das investigações e submeter os dados à apreciação e avaliação da comunidade acadêmica. A comunicação científica pode ser formal e informal, e acontecer no ambiente acadêmico ou entre o público em geral. Por fim, entendemos que as TICs vêm desempenhando um importante papel na disseminação da informação científica; apesar de todos esses benefícios, é de fundamental relevância estarmos atentos às desvantagensda circulação intensa e descentralizada da informação, em especial quanto à confiabilidade dos que divulgam dados sobre a ciência e a tecnologia. 119 MÉTODOS DE PESQUISA Exercícios Questão 1. (IFPB 2013, adaptada) Segundo Gil (2007), não há regras fixas acerca da elaboração de um projeto. Sua estrutura é determinada pelo tipo de problema a ser investigado. É necessário que o projeto esclareça como se processará a pesquisa. Considerando os elementos que são indispensáveis em um projeto de pesquisa, na esfera acadêmica, independentemente da área de conhecimento à qual esteja relacionado, analise os itens a seguir: I – Formulação do problema, fundamentação teórico-metodológica e objetivos. II – Identificação do tipo de pesquisa e delimitação do objeto e cronograma a ser seguido. III – Nomes dos indivíduos que serão entrevistados, caso a pesquisa seja quantitativa. IV – Modelos dos questionários a serem aplicados, caso seja previsto o uso de mecanismos online para captação de respostas. Está(ão) correto(s) apenas o(s) item(ns): A) I. B) I e II. C) IV. D) II e III. E) II e IV. Resposta correta: alternativa B. Análise da questão A formulação do problema, a fundamentação teórica por meio da revisão bibliográfica, a identificação do tipo de pesquisa, do objeto de estudo e do cronograma de atividades são informações essenciais em um projeto de pesquisa. Os nomes dos entrevistados não são divulgados, seja no projeto, seja no relatório de pesquisa; os modelos de questionários são apresentados no relatório de pesquisa, e não no projeto. 120 Questão 2. (IFPB 2013) Um dos elementos básicos numa pesquisa é a clareza na identificação do problema de pesquisa, considerando sua finalidade e demanda. Entretanto, nem todo problema é passível de tratamento científico. Com base nisso, analise as seguintes situações de pesquisa. I – Como fazer para melhorar os transportes coletivos. II – Em que medida a escolaridade determina a preferência político-partidária. III – Como fazer para reduzir a violência urbana. IV – Em que medida a violência urbana entre jovens e adolescentes está relacionada à ausência de políticas públicas sociais. Dentre as situações apresentadas, qual(is) não corresponde(m) a um problema de pesquisa científico? A) I, II, III e IV. B) I e II, apenas. C) III e IV, apenas. D) II e III, apenas. E) I e III, apenas. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão Os problemas I e III envolvem juízos de valor e não esclarecem quanto às formas que serão utilizadas para mensurar as variáveis da pesquisa. 121 REFERÊNCIAS Audiovisuais CHERNOBYL. Direção: Johan Renck. Estados Unidos; Reino Unido: HBO, 2019. 330 min. (5 episódios). COBAIAS. Direção: Joseph Sargent. Estados Unidos: Anasazi Productions; HBO NYC Productions, 1997. 118 min. E A VIDA continua. Direção: Roger Spottiswoode. Estados Unidos: HBO, 1993. 141 min. O EXPERIMENTO de Milgram. Direção: Michael Almereyda. Estados Unidos: 2015. 98 min. FARIAS, E. G. Eu te amo, meu Brasil. Intérprete: Os Incríveis. In: OS INCRÍVEIS. São Paulo: RCA, 1970. Compacto simples. Lado A. O INFORMANTE. Direção: Michael Mann. Estados Unidos, 1999. 157 min. O JARDINEIRO fiel. Direção: Fernando Meirelles. Estados Unidos; Reino Unido: 2005. 129 min. Textuais AGÊNCIA USP DE GESTÃO DE INFORMAÇÃO ACADÊMICA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (AGUIA). Indicadores e métricas. 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Acesso em: 31 ago. 2023. 129 130 131 132 Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000 TEXTO COMPLEMENTAR Disciplina: Métodos de Pesquisa Professor: Ivy Judensnaider Divulgação científica ganha mais relevância diante da quantidade de pesquisas sobre o coronavírus. Por Fernanda da Costa – Jornal da Universidade Fernanda Sobral é vice-presidente da SBPC Foto: Pablo Valadares/ Câmara dos Deputados Ciência | Circulação qualificada do conhecimento entre a população é necessária para que se elenquem estudos relevantes e se combata a desinformação Se a divulgação científica já era importante para levar a ciência para além das páginas das revistas acadêmicas e dos muros das instituições de pesquisa, com a pandemia ela se tornou ainda mais essencial para elencar os estudos relevantes e combater a desinformação. Vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Fernanda Sobral afirma que o coronavírus fez com que as pessoas se interessassem mais pela produção acadêmica, pois entenderam que precisam da ciência para conter a pandemia. Colaboradora sênior do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade de Brasília http://portal.sbpcnet.org.br/ (UnB), a professora aposentada avalia que, antes da pandemia, o movimento de crítica e de negação da produção acadêmica, que chamou de “niilismo da ciência”, era maior. “Agora, estamos em um momento de recuperação da autoridade científica, e a divulgação tem um papel importante nisso. Tenho visto pessoas que não são da área científica discutindo sobre a vacina da Rússia, falando que não tem publicação sobre, por isso não é baseada em resultados e evidências científicas. Pessoas leigas estão conhecendo como se faz ciência. “ - Fernanda Sobral Esse é um tipo de conhecimento prioritário para o Brasil, do qual 93% dos jovens não souberam citar o nome de um cientista e 87% não conseguiram informar ao menos o nome de uma instituição nacional de pesquisa, conforme levantamento realizado no ano passado pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e da Tecnologia (INCT-CPCT). “Eu acredito que se essa pesquisa for repetida agora, com a ciência em maior evidência na mídia por causa da pandemia, o cenário pode ser mais favorável, pois chegamos a ver quatro cientistas falando nos primeiros 10 minutos do Jornal Nacional. Acho que isso nunca aconteceu na história”, comenta a jornalista Sabine Righetti, coordenadora da agência de divulgação científica Bori. Realizada com 2.206 pessoas com idades entre 15 e 24 anos de todo o país, a pesquisa também mostrou que 68% dos entrevistados disseram achar impossível ou difícil identificar se uma notícia relacionada à ciência é verdadeira. “Isso é um grande problema, porque eu vejo que os jornalistas às vezes passam mais tempo desmentindo ou explicando informações sobre o coronavírus do que divulgando os resultados de novas pesquisas científicas. Há informações erradaspartindo inclusive de órgãos públicos, o que confunde a população e tira o tempo da divulgação científica”, lamenta Sabine. Criada em fevereiro deste ano com objetivo de aumentar a presença da ciência na mídia, a Bori já antecipou 104 estudos inéditos à imprensa e mantém um guia de fontes com o telefone celular de mais de 400 pesquisadores que podem dar entrevistas sobre diversos assuntos relacionados ao coronavírus. “Antes de desenhar a Bori, em 2019, fizemos uma pesquisa com 140 jornalistas, que disseram que tinham dificuldade de encontrar estudos e, quando encontravam, era ainda mais difícil conseguir falar com os pesquisadores. Além disso, devido ao volume de estudos publicados diariamente no país – mais de 230 por dia, fora preprints –, os jornalistas sentem dificuldade de elencar quais são os mais relevantes, diferenciar um estudo pequeno do que é o ‘pulo do gato’”, relata. Em relação ao volume e à relevância das pesquisas, a jornalista Jaqueline Sordi, do projeto Lupa na Ciência, que analisa artigos acadêmicos sobre a covid-19, afirma que a aceleração da produção científica por causa da pandemia apresenta o risco de “passar por cima” do rigor metodológico e chegar a conclusões precipitadas, como no caso da cloroquina. “Um dos primeiros estudos publicados em uma revista de peso sobre a droga, indicando que ela