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<p>Daniel Braatz, Raoni Rocha e Sandra Gemma</p><p>ENGENHARIA DO</p><p>TRABALHO</p><p>Saúde, Segurança,</p><p>Ergonomia e Projeto</p><p>Engenharia do Trabalho – Saúde, Segurança, Ergonomia e Projeto</p><p>© 2021 – Ex-Libris Comunicação Integrada. Licenciado pela Organização.</p><p>Custeio desta publicação em português decorrente de acordo judicial firmado nos autos do Processo nº</p><p>001754.2001.15.000/3, ajuizado pela 15ª Procuradoria Regional do Trabalho, Ministério Público do Trabalho.</p><p>Apoio</p><p>Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Piracicaba-SP</p><p>Realização</p><p>ASAS - Associação de Saúde Ambiental e Sustentabilidade (asas.pesquisa@gmail.com)</p><p>Organização</p><p>Daniel Braatz, Raoni Rocha e Sandra Gemma</p><p>Direitos da tradução e desta edição reservados aos organizadores.</p><p>Proibida a venda e a comercialização desta edição.</p><p>Comitê Editorial</p><p>Carolina Maria do Carmo Alonso (UFRJ), Ecléa Spiridião Bravo (Cerest/Piracicaba), Ivan Bolis (UFPB), Manoela Gomes</p><p>Reis Lopes (UFPI), Sandra Beltrán (FSP/USP), Sandra Regina Cavalcante (FSP/USP e IEA/USP), Vitor Guilherme Carneiro</p><p>Figueiredo (UNIFEI).</p><p>Revisão</p><p>Jayme Brener</p><p>Expedito Correia</p><p>Coordenação da edição brasileira</p><p>Daniel Braatz, Raoni Rocha e Sandra Gemma (org.)</p><p>Edição</p><p>Ex-Libris Comunicação Integrada</p><p>Projeto Gráfico/Diagramação</p><p>Adriana Antico</p><p>Capa</p><p>Arte criada por Adriana Antico a partir de ilustrações de Márcia Elizabéte Schüler</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)</p><p>Índices para catálogo sistemático:</p><p>1. Engenharia do trabalho 658.5</p><p>Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427</p><p>Esta obra está licenciada com uma Licença Creative Commons</p><p>Atribuição-NãoComercial 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0).</p><p>Engenharia do trabalho : saúde, segurança, ergonomia e projeto /</p><p>Daniel Braatz, Raoni Rocha e Sandra Gemma (org.).</p><p>Santana de Parnaíba, SP : Ex Libris Comunicação, 2021.</p><p>Vários autores.</p><p>Bibliografia.</p><p>ISBN 978-65-994611-0-1</p><p>1. Ergonomia no trabalho 2. Projeto de trabalho</p><p>3. Segurança do trabalho 4. Trabalhadores - Saúde</p><p>I. Braatz, Daniel. II. Rocha, Raoni. III. Gemma, Sandra.</p><p>21-62741 CDD-658.5</p><p>Campinas</p><p>2021</p><p>Daniel Braatz, Raoni Rocha e Sandra Gemma (org.)</p><p>ENGENHARIA DO</p><p>TRABALHO</p><p>Saúde, Segurança,</p><p>Ergonomia e Projeto</p><p>5</p><p>Prefácio1</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>François Daniellou2</p><p>Atenção, cara leitora ou leitor: este livro, organizado por Daniel Braatz, Raoni</p><p>Rocha e Sandra Gemma, com apoio de Alessandro Silva e Amanda Silva, pode</p><p>mudar a vida de um(a) engenheiro(a). E talvez, quem sabe, por isso, mudar tam-</p><p>bém a vida dos trabalhadores e trabalhadoras que executam os trabalhos con-</p><p>cebidos por ela(e), ou que são chefiados por ele(a). Sob o título de Engenharia</p><p>do Trabalho, essa grande obra irá levá-los a abordar questões ligadas ao trabalho</p><p>como provavelmente vocês nunca fizeram. As cinco seções propõem ângulos de</p><p>abordagem diferentes, para compreender melhor e integrar, em sua origem, as</p><p>diferentes facetas das situações de trabalho pelas quais vocês serão responsáveis:</p><p>• Seção 1, O trabalho: por que se interessar pelo trabalho? O que dizer so-</p><p>bre o “sentido do trabalho”? Qual é a relação com os direitos humanos?</p><p>Do que falamos quando nos referimos à “organização do trabalho”?</p><p>• Seção 2, Saúde dos trabalhadores: saúde física e saúde mental, qual a re-</p><p>lação entre elas?</p><p>• Seção 3, Segurança no trabalho: aspectos normativos e a mobilização de</p><p>todos os atores.</p><p>• Seção 4, Ergonomia: conhecimentos e métodos para compreender o tra-</p><p>balho e transformá-lo.</p><p>• Seção 5, Projeto do trabalho: como conceber situações de trabalho</p><p>para favorecer o trabalho futuro, em especial através de abordagens</p><p>participativas?</p><p>Vocês têm a oportunidade de ter, assim, em uma só obra, pontos de vista</p><p>complementares e atualizados que permitem esclarecer, sob diferentes facetas,</p><p>o encontro do(a) engenheiro(a) com as questões ligadas ao trabalho. No que me</p><p>1 - Texto traduzido do frânces por Flora Vezzá (ergonomista e doutora em saúde pública).</p><p>2 - Engenheiro e professor de Ergonomia aposentado da Universidade de Bordeaux (França).</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>6</p><p>concerne, a descoberta de todos esses aspectos se estendeu por muito mais tem-</p><p>po, já que meu itinerário me conduziu a ser testemunha – e às vezes, ator – da</p><p>emergência dos conhecimentos e dos métodos agrupados aqui.</p><p>Permitam-me uma pequena apresentação pessoal para explicar por que estou</p><p>convencido de que o conteúdo dessa obra pode marcar a vida de um(a) engenhei-</p><p>ro(a). Sou engenheiro mecânico e trabalhei por alguns anos em um departamento</p><p>de projetos na indústria automotiva. Um encontro com Antoine Laville me levou, em</p><p>1980, a sair desse emprego para fazer uma formação em Ergonomia no laboratório</p><p>do CNAM (Paris), que ele e Alain Wisner dirigiam. Em breve falarei sobre as revelações</p><p>científicas e filosóficas que aí vivi, mas prefiro me lembrar primeiro dos muitos en-</p><p>contros com brasileiros ensejados nesse local. Em plena ditadura militar, Wisner havia</p><p>aberto as portas do laboratório a brasileiros e brasileiras, dentre os quais alguns refu-</p><p>giados políticos em Paris. No coração desse grupo, a luminosa Leda Leal Ferreira, um</p><p>pouco mãe, ou irmã, de todos os outros. Recebemos no CNAM ou na École Pratique</p><p>des Hautes Études, em ordem alfabética, Ada Ávila Assunção, Ana Isabel Paraguay,</p><p>Carlos Alberto Diniz Silva, Fausto Leopoldo Mascia, Francisco de Paula Antunes Lima,</p><p>Francisco José de Castro Moura Duarte, José Marçal Jackson Filho, Júlia Issy Abrahão,</p><p>Laerte Idal Sznelwar, Leila Amaral Gontijo, Leila Nadim Zidan, Mario Cesar Vidal, Mil-</p><p>ton Carlos Martins, Neri dos Santos, Venétia Santos e muitos outros. Vários são autores</p><p>neste livro, vários foram professores de alguns dos autores. Muitos são grandes ami-</p><p>gos. Eu não poderia de forma alguma recusar-me a redigir este prefácio, apesar de</p><p>meu desejo de me aposentar totalmente da vida profissional que tive.</p><p>As lembranças que vou evocar vêm, portanto, desse programa de formação</p><p>que, à época, chamávamos de “ergonomia de língua francesa”. Não tenho dúvidas</p><p>de que outros jovens engenheiros tenham experimentado do mesmo sentimen-</p><p>to de admiração em centros de formação com abordagens diferentes, por exem-</p><p>plo, britânicos ou escandinavos.</p><p>A primeira descoberta do jovem engenheiro no anfiteatro da Rue Gay-Lussac</p><p>(onde estava situado o laboratório) foi a amplitude das capacidades do ser hu-</p><p>mano que devem ser integradas na concepção dos sistemas. A coluna vertebral,</p><p>o coração, os músculos, os olhos, o cérebro, os sistemas nervosos, têm proprieda-</p><p>des que são o que são; elas podem ser descritas, devem ser levadas em conta, mas</p><p>não podem ser modificadas senão de forma marginal por uma formação. Wisner</p><p>nos dizia: “se um engenheiro constrói uma ponte que desaba porque ele não le-</p><p>vou em consideração a influência da maré, ele não terá nenhuma indulgência. Por</p><p>que devemos aceitar as consequências da ignorância sobre o funcionamento hu-</p><p>mano?”. Neste prefácio e na parte essencial dessa obra, as ciências do trabalho vão</p><p>Daniellou</p><p>7</p><p>muito além da descrição das propriedades fisiológicas e cognitivas fundamentais</p><p>do ser humano; mesmo assim, elas constituem a rocha sobre a qual todo o resto</p><p>deve ser construído. Referências fundamentais nesse campo foram introduzidas</p><p>na Norma Regulamentadora NR-17, em 2002 (JACKSON; LIMA, 2015). Mas a maior</p><p>revelação das primeiras semanas no CNAM foi a descoberta da diferença entre o</p><p>trabalho prescrito e o trabalho real e – o que não é a mesma coisa – a distinção</p><p>entre tarefa e atividade. Em 1980, essas noções já tinham atingido um primeiro</p><p>patamar de estabilização; uma história de sua construção e das evoluções ulte-</p><p>riores pode ser encontrada em Daniellou (2005). Elas constituem uma referência</p><p>comum para os laboratórios dirigidos por Wisner e Leplat. Um mundo se abria aos</p><p>olhos do recém-chegado, que aprendia que não se pode nunca compreender o</p><p>trabalho de uma pessoa apenas a partir da descrição oficial de sua tarefa. Há um</p><p>abismo entre aquilo que deve</p><p>como</p><p>as “ciências aplicadas do trabalho”, notadamente vinculadas, como já referido</p><p>anteriormente, à Saúde dos Trabalhadores, Segurança no Trabalho, Ergonomia e</p><p>Projeto do Trabalho.</p><p>Contudo, o livro é iniciado com a seção “Trabalho”, imprescindível para fazer</p><p>emergir reflexões sobre um tema central, que fica apenas subentendido na for-</p><p>mação e atuação de engenheiros e engenheiras. Em seu conjunto de capítulos,</p><p>há elementos básicos e gerais para a compreensão do contexto atual do mundo</p><p>do trabalho, como ocorre no capítulo 1 onde se discutem as formas assumidas</p><p>pelo trabalho no sistema capitalista e a emergência do fenômeno da precarização</p><p>na vida de homens e mulheres, fortemente relacionado ao trabalho. O capítulo 2</p><p>avança nessa compreensão ao apresentar conceitos relacionando as formas atu-</p><p>ais de organização do trabalho, o que possibilita analisar o que ainda prevalece</p><p>dos modelos clássicos e a vislumbrar, ou almejar, formas alternativas de economia</p><p>e organização do trabalho autogestionárias e cooperativas.</p><p>No capítulo 3, os autores focalizam o sentido do trabalho para quem traba-</p><p>lha, para as organizações e a sociedade. Também estabelecem a relação entre</p><p>o sentido do trabalho, as escolhas das formas de organização de projetos e ge-</p><p>rências, e a saúde. Finalizando essa primeira seção, o capítulo 4 é introduzido</p><p>a partir da discussão do trabalho sob a perspectiva dos Direitos Humanos. Nele</p><p>apresentam-se os fundamentos da responsabilidade jurídica por descumpri-</p><p>mento das normas de Saúde e Segurança do Trabalho. Aborda-se um assunto</p><p>que geralmente é envolto por um senso comum que orienta a realização do</p><p>trabalho de forma segura como dependente somente do compromisso do tra-</p><p>balhador, enquanto, como mostram os autores(as), muitas das falhas existentes</p><p>se devem às questões organizacionais.</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>34</p><p>A Seção “Saúde do Trabalhador” é iniciada no capítulo 5 com um breve re-</p><p>gistro histórico sobre as relações entre Trabalho e Saúde, e a apresentação de con-</p><p>ceitos fundamentais na área, introduzidos a engenheiros e engenheiras de forma</p><p>bastante criativa. O autor constrói seu texto a partir de proposições e questiona-</p><p>mentos, para a construção de uma narrativa histórica da relação anunciada, com</p><p>o objetivo de sensibilizar os leitores para um pacto em defesa da vida e saúde no</p><p>mundo do trabalho. O capítulo 6 aborda um assunto expoente no campo da saúde</p><p>do trabalhador: a forma como o trabalho afeta a saúde mental das pessoas. O capí-</p><p>tulo apresenta um tema relevante que é o estabelecimento da relação direta entre</p><p>os transtornos mentais e o trabalho, assim como formas possíveis de intervir sobre</p><p>esse contexto e promover a saúde. Esse assunto pode causar estranheza em um pri-</p><p>meiro momento para docentes e discentes de engenharia, mas tem grande poten-</p><p>cial de interessar aqueles e aquelas que lidam/lidarão com o mundo do trabalho.</p><p>As autoras do capítulo 7 utilizam-se da arte da literatura e do cinema, para nos</p><p>suscitar imagens que nos levam a compreender o caráter da ‘violência’ que estrutu-</p><p>ra e naturaliza sua emergência no mundo do trabalho, expressando-se em aciden-</p><p>tes e doenças. Mas elas também recuperam cenários da vida real em frigoríficos e</p><p>em atividade de telemarketing para discutir a saúde dos trabalhadores, assim como</p><p>apontam o caráter histórico, cultural e relacional da violência no trabalho, ao re-</p><p>lacioná-lo com o contexto da pandemia do coronavírus SARS-COV-2 de 2020. No</p><p>capítulo 8 apresenta-se a Vigilância em Saúde do Trabalhador, caracterizada como</p><p>um componente do Sistema de Vigilância em Saúde, uma estratégia para a atenção</p><p>integral à saúde de trabalhadores, e também um conjunto de ações a serem de-</p><p>senvolvidas em processos e ambientes de trabalho. Ao longo do capítulo há vários</p><p>exemplos e um estudo de caso sobre a relação entre saúde, segurança e trabalho na</p><p>indústria de mineração, que auxiliam a compreensão do tema.</p><p>A seção "Segurança no Trabalho"3 possibilita que os leitores entendam</p><p>como os riscos para a segurança dos sistemas sociotécnicos são criados e geridos</p><p>pelos indivíduos, pelos coletivos e pela organização. O capítulo 9 é iniciado com</p><p>uma narrativa histórica sobre as condições de trabalho e os agravos à saúde que</p><p>remontam a muitos séculos atrás para trazer à tona os primórdios da noção de</p><p>segurança e fornecer subsídios para reflexões, apresentadas posteriormente, so-</p><p>3 - Preferimos utilizar o termo “Segurança no Trabalho” ao invés de “Segurança do Trabalho” por considerar que este</p><p>último está fortemente atrelado à atividade profissional desenvolvida por Técnicos e Engenheiros de Segurança,</p><p>normalmente ligada ao cumprimento das normas regulamentadoras pelas empresas. Já a segurança no trabalho se</p><p>diferencia por se preocupar com a complexidade do trabalho real na construção de ambientes seguros.</p><p>35</p><p>bre as condições de trabalho e a gestão da segurança hodiernas, principalmen-</p><p>te daquelas que conduzem ao acidente de trabalho típico. Isso significa, como</p><p>apresentam os autores, refletir sobre os cenários e papéis dos atores intervenien-</p><p>tes, no contexto brasileiro. Após essa retomada histórica, o capítulo 10 aborda</p><p>os aspectos legais e normativos da segurança, promovendo uma reflexão sobre</p><p>seus limites. Nele, destaca-se o que no capítulo anterior foi-nos apenas chamada</p><p>a atenção, qual seja, os limites das normas frente ao real e a atividade, isto é, as</p><p>condições de aplicabilidade das normas, regras, leis etc.; discussão essa que de-</p><p>verá servir como uma das bases para atuação crítica e efetiva de engenheiros e</p><p>engenheiras. Os autores fazem isso a partir de exemplos de casos reais.</p><p>O capítulo 11 tem um título provocativo e traz uma argumentação relaciona-</p><p>da ao tema que foi discutido no capítulo anterior, procurando responder porque</p><p>persistem números alarmantes de acidentes de trabalho, embora tenhamos tan-</p><p>ta legislação e aparato fiscalizatório. Logo no início, os autores apresentam sua</p><p>principal hipótese: a atividade de prevenção de riscos no trabalho está em crise.</p><p>Eles apresentam contradições que poderiam explicá-la e possíveis alternativas</p><p>para superá-la, e acabam tecendo algumas críticas sobre as abordagens com as</p><p>quais tipicamente atuam profissionais da Engenharia. O capítulo 12 fecha a se-</p><p>ção fornecendo suporte teórico a temas que por vezes são polêmicos no campo</p><p>da segurança no trabalho, como os paradigmas do erro humano e da atribuição</p><p>de culpa, a abordagem da obediência, a produção de regras e indicadores, as</p><p>ferramentas de retorno de experiência, o silêncio organizacional e a cultura de</p><p>segurança. Estes foram temas também presentes nos capítulos anteriores, mas</p><p>que aqui são destrinchados e relacionados entre si, com o intuito de oferecer con-</p><p>ceitos e métodos que possam subsidiar a práxis da segurança.</p><p>A quarta seção do livro, a seção “Ergonomia”, apresenta a ergonomia prati-</p><p>cada no Brasil, suas diferentes correntes, a relação entre atividade real, situação</p><p>de trabalho e fatores humanos, e entre segurança, saúde e desempenho produ-</p><p>tivo. O capítulo 13 apresenta uma perspectiva histórico-social dos eventos que</p><p>conformaram as condições para uma ergonomia “mestiça” no Brasil. As autoras</p><p>e o autor questionam quais demandas sociais colocam questões práticas e teó-</p><p>ricas à Ergonomia; mas também é possível perceber implícita a pergunta: Quais</p><p>são as questões da Ergonomia para a Engenharia? Nesta trilha, o capítulo 14</p><p>se aprofunda na vertente da Ergonomia da Atividade, detalhando os principais</p><p>conceitos que, inclusive, estruturam o método da Análise Ergonômica do Tra-</p><p>balho, dentre outros. Iniciam complementando o capítulo anterior com dados</p><p>históricos que dão conta de introduzir a vertente e avançam explicando deta-</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>36</p><p>lhadamente os conceitos. As autoras provocam os leitores quanto ao reducio-</p><p>nismo de algumas análises ao explicarem a diferença entre tarefa e atividade ou</p><p>quando analisam o trabalho considerando apenas os aspectos</p><p>visíveis, como no</p><p>caso da postura; ou ainda, ao explicar que a tarefa, por mais bem prescrita que</p><p>seja, nunca dará conta da realidade.</p><p>No capítulo 15 é retomada a distinção entre tarefa e atividade para localizar</p><p>a “cognição do trabalho”. Mas será necessário conhecimento sobre cognição para</p><p>estudantes e profissionais da Engenharia? E será “mais uma ergonomia”? As autoras</p><p>argumentam o quão relevante a cognição é para a melhoria de sistemas técnicos e</p><p>processos em qualquer trabalho e também sobre o viés da fragmentação da ativi-</p><p>dade. Utilizam diversos exemplos cotidianos que colaboram com nossa compreen-</p><p>são de conceitos relacionados à cognição, como representação, atenção, memória</p><p>e outros; e sobre a inteligência prática. No capítulo 16 é abordada a visão mais</p><p>clássica da análise da atividade, onde são apresentados rapidamente os aspectos</p><p>biomecânico, fisiológico e antropométrico; além do campo específico da higiene</p><p>ocupacional. O destaque, no entanto, é para as ferramentas e técnicas muito utili-</p><p>zadas por engenheiras e engenheiros para análises ergonômicas do trabalho, com</p><p>argumentações sobre as potencialidades e as fragilidades de cada uma delas. Con-</p><p>vidamos as leitoras e leitores a tomarem atenção às conclusões deste capítulo! Fi-</p><p>nalizando a seção, o capítulo 17 busca apresentar elementos relativos à análise do</p><p>trabalho em ergonomia por meio de uma seleção de alguns de seus instrumentos,</p><p>modelos, métodos e ferramentas. Estas são consideradas essenciais para profissio-</p><p>nais interessados em compreender o trabalho além das normas, regras, indicadores</p><p>e dos comportamentos observáveis dos indivíduos. Também é apresentada uma</p><p>distinção necessária entre os conceitos de modelo, método e ferramenta, com o</p><p>subsídio de exemplos de análise de tarefas e atividades.</p><p>Na seção “Projeto do Trabalho” espera-se que os conhecimentos adquiri-</p><p>dos e consciência da necessidade premente de compreensão e transformação</p><p>do mundo do trabalho desenvolvidos nas seções anteriores crie um ambiente</p><p>fértil para que os(as) futuros(as) engenheiro e engenheiras descubram como</p><p>podem projetar os sistemas produtivos (seja um arranjo físico, interface de sof-</p><p>tware, máquina ou qualquer outro artefato) de forma a considerar as especifici-</p><p>dades do trabalho a ser realizado. Destacamos que neste livro o termo projeto</p><p>se aproxima mais do seu equivalente em inglês design do que project – tal di-</p><p>ferenciação é importante pois são da natureza dos engenheiros e engenheiras</p><p>ambas as atividades, mas é fundamental que o envolvimento destes profissio-</p><p>nais seja muito maior que apenas a gestão do desenvolvimento do projeto (pro-</p><p>ject) e que tenham condições de planejar, desenhar, testar e modificar de fato</p><p>os sistemas (design).</p><p>Neste sentido, o capítulo 18 apresenta brevemente uma linha do tempo so-</p><p>bre organização e projeto do trabalho desde o final do século XIX até o início do</p><p>século XXI e destaca contribuições em diferentes níveis, desde o planejamento de</p><p>métodos e processos, ferramentas, chegando nos postos de trabalho. Assim, po-</p><p>de-se dizer que o capítulo se concentra na visão clássica do projeto do trabalho,</p><p>com forte inspiração taylorista/fordista. Em seguida, o capítulo 19 introduz como</p><p>o trabalho pode ser uma variável protagonista do processo de projeto e não ape-</p><p>nas algo a ser “ajustado” ao final do processo. Para tal, os autores abordam como</p><p>a simulação do trabalho pode ser o grande diferencial para incorporar o trabalho</p><p>humano, tornando o projeto mais adaptável às variabilidades em um processo</p><p>que permita uma abordagem dialógica que privilegie um desenvolvimento con-</p><p>junto de todos os envolvidos. O capítulo se utiliza de uma série de exemplos para</p><p>ilustrar a aplicação da simulação nos processos de projeto.</p><p>O capítulo 20 dá continuidade ao exposto no capítulo anterior e apresenta um</p><p>compilado de técnicas e ferramentas de representação e simulação que podem</p><p>contribuir de forma significativa para a atuação dos engenheiros e engenheiras</p><p>que atuam nos processos de design de ferramentas, máquinas, espaços de</p><p>trabalho, entre outros sistemas. Os autores mostram que, desde um croqui</p><p>feito à mão até uma ferramenta de computação gráfica utilizada normalmente</p><p>para produção de jogos eletrônicos, a diversidade de opções para representar</p><p>e simular o trabalho futuro pode ser uma grande aliada para termos condições</p><p>de trabalho mais seguras, saudáveis e eficientes. Por fim, o capítulo 21 encerra</p><p>o livro com o objetivo de destacar que tanto a análise quanto a transformação</p><p>das situações produtivas devem passar necessariamente pela participação dos</p><p>trabalhadores e demais pessoas envolvidas e/ou impactadas. A noção de que o</p><p>profissional de engenharia é capaz de sozinho antecipar e considerar tudo o que</p><p>é necessário para entender e projetar o trabalho dos outros não pode vigorar. Ali-</p><p>ás, o quanto antes tal profissional deve entender que tem muito o que aprender</p><p>com o pessoal do “chão de fábrica”. Reconhecer e valorizar o conhecimento e o</p><p>saber-fazer dos demais trabalhadores tornará suas análises e projetos mais com-</p><p>pletos e melhores. Trata-se de uma relação onde todos ganham!</p><p>Os conteúdos aqui apresentados, portanto, estão em uma sequência lógica,</p><p>de forma a buscar a motivação e o entendimento do estudante na compreensão</p><p>do que estamos denominando como Engenharia do Trabalho. Aos professores e</p><p>professoras, além de propor uma organização de temas pertinentes ao empre-</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>38</p><p>endimento de introduzir as ciências aplicadas do trabalho na formação de seus</p><p>estudantes, no website do livro, cada capítulo tem a ele associado um conjunto</p><p>de atividades a serem desenvolvidas pelos discentes, tais como: “cine trabalho”,</p><p>“trabalho para nota”, “vamos agir” e “jornada extra”. Essas atividades estão dispo-</p><p>nibilizadas no site da iniciativa Engenharia do Trabalho: www.engenhariadotra-</p><p>balho.com.br. Neste site, o público em geral também encontrará as demais ações</p><p>desta iniciativa, como o Fórum de Engenharia do Trabalho que congrega mais</p><p>informações sobre o ensino das ciências aplicadas do trabalho para cursos de</p><p>graduação das diversas áreas das engenharias.</p><p>Referências</p><p>ANTUNES, R. Uberização, Trabalho Digital e Indústria 4.0. São Paulo: Boitempo. 336p.</p><p>ABCM, 2004. “Journal of the Brazilian Society of Engineering and Mechanical Scien-</p><p>ces”. 1 Feb. 2007 .</p><p>CARDOSO, J.R. A engenharia e os engenheiros. REVISTA USP, São Paulo, n.76,</p><p>p. 44-51, dezembro/fevereiro 2007-2008. Disponível em: https://www.goo-</p><p>gle.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwiz-</p><p>7v7XjJztAhU5ILkGHeb_AVsQFjAAegQIARAC&url=http%3A%2F%2Fwww.</p><p>revistas.usp.br%2Frevusp%2Farticle%2Fdownload%2F13637%2F15455%-</p><p>2F16612&usg=AOvVaw1NuOYQiW5Yk-90K3HfMwtm</p><p>ILO, 2018. Women and men in the informal economy: a statistical picture (third edi-</p><p>tion) / International Labour Office – Geneva: ILO, 2018. Disponível em: https://</p><p>www.ilo.org/global/publications/books/WCMS_626831/lang--pt/index.htm.</p><p>Acesso em 14.jul.2021.</p><p>PARAVIZO, ESDRAS; FONSECA, MARIA L. F.; DE LIMA, FLÁVIA T.; GEMMA, SANDRA</p><p>F. B.; ROCHA, RAONI; BRAATZ, DANIEL. How Ergonomics and Related Courses</p><p>Are Distributed in Engineering Programs? An Analysis of Courses from Brazilian</p><p>Universities. Lecture Notes in Networks and Systems. 1ed.: Springer Internatio-</p><p>nal Publishing, 2021, v. , p. 567-574.</p><p>TRABALHO</p><p>Seção I</p><p>Ilustração de abertura da Seção I - Trabalho</p><p>Título da aquarela: Desmistificando</p><p>Artista: Márcia Elizabéte Schüler</p><p>41</p><p>Transformações</p><p>do trabalho</p><p>no mundo</p><p>contemporâneo</p><p>1</p><p>Ricardo Antunes</p><p>Luci Praun</p><p>Usuário</p><p>Retângulo</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>43</p><p>1. Introdução</p><p>Desde que a vida humana começou a se desenvolver, o trabalho confor-</p><p>mou-se como atividade imprescindível e efetivada pela criação cotidiana de</p><p>bens de uso socialmente necessários para a</p><p>Não por acaso, uma das premissas que sustenta o sistema proposto por Taylor</p><p>é a da transferência de todo o processo de elaboração, assim como o planejamen-</p><p>to da execução das atividades, passo a passo, para a gerência. Interessa à gerên-</p><p>cia científica apoderar-se da engenhosidade do trabalho, de um tipo de conheci-</p><p>mento que não consta nos manuais, sendo originado e alimentado pelos desafios</p><p>impostos pelas situações de trabalho. Um conhecimento, portanto, que é talhado</p><p>pelo fazer cotidiano, síntese da experiência acumulada e construída pelo aprendi-</p><p>zado compartilhado entre a classe-que-vive-do-trabalho (ANTUNES, 2015).</p><p>O controle do conhecimento do trabalho, ponto nevrálgico do taylorismo,</p><p>passa a viabilizar, portanto, o prévio planejamento do conjunto de ações a serem</p><p>desenvolvidas pelos operários. Frente ao que resta de autonomia do trabalho, im-</p><p>põem-se os gestos calibrados com seus movimentos aprisionados, monótonos,</p><p>submetidos a um conjunto de “regras, números, leis e fórmulas” (BRAVERMAN,</p><p>1977, p. 103). A norma geral é a da conversão das atividades antes desempenha-</p><p>das pelos trabalhadores em tarefas simplificadas ao extremo e esvaziadas ao máxi-</p><p>mo, portanto, de seu sentido minimamente criativo.</p><p>Relatando uma de suas experiências, na Bethlehem Steel Company, Taylor</p><p>(1995, p. 53) salienta que:</p><p>[...] um dos requisitos para um indivíduo que queira carregar lingotes</p><p>de ferro como ocupação regular é ser tão estúpido e fleumático que</p><p>mais se assemelhe, em sua constituição mental a um boi [...]. Um ho-</p><p>mem de reações vivas e inteligentes é, por isso mesmo, inteiramente</p><p>impróprio para tarefa tão monótona.</p><p>No início do século XX, as ideias de Taylor contaram com grande receptivida-</p><p>de, não somente nos Estados Unidos, onde se desenvolveram inicialmente, mas</p><p>nos demais países industrializados, ou em processo de industrialização. Tal situa-</p><p>ção, conforme já assinalamos anteriormente, deve ser compreendida no contexto</p><p>da expansão da indústria e ampliação de sua capacidade produtiva, em meio ao</p><p>desenvolvimento tecnológico e ao acirramento concorrencial (PRAUN, 2018a).</p><p>Nos anos 1910, o taylorismo se adaptaria com perfeição às linhas de mon-</p><p>tagem da Ford. Associados às esteiras de produção, capazes de fixar o trabalha-</p><p>dor, ao longo da jornada, em seu posto de trabalho, os princípios da gerência</p><p>Antunes e Praun</p><p>Usuário</p><p>Retângulo</p><p>47</p><p>científica, articulados ao fordismo, assumiram sua expressão mais profunda. O</p><p>trabalho simplificado, repetitivo, monótono é redimensionado na cadência, no</p><p>fluxo contínuo e cronometrado das linhas de produção mecanizadas. Entrelaça-</p><p>-se a esse processo o desenvolvimento das pesquisas e inovações no campo da</p><p>siderurgia, assim como daquelas relacionadas à evolução dos motores a combus-</p><p>tão interna, às quais Henry Ford (1862-1947) dedicou-se com interesse particular</p><p>(PRAUN, 2018b). Decorrem desse ambiente histórico, portanto, as alterações na</p><p>organização do trabalho e produção, adotadas no início do século XX, na Ford</p><p>Motor Company. Em sua fábrica localizada em Detroit, Estados Unidos, e funda-</p><p>da em 1903, Ford desenvolveu um sistema organizado com base na fixação dos</p><p>operários em seus postos de trabalho. Conforme assinalou em suas memórias,</p><p>“nenhum operário deve ter mais que um passo a dar”, devendo sempre fazer “uma</p><p>só coisa com um só movimento” (FORD, 1954, p. 68). Inspirado pelo “sistema de</p><p>carretilhas aéreas” utilizado nos matadouros de Chicago, Ford passou a adotar, a</p><p>partir de 1913, esteiras ou trilhos capazes de mover as peças diante de operários</p><p>dispostos ao longo das diferentes etapas do processo produtivo (FORD, 1954, p.</p><p>71). Ao alcance das mãos deveriam estar também os instrumentos e a matéria-</p><p>-prima necessários para a execução da tarefa.</p><p>A adoção deste conjunto de procedimentos, conforme relatou Ford (1954),</p><p>fez com que, em 1914, a montagem de um motor de carro, por exemplo, antes</p><p>realizada por um único operário, passasse a ser executada por 84 trabalhadores,</p><p>evidenciando assim o alto grau de divisão do trabalho proporcionado pelo siste-</p><p>ma. O fluxo contínuo e cronometrado das linhas móveis de produção, alimenta-</p><p>das por peças padronizadas, passou assim a estabelecer uma cadência na qual os</p><p>corpos, impelidos a desencadearem movimentos simples e repetitivos, entravam</p><p>em sintonia com o ritmo e a intensidade imposta pela maquinaria. A produtivida-</p><p>de e intensidade do trabalho atingiram patamares nunca experimentados antes.</p><p>(PRAUN, 2018b). Não à toa, os primeiros a resistirem à adoção do sistema de pro-</p><p>dução taylorista-fordista foram os antigos operários especializados. Estes, entre-</p><p>tanto, aos poucos, foram sendo substituídos por outros que incorporavam-se às</p><p>linhas de montagem, atraídos por uma diária de trabalho média de valor superior</p><p>àquela praticada pelas demais empresas. Tal situação, temporária, era viabilizada</p><p>pela alta produtividade atingida pela fábrica.</p><p>Em 1921, “pouco mais de metade dos automóveis do mundo (53%) vinham</p><p>das fábricas Ford. O capital da empresa, que era de dois milhões de dólares em</p><p>1907, passou a 250 milhões em 1919, graças aos lucros incessantes” (GOUNET,</p><p>1999, p. 20). Ganhava forma, então, a ideia perseguida por H. Ford desde antes</p><p>Capítulo 1 - Transformações do trabalho...</p><p>48</p><p>de fundar sua própria empresa: produzir em larga escala produtos padroniza-</p><p>dos, de forma a impactar nos custos finais da mercadoria, impulsionando o con-</p><p>sumo massificado.</p><p>O fordismo, associado aos princípios da gerência científica, havia rompido os</p><p>muros da fábrica Ford, convertendo-se em padrão de acumulação de capital e de</p><p>sociabilidade prevalente até os anos 1970. Esteve, nesse sentido, na base, a partir</p><p>dos anos 1930, de um novo ciclo mundial de expansão da industrialização. Esta,</p><p>por sua vez, dirigida sobretudo às regiões da periferia do capitalismo, a exemplo</p><p>da América Latina, onde a presença acentuada das poucas e poderosas corpo-</p><p>rações do ramo automotivo tornou ainda mais evidente o caráter dependente e</p><p>subordinado das economias locais.