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<p>PSICOLOGIA SOCIAL PARADIGMAS EM PSICOLOGIA SOCIAL A perspectiva latino-americana Edição REGINA HELENA DE FREITAS CAMPOS PEDRINHO A. GUARESCHI EDITORA (orgs.) VOZES Digitalizada com CamScanner</p><p>Regina Helena de Freitas Campos Pedrinho A. Guareschi (orgs.) PARADIGMAS EM PSICOLOGIA SOCIAL A perspectiva latino-americana Reimpressão Fevereiro /2016 EDITORA VOZES Petrópolis Digitalizada com CamScanner</p><p>A INDIVIDUALIZAÇÃO DA PSICOLOGIA Robert M. Farr "Enquanto as raízes da psicologia social estão planta- das no solo intelectual de toda a tradição ocidental, seu florescimento no presente é reconhecido como um fe- nômeno tipicamente norte-americano" (Allport Meu ponto de entrada no processo histórico é o capítulo clás- sico de Allport sobre as bases da psicologia social moderna (All- port 1954). Ele marca o ponto de transição entre o longo passado da psicologia social como parte do conjunto da tradição ocidental e sua curta história como uma ciência social experimental, princi- palmente norte-americana. O texto se inscreve na abordagem da história das ideias à escrita da história. Samelson (1974) criticou Allport por criar um falso mito de origem para a psicologia social, e por apresentar uma interpretação "whig"2 dessa história. Ten- do escolhido Comte como o fundador, Allport estava refletindo 1. "The individualization of social psychology in North America", apresentado por Robert Farr no Colóquio Internacional: Paradigmas em Psicologia Social para a América Latina, Universidade Federal de Minas Gerais, setembro de 1997. Tradução de Regina Helena de Freitas Campos. 2. A expressão "abordagem entre historiadores, refere-se à tendência do historia- dor em tomar como referência o presente para reconstruir o passado, o que acarreta um desvio conhecido como "presentismo", no qual os eventos são interpretados do ponto de vista daquilo que foi bem-sucedido e sobreviveu até a atualidade. A origem da expressão pode ser encontrada na obra dos críticos da historiografia inglesa do século XIX, que avaliavam que a história política da Inglaterra não teria sido reconstruída com rigor pelo fato de seus historiadores tenderem a se identificar com o lado "vencedor", isto é com a tradição protestante dos Whigs, agrupamento político dos séculos XVIII e XIX que visa- va limitar a autoridade real e aumentar os poderes do parlamento (cf. W. "Toward a critical historiography of psychology". In J., PONGRATZ, L. Historio- graphy of Modern Psychology. Toronto: C.J. Hogrefe, 1980, p. 29-67). Nota da tradutora. 11 Digitalizada com CamScanner</p><p>sua própria crença de que a psicologia social tinha então entrado na fase positiva de seu desenvolvimento como uma ciência cial moderna. Farr (1991) critica Lindzey e Aronson (1968/1969, 1985) por reterem, com algumas pequenas modificações, o re- lato de Allport em edições subsequentes do Handbook of Social Psychology. Isto, associado a certas mudanças editoriais, reflete, segundo Farr, a influência das filosofias da ciência positivistas na elaboração dos relatos sobre a psicologia social na era moderna. As raízes da psicologia social O conjunto da tradição intelectual ocidental As raízes, aqui, devem ser encontradas nas ciências huma- nas e sociais (Smith 1997; Jahoda 1992) e são essencialmente europeias. Antes de Comte, segundo Allport (1954), as raízes da psicologia social podem ser localizadas na área que, hoje em dia, seria denominada ciência política. Eram teorias sobre a essência das relações entre a natureza humana e estado. Allport conce- deu algum espaço, por exemplo, a uma exposição sobre o Levia- de Hobbes (incluindo uma página inteira com a reprodução do frontispício do livro de Hobbes). Aqui, estamos no terreno da especulação, que faz parte do período que Comte chamou de fase metafísica na evolução de qualquer disciplina. De minha parte, prefiro começar com a emergência da tradi- ção da Wissenschaft no interior do sistema universitário alemão que marcou nascimento da universidade moderna (Farr, 1996). Essa tradição data do tempo em que Humboldt restabeleceu a Universidade de Berlim, em 1809. Desenvolveu-se então uma controvérsia entre as Geisteswissenschaften (que se pode tradu- zin aproximadamente por ciências humanas e sociais) e as Natur- wissenschaften (ciências naturais). Aqui temos uma controvérsia entre duas formas rivais de ciência. A psicologia social, pelo me- nos em termos de suas raízes europeias, era parte das Geistes- haja vista os dez volumes da Völkerpsychologie (Wundt 1900-1920). Manicas (1987) relata a transformação des- sa tradição europeia das Geisteswissenschaften depois que elas cruzaram Atlântico e deitaram raízes (ou melhor, não deitaram raízes) no solo 12 Digitalizada com CamScanner</p><p>Fenômenos mentais coletivos No ano de 1998, temos o centenário do conceito de represen- tação coletiva de Durkheim (Durkheim 1898). Ao distinguir repre- sentações coletivas de representações individuais (as primeiras sendo objetos de estudo da sociologia), Durkheim efetivamente separou a sociologia da psicologia, criando, em consequência, uma crise de identidade para os psicólogos sociais, que eles não foram capazes de resolver no curso do século XX. A psicologia social poderia se desenvolver e efetivamente se desenvolveu no contexto de qualquer uma das disciplinas parentais. Existem na atualidade formas tanto psicológicas quanto sociológicas de psi- cologia social. Durkheim não estava sozinho ao insistir que fenômenos cole- tivos e individuais deveriam ser tratados separadamente. Os obje- tos de estudo da Völkerpsychologie de Wundt eram a linguagem, a religião, os costumes, mito, a magia e os fenômenos cog- natos. Estes objetos, que seriam comparáveis às representações coletivas de Durkheim, não poderiam ser explicados em termos da consciência do indivíduo, base da sua ciência de laboratório. Wundt, como Durkheim, era um antirreducionista severo. É por isso que