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<p>As bases do pensamento moderno</p><p>Infográfico</p><p>A formação do Estado Moderno e o desenvolvimento das práticas mercantilistas são fenômenos</p><p>indissociáveis, em função das raízes medievais dessa configuração estatal e das práticas</p><p>regulatórias da economia que irá desenvolver. O intervencionismo estatal na economia foi uma das</p><p>características dos incipientes estados nacionais.</p><p>Veja, no Infográfico, quais eram os principais objetivos econômicos, políticos e sociais almejados</p><p>com o intervencionismo estatal dos Estados Modernos.</p><p>Aponte a câmera para o</p><p>código e acesse o link do</p><p>conteúdo ou clique no</p><p>código para acessar.</p><p>https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/b1a4c931-141a-4561-9e14-417a3db7fee0/52dfbcf0-4189-4cac-9062-5aabc2ea9567.jpg</p><p>Conteúdo do livro</p><p>Compreender a Idade Moderna significa analisá-la sob o viés da ruptura, da continuidade e da</p><p>transformação. Do ponto de vista das artes, da ciência e da filosofia, isso não foi diferente, já que</p><p>que existiam compreensões e valores da cultura medieval coexistindo com novas formas de</p><p>compreender os seres humanos e o mundo. Da mesma forma, essa foi uma das características da</p><p>modernidade econômica, em que novas práticas somavam-se a concepções e práticas econômicas</p><p>medievais.</p><p>No capítulo As bases do pensamento moderno, da obra História moderna, você vai estudar o</p><p>pensamento moderno científico e filosófico, aprendendo a diferenciá-lo em relação à cultura e às</p><p>estruturas mentais da Idade Média. Você vai compreender de que forma ocorre uma mudança na</p><p>concepção dos seres humanos e na sua relação com a natureza. Além disso, vai aprender sobre as</p><p>relações existentes entre o desenvolvimento das economias nacionais com as práticas</p><p>mercantilistas, marcando uma aproximação entre a economia e a política, que mesclam práticas</p><p>medievais e modernas.</p><p>Boa leitura.</p><p>HISTÓRIA</p><p>MODERNA</p><p>Caroline Silveira Bauer</p><p>As bases do pensamento</p><p>moderno</p><p>Objetivos de aprendizagem</p><p>Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:</p><p> Comparar as linhas de pensamento que surgiram na Idade Moderna</p><p>com as linhas de pensamento medieval.</p><p> Analisar a influência da ciência na mudança de concepção de mundo</p><p>e do sujeito como protagonista de sua história.</p><p> Relacionar o avanço dos estados nacionais com o surgimento do</p><p>mercantilismo na Idade Moderna.</p><p>Introdução</p><p>A Idade Moderna foi um período marcado por continuidades e trans-</p><p>formações em relação ao mundo medieval. A cultura, a economia, a</p><p>política e a sociedade foram afetadas por novas visões de mundo e novos</p><p>questionamentos. Em alguns aspectos, coexistiam traços do medievo</p><p>com características que poderíamos atribuir à modernidade.</p><p>Neste capítulo, você vai aprender a comparar e diferenciar as linhas</p><p>de pensamento que surgiram na Idade Moderna com a filosofia medie-</p><p>val. Para isso, verá de que forma a ciência influenciou as mudanças na</p><p>concepção dos indivíduos sobre sua subjetividade, sobre suas relações</p><p>com a natureza e sobre o mundo e, por fim, vai analisar a relação dos</p><p>Estados Nacionais com a prática mercantilista.</p><p>1 A filosofia na Idade Moderna</p><p>Do ponto de vista cultural, compreendendo “cultura” em suas diferentes ma-</p><p>nifestações (artísticas, fi losófi cas, religiosas), a Idade Moderna se caracterizou</p><p>pela emergência de novas visões de mundo e novos valores, que transformaram</p><p>a forma de compreender o ser humano e sua relação com a natureza por meio</p><p>da mescla com a cultura medieval, ou em sua total transformação.