</p><p>A profunda harmonia alcançada entre taylorismo e fordismo, observada ini-</p><p>cialmente nas linhas de montagem das fábricas de Detroit, fez-se presente no</p><p>cotidiano de gerações de trabalhadores. A ordem de sua expansão, no entanto,</p><p>passou a corresponder à grandeza da acentuada insatisfação, fadiga, sofrimen-</p><p>to e adoecimento entre aqueles que vivem de seu trabalho, tal como descreveu</p><p>Weil (1996, p. 157):</p><p>O primeiro detalhe que, cada dia, torna a servidão sensível, é o re-</p><p>lógio de ponto. O caminho da casa à fábrica está dominado pelo</p><p>fato de que é preciso chegar antes de um segundo mecanicamente</p><p>determinado. Pode-se chegar cinco ou dez minutos adiantado; o</p><p>escoamento do tempo aparece, neste caso, como algo sem piedade</p><p>que não deixa nenhum lance ao acaso. Num dia de operário, é o</p><p>primeiro golpe de uma regra cuja brutalidade domina toda a parte</p><p>da vida passada entre as máquinas; o acaso não tem direitos à cida-</p><p>dania na fábrica.</p><p>Mas situações como essas, por outro lado, auxiliadas pela alta concentração</p><p>de operários, típica das fábricas organizadas aos moldes do taylorismo-fordismo,</p><p>também se converteram no pós-guerra em combustível para o fortalecimento</p><p>das lutas e entidades representativas da classe trabalhadora em diferentes países.</p><p>Dessas lutas, assim como daquelas travadas desde o século XIX, resultou um con-</p><p>junto de direitos sociais e do trabalho que, na virada para o século XX, foi sendo</p><p>progressivamente conquistado.</p><p>O esgotamento do padrão taylorista-fordista, que não pode ser compreendi-</p><p>do sem considerá-lo articulado às mudanças desencadeadas no interior do capi-</p><p>Antunes e Praun</p><p>49</p><p>talismo, a exemplo da acentuada financeirização da economia, da progressiva</p><p>concentração de riquezas, do acirramento da concorrência entre as corporações e</p><p>dos novos patamares de desenvolvimento tecnológico, abriu o caminho para um</p><p>profundo processo de reestruturação produtiva, cujos entraves impostos pela “rigi-</p><p>dez” taylorista-fordista deveriam</p><p>ser, conforme seus defensores, suplantados pela</p><p>máxima “flexibilidade”.</p><p>1.2 Flexibilidade como regra e expansão do trabalho digital</p><p>Os sinais do esgotamento do padrão taylorista-fordista começaram a soar ao</p><p>final da década de 1960. Anunciavam o fim de um longo ciclo de crescimento da</p><p>economia mundial, balizado por políticas locais de perfil keynesiano e estruturado</p><p>em base à produção seriada e em larga escala. Indicadores de queda das taxas de</p><p>lucro das grandes corporações, do refreamento do consumo, da restrição dos in-</p><p>vestimentos em produção, juntamente à explosão do desemprego, evidenciaram a</p><p>chegada da crise que avançou sobre a década seguinte. O padrão taylorista-fordista</p><p>de acumulação de capital, vigente na maior parte do século XX, já não respondia</p><p>às necessidades de reprodução do capital (ANTUNES, 2010, 2015; PRAUN, 2018a).</p><p>Uma parcela de intelectuais, sobretudo aquela que observou o curso dos</p><p>acontecimentos a partir exclusivamente dos países centrais, enxergou equivoca-</p><p>damente, tanto na crise como no desenvolvimento tecnológico então alcançado,</p><p>o advento de novas experiências alternativas, projetando novos e melhores tem-</p><p>pos para a classe trabalhadora. Afinal, diziam, se o trabalho fora caracterizado,</p><p>ao longo do século XX, como monótono, intensivo e alienante, a crise abriria o</p><p>caminho para uma sociedade onde o labor poderia ser enfim valorizado, dadas as</p><p>novas tecnologias digitais e as possibilidades de ampliação do tempo livre (AN-</p><p>TUNES, 2010, 2015).</p><p>Foi da experiência da Toyota japonesa que vieram as principais alterações nas</p><p>formas de organização do trabalho e da produção, implantadas especialmente a</p><p>partir da década de 1980 e adaptadas às diferentes corporações e localidades do</p><p>globo. Longe das previsões otimistas, as mudanças que impactaram o mundo do</p><p>trabalho e a sociabilidade construída nesse contexto inauguraram um período de</p><p>acentuada precarização do trabalho. Em oposição aos tantos aspectos negativos</p><p>do taylorismo-fordismo, o toyotismo, a acumulação flexível e a expansão do ca-</p><p>pitalismo informacional-digital desenvolveram-se no universo em que se consoli-</p><p>dou nova trípode destrutiva, dada pelo neoliberalismo, reestruturação produtiva</p><p>permanente e pela hegemonia do capital financeiro.</p><p>Capítulo 1 - Transformações do trabalho...</p><p>50</p><p>O trabalho relativamente contratado e regulamentado, resultante de uma se-</p><p>cular luta operária por direitos sociais, foi sendo substituído pelas diversas formas</p><p>de “empreendedorismo”, “cooperativismo”, “trabalho voluntário”, “trabalho atípi-</p><p>co”, “intermitente”, acentuando a superexploração e configurando uma tendência</p><p>crescente à precarização estrutural da força de trabalho em escala global (AN-</p><p>TUNES, 2018, p. 169). Vivenciamos, desde então, uma ampliação exponencial de</p><p>novas (e velhas) modalidades de (super)exploração do trabalho, desigualmente</p><p>impostas e globalmente combinadas por uma nova divisão internacional do tra-</p><p>balho. Esses novos arranjos, tecidos pelos processos de reestruturação produtiva</p><p>e pelo espraiamento do neoliberalismo, em interface com a financeirização cres-</p><p>cente da economia, encontram convergência no progressivo desmantelamento</p><p>dos sistemas de proteção social, repercutindo, ainda que de forma diferenciada,</p><p>em todos os países do mundo. Da China ao México, dos EUA à Índia, do Brasil à</p><p>Coreia. O avanço de condições e situações de trabalho ultrajantes compõe a tra-</p><p>ma da globalização neoliberal.</p><p>Nesse universo da nova “empresa flexível”, “liofilizada”1, alteraram-se, em mui-</p><p>tos pontos, os mecanismos do padrão de acumulação do capital. E isso teve con-</p><p>sequências, também, na própria subjetividade do(a) trabalhador(a) e nas distintas</p><p>manifestações do fenômeno da alienação.</p><p>Quem conhece uma fábrica da era taylorista-fordista e observa as atuais per-</p><p>cebe que a diferença é visível no seu desenho espacial, de trabalho, de organiza-</p><p>ção técnica e de controle do trabalho. Não há mais as divisórias. Não há o restau-</p><p>rante do “peão” e o da gerência. É uma fábrica que seduz com o “encantamento”</p><p>de um espaço de trabalho supostamente mais “participativo”, “envolvente” e me-</p><p>nos despótico, ainda que apenas na aparência. Em verdade, o toyotismo converte</p><p>trabalhadores e trabalhadoras em déspotas de si mesmos (ANTUNES, 2015).</p><p>A empresa flexível só pode existir, então, com base no envolvimento, na ex-</p><p>propriação do intelecto do trabalho. Por isso passou a ser comum exigir-se não</p><p>apenas a execução de variadas tarefas (operação e manutenção dos equipamen-</p><p>tos, limpeza e organização do local de trabalho, controle de qualidade etc.), mas</p><p>também a responsabilidade quanto às sugestões de melhorias nos processos, de</p><p>maneira a cortar estoques e elevar a produtividade.</p><p>1 - Como a liofilização, expressão utilizada por Juan J. Castillo, não é um termo das ciências sociais, cabe aqui uma</p><p>explicação rápida: na química, liofilizar significa, em um processo de temperatura baixa, secar as substâncias vivas.</p><p>O leite em pó é um leite liofilizado. Referimo-nos, portanto, aqui, à secagem da substância viva que, na empresa, é</p><p>o trabalho vivo, que produz coisas úteis, riqueza material e valor, e que contraditoriamente se reduz no capitalismo.</p><p>Antunes e Praun</p><p>51</p><p>Danièle Linhart (2000), ao tratar das mudanças no mundo do trabalho, desta-</p><p>cou o que denominou individualização, mecanismo capaz de impulsionar a com-</p><p>petição e favorecer a constituição de um ambiente de trabalho que pressiona, de</p><p>forma difusa, para a adesão às regras do jogo.</p><p>Pesquisadoras como Venco e Barreto (2010, p. 5) observam como esse con-</p><p>texto de instabilidade “configura-se como campo fértil para a instalação de</p><p>patologias do medo, cujas características de angústia frente às incertezas</p><p>são equivalentes às vivenciadas pela situação de desemprego”. Concordando</p><p>com elas, destacamos o quanto este ambiente hostil tem sido particularmente</p><p>perverso com a juventude trabalhadora, desafiada a encarar um mundo em que</p><p>a precariedade dos vínculos, a frágil e instável inserção no mercado de trabalho,</p><p>além da expansão dos adoecimentos, somam-se às exigências constantes e pro-</p><p>gressivas, típicas da era neoliberal (ANTUNES; PRAUN, 2015; PRAUN, 2016).</p><p>Expressões frequentes, tais como “sociedade do conhecimento”, “capital hu-</p><p>mano”, “trabalho em equipe”, “times ou células de produção”, “salários flexíveis”,</p><p>“envolvimento participativo”, “trabalho polivalente e multifuncional”, “colabo-</p><p>radores”, “PJ” (pessoa jurídica, denominação falsamente apresentada como “tra-</p><p>balho autônomo”), “empreendedorismo”, “economia digital”, “trabalho digital”,</p><p>“trabalho on line”, passaram a fazer parte do novo léxico do mundo do capital</p><p>corporativo, impondo a todos e todas o novo cronômetro da era digital: as cons-</p><p>tantes e crescentes “metas”. A técnica, o tempo e o espaço se metamorfosearam:</p><p>sob a lógica da financeirização, a demolição dos direitos do trabalho tornou-se</p><p>exigência inegociável (ANTUNES, 2018).</p><p>Do mesmo modo, a terceirização, informalidade, flexibilidade, desempre-</p><p>go, desemprego por desalento e pauperização amplificada assumem forma</p><p>dramática no cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras. Do Japão dos ope-</p><p>rários encapsulados aos ciberrefugiados que dormem nos cibercafés para pro-</p><p>curar um trabalho contingente no dia seguinte. Da Inglaterra para o mundo</p><p>se esparrama o “contrato de zero hora”, massificando o trabalho intermitente</p><p>e sem direitos. Na Itália assistimos à explosão do trabalho ocasional, pago por</p><p>voucher (ANTUNES, 2018).</p><p>No Brasil, amplia-se o contingente de trabalhadores e trabalhadoras que, à</p><p>margem do mercado formal, veem-se obrigados a ganhar a vida com os chama-</p><p>dos “bicos”. A separação entre tempo de vida no trabalho e fora do trabalho, no</p><p>contexto das formas “modernas” de escravidão digital, tornou-se privilégio de</p><p>poucos. A uberização do trabalho, presente nas plataformas digitais e nos aplicati-</p><p>vos, tem se convertido na marca das relações de trabalho na contemporaneidade.</p><p>Capítulo 1 - Transformações do trabalho...</p><p>52</p><p>1.3 Considerações finais</p><p>As marcas do trabalho, impressas nesse mundo que construímos cotidiana-</p><p>mente, evidenciam os descaminhos de nossa humanidade. Expressam-se, confor-</p><p>me destacamos anteriormente, para a classe-que-vive-do-trabalho, em uma vida</p><p>submetida e marcada pelo sacrifício, pela exploração e privação, pelas incertezas</p><p>impostas tanto pelo desemprego, sempre à espreita, como pelos frágeis laços do</p><p>trabalho flexibilizado.</p><p>Dar visibilidade a essa contradição, desvelando a profunda mercantilização e</p><p>descartabilidade da vida humana sob o capitalismo, é sem dúvida um importante</p><p>ponto de partida para o desenvolvimento de práticas profissionais (inclusive na</p><p>Engenharia, que desempenha papel de relevo no processo de produção) que se-</p><p>jam também polos de resistência e mudança, capazes de participar da construção</p><p>de uma sociedade em que as finalidades e sentidos do trabalho estejam voltadas</p><p>a redesenhar o mundo em direção a uma efetiva vida dotada de sentido. É neste</p><p>contexto que se insere nossa contribuição.</p><p>Referências</p><p>Antunes e Praun</p><p>ANTUNES, R. Adeus ao trabalho? Edição comemorativa 20 anos. São Paulo: Cortez, 2015.</p><p>ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digi-</p><p>tal. São Paulo: Boitempo, 2018.</p><p>ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho. São Paulo: Boitempo, 2010.</p><p>ANTUNES, R. (Org.). Riqueza e miséria do trabalho no Brasil IV. São Paulo: Boitem-</p><p>po, 2019.</p><p>ANTUNES, R.; PINTO, G. A. (Org.). A fábrica da educação. São Paulo: Cortez, 2017.</p><p>ANTUNES, R.; PRAUN, L. A sociedade dos adoecimentos no trabalho. Serviço So-</p><p>cial & Sociedade, São Paulo, n. 123, p. 407-427, jul./set. 2015. Disponível em:</p><p>.</p><p>Acesso em: 15 mai. 2021</p><p>BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista. A degradação do trabalho no sé-</p><p>culo XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.</p><p>FORD, H. Os princípios da prosperidade. Rio de Janeiro: Brand, 1954.</p><p>53</p><p>Capítulo 1 - Transformações do trabalho...</p><p>GOUNET, T. Fordismo e toyotismo na civilização do automóvel. São Paulo: Boitem-</p><p>po, 1999.</p><p>LINHART, D. O indivíduo no centro da modernização das empresas: um reconhe-</p><p>cimento esperado, mas perigoso. Trabalho & Educação, Belo Horizonte, n. 7, jul./</p><p>dez. 2000. Disponível em: . Acesso em: 15 mai. 2021.</p><p>LUKÁCS, G. Para uma ontologia do ser social. São Paulo: Boitempo, 2013.</p><p>PRAUN, L. Fordismo e pós-fordismo. In: MENDES, R. (Org.). Dicionário de saúde e</p><p>segurança do trabalhador: conceitos - definições - história – cultura. Novo Ham-</p><p>burgo (RS): Proteção Publicações, 2018a. p. 546-548.</p><p>PRAUN, L. Reestruturação produtiva, saúde e degradação do trabalho. Campinas:</p><p>Papel Social, 2016.</p><p>PRAUN, L. Taylorismo. In: MENDES, R. (Org.). Dicionário de saúde e segurança do</p><p>trabalhador: conceitos - definições - história – cultura. Novo Hamburgo (RS):</p><p>Proteção Publicações, 2018b. p. 1.123-1.124.</p><p>TAYLOR, F. W. Princípios de administração científica. São Paulo: Atlas, 1995.</p><p>VENCO, S.; BARRETO, M. O sentido social do suicídio no trabalho. Revista Espaço</p><p>Acadêmico, Maringá, v. 9, n. 108, p. 1-8, mai. 2010. Disponível em: .</p><p>Acesso em 15.mai.2021.</p><p>WEIL, S. 1996. A Condição Operária. In: BOSI, E. Simone Weil: A condição operária e</p><p>outros escritos. Rio de Janeiro, Paz e Terra, p. 75-175.</p><p>55</p><p>Modelos de</p><p>organização do</p><p>trabalho: por</p><p>uma organização</p><p>colaborativa</p><p>Ana Valéria Carneiro Dias</p><p>Francisco de Paula Antunes Lima</p><p>Leonardo Ferreira Reis</p><p>2</p><p>Usuário</p><p>Retângulo</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>57</p><p>1. Introdução</p><p>O trabalho é um objeto de projeto, tanto quanto as tecnologias materiais,</p><p>ou a organização. Ao longo da história, a produção foi organizada com base em</p><p>técnicas artesanais. Com o desenvolvimento do capitalismo, diferentes formas</p><p>de organização do trabalho foram concebidas, combinando diferentes práticas</p><p>gerenciais e tecnologias produtivas. Com o aumento da complexidade destas</p><p>combinações, aliada à resistência dos trabalhadores à exploração, a ciência do</p><p>trabalho se constituiu como um campo de conhecimento que passou a auxiliar</p><p>a compreensão e transformação da organização dessa atividade intrinsecamente</p><p>humana. Para além de formas espontâneas que emergem da vida social, o tra-</p><p>balho passou a ser um objeto de interesse dos(as) cientistas e engenheiros(as),</p><p>preocupados em criar formas racionais de organização que tornassem o trabalho</p><p>o mais eficiente possível, segundo critérios econômicos, considerando aspectos</p><p>fisiológicos e sociais, incluindo os de saúde.</p><p>As diversas formas de se organizar o trabalho podem ser agrupadas em mo-</p><p>delos mais ou menos gerais, que refletem as transformações pelas quais passou</p><p>o processo de trabalho em diferentes épocas históricas, como a escravidão na</p><p>antiguidade, a servidão no feudalismo e o assalariamento no capitalismo. Vamos</p><p>nos limitar aqui às formas de organização que foram concebidas no capitalismo,</p><p>que persistem em nossos dias, sendo, portanto, de interesse prático para os(as)</p><p>engenheiros(as) que projetam sistemas de produção inteiros ou suas partes com-</p><p>ponentes, como os instrumentos de trabalho, os produtos ou as formas de orga-</p><p>nização das empresas.</p><p>Este texto está organizado em seis partes, além da introdução e do fechamento,</p><p>a começar pela apresentação de conceitos básicos sobre organização do trabalho</p><p>(item 2), que nos dará meios para descrever e analisar criticamente os modelos clás-</p><p>sicos que prevaleceram nas fases de desenvolvimento do capitalismo (item 3), as</p><p>diferentes formas de organização do trabalho que surgem na segunda metade do</p><p>século XX (itens 4 e 5), e as transformações contemporâneas que desestruturam</p><p>as relações de trabalho, mas também possibilitam surgir formas alternativas de</p><p>economia e de organização do trabalho autogestionárias e cooperativas (item 6).</p><p>Encerramos o artigo ressaltando o lugar que a cooperação, em vez da competição,</p><p>ocupa no mundo do trabalho e das organizações (item 7), colocando-a no centro</p><p>de novos modelos, ainda em desenvolvimento, que se contrapõem à organização</p><p>neoliberal que invadiu todos os aspectos do trabalho e da vida social.</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>58</p><p>2. Aspectos conceituais da organização do trabalho</p><p>Para se compreender como o trabalho é organizado – objeto de estudo</p><p>deste texto – precisamos, antes, compreender por que é necessário desen-</p><p>volver modelos de organização do trabalho (OT). O ponto de partida é reco-</p><p>nhecer o trabalho como categoria central no desenvolvimento de qualquer</p><p>sociedade, e também como uma atividade que distingue o ser humano de</p><p>outros animais. É por meio do trabalho que todas as sociedades puderam pro-</p><p>duzir os materiais necessários à sua sobrevivência e utilizar o excedente para</p><p>obter algum nível de conforto, possibilitando desenvolver a cultura, criar ins-</p><p>tituições. Para isso, em paralelo, a divisão do trabalho social e a divisão social</p><p>do trabalho se tornaram mais complexas. Por sua vez, a capacidade de produ-</p><p>zir excedente e ter condições de desenvolver outras áreas da potencialidade</p><p>humana é determinada pelo grau de desenvolvimento das forças produtivas</p><p>e pelas relações sociais de produção em cada momento histórico. Ou seja, o</p><p>trabalho e os meios de produção existentes na antiguidade clássica ou no feu-</p><p>dalismo são completamente diferentes daqueles existentes hoje, no modo de</p><p>produção capitalista. Assim, as formas de trabalho em diferentes sociedades</p><p>não podem ser equiparadas.</p><p>Divisão do trabalho social</p><p>Empresas industriais</p><p>Diretoria de</p><p>produção</p><p>Diretoria de</p><p>qualidade</p><p>Exército Educação</p><p>Presidência - CEO Presidência - CEO Presidência - CEO Presidência - CEO</p><p>Gerência de</p><p>Produção Gerência</p><p>Supervisão</p><p>de produção Supervisão</p><p>Operação Operação</p><p>Parcelamento de</p><p>tarefas</p><p>Divisão funcional</p><p>do trabalho</p><p>Diretoria</p><p>Gerência</p><p>Supervisão</p><p>Operação</p><p>Diretoria</p><p>Gerência</p><p>Supervisão</p><p>Operação</p><p>Diretoria</p><p>Gerência</p><p>Supervisão</p><p>Operação</p><p>Diretoria</p><p>Gerência</p><p>Supervisão</p><p>Operação</p><p>Diretoria</p><p>Gerência</p><p>Supervisão</p><p>Operação</p><p>Diretoria</p><p>Gerência</p><p>Supervisão</p><p>Operação</p><p>D</p><p>iv</p><p>is</p><p>ão</p><p>s</p><p>oc</p><p>ia</p><p>l</p><p>do</p><p>t</p><p>ra</p><p>ba</p><p>lh</p><p>o</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>59</p><p>Por isso é necessário estudar o trabalho como um processo histórico, cujas es-</p><p>truturas sociais podem ser e são radicalmente transformadas ao longo do tempo,</p><p>ou seja, a estrutura social pode ser mudada. Outro fator a ser ressaltado é que o</p><p>trabalho é uma atividade exclusivamente humana, pois só nós podemos utilizar</p><p>nossa racionalidade para projetar e conceber mentalmente o trabalho antes de</p><p>realizá-lo, capacidade que permite a dissociação entre concepção e execução. Em</p><p>outras palavras, é possível que um indivíduo realize o trabalho de planejar ou</p><p>conceber a tarefa a ser realizada e que outro seja responsável por executá-la. No</p><p>capitalismo, esta capacidade é central na compreensão dos conflitos de classe</p><p>que determinam seu desenvolvimento e sua potencial superação, pois é o con-</p><p>trole sobre a concepção do trabalho e, consequentemente, sobre sua execução,</p><p>que condicionará o aumento da produtividade. Outro aspecto importante dessa</p><p>distinção é que a cultura humana é acumulada em um patrimônio, material e</p><p>imaterial, externo aos indivíduos, que pode ser apropriado de forma privada ou</p><p>coletiva. O acesso a esses bens materiais e imateriais, dentre eles os instrumentos</p><p>de trabalho, define as diferentes épocas históricas e a possibilidade de desenvol-</p><p>vimento dos indivíduos: o escravo, por exemplo, diferentemente de um trabalha-</p><p>dor assalariado, é propriedade do senhor.</p><p>Mas por que a produtividade é tão importante? Essa pergunta nos reme-</p><p>te a uma análise profunda das relações de trabalho no modo de produção</p><p>capitalista. As relações produtivas são resultado de um processo histórico</p><p>e possuem uma finalidade específica, qual seja, a produção de mercadorias</p><p>para serem vendidas no mercado. Acontece que o valor dessas mercadorias é</p><p>criado durante a sua produção, ou seja, há um valor excedente que será apro-</p><p>priado pelo capitalista ao vender as mercadorias feitas por meio do trabalho.</p><p>Por valor excedente entende-se todo valor que é produzido no processo de</p><p>trabalho, mas que não é convertido em salário, por isso chamado por Marx de</p><p>“mais-valia” (MARX, 2010 [1867]).</p><p>Do ponto de vista da valorização do capital, existem duas formas principais de</p><p>aumentar esse excedente: a primeira, aumentando o tempo de duração da jorna-</p><p>da de trabalho; a segunda, aumentando a produtividade do trabalho. A primeira</p><p>forma envolve uma disputa política, com a mediação do Estado e suas leis, e é</p><p>determinada pelo poder de barganha que cada classe possui, discussão que foge</p><p>do tema aqui proposto. Já a produtividade, além da mediação do Estado e da</p><p>legislação trabalhista, depende das técnicas empregadas na gestão do trabalho e</p><p>no grau de desenvolvimento tecnológico, elementos centrais na compreensão da</p><p>OT. Outro fator que influencia a produtividade é o controle sobre o conhecimento</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>60</p><p>necessário à produção. Com a divisão técnica do trabalho, diferentes operações</p><p>especializadas são realizadas coordenadamente e quem as executa não precisa</p><p>ter, necessariamente, conhecimento sobre as outras etapas. Nota-se, assim, que</p><p>organizar o trabalho envolve não somente dividir, mas coordenar as etapas, de</p><p>modo a garantir que a divisão não afete negativamente a integridade do resulta-</p><p>do. O conhecimento de todas as etapas do processo e da sua coordenação pode</p><p>ser controlado não só pelos trabalhadores, mas também pela gerência.</p><p>De fato, no capitalismo, a gerência e os cientistas organizacionais que a au-</p><p>xiliam – principalmente os(as) engenheiros(as) de métodos – têm a função de</p><p>análise e concepção do trabalho, enquanto aos trabalhadores resta apenas a exe-</p><p>cução. Com o controle sobre a concepção do trabalho, os gestores podem tentar</p><p>eliminar tempos ditos “ociosos” ou “não-produtivos” durante a execução das ope-</p><p>rações, aumentando a produtividade com a intensificação do trabalho. A partir de</p><p>certo ponto, intensificar o trabalho representa aumentos fictícios da produtivida-</p><p>de, pois os trabalhadores podem adoecer. Como a produtividade é uma relação</p><p>entre resultados/recursos e não apenas um aumento de produção, é necessário</p><p>separar produtividade real e produtividade aparente.</p><p>O progresso tecnológico implementado no processo produtivo atua tanto</p><p>para aumentar a produtividade, inclusive pela intensificação do trabalho, quanto</p><p>para aumentar o controle gerencial sobre o conhecimento necessário à produ-</p><p>ção. Tal conhecimento é utilizado para desenvolver formas de divisão e coorde-</p><p>nação do trabalho cada vez mais complexas. Esta complexidade aumenta quan-</p><p>do consideramos a competição intercapitalista e o ambiente social, econômico e</p><p>cultural em que as empresas estão inseridas. Analisando este ambiente no qual</p><p>está inserida, e se baseando no conhecimento que apropria dos trabalhadores, a</p><p>gerência desenvolve as práticas organizacionais adequadas a cada contexto pro-</p><p>dutivo. Tais práticas, ao terem sua eficiência comprovada no aumento do controle</p><p>sobre os trabalhadores, e para o aumento da produtividade, são estruturadas em</p><p>modelos organizacionais que são difundidos como referência para as diferentes</p><p>realidades produtivas (ZILBOVICIUS, 1999).</p><p>Assim, os modelos de OT seriam um produto do meio em que estão inseridos,</p><p>das referências existentes em gestão do trabalho e também da experimentação</p><p>de diferentes práticas gerenciais no cotidiano da produção. A adaptação a estes</p><p>fatores muda a forma destes modelos constantemente, porém, seu conteúdo é</p><p>sempre o mesmo: aumentar a produtividade por meio do controle sobre a for-</p><p>ça de trabalho e da tecnologia, gerando maiores lucros para os detentores dos</p><p>meios de produção.</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>61</p><p>3. Modelos clássicos</p><p>A administração científica é considerada a primeira forma de organização do</p><p>trabalho desenvolvida como um modelo racional. Criada e difundida por Frederick</p><p>Taylor, estadunidense do início do século XX, que publica em 1911 o livro Princípios</p><p>de administração científica, o desenvolvimento das técnicas da organização científi-</p><p>ca do trabalho surge em um contexto de expansão e modernização das empresas</p><p>capitalistas, previamente à crise de 1929, um ambiente competitivo e de acirramen-</p><p>to do antagonismo entre capital e trabalho (PINTO, 2002).</p><p>Com o desenvolvimento da Administração Científica, Taylor fez com que o</p><p>conceito de controle, historicamente importante no desenvolvimento capitalista,</p><p>passasse a ser a função central da gerência. Assim, o principal foco do modelo</p><p>taylorista de organização do trabalho foi reduzir a dependência da administração</p><p>em relação à iniciativa dos trabalhadores, até então responsáveis pela organiza-</p><p>ção do próprio trabalho. Ao subdividir as tarefas em pequenos procedimentos</p><p>padronizados, os trabalhadores passam a deter um conhecimento bem restrito</p><p>em relação ao processo como um todo.</p><p>Esta divisão técnica do trabalho foi elevada ao extremo, fazendo com que</p><p>fossem determinados não só o tempo de execução – meticulosamente crono-</p><p>metrado – como também os movimentos necessários à realização das tarefas.</p><p>Essa “dissociação do processo de trabalho das especialidades dos trabalhadores”</p><p>(BRAVERMAN, 1980, p. 103) é um dos pilares do modelo taylorista.</p><p>Por meio dessas técnicas de análise e medição do trabalho, a gerência se tor-</p><p>na mais eficiente na apropriação do conhecimento operário, passando a definir</p><p>exatamente o que cada um deveria fazer em uma “jornada normal” de traba-</p><p>lho. Para aplicar esse princípio de separação entre concepção e execução (BRA-</p><p>VERMAN, 1980), Taylor defendia que a gerência deveria estabelecer o ritmo de</p><p>trabalho. Segundo ele, os trabalhadores estabelecem coletivamente um ritmo</p><p>inferior ao que poderiam produzir, pois querem atender</p><p>a seus próprios interes-</p><p>ses – como evitar a redução do valor da peça, quando recebem por produção –,</p><p>o que os levaria a ter de trabalhar mais intensamente, ou por um tempo maior</p><p>para conseguir o mesmo salário. Ao reduzir ao máximo a livre iniciativa dos ope-</p><p>rários durante a jornada, controlando a concepção do trabalho, seria possível à</p><p>gerência manter um ritmo elevado e uniforme, aumentando a produtividade.</p><p>Um terceiro princípio, o mais geral de todos, é que a coleta de informações para</p><p>a análise do trabalho e o desenvolvimento das tarefas devem ser atribuições ex-</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>62</p><p>clusivas da gerência, ou seja, as funções da gerência e dos trabalhadores devem</p><p>ser muito bem delimitadas.</p><p>Para os trabalhadores, a implementação da administração científica significou</p><p>uma submissão, ainda mais profunda, às atividades monótonas e desgastantes da</p><p>divisão do trabalho, gerando diversos acidentes, adoecimentos e conflitos, princi-</p><p>palmente junto àqueles que tentavam proteger sua saúde utilizando estratégias</p><p>de resistência e luta, como as greves. Já para a gerência, além do aumento da pro-</p><p>dutividade, a divisão do trabalho taylorista facilitou o recrutamento de novos em-</p><p>pregados – algo que a gerência utilizava com frequência para substituir tanto os</p><p>insubordinados, quanto os adoecidos. Outro elemento importante deste modelo</p><p>é a forma de motivar o trabalhador a aumentar seu próprio ritmo de trabalho,</p><p>atrelando o salário ao aumento da produtividade. Esta prática, já antiga na ges-</p><p>tão das fábricas, reduzia os salários, pois sempre que as metas eram alcançadas,</p><p>novos objetivos mais ambiciosos eram estabelecidos. O que diferencia a proposta</p><p>de Taylor do tradicional salário por peça é que este passa a ser utilizado junto ao</p><p>desenvolvimento de métodos de trabalho com tempos e movimentos definidos</p><p>pela gerência, ou seja, a produtividade poderia ser calculada com a definição do</p><p>tempo-padrão, deixando de ser resultado da iniciativa dos trabalhadores. Neste</p><p>contexto, as lutas por aumento real de salário se intensificaram, mas um empresá-</p><p>rio estadunidense conseguiu aproveitar bem a proposta taylorista para aumentar</p><p>sua lucratividade, aperfeiçoando o modelo ao aplicá-lo na produção em massa.</p><p>Nos estudos sobre OT, Henry Ford é lembrado pela implementação da linha de</p><p>montagem nas suas fábricas de carros, o que eliminou boa parte do tempo gasto</p><p>no transporte de peças e materiais para a produção. Este sistema técnico, aliado</p><p>ao desenvolvimento da maquinaria do início do século XX, permitiu ganhos de</p><p>produtividade significativos, que, associados ao aumento da escala de produção,</p><p>fez com que conseguisse montar grandes quantidades de carros, mercadoria de</p><p>luxo na época, a um preço acessível até para seus próprios operários. Isso foi pos-</p><p>sível porque o salário foi aumentado para evitar as altas taxas de rotatividade,</p><p>devido à recusa do trabalho nas linhas de montagem.</p><p>Apesar destas técnicas utilizadas para aperfeiçoar a organização do trabalho</p><p>taylorista, sua maior contribuição foi o desenvolvimento dos conceitos de pro-</p><p>dução e consumo em massa. O fordismo criou um novo padrão de acumulação</p><p>capitalista mundial baseado na produção de mercadorias em grandes quantida-</p><p>des, que deveriam ser compradas por uma classe trabalhadora monetarizada por</p><p>aumentos reais de salário, associado a investimento estatal para geração de em-</p><p>prego. Assim, o fordismo se tornou uma forma nova de reprodução social, mais</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>63</p><p>que uma inovação no ambiente de produção, forjando um tipo de trabalhador</p><p>adequado aos objetivos de lucratividade das empresas, mas que foi implementa-</p><p>da em um processo conflituoso.</p><p>Segundo Harvey (2012), a consolidação do fordismo enfrentou duas barrei-</p><p>ras principais. A primeira foi a resistência da classe trabalhadora aos métodos de</p><p>gestão taylorista/fordista, pelos motivos já discutidos anteriormente. A segunda</p><p>barreira foi a política do Estado para a regulamentação do regime fordista, princi-</p><p>palmente após a crise estrutural do capitalismo da década de 1930, que se carac-</p><p>terizou, fundamentalmente, pela queda da demanda efetiva advinda de elevados</p><p>níveis de desemprego.</p><p>Assim, para a consolidação do regime fordista foi necessário derrotar setores</p><p>mais radicais da classe trabalhadora, sendo estabelecida a hegemonia capitalista</p><p>na luta de classes, criando uma nova relação entre o corporativismo e o sindica-</p><p>lismo. Em troca de políticas sociais e de aumentos reais nos salários, os sindicatos</p><p>cooperaram com a implementação das técnicas tayloristas/fordistas de produção</p><p>que permitiam aumento da produtividade – apesar de que a tentativa de trans-</p><p>formar o trabalho em algo rotinizado e inexpressivo sempre enfrentou a resistên-</p><p>cia dos trabalhadores.