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<p>3. A TRANSFORMAÇÃO DECISIVA (1936-1944) o ano de 1936 constitui um marco fundamental 1. o MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE na história da arquitetura brasileira, especialmente pela NO RIO DE visita de Le Corbusier, convidado pelo Ministro da 1. o concurso e a decisão de Gustavo Capanema Educação e Saúde, Gustavo Capanema, para assessorar concurso de anteprojetos para o edifício do a equipe de arquitetos encarregada do projeto do edifício Ministério da Educação e realizado em 1935, do ministério. Ao contrário da primeira estadia do foi ganho por Archimedes professor catedrá- mestre em 1929, de somente tico de arquitetura na Escola de Belas-Artes, com um indiretas, não perceptíveis de imediato, como a conver- projeto acadêmico, decorado em estilo são de Lúcio Costa, a segunda teve repercussões bem regulamento do concurso previa uma seleção de cinco profundas. A experiência transmitida por Le Corbusier, projetos, dentre os quais seria posteriormente feita a nas seis semanas de trabalho intensivo desenvolvido escolha definitiva. No entanto, a comissão, composta com a equipe, influenciou profundamente os jovens por arquitetos acadêmicos, selecionou apenas três das brasileiros que dela faziam parte, modificando-os pro- trinta e quatro propostas apresentadas, eliminando, fundamente com esse breve contato. Desse trabalho, entre outras, as do pequeno grupo identificado com resultou o célebre edifício do Ministério da Educação as teorias funcionalistas. Mas o Ministro da Educação, Gustavo Capanema, e Saúde, concluído em 1943, marco da transformação decisiva da arquitetura contemporânea no Brasil. No que presidira o júri, sem direito ao voto, não era da mesma Pretendia ele afirmar-se perante as entanto, por maior que seja sua importância, não se gerações futuras com um edifício marcante; havia com- pode desconsiderar outras realizações desse período; preendido perfeitamente que os estilos históricos já não se tratava de uma obra isolada, mas da afirmação faziam parte do passado, nada se podendo esperar dos de um notável movimento, que se desenvolveu desde pastichos ou elucubrações imaginárias totalmente des- então em profundidade. É por essa razão que, depois vinculados das necessidades do presente. Não ignorava, de analisar a importância e o alcance do Ministério da por outro lado a tentativa de regeneração da arqui- Educação e Saúde, depois de ressaltar o lugar que tetura, lançada pelo movimento racionalista europeu; indubitavelmente lhe cabe, deve-se também destacar a este era muito polêmico e parecia nessa época estar evolução paralela de outras manifestações significativas, perdendo um pouco do impulso mas tinha a seu crédito cujos autores foram os irmãos Roberto, Attílio Correa realizações que haviam causado sensação e oferecia Lima e, finalmente, Oscar Niemeyer, que afirmou toda um caminho para o futuro da arquitetura. Assim, o Ministro percebeu de imediato como poderia aproveitar a pujança de sua criatividade no conjunto da Pam- a situação, se conseguisse construir a primeira obra de pulha. o sucesso internacional da nova arquitetura caráter monumental, coerente com a arquitetura que brasileira deveu-se a essas concepções expressivas, mar- cadas por um cunho todo particular, e divulgadas em Plantas e fotos do edifício foram reproduzidas nas principais re- 1943 pela exposição das fotografias de R. Kidder-Smith vistas de arquitetura. Cf. H. MINDLIN, L'architecture moderne au Brésil, Paris, sem data, pp. 196-199 (fotos, plantas, no Museu de Arte Moderna de New York e pelo livro 2. Revista da Diretoria da Engenharia, set. de 1935 p. 510. 3. Ou seja, inspirado na civilização pré-colombiana que se desenvol- que se veu na Ilha de conhecida unicamente através de peças de mica o caráter aberrante dessa idéia evidencia alcance da vaga nacio- nalista, que insatisfeita com o neocolonial passou a pesquisar fontes pura- 1. P. L. GOODWIN, Brazil Builds: Architecture New and Old, 1652- mente decorativas, numa das raras manifestações de arte local, anteriores ao estabelecimento dos portugueses. 1942, New York, 81</p><p>situação de um arquiteto, o programa da nova pensava ser a representativa do século Na ver- do que a do trabalho em equipe, poderia resultar dade, Gropius, Mies Van der Rohe e outros haviam arquitetura; projeto melhor e mais significativo, do que aquele projetado usinas, escolas, residências, conjuntos de apar- um individualmente. Por outro lado, tamentos, pavilhões de exposição, em suma, obras utili- tárias representativas da sociedade contemporânea. Mas pelo realizado menos parcialmente, a impressão de arbitrariedade o tema do palácio só havia sido objeto de estudo por que causava sua escolha. o grupo inicialmente previsto por Lúcio Costa parte de Le Corbusier e, dentre seus três grandes projetos, dois não foram construídos: o Palácio da composto por mais três arquitetos, Carlos era Moreira, Affonso Reidy, sendo logo ampliado Sociedade das Nações em Genebra (1927-1928) e o Jorge seis membros. De fato, Moreira pleiteou a inclusão Palácio dos Sovietes em Moscou (1931); só o Cen- trosoyus, modificado em alguns de seus princípios para de Ernani Vasconcellos, com quem elabora o antepro- básicos, foi construído na capital soviética. Mas a URSS jeto apresentado no concurso, merecendo, portanto, um estava distante, isolada, com o que não alcança o edifício na equipe; a fundamentada ponderação de Mo- grande repercussão mundial. Por conseguinte, havia um reira, lugar se sentia numa posição delicada perante seu vazio a ser preenchido, não hesitando Gustavo Capa- colaborador que habitual, foi logo reconhecida. A entrada de Ernani Vasconcellos acarretou a de Oscar Niemeyer, nema nessa tentativa. Não cabia anular o resultado do concurso. Assim, praticamente se impôs a seus colegas, afirmando os prêmios em dinheiro foram pagos aos classificados, sua que energia e decisão por esse ato de vontade: com mas o Ministro decidiu não executar o projeto vencedor, efeito, quando ainda estudante da Escola de Belas-Artes, convidando Lúcio Costa, um dos participantes desclas- fizera um estágio gratuito como desenhista na firma de sificados, para apresentar um projeto novo. Essa atitude Warchavchik e Lúcio Costa, tornando-se, depois, aju- constituiu-se num verdadeiro desafio. A tarefa atribuída dante deste; por conseguinte, reivindicou para si o a Lúcio Costa era um ato arbitrário, encoberto por mesmo tratamento dado a Ernani Vasconcellos, o que minúcias de ordem jurídica, mas Capanema não dis- lhe foi assegurado. Constituído definitivamente em prin- punha de outro recurso para alcançar a solução que cípio de 1936, o grupo que iria projetar o Ministério lhe parecia fecunda. A escolha de Lúcio Costa era da Educação e Saúde era bastante homogêneo: todos lógica e fundamentada: sem dúvida alguma, era ele a os seis arquitetos eram formados pela Escola de Belas- figura de maior destaque dentre os adeptos da arqui- Artes do Rio de Janeiro, onde tinham vivido, de um tetura "moderna", pelo papel que havia desempenhado lado ou de outro da a luta pela reforma na tentativa de reforma da Escola de Belas-Artes em frustrada de 1930-1931; é verdade que havia uma dife- 1930-1931 e, a seguir, pelas posições teóricas e práticas rença de dez anos entre o mais velho e o mais assumidas; apresentava-se claramente como o líder dos mas se se excetuar Lúcio Costa, diplomado desde 1924, jovens arquitetos cariocas adeptos do funcionalismo. todos haviam terminado seus estudos num tempo muito Assim, nenhum destes poderia protestar, caso Lúcio curto de 1930 a 19349. Todos enfim comungavam Costa houvesse pura e simplesmente aceito a missão das mesmas preocupações e dedicavam uma admiração que o ministro pretendia lhe confiar. Porém, a ambição ilimitada à obra de Le Corbusier. pessoal não era um dos traços dominantes do caráter 2. A estadia e as duas propostas sucessivas de Lúcio Costa; embora não tivesse qualquer escrúpulo de Le Corbusier em combater por todos os meios uma arquitetura que ele considerava nociva, não achava justo beneficiar-se A equipe se