</p><p>Nesse sentido, a emergência do humanismo é um marco significativo no</p><p>pensamento moderno. Os humanistas, para Sevcenko (1994, p. 14), eram:</p><p>[...] um conjunto de indivíduos que desde o século anterior [século XIV] vinha se</p><p>esforçando para modificar e renovar o padrão de estudos ministrados tradicio-</p><p>nalmente nas universidades medievais. Esses centros de formação intelectual e</p><p>profissional eram dominados pela cultura da Igreja e voltados para as três carreiras</p><p>tradicionais: direito, medicina e teologia. Estavam, portanto, empenhados em</p><p>transmitir aos seus alunos uma concepção estática, hierárquica e dogmática da</p><p>sociedade, da natureza e das coisas sagradas, de forma a preservar a ordem feudal.</p><p>Essa forma de ensino não era mais condizente com as transformações</p><p>econômicas, políticas e sociais ocorridas na Europa Ocidental.</p><p>Os humanistas, portanto, surgiram como um “movimento” para atuali-</p><p>zar, dinamizar e revitalizar os estudos universitários, incluindo os “estudos</p><p>humanísticos” nos currículos, ou seja, a filosofia, a história, a matemática</p><p>e a retórica. Para o estudo dessas disciplinas, era necessário o domínio das</p><p>línguas clássicas (grego e latim) e do árabe, do aramaico e do hebraico, o que</p><p>significava, também, que esses estudos deveriam ser realizados a partir de</p><p>textos dos autores da Antiguidade Clássica, excluindo-se os manuais de textos</p><p>medievais. “Significava, pois, um desafio para a cultura dominante e uma</p><p>tentativa de abolir a tradição intelectual medieval e de buscar novas raízes</p><p>para a elaboração de uma nova cultura” (SEVCENKO, 1994, p. 15).</p><p>Nesse sentido, o projeto humanista chocava-se diretamente com as práticas</p><p>e os valores da Igreja Católica. Isso não quer dizer que os humanistas fossem</p><p>ateus ou pagãos: “[...] eram todos cristãos e apenas desejavam reinterpretar a</p><p>mensagem do Evangelho à luz da experiência e dos valores da Antiguidade.</p><p>Valores esses que exaltavam o indivíduo, os feitos históricos, a vontade e a</p><p>capacidade de ação do homem, sua liberdade de atuação e de participação</p><p>na vida das cidades” (SEVCENKO, 1994, p. 15). É a partir dessa proposta</p><p>que se desenvolve uma das características do pensamento moderno, o antro-</p><p>pocentrismo, pois os humanistas acreditavam nas capacidades espirituais e</p><p>físicas dos seres humanos em detrimento de uma cultura teocêntrica. Essa</p><p>compreensão sobre os indivíduos e sobre o mundo encontrava uma enorme</p><p>receptividade nos estratos burgueses da sociedade.</p><p>Os “antigos” eram, para esses pensadores, uma inspiração em seus atos,</p><p>suas crenças e suas realizações para o comportamento dos europeus, “[...] um</p><p>As bases do pensamento moderno2</p><p>comportamento calcado na determinação da vontade, no desejo de conquistas</p><p>e no anseio do novo” (SEVCENKO, 1994, p. 15). Souza e Öelze (1998, p.</p><p>178) identificam nesse comportamento um “espírito de aventura”, que seria</p><p>característico ao indivíduo moderno:</p><p>Na aventura, procedemos de um modo diametralmente oposto: apostamos tudo</p><p>justamente na chance flutuante, no destino e no que é impreciso, derrubamos</p><p>a ponte atrás de nós, adentramos o nevoeiro, como se o caminho devesse nos</p><p>conduzir sob quaisquer circunstâncias; [...] por isso a atividade do aventureiro</p><p>frequentemente parece loucura aos olhos do homem sóbrio, porque, para que</p><p>tenha sentido, ela parece ter como pré-requisito o que o insondável seja sabido.