</p><p>Os conflitos derivados da difusão desse modelo também geraram uma reação</p><p>gerencial para tentar convencer os trabalhadores a aceitar, por outros métodos</p><p>além da punição ou de incentivos financeiros, as condições colocadas pela admi-</p><p>nistração científica. A principal referência do aperfeiçoamento gerencial para o</p><p>controle e aumento da produtividade do trabalho foi a perspectiva humanista, ou</p><p>escola de recursos humanos (ERH). As técnicas de gestão de RH foram desenvol-</p><p>vidas a partir da necessidade gerencial de se compreender melhor os efeitos do</p><p>trabalho sobre as pessoas, não só da fadiga física, como no taylorismo, mas prin-</p><p>cipalmente para combater a resistência operária à divisão do trabalho. No início</p><p>do século XX, os movimentos sociais e sindicais que denunciavam as condições</p><p>precárias das fábricas se fortaleciam, assim como os ideais de transformação es-</p><p>trutural da sociedade, que poderiam colocar em xeque o próprio modo de pro-</p><p>dução capitalista. Assim, um possível “humanismo” nos modelos organizacionais</p><p>não era devido a ideais altruístas, mas visava a reduzir conflitos e apaziguar as</p><p>relações capital-trabalho (TONELLI et al., 2002).</p><p>Ou seja, para evitar uma insurreição radical da classe trabalhadora, os indus-</p><p>triais se viram obrigados a promover reformas no ambiente de trabalho e na for-</p><p>ma de gerenciar a força de trabalho das fábricas. Um marco da difusão deste novo</p><p>paradigma para o modelo taylorista/fordista foi a experiência desenvolvida na</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>64</p><p>década de 1920 por Elton Mayo na fábrica da Western Electric Company, situada</p><p>em Chicago. Nesta experiência, a equipe de Mayo procurava compreender a influ-</p><p>ência de aspectos ambientais, como a intensidade da luz, sobre a produtividade</p><p>do trabalho. Mas descobriu-se que fatores fisiológicos podem ser menos determi-</p><p>nantes que fatores psicossociais na motivação dos trabalhadores para a execução</p><p>do trabalho, levando à necessidade de também compreendê-los.</p><p>Devido a essa descoberta gerencial, alguns manuais de administração tratam</p><p>o surgimento da ERH como uma transição entre a lógica mecanicista do tayloris-</p><p>mo/fordismo para uma nova concepção organizacional humanista. Porém, como</p><p>é simples observar no cotidiano dos processos produtivos, a prescrição da tarefa</p><p>taylorista e outras práticas gerenciais desse modelo ainda são o elemento central</p><p>da lógica adotada pela gerência contemporânea. Sendo assim, o que a ERH efeti-</p><p>vamente modificou na gerência do trabalho?</p><p>A partir das reformas com base na perspectiva humanista, mudanças peri-</p><p>féricas são efetuadas na organização do trabalho taylorista/fordista, dentre elas</p><p>o surgimento do departamento de gestão de pessoal. Este departamento tem</p><p>como objetivo não só realizar a seleção e recrutamento de operários a partir dos</p><p>preceitos da racionalidade taylorista, como também lidar com os conflitos, ou,</p><p>nos seus termos, com as relações humanas existentes no processo produtivo. A</p><p>partir deste momento, a gerência passa a considerar outras variáveis, além da</p><p>remuneração, como fatores de motivação – ou de desmotivação: a salubridade</p><p>do ambiente, formação de grupos, a comunicação, entre outros fatores psicoló-</p><p>gicos e sociais dos operários.</p><p>Uma teoria comportamental muito influente na elaboração das práticas</p><p>motivacionais da ERH é a hierarquia das necessidades, formulada por Abraham</p><p>Maslow. Segundo esta teoria, os fatores de motivação das pessoas dependem</p><p>do atendimento de necessidades de nível mais básico, que são de ordem fi-</p><p>siológica, seguidas da segurança, convivência social, autoestima e, por fim, de</p><p>autorrealização. Ainda segundo esta teoria, o trabalho seria o meio de atender</p><p>a estas necessidades e a gerência deveria fornecer meios para que todos es-</p><p>tes fatores estivessem disponíveis aos trabalhadores à medida que iam sendo</p><p>alcançados, aumentando, assim, a motivação e, consequentemente, a produ-</p><p>tividade do trabalho. Tendo como base esta e outras teorias comportamen-</p><p>tais desenvolvidas na época, a organização do trabalho passa a incorporar</p><p>estes fatores subjetivos na sua forma e conteúdo, em um conjunto de ideias</p><p>chamadas “enriquecimento de cargos” (FLEURY; VARGAS, 1983). As principais</p><p>técnicas que envolvem esta ideia são:</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>65</p><p>1. Rotação de cargos: os trabalhadores revezam-se entre tarefas diferentes</p><p>após determinado tempo desempenhando uma mesma atividade;</p><p>2. Ampliação horizontal: os trabalhadores passam a acumular diferentes</p><p>tarefas simples, por exemplo, montando mais de uma peça em um au-</p><p>tomóvel;</p><p>3. Ampliação vertical: os trabalhadores passam a realizar algumas funções</p><p>de decisão, como avaliar se as peças estão em conformidade com os pa-</p><p>drões de qualidade, ou de outra natureza, como a manutenção da máqui-</p><p>na que opera.</p><p>É preciso notar que o enriquecimento de cargos não prescinde das técnicas</p><p>da administração científica, ao contrário, a sua aplicação depende da determina-</p><p>ção de tarefas muito bem delimitadas, tal qual Taylor propôs em seus estudos.</p><p>Também a autonomia e a flexibilidade desta forma de organização do trabalho</p><p>continuam sendo extremamente limitadas. Estas características foram adequadas</p><p>a um determinado período histórico, mas precisaram ser alteradas para atender</p><p>às condições socioeconômicas e tecnológicas que passaram a existir a partir da</p><p>década de 1960, como veremos a seguir.</p><p>4. O modelo japonês</p><p>As formas clássicas de OT, apoiadas na concepção de produtividade da pro-</p><p>dução em massa, encontraram limites também do ponto de vista do processo</p><p>de acumulação capitalista. A saturação dos mercados nos países europeus e nos</p><p>EUA, agravada pela crise do petróleo de 1973, colocou em xeque o modo de pro-</p><p>dução fordista, cujo conceito de produtividade, como vimos, fundamenta-se no</p><p>aumento da quantidade produzida em relação ao tempo de produção (trabalho</p><p>direto); uma vez que a crise atinge os mercados consumidores centrais, o lucro</p><p>não pode mais ser obtido pelo aumento da produção. Ademais, mudanças tecno-</p><p>lógicas, sobretudo relacionadas à automação dos processos de produção, tornam</p><p>o modo taylorista de controle do trabalho obsoleto, uma vez que a automação</p><p>muda a forma de se trabalhar: a base do processo de trabalho passa do gesto</p><p>operário às atividades de monitoramento dos equipamentos, para as quais fer-</p><p>ramentas e métodos, tais como o estudo de tempos e movimentos, são absolu-</p><p>tamente inadequados. A redução na taxa de lucro do capital pressiona, também,</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>66</p><p>por transformações nos modos de governança dos estados, que conduzem ao</p><p>progressivo abandono das políticas de bem-estar social, inicialmente na Ingla-</p><p>terra e nos EUA, e ao predomínio das práticas neoliberais (DARDOT; LAVAL, 2016),</p><p>cenário que impactará também as relações de trabalho e, por conseguinte, as</p><p>formas de organizar o trabalho.</p><p>A partir dos anos 1980, indústrias japonesas e suas formas de organizar a</p><p>produção e o trabalho desenvolvidas no pós-Segunda Guerra foram vistas como</p><p>contraponto à perda de competitividade da indústria dos EUA e da Europa. Em</p><p>particular, os métodos e técnicas utilizados pela montadora de automóveis Toyo-</p><p>ta foram extensamente analisados e difundidos como um novo modelo de ra-</p><p>cionalização do trabalho conhecido como “sistema Toyota de produção”, “mode-</p><p>lo Toyota”, “modelo japonês” ou “produção enxuta” (lean production), que é uma</p><p>combinação dos princípios e métodos criados no Japão com outras técnicas</p><p>desenvolvidas no Ocidente por acadêmicos e consultores. Em linhas gerais, os</p><p>princípios do “modelo japonês” se fundamentam na constante redução de custos</p><p>de produção conjugada com flexibilidade, permitindo uma maior variedade de</p><p>produtos finais. No modelo, a redução de custos se dá também por um melhor</p><p>controle de qualidade, que se torna um diferencial competitivo adicional.</p><p>O ponto central da redução de custo com flexibilidade é a redução de esto-</p><p>ques, com produção (ou compra) em pequenos lotes. Peças, componentes e pro-</p><p>dutos finais só podem ser produzidos (ou comprados) na quantidade necessária,</p><p>conforme as previsões de venda, no momento em que serão efetivamente neces-</p><p>sários, segundo um método conhecido como “just-in-time”. Contudo, a drástica</p><p>redução de estoques e do tamanho dos lotes exige uma série de condições para</p><p>que a produção just-in-time se realize sem interrupções: o controle de qualidade</p><p>durante o processo de produção, a regulagem (set up) rápida dos equipamentos</p><p>quando da troca de lotes, a modificação do arranjo físico de modo a aproximar</p><p>os diferentes processos de produção etc. Essas condições foram obtidas com o</p><p>desenvolvimento de métodos e técnicas de organização da produção específicos,</p><p>como as diversas ferramentas e métodos de qualidade, projeto de produtos, a</p><p>troca rápida de ferramentas, a manutenção produtiva total, a criação de células</p><p>de manufatura etc.</p><p>Vários desses métodos e técnicas modificaram, por sua vez, a organização do</p><p>trabalho. A tarefa (prescrita), no modelo japonês, incorpora operações de contro-</p><p>le de qualidade no processo, manutenção preventiva dos equipamentos e limpe-</p><p>za e organização do local de trabalho (por exemplo, por meio da ferramenta “5S”).</p><p>Nas células de manufatura, diferentes processos de produção são agrupados para</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>67</p><p>a fabricação do componente ou produto final, operados por trabalhadores mul-</p><p>tifuncionais, que devem se revezar de modo a conhecer todas as operações da</p><p>célula – de resto, prescritas pela Engenharia com o auxílio de ferramentas (tais</p><p>como a cronoanálise) muito semelhantes às propostas pela administração cientí-</p><p>fica. Ademais, espera-se dos trabalhadores que contribuam com a melhoria con-</p><p>tínua do processo de produção, propondo modificações na tarefa que, contudo,</p><p>devem ser aprovadas pelos superiores (supervisores(as), engenheiros(as)).</p><p>Outra característica do modelo japonês é a existência de trabalho em grupos,</p><p>ou seja, um conjunto de tarefas deve ser alocado a um grupo de trabalhadores</p><p>que, em certa medida, se autorregulam em sua realização. Enquanto o mode-</p><p>lo taylorista-fordista opunha-se à possibilidade de trabalho em grupo, por con-</p><p>siderar que qualquer autorregulação significaria tempo improdutivo – eventu-</p><p>almente, utilizado para criação e difusão, pelos trabalhadores, de outros modos</p><p>de operação, diferentes da tarefa “cientificamente determinada”, ocasionando</p><p>redução da produtividade, além de perda de controle sobre os trabalhadores –, o</p><p>modelo japonês, ao contrário, acentua explicitamente a necessidade do trabalho</p><p>em grupo como modo de aumento de produtividade. Isso ocorre, por um lado,</p><p>devido à difusão do conhecimento tácito entre os trabalhadores (CORIAT, 2008),</p><p>que se converteria em aumento de multifuncionalidade, melhoria de qualidade,</p><p>redução de erros, redução de perdas, reação a mudanças e imprevistos mais rá-</p><p>pida (maior flexibilidade). Por outro lado, o trabalho em grupo e a autorregula-</p><p>ção podem também contribuir para a redução do número de trabalhadores, uma</p><p>vez que, sendo o grupo multifuncional e havendo estoques reduzidos (que não</p><p>amortecem problemas na produção), a cooperação é prescrita e exigida: os traba-</p><p>lhadores devem permanentemente auxiliar seus colegas. Isso elimina os “tempos</p><p>mortos” resultantes do balanceamento de carga de trabalho individual fordista,</p><p>reduzindo, teoricamente, o número de trabalhadores necessários – e também re-</p><p>duzindo significativamente os espaços de regulação individual. Por isso se afirma</p><p>que o modelo japonês coloca a fábrica “sob tensão” (CORIAT, 2008).</p><p>Embora o modelo japonês tenha se difundido em grande medida a partir da</p><p>promoção de aspectos da qualidade na produção, é importante notar que, para</p><p>o modelo, a qualidade não é um fim, mas um meio para alcançar a redução de</p><p>custos – ou desperdícios, no jargão do modelo –, que é o seu principal objetivo.</p><p>Evidentemente, a perseguição desse objetivo, no modelo de produção capitalis-</p><p>ta, se dá em detrimento do trabalhador, e o modelo japonês não escapa a essa</p><p>lógica. Mesmo que haja valorização do conhecimento tácito do trabalhador, o</p><p>“enriquecimento” da tarefa, com a inclusão de atribuições ligadas à qualidade,</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>68</p><p>limpeza do local de trabalho, manutenção, melhoria contínua etc., sem que haja</p><p>autonomia para que os trabalhadores possam definir os contornos de sua ativi-</p><p>dade, seu conteúdo e suas formas de controle, significa também intensificação</p><p>do trabalho. A introdução dessas técnicas na Toyota no pós-Segunda Guerra não</p><p>ocorreu sem resistência dos trabalhadores das fábricas, e, de fato, o compromisso</p><p>dos trabalhadores com tais métodos só se deu após acordos que, entre outras</p><p>concessões, garantiam tacitamente (mas não legalmente) o emprego “vitalício”</p><p>aos trabalhadores japoneses. Na verdade, a manutenção dos trabalhadores na</p><p>empresa é de interesse do próprio sistema de produção, dado o reconhecimento</p><p>do conhecimento tácito e da subjetividade do trabalhador para a qualidade e a</p><p>melhoria contínua, imprescindíveis para o funcionamento da produção “tensio-</p><p>nada” just-in-time. Tal compromisso, porém, não implica redução da intensifica-</p><p>ção, sendo conhecidas as consequências drásticas para a saúde do trabalhador</p><p>trazidas pelo modelo japonês, culminando na morte por excesso de trabalho</p><p>(karoshi). Ademais, é fundamental lembrar que o compromisso do emprego “vita-</p><p>lício” somente atingiu os trabalhadores japoneses do gênero masculino, excluin-</p><p>do as trabalhadoras japonesas e os imigrantes de qualquer gênero, segmento que</p><p>se tornou importante no Japão a partir de meados da década de 1980, devido ao</p><p>boom econômico da época (HIRATA, 1993). A partir dos anos 1990, observou-se,</p><p>também, que boa parte da população jovem japonesa recusava-se a integrar a</p><p>produção fabril, considerada “pesada, suja e perigosa” (SHIMIZU, 1999), como</p><p>operadores diretos; a fim de responder às pressões sociais contra os problemas</p><p>advindos do excesso de trabalho e atrair tal população, as indústrias japonesas</p><p>introduziram mudanças em sua OT, tais como maior autonomia e mais folgas na</p><p>produção (inclusive com o aumento de estoques intermediários).</p><p>5. Novas formas de organização do trabalho</p><p>Outra resposta aos limites da produção taylorista-fordista foi proposta pela</p><p>escola sócio-técnica (ST). Sistematizado inicialmente nos anos 1950 por um gru-</p><p>po de psicólogos ligados ao Instituto Tavistock, no Reino Unido, esse modelo vem</p><p>sendo discutido e aperfeiçoado ao longo das décadas, notadamente por pesqui-</p><p>sadores da Holanda (escola holandesa de projeto organizacional, Sócio-Técnica</p><p>Moderna) e EUA (movimento pela qualidade de vida no trabalho, abordagens</p><p>participativas de OT, empowerment). Se o foco inicial da ST era integrar aspectos</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>69</p><p>sociais ao projeto organizacional, sem necessariamente questionar técnicas de</p><p>engenharia, tais como arranjo físico, escolha de equipamentos e sistemas de in-</p><p>formação, a partir dos anos 1990 o desafio passou a ser contemplar os aspectos</p><p>técnicos e sociais de modo indissociável com foco não somente na qualidade de</p><p>vida no trabalho, mas também em elementos que garantissem a competitivida-</p><p>de das empresas (sobretudo qualidade, flexibilidade e inovação) (MARX, 1998;</p><p>RACHID; DIAS, 2019; SALERNO, 2008). Ainda, as características da ST mostram-se</p><p>adequadas para a operação de processos contínuos e/ou automatizados, que ne-</p><p>cessitam tratamento rápido de variabilidades e imprevistos (ZARIFIAN, 1990).</p><p>Em seus princípios, a ST preconiza que os trabalhadores devem ser multi-</p><p>funcionais, realizando atividades de operação, qualidade, manutenção, organi-</p><p>zação e controle. O projeto organizacional deve ser realizado considerando que</p><p>a unidade mínima de produção é um grupo de trabalhadores, não o indivíduo.</p><p>Assim, há certa semelhança entre a ST e o modelo japonês. Porém, a alocação</p><p>de diversas atividades de controle e projeto do trabalho aos grupos de traba-</p><p>lhadores traz uma diferença importante, que é o grau de autonomia, potencial-</p><p>mente muito maior na ST do que no modelo japonês. De fato, outro princípio</p><p>importante da ST é o princípio da “mínima especificação crítica”: somente deve</p><p>estar prescrito o que for crítico para a atividade, de modo a garantir maior es-</p><p>paço de regulação e autonomia para os trabalhadores. Definir o que é ou não</p><p>crítico é, claro, um processo complexo que depende de condições específicas</p><p>(por exemplo, trabalhadoras com diferentes expertises podem ter diferentes</p><p>percepções sobre o que é ou não crítico), e deve contar com a participação dos</p><p>trabalhadores. Reduz-se, assim, a separação entre “projeto” e “execução”, pre-</p><p>sente no taylorismo.</p><p>Os grupos na ST, denominados “semiautônomos” (ou, na tradição estaduni-</p><p>dense, “equipes autogeridas”), são definidos a partir do critério de alocação do</p><p>ciclo de tratamento de imprevistos dentro de um mesmo grupo. Isso significa que</p><p>um grupo semiautônomo (GSA) deve ser responsável por um processo de pro-</p><p>dução, ou uma parte de um processo, de modo a dominar o ciclo de tratamento</p><p>de imprevistos que podem ocorrer nesse processo: a causa do imprevisto, a sua</p><p>identificação, a decisão sobre como tratá-lo e o tratamento efetivo devem estar,</p><p>preferencialmente, dentro do escopo de atuação de um mesmo grupo (SALER-</p><p>NO, 2008). O objetivo é evitar a exportação de atividades do ciclo de tratamento</p><p>de imprevistos de um GSA a outro (por exemplo, o grupo que trata o imprevisto</p><p>não é o mesmo grupo que o detecta, que não é o mesmo grupo que atua onde</p><p>o imprevisto foi gerado...), minimizando a necessidade de coordenação externa</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>70</p><p>desse ciclo (por exemplo, por parte de um supervisor). O grupo deve ter, o quanto</p><p>possível, autonomia dentro do ciclo completo de tratamento de imprevistos. É</p><p>interessante notar que esse princípio coloca uma dificuldade para o projeto do</p><p>trabalho, uma vez que não se sabe, a priori, quais serão os imprevistos. O projeto</p><p>deve considerar, então, as variabilidades já conhecidas no processo de produção,</p><p>porém, deve-se ter em mente que, à medida que novos imprevistos apareçam,</p><p>as fronteiras dos GSAs podem se deslocar, ou seja, os grupos podem ser refor-</p><p>mulados e/ou sua autonomia, revista. Esse é o princípio do incompleto na ST – a</p><p>organização está em contínua mudança, nunca terminada.</p><p>O elevado grau de autonomia dos GSAs (projeto do trabalho dada a mínima</p><p>especificação, planejamento do trabalho, controle, gestão de imprevistos...) per-</p><p>mite que a organização na ST tenha poucos níveis hierárquicos. Tipicamente, não</p><p>há níveis de supervisão da produção; os GSAs reportam-se diretamente aos níveis</p><p>de gerência. Por outro lado, uma vez que os grupos não são autônomos e sim se-</p><p>miautônomos, há controles externos aos GSAs, realizados, sobretudo, por indica-</p><p>dores de desempenho. Tais indicadores podem se referir a quaisquer elementos</p><p>críticos para a produção (quantidades, qualidade, prazos, paradas de máquina,</p><p>perdas, segurança, limpeza...), devem ser projetados de forma participativa e uti-</p><p>lizados, também, para o autocontrole dos GSAs, além de reconhecimento e ava-</p><p>liações de carreira. Assim, a tarefa passa, em grande medida, dos procedimentos</p><p>aos resultados a serem atingidos, colocando implicações</p><p>ser feito e como se faz: trata-se de dois universos bem</p><p>diferentes, dos quais cada um merece atenção e cuja articulação é enigmática. O</p><p>mundo da tarefa (aquilo que deve ser feito) é o da prescrição feita por quem orga-</p><p>niza e concebe, mas não apenas isso: é também o dos objetivos que o próprio tra-</p><p>balhador estabelece para si. O mundo da atividade é o da mobilização do corpo e</p><p>da cognição para realizar a tarefa, mas não apenas isso: descobrimos rapidamen-</p><p>te que aí estão em jogo muitas outras questões além dos objetivos estabelecidos,</p><p>por exemplo, a importância das emoções, dos afetos e valores.</p><p>É impossível compreender o trabalho apenas a partir da descrição formal da</p><p>tarefa, mas isso não conduz a um impasse: ao contrário, conduz à necessidade in-</p><p>contornável da análise ergonômica do trabalho (nunca gostei da sigla AET adotada</p><p>no francês e no português!). O olhar e a escuta “modestos, curiosos e cuidadosos“,</p><p>ensinados em particular por Jacques Duraffourg e François Guérin – conduzem</p><p>aquele que faz a análise a descobertas sem fim, pois ele compreende caracterís-</p><p>ticas da atividade a princípio inesperadas. Para começar, como mostraram Laville</p><p>e Teiger, o fato de que o trabalho manual não existe. Mas há descobertas também</p><p>para o trabalhador ou trabalhadora observados, que veem reveladas certas facetas</p><p>de sua atividade, das quais eles nunca tinham se tornado conscientes: “eu não sabia</p><p>que fazia tudo isso”. A análise do trabalho não é uma simples coleta das opiniões</p><p>dos trabalhadores observados, é uma coprodução entre o analista e o observado</p><p>que transforma os dois (GUÉRIN et al., 2001). Talvez você já tenha passado por essa</p><p>experiência transformadora, talvez vá vivê-la em breve.</p><p>Desde os anos 1980, vi esses conceitos escaparem da ergonomia para irriga-</p><p>rem outras disciplinas que se interessavam pela atividade humana e seus efeitos</p><p>sobre a saúde. Trata-se em particular da psicodinâmica do trabalho desenvolvida</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>8</p><p>por Christophe Dejours (1980), da ergologia, construída por Yves Schwartz (1988),</p><p>da clínica da atividade proposta por Yves Clot (1995). Mais recentemente, pes-</p><p>quisadores na área da gestão adotaram a abordagem do trabalho pela atividade</p><p>(DETCHESSAHAR, 2013; GOMEZ, 2013; JOURNÉ, 1999). As proposições destes au-</p><p>tores rapidamente provocaram ecos no Brasil e muitos autores presentes nesta</p><p>obra são especialistas em uma ou outra abordagem. Embora existam diferenças</p><p>teóricas importantes entre elas, gostaria de me demorar sobre seu considerável</p><p>patrimônio comum (DANIELLOU, 2015):</p><p>• O trabalho não é nunca a simples execução do prescrito: o trabalhador,</p><p>ou trabalhadora, deve enfrentar a variabilidade irredutível da situação,</p><p>ajustando em permanência o jeito que usa para realizar a tarefa. Esse é o</p><p>significado de “o real que resiste”, expressão atualmente tão difundida que</p><p>não consigo encontrar a menção original.</p><p>• O trabalhador, ou trabalhadora, está presente na situação com suas</p><p>características próprias (nós somos todos diferentes) e sua própria varia-</p><p>bilidade (cada um de nós não para de mudar). A maneira de trabalhar</p><p>é assim uma resposta não apenas às características da situação, como</p><p>também às características da pessoa que trabalha, que não são nem mé-</p><p>dias, nem estáveis.</p><p>• O trabalhador, ou trabalhadora, está lá com toda sua biografia, toda sua</p><p>história e experiência, dos ambientes de vida, de trabalho, dos percursos de</p><p>formação, de culturas diversas. Essa história tem a ver com “o que importa”</p><p>para a pessoa, seus valores, seus motivos, suas exigências e, portanto, suas</p><p>escolhas. Ela também favorece a realização das tarefas, pois o trabalhador</p><p>traz para a situação recursos provenientes de sua experiência anterior.</p><p>• É a mesma pessoa que vive no trabalho e fora dele, e cada sistema de</p><p>atividades (CURIE, 1996) é atravessado pelas questões e limitações dos</p><p>outros sistemas de atividade.</p><p>• A história do trabalhador ou trabalhadora não é apenas o passado. A pes-</p><p>soa também carrega projetos mais ou menos explícitos, “horizontes de</p><p>espera”, o potencial para contribuir na fabricação da história ao colocar</p><p>sua mão sobre o mundo. O trabalho, sob certas condições, pode ser aqui-</p><p>lo que “lhe permite crescer” (CURIE, 2004).</p><p>• O ambiente de trabalho também está cheio de limitações externas, de</p><p>histórias e projetos coletivos, que irão entrar em ressonância (ou não)</p><p>com os do trabalhador, ou da trabalhadora.</p><p>Daniellou</p><p>9</p><p>• Nunca trabalhamos sozinhos: o trabalho é realizado com outros (presen-</p><p>tes ou representados), sob o olhar de outros, para outros. Todos esses ou-</p><p>tros estão presentes na atividade.</p><p>• Para construir uma resposta original aos constrangimentos da situação,</p><p>o trabalhador, ou trabalhadora, não parte do zero. Sua gama de recursos</p><p>depende da existência mais ou menos forte de um ofício que crie, por</p><p>meio de uma prática reflexiva coletiva, um patrimônio de situações possí-</p><p>veis e de respostas pertinentes a elas – jamais aplicáveis diretamente, mas</p><p>fontes de inspiração. Um coletivo profissional vivo alimenta seus mem-</p><p>bros e é alimentado pela discussão de suas descobertas.</p><p>• O prescrito ao qual a atividade humana de trabalho deve responder não é</p><p>nunca único: não é somente a organização que prescreve, mas também os</p><p>colegas, os clientes etc. Trabalhar implica sempre ser confrontado com pres-</p><p>crições parcialmente contraditórias; priorizar, selecionar. Uma parte do dese-</p><p>jável às vezes não é possível – e às vezes o possível não é desejável. O que é</p><p>difícil não é somente o que fazemos, mas também o que gostaríamos de poder</p><p>fazer, mas não conseguimos. Os conflitos de critérios (fazer rápido, fazer com</p><p>o menor custo, fazer bem para o cliente, fazer bem para os colegas, fazer de</p><p>forma a aprender algo, fazer com segurança…) não são somente conflitos</p><p>entre atores sociais que têm seus interesses diferentes, eles estão presentes</p><p>na própria situação. E os critérios de seleção de uns não são os critérios de</p><p>seleção de outros. Os trabalhadores não avaliam uma situação da mesma for-</p><p>ma, mas sim segundo suas experiências e valores. É normal que estejam em</p><p>desacordo sobre a maneira de fazer, ainda mais quando os constrangimentos</p><p>da organização acentuam os conflitos de critérios. Portanto, os profissionais</p><p>precisam de espaços (locais e momentos) para confrontar seus pontos de vis-</p><p>ta e progressivamente construir respostas comuns do ofício.</p><p>• A saúde não é um estado: ela tem a ver com a construção de um caminho</p><p>pessoal de vida no meio de uma rede de constrangimentos externos e</p><p>internos. Poder realizar sua tarefa em consonância com seus valores, ser</p><p>um ator daquilo que se passa, reconhecer-se no seu trabalho e vê-lo reco-</p><p>nhecido, ter a possibilidade de refletir sobre o que se passa e poder con-</p><p>versar com seus colegas sobre ele são condições de saúde. Agir em favor</p><p>da saúde no trabalho não significa, portanto, somente preservar a saúde</p><p>dos trabalhadores dos riscos provenientes do trabalho; se trata também</p><p>de considerar o fato de que o trabalho pode ter um papel positivo funda-</p><p>mental na construção da saúde de cada um(a).</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>10</p><p>• Esta construção é feita de confrontos entre a potência da vida (da qual é</p><p>preciso assumir a dimensão animal) e o feixe de regras que regem a vida</p><p>social. As vias que consistem em ignorar as regras sociais e aquelas que</p><p>supõem a negação da potência da pulsão vital são impasses. Construir-se</p><p>como pessoa é trilhar um caminho jogando com as regras para ser ao</p><p>mesmo tempo razoavelmente fiel a si mesmo e razoavelmente aceitável</p><p>pela sociedade. Isso não se dá sem choques, nem sem contradições, nem</p><p>sem escolhas, dificuldades e ônus. É obviamente sobre essa questão da</p><p>construção do “sujeito”, da “subjetividade”, do “corpo-si”, que as disciplinas</p><p>da atividade de trabalho propõem as mais diversas conceitualizações.</p><p>• É impossível compreender o trabalho e as escolhas feitas na atividade se</p><p>nos</p><p>importantes para definir</p><p>os focos da análise ergonômica do trabalho.</p><p>Embora a perspectiva ST possibilite uma prática de organização do tra-</p><p>balho com considerável grau de autonomia e margens de manobra para os</p><p>trabalhadores, não chega a questionar o processo de produção capitalista;</p><p>não se trata de autogestão, mas de semiautonomia. Para os GSAs, o concei-</p><p>to de “discricionariedade” (MAGGI, 2006), ou seja, possibilidades de decisão</p><p>dentro de um limite prescrito (ainda que tais limites sejam alargados) é mais</p><p>adequado do que o de autonomia. Do ponto de vista das implicações para a</p><p>saúde do trabalhador, essa distinção é central, pois, se de um lado é permitido</p><p>e reconhecido o engajamento subjetivo do trabalhador, de outro lado, esse</p><p>engajamento é exigido e avaliado pelos superiores hierárquicos e, também,</p><p>pelos colegas. Em particular, a avaliação pelos resultados (indicadores de de-</p><p>sempenho), ao mesmo tempo em que confere maior margem de manobra ao</p><p>substituir os procedimentos como forma de controle, pode aumentar a invisi-</p><p>bilidade do trabalho: a chefia normalmente avalia apenas os resultados finais,</p><p>positivos ou negativos, sem levar em consideração os esforços envolvidos na</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>71</p><p>obtenção desses resultados (mesmo que negativos). Também, eventualmente</p><p>a gestão introduz uma quantidade de indicadores tal que limita consideravel-</p><p>mente as possibilidades de atuação dos trabalhadores, que preferem repro-</p><p>duzir o modus operandi já conhecido para não colocar em risco o alcance das</p><p>metas. Isso também pode ocorrer no caso de metas excessivamente ambicio-</p><p>sas, definidas unilateralmente pela gerência. Ao fim e ao cabo, a organização</p><p>ST pode também implicar intensificação do trabalho. Finalmente, o princípio</p><p>do incompleto e a ênfase na flexibilidade do projeto organizacional, com fre-</p><p>quentes alterações nos GSAs, nos indicadores, nas relações entre os GSAs e os</p><p>setores de apoio, na estrutura hierárquica, nos modos de avaliação e reconhe-</p><p>cimento etc., podem gerar um sentimento de insegurança nos trabalhadores,</p><p>além do risco de minar, em longo prazo, a construção de expertise e de com-</p><p>petências necessárias para o processo produtivo.