Logo Passei Direto
Buscar

Livro-Texto - Unidade II - SEMIÓTICA

Ferramentas de estudo

Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>70</p><p>Unidade II</p><p>Unidade II</p><p>5 SEMIÓTICA DA CULTURA</p><p>5.1 Concepção de cultura</p><p>Que tal agora prontificar‑se a indicar algumas práticas culturais suas e/ou familiares?</p><p>Atitudes</p><p>durante a</p><p>pandemia</p><p>de Covid‑19</p><p>Prato</p><p>tradicional</p><p>para o almoço</p><p>de domingo</p><p>Atividade</p><p>esportiva</p><p>praticada no</p><p>ensino básico</p><p>Leituras,</p><p>teatro, shows</p><p>e outras</p><p>diversões</p><p>Figura 33</p><p>Religiões, práticas artísticas, costumes cotidianos e tantas outras manifestações constituem o que</p><p>chamamos de cultura. A semiótica que tem a cultura como objeto de estudo é a semiótica da cultura,</p><p>fundada na década de 1960, na Universidade de Tartu, Estônia, por Yuri Lotman. No momento da produção</p><p>deste livro‑texto, seu filho Mihhail Lotman dá continuidade a esse estudo na mesma universidade.</p><p>Naquela época, surgiu a necessidade de entender as relações entre comunicação e cultura e</p><p>compreender os mecanismos geradores do signo na cultura. Os estudos desenvolvidos são heterogêneos</p><p>e abrangem temas diversos, tais como jogo de xadrez, cartas, mitologia, história.</p><p>A semiótica da cultura é fundamental para apresentar melhor leitura sobre os fenômenos culturais</p><p>emergentes da sociedade da internet, da globalização, da desigualdade social etc. e dispõe dos raciocínios</p><p>do campo da sociologia.</p><p>Lembrete</p><p>A semiótica da cultura busca fundamento na sociologia. As semióticas</p><p>peirceana e discursiva baseiam‑se, respectivamente, na filosofia fenomenológica</p><p>e na linguística estruturalista.</p><p>71</p><p>SEMIÓTICA</p><p>A ideia de cultura surgiu no final do século 17 com o objetivo de representar o gerenciamento do</p><p>pensamento e o comportamento dos seres humanos. A palavra cultura não surgiu como um termo</p><p>que apenas buscasse descrever esses aspectos, pois estes simplesmente já haviam sido observados</p><p>e declarados por sua população. Após um século, o conceito ganhou o significado sobre a maneira</p><p>diferenciada como as comunidades se mostravam em relação à conduta humana de seu povo, sua</p><p>administração e intenção.</p><p>No início da Era Moderna, a cultura já adquirira o sentido de uma atividade intencional. Dessa</p><p>maneira, homens e mulheres não podem mais ser vistos como resultado de uma criação divina, totalmente</p><p>completos e perfeitos, mas sim como seres que podem se modificar e necessitam de constantes ajustes</p><p>e melhoras. Nesse momento, são incluídos significados à palavra cultura, tais como cultivo, criação e</p><p>lavoura – com o sentido de aperfeiçoamento. Assim como a semente – que é cultivada e precisa ser</p><p>acompanhada desde o plantio até a colheita – o mesmo processo deve também ser feito com os seres</p><p>humanos por meio da educação e do treinamento. As pessoas não nascem prontas, mas se tornam, são</p><p>transformadas com base no cuidado e dedicação que outras pessoas têm com elas.</p><p>O conceito de gerenciar apareceu no vocabulário um pouco menos de um século antes do termo</p><p>cultura, tendo por significado o ato de forçar (pessoas ou animais etc.) a se submeter a alguém ou</p><p>exercer efeito sobre alguém. De modo geral, a palavra gerenciar tem o sentido de limitar a liberdade de</p><p>quem ou o que é gerenciado a fim de controlar o fluxo de acontecimentos e manipular as probabilidades,</p><p>redirecionando‑as segundo sua própria vontade e anulando, assim, a do gerenciado.</p><p>Dessa forma:</p><p>Se a agricultura é a visão do milharal na perspectiva do agricultor, a ideia</p><p>de cultura aplicada metaforicamente aos seres humanos era a visão do</p><p>mundo social pelos olhos dos agricultores de pessoas: os administradores.</p><p>O postulado do gerenciamento não foi um acréscimo posterior nem uma</p><p>interferência externa: desde o início, e ao longo de sua história, tem sido</p><p>parte integrante do conceito de cultura humana (BAUMAN, 2009, p. 72‑73).</p><p>Percebemos que no núcleo do conceito de cultura, há uma nítida relação social desigual e sem</p><p>simetria entre quem gerencia e quem (ou o que) é gerenciado. Segundo Adorno (1994, p. 68), “incluir o</p><p>espírito objetivo de uma única palavra ‘cultura’ é trair desde o princípio a visão gerencial, cuja tarefa é,</p><p>olhando de cima para baixo, juntar, distribuir, avaliar e organizar”.</p><p>Sobre a relação social assimétrica e desigual, há também uma perspectiva distinta entre a visão</p><p>do gerenciado e a do gerenciador; o gerenciado se vê em posição de injustiçado, e ambas perseguem</p><p>objetivos opostos. A cultura manifesta as reivindicações do particular em contraponto à pressão que</p><p>busca a homogeneidade do todo, e para Adorno (1994, p. 69) “envolve um impulso irrevogavelmente</p><p>crítico em relação ao status quo e todas as suas instituições”. O conflito entre gerenciadores e gerenciados</p><p>é constante e inevitável, assim como também necessitam de seu antagonista.</p><p>72</p><p>Unidade II</p><p>Como aponta Adorno (1994, p. 71): “A cultura sofre prejuízos quando planejada e gerenciada;</p><p>deixada por si mesma, porém, tudo que é cultural ameaça não apenas perder a possibilidade do efeito,</p><p>mas também sua própria existência”. Com isso, esse estudioso mostra como ao longo do tempo religiões</p><p>e escolas tradicionais, assim como também as revoluções e os partidos na modernidade, apregoaram a</p><p>concepção de que, para sobreviverem, são necessárias as ideias de dominação.</p><p>Há assim um paradoxo, um círculo vicioso. A cultura não pode conviver com um gerenciamento que</p><p>seja inconveniente e capcioso, tendo como principal preocupação somente distorcer o trânsito da cultura</p><p>para o caminho do experimento e da exploração a fim de redirecioná‑la a um destino racional, segundo</p><p>os gerentes, e, com isso, efetuar um atentado à liberdade da cultura. Na outra extremidade, os criadores</p><p>da cultura também necessitam de gerentes para que consigam atingir o seu objetivo de transformar o</p><p>mundo; longe disso, colocam‑se em risco e à mercê da marginalidade, do olvido e da impotência.</p><p>Os criadores de cultura se veem nesse dilema. Precisam de uma maneira de conviver com a</p><p>interferência dos gerentes sobre a cultura, para ambos os lados: o ruim e o bom, seguindo numa linha,</p><p>arriscadamente, tênue. Criadores e gerentes de cultura, apesar desse paradoxo, têm o mesmo objetivo:</p><p>estimular as pessoas a modificarem suas ações; mudar o mundo atual. Essa divergência se dá no nível</p><p>de como será a intervenção e não sobre as intervenções por si mesmas. Frequentemente, a discussão é</p><p>por quem deve estar no comando ou não, por quem tem o direito e o dever de definir as metas a serem</p><p>atingidas, por quem deve articular ferramentas que monitorem a busca, como também sobre quem deve</p><p>selecionar os meios de avaliar o desempenho.</p><p>Arendt explicou acertadamente o núcleo do conflito entre gerentes e criadores de cultura:</p><p>Um objeto é cultural dependendo da duração de sua permanência: seu</p><p>caráter durável se opõe ao aspecto funcional, aquele que o faria desaparecer</p><p>do mundo dos fenômenos pelo uso e pelo desgaste [...]. A cultura se encontra</p><p>ameaçada quando todos os objetos do mundo produzidos atualmente ou no</p><p>passado são tratados unicamente como funções dos processos vitais – como</p><p>se não tivessem outra razão a não ser a satisfação de alguma necessidade –,</p><p>e não importa se as necessidades em questão são supérfluas ou básicas</p><p>(1992, p. 266‑267).</p><p>A cultura tem por alvo tudo aquilo que, hoje em dia, é apresentado como “realidade”. Não visa ao</p><p>imprevisto nem a compromissos marcados na agenda de última hora. O seu foco e esforço estão em</p><p>ir além do impacto que estipula os limites na atualidade e batalha para se ver livre de suas demandas.</p><p>O destino dos produtos culturais não é ser liquefeito ou dissolvido instantaneamente no momento de</p><p>seu consumo, isso também não é o que define o seu valor. O que a cultura busca é a ideia de beleza que</p><p>não tem um propósito definido ou visível, nem uma necessidade preestabelecida. Sabemos o que define</p><p>um objeto cultural: é algo que perdura além de qualquer manuseio que possa ter conduzido sua criação.</p><p>73</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Para Bauman (2009, p. 76):</p><p>Essa ideia de cultura difere profundamente da opinião comum, e até</p><p>recentemente também prevalecia na literatura acadêmica – uma opinião</p><p>que classifica a cultura</p><p>social é o portador da Carteira, individualizado por seu nome T. N. C. No entanto,</p><p>diferentemente do caso da Certidão de Nascimento (figura 39), ela não constitui um ator social passivo.</p><p>Esse documento pressupõe um ator social ativo, cujo papel é o de atribuidor, na categoria personalização,</p><p>em especial na categorização funcionalização, especificamente por esse documento denotar</p><p>ocupação profissional.</p><p>Marca‑se a exclusão com a ausência dos genitores, os quais estão presentes na Certidão de Nascimento.</p><p>O desvínculo entre a portadora da Carteira de Trabalho e os genitores mostra que a portadora tem</p><p>atributos de uma pessoa natural capaz e independente, conforme os direitos da personalidade.</p><p>É preciso retomar a relação dialética feita por Fairclough (2001) entre discurso (como prática social)</p><p>e as práticas sociais, pois reverbera na linguagem, representada pela síntese a seguir (figura 41).</p><p>99</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Texto = referente à análise</p><p>textual e linguística</p><p>Prática discursiva = referente à tradição</p><p>macrossociológica de análise da prática</p><p>social em relação às estruturas sociais</p><p>(dialética do discurso)</p><p>Prática social = diz respeito à tradição</p><p>interpretativa ou microssociológica</p><p>de considerar a prática social como</p><p>alguma coisa que as pessoas produzem</p><p>ativamente e entendem com base no</p><p>senso comum partilhado</p><p>Figura 41 – Relação entre discurso e práticas sociais</p><p>Fonte: Fairclough (2001, p. 101).</p><p>O texto concretiza uma prática discursiva, a qual, por sua vez, analisa as práticas sociais. Nessa relação</p><p>texto – discurso – prática social, o depoimento do Informante representa uma voz social que polemiza</p><p>uma ideologia hegemônica relativa à valorização do sexo de nascimento e propõe a distinção entre</p><p>sexo de nascimento e identidade de gênero. O texto do informante contextualiza uma prática discursiva</p><p>baseada na ideologia da fragmentação, de acordo com a concepção de ideologia de Thompson (2011).</p><p>Marca uma desestabilização no posicionamento da sociedade sobre identidade de gênero.</p><p>O depoimento aponta para uma ação do informante: solicitar a retificação do seu nome. Essa</p><p>ação implica duas situações. Uma delas é sobre a escolha do nome, e a outra situação é a questão</p><p>legal da imutabilidade do nome, prevista no art. 58 da LRP.</p><p>A escolha do nome está ligada ao sexo da pessoa de maneira que o nome permite identificar o sexo</p><p>biológico do seu portador, que em nossa sociedade é definido pela genitália, e deverá ser adequado a ele</p><p>de modo que a simples menção ao nome já identifique o gênero ao qual pertence, sob pena de expor o</p><p>seu portador ao ridículo.</p><p>No caso das pessoas transexuais, o nome registral é um contraponto à sua identidade, porque não</p><p>remete a sua expressão de gênero personalidade ou à maneira como desejam se apresentar socialmente.</p><p>A pessoa expõe‑se a situações vexatórias e de degradação social, situação que o ordenamento jurídico</p><p>veda em relação ao nome. Nesse sentido, fundamenta Dias (2016) que, desfeita a correlação presumida</p><p>entre sexo e gênero, é necessário o reconhecimento identitário por meio do ajuste do nome ao gênero</p><p>correspondente. A escolha e a determinação de um nome pressupõem conformidade sexo‑genérica,</p><p>100</p><p>Unidade II</p><p>ou seja, de que a criança que nasceu com sexo feminino terá um gênero feminino pelo qual será</p><p>reconhecida socialmente. Dias continua esclarecendo que:</p><p>O nome registral do cidadão trans não remete à sua identidade, mas</p><p>justamente a afronta. A despeito de sua expressão de gênero, de sua</p><p>vestimenta, a despeito das intervenções cirúrgicas, a falta de um nome</p><p>correspondente ao gênero sujeita transexuais e travestis a ter sua</p><p>identidade constantemente revelada e violada, a ser humilhado e tratado</p><p>pelo sexo que não o identifica (DIAS, 2016, p. 227).</p><p>A partir do instante em que a conformidade sexo‑genérica não se concretiza, é preciso reajustar o</p><p>nome à real identidade de gênero. Assim, a pessoa solicita a retificação do nome. No entanto, enfrenta</p><p>um processo longo e burocrático para a mudança de nome.</p><p>Para a solicitação de mudança de nome, existe uma lista de documentos a serem entregues à</p><p>Defensoria Pública, já elencada neste estudo. Entre esses documentos, o informante disponibiliza o</p><p>atestado médico e a declaração de reconhecimento da mãe.</p><p>Os processos para retificação de nome e gênero são instruídos com avaliações psicológicas, relatórios</p><p>médicos oriundos da área clínica/psiquiátrica, atestados de eventuais procedimentos cirúrgicos ou</p><p>tratamentos hormonais. As avaliações podem abranger também o apontamento de transtornos mentais</p><p>ou sociais sofridos em razão da situação.</p><p>Os documentos e atestados solicitados pela Defensoria Pública visam afastar eventuais fraudes ou</p><p>pedidos de má‑fé. São verificados os antecedentes criminais, certidões da área cível, nas esferas estadual</p><p>e federal, situação eleitoral e possíveis protestos contra o requerente. A declaração de reconhecimento</p><p>da mãe é um exemplo dessa tentativa contra fraudes.</p><p>Na análise sobre a Certidão de Nascimento, verifica‑se que o documento atesta a incapacidade de o</p><p>informante cuidar de si e é dependente dos genitores e órgãos públicos. Discursivamente, os documentos</p><p>– atestado médico e declaração de reconhecimento da mãe – levam o indivíduo ao estado anterior, em</p><p>sentido oposto de pessoa capaz para agir por si, segundo os direitos da personalidade.</p><p>Essa etapa do processo de construção identitária envolve conflito entre a naturalização do</p><p>nome e a possibilidade de sua mudança. Fatores ideológicos, sociais e legais entrelaçam‑se nesse</p><p>evento sociodiscursivo.</p><p>Sentença e mandado são documentos que se configuram como ponto discursivo em que se</p><p>relacionam um evento social, bem como os atores sociais e sua relação. Essa configuração pode ter</p><p>esse resultado:</p><p>101</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Quadro 9 – Formas de representação dos atores sociais na sentença e</p><p>mandado de retificação do nome</p><p>Categoria</p><p>sociológica Tipo e/ou definição Como se realiza</p><p>Exclusão Encobrimento</p><p>(segundo plano) Exclusão parcial do ator social Nome civil não desaparece</p><p>dos registros</p><p>Inclusão</p><p>Ativação Ator social representado como força ativa numa atividade</p><p>Participante dizente:</p><p>informante declara,</p><p>solicita, alega</p><p>Passivação Ator social representado se submetendo à atividade ou sendo</p><p>afetado por ela Papéis de meta e portador</p><p>Genericização Atores sociais representados como classes</p><p>— Juiz, representante de órgão</p><p>— Informante, representante</p><p>como requerente</p><p>Especificação</p><p>Individualização</p><p>— nome civil</p><p>— nome social</p><p>Assimilação</p><p>Coletivização Informante representa o</p><p>grupo de transexuais</p><p>Agregação ‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑‑</p><p>Personalização</p><p>Diferenciação</p><p>– indivíduos</p><p>ou grupos</p><p>identificados</p><p>Nomeação — nomes próprios: primeiro</p><p>nome, sobrenome;</p><p>— título do juiz</p><p>Categorização</p><p>Funcionalização</p><p>Parentesco</p><p>Espacialização</p><p>— manutenção do sobrenome</p><p>da família</p><p>— lugares específicos:</p><p>requerente e juiz</p><p>Impersonalização</p><p>Abstração – atores sociais representados por uma qualidade</p><p>— transgênero</p><p>— transexual</p><p>Objetivação – atores sociais</p><p>representados por uma referência</p><p>metonímica.