ele procurou separar sua psicologia social de sua psicolo- gia experimental, tratando-as como dois projetos completamente distintos. A mente em suas manifestações externas (isto é, as representações coletivas), sendo produto da interação de mui- tos, era diferente da mente em suas manifestações internas, reve- ladas, por exemplo, pela introspecção. Le Bon (1895) contrastou a racionalidade do indivíduo com a irracionalidade das massas. Nos anos 20, Freud (1921, 1923) transferiu sua atenção do estudo clínico do indivíduo para uma crítica psicanalítica da cultura e dos fenômenos de massa. Os teóricos, cujo trabalho está sumarizado na Figura 1, po- dem, na atualidade, ser identificados com disciplinas específicas diferentes, por exemplo, a sociologia (Durkheim), a psicanálise (Freud), a psicologia (Wundt), a linguística (de Saussure), a filo- sofia (G.H. Mead), a sociobiologia (McDougall), a psicologia das massas (Le Bon) e a psicologia social (F.H. Allport). É difícil, a essa distância no tempo, avaliar o quanto cada um deles esta- va ao par do trabalho dos outros. Hoje em dia, essa possibilida- 13 Digitalizada com CamScanner</p><p>de seria menos provável, com as barreiras que existem entre as disciplinas. Manicas (1987) construiu um conjunto muito útil de marcos temporais para a separação das Geisteswissenschaften em disciplinas distintas: " "... se, como cientistas sociais, nos puséssemos a imaginar a nós mesmos transportados para Oxford, para a Sorbonne, ou para Harvard em, digamos, 1870, não acharíamos quase nada que nos fosse familiar. Não haveria 'departamentos' de ou 'psi- cologia'; as práticas de pesquisa dos professores e os modos de instrução graduada nessas instituições se- riam na maioria das vezes estranhos. Mas acharíamos muito pouca coisa que não nos fosse familiar se fizés- semos uma visita similar a qualquer em qualquer universidade norte-americana em 1925" (Manicas 1987, p. 5). FIGURA 1: Níveis de teorização NÍVEL DO FENÔMENO Teórico Individual Intermediário Coletivo Wundt Psicologia Völkerpsychologie Fisiológica Durkheim Representações individuais Representações coletivas Le Bom indivíduo A multidão Freud Estudos clínicos Id, Ego, Superego Crítica psicanalítica da cultura e da sociedade de Saussure Fala Língua Mead Mente Self Sociedade McDougall Instintos Mente grupal F.H. Allport Comportamento do Comportamento indivíduo institucional, opinião pública Reducionismo nas ciências sociais Todos os teóricos importantes identificados na figura 1, com a exceção de F.H. Allport, eram antirreducionistas. Isto é, eles acreditavam que os fenômenos listados na coluna final não po- diam ser explicados em termos dos fenômenos listados na pri- meira coluna. Somente F.H. Allport acreditava ser possível se 14 Digitalizada com CamScanner</p><p>movimentar do nível individual para o coletivo sem modificar modelo explanatório. Isto porque, para ele, indivíduo era a últi- ma e única realidade: "Não existe uma psicologia dos grupos que não seja essencial e inteiramente uma psicologia dos indiví- duos. A psicologia social não deve ser colocada em oposição à psicologia do indivíduo: ela é parte da psico- logia do indivíduo... Não há, da mesma maneira, uma consciência que não pertença aos indivíduos. A psico- logia, em todas as suas é uma ciência do indivíduo" (Allport 1924, p. 4). Floyd Allport era um crítico feroz de qualquer um seja cien- tista social ou jornalista que quisesse atribuir atividade a outras entidades que não os indivíduos. Ele atacou a concepção de men- te grupal em McDougall (McDougall 1920; Farr 1986). Somente indivíduos têm mentes. Criticou a concepção de mente grupal proposta por Só existe a consciência dos indivíduos que fazem parte da multidão - a multidão não pode ser cons- ciente, porque ela não possui um sistema nervoso central. Este argumento prosperou quando a psicologia deixou de ser a ciência da mente e tornou-se a ciência do comportamento. A psicologia social moderna: um fenômeno caracteristicamente norte-americano Psicologia Social (Allport 1924) Neste manual, agora clássico, Floyd Allport (irmão de Gordon) estabeleceu a psicologia social na América como uma ciência experimental e comportamental. Graumann (1986) está correto, na essência, quando argumenta que a principal contribuição de Allport para a psicologia social foi a individualização da discipli- na. Esta era uma consequência direta tanto de seu behaviorismo quanto de seu experimentalismo. O campo de pesquisa substantivo de Allport na psicologia social englobava os efeitos da facilitação social. Sua preocupação era avaliar os efeitos, na performance individual, da presença dos outros, seja como coautores ou como audiência. Graumann (1986) 15 Digitalizada com CamScanner</p><p>indica que a origem dessa tradição experimental de pesquisa en- contra-se nos estudos de Meumann (1914) e Moede (1914, 1920), feitos na Alemanha, na área da educação. Allport teve como orien- tador Münsterberg, durante seus estudos doutorais em Harvard. Sua psicologia social deriva, embora indiretamente, da psicologia experimental de Wundt, e não da Völkerpsychologie. Na verdade, Allport pode ser classificado como parte da jovem geração de positivistas que repudiaram Wundt (Danziger 1979). Wundt acreditava (ver acima) que a psicologia era somen- te parte do ramo das Naturwissenschaften. Para ele não seria possível, por exemplo, os processos mentais superiores experimentalmente. Estes seriam parte de sua psicologia social, que por sua vez fazia parte das Geisteswissenschaften. A ge- ração mais jovem de experimentalistas rejeitou a afirmação de Wundt de que a psicologia experimental seria um projeto cien- tífico estritamente limitado. Eles se deslocaram para Würzburg, Berlim e outros lugares, para mostrar que era possível estudar os processos mentais superiores experimentalmente. Allport, junto com Meumann e Moede, mostraram que era possível estudo da psicologia social através da experimentação. Os behavioristas