</p><p>A busca por formas de OT que proporcionem maior flexibilidade aos siste-</p><p>mas de produção, aliada a um contexto neoliberal de redução das proteções</p><p>trabalhistas, acaba por criar, no início do século XXI, modos de organização,</p><p>gestão e da própria constituição das empresas que significam, na prática, no-</p><p>vas formas de precarização do trabalho. Tal é o caso de diversos modos de</p><p>terceirização e, sobretudo, de boa parte do trabalho na “economia de plata-</p><p>forma” ou na chamada “uberização”, em referência ao modelo organizacional e</p><p>empresarial da empresa Uber, provedora de serviços de transporte individual</p><p>(SCHOLZ, 2017). No trabalho “uberizado”, a flexibilidade é total, dado que os</p><p>trabalhadores não são contratados formalmente como empregados, mas “as-</p><p>sociam-se” às empresas provedoras da plataforma tecnológica (geralmente,</p><p>aplicativo) que conecta o trabalhador ao usuário do serviço. Assim como na</p><p>ST, a especificação é baixa: aspectos como horário de trabalho e definição</p><p>de parte dos meios de produção ficam a cargo do trabalhador, o que é apre-</p><p>sentado, pelas empresas proponentes do sistema, como um atrativo; o tra-</p><p>balhador agora é “empreendedor” ou “parceiro”. Contudo, assim como na ST,</p><p>a autonomia é, na verdade, semiautonomia: os algoritmos da plataforma são</p><p>determinados pela empresa, não pelos trabalhadores, que muitas vezes não</p><p>têm acesso a eles; itens como itinerários, uso gerencial do feedback do cliente,</p><p>sistema de pagamento são, no mais das vezes, definidos pela companhia à</p><p>qual a trabalhadora ou o trabalhador se “associam”, havendo pouca margem</p><p>de manobra para os trabalhadores, intensificando ainda mais o trabalho. No-</p><p>ta-se, assim, que sistemas de produção flexíveis, no capitalismo, não são abso-</p><p>lutamente sinônimos de possibilidades de trabalho decente.</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>72</p><p>6. Construção de alternativas aos modelos de</p><p>organização do trabalho</p><p>Na década de 1970, o período de desenvolvimento do capitalismo no pós-guer-</p><p>ra, com aumento do poder aquisitivo e pleno emprego, começa a entrar em crise.</p><p>Desde então, à crise da falta de sentido do trabalho se soma a crise da falta de tra-</p><p>balho. Nos países periféricos, como o Brasil, nos quais o círculo virtuoso do fordismo</p><p>não chegou a se constituir de forma a abranger a massa dos assalariados, o desem-</p><p>prego estrutural se tornou crônico e o trabalho informal chega a ocupar metade</p><p>da população ativa. Nesse contexto, surgem “outras economias”, como alternativa</p><p>aos modelos tradicionais de desenvolvimento econômico e de criação de emprego.</p><p>Na dinâmica da economia capitalista, com os aumentos progressivos de produtivi-</p><p>dade, o desemprego se torna estrutural, pois os investimentos geram poucos em-</p><p>pregos relativamente ao montante do capital investido e à escala de produção, de</p><p>quebra, em empresas que contam com uma estrutura cada vez mais “enxuta”.</p><p>Durante os anos 1980 e 1990, para buscar outras formas de sobrevivência, surge</p><p>um movimento em torno da economia solidária, que teve seu auge durante o go-</p><p>verno Lula, quando foi criada, em 2003, a Secretaria Nacional de Economia Solidária</p><p>(Senaes), extinta em novembro de 2016. Durante esse período, foram implementa-</p><p>das políticas de apoio aos empreendimentos cooperativos e associativos para lutar</p><p>contra o desemprego e a exclusão social, que, além do objetivo de gerar renda,</p><p>propunham desenvolver relações de trabalho solidárias e a autogestão.</p><p>Um fenômeno particular foi o das fábricas ou empresas recuperadas pelos tra-</p><p>balhadores (ERTs), apropriadas pelos trabalhadores após processos falimentares.</p><p>Valendo-se de suas indenizações e direitos trabalhistas, os antigos empregados</p><p>receberam os equipamentos e instalações físicas da empresa em processo fali-</p><p>mentar e, ao invés de leiloarem os bens, ocuparam as instalações e continuaram a</p><p>produzir, uma vez que eles detinham os saberes práticos utilizados para continuar</p><p>a produção, sem necessidade de engenheiros(as) e gestores(as), que normalmen-</p><p>te não se tornam cooperados. As ERTs mostram, na prática, o que a ergonomia da</p><p>atividade mostra como diferença ou distância entre trabalho prescrito e trabalho</p><p>real: é a experiência dos trabalhadores, ditos meros executantes, que faz a pro-</p><p>dução funcionar. O planejamento da produção, os projetos de engenharia e os</p><p>procedimentos operacionais não são suficientes para produzir com eficiência e</p><p>qualidade. É o engajamento dos trabalhadores, com sua experiência informal e</p><p>inteligência prática, que assegura a produção.</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>73</p><p>No entanto, as experiências das ERTs mostram uma relativa estagnação, pois</p><p>a empresa cooperativa (...) encontra-se limitada tecnicamente para</p><p>implementar inovações radicais, como o lançamento de novos pro-</p><p>dutos, explorar novas oportunidades de mercado e aumentar a es-</p><p>cala de produção, reduzir custos e melhorar a qualidade. As melho-</p><p>rias, via de regra, resumem-se às inovações incrementais, que são</p><p>importantes para garantir uma posição no mercado, mas insuficien-</p><p>tes para manter uma posição competitiva por longo tempo. Instau-</p><p>ra-se, assim, a tendência a aumentar a defasagem tecnológica e a</p><p>precarização da gestão, situação comum nas PMEs e mais ainda em</p><p>PMEs autogestionárias ou cooperativas (LIMA, 2003).</p><p>A falta de competências de gestão que os trabalhadores pouco ou nada de-</p><p>senvolviam em uma empresa heterogerida, com o passar do tempo, acaba debili-</p><p>tando o empreendimento, ainda que, de início, as competências de produção se-</p><p>jam o ponto forte dessas empresas. Uma experiência negligenciada, por exemplo,</p><p>é a relação com o ambiente externo à empresa, que era exclusiva dos gestores e</p><p>proprietários anteriores (DUARTE et al., 2002).</p><p>Quando os empreendimentos solidários (ES) se constituem em torno de tra-</p><p>balhadores autônomos, que detêm habilidades técnicas específicas (artesãos,</p><p>costureiras, catadores de materiais recicláveis, agricultores, técnicos de manuten-</p><p>ção, professores...), falta-lhes também a experiência em organização e administra-</p><p>ção de um negócio coletivo. Em geral, essas organizações são de porte pequeno</p><p>ou médio, explorando mal as vantagens da especialização funcional. Divididos</p><p>entre produção e gestão, acabam fazendo mal as duas coisas. A autogestão não</p><p>exclui a divisão do trabalho social, de natureza funcional, mas sim a divisão social</p><p>do trabalho entre quem planeja e quem executa. Mesmo a “orquestra sem maes-</p><p>tro”, precisa de um maestro (desde que seja escolhido pelos próprios músicos)!</p><p>(KHODYAKHOV, 2008)</p><p>Quando se conhece a realidade dos ES, percebe-se de imediato uma série de</p><p>problemas que podem limitar suas potencialidades de desenvolvimento ou mes-</p><p>mo levá-los ao fracasso. As políticas de incentivo criam condições institucionais</p><p>favoráveis aos ES, mas apresentam um limite importante: não ajudam os asso-</p><p>ciados a desenvolver instrumentos de gestão cotidiana, as condições objetivas</p><p>(técnicas, administrativas e econômicas) da autogestão; falta uma “engenharia da</p><p>produção solidária” (LIMA, 2003). A maioria dos ES ainda sobrevive em situações</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>74</p><p>precárias, enfrentando dificuldades de gestão e comercialização, sem acesso a</p><p>recursos financeiros e a conhecimentos tecnológicos. Com o tempo, o dinamismo</p><p>empreendedor que motivou a criação do empreendimento diminui, juntamente</p><p>com a quantidade de associados e o valor das retiradas mensais.</p><p>A OT, sobretudo com o modelo japonês, transcende os limites da empresa, desen-</p><p>volvendo redes interempresas, ou desenvolvendo a terceirização de atividades inter-</p><p>nas. A cada forma de divisão do trabalho deve-se associar formas de coordenação. A</p><p>construção de redes responde a essa necessidade de organização interempresas que</p><p>realizam atividades diferentes, mas complementares. Paradoxalmente, os empreen-</p><p>dimentos solidários são pouco solidários entre si, apesar de ser uma ideia antiga a de</p><p>desenvolver redes de economia solidária entre empresas de autogestão, cooperati-</p><p>vas e associações sem fins lucrativos. Isso acontece porque todo o esforço é destinado</p><p>à produção e pouco ao trabalho de organização. Criar redes e desenvolver relações</p><p>é um trabalho difícil e demorado, e, por ser invisível, é também pouco reconhecido.</p><p>Ademais, essas alternativas desenvolvem pouco seus modelos econômicos, no senti-</p><p>do estrito da economia, que trata da produção de valores de uso, produção de exce-</p><p>dentes, financiamento e acumulação. A economia da funcionalidade e da cooperação</p><p>(EFC) busca precisamente superar essas lacunas da economia solidária, articulando</p><p>atividade de trabalho, organização do trabalho, gestão e modelos econômicos em</p><p>torno do que denomina “economia servicial” (TERTRE, 2018). O neologismo “servicial”</p><p>foi cunhado para se contrapor a “industrial”, como lógica de organização da economia</p><p>como um todo, aplicando-se à indústria, aos serviços e aos setores primários. A EFC</p><p>consiste, essencialmente, em conceber, produzir e valorizar soluções que integram</p><p>bens e serviços. Um movimento de desenvolvimento local não se efetiva sem con-</p><p>jugar produção de conhecimentos específicos, divulgação de ideias e intervenções</p><p>para responder a demandas específicas dos atores territoriais. Os empreendimentos</p><p>se organizam em redes ou “ecossistemas cooperativos de produção e de inovação</p><p>servicial”, que se caracterizam pela posição central de atores sociais engajados em</p><p>projetos produtivos de base territorial, em que ideias e planos se confrontam ao real,</p><p>exigindo soluções criativas para superar as dificuldades de desenvolvimento de no-</p><p>vos modelos econômicos (LIMA et al., 2019).</p><p>Formas de organização do trabalho originais nascem sobretudo de dispositi-</p><p>vos reflexivos e de escuta internos aos empreendimentos, ou seja, da capacidade</p><p>de os atores refletirem sobre suas experiências a partir do trabalho real. Essas so-</p><p>luções sempre envolvem os beneficiários dos serviços (os ditos “clientes”, “con-</p><p>sumidores”, “cidadãos”...) em um processo de co-design e de coprodução. O que</p><p>é externo passa a fazer parte do sistema produtivo levando a novas formas de</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>75</p><p>organização do trabalho. No Brasil, por exemplo, aderentes aos sistemas de pro-</p><p>dução/consumo de alimentos orgânicos (comunidade que sustenta a agricultura,</p><p>CSA) são denominados “coprodutores”. Isso não significa transformar o cliente em</p><p>um rei, como acontece na qualidade total do modelo toyotista, mas, sim, superar</p><p>a relação fornecedor-cliente por relações de cooperação. Tal processo de desen-</p><p>volvimento da organização requer também o desenvolvimento de alternativas</p><p>tecnológicas materiais, mas, reconhecendo a determinação social das técnicas,</p><p>orientadas desde o início para o desenvolvimento humano-social.</p><p>A tecnologia não segue uma linha evolutiva única. Sempre existem escolhas</p><p>tecnológicas alternativas alinhadas com formas específicas de economia e de</p><p>vida social. Essa perspectiva reconhece que a vida em sociedade é tecida por re-</p><p>lações de solidariedade fundadas no reconhecimento de alteridades e que, por-</p><p>tanto, a questão central é como constituir formas de convivência entre diferenças.</p><p>A tecnologia deixa de ser um meio de controle, tal como na linha de montagem,</p><p>em alguns processos automatizados e mesmo no trabalho “uberizado”, e passa a</p><p>ser uma base de desenvolvimento da cooperação.</p><p>7. O paradigma que vai mudar o mundo: a</p><p>cooperação</p><p>Nós, seres humanos, somos seres culturais. Isso quer dizer que nossos compor-</p><p>tamentos não são determinados pela biologia, por nossa herança genética, como</p><p>os animais. Nossa essência é excentrada em relação ao nosso corpo biológico,</p><p>constituindo-se pelo conjunto das relações sociais nas quais vivemos, incluindo</p><p>as formas de organização do trabalho. No mundo ocidental, que se tornou hege-</p><p>mônico, os valores culturais supremos são a competição (que vença o melhor!) e</p><p>o egoísmo racional (o bem coletivo nasce da busca do interesse pessoal). A me-</p><p>ritocracia e o individualismo alimentam o mito do self made man, como se fos-</p><p>se possível que um indivíduo se fizesse por vontade própria, em detrimento das</p><p>condições sociais em que vive. O sucesso individual, pessoal ou de uma empresa</p><p>depende das circunstâncias sociais nas quais agimos, sobretudo de relações de</p><p>cooperação, mesmo que seja para competir.</p><p>Teorias econômicas recentes, como a teoria dos custos de transação, têm mostra-</p><p>do como relações de confiança e outras relações não-mercantis são mais importan-</p><p>tes que as trocas financeiras para assegurar a eficiência das organizações. Comprar</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>76</p><p>pelo menor preço é uma regra que satisfaz apenas o controle burocrático, mas não</p><p>quem está diretamente engajado na produção, que reconhece o valor da qualida-</p><p>de de produtos e serviços pertinentes, da agilidade nas entregas no tempo certo, na</p><p>prontidão para responder aos imprevistos, em suma, nas relações de confiança que</p><p>se constroem somente pela convivência. Esse é um dos segredos do sucesso das em-</p><p>presas japonesas, que constroem relações duradouras dentro da empresa (emprego</p><p>“vitalício”) e nas relações entre empresas (contratos de longa duração). No entanto,</p><p>tais relações ainda acontecem dentro de um ambiente hierárquico e de competição,</p><p>caracterizando uma forma de cooperação “incitada” (CORIAT, 2008), sob ameaça de</p><p>ruptura do contrato de trabalho ou da relação comercial, não uma cooperação que</p><p>pode ser debatida e desenvolvida em processos autogestionários, onde a ruptura do</p><p>vínculo não é a regra. Na organização, é necessário desenvolver três formas de coo-</p><p>peração: entre pares, ou cooperação horizontal, entre os membros de um grupo e o</p><p>coordenador, ou cooperação vertical, e a cooperação transversal, que acontece entre</p><p>funções de uma empresa, entre empresas e entre produtores e consumidores.</p><p>Por sermos seres culturais, podemos também ser “cultivados”. O “egoísmo</p><p>ra-</p><p>cional” não decorre de um suposto instinto de sobrevivência que coloca o interes-</p><p>se individual acima de tudo, mas sim de um processo de enculturação. Podemos</p><p>também cultivar a cooperação em vez da competição. Aliás, se existisse uma na-</p><p>tureza humana, ela seria a cooperação, sem a qual a espécie humana não teria se</p><p>desenvolvido desde os tempos pré-históricos (WAAL, 2010). Se a competição se</p><p>impôs como norma cultural durante alguns séculos, período curto na escala da</p><p>história humana, está dando sinais de que sua data de validade está vencida. A</p><p>tarefa da Engenharia, em qualquer campo de atuação, é criar as bases materiais e</p><p>organizacionais da cooperação, mesmo quando seu objetivo é criar sistemas de</p><p>produção eficientes. Não existe eficiência sem cooperação.</p><p>Referências</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>BRAVERMAN, H. Trabalho e capital monopolista. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1980.</p><p>CORIAT, B. Pensar pelo avesso. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ/Revan, 2008.</p><p>TERTRE, C. du. Economia de serviço e trabalho: contribuição teórica ao desenvol-</p><p>vimento “de uma economia da cooperação”. Trabalho & Educação, Belo Horizon-</p><p>te, v. 27, n. 3, p. 15-42, set-dez 2018.</p><p>77</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização...</p><p>DUARTE, F. M. C. et al. O desenvolvimento de produtos em uma pequena indús-</p><p>tria autogestionária. Revista Estudos em Design, Rio de Janeiro, v. 10, n. 1, p.</p><p>63-82, 2002.</p><p>FLEURY, A. C. C.; VARGAS, N. Aspectos conceituais. In: FLEURY, A. C. C.; VARGAS,</p><p>N. (Coord.). Organização do trabalho. Atlas, São Paulo, 1983.</p><p>HARVEY, D. Condição pós-moderna. 22ª ed. São Paulo: Loyola, 2012.</p><p>HIRATA, H. Apresentação. In: HIRATA, H. (Org.) Sobre o “modelo” japonês. Auto-</p><p>matização, novas formas de organização e de relações do trabalho. São Paulo,</p><p>Edusp, 1993. p. 11-19.</p><p>KHODYAKOV, D. Trust and control in counterpoint: a case study of conductor-</p><p>less orchestras. 2008. (PhD Thesis) – State University of New Jersey, New</p><p>Brunswick, 2008.</p><p>LAVAL, P.; DARDOT, C. A nova razão do mundo. São Paulo: Boitempo 2016.</p><p>LIMA, F. de P. A. A engenharia da produção solidária. Trabalho & Educação, Belo</p><p>Horizonte, v. 12, n. 1, p. 115-126, 2003.</p><p>LIMA, F. de P. A. et al. Ecossistemas cooperativos de produção e inovação servicial:</p><p>Economia da Funcionalidade e da Cooperação (EFC) e desenvolvimento territo-</p><p>rial. In: Seminário de Diamantina, 18, 2019, Diamantina. Anais... Cedeplar, Belo</p><p>Horizonte, 2019. Disponível em: . Acesso em: 11.mai.2021.</p><p>MAGGI, B. Do agir organizacional. São Paulo: Edgard Blücher, 2006.</p><p>MARX, K. [1867]. O Capital. Livro I. 27ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.</p><p>MARX, R. Trabalho em grupos e autonomia como instrumentos de competição. São</p><p>Paulo: Atlas, 1998.</p><p>PINTO, G. A. A organização do trabalho no século 20. São Paulo: Expressão Popu-</p><p>lar, 2007.</p><p>RACHID, A.; DIAS, A. V. C., 2019. Organização do trabalho. In: BATALHA, M. O. (co-</p><p>ord.). Gestão da produção e operações: abordagem integrada. Atlas, São Paulo.</p><p>SALERNO, M. Projeto de organizações integradas e flexíveis. São Paulo: Atlas, 1999.</p><p>(Edição de autor, São Paulo, 2008). Disponível em: .</p><p>Acesso em: 10.mai.2021.</p><p>SCHOLZ, T. Cooperativismo de plataforma. São Paulo: Elefante, 2017.</p><p>SHIMIZU, K. Le toyotisme. Paris: La Découverte, 1999.</p><p>78</p><p>Dias, Lima e Reis</p><p>TERTRE, C. du. Economia de serviço e trabalho: contribuição teórica ao desenvol-</p><p>vimento “de uma economia da cooperação”. Trabalho & Educação, Belo Horizon-</p><p>te, v. 27, n. 3, p. 15-42, set-dez 2018.</p><p>TONELLI, M. J.; CALDAS, M. P.; LACOMBE, B. M. B., 2002. Desenvolvimento histórico</p><p>do RH no Brasil e no mundo. In: BOOG, G. G.; BOOG, M. (Org.). Manual de gestão</p><p>de pessoas e equipes: estratégias e tendências. V. 1. São Paulo: Gente, 2002.</p><p>WAAL, F de. A era da empatia. São Paulo: Cia das Letras, 2010.</p><p>ZARIFIAN, P. As novas abordagens da produtividade. In: SOARES, A. R. (Org.). Ges-</p><p>tão da empresa, automação e competitividade: novos padrões de organização e</p><p>de relações de trabalho. Brasília, DF: Ipea/Iplan, 1990. p. 73-97. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 10.mai.2021.</p><p>ZILBOVICIUS, M. Modelos para a produção, produção de modelos. São Paulo: Anna-</p><p>blume/Fapesp, 1999.</p><p>79</p><p>Qual é o sentido</p><p>do trabalho?</p><p>3</p><p>Claudio Marcelo Brunoro</p><p>Uiara Bandineli Montedo</p><p>Fausto Leopoldo Mascia</p><p>Laerte Idal Sznelwar</p><p>Usuário</p><p>Retângulo</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>81</p><p>1. Introdução</p><p>Tratar do tema sentido do trabalho, especialmente para o âmbito da engenha-</p><p>ria do trabalho, requer fazer algumas perguntas iniciais para direcionar como este</p><p>tema será abordado e, claro, qual a sua importância e relação com a atuação pro-</p><p>fissional da engenheira e do engenheiro. Primeiramente, será que trabalho é sinô-</p><p>nimo de emprego? De que trabalho estamos falando? Afinal, o que é trabalho? De</p><p>que maneira as escolhas organizacionais no projeto e na gestão de um sistema</p><p>de produção consideram a ideia de propiciar sentido para os que vão trabalhar?</p><p>Que importância o trabalho tem para o ser humano, para as empresas, para a</p><p>sociedade, para a construção da humanidade?</p><p>Percorrer estas reflexões iniciais ajuda a nos posicionarmos frente a este de-</p><p>bate para, em seguida, aprofundarmos o tema do sentido do trabalho. Partimos,</p><p>então, do fato que, ao tratarmos de trabalho, não nos referimos a um vínculo em-</p><p>pregatício, não se trata de uma ocupação. O trabalho, ou melhor, o trabalhar, no</p><p>sentido da ação, se refere àquilo que é “vivo”, ou seja, àquilo que é adicionado pelas</p><p>pessoas em um sistema de produção (de bens, ou de serviço) para que a produ-</p><p>ção de fato aconteça. Trabalhar é dar de si para que sejam atingidos os objetivos</p><p>da produção, os de cada um e os do coletivo.</p><p>Trata-se de algo que vai muito além de simplesmente “entregar” ou “executar”</p><p>algo que foi solicitado. Aliás, é importante refletir sobre este ponto: como vere-</p><p>mos ao longo deste texto, não existe trabalho de execução!</p><p>Trabalhar é a vida, envolve a mobilização e o engajamento do corpo, da in-</p><p>teligência e da psique, elementos que, em geral, são pouco considerados pela</p><p>Engenharia. Trata-se da saúde, no que diz respeito à sua construção, aos proces-</p><p>sos de desenvolvimento e realização pessoal, sempre relacionada e incluída em</p><p>algum coletivo, em relações sociais de produção de algo e de si mesmo. Nesta li-</p><p>nha, significa projetar contextos saudáveis, que propiciem este desenvolvimento</p><p>e possibilidade de realização de si.</p><p>Para abordar este tema e as questões iniciais, vale ressaltar que é necessário nos</p><p>posicionarmos com relação à visão de mundo que adotamos. Este capítulo tem como</p><p>referencial teórico a Psicodinâmica do Trabalho (PDT), proposta por Christophe De-</p><p>jours (2012a, b). Sua escolha está pautada no fato de que, com esta base conceitual</p><p>e com as ações propostas, nos capacitamos a conectar aspectos da produção, da or-</p><p>ganização, da organização do trabalho com a saúde, considerando a subjetividade</p><p>de cada um e a importância dos coletivos e das profissões. A PDT propõe um debate</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>82</p><p>centrado na relação entre sofrimento e prazer no trabalho, que é sempre experimen-</p><p>tada e vivida individualmente, pois trata-se de algo que é sentido e incorporado, sem</p><p>perder a discussão sobre a importância dos coletivos (por exemplo, a cooperação) e</p><p>da contribuição da produção para a sociedade e para a cultura. Enfim, por conter uma</p><p>teoria crítica sobre o trabalho como contribuição para a emancipação das pessoas, a</p><p>contribuição da PDT é muito centrada em uma visão sustentável do trabalho, numa</p><p>perspectiva abrangente. Além deste referencial teórico, assim como acontece nos</p><p>demais capítulos deste livro, esta contribuição também está</p><p>pautada nos pressupos-</p><p>tos da ergonomia da atividade. Além da discussão do tema em si, alguns conceitos</p><p>necessários para melhor compreensão sobre o sentido do trabalho serão tratados ao</p><p>longo deste texto. O item 2 apresenta conceitos relacionados ao sujeito e sua relação</p><p>com o trabalho, em particular, com a saúde psíquica; assim como a relação entre sofri-</p><p>mento e prazer no trabalho. No item 3 é apresentado um conceito fundamental para</p><p>as questões relacionadas ao sentido do trabalho: o seu reconhecimento. Por fim, no</p><p>item 4 apresentamos como as questões organizacionais se conectam com a discus-</p><p>são do sentido do trabalho, assim como a força extraordinária do trabalho, um aspec-</p><p>to essencial para diversas dimensões: para si, para a organização e para a sociedade.</p><p>Esperamos que ao final do capítulo possível compreender como os aspectos</p><p>organizacionais do trabalho podem redundar em cenários favoráveis ou desfa-</p><p>voráveis para a construção de sentido no trabalho. Esperamos também que as</p><p>questões relativas ao sentido do trabalho, assim como a possível emergência de</p><p>adoecimento quando não sentido para as pessoas naquilo que fazem, tenham</p><p>sido apreendidas como relevantes e importantes para serem incorporadas nos</p><p>projetos de engenharia e, em especial, quando se trata da engenharia do traba-</p><p>lho. Ter a capacidade de compreensão destes cenários é fundamental para a con-</p><p>cepção de sistemas produtivos coerentes, sustentáveis e saudáveis.</p><p>2. Sujeito e sua relação com o trabalho</p><p>Estabeleceremos a seguir os parâmetros dessa relação.</p><p>2.1 Trabalho e emprego</p><p>Trabalho e emprego são sinônimos? Muitas vezes confundimos trabalho com</p><p>emprego, com remuneração, com sobrevivência, com a possibilidade de adquirir</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>83</p><p>aquilo que precisamos e desejamos, isto é, bens e serviços. Apesar de serem im-</p><p>portantes, são apenas uma faceta e não traduzem o que é trabalho. Além disso,</p><p>como veremos mais adiante, vivenciar profissionalmente sistemas de produção</p><p>em que o trabalho não faz sentido, que tem seu conteúdo esvaziado, induz as</p><p>pessoas a considerarem que o que importa exclusivamente é o retorno material</p><p>provido pela relação de emprego. Isto é normal? Poderia ser uma defesa para apa-</p><p>ziguar o sofrimento?</p><p>Quando se trabalha sem sentido, as possibilidades da realização de si e da</p><p>construção da saúde a partir da ação de trabalhar, e de relações sociais mais inte-</p><p>ressantes, estão fortemente comprometidas. Um trabalho com sentido é favorá-</p><p>vel ao desenvolvimento das nossas capacidades e da construção de relações mais</p><p>saudáveis e civilizadas com os outros. O mais interessante é que, em princípio,</p><p>todos almejam se desenvolver profissionalmente.</p><p>Se trabalhar não se restringe ao vínculo empregatício, será que podemos res-</p><p>tringi-lo à “execução de tarefas”?</p><p>2.2 Trabalho e “execução”</p><p>Sendo assim, como podemos definir o que é trabalho? E sentido do trabalho?</p><p>Curiosamente, apesar de trabalho ser algo realizado pela humanidade há muito</p><p>tempo, e mesmo o trabalho sendo uma das ações que toma a maior parte do</p><p>tempo da vida adulta, nem sempre há muita clareza sobre o que significa efe-</p><p>tivamente. Parte disso se dá pelo fato de haver diversas abordagens para tratar</p><p>deste tema, porém poucas vão discutir em profundidade o sentido do trabalho,</p><p>bem como as consequências quando as pessoas não encontram sentido naquilo</p><p>que fazem, no que diz respeito à saúde, ao desenvolvimento das profissões, à</p><p>consolidação dos coletivos, ao fortalecimento das instituições e das empresas, ao</p><p>“viver-junto” e à democracia.</p><p>Para distinguir o que há de trabalho socialmente reconhecido, isto é, aquele</p><p>que é remunerado, das demais situações da vida que também poderiam ser con-</p><p>sideradas como trabalho, trataremos aqui do trabalho vivo.</p><p>Os sistemas de produção, pensados e estudados a partir de conceitos da</p><p>Engenharia e da administração, seja de bens ou de serviços, são predominan-</p><p>temente definidos a partir de meios e fins, numa racionalidade teleológica ou</p><p>estratégico-instrumental que apregoa: “se for bem planejado, funcionará”. Ainda</p><p>mais se considerarmos as propostas oriundas da automação, pode-se chegar à</p><p>“perfeição”, prescindindo da intervenção humana. Um dos grandes dogmas, de-</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>84</p><p>rivados de uma visão industrial, prevalente no século XX, é de que há as pessoas</p><p>que “concebem e projetam” e aqueles que “executam”. Nesta perspectiva tayloris-</p><p>ta/fordista, tratada em detalhes no capítulo 2 (“Organização do trabalho”) deste</p><p>livro, para produzir seria necessário “executar”, isto é, cumprir à risca as regras e</p><p>procedimentos padronizados. No entanto, a realidade, seja em uma fábrica ou em</p><p>qualquer tipo de serviço, sempre demanda ações que vão muito além do prescri-</p><p>to. É necessário zelar para que a produção aconteça (WISNER, 1994).</p><p>Por vezes, o próprio prescrito é incoerente. Em uma organização com estru-</p><p>tura excessivamente departamentalizada, em geral, muitas regras e metas são</p><p>decididas separadamente e são, por vezes, contraditórias e concorrentes. Muitas</p><p>delas até podem ser factíveis quando analisadas isoladamente, mas, na situação</p><p>real, tudo acontece ao mesmo tempo, de maneira dinâmica e inter-relacionada.</p><p>Nestas condições podem emergir situações em que o conjunto de metas relacio-</p><p>nadas à produção seja inatingível.</p><p>É o caso, por exemplo, de uma empresa em que a divisão entre as áreas deter-</p><p>mina que uma defina as metas de qualidade, outra as de produtividade, e outra</p><p>as de segurança. No entanto, dependendo do valor da meta a ser atingida, fazer</p><p>algo muito bem-feito (qualidade), muito rápido (produtividade) e muito seguro</p><p>pode se configurar como impraticável. Nestes cenários, considerados como mui-</p><p>to problemáticos, os trabalhadores precisam dar conta de exigências conflitantes</p><p>e chegar a um determinado compromisso, no entanto, sem poder dar visibilidade</p><p>para tal, uma vez que haveria uma “quebra” das regras e um “não respeito” aos</p><p>procedimentos.</p><p>Todos estes exemplos reforçam que jamais as pessoas se restringem aos pro-</p><p>cedimentos definidos nas tarefas, uma vez que as prescrições não dão conta do</p><p>real e é necessário agir para dar conta daquilo que precisa ser feito (DANIELLOU;</p><p>RABARDEL, 2005; HABERMAS, 2003). Em outros termos, frente a uma situação a</p><p>ser enfrentada, questiona-se: a tendência de cada um seria a busca por fazer um</p><p>trabalho bem-feito? Por outro lado, as pessoas se proporiam a fazer as coisas de</p><p>qualquer maneira, sem se importar com a qualidade? Estas questões serão res-</p><p>pondidas mais adiante.</p><p>Ao depararmos com situações em que há problemas graves de qualidade na</p><p>produção, há que se questionar se os sujeitos experimentam um trabalho que</p><p>não faz sentido, em que não podem fazer algo que seja considerado como útil</p><p>e belo (DEJOURS, 2008), que respeite as tradições e regras da profissão e na qual</p><p>percebam uma efetiva contribuição para a sociedade e para a vida, de um modo</p><p>mais amplo (BOLIS; BRUNORO; SZNELWAR, 2014; BRUNORO, 2013).</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>85</p><p>Enfim, trabalhar não se resume a simplesmente executar, algo que nunca</p><p>acontece, pois sempre é necessário adicionar algo para produzir. E o que</p><p>seria isso?</p><p>2.3 Trabalho vivo</p><p>O trabalho vivo é o trabalhar, a ação eminentemente humana, não de uma máqui-</p><p>na ou de sistemas mecânicos e informatizados. Trata-se do que há de “vivo” na pro-</p><p>dução, uma vez que, quem trabalha, aliás, todos, são protagonistas de suas vidas,</p><p>de seu trabalho (SZNELWAR, 2015). Por isso, é fundamental destacar que a experi-</p><p>ência do trabalhar (trabalho vivo) não pode ser confundida com uma mera “execu-</p><p>ção” daquilo que está previsto em procedimentos. Até porque isto não acontece</p><p>na realidade. Ao agir somente conforme o procedimento, ação conhecida como</p><p>“operação-padrão” ou “greve do zelo”, os resultados de produção não são obtidos</p><p>a contento. Todos que trabalham estão frente ao real que resiste, isto é, temos que</p><p>enfrentar desafios para dar conta daquilo que não dominamos, não</p><p>temos maestria</p><p>e que precisamos apreender, experimentar, incorporar. Para transpor esses desa-</p><p>fios, o sujeito precisa encontrar o seu jeito de fazer, as suas maneiras de contornar</p><p>as dificuldades e variabilidades encontradas no contato com os materiais, com as</p><p>máquinas, com as ferramentas, com os processos, com os clientes, com o tempo</p><p>que lhe é alocado para fazer (ABRAHÃO et al., 2009; DANIELLOU; RABARDEL, 2005).</p><p>Assim, o trabalhar, no sentido do desenvolvimento da maestria, das habili-</p><p>dades e da competência está vinculado a como os sujeitos adquirem um certo</p><p>domínio sobre as coisas. Ou seja, a possibilidade do desenvolvimento pessoal,</p><p>incluído em algum universo profissional, é dinâmica e precisa ser cuidada e sem-</p><p>pre realimentada.</p><p>Em outras palavras, aprendemos o que temos de fazer no desenrolar do</p><p>próprio fazer, quando incorporamos novos saberes e habilidades.</p><p>Para ilustrar essa questão, pense, por exemplo, como alguém faria para apren-</p><p>der a andar de bicicleta. Claro que muitos cursos seriam úteis, mas imagine o seu</p><p>conteúdo? Seria algo assim: primeiro alinhe a bicicleta mantendo-a equilibrada,</p><p>em seguida suba nela e se posicione no selim segurando também o guidão, de-</p><p>pois posicione os pés nos pedais e se equilibre; e, ao mesmo tempo, saia pedalan-</p><p>do, pois o equilíbrio é instável!