</p><p>Somatização</p><p>— sexo de nascimento</p><p>— identidade de gênero</p><p>— transexual</p><p>Autonomização do</p><p>enunciado</p><p>Autodeclaração: ser</p><p>transexual, gênero</p><p>masculino</p><p>Referência à instituição Registro Público</p><p>Os atores sociais constituídos no discurso são o juiz, que representa instituição pública, e o</p><p>requerente da mudança de nome, que faz parte do grupo transexual. Verificam tanto a categoria de</p><p>exclusão quanto a categoria de inclusão. No caso da exclusão, o pedido atendido do requerente exclui</p><p>parcialmente o ator social denominado T. N. C. Em efeito jurídico, essa exclusão parcial deve‑se ao</p><p>fato de a sentença do juiz ser considerada a partir do momento estabelecido por ele.</p><p>Na categoria de inclusão, todas as categorias sociológicas são representadas. O requerente assume</p><p>papel ativo perante o evento social – pedido de mudança de nome –, mas também assume papel passivo</p><p>diante das decisões tomadas por outrem.</p><p>102</p><p>Unidade II</p><p>De um lado, o requerente está representado pela sua individualização e nomeação, simbolizadas</p><p>pelo nome civil e nome social. De outro, ele próprio representa um grupo – o transexual – marcando,</p><p>assim, sua categoria de impessoalização.</p><p>As relações sociais ampliam‑se e aumentam as tensões sociais e os papéis sociais do ator transexual.</p><p>Nessa etapa de construção identitária, a ator social transexual potencializa o evento social, tornando‑se</p><p>tanto um ser submetido às regras e preconceitos quanto o ator que assume seus desejos e valores,</p><p>transformando‑se representante de seu grupo social.</p><p>O nome social está estabelecendo‑se como operação ideológica do modo de legitimação, que</p><p>trabalha para legitimar um valor e criar representações universais.</p><p>Enfim, a prática discursiva reproduz a sociedade em suas identidades e relações entre elas e contribui</p><p>para transformar a sociedade. Nessa perspectiva, o discurso é um modo de ação sobre o mundo e as</p><p>pessoas e constrói as identidades sociais.</p><p>8 SEMIÓTICA SOCIAL: GRAMÁTICA VISUAL</p><p>8.1 Gramática da sintaxe visual</p><p>Kress e Van Leeuwen (2006) declaram que as imagens no texto estão vinculadas aos significados</p><p>representacionais e interativos, produzindo determinado sentido (ORMUNDO, 2010). O modo como os</p><p>elementos visuais se relacionam e se integram é chamado sistema composicional. Segundo Santos e</p><p>Souza (2008), os autores julgam que há nesse sistema três princípios que não devem ser relacionados</p><p>somente a figuras simples, fotos, quadros etc., mas a qualquer tipo de material que contenha imagem</p><p>e texto, entre outros elementos gráficos. Deve‑se, portanto, considerar tudo numa composição</p><p>multimodal, incluindo elementos linguísticos.</p><p>Tais princípios estão representados por:</p><p>• Valor da informação (ou valor informativo): relacionado à localização dos elementos visuais</p><p>na página ou imagem: direita, esquerda, parte inferior, parte superior, centro e margem. Com base</p><p>nessa localização, tem‑se num eixo horizontal:</p><p>— Dado: elementos localizados à esquerda, representados como algo já conhecido pelo</p><p>leitor/observador.</p><p>— Novo: elementos localizados à direita, representados como algo desconhecido, informação</p><p>nova ao leitor/observador.</p><p>Dado e novo estabelecem uma relação de intertextualidade na tentativa de aproximação entre o que</p><p>é conhecido e o que não é, consequentemente, traduzindo‑se em uma nova combinação. Já no que diz</p><p>respeito ao eixo vertical, há:</p><p>103</p><p>SEMIÓTICA</p><p>— Ideal: elementos localizados na parte superior, representados como algo mais detalhado,</p><p>informativo e prático.</p><p>— Real: elementos localizados na parte inferior, representados como algo idealizado, generalizado.</p><p>A relação real/ideal pode representar no eixo vertical relações de poder, no sentido de o elemento</p><p>mais representativo estar num ponto mais alto e o menos representativo, mais baixo. No centro, os</p><p>elementos se encontram no meio da composição visual, ganhando certa importância, e na margem</p><p>se encontram elementos com baixo valor informativo.</p><p>• Saliência: relacionada aos elementos que devem chamar a atenção do leitor/observador, com</p><p>maior ou menor grau, criando, portanto, uma relação hierárquica. Tais elementos podem ser</p><p>enumerados por:</p><p>— localização;</p><p>— tamanho relativo;</p><p>— contrastes em cor/tom;</p><p>— diferenças de forma (nitidez).</p><p>• Framing (enquadramento ou estruturação): relacionado à presença ou ausência de molduras,</p><p>com elementos que criam linhas divisórias, conectam ou desconectam elementos de uma</p><p>imagem. Kress e Van Leeuwen, (apud SANTOS; SOUZA, 2008, p. 7) apontam que “a ausência de</p><p>estruturação indica uma identidade grupal entre os participantes”, enquanto que sua presença</p><p>individualiza e os diferencia.</p><p>Nesse sentido, esses três princípios se relacionam à linguagem verbal, imagem, outros elementos</p><p>gráficos e às diversas formas midiáticas (televisão, computador, livro, jornal, revista etc.).</p><p>8.2 Multimodalidade</p><p>Kress e Van Leeuwen (2006) afirmam que os modos semióticos, quando vistos sob uma perspectiva</p><p>extralinguística, são capazes de se apresentar de modo representativo e comunicativo. Tanto no</p><p>registro escrito quanto no falado, a língua pode servir de apoio a outros modos semióticos, trazendo a</p><p>possibilidade de ser conferida além do seu funcionamento. Pode, por exemplo, servir de apoio ao modo</p><p>semiótico visual.</p><p>O conceito de que as imagens são construídas por múltiplas semioses de Kress e Van Leeuwen</p><p>é apontado por Vieira, Bento e Ormundo (2010). Os estudiosos sentiram a necessidade de investigar</p><p>as diferentes linguagens que acompanham o modo verbal do discurso a partir de sua obra intitulada</p><p>Reading images: the grammar of visual design (1996).</p><p>104</p><p>Unidade II</p><p>Observação</p><p>A edição estudada da obra Reading images: the grammar of visual</p><p>design é mais atual, de 2006.</p><p>Há a consideração de outros sistemas semióticos além da escrita, sendo o texto, nesse sentido,</p><p>visto como multissemiótico. Ainda de acordo com Kress e Van Leeuwen (1996), o meio e o modo de</p><p>comunicação utilizados pelas pessoas são multissemióticos, centrados no visual, nas cores, na forma etc.</p><p>Com base em uma leitura multimodal, é possível fazer analogias, estabelecer coerência, comparações e</p><p>uma leitura profunda de imagens, possibilitando uma melhor compreensão e interpretação de sentidos.</p><p>Kress e Van Leeuwen (2006) afirmam que somos influenciados por imagens, pois estas atingem</p><p>nossa percepção de modo mais rápido que a palavra. A visão, para nós, é mais confiável do que a</p><p>audição. A linguagem visual está em evidência e transforma o modo como a informação é representada.</p><p>Para os autores, linguagem e comunicação visual devem estar integradas, de modo a romper as</p><p>fronteiras entre ambas, com a contribuição de outros estudos.</p><p>O estudo da modalidade servirá de base para sua compreensão no que diz respeito à linguagem e</p><p>aos novos modos de comunicação, o que corresponde à linguística e à semiótica.</p><p>Na linguística, a modalidade expressa valores de verdade, resultando na modalidade das</p><p>representações. Quando a representação é tratada, verifica‑se que esta pode se concretizar quando algo</p><p>não existe como existente, bem como algo que existe como não existente.</p><p>Somado à questão da representação, tem‑se o controle social. Este é assinalado pelo controle da</p><p>representação da realidade. Nesse sentido, “quem tem o controle da modalidade, controla a sua versão</p><p>válida em um determinado processo semiótico” (ORMUNDO, 2010, p. 26).</p><p>Já na semiótica, a modalidade não restrita à língua é tratada</p><p>como um conceito multimodal em que o sentido de toda expressão</p><p>apresenta aspectos multimodais e a questão da verdade emerge em todos</p><p>eles, mesmo se o tipo de verdade que eles expressam e os modos nos</p><p>quais eles expressam os graus de verdades sejam apresentados de forma</p><p>diferente (ORMUNDO, 2010, p. 26).</p><p>Por esse motivo, Van Leeuwen (1997) aproxima a semiótica social das questões de verdade e de</p><p>representação para conceituar a modalidade, a partir de oposições – real × artificial, fato × ficção etc. –,</p><p>e também das questões de interação social, que incluem as questões de verdade, mesmo que estas</p><p>105</p><p>SEMIÓTICA</p><p>não sejam mensuradas no sentido de quão verdadeiras são, mas, sim, de como são representadas num</p><p>aspecto semiótico.</p><p>A modalidade deve ser vista como algo centralizado na vida social, enfatizando que, grupos e</p><p>instituições sociais definem verdades próprias, relacionando‑as às verdades alheias, criando, portanto,</p><p>verdades compartilhadas.</p><p>A partir da inserção do caráter multimodal à linguística, foi necessário analisar a modalidade sob um</p><p>aspecto além da linguagem oral e escrita. Van Leeuwen (1997), então, propõe categorias analíticas “que</p><p>podem verificar como a expressão multimodal visual é apresentada em relação às categorias analíticas</p><p>da semiótica visual” (ORMUNDO, 2010, p. 28). São elas:</p><p>• Modalidade linguística: representada por sistema gramatical específico, podendo expressar</p><p>graus de modalidade: baixa, média e alta. Nesse aspecto, o conceito de verdade</p><p>é representado por</p><p>esses graus de modalidade, que, por sua vez, podem ser representados por substantivos, adjetivos</p><p>e advérbios.</p><p>• Modalidade abstrata: comum nas artes plásticas, a verdade visual se torna abstrata. Porém,</p><p>quando a imagem adentra a essência do que está sendo retratado, há uma modalidade mais alta</p><p>nesse sentido.</p><p>• Modalidade tecnológica: a verdade visual se baseia na praticidade do uso da imagem – quanto</p><p>mais esta é usada como suporte para uma ação, maior sua modalidade é representada.</p><p>• Modalidade sensorial: a verdade visual se baseia no que é prazeroso ou não no aspecto visual,</p><p>realizando‑se por grau de articulação amplificado ao modo do naturalismo. Definição, cor,</p><p>profundidade, luz e sombra se tornam muito reais. Nessa modalidade, o prazer é expresso por</p><p>fotografias e em contextos que geram uma experiência de sonho ou alucinações (como nos filmes,</p><p>em obras de arte etc.).</p><p>• Modalidade naturalista: a verdade visual se expressa pela figura. Se esta for maior, maior será o</p><p>grau representativo da realidade, consequentemente, maior será o grau de modalidade. Depende,</p><p>portanto, da tecnologia para representar o âmbito visual.</p><p>• Modalidade visual: relacionada à forma como os elementos textuais se distribuem na prática</p><p>social – quando um elemento está na parte de cima, é o ideal, cuja modalidade é baixa; se o</p><p>elemento se encontra na parte de baixo, é o real, resultando em modalidade alta. Cor e acuidade,</p><p>distância e proximidade também se aplicam a esses dois parâmetros, no sentido de que a imagem,</p><p>se mostrada de longe, é ideal; quando mostrada mais de perto, é real.</p><p>Ainda sob o domínio da modalidade visual, estão envolvidos significados da expressão visual em</p><p>graus de escala, de acordo com Kress e Van Leeuwen (2006):</p><p>106</p><p>Unidade II</p><p>• Articulação do detalhe: escala da simples linha de desenho à maior nitidez numa fotografia.</p><p>• Articulação de pano de fundo: escala de zero articulação, quando algo é mostrado contra</p><p>um pano de fundo branco/preto, esboçado ou fora de foco ao máximo detalhamento do</p><p>pano de fundo.</p><p>• Saturação de cor: escala da ausência de saturação (preto/branco) ao uso máximo de</p><p>saturação de cor.</p><p>• Modulação de cor: escala do uso da cor sem modulações em um mesmo plano, até a</p><p>representação de nuances finas da modulação de determinada cor.</p><p>• Diferenciação de cor: escala que parte do monocromático ao uso de uma paleta de</p><p>mistura de cores.</p><p>• Articulação da profundidade: escala da ausência de qualquer representação de profundidade</p><p>até a máxima perspectiva de profundidade.</p><p>• Articulação de luz e sombra: escala de zero até a articulação do número máximo de graus de</p><p>profundidade de sombra.</p><p>• Articulação de tom: escala de apenas dois tons da gradação da cor (preto/branco ou outra cor</p><p>clara e escura) até a máxima graduação de tom.</p><p>Van Leeuwen (1997) estabelece que esses significados são passíveis de gradação, podendo ser</p><p>aumentadas ou reduzidas, (re)configurando a modalidade.</p><p>Essa gradação pode constituir outros modelos em relações multimodais, tal como proposto por</p><p>Cope e Kalantzis que apresentaram seis elementos de design no processo de construção de sentido:</p><p>o linguístico, o visual, o áudio, o gestual, o espacial e os padrões que relacionam os cinco primeiros uns</p><p>aos outros, que são os multimodais.</p><p>107</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Gênero,</p><p>transitividade,</p><p>vocabulário e</p><p>metáfora, processos</p><p>de substantivação,</p><p>estratégias</p><p>argumentativas etc.</p><p>Música,</p><p>efeitos</p><p>sonoros</p><p>etc.</p><p>Sentidos</p><p>arquitetónicos,</p><p>sentidos</p><p>ecossistêmicos</p><p>e geográficos</p><p>etc.</p><p>Gestos,</p><p>sensualidade,</p><p>linguagem corporal,</p><p>fiscalidade do</p><p>corpo, sentimentos</p><p>e emoções etc.</p><p>Primeiro</p><p>plano e plano</p><p>de fundo,</p><p>perspectiva,</p><p>vetores,</p><p>cores etc.</p><p>Elementos de sentidos</p><p>que constituem</p><p>os designs</p><p>Multimodal</p><p>M</p><p>od</p><p>o d</p><p>e s</p><p>ign</p><p>ifi c</p><p>açã</p><p>o</p><p>Modo de signifi cação</p><p>Modo de signifi cação</p><p>Por exemplo: a integração dos sistemas de construção de sentidos de texto</p><p>s el</p><p>etr</p><p>ônico</p><p>s m</p><p>ult</p><p>im</p><p>idi</p><p>át</p><p>ico</p><p>s</p><p>Multimodal</p><p>Design de áudio</p><p>Design espacial</p><p>Design gestual</p><p>Design visual</p><p>De</p><p>sig</p><p>n l</p><p>ing</p><p>uísti</p><p>co</p><p>Figura 42</p><p>Fonte: Silva (2015, p. 38).</p><p>Nesse sentido, sobre o conceito de tipos de verdade, há as modalidades de frequência, subjetiva</p><p>e objetiva.</p><p>Santos (2008, p. 22) afirma que a noção de signo, a partir das alterações do uso da linguagem, fez</p><p>com que novas definições de texto e discurso surgissem “promovendo a elaboração de novas linguagens</p><p>gráficas e estabelecendo uma nova maneira de pensar”.</p><p>Fairclough (2006) defende que, em cada construção de significado onde são usadas imagens, há uma</p><p>delocação de sentidos, pois nossa imaginação, cultura e fantasia ressignificam a imagem e o sentido.