lançou de imediato ao trabalho, defi- individualmente com uma oportunidade inesperada que nindo os princípios de um primeiro projeto, que não julgava serem os demais tão merecedores quanto ele. lhe pareceu satisfatório. Então cogitaram de consultar Ponderou a Gustavo Capanema que, além do seu, Le Corbusier em pessoa, tendo sido Lúcio Costa encar- outros três anteprojetos apresentados no concurso regado de convencer Gustavo Capanema da necessidade Carlos Leão, Affonso Reidy e Jorge Moreira5 mere- do convite ao mestre Houve inicialmente ciam ser considerados, por suas características "moder- Propôs então fossem seus autores convidados a 7. De um lado, Lúcio Costa como diretor, e Reidy como assistente participar, juntamente com ele, da elaboração do novo de Warchavchik na cadeira de composição do outro Leão Moreira, Vasconcellos e Niemeyer como alunos. projeto. Tratava-se de uma atitude prudente, ditada por 8. Lúcio Costa nasceu em Toulon, em 1902; Moreira, em Paris, em um sentido de justiça e, talvez, por uma certa insegu- Leão e Niemeyer, no Rio em 1906 e 1907, respectivamente; Reidy, em Paris, em 1909, e Vasconcellos, no Rio, em 1912. curioso observar ao transferir a responsabilidade da obra para que três dos seis arquitetos nasceram na França. o fato de terem vivido num meio europeu, como Reidy, facilitou evidentemente os contatos dos uma equipe, Lúcio Costa colocava em evidência, mais jovens brasileiros com o Velho Mundo e contribuiu para a orientação que 4. Não procedem as afirmações do sumário biográfico de Lúcio Costa, redigido por Jose Carlos C. Coutinho (L. COSTA, Sobre Arquitetura, Porto 9. Reidy recebeu o diploma em 1930, Leão em 1931, Moreira em Alegre, 1962, p. 352), segundo as quais ministro teria sido convencido 1932, Vasconcellos em 1933, e Niemeyer em 1934. pelo próprio Lúcio Costa da importância da arquitetura nova. o teste- 10. bastante restrita a documentação referente às negociações que munho de Rodrigo Mello Franco de Andrade, um dos assessores mais di- precederam a vinda e a estadia de Le Corbusier no Os arquivos retos de Gustavo Capanema, confirma que há muitos anos era ele já sen- pessoais de Capanema poderiam proporcionar muitos dados, mas não são sivel ao problema e que sua decisão foi tomada com toda a acessíveis. preciso então lançar mão do testemunho dos principais inte- ditada por um forte desejo ressados: o ministro, Lúcio Costa e Le Pietro Bardi, diretor 5. supra, p. 76. do Museu de Arte de São Paulo, conservou uma importante 6. Lúcio Costa da mesma forma três anos mais tarde, quando cia, trocada em novembro e dezembro de 1949 entre ele, Lúcio Costa, do projeto do Pavilhão do Brasil na Exposição Internacional de New York Warchavchik e Le quando este levantou a questão dos honorários (cf. infra, p. 107). No entanto, quando venceu concurso do plano piloto que erroneamente julgava lhe serem devidos. Agradecemos a Bardi, que de em 1957, aceitou prêmio ser hesitar, passando então a de- pretende publicar essas cartas num livro sobre Le Corbusier no Brasil, a fende-lo de todas as neste caso estava convicto do valor do tra. permissão de Com efeito, essa troca de correspondência escla- balho de ter merecido primeiro lugar, rece exato papel desempenhado por Le Corbusier na elaboração dos sucessivos projetos do edifício do Ministério. 82</p><p>uma recusa, mas o ministro foi convencido de que situação ou às situações dadas; insistiu na prioridade era esse o único meio capaz de assegurar o objetivo que devia ser dada ao urbanismo, do qual a arquite- tão desejado: a realização de uma obra monumental, tura era apenas um elemento; finalmente, e acima de capaz de se constituir num marco da história da arqui- tudo, proporcionou uma demonstração prática de seus tetura. Era necessário, no entanto, que o ministro justi- métodos pessoais de trabalho, o que não podia ser ficasse as despesas consideráveis da viagem e estadia transmitido unicamente por seus escritos. de Le Corbusier. Decidiu-se que seria ele convidado o projeto da Cidade Universitária não saiu do como arquiteto consultor, não só para opinar sobre os papel, não passando de uma manifestação platônica. planos do futuro ministério, bem como para elaborar o mesmo não ocorreu, no entanto, com o empreendi- o primeiro esboço da Cidade Universitária, que se mento que tinha sido o objetivo primordial da vinda pretendia construir no centro do Rio de de Le Corbusier: o Ministério da Educação e Saúde. Contudo, como a legislação brasileira não permitia que Desta vez, a lição do mestre pôde produzir todos os um arquiteto estrangeiro, não residente no país, fosse frutos, materializando-se na construção do edifício que remunerado por esse tipo de trabalho, contornou-se a iria assumir papel decisivo no desenvolvimento da arqui- restrição, programando-se uma série de tetura brasileira, ou mesmo internacional. Ora, para que podiam ser Este convite foi aceito aquilatar corretamente esse papel, é necessário determi- sem reservas por Le Corbusier, atraído pela oportu- nar qual a parcela que cabe ao arquiteto francês, e qual nidade de um trabalho a nível oficial, permi- a de seus colegas brasileiros, na definição de vários tiria superar as frustrações que havia sofrido, até anteprojetos que se sucederam, até a realização então, do seu trato com as autoridades governamentais. anteprojeto elaborado pela equipe liderada por Recebido com todas as honras, teve já de início uma Lúcio Costa enquadrava-se plenamente na linha até acolhida considerável. Suas conferências obtiveram então seguida pelos jovens funcionalistas cariocas: grande sucesso, exercendo uma considerável influência estava muito próximo das propostas apresentadas indi- nos meios profissionais do Rio de Janeiro e fazendo vidualmente, no concurso, por Reidy e com com que suas idéias atingissem um círculo mais amplo três alas dispostas em U; a única diferença significativa do que o pequeno grupo de arquitetos que já estavam era a colocação do bloco do salão de conferências no a elas convertidos. Porém, o fato mais importante foi exterior e não mais no interior do pátio, embora ainda contato íntimo que se estabeleceu com os arquitetos no eixo de simetria do edifício. Le Corbusier, vítima do grupo, graças ao trabalho conjunto, desenvolvido de evidente egocentrismo, afirmaria mais tarde que se sob sua liderança, de 1.° de julho a 15 de agosto de tratava de uma "redução desfavorável do Palácio do 1936. Centrosoyus em o que se constitui num Durante um mês e meio, os dois projetos foram exagero evidente, pois não se pode falar nem de cópia, alternadamente: um dia era o do minis- nem mesmo de uma adaptação desse edifício, cujos tério, outro o da Cidade Universitária. Eram dois planos remontavam a 1929. Havia, no máximo, um distintos: a equipe contava também com outros jovens parentesco, devido à aplicação dos mesmos princípios. arquitetos membros dos C.I.A.M. (Firmino Salda- Sabe-se que a obra de Le Corbusier era considerada nha, José de Souza Reis e Angelo Bruhns). projeto como um modelo a ser seguido; é, portanto, lógico que da Cidade Universitária, delineado nessa oportunidade o pequeno grupo de Lúcio Costa se inspirasse nas e desenvolvido nos meses seguintes à partida de Le soluções propostas anteriormente pelo mestre para um assumiu um interesse especialmente teórico. programa mais ou menos semelhante, sem que com Seus autores tinham, desde o início, conhecimento das isso estivesse incorrendo em plágio. Contudo, o projeto limitadas possibilidades de prosseguimento do do Ministério, com sua regularidade absoluta na dis- mas aproveitáram plenamente a oportunidade de acom- tribuição das massas em torno de um eixo de simetria, panhar o trabalho de Le Corbusier. Este ensinou-lhes o estava ainda marcado por uma certa concepção acadê- modo de abordar um programa, partindo dos princípios mica, que contrastava com a originalidade e o vigor de ordem geral, adaptando-as a seguir concretamente à plástico obtido por Le Corbusier com meios equiva- lentes. A fragilidade e a falta de pujança que caracte- 11. Esse projeto não tinha qualquer possibilidade de ser construído, rizavam até então a arquitetura funcionalista brasileira pois uma forte oposição dos professores encarregados da organização dessa universidade havia ocorrido no ano anterior, quando Marcelo Piacentini, eram do conhecimento de seus principais arquitetos, arquiteto oficial da Itália fascista, estivera no Brasil e fora consultado a razão por que desejaram a vinda de Le Corbusier, que 12. Foram seis conferências, proferidas no Teatro Municipal do Rio poderia arrancá-los da rotina a que estavam submetidos. de Janeiro, de 31 de julho a 14 de agosto de 1936, tendo Le Corbusier recebido francos (carta de Le Corbusier a Pietro Bardi, de 17 de 16. Projetos publicados em Arquitetura e Urbanismo, 4, julho- novembro de 1949). 13. Termo sistematicamente empregado por Le Corbusier na corres- agosto de 1939 (artigo inteiramente reproduzido em L. COSTA, op. cit., pp. 57-62), Habitat, 35, out. de 1956, pp. 35 e 36, e parcialmente pondência acima por S. PAPADAKI, The Work of Oscar Niemeyer, ed., New York, 14. A proposta de Le Corbusier pretendia ligar os vários edifícios atra- de uma via que mais tarde se até o centro da cidade do pp. 50-51. Perspectivas do primeiro projeto da equipe brasileira, do pri- meiro projeto de Le Corbusier, e do projeto final foram também repro- Rio (cf. P.D.F., vol. IV, 4, julho de 1937, pp. 184-186, e LE COR- duzidas na capa da obra de H. MINDLIN, L'architecture moderne au Bré- BUSIER e P. JEANNERET, complète de 1934-1938, ed., Er- sil, Paris, sem data. Deve-se consultar com reservas, LE CORBUSIER e 1947, pp. Essa idéia foi de imediato rejeitada pela P. op. cit., pp. 78-81, e Le Corbusier 1910-1960, Zurique, comissão de professores que havia elaborado programa apresentado aos 1960, p. 134, onde as legendas dos desenhos atribuem a Le Corbusier todas arquitetos. o projeto definitivo da equipe brasileira, acompanhado por as iniciativas, criando um engano lamentável. longo memorial justificativo, foi publicado em P.D.F., vol. IV, n.° 3, maio de 1937, pp. 120-139, e reproduzido em L. COSTA, op. cit,, pp. 67-85 17. Cf. supra, p. 76. Como Lúcio Costa não publicou o projeto com (com um erro na referência exata ao artigo original). que concorreu, não é possível saber até que ponto as novas propostas eram 15. Carta de Lúcio Costa a Warchavchik, de 2 de dezembro de 1949 uma síntese das três propostas individuais anteriores. (cópia existente na coleção de Bardi). 18. Carta de 28 de novembro de 1949 a Pietro Bardi. 83</p><p>Desde o início, Le Corbusier com sua desen- que desconheciam suas nem mesmo voltura postos, Rejeitou partir agiu planos pro- sem rodeios os ministro, advertiram-no quanto à impertinência de seu propondo-se do zero. Artista sensível e procedimento. A sugestão foi aceita com perpetuamente inquieto, perseguindo sempre as soluções tendo Capanema imediatamente entabulado conversações mais adequadas, vinha evoluindo desde 1929-1930, conservando as idéias básicas e os princípios funda- com ficou difíceis de a prefeitura para a permuta dos terrenos. logo evidente que, para a realização da mentais de seu programa, mas permitindo-se uma maior havia problemas serem superados, fato liberdade de criação, no momento da realização arqui- Le Corbusier, em sua ingenuidade, não percebera. que e da construção; assim, não podia aceitar como ministro pediu-lhe, então, um novo esboço para o ter- premissa um projeto que se fundamentava em princí- reno originalmente previsto, esboço esse concluído em pios que defendera há sete ou oito anos e que não 13 de agosto de 1936 (Fig. 44). mais o satisfaziam integralmente. Estava convencido de Cumpre examinar melhor esses dois anteprojetos. a que o monobloco era solução mais apropriada que a fim de determinarmos até que ponto serviram de disposição clássica de várias alas em torno de um pátio. inspiração para o projeto definitivo, elaborado pela A criação de um espaço contínuo, com a construção de equipe brasileira. que chama de imediato a atenção edifícios sobre pilotis, era apenas um passo no sentido é a horizontalidade predominante nas propostas de da máxima libertação do solo e sua utili- Le Corbusier, oposta à verticalidade do edifício cons- truído. Embora Le Corbusier não tenha tomado zação como área verde. o monobloco possibilitava a horizontalidade como um princípio absoluto, é evj. aumentar ainda mais essa área e correspondia a uma dente sua preferência por esta solução, especialmente solução perfeitamente racional, não só sob esse ponto no caso de edifícios isolados. Com efeito, os únicos de vista, mas também no que diz respeito à melhor edifícios por ele projetados, onde a verticalidade era orientação, significativamente facilitada pela redução do o traço dominante, eram parte de um conjunto urba- edifício a duas fachadas principais. Essa opção, perfei- nístico, cuja extensão contrabalançava o efeito de verti- tamente lógica sob o ponto de vista técnico que lhe calidade parcial, substituindo-a por uma horizontali- Fig. 43. LE CORBUSIER. Primeiro anteprojeto para Mi- dade No caso do Ministério da Educação e nistério da Educação e Saúde. Rio de Janeiro. 1936. (Terreno escolhido por Le Corbusier.) Saúde, era evidente o propósito de criar um edifício predominantemente horizontal. terreno original, que servia de premissa, foi logo aceita. Contudo, Le Cor- pouco mais tarde qualificaria de "terreno sujo dentro busier não se limitava a este aspecto. Como o terreno do bairro dos não lhe convinha, pois era destinado ao ministério não lhe parecia adequado para acanhado para abrigar o edifício com as dimensões que abrigar a construção longitudinal por ele imaginada, julgava necessárias, premissa que manteve mesmo passou a procurar um novo sítio, que correspondesse quando confirmado o uso desse terreno. Assim, o per- ao seu projeto. Tendo achado, não muito longe do feito equilíbrio do conjunto projetado para as margens terreno original, um terreno livre, de propriedade da prefeitura, localizado à beira-mar, perto do aeroporto 19. Carta de Lúcio Costa a Warchavchik, de 2 de dezembro de 1949 (cópia na coleção de (este terreno originou-se do aterro de uma parte da 20. Plano para uma cidade de três milhões de habitantes (1922), plano Voisin para Paris (1925), projetos para o Rio de Janeiro etc. o único baía, com o entulho de um antigo morro), tomou a projeto de verticalidade acentuada que realmente concebeu, sem aliás poder iniciativa de esboçar um anteprojeto destinado ao realizá-lo, foi a Secretaria Geral da O.N.U., situada no centro dos arranha- céus de New York, não podendo por isso escapar a essa imposição. novo local, por ele escolhido (Fig. 43). 21. Carta de Le Corbusier a Lúcio datada de 21 de novembro de 1936; citação reproduzida na carta de Lúcio Costa a Warchavchik, de Gozava ele de tanto prestígio que nem seus colegas, 2 de dezembro de 1949 (coleção de Bardi). 84</p><p>Fig. LE Segundo anteprojeto para o Mi- seguir, deslocaram-no do limite do terreno, pois era pre- nistério da Educação e Rio de Janeiro. 1936. (Terreno utilizado.) ciso considerar a proximidade de outros prédios eleva- dos que certamente seriam optaram assim da baía não era encontrado no anteprojeto de 13 de por uma construção implantada no centro do terreno, agosto. Visando conservar neste a máxima horizontali- numa posição isolada, tão próxima quanto possível da- dade e assegurar o maior recuo possível, colocou o quela pretendida por Le Corbusier para o terreno à bloco de serviços na extremidade do terreno e no sentido beira-mar. A opção de dispor a obra, ou ao menos, seu de sua maior dimensão, contentando-se em ganhar, corpo principal, no sentido da largura do terreno, acar- através de um aumento limitado de altura, a área per- retava automaticamente uma outra, que o arquiteto con- dida com a redução da largura do edifício; dessa forma, sultor não havia examinado ou, o que é mais sacrificava, simultaneamente a melhor orientação e a não aceitara como o desenvolvimento vertical vista da baía, ou seja, as premissas que invocara ao do De fato, agora não mais podia prevalecer pleitear a troca do local. Lúcio Costa e equipe não a solução proposta por Le Corbusier em seu esboço admitiram essa espécie de retomando o de 13 de agosto, onde prevalecia o caráter horizontal problema e encontrando uma solução apropriada. do edifício. A pouca largura do terreno e a extensão do programa formulado impunham uma solução diversa, 3. A elaboração do projeto definitivo pela nitidamente vertical, que, apesar da audaciosa e ainda equipe não aplicada no Rio de embora permitida pelos regulamentos municipais a equipe brasileira Partindo do esboço elaborado para o terreno ori- ginal, Lúcio Costa e equipe reexaminaram o problema, 25. Uma certa confusão foi provocada pelo desenho de Le empenhando-se em aplicar os princípios que haviam publicado por Max Bill na 81, com a le- genda projeto de Le Corbusier adaptado para a e orientado Le Corbusier quando da elaboração do pri- tarde reproduzido no número especial de Architecture d'aujourd'hui, de- dicado ao Brasil 13-14, set. de 13). Em vez de ser o projeto meiro Assim, dispuseram o bloco principal no original de Le Corbusier que servira de base para desenvolvimento sentido de largura do terreno, ou seja, perpendicular à terior do na realidade de um a em função dos planos definitivos, que Costa equipe Av. Graça Aranha (e não mais paralelo, conforme fizera haviam remetido a Le Corbusier em respeito destes por Le Le Corbusier), recuperando desta maneira a orientação busier evitou um protesto contra abuso de confiança depois da guerra, quando Le amargurado, a vista para a baía, anteriormente A projeto para edifícios da ONU tinha sido passou a e com estardalhaço, a paternidade integral do da Edu- cação Saúde do Rio de uma carta pessoal de Costa (escrita Quando Le Corbusier ainda acreditava na adoção do ter- em comedidos, mas precisos, em 27 de de 1949) que que tomara cuidados especiais com ante- questão devidos termos. A resposta de Le Corbusier, de 23 de LE P. 1934 longos onde em atribuindo ao realizado não mais da questão, para original. de dá a entender que a legenda infelia pelo que é da correspondência trocada Uma das que à solução final uma luz a a permite publicada 4. que de 1929 integralmente e intenções que o deverá de 26 não 24 Mais tarde parcialments com a vertical para de de 85</p><p>não hesitou em adotar. Estes limitavam a altura dos edifícios unicamente em função do afastamento dos pré- dios vizinhos, não havendo um teto absoluto: a encarar localização um principal metros, terreno, assim, possível do bloco no centro do com recuo de quase sessenta tornou o problema sob esse prisma. As mais mínimo, eram indiscutíveis: ocupação igual vantagens ao a do solo era reduzida e a área construída era à do edifício extenso, este fatalmente limitado em altura pela restrição referida. Transformava-se assim o pavimento térreo numa grande esplanada, adequada a cerimônias Segundo andar cívicas, sem que a implantação do prédio no centro do terreno alterasse sua continuidade, graças ao pilotis. o espaço livre estava habilmente distribuído de ambos os lados do edifício, contribuindo para valorizá-lo, sendo portanto a solução perfeitamente nacional e muito mais adequada que a proposta por Le Corbusier, fato que, em si, nada tem de estranho, visto não estar ele realmente interessado nesse terreno. Uma vez fixado o partido geral do projeto, os arquitetos abordaram os problemas de natureza funcional, dedicando-se preli- minarmente à solução do pavimento-tipo (Fig. 45). Le Corbusier havia preconizado um edifício estreito, onde Primeiro andar (auditório) Térreo 3 Corte Terraço-jardim Fig. 45. L. COSTA, A. REIDY, J. MOREIRA, C. E. VASCONCELLOS e NIEMEYER. Ministério da Educação e Saúde. Rio de Janeiro. 1936-1943. Plantas e corte. 15:copa, 28: imprensa e rádio, 30: diretor, 31: escritórios, 32: refeitório do ministro, 33: cozinha, 34: refeitório dos empregados, 35. administração do edifício, 36: armários. 1: recepção; 2: incinerador; 3: entrada do pessoal; 4: recepção; 5: público; 6: entrada do Andar-tipo ministro; 7: transformador; 8: tesouraria; 9: condi- cionamento de ar; 10: mastro da bandeira; 11: estátua; 12: depósito; 13: quadro de distribuição elétrica; 14: depósito geral; 15: copa; 16: sala de trabalho das exposições; 17: salão de exposições; 18: salão de conferências; 19: auditório; 20: cabina de projeção; 21: sala de espera; 22: escritório do ministro; 23: secretaria; 24: sala de expedição; 25: chefe de gabinete; 26: escritórios; 27: recepção e informações; 28: imprensa e rádio; 29: pessoal. 86</p><p>todas as salas de trabalho se situavam de um mesmo lado, sendo assim beneficiadas com a melhor orien- necessariamente móveis, já que o brise-soleil fixo, mesmo tação e servidas por um corredor paralelo à fachada assegurando uma proteção eficaz nos dias claros, faria norte. Essa solução não convinha mais a um prédio em com que nos dias escuros fosse necessário utilizar altura; pois sua largura necessitava ser aumentada de iluminação artificial. Assim, a equipe brasileira optou a conservar um certo equilíbrio de por esse sistema, que permitia regular a luminosidade modo corredor As proporções. onde um salas foram dispostas de ambos os lados de de acordo com a incidência dos raios solares, variável central, com uma variante nos andares de acordo com o ponto da fachada atingido pelo o público teria amplo acesso: para este, fez-se um Esse sistema, empregado por Oscar Niemeyer na Obra circuito de circulação diferente do circuito dos funcio- do Berço, construída em 1937 no bairro da Gávea, no Naturalmente, a procura de uma flexibilidade Rio, e adaptado às necessidades peculiares do que permitisse, em todos os níveis, modificações pos- apresentava-se como a solução funcionalmente teriores, levou ao emprego da estrutura em recuo apre- propiciando ao mesmo tempo um vigoroso efeito plás- ciada por Le Corbusier e à supressão das paredes, tico, do qual os arquitetos souberam tirar grande pro- veito. substituídas por simples divisões a meia fáceis de modificar quando necessário. Esta solução apresen- tava outra vantagem fundamental: permitia uma venti- lação constante, a circulação do ar era naturalmente assegurada pela diferença de temperatura entre as duas fachadas, o que dispensava um sistema dispendioso de ar Restava solucionar o problema da insolação. A fachada sudeste, recebendo diretamente os raios solares apenas alguns dias do ano e no período da manhã, portanto fora do horário de trabalho, foi dotada de grandes caixilhos de vidro, possibilitando a máxima penetração de e assegurando uma vista magnífica da baía. Em contrapartida. era absolutamente indispen- sável proteger a face oposta. A galeria proposta por Reidy e Moreira no projeto do concurso foi rejeitada por razões de ordem prática: além do custo elevado, que repercutiria sensivelmente no custo do edifício, impedia a circulação de ar ao longo da fachada, criando assim, em cada andar, um colchão de ar quente que tenderia a elevar a sua temperatura interna. A apli- cação de venezianas ou persianas foi também rejeitada, para que o Ministério não perdesse seu caráter monu- mental, assumindo a fisionomia de um edifício de apartamentos. Já o princípio do brise-soleil, proposto em 1933 por Le Corbusier em seus projetos para a cidade de Alger, era plenamente vantajoso para esse caso específico. estudo das condições locais levou à determinação do tipo a ser adotado, bastante diverso daquele imaginado pelo mestre franco-suíço para um país mediterrâneo, para o qual sugerira um brise-soleil fixo, formado por uma malha ortogonal de lâminas de Fig. 46. L. COSTA, A. REIDY, J. MOREIRA, C. concreto. No presente caso, a orientação da fachada E. VASCONCELLOS e NIEMEYER Ministério exigia apenas o emprego de lâminas da Educação e Rio de Janeiro. 1936-1943. Frente sul. 27. Com efeito, corredor central, reservado aos funcionários, servia às salas voltadas para o sul e aos escritórios com guichês, orientados para Os aspectos plásticos do edifício não foram des- norte, estes acessíveis ao público por meio de galeria de circulação que corria ao longo dessa fachada. Tanto os problemas de circulação vertical prezados, tendo as soluções formais acompanhado passo quanto haviam sido particularmente bem estudados, criando-se a passo as soluções de ordem funcional. A preocupação três circulações totalmente independentes para o ministro, para os funcio- nários e para o público. A supressão de alguns elevadores infelizmente fundamental foi a de conceber uma obra que se dis- alterou o equilíbrio, sendo, hoje, comuns as longas filas de 28. Uma absurda demonstração da eficácia do sistema foi dada pelos responsáveis pela biblioteca, que mandaram fechá-la com um pano de vidro 31. Esse sistema era constituído por placas horizontais basculantes de até o enquanto em todos os escritórios reina uma atmosfera muito fibro-cimento, fixadas em grandes lâminas verticais de concreto, situadas na agradável, seja qual for calor externo, esse infeliz recursó transformou a parte externa do edifício e ligadas à estrutura em apenas dois pontos. o biblioteca numa verdadeira estufa. ar circulava livremente ao longo de toda a fachada, entre os caixilhos das 29. A colocação posterior de persianas atenuou eventual excesso janelas e conjunto de brise-soleil, afastado 50cm, evitando assim a trans- de luminosidade, em algumas horas de determinadas missão de calor que certamente se acumularia se empregada uma moldura No Sul e num país tropical, o sol que bate numa face rígida que aderisse totalmente à estrutura. norte está sempre próximo do assim, as lâminas paralelas destinadas 32. As lâminas móveis do brise-soleil da creche de Niemeyer eram a impedir e penetração dos raios solares podem estar relativamente espa- verticais porque a fachada estava orientada para oeste (detalhes em S. enquanto que as lâminas verticais exigem uma trama bem PAPADAKI, op cit., pp. acarretando uma perda considerável de visibilidade. problema era in- 33. Ao menos teoricamente, pois a falta de manutenção logo trans- verso quando se tratava de uma fachada exposta a oeste, ou seja, ao sol formou esses brise-soleil, de móveis em fixos, conservando, mesmo assim, poente. sua eficácia principal. 87</p><p>tinguisse das construções vizinhas por sua unidade, (Fig. 48), localizada no primeiro andar do corpo anexo, às colunas de sustentação por meio de "pe- proporções e pureza. Assim, o bloco único de todos os prendia-se consolos", submetidos a grande esforço cor- serviços essenciais, proposto desde o início por Le Cor- quenos Dessa solução audaciosa resultava uma leveza busier, foi unanimemente aceito, servindo como ponto de partida. "As outras formas", explicaram os arqui- um dinamismo, que combinavam com o espírito com tetos em sua exposição, "foram-se fixando pouco a e o qual toda obra foi tratada. Essas qualidades diferen- ciam-se um pouco daquelas utilizadas por Le Corbusier pouco em função dele, das necessidades do programa marcar as suas obras; é preciso reconhecer uma e dos princípios fundamentais de composição da arqui- tetura. Esses princípios inspiraram a solução adotada, indiscutível para contribuição autóctone no domínio da desde as formas dos salões de exposição e conferências plástica. do pavimento térreo até as dependências sobre o telha- Como vinha fazendo nas operações anteriores, a do que se integraram na composição e contribuíram equipe brasileira se inspira nas proposições de Le Cor- para o efeito plástico do Tratava-se de busier; conserva os elementos essenciais, mas modifica uma inequívoca profissão de fé racionalista, que não a disposição, dá-lhes um novo tratamento, o que leva deve ser tomada ao pé da letra. Embora não haja a uma criação original. No esboço de 13 de agosto dúvida de que o partido resultou da exploração das para o local onde foi construído o edifício (Fig. 44), melhores condições permitidas pelo programa, não de- Le Corbusier previa três volumes distintos, todos sobre correu daí nenhum automatismo absoluto na realização pilotis: o bloco principal, a sala de exposições (perpen- do edifício tal como ele se apresenta hoje (Figs. dicular ao bloco principal) e o salão de conferências 46 e 47). Conforme observou Joaquim pelo (situado transversalmente à sala de exposições). Esse desenho foi usado como ponto de partida, e as formas sugeridas pelo arquiteto consultado foram cuidadosa- mente conservadas; todavia a localização do bloco prin- cipal no centro do terreno levou à retomada da dispo- sição do projeto de Le Corbusier, para o terreno de baía (Fig. 43): os volumes anexos localizando-se dos dois lados do volume principal. resultado foi, no entanto, completamente diferente. Naquele projeto, a sala de exposições e a sala de conferências não passa- vam de complementos do volume principal, diante do qual ela se anulava; os volumes distintos e autônomos do esboço de 13 de agosto foram conservados e reorde- nados pela equipe brasileira, segundo a qual a solução de Le Corbusier consistia numa justaposição um pouco arbitrária e não muito satisfatória. Tiveram então a idéia de colocar a sala de conferências no mesmo eixo da sala de exposições, a fim de obter uma continuidade no conjunto. Esta continuidade seria conseguida com a criação de um volume único, reservado a esses ele- mentos anexos. Isto trouxe duas modificações essenciais à concepção de Le Corbusier: a sala de conferências exigia um pé-direito bem maior que a sala de expo- que não foi construída sobre pilotis, mas implan- tada diretamente ao nível do piso para compensar a diferença na altura interna. Para não quebrar o volume contínuo assim formado, os pilotis do bloco principal sofreram um aumento de altura, passando de quatro a dez Essas modificações deram ao edifício uma unidade e uma lógica intrínseca superiores às pro- posições de Le Corbusier, para o mesmo terreno. A Fig. 47. L. COSTA, A. REIDY, J. MOREIRA, C. redução do conjunto a dois volumes simples, colocados E. VASCONCELLOS e O. NIEMEYER. Ministério da Educação e Rio de Janeiro. 1936-1943. perpendicularmente um ao outro, contribuía para subli- Frente norte. nhar uma hierarquia estabelecida pela importância das funções respectivas, era uma retomada do espírito do menos num caso, a solução estatisticamente mais apro- primeiro projeto para o terreno da baía, mas assegu- priada foi preterida por razões de ordem exclusiva- rando aos serviços anexos um lugar de importância mente estética: a laje do piso da sala de exposição dentro da composição. 34. Arquitetura 4, julho-agosto de 1939, retomado em Habitat, 35, outubro de 1956, pp. 35 e 36. irmãos algumas Roberto, de que não vacilaram em adotar o mesmo procedimento em o efeito plástico obtido outros arquitetos, como suas obras. agosto de 1958, pp. 3-6. 35. J. Forma Estática-Forma Módulo, 10, na em que se adotara um partido vertical, medida 37. A perda de um andar não tinha maior importância, 88</p><p>Fig. L. A. REIDY, MOREIRA, C. abriu novos horizontes e revelou o talento potencial dos E. VASCONCELLOS e Ministério jovens arquitetos cariocas da nova geração. Convém, da Educação e Saúde. Rio de Janeiro. 1936-1943. por conseguinte, aprofundar o assunto, ressaltando as Ala do salão de exposições. Detalhe. linhas mestras da contribuição de cada uma das partes. As vantagens eram também evidentes sob o ponto 4. A contribuição de Le Corbusier e a profunda de vista estético: por um lado, a simples justaposição de influência de sua estadia em 1936 volumes contíguos transformava-se numa integração perfeita, tanto horizontal quanto verticalmente; por Seria inútil pretender limitar a contribuição pessoal outro lado, as altas e delgadas colunas do bloco prin- de Le Corbusier, para o desenvolvimento da nova arqui- cipal evitavam a sensação de esmagamento que certa- tetura brasileira, à elaboração dos vários anteprojetos mente ocorreria caso o pilotis mantivesse a altura inicial- apresentados durante sua rápida estadia, de julho a agosto de 1936. Essa segunda viagem ao Brasil marcou mente proposta. Essas modificações introduzidas no estudo de Le profundamente os arquitetos que com ele tiveram opor- Corbusier transformavam-no num projeto inteiramente tunidade de trabalhar, repercutindo decisivamente no novo, embora integralmente baseado nas propostas conjunto da classe profissional. Os princípios, que siste- iniciais do arquiteto consultor e aplicando os princípios maticamente defendia e que há vários anos os arqui- por ele ditados. Não cabe negar a contribuição funda- tetos de vanguarda haviam adotado sem reservas, não mental de Le Corbusier, plenamente reconhecida pelos se reduziram a um conjunto de idéias essencialmente jovens brasileiros, que consideravam uma honra o fato abstratas; adquiriram vida nova e uma flexibilidade até de terem podido trabalhar sob a direção do mestre que então desconhecida, quando o autor levou à prática tanto admiravam. Mas não se deve cair no extremo as inúmeras aplicações que deles se podia fazer. Tanto oposto, atribuindo exclusivamente ao seu talento o sob o ponto de vista geral, quanto sob o ponto de vista Ministério da Educação e Saúde. projeto definitivo, específico do Ministério da Educação e Saúde, a contri- como se viu, foi obra da equipe brasileira, que lhe deu buição de Le Corbusier permite extrair três pontos um desenvolvimento e um encanto peculiares, de que básicos: não cogitava o arquiteto consultor. A importância desse 1. método de trabalho monumento da história da arquitetura brasileira resulta justamente dessa colaboração, que, em termos locais, As teorias de Le Corbusier, particularmente os 89</p><p>forme os slogans presentes em seus escritos sobre arqui- cinco pontos da arquitetura nova pilotis, terraço- após 1923. Adepto de formas simples e jardim, planta livre, fachada livre, janelas na hori- tricas, clássico por excelência, exaltou desde o início a zontal eram do conhecimento dos jovens arquitetos absoluta, através do jogo de volumes a brasileiros que no entanto aplicavam-nos mecanica- pureza Portanto, o emprego sistemático do prisma como ele- mente, como se fossem fórmulas polivalentes. Ademais, mento básico da composição arquitetônica não era uma estavam atrelados à concepção restrita de que a forma do sentido plástico, mas uma subordinação volun- derivava da função, admitindo, que tária recusa de seu vocabulário aos meios de expressão que uma correta solução dos problemas funcionais, empre- gando os recursos mais avançados da técnica moderna, julgava capazes de proporcionar uma perfeita resultaria automaticamente numa boa arquitetura. Re- formal. Seus discípulos brasileiros, entretanto, na falta desse contato direto, embora não ignorando as preocu- sultam daí aqueles projetos não só austeros, como tam- bém inexpressivos, que floresceram entre 1931 e 1935. pações essenciais de Le Corbusier, tinham perdido de vista o caráter eminentemente plástico de toda sua obra, A personalidade de Le Corbusier abalou todos os pre- conceitos. Seu dinamismo e criatividade não podiam prendendo-se ao seu aspecto teórico e funcional. No entanto, apenas seis semanas de trabalho, submeter-se a uma rotina e a um automatismo que, contrários a seu temperamento, nunca aceitara. Embora sob a orientação do mestre, cujo método não consistia se fundamentasse sempre numa ideologia que vinculava em ordenar os problemas de ordem prática e os de intimamente as três facetas de sua formação, o refor- ordem estética, foram suficientes para desinibi-los e mador social, o urbanista e o arquiteto, não desvin- conscientizá-los do verdadeiro significado do aspecto culava suas atividades teóricas das práticas. Quando plástico em toda obra digna de merecer a qualificação se entregava com lógica e vigor caracte- da arquitetura e não de mera construção. Se tal fato não rísticos à análise das condições que orientariam a repercutiu com igual intensidade em todos os mem- solução arquitetônica pretendida, não o fazia segundo bros da equipe encarregada de projetar o Ministério da duas operações sucessivas, a primeira puramente inte- Educação e Saúde, de uma forma ou de outra todos lectual, fundamentada num raciocínio objetivo, e a foram a ele sensíveis. segunda essencialmente manual, dando forma adequa- Esteta nato e profundo conhecedor das obras do da às conclusões decorrentes do exame preliminar. Para passado, Lúcio Costa já havia se convertido a essa Le Corbusier, as duas abordagens eram simultâneas e maneira de pensar; bastava apenas completar a desin- indispensáveis. Assim, toda a reflexão correspondia a toxicação voluntária que se impusera ao abandonar o um desenho, que, por sua vez, gerava uma nova reflexão movimento neocolonial, para assim reencontrar sua linha provocando um novo desenho; este processo continuava natural de pensamento e a necessária segurança. o até a solução final, que resultava do estudo conjunto exemplo de Le Corbusier, nada complacente em relação dos diversos fatores funcionais e estético. Válido tanto aos estilos do passado, mas que não hesitava em se para a pesquisa de um tema ou de uma solução, quanto apresentar como seu legítimo herdeiro, chegando mesmo para a demonstração dos fundamentos dos resultados em algumas ocasiões a enaltecer a retomada de algumas obtidos, esse método gráfico impressionava fortemente técnicas de outrora, libertou-o de seus escrúpulos. a todos os que presenciaram a maravilhosa aplicação Affonso Reidy, até então, havia voluntariamente que o mestre franco-suíço fazia, com destreza incom- sacrificado ou ignorado sua sensibilidade plástica parável, desse instrumento. Ninguém absorveu tanto este manifesta em obras posteriores limitando-se a uma método quanto Oscar Niemeyer, que passou a empre- arquitetura estritamente funcional onde os aspectos gá-lo sistematicamente por conta própria. contato plásticos eram totalmente ignorados. Talvez tenha sido direto com Le Corbusier proporcionou outra vantagem: sobre ele que mais intensamente se manifestou a demonstrou que, embora partisse de uma doutrina supos- cia de Le Corbusier. Mantendo-se fiel à lição recebida, tamente objetiva ou a ela chegasse graças a uma ten- dência natural para classificar e elaborar normas pre- empenhou-se em associar uma expressão clássica pura cisas, que propunha para si e principalmente para os às soluções racionais que sempre perseguia. A mesma outros, pessoalmente ele nunca se comprometia por evolução pode ser notada em Jorge Moreira, mas as inteiro com as regras que instituía. Sabia libertar-se de características de requinte de que se revestiu, levaram-no sua rigidez, estimulando, sempre que possível, sua capa- bruscamente de um ascetismo a uma tendência oposta. cidade criadora, o que enfatiza um segundo aspecto de Quanto a Oscar Niemeyer, cujas preocupações fun- sua contribuição pessoal. damentais eram já de ordem o fato de constatar pessoalmente a importância que as mesmas tinham para Le Corbusier, significou uma verdadeira liber- 2. A preocupação com os problemas formais tação, posibilitando-lhe lançar audaciosamente pelo Le Corbusier não era somente arquiteto, mas tam- 39. Arquitetura é o jogo hábil, correto e dos volumes bém pintor e escultor. As preocupações estéticas assu- agrupados sob a luz...; cubos, cones, esferas, cilindros ou pirâmides são miam sempre para ele um papel preponderante, con- as grandes formas primárias que a luz revela; etc. Um resumo dos slogans mais característicos foi feito por Bruno Zevi, em Storia dall' architettura moderna, ed., sem local, 1955, pp. 120 e 121 (cap. 3). 38. que não significa serem conclusões sempre corretas, pois 40. Aliás, em 1963, época em que a legitimidade da pesquisa plástica raciocínio desenvolvido nem sempre se baseava em premissas indiscutíveis como fator preponderante era reconhecidamente uma tendência da arqui- ou levava em consideração determinadas circunstâncias, como no caso do tetura contemporânea recente, Niemeyer admitiu ter sempre prioritaria- projeto de urbanização do Rio de Janeiro, em 1929 (cf. supra, p. 72, mente se preocupado, de modo mais ou menos consciente, com a invenção cap. II, nota 55). formal, tentando a posteriori, por argumentos de ordem fun- cional, capazes de explicar sua adoção. 90</p><p>caminho que viria a torná-lo internacionalmente pelos jovens racionalistas, que a encararam como um Contrastando com uma certa rigidez dos recurso meramente decorativo, comprometidos com o pios tonica por arquite- terceiro doutrinários, a flexibilidade da concepção passado. A tomada de posição de Le Corbusier, res- de Le Corbusier é marcada ainda um saltando o valor dessa técnica cujo caráter funcional e, principalmente, cujas possibilidades de expressão plás- aspecto que assumiu grande importância no Brasil. tica ele logo percebeu, eliminou os preconceitos mais ou menos enraizados no espírito dos arquitetos brasi- 3. A valorização dos elementos locais leiros. Compreenderam eles que a arquitetura nova não estava essencialmente voltada para a Seduzido pela natureza tropical, ocorreu de ime- e que não se devia excluir o apelo a recursos do pas- diato a Le Corbusier explorá-la e aproveitá-la como sado, se estes conservavam sua razão de ser e se adapta- elemento complementar da arquitetura. Particularmente vam ao espírito das edificações modernas. entusiasmado por um tipo de palmeira de tronco longo A pregação de Le Corbusier foi ainda mais signifi- e copa muito cerrada, a palmeira imperial, percebeu a cativa, porquanto se identificava com as tendências mais monumentalidade dos visuais por ela definidos, colo- representativas do pensamento brasileiro do século XX. cando-os sistematicamente em todos os seus projetos, A preocupação com a plasticidade, ou seja, com a tanto nos croquis para o Ministério, quanto nos da riqueza formal e decorativa, correspondia aos desejos Cidade Universitária. Embora não tenha encontrado de uma sociedade em plena evolução, sensível aos seguidores imediatos a lição não foi esquecida, sendo aspectos exteriores e expressivos que se constituíam retomada vinte anos mais tarde, por Lúcio Costa e numa das condições do sucesso. Além disso, a valori- Oscar Niemeyer, em Brasília. zação dos elementos locais naturais ou históricos, inte- o arquiteto consultor recomendou também o em- grava-se perfeitamente no contexto nacionalista, cuja prego de espécies locais para os terraços previsto na importância já foi ressaltada. A onda de ascetismo fun- cobertura do salão de exposições (jardim do ministro) cionalista, tinha por razões doutrinárias tentado provi- e na do bloco principal. Mas, nesse campo, a priori- soriamente abafar esses aspectos, em vez de conside- dade cabe, conforme já vimos, a Mina Warchavchik, rá-los, na elaboração de uma arquitetura realmente que em 1928, associou o jardim tropical à arquitetura racional; no entanto, não se havia perdido por com- "moderna", na casa construída por seu marido; este pleto a consciência de seu significado. As propostas exemplo foi logo seguido por quem iria tornar-se a de Le Corbusier abriam novos horizontes e possibili- grande autoridade no assunto, Roberto Burle Marx. tavam aos arquitetos brasileiros sair do impasse em Mais importante ainda foi o interesse de Le Cor- que se encontravam: conciliando posições arbitraria- busier pelo emprego do granito cinza e rosa, extraído mente consideradas como antagônicas, o mestre franco- das montanhas que circundam o Rio de Janeiro. Fez suíço demonstrava que o estilo do século XX era inter- ver sua qualidade e beleza, recomendando seu emprego nacional, mas que isso não impunha, muito pelo con- tanto para o piso do pátio quanto para o revestimento trário, o abandono das variáveis regionais que asse- das empenas do edifício. Manifestou-se contrário à gurassem uma expressão original. importação generalizada de pedras ou do mármore, quan- do podiam ser encontrados nas proximidades, materiais 5. A originalidade do Ministério da Educação e com as mesmas qualidades. Contribuiu assim para dar Saúde, sua importância no plano nacional uma nova força ao prestígio das jazidas e dos pro- dutos locais, evidenciando que o emprego exclusivo de Não pretendemos retomar o exame da elaboração materiais artificiais, enquanto elementos estruturais da do projeto definitivo, pela equipe brasileira. É preciso, nova arquitetura, não excluía um apelo complementar no entanto, ressaltar o alcance das inovações introdu- aos recursos naturais do país, quando se tratava sim- zidas, para melhor se aquilatar a repercussão que o plesmente de revestimentos. monumento obteve e a importância de que se revestiu. Ainda mais revolucionária, e de alcance signifi- Já vimos que Lúcio Costa e equipe tomaram como cativo para a evolução da arquitetura contemporânea ponto de partida o croqui de Le Corbusier para o no Brasil, foi a recomendação do emprego dos azulejos terreno definitivo, transformando-o fundamentalmente, originários de Portugal. No Brasil, seu período de maior mas com o empenho de conservar ao máximo o espírito importância correspondeu aos séculos XVII e XVIII, da obra, bem como os elementos formais preconizados quando foram empregados interessantemente na deco- então pelo mestre. Compreende-se assim por que a obra ração de sacristias, claustros, pátios e salas de palácios; construída traz a marca profunda de Le Corbusier e no século XIX foram usados no revestimento externo das por que às vezes tem sido ela vista como uma simples suntuosas residências do Rio de Janeiro e, principal- aplicação, por alunos talentosos, dos princípios por ele mente, do Recife, o que assegurava às paredes uma enunciados. Contudo, a personalidade dos arquitetos proteção eficaz contra a excessiva umidade do clima. que a realizaram se fez presente de forma intensa no Abandonada no início do século XX, e retomada com campo estético, onde o resultado obtido diverge nitida- a voga neocolonial, essa prática havia sido rejeitada 42. Por outro lado, Le Corbusier não se limitou apenas a preconizar 41. As influências sofridas por Carlos Leão e Ernani Vasconcellos, o emprego dos azulejos; nos esboços do Ministério não desprezou a escul- difíceis de perceber, são deixadas de lado, por apresentarem um interesse tura, colocando uma no meio do pátio nobre. Encorajou, portanto, menor na medida em que a obra posterior deles foi de importância a colaboração entre arquitetos e artistas plásticos, o que viria a ser um dos traços marcantes da arquitetura contemporânea do Brasil. 91</p><p>Fig. 49. L. A. REIDY, J. C. E. VASCONCELLOS e NIEMEYER Ministério e a horizontalidade do bloco anexo; aos panos de vidro da Educação e Rio de Janeiro. da fachada sul (Fig. 46) corresponde o dinamismo dos Os pilotis e os azulejos de brise-soleil móveis da fachada norte; (Fig. 47); a curva- tura da face principal do salão de conferências e as mente das concepções do arquiteto consultor. No pri- formas soltas dos volumes da cobertura contrastam com meiro projeto, feito para o terreno às margens da baía, havia a procura da monumentalidade. numa composição a ortogonalidade geral etc. Assegura-se assim, uma digni- dade e um equilíbrio geral bastante significativos. ao mesmo tempo pura e sóbria, baseada num equilíbrio perfeito, onde predominava o caráter estático do con- Mas está-se longe da concepção mais clássica de Le Corbusier ao lhe introduzirem os arquitetos brasi- junto; a mesma preocupação se observa no croqui leiros um lirismo bastante destinado ao terreno definitivo, mas sem obter ali as qualidades edifício construído por certo Outro traço que merece ser referido como contri- buição pessoal da equipe local é a dada à leveza porções guardou dignos compensa- pro- uma pureza de concepção e um senso de do conjunto. Le Corbusier sempre colocou seus edifí do classicismo em ção, devido ao desenvolvimento em altura e à resul- cios solidamente plantados no chão, mesmo quando emprega pilotis; nunca lhes deu um caráter franca- tante confrontação dos dois blocos, o conjunto assumiu mente aéreo e sua evolução prosseguiu sem cessar no um inegável dinamismo, que é explorado nas etapas sentido da massa e da solidez; sua plástica foi posteriores da composição, através de recurso dos mais simples. Consistia numa sucessão de oposições no tra- essas tério baseada da duas Educação, Ora, colunas, sempre Minis- na pujança e não na elegância. o com suas delgadas alia tamento dos volumes das fachadas e dos detalhes. A implantação no centro do terreno e a verticalidade do deixando transparecer uma bloco principal contrastavam com a localização lateral dominantes preocupação que irá tornar-se uma das características da arquitetura contemporânea do Brasil. Deve-se finalmente ressaltar que, embora tenha Le 43. alargamento do bloco principal permitiu incorporar-lhe partes de serviço (principalmente os evitando a solução de as Corbusier pregado sempre síntese das artes, quando se Corbusier que alterava a pureza do prisma, ao acrescentar, em cada ex- Le tremidade, volumes destinados a esse fim. 44. P. SANTOS. 30, março-abril Raízes da Arquitetura de 1954, pp. Arquitetura 92</p><p>tratava de suas concepções arquitetônicas, agiu sempre se manifestou através de uma série de refe- sozinho, artista completo que era. A equipe rentes tanto ao aspecto quanto ao caráter contrário, apelou desde o início para o pintor pelo Celso abrindo arquiteto-paisagista Giorgi, funcional da É ainda mais espantosa a brusca os escultores Bruno Antônio mudança de opinião que ocorreu a partir de 1943. e Jacques o Ro- Não há dúvida de que a beleza do monumento, quando berto Burle Marx, desta forma caminho para concluído, foi em parte responsável por isso, impres- uma colaboração que iria revelar-se não apenas sionando várias pessoas até então reticentes e mesmo no caso específico, como também futuramente. o resul- hostis. Mas o fator principal, como já vimos, foi a tado obtido foi um conjunto de grande riqueza plás- repercussão no exterior, primeiramente nos Estados tica, realçando e completando magnificamente a arqui- Unidos, depois, a partir de 1945, na Europa. o edifício tetura, mas, ao mesmo tempo, a ela correspondia, de fato, às esperanças e intenções do Tratava-se de um retorno ao espírito da tradição dos ministro que mandara construí-lo. Admirado univer- séculos XVII e XVIII, quando a sobriedade das linhas publicado em todas as grandes revistas de mestras da composição não era alterada pela profusão arquitetura, tornou-se um símbolo nacional habilmente ornamental, que era cuidadosamente localizada. explorado pelo governo brasileiro na propaganda inter- As características assinaladas (dinamismo, leveza, na e externa. Portanto, foi decisiva a influência psico- riqueza plástica) são, portanto, contribuições indiscuti- lógica do Ministério da Educação e Saúde e nenhuma veis a crédito dos arquitetos brasileiros, e foi justo ter outra realização contemporânea exerceu papel de igual a opinião pública visto no Ministério uma expressão importância. Contudo, não se tratava de uma obra isola- do gênio nacional, apesar da contribuição fundamental da, pois outras de alta qualidade, concebidas dentro que inicialmente proporcionou Le Corbusier. Por outro do mesmo espírito eram concomitantemente construídas, lado, é difícil determinar o mérito de cada um dos mem- formando um conjunto que testemunhava a profunda bros da equipe no resultado final, já que foram eviden- vitalidade da nova arquitetura no país. temente muito discretos a respeito. Contudo, parece não haver dúvida que a contribuição de Niemeyer foi 2. AS PRIMEIRAS OBRAS DE MARCELO E preponderante, na concepção plástica; sob este aspecto, MILTON ROBERTO54 o testemunho de Lúcio Costa é o fato de de ter ele abandonado, em 1940, a direção do grupo48 Dentre os arquitetos que de início se destacaram confiando-a a Niemeyer sem qualquer contestação dos como personalidades importantes, embora não integran- colegas, demonstra claramente reconhecerem eles sua tes do grupo liderado por Lúcio Costa, encontram-se os contribuição decisiva, apesar de seu tardio e inesperado irmãos Marcelo e Milton Roberto. Impuseram-se pre- ingresso na equipe constituída em 1936. maturamente e de forma significativa, ao vencerem em Finalmente, convém lembrar que o do 1936 o concurso aberto no ano anterior para a sede empreendimento não se deveu exclusivamente aos arqui- social da Associação Brasileira de Imprensa (A.B.I.). tetos e que estes nada teriam feito sem o apoio incon- Portanto, sob o ponto de vista estritamente cronológico, dicional do Ministro Gustavo Capanema. Resistiu ele a cabe a eles o mérito de terem concebido e executado a todas as pressões políticas internas e externas49 e a primeira grande obra da arquitetura nova no Brasil; todas as campanhas contra o grande empreendimento com efeito, seu projeto é alguns meses anterior à con- de sua vida. Ainda em 1942, quando o edifício já clusão do projeto do Ministério da Educação e Saúde estava quase concluído, a incompreensão do público 50. Architectural Forum, fev. de 1943, pp. 37-44. 45. Confiou-se a Portinari o afresco da ante-sala do gabinete do Mi- nistro e desenho dos azulejos que revestem as paredes do A sim- 51. Enfatizava-se principalmente o seu caráter náutico, com os volu- plicidade dos motivos, ao mesmo tempo figurativos e abstratos, dos azulejos, mes da cobertura (caixa d'água e casa de máquinas), em forma de cha- e o jogo bastante seguro dos tons empregados, inserem-se admiravelmente minés, cujos apoios pareciam remos. Colocados na face norte, esses apoios tinham uma única finalidade: anular a força do vento sul que varria a no conjunto, constituindo-se numa contribuição de primeira linha. baía, golpeando com violência edifício, nos dias de tempestade. 46. o Prometeu Acorrentado de Lipchitz, colocado no centro da pa- rede curva do salão de conferências, infelizmente por falta de recursos, 52. Corria, por exemplo, o boato de que só ministro e os arqui- não foi realizado na escala prevista. Assim, volume (que é vinte e sete tetos sabiam da localização das entradas. vezes menor) não desempenha papel que lhe fora atribuído. 53. Contudo, uma exceção notável, porém tardia, foi a opinião ex- 47. L. COSTA, Muita Construção, Alguma Arquitetura, Um Milagre, pressa pelo Max Bill, quando esteve no Brasil em 1953, publicada em Manchete, 60, de junho de 1953, e reproduzida em 12, Correio da de 15 de junho de 1951, reproduzido em L. COSTA, Sobre Arquitetura, op. cit., pp. 169-201 (cf. especialmente pp. 196-197), jul.-set. de 1953, pp. 34 35. Nela, criticava Ministério porque lhe faltava senso de proporções declarava sem rodeios ser o pátio 48. Não se deve deduzir, pelo afastamento antecipado de Lúcio Costa, interno mais adequado ao clima, além de assegurar melhor que seu papel foi o projeto já estava definido em suas linhas atacava com violência a decoração de azulejos, declarando que a pintura gerais em 1937. quando recebeu aval de Le Corbusier (carta de 13 de mural jamais tivera outro sentido exceto de educar as massas, tarefa setembro de para Lúcio Costa). que, em nossa época, havia-se transformado em apanágio dos jornais, das revistas e do cinema. Esse ataque, vindo de um partidário do funcionalismo 49. Sobre as pressões internas, ver supra, p. 28. nota 43 (Introdução integral e destituído da mais elementar objetividade, especialmente quanto Cap. 2). curioso constatar que chegou a haver uma intervenção indireta ao problema da ventilação, não teve qualquer repercussão profunda, pois, do governo dos EUA. De fato, pintor Georges Biddle apresentou-se ao nesse ano, a nova arquitetura brasileira de há muito se impusera; por Ministro, com uma recomendação pessoal do Presidente Roosevelt, no sen- outro lado, os preconceitos de Max Bill eram demasiado evidentes para tido de que encarregassem da elaboração dos afrescos previstos para o que suas críticas fossem levadas a sério. interior do Ministério. Capanema explicou-lhe que a unidade de estilo exigida para edifício não permitia satisfazer seu propósito. Contudo, 54. Dentre os inúmeros artigos publicados sobre os irmãos Roberto, como não era possível esquivar-se totalmente, já que o Brasil dependia há dois realmente importantes acerca de suas primeiras obras: G. FERRAZ, intimamente da economia americana, ofereceu ao artista a oportunidade M.M.M. Roberto, Habitat, 31, junho de 1959, pp. 49-66, e P.F. SAN- de pintar no vestibulo da Biblioteca Nacional (que, se prestava per- TOS, Marcelo Roberto, Arquitetura, 36, junho de 1965, pp. 4-13. Há ao estilo pompier), sendo os dois afrescos A Guerra e A Paz, também uma breve retrospectiva em Habitat, 12, jun.-set. de 1953, p. executados respectivamente de 18 de agosto a 30 de setembro e de 15 de Módulo, n.° 3, dez. de 1955, p. 71 e Arquitetura, n.° 28, out. de outubro a 17 de novembro de 1964, pp. 3-13. 93</p>

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