</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>86</p><p>Mas... como saber o que é equilíbrio sem nunca ter experimentado? Como</p><p>todos já devem ter experimentado (ou pelo menos, a maioria), aprender a andar,</p><p>a andar de bicicleta e todas as coisas que aprendemos a fazer, depende sempre do</p><p>fracasso inicial, da tentativa e do erro, enfim, do sofrimento para atravessar este</p><p>caminho árido do não conseguir até que se consiga (BIRAN, 1954-1955). Não há</p><p>cursos que substituam a experiência! Apesar de sua importância, eles não pro-</p><p>piciam a incorporação e o desenvolvimento do saber-fazer; aprender é algo que</p><p>não se ensina. Por isso os melhores cursos são baseados também na experimen-</p><p>tação, na aquisição de saberes incorporados. A própria curiosidade, inerente ao</p><p>humano, é potencializada pela manipulação e pela aquisição de saberes que pos-</p><p>sibilitam uma ampliação de nossas capacidades (ZIMERMAN, 2009).</p><p>Enfim, o trabalho vivo é também o trabalho que cada um faz consigo mesmo.</p><p>Como cada um se engaja, isto é, como, em qualquer situação, mobilizamos o nos-</p><p>so corpo, a nossa inteligência, a nossa psique para produzir. Ou seja, a possibili-</p><p>dade de se transformar a si mesmo. Vencer as nossas dificuldades, os medos com</p><p>relação ao fracasso fazem parte deste processo de transformação. Discutiremos</p><p>sobre isso mais adiante.</p><p>Mas o trabalho teria apenas uma importância no nível individual?</p><p>2.4 O protagonismo do trabalho e a dimensão coletiva</p><p>Lembremos que o trabalho de um depende do trabalho de outros, não há</p><p>trabalho isolado. Nada se faz sozinho, todo trabalho é feito com os outros e para</p><p>os outros; todo trabalho é endereçado a alguém, ao outro (DEJOURS, 2012b).</p><p>Isto reforça a importância de sabermos que, mesmo sendo experimentado indi-</p><p>vidualmente, vivido e incorporado, o trabalho é uma experiência que se cons-</p><p>titui no coletivo.</p><p>Sempre trabalhamos para alguém, com alguém.</p><p>Ao falarmos do sujeito trabalhador, não nos posicionamos em uma perspec-</p><p>tiva individualista! Não há humano sem o coletivo, sem o relacional. Infelizmente, a</p><p>disseminação de cenários desoladores nas organizações é um fato potencializado</p><p>pelos processos de individualização do trabalho, a desmobilização dos coletivos e</p><p>a busca incessante pela superação dos outros e de si próprio uma vez que mode-</p><p>los organizacionais baseados na competição se tornaram prevalentes em muitas</p><p>áreas de economia. A quantidade expressiva de afastamentos do trabalho por</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>87</p><p>distúrbios psíquicos relacionados ao trabalho é uma das suas consequências ine-</p><p>gáveis, sobretudo dos modos de avaliação individual do desempenho.</p><p>Reforçamos o ponto de vista de que nada é neutro no mundo da produção e</p><p>do trabalho.</p><p>O trabalho, central na vida de todos, propicia condições para o desenvolvi-</p><p>mento da subjetividade de cada um, para a consolidação dos coletivos,</p><p>para o enriquecimento da subjetividade, enfim, um processo que visa ao</p><p>crescimento profissional, à construção da saúde e à realização de si.</p><p>Trilhar um caminho em direção à emancipação dos sujeitos e dos coletivos</p><p>deveria ser o objetivo do trabalhar e dos sistemas de produção. Caso contrário,</p><p>se o ser humano for tratado como “coisa” por outros seres humanos que detêm</p><p>o poder de decisão nas empresas e nas instituições, o que pode se consolidar é</p><p>um cenário propício para a emergência de sofrimento patogênico (ou seja, um</p><p>sofrimento que pode levar ao adoecimento) e, consequentemente, para o apare-</p><p>cimento de níveis elevados de absenteísmo, de rotatividade, distúrbios, doenças</p><p>e acidentes. Enfim, um cenário desolador, mortificado, em que a sobrevivência</p><p>depende de mecanismos defensivos para fazer frente a este sofrimento.</p><p>Assim, o trabalho vivo é baseado na cooperação; trata-se de uma relação social,</p><p>isto é, o engajamento na ação do trabalhar aponta no sentido de que se desen-</p><p>volva, de que enriqueça a sua subjetividade (MOLINIER, 2013), para que construa</p><p>a confiança e a cooperação, o viver-junto e contribua para a civilidade, para a</p><p>cultura (DEJOURS, 2012b).</p><p>2.5 Mobilização subjetiva e implicação da inteligência</p><p>Mas o que faz as pessoas trabalharem? Ou melhor, o que faz as pessoas se</p><p>engajarem, buscando fazer algo bem-feito? Parte disso está no sentido que as</p><p>pessoas encontram no trabalho. Para a compreensão destas questões, faz-se ne-</p><p>cessário percorrer alguns conceitos.</p><p>Primeiramente, é importante destacar que todo ser humano nasce com</p><p>potencial de desenvolvimento da sua inteligência, sendo que quaisquer di-</p><p>ferenças seriam devidas a vários fatores, sobretudo à experiência que, junto</p><p>com as características genéticas de cada um, propiciariam condições para que</p><p>se pudesse buscar conhecimentos e se tornassem mais hábeis, competentes,</p><p>sábios. Não há ser humano que esteja desprovido da capacidade de aprender.</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>88</p><p>São as desigualdades sociais e as oportunidades surgidas durante a infância</p><p>que podem ter favorecido o desenvolvimento da inteligência. Inteligência</p><p>não diz respeito apenas àquilo que se aprende na escola, há muitas habilida-</p><p>des que se adquirem ao brincar, ao nos relacionarmos com nossa mãe, nosso</p><p>pai, com a família, amigos, enfim, com todos. O contato com objetos e com</p><p>outros seres vivos da natureza, enfim, com o mundo e com o universo, é uma</p><p>fonte inesgotável de aprendizagem e deve sempre ser estimulado. Além de</p><p>termos a capacidade de aprender, temos a necessidade de aprender; isto é</p><p>fundamental não apenas para a sobrevivência, mas também para o desenvol-</p><p>vimento de todos.</p><p>Mas como esta questão está relacionada com sentido do trabalho? Um traba-</p><p>lho com sentido, que me mobilizasse, seria mais saudável?</p><p>2.6 A relação trabalho e saúde psíquica</p><p>Como podemos definir saúde? Seria a ausência de doença? Para não nos alon-</p><p>garmos muito, saúde pode ser entendida como um processo dinâmico no qual</p><p>está em jogo o poder de cada um em agir no mundo. Quanto mais saudável uma</p><p>pessoa em todos os seus aspectos, maior seria sua capacidade de ação, e vice-ver-</p><p>sa. Trata-se de algo dinâmico, que se constrói ao longo do tempo, e não um esta-</p><p>do a ser alcançado ou mantido (DEJOURS, 1986). Mas, sendo assim, que relação há</p><p>entre a saúde (psíquica) e o trabalho?</p><p>Um dos aspectos fundamentais relacionados com a saúde psíquica é a</p><p>possibilidade de identificação do sujeito com aquilo que faz. Podemos enten-</p><p>der a identidade como uma parte estruturante da psique, como o resultado</p><p>de vários processos vividos pelo sujeito, que precisa ser cuidada e trabalhada</p><p>sempre ao longo da vida. O trabalho pode ajudar a reforçá-la; a desenvolvê-</p><p>-la; a construí-la, propiciando mais condições para uma vida saudável. Não se</p><p>trata de um processo linear</p><p>e sempre apontado para algo positivo, uma vez</p><p>que não se pode considerar a vida, sobretudo quando consideramos a psique,</p><p>como ausência de conflitos.</p><p>E o que reforça a identidade? O sentido do trabalho! Toda vez que realizamos</p><p>um trabalho bem-feito, útil, isso tem um impacto positivo para a identidade, so-</p><p>bretudo profissional. Estar em situação favorável para o desenvolvimento profissio-</p><p>nal é algo saudável. Todavia, isto depende de processos sociais e organizacionais</p><p>de reconhecimento que permitam aos sujeitos compreenderem que aquilo que</p><p>fazem contribui, de alguma maneira, para os outros, para a organização em que</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>89</p><p>trabalham (HUBAULT; BOURGEOIS, 2016) e, no limite, para a sociedade. É isto o</p><p>que denominamos como atividade “subjetivante”.</p><p>Mas, e quando o trabalho não propicia condições para tal, para a busca e para</p><p>o sentido? O trabalho se torna um impedimento (SZNELWAR, MASCIA; BOUYER,</p><p>2006); os cenários de produção se tornam desoladores, propícios para a emergên-</p><p>cia de sofrimento patogênico. Não é à toa que vivemos uma situação em nossa</p><p>sociedade em que os distúrbios psíquicos relacionados ao trabalho se tornaram</p><p>prevalentes, chegando a ser uma das principais razões, senão a principal, para</p><p>explicar os afastamentos do trabalho, de curto e longo prazos.</p><p>Explicações ultrassimplificadoras, como a da fragilidade individual – na qual</p><p>o problema advém dos próprios sujeitos –, não ajudam a melhorar a situação,</p><p>uma vez que se joga responsabilidade pelos problemas aos próprios sujeitos. A</p><p>responsabilidade relacionada com as escolhas organizacionais precisa ser apon-</p><p>tada para que se possam deixar mais claros os indutores dessas manifestações</p><p>e, assim, tornar possível a transformação efetiva das organizações. Dessa forma,</p><p>torna-se fundamental uma visão de mundo que vai além do olhar reducionista e</p><p>compartimentado, que busca somente definir relações diretas de causa e efeito.</p><p>É importante adotarmos um ponto de vista em que seja possível considerar di-</p><p>ferentes variáveis, as suas conexões, a falta de conhecimento sobre a interação</p><p>entre os fenômenos, assim como a possibilidade de haver fenômenos emergen-</p><p>tes, próprios da dinâmica de qualquer sistema. Neste sentido, as abordagens da</p><p>complexidade, incluindo a teoria da complexidade, são muito úteis, pois trazem</p><p>muitas questões e contribuições para desenvolvermos um pensamento mais</p><p>abrangente, em especial a questão da relação entre os diferentes atores de um</p><p>sistema, a incompletude, a relação entre ordem e desordem, a relação entre o</p><p>conjunto e as partes; enfim, a importância da incerteza (MORIN, 2007).</p><p>Se adotarmos o ponto de vista da psicodinâmica do trabalho, e não só, mas</p><p>também o que propõem certas correntes da filosofia (teoria crítica) e da sociolo-</p><p>gia do trabalho e sociologia de gênero, o trabalho pode e deve fazer sentido. Porém,</p><p>cabe ressaltar que estamos invertendo pensamentos predominantes e hegemô-</p><p>nicos na história, que propalaram que o trabalho seria uma atividade de segundo</p><p>plano, um castigo, algo a ser realizado sob a égide do sofrimento, da pena e, para</p><p>muitos, desprovido de sentido (SZNELWAR; HUBAULT, 2015). Por outro lado, se</p><p>estamos buscando reverter esses pontos de vista que relegam o trabalho a algo</p><p>sem sentido, e que estão na origem da criação de cenários de trabalho patogêni-</p><p>cos e desoladores, haver sentido do trabalho significaria sempre uma relação no</p><p>registro do prazer?</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>90</p><p>2.7 A relação sofrimento e prazer no trabalho</p><p>Construir sentido no trabalho é possível. Portanto, seria de se supor que o tra-</p><p>balhar seria algo que se desenvolve no registro do prazer? É muito comum clas-</p><p>sificarmos o prazer como algo “positivo” e o sofrimento como algo “negativo”. No</p><p>entanto, apesar de desconfortável, é justamente o desafio do real do dia a dia do</p><p>trabalho que nos move, que nos mobiliza e nos engaja. Como já dito anteriormente,</p><p>não há aprendizagem que não engendre sofrimento; aprendemos fazendo, apren-</p><p>demos com o insucesso. As primeiras experiências com relação a qualquer ação,</p><p>quando não temos domínio, são vividas pelo fracasso. Ou seja, aprendemos a re-</p><p>alizar algo não conseguindo, sofrendo, portanto. Trata-se de um desafio, próprio da</p><p>construção do sujeito, da sua existência, da busca por uma certa autonomia; uma</p><p>espécie de mola propulsora em que, mobilizando a subjetividade, engajando o corpo</p><p>e a inteligência é possível transpor um desafio. Nessas condições, quando algo útil é</p><p>realizado, quando é possível ter reconhecido o que foi feito, é que a possibilidade</p><p>de fazer sentido se instala; transmutando o sofrimento em prazer. Portanto, o reco-</p><p>nhecimento a partir do outro é fundamental em todas as relações sociais, aliás, em</p><p>todas as relações humanas. No entanto, quando o cenário não é favorável para que</p><p>o desafio seja transposto, quando as regras são injustas, quando a situação é desfa-</p><p>vorável para o reconhecimento e para a possibilidade de construção de sentido, o</p><p>sofrimento pode se tornar insuportável. É por isso que designamos estes cenários</p><p>como propícios para a emergência de sofrimento patogênico. Estes cenários são</p><p>propícios para a instauração de defesas psíquicas que, na realidade, protegem ape-</p><p>nas parcialmente os sujeitos, ficando aberto o caminho para os distúrbios e para</p><p>o adoecimento. A principal defesa é a negação da realidade, esta ocorre de modo</p><p>preponderantemente inconsciente, uma vez que temos a tendência a refutar aqui-</p><p>lo que nos traz ansiedade, que favoreça as nossas angústias.</p><p>Como já dito, é importante ressaltar a questão do reconhecimento, elemento</p><p>fundamental para o sentido do trabalho. Fazer bem-feito e fazer algo útil não é</p><p>suficiente, se não houver reconhecimento. Mas, será que a maioria das situações de</p><p>trabalho atuais são favoráveis para o desenvolvimento de sentido no trabalho?</p><p>2.8 O conteúdo das tarefas e o sentido do trabalho</p><p>A divisão do trabalho, que foi profundamente radicalizada a partir de Taylor e</p><p>Ford, modulou as nossas mentes durante praticamente um século. A naturalização do</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>91</p><p>fato de que seria possível ao ser humano repetir gestos e movimentos durante horas,</p><p>dias, semanas, meses, anos é infelizmente um dos legados da organização científica</p><p>do trabalho (ver capítulo 2 deste livro). Com isso, pavimentou-se o caminho para os</p><p>processos reificadores, ou seja, pensar as pessoas como coisas (HONNETH, 2008). A</p><p>naturalização desse pensamento legitimou o trabalho sem sentido e, como consequ-</p><p>ência, a alienação psíquica dos sujeitos, com implicações para a saúde dos trabalha-</p><p>dores, bem como todos os desdobramentos sociais, políticos e culturais.</p><p>Defender esse tipo de posição, como se fosse inexorável e como sendo o</p><p>único caminho para o desenvolvimento da sociedade industrial, é empobrecer a</p><p>possibilidade de reflexão e de posicionamento crítico. Compreender que se trata</p><p>de uma questão histórica e imaginar outras perspectivas para o futuro é o nos-</p><p>so propósito. Mas, para tanto, é importante fazer a desconstrução deste ideário</p><p>e construir o mundo do trabalho a partir de uma perspectiva oposta, que seria</p><p>propiciar condições para que todos possam ter acesso a trabalhos que permitam o</p><p>desenvolvimento, que sejam caminhos para a realização de si.</p><p>Enfim, o sentido do trabalho está intimamente relacionado com o con-</p><p>teúdo do trabalho, ou seja, com o quão interessante e desafiador é o que</p><p>precisa ser realizado.</p><p>Como sabemos, dependendo de como o trabalho é dividido, podemos conti-</p><p>nuar a produzir trabalhos repetitivos, sem sentido e com poucos desafios, crian-</p><p>do, como dito anteriormente, cenários desoladores, arriscados no que diz respei-</p><p>to à saúde mental, mas, não só isso, também mais propícios para a ocorrência de</p><p>acidentes e de doenças.</p><p>Se invertemos essa tendência, trabalhar guardará um profundo potencial rea-</p><p>lizador, transformador, emancipador. Lembremos que o trabalho jamais é neutro</p><p>no que diz respeito às</p><p>pessoas e à sociedade; é pelo trabalho que se produz o</p><p>melhor e o pior no que tange à humanidade (DEJOURS, 2012b).</p><p>Isto nos permite formular a seguinte premissa:</p><p>Todos têm direito a um trabalho interessante, desafiador, que permita a con-</p><p>strução de caminhos que favoreçam os processos de realização de si, da</p><p>construção da saúde e que permitam a busca da liberdade e da emancipação.</p><p>Isto significa que o trabalho é central para a busca de sentido na vida por nós,</p><p>humanos; assim, qualquer tipo de atividade de trabalho que não propicie tais con-</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>92</p><p>dições pode ser considerada um impedimento, um dano existencial. O papel das</p><p>organizações seria o de garantir, a cada ser humano, um trabalho que possa fa-</p><p>vorecer a construção de sentido à sua existência, propiciar cenários em que cada</p><p>um possa encontrar um lugar e um papel na sociedade, em que possa expressar</p><p>e desenvolver seus potenciais.</p><p>Uma das principais injustiças existentes no mundo está na divisão social do tra-</p><p>balho; quantos de nós temos acesso a um trabalho interessante e desafiador, que</p><p>propicia desenvolvimento das habilidades e competências, que permite viver junto</p><p>com os outros, que pode ser útil e belo? Será que a existência de certas ativida-</p><p>des que tenham pouco sentido, desde que diluídas no seio de outras atividades</p><p>profissionais, poderia ser algo aceitável? Neste caso, como em qualquer profissão</p><p>e atividade produtiva, há sempre algo menos interessante e que não gostamos de</p><p>fazer, mas que podemos fazer, pois haveria outras atividades interligadas, interco-</p><p>nectadas que fazem sentido, já que compõem o conjunto da profissão.</p><p>De qualquer forma, mesmo em cenários em que o conteúdo do trabalho</p><p>é interessante e desafiador, como alguém sabe que a sua ação foi bem-feita;</p><p>que é útil?</p><p>3. Reconhecimento do trabalho</p><p>Detalhamos a seguir o tema.</p><p>3.1 O reconhecimento e a construção da identidade profissional</p><p>Como mencionamos anteriormente, não basta fazer, é necessário ser reco-</p><p>nhecido. Somos seres relacionais: dependemos do outro para existirmos e para</p><p>construirmos e desenvolvermos as nossas identidades. Em outras palavras, é por</p><p>meio do outro que temos a confirmação de que estamos fazendo algo útil e belo</p><p>(bem-feito). O reconhecimento só é possível quando a organização do trabalho</p><p>permite que haja modos de julgamento do trabalhar pautados nessas premissas.</p><p>Este é sempre direcionado para o que foi realizado; não se trata de um julgamen-</p><p>to sobre a pessoa, mas sobre o seu fazer. Repatriar o reconhecimento para o enri-</p><p>quecimento da subjetividade se dá em um segundo momento. No entanto, se o</p><p>trabalho não é reconhecido, ele perde sua importância, ou utilidade, fragilizando</p><p>os sujeitos, como mencionamos anteriormente.</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>93</p><p>Há dois tipos de julgamento que podem propiciar reconhecimento:</p><p>• De utilidade: relacionado àquilo que sua realização propicia aos out-</p><p>ros, para outros atores sociais na organização e para a sociedade de</p><p>um modo geral. Em geral, este julgamento é realizado pela hierarquia;</p><p>• De estética/beleza: relacionado ao quão bem-feito foi o trabalho, que</p><p>pode ser reconhecido pelos pares que conhecem as dificuldades para</p><p>fazer um trabalho que respeite as regras da profissão e que tenha uma</p><p>contribuição singular do indivíduo.</p><p>Certos cenários são favoráveis para que o reconhecimento aconteça; no en-</p><p>tanto, é necessário haver condições para que possa acontecer. Para tal, a existên-</p><p>cia de dispositivos organizacionais que permitam debates, reflexões e a constru-</p><p>ção de regras comuns e compartilhadas é fundamental.</p><p>Mas, como podemos entender que o contexto organizacional pode estar rela-</p><p>cionado com a construção da saúde?</p><p>4. Relação entre o contexto organizacional,</p><p>vivência profissional e saúde (psíquica)</p><p>Como a organização do trabalho (contexto organizacional) está relacionada</p><p>com o sentido do trabalho (e, consequentemente, com a saúde psíquica) ou, em ce-</p><p>nários desfavoráveis, com a emergência de distúrbios e de adoecimentos? Para ex-</p><p>plicar estas questões, apresentaremos de modo simplificado alguns dos elementos</p><p>que constituem essas relações. Cabe ressaltar que esta descrição não deve ser inter-</p><p>pretada como se fosse uma mera relação de causa e efeito entre estes elementos,</p><p>ou de multifatorialidade. Trata-se de um processo dinâmico, em que os elementos</p><p>estão inter-relacionados e em que há constantemente um desafio para se manter</p><p>a coesão. Para facilitar a explicação, propomos um modelo com três camadas: o</p><p>contexto organizacional, a vivência profissional e a saúde (psíquica).</p><p>4.1 Contexto organizacional</p><p>Toda organização é viva e os atores sociais envolvidos constroem cenários</p><p>dinâmicos de produção. Isto se traduz, num certo nível da organização, em</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>94</p><p>mensagens que são veiculadas naquilo que se considera como missão, visão,</p><p>valores. Trata-se de certos balizadores que norteariam as decisões estratégicas</p><p>e os modelos de negócio. Coerentemente com essas premissas, são constituí-</p><p>das as situações de trabalho; o arranjo físico; os equipamentos; as ferramentas,</p><p>incluindo os sistemas de informação; as regras, as instruções e os procedimen-</p><p>tos, as metas e as modalidades de avaliação de desempenho. O contexto orga-</p><p>nizacional engloba estes elementos que serão os determinantes das tarefas e</p><p>que servirão tanto de guia, quanto de constrangimento para quem trabalha</p><p>(GUÉRIN et al. 2001). Trata-se daquilo que conhecemos como tarefa; é a partir</p><p>dela que os sujeitos desenvolverão suas atividades e que constituirão sua vi-</p><p>vência profissional. Estamos tratando daquilo que é vivo nas empresas, aliás, a</p><p>sua parte mais importante. O trabalho é totalmente distinto das máquinas, que</p><p>funcionam mais ou menos bem. Como já afirmado, não se pode fazer qualquer</p><p>comparação entre o trabalhar e o funcionamento das máquinas, que não têm</p><p>vida. É neste contexto que os sujeitos enfrentarão as mais diversas dificuldades,</p><p>é onde se engajarão para dar conta daquilo que precisa ser feito e, dependendo</p><p>das condições, poderão encontrar sentido no trabalho, reforçar e desenvolver a</p><p>sua subjetividade e se encaminhar rumo à construção da sua saúde. O esquema</p><p>1 resume estes elementos.</p><p>REALIZAÇÃO</p><p>CONTEXTO</p><p>ORGANIZACIONAL</p><p>CENÁRIO FAVORÁVEL</p><p>CENÁRIO DESFAVORÁVEL</p><p>VIVÊNCIA & DESAFIOS</p><p>PROFISSIONAIS</p><p>(Engajamento | Mobilização)</p><p>SENTIDO NO</p><p>TRABALHO</p><p>SOFRIMENTO</p><p>PATOGÊNICO</p><p>INDUTOR DE</p><p>ADOECIMENTO</p><p>DISTÚRBIO /</p><p>DOENÇA</p><p>CONSTRUÇÃO</p><p>DA SAÚDE(Reconhecimento)</p><p>Esquema 1: Contexto organizacional e seus desdobramentos (favoráveis e desfavoráveis) para a saúde</p><p>psíquica. Fonte: Instituto Trabalhar (2021).</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>95</p><p>Toda organização tem um contexto singular. Este contexto propicia vivências</p><p>profissionais, que se traduzem em desafios. Estes desafios são experimentados</p><p>por meio da mobilização e do engajamento da própria inteligência para que seja</p><p>possível realizar aquilo que foi colocado como meta.</p><p>Em contextos organizacionais favoráveis, em que é possível transpor esses de-</p><p>safios em sua vivência profissional, ou seja, quando é realizado um trabalho útil e</p><p>bem-feito, havendo possibilidade de reconhecimento, configura-se situação propí-</p><p>cia para um trabalho com sentido. Como vimos anteriormente, o sentido do traba-</p><p>lho reforça a identidade psíquica, possibilitando a construção da saúde psíquica.</p><p>No entanto, em contextos organizacionais desfavoráveis, as vivências profis-</p><p>sionais são de outra ordem e se tornam propícias para a emergência de sofrimen-</p><p>to patogênico. É o caso de um trabalho com conteúdo desinteressante, ou pouco</p><p>desafiador, que é invisível, ou não reconhecido; de contextos organizacionais que</p><p>possuem regras injustas e por vezes contraditórias, ou ainda baseado em proces-</p><p>sos de avaliação de desempenho pautados em métricas que jamais traduzem o</p><p>real do trabalho, o esforço e o engajamento (MULLER, 2018).</p><p>Se por um lado o sentido do trabalho tem um caráter individual, ele é vivi-</p><p>do profissionalmente em um contexto organizacional singular e que, por vezes,</p><p>pode ser determinante em relação ao que é experimentado. Como mencionamos</p><p>ao longo deste texto, um dos maiores desafios para abordar o sentido do trabalho</p><p>é ser capaz de fazer as conexões necessárias para tal. Apesar de muitos dos con-</p><p>ceitos, especialmente relacionados com saúde psíquica e os aspectos subjetivos,</p><p>não serem comuns nas discussões da Engenharia do Trabalho, a intenção foi re-</p><p>fletir sobre as conexões que possuem com outros aspectos e identificar, de modo</p><p>mais amplo, as escolhas organizacionais que podem tornar os cenários favoráveis</p><p>ou desfavoráveis para quem trabalha.</p><p>4.2 A força extraordinária do trabalho</p><p>Faz sentido falarmos em sentido do trabalho?</p><p>Trabalhar e, sobretudo, transformar o mundo, é transformar-se a si mesmo,</p><p>é algo que depende dos sujeitos, de cada um e, também, dos outros, uma</p><p>vez que é o relacional que fundamenta a construção da psique humana e</p><p>da própria sociedade.</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>96</p><p>Todavia, isto só é possível em cenários favoráveis, – em que a organização do tra-</p><p>balho não se torne um impedimento para o desenvolvimento dos sujeitos e dos cole-</p><p>tivos. A responsabilidade de diferentes atores sociais, sobretudo aqueles que detêm o</p><p>poder de decisão nas organizações, é de grande monta, uma vez que é a partir dessas</p><p>escolhas que se podem construir cenários favoráveis para os processos de enrique-</p><p>cimento da subjetividade. Não há neutralidade no trabalho, ou ele propicia que se</p><p>trilhem caminhos em direção à emancipação, ou reforça os processos de alienação e</p><p>de desestruturação dos sujeitos, dos coletivos e da própria democracia.</p><p>Voltando à questão inicial, qual seria o sentido da palavra sentido? Encontra-</p><p>mos muitos significados, quando buscamos esta palavra no dicionário; aqueles</p><p>que foram adotados aqui fazem parte do “ser sensível”, isto é, aquilo que para nós</p><p>tem a ver com o que se percebe, dá significado, orienta, com nossos sentimentos,</p><p>com nossos conhecimentos; tem a ver com a experiência, com aquilo que memo-</p><p>rizamos, com nossas opiniões e julgamentos; com o que desejamos, com o que</p><p>nos traz prazer; também tem a ver com algumas sensações não muito agradáveis.</p><p>Enfim, encerramos este capítulo reforçando a premissa de que o trabalho é</p><p>central na vida dos sujeitos, trabalhar é viver-juntos.</p><p>Referências</p><p>Brunoro, Montedo, Mascia e Sznelwar</p><p>ABRAHÃO, J. I. et al. Introdução à ergonomia: da prática à teoria. São Paulo: Blü-</p><p>cher, 2009.</p><p>BIRAN, M. de. Journal. Neûchatel: Éditions de la Baconnière, 1954-1955.</p><p>BOLIS, I.; BRUNORO, C. M.; SZNELWAR, L. I. Mapping the relationships between</p><p>work and sustainability and the opportunities for ergonomic action. Applied Er-</p><p>gonomics, v. 45, n. 4, p. 1.225-1.239, 2014.</p><p>BRUNORO, C. M. Trabalho e sustentabilidade: contribuições da ergonomia da ativi-</p><p>dade e da psicodinâmica do trabalho. 2013. Tese (Doutorado) –Universidade de</p><p>São Paulo, São Paulo, 2013.</p><p>DANIELLOU, F.; RABARDEL, P. Activity-oriented approaches to ergonomics: some</p><p>traditions and communities. Theoretical Issues in Ergonomics Science, v. 6, n. 5, p.</p><p>353-357, set. 2005.</p><p>DANIELLOU, F. (Coord.). A ergonomia em busca de seus princípios. Debates episte-</p><p>mológicos. São Paulo: Blücher, 2004.</p><p>97</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido...</p><p>DEJOURS, C. Avaliação do trabalho submetida à prova do real: crítica aos fundamen-</p><p>tos da avaliação. São Paulo: Blücher, 2008.</p><p>DEJOURS, C. Por um novo conceito de saúde. Revista Brasileira de Saúde Ocupacio-</p><p>nal, São Paulo, v. 14, n. 54, p. 7-11, 1986.</p><p>DEJOURS, C. Trabalho vivo: sexualidade e trabalho. Tomo 1. Brasília, DF: Paralelo</p><p>15, 2012a.</p><p>DEJOURS, C. Trabalho vivo: trabalho e emancipação. Tomo 2. Brasília, DF: Paralelo</p><p>15, 2012b.</p><p>DEJOURS, C. et al. The return of work in critical theory: self, society, politics. Nova</p><p>York: Columbia University Press, 2018.</p><p>GUÉRIN, F. et al. Compreender o trabalho para transformá-lo. A prática da ergono-</p><p>mia. São Paulo: Blücher, 2001.</p><p>HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Bra-</p><p>sileiro, 2003.</p><p>HONNETH, A. Observações sobre a reificação. Civitas - Revista de Ciências Sociais,</p><p>Porto Alegre, v. 8, n. 1, p. 68-79, jan.-abr. 2008. Disponível em: . Acesso</p><p>em: 11 mai. 2021.</p><p>HUBAULT, F. E; BOURGEOIS, F. A atividade, recurso para o desenvolvimento da</p><p>organização do trabalho. In: Ergonomia construtiva. São Paulo: Blücher, 2016.</p><p>p. 127-144.</p><p>INSTITUTO TRABALHAR, Framework: Relação Entre Saúde Mental e Trabalho.</p><p>Material do Curso Introdução à Psicodinâmica do Trabalho do Instituto Tra-</p><p>balhar, 2021.</p><p>MOLINIER, P. O trabalho e a psique – uma introdução à psicodinâmica do trabalho.</p><p>Brasília: Paralelo 15, 2013.</p><p>MORIN, E. Introdução ao pensamento complexo. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2007.</p><p>MULLER, J. Z. The tyranny of metrics. Princeton: Princeton University Press, 2018</p><p>SZNELWAR, L. I. Quando trabalhar é ser protagonista e o protagonismo do trabalho.</p><p>São Paulo: Blücher, 2015.</p><p>SZNELWAR, L. I.; HUBAULT, F. Subjectivity in ergonomics: a new start to the dia-</p><p>logue regarding the psychodynamics of work. Production, Rio de Janeiro, v.</p><p>25, p. 354-361, 2015.</p><p>SZNELWAR, L. I.; MASCIA, F. L.; BOUYER, G. L’empêchement au travail: une source</p><p>majeure de TMS? @ctivités, v. 3, n. 2, p. 28-45, 2006.</p><p>98</p><p>WISNER, A. A inteligência no trabalho. São Paulo: Fundacentro/Unesp, 1994.</p><p>ZIMERMAN, D. E. Etimologia de termos psicanalíticos. Porto Alegre: Artmed, 2012.</p><p>99</p><p>Saúde e</p><p>Segurança no</p><p>Trabalho: um</p><p>direito humano</p><p>4</p><p>Silvio Beltramelli Neto</p><p>Giovana Brentini Zanchetta</p><p>Paola Stolagli Lustre</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>101</p><p>1. Introdução</p><p>A evolução da concepção de Saúde e Segurança</p><p>no Trabalho e de sua regulação jurídica</p><p>A compreensão do conceito de Saúde e Segurança no Trabalho (SST) perpassa</p><p>o desenvolvimento histórico do direito à saúde. Os primeiros relatos que relacio-</p><p>nam o exercício de profissões com enfermidades são de poetas gregos e romanos</p><p>que contavam sobre os perigos de certas ocupações e narravam as enfermidades</p><p>que acometiam escravos e trabalhadores livres. Nota-se que, naquele período, a</p><p>saúde pública tinha um caráter excludente, inexistindo qualquer atenção especí-</p><p>fica aos trabalhadores que, inclusive, utilizavam da sua própria criatividade para</p><p>criarem equipamentos de proteção contra os agentes nocivos1.</p><p>A partir da seminal obra de Bernardo Ramazzini, Discurso sobre a doença dos</p><p>artífices (De Morbis Artificum Diatriba), ou na tradução para a língua portuguesa, A</p><p>doença dos trabalhadores (RAMAZZINI, 2016), pela primeira vez na história, a ciên-</p><p>cia médica reconheceu que o ofício de seus pacientes os condicionava a apresen-</p><p>tar doenças que resultavam em incapacidade para o trabalho, ou ainda, em óbito.</p><p>É possível atestar um fluxo histórico de aperfeiçoamento da visão médica sobre o</p><p>adoecimento ocupacional, com reflexos no Direito.</p><p>Em um primeiro momento, a medicina do trabalho se ocupava apenas com</p><p>a remediação dos sintomas na saúde dos trabalhadores que exerciam atividades</p><p>em um ambiente insalubre ou perigoso, sem se ocupar dos reais motivos que</p><p>causavam as doenças investigadas, ou mesmo sem fazer a relação da doença com</p><p>a atividade exercida.