</p><p>As estruturas visuais formam significados, bem como as estruturas linguísticas, dando margem</p><p>a múltiplas interpretações e formas de interação social, não sendo, portanto, transparentes e</p><p>compreensíveis em uma escala universal; essas estruturas são determinadas, fornecendo ideias para os</p><p>significados da comunicação visual em um texto com multimodalidade. Quando significados podem</p><p>ser expressos verbal e visualmente, resultam, portanto, em significados diferentes. Nesse sentido:</p><p>108</p><p>Unidade II</p><p>As imagens, por seu caráter cultural e ideológico, sempre serão discursos</p><p>abertos. A possível correlação entre a abertura do sentido construído</p><p>pela linguagem e pelo uso da imagem é importante, considerando que a</p><p>construção de sentido não deve ser restrita apenas às imagens, podendo</p><p>ser modificada pelo contexto, assim como o texto é um fenômeno</p><p>semiótico dependente da relação contextual em qualquer mensagem</p><p>(VIEIRA; BENTO; ORMUNDO, 2010, p. 57).</p><p>Para produzir um texto multimodal, é necessário verificar a disposição das imagens, sua importância</p><p>e combinação com o verbal, ou seja, é preciso definir a forma do texto. Assim:</p><p>Diante de um evento discursivo de determinado gênero, já temos certo</p><p>mapa internalizado do que é permitido pela prática social e, ao decidir o</p><p>design de um texto multimodal, sabemos previamente o que é possível usar</p><p>ou não em cada gênero discursivo (VIEIRA; BENTO; ORMUNDO, 2010, p. 57).</p><p>A relação entre o sentido construído pela linguagem e o uso da imagem não deve ser restrita apenas</p><p>às imagens, deve‑se avaliar o contexto da situação e a disposição das imagens no espaço, “pois sendo</p><p>o texto multimodal composto segundo a cultura de cada povo, exige prática social e cultural, de leitura</p><p>particular para que possa ser compreendido” (VIEIRA; BENTO; ORMUNDO 2010, p. 57).</p><p>Os elementos em um texto multimodal devem unir o visual ao verbal; a escolha de cores, imagens,</p><p>sons, texturas, gestos, fotografias precisa interagir com o texto escrito, estabelecendo um elo semântico.</p><p>Pode ocorrer a autonomia da imagem, sem a necessidade do texto verbal para complementar o</p><p>discurso imagético.</p><p>Kress e Van Leeuwen (2006) propõem que a gramática visual descreva como os produtores de</p><p>textos multimodais representam elementos (pessoas, coisas, lugares etc.) de modo mais ou menos</p><p>complexo e significativo.</p><p>Ao texto multimodal, estipula‑se o princípio de poder, quando este é conduzido pelas modalidades</p><p>verbal e visual, conforme é proposto por Maroun (2006). Quem produz e quem lê o texto multimodal</p><p>produz signos complexos, numa relação de poder. Na concepção de Silva,</p><p>Por utilizar combinação de imagens e cores, o texto multimodal apresenta</p><p>vantagens, pois as imagens são fortes e comunicam a mensagem mais</p><p>facilmente do que o puramente escrito. Como consequência, penetram</p><p>rapidamente no entendimento social, modificando pensamentos e formas</p><p>de agir (2015, p. 24).</p><p>Ainda sobre a ideologia trazida aos textos multimodais, neles há os pensamentos de quem os produz,</p><p>no modo como são representados e comunicados: formatação, fonte, imagem, entre outros elementos</p><p>semióticos, dão conta dessa inserção.</p><p>109</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Visualmente, um texto deve ser atraente para chamar a atenção do leitor. A apresentação (diagramação)</p><p>influencia a escolha do leitor entre ler ou não determinado</p><p>texto, independentemente do gênero.</p><p>Diagramar significa colocar em ordem, organizar o material de forma que gere interesse em ser lido</p><p>e possibilite o entendimento da mensagem a ser transmitida, não se esquecendo da ideia que se quer</p><p>transmitir e do público a ser atingido.</p><p>Os elementos usados para compor textos, aqui sendo considerados os textos multimodais (em livros,</p><p>revistas, jornais, peças publicitárias etc.), por serem formados por diversos códigos semióticos, são:</p><p>• Formato: refere‑se às dimensões de uma obra escrita.</p><p>• Letras: a escolha deve ser feita de acordo com critérios estéticos (nesse caso, a estética tipográfica),</p><p>pedagógicos (no caso dos livros didáticos) e situacionais (em relação ao gênero textual).</p><p>• Distribuição dos espaços: o tamanho e o formato escolhidos devem estar de acordo com o espaço a</p><p>ser ocupado pelo texto escrito e imagético, com equilíbrio e harmonização para facilitar a leitura;</p><p>• Cores: o uso da cor traz vida às palavras e tem importantes funções:</p><p>— chamar a atenção;</p><p>— aumentar o atrativo visual;</p><p>— facilitar a visibilidade por meio dos contrastes;</p><p>— separar, associar e destacar elementos;</p><p>— transmitir informações;</p><p>— induzir atitudes.</p><p>Em relação à cor, esta pode provocar frio, calor, profundidade e sombra. A luminosidade nas imagens</p><p>e nos títulos será dada pelo valor da cor.</p><p>A imagem pode ser real, figurativa, mitológica ou abstrata, dependendo do conteúdo, da forma, do</p><p>contexto, do autor e do público‑alvo. Muitas vezes, ela auxilia o leitor a compreender o texto escrito.</p><p>As imagens mais usadas são a fotografia, o desenho, a pintura e a gravura, que, junto com a escrita, têm</p><p>o papel de esclarecer a comunicação entre os homens e a sociedade na qual estão inseridos.</p><p>A seguir, apresentamos estratégias de marketing nas embalagens dos produtos industrializados para</p><p>serem rotulados como veganos. As embalagens analisadas são dos produtos industrializados veganos</p><p>com o selo do Certificado SVB Vegano.</p><p>110</p><p>Unidade II</p><p>De acordo com Gurgel (2014), uma embalagem engloba em seus aspectos visuais: a forma, a cor, as</p><p>ilustrações, o texto, a marca e as outras características do grafismo.</p><p>As embalagens têm duas grandes funções. Uma delas é de suporte para os alimentos. A embalagem</p><p>como suporte para alimentos tem várias serventias, sendo elas:</p><p>• Conter: conter o produto. Por exemplo: cartucho longa vida para suco de laranja.</p><p>• Preservar: preservar o produto. Por exemplo: barreiras existentes no laminado.</p><p>• Facilitar: facilitar a abertura da embalagem. Por exemplo: colocação de uma tampa plástica com</p><p>selo de segurança.</p><p>• Utilizar: preservar o restante do produto não utilizado. Por exemplo: depois de servir, utiliza a</p><p>tampa plástica para fechar o recipiente.</p><p>• Servir: servir o produto aos usuários. Por exemplo: a saída do produto é prolongada para dirigir o</p><p>jato de suco de laranja para os copos dos usuários.</p><p>• Direcionar: dirigir o jato do produto ao local da necessidade. Por exemplo: produto limpador e</p><p>esterilizador dirigido para as reentrâncias da bacia sanitária.</p><p>A outra grande função da embalagem é decorativa, cujo design ajuda a atrair o consumidor.</p><p>A preocupação maior neste subtópico é com essa segunda função.</p><p>Lembrete</p><p>A semiótica considera texto realizado em linguagem verbal, mas</p><p>também não verbal. Assim, a embalagem é um texto multimodal, ou seja,</p><p>constituído de mais de uma linguagem.</p><p>De acordo com Gurgel (2014), a embalagem é um meio de comunicação que serve de estímulo para</p><p>a compra do produto, tornando‑se a etapa final de todo o processo de planejamento e execução de</p><p>marketing e venda.</p><p>111</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Mensagem a ser</p><p>comunicada ao usuário</p><p>Início de comunicação</p><p>da mensagem</p><p>Comunicação</p><p>ao usuário</p><p>A comunicação pela</p><p>embalagem</p><p>Entendimento perfeito</p><p>da primeira mensagem</p><p>A comunicação pela</p><p>propaganda</p><p>Início dos estímulos para a</p><p>comunicação da mensagem</p><p>de venda</p><p>Passagem para o usuário da</p><p>mensagem final de venda</p><p>Figura 43 – Embalagem como sistema de informação e garantia de venda</p><p>Fonte: Gurgel (2014, p. 79).</p><p>Como meio de comunicação, quatro aspectos da embalagem são fundamentais:</p><p>• a comunicação da sonoridade do nome da marca;</p><p>• a comunicação proporcionada pelo seu logo, que é a parte não pronunciável da marca;</p><p>• a comunicação proporcionada pelo pictograma;</p><p>• a comunicação proporcionada pelo padrão de cores.</p><p>Lembrando que cada segmento de mercado explora uma diferente linguagem de cores, as embalagens</p><p>dos produtos veganos, apontados no quadro 10 deste livro‑texto, também se tornam uma estratégia</p><p>para atrair o consumidor por meio das cores em sua decoração.</p><p>Segundo o especialista Farina (1986), a linguagem de cores nas embalagens segue um padrão de</p><p>maior ao menor grau de uso, partindo da cor vermelha, como mais usada, laranja, amarela, verde e azul,</p><p>marrom, preto e cinza. O critério dessa gradação decrescente deve‑se aos fatores:</p><p>• + estimulante, + sensorial, + emocionante;</p><p>• + calmante, + neutro, + diplomático.</p><p>112</p><p>Unidade II</p><p>A empresa Superbom tem o seguinte logotipo:</p><p>Figura 44 – Logotipo Superbom</p><p>Disponível em: bit.ly/3NB5Vti. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>A única informação visual, além da própria fonte das letras, é a cor vermelha, que se torna presença</p><p>no design das embalagens de seus produtos.</p><p>Figura 45 – Embalagens da marca Superbom</p><p>Disponível em: bit.ly/3r7BeEz. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>A cor vermelha é a cor que mais atrai o olhar do consumidor e é uma das mais usadas em embalagens</p><p>de alimento. No caso das embalagens exemplificadas na figura 45, verificamos que a cor vermelha está</p><p>presente no logotipo da empresa, em tampa cujo suporte tem outras cores, nos traços arredondados e</p><p>quadriculados e em determinadas informações escritas.</p><p>Além da empresa Superbom, outras listadas neste trabalho recorrem à cor vermelha. São elas: Tivva</p><p>e Bambina Doces.</p><p>A) B)</p><p>Figura 46 – Logotipos em cor vermelha</p><p>Disponível em: A) bit.ly/4384Izo; B) bit.ly/3NTrk1Y. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>113</p><p>SEMIÓTICA</p><p>A empresa Fhom criou o seguinte logotipo:</p><p>Figura 47 – Logotipo Fhom</p><p>Disponível em: bit.ly/3raabbC. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>Esse logotipo é constituído pela cor amarela, que é a terceira cor mais usada em embalagem de</p><p>produto alimentício. Trata‑se de uma cor considerada estimulante, atraindo o olhar do consumidor</p><p>para o produto.</p><p>Uma empresa que explora a cor amarela completamente, com exceção de informações escritas em</p><p>cor preta, é a empresa Flor de Sal. A cor amarela predomina tanto no logotipo quanto no design da</p><p>embalagem de seus produtos.</p><p>A)</p><p>Logotipo</p><p>B)</p><p>Embalagem</p><p>Figura 48 – Logotipo Flor de Sal e embalagem Flor de Sal</p><p>Disponível em: bit.ly/3CTIztR. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>A)</p><p>114</p><p>Unidade II</p><p>A cor amarela é muito usada em embalagens para produtos de óleos comestíveis, conforme</p><p>Gurgel (2014). As embalagens dos produtos elencados neste trabalho têm cor amarela em seu design de</p><p>embalagem de produto:</p><p>• batata palha;</p><p>• doce de banana (açaí, barra de cereal);</p><p>• maionese;</p><p>• mandioca chips;</p><p>• queijo (vegetal).</p><p>Outra cor em destaque é a verde. Das empresas elencadas neste trabalho, a única empresa que usa</p><p>verde em destaque é a Grani Amici.</p><p>Figura 49 – Logotipo Grani Amici</p><p>Disponível em: bit.ly/3rdewdU. Acesso em: 30 jun. 2023.</p><p>A empresa une as três cores mais recorrentes em embalagens: vermelha, amarela e verde.</p><p>Em relação às embalagens, dessa e das empresas analisadas, verifica‑se a presença da cor verde em</p><p>diversos aspectos do design. Como esclarece Farina (1986, p. 181), a cor verde “é geralmente usada para</p><p>recipientes contendo óleos, legumes e semelhantes, a fim de dar maior aproximação à natureza desses</p><p>produtos”. Essa cor ressalta o propósito das empresas em produzir e fornecer alimentos naturais.</p><p>115</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Quadro 10 – Embalagens com informações na cor verde</p><p>Empresa Embalagem Caracteristicas do design</p><p>Superbom</p><p>A)</p><p>Cor verde: no fundo da embalagem</p><p>e nas informações escritas sobre o</p><p>tipo de alimento</p><p>Superbom</p><p>B)</p><p>Cor verde: nas setas</p><p>de hiperinformação, as ações de seguir, curtir, taguear e comentar ganham destaque.</p><p>O ato de seguir alguém, alguma publicação ou instituição é, entre outras possibilidades, uma forma</p><p>de filtrar algo de interesse no meio de um oceano de conteúdo.</p><p>Frente ao que se segue (ou ao que é de alguma forma publicado) na rede, é possível ter diferentes níveis</p><p>de resposta: algumas acessíveis diretamente a quem publica o conteúdo – curtir, comentar, redistribuir</p><p>(sem comentar), redistribuir com comentário fundamentado (redistribuição crítica) etc.; outras não tão</p><p>diretamente acessíveis – publicações em outras redes ou espaços sem referências diretas às origens.</p><p>Adaptado de: ROJO, R.; BARBOSA, J. P. Gêneros do discurso, multiletramentos e hipermodernidade.</p><p>In: Hipermodernidade, multiletramentos e gêneros discursivos. São Paulo: Parábola, 2015.</p><p>Considerando as informações apresentadas no texto, avalie as alternativas e a relação proposta</p><p>entre elas.</p><p>I – Na web, os diferentes níveis de publicações/respostas acessíveis, direta ou indiretamente, a quem</p><p>publica o conteúdo podem ser multimodais.</p><p>porque</p><p>II – As publicações/respostas, além de poderem se basear em outros textos, podem ser acrescidas de</p><p>diferentes tipos de linguagens, como imagens, vídeos e áudios.</p><p>A respeito dessas afirmativas, assinale a opção correta.</p><p>A) As afirmativas I e II são proposições verdadeiras, e a afirmativa II justifica a I.</p><p>B) As afirmativas I e II são proposições verdadeiras, e a asserção II não justifica a I.</p><p>C) A afirmativa I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.</p><p>D) A afirmativa I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.</p><p>E) As afirmativas I e II são proposições falsas.</p><p>Resposta correta: alternativa A.</p><p>124</p><p>Unidade II</p><p>Análise das afirmativas</p><p>I – Afirmativa verdadeira.</p><p>Justificativa: na web, as publicações configuram‑se como modos multimodais de comunicação.</p><p>Vale destacar que, atualmente, há uma profusão de textos que não são apenas verbais. São comuns</p><p>composições de textos que articulem o verbal, o visual, o gestual, o sonoro – o que consiste em</p><p>“multimodalidade de linguagens”. Dito de outro modo, nas produções textuais atuais, há elementos</p><p>linguísticos cada vez mais mesclados com elementos semióticos.</p><p>A semiótica detém‑se sobre todas as construções textuais, traçadas pelo uso da linguagem escrita,</p><p>oral e/ou visual. Ela estuda os recursos linguísticos e os recursos não linguísticos, articulados, misturados</p><p>e unidos. Emerge, nesse contexto de profusão e de fusão, o conceito de multimodalidade.</p><p>II – Afirmativa verdadeira.</p><p>Justificativa: o exposto na afirmativa II é verdadeiro e ocorre porque as publicações/respostas, além</p><p>de poderem basear‑se em outros textos, podem sofrer acréscimos de diferentes tipos de linguagens,</p><p>como imagens, vídeos e áudios.</p><p>Relação entre as afirmativas: a afirmativa II é uma justificativa correta da I, pois se estabelece como</p><p>causa da primeira.</p><p>125</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>Audiovisuais</p><p>MALÉVOLA. Direção: Robert Stromberg. Estados Unidos da América: Walt Disney</p><p>Pictures, 2014, 97 min.</p><p>Textuais</p><p>ADORNO, T. A indústria cultural. In: COHN, G. (org.) Sociologia. 2. ed. São Paulo: Ática, 1994.</p><p>ARENDT, H. A crise na cultura: sua importância social e política. Entre o passado e o futuro. São Paulo:</p><p>Nova Perspectiva, 1992.</p><p>BAUMAN, Z. Vida líquida. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.