Prévia do material em texto
<p>RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO</p><p>Sempre haverá uma relação de consumo quando presentes as figuras do</p><p>consumidor, fornecedor e produto/serviço.</p><p>Consumidor e fornecedor são os elementos subjetivos da relação, enquanto o</p><p>produto/serviço é o elemento objetivo.</p><p>Relações empresariais ou civis não são abrangidas pelo CDC.</p><p>1. Sujeitos da relação de consumo</p><p>1.1. Consumidor</p><p>O CDC entende como consumidor toda pessoa física ou jurídica que adquire ou</p><p>utiliza produto ou serviço como destinatário final. Não se considera consumidor</p><p>aquele que utiliza o bem ou serviço para incorporá-lo em uma etapa da cadeia</p><p>de produção.</p><p>Contudo, o CDC traz três hipóteses em que vai ter a equiparação da figura do</p><p>consumidor. São eles:</p><p>a) A coletividade de pessoas que haja intervindo nas relações de consumo;</p><p>b) As vítimas do evento (acidente de consumo);</p><p>c) Pessoas determináveis ou não, expostas às práticas de publicidade abusiva</p><p>(consumidor potencial ou virtual).</p><p>Essa equiparação é para viabilizar a tutela coletiva dos interesses dos</p><p>consumidores.</p><p>Atualmente existem três teorias que visam explicar o significado da expressão</p><p>destinatário final. Vejamos:</p><p>a) Teoria maximalista ou objetiva: destinatário final é aquele consumidor que</p><p>retira o produto do mercado de consumo, pouco importando a destinação do</p><p>produto;</p><p>b) Teoria finalista ou subjetiva: somente se considera destinatário final aquele</p><p>que adquire produto/serviço para uma finalidade própria, pessoal ou familiar.</p><p>c) Teoria finalista aprofundada ou mitigada: aplicada em alguns casos pelo STJ,</p><p>reconhece a incidência do CDC para o consumidor intermediário (aquele que</p><p>utiliza o produto para atividade econômica) quando entende estar presente a</p><p>vulnerabilidade (ex: disparidade econômica e técnica). Nesse caso a pessoa,</p><p>jurídica ou física, deverá comprovar a situação concreta de vulnerabilidade.</p><p>1.2. Fornecedor</p><p>Já o fornecedor é entendido como toda pessoa física ou jurídica, pública ou</p><p>privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que</p><p>desenvolvem atividades de produção, montagem, criação, construção,</p><p>transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de</p><p>produtos ou prestação de serviços.</p><p>O próprio Estado, assim como o ente despersonalizado (massa falida, espólio,</p><p>sociedade de fato etc) poderá ser considerado como fornecedor, desde que</p><p>desenvolva atividade de consumo.</p><p>De acordo com a doutrina existem 4 espécies de fornecedor, sendo elas:</p><p>a) Fornecedor real: aquele que, efetivamente, participa do processo de fabricação</p><p>ou produção do produto, de um dos seus componentes ou de sua matéria-</p><p>prima;</p><p>b) Fornecedor presumido: não participa diretamente do processo de fabricação</p><p>ou produção do produto, mas atua como intermediário entre o fornecedor real</p><p>e o consumidor;</p><p>c) Fornecedor equiparado: são entidades que, embora não se encontrem</p><p>diretamente na conceituação prevista pelo art. 3º, do CDC, podem ser</p><p>enquadradas como fornecedor em razão da natureza da atividade que</p><p>desenvolvem. Ex: banco de dados e os cadastros de consumidores, o</p><p>anunciante, a agência publicitária e o veículo em relação às atividades</p><p>publicitárias;</p><p>d) Fornecedor aparente: é aquele que, embora não tendo participado do processo</p><p>de fabricação, apresenta-se como fornecedor pela colocação de seu nome, marca</p><p>ou outro sinal de identificação no produto que foi fabricado por um terceiro. Ele</p><p>não participou da fabricação, porém associou seu nome a essa marca.</p><p>Os profissionais liberais são considerados fornecedores de serviços, porém a</p><p>apuração da responsabilidade é feita mediante prova da culpa.</p><p>Não há relação de consumo nos serviços prestados por advogados. O STJ diz</p><p>que não tem essa relação, por estar vinculado a norma específica (EAOAB), bem</p><p>como pela atividade não ser fornecida no mercado de consumo, assim como</p><p>pelas prerrogativas e obrigações impostas aos advogados serem incompatíveis</p><p>com a atividade de consumo.</p><p>2. Objeto da relação de consumo</p><p>Produto será qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.</p><p>Serviço será qualquer atividade fornecida no mercado de consumo, mediante</p><p>remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de crédito e</p><p>securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.</p><p>Veja-se, pois, que é requisito da configuração do objeto da relação de consumo</p><p>a REMUNERAÇÃO. Importante, observar, no entanto, que na atualidade a</p><p>remuneração por serviços prestados não é sempre direta, mas por vezes pode</p><p>se apresentar de forma INDIRETA. Também nesses casos deverá incidir o regime</p><p>do CDC, caso configurada a relação jurídica de consumo.</p><p>RESPONSABILIDADE CIVIL NO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR</p><p>A responsabilidade civil pode ser classificada em responsabilidade objetiva ou</p><p>subjetiva.</p><p>A regra da responsabilidade civil na relação civil é a subjetiva, já que exige a</p><p>demonstração de culpa na conduta do causador do dano.</p><p>Contudo, em algumas relações jurídicas específicas foi percebido que a vítima</p><p>tem grandes dificuldades para provar a culpa do causador do dano, razão pela</p><p>qual passou a se admitir a presunção da culpa (responsabilidade objetiva).</p><p>No Código de Defesa do Consumidor a regra é a responsabilidade objetiva, de</p><p>maneira que o consumidor não precisa comprovar a culpa daquele que causou</p><p>o dano (art. 14).</p><p>Adota-se, portanto, a teoria do risco da atividade a qual diz que o fornecedor, ao</p><p>exercer uma atividade no mercado de consumo, aceita os riscos dessa atividade.</p><p>Excepcionalmente, a responsabilidade será subjetiva, sendo esta a utilizada nos</p><p>casos de profissionais liberais.</p><p>Outro detalhe importante é que todos os que participarem da cadeira de</p><p>consumo como fornecedores ou prestadores de serviços/produtos serão</p><p>solidariamente responsabilizados.</p><p>Isso tudo porque a prevenção efetiva a reparação dos danos aos consumidores</p><p>são direitos básicos assegurados pelo CDC.</p><p>1. Vício e fato do produto</p><p>A responsabilidade do fornecedor decorre da quebra do dever de qualidade.</p><p>Desta forma, a teoria da qualidade serve para identificar qual o regime de</p><p>responsabilidade civil se valerá o consumidor, para exigir a reparação do dano</p><p>e está assentada na ideia de que o fornecedor somente pode colocar no mercado</p><p>de consumo bens de consumo que tenham qualidade, que se biparte em</p><p>qualidade-adequação e qualidade-segurança.</p><p>Qualidade-segurança: os produtos não podem oferecer riscos à saúde, à</p><p>integridade física e psíquica do consumidor. Impõe ao fornecedor o dever de</p><p>somente colocar no mercado de consumo produtos que sejam seguros.</p><p>Qualidade-adequação: só pode ser colocado no mercado de consumo produtos</p><p>que sejam adequados ao fim a que se destinam. Adequação desempenho (deve</p><p>desempenhar as funções a que se destina) e adequação durabilidade (a</p><p>durabilidade deve corresponder ao esperado).</p><p>Ademais, para se identificar o vício, também deve ser observada a teoria da</p><p>quantidade, pois haverá vício sempre que houver disparidade entre aquilo que</p><p>é oferecido e informado ao consumidor e aquilo que é efetivamente entregue.</p><p>1.1. Vício</p><p>Entende-se por vício a inadequação (no desempenho ou durabilidade) do</p><p>produto ou serviço ao fim a que se destina, decorrente do descumprimento do</p><p>dever de qualidade-adequação (vício de qualidade), ou ainda, a diferença</p><p>quantitativa entre o que é informado ao consumidor e o que é efetivamente</p><p>fornecido (vício de quantidade).</p><p>Os produtos ou serviços não vão corresponder as expectativas geradas pelo</p><p>consumidor.</p><p>O prejuízo é intrínseco, pois apenas o bem está em desconformidade com o fim</p><p>a que se destina. Ex: o produto não liga.</p><p>Aqui garante-se a incolumidade econômica do consumidor.</p><p>O produto tem um vício que o torna inadequado.</p><p>A responsabilidade do comerciante é solidária.</p><p>1.2. Defeito/fato</p><p>Entende-se por defeito/fato a falha de segurança (descumprimento do dever</p><p>qualidade-segurança) que insere no produto ou serviço uma potencialidade</p><p>danosa por ele normalmente não possuída, e, assim inesperada pelo</p><p>consumidor.</p><p>A utilização de um produto ou serviço defeituoso pode gerar acidentes de</p><p>consumo.</p><p>O prejuízo é extrínseco, pois não há uma limitação da inadequação do produto</p><p>em si, mas uma inadequação que gera danos além do produto. Ex: curto-</p><p>circuito que faz o aparelho pegar fogo.</p><p>Portanto, protege-se a saúde e segurança do consumidor.</p><p>O produto tem um defeito, que se considera um vício acrescido de um problema</p><p>extra.</p><p>Quando há defeito no produto, a responsabilidade do comerciante é subsidiária.</p><p>Quando há defeito no serviço, o comerciante é responsável solidariamente.</p><p>1.3. Responsabilidade civil pelo fato do produto/serviço</p><p>Caso não sejam exageradamente perigosos, os produtos que trazem riscos à</p><p>segurança do consumidor podem ser comercializados. Contudo, nestes casos é</p><p>exigido do fornecedor que informação seja adequada e ostensiva para afastar o</p><p>risco no momento do uso.</p><p>Um produto não será considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor</p><p>qualidade ter sido colocado no mercado, assim como o serviço não será</p><p>considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.</p><p>O prazo prescricional será de cinco anos para a reparação dos danos morais e</p><p>materiais.</p><p>Em caso de acidente de consumo por fato do produto, a responsabilidade</p><p>principal é do construtor, produtor, importador e fabricante, podendo o</p><p>comerciante também ser responsabilidade.</p><p>Quando o fabricante, construtor, produtor ou importador não puder ser</p><p>identificado, a responsabilidade será do comerciante.</p><p>Quando o produto for fornecido sem identificação clara de seu fabricante,</p><p>construtor, produtor ou importador, a responsabilidade será do comerciante.</p><p>Quando o produto perecível não for conservado adequadamente, a</p><p>responsabilidade será do comerciante.</p><p>Se o comerciante for condenado, ele poderá exercer o direito de regresso contra</p><p>o produtor real.</p><p>Será excluída a responsabilidade caso o fornecedor comprovar que não colocou</p><p>o produto no mercado; que o defeito não existe; culpa exclusiva do consumidor</p><p>ou de terceiro.</p><p>Culpa concorrente não exclui a responsabilidade, porém pode a minorar de</p><p>acordo com precedentes do STJ.</p><p>Quando há fortuito interno (antes da introdução do produto no mercado de</p><p>consumo), não haverá a exclusão da responsabilidade do fornecedor.</p><p>Quando há fortuito externo, restará afastada a responsabilidade do fornecedor.</p><p>1.4. Responsabilidade civil por vício do produto/serviço,</p><p>Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de qualidade e</p><p>quantidade.</p><p>Quando há um vício do produto, o consumidor poderá substituir o produto;</p><p>requerer a restituição do valor pago; requerer o abatimento do preço pago. Além</p><p>disso, o consumidor pode pleitear indenização por perdas e danos.</p><p>O prazo decadencial para reclamar dos vícios é de 30 dias para produtos não</p><p>duráveis e 90 dias para produtos duráveis. Essa regra é para vícios aparentes</p><p>ou vícios de constatação. No vício oculto o prazo decadencial tem início com a</p><p>descoberta do vício.</p><p>O fornecedor possui o prazo de 30 dias para sanar o vício. Esse prazo pode ser</p><p>reduzido para o máximo de 7 dias ou ampliado por até 180 dias. Em contratos</p><p>de adesão essa cláusula deve ser convencionada em separado.</p><p>2. Responsabilidade do profissional liberal</p><p>A relação jurídica criada com o profissional liberal é baseada na confiança, que</p><p>faz com que o sistema consumerista opte pela responsabilidade subjetiva.</p><p>Quando se tratar de obrigação de meio, ou seja, aquela em que o fornecedor se</p><p>compromete a empregar todos os esforços necessários e possíveis para a entrega</p><p>do resultado, mas não se garante o resultado, o consumidor deve provar a culpa</p><p>do fornecedor.</p><p>Quando for obrigação de resultado, ou seja, em que o fornecedor garante</p><p>entregar resultado específico, o consumidor não precisará provar a culpa do</p><p>fornecedor.</p><p>PRINCÍPIOS DO CDC</p><p>1. Vulnerabilidade do consumidor</p><p>O CDC visa estabelecer um padrão de equilíbrio na relação desigual existente</p><p>entre fornecedor e consumidor.</p><p>Para tanto, o consumidor é visto como hipossuficiente e vulnerável.</p><p>A hipossuficiência é em relação ao direito processual, devendo ser verificada</p><p>pelo magistrado diante das circunstâncias do caso concreto.</p><p>Já a vulnerabilidade é relativa ao direito material e sua presunção em relação</p><p>ao consumidor é absoluta, de forma que independe da condição econômica ou</p><p>de qualquer outro contexto.</p><p>De acordo com a doutrina existem três tipos de vulnerabilidade:</p><p>a) Vulnerabilidade técnica: é o desconhecimento, por parte do consumidor, das</p><p>características do produto/serviço. Essa vulnerabilidade decorre da não</p><p>participação do consumidor do processo de produção, distribuição ou</p><p>comercialização do bem.</p><p>b) Vulnerabilidade jurídica: é o desconhecimento, por parte do consumidor, dos</p><p>direitos e deveres da relação jurídica de consumo.</p><p>c) Vulnerabilidade econômica ou fática: o consumidor é frágil diante do</p><p>fornecedor, seja em razão do forte poder econômico do fornecedor, seja em razão</p><p>do fornecedor deter o monopólio fático ou jurídico da relação, ou seja, em razão</p><p>de esse fornecedor desenvolver uma atividade considerada essencial.</p><p>2. Transparência</p><p>O princípio da transparência enseja o afastamento de cláusulas dúbias e</p><p>contraditórias, além de impor, direta ou indiretamente, uma interpretação mais</p><p>favorável ao consumidor. Ex: art. 47 que diz que as cláusulas contratuais serão</p><p>interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor.</p><p>Súmula 550-STJ: A utilização de escore de crédito, método estatístico de</p><p>avaliação de risco que não constitui banco de dados, dispensa o consentimento</p><p>do consumidor, que terá o direito de solicitar esclarecimentos sobre as</p><p>informações pessoais valoradas e as fontes dos dados considerados no</p><p>respectivo cálculo.</p><p>3. Informação</p><p>Ele se divide em:</p><p>a) Direito de ser informado;</p><p>b) Dever de informar.</p><p>Assim, na perspectiva do fornecedor de produtos ou serviços, deve ele sempre</p><p>prestar informação correta, clara e precisa, e de maneira mais acessível, aos</p><p>consumidores. Isso porque, informação falha ou defeituosa gera</p><p>responsabilidade.</p><p>4. Segurança</p><p>Os fornecedores devem assegurar a colocação no mercado de consumo de</p><p>serviços e produtos que não causem danos aos seus destinatários.</p><p>E, ainda que o responsável tome as devidas providências legais previstas no art.</p><p>10 do CDC (que inclui o famoso recall), continua vinculado aos danos que os</p><p>consumidores venham sofrer pela utilização do produto ou serviço</p><p>inadequado/perigoso.</p><p>ATENÇÃO: Em caso de FURTO dos veículos estacionados pelos manobristas</p><p>(valet parking), a empresa responde civilmente; em caso de ROUBO, ainda que</p><p>o veículo esteja sob a responsabilidade e guarda da empresa, ela não</p><p>responderá. Entende o STJ que o ROUBO configura fato exclusivo de terceiro,</p><p>nesse caso, e enseja a exclusão da responsabilidade da empresa.</p><p>A lanchonete responde pela reparação de danos sofridos pelo consumidor que</p><p>foi vítima de crime ocorrido no drive-thru do estabelecimento comercial. A</p><p>lanchonete, ao disponibilizar o serviço de drive-thru em troca dos benefícios</p><p>financeiros indiretos decorrentes desse acréscimo de conforto aos</p><p>consumidores, assumiu o dever implícito de lealdade e segurança. A empresa,</p><p>ao oferecer essa modalidade de compra, aumentou os seus ganhos, mas, por</p><p>outro lado, chamou para si o ônus de fornecer a segurança legitimamente</p><p>esperada em razão dessa nova atividade. STJ. 4ª Turma. REsp 1450434-SP,</p><p>Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 18/09/2018 (Info 637).</p><p>A comprovação de graves lesões decorrentes da abertura de air bag em acidente</p><p>automobilístico em baixíssima velocidade, que extrapolam as expectativas que</p><p>razoavelmente se espera do mecanismo de segurança, ainda que de</p><p>periculosidade inerente, configura a responsabilidade objetiva da montadora de</p><p>veículos pela reparação dos danos ao consumidor. STJ. 3ª Turma. REsp</p><p>1656614-SC, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23/5/2017 (Info 605).</p><p>5. Equilíbrio nas prestações</p><p>Serão consideradas inválidas as cláusulas contratuais que evidenciem</p><p>desequilíbrio entre as partes, sobretudo se verificada uma desvantagem</p><p>excessiva ao consumidor.</p><p>6. Reparação integral</p><p>A reparação ao consumidor que sofreu qualquer tipo de dano deve ser a mais</p><p>ampla possível, abarcando todos os danos causados.</p><p>O princípio da reparação integral (ou indenização integral) possui direta</p><p>correlação com a vedação ao enriquecimento sem causa (art. 884 do Código</p><p>Civil), já que, se de um lado não se deve enriquecer à custa de outrem, de outro,</p><p>o lesado deve ter todos os danos suprimidos devidamente. Ressalte-se que a</p><p>proibição de enriquecimento sem causa é válida não apenas ao fornecedor, mas</p><p>também ao consumidor.</p><p>Exceção:</p><p>Súmula 543 STJ: Na hipótese de resolução de contrato de promessa de compra</p><p>e venda de imóvel submetido ao Código de Defesa do Consumidor, deve ocorrer</p><p>a imediata restituição das parcelas pagas pelo promitente comprados –</p><p>integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente vendedor/construtor,</p><p>ou parcialmente, caso tenha sido o comprador quem deu causa ao</p><p>desfazimento.</p><p>7. Solidariedade</p><p>A solidariedade consiste em uma técnica de imputação de responsabilidade à</p><p>pessoa distinta da que efetivamente causou o dano, de modo a tornar mais</p><p>eficiente o princípio da reparação integral. Não fosse por isso, o consumidor</p><p>lesado poderia encontrar grandes obstáculos ao seu direito assegurado, em</p><p>vistas de impossibilidades advindas dos reais fornecedores causadores dos</p><p>danos.</p><p>A regra, portanto, é que a responsabilidade será solidária entre todos os agentes</p><p>da cadeia de consumo.</p><p>8. Interpretação mais favorável ao consumidor</p><p>As cláusulas contratuais sempre serão interpretadas de maneira mais favorável</p><p>ao consumidor.</p><p>Assim, são nulas as cláusulas que atenuem a responsabilidade do fornecedor</p><p>ou desvirtuem direitos fundamentais inerentes à natureza do contrato. As</p><p>cláusulas limitadoras de direitos do consumidor devem ser redigidas com</p><p>destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.</p><p>9. Boa-fé objetiva</p><p>Ela representa um padrão de conduta que deve ser observado por todos os</p><p>fornecedores no mercado de consumo, com base em valores éticos, de modo a</p><p>respeitar as expectativas do consumidor naquela relação jurídica. Infere-se o</p><p>princípio da boa-fé objetiva da previsão constitucional da dignidade da pessoa</p><p>humana e do princípio da solidariedade.</p><p>10. Reparação objetiva</p><p>A responsabilidade civil por danos causados ao consumidor é objetiva, de modo</p><p>que independe da prova do elemento culpa de seu causador, bastando que a</p><p>vítima comprove a existência do dano e o nexo causal entre conduta e dano.</p><p>Essa regra no direito consumerista, no entanto, não é absoluta: adota o CDC a</p><p>responsabilidade subjetiva (com presunção de culpa) para os profissionais</p><p>liberais.</p><p>11. Adimplemento substancial</p><p>A teoria do adimplemento substancial visa a impedir o uso desequilibrado do</p><p>direito de resolução por parte do credor, preterindo desfazimentos</p><p>desnecessários em prol da preservação da avença, com vistas à realização dos</p><p>princípios da boa-fé e da função social do contrato. É uma teoria com aceitação</p><p>jurisprudencial (não está legalmente prevista no ordenamento brasileiro).</p><p>Nesse sentido, embora não seja possível que o credor opte simplesmente pela</p><p>resolução do contrato, abre-se a ele o caminho das vias ordinárias de cobrança</p><p>de seu direito.</p><p>ATENÇÃO: Não se aplica a teoria do adimplemento substancial aos contratos</p><p>de alienação fiduciária em garantia regidos pelo Decreto-Lei 911/69. STJ. 2ª</p><p>Seção. REsp 1622555-MG, Rel. Min. Marco Buzzi, Rel. para acórdão Min. Marco</p><p>Aurélio Bellizze, julgado em 22/2/2017 (Info 599).</p><p>12. Venire contra facum proprium</p><p>Trata-se do postulado da proibição de comportamento contraditório, que</p><p>configura uma conduta desleal em prejuízo à boa-fé objetiva e aos seus deveres</p><p>anexos.</p><p>Segundo a doutrina, são pressupostos para a sua configuração: uma conduta</p><p>inicial; a legítima confiança visualizada a partir dessa conduta inicial; o</p><p>comportamento contraditório; e o dano.</p><p>13. Conservação do contrato</p><p>Segundo dispõe o art. 51, parágrafo 2º, do CDC, a nulidade de uma cláusula</p><p>contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua ausência,</p><p>apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das</p><p>partes.</p><p>14. Modificação das prestações desproporcionais</p><p>Decorre diretamente do princípio da equivalência das prestações.</p><p>Configura direito básico do consumidor a modificação das cláusulas contratuais</p><p>que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos</p><p>supervenientes que as tornem excessivamente onerosas.</p><p>15. Equidade</p><p>A equidade corresponde à necessidade de se estabelecer um equilíbrio material</p><p>na relação jurídica.</p><p>Conforme dispõe o art. 51 do CDC, são nulas de pleno direito, entre outras, as</p><p>cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que</p><p>estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o</p><p>consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé</p><p>ou a equidade.</p><p>16. Acesso à justiça</p><p>Constitui direito básico do consumidor, expressamente previsto em lei, a</p><p>facilitação da defesa de seus direitos.</p><p>Em benefício do consumidor e em busca da efetividade de suas normas</p><p>protetivas, o CDC confere ao consumidor a possibilidade de demandar em juízo</p><p>em seu próprio domicílio.</p><p>Outro instrumento de facilitação do acesso à justiça é a inversão do ônus da</p><p>prova. Quando for verossímil a alegação OU quando o consumidor for</p><p>hipossuficiente, poderá, a critério do juiz, haver a inversão do ônus probatório.</p><p>DANOS MORAIS NAS</p><p>RELAÇÕES DE CONSUMO</p><p>• A Constituição de 1988 expressamente consagrou a proteção ao direito</p><p>moral em seu art. 5º, incisos V e X. a partir disso, o Código de Defesa do</p><p>Consumidor também incorporou essa proteção, conferindo status de direito</p><p>básico do consumidor a efetiva prevenção e reparação de danos morais (art.