seria positiva no tratamento da covid-19, tinha erros que passaram despercebidos. Logo esses https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2019/06/93-dos-jovens-do-pais-nao-sabem-o-nome-de-um-cientista-brasileiro.shtml https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2019/06/93-dos-jovens-do-pais-nao-sabem-o-nome-de-um-cientista-brasileiro.shtml https://www.inct-cpct.ufpa.br/index/ https://abori.com.br/ https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/15/lupa-na-ciencia-google-covid-19/ erros foram corrigidos, mas o processo gerou confusão no público em geral, o que pode levar a uma perda de confiança na ciência. Isso colaborou para grupos que têm interesses em deslegitimar esse campo, como os propagadores de fake news”, exemplifica. Agência Bori divulga quatro pesquisas inéditas semanalmente para uma lista de mais de mil jornalistas – Foto: Reprodução Divulgação é uma forma de democratizar a ciência Doutoranda em comunicação na UFRGS, Jaqueline leva viva na memória a afirmação de que “uma pesquisa só termina quando ela alcança a comunidade”, ouvida durante um congresso. Para ela, a frase resume de forma simples e sucinta o que considera um dos principais problemas da academia: “Perceber que o valor da ciência está também no seu papel social”. Ou seja, “precisa alcançar a população”, nas palavras da pesquisadora. “Existe um abismo entre a produção científica e a sua divulgação para além do universo acadêmico. Pesquisadores são, desde cedo, incentivados a produzir artigos para publicar em revistas especializadas. No entanto, esse tipo de publicação, por ser muito técnica, não alcança o público em geral. Jornalistas, por outro lado, são atropelados pelas rotinas de produção, por isso acabam se afastando de temas complexos que demandam tempo, reflexão e aprofundamento”. - Jaqueline Sordi Para a jornalista, iniciativas de divulgação acadêmica como a Lupa na Ciência são fundamentais para a democratização científica. “Elas são calcadas no princípio de aproximar a comunidade da produção científica, descomplicando a ciência e mostrando que o conhecimento é para todos. Trabalhando especificamente na divulgação de pesquisas sobre o novo coronavírus, percebi que existe uma grande dificuldade de a população entender como se dá o processo de produção científica, quais suas contribuições e também limitações”, afirma. A pesquisadora atribui essa dificuldade a dois fatores principais. O primeiro, segundo ela, é que a formação acadêmica e profissional parte, na maioria das vezes, de premissas cartesianas. “Conteúdos são estudados de forma separada, sem que se estabeleça uma relação entre as diferentes áreas do conhecimento. Isso prejudica nossa compreensão e a busca de soluções para fenômenos naturais e sociais”, explica. Já o segundo fator, de acordo com a pesquisadora, é que os leitores preferem manchetes definitivas. “Queremos saber se a cloroquina funciona ou não. Se o uso de máscara evita o contágio ou não. Pesquisas únicas não trarão essas respostas. Na maioria das vezes, é preciso que estudos, focados em diferentes elementos de um fenômeno, se somem para que a comunidade chegue a consensos. Isso demanda tempo, reflexão e aprofundamento acadêmico”, completa. Doutoranda em Comunicação na UFRGS, a jornalista Jaqueline Sordi produz conteúdo para a plataforma de divulgação científica Lupa na Ciência, da Agência Lupa – Foto: Jaqueline Sordi/ Arquivo pessoal Cortes na ciência prejudicam divulgação Com o atual cenário de cortes orçamentários para a ciência no Brasil, a divulgação está ainda mais desassistida, segundo a SBPC. “Faltam verbas para fazer a própria pesquisa, não há recursos para a divulgação. Estamos agora lutando no Senado pelo descontingenciamento do FNDCT [Fundo Nacional para Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. As universidades e instituições de pesquisa precisam ter pessoas especializadas na divulgação científica, profissionais capacitados”, afirma Fernanda. No entanto, conforme Sabine, muitas vezes o trabalho de divulgar as pesquisas é feito “quando sobra tempo” por pequenas equipes com diversas outras tarefas dentro das instituições, o que prejudica enormemente a qualidade e a efetividade dessas divulgações. “A Bori nasceu graças ao apoio da Fapesp [Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo], mas na linha de apoio tecnológico, não de apoio à divulgação científica. Faltam recursos para isso no Brasil; não temos para onde submeter os projetos, precisamos de oportunidades. Nos https://www.ufrgs.br/jornal/presidente-da-sociedade-brasileira-para-o-progresso-da-ciencia-critica-ameacas-a-projetos-de-fomento/ Estados Unidos, o EurekAlert! recebe apoio da American Association for the Advancement of Science, a ‘SBPC’ deles”, critica a jornalista. Jornalistas e pesquisadoras Ana Paula Morales, à esquerda, e Sabine Righetti, à direita, criaram a Agência Bori – Foto: Divulgação UFRGS mantém plataforma especializada há quatro anos Criado em 2016, o site UFRGS Ciência divulga semanalmente notícias sobre pesquisas produzidas na Universidade com uma linguagem acessível e didática. Conforme a vice-secretária de Comunicação, Édina Rocha, o veículo já conquistou reconhecimento no meio acadêmico, sendo muito procurado pelos pesquisadores para a divulgação dos estudos, e tem apresentado crescimento entre os jornalistas, que o usam como fonte de informações. “Alguns programas de pós-graduação estão tornando obrigatória uma disciplina que contemple a entrega de um resumo em linguagem acessível antes da defesa de teses e dissertações. Isso mostra claramente o interesse e a necessidade desse espaço, já que a atividade científica é a coluna vertebral da Universidade. Produzimos pesquisa de alta relevância tanto em nível nacional quanto internacional e muitas vezes a própria comunidade universitária desconhece o que fazemos” -Édina Rocha Os textos do UFRGS Ciência são produzidos pela equipe de jornalismo da Secretaria de Comunicação da Universidade, que recebe sugestões de pesquisas por e-mail e busca estudos relevantes em periódicos e repositórios científicos. Entre as pesquisas que tiveram maior número de acessos na plataforma, estão publicações sobre efeitos da Ritalina no cérebro, pensamento computacional, excesso de aminoácidos, transtorno bipolar e cuidados com idosos que sofreram AVC. https://www.eurekalert.org/ https://www.ufrgs.br/ciencia/ mailto:ciencia@ufrgs.br https://www.ufrgs.br/ciencia/pesquisadores-analisam-efeitos-da-ritalina-sobre-o-cerebro-em-desenvolvimento/ https://www.ufrgs.br/ciencia/o-pensamento-computacional-no-ensino-fundamental/ https://www.ufrgs.br/ciencia/o-pensamento-computacional-no-ensino-fundamental/https://www.ufrgs.br/ciencia/mecanismos-e-efeitos-de-doencas-relacionadas-ao-excesso-de-metionina-e-de-homocisteina-sao-temas-de-pesquisas-na-ufrgs/ https://www.ufrgs.br/ciencia/transtorno-bipolar-pode-ser-toxico-para-o-sistema-nervoso/ https://www.ufrgs.br/ciencia/estudo-aborda-os-cuidados-com-o-idoso-apos-o-avc/ https://www.ufrgs.br/ciencia/estudo-aborda-os-cuidados-com-o-idoso-apos-o-avc/ Conheça 25 sites que divulgam pesquisas científicas – A Ciência Explica – Agência Bori – Canal Ciência – Ciência e Cultura – Ciência Fundamental – Ciência Hoje – Ciência na Rua – Com Ciência – Direto da Ciência – Divulgação Científica – UFOB – Fiocruz – Galileu – Jornal Ciência – Jornal da USP – Lupa na Ciência – Mulheres na Ciência – Nexo Acadêmico – Nossa Ciência – Pesquisa Fapesp – Questão de Ciência – Scientific American Brasil – Socientífica – Space Toda – Superinteressante – UFRGS Ciência Confira também no Jornal da Universidade a matéria de Vinícius Alves: Podcasts oferecem possibilidade de circulação da ciência. Fonte: https://www.ufrgs.br/coronavirus/base/divulgacao-cientifica-ganha-mais- relevancia-diante-da-quantidade-de-pesquisas-sobre-o-coronavirus/ http://www.cienciaexplica.com.br/ https://abori.com.br/ http://www.canalciencia.ibict.br/ http://portal.sbpcnet.org.br/publicacoes/ciencia-e-cultura/ https://cienciafundamental.blogfolha.uol.com.br/ http://cienciahoje.org.br/ https://ciencianarua.net/ http://www.comciencia.br/ http://www.diretodaciencia.com/ https://www.ufob.edu.br/pesquisa/divulgacao-cientifica%5D http://portal.fiocruz.br/ https://revistagalileu.globo.com/ https://www.jornalciencia.com/ https://jornal.usp.br/%5D https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2020/04/15/lupa-na-ciencia-google-covid-19/ http://mulheresnaciencia.com.br/ https://www.nexojornal.com.br/academico/ https://nossaciencia.com.br/ https://revistapesquisa.fapesp.br/ https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/ https://sciam.com.br/ https://socientifica.com.br/ https://spacetoday.com.br/ https://super.abril.com.br/ https://www.ufrgs.br/ciencia/ https://www.ufrgs.br/jornal/podcasts-oferecem-possibilidade-de-circulacao-da-ciencia/ https://www.ufrgs.br/jornal/podcasts-oferecem-possibilidade-de-circulacao-da-ciencia/todo foi a seguinte: o quanto as empresas sabiam a respeito dos efeitos do rádio no corpo humano? O que as companhias, naquele momento, poderiam ter feito para proteger os trabalhadores desses efeitos? Há controvérsias sobre isso, já que a própria Marie Curie morreu por conta de uma leucemia, provavelmente em função da exposição a materiais radiativos. Saiba mais Uma investigação mais detalhada sobre o caso das “garotas do rádio” está disponível em: LEAL, K. P.; FORATO, T. C. M. História da radioatividade e natureza da ciência: possibilidades de diálogo. In: SIMPÓSIO NACIONAL DE ENSINO DE FÍSICA, 23., 2019, Salvador. Anais [...]. São Paulo: SBF, 2019. v. 1. p. 1-8. Disponível em: https://shre.ink/24lk. Acesso em: 31 ago. 2023. Também é possível refletir sobre a questão do descompasso entre conhecimento e aplicação – por desinformação ou por descuido – a partir da narrativa da minissérie para a televisão Chernobyl (2019), que narra um desastre em uma usina nuclear na Ucrânia, em 1986. Centenas de milhares de trabalhadores envolveram-se com os trabalhos de descontaminação naquele que é considerado um dos piores acidentes nucleares da história. A minissérie mostra como os soviéticos buscaram esconder do mundo o que havia acontecido, demora que só fez aumentar os prejuízos ecológicos, humanos e materiais. Ainda hoje, a região em torno da usina apresenta elevados índices de radiação, o que impede a permanência de seres humanos no local, e a cidade de Chernobyl foi abandonada. CHERNOBYL. Direção: Johan Renck. Estados Unidos; Reino Unido: HBO, 2019. 330 min. (5 episódios). 15 MÉTODOS DE PESQUISA Há outras formas de categorizar as pesquisas que não apenas separando-as em teóricas e aplicadas. Em geral, elas podem ser caracterizadas em função dos objetivos, das abordagens e dos procedimentos. Vejamos essas divisões com mais detalhes. Quanto aos objetivos Em relação aos seus objetivos, as pesquisas podem ser exploratórias, descritivas ou explicativas. A pesquisa exploratória tem o propósito de ampliar o conhecimento a respeito de determinado objeto ou fenômeno. Em grande parte das vezes, ela é a primeira etapa de uma pesquisa mais complexa, em especial quando o pesquisador não conhece o tema com profundidade. Imaginemos que um banco pretenda informatizar vários dos seus processos, diminuindo a necessidade de os clientes irem à agência física. Parece razoável pensar que a primeira coisa a ser investigada diz respeito aos hábitos dos consumidores em relação aos serviços digitais e às agências físicas. Uma pesquisa exploratória pode revelar quais as atitudes dos correntistas sobre o atendimento presencial, as dificuldades e desconfianças dos clientes em relação a aplicativos digitais, suas necessidades em termos de atendimento e suporte da gerência. O problema-alvo da pesquisa exploratória, depois, pode ser investigado mais detalhadamente em outra fase da pesquisa – e a partir de outros métodos – mas, no primeiro instante, é fundamental que o pesquisador conheça o chão em que está pisando, que ele tenha as informações básicas para planejar uma investigação mais profunda. Este é o sentido da pesquisa exploratória: promover uma primeira aproximação com o objeto de estudo ou com o problema que orienta a investigação, em especial quando o tema é novo ou pouco conhecido. Por exemplo, em função da inexistência de estudos sobre a influência da tecnologia no comportamento do jovem, Nicolaci-da-Costa (2004) entrevistou vinte jovens cariocas, na sua maioria estudantes do Ensino Médio ou Ensino Superior; como resultado, a autora identificou que o uso do celular havia promovido mudanças profundas no comportamento dos entrevistados, que, por conta do uso da telefonia móvel, haviam conseguido ampliar sua autonomia e liberdade, bem como sentiam-se menos solitários. Esta pesquisa caracteriza-se como exploratória, já que o tema (mudanças no comportamento em função do uso de celular) havia sido pouco estudado até então. A pesquisa descritiva tem objetivos distintos dos da pesquisa exploratória: ela não pretende uma primeira aproximação com o tema; ao contrário, ela se propõe a descrever com o máximo de exatidão possível os fatos, os fenômenos ou os objetos. Seu propósito não é levantar informações iniciais, mas elaborar um panorama que apresente a realidade com detalhes. Em geral, faz-se pesquisa descritiva quando se pretende descrever as características de determinado grupo, ou se deseja descobrir a proporção de pessoas que, em um grupo, apresentam comportamentos específicos. Matsuura, Costa e Folegatti (2004), por exemplo, realizaram entrevistas pessoais com quatrocentos consumidores de uma cidade da Bahia com o objetivo de apontar quais os atributos da fruta banana eram percebidos como mais relevantes. A pesquisa descritiva fez uso de métodos estatísticos e, como resultado, identificou que o sabor, a vida útil e a aparência eram os atributos que os entrevistados percebiam como mais importantes. Outra pesquisa descritiva, desta vez na área da Sociologia, foi realizada por Costa Júnior e Silva (2018), que buscaram descobrir os atributos associados 16 Unidade I à qualidade dos candidatos ao poder executivo municipal, por meio de 252 entrevistas com eleitores de duas cidades do Maranhão; como resultado, os autores encontraram que as variáveis associadas a plano de governo, propostas políticas, equipe de governo e condutas éticas dos candidatos eram os atributos mais relevantes no momento de decidir o voto. Diferentemente da pesquisa exploratória e da pesquisa descritiva, a pesquisa explicativa tem o objetivo de identificar fatores determinantes que explicam a ocorrência de fenômenos, sejam eles naturais ou sociais. Ela não quer apenas se aproximar do tema, tampouco limitar-se a descrever a realidade; a pesquisa explicativa quer explicar, quer mostrar a relação de causa e efeito entre variáveis. Se a pesquisa descritiva ocupa-se em descrever o que é, a explicativa busca entender o porquê de os fenômenos ou os fatos acontecerem. Observação As variáveis são características dos elementos de uma amostra ou população. Por exemplo, a idade, o sexo, o grau de instrução, a nacionalidade caracterizam pessoas ou grupos. Em um teste de produto, o grau de satisfação dos consumidores é uma variável. No processo de fabricação de camisetas, o tempo de duração de cada etapa do processo fabril é uma variável. Em uma pesquisa eleitoral, a intenção de voto é uma variável; a rejeição a candidatos é outra. Figura 3 – A variável corresponde a determinada característica de um fenômeno, uma amostra ou uma população. Por exemplo, no processo de fabricação de camisetas, o tempo de duração de cada etapa do processo fabril é uma variável Disponível em: https://shre.ink/24qS. Acesso em: 31 ago. 2023. Com o propósito de determinar as variáveis responsáveis pelo IDH-M dos municípios do Paraná, Scarpin e Slomski (2007) realizaram uma pesquisa explicativa. O IDH-M é o Índice de Desenvolvimento Humano do município, e varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior é o desenvolvimento humano; quanto mais próximo de 0, menor o desenvolvimento humano. O IDH, do qual o IDH-M deriva, foi elaborado para mensurar o desenvolvimento