na América, assim como a geração mais jovem de experimentalistas alemães estudada por Danziger, afirmavam que a psicologia era, em seu conjunto, um ramo das ciências naturais, assim repudian- do Wundt. A emergência da psicologia social como uma ciência social experimental e comportamental foi, como Gordon Allport (1954) pretendia, um fenômeno caracteristicamente norte-ame- ricano. Seu irmão Floyd tinha contribuído para que as coisas se passassem assim. Quando Allport escreveu sua Psicologia Social, afirmaria, de maneira bastante acurada, que mais sociólogos que psicólogos haviam escrito manuais de psicologia social. Esta foi provavel- mente a última vez que essa afirmativa seria feita com razão. Jo- nes (1985) organizou, por décadas, número de manuais escritos por psicólogos e por sociólogos, visando fornecer evidências da dominância das formas psicológicas sobre as formas sociológicas de psicologia social. Por volta dos anos 70 e 80, os psicólogos se sobrepuseram aos sociólogos na escrita desse tipo de texto, em uma razão de aproximadamente quatro para um. O texto de Allport de 1924 foi começo daquilo que veio a se tornar a tradi- 16 Digitalizada com CamScanner</p><p>ção dominante em Psicologia Social, na sua forma psicológica, na América da era moderna. Examinando a tese de Graumann Graumann (1986) baseou sua tese referente à individualização do social primariamente em uma leitura atenta do texto de 1924 de Allport. Ele poderia ter fortalecido consideravelmente seu ar- gumento se tivesse ampliado sua leitura de Allport, especialmen- te no que se refere ao livro de 1933, Institutional Behavior, no qual o reducionismo de Allport fica mais evidente. As instituições são analisadas em termos do comportamento dos indivíduos. Tendo em vista o contexto no qual o capítulo foi publicado, não é surpreendente que Graumann tenha se concentrado no re- lato de Allport sobre comportamento das multidões. Na litera- tura da época, as multidões incluíam as instituições. McDougall (1920), por exemplo, em The Group Mind, concentrou-se na aná- lise da moral de instituições tais como exército ou a Igreja. Os estudos experimentais de Meumann (1914) e de Moede (1914, 1920), citados anteriormente, tratavam do efeito do contexto ins- titucional sobre trabalho escolar. A comparação era feita entre trabalho feito na escola, onde os efeitos da facilitação social podiam ser observados, e trabalho feito em casa, em condições de isolamento. Se Graumann tivesse incluído a análise de Allport sobre o comportamento institucional, ele teria confirmado sua hi- pótese de que behaviorismo leva à individualização das ciên- cias sociais. Graumann não menciona nem mesmo o poderoso apoio dado por Allport às pesquisas de opinião pública, quando elas foram pela primeira vez realizadas na América na década de 1930. Tratava-se de um método de pesquisa que era inteiramente consistente com individualismo metodológico de Allport. Era também necessário antídoto, em uma democracia, à unanimi- dade percebida nas multidões. Os indivíduos encontram-se na condição de isolamento quando respondem às questões das pes- quisas de opinião. Contudo, argumento de Graumann de que a individualiza- ção do social equivale à dessocialização do indivíduo está inteira- mente equivocado. Não existe contradição interna, por exemplo, entre os processos de individualização e de socialização na psi- 17 Digitalizada com CamScanner</p><p>cologia social de Mead (1934). Em culturas em que o individua- lismo faz parte de um conjunto importante de valores (como por exemplo nos Estados Unidos da América), as crianças são edu- cadas para ser indivíduos, e são ao mesmo tempo altamente cializadas. Bronfenbrenner (1970) contrasta dois mundos infantis: o norte-americano (que é altamente individualista) e da antiga União Soviética (que é fortemente coletivista). Os processos de socialização eram igualmente fortes de ambos os lados da Cortina de Ferro. As crianças eram socializadas em duas culturas comple- tamente opostas. No decorrer da socialização, as ideologias rivais da Guerra Fria mais recente, isto é, o capitalismo e o comunismo, tinham seu papel. O relato de Graumann é insuficiente em outro aspecto. O behaviorismo não era a única força em funcionamento duran- te os anos de construção da psicologia social individualista na América do Norte, isto é, os anos entre as duas guerras mun- diais, embora certamente representasse a corrente de pensa- mento mais potente. Gordon, o irmão de Floyd, era um teórico cognitivista, e teve um papel também importante na individuali- zação da psicologia social. Em seu estudo clássico sobre atitudes (Allport 1935), Gordon individualizou conceito teórico-chave da psicologia social. Naquela época, conceito de atitude era comum tanto entre sociólogos quanto entre psicólogos. Ele era, e é ainda, um conceito altamente proeminente na psicologia social de tendência psicologizante. Thomas, o conhecido soció- logo de Chicago, definiu a psicologia social nos anos 20 como "o estudo científico das atitudes sociais". Em sua revisão do conceito para Handbook de Murchison, Gordon Allport con- siderou um amplo espectro de definições propostas tanto por sociólogos quanto por psicólogos. Conforme Jaspars e Fraser (1984) demonstraram amplamente, ao editar seletivamente os aspectos coletivos e sociais de cada definição, Allport realmente individualizou o conceito. Ele fez a mesma coisa, como Craik (1993) demonstrou, para o conceito de personalidade (Allport 1937). O ponto que quero ressaltar aqui é que behaviorismo não era um único dispositivo a favorecer a individualização da psicologia social durante o período entre-guerras. Embora a tese de Grau- mann seja correta, ela está incompleta. 18 Digitalizada com CamScanner</p><p>A perspectiva dos psicólogos da Gestalt Há ainda duas correntes adicionais favorecendo a individua- lização da psicologia social, além daquela identificada por Grau- mann. A primeira está associada com a migração dos psicólogos da Gestalt da Áustria e Alemanha para a América (Farr 1996, 110-117). A segunda, relativa à emergência das ciências compor- tamentais na América na década de 1950, é examinada na seção final deste texto. Koffka migrou para a América em 1927 e Heider em 1930. Wertheimer e Lewin deixaram a Alemanha em 1933, com a ascensão de Hitler ao poder, e outros os seguiram mais tarde. O estudo definitivo da perspectiva da Gestalt, no contex- to da cultura norte-americana, foi feito por Ash (1995). Minha preocupação, aqui, é com que aconteceu depois da emigração dos Gestaltistas para a América, onde, pela primeira vez, eles encontraram behaviorismo como paradigma dominante para a pesquisa em psicologia. Estou interessado, primariamente, em Lewin e Heider, uma vez que eles influenciaram diretamente desenvolvimento da psicologia social na América. Wertheimer é importante também, especialmente devido a sua influência sobre Solomon Asch. Embora tenham migrado em diferentes ocasiões e por mo- tivos variados, os psicólogos da Gestalt se encontraram mais ou menos unidos, no contexto norte-americano, em sua oposição ao behaviorismo. O início da Primeira Guerra Mundial marcou estabelecimento do behaviorismo na América (Watson 1913), e da psicologia da Gestalt na Alemanha. A guerra e seus des- dobramentos posteriores contribuíram para que essas duas for- mas completamente distintas de trabalho em psicologia se de- senvolvessem independentemente uma da outra nos dois lados opostos do Atlântico. A ocasião para seu encontro foi a ameaça iminente da guerra, uma vez mais, na Europa. Embora as migra- ções tenham ocorrido antes da eclosão do conflito, impacto da perspectiva da Gestalt não se tornou aparente senão na era moderna da psicologia social, em seguida ao final da Segunda Grande Guerra. A emergência da psicologia social cognitiva na América no período pós-guerra foi uma consequência direta da- quelas migrações anteriores. Embora Allport (1954) tenha descri- to a psicologia social moderna como um fenômeno tipicamente norte-americano, a contribuição da Europa continental foi vital. 19 Digitalizada com CamScanner</p><p>A coexistência de duas perspectivas incompatíveis A perspectiva behaviorista é a de um observador dos outros, enquanto a perspectiva do psicólogo gestaltista é a de um ator na cena social. Isto corresponde, respectivamente, às abordagens da "consistência da resposta" e da "visão do mundo" no estudo das atitudes (Campbell 1963). Campbell mostra como, historicamen- te, a abordagem da "visão do mundo" veio a prevalecer sobre a abordagem da "consistência da resposta". Esse movimento cor- responde à dominância da perspectiva da Gestalt sobre a pers- pectiva behaviorista, associada à emergência da psicologia social cognitiva nos Estados Unidos. A perspectiva da Gestalt individualizou social tão efetiva- mente quanto o behaviorismo já tinha feito. A individualização, desta vez, era em termos de percepção, e não de comportamento. No contexto do behaviorismo, a abordagem da "visão de mundo" ao estudo das atitudes parecerá ser subjetiva. A única maneira de eliciar a perspectiva dos outros é convidá-los a dizer como eles veem o mundo. Isto envolve uso de métodos que se baseiam em relatos individuais no levantamento de atitudes e aferição de opiniões. A perspectiva do ator é tão individualizada quanto a perspectiva do observador. Segundo Jones e Nisbett (1972), essas duas perspectivas são incompatíveis entre si. A coexistência de duas perspectivas altamente individualizadas, porém incom- patíveis, ao longo da era moderna da psicologia social não contri- bui para a constituição de uma ciência social. Asch tinha apenas 12 anos de idade quando seus pais migra- ram da Polônia para a América. Ele tomou conhecimento da psi- cologia da Gestalt, na América, principalmente através de Wer- theimer, que então lecionava na New School for Social Research em Nova York. Em muitos aspectos, ele desempenhou um papel importante na americanização da psicologia da Gestalt. Seu ma- nual intitulado Psicologia Social (Asch 1952) teve um papel cen- tral na emergência da psicologia social cognitiva na América do Norte na era moderna. Ele pode ser comparado em importância ao texto escrito por Floyd Allport em 1924 com mesmo Como seu predecessor, ele também resultou na individualização da psicologia social. 20 Digitalizada com CamScanner</p><p>A individualização das ciências sociais A morte da psicologia comparada O behaviorismo individualizou tanto a psicologia comparada quanto a psicologia social. Colocar foco no comportamento individual significa individualizar tanto as ciências biológicas quanto as sociais. Wundt, em sua utilizou o método comparativo, como Darwin havia feito antes dele. O complemento para o controle experimental de em um laboratório é o estudo das várias espécies que existem na natureza. Wundt estava tentando fazer, em relação à mente hu- mana, que Darwin já havia feito em relação ao corpo humano, isto é, estabelecer uma perspectiva evolucionista. Aqui o limite são os experimentos da própria natureza. Wundt tinha que se contentar com os relatos de antropólogos e linguistas relativos às variedades da natureza humana que se podia encontrar no mundo inteiro, e das línguas faladas pelos seres humanos. Esta abordagem comparativa à compreensão da natureza humana era princípio organizador do manual de Murchison, Handbook of Social Psychology (Murchison 1935). Tratava-se de uma abor- dagem multidisciplinar ao estudo da psicologia social. Não era possível submeter essas variações naturais ao controle experi- mental. O behaviorismo destruiu tanto a psicologia comparada quanto a psicologia social. Os editores da série moderna de ma- nuais em psicologia social, os Handbooks of Social Psychology, Linzey (1954) e Lindzey e Aronson (1968/1969; 1985), medem progresso na disciplina através da distância percorrida desde a publicação do primeiro Handbook, que agora pertence à idade