</p><p>A partir de 1950, a saúde ocupacional avançou para além da mera remediação</p><p>dos sintomas das doenças. As causas dos sintomas apresentados pelos trabalha-</p><p>dores passaram a ser observadas com motivos de atenção não só para profissio-</p><p>nais da área da saúde, mas também de profissionais de áreas variadas, correlacio-</p><p>nadas com o estudo do ambiente do trabalho.</p><p>1 - “Plínio mencionou algumas doenças mais comuns entre os escravos e a utilização, pelos refinadores de alumínio,</p><p>de membranas de pele de bexiga como máscaras; Marcial registrou doenças específicas dos que trabalhavam</p><p>com</p><p>enxofre; Juvenal percebeu as veias varicosas dos áugures e as doenças dos ferreiros; Lucrécio referiu-se à dura sorte</p><p>dos mineradores de ouro e Galeano de Pérgamo relatou experiência realizada a respeito dos riscos dos mineiros,</p><p>quando visitou as minas de sulfato de cobre na ilha de Chipre” (ROSEN, 1994, p. 45-46).</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>102</p><p>Contudo, foi somente a partir de 1985, quando houve um grande salto no es-</p><p>tudo da SST, que a qualidade de vida dos trabalhadores se tornou parte principal</p><p>do objeto do estudo da área, de modo que não só os sintomas ou mesmo a causa</p><p>das doenças passaram a ser analisados, mas também o meio ambiente de tra-</p><p>balho como um todo se tornou alvo dos estudos. A atenção passa a recair sobre</p><p>tudo que cerca a saúde dos trabalhadores (OLIVEIRA, 2010, p. 61).</p><p>Foi bem antes, no entanto, no século XIX, mais especificamente no perí-</p><p>odo da Revolução Industrial, que a saúde dos trabalhadores se tornou um</p><p>assunto de calamidade pública. De um lado, houve avanços tecnológicos e</p><p>científicos como nunca antes na história da humanidade e, de outro, as ex-</p><p>tensas jornadas de trabalho, a presença do trabalho infantil nas fábricas e a</p><p>grande degradação do ambiente de trabalho tornaram insustentável a manu-</p><p>tenção da sociedade industrial, devido a mortes e acidentes de trabalho em</p><p>massa. A partir desse cenário, houve a necessidade de normatização da SST</p><p>pelo Estado e, como consequência, o reconhecimento de direitos correlatos</p><p>de titularidade do trabalhador. Em uma tentativa de transpor o paradoxo da</p><p>modernidade, a SST se tornava um assunto público, extrapolando os limites</p><p>das relações privadas (SILVA, 2008, p.104-107).</p><p>Nesse trajeto legislativo, importa recordar os paradoxos da modernidade,</p><p>que culminaram na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e mostraram ao mundo</p><p>os horrores que a humanidade seria capaz de causar a si. Foi somente em 1919,</p><p>quando do firmamento do Tratado de Versalhes, o qual impôs o fim ao confli-</p><p>to global e criou a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que o propósito</p><p>de promover a justiça social para o todo o mundo foi institucionalizado interna-</p><p>cionalmente. Não obstante, a OIT foi construída sobre princípios fundamentais,</p><p>estampados em seu documento de constituição, em que se encontra dito que o</p><p>trabalho não é uma mercadoria</p><p>2</p><p>. Tal perspectiva não poderia, pois, passar ao lar-</p><p>go da questão da SST. Inicialmente, a OIT adotou seis convenções internacionais</p><p>para alcançar seus objetivos, mas viu que seriam necessárias algumas centenas</p><p>de outros documentos normativos para isso.</p><p>2 - “I A Conferência reafirma os princípios fundamentais sobre os quais repousa a organização, principalmente os</p><p>seguintes: a) o trabalho não é uma mercadoria; b) a liberdade de expressão e de associação é uma condição indis-</p><p>pensável a um progresso ininterrupto; c) a penúria, seja onde for, constitui um perigo para a prosperidade geral;</p><p>d) a luta contra a carência, em qualquer nação, deve ser conduzida com infatigável energia, e por um esforço in-</p><p>ternacional contínuo e conjugado, no qual os representantes dos empregadores e dos empregados discutam, em</p><p>igualdade, com os dos governos, e tomem com eles decisões de caráter democrático, visando ao bem comum"</p><p>(ORGANIZAÇÃO..., 1946).</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>103</p><p>As convenções internacionais são documentos nos quais são criados compro-</p><p>missos jurídicos no âmbito internacional, sobre temas de direitos humanos, em</p><p>que “os Estados-partes assumem obrigações voltadas à proteção de uma ou mais</p><p>dimensões da dignidade da pessoa humana” (BELTRAMELLI NETO, 2018, p. 296).</p><p>A OIT aprovou centenas de convenções internacionais e o Brasil optou por adotar</p><p>várias delas, formalizando o compromisso de respeitá-las. A partir da ratificação</p><p>das convenções, elas se tornam normas jurídicas no país, com status hierárquico</p><p>superior ao de qualquer lei federal.</p><p>As primeiras convenções da OIT estabeleceram importantes garantias para</p><p>a organização do trabalho, sendo estas: a limitação da jornada de trabalho</p><p>a oito horas diárias e 48 horas semanais, a proteção à maternidade, a regu-</p><p>lamentação contra o desemprego, a definição da idade mínima de 14 anos</p><p>para o trabalho na indústria e a proibição do trabalho noturno de mulheres e</p><p>menores de 18 anos.</p><p>Todas essas convenções visavam a propor uma regulamentação internacional</p><p>para preservar a longevidade do sistema capitalista, de forma que não levasse a</p><p>saúde dos trabalhadores ao limite tão precocemente.</p><p>Sob a ótica internacional conduzida no âmbito da OIT, a SST aparece como</p><p>imprescindível na gestão da produção industrial no sistema capitalista, visto</p><p>que seria insustentável a perpetuação da situação antes vigente. A fundamen-</p><p>talidade do que viria a se consolidar como um direito à saúde do trabalhador</p><p>norteou as análises médicas, das engenharias e também jurídicas, que, em con-</p><p>junto, passaram a impor parâmetros que permitam perceber os fatores nocivos</p><p>que atacam, de alguma forma, o bem-estar físico, mental e social ou venham</p><p>gerar algum tipo de enfermidade e, por outro lado, também prejudicar a produ-</p><p>ção industrial como um todo.</p><p>Dessa forma, a jurista Alice Monteiro de Barros (BARROS, 2016, p. 693) pon-</p><p>tua que o(a) empregado(a) possui uma série de bens jurídicos, sendo a saúde,</p><p>a sua capacidade de trabalho e integridade física, e a vida em si, destaques.</p><p>O(a) empregado(a), ao ser admitido por uma empresa, deve ter garantido um</p><p>meio ambiente de trabalho seguro e saudável, em que o desenvolvimento do</p><p>trabalho não venha a pôr em perigo, ou em risco, o conjunto de bens jurídicos</p><p>que carrega consigo.</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>104</p><p>2. Saúde e segurança no trabalho no Brasil: um</p><p>direito humano constitucional</p><p>No Brasil, o tema da saúde e segurança no trabalho foi regulado pelo Estado</p><p>somente após a pressão de organismos internacionais. A estrutura foi criada para</p><p>que o país nunca mais chegue à primeira posição em acidentes de trabalho, como</p><p>ocorrido em 1970 (OLIVEIRA, 2010, p. 59).</p><p>A tutela jurídica da SST segue o seguinte esquema normativo: a pedra angular</p><p>se encontra na Constituição Federal de 1988; em seguida, temos as disposições</p><p>da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e, por fim, há normas editadas pelo</p><p>Poder Executivo federal, na forma de portarias do Ministério do Trabalho, que</p><p>aprovaram as conhecidas normas regulamentadoras, popularmente chamadas</p><p>pela sigla “NRs”.</p><p>O professor Sebastião Geraldo de Oliveira considera que a Constituição Fede-</p><p>ral de 1988 foi um marco para a proteção da saúde dos trabalhadores no ordena-</p><p>mento jurídico nacional. Somente a partir da Constituição Federal (BRASIL, 1988),</p><p>“a saúde foi considerada como direito social (arts. 6º e 194), assegurando-se aos</p><p>trabalhadores o direito à redução dos riscos inerentes ao trabalho, por meio de</p><p>normas de saúde, higiene e segurança (art. 7º, XXII)” (OLIVEIRA, 2010, p. 60).</p><p>A Constituição Federal também prevê que a saúde é um direito de todos os</p><p>cidadãos e é dever do Estado protegê-lo (BRASIL, 1988, art. 196). A tarefa é desti-</p><p>nada ao Sistema Único de Saúde (SUS), que, conforme o artigo 200, inc. II, da CF,</p><p>deve executar as ações de saúde do trabalhador.</p><p>Além das obrigações constitucionais do SUS, a Lei Orgânica da Saúde, Lei nº</p><p>8.090 (BRASIL, 1990) e as Leis Previdenciárias, Lei nºs 8.212 (BRASIL, 1991a) e 8.213</p><p>(BRASIL, 1991b) igualmente instituíram normas de proteção à saúde do trabalha-</p><p>dor (OLIVEIRA, 2010, p. 60).</p><p>As convenções internacionais também passam a fazer parte do ordenamen-</p><p>to jurídico brasileiro, uma vez que ratificadas pelo chefe do Poder Executivo,</p><p>mediante autorização do Congresso Nacional. No ano de 1990, a Convenção</p><p>nº 161 da OIT (ORGANIZAÇÃO..., 1985), sobre serviços de saúde do trabalho,</p><p>foi ratificada no país, portanto, se associou às normas jurídicas brasileiras de</p><p>proteção do trabalho. Dois anos depois, a Convenção nº 155 da OIT (ORGANI-</p><p>ZAÇÃO..., 1981) também experimentou ratificação pelo Estado</p><p>brasileiro e, en-</p><p>tão, passou a ser parte do conjunto de normas nacionais, estabelecendo uma</p><p>regulamentação específica sobre SST. Assim, a saúde e segurança no trabalho</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>105</p><p>se concretiza como um direito humano constitucional no Brasil. O aparato legal</p><p>impõe um padrão mínimo de saúde no trabalho, diante da constatação de que</p><p>todo o homem e mulher deve ter sua dignidade humana respeitada, inclusive</p><p>no meio ambiente de trabalho.</p><p>O status que o direito à saúde e segurança no trabalho encontra hoje no Brasil</p><p>reporta a 1948, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos já determi-</p><p>nava, em seu 23º artigo, que todos têm direito a condições justas e favoráveis de</p><p>trabalho. Portanto, a tutela jurídica da SST também recebe a proteção interna-</p><p>cional dos direitos humanos e a reveste como um direito fundamental devido a</p><p>todos os(as) trabalhadores(as) abarcados(as) pela jurisdição brasileira.</p><p>No mais, todo o conjunto normativo relativo à SST pode ser ilustrado na se-</p><p>guinte figura:</p><p>Constituição</p><p>Federal</p><p>Decretos Regulares</p><p>Portarias</p><p>Normas Individuais</p><p>Emendas</p><p>Constitucionais;</p><p>Tratados</p><p>Internacionais sobre</p><p>Direitos Humanos</p><p>Lei Complementares;</p><p>Lei Ordinárias;</p><p>Leis Delegadas;</p><p>Decretos Legislativos;</p><p>Resoluções;</p><p>Medidas Provisórias</p><p>Leis Previdenciárias</p><p>Convenção 155 OIT</p><p>Convenção 161 OIT</p><p>Consolidação das</p><p>Leis do Trabalho (CLT)</p><p>Lei Orgânica da Saúde</p><p>Figura 1: Pirâmide de normas de saúde e segurança do trabalho</p><p>No entanto, merecem destaque os passos dados em direção não só à saúde</p><p>do trabalhador, mas à sua qualidade de vida. Como dito, o direito à SST acompa-</p><p>nha o desenvolvimento histórico da saúde pública. Ao redor do mundo, houve</p><p>avanços no âmbito da saúde dos trabalhadores, sendo cada vez mais conhecida</p><p>a expressão “qualidade de vida no trabalho”, adotada não só pelos médicos e de-</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>106</p><p>partamentos de recursos humanos, mas também pela legislação nacional e pelo</p><p>Estado brasileiro, em suas ações de política pública.</p><p>A partir de uma visão ampliativa, a preocupação com o melhoramento de vida</p><p>no trabalho aumentou significativamente, e se tornou um desafio constante ob-</p><p>servar as regras de SST no meio ambiente de trabalho como um todo. O desafio,</p><p>no entanto, não se restringe à esfera privada e à relação entre empregador(a) e</p><p>empregado(a). Na esfera pública, a Constituição Federal de 1988 – pedra angular</p><p>de toda a legislação nacional – consagrou, em seu artigo 225, “o direito ao meio</p><p>ambiente ecologicamente equilibrado como essencial à sadia qualidade de vida,</p><p>destacando no art. 200, VIII, a proteção ao meio ambiente, nele compreendido o</p><p>do trabalho” (OLIVEIRA, 2010, p. 61).</p><p>Não obstante, no Estado de São Paulo, coube à Lei n. 9.505 (SÃO PAULO, 1997)</p><p>disciplinar as ações e os serviços de saúde dos trabalhadores no SUS, vindo a ex-</p><p>plicitar que “o estado de saúde se expressa em qualidade de vida”.</p><p>Nesse ínterim, em junho de 1999, na Argentina, houve o I Congresso In-</p><p>ternacional para a Gestão de Riscos do Trabalho. O Congresso emitiu a Carta</p><p>de Buenos Aires, que foi o documento oficial do evento. O item 4 do docu-</p><p>mento registra:</p><p>Também foi salientada a importância de se passar da abordagem</p><p>tradicional de segurança, higiene e saúde ocupacional para o con-</p><p>ceito de qualidade de vida laboral, entendendo que o mesmo não</p><p>se limita ao local e horário de trabalho, e sim, que se integra ao</p><p>modo de vida do trabalhador e se insere em sua realidade social.</p><p>Este conceito se refere às condições e meio ambiente de trabalho a</p><p>partir de uma perspectiva mais generalista e profunda, com papel</p><p>mais ativo, integrado e transcendente dos profissionais de seguran-</p><p>ça, higiene e saúde ocupacional”. (VOLPI, 1999, p. 35, apud OLIVEI-</p><p>RA, 2010, p. 61).</p><p>O conceito de saúde do trabalhador, agora relacionado ao estudo da qua-</p><p>lidade de vida no trabalho, não ficou isolado das técnicas de administração de</p><p>empresa para gerir os riscos do trabalho. Tal gestão foi aperfeiçoada para que a</p><p>qualidade do produto final seja elevada e o meio ambiente de trabalho desequi-</p><p>librado não venha a afetar a produtividade da empresa.</p><p>Cabe mencionar aqui a observação do professor Sebastião Geraldo de Oliveira</p><p>sobre a valorização da saúde dos trabalhadores pela gestão empresarial:</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>107</p><p>Aliás, cada vez se observa que não é possível isolar o homem-tra-</p><p>balhador do homem-social, como se o trabalhador pudesse deixar</p><p>no portão de entrada da empresa toda a sua história pessoal, ou</p><p>se na saída retirasse do corpo físico e mental toda a carga de sig-</p><p>nificado imposta pelo dia de trabalho. Atualmente, o homem não</p><p>busca apenas a saúde no sentido estrito, anseia por qualidade de</p><p>vida; como profissional, não deseja só condições higiênicas para de-</p><p>sempenhar sua atividade, pretende qualidade de vida no trabalho</p><p>(OLIVEIRA, 2010, p. 63).</p><p>Fica claro que a proteção do meio ambiente do trabalho é essencial para a</p><p>sustentabilidade do negócio empresarial, visto que “cada vez fica mais evidente</p><p>que construir uma organização, ignorando as realidades éticas, é algo tão sui-</p><p>cida como construir um edifício ignorando as propriedades e resistências dos</p><p>materiais que se utilizam na construção” (Migglianccio Filho, 1994, p. 30, apud</p><p>OLIVEIRA, 2010, p. 64).</p><p>3. A responsabilidade jurídica pela proteção e</p><p>promoção da saúde e segurança no trabalho e</p><p>as consequências de sua não-observância</p><p>A necessária valorização do trabalho e da saúde do trabalhador pela empresa</p><p>não é uma opção. A responsabilidade sobre o cumprimento das normas de SST</p><p>decorre da lei. A coerção legal sobre os empregadores para respeitarem as nor-</p><p>mas públicas de saúde no trabalho foi uma das formas que o Estado encontrou</p><p>para assegurar o seu cumprimento e, assim, proteger a saúde dos trabalhadores.</p><p>A Auditoria Fiscal do Trabalho (AFT), o Ministério Público do Trabalho e a Justiça</p><p>do Trabalho, com apoio das demais autoridades fiscais sanitárias, como centros</p><p>de referência em saúde do trabalhador (CERESTs) e vigilâncias sanitárias estaduais</p><p>e municipais (Visas), em cumprimento às instruções do Estado, têm direcionado a</p><p>sua atuação para a tutela das normas de saúde, higiene e segurança do trabalho.</p><p>Quando há um desequilíbrio no meio ambiente de trabalho, é dever do em-</p><p>pregador verificar as causas e solucioná-las. Nessa situação, as leis trabalhistas</p><p>se tornam um parâmetro mínimo, razoavelmente alcançável, para que os profis-</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>108</p><p>sionais que cuidam da saúde e segurança dos trabalhadores e trabalhadoras do</p><p>complexo empresarial consigam sanar as irregularidades.</p><p>A gestão de um meio ambiente de trabalho saudável deve estar atrelada ao</p><p>cumprimento das normas legais, caso contrário, ocorrerá o desrespeito a normas</p><p>de direitos fundamentais e acarretará condenações judiciais e administrativas. No</p><p>entanto, além do descumprimento das normas legais, o que poderá ocorrer são</p><p>acidentes de trabalho das mais variadas magnitudes, que prejudicam a saúde de</p><p>mulheres e homens que trabalham na empresa, bem como a sustentabilidade do</p><p>meio ambiente de trabalho.</p><p>As responsabilidades patronais, em caso de acidente de trabalho, encontram-se</p><p>bem delimitadas pela lei.</p><p>Logo no início da Consolidação das Leis do Trabalho (BRASIL, 1943), já no art. 2º,</p><p>está estabelecido que o empregador é toda “a empresa, individual ou coletiva, que,</p><p>assumindo os riscos da atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação</p><p>pessoal de serviço”. Assim, uma vez que os riscos da atividade econômica e o poder</p><p>de direção da atividade são atribuídos pela lei ao empregador, é preciso observar</p><p>todos os limites legais para que nenhum prejuízo ou dano venha a ser causado aos</p><p>empregados, em especial naquilo que toca ao meio ambiente de trabalho.</p><p>Caso o meio ambiente de trabalho de determinado processo produtivo este-</p><p>ja poluído – isto é, apresentando circunstâncias adversas à saúde e à segurança</p><p>física ou mental dos trabalhadores</p><p>interessarmos apenas pelo desempenho (ele/ela fez aquilo que lhe foi</p><p>pedido): é preciso compreender as múltiplas formas de custo humano</p><p>que estão em jogo (o que isso exigiu dele/dela?).</p><p>• É o corpo em atividade que conduz a potência vital, o peso e os recursos</p><p>da história, as competências; é o corpo que percebe, que age, que decide,</p><p>que leva os golpes e enfrenta os custos.</p><p>• A construção da resposta encarnada que é a atividade – frente às exigên-</p><p>cias de realizar a tarefa sendo você mesmo e preservando tanto quanto</p><p>possível sua saúde –, é o resultado de mecanismos extraordinariamente</p><p>complexos, que escapam em grande parte à consciência. É a “penumbra”</p><p>ou “obscuridade da atividade”. Para poder traduzir isso em palavras, para</p><p>tomar consciência de certas dimensões dessa construção, é preciso o diá-</p><p>logo com um outro que tenha esse olhar “modesto, curioso e cuidadoso”</p><p>que era tão caro a Duraffourg.</p><p>• As saídas oferecidas à atividade dependem muito das margens de mano-</p><p>bra permitidas pela organização do trabalho, que é ao mesmo tempo uma</p><p>estrutura, um quadro de restrições, o local e o resultado de interações</p><p>sociais ao redor da definição das regras (TERSSAC; LOMPRÉ, 1996). Ela é</p><p>o produto de um “trabalho de organização” que não é apenas o trabalho</p><p>dos organizadores. A introdução de novas saídas supõe em grande parte</p><p>uma ação sobre a organização do trabalho, isto é, novas possibilidades de</p><p>interações e debates entre os atores que a compõem, que lhe dão vida. O ob-</p><p>jetivo do consultor externo é encorajar estas novas interações no trabalho</p><p>da organização – em particular criando espaços relevantes para o debate</p><p>sobre o trabalho –, e não tirar uma nova estrutura organizacional do seu</p><p>chapéu, que seria imune às deficiências do anterior.</p><p>Daniellou</p><p>11</p><p>• O trabalho é, portanto, ao mesmo tempo uma relação com as coisas, a</p><p>fabricação de alguma coisa em parte pré-definida por um quadro nor-</p><p>mativo e uma relação com outros, o desenvolvimento de ações que ge-</p><p>ram progressivamente os seus fins, o movimento da vida dentro de um</p><p>quadro coletivo.</p><p>• Tudo o que foi dito acima é válido para o trabalho de engenheiros(as) e</p><p>de gerentes.</p><p>• Tudo o que foi dito acima é válido para o trabalho de técnicos(as) que</p><p>fazem parte do quadro da empresa e o de consultores externos.</p><p>• Tudo o que foi dito acima é válido para o trabalho de pesquisadores</p><p>científicos.</p><p>Essas afirmações, nas quais acredito que todas as disciplinas que se interes-</p><p>sam pela atividade humana podem se reconhecer, constituem juntas uma an-</p><p>tropologia do trabalho: é essa visão do ser humano por meio do seu trabalho</p><p>– desenvolvida nas seções seguintes –, que poderá mudar a sua vida. Vocês as</p><p>encontrarão discutidas e desenvolvidas principalmente nos capítulos sobre o tra-</p><p>balho e o seu sentido, e naqueles sobre a relação entre o trabalho e a saúde. O</p><p>patrimônio comum com o qual você está prestes a travar conhecimento é muito</p><p>maior do que aquele – que já era imenso – que nossa geração descobriu em sua</p><p>formação inicial. Além disso, ele traz consigo uma mudança radical: não se trata</p><p>apenas de proteger o ser humano dos agravos à sua saúde ligados ao trabalho.</p><p>Trata-se de tentar contribuir para que o trabalho possa cumprir, para cada um, o</p><p>papel de operador de desenvolvimento. É, por exemplo, o projeto da “ergonomia</p><p>construtiva” (FALZON, 2016).</p><p>Esse objetivo pode parecer inatingível, dada a brutalidade de certas situações</p><p>de trabalho e os efeitos dramáticos que provocam na saúde dos trabalhadores</p><p>envolvidos. Pode parecer mais urgente agir antes para uma redução dos riscos</p><p>do que sonhar com um dia no qual o trabalho contribuirá positivamente para a</p><p>saúde e o desenvolvimento dessas pessoas. Sim, é preciso fazê-lo, mas sem es-</p><p>quecer essa questão fundamental: em matéria de saúde no trabalho, as melhorias</p><p>que valem de verdade são aquelas que passam pelos próprios trabalhadores. Trans-</p><p>formações talvez limitadas, mas obtidas e avaliadas por um coletivo de trabalho</p><p>auxiliado por um(a) consultor(a) pertinente, podem desencadear uma dinâmica</p><p>de reapropriação da situação que produzirá depois outros efeitos. Favorecer a re-</p><p>flexão, a discussão e a ação coletivas sobre as situações de trabalho é pavimentar</p><p>o caminho da emancipação.</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>12</p><p>Uma outra mudança importante diz respeito ao fato de que atualmente a or-</p><p>ganização do trabalho é claramente um alvo da ação transformadora. Muito já se</p><p>escreveu, por exemplo, sobre as reticências de Wisner a incorporar a organização</p><p>do trabalho nos campos de ação da ergonomia (veja, por exemplo, DANIELLOU,</p><p>2016). Desde então, as pesquisas sobre distúrbios osteomusculares e os riscos psi-</p><p>cossociais mostraram que era indispensável tentar agir sobre ela: os problemas</p><p>osteomusculares são patologias da falta de margem de manobra (CAROLY; SIMO-</p><p>NET; VÉZINA, 2015; SZNELWAR; MASCIA; BOUYER, 2006); os riscos psicossociais</p><p>muitas vezes têm sua origem na tentativa que faz o trabalhador, ou trabalhadora,</p><p>de “fazer seu trabalho bem feito”, enquanto que a organização não o permite (PE-</p><p>TIT; DUGUÉ, 2011). Esses mecanismos são evocados na Seção 2 dessa obra. Feliz-</p><p>mente, a compreensão da natureza dual da organização (estrutura e interações)</p><p>permite hoje em dia que essa ação seja vista não mais como uma intervenção di-</p><p>reta sobre a estrutura organizacional: já dissemos que contribuir para a evolução</p><p>das interações sociais no trabalho de organização é uma prévia da transformação</p><p>da estrutura, mais ao alcance do tipo de interventor(a) que somos.</p><p>Ao longo desses 40 anos, também fui testemunha de mudanças profundas</p><p>nas relações dos ergonomistas com os designers e gestores, de um lado, e com</p><p>sindicalistas, de outro. Nos anos 1980, os ergonomistas se dirigiam aos designers</p><p>e gestores para falar-lhes do trabalho dos operários e das dificuldades que expe-</p><p>rimentavam. Muito rapidamente apareceu a ideia de que os engenheiros(as) e</p><p>gestores(as) são também trabalhadores cuja atividade pode ser analisada e cujo</p><p>trabalho podemos tentar tornar mais fácil – o que é indispensável para melhorar</p><p>o trabalho de sua equipe. No final dos anos 1990, as pesquisas sobre os designers</p><p>se multiplicaram (ver, por exemplo, DARSES; DÉTIENNE; VISSER, 2007). Uma parte</p><p>dos ergonomistas tinha necessidade de conhecer melhor o trabalho dos enge-</p><p>nheiros(as) e gestores para olhá-lo com um pouco mais de boa vontade, e essas</p><p>pesquisas contribuíram para isso.</p><p>Os elos da ergonomia da atividade com as organizações sindicais são fortes des-</p><p>de o início da disciplina. A maior parte das intervenções em empresas feitas pelo</p><p>laboratório do CNAM nos anos 1980 resultava de demandas sindicais, e grande nú-</p><p>mero de formações para sindicalistas foram organizadas pelos pesquisadores do</p><p>CNAM. Mas parece-me que, à época, ninguém teria ousado fazer a seguinte com-</p><p>paração: “os sindicalistas, como os gestores, são atores do trabalho legítimos, uns</p><p>devido a seu mandato, os outros devido à sua função. Mas não é porque são legí-</p><p>timos que eles conhecem com precisão o conjunto das situações de trabalho dos</p><p>trabalhadores por quem são responsáveis. É preciso, para uns e outros, a mesma</p><p>Daniellou</p><p>13</p><p>humildade para ir a campo observar, escutar e debater com os trabalhadores. ”Fazer</p><p>evoluir o olhar dos sindicalistas sobre a tentativa, por parte dos trabalhadores, de</p><p>“fazer seu trabalho bem feito” em uma organização que não o favorece, e, portanto,</p><p>sobre as formas de resistência inscritas na atividade, é uma questão recente nas</p><p>formações sindicais (veja uma discussão interessante em DAVEZIES, 2019).</p><p>Como veem, em 40 anos os desafios aumentaram. Mas os métodos também</p><p>progrediram. Dispomos agora de metodologias sólidas de intervenção nos pro-</p><p>jetos de concepção ou de modificação (LIMA; DUARTE, 2014), baseadas na simu-</p><p>lação participativa da atividade futura possível no novo sistema, que são objeto</p><p>da Seção 5 desta obra. Em particular, sabemos fazer simulações organizacionais</p><p>(DUARTE;</p><p>insertos nesse processo –, configura-se o que,</p><p>no Direito, denomina-se responsabilidade civil, gerando o consequente ônus de</p><p>reparar os danos verificados.</p><p>A responsabilidade civil é um instituto jurídico previsto nos artigos 186, 187</p><p>e 927 do Código Civil3. Esta legislação civil é aplicável às relações de trabalho e</p><p>tem por consequência o dever de indenizar à sociedade e aos eventuais lesa-</p><p>dos por conta de um ato ilícito danoso, que pode se fazer presente em virtude</p><p>de uma ação ou de uma omissão, dolosa (com intenção da prática) ou culposa</p><p>(sem intenção).</p><p>3 - “Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a</p><p>outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.</p><p>Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-lo, excede manifestamente os limites im-</p><p>postos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.</p><p>[...]</p><p>Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.</p><p>Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em</p><p>lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os</p><p>direitos de outrem” (BRASIL, 2002).</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>109</p><p>Deve-se, então, verificar a ocorrência de uma situação danosa, em que a atitu-</p><p>de do agente foi principal para causar o dano, para configurar a responsabilidade</p><p>civil. Em algumas circunstâncias, é essencial a comprovação de culpa do agente,</p><p>isto é, a intenção em causar dano ao outro, para configurar a responsabilidade</p><p>civil subjetiva. No entanto, há outras situações em que não é necessária a verifica-</p><p>ção de culpa do agente. É o que acontece na configuração da responsabilidade</p><p>civil objetiva, na qual basta a aferição de uma relação causal entre a conduta do</p><p>agente e o dano causado.</p><p>Haverá responsabilidade civil objetiva do empregador em qualquer situação</p><p>em que se constate que este não geriu, adequadamente, os riscos à saúde e à</p><p>segurança do trabalho presentes na atividade produtiva desempenhada, sendo</p><p>que as referidas normas regulamentadoras (NRs) e demais leis específicas sobre</p><p>o tema cumprem o papel de impor providências (não exaustivas) de diagnós-</p><p>tico e tratamento (eliminação ou mitigação) daqueles riscos. Nas hipóteses de</p><p>risco de agravo à saúde e à segurança física ou mental de trabalhadores, com ou</p><p>sem materialização em acidente ou adoecimento, surge o interesse do Ministé-</p><p>rio Público do Trabalho, das autoridades públicas de fiscalização e de sindicatos</p><p>em buscar a solução da situação por instrumentos legais atinentes a cada um</p><p>desses autores. As autoridades que cumprem a atividade de fiscalização, como</p><p>os auditores fiscais do trabalho (AFTs, vinculados à Secretaria Especial da Pre-</p><p>vidência e Trabalho do Ministério da Economia) e os agentes dos CEREST e das</p><p>Visa estaduais e municipais detêm poder de fiscalização de normas trabalhistas,</p><p>inclusive pela via de inspeção local, independentemente de mandado judicial,</p><p>podendo lançar mão da lavratura da autos de infração, embargos de obra de</p><p>obra ou interdição de atividades, máquinas ou equipamentos, capazes de acar-</p><p>retar aplicação de multas aos empregadores4.</p><p>Já o Ministério Público do Trabalho, que não fiscaliza, mas investiga, para</p><p>tanto pode instaurar inquérito civil para apuração de fatos e, se comprovada</p><p>a conduta ilegal do empregador, pode propor um termo de ajuste de condu-</p><p>ta (compromisso formal do empregador em adequar suas práticas, sob pena</p><p>de multa) ou agir judicialmente, no mais das vezes lançando mão de ação civil</p><p>pública, pela qual requer ao Poder Judiciário que determine ao empregador</p><p>obrigações de fazer ou não fazer relativas aos riscos a serem eliminados, assim</p><p>como que estabeleça robusta indenização à sociedade pelo descumprimento</p><p>4 - Embargo implica paralisação parcial ou total de uma obra. Interdição implica paralisação parcial ou total de uma</p><p>atividade, máquina ou equipamento de um setor de serviço ou de um estabelecimento.</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>110</p><p>das obrigações legais de manter o meio ambiente de trabalho hígido. Casos</p><p>que envolvam condutas previstas pela legislação como crime, ou que resultem</p><p>em danos que comportem indenização a vítimas podem, ainda, ser tratados</p><p>pelo Ministério Público Estadual ou Ministério Público Federal, em investiga-</p><p>ções próprias passíveis de evoluírem para o ajuizamento de ações penais contra</p><p>as pessoas autoras da conduta criminosa.</p><p>Os sindicatos profissionais também têm legitimidade para ajuizarem ação civil</p><p>pública, com as mesmas finalidades.</p><p>Figura 2: Distinção e interação das atividades de fiscalização (AFT, CEREST e Visa), investigação pelo</p><p>Ministério Público do Trabalho e julgamento de ações judiciais pelo Poder Judiciário</p><p>Fundamental é perceber que há ilegalidade passível de reprovação pelas au-</p><p>toridades competentes mesmo que a atividade produtiva não tenha histórico</p><p>remoto ou recente de acidentalidade de trabalhadores, pois a mera exposição a</p><p>riscos não adequadamente geridos pelo empregador já configura meio ambiente</p><p>de trabalho poluído, dado que estão presentes os elementos adversos à SST men-</p><p>cionados na legislação já tratada. Todavia, em ocorrendo o acidente de trabalho,</p><p>surge também à sua vítima a legitimidade jurídica de pleitear para si as consequ-</p><p>ências da responsabilidade civil patronal. Mas em que consiste, aos olhos da lei,</p><p>um acidente de trabalho?</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>111</p><p>4. Tipologia jurídica do acidente de trabalho</p><p>Conforme pontua Raimundo Simão de Melo (2013), a antiga definição de aci-</p><p>dente do trabalho vigorante no século XIX, que o considerava como um aconte-</p><p>cimento súbito e decorrente de obra do acaso, não é mais sustentada como regra</p><p>geral, uma vez que diante da modernidade industrial e tecnológica atual, grande</p><p>parte dos acidentes laborais decorrem da ausência de cuidados mínimos e espe-</p><p>ciais quanto à adoção de medidas coletivas e individuais de prevenção e proteção</p><p>em face dos riscos ambientais.