</p><p>BRASIL. Decreto n. 8.727, de 28 de abril de 2016. Brasília, 2010. Disponível em: https://is.gd/LgYj7f.</p><p>Acesso em: 17 jul. 2023.</p><p>BRASIL. Lei n. 6.015, de 31 de dezembro de 1973. Brasília, 1973. Disponível em: bit.ly/42Fp3Mb.</p><p>Acesso em: 14 jun. 2023.</p><p>BRASIL. Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Brasília, 1998. Disponível em: https://shrturl.app/KcDUJB.</p><p>Acesso em: 24 jul. 2023.</p><p>CHOERI, R. C. O direito à identidade na perspectiva civil‑constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 2010.</p><p>DIAS, M. B. Intersexo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2016.</p><p>DIAS, R. Introdução à sociologia. 2. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010.</p><p>DINIZ, M. H. Curso de direito civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2007. v. 1.</p><p>EVERAERT‑DESMEDT, N. Peirce’s semiotics. Rimouski: Signo, 2004.</p><p>FAGUNDES, R. B. Uma breve análise do percurso gerativo de sentido em uma tira de Magali.</p><p>In: SILEL, v. 2, n. 2, p. 1‑8. Anais... Uberlândia: EDUFU, 2011.</p><p>FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília: UNB, 2001.</p><p>FARIAS, P.; QUEIROZ, J. Visualizando signos: modelos visuais para as classificações sígnicas de Charles</p><p>S. Peirce. São Paulo: Blucher, 2017.</p><p>FARINA, M. Psicodinâmica das cores em comunicação. 2. ed. São Paulo: Edgard Blucher, 1986.</p><p>126</p><p>FERNANDES, M. Fábulas fabulosas. Rio de Janeiro: Nórdica, 1999.</p><p>FIORIN, J. L. Elementos de análise do discurso. 8. ed. Sao Paulo: Contexto, 2000.</p><p>FIORIN, J. L. O projeto hjelmsleviano e a semiótica francesa. Galáxia, n. 5, abr., 2003.</p><p>FONTANILLE, J. As vias (e as vozes) do afeto. Galáxia, Especial 2: Algirdas J. Greimas, dez., 2019.</p><p>FONTANILLE, J. Semiótica do discurso. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2012.</p><p>GHIZZI, E. B. Introdução à semiótica filosófica de Charles Peirce: texto de apoio didático.</p><p>Campo Grande, UFMS: 2009.</p><p>GONÇALVES, C. R. Direito civil esquematizado. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2023. v. 1.</p><p>GREIMAS, A. J. Sobre o sentido: ensaios semióticos. Petrópolis: Vozes, 1975.</p><p>GREIMAS, A. J.; COURTES, J. Dicionário de semiótica. São Paulo: Contexto, 2008.</p><p>GURGEL, F. A. Administração da embalagem. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: Cengage Learning,</p><p>Rio de Janeiro: Senac, 2014.</p><p>HALL, S. A identidade cultural na pós‑modernidade. 12. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2015.</p><p>HJELMSLEV, L. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. 2. ed. São Paulo: Perspectiva, 1968.</p><p>KELLNER, D. A cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o</p><p>pós‑moderno. Bauru, São Paulo: Edusc, 2001.</p><p>KRESS, G.; VAN LEEUWEN, T. Reading images: the grammar of visual design. London, New York:</p><p>Routledge, 2006.</p><p>LAFUENTE, L. A. M. Semiose: o interpretante e a inferência de Charles Sanders Peirce. 2016. Dissertação</p><p>(Mestrado em Filosofia) – Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2016.</p><p>MACHADO, I. (org.). Semiótica da cultura e semiosfera. São Paulo: Annablume, 2007.</p><p>MANCINI, R.; GOMES, R. (org.). Semiótica do sensivel: questões do plano da expressão. Sao Paulo:</p><p>Mackenzie, 2020.</p><p>MARCHEZAN, R. C; CORTINA, A.; BAQUIÃO, R. C. (org.). A abordagem dos afetos na semiótica.</p><p>São Carlos: Pedro & João Editores, 2011.</p><p>127</p><p>MAROUN, C. R. G. B. A multimodalidade textual no livro didático de português. 2006. Dissertação</p><p>(Mestrado em Linguística) – Universidade de Brasília, Brasília, 2006.</p><p>MORETTO, M.; WITTKE, C. I.; TENO, N. A. C. (org.). Linguagem e ensino da leitura: estudos</p><p>multimodais e multiletramentos. Jundiaí: Paco, 2022.</p><p>MUCELIN, C. A.; BELLINI, L. M. Semiótica, semiose e signo: análise sígnica de uma imagem fotográfica</p><p>com base em tricotomias de C. S. Peirce. Koan: Revista de Educação e Complexidade, n. 1, jan. 2013.</p><p>NÖTH, W. A semiótica no século XX. São Paulo: Annablume, 1996.</p><p>OLIVEIRA, V. S. Poesia e pintura: um diálogo em três dimensões. São Paulo: Unesp, 1999.</p><p>ORMUNDO, J. Análise social, linguagem e globalização: uma abordagem transdisciplinar da análise</p><p>do discurso crítica. In: VIEIRA, J. A.; BENTO, A. L.; ORMUNDO, J. (org.). Discursos nas práticas sociais:</p><p>perspectivas em multimodalidade e em gramática sistêmico‑funcional. São Paulo: Annablume, 2010.</p><p>PEIRCE, C. S. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.</p><p>PEIRCE, C. S. Semiótica aplicada. São Paulo: Cengage Learning, 2018.</p><p>PEIRCE, C. S. Semiótica e filosofia. São Paulo: Cultrix, 1975.</p><p>PEIRCE, C. S. Semiótica. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010.</p><p>PEIRCE, C. S. What Pragmatism is. The essential Peirce: selected philosophical writings. Bloomington/</p><p>Indianapolis: Indiana University Press, 1998. v. 2 (1893‑1913).</p><p>PIETROFORTE, A. V. Semiótica visual: o percurso do olhar. 3. ed. São Paulo, Contexto, 2012.</p><p>RAMOS, C. M. A. Grafite, pichação e cia.</p><p>São Paulo: Annablume, 1994.</p><p>RESENDE, V. M.; RAMALHO, V. Análise de discurso crítica. São Paulo: Contexto, 2006.</p><p>SANTAELLA, L. Estética e semiótica. Curitiba: Intersaberes, 2019.</p><p>SANTAELLA, L. Semiótica aplicada. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2018.</p><p>SANTAELLA, L. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.</p><p>SANTOS, F. R. da S.; SOUZA, M. Aspectos multimodais em editoriais da Veja. In: SIMPÓSIO HIPERTEXTO</p><p>E TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO, 2., 2008. Anais [...]. Recife: UFPE, 2008.</p><p>128</p><p>SÃO PAULO. Decreto n. 58.228, de 16 de maio de 2018. São Paulo, 2018. Disponível em:</p><p>bit.ly/3NbGgH8. Acesso em: 14 jun. 2023.</p><p>SARAIVA, J. A. B.; LEITE, R. L. Exercícios de semiótica discursiva. Fortaleza: Imprensa</p><p>Universitária, 2017.</p><p>SCHIFFMAN, H. R. Sensação e percepção. Rio de Janeiro: LTC, 2005.</p><p>SILVA, T. R. B. C. Um olhar situado sobre a ecologia de saberes no Pibid: multiletramentos</p><p>críticos e formação de professores de língua inglesa. 2015. Dissertação (Mestrado em Letras)</p><p>– Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Campo Grande/MS, 2015.</p><p>SIMÕES, D.; CORREIA, C. M. C (org.). Discussões e aplicações da semiótica de extração peirceana. Rio de</p><p>Janeiro: Dialogarts, 2018.</p><p>SOUZA, A. L. S. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança: hip‑hop.</p><p>São Paulo: Parábola, 2011.</p><p>SOUZA, L. S. Introdução às teorias semióticas. Petrópolis: Vozes; Salvador: Fapesb, 2006.</p><p>SPINELLI, L. Pichação e comunicação: um código sem regra. Logos 26: comunicação e conflitos</p><p>urbanos, ano 14, 1º sem. 2007.</p><p>STF. ADI 4.275, Rel. p/ ac. Min. Edson Fachin, Informativo 892, 1º.03.2018.</p><p>THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação</p><p>de massa. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p><p>UNICEF. Declaração dos Direitos da Criança. [s.d.]a. Disponível em: https://urx1.com/2Edmk.</p><p>Acesso em: 25 jul. 2023.</p><p>UNICEF. Declaração Universal dos Direitos Humanos. [s.d.]b. Disponível em: https://l1nq.com/N1ud9.</p><p>Acesso em: 25 jul. 2023.</p><p>VAN LEEUWEN, T. A representação dos atores sociais. In: PEDRO, E. R. (org.). Análise crítica do discurso:</p><p>uma perspectiva sociopolítica e funcional. Lisboa: Caminho, 1997.</p><p>VIDA SIMPLES. Ansiedade. São Paulo, n. 246, 22 ago. 2022.</p><p>VIEIRA, J. A.; BENTO, A. L.; ORMUNDO, J. (org.). Discursos nas práticas sociais: perspectivas em</p><p>multimodalidade e em gramática sistêmico‑funcional. São Paulo: Annablume, 2010.</p><p>ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. São Paulo: Ateliê, 2011.</p><p>129</p><p>130</p><p>131</p><p>132</p><p>Informações:</p><p>www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000</p><p>como um dos mecanismos homeostáticos que</p><p>preservam a monótona reprodução da realidade.</p><p>Nessa perspectiva, a cultura tem o papel de estabilizar e conservar o modo de vida de seus indivíduos</p><p>em sociedade, conduzindo‑os a uma continuação do modus vivendi e do status quo. Sendo assim, a</p><p>cultura teria a função de conservar e repetir um estado de inércia social utilizando mecanismos que</p><p>gerem a rotina e a repetição, mantendo, portanto, uma estabilidade na realidade social dos indivíduos</p><p>de modo homogêneo, com o passar do tempo.</p><p>Adorno e Arendt insistem em descrever de maneira antropológica e ortodoxa a respeito da</p><p>cultura e da sociedade e suas relações absurdamente intrínsecas (uma sociedade = uma cultura),</p><p>sendo a cultura “uma serva” da estrutura social preestabelecida, isto é, um eficaz instrumento que</p><p>administra as inquietações e mantém os padrões sociais. Dessa maneira, é a cultura que estipula o</p><p>fluxo comportamental e o delineia para que ele possa ser controlado e a ordem possa ser mantida e</p><p>regulada de acordo com as suas premissas, sem ameaçar o equilíbrio sistêmico‑social.</p><p>O autoequilíbrio do sistema mostra que a função da cultura é nítida na realização do sonho dos</p><p>gerentes: uma verdadeira resistência à mudança. Era essa a percepção do conceito de cultura há duas</p><p>ou três décadas, porém, houve diversas situações que fizeram com que o papel da cultura fosse visto de</p><p>outras perspectivas no decorrer desse período de tempo.</p><p>Nesse período de tempo, ocorreu o que podemos compreender como uma “revolução gerencial</p><p>versão dois” conduzida sob o emblema da doutrina do neoliberalismo. De acordo com Bauman,</p><p>os gerentes passaram da regulamentação normativa para a sedução; do</p><p>monitoramento diário para as relações públicas; e do modelo panóptico</p><p>de poder, indiferente, sobrerregulamentado com base na rotina, para</p><p>a dominação exercida por meio de uma incerteza difusa, sem foco, da</p><p>precarité e de uma quebra de rotinas incessante e aparentemente casual.</p><p>E então veio o gradual desmantelamento da estrutura de serviços do</p><p>Estado a que as partes principais das políticas de vida costumavam estar</p><p>conectadas; e um deslocamento e flutuação dessas políticas para o domínio</p><p>presidido por um mercado de consumo calcado na incurável fragilidade</p><p>das rotinas  e de sua rápida substituição – suficientemente rápida para</p><p>evitar qualquer cristalização em hábitos ou normas (2009, p. 78).</p><p>Nesse novo momento, Bauman explica a transformação da relação entre gerentes e gerenciados e</p><p>aponta o limiar de algo totalmente complexo, e, até mesmo, a perda do controle da “ordem” anterior por</p><p>uma política de vida que se esvai pelas mãos do Estado através do escoamento da estrutura de serviços</p><p>e do recente desequilíbrio sistêmico‑social que, para Bauman, provém da doutrina neoliberalista.</p><p>74</p><p>Unidade II</p><p>No atual cenário, não existe necessidade em restringir ou preocupar‑se em manter a ordem por meio</p><p>de ferramentas reguladoras e de mecanismos estabilizantes para fomentar o impulso revolucionário,</p><p>forte e com sede de experimentação conhecido como “cultura”. Os gerentes dos Estados que constroem</p><p>as nações não têm mais o interesse em aparelhá‑los, e diante de hodiernos consumidores que nos</p><p>tornamos, os novos “condutores” das cordas de manipulação do teatro cultural preferem agora</p><p>absolutamente tudo, exceto que a conduta da humanidade (personagens da peça teatral) possa ser</p><p>dominada, controlada e submetida a uma rotina insípida e intransigente.</p><p>Os gerenciados da “modernidade sólida”, tidos como protagonistas da peça, deixaram os palcos</p><p>vazios e seus substitutos resistem em surgir por trás do cenário. Nesse contexto, Arendt define esse</p><p>período como de “tempos sombrios”. Esquivar‑se da política e do espaço público se transformará na</p><p>“atitude básica do indivíduo moderno, que, em sua alienação em relação ao mundo, só pode realmente</p><p>revelar‑se na privacidade e na intimidade dos encontros face a face” (BAUMAN, 2009, p. 54).</p><p>A conquista hodierna da “privacidade forçada” faz parte desses “tempos sombrios” em conjunto com a</p><p>“intimidade dos encontros face a face”. São itens indispensáveis na bagagem para essa nova aventura</p><p>ofertada aos consumidores de um mercado que visa à possibilidade absoluta da vida dos usuários no</p><p>qual ele irradia. Desse modo, o mercado capitaliza a liquidez das ordenações sociais, a debilidade dos</p><p>laços humanos e o modo paradoxal, imprevisível e volátil, sem a estabilidade das disposições sociais</p><p>anteriores de cunho ordenador e controlador, em um tempo que transcende o alcance dos cidadãos e</p><p>de um amanhã totalmente escurecido e indecifrável. Conforme Bauman:</p><p>Sob pressão, por causa da impotência, e ainda com pouca resistência, os</p><p>governos dos Estados e seus agentes abandonam as ambições de regulação</p><p>normativa de que foram acusados por Adorno e outros críticos da emergente</p><p>sociedade de massas totalmente gerenciada – colocando‑se em vez disso,</p><p>em “estado de agente” e assumindo o papel de “homens corretores” das</p><p>necessidades (leia‑se: pressões irresistíveis) do mercado (2009, p. 79).</p><p>A relação dos criadores e gerentes de cultura ocorre de maneira antagônica, porém, sem isso, a cultura</p><p>não poderia sobreviver, por mais que a intervenção desse gerenciamento se dê de maneira externa, que seja</p><p>um contraponto à ideia de criatividade cultural, utilizando‑se de ferramentas e mecanismos equilibrantes e</p><p>estabilizadores da ordem. Nesse momento, os gerentes dispõem de novos critérios, pois, agora, são agentes das</p><p>forças do mercado, e não mais dos poderes do Estado construtor de uma nação, para desempenhar esse novo</p><p>papel. Os agentes trabalham com o objetivo de “monitorar” seus gerenciados para que atendam aos requisitos</p><p>do mercado de consumo, que visa essencialmente o consumo, a satisfação e o lucro instantâneos.</p><p>Logo, esse mercado não foi pensado com a finalidade de atender o que for eterno e durável em longo</p><p>prazo. Seria totalmente contraditório, por se tratar do suprimento de demandas que tenham caráter</p><p>efêmero, momentâneo, e de mercadorias que tenham sua vida útil reduzida com o propósito de rápido</p><p>descarte tencionando a próxima aquisição nesse mercado de consumo que propaga a rápida circulação</p><p>de seus bens, produtos e serviços. O fluxo é contínuo nesse tráfico de mercadorias, o destino de seus</p><p>bens está vinculado ao ciclo do comércio, e, por esse motivo, os bens necessitam, obrigatoriamente,</p><p>apresentar um teor descartável.</p><p>75</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Nesse contexto, podemos nos perguntar sobre o futuro da cultura na sociedade líquido‑moderna.</p><p>Como a cultura poderia sobreviver ao fim da durabilidade, de tudo que antes tendia ao infinito e eterno?</p><p>Não sabemos a resposta nessa “era da incerteza”. Quando a criatividade cultural passa a atender critérios</p><p>mercadológicos e de consumo, os bens são subordinados a outros ideais quanto à durabilidade. É preciso</p><p>que tais critérios sejam atraentes o suficiente para satisfazer o “cliente”, gerar lucro, que logo em seguida</p><p>traçará seu destino até o depósito de lixo por ter se tornado obsoleto, de modo que o ciclo continuará</p><p>com um novo produto, mais atual e com novas promessas, também de caráter instantâneo.</p><p>Parece que atualmente os clientes detêm o poder financeiro de decisão sobre os produtos e serviços</p><p>ofertados, assim como os artefatos culturais que se tornaram mercadorias. As criações culturais são agora</p><p>divididas entre as de “sucesso” e as “fracassadas” e podem ser definidas através do número de vendas,</p><p>resultados e recomendações dos clientes. Os best‑sellers são livros que venderam em grande quantidade</p><p>(o que agora define o sucesso da obra, e não necessariamente apenas seu conteúdo literário e estético).</p><p>Bauman apresenta o paradoxo da “boa arte”,</p><p>os teóricos e críticos da arte contemporânea não conseguiram estabelecer</p><p>uma correlação entre as virtudes de uma criação cultural e seu status de</p><p>celebridade e o poder da marca, do logotipo que projeta o incipiente object</p><p>d’art da obscuridade para as luzes da ribalta (2009, p. 81).</p><p>Diante</p><p>de tantos postulados complexos sobre cultura, a semiótica volta‑se à cultura como objeto de</p><p>estudo. Sua perspectiva é o sistema semiótico e considera a cultura:</p><p>• sistema de textos: perceptivo, de armazenagem e divulgação de informações.</p><p>• sistema (um grande texto): mito, religião, literatura, teatro, artes, arquitetura, música, cinema,</p><p>moda, ritos e comportamentos.</p><p>5.2 Semiosfera</p><p>A cultura é considerada um organismo, em que aspectos biológicos não se separam dos aspectos</p><p>culturais, que marcam o homem no mundo, assim, para a semiótica da cultura, a cultura ocorre</p><p>na semiosfera.</p><p>Semiosfera é um escopo de processos de signos culturais. Trata‑se de um espaço que possibilita a</p><p>realização dos processos comunicativos e a produção de novas informações, funcionando como um</p><p>conjunto de diferentes textos e linguagens (MACHADO, 2007).</p><p>O conceito de semiosfera está ligado à ideia de fronteira e de simetria especular. Nesse sentido,</p><p>fronteira define a relação entre aquilo que está dentro e aquilo que está fora do espaço semiótico.</p><p>A simetria especular, por sua vez, é a própria ideia da semiosfera enquanto intercâmbio dialógico.</p><p>76</p><p>Unidade II</p><p>Observação</p><p>Uma das bases da semiótica da cultura consiste nas ideias do russo</p><p>Mikhail Bakhtin, que constatou as diversas vozes em um texto, marcando o</p><p>que ele chama de dialogismo.</p><p>A simetria especular é um dos princípios estruturais de organização interna do dispositivo gerador</p><p>de sentido; aparecendo nela o fenômeno do duplo, da intratextualidade e o dialogismo, fundamento de</p><p>todo o processo gerador de sentido.</p><p>Na semiosfera, o grau de organização da cultura está na passagem da organização interna para</p><p>a desorganização externa, do caos para a ordem, daí podermos chamá‑la de contínuo semiótico.</p><p>Podemos configurar a semiosfera como na imagem a seguir.</p><p>Semiosfera</p><p>Centro</p><p>Periferia</p><p>Figura 34 – Semiosfera e relação</p><p>A semiosfera é constituída de dois espaços culturais: centro e periferia. Cada espaço está identificado</p><p>por uma flecha. Os movimentos culturais podem ocorrer em cada espaço, de maneira mais estática e</p><p>inflexível, ou, mais regularmente, podem se movimentar de um espaço para outro, influenciando e se</p><p>reorganizando, representados pelas flechas de sentidos opostos.</p><p>O movimento na semiosfera é em torno das organizações coletivas regidas pelas diferentes culturas.</p><p>No centro, estão culturas mais respaldadas e difundidas, e nas periferias estão as situações mais</p><p>controversas, emergentes e as inovações.</p><p>77</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Um movimento cultural pode se formar no centro da semiosfera, sendo, portanto, aceito pelo grupo</p><p>social dominante, mas, se insinuar na periferia desse espaço. O movimento pode ocorrer igualmente da</p><p>periferia para o centro.</p><p>O processo da passagem do centro para a periferia ou da periferia para o centro é de assimilação, que</p><p>consiste de cinco etapas. No início, os textos (lembrando que cultura é considerada um texto ou grande</p><p>texto) são percebidos como estranhos, alheios pela cultura‑receptora. Depois, há o processo da adaptação</p><p>mútua entre os textos importados e a cultura‑receptora, resultando em traduções e adaptações.</p><p>Inicia‑se a ideia de que na cultura‑emissora esses textos não encontraram a sua verdadeira realização,</p><p>porém a encontrarão dentro da cultura receptora. Nesse contexto, cresce a inimizade em relação à</p><p>cultura‑emissora.</p><p>Outra etapa consiste em novos textos, que se dissolvem por completo na cultura‑receptora, que então</p><p>começa a produzir os seus próprios textos, baseados nos códigos culturais dos textos assimilados. Por</p><p>fim, a cultura receptora torna‑se emissora dos seus próprios textos, que se dirigem às regiões periféricas</p><p>da semiosfera e que, por sua vez, provavelmente serão exportados para outras semiosferas. No tópico 6,</p><p>apresentamos situações culturais que mostram os limites entre centro e periferia.</p><p>6 SEMIÓTICA DA CULTURA APLICADA</p><p>Tomemos o contexto das comunidades escolares públicas da cidade de São Paulo. Mapeamos</p><p>movimentos culturais não aceitos pela comunidade escolar e os caracterizamos quanto à configuração de</p><p>identidade de um grupo social. Esses movimentos delimitam‑se a manifestações da linguagem artística,</p><p>como música, manifestações visuais, dança e escrita, uma vez que a cultura é muito abrangente e</p><p>envolve desde o mundo da arte até os costumes alimentares. De modo geral, esses movimentos culturais</p><p>selecionados são de rua.</p><p>Nós convivemos diariamente com muitos alunos em ambiente escolar e observamos suas tentativas</p><p>de levar à escola sua realidade cultural. Além dessa observação, adotamos dois importantes critérios:</p><p>a relevância para os alunos de um determinado movimento cultural e a constância desse movimento.</p><p>As imagens expostas neste tópico foram obtidas de arquivo próprio, ou seja, são fotografias tiradas</p><p>por nós, não necessitam de autorização para serem veiculadas, são por exemplo, de muros, tomando‑se</p><p>o cuidado de não mostrar exatamente o local/rua.</p><p>6.1 Pichação: onipresença e confronto legal</p><p>A pichação é um dos movimentos culturais mais recorrentes entre os movimentos de rua. A sociedade</p><p>convive com a pichação nas ruas, em lugares públicos e em espaços privados (muros de casas, por</p><p>exemplo). Encontramos pichações nos muros, nos altos dos edifícios, em bancos e janelas de vidro dos</p><p>ônibus; feitas à caneta, à tinta‑spray, a estilete.</p><p>78</p><p>Unidade II</p><p>A)</p><p>B)</p><p>Figura 35 – Grafia de pichação – Jardim Ângela/Zona Sul</p><p>Os pichadores organizam‑se em grupos, cuja identificação é por meio da escrita diferenciada.</p><p>Contudo, por maior que seja o número de integrantes, todos usam a mesma tipografia adotada pelo</p><p>grupo de que fazem parte, e, após criarem o estilo de grafia das letras, também adotam uma marca</p><p>pessoal, a qual chamam de picho. Fora essa marca, o grupo adota uma outra, que denomina grife – a</p><p>marca do grupo. Além de pichar a grife do grupo, eles também assinalam junto o seu picho, ou seja,</p><p>a sua marca para que os outros integrantes saibam qual foi o integrante que pichou naquele espaço.</p><p>Muitas vezes estão em mais de um, o que não quer dizer que não ajam até mesmo sozinhos, apesar</p><p>das disputas pelo maior número de pichações, em parceria com outras grifes, ou seja, existem grupos</p><p>que se aliam a outros com o propósito de maior divulgação das grifes. Essa organização surgiu pela</p><p>necessidade de aumentar o número de pichações e, assim, tornar mais conhecida a grife, bem como</p><p>o próprio pichador.</p><p>79</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Figura 36 – Folhinha com pichos</p><p>A figura 36 é uma folhinha com pichos de diferentes grupos, do bairro do Jardim Ângela, de São</p><p>Paulo. Nela, observamos a tipografia semelhante à rúnica.</p><p>Spinelli comenta sobre a questão da comunicação na pichação: “Essa relação com o bairro</p><p>acompanha a pichação como um dado complementar e manifesta uma afirmação de pertencimento</p><p>a determinada região da cidade” (2007, p. 114). Essa comunicação não é só de âmbito local, pois os</p><p>pichadores atravessam a cidade, em busca de outros alvos de melhor visibilidade, para pichar. Inclusive</p><p>em outras zonas e até no interior e em outros estados. Onde houver uma oportunidade, lá estarão com</p><p>a lata ou rolo (rolinho de pintura) na mão e, por meio dessa comunicação interna entre os pichadores,</p><p>divulgam a grife e informam o bairro e a zona de origem, identificando por meio de siglas a região de</p><p>origem: “Essa menção é feita em geral na forma de uma abreviatura como, por exemplo, Z/N para a zona</p><p>norte” (SPINELLI, 2007, p. 114).</p><p>Segundo Lara (apud SPINELLI, 2007, p. 114):</p><p>Para identificar uma pichação, coloca‑se ao lado dela uma indicação</p><p>pessoal ou do grupo que a realizou. Uma pichação é, portanto, rodeada</p><p>de comentários que indicam sua procedência, as pessoas que a realizam,</p><p>se foram convidadas ou participam do grupo. No caso de pichadores que</p><p>reaparecem ou de marcas retomadas depois de terem sido abandonadas, é</p><p>comum usar‑se a expressão “estamos de volta”.</p><p>80</p><p>Unidade II</p><p>A prática da pichação está fortemente presente não somente no meio dos adolescentes, como</p><p>também entre os adultos. Há pichadores que já são pais de família e que continuam pichando e</p><p>seguindo os pensamentos ideológicos dos grupos dos quais fazem parte. Alguns passam a sua marca</p><p>para pichadores iniciantes e param de pichar, no entanto, garantem a continuação da existência do</p><p>seu picho; outros decidem parar sem promover nenhum sucessor, ficando assim suas marcas limitadas,</p><p>geograficamente falando, ao seu período de prática, podendo sumir com o passar dos anos. No entanto,</p><p>uma marca de pichador ou grife pode até desaparecer por não ter um sucessor para continuar pichando,</p><p>mas a ideologia do grupo social dos pichadores permanece sendo cultivada pelos novos que surgem. Em</p><p>relação aos alunos do ensino básico, das periferias da cidade de São Paulo, a convivência com a pichação</p><p>estende‑se à prática por muitos deles e ocorre dentro das salas de aula.</p><p>Ao analisar a questão do grupo social dos pichadores e suas ideologias, o motivo da existência de</p><p>pichação deve‑se, segundo os próprios pichadores, à busca pela visibilidade social. Daí a preocupação em</p><p>perpetuar a ideologia, pois se o sujeito só existir por meio desta e ela chegar a desaparecer, teoricamente,</p><p>logo um grupo de sujeitos passaria a ser um grupo de “indivíduos”, pois não haveria para eles sentido</p><p>diante da irrelevância do sujeito em si.</p><p>A pichação marca contraste entre o certo e o errado, entre dois extremos que a sociedade construiu</p><p>com base naquilo que é legitimado por ela como vandalismo e arte. A lei disposta no art. 65 da Lei de</p><p>Crimes Ambientais – Lei n. 9.605/1998 –, caracteriza a pichação como crime ambiental, devido aos</p><p>componentes químicos que há na tinta‑spray e que prejudicam o meio ambiente, tem pena de detenção</p><p>de 3 meses a 1 ano mais multa, e, caso seja feita em monumento histórico, aumenta‑se a pena para</p><p>6 meses a 1 ano mais multa (BRASIL, 1998).</p><p>Enfim, pichação é um movimento cultural outsider por romper com as normas sociais. Na</p><p>semiosfera proposta por Lotman, esse movimento está na periferia e é considerado ilegal para os</p><p>movimentos culturais do centro. A sociedade recorre ao controle social formal, bem como é formal a</p><p>sanção aplicada.</p><p>6.2 Funk: fluxos de rua</p><p>O funk é um estilo musical, cuja origem marca grupos sociais desfavorecidos economicamente.</p><p>Esse ritmo tornou‑se, então, uma oportunidade de ascensão social, e muitos MCs cantam sobre</p><p>sucesso. Em São Paulo, desde a primeira década do século atual, uma vertente do funk abandonou</p><p>a agressividade de suas letras e passou a valorizar bens de consumo, tornando‑se conhecida como</p><p>funk ostentação. Esse subgênero surgiu no bairro Cidade Tiradentes, localizado na Zona Leste, mas</p><p>extrapolou esse limite.</p><p>A plataforma Spotify fez um mapa sobre o crescimento de consumo de funk. Desde 2016, houve</p><p>aumento de mais de 4.000% no Brasil. Na cidade de São Paulo, o funk, como estilo musical e de dança,</p><p>ocorre abundantemente nas ruas, nomeado inicialmente de “pancadão”, sendo chamado de fluxo.</p><p>81</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Figura 37 – Fluxo da Itaipava e Fluxo do Pastão – Brasilândia, Zona Norte, São Paulo/SP</p><p>Os fluxos são nomeados, tal como verificamos na figura 37, e realizados em espaço público ou na</p><p>rua. Diferentemente dos bailes de salão, os fluxos não contam com presença de MCs famosos nem com</p><p>um dono (como os de bailes) ou promotor. Os frequentadores dos fluxos não pagam para entrar, como</p><p>acontece em salões, em que o consumo de bebidas e alimentos só pode ser do local. Nos fluxos, quem</p><p>possui carro disponibiliza as músicas; há trailers para venda de bebidas ou lanches; os frequentadores</p><p>também compram bebidas nos supermercados e as levam ao local, ou seja, os fluxos não se caracterizam</p><p>por uma única organização.</p><p>Os convites para participar dos fluxos são feitos em redes sociais. Entre os endereços existentes,</p><p>há a página no Facebook “Fluxo das quebradas ZN”, criada com o objetivo de divulgar todos os fluxos</p><p>de São Paulo.</p><p>O funk é um estilo alegre, não down, como muitas letras de rock. Os fluxos, por sua vez, são um meio</p><p>de encontro e diversão. Podemos afirmar que é uma marca da identidade, senão especificamente do</p><p>pobre da periferia da cidade, mas dos frequentadores em geral.</p><p>Apesar de seu crescimento, o funk e seus movimentos de rua não são aceitos pela sociedade em geral.</p><p>Assim como a pichação, o funk, os fluxos e os bailes são vistos sob a perspectiva da criminalização. Esses</p><p>movimentos culturais de rua foram associados ao imaginário da população como fator de incitação à</p><p>violência e à profanação do corpo, principalmente feminino.</p><p>Em geral, esses famosos fluxos das periferias de São Paulo, as festas de música eletrônica, as rodas</p><p>de hip‑hop, as batalhas de MCs são enquadrados como ambiente de caráter policial e, portanto,</p><p>reprovados pela sociedade. Sofrem sanções informais, desde a reprovação de pais e moradores até</p><p>batidas policiais.</p><p>O funk e os bailes de salão não são exclusivos de um grupo socioeconômico de periferia da cidade.</p><p>Há bailes cujos frequentadores são mais abastados. Nesse contexto, podemos levantar a hipótese de que</p><p>a discriminação não é contra o funk em si, mas contra o grupo social encontrado na periferia.</p><p>82</p><p>Unidade II</p><p>Podemos entender, conforme Hall (2015), que esse movimento cultural de rua é um exemplo de</p><p>que a cultura não é um estrato imutável, encapsulado pelas formas da cultura escolar dominante. Esse</p><p>movimento representa o descentramento da cultura em novo espaço.</p><p>6.3 Hip‑hop: expressão da periferia e consumo fetichista</p><p>O movimento hip‑hop abrange três manifestações culturais: a música (o rap), a dança (o break)</p><p>e as artes plásticas (o grafite). Sua formação é inerente ao próprio espaço urbano, tendo surgido</p><p>na periferia dos bairros pobres de Nova Iorque. No Brasil, o hip‑hop vem se manifestando desde o</p><p>fim da década de 1970 como forma emergente em uma cidade em declínio (o quadro econômico e</p><p>político se estendia pelo país), com falta de emprego, sob regime autoritário e inflação. Nesse cenário</p><p>de sobrevivência, de acordo com Souza (2011), o hip‑hop passou a atender à necessidade de lazer,</p><p>sociabilidade e circulação cultural.</p><p>Saiba mais</p><p>Os movimentos populares contemporâneos, como o grafite, são</p><p>analisados com muita propriedade na obra de Souza.</p><p>SOUZA, A. L. S. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música,</p><p>dança: hip‑hop. São Paulo: Parábola, 2011.</p><p>Bem como o funk, a marca do hip‑hop como cultura de rua é a imposição de um modo de viver.</p><p>A dança break favorece a formação de grupos, para, coletivamente, elaborar e ensaiar as coreografias,</p><p>e, por consequência, sustenta a noção de pertencimento à comunidade. A qualidade na destreza da</p><p>dança é vista nas participações em competições, chamadas batalhas, que revelam talentos e impõem</p><p>respeito e poder àqueles que se destacam. Alguns alunos‑informantes participam de eventos como</p><p>mestre/a de cerimônia (MC), declamando ou cantando poesia de sua autoria. Em geral, ainda segundo</p><p>esses alunos, as poesias tratam do contexto social e cultural.</p><p>No entanto, ao contrário do funk, o hip‑hop tem como principal objetivo adquirir reconhecimento</p><p>de uma arte séria que proporciona, até mesmo dentro das escolas, o compromisso e a responsabilidade</p><p>com a vida, seja ela pessoal ou profissional. Esse movimento visa levar a todos o prazer de conhecer a</p><p>arte por meio da distração.</p><p>Nesse movimento existem grupos que despertam interesse de crianças e adultos nas comunidades,</p><p>devido à dança, aos movimentos com o corpo e à união coletiva na busca de uma arte que leva para</p><p>as ruas entretenimento, conhecimento e disciplina. Tais grupos ganharam destaque com o passar dos</p><p>anos, pois sua arte agrega uma identidade ideológica presente hoje, ou seja, a desigualdade social, bem</p><p>como desenvolve o lado estético.</p><p>Uma característica do grafite, por exemplo, é a relação da temática com a estética, todavia sem</p><p>ferir (não ser considerado vandalismo, por exemplo) o espaço urbano no qual se situa sua arte. Como</p><p>83</p><p>SEMIÓTICA</p><p>toda arte, uma manifestação</p><p>de momento, da época em que ela está contextualizada, o grafite é uma</p><p>expressão plástica, figurativa e abstrata. O grafiteiro utiliza o traço para a definição de formas, e sua</p><p>obra é de natureza gráfica e pictórica. O grafiteiro improvisa pouco, porque mantém a criatividade sob</p><p>o aspecto formal, em relação a cor, traços, tinta, pintura, ambiente.</p><p>Figura 38 – Esboço de grafite</p><p>O grafiteiro fica atento à cidade para buscar inspiração para a sua criatividade, mas sem perder a</p><p>habilidade nos instrumentos que compõem seu trabalho, como brochas e materiais de “sprayações“.</p><p>Como diz Ramos (1994, p. 53),</p><p>o grafiteiro é como um coreógrafo do urbano que tem a cidade como pano</p><p>de fundo, como cenário, e seus transeuntes e/ou habitantes são como</p><p>espectadores da cena cotidiana.</p><p>Do cenário urbano, o grafiteiro retira o som, os gestos, o visual, tornando‑se, ao mesmo tempo,</p><p>o artista e o contemplador da arte que depreende da sociedade. Por conseguinte, o grafiteiro como</p><p>cidadão e usuário da cidade absorve a fonte inspiradora e depois transforma tudo em arte. Assim,</p><p>utiliza‑se de seus traços ou desenhos no próprio ambiente urbano, embora não faça uso de todo o</p><p>espaço ao seu redor. Seus grafites muitas vezes fluem num pequeno espaço; as ideias, os costumes, isto</p><p>é, as tendências, são escolhas suas e recebem influências do cotidiano.</p><p>Nesse sentido, o grafite é arte sedimentada na cultura sob um processo de cultura popular, que passa</p><p>invariavelmente pelas inúmeras possibilidades de comunicação dos tempos atuais. Essa arte motiva o</p><p>público por meio de sua assimilação espontânea, mesmo que fuja do padrão da sociedade, pelo menos</p><p>em relação ao objeto que o grafite propõe.</p><p>84</p><p>Unidade II</p><p>Em relação ao movimento hip‑hop, há um importante aspecto observado neste estudo. Trata‑se</p><p>da relação que essa cultura passou a ter com outros grupos sociais. Como movimento de resistência à</p><p>situação social, política e cultural em sua origem, o hip‑hop também se configurou como movimento</p><p>outsider. Contudo, diferentemente dos movimentos anteriores apontados aqui, o controle social sofreu</p><p>mudança: de não aceitação, em sanção informal, a aceitação.</p><p>Corroboramos o hip‑hop como movimento da periferia da semiosfera, mas em processo de</p><p>interação com determinadas situações sociais do centro semiosférico. Uma delas é a própria escola,</p><p>a outra é a mídia.</p><p>Em uma sondagem bibliográfica rápida, levantamos reportagens e artigos científicos sobre</p><p>a presença do hip‑hop nas escolas em diversos locais do país, incluindo a cidade de São Paulo.</p><p>Já houve planos de aula com a inserção de letras de raps em aulas de língua portuguesa, artes e</p><p>literatura; criação de grafite em muros de escolas; apresentações, como saraus, de break, recitação</p><p>de poesia e competição de MCs.</p><p>A figura 38 é um exemplo dessa interação aluno‑escola. O desenho é de uma aluna, que, depois de</p><p>uma aula de língua portuguesa, em que leu o texto “Se os tubarões fossem homens”, de Bertolt Brecht,</p><p>teve a ideia de transcodificá‑lo em linguagem visual e fez um esboço para o futuro grafite.</p><p>A relação entre hip‑hop e mídia o expandiu. A programação das rádios mudou para abranger o estilo</p><p>rap, bem como o surgimento de programas voltados ao hip‑hop aumentou. O comércio, as lojas e os</p><p>editoriais de moda passaram a vender o “estilo” hip‑hop. Filmes, documentários etc. tematizaram esse</p><p>movimento, colaborando com a expansão do hip‑hop via mídia.</p><p>Formou‑se um novo público, constituído pelas classes sociais média e alta, tornando o hip‑hop não</p><p>apenas um movimento cultural, mas uma mercadoria fetichizada. Concordamos com Kellner (2001,</p><p>p. 248), quando o autor faz a seguinte análise:</p><p>Ao cair na esfera do consumo, ao se tornar um produto cultural, portanto,</p><p>o rap pode facilmente transformar‑se numa mercadoria fetichizada e</p><p>num modo de assimilação. Suas técnicas também têm sido usadas em</p><p>propagandas de tênis, carros e até alimentos [...]. No entanto, todas as</p><p>mercadorias comercializadas têm dois gumes, ou até mais. O rap mercadoria</p><p>pode divulgar modos irreverentes de agir e pensar, dando força na luta</p><p>contra o sistema de opressão. Pode funcionar apenas como amenidade</p><p>e um divertimento, sendo cooptado para finalidades conservadoras.</p><p>Esse consumo fetichista levanta a questão, de um lado, de que a cultura é dinâmica, e as esferas</p><p>sociais centro‑periferia podem tramitar e modificar‑se na sua interação; de outro, nesse caso específico,</p><p>pode levar à perda da identidade no risco de homogeneização do seu público.</p><p>No ambiente escolar das periferias da cidade de São Paulo, percebemos que existe um distanciamento</p><p>entre o programa de ensino e a realidade dos alunos.</p><p>85</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Ao contrário do reconhecimento social dado ao conteúdo escolar, a realidade cultural dos alunos é</p><p>considerada periférica no sistema da semiosfera, opondo‑se, então, à cultura estabelecida no centro da</p><p>semiosfera. Como consequência, a cultura dos alunos sofre controle por parte da própria escola e da sociedade</p><p>em geral por meio de sanções desde atitudes sutis, como a desaprovação, até a reclusão em prisão.</p><p>Contudo, verificamos a existência de vários e diferentes movimentos culturais e de movimentos</p><p>culturais não escolares. Esses movimentos culturais da periferia mostram‑nos a configuração do cenário</p><p>urbano com novos signos os quais marcam a formação identitária dos grupos sociais outsiders.</p><p>Entre a instituição (a escola), a localidade geopolítica (periferia) e os movimentos culturais da</p><p>periferia da semiosfera, compreendemos alguns aspectos. Um deles é o afastamento entre a cultura</p><p>do centro e periferia da semiosfera. O afastamento é mantido principalmente por tomadas de sanções</p><p>reprovadoras contra as pessoas que assumem essa cultura e, como consequência, além do próprio</p><p>afastamento, é a condição de marginalidade dos movimentos outsiders.</p><p>Outro aspecto relaciona‑se com a concepção de Hall (2015) sobre a cultura. Longe da noção de</p><p>cultura imutável, torna‑se fenômeno de transformações, em que sucedem descentramentos culturais.</p><p>A cultura configura‑se em novos contornos e, para compreendê‑la, é preciso identificar os novos</p><p>movimentos culturais, caracterizar os contornos locais e conhecer os novos sujeitos.</p><p>O descentramento leva a outro aspecto da relação triádica. Os movimentos culturais outsiders</p><p>provocam o deslocamento de antigas hierarquias e o enfrentamento contra os setores estabelecidos.</p><p>Por fim, os movimentos culturais da periferia da semiosfera sustentam a construção identitária com</p><p>novas formas de percepção e validação das práticas sociais.</p><p>7 SEMIÓTICA SOCIAL E IDENTIDADES SOCIAIS</p><p>7.1 Caracterização dos atores sociais no discurso</p><p>A semiótica social estuda o signo em situações efetivas de uso da linguagem. Para tal, segue a</p><p>concepção de linguagem da linguística, que considera as identidades estabelecidas e relacionadas entre</p><p>si (FAIRCLOUGH, 2001). A função da linguagem, nesse caso, é identitária e se relaciona aos modos</p><p>pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso. Devido à relação entre as identidades,</p><p>outra função é relacional, voltada para como as relações sociais entre os participantes do discurso</p><p>são representadas e negociadas. Por fim, a linguagem tem outra função, denominada ideacional, pois</p><p>representa o modo como os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações.</p><p>Conforme Resende e Ramalho (2006, p. 56),</p><p>a ênfase na construção [das identidades] desvela a importância da</p><p>função identitária na linguagem, porque os modos de construção e</p><p>categorização de identidades em uma dada sociedade refletem seu</p><p>funcionamento no que concerne às relações de poder, à reprodução</p><p>e à mudança social.</p><p>86</p><p>Unidade II</p><p>O discurso integra três modos como parte de práticas sociais, numa relação de textos e eventos. O modo</p><p>de agir corresponde ao significado acional, focalizando o texto como (inter)ação em eventos sociais.</p><p>Está ligado à função relacional porque a ação legitima e questiona relações sociais. O modo de representar,</p><p>por sua vez, corresponde ao significado representacional e enfatiza aspectos do mundo físico, mental</p><p>e social em textos. Está ligado à função ideacional. Por fim, o modo de ser corresponde ao significado</p><p>identificacional e ainda ao que diz respeito à construção e negociação de identidades no discurso.</p><p>Está ligado à função identitária.</p><p>O modo como os atores sociais estão representados em um texto indica o posicionamento ideológico</p><p>que existe entre eles e suas atividades, o que pode ofuscar, enfatizar ou gerar um julgamento a respeito</p><p>do que são ou do que fazem, dando base à descoberta de ideologias em textos e interações, conforme</p><p>conceituação de Van Leeuwen (1997).</p><p>A representação dos atores sociais é concretizada por realizações linguísticas específicas. São vários</p><p>modos, porém, somente alguns serão explicitados aqui.</p><p>A representação por nomeação, em que os nomes próprios dos atores sociais são citados, valoriza</p><p>o autor nomeado; personagens “sem nome” não são identificados pelo leitor. Nomear o autor é um</p><p>ato político, pois influencia a opinião pública, que pode se posicionar contrária ou favorável a personalidades</p><p>e acontecimentos.</p><p>A impersonalização por autonomização também pode encobrir ideologias, já que os atores sociais</p><p>são representados por uma referência aos enunciados, tornando‑os impessoais.</p><p>Quantificar os atores sociais por meio de dados estatísticos – agregação – é uma análise de</p><p>potencial ideológico, pois regulamenta práticas e induz a um consenso, mesmo que seja um simples</p><p>registro de dados.</p><p>Na análise de significado representacional, temos ainda o “significado da palavra”, que demonstra</p><p>como os sentidos referentes a elas entram em disputa em lutas mais amplas, dando a ideia de que “as</p><p>estruturações particulares das relações entre os sentidos de uma palavra são formas de hegemonia”</p><p>(FAIRCLOUGH, 2001, p. 105). Os significados não são individuais, e sim construídos e contestados</p><p>socialmente. A relação entre palavra e significado envolve instabilidade e variações, já que pode gerar</p><p>conflitos tanto de significação quanto de ideologias quando investidos.</p><p>Van Leeuwen traz uma descrição sociossemântica dos modos como podem ser representados</p><p>os atores sociais no discurso. Essa descrição tem base nos estudos da semiótica social, a qual é</p><p>desenvolvida pelo autor.</p><p>Quando se analisam as formas como os atores sociais estão representados num discurso, recorre‑se à</p><p>noção de agência. Os atores sociais podem atuar como agentes ou pacientes, dependendo do contexto –</p><p>uma situação de agência sociológica ou da agência linguística. O ator social pode ser marcado no</p><p>nível gramatical como agente ator, experienciador, dizente, entre outros papéis, além de pronomes</p><p>possessivos ou de sintagmas preposicionais. Ressalta‑se, contudo, que o ator social não é um conceito</p><p>linguístico, mas, apesar disso, as representações sobre ele se ligam a realizações linguísticas.</p><p>87</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Quadro 6 – Formas de representação dos atores sociais</p><p>Categoria</p><p>sociológica Tipo e/ou definição Como se realiza</p><p>Exclusão</p><p>Supressão Exclusão total do ator social</p><p>— apagamento do agente da passiva</p><p>— orações infinitivas que funcionam</p><p>como um participante gramatical</p><p>— nominalizações</p><p>— adjetivos</p><p>Encobrimento</p><p>(segundo plano)</p><p>Exclusão parcial do ator social</p><p>— apagamento do agente da passiva</p><p>— orações infinitivas que funcionam</p><p>como um participante gramatical</p><p>— nominalizações</p><p>— adjetivos</p><p>— elipses</p><p>Inclusão</p><p>Ativação Ator social representado como força ativa</p><p>numa atividade</p><p>— papéis gramaticais participantes</p><p>— (ator, experienciador, dizente,</p><p>comportante, atribuidor)</p><p>— circunstancialização</p><p>Passivação Ator social representado se submetendo à atividade</p><p>ou sendo afetado por ela</p><p>— papéis gramaticais participantes</p><p>(meta, fenômeno, portador)</p><p>— circunstancialização</p><p>— possessivação</p><p>Genericização Atores sociais representados como classes</p><p>— plural sem artigo definido</p><p>— singular com artigo definido</p><p>— tempo presente (ações habituais,</p><p>universais)</p><p>Especificação</p><p>Individualização</p><p>— singularidade</p><p>— dados identificadores</p><p>Assimilação</p><p>Coletivização</p><p>— pluralidade</p><p>— substantivo que denota grupo de</p><p>pessoas</p><p>Agregação — quantificação (maioria, grande parte,</p><p>minoria etc.)</p><p>Personalização</p><p>Indeterminação – atores sociais não especificados,</p><p>anônimos</p><p>— pronomes indefinidos com função</p><p>nominal (todos, alguém, ninguém etc.)</p><p>Diferenciação</p><p>– indivíduos</p><p>ou grupos</p><p>identificados</p><p>Nomeação — nomes próprios (primeiro nome,</p><p>sobrenome)</p><p>— honoríficos</p><p>Categorização</p><p>Funcionalização</p><p>Parentesco</p><p>Espacialização</p><p>— papéis participantes e processos que</p><p>denotam filiação, tipo de parentesco etc.</p><p>— papéis participantes e processos que</p><p>denotam lugares específicos</p><p>— possessivação</p><p>— circunstacialização</p><p>Impersonalização</p><p>Abstração – atores sociais representados por uma</p><p>qualidade</p><p>papéis participantes (atributos)</p><p>— circunstancialização</p><p>Objetivação – atores sociais</p><p>representados por uma</p><p>referência metonímica</p><p>Somatização</p><p>— papéis participantes</p><p>— circunstancialização</p><p>— possessivação</p><p>Autonomização do</p><p>enunciado</p><p>— papéis participantes</p><p>— circunstancialização</p><p>Referência à</p><p>instituição</p><p>— papéis participantes</p><p>— circunstancialização</p><p>88</p><p>Unidade II</p><p>O modelo teórico de Van Leeuwen (1997) concentra‑se basicamente na identificação dos</p><p>agentes em processo de exclusão ou inclusão. O processo de exclusão não marca o agente no texto.</p><p>Quando o ator social não é mencionado, ocorre uma supressão. Esse processo pode deixar marcas</p><p>pouco visíveis no texto ao mencionar de forma ambígua ou indireta o ator social, deixando‑o</p><p>em segundo plano. O processo de inclusão, ao contrário do primeiro, marca com grande força a</p><p>representação dos atores sociais. Contudo, as representações e as relações dos atores sociais no</p><p>discurso não refletem a prática social, ou seja, “não é necessário que haja congruência entre o</p><p>papel que os atores sociais desempenham, de fato, em práticas sociais e os papéis gramaticais que</p><p>lhes são atribuídos no discurso” (VAN LEEUWEN, 1997, p. 186). Utiliza‑se a ativação quando o ator</p><p>tem um papel ativo, sendo representado como dinâmico com relação ao evento. A passivação é</p><p>atribuição de um papel passivo, e o ator social sofre uma ação não produzida por ele, tornando‑se</p><p>um sujeito da passividade (sujeição) ou beneficiado com a passividade (beneficiação).</p><p>Ainda no processo de inclusão, há a representação por genericização e por especificação. A primeira</p><p>marca os atores sociais em classes ou grupos, e a especificação individualiza o ator social, distinguindo‑o</p><p>por assimilação (por agregação ou por coletivização). No processo de especificação por individualização</p><p>e especificação por assimilação, o ator social é referido, respectivamente como indivíduo e como grupo</p><p>agregado. Nas práticas discursivas, as relações sociais podem ser uma demonstração de opiniões de</p><p>consenso, atitudes homogêneas e também o caráter de pluralidade dos papéis sociais.</p><p>Por fim, as categorias de personalização e impersonalização marcam a representação que determina</p><p>o ator social ou o classifica no texto de forma genérica ou específica.</p><p>Essas categorias são relevantes para uma análise textual, pois associam a prática discursiva à prática</p><p>social, produzindo a representação dos atores sociais. Os atores sociais, por sua vez, são (in)conscientes</p><p>produtores de sentidos responsáveis pelas relações de poder investidos na política e na ideologia.</p><p>7.2 Categoria pessoal</p><p>O nome tem por finalidade identificar e individualizar a pessoa perante a sociedade em todos os</p><p>aspectos da vida, incluindo a designação sexual. É uma expressão de identidade do indivíduo e, por meio</p><p>do nome, a pessoa se torna conhecida em sociedade, mesmo após sua morte, sendo lembrada. Como</p><p>Dias (2016, p. 135) defende:</p><p>Todos têm direito a um nome. Não só ao próprio nome, mas também à</p><p>identificação de sua origem familiar. O nome dos pais e dos ancestrais</p><p>comprova que a pessoa está inserida em um grupo familiar. O patronímico</p><p>pertence à entidade familiar e identifica</p><p>os vínculos de parentesco.</p><p>O nome civil da pessoa natural é a identidade da pessoa e sua função principal é individualizar</p><p>no contexto social e na família, aos quais a pessoa se integra, tornando‑se única. É o atributo primeiro</p><p>da personalidade da pessoa, distinguindo‑a das demais. O vocábulo nome tem sentido amplo, de nome</p><p>completo, considerado elemento individualizador, de personalidade e procedência familiar, sendo usado</p><p>durante a vida da pessoa e também após sua morte.</p><p>89</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Segundo o Código Civil, em seu art. 16, “toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o</p><p>prenome e o sobrenome” e, com isso, assegura ao indivíduo o direito à identidade ou à personalidade,</p><p>responsável por estabelecer a correlação entre o indivíduo e a coletividade (BRASIL, 1973).</p><p>De modo geral, prenome corresponde ao nome pelo qual a pessoa é comumente chamada, é o</p><p>nome próprio de cada pessoa e serve para distinguir cada membro da mesma família. Pode ser simples,</p><p>formado por apenas um prenome; ou composto, formado por mais de um prenome. Este pode ser</p><p>também duplo, triplo ou quádruplo, como ocorre em algumas famílias reais. Ressalta‑se que o prenome</p><p>é de livre escolha dos pais, porém, se o nome expuser seu portador ao ridículo, os oficiais de registro têm</p><p>autoridade para negar, conforme dispõe o art. 55 da Lei dos Registros Públicos (LRP – Lei n. 6.015/1973).</p><p>No caso do sobrenome, também chamado de patronímico, é sinal característico de família,</p><p>identifica a procedência da pessoa, indicando a sua filiação transmissível por sucessão. Pode ser</p><p>utilizado o do pai, o da mãe, ou de ambos e, ante o princípio da isonomia constitucional, não mais</p><p>se justifica que o oficial lance, de ofício, somente o sobrenome do pai. O escrivão somente lança de</p><p>ofício o nome a ser registrado caso seja fornecido incompleto, com base no art. 55 da LRP.</p><p>Em alguns casos, é também necessário usar o agnome, sinal que distingue pessoas pertencentes a uma</p><p>mesma família que têm o mesmo nome, como Júnior, Neto, Sobrinho etc. Além do agnome, essencial por</p><p>força normativa, há outros que são denominados secundários, uma vez que a lei não se ocupa deles. É o</p><p>caso dos axiônimos, títulos nobiliárquicos ou honoríficos, que devem ser registrados em órgão específico.</p><p>Em relação ao nome vocatório, trata‑se da designação pela qual o sujeito é comumente conhecido,</p><p>mas comumente reconhecido com apenas parte de seu nome civil, tornando sua identificação social</p><p>mais informal. O apelido, também denominado alcunha ou epíteto, é a designação atribuída a alguém,</p><p>em razão de alguma particularidade; às vezes, sua origem não é exatamente conhecida.</p><p>Há apelidos que se agregam de tal maneira à personalidade da pessoa que, quando não</p><p>jocosos, podem ser acrescentados, sob determinadas condições, ao nome, com base no art. 58 da</p><p>LRP, denominados tais casos de apelidos públicos notórios. Assim como o pseudônimo, que é uma</p><p>substituição do nome civil em um âmbito limitado, geralmente utilizado por um sujeito em razão de</p><p>ramos especiais de suas atividades, como literatura, pintura, teatro, entre outras áreas.</p><p>O nome é um direito irrevogável e carrega um valor de veracidade, caráter público e continuidade</p><p>registral, bem como de seguridade social. Por todos esses valores, o nome é inalterável – como prevê o</p><p>art. 58 da LRP. A mudança é permitida somente em determinados casos devidamente justificados em</p><p>que fique demonstrado que a intenção de alteração não é fraudulenta ou para a prática ou ocultação</p><p>de ato ilícito civil ou penal.</p><p>Os critérios para a mudança do nome são apontados por Gonçalves (2023, p. 155). A Lei prevê:</p><p>a) substituição do prenome por apelidos públicos notórios;</p><p>b) correção de evidente erro gráfico;</p><p>90</p><p>Unidade II</p><p>c) retificação de nome que possa expor o seu portador ao ridículo;</p><p>d) substituição do prenome ou do nome completo como medida de proteção à testemunha de crime</p><p>que corre risco de vida;</p><p>e) atribuição ao adotado do sobrenome do adotante;</p><p>f) adição intermediária de apelidos notórios ou de sobrenome materno, especialmente para evitar</p><p>homonímia;</p><p>g) inclusão do nome de família do padrasto ou madrasta, havendo motivo ponderável;</p><p>h) acréscimo ao seu do sobrenome do outro cônjuge, por qualquer dos nubentes;</p><p>i) renúncia pelo cônjuge, no divórcio, do nome de casado;</p><p>j) direito ao uso, pelo filho, do sobrenome do genitor ou genitora que o reconheceu;</p><p>k) direito ao uso, pelo companheiro ou companheira, do patronímico de seu companheiro</p><p>ou companheira.</p><p>A jurisprudência admite, ainda, as seguintes exceções:</p><p>a) substituição do prenome oficial pelo prenome de uso;</p><p>b) tradução de nomes estrangeiros;</p><p>c) retificação do nome e do sexo de transexuais;</p><p>d) exclusão do sobrenome paterno em virtude de abandono do filho pelo genitor.</p><p>O direito ao nome está regularizado na LRP, arts. 50 a 67, e no Código Civil brasileiro, Lei n. 10.406/2002,</p><p>Capítulo II, Dos Direitos da Personalidade, entre os arts. 11 e 21. No caso do art. 1º da LRP, os atos e fatos</p><p>jurídicos registrados, averbados e/ou anotados destinam‑se a constituir, comprovar e dar publicidade a</p><p>fatos e atos jurídicos, resguardando direitos de certas situações jurídicas que repercutem na esfera jurídica</p><p>de terceiros constituindo meios de provas especiais. O Registro Civil de Pessoas Naturais, por sua vez, tem</p><p>por finalidade comprovar os fatos e atos relativos à vida civil, capazes de gerar direitos e obrigações.</p><p>Do registro decorrem importantíssimas relações de direitos. Assim, tem‑se com efeito do</p><p>registro a publicidade, pois, salvas exceções, o ato registral é acessível ao conhecimento de todos;</p><p>comprobatório, o registro prova a existência e a veracidade do ato ou fato é constitutivo do direito,</p><p>que muitas vezes produz efeitos perante terceiros somente após o registro. Assim, como esclarece</p><p>Gonçalves (2023), o elemento registral, ou seja, o registro do nome tem natureza declaratória</p><p>enquanto o ato de nomear o indivíduo tem natureza constitutiva, ficando o registro com uma</p><p>dupla natureza: declaratória e constitutiva, visando à segurança jurídica.</p><p>91</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Por fim, o modelo atual de divisão e escrituração dos livros de registro civil das pessoas naturais segue</p><p>a sistemática trazida pelo Decreto n. 9.886/1888, aperfeiçoada pelo art. 43 do Decreto n. 4.857/1939,</p><p>reproduzido pela LRP.</p><p>Trata‑se, enfim, da categoria da individualização para a semiótica social.</p><p>De acordo com Gonçalves (2023), os direitos da personalidade são inalienáveis e proclamam pelo</p><p>direito natural à vida, à liberdade, ao próprio corpo, ao nome, entre outros. Nesse contexto, o direito</p><p>confere à pessoa um atributo jurídico, que não é natural e diz respeito à existência das pessoas naturais</p><p>e jurídicas.</p><p>A pessoa natural é aquela que nasce por meios naturais e adquire personalidade jurídica no</p><p>nascimento, ou seja, inicia‑se no momento em que ela nasce e se estende por toda a vida do indivíduo,</p><p>deixando de existir com a morte. Na síntese de Diniz (2007, p. 229), “pessoa natural é o ser humano</p><p>considerado como sujeito de direitos e obrigações”. A autora esclarece que:</p><p>“Pessoa” é o ente físico ou coletivo suscetível de direitos e obrigações, sendo</p><p>sinônimo de sujeito de direito. Já “sujeito de direito” é aquele que é sujeito</p><p>de um dever jurídico, de uma pretensão ou titularidade jurídica, que é o</p><p>poder de fazer valer, através de uma ação, o não cumprimento do dever</p><p>jurídico, ou melhor, o poder de intervir na produção da decisão judicial</p><p>(DINIZ, 2007, p. 116).</p><p>À personalidade relaciona‑se a uma concepção de que basta o homem existir para ser considerado</p><p>humano e capaz – desde que seja possuidor de requisitos necessários para agir por si – como sujeito ativo</p><p>ou passivo em uma relação jurídica. Os direitos da personalidade são qualidades agregadas ao próprio</p><p>ser humano e, portanto, tornam‑se intransmissíveis, irrenunciáveis, extrapatrimoniais e vitalícios, cuja</p><p>norma jurídica permite a defesa contra qualquer modo de ameaça, pois seu portador tem o direito</p><p>subjetivo de usar e dispor.</p><p>O princípio da imutabilidade do nome não é absoluto, pois há situações especiais, previstas na LRP,</p><p>que permitem alteração. Uma delas refere‑se à retificação do nome e do sexo de transexuais.</p><p>Entretanto, no que se refere à alteração de nome em decorrência da mudança de gênero, a</p><p>legislação brasileira ainda é muito recente (DIAS, 2016). Como consequência, por muitos anos, o</p><p>Poder Judiciário brasileiro foi obrigado a se pronunciar perante a questão, e o transexual via‑se</p><p>obrigado a pleitear judicialmente a alteração do nome com base no art. 119 da LRP, ficando à</p><p>mercê do entendimento de cada magistrado. Foi apenas a partir da década de 1990, início de</p><p>2000, que os tribunais passaram a permitir a modificação do nome, mas somente após a cirurgia</p><p>de transgenitalização, sem, contudo, autorizar a alteração do gênero na documentação identitária.</p><p>O julgamento do REsp 1.561.933 feito pelo STJ, de 20.03.2018, julgou procedente o recurso sem a</p><p>necessidade da cirurgia a fim de evitar situações vexatórias pela exposição do nome, situação vedada</p><p>pelo ordenamento jurídico brasileiro. Verifica‑se no Recurso:</p><p>92</p><p>Unidade II</p><p>Recurso Especial. Direito Civil. Registro civil. Alteração do sexo. Transexual não</p><p>transgenitalizado. Cabimento. Precedentes do STF e do STJ. 1. Controvérsia</p><p>acerca da possibilidade de se autorizar a alteração do registro civil para</p><p>mudança do sexo civil de masculino para feminino no caso de transexual</p><p>que não se submeteu a cirurgia de redesignação genital. 2. Possibilidade</p><p>de alteração do prenome na hipótese de exposição da pessoa a situações</p><p>ridículas (art. 59, p. u., da Lei dos Registros Públicos). 3. Ocorrência de exposição</p><p>ao ridículo quando se mantém a referência ao sexo masculino, embora o</p><p>prenome já tenha sido alterado para o feminino em razão da transexualidade.</p><p>4. Possibilidade de alteração do sexo civil nessa hipótese. 5. Precedentes do</p><p>STF e do STJ. 6. Recurso Especial provido (REsp 1.561.933/RJ, 3ª Turma,</p><p>Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, j. 20.03.2018, DJe 23.04.2018).</p><p>O maior avanço a respeito da mudança de nome foi o passo dado pelo STF, em 01.03.2018, na Ação</p><p>Direta de Inconstitucionalidade (ADIn) 4.275, em que se decidiu que não é necessária a cirurgia de</p><p>transgenitalização para que haja retificação do prenome e designativo de sexo do transexual. A pessoa</p><p>tem a possibilidade de adequar a realidade físico‑psíquica à realidade registral sem a obrigatoriedade</p><p>de se submeter a procedimento cirúrgico. Por conseguinte, quanto à questão probatória, admitem‑se</p><p>todas as provas, meios de provas processuais e indícios que demonstrem a incompatibilidade entre o</p><p>sexo anatômico descrito no registro e o sexo psicológico com o qual se identifica social, emocional</p><p>e sexualmente. Não há necessidade da exigência da perícia médica para constatação de qualquer</p><p>questão genital, ou mesmo a anterior realização de cirurgia de mudança de sexo.</p><p>O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por meio do Provimento n. 73/2018, expedido em 29.06.2018,</p><p>estabeleceu regras para a mudança de nome para travestis e transexuais, entre elas estão:</p><p>• ser a pessoa maior de 18 anos e apta a todos os atos da vida prática civil;</p><p>• a alteração não abrange o nome de família, apenas o prenome, podendo ser estendido também</p><p>ao agnome identificador de gênero que pode ser excluído ou retirado, pode ser feito pela via</p><p>administrativa no cartório em que a pessoa foi registrada ao nascer, independentemente de</p><p>determinação judicial ou cirurgia de redesignação sexual.</p><p>Após tal decisão, o CNJ, de certa forma, regularizou um entendimento padrão. A partir de</p><p>então, o pedido para alteração poderá ser requerido de forma administrativa, independentemente</p><p>de determinação judicial e diretamente no Cartório de Registro de Pessoas Naturais (RCPN), onde o</p><p>assentamento anterior, ao nascer, foi lavrado.</p><p>A idade exigida para alteração do Registro Civil é de 18 anos completos, sendo o requerente capaz</p><p>para todos os atos da vida civil, e, no caso de menores de idade, é necessária prévia autorização judicial.</p><p>A alteração poderá abranger apenas o prenome e o agnome. O agnome, por exemplo, Filho, Neto,</p><p>Sobrinho, pode ser retirado, e o sobrenome segue no princípio da imutabilidade. Caso haja em curso</p><p>demanda judicial a respeito da alteração de nome e gênero, esta deverá ser arquivada.</p><p>93</p><p>SEMIÓTICA</p><p>Diante das novas medidas, a pessoa travesti ou transexual pode mudar seu nome e adotar o</p><p>Nome Social.</p><p>O Decreto‑lei n. 8.727, de 28 de abril de 2016, dispõe sobre o uso do nome social e o reconhecimento</p><p>da identidade de gênero de pessoas travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal</p><p>direta, autárquica e fundacional. Em seu art. 1º, I, define nome social como a designação pela qual a pessoa</p><p>travesti ou transexual se identifica e é socialmente reconhecida. O art. 6º é fundamental ao dispor que:</p><p>A pessoa travesti ou transexual poderá requerer, a qualquer tempo, a inclusão</p><p>de seu nome social em documentos oficiais e nos registros dos sistemas de</p><p>informação, de cadastros, de programas, de serviços, de fichas, de formulários,</p><p>de prontuários e congêneres dos órgãos e das entidades da administração</p><p>pública federal direta, autárquica e fundacional (BRASIL, 2016).</p><p>Portanto, nome social é o prenome utilizado publicamente e distingue‑se do nome civil de quem o</p><p>utiliza. A adoção de um nome social reflete a identidade de gênero da pessoa, em contraposição ao seu</p><p>nome de registro civil, dado em consonância com o gênero e/ou o sexo biológico. Entretanto, não altera</p><p>o gênero nos documentos, podendo ser compreendido como apelido público.</p><p>O uso do nome social está em identificações não oficiais, como crachás, matrículas escolares, além</p><p>disso, tem sido legitimado por entidades como o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo</p><p>(Cremesp), o Ministério da Educação (MEC), na inscrição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e,</p><p>por exemplo, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que aceitam a prática desde 2017.</p><p>No provimento também foram elencados no art. 4º os documentos e certidões, com validade de</p><p>90 dias, de apresentação necessários para realização do pedido administrativo. A depender da região,</p><p>cidade ou estado, a lista pode sofrer alterações com acréscimo de documentos.</p><p>Conforme o art. 4º, § 6º, a pessoa requerente deverá apresentar ao ofício do RCPN, no ato do</p><p>requerimento, os seguintes documentos:</p><p>I – certidão de nascimento atualizada;</p><p>II – certidão de casamento atualizada, se for o caso;</p><p>III – cópia do registro geral de identidade (RG);</p><p>IV – cópia da identificação civil nacional (ICN), se for o caso;</p><p>V – cópia do passaporte brasileiro, se for o caso;</p><p>VI – cópia do cadastro de pessoa física (CPF) no Ministério da Fazenda;</p><p>VII – cópia do título de eleitor;</p><p>94</p><p>Unidade II</p><p>IX – cópia de carteira de identidade social, se for o caso;</p><p>X – comprovante de endereço;</p><p>XI – certidão do distribuidor cível do local de residência dos últimos cinco anos (estadual/federal);</p><p>XII – certidão do distribuidor criminal do local de residência dos últimos cinco anos (estadual/federal);</p><p>XIII – certidão de execução criminal do local de residência dos últimos cinco anos (estadual/federal);</p><p>XIV – certidão dos tabelionatos de protestos do local de residência dos últimos cinco anos;</p><p>XV – certidão da Justiça Eleitoral do local de residência dos últimos cinco anos;</p><p>XVI – certidão da Justiça do Trabalho do local de residência dos últimos cinco anos;</p><p>XVII – certidão da Justiça Militar, se for o caso.</p><p>No § 7º, constam, além dos documentos listados, documentos facultativos: laudo médico</p><p>que ateste a transexualidade/travestilidade; parecer psicológico que ateste a transexualidade/</p><p>travestilidade; laudo médico que ateste a realização de cirurgia de redesignação de sexo. O § 8º</p><p>indica que a falta de documento listado no § 6º impede a alteração indicada no requerimento</p><p>apresentado ao ofício do RCPN.</p><p>Assim, pode‑se entender que a retificação do nome, requerida</p><p>administrativamente no cartório, ou</p><p>seja, sem a necessidade do desgaste com uma demanda judicial, é justamente para permitir que o nome</p><p>social passe a ser o que consta nos documentos, tornando‑se o nome de registro do requerente.</p><p>No caso do transgênero casado(a), o nome e marcador de gênero na certidão de casamento</p><p>podem ser alterados, desde que haja autorização do cônjuge, bem como podem ser alterados na</p><p>certidão de nascimento dos filhos. Nesse caso, também é necessária concordância do outro genitor,</p><p>em caso de filhos menores ou do próprio filho maior. Em caso de qualquer discordância, a questão</p><p>deve ser suscitada judicialmente.</p><p>Em caso de o requerente se encontrar em regime prisional fechado, a alteração não é possível, pois</p><p>o comparecimento espontâneo ao RCPN é obrigatório. Diferentemente, aqueles que se encontram em</p><p>regime prisional semiaberto ou aberto podem solicitar a mudança de nome, devendo ser comunicado</p><p>ao juízo criminal competente.</p><p>Finalizado o procedimento de alteração no assento, o ofício do RCPN comunicará o ato oficialmente</p><p>aos órgãos expedidores do RG, ICN, CPF e passaporte, bem como ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE).</p><p>No entanto, a documentação com novo nome e gênero, mas mantida a mesma nomeação, deve ser</p><p>solicitada pelo requerente, exceto no caso do CPF, em que a atualização no sistema da Receita acontece</p><p>de forma automática após a notificação do cartório.</p><p>95</p><p>SEMIÓTICA</p><p>O nome é considerado um direito do ser humano e outorga na lei como espécie dos direitos</p><p>da personalidade (GONÇALVES, 2023). Por pertencer ao gênero do direito, o nome relaciona‑se à</p><p>integridade moral, uma vez que todo indivíduo tem o direito à identidade pessoal e de ser reconhecido</p><p>em sociedade por denominação própria.</p><p>O discurso jurídico corrobora esse direito em diversos materiais. Entre eles, a Declaração Universal</p><p>dos Direitos Humanos (DUDH), por meio dos arts. 6º, para o qual: “Toda pessoa tem o direito de ser,</p><p>em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei”, e 15, que declara que: “Toda pessoa tem</p><p>o direito a uma nacionalidade” (UNICEF, [s.d.]b). A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito da</p><p>Criança também confirma os direitos da personalidade no art. 7º: “Desde o nascimento, toda criança</p><p>terá direito a um nome e a uma nacionalidade” (UNICEF, [s.d.]a). Nesse material, além de todo um</p><p>aparato da Legislação brasileira, encontra‑se a Constituição Federal (1988), que se fundamenta nas</p><p>concepções de cidadania e dignidade da pessoa humana.</p><p>A Certidão de Nascimento torna‑se, por conseguinte, um documento fundamental de confirmação</p><p>de um direito. A certidão garante o nome, o estado familiar, a naturalidade e a nacionalidade, bem como</p><p>ajuda na formação da cidadania.</p><p>O documento apresentado a seguir (figura 39) é uma legítima Certidão de Nascimento.</p><p>Figura 39 – Certidão de Nascimento</p><p>96</p><p>Unidade II</p><p>A Certidão de Nascimento é um texto por meio do qual se pode analisar o discurso e os eventos</p><p>sociais nele construídos. Trata‑se de um documento político‑jurídico, confirmado pelo nome do país</p><p>(República Federativa do Brasil) na parte superior e centralizado na folha e, abaixo, o ofício legal (RCPN).</p><p>Discursivamente, as identidades sociais presentes no texto são órgão público, representado pela lei;</p><p>os órgãos competentes e o oficial autorizado; os genitores; e a própria criança. No caso da identidade</p><p>relativa ao órgão público, a lei e os órgãos competentes exercem o papel de guardião para a regularização</p><p>do registro do nome de nascimento. A lei protege o direito da criança nascida a ter um nome e garante o</p><p>registro. Nesse caso, o art. 52 da LRP apresenta o rol dos que têm a obrigação de fazer a declaração</p><p>de nascimento. Em primeira instância, os pais registram o filho. No caso de haver algum impedimento de</p><p>ambos, cabe ao parente mais próximo no grau de parentesco, desde que maior; na falta deste, aos</p><p>administradores de hospitais, médicos, parteiras, que tiverem assistido o parto ou pessoa idônea da</p><p>casa em que ocorrer, sendo fora da residência da mãe; finalmente, as pessoas encarregadas da guarda</p><p>do menor.</p><p>Os pais, por sua vez, representam o papel civil, cuja obrigação é registrar formal e oficialmente a</p><p>criança recém‑nascida. Ao cumprir seu papel, eles corroboram a naturalização ao direito ao nome.</p><p>A criança, por fim, é a pessoa dependente e ainda incapaz de ser dona de si. Um nome é atribuído a</p><p>ela, sendo o prenome feminino T., e o sobrenome N. C. A criança não recebeu um agnome.</p><p>Essas identidades ou atores sociais relacionam‑se socialmente, e sua representação no discurso pode</p><p>configurar‑se assim:</p><p>Quadro 7 – Formas de representação dos atores sociais</p><p>na Certidão de Nascimento</p><p>Categoria</p><p>sociológica Tipo e/ou definição Como se realiza</p><p>Inclusão</p><p>Ativação Ator social representado como força ativa numa</p><p>atividade</p><p>Escrivão/órgão público</p><p>Autoriza e dá fé</p><p>Passivação Ator social representado se submetendo à atividade ou</p><p>sendo afetado por ela</p><p>Criança registrada</p><p>Nominalização</p><p>Especificação Individualização Nome da criança</p><p>Personalização</p><p>Diferenciação</p><p>– indivíduos</p><p>ou grupos</p><p>identificados</p><p>Nomeação Nome da criança, dos pais da</p><p>criança e do escrivão</p><p>Categorização</p><p>Parentesco Os pais da criança</p><p>Espacialização Papéis participantes e processos</p><p>que denotam lugares específicos</p><p>Impersonalização</p><p>Abstração – atores sociais representados por uma</p><p>qualidade Sexo feminino (criança)</p><p>Objetivação – atores sociais</p><p>representados por uma</p><p>referência metonímica</p><p>Referência à</p><p>instituição País; RCPN</p><p>97</p><p>SEMIÓTICA</p><p>O texto marca os atores sociais na categoria de inclusão. As categorias de inclusão destacadas são de</p><p>ativação, passivação e especificação. A ativação marca o ator social que trabalha e representa‑o como</p><p>força ativa de autoridade.</p><p>A categoria impersonalização marca os representados legais e federais; no caso, o país e o RCPN.</p><p>Marca também a voz social da criança ao atribuir sexo de nascimento.</p><p>A especificação e a personalização são categorias que efetivamente marcam os indivíduos pelos</p><p>nomes. Os atores sociais são os pais e a criança nomeados e, por conseguinte, individualizados.</p><p>Os atores sociais confirmam a naturalização do nome. A naturalização é uma estratégia ideológica</p><p>de construção simbólica, ligada à reificação, pela qual criações sociais são representadas como</p><p>acontecimentos naturais.</p><p>A Certidão de Nascimento, conferida neste capítulo, é de T. N. C. Seu prenome e sobrenome são</p><p>também atestados em outro documento.</p><p>Figura 40 – Carteira de Trabalho</p><p>A Carteira de Trabalho é um texto, cujas categorias discursivas e semióticas são passíveis de serem</p><p>analisadas. É possível investigar a identidade dos indivíduos como seres sociais, buscando elucidar a</p><p>posição dos sujeitos nas vozes que habitam o texto.</p><p>98</p><p>Unidade II</p><p>Quadro 8 – Formas de representação dos atores sociais</p><p>na Carteira de Trabalho</p><p>Categoria</p><p>sociológica Tipo e/ou definição Como se realiza</p><p>Inclusão</p><p>Ativação Ator social representado como força ativa numa</p><p>atividade</p><p>— papel: atribuidor</p><p>— circunstância: ator social (T. N. C.)</p><p>como profissional</p><p>Especificação Individualização</p><p>— singularidade</p><p>— dados identificadores</p><p>— nome</p><p>Personalização</p><p>Diferenciação</p><p>– indivíduos</p><p>ou grupos</p><p>identificados</p><p>Nomeação — nome próprio (primeiro nome,</p><p>sobrenome)</p><p>— T. N. C.</p><p>Categorização</p><p>Funcionalização</p><p>Parentesco</p><p>Espacialização</p><p>— filiação excluída</p><p>— papéis participantes e processos que</p><p>denotam lugares específicos;</p><p>— Carteira do Trabalho; espaço de</p><p>trabalho</p><p>Impersonalização</p><p>Abstração – atores sociais representados por uma</p><p>qualidade — portadora de Carteira do Trabalho</p><p>Objetivação – atores sociais</p><p>representados por uma</p><p>referência metonímica</p><p>Referência à</p><p>instituição</p><p>— órgão governamental</p><p>— Ministério do Trabalho e Emprego</p><p>Trata‑se igualmente de um texto oficial, com marcas de inclusão dos atores sociais. Marca‑se a</p><p>presença de voz institucional política, o Ministério do Trabalho e Emprego, o qual autoriza o porte de</p><p>uma carteira profissional.</p><p>Outro ator</p>São Paulo: Annablume, 1994.
RESENDE, V. M.; RAMALHO, V. Análise de discurso crítica. São Paulo: Contexto, 2006.
SANTAELLA, L. Estética e semiótica. Curitiba: Intersaberes, 2019.
SANTAELLA, L. Semiótica aplicada. 2. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2018.
SANTAELLA, L. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1983.
SANTOS, F. R. da S.; SOUZA, M. Aspectos multimodais em editoriais da Veja. In: SIMPÓSIO HIPERTEXTO 
E TECNOLOGIAS NA EDUCAÇÃO, 2., 2008. Anais [...]. Recife: UFPE, 2008.
128
SÃO PAULO. Decreto n. 58.228, de 16 de maio de 2018. São Paulo, 2018. Disponível em: 
bit.ly/3NbGgH8. Acesso em: 14 jun. 2023.
SARAIVA, J. A. B.; LEITE, R. L. Exercícios de semiótica discursiva. Fortaleza: Imprensa 
Universitária, 2017.
SCHIFFMAN, H. R. Sensação e percepção. Rio de Janeiro: LTC, 2005.
SILVA, T. R. B. C. Um olhar situado sobre a ecologia de saberes no Pibid: multiletramentos 
críticos e formação de professores de língua inglesa. 2015. Dissertação (Mestrado em Letras) 
– Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Campo Grande/MS, 2015.
SIMÕES, D.; CORREIA, C. M. C (org.). Discussões e aplicações da semiótica de extração peirceana. Rio de 
Janeiro: Dialogarts, 2018.
SOUZA, A. L. S. Letramentos de reexistência: poesia, grafite, música, dança: hip‑hop. 
São Paulo: Parábola, 2011.
SOUZA, L. S. Introdução às teorias semióticas. Petrópolis: Vozes; Salvador: Fapesb, 2006.
SPINELLI, L. Pichação e comunicação: um código sem regra. Logos 26: comunicação e conflitos 
urbanos, ano 14, 1º sem. 2007.
STF. ADI 4.275, Rel. p/ ac. Min. Edson Fachin, Informativo 892, 1º.03.2018.
THOMPSON, J. B. Ideologia e cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação 
de massa. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.
UNICEF. Declaração dos Direitos da Criança. [s.d.]a. Disponível em: https://urx1.com/2Edmk. 
Acesso em: 25 jul. 2023.
UNICEF. Declaração Universal dos Direitos Humanos. [s.d.]b. Disponível em: https://l1nq.com/N1ud9. 
Acesso em: 25 jul. 2023.
VAN LEEUWEN, T. A representação dos atores sociais. In: PEDRO, E. R. (org.). Análise crítica do discurso: 
uma perspectiva sociopolítica e funcional. Lisboa: Caminho, 1997.
VIDA SIMPLES. Ansiedade. São Paulo, n. 246, 22 ago. 2022.
VIEIRA, J. A.; BENTO, A. L.; ORMUNDO, J. (org.). Discursos nas práticas sociais: perspectivas em 
multimodalidade e em gramática sistêmico‑funcional. São Paulo: Annablume, 2010.
ZILBERBERG, C. Elementos de semiótica tensiva. São Paulo: Ateliê, 2011.
129
130
131
132
Informações:
www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000

Mais conteúdos dessa disciplina