pré-moderna da psicologia social (Farr 1991). As ciências comportamentais Nos anos 50, tornou-se conveniente para as ciências humanas e sociais (que, na cultura alemã, seriam as Geisteswissenschaf- ten), referir-se a si mesmas como ciências comportamentais. Isto porque os políticos e as fundações de pesquisa que controlavam os fundos de pesquisa pareciam propensos a confundir ciência social com socialismo. Estamos agora no começo da Guerra Fria recente. O behaviorismo, que já havia individualizado a psico- 21 Digitalizada com CamScanner</p><p>logia social, teve então mesmo efeito sobre as outras ciências sociais. No coração dessa nova designação para agrupamento das ciências humanas e sociais estava a psicologia (isto é, a ciên- cia do comportamento), e não a psicologia social. Isto acelerou de maneira formidável processo de individualização do social. Foi a segunda onda do processo, muito além daquela identificada por Gaumann (1986), e relacionada, por ele, ao texto de 1924 de Allport. Os efeitos são muito mais amplos e acarretaram a des- truição da possibilidade de que os psicólogos pudessem resso- cializar sua disciplina voltando-se para as outras ciências sociais na cena americana. Ao contrário, eles teriam que se voltar para as O que Graumann chamou de indivi- dualização da psicologia social é um caso especial daquilo que Manicas (1987) denominou processo de "americanização das ciências sociais". As ciências comportamentais são resultado final desse processo. Psicologia social multidisciplinar A psicologia social está se tornando, uma vez mais, um em- preendimento multidisciplinar (como nos incômodos dias antigos do manual de Murchison). Agora, as outras disciplinas foram sa- neadas ao se tornarem ciências comportamentais. Desde final dos anos 60 e continuando até presente, temos a emergência de novos campos de pesquisa interdisciplinar, como a psicolo- gia transcultural, comportamento organizacional as sombras do comportamento institucional! medicina comportamental, psico- logia ambiental, psicologia política, psicologia econômica para falar apenas de alguns. Isto tudo é muito diferente dos cruzamen- tos entre cultura e mente (Jahoda 1992), que no passado, pro- duziram alguns clássicos das ciências sociais como as represen- tações coletivas (Durkheim 1898), Völkerpsychologie (WUNDT, 1900-1920), e até primeiro Handbook of Social Psychology (Mur- chison 1935). Voltamos ao mesmo ponto da ciência política pré- comteana, à qual Allport fez referência (ver acima), exceto pelo fato de que agora ela é uma ciência comportamental, e não uma ciência social e humana. Também podemos escolher se quere- mos publicar nossa pesquisa histórica nas revistas Journal of the 22 Digitalizada com CamScanner</p><p>History of the Behavioural Sciences (estabelecida na América em 1965), ou The History of Human Sciences (estabelecida na Europa em 1988). Referências bibliográficas ALLPORT, F.H. (1933). Institutional Behavior. Chapel Hill, Univer- sity of North Carolina Press. ALLPORT, F.H. (1924). Social Psychology. Boston, Houghton-Mif- flin. ALLPORT, F.H. (1937). Towards a science of public opinion. Pu- blic Opinion Quarterly, n. 1: 7-23. ALLPORT, G.W. (1935). Attitudes. In: MURCHISON, C. (Ed.). Handbook of Social Psychology. Worcester, Mass., Clark Univer- sity Press, p. 798-844. ALLPORT, G.W. (1937). Personality: A Psychological Interpreta- tion. New York: Holt. 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Leipzig, Englemann, Vol. 10. 25 Digitalizada com CamScanner</p><p>A PSICOLOGIA SOCIAL NA LATINA: POR UMA ÉTICA DO CONHECIMENTO Silvia Tatiana Mauren Lane Características históricas da América Latina Somos povos colonizados pelos espanhóis e portugueses, além dos aventureiros anônimos vindos de toda a Europa e, para um historiador, encontrar sujeitos puros nessa miscelânea cultu- ral e racial tornou-se um objetivo difícil de ser atingido, porém de uma incalculável para conhecimento científico da Psicologia Humana. O poder da sabedoria dos aborígenes, mais evoluídos do que os europeus em termos culturais, foi desarmado pela violência e pelo uso da força, a fim de se apoderarem de ouro e prata, utensí- lios valiosos economicamente e não por sua beleza artística. O período chamado de colonização foi antes uma época de espoliação de riquezas, sem consideração aos valores estéticos e ético-religiosos das culturas indígenas na América Latina, mine- rais tidos como valiosos na Europa e que justificaram as barbáries cometidas. A procura de liberdade levou os países latino-americanos a declararem a sua independência, através de lutas, de acordos, de tratados. República e democracia eram temas de debates entre facções políticas, através de discursos utópicos. A realidade so- cial e política caracterizou-se como anárquica, justificando golpes militares e ditaduras impostas pela força. Forças físicas, através de prisões e torturas, e forças intelec- tuais como a ideologia e a censura oficial, facilmente internaliza- das, através dos meios de comunicação de massa, conseguiram 56 Digitalizada com CamScanner</p><p>dominar grande parte da população dos países latino-america- nos, através de sua ignorância e de propagandas subliminares. Durante o golpe militar no Brasil, em 1964, surgiram cartilhas onde a palavra Revolução era associada com figuras dramáticas, em branco e preto, no decorrer do texto, significado de Re- volução era transformado, através de cores, em crianças loiras e saudáveis, empunhando uma bandeira brasileira, significando uma nova revolução... Ditaduras "incorruptas", veiculadas através dos meios de municação de massa, permitiram corrupções em todos os níveis, principalmente nos altos escalões do governo. Após os períodos ditatoriais, as eleições eram decididas por slogans como "Rouba, mas Faz. E a corrupção passa a ser instituída como uma carac- terística do político profissional. Nesse contexto surge a industrialização multinacional, a pro- cura de mão de obra barata e, consequentemente, do abandono da pequena agricultura, responsável pela alimentação do dia a dia de quase toda a população. Enfrentando todos estes problemas, com algumas variações, os psicólogos sociais de vários países da América Latina questionaram significado do seu conhecimento na influência sobre a realidade social existente. As origens da psicologia social na América Latina A convicção da possibilidade de atuar no sentido da transfor- mação de um povo ignorante em uma comunidade capaz de tomar a direção de uma nova realidade sociopolítica levou educadores, como Paulo Freire, a desenvolverem procedimentos instrumentais em seu sentido mais amplo: ler e escrever como ferramentas para o desenvolvimento da consciência social. Sua proposta de traba- lho apontava para os pequenos aglomerados sociais como possi- bilidades de virem a se constituir em comunidades autônomas, organizadas para a reivindicação de providências governamen- tendo em vista a satisfação de necessidades básicas para a sua sobrevivência. Orlando Fals Borda, na Colômbia, também procurava solu- ções para um trabalho científico de conhecimento e de interven- 57 Digitalizada com CamScanner</p><p>ção, para atuar em grupos sociais, visando desenvolvimento de consciências individuais e grupais. Foram estes dois intelectuais que impulsionaram uma cura, por parte dos psicólogos, de novos caminhos para nhecimento concreto da realidade social em que vivíamos um e pro- CO- uma ação transformadora através da consciente comunidade. participação dos de indivíduos que constituem uma A Educação Popular passa a ser desafio de psi- cólogos, assistentes sociais e também militantes Ati- vidade essa a ser desenvolvida junto aos trabalhadores e suas famílias, visando a constituição de uma comunidade. A expressão Psicologia Comunitária já era consagrada, po- rém com uma forte conotação de paternalismo, rechaçado por todos aqueles que lutavam pela autonomia e consciência Diante dessa ressalva, psicólogos, em geral professores em universidades, começaram a desenvolver uma nova Psicologia Comunitária, levando alunos a realizarem estágios junto a essa população, procurando a sistematização de uma área de atuação profissional. Em alguns países essa iniciativa partia da Igreja Ca- tólica, através da divulgação da Teologia da Libertação, contando com a participação de intelectuais e militantes políticos. As várias experiências realizadas, em diversos países da América Latina, ensinaram-nos que jamais saber profissio- nal deveria dominar saber popular, muitas vezes mais correto do que aquele. Portanto, tornou-se imprescindível resgate desse saber para que se pudesse, efetivamente, realizar trocas entre pes- soas aparentemente diferentes. Também através destas experiências, descobrimos que as re- lações grupais entre pares eram fundamentais para a superação de um individualismo profundamente arraigado. A constatação de condições sociais comuns, responsáveis pelos problemas vi- venciados como pessoais, se tornava um vínculo de identidade social. Para um verdadeiro conhecimento do ser humano era ne- cessário considerá-lo como uma totalidade que se constituía a partir das relações sociais vividas num contexto peculiar. A psicologia deveria se tornar uma ciência comprometi- da, política e eticamente, jamais neutra ou universal... 58 Digitalizada com CamScanner</p><p>As origens da psicologia A Filosofia, considerada uma forma de saber e de reflexão crítica sobre homem, a natureza, a ciência, a lógica, a ética, a estética e a metafísica, constitui a base da cultura ocidental. A partir da mitologia grega ela foi se racionalizando, na tentativa de encontrar explicações do inexplicável. Até os nossos dias vi- vemos à procura de respostas às questões propostas pela Grécia Antiga, característica primordial do século XX. Aristóteles, com sua lógica formal, procurou desvendar a na- tureza; Platão, discípulo de Sócrates, questionava a própria reali- dade e, consequentemente, o saber desenvolvido pelo ser huma- no. Alguns séculos antes, Heráclito lançava as raízes da dialética. Os estoicos prepararam terreno para desafio ético trazido pelo cristianismo; poderíamos continuar desfilando nomes e temas debatidos ao longo de séculos, tendo o homem e Deus como as grandes incógnitas para a explicação do Universo. Deus foi grande tema da Escolástica durante a Idade Média. O ser huma- no foi desafio do Renascimento, desde os seus valores éticos e estéticos, de sua capacidade de conhecer mundo que cercava, dando origem às ciências que chegaram até nossos dias. A Psi- cologia tinha por objetivo a alma humana, porém, frente à impossibilidade de constatá-la empiricamente, como convém a um saber científico, passou a observar as ações e reações do ser humano. Wundt em seu laboratório considerou o Homem como um organismo dentro de uma escala filogenética, porém a natureza social deste ser já perturbava bastante, levando-o a questionar as características sociais dos agrupamentos humanos, à procura da sistematização de uma ciência psicológica. Enquanto isso a Filosofia se recolhia em sua torre de marfim ou de Babel com suas múltiplas linguagens e, sem dúvida, foi Marx quem denunciou este distanciamento da realidade, procu- rando recuperar a materialidade da história social, através da ló- gica dialética conforme proposta por Hegel. Não podemos negar a revolução das ciências humanas de- sencadeada pela obra de Marx, que nos obrigou a repensar o ser humano, se por um lado como um ser alienado, por outro, como 59 Digitalizada com CamScanner</p><p>sujeito da história de sua sociedade, contradição aparentemente insuperável. A necessidade de se construir uma Psicologia Critica capaz de de desafio Latina, possibilidade gran- de recuperar o homem enquanto agente de sua história foi 0 vivido na América como uma contribuir para a eliminação das injustiças sociais, da opressão e da ignorância alienante social e psicologicamente. Esta se tornou a característica de uma Psicologia Social la- tino-americana quando, principalmente na década de 70, tor- nou-se necessária uma reflexão crítica e uma ação comprome- tida socialmente, a fim de que ela se tornasse efetivamente uma práxis científica a serviço de transformações sociais A Filosofia se afasta das questões metafísicas e volta-se para a Pessoa, determinada, condicionada, construída pelas condições históricas que a geraram. O cotidiano passa a ser objeto de aná- lise. Um novo universo se abre para a investigação filosófica e psicológica. O cotidiano, a história, a sociedade, a cultura, são os grandes desafios para conhecimento desse Ser Humano: um Ser inse- rido em uma escala filogenética, segundo Darwin (1913), e uma Pessoa ontogenética, segundo Vygotsky (1990), inseparáveis na constituição de uma nova espécie: Homem-Mulher. Pé no chão da história da sociedade e da cultura são os de- safios tanto da Filosofia como da Psicologia. Quem é este ser humano, antropoide transformado por descobrir uma ferramenta e ter que explicar para que ela serve...? o ser humano, uma grande incógnita Segundo Darwin (1913), seria um elo perdido entre os paleo- Porém ser humano está aqui, poderoso bastante para destruir seu planeta, ou para criar um novo mundo. Segundo Spinosa, um ser integrado em um universo panteis- ta, ou seja, Deus, Homem, Natureza, constituindo uma unidade indissolúvel e em sua Ética more geometricus procurou demons- essa unidade. A ação, pensamento e os sentimentos, nos conduzem a atividades criadoras ou destruidoras, dependendo de nossa vontade. 60 Digitalizada com CamScanner</p><p>O que será esta vontade? Um impulso, um instinto? Raízes biológicas do ser humano que se transformaram historicamen- te em sentimentos sociais, denominados de desejos, de libido... como dizemos cotidianamente, significa quê? Querer bem, querer comer ou beber, querer saber, querer vencer? Ele denota uma necessidade, a falta de algo. E as necessidades têm origens biológicas (fome, sede, etc.), mas também são criadas cial e culturalmente. Impulso para agir: poder e ação. O ser humano, ao agir, trans- forma a natureza e se transforma. Porém, que leva a agir? Poder? Potência? Impulsos? Instintos? Ou, simplesmente, es- tar Vivo? Estar de posse da vida significa sentir. Darwin (1913), através da constatação de uma escala filogenética, constata nos animais a presença de emoções muito semelhantes às dos seres humanos, sempre desencadeadoras de comunicações e ações. A estética e a criatividade Retomar a questão emocional na constituição do psiquis- mo humano significa enfrentar velhos desafios da Psicologia, ou seja, como se dá processo criativo no ser humano. A capacidade de encontrar soluções novas, de inventar a própria história da humanidade, como ocorreu, por exemplo, com um gênio como Leonardo da Vinci, no século XV. Poderíamos citar uma relação infinita de homens e mulheres criativos que marcaram a nossa cultura, além dos anônimos cotidianos, pois a capacidade de criar é inerente ao ser humano, assim como sentir emoções. Como já afirmamos, elas se constituem primitivamente na escala filogené- tica. No ser humano, elas se associam à linguagem e ao pensa- mento no desencadear do processo ontogenético que constitui. As emoções estão presentes nos animais e representam a ga- rantia da sobrevivência das espécies, porém é no ser humano que elas irão constituir as bases da comunicação, ao se relacionarem com palavras, pensamentos, imaginação, desenvolvendo a fanta- sia, tão rica nos primeiros anos de nossas vidas. As histórias da Carochinha que o digam.. 61 Digitalizada com CamScanner</p><p>Porém o conhecer, o descrever a realidade que nos cerca tor- uma necessidade básica para a sobrevivência dessa nova nou-se espécie, denominada de Humana. E as emoções, a imaginação, a fantasia? Seriam elas reações primárias Ou a matéria-prima da criatividade? A sensibilidade foi sempre um adjetivo atribuído a artistas, em opo- sição à racionalidade do cientista, sentir e pensar se opuseram na construção de uma cultura ideológica, traduzida em códigos complexos, institucionalizados, cristalizados As expressões artísticas que acompanham ser humano des- de que ele aprendeu a falar e denominar os seus sentimentos têm suas raízes nas emoções, as Artes constituem códigos de comu- nicação que desafiam a racionalidade, porém também pretendem expor a sua visão da realidade. São canais de comunicação social, entre ser e semelhantes, na sua constituição filogenética, animais e seres humanos são emotivos e contam a sua história em duas direções: filogenética e ontogenética. Creio que a primeira manifestação deste ser foi a arte, pois era preciso contar uma história de sobrevivência, de lu- tas e de prazeres. Já era um código de comunicação que dispen- sava as palavras, porém necessitava delas para chamar a atenção do companheiro para a beleza contemplada. A Arte se constitui num código de comunicação sui generis no qual a expressão emocional é transmitida ao outro através dos sentimentos vividos durante processo criativo e produto final conta este percurso. A catarsis, como aponta Vygotsky (1972), em sua Psicolo- gia da Arte, é caracterizada como um processo de percepção e emoção estética, resultante da contradição entre forma e conteúdo. Tudo indica que mesmo processo ocorre na criação artística, po- rém num sentido contrário, há um sentimento indecifrável que se gostaria de concretizar, daí a necessidade de se criar algo de novo... A pressuposição de que as emoções nos seres vivos (e aí incluo as plantas) são os desencadeadores da ação e da comu- desde nicação entre as espécies, parece ser indiscutível, porém elas, às muito cedo na História da Humanidade, foram associadas palavras e pensamentos, consequência do salto ontogenético, constituindo portanto pontos de partida para o estudo da Cria- 62 Digitalizada com CamScanner</p><p>Por enquanto, contamos com ações, (códigos) e pensamento para fantasiar, criar linguagens algo Esta única. é a característica reconhecível numa obra de arte único. ela é Ética e moral Se a criatividade e a estética têm suas origens nas condições filogenéticas do ser humano, a moral, a partir da linguagem e do pensamento, pelas emoções, irá constituir pro- cesso ontogenético, criando uma nova espécie: Homem-Mulher, responsáveis pelo primeiro agrupamento humano a Família. A racionalidade foi a grande característica do homo a qual deveria ser conhecida e desenvolvida pela Filosofia, e, con- sequentemente, tornar-se o tema central da pesquisa psicológica. Esse desafio caracterizou toda a história da Psicologia, com exceção da Psicanálise, à procura de um status científico, experi- mental, positivista, neutro e universal. Freud denunciava a presença de instintos, de pulsões, difíceis de serem observados e constatados e preocupava-se, prioritaria- mente, com a sanidade mental, comprometida com as repressões de uma época vitoriana preconceituosa, ignorante no que diz res- peito ao ser humano, enquanto produto Wundt desafiou conhecimento do ser humano; criou seu laboratório de acordo com os modelos das ciências físicas e bio- lógicas. Medidas sensoriais de tempo de reação de respostas e sentimentos constituíam desafio desta nova ciência denomina- da de Psicologia. Aprender, saber, falar, fazer, expor, comprovar, tornaram-se os grandes temas que orientaram as pesquisas e experimentos durante várias décadas de produção científica. As emoções eram consideradas reações primitivas, perturbadoras do desenvolvi- mento da grande conquista humana, ou seja, falar e pensar. Na vida cotidiana, as emoções deveriam ser reprimidas, pois perturbavam a racionalidade e a saúde psicológica. A consciência estava salva. Falar, demonstrar, convencer, deveriam ser as armas invencíveis do ser humano. 63 Digitalizada com CamScanner</p><p>Cientes de que eles não eram, nem nem gatos, primeiro ou foi necessário criar normas para garantir a dessa nova espécie. Aqui surge um não mos animais, mas somos animais... Algo nos diferenciou na escala filogenética: a comunicação é a ferramenta. Não era mais preciso gesticular nem fazer bastava falar, pensar e inventar. Inventar quê? A maioria dos mitos de origem referem-se ao ser humano, ao universo e a divindades. São criações necessárias para garantir a sobrevivência dessa nova espécie: a memória e a capacidade de transmiti-la. Mas também as normas e valores são inseridos nas ações cotidianas a fim de fazer prevalecer a espécie humana. Ela fala, ela pensa, ela inventa e ela transforma O seu meio ambiente, em colaboração com os seus pares e pela natureza que a É assim que foram criadas a sociedade e as instituições, ditando normas e valores a serem preservados. Não matarás, não roubarás, etc., etc. Os Dez Mandamentos foram primeiro código ético da civilização Porém, pouco se realizou pela sobrevivência da espécie: guerras, geno- destruição possível da humanidade e do planeta, são as características da civilização do século XX. As instituições di- taram valores e papéis a fim de garantirem a sobrevivência da sociedade: é preciso sentir e agir de formas prescritas para que ela sobreviva tal e qual. Porém o ser humano, nesta encruzilhada entre filo e onto- genético, devem individualmente decidir caminho a percorrer? Ou deve acatar as normas éticas definidas pelas instituições? Todos estes valores existentes em nós seres ontogené- ticos constituem contradições vividas desde a adolescência à maturidade e à velhice. Será a ética superior à moral? Será a sociedade superior ao indivíduo, ou este é responsável pela sociedade da qual faz parte? Esta é a contradição a ser enfrentada no século XXI. 64 Digitalizada com CamScanner</p><p>Conclusão Como convém à Filosofia, cabe a ela questionar esses valores. Diz a Encyclopaedia (1972): "A ética é estudo sobre a natureza dos conceitos valorativos: bom-mau, dever (ought), certo-errado, e dos princípios gerais que justificam as nossas ações em qual- quer situação. É também denominada de Filosofia Moral". O caráter essencialmente social dos valores morais individuais afirma: "isto é errado; você não pode fazê-lo; que coisa feia!"... Enquanto a Ética questiona: Por que é errado? Por que não posso? Por que é feio?. A Psicologia já conseguiu detectar a afetividade inerente ao significado de uma palavra. O Diferencial Semântico de Osgood, May e Miron (1975: 394) demonstrou a existência de três fatores universais: valor, a potência e a atividade; reproduzindo, segun- do ele, as três dimensões da afetividade propostas por Wundt: agradável-desagradável, e excitação-calma. E é esta palavra que orienta as ações humanas, gerando or- dens de acordo com as normas preestabelecidas, ou questionan- do seu significado e, consequentemente suas ações, criando assim a contradição própria da espécie humana: Ser ou não ser? É a grande questão moral. Qual será a sua equivalência ética? "Por que somos que somos?" E a resposta está na concepção de ser humano que adota- mos: podemos ser meras criaturas à mercê de forças superiores, ou então podemos nos tornar sujeitos da História de nossa ciedade, ou seja, capazes de decidirmos sobre quais os valores éticos que irão orientar nossas ações e interações. Para tanto cabe à Psicologia desvendar como são constituídos os valores morais e éticos no psiquismo humano, estruturados em categorias como a Atividade, a Consciência, a Afetividade e a Identidade. Concluindo, proponho como um paradigma para a Psicologia Social na América Latina a investigação sistemática destas ques- tões, a fim de orientar uma práxis transformadora, visando tornar ser humano Sujeito consciente da História da Humanidade. 65 Digitalizada com CamScanner</p><p>Referências bibliográficas DARWIN, Ch. (1913). The expression of Emotions in Man and Animals. New York, Appleton. ENCYCLOPAEDIA Britannica (1972). London, William Bento Publ., Vol. 8, p. 752. FALS BORDA, O. (1989). 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