</p><p>Como surge o interesse dos humanistas pela crítica histórica? Francesco Petrarca, um dos</p><p>precursores do “movimento” humanista, afirmava que os autores e obras da Antiguidade</p><p>Clássica deveriam ser recuperados a partir de uma crítica filológica (estudo da linguagem e</p><p>dos textos), estabelecendo “[...] a mais perfeita versão e a leitura mais cristalina” (SEVCENKO,</p><p>1994, p. 16), pois a cultura medieval poderia ter deturpado seus sentidos. Da crítica interna</p><p>a essas obras, derivou a preocupação com as circunstâncias e os períodos em que foram</p><p>escritas, buscando-se as características das sociedades antigas, ou seja, a crítica histórica.</p><p>Entretanto, as contribuições dos humanistas à cultura e ao pensamento moderno</p><p>não se restringiram ao âmbito educativo e à temática da antiguidade. De acordo</p><p>com Sevcenko (1994, p. 16), os humanistas “[...] estabeleceram em primeiro lugar</p><p>as bases das línguas nacionais da Europa moderna e passaram, em seguida, ao</p><p>estudo histórico das novas sociedades urbanas e dos novos Estados monárquicos.</p><p>Eles davam assim sua contribuição para a consolidação dos Estados-nações mo-</p><p>dernos”. Assim, “humanistas”</p><p>deixou de ser um termo utilizado para designar o</p><p>movimento de renovação dos estudos universitários para abranger todos aqueles</p><p>que criticavam a cultura tradicional e apoiavam um novo código comportamental</p><p>e de valores, centrado no indivíduo e em sua capacidade realizadora.</p><p>Mas de que forma o pensamento humanista se confrontava com a cultura</p><p>medieval? Primeiramente, em relação a seu espírito crítico, voltado para a</p><p>percepção da mudança e para a transformação das tradições e dos costumes.</p><p>Essa atividade crítica se chocava diretamente com o pensamento medieval e</p><p>os valores da Igreja Católica, caracterizados pela estabilidade, pela imutabi-</p><p>3As bases do pensamento moderno</p><p>lidade e pela preocupação com o mundo transcendental. O clero reforçava a</p><p>submissão dos seres humanos a Deus, ao clero e à nobreza, exaltando valores</p><p>como a disciplina, a mansidão e a piedade.</p><p>Os humanistas, por sua vez, voltavam-se para o aqui e o agora, para o mundo</p><p>concreto dos seres humanos em luta entre si e com a natureza, a fim de terem</p><p>um controle maior sobre o próprio destino [...] valorizavam o que de divino</p><p>havia em cada homem, induzindo-o a expandir suas forças, a criar e a produzir,</p><p>agindo sobre o mundo para transformá-lo de acordo com sua vontade e seu</p><p>interesse (SEVCENKO, 1994, p. 17).</p><p>A reação da Igreja Católica ao pensamento humanista foi voraz. Sevcenko</p><p>(1994, p. 17-18) lembra as penas às quais foram submetidos uma série de huma-</p><p>nistas: alguns, como Dante e Maquiavel, sofreram com o exílio, outros, como</p><p>Campanella e Galileu “foram submetidos à prisão e tortura, Thomas Morus</p><p>foi decapitado por ordem de Henrique VIII, Giordano Bruno e Étienne Dolet</p><p>foram condenados à fogueira pela Inquisição, Miguel de Servet foi igualmente</p><p>queimado vivo pelos calvinistas de Genebra, para só mencionarmos o destino</p><p>trágico de alguns dos mais famosos representantes do humanismo”.</p><p>2 A ciência na Idade Moderna</p><p>Durante a Idade Média na Europa Ocidental, boa parte das explicações sobre</p><p>os fenômenos astrológicos, climáticos e naturais era dada por componentes de</p><p>fé e pela providência divina. O conhecimento era especulativo e tinha como</p><p>base o dogmatismo a partir de interpretações bíblicas.</p><p>Podemos afirmar que a ciência na Idade Moderna influenciou e foi in-</p><p>fluenciada pelas transformações no âmbito da cultura, já que uma de suas</p><p>principais características, a experimentação, decorre de uma nova concepção</p><p>de homem como ser de conhecimento, ao mesmo tempo que permite reforçar</p><p>a laicização, a racionalidade e a secularização da ciência.</p><p>O traço mais característico da ciência moderna é a ideia de método, e mais</p><p>especificamente de método hipotético-dedutivo. Tornam-se necessárias hipó-</p><p>teses como tentativas de solução de problemas; hipóteses das quais se deduzem</p><p>consequências experimentais publicamente controláveis. É a ideia de ciência</p><p>metodologicamente controlada e publicamente controlável que, de um lado,</p><p>exige as novas instituições – sedes de discussões, confrontos e controles –</p><p>como as academias e os laboratórios, e de outro funda a autonomia da ciência</p><p>em relação à fé; [...] (REALE; ANTISERI, 2004, p. 139).</p><p>As bases do pensamento moderno4</p><p>Com Copérnico e Galilei, a Terra é deslocada do centro do universo,</p><p>contrariando um dos principais dogmas da Igreja Católica, que compreendia</p><p>o planeta como centro do universo criado por Deus, em que os seres humanos</p><p>seriam o cume do processo de criação. Os impactos dessa “revolução científica”</p><p>podem ser medidos a partir das seguintes perguntas, que questionavam as</p><p>certezas provenientes da cultura medieval:</p><p>E se a terra não é mais o lugar privilegiado da criação e se ela não é diferente</p><p>dos outros corpos celestes, então não poderia haver outros homens também</p><p>em outros planetas? E, ocorrendo isso, como poderia resistir a verdade da</p><p>narração bíblica sobre a descendência de todos os homens de Adão e Eva?</p><p>E como é que Deus, que desceu nesta terra para redimir os homens, poderia</p><p>ter redimido outros eventuais homens? (REALE; ANTISERI, 2004, p. 143).</p><p>O surgimento e a disseminação da teoria heliocêntrica levou a profundas transforma-</p><p>ções na cultura. Blaise Pascal, pensador francês, afirmava que o silêncio eterno desses</p><p>espaços infinitos lhe apavorava, o que, segundo Porto e Porto (2008, p. 4.600-4.601),</p><p>seria um indício “[...] do sentimento de estranhamento do ser humano em face de um</p><p>universo com o qual não mais se comunicava simbolicamente”. Com a destruição do</p><p>cosmos geocêntrico, o homem moderno foi tomado por um sentimento de intensa</p><p>perplexidade diante de um novo universo, impessoal e refratário à atribuição de</p><p>qualquer significado simbólico.</p><p>As descobertas e os inventos científicos da modernidade, juntamente</p><p>com as descobertas e as conquistas de outros territórios no planeta, levaram</p><p>a mudanças econômicas e políticas, mas também a profundas transformações</p><p>antropológicas e religiosas. Os indivíduos modernos interpretaram a revolução</p><p>científica “[...] como uma confirmação de sua situação singular no Universo,</p><p>pela sua aparentemente ilimitada capacidade de compreensão da realidade a sua</p><p>volta, cuja máxima expressão se deu com a previsibilidade e o determinismo</p><p>causal da mecânica newtoniana” (PORTO; PORTO, 2009, p. 4.601-4.602).</p><p>Nesse sentido, torna-se importante a discussão sobre a relação entre o ho-</p><p>mem e a natureza, em que o mundo é objetivado, e “[...] a natureza transforma-se</p><p>na fonte única, para a técnica, a ciência e a indústria” (BATISTELA; BONETI,</p><p>2008, documento on-line).</p><p>5As bases do pensamento moderno</p><p>O entendimento da modernidade, especialmente pela perspectiva do padrão</p><p>relacional sociedade/natureza, depende, fundamentalmente, da compreen-</p><p>são da instauração de algumas ideias-chave, a partir das quais edifica-se o</p><p>construto ideacional moderno, que serve como cosmovisão norteadora do</p><p>desenvolvimento das sociedades humanas a partir do século XVII.</p><p>O humanismo e o antropocentrismo, dessa forma, contribuem para o</p><p>desenvolvimento de uma percepção do potencial humano para compreender</p><p>a realidade e não se limitar às concepções dogmáticas religiosas.</p><p>A modernidade se instaura, portanto, sobre o desvelamento dessa indeter-</p><p>minação existencial no humano; quer dizer, sobre a perspectiva de que nada</p><p>parece prescrever, deterministicamente, nosso devir histórico. Não precisa-</p><p>mos estar, então, necessariamente, atrelados à dinâmica natural; podemos</p><p>transbordá-la, subvertê-la, subjugá-la: eis o ideário liberal da modernidade,</p><p>vivenciado pelo liberalismo, que rompeu com a visão da providência divina,</p><p>dando ao homem um caráter histórico e livre (BATISTELA; BONETI, 2008,</p><p>documento on-line).</p><p>Nesse sentido, um dos principais contribuidores para o desenvolvimento</p><p>da ciência moderna foi Galileu Galilei, no sentido de sua crença no potencial</p><p>cognoscente do ser humano a partir da aposta na experimentação como forma de</p><p>compreensão e transformação do real. Com Galileu, ocorre “[...] uma intensifica-</p><p>ção singular no processo de conhecimento humano da realidade, fundamentado</p><p>na ênfase na medição da concretude do real pelo aporte do método quantitativo”</p><p>(BATISTELA; BONETI, 2008, documento on-line). Segundo sua ideia, certa-</p><p>mente original, o ser humano pode desvendar a realidade ao dirigir a atenção</p><p>para as propriedades quantificáveis da matéria. “É o que empreende Galileu,</p><p>cujo êxito é conhecido historicamente. Sua defesa da teoria heliocêntrica é que</p><p>acaba provocando toda a revolução científica que está na base da edificação da</p><p>modernidade” (BATISTELA; BONETI, 2008, documento on-line).</p><p>Essa compreensão é desenvolvida, filosoficamente, por René Descartes</p><p>(1596-1650), filósofo francês do século XVII que pode ser considerado um</p><p>pensador que demarca as bases do pensamento moderno, que teoriza sobre</p><p>a essência do ser humano e da realidade. Segundo Batistela e Boneti (2008,</p><p>documento on-line) Descartes objetivava, assim,</p><p>As bases do pensamento moderno6</p><p>[...] a construção de uma ciência radicalmente nova, alicerçada</p><p>em bases</p><p>sólidas e inabaláveis, cuja essência seria sua redutibilidade matemática e sua</p><p>consequente indubitabilidade científica. Para tanto, embrenhou-se Descartes</p><p>no famoso método da dúvida metódica, revendo sistematicamente todos os seus</p><p>conhecimentos à procura de toda forma de dúvida e/ou certezas inabaláveis.</p><p>Ao cabo do processo deparou-se com infindáveis meandros de dúvidas e</p><p>uma única certeza indubitável, inabalável, matemática, sintetizada na frase</p><p>“cogito, ergo sum” (penso, logo existo).</p><p>Assim, podemos afirmar que tanto a ciência quanto a filosofia modernas</p><p>foram constituídas paulatinamente por meio de elementos presentes na cultura</p><p>medieval da Europa Ocidental, do contato cultural com outros povos a partir</p><p>das rotas comerciais e dos descobrimentos e da recuperação de autores e</p><p>obras da Antiguidade Clássica. Dessa forma, foi-se desenvolvendo um ideal</p><p>de liberdade e de razão como formas de orientação do conhecimento, aliadas</p><p>ao antropocentrismo, com a autonomia e a responsabilidade do sujeito, em</p><p>contraposição ao mundo revelado da Igreja Católica e característico da cultura</p><p>medieval. As verdades não seriam mais dogmas revelados a partir das escri-</p><p>turas ou fenômenos espirituais, mas era necessário fabricar o conhecimento.</p><p>3 Os Estados Nacionais e o mercantilismo</p><p>O processo de formação dos Estados Modernos se deu a partir de uma série</p><p>de transformações culturais, econômicas, políticas e sociais ocorridas desde</p><p>a Baixa Idade Média, todas de mútua infl uência.</p><p>A organização do sistema bancário, as grandes navegações e descobrimentos,</p><p>o desenvolvimento das cidades, a perda por parte da Igreja do monopólio de</p><p>explicação dos fenômenos naturais e humanos, o declínio do poder dos senhores</p><p>feudais e da Igreja, tornou o homem moderno mais crente em si mesmo, deixan-</p><p>do de almejar tanto Deus e passando a prestar mais atenção aos semelhantes e</p><p>ao ambiente que o rodeava. Liberto da onipresença divina o homem se tornou</p><p>livre para ser e construir o que quiser (GODINHO, 2012, documento on-line).</p><p>7As bases do pensamento moderno</p><p>Sabemos que o fortalecimento do poder real, com a expansão de suas</p><p>atribuições, influências e poderes, decorre da perda de poder econômico e</p><p>político da nobreza feudal e do apoio recebido da burguesia, que via no monarca</p><p>[...] um recurso legítimo contra as arbitrariedades da nobreza e um defensor de</p><p>seus mercados contra a penetração de concorrentes estrangeiros. A unificação</p><p>política significava também a unificação das moedas e dos impostos, das leis e</p><p>normas, de pesos e medidas, fronteiras e aduanas. [...] Com a grande expansão</p><p>do comércio, a monarquia nacional criaria a condição política indispensável à</p><p>definição dos mercados nacionais e à regularização da economia internacional</p><p>(SEVCENKO, 1994, p. 9).</p><p>De acordo com Nunes (2007, p. 302):</p><p>Na base das concepções fundamentais dos mercantilistas está, no entanto,</p><p>uma filosofia individualista de busca do máximo lucro a partir do aumento da</p><p>produção e do comércio. A atuação dos regimes mercantilistas caracterizou-</p><p>-se, de resto, pela ajuda prestada às atividades privadas, incentivando-as</p><p>e protegendo-as nos primeiros passos do seu desenvolvimento em moldes</p><p>capitalistas. [...] Historicamente, o mercantilismo contribuiu, no plano dou-</p><p>trinal e no plano da ação política, para a acumulação de capitais necessária à</p><p>implantação do capitalismo como modo de produção dominante.</p><p>É durante esse período da Idade Moderna que a economia passa a ter um</p><p>caráter nacional, ou seja, ser desenvolvida entre nações, e não entre indivíduos.</p><p>Esse caráter se dá a partir das funções que os soberanos dos Estados Modernos</p><p>passam a desempenhar em relação a economia, considerados como condutores</p><p>do sistema econômico.</p><p>Veja, a seguir, algumas das características da política econômica mercan-</p><p>tilista de acordo com Nunes (2007):</p><p> política de incentivo à exportação de produtos manufaturados;</p><p> proibição da exportação de matérias-primas e dos capitais necessários</p><p>à indústria nacional;</p><p> limitação da importação de produtos estrangeiros, excetos os de utilidade</p><p>para a indústria nacional;</p><p> reserva de mercado para os comerciantes nacionais;</p><p>As bases do pensamento moderno8</p><p> política de fomento às manufaturas;</p><p> liberdade de comércio interno, unificando o mercado dentro das fron-</p><p>teiras dos reinos;</p><p> práticas colonialistas como busca de novos mercados e novas fontes</p><p>de matérias-primas.</p><p>A faceta metalista do mercantilismo, ou seja, a adoção da quantidade de</p><p>metais preciosos que uma nação possui como forma de riqueza, estabeleceu-</p><p>-se a partir do renascimento comercial das cidades e da emergência de uma</p><p>classe comerciante e manufatureira que transformou as relações de trabalho.</p><p>A política mercantil entendia a riqueza e o desenvolvimento como depen-</p><p>dentes de um Estado, que deveria unificar a tributação, controlar a atividade</p><p>produtiva e estabelecer um sistema alfandegário para proteger os produtores</p><p>do seu país. O Estado deveria manter uma balança comercial favorável, ou</p><p>seja, exportar mais do que importar. Devido à necessidade de manutenção</p><p>dessa balança favorável, associada ao metalismo, os governos mercantilistas</p><p>foram levados a argumentar em favor da autossuficiência interna e da prática</p><p>do monopólio, o direito exclusivo do monarca sobre a economia.</p><p>Foram subvencionadas indústrias para garantir o abastecimento do mercado</p><p>interno, mas, como a riqueza só podia ser medida a partir do comércio exterior</p><p>e do fluxo de metais em seu território, a sustentação do sistema mercantil vai</p><p>depender do sistema colonial. Assim, o governo vai licenciar companhias para</p><p>o comércio ultramarino e promover a organização dos territórios ocupados.</p><p>Diferentes tipos de mercantilismo foram adotados nos países europeus, e o</p><p>critério para definir cada tipo de mercantilismo foi a posse ou não de territórios</p><p>coloniais e o tipo de produto que forneciam. A expansão marítima europeia</p><p>trouxe o domínio de novos territórios, novas fontes de riquezas e novos braços de</p><p>trabalho ao antigo continente. A estruturação do sistema de exploração colonial só</p><p>foi possível após o entendimento da necessidade de gerar riqueza neste território.</p><p>No entanto, a relação entre os Estados Nacionais e a burguesia não se limitou</p><p>somente ao âmbito econômico. De acordo com Sevcenko (1994, p. 9), para a</p><p>criação e manutenção do poder, era preciso, nesse momento, “contar com um</p><p>grande e temível exército de mercenários, um vasto corpo de funcionários</p><p>burocráticos de corte e de província, um círculo de juristas que instituísse,</p><p>legitimasse e zelasse por uma nova ordem sócio-político-econômica e um</p><p>quadro fiel de diplomatas e espiões, ocultos e eficientes”. Segundo o autor,</p><p>esses homens mais provavelmente estariam nos escalões da burguesia.</p><p>9As bases do pensamento moderno</p><p>De que forma as casas comerciais burguesas lucravam com sua inserção no Estado</p><p>Moderno? Sevcenko (1994, p. 10-11) nos responde essa questão, afirmando que o</p><p>Estado se tornou uma vasta empresa:</p><p>Todas essas casas comerciais possuíam uma enorme burocracia, que</p><p>abrangia dimensões tanto nacionais como internacionais, graças às suas</p><p>inúmeras agências, feitorias e entrepostos. Desenvolviam igualmente</p><p>um sistema completo de contabilidade e de administração empresarial e</p><p>financeira. Não relutavam, mesmo quando necessário, em contratar com</p><p>companhias especializadas os serviços de corpos de mercenários para</p><p>a guerra, para combater revoltas populares ou para simples ameaça. E o</p><p>que era o Estado moderno senão a ampliação de uma empresa comercial,</p><p>cujo controle decisório estava nas mãos o rei, sendo que este se aconse-</p><p>lhava com os assessores financeiros, fiscais, comerciais, militares, com</p><p>os diplomatas e espiões antes de qualquer gesto? Era natural, portanto,</p><p>que os monarcas buscassem o apoio, a inspiração e encontrassem parte</p><p>de seu pessoal junto a essas grandes casas comerciais. Normalmen-</p><p>te o acordo incluía a concessão dos direitos de exploração de minas</p><p>de</p><p>metais preciosos e ordinários, de sal e alume, o monopólio sobre</p><p>certos artigos comerciais e o arrendamento da cobrança de impostos.</p><p>Os lucros e o poder que tais privilégios propiciavam a seus detentores</p><p>eram extraordinários e faziam com que eles se tornassem verdadeiros</p><p>patronos dos Estados aos quais se associavam. Tem-se, dessa forma, a</p><p>imagem de um Estado transformado numa vasta empresa e ele próprio</p><p>dominado por uma ou algumas casas financeiras.</p><p>Não podemos esquecer, portanto, que a passagem da Idade Média para a</p><p>Idade Moderna, com a ascensão da burguesia e o desenvolvimento de práticas</p><p>mercantilistas, marca, também, o desenvolvimento do conceito moderno de</p><p>Estado, como estudou Skinner (1996, p. 10): “O poder do Estado, e não o do</p><p>governante, passou a ser considerado a base do governo. E isso, por sua vez,</p><p>permitiu que o Estado fosse conceitualizado em termos caracteristicamente</p><p>modernos — como a única fonte da lei e da força legítima dentro de seu</p><p>território, e como o único objeto adequado da lealdade de seus súditos”.</p><p>As bases do pensamento moderno10</p><p>BATISTELA, A. C.; BONETI, L. W. A relação homem/natureza no pensamento moderno.</p><p>In: CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 8., 2008, Curitiba. Anais […]. Paraná: PU-</p><p>CPR, 2008. Disponível em: www.pucpr.br/eventos/educere/educere2008/anais/</p><p>pdf/1424_959.pdf. Acesso em: 9 jan. 2020.</p><p>GODINHO, R. S. Renascimento: uma nova concepção de mundo através de um novo</p><p>olhar para a natureza, DataGramaZero, v. 13, n. 1, 2012. Disponível em: http://www.</p><p>brapci.inf.br/index.php/res/download/45740. Acesso em: 9 jan. 2020.</p><p>NUNES, A. Uma introdução à economia política. São Paulo: Quartier Latin, 2007.</p><p>PORTO, C. M.;  PORTO, M. B. D. S. M. A evolução do pensamento cosmológico e o</p><p>nascimento da ciência moderna. Revista Brasileira de Ensino de Físca, v. 30, n. 4, 2008.</p><p>REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: do humanismo a Descartes. São Paulo:</p><p>Paulus, 2004. v. 3.</p><p>SEVCENKO, N. O renascimento. 8. ed. São Paulo: Atual Editora, 1994.</p><p>SKINNER, Q. As fundações do pensamento político moderno. São Paulo: Companhia das</p><p>Letras, 1996.</p><p>SOUZA, J.; ÖELZE, B. (org.). Simmel e a modernidade. Brasília: Editora UnB, 1998.</p><p>Leituras recomendadas</p><p>BROTTON, J. O bazar do renascimento: da rota da seda a Michelangelo. São Paulo:</p><p>Grua, 2009.</p><p>BURKE, P. O renascimento. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 1997.</p><p>CIPOLLA, C. M. História económica da Europa pré-industrial. Lisboa: Edições 70, 1984.</p><p>DEYON, P. O mercantilismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 1973.</p><p>GAIOIA, S. C. A Razão, a experiência e a construção de um universo geométrico: Galileu</p><p>Galilei. In: ANDERY, M. A. et al. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica.</p><p>Rio de Janeiro: Editora Espaço e Tempo, 1988.</p><p>GARIN, E. (org.). O homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1991.</p><p>GIANFALDONI, M. H. T. A. O Universo é Infinito e seu movimento é mecânico: Isaac</p><p>Newton. In: ANDERY, M. A. et al. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica.</p><p>Rio de Janeiro: Editora Espaço e Tempo, 1988.</p><p>HUBERMAN, L. História da riqueza do homem. 21. ed. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.</p><p>11As bases do pensamento moderno</p><p>Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun-</p><p>cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a</p><p>rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de</p><p>local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade</p><p>sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links.</p><p>As bases do pensamento moderno12</p><p>Dica do professor</p><p>Uma das características do pensamento moderno foi a recuperação de ideais e valores da</p><p>Antiguidade Clássica por meio do contato e do estudo das obras de filósofos e literatos,</p><p>oferencendo formas alternativas de conceber os seres humanos e sua relação com a natureza e o</p><p>universo. A partir dessa articulação entre a cultura medieval e os ensinamentos da antiguidade</p><p>clássica, surge o pensamento moderno, que, entre suas principais características, trará o</p><p>hedonismo.</p><p>Com esta Dica do Professor, conheça um pouco mais sobre a doutrina filosófica de Epicuro e o</p><p>hedonismo, e entenda de que forma ela se contrapõe a práticas e valores religiosos característicos</p><p>da Idade Média.</p><p>Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.</p><p>https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/ae284532b1bbef4fe3aa34b4d853cfe7</p>

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