</p><p>A denominação “acidente do trabalho”, hoje, de forma abrangente, incluin-</p><p>do também as doenças profissionais e outros eventos acidentários, nos é dada</p><p>pela Lei nº 8.213 (BRASIL, 1991b), Lei da Previdência Social, em seus artigos 19</p><p>e 20, que estabelece o conceito de acidente para o fato lesivo à saúde física ou</p><p>mental, ligado ao exercício do trabalho, que resulte em morte ou em redução</p><p>da capacidade laborativa. O nexo causal é a relação de causa e efeito que se</p><p>tem entre o evento acidentário e o trabalho, e deve ser evidente, de forma que</p><p>qualquer lesão que seja resultante de acidente de outra origem não será consi-</p><p>derada acidente do trabalho.</p><p>Portanto, o conceito legal de acidente de trabalho abarca dois tipos de even-</p><p>tos: acidente de trabalho típico e doença ocupacional.</p><p>O acidente de trabalho típico configura-se quando o evento lesivo se per-</p><p>faz, por completo, em determinado momento temporal, como é o caso de</p><p>traumas, cortes, quedas, queimaduras, entre outros exemplos. De outro lado,</p><p>segundo o entendimento do legislador, as doenças ocupacionais são aquelas</p><p>constatadas ou ocasionadas pela execução do trabalho e subdividem-se em</p><p>doenças profissionais e do trabalho. Estas, por sua vez, são equiparadas ao</p><p>acidente do trabalho, quando presentes os requisitos previstos no artigo 20,</p><p>incisos I e II, da Lei nº 8.213:</p><p>Art. 20. Consideram-se acidente do trabalho, nos termos do artigo</p><p>anterior, as seguintes entidades mórbidas:</p><p>doença profissional, assim entendida a produzida ou desencadea-</p><p>da pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e</p><p>constante da respectiva relação elaborada pelo Ministério do Tra-</p><p>balho e da Previdência Social;</p><p>doença do trabalho, assim entendida a adquirida ou desencadeada</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>112</p><p>em função de condições especiais em que o trabalho é realizado e</p><p>com ele se</p><p>relacione diretamente, constante da relação menciona-</p><p>da no inciso I (BRASIL, 1991b).</p><p>Nos termos da lei, observa-se que a doença profissional é aquela desenca-</p><p>deada pelo exercício do trabalho peculiar a determinada atividade e constan-</p><p>te de relação elaborada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, de modo que</p><p>tem como presumido o nexo etiológico com o trabalho (MELO, 2013). Sendo</p><p>assim, conclui-se que a atividade prestada pelo obreiro desencadeia a doença.</p><p>Diferentemente, a doença do trabalho é adquirida em função das condições</p><p>especiais em que a atividade é realizada e com ela se relaciona diretamente,</p><p>sendo uma de suas principais causas o meio ambiente do trabalho inadequa-</p><p>do. Note-se, aqui, que o quadro das doenças do trabalho tem se agravado</p><p>com a precarização do trabalho humano, fenômeno existente em quase todo</p><p>o mundo e intensificado nas economias emergentes, como é o caso do Brasil.</p><p>É dentro deste contexto que se avolumam casos de doenças ocupacionais fí-</p><p>sicas e/ou mentais, tais como lesões por esforço repetitivo, agravos inflamató-</p><p>rios a grupos musculares (tendinite, bursite, desvios de coluna etc.), síndrome</p><p>de burnout (resultante de estresse agudo e permanente) e depressão.</p><p>Equipamentos Legais</p><p>Doenças Ocupacionais</p><p>Acidente do Trabalho</p><p>Típico</p><p>Doença Profissional</p><p>Doença do Trabalho</p><p>Esquema 1: Acidente de trabalho sob a ótica da Lei nº 8.213/91</p><p>Como se vê, a Lei nº 8.213 (BRASIL, 1991b) prevê três espécies distintas de</p><p>acidentes por equiparação, a primeira das quais, o acidente típico, decorrente da</p><p>falta de segurança no trabalho, e as demais, as doenças profissionais e as doenças</p><p>do trabalho, originam-se das agressões ao meio ambiente do trabalho, isto é, das</p><p>ações decorrentes de agentes insalubres de natureza física, química ou biológica,</p><p>cujos agentes, por natureza, são agressivos ao meio ambiente do trabalho e, con-</p><p>sequentemente, podem desencadear tais doenças.</p><p>Ainda que superados os conceitos, no tocante à responsabilização objetiva</p><p>por danos ao meio ambiente, entendimento, inclusive, pacificado pelo STF em</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>113</p><p>20195, pairam dúvidas quanto à sua aplicabilidade, dadas as dificuldades enfren-</p><p>tadas pelos trabalhadores na comprovação do nexo causal entre a enfermidade</p><p>que os atingiu e o trabalho.</p><p>Diante dessa problemática, foi instituído, para fins previdenciários, o chama-</p><p>do nexo técnico epidemiológico previdenciário. A referida norma alterou a Lei</p><p>nº 8.213 (BRASIL, 1991b) a fim de introduzir em seu bojo o artigo 21-A, com a</p><p>seguinte redação:</p><p>Art. 21-A. A perícia médica do Instituto Nacional do Seguro Social</p><p>(INSS) considerará caracterizada a natureza acidentária da incapa-</p><p>cidade quando constatar ocorrência de nexo técnico epidemio-</p><p>lógico entre o trabalho e o agravo, decorrente da relação entre a</p><p>atividade da empresa ou do empregado doméstico e a entidade</p><p>mórbida motivadora da incapacidade elencada na Classificação</p><p>Internacional de Doenças (CID), em conformidade com o que dis-</p><p>puser o regulamento. (Redação dada pela Lei Complementar nº</p><p>150) [BRASIL, 2015].</p><p>§ 1º A perícia médica do INSS deixará de aplicar o disposto neste</p><p>artigo quando demonstrada a inexistência do nexo de que trata o</p><p>caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.430). [BRASIL, 2006].</p><p>§ 2º A empresa ou o empregador doméstico poderão requerer a</p><p>não aplicação do nexo técnico epidemiológico, de cuja decisão</p><p>caberá recurso, com efeito suspensivo, da empresa, do emprega-</p><p>dor doméstico ou do segurado ao Conselho de Recursos da Pre-</p><p>vidência Social. (Redação dada pela Lei Complementar nº 150)</p><p>[BRASIL, 2015].</p><p>Trata-se de lista elaborada pelos órgãos previdenciários, levando-se em consi-</p><p>deração a Classificação Internacional de Doenças (CID) e a Classificação Nacional</p><p>de Atividade Econômica (CNAE), que estabelecem uma presunção relativa de cau-</p><p>salidade entre as doenças ocupacionais e as atividades econômicas que potencial-</p><p>mente possam acarretá-las. No mesmo sentido, Raimundo Simão de Melo afirma:</p><p>Com a nova alteração legal foi instituído o nexo técnico epidemio-</p><p>lógico para as doenças e acidentes provocados pelo trabalho por</p><p>5 - Ver .</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>114</p><p>meio do vínculo direto entre a atividade de determinado ramo</p><p>econômico e as possíveis doenças que podem acontecer naquele</p><p>ambiente de trabalho específico, conforme estatísticas existentes.</p><p>Presume-se, pois, que pertencer a um determinado segmento eco-</p><p>nômico constitui fator de risco para o trabalhador apresentar certo</p><p>tipo de doença associada ao trabalho. (MELO, 2013, p. 356)</p><p>O nexo técnico epidemiológico (NTEP) é um importante instrumento de perí-</p><p>cia médica do INSS, que reconhecerá a natureza acidentária do infortúnio quan-</p><p>do, de acordo com o referido instrumento, houver presunção do nexo de causa-</p><p>lidade entre o agravo e o trabalho. O objetivo é oferecer uma nova opção que</p><p>independa da emissão da comunicação de acidente de trabalho (CAT) por parte</p><p>do empregador, uma vez que, apesar deste estar incumbido de providenciá-la</p><p>quando da ocorrência de acidentes de trabalho, por muitas vezes a descarta ao</p><p>arrepio da lei, omitindo a real situação.</p><p>Além da finalidade de combater o flagelo social causado pelas subnotificações</p><p>do acidente de trabalho, o NTEP destina-se a educar os empregadores, a fim de</p><p>que estes adotem medidas que evitem o surgimento de doenças ocupacionais.</p><p>Isto porque, contrariamente ao que normalmente ocorre, diante da presunção de</p><p>causalidade, as empresas passam a ter o encargo de desconstituir o presumido,</p><p>ou seja, serão elas que deverão comprovar a existência de fatores estranhos ao</p><p>trabalho que pudessem acometer o trabalhador do agravo sofrido. Assevera Rai-</p><p>mundo Simão de Melo:</p><p>Portanto, havendo ligação entre a doença e os riscos ocupacionais</p><p>envolvidos na prestação de serviços, o nexo de causalidade entre</p><p>uma e outro é presumido, cabendo ao empregador demonstrar a</p><p>existência de fatores fora do contrato de trabalho que pudessem</p><p>ocasionar a enfermidade e, ainda, que pôs em prática medidas de</p><p>segurança visando à preservação da saúde do trabalhador. (MELO,</p><p>2013, p. 357).</p><p>Assim, não demonstrada a existência de fatores externos ao contrato de tra-</p><p>balho que pudessem causar a doença ocupacional sofrida pelo obreiro, o empre-</p><p>gador não escapará de seu dever de indenizar os danos patrimoniais e extrapatri-</p><p>moniais (morais) experimentados pelo trabalhador, além de observar a garantia</p><p>de emprego pelo prazo de 12 meses, contados da cessação do afastamento pelo</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>115</p><p>INSS e do pagamento de auxílio-doença acidentário pelo órgão previdenciário,</p><p>como determina o artigo 118 da Lei nº 8.213 (BRASIL, 1991b).</p><p>5. Instrumentos gerais de gestão dos</p><p>riscos ambientais e prevenção de</p><p>acidentes de trabalho</p><p>Quanto à eliminação dos riscos de acidente no ambiente de trabalho, se sabe</p><p>que cabem obrigações recíprocas às empresas e aos trabalhadores. Cumpre ao</p><p>empregador, além de outras obrigações, instruir os seus empregados quanto às</p><p>precauções a serem tomadas para evitar os acidentes de trabalho ou doenças</p><p>ocupacionais (artigo 157, II, da CLT) e, do mesmo modo, cumpre ao empregado</p><p>observar normas de segurança do trabalho e usar os equipamentos de proteção</p><p>individual e coletivos fornecidos pela empresa (artigo 158, I e parágrafo único</p><p>a e b). Ainda assim, diante da complexidade e da extensão da matéria referen-</p><p>te ao meio ambiente de trabalho, o Ministério do Trabalho e Emprego publicou,</p><p>por meio da Portaria nº 3.214 (BRASIL, 1978), as normas regulamentadoras (NRs)</p><p>relativas a medicina, higiene e segurança do trabalho. Dentre uma série de reco-</p><p>mendações técnicas, estas normas estabelecem obrigatoriedades às empresas e</p><p>as direcionam quanto às ações necessárias relativas às medidas de prevenção,</p><p>controle e eliminação de riscos inerentes ao trabalho.</p><p>Embora se tema pela ausência de efetividade das normas, acredita-se</p><p>que o</p><p>conhecimento da situação de saúde dos trabalhadores, bem como a busca por</p><p>diagnósticos mais aprofundados sobre os problemas encontrados, se mostrem</p><p>como alternativa eficaz para que se viabilizem as soluções necessárias.</p><p>Dentre um amplo conjunto de iniciativas empresariais que buscam a pre-</p><p>venção e melhoria à saúde do trabalhador, são partes integrantes o Programa</p><p>de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e o Programa de Controle Médico de</p><p>Saúde Ocupacional (PCMSO). Ambos os programas assumem posições relevan-</p><p>tes e devem ser articulados em conjunto com as demais normas de segurança</p><p>e medicina do trabalho.</p><p>Instituído pela NR-9 da Portaria 3.214 (BRASIL, 1978), o PPRA tem por finali-</p><p>dade reconhecer, avaliar e controlar a ocorrência de riscos ambientais existentes</p><p>ou que venham a existir no ambiente de trabalho, quais sejam, os agentes físicos,</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>116</p><p>químicos e biológicos que, em função de sua natureza, concentração ou intensi-</p><p>dade e tempo de exposição, são capazes de causar danos à saúde do trabalhador.</p><p>A implementação do PPRA é obrigatória a todos os empregadores, indepen-</p><p>dentemente da quantidade de empregados e do grau de risco existente no am-</p><p>biente de trabalho. Nele constará o documento-base, estabelecendo o planeja-</p><p>mento anual com as metas, prioridades e divulgação de dados. Não obstante,</p><p>compete às empresas garantir e zelar pelo efetivo cumprimento do PPRA, man-</p><p>tendo seus registros pelo prazo mínimo de 20 anos, os quais deverão estar dispo-</p><p>níveis para os trabalhadores interessados e autoridades competentes.</p><p>Da mesma forma, o PCMSO, especificado na NR-7 da mesma portaria (BRASIL,</p><p>1978), prevê a obrigatoriedade de implementação, por todos os empregadores,</p><p>com o objetivo de promoção e preservação da saúde do conjunto dos trabalha-</p><p>dores. Nesse documento prevalece o caráter preventivo, mediante o rastreamen-</p><p>to e diagnóstico de doenças profissionais, bem como dos agravos à saúde relacio-</p><p>nados com o trabalho e a constatação de danos irreversíveis ao trabalhador. Para</p><p>isso, será necessária a realização de exames médicos (admissional, periódico, de</p><p>retorno ao trabalho, de mudança de função e demissional do trabalhador) defini-</p><p>dos a partir dos riscos da atividade (identificados no PPRA) e realizados de modo</p><p>que todos os dados colhidos nos exames sejam registrados no prontuário clínico</p><p>individual, devendo ser mantido por um período de 20 anos, após o desligamen-</p><p>to do empregado do contrato de trabalho.</p><p>Observa-se, portanto, que os mencionados programas se complementam e</p><p>devem estar permanentemente ativos, uma vez que os riscos apontados pelo</p><p>PPRA e não eliminados por meio do controle proposto por este serão objeto de</p><p>controle do PCMSO que, por sua vez, poderá trazer a lume riscos eventualmente</p><p>não apurados no PPRA. Uma vez que devidamente implantados, representam um</p><p>avanço na questão da saúde e segurança dos trabalhadores.</p><p>Ocorre que, apesar dos progressos e boas intenções, os programas de pre-</p><p>venção ainda padecem de deficiências e, embora tenham sido minuciosos em</p><p>várias questões, o que se verifica, muitas vezes, é a carência de conhecimento</p><p>por parte dos empregadores a respeito do assunto, baixa qualidade técnica do</p><p>profissional ou empresa terceirizada na elaboração de seus programas, seus res-</p><p>pectivos levantamentos e proposições de medidas. Ou, até mesmo, má-fé, com</p><p>o intuito de burlar o sistema.</p><p>Frise-se que as normas regulamentadoras não disciplinam qualquer parcela</p><p>de poder decisório aos trabalhadores, bem como previsões quanto à participa-</p><p>ção sindical, fato que dificulta ainda mais a intervenção nos rumos da execução</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>117</p><p>da política empresarial relativa à saúde dos trabalhadores e ao meio ambiente</p><p>do trabalho. Todavia, essa participação é desejável, e pode e deve ser propicia-</p><p>da, considerando-se as ações da comissão interna de prevenção de acidentes</p><p>(Cipa), integrada por representantes dos empregados e do empregador, que</p><p>deve ser constituída quando da maioria dos processos produtivos complexos,</p><p>ou com um número relevante de funcionários envolvidos, segundo as condi-</p><p>ções estabelecidas pela NR-5.</p><p>Com isso, infere-se que os programas preventivos, PPRA e PCMSO, ganharão</p><p>prestígio e cumprirão com seus objetivos a partir do momento em que for amplia-</p><p>da a cobertura da fiscalização estatal, com o estímulo de controle social, exercido</p><p>diretamente pelos trabalhadores e seus representantes, os quais, por sua vez, po-</p><p>derão contribuir para o desenvolvimento e aprimoramento de condutas, proce-</p><p>dimentos e instrumentos de inspeção na área de segurança e saúde do trabalho.</p><p>Ademais, é de se lembrar sempre que haverá responsabilidade civil patronal</p><p>(e suas consequências punitivas e ressarcitórias) sempre que um acidente de tra-</p><p>balho de qualquer tipo aconteça no contexto de um meio ambiente de trabalho</p><p>poluído, entendido como aquele que coloca o trabalhador em risco. E, nesta li-</p><p>nha, a inexistência de PPRA e PCMSO ou sua elaboração inadequada são fortes</p><p>indicativos – para não dizer prova cabal – daquela poluição.</p><p>6. Gestão de saúde e segurança no</p><p>trabalho responsável com a superação</p><p>do olhar tendencioso da prevalência do</p><p>erro humano na acidentalidade laboral</p><p>Longe de se considerar o erro humano como único fator explicativo para a</p><p>ocorrência de acidentes do trabalho, resta evidente que muitas das falhas propi-</p><p>ciadoras de eventos acidentários típicos ou de adoecimento se devem a questões</p><p>organizacionais, tornando-se necessário um novo e eficiente método de análise</p><p>das organizações de alto risco.</p><p>Frente aos avanços da tecnologia industrial, em que os sistemas homem-má-</p><p>quina estão se tornando cada vez mais complexos, uma das primeiras providên-</p><p>cias a serem tomadas para que se solucione qualquer problema à saúde do traba-</p><p>lhador é procurar conhecê-lo melhor.</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>118</p><p>A carência de profissionais com formação técnica para o desempenho das</p><p>funções, a falta de conscientização sobre a necessidade de se trabalhar em am-</p><p>biente com boas condições de uso, bem como a deficiência no sistema de ins-</p><p>peção do trabalho por parte do empregador são algumas das diversas proble-</p><p>máticas que, se não forem abordadas, dificilmente mudarão o cenário laboral</p><p>encontrado na atualidade.</p><p>A globalização tem por escopo a pressão da concorrência das lutas pela con-</p><p>quista de fatias do mercado, dando-se importância tão somente à produtividade,</p><p>rentabilidade e lucratividade das empresas. As tarefas e ações de hierarquia ge-</p><p>rencial raramente possuem processos padronizados, logo, qualquer desempenho</p><p>inadequado por parte da organização torna-se mais difícil de descobrir e tudo se</p><p>volta à falha humana.</p><p>Neste sentido, na obra O acidente e a organização, os autores Michel Llory e</p><p>René Montmayeul propõem:</p><p>Entre essas inquietações, pensamos sobretudo no lugar do erro</p><p>humano na análise dos acidentes. Esse conceito, que progressiva-</p><p>mente se tornou um dogma, pesa sobre o futuro da segurança. A</p><p>análise organizacional da segurança, para se desenvolver, deve, de</p><p>início, abandonar esse quadro ideológico. É essa, aliás, toda a ironia,</p><p>todo o drama e o futuro da análise organizacional da segurança.</p><p>Para existir, ela deve acabar com um dos seus conceitos geradores:</p><p>o erro humano (LLORY; MONTMAYEUL, 2014. p. 14).</p><p>Nessa linha de entendimento, embora as experiências mostrem a dificuldade</p><p>geral em investigar a maneira como são tomadas as decisões pelos gestores pa-</p><p>tronais do meio ambiente de trabalho, percebe-se que, quando uma investigação</p><p>mais ampla é realizada, pode acarretar melhoras decisivas na segurança do trabalho</p><p>ou, ao menos, uma compreensão mais precisa dos erros cometidos nesses níveis.</p><p>Não se quer, com isso, afastar a hipótese de culpa exclusiva da vítima pelo</p><p>acidente de trabalho, que, se provada, afasta qualquer responsabilidade jurídica</p><p>de reparação pelo empregador. A questão é exatamente perceber que a apura-</p><p>ção da culpa exclusiva</p><p>só deve ter lugar em momento posterior à averiguação</p><p>da inexistência de qualquer dano ao meio ambiente de trabalho propiciador do</p><p>infortúnio. De outro modo, só cabe falar em culpa exclusiva da vítima após obtida</p><p>a convicção de que todas as medidas de proteção foram adotadas, adequada-</p><p>mente, pelo empregador.</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>119</p><p>Atualmente, no mais das vezes, em juízo ou fora dele, as investigações dos aciden-</p><p>tes de trabalho são conduzidas de forma superficial e falha, concluindo-se, portan-</p><p>to, a necessidade de que se ponha em pauta o investimento e a promoção do meio</p><p>ambiente do trabalho como uma questão de ordem pública, de interesse de toda a</p><p>sociedade, a fim de que o local de trabalho se torne, além de salubre, valoroso.</p><p>O funcionamento íntimo das organizações implicadas na gestão dos riscos</p><p>é que deve ser objeto de análises. Para tanto, é extremamente importante que</p><p>profissionais técnicos em saúde e segurança do trabalho se mostrem abertos à</p><p>nova perspectiva investigatória e, por conseguinte, obtenham capacitação nes-</p><p>te sentido. Ademais, uma vez devidamente capacitados, tais profissionais devem</p><p>ter, efetivamente, voz ativa dentro do processo produtivo, contando com a aten-</p><p>ção e a adesão das instâncias decisórias, sob pena de que suas orientações sejam</p><p>afastadas e, com isso, a poluição ambiental em termos de SST se instale, criando</p><p>condição para os acidentes de trabalho e suas consequências legais.</p><p>Na realidade, trata-se de uma mudança de postura que resgate a dramaticidade</p><p>de um evento grave, como o é qualquer acidente de trabalho, frente à investigação</p><p>de suas causas e ao gerenciamento eficaz e prévio de riscos, pondo-se em evidência</p><p>não só a mera discussão (econômica), com vistas ao ressarcimento do dano consu-</p><p>mado, mas a ocorrência de uma violação a um direito humano cujo gozo condicio-</p><p>na a própria existência do indivíduo. Dito de outro modo, antes mesmo de ser uma</p><p>questão de lei, trata-se de uma questão de saúde e, no limite, de vida.</p><p>Referências</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>BARROS, A. M. de. Curso de direito do trabalho. 10ª ed. São Paulo: LTr, 2016.</p><p>BELTRAMELLI NETO, S. Direitos humanos. 5ª ed. rev. ampl. e atual. São Paulo: Jus-</p><p>podivm, 2018.</p><p>BRASIL. (Constituição 1988). Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de</p><p>outubro de 1988. Brasília, DF,1988. Disponível em: . Acesso em: 12 mai. 2021.</p><p>BRASIL. Decreto nº 13.990, de 12 de janeiro de 1920. Promulga o Tratado de Paz en-</p><p>tre os países aliados, associados e o Brasil de um lado e de outro a Alemanha,</p><p>assinado em Versailles em 28 de junho de 1919. Íntegra do Tratado de Versailles</p><p>anexa. Rio de Janeiro, 1920. Disponível em: . Acesso em: 12.mai. 2021.</p><p>120</p><p>Beltramelli Neto, Zanchetta e Lustre</p><p>BRASIL. Decreto-lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943. Aprova a Consolidação das Leis</p><p>do Trabalho. Rio de Janeiro, DF, 1943. Disponível em: . Acesso em: 12.mai. 2021.</p><p>BRASIL. Lei Complementar nº 150, de 2 de junho de 2015. Dispõe sobre o contrato de</p><p>trabalho doméstico; altera as Leis no 8.212, de 24 de julho de 1991, no 8.213, de</p><p>24 de julho de 1991, e no 11.196, de 21 de novembro de 2005; revoga o inciso I</p><p>do art. 3o da Lei no 8.009, de 29 de março de 1990, o art. 36 da Lei no 8.213, de</p><p>24 de julho de 1991, a Lei no 5.859, de 11 de dezembro de 1972, e o inciso VII do</p><p>art. 12 da Lei no 9.250, de 26 de dezembro 1995; e dá outras providências. Brasília,</p><p>DF, 2015. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre a organização da Segu-</p><p>ridade Social, institui Plano de Custeio, e dá outras providências. Brasília, DF,</p><p>1991a. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991. Dispõe sobre os Planos de Benefícios da Pre-</p><p>vidência Social e dá outras providências. Brasília, DF, 1991b. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília,</p><p>DF, 2002. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 11.430, de 26 de dezembro de 2006. Altera as Leis nºs 8.213, de 24 de</p><p>julho de 1991, e 9.796, de 5 de maio de 1999, aumenta o valor dos benefícios da</p><p>previdência social; e revoga a Medida Provisória nº 316, de 11 de agosto de 2006;</p><p>dispositivos das Leis nºs 8.213, de 24 de julho de 1991, 8.444, de 20 de julho de</p><p>1992, e da Medida Provisória nº 2.187-13, de 24 de agosto de 2001; e a Lei nº 10.699,</p><p>de 9 de julho de 2003. Brasília, DF, 2006. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>BRASIL. Ministério da Economia. Portaria nº 915, de 30 de julho de 2019. Aprova</p><p>a nova redação da Norma Regulamentadora nº 01 - Disposições Gerais. Brasí-</p><p>lia, DF, 2019. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>BRASIL. Ministério do Trabalho. Portaria nº 3.214 de 8 de junho de 1978. Aprova as Normas</p><p>Regulamentadoras - NR - do Capítulo V, Título II, da Consolidação das Leis do Trabalho,</p><p>relativas à Segurança e Medicina do Trabalho. Brasília, DF, 1978. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>121</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no...</p><p>LLORY, M.; MONTMAYEUL, R., Acidente e organização. Belo Horizonte: Fabrefac-</p><p>tum, 2014.</p><p>MELO, R. S. de. Direito ambiental do trabalho e saúde do trabalhador. 5ª ed. São</p><p>Paulo: LTr, 2013.</p><p>OLIVEIRA, S. G. de. Proteção jurídica à saúde do trabalhador. 5ª ed. rev., ampl. e</p><p>atual. São Paulo: LTr, 2010.</p><p>ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Constituição da Organização In-</p><p>ternacional do Trabalho e seu anexo (Declaração de Filadélfia). Montreal, 1946.</p><p>Disponível em: . Acesso</p><p>em: 12.mai.2021.</p><p>ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Convenção 155 – Segurança e</p><p>saúde dos trabalhadores. Aprovada na 67ª reunião da Conferência Internacio-</p><p>nal do Trabalho. Genebra, 1981. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Convenção 161 – Serviços de</p><p>saúde do trabalho. Aprovada na 71ª reunião da Conferência Internacional do</p><p>Trabalho. Genebra, 1985. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>RAMAZZINI, B. As doenças dos trabalhadores. 4ª ed. São Paulo: Fundacentro, 2016.</p><p>ROSEN, G. Uma história da saúde pública. São Paulo: Hucitec; Ed. Unesp, 1994.</p><p>SÃO PAULO (Estado). Lei nº 9.505, de 11 de março de 1997. Disciplina as ações e</p><p>os serviços de saúde dos trabalhadores no Sistema Único de Saúde. São Pau-</p><p>lo, SP, 1997. Disponível em: . Acesso em: 12.mai.2021.</p><p>SILVA, H. B. M. Curso de Direito do Trabalho aplicado. v.3. Saúde e segurança do</p><p>trabalho. 3. ed. São Paulo: Livraria RT, 2017.</p><p>SILVA, J. A. R. de O. A saúde do trabalhador como um direito humano: conteúdo</p><p>essencial da dignidade humana. São Paulo: LTr, 2008.</p><p>SÁUDE</p><p>DOS TRABALHADORES</p><p>Seção II</p><p>Ilustração de abertura da Seção II - Saúde dos Trabalhadores</p><p>Título da aquarela: (Des)construção</p><p>Artista: Márcia Elizabéte Schüler</p><p>125</p><p>A relação entre</p><p>saúde, trabalho e</p><p>adoecimento</p><p>5</p><p>René Mendes</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>127</p><p>1. Introdução</p><p>Este capítulo tem por objetivo despertar o interesse pelas relações entre tra-</p><p>balho e saúde, como primeiro passo para um desejável pacto em defesa da vida e</p><p>da saúde no mundo do trabalho. O objetivo é imenso e o espaço é curto e finito.</p><p>Optamos, portanto, em primeiro lugar, por selecionar alguns registros históri-</p><p>cos acerca das relações entre o trabalho e a saúde/doença, os quais não apenas</p><p>agregam erudição aos engenheiros e às engenheiras, futuros profissionais, como</p><p>ajudam a despertar o seu olhar e a aumentar sua sensibilidade e preocupação, já</p><p>que vocês estarão (ou já estão) em posição de atuar preventivamente, ou corre-</p><p>tivamente, a fim de que o modo de “ganhar a vida” não se transforme no modo</p><p>de “perder a vida”, em todos os sentidos, isto é, em qualidade e em quantidade.</p><p>Na segunda parte deste breve texto, tentamos enunciar alguns conceitos fun-</p><p>damentais, não por meio de definições formais e literais, mas de informações e</p><p>ideias, exatamente focadas neste esforço de fazer com que o trabalho contribua</p><p>para o bem-estar e a saúde de todos e todas que trabalham. Engenheiros(as) são</p><p>ou serão profissionais gestores habilitados para os seus próprios empreendimen-</p><p>tos e para planejar e administrar os empreendimentos de outros. Portanto, estão</p><p>(ou estarão) em posição privilegiada para cuidar de que o Trabalho promotor de</p><p>bem-estar e saúde jamais seja transformado em Trabalho nocivo à saúde, portan-</p><p>to promotor de sofrimento, doença, incapacidade e morte1. Exatamente o contrá-</p><p>rio de sua função social.</p><p>Bem-vindos e bem-vindas ao “pacto pela vida e pela saúde”!</p><p>2. Alguns registros históricos selecionados</p><p>que ajudaram a desvelar os impactos</p><p>adversos do trabalho sobre a vida e saúde de</p><p>trabalhadores</p><p>2.1 Há trabalhadores que vivem “menos” (morrem “mais”) porque morrem</p><p>“antes”. Por que?</p><p>1 - Veja, por exemplo, o texto 7 deste livro, “Acidentes e doenças: violência no cotidiano dos trabalhadores”.</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>128</p><p>Parece ter sido a partir do senso comum e da sensibilidade mais aguda de ar-</p><p>tistas, pintores e poetas, a observação de que, em algumas profissões e em alguns</p><p>locais de trabalho, as pessoas “morrem mais”, ou seja, a frequência do evento mor-</p><p>te parece ser mais elevada, numa leitura intuitiva do que seria, por exemplo, uma</p><p>taxa de mortalidade diferenciada por profissão: número de mortes (numerador)</p><p>entre a população exposta ao risco de morrer (denominador), num determinado</p><p>período de tempo2. Outros rotularam como sendo “morrer antes”, o que, na vari-</p><p>ável tempo, pode ser uma forma de ver o “morrer mais”, e, por antecipação, o uso</p><p>de um conceito de “anos potenciais de vida perdidos”. Explicando: quem tinha</p><p>uma “expectativa de vida ao nascer”, por exemplo, de 75 anos, se vier a morrer aos</p><p>40 anos (devido a um acidente do trabalho ou a uma doença profissional grave),</p><p>deixará de viver 35 anos! Que triste!</p><p>Com efeito, há mais de dois milênios, o poeta romano Lucrécio (c. 94-55 a.C.),</p><p>refletindo sobre as condições de trabalho na mineração do ouro, parece ter sido o</p><p>primeiro a registrar o encurtamento da vida dos trabalhadores das minas subterrâ-</p><p>neas, nos postos de trabalho mais pesados, insalubres e perigosos. Perguntava, en-</p><p>tão, perplexo e indignado: “Não viste ou ouviste como morrem em tão pouco tem-</p><p>po, quando ainda tinham tanta vida pela frente?” (apud RAMAZZINI, 2016, p. 31).</p><p>E isso continuou a ocorrer ao longo dos séculos e dos milênios, de certa forma,</p><p>até os dias de hoje. Assim, observação similar é feita por um médico e estudio-</p><p>so da mineração metálica, Georgius Agricola (ou Georg Bauer) (1494-1555), em</p><p>seu livro De Re Metallica. Após estudar diversos aspectos relacionados à extração</p><p>de metais argentíferos e auríferos e à sua fundição, dedica o último capítulo aos</p><p>acidentes do trabalho e às doenças mais comuns entre os mineiros. Este autor</p><p>dá destaque especial à chamada “asma dos mineiros”, provocada por poeiras que</p><p>descreveu como sendo “corrosivas”. A descrição dos sintomas e a rápida evolução</p><p>da doença sugerem tratar-se de silicose, eventualmente acompanhada de câncer</p><p>de pulmão. Segundo as observações de Agricola (MENDES, 2018a), em algumas</p><p>regiões extrativas, as mulheres chegavam a casar sete vezes, roubadas que eram</p><p>de seus maridos, pela morte prematura dos seus maridos trabalhadores da mi-</p><p>neração. De forma mais bem elaborada e com recursos mais sofisticados de esta-</p><p>tística, William Farr (1807-1883), trabalhando no departamento de Estatística do</p><p>General Register Office da Inglaterra, analisou o mesmo problema, isto é, o im-</p><p>pacto do trabalho na mineração subterrânea, sobre a morbidade e a mortalidade</p><p>2 - Para a compreensão desta e de outras taxas, recomendamos a análise do Quadro 3 (indicadores e dados básicos</p><p>para a saúde), no capítulo 8 deste livro.</p><p>Mendes</p><p>129</p><p>dos trabalhadores, demonstrando, de forma metodologicamente rigorosa, que</p><p>eles morriam muito “mais” e muito “antes”, devido às suas condições de trabalho</p><p>(MENDES, 2018c).</p><p>Analisando estatísticas, William Farr conseguiu demonstrar o que até então</p><p>eram observações leigas e sem comprovação:</p><p>• Trabalhadores da mineração morriam mais e morriam mais cedo, por to-</p><p>das as causas de morte, o que era visível pelas taxas de mortalidade mais</p><p>elevadas do que as de não mineiros, em cada faixa etária.