humano de forma mais qualitativa, não usando como parâmetro única e exclusivamente a renda. São três os fatores que participam do índice: a longevidade 17 MÉTODOS DE PESQUISA (média de idade da população), a educação (o número de anos de escolaridade da população) e a renda da população corrigida pelo custo de vida. O estudo mostrou que, dentre 87 variáveis independentes (10 variáveis não contábeis e 77 contábeis), as seguintes explicavam o aumento ou a diminuição do desenvolvimento humano nas cidades: distância do município em relação à capital, altitude geográfica, proporção da população vivendo na área rural, receita tributária, gastos e despesas com pessoal na área administrativa, saúde e saneamento, nível de investimentos egastos com indústria e comércio. Observação Uma variável dependente é aquela que acontece por conta de outra, independente. Simplificando: se tivermos uma relação do tipo “se X, então Y”, X será nossa variável independente e Y a dependente. A variável Y depende da variável X; se X aumentar/diminuir, ou se X ocorrer, então Y aumentará/diminuirá, ou Y ocorrerá. Pense na seguinte relação: renda e consumo. É bem provável que à medida que a renda aumente, o consumo também o faça. Pessoas com mais renda consomem mais, pessoas com menos renda consomem menos. No nosso exemplo, a renda é a variável independente e o consumo é a variável dependente. Outro exemplo de pesquisa explicativa pode ser visto no estudo de Sgroi (2008), no qual a autora pesquisou quais variáveis poderiam explicar o peso ao nascimento; partindo da premissa de que o peso ao nascimento determinava a probabilidade de sobrevivência do nascituro e a ocorrência de doenças na vida adulta, ela estudou os dados de 383 crianças com menos de 11 meses completos, na cidade de São Paulo. Como conclusão, a autora identificou que a probabilidade de a criança nascer com peso médio inferior ao de outras aumentava caso a mãe fosse fumante, tivesse ganho pouco peso durante a gravidez, fosse hipertensa e tivesse comparecido a poucas consultas de acompanhamento pré-natal. Lembrete Nos termos de que falamos anteriormente, o peso da criança ao nascimento é a variável dependente. Número de visitas de pré-natal, tabagismo, ganho de peso durante a gravidez e pressão arterial da mãe são as variáveis independentes. Quanto à abordagem As pesquisas também podem ser categorizadas em função da sua abordagem: há pesquisas qualitativas e pesquisas quantitativas. As pesquisas qualitativas não estão preocupadas em projetar os seus resultados para a população como um todo. Caso uma pesquisa qualitativa mostre que a maior parte da amostra (grupo de pessoas que correspondem à população, em relação a características específicas) prefere o sorvete de morango 18 Unidade I ao de chocolate, nada permite concluir que tal fato também ocorra na população. A preocupação da pesquisa qualitativa não é estatística, e por isso ela não costuma fazer uso de instrumental ou de técnicas estatísticas. A pesquisa qualitativa não está preocupada em mensurar, mas em aprofundar o conhecimento sobre o fenômeno ou o objeto de estudo. Ela trabalha com dados qualitativos, não métricos. De forma contrária, a pesquisa quantitativa tem a preocupação de mensurar, de medir a ocorrência do fenômeno. Seu material são os dados quantitativos, métricos, quantificáveis. Vejamos como um mesmo tema pode ser abordado de duas diferentes formas. A segurança alimentar é um tema que vem recebendo atenção de nutricionistas e outros profissionais da área de saúde, economistas e gestores públicos. De forma resumida, a segurança alimentar diz respeito ao direito da população ao acesso e à qualidade da alimentação. Para investigar o assunto, Sampaio et al. (2006) realizaram entrevistas junto a dois grupos focais, cada um deles com 12 participantes. Diferentes segmentos da população rural estavam representados no grupo (assentados, agricultores, quilombolas etc.) e os participantes foram convidados a refletir sobre o significado de termos relacionados à segurança alimentar, tais como: “qualidade de alimentação”, “alimentação saudável” e “fome”. Os pesquisadores não se preocuparam em quantificar os resultados, mas em compreender quais significados e sentidos os entrevistados atribuíam aos termos pesquisados. Como resultado, os autores identificaram que os participantes entendiam que segurança alimentar estava associada ao trabalho, à saúde, à moradia e à renda; qualidade de alimentação, por sua vez, estava relacionada a alimentos sem agrotóxicos. Como pode ser visto, esta foi uma pesquisa qualitativa. Observação Os grupos focais reúnem pessoas com determinadas características para debater um assunto proposto pelo pesquisador. É um método menos “engessado” do que o uso de questionários, porque as pessoas são livres para comentar o que quiserem. O pesquisador funciona como mediador, buscando conduzir o debate e identificar pontos em comum ou discordâncias latentes. É um método muito utilizado na área de marketing e comunicação e, principalmente, no caso de pesquisas eleitorais. Também tendo a segurança alimentar como objeto de estudo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) executa levantamentos periódicos sobre orçamentos familiares e gastos das famílias com vários itens de alimentação. Esta pesquisa, chamada POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares) foi realizada três vezes: em 2002/2003, 2008/2009 e 2017/2018. Na última edição, os pesquisadores introduziram no estudo a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar, que busca quantificar a percepção dos respondentes em relação ao acesso aos alimentos. Segundo o IBGE (2019a), os resultados “referem-se às aquisições monetárias e não monetárias efetuadas, aos rendimentos e à variação patrimonial das famílias – aspectos básicos para a análise dos orçamentos domésticos –, os quais são apresentados para Brasil e Grandes Regiões, em nível de total”. Apenas para exemplificar, e mostrar os resultados de pesquisas quantitativas, apresentamos um recorte de uma das tabelas de 19 MÉTODOS DE PESQUISA resultados. A escolhida por nós mostra os dados sobre despesas com alimentação no domicílio, em especial no consumo de açúcares e derivados. Essas informações estão segmentadas por classe de rendimento familiar, no Brasil, no período de 2017-2018. Tabela 1 – Despesa monetária e não monetária média mensal familiar, com alimentação, por classes extremas de rendimento total e variação patrimonial mensal familiar, segundo os tipos de despesa, com indicação do número e tamanho médio das famílias – Brasil – período 2017-2018 Tipos de despesa Despesa monetária e não monetária média mensal familiar, com alimentação (R$) Total Classes de rendimento total e variação patrimonial mensal familiar (1) Até 1908 Mais de 1908 a 2862 Mais de 2862 a 5724 Mais de 5724 a 9540 Mais de 9540 a 14310 Mais de 14310 a 23850 Mais de 23850 Açúcares e derivados 19.93 10.07 13.38 19.71 26.66 36.65 40.55 58.63 Açúcar refinado 2.11 1.89 1.93 2.31 2.11 2.30 2.30 2.15 Açúcar cristal 2.84 2.86 3.02 3.20 2.67 2.05 1.80 1.39 Light e diet 0.19 0.06 0.03 0.13 0.18 0.39 0.93 1.78 Outros 14.79 5.26 8.38 14.07 21.69 31.91 35.51 53.30 Fonte: IBGE (2019b). Como pudemos perceber, a pesquisa do IBGE busca quantificar, mensurar o consumo de alimentos. Os dados com os quais ela trabalha são quantitativos. A pesquisa de Sampaio et al. (2006), citada anteriormente, não se preocupou em quantificar, mas sim em identificar valores, sentimentos e atitudes em relação à segurança alimentar; os dados com os quais os pesquisadores trabalharam foram de natureza qualitativa. Assim, um mesmo tema pode ser objeto de abordagens diferentes; o que determina a perspectiva é o objetivo do pesquisador. Figura 4 – A escolha da abordagem, se qualitativa ou quantitativa, depende dos objetivos da pesquisa e do pesquisador Disponível em: https://shre.ink/24qB. Acesso em: 31 ago. 2023. 20 Unidade I Quanto aos procedimentos Outra forma de categorizar as pesquisas diz respeito aos procedimentos adotados para a coleta dos dados e das informações. Segundo esse critério, podemos dividir as pesquisas em dois grandes grupos: • Pesquisas do tipo desk research: são pesquisas de “gabinete”, quer dizer, que não necessitam de contato com pessoas ou situações. Elas são realizadas “na mesa”, a partir de dados já existentes. Gomes, Salvador e Domingos (2010), por exemplo, selecionaram algumas campanhas publicitárias de uma empresa de cosméticos e, analisando o conteúdo das peças, identificaram as estratégias persuasivas utilizadas na comunicação para criar identidade entre o produto e as consumidoras, em especial incluindomulheres que não seguem os padrões de beleza tidos como ideais. Outro exemplo de pesquisa desk research é oferecido por Silva, Kushano e Ávila (2008): após a análise dos dados estatísticos sobre a segmentação da população brasileira por faixa etária, os autores sugeriram a segmentação do mercado de turismo, propondo serviços diferentes para o público infantil, os adolescentes, e o público de terceira idade. Este trabalho foi feito “na mesa”, a partir das informações já coletadas pelo IBGE. Finalmente, outro tipo de pesquisa do tipo desk research é aquele realizado tendo como base documentos históricos: por exemplo, Iacomini Júnior, Cardoso e Prado Júnior (2018) usaram como fonte documental os dois primeiros discursos presidenciais proferidos por Michel Temer (quando da sua posse como interino e após a perda de mandato da presidente Dilma Rousseff). Os pesquisadores analisaram os textos discursivos e mostraram como estes materializaram a disposição do presidente de governar com a ajuda da elite parlamentar. • Pesquisas que envolvem investigação em campo: estas dependem de informações dadas por pessoas. Elas não podem ser realizadas “na mesa”; ao contrário, elas necessitam que o pesquisador entre em contato com pessoas ou grupos com as características desejadas ou envolvidas na situação de interesse. Por exemplo, Silva et al. (2014) estudaram o papel do Agente Comunitário de Saúde (ACS) no município de Cubatão, entrevistando pessoas e observando, no local, as relações entre os agentes e a comunidade. Outra pesquisa realizada em campo pode ser vista em Souza e Loureiro (2014): após as fortes chuvas ocorridas no estado do Rio de Janeiro (entre 2010 e 2013), os autores entrevistaram profissionais que atuaram de forma voluntária junto aos desabrigados, buscando levantar os principais aspectos socioambientais e psicossociais envolvidos nesta atividade. Categorizando pesquisas Como já deu para perceber, podemos caracterizar a pesquisa a partir de diferentes critérios. Portanto, não há nada de errado em classificarmos uma pesquisa como sendo exploratória, qualitativa e do tipo desk research. Quais são as características de uma pesquisa assim? Ela é exploratória, pois pretende conhecer um assunto com o qual o pesquisador não está familiarizado; ela é qualitativa, pois o pesquisador não pretende mensurar fenômenos, mas tão somente investigar razões, sentimentos e motivos associados a determinado fenômeno ou objeto; ela é do tipo desk research, pois não necessita que o pesquisador 21 MÉTODOS DE PESQUISA entre em contato com pessoas ou situações, por meio de entrevistas ou de observação. A pesquisa é exploratória do ponto de vista de seus objetivos; ela é qualitativa em relação à abordagem; ela é do tipo desk research em termos de seus procedimentos. No que se refere aos seus objetivos, à abordagem e aos procedimentos, podemos caracterizar uma pesquisa como descritiva, quantitativa e de campo. Quais são os aspectos de uma pesquisa assim? Ela é descritiva por descrever determinada realidade ou situação; ela é quantitativa por mensurar o fenômeno ou características específicas; ela é de campo por conta de o pesquisador fazer contato com as pessoas ou com a situação que está sob estudo. A seguir, apresentamos um quadro que descreve as principais características das pesquisas em termos de suas categorias. Quadro 1 – Categorização das pesquisas Quanto aos objetivos Pesquisas exploratórias: pretendem uma primeira aproximação com o tema, em geral pouco estudado e conhecido Pesquisas descritivas: preocupam-se em descrever uma situação ou fenômeno, buscando identificar as características de determinado grupo, ou desejam descobrir a proporção de pessoas que, em um grupo, apresentam comportamentos específicos Pesquisas explicativas: buscam explicar os motivos pelos quais os fenômenos ou fatos ocorrem. Em geral, estão preocupadas em identificar relações de causa e efeito Quanto à abordagem Pesquisas qualitativas: não têm a pretensão de quantificar ou mensurar características ou fenômenos. Elas envolvem descobrir razões, motivos e sentimentos associados a determinadas ocorrências, e trabalham com dados qualitativos, não métricos Pesquisas quantitativas: buscam mensurar e quantificar os fenômenos. Elas envolvem mensurar, medir a ocorrência do fenômeno. Seu material são os dados quantitativos, métricos, quantificáveis Quanto aos procedimentos Pesquisas do tipo desk research: são realizadas “na mesa”, a partir de dados já existentes ou de documentos Pesquisas de campo: requerem o contato com pessoas ou situações in loco, e envolvem entrevistas e observações Exemplo de aplicação Para permitir a reflexão a respeito desses diferentes tipos de pesquisa, sugerimos que, tendo a sua área de interesse como foco, você imagine situações em que seja necessário realizar uma: • Pesquisa explicativa, quantitativa e de campo. • Pesquisa descritiva, quantitativa e do tipo desk research. • Pesquisa descritiva, quantitativa e de campo. • Pesquisa exploratória, qualitativa e documental. 22 Unidade I A fim de atingir os objetivos do nosso livro-texto, faremos, a partir de agora, uma reflexão a respeito dos diferentes métodos utilizados nas pesquisas científicas. Apenas para efeito de simplificação, adotamos o critério de dividir esses métodos (e suas respectivas técnicas) em dois grupos: métodos utilizados nas pesquisas qualitativas e métodos utilizados nas pesquisas quantitativas. Em relação a esse critério de categorização, algumas considerações devem ser feitas: • Uma pesquisa quantitativa pode ser realizada após uma qualitativa; na verdade, a pesquisa qualitativa costuma anteceder a quantitativa, especialmente quando o pesquisador não conhece bem o assunto que será estudado; assim, um mesmo projeto de pesquisa pode envolver elementos das duas modalidades. • Há pesquisadores que adotam, como categoria, a pesquisa quali-quanti. Nessa modalidade estariam as pesquisas que fazem uso de técnicas ou processos da pesquisa qualitativa e da pesquisa quantitativa. Neste livro-texto, nossa opção foi pela separação das duas abordagens, buscando identificá-las com as técnicas mais comumente utilizadas. • Em outros livros, a respeito de métodos de pesquisa, poderão ser encontradas outras divisões e outros formatos de categorização. Há inúmeras formas de classificar os métodos empregados nos estudos científicos, sendo que os critérios não dependem apenas do autor, mas da área na qual a investigação está sendo realizada. Aqui, optamos pela divisão em função da abordagem (qualitativa ou quantitativa), considerada por nós ideal para a reflexão a respeito das ocasiões e dos contextos em que estes métodos poderão ser utilizados. 3 EXPLORANDO E DETALHANDO OS MÉTODOS DE PESQUISAS QUALITATIVAS Como vimos, temos várias formas de categorizar e tipificar pesquisas. A partir de agora, iremos explorar e detalhar os métodos mais frequentemente utilizados, bem como as técnicas que os acompanham no caso de pesquisas qualitativas. Lembrete O método diz respeito aos processos de investigação; por sua vez, as técnicas são os instrumentos que materializarão a adoção do procedimento adotado. Em relação às pesquisas qualitativas, abordaremos a análise do discurso, o estudo de caso (e as técnicas de grupos focais, de realização de entrevistas semiestruturadas e de observação), os estudos culturais e etnográficos, a pesquisa-ação e os experimentos. 23 MÉTODOS DE PESQUISA 3.1 A análise do discurso Há muita controvérsia a respeito de a análise do discurso (AD, como costuma ser denominada) configurar uma metodologia ou uma técnica. Os pesquisadores geralmente tipificam a AD em função de suas várias vertentes, e distinguem a análise do discurso da análise de conteúdo. Essas questões extrapolam os limites e objetivos deste nosso livro-texto e, portanto, não avançaremos nessa discussão. Passando ao largo desse conflito, é importante considerarque a AD tem como objeto o discurso, que corresponde ao texto (verbal e não verbal) emitido por um sujeito que se apropria de regras de linguagem e que “fala” a partir de um determinado contexto social e histórico. Quando alguém fala, escreve, canta, desenha ou interpreta, e quando esta fala, esta escrita, esta canção, este desenho ou esta interpretação produzem algum sentido, estamos nos referindo a um discurso. Sentido, aqui, está associado aos significados atrelados à produção textual: quando escrevemos, escrevemos algo que esteja carregado de algum significado. Assim, a AD ocupa-se com o sentido produzido, seja ele intencional ou não. O texto (verbal ou não verbal) deve ser interpretado e seu sentido apreendido para além do que está visível. O que pode não estar visível? Podem não estar claras as intenções do sujeito que emitiu o discurso, as marcas históricas de vida desse sujeito, as marcas sociais dos grupos aos quais o sujeito pertence; o trabalho da AD é justamente o de identificar o que está oculto e que, de certa forma, explica o discurso feito pelo sujeito. Tomemos como exemplo a letra de uma música muito popular na década de 1970. Destaque Eu te amo, meu Brasil As praias do Brasil ensolaradas O chão onde o país se elevou A mão de Deus abençoou Mulher que nasce aqui tem muito mais amor O céu do meu Brasil tem mais estrelas O sol do meu país mais esplendor A mão de Deus abençoou Em terras brasileiras vou plantar amor Eu te amo, meu Brasil, eu te amo Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil Eu te amo, meu Brasil, eu te amo Ninguém segura a juventude do Brasil [...]. Fonte: Farias (1970). 24 Unidade I À primeira vista, a música fala das belezas e das maravilhas do Brasil. Ela faz referência ao céu, às estrelas, ao sol, às bênçãos de Deus e à força da juventude. O refrão, que se repete várias vezes, menciona o profundo amor pelo país. Para qualquer um que leia a letra, trata-se de um hino, de uma homenagem a um país muito querido. Há algo oculto na letra da canção? Vejamos: essa música foi composta na década de 1970 e, praticamente, tornou-se o fundo musical das campanhas e mensagens do governo àquele momento. No entanto, esse governo não havia sido eleito de forma democrática; ele havia se imposto por meio dos arranjos políticos entre a elite industrial, o capital internacional e as forças militares brasileiras. Uma das expressões mais propagandeadas naquele período dizia que, caso alguém não amasse o Brasil, deveria deixá-lo. Assim, o sentimento nacionalista pressupunha o apoio a um regime que governava por meio da perseguição política, da censura e da violência. Os alvos preferenciais da ação do governo eram, justamente, os jovens, insatisfeitos com os rumos da política brasileira e desejosos do retorno à normalidade democrática. Assim, apesar do tom ufanista e nacionalista da música, a leitura das camadas invisíveis do texto nos leva a concluir que, aos olhos dos dias de hoje, ela simboliza, com perfeição, um período triste da história brasileira, quando a crítica e a discordância em relação ao governo eram confundidas com atitudes antigovernistas e de desamor ao país. Figura 5 – Há o discurso e há os sentidos visíveis e invisíveis do discurso Disponível em: https://shre.ink/24Wz. Acesso em: 31 ago. 2023. A descoberta dos sentidos produzidos por um discurso é feita pela AD, e esta é uma modalidade de pesquisa muito utilizada nos casos de estudos qualitativos; aliás, trata-se de uma pesquisa que se adequa perfeitamente às necessidades e características da pesquisa qualitativa, já que seu foco é o de identificar motivos, razões e sentimentos por trás dos fenômenos, sem preocupar-se com a quantificação e a mensuração. 25 MÉTODOS DE PESQUISA Oliveira e Facundes (2018), por exemplo, selecionaram charges sobre política, com os respectivos comentários publicados em uma página de rede social que tinha, àquele momento, mais de 3 milhões de seguidores. Partindo do pressuposto de que as charges eram produzidas em função de determinadas condições históricas e sociais, os autores buscaram identificar quais sentidos eram gerados pelo discurso do chargista, sentidos esses que podiam ser apreendidos tanto na análise do discurso da charge propriamente dita quanto nos comentários dos usuários em relação ao conteúdo. Gonçalves (2013) realizou a análise do discurso científico de três diferentes revistas: Scientific American Brasil, a Pesquisa Fapesp e a Superinteressante. Assumindo que os discursos das revistas poderiam evidenciar distintos modos de produção, a autora revelou que a Scientific American Brasil buscava apoiar-se em fontes e mostrar-se próxima à ciência; a Pesquisa Fapesp, por sua vez, adotando um tom jornalístico, buscava mostrar o trabalho e a opinião de cientistas brasileiros; por fim, a Superinteressante era o veículo com menor compromisso com o linguajar científico, sendo comum a adoção de gírias e analogias de fácil compreensão. 3.2 Os estudos de caso Os estudos de caso são uma modalidade de pesquisa qualitativa muito utilizada nas áreas de administração, contábeis e economia. Também é frequente o seu uso no campo da psicologia e da pedagogia, bem como em marketing, comunicação e gestão de RH. Eles têm a proposta de investigar, a fundo, um assunto, fenômeno, fato ou comportamento específico. Buscam-se as principais, e únicas, características do objeto, supondo-se que ele seja representativo; assim, o alvo dos estudos de caso é uma unidade individual, seja ela uma empresa, uma área da empresa ou um grupo muito específico de pessoas. Segundo Yin (2001, p. 19), os estudos de caso representam a estratégia preferida quando se colocam questões do tipo “como” e “por que”, quando o pesquisador tem pouco controle sobre os eventos e quando o foco se encontra em fenômenos contemporâneos inseridos em algum contexto de vida real. Assim, um estudo de caso pode envolver o uso de vários instrumentos simultaneamente, somando métodos de campo e de desk research; em outras palavras, ele tanto pode incluir a coleta de dados estatísticos quanto incluir entrevistas com poucas pessoas ou a observação do ambiente. Como seu propósito é investigar profundamente uma situação específica, ele fará uso das técnicas necessárias para levantar as informações desejadas. A sua investigação costuma ser detalhada e exaustiva, quer dizer, explora-se a fundo a análise dos casos, que devem ser selecionados de forma bastante rigorosa. Souza, Machado e Noronha (2015) realizaram um estudo de caso no qual foram analisadas as Unidades de Saúde da Família em um município de médio porte do Rio de Janeiro. Por meio de análise de documentos, de observação durante as visitas às unidades e de entrevistas com os gestores e outros profissionais, os autores buscaram identificar as condições de atendimento aos munícipes e as formas 26 Unidade I como estavam articulados os vários serviços de saúde da cidade. Como resultado, eles perceberam que, apesar da ampliação do atendimento e do acesso aos serviços de saúde, inúmeros obstáculos persistiam, tais como: falta de adequação da infraestrutura das unidades e de clareza quanto ao papel e às funções das clínicas instaladas recentemente. Quais critérios foram utilizados por Souza, Machado e Noronha (2015, p. 168) para que as unidades de saúde do município de Três Rios fossem escolhidas? Segundo os autores, o município foi escolhido em função dos seguintes critérios: ser de médio porte populacional e ter relevância regional; ter uma abrangência populacional da Estratégia Saúde da Família superior a 70%; contar com diferentes tipos de serviços de saúde (atenção básica, serviços especializados e hospitalares, públicos e privados). Em outras palavras, o município tinha as características que, na opinião dos pesquisadores, eram as ideais para investigar os aspectos necessários. Como selecionamos um caso para estudo? Ele deve, a princípio, conter as características principais que supomoscorresponder ao conjunto do qual ele faz parte. Imagine a seguinte situação: você pretende descobrir como se dá o processo de transição de uma empresa familiar para uma estrutura organizacional não familiar. Qual instituição escolherá como objeto do seu estudo? Ela deverá ser grande ou pequena? Ela precisará ser líder de mercado ou bastará que tenha apenas uma porcentagem dele? Ela necessitará ter contratado uma consultoria para acompanhar o processo de transição ou poderá ter realizado o processo sem ajuda de terceiros? As respostas a essas perguntas devem ser de conhecimento do pesquisador, já que elas indicarão quais empresas serão investigadas com profundidade. Os estudos de caso costumam ser criticados justamente por conta daquilo que é sua principal característica: como eles estudam um ou poucos casos, é difícil estabelecer generalizações a partir de seus resultados. Por mais que o objeto tenha as características do conjunto ao qual pertence, a situação é única e, por isso, seus resultados são únicos. Em função disso, os estudos de caso são amplamente utilizados nos eventos de pesquisas exploratórias e, algumas vezes, nas situações de pesquisas descritivas; em relação à utilização do estudo de caso para investigações explicativas, há que se tomar cuidado com a reduzida possibilidade de projeção dos dados levantados para o conjunto de casos do universo estudado. Segundo Yin (2001, p. 81), o pesquisador envolvido em estudos de caso deve mostrar determinadas habilidades e competências bem específicas: • Deve ser capaz de fazer boas perguntas – e interpretar as respostas. • Deve ser um bom ouvinte e não ser enganado por suas próprias ideologias e preconceitos. 27 MÉTODOS DE PESQUISA • Deve ser adaptável e flexível, de forma que as situações recentemente encontradas possam ser vistas como oportunidades, e não como ameaças. • Deve ter uma noção clara das questões que estão sendo estudadas, mesmo que seja uma orientação teórica ou política, ou que seja de modo exploratório. Essa noção tem como foco os eventos e as informações relevantes, que devem ser buscados em proporções administráveis. • Deve ser imparcial em relação a noções preconcebidas, incluindo aquelas que se originam de uma teoria. Assim, deve ser sensível e estar atento a provas contraditórias. São diversas as técnicas empregadas em estudos de caso. As mais utilizadas são a realização de grupos focais, de entrevistas semiestruturadas e de observação. Os grupos focais, dos quais já falamos anteriormente quando da apresentação do trabalho de Sampaio et al. (2006), constituem uma técnica de pesquisa que permite identificar opiniões convergentes e divergentes em um grupo de pessoas com as características desejadas. Em geral, reúnem por volta de dez pessoas em uma sala preparada para a atividade, e a discussão é coordenada por um moderador, cuja função é apresentar tópicos para o debate e conduzir a conversa de forma a permitir a participação de todos e a identificar pontos de conflito ou de concordância. Os participantes costumam ser recrutados em razão de características como idade, sexo, classe social, histórico de compras e hábitos de consumo. Para que não haja a formação de “grupinhos”, e para que tampouco alguns monopolizem o debate, procura-se escolher pessoas que não se conheçam previamente. Figura 6 – Os grupos focais são realizados a partir da seleção de um grupo de indivíduos com as características desejadas. O objetivo do pesquisador, nesses casos, é o de identificar pontos de consenso e de conflito entre os participantes Disponível em: https://shre.ink/24Wo. Acesso em: 31 ago. 2023. 28 Unidade I Observação As agências de propaganda e marketing que realizam grupos focais costumam utilizar salas com espelhos falsos. Assim, as pessoas que estão debatendo na sala não veem os pesquisadores em outra sala, assistindo, gravando e filmando o que está acontecendo. Segundo os preceitos éticos de pesquisa, os participantes devem ser informados de que estão sendo observados e que suas reações e falas estão sendo registradas. Francisco et al. (2009) realizaram três grupos focais, cada um com dez adolescentes matriculados em três escolas públicas na cidade de Araçatuba, no estado de São Paulo. Os pesquisadores partiram da premissa de que havia pouco estudo sobre o conhecimento dos adolescentes acerca de saúde bucal; inclusive, tal lacuna prejudicava estudos quantitativos, já que não se conhecia a adequação da terminologia ao vocabulário dos jovens. Tratou-se, portanto, de uma pesquisa exploratória, de abordagem qualitativa. Outro exemplo do uso desse método em pesquisas qualitativas é oferecido por Reinaldo et al. (2016), que realizaram seis grupos focais (cada um com seis professores) com o objetivo de compreender as opiniões e os sentimentos dos docentes em relação ao uso de smartphones pelos alunos em sala de aula. Os pesquisadores perceberam contradições, receios e ambiguidades nas respostas dos professores, que expressaram preocupação quanto ao fato de os objetos serem percebidos como “salvadores” do ensino, sem que seu uso seja realizado de forma a se adequar às práticas e propostas pedagógicas. Ainda, os participantes manifestaram-se quanto à importância da informática e das TICs como instrumentos a serem utilizados no processo de ensino-aprendizagem, em particular quando forem parte de um projeto educativo global. Observação TIC é a abreviação de Tecnologia de Informação e Comunicação e se refere a qualquer tecnologia que seja usada para tratamento da informação ou para comunicação, independentemente de ser na forma de hardware ou software. Além de grupos focais, os estudos de caso podem envolver a realização de entrevistas semiestruturadas. Ao contrário das entrevistas estruturadas, que são rígidas e conduzidas por questionários, as semiestruturadas utilizam roteiros que reúnem temas a partir dos quais o entrevistado será estimulado a falar de forma livre. Assim, em vez de responder a perguntas diretas que envolvam respostas sob a forma de alternativas padronizadas, ou que exijam objetividade e concisão, o entrevistado será conduzido a dissertar sobre um tema ou assunto relacionado ao interesse do pesquisador. As opiniões do entrevistado, inclusive, podem fazer com que o pesquisador adicione algo ou retire algum tópico do roteiro, de forma a aproveitar a entrevista o máximo possível. 29 MÉTODOS DE PESQUISA Essa modalidade é muito adequada às situações de pesquisas exploratórias, já que permite que o pesquisador investigue o seu objeto de estudo com mais liberdade. Como a elaboração de um questionário requer um conhecimento bastante sólido para que as perguntas sejam formuladas (mesmo no caso de perguntas “abertas”, que não têm respostas padronizadas, mas exigem objetividade), o roteiro pode ser utilizado por meio da sugestão de debate sobre elementos nos quais o pesquisador está interessado. Esse foi o caso, por exemplo, de Calixto (2008), que investigou a percepção de oito diretores de escola de Ensino Fundamental de Marília (SP) a respeito do Programa Progestão de formação continuada. Este programa, de responsabilidade da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, tem como um de seus objetivos realizar cursos de formação para gestores escolares, capacitando-os para o exercício de uma liderança comprometida com propostas de gestão democrática. O tema havia sido pouco investigado até então, dado o fato de o programa ter pouco tempo de vida. Assim, para que os diretores pudessem verbalizar suas opiniões com liberdade, a pesquisadora achou por bem realizar entrevistas semiestruturadas. Este também foi o caso de Sales e Dimenstein (2009), que realizaram entrevistas semiestruturadas com dez psicólogos que atuavam na saúde pública em Natal (RN). Em sua maioria formados pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), estes profissionais foram questionados sobre a relação entre a formação acadêmica no curso de graduaçãoe as atividades profissionais desenvolvidas no ambiente de trabalho. O estudo identificou fragilidades na formação dos profissionais, que atuavam em um cotidiano para o qual não haviam sido preparados. Da mesma forma que ocorreu no exemplo anterior, tratou-se de uma pesquisa qualitativa exploratória. A observação é outra técnica utilizada em estudos qualitativos, e ela permite observar como os fenômenos ocorrem no seu ambiente natural. Vejamos um exemplo: caso um pesquisador tenha interesse em compreender o comportamento de consumidores diante da gôndola de determinado produto, ele pode realizar uma abordagem direta, perguntando aos consumidores o que procuram, o que levam em consideração no momento de decidir a compra, o que buscam evitar etc. No entanto, essas respostas podem estar contaminadas por erros: os consumidores podem oferecer como resposta aquilo que consideram um comportamento desejável, omitindo informações ou escondendo suas reais intenções ou motivações. Uma forma de se averiguar o comportamento tal como ele ocorre é a pesquisa de observação: no nosso exemplo, bastaria que alguém ficasse próximo à gôndola, observando os consumidores e anotando os aspectos considerados relevantes. Figura 7 – As pesquisas de observação são bastante comuns nas áreas de comunicação e marketing, especialmente nos pontos de venda Disponível em: https://shre.ink/24WI. Acesso em: 31 ago. 2023. 30 Unidade I Você deve estar se perguntando: é possível que o consumidor altere o seu comportamento em função de saber que está sendo observado? Sim, ele pode comportar-se de certa forma por conta de se saber observado, e é por isso que o pesquisador deve procurar se incorporar ao ambiente da forma mais natural e discreta. Enquanto técnica utilizada para pesquisas qualitativas, a observação apresenta inúmeras vantagens: ela permite que determinada situação ou fenômeno seja investigado de forma exploratória, levantando-se informações que possibilitam a coleta de dados em situações em que a comunicação não pode ser realizada facilmente, e permite que o pesquisador descubra aspectos até então desconhecidos a respeito do seu objeto de estudo. Em contrapartida, ela tem como desvantagem a subjetividade na qual pode incorrer o observador, levando-o a cometer erros na coleta de dados, ou a apropriar-se de maneira parcial da realidade que está colocada à sua frente. Há vários tipos de técnicas de observação possíveis de serem utilizadas: a observação pode ser espontânea e informal, ou pode ser planejada e sistemática. O observador pode listar, com minúcias, o comportamento ou os fatos que pretende verificar, ou pode agir de modo a ter liberdade na seleção dos elementos a serem considerados. Em relação à observação, é importante considerar que um determinado fenômeno, fato ou comportamento pode ser observado por um único ou por vários pesquisadores. A presença de vários pesquisadores torna a pesquisa mais evidente, o que pode introduzir mais “ruídos” no comportamento que se quer observar; no entanto, garante maior imparcialidade na coleta de dados, já que esta não depende única e exclusivamente de uma só pessoa. Embora pareça simples de ser realizada, a pesquisa de observação depende de uma série de decisões e escolhas do pesquisador: • Qual fenômeno (fato ou comportamento) será observado? • Quais devem ser os elementos que caracterizarão o fenômeno de interesse? O que precisa acontecer para que entendamos ter ocorrido o fenômeno que nos interessa? • Por quanto tempo devemos realizar a observação? • O observador deve ficar visível ou evitar que sua presença seja notada? • Como deverão ser anotados os elementos observados? • Quantos pesquisadores participarão da observação? A pesquisa de observação pode trazer inúmeras informações aos pesquisadores que não poderiam ter sido coletadas de outra forma. Quase sempre esta pesquisa é realizada de forma associada a outras técnicas, em especial à análise de documentos (ou dados secundários) e à realização de entrevistas semiestruturadas. 31 MÉTODOS DE PESQUISA A observação pode ocorrer em duas situações distintas: no ambiente natural, sem que haja qualquer controle, e no ambiente controlado. Vamos supor que queiramos entender como pessoas se comportam em filas de atendimento no supermercado: é possível observar, de fato, uma fila no supermercado, ou podemos criar uma situação artificial na qual exista uma fila que permita observarmos o comportamento dos indivíduos. Vejamos outro exemplo: caso queiramos estudar o efeito do ruído na produtividade de uma fábrica, podemos fazê-lo de duas diferentes formas: observando o comportamento dos trabalhadores em uma fábrica quando da ocorrência de um barulho intenso, ou convidando colaboradores para que executem determinada tarefa em um ambiente com muito ruído. Nos dois exemplos, a primeira situação é de observação natural, e a segunda é uma situação de laboratório, forjada para que certos aspectos sejam analisados. O observador também pode escolher entre duas diferentes maneiras de se relacionar com o ambiente observado: ele pode manter-se à distância, buscando não se envolver com o fenômeno a ser observado (como no caso que citamos sobre o comportamento do consumidor no supermercado), ou ele pode participar (em diferentes graus de intensidade) com a situação objeto de estudo. O participante total é aquele que se propõe a participar em todas as atividades do grupo em estudo, atuando como se fosse um de seus membros; a identidade e os propósitos do pesquisador são desconhecidos pelos sujeitos observados. Na modalidade de participante como observador, o pesquisador estabelece com o grupo uma relação que se limita ao trabalho de campo; a participação ocorre da forma mais profunda possível através da observação informal das rotinas cotidianas e da vivência de situações consideradas importantes (Lima; Almeida; Lima, 1999, p. 132). No caso em que o observador mistura-se ao ambiente, envolvendo-se, de alguma forma, com o fenômeno investigado, dizemos que a observação é participante. Loureiro et al. (2018), por exemplo, investigaram o compartilhamento de conhecimento em uma empresa inovadora do setor sucroenergético. Por meio do uso dessas técnicas, os pesquisadores identificaram a inexistência de uma política organizacional que orientasse os funcionários quanto à proteção da informação, o que fragilizava um dos aspectos vistos como críticos no ambiente competitivo empresarial, qual seja, o tratamento do ativo conhecimento. Com relação à observação participante, ela tornou possível que os pesquisadores entendessem a dinâmica e o cotidiano organizacional da instituição. 3.3 Os estudos culturais e etnográficos Há uma modalidade de pesquisa participante que, pelas suas características, destaca-se no conjunto de estudos realizados por meio de observação. Segundo Lima, Almeida e Lima (1999), a observação participante torna possível um contato mais direto do pesquisador com o seu objeto de estudo, o que lhe permite conhecer as experiências cotidianas dos sujeitos da pesquisa, sua realidade e suas ações. Assim, ela pode ser especialmente indicada para as situações em que as pessoas estão desenvolvendo suas atividades no ambiente natural, e nas ocasiões em que o foco se dá na investigação da realidade por meio de uma perspectiva cultural. Tais situações exigem uma abordagem específica, qual seja, a de compreender o ambiente a partir da investigação cultural. 32 Unidade I Figura 8 – Na pesquisa etnográfica, o pesquisador deve visitar os domicílios, acompanhar a rotina do grupo que está sendo estudado e observar o comportamento, os rituais e as tradições da comunidade Disponível em: https://shre.ink/24dH. Acesso em: 31 ago. 2023. Bernardi (1974) apud Lima et al. (1996, p. 23) afirma que, em relação à cultura, há quatro elementos essenciais: o anthropos, ou seja, o homem na sua realidade individual e pessoal; o ethnos, comunidade ou povo entendido como