</p><p>6º, VI).</p><p>• Porém, coube primordialmente à jurisprudência traçar os contornos iniciais</p><p>do conceito de danos morais, pelo que é possível afirmar que a lei</p><p>acompanhou o movimento dos tribunais brasileiros, sobretudo do Superior</p><p>Tribunal de Justiça.</p><p>• Atualmente, é assente na jurisprudência dos tribunais superiores a</p><p>possibilidade de indenização por violação a direitos tidos como</p><p>extrapatrimoniais, sendo, inclusive, desnecessária a comprovação de prejuízo</p><p>em alguns casos.</p><p>1. Conceito</p><p>• O dano moral trata-se de um dano extrapatrimonial que atinge a personalidade da</p><p>vítima e, por tal razão, impossível de ter quantificado em pecúnia. Por isso, fala-se</p><p>que a indenização por danos morais tem natureza meramente compensatória, pois</p><p>não se presta a resgatar o status quo ante em que a vítima se encontrava antes do</p><p>dano (já que isto seria impossível). Busca-se apenas compensar os reflexos negativos</p><p>sofridos pela vítima.</p><p>• Porém, com relação às pessoas jurídicas, não dotadas dos mesmos direitos da</p><p>personalidade conferidos às pessoas naturais, é preciso ponderação para se verificar</p><p>se o espectro de sua honra objetiva foi atingido pela ação/omissão do fornecedor de</p><p>produtos ou serviços. Se isso acontecer, caberá indenização por danos morais.</p><p>• De um modo geral, o Superior Tribunal de Justiça entende que nem toda</p><p>lesão a direitos básicos do consumidor geram danos morais. É preciso que tal</p><p>lesão transborde os limites da razoabilidade da vida em sociedade e não se</p><p>mostre um mero aborrecimento ou dissabor do cotidiano.</p><p>• Assim, as ofensas aos direitos extrapatrimoniais do consumidor</p><p>devem se</p><p>mostrar excepcionais, exageradas, graves e capazes de ameaçar a própria</p><p>dignidade humana. A partir dessas premissas, as circunstâncias do caso</p><p>concreto ditaram a aplicação ou não do instituto.</p><p>2. Quantificação</p><p>• Nas palavras do STJ, “ao arbitrar o valor da indenização deve-se levar em consideração a</p><p>condição econômica das partes, as circunstâncias em que ocorreu o evento e outros aspectos do caso</p><p>concreto.” (STJ, REsp 208.795).</p><p>• É preciso que haja ponderação e razoabilidade na fixação do valor da indenização,</p><p>de modo que não seja ela irrisória do ponto de vista do ofendido, tampouco seja</p><p>exagerada segundo a perspectiva do ofensor. Assim, os critérios frequentemente</p><p>considerados são a condição econômica do ofendido, a condição econômica do</p><p>ofensor, o nível cultural do causador do dano, a vedação ao enriquecimento sem</p><p>causa do ofendido, a vedação à proteção deficiente dos direitos fundamentais do</p><p>ofendido, o grau de culpa das partes para a ocorrência do evento, a gravidade dos</p><p>fatos.</p><p>3. Dano moral presumido</p><p>• Existem situações em que a jurisprudência tem dispensado a comprovação</p><p>de prejuízo por parte do consumidor para conferir o direto à indenização por</p><p>danos morais. No geral, decorre de situações que, pelo senso comum,</p><p>evidentemente trouxeram profundo abalo na dignidade ou personalidade de</p><p>quem sofreu.</p><p>4. Teoria da perda do tempo útil</p><p>• A teoria do desvio produtivo (ou teoria do desvio produtivo do consumidor ou</p><p>teoria da perda do tempo útil) transforma o tempo em objeto de tutela específica do</p><p>Direito. Atento às realidades sociais que humanidade vivencia atualmente, o Direito</p><p>precisa buscar tutelar o que se mostra valioso – inclusive em termos econômicos –</p><p>para o ser humano (ex.: tempo, lazer e etc.).</p><p>• Nessa demora causada pelo fornecedor é que reside a tutela do tempo produtivo, ou</p><p>do tempo útil do consumidor, que poderia emprega-lo em outras atividades não</p><p>fosse a desídia do fornecedor em colaborar com a solução do problema.</p>