</p><p>• Trabalhadores morriam mais, ou morriam mais cedo, por doenças res-</p><p>piratórias.</p><p>• Era possível quantificar este “excesso” de mortes: na região da Cornualha</p><p>(Cornwall), o excesso de mortes chegava a ser quase cinco vezes mais ele-</p><p>vado na faixa etária de 45-55 anos, e de quase oito vezes na faixa etária de</p><p>55-65 anos. Essa forma de comparar constitui o fundamento do raciocínio</p><p>de “risco relativo”, que passou a ser uma das técnicas mais utilizadas nos</p><p>estudos de coortes (seguimento, follow-up) de trabalhadores em geral</p><p>(MENDES, 2018c).</p><p>Observações similares constam da obra clássica de Friedrich Engels (1820-</p><p>1895) A situação da classe trabalhadora em Inglaterra, originalmente publicada na</p><p>Alemanha, em 1845.</p><p>Para ilustrar, citamos um pequeno trecho, selecionado para este capítulo:</p><p>Em Liverpool, a duração média da vida em 1840 para as classes su-</p><p>periores (gentry, professional men etc.) era de 35 anos; a dos homens</p><p>de negócios e dos artesãos abastados, de 22 anos; a dos operários,</p><p>jornaleiros e domésticas em geral, de apenas 15 anos (ENGELS,</p><p>1975, p. 149).</p><p>Seguiremos o nosso percurso de ideias e de tentativa de sistematização.</p><p>2.2 Há trabalhadores e trabalhadoras que adoecem “mais” e adoecem “an-</p><p>tes”. Por que?</p><p>Além das observações já comentadas a propósito da morte prematura de tra-</p><p>balhadores, muito do pensamento epidemiológico vem das observações precisas</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>130</p><p>do médico italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714). Na verdade, o destaque</p><p>nesta história é seu livro De Morbis Artificum Diatriba (Tratado sobre as doenças</p><p>dos trabalhadores), traduzido para português sob o título As doenças dos traba-</p><p>lhadores (RAMAZZINI, 2016).</p><p>Chamamos a atenção ao fato de que não era costume dos médicos de então</p><p>(e, às vezes, até dos de hoje) dar atenção aos trabalhadores mais humildes – arte-</p><p>sãos e artesãs – e Ramazzini teve a sensibilidade social de ouvir, conhecer, atender</p><p>e tratar essas pessoas da base da pirâmide social. Aliás, para poder entender o que</p><p>se passava com elas, Ramazzini relata no prefácio de sua obra clássica de 1700:</p><p>Eu, quanto pude, fiz o que estava ao meu alcance, e não me con-</p><p>siderei diminuído visitando, de quando em quando, sujas oficinas</p><p>a fim de observar segredos da arte mecânica. [...] Das oficinas dos</p><p>artífices, portanto, que são antes escolas de onde saí mais instruído,</p><p>tudo fiz para descobrir o que melhor poderia satisfazer o paladar</p><p>dos curiosos, mas, sobretudo, o que</p><p>é mais importante, saber aquilo</p><p>que se pode sugerir de prescrições médicas preventivas ou curati-</p><p>vas, contra as doenças dos trabalhadores (RAMAZZINI, 2016, p. 24).</p><p>Esta é uma das mensagens que gostaríamos de trazer a todos vocês: conhecer</p><p>bem os locais de trabalho pode ajudar a despertar a preocupação e o cuidado</p><p>pelas condições de trabalho e pela situação dos homens e mulheres que vivem</p><p>de seu trabalho.</p><p>Outra mensagem que trazemos, que foi a grande novidade para um médico</p><p>de então, e continua sendo uma obrigação e oportunidade para todos os profis-</p><p>sionais que atuam na interface entre saúde e trabalho, como podem ser enge-</p><p>nheiros e engenheiras, isto é: perguntar pela profissão, sempre!</p><p>Atentemos para o ensinamento de Ramazzini:</p><p>Um médico que atende um doente deve informar-se de muita coisa</p><p>a seu respeito pelo próprio e por seus acompanhantes [...]. A estas</p><p>interrogações devia acrescentar-se outra: “e que arte exerce?”. Tal</p><p>pergunta considero oportuno e mesmo necessário lembrar ao mé-</p><p>dico que trata um homem do povo, que dela se vale para chegar às</p><p>causas ocasionais do mal, a qual quase nunca é posta em prática,</p><p>ainda que o médico a conheça. Entretanto, se a houvesse observa-</p><p>do, poderia obter uma cura mais feliz (RAMAZZINI, 2016, p. 24-25).</p><p>Mendes</p><p>131</p><p>Seu livro clássico – As doenças dos trabalhadores – foi organizado por pro-</p><p>fissão e em cada um dos mais de 50 itens aborda uma profissão da época. Ele</p><p>entendia que o modo de viver, a profissão e o modo de exercer a profissão de-</p><p>terminavam, em grande parte, tanto o perfil de adoecimento, quanto o de mor-</p><p>te. Buscava responder à pergunta: de que adoecem e morrem os trabalhadores?</p><p>Uma pergunta que deveria ser feita por todos nós, que nos relacionamos com</p><p>as pessoas e com o trabalho!</p><p>Aliás, aproveitamos essa pergunta e comentário para lembrar que De que</p><p>adoecem e morrem os trabalhadores foi o título emblemático do livro publicado</p><p>pelo Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e dos Am-</p><p>bientes de Trabalho (Diesat), organizado pelos médicos Herval Pina Ribeiro e</p><p>Francisco Antônio de Castro Lacaz (RIBEIRO; LACAZ, 1984). Mais do que uma</p><p>pergunta, o livro era uma resposta dramática. Mais do que uma resposta dramá-</p><p>tica, uma denúncia e um verdadeiro libelo.</p><p>Vejamos juntos alguns exemplos que selecionamos para vocês, com a ressalva</p><p>de que os conceitos científicos possivelmente evoluíram nestes mais de 320 anos</p><p>(desde 1700), mas o mérito das observações e registros ainda permanece vivo e</p><p>atual, carecendo – por certo – de resgate e valorização (Quadro 1).</p><p>Profissão e atividade</p><p>analisada Impactos sobre a morbidade e mortalidade</p><p>I Doenças dos mineiros. “[...] as mulheres que com eles se casam estão sujeitas</p><p>a contraírem novas núpcias, porque ficam logo viú-</p><p>vas” (p. 31).</p><p>II Doenças dos</p><p>douradores.</p><p>“Poucos envelhecem nesse ofício e os que não su-</p><p>cumbem em pouco tempo caem num estado tão</p><p>calamitoso, que é preferível desejar-lhes a morte”</p><p>(p. 40).</p><p>XVII Doenças dos</p><p>coveiros.</p><p>“[...] não vi um coveiro chegar à velhice” (p. 109).</p><p>XXIII Doenças dos</p><p>peneiradores e</p><p>medidores de cereais.</p><p>“[...] que vivem dessa ocupação são todos fatigados</p><p>e caquéticos, raramente chegam à velhice” (p. 151).</p><p>XXVIII Doenças dos</p><p>salineiros.</p><p>“os operários do sal morrem repentinamente"</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>132</p><p>XXXII Doenças dos</p><p>corredores</p><p>“Os corredores de nossa época, quando chegam aos</p><p>quarenta anos, merecem afastamento do seu mister, e</p><p>são encaminhados aos nosocômios públicos” (p. 184).</p><p>XXXV Doenças dos</p><p>atletas.</p><p>“[...] muitos faleciam subitamente” (p. 195).</p><p>“[...] morte repentina; [...] isso sucedia com mais frequ-</p><p>ência depois que eles saíam do [...]ócio [...] e metiam-</p><p>-se em combates e em discussões” (p. 195).</p><p>XXXVIII Doenças dos</p><p>agricultores.</p><p>“[...] terminada a colheita no agro romano, uma turba</p><p>de ceifadores enfermos enche todos os anos os no-</p><p>socômios da cidade; e não se pode dizer claramente</p><p>quem morre mais pela foice libitina do que pela lan-</p><p>ceta dos cirurgiões” (p. 210).</p><p>IV Doenças dos tecelões</p><p>(Suplemento).</p><p>“É necessário que as tecelãs, dedicadas exclusivamen-</p><p>te a essa arte, sejam sadias e robustas, do contrário o</p><p>excessivo trabalho as fatiga e, chegadas à idade adul-</p><p>ta, são forçadas a abandonar sua profissão” (p. 259).</p><p>IX Doenças dos</p><p>poceiros (Suplemento).</p><p>“[...] e quando chegam aos quarenta anos ou cin-</p><p>quenta, despedem-se de sua profissão e, ao mesmo</p><p>tempo, da vida, pois é mísera a condição desses arte-</p><p>sãos” (p. 275).</p><p>X Doenças dos</p><p>marinheiros e dos</p><p>remeiros (Suplemento).</p><p>“Os marinheiros e todos aqueles operários da nave-</p><p>gação, por causa de algum elemento sideral que é</p><p>ignorado, envelhecem raramente, suportando as in-</p><p>clemências do mar, como os que vivem nos exércitos”</p><p>(p. 279).</p><p>Quadro 1: exemplos de como Bernardino Ramazzini (1633-1714) descreveu o adoecimento dos traba-</p><p>lhadores das profissões mais comuns de sua época.</p><p>Fonte: o autor com base em Ramazzini (2016).</p><p>Sobre os mineiros subterrâneos (minas de mercúrio), descreveu Ramazzini</p><p>(2016, p. 31-32): “[...] apenas conseguem atingir três anos de trabalho [...]; no es-</p><p>paço de quatro meses apenas, aparecem tremores dos membros, tornando-se</p><p>vertiginosos e paralíticos [...]”. A respeito dos oleiros e ceramistas (trabalhavam</p><p>com chumbo quente): “Primeiramente surgem tremores nas mãos, depois ficam</p><p>paralíticos, dementes [...]” (p. 51). Os pintores (expostos a pigmentos e solventes)</p><p>tinham “tremores nas mãos e nos dedos”, “vivem segregados do convívio social”</p><p>e sofrem de “melancolia” (p. 62). Quanto aos amoladores (afiadores): “[...] labutam</p><p>o dia inteiro, e, ainda mais, aqueles que não têm a cabeça muito firme, depois do</p><p>Mendes</p><p>133</p><p>trabalho, ficam vendo a mó dar voltas em sua mente” (p. 266). Sobre os padeiros,</p><p>Ramazzini descreveu: “[...] eles trabalham de noite e dormem quase todo o dia,</p><p>como as pulgas, pelo que temos nesta cidade antípodas, que vivem ao contrário</p><p>dos demais homens” (p. 140).</p><p>Ainda que alguns termos tenham mudado, bem como muitos processos de</p><p>trabalho, permanece a importância da obra e dos ensinamentos, os quais são</p><p>aqui trazidos, menos para homenagear o mestre Bernardino Ramazzini, mais para</p><p>despertar a sensibilidade dos engenheiros e engenheiras – atuais e futuros – para</p><p>que atentem aos processos de trabalho, também com idêntica sensibilidade hu-</p><p>mana a esta nossa grande referência, e cientes de que podem se empoderar para</p><p>que estas descrições não se repitam jamais, neste século XXI.</p><p>2.3 Há trabalhadores e trabalhadoras que parecem ter muito mais idade do</p><p>que realmente têm. Por que?</p><p>Nesta rápida passada por alguns registros históricos da construção do conhe-</p><p>cimento sobre as relações entre trabalho e saúde/doença, gostaria de convidar</p><p>você a que recuasse no tempo, aproximadamente 175 anos, e acompanhasse as</p><p>visitas às fábricas de Manchester e outras cidades inglesas, guiado(a) pelo irre-</p><p>quieto alemão Friedrich Engels. Ele está a analisar a situação da classe trabalha-</p><p>dora na Inglaterra3, e seu livro homônimo será publicado em 1845, ainda que as</p><p>traduções ao inglês e ao francês tenham demorado outros 50 anos. A edição em</p><p>português, que tenho em mãos, é de 1975, mas há outras.</p><p>O que eu gostaria de lembrar, no entanto, é que Engels talvez tenha sido um</p><p>dos primeiros a registrar em livro a estranha observação de que os trabalhadores</p><p>das fiações e tecelagens daquela região aparentavam ser mais idosos do que sua</p><p>idade cronológica apontava. Veja como ele relatou em seu livro:</p><p>Devido aos efeitos debilitantes do trabalho na fábrica, os homens</p><p>envelhecem muito cedo. A maior parte está, aos 40 anos, incapaci-</p><p>tada para trabalhar. Alguns mantêm-se até aos 45; quase nenhu-</p><p>ma atinge 50, sem que seja obrigado a parar de trabalhar (ENGELS,</p><p>1975. p. 207).</p><p>3 - Pode-se dizer que Engels desenvolveu ações semelhantes às de vigilância em saúde e você poderá aprofundar</p><p>este conceito e prática no texto 8 deste livro, intitulado “Vigilância em saúde do trabalhador”.</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>134</p><p>Mais adiante:</p><p>Em Manchester, este envelhecimento precoce dos operários é tão</p><p>comum que qualquer quadragenário parece ser dez ou 15 anos</p><p>mais velho, enquanto as pessoas das classes favorecidas, homens e</p><p>mulheres, conservam um bom aspecto se não beberem demasiado</p><p>(ENGELS, 1975. p. 208).</p><p>Tais observações de Engels nada tinham a ver com problemas dermatológicos.</p><p>Eventualmente, excesso de exposição à radiação solar pode provocar envelheci-</p><p>mento precoce da pele e isto tem sido descrito em marinheiros, em trabalhadores</p><p>da lavoura e em outras atividades. Quem cuida da sua pele sabe que o excesso</p><p>de sol enruga e envelhece a pele, e como acabamos de dizer, isto também pode</p><p>ocorrer com trabalhadores a céu aberto e sem proteção.</p><p>Contudo, no caso relatado por Engels e, também, extremamente presente nos</p><p>dias de hoje, o envelhecimento precoce ou prematuro está associado ao desgaste</p><p>pelo trabalho excessivo e em condições adversas. Apesar de ser uma categoria</p><p>ainda não muito reconhecida por muitos médicos, o desgaste pelo trabalho tem</p><p>o seu lugar e deve ser valorizado por todos nós, posto que ele está cada vez mais</p><p>presente no mundo do trabalho contemporâneo4.</p><p>A rigor, a adoção e o reconhecimento (majoritário) deste importante conceito es-</p><p>tão vinculados a dois pesquisadores mexicanos – Asa Cristina Laurell e Mariano Norie-</p><p>ga –, os quais escreveram um livro que se tornou referência para nós, principalmente</p><p>os latino-americanos, a saber: Processo de produção e saúde: trabalho e desgaste operá-</p><p>rio (LAURELL; NORIEGA, 1989). Para estes autores, o desgaste seria resultante</p><p>[...] dos elementos que interatuam dinamicamente entre si e com</p><p>o corpo do trabalhador, gerando aqueles processos de adaptação</p><p>que se traduzem em desgaste, entendido como perda da capacida-</p><p>de potencial e/ou efetiva corporal e psíquica (LAURELL; NORIEGA,</p><p>1989. p. 110).</p><p>Uma extensão do conceito de desgaste operário é o de desgaste mental, in-</p><p>troduzido pela professora Edith Seligmann-Silva, para quem, o desgaste mental</p><p>seria visualizado como</p><p>4 - Veja, por exemplo, os capítulos 1 e 7 deste livro.</p><p>Mendes</p><p>135</p><p>[...] produto de uma correlação desigual de poderes impostos sobre</p><p>o trabalho e sobre o trabalhador, acionando forças que incidem no</p><p>processo biopsicossocial saúde-doença. Ou melhor, uma correlação</p><p>de poderes e forças em que o executante do trabalho se torna per-</p><p>dedor (SELIGMANN-SILVA, 2011. p. 135).</p><p>Para esta autora, é nas interseções entre processo de trabalho e processo</p><p>saúde-doença que determinações de ordem sociopolítica e econômica passam</p><p>a atuar. Nas situações de trabalho dominado, completa a autora, “a desvanta-</p><p>gem que faz com que o corpo e os potenciais psíquicos do trabalhador sejam</p><p>consumidos pelo processo de trabalho e por constrangimentos a ele vincula-</p><p>dos se configura como desgaste” (SELIGMANN-SILVA, p. 136).</p><p>Assim, ao encerrar estas breves considerações a respeito do envelhecimento</p><p>precoce enquanto uma das expressões do sofrimento provocado pelo trabalho,</p><p>cabe “a pergunta que não quer calar”: por que? Por que o trabalho ainda está as-</p><p>sociado à velha ideia de castigo, sofrimento, que a etimologia da palavra evoca?</p><p>Isto é, o tripalium como um instrumento de castigo e tortura?</p><p>2.4 Há trabalhadores que adoecem e morrem por doenças relacionadas ao</p><p>trabalho muito tempo após sua exposição a trabalhos nocivos. Por que?</p><p>Bernardino Ramazzini ensinara sobre a importância da pergunta sobre a pro-</p><p>fissão ou ocupação do(a) paciente. Porém, frente ao intenso movimento migrató-</p><p>rio, do campo para as cidades, e ao recrutamento febril das indústrias – principal-</p><p>mente têxteis, siderúrgicas e mecânico-metalúrgicas – já não bastava perguntar</p><p>sobre a profissão atual, e sim ampliar a pergunta “fotográfica” de Ramazzini, para</p><p>uma dimensão dinâmica, horizontal e histórica, mais tarde rotulada como “anam-</p><p>nese ocupacional” ou “história ocupacional”. Isto é, mais filme retroativo, de longo</p><p>prazo, que fotografia instantânea...</p><p>Pois bem. O médico cirurgião Percivall Pott (1714-1788) introduziu na anam-</p><p>nese de seus pacientes, homens em seus 40, 50 ou 60 anos, a reconstituição de</p><p>seu histórico de trabalho, o que o levou a observar que – quase todos – tinham</p><p>em comum o antecedente, pobres que eram, de haverem trabalhado, quando</p><p>meninos (sete, oito, nove, dez anos de idade), como limpadores de chaminé.</p><p>Explique-se que era atividade feita na primavera e no verão, e o processo de</p><p>trabalho exigia entrar nas chaminés, raspá-las e escová-las por dentro. Havia</p><p>que ser, antes de tudo, pobre, mas, também, muito jovem, pequeno, magro,</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>136</p><p>com “diâmetro” suficiente para subir e descer nas chaminés, como se escovões</p><p>vivos fossem.</p><p>Percivall Pott (MENDES, 2018b, p. 871), ao mesmo tempo em que formulou a</p><p>hipótese original (em 1775), de que o processo de trabalho dos meninos limpa-</p><p>dores de chaminé – ao entrarem, praticamente desnudos, e se esfregarem e se</p><p>machucarem no vai e vem dentro dos estreitos “espaços confinados” – estivesse</p><p>na origem do câncer de escroto dos homens adultos, contribuiu, também, com</p><p>um dos pilares do pensamento causal em câncer (ocupacional e/ou ambiental),</p><p>que é o do tempo de latência, geralmente longo, entre o início da exposição e o</p><p>aparecimento da neoplasia.</p><p>Ressalte-se que o raciocínio epidemiológico de Pott, no século XVIII, antecipou</p><p>em quase 150 anos a confirmação de sua “hipótese causal”, depois que Yamagiwa</p><p>e Ichikawa reproduziram, experimentalmente, o epitelioma associado à fuligem,</p><p>na orelha de coelhos (por volta de 1914, 1915), e, mais tarde, quando se descobriu</p><p>que a substância química cancerígena, na fuligem incrustada nas chaminés, era o</p><p>3,4-benzopireno (MENDES, 2018b, p. 871).</p><p>Deve ser ressaltado que as explicações causais formuladas por Percival Pott,</p><p>com a publicação de seu trabalho, em 1775 – quando a doença passou a ser de-</p><p>nominada “câncer dos limpadores de chaminés”, produziram grande impacto,</p><p>não apenas no meio médico, como, também, no Parlamento, na família real e na</p><p>sociedade de então, o que resultou em iniciativas legislativas para regulamentar</p><p>o trabalho infantil. Paralelamente, abundaram sugestões de alternativas tecnoló-</p><p>gicas rudimentares, capazes de substituir o trabalho humano, aliás, trabalho de-</p><p>sumano, feito no interior das chaminés de casas e prédios que utilizam o carvão</p><p>mineral para fins de aquecimento interno, no inverno.</p><p>Como acontece ainda hoje, não apenas lá, como aqui e em toda parte, hou-</p><p>ve fortes tentativas para desqualificar as explicações causais do câncer de es-</p><p>croto dos trabalhadores e contrárias ao trabalho de meninos no interior das</p><p>chaminés, não faltando quem argumentasse que o câncer de escroto seria um</p><p>preço relativamente pequeno a ser pago pela sociedade (sic), se comparado</p><p>com o custo dos incêndios e perdas materiais, decorrentes de chaminés sujas e</p><p>incrustadas de fuligem...</p><p>Hoje, outros são os inumeráveis agentes cancerígenos (carcinogênicos), isto</p><p>é, que provocam câncer, e as listas não param de crescer. Aliás, o problema do</p><p>câncer relacionado ao trabalho não é um problema médico, e, sim, de concepção</p><p>do processo de trabalho e de escolha de tecnologias, ou seja, também de enge-</p><p>nheiros e engenheiras (INSTITUTO..., 2013).</p><p>Mendes</p><p>137</p><p>3. O trabalho seria um determinante de bem-es-</p><p>tar social e saúde? Quando é nocivo à saúde,</p><p>ele pode promover sofrimento, doença, inca-</p><p>pacidade e morte?5</p><p>3.1 O trabalho seria um determinante de bem-estar social e saúde?</p><p>Um bom ponto de partida para o tema deste texto é ler, analisar e refletir, em</p><p>primeiro lugar, sobre o que é dito a respeito do trabalho, nos artigos 193 e 170 da</p><p>Constituição Federal de 1988:</p><p>"A ordem social tem como base o primado do trabalho, e como objetivo</p><p>o bem-estar e a justiça sociais" (BRASIL, 1988, Art. 193, grifos nossos).</p><p>"A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na</p><p>livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos, existência</p><p>digna, con-</p><p>forme os ditames da justiça social" (BRASIL, 1988, Art. 170, grifos nossos).</p><p>A análise e a reflexão sobre estes dois enunciados constitucionais nos condu-</p><p>zem a algumas perguntas6:</p><p>• Nas atuais condições brasileiras, a valorização do trabalho ainda faz</p><p>sentido?</p><p>• A falta de trabalho (emprego) estaria associada ao contrário do que</p><p>está enunciado, isto é, à impossibilidade de alcançar o bem-estar e a</p><p>justiça sociais?</p><p>• Além do desemprego, a precarização do trabalho, com degradação das</p><p>condições e ambientes de trabalho e das relações de trabalho, não seria</p><p>exatamente oposta ao direito ao “bem-estar”, ao direito a uma “existência</p><p>digna” e, portanto, formas de “injustiça social”?</p><p>• É possível resgatar a intencionalidade dos que redigiram e aprovaram</p><p>nossa “Constituição Cidadã”, de 1988?</p><p>5 - Recomendamos a leitura da seção 2 do capítulo 8 deste livro.</p><p>6 - Para o desenvolvimento dessas reflexões, seria importante a leitura e estudo dos capítulos 1 e 7 deste livro.</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>138</p><p>O que está ao alcance de cada um de nós? O que você pode fazer para que o</p><p>trabalho possa, de fato, ser um promotor de bem-estar social e o principal meio</p><p>para alcançar a justiça social?</p><p>Uma segunda reflexão que pode ser feita nesta introdução às questões de saú-</p><p>de em relação ao trabalho surge a partir da leitura atenta e crítica dos primeiros</p><p>artigos da “Lei Orgânica da Saúde”, Lei nº 8.080 (BRASIL, 1990):</p><p>"Art. 2o A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o</p><p>Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.</p><p>§ 1o O dever do Estado de garantir a saúde consiste na formulação e</p><p>execução de políticas econômicas e sociais que visem à redução</p><p>de riscos de doenças e de outros agravos e no estabelecimento de</p><p>condições que assegurem acesso universal e igualitário às ações e aos</p><p>serviços para a sua promoção, proteção e recuperação.</p><p>§ 2o O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empre-</p><p>sas e da sociedade.</p><p>Art. 3o Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica</p><p>do País, tendo a saúde como determinantes e condicionantes, entre</p><p>outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambi-</p><p>ente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o</p><p>lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais" (grifos nossos).</p><p>Muitas questões poderiam ser formuladas a partir deste rico enunciado. Para</p><p>os objetivos deste capítulo e em continuação às perguntas anteriores, faremos</p><p>apenas cinco provocações ou questionamentos:</p><p>• Como podem políticas econômicas e sociais ser efetivas para reduzir ris-</p><p>cos de doenças e outros agravos (acidentes, intoxicações etc.)?</p><p>• Você lembra de políticas econômicas e sociais em prol da vida e da saúde</p><p>das pessoas (em geral), de trabalhadores, e seria capaz de citá-las, men-</p><p>cionar o seu impacto positivo?</p><p>• Ao contrário: você lembra e pode identificar políticas econômicas e so-</p><p>ciais contrárias à vida e à saúde, principalmente de trabalhadores?</p><p>• Lendo o texto extraído da Lei Orgânica da Saúde, qual é a sua opinião (ou</p><p>experiência) a respeito do trabalho como um “indutor’, promotor” ou “de-</p><p>terminante e condicionante” de saúde das pessoas? Apenas como meio de</p><p>Mendes</p><p>139</p><p>vida, para quem não tem outro meio? Busque ampliar as dimensões deste</p><p>suposto papel do trabalho.</p><p>• Um bom enunciado atual para “classe trabalhadora” tem sido: “classe das</p><p>pessoas que vivem de seu trabalho”. Vivem no sentido de meio de sub-</p><p>sistência, mas lhe perguntamos: além das pessoas que não conseguem</p><p>subsistir (viver, sobreviver) pelo seu trabalho, você conhece situações em</p><p>que para “ganhar a vida”, pessoas adoeceram? E casos em que, ao invés de</p><p>“ganhar a vida”, elas “perderam a vida”, literalmente?</p><p>Se você acompanhou o nosso raciocínio até aqui, já entendeu que todos nós –</p><p>ou quase todos nós – podemos ter um papel ativo na construção da nossa saúde</p><p>individual e da saúde dos outros, sejam eles os nossos familiares, os nossos cole-</p><p>gas de estudo ou de trabalho, sejam eles os membros de uma comunidade como</p><p>a que vivemos, ou como desejamos que ela fosse. Se você estuda Engenharia ou</p><p>já é engenheiro(a) ou professor(a) de Engenharia, sua responsabilidade é ainda</p><p>maior, com a vantagem de exercer uma profissão fundamentalmente promotora</p><p>e construtora de saúde!</p><p>3.2 Trabalho e emprego podem se constituir em “problemas” para a saúde?</p><p>Já há muitos anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) criou em sua Clas-</p><p>sificação Internacional de Doenças (CID) – atualmente em sua 10ª revisão, a cami-</p><p>nho da 11ª –, um capítulo especial, o XXI, onde está o Grupo “Z”, que reúne uma</p><p>série de “fatores que influenciam o estado de saúde”. Explica a OMS que estes</p><p>fatores não são doenças, mas circunstâncias que podem influenciar fortemente</p><p>a saúde das pessoas.</p><p>Estes fatores, na verdade, são verdadeiros determinantes sociais da saúde, e</p><p>quando dizemos da saúde, estamos também nos referindo à falta ou ausência</p><p>de saúde.</p><p>Para seguir o raciocínio até onde pretendemos chegar com vocês, vejamos</p><p>quais são estes fatores, circunstâncias ou problemas que podem influenciar a saú-</p><p>de, e como eles foram agrupados pela OMS na CID-10:</p><p>• Z55 – Problemas relacionados com a educação e a alfabetização.</p><p>• Z56 – Problemas relacionados com o emprego e o desemprego.</p><p>• Z59 – Problemas relacionados com a moradia e as circunstâncias eco-</p><p>nômicas.</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>140</p><p>• Z60 – Problemas relacionados com o ambiente social.</p><p>• Z63 – Outros problemas relacionados com o grupo primário de apoio, in-</p><p>clusive circunstâncias familiares.</p><p>• Z64/Z65 Problemas relacionados com certas circunstâncias psicossociais.</p><p>Tudo isto tem a ver com saúde. Quase intuitivamente sabemos disto. Mas pou-</p><p>cos de nós atentaram para o Código Z56 – Problemas relacionados com o empre-</p><p>go e o desemprego. Vamos, pois, detalhar e expandir este Grupo Z-56, para que</p><p>possamos nos dar conta de seu importante papel na saúde/doença.</p><p>• Z56.0 Desemprego não especificado.</p><p>• Z56.1 Mudança de emprego.</p><p>• Z56.2 Ameaça de perda de emprego.</p><p>• Z56.3 Ritmo de trabalho penoso.</p><p>• Z56.4 Desacordo com patrão e colegas de trabalho.</p><p>• Z56.5 Má adaptação ao trabalho.</p><p>• Z56.6 Outras dificuldades físicas e mentais relacionadas ao trabalho.</p><p>• Z56.7 Outros problemas e os não especificados relacionados com o emprego.</p><p>Juntos – vocês e nós – somos convidados a pensar sobre esses oito fatores</p><p>que podem influenciar, negativamente, a saúde. A nossa e a dos outros. Eles po-</p><p>dem ser mudados? Irá depender de que “lado” da equação nós estamos: somos as</p><p>vítimas ou “pacientes”, ou somos os gestores (e talvez causadores, provocadores,</p><p>algozes) desses problemas no trabalho e emprego, listados pela OMS?</p><p>3.3 Quando o trabalho se torna francamente nocivo à saúde e à vida</p><p>O passo seguinte será, então, apropriar-se um pouco mais do conhecimento</p><p>de como o trabalho – suposto promotor de bem-estar social, justiça social e saú-</p><p>de – às vezes se torna exatamente o contrário: promotor de mal-estar, promotor</p><p>de injustiça e promotor de sofrimento, doença, incapacidade e morte precoce,</p><p>prematura e evitável7.</p><p>Na verdade, há muitas formas de trabalhar esta questão, ou seja, da transfor-</p><p>mação do trabalho favorecedor de saúde, em trabalho desfavorável à saúde e à</p><p>vida. Das várias alternativas para organizar esta construção mental, conceitual,</p><p>7 - Recomendamos a leitura e estudo do capítulo 7 deste livro.</p><p>Mendes</p><p>141</p><p>mas de claras aplicações práticas, foi escolhida a de debatermos e exemplificar-</p><p>mos os conceitos de “nocivo” e “nocividade”.</p><p>Assim, num sentido genérico, nocivo é o “que causa dano, que prejudica; pre-</p><p>judicial, pernicioso”. Nocividade é a “característica do que é de nocivo” (HOUAISS;</p><p>VILLAR, 2001, p. 2.022). A etimologia de ambos os termos vem do latim nocivus,</p><p>que significa perigoso, danoso, que parte do verbo noceo, que significa lesar, ferir,</p><p>machucar (REY, 1999. p. 546).</p><p>Nos campos da Saúde dos Trabalhadores e da Segurança no Trabalho, estes</p><p>termos</p><p>são utilizados apenas de forma genérica, com o sentido de prejudicial ou</p><p>pernicioso à saúde. Imprecisamente, os termos se assemelham a dano e danoso</p><p>(à saúde); às vezes, com o sentido de perigoso, que faz mal à saúde humana, em</p><p>geral, e em particular, à saúde dos trabalhadores. Nocivo e nocividade são termos</p><p>que, no Brasil, vieram junto com a literatura técnico-científica italiana e foram mui-</p><p>to utilizados pelo professor Ivar Oddone (1923-2011), principalmente em seu livro</p><p>Ambiente de trabalho: a luta dos trabalhadores pela saúde (ODDONE et al., 1986).</p><p>Fazendo uma amalgamação de diferentes enunciados, nocivo à saúde huma-</p><p>na seria aquilo que é capaz de provocar, promover, facilitar ou exacerbar uma</p><p>anormalidade estrutural e/ou funcional, com a implicação de que a anormalidade</p><p>tem o potencial de baixar a qualidade de vida, causar incômodo, causar doença</p><p>ou incapacidade, ou levar à morte prematura.</p><p>No contexto deste texto, a grande questão é: como o trabalho pode tornar-se</p><p>nocivo ou perigoso para a saúde de trabalhadores e trabalhadoras? Vamos tentar</p><p>responder a esta pergunta, ainda que apenas esquematicamente e com uma sis-</p><p>tematização própria (Quadro 2). Vejamos.</p><p>Classificação de nocividade do trabalho e exemplos: como o trabalho pode</p><p>tornar-se nocivo ou perigoso (*)</p><p>Nocividade do trabalho determinada por processos de trabalho intrin-</p><p>secamente nocivos ou perigosos</p><p>• "Objetos de trabalho" intrinsecamente nocivos ou perigosos (exem-</p><p>plos: matérias primas de alta toxicidade “intrínseca”; gases e vapores</p><p>tóxicos; substâncias químicas tóxicas ou perigosas (chumbo, mercúrio,</p><p>cádmio, benzeno, sílica-livre etc.); substâncias químicas carcinogênicas</p><p>(asbesto, cromo, níquel etc.; outros).</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>142</p><p>• "Meios de trabalho" inadequados, desconfortáveis, nocivos ou peri-</p><p>gosos (tecnologias perigosas; máquinas ou ferramentas obsoletas, ou</p><p>sem proteção; postos de trabalho ergonomicamente mal desenhados;</p><p>veículos sem manutenção etc, outros).</p><p>• "Ambientes de trabalho" desconfortáveis, nocivos ou perigosos (ruído</p><p>excessivo; ambientes excessivamente quentes, ou excessivamente frios;</p><p>ambientes confinados; iluminação insuficiente, ou excessiva para a na-</p><p>tureza do trabalho; outros).</p><p>• "Condições de trabalho" nocivas (fatores psicossociais e organizacio-</p><p>nais; sistemas de remuneração; modelos “adoecedores” de gestão do</p><p>trabalho; assédio moral organizacional; condições ergonômicas adver-</p><p>sas; viajantes, migrantes e expatriados; outros).</p><p>Nocividade do trabalho determinada pela “dose”, “quantidade” ou “carga</p><p>de trabalho” excessivas</p><p>• "Dose" ou "quantidade" no seu sentido estrito (fatores de risco quí-</p><p>mico acima dos limites de exposição permitidos; fatores de risco físico</p><p>acima dos limites de exposição permitidos; outros);</p><p>• Conceito ampliado de "dose", "quantidade" ou "carga de trabalho"</p><p>(carga/sobrecarga de trabalho excessiva; ritmos de trabalho excessivos</p><p>e sem controle dos operadores; cobrança por metas abusivas ou inatin-</p><p>gíveis; outros).</p><p>Nocividade do trabalho determinada pela duração ou configuração do</p><p>“tempo de trabalho”</p><p>• Idade mínima de admissão ao trabalho (trabalho precoce infantil, de ado-</p><p>lescentes e de jovens; formas inaceitáveis de trabalho precoce; outros).</p><p>Duração máxima da jornada de trabalho (horas extras, sistemáticas</p><p>e prolongadas; outros).</p><p>• Pausas autorizadas, dentro da jornada de trabalho, para recuperar-se da</p><p>fadiga (necessidade – falta/ausência – de pausas espontâneas e informais</p><p>para tomar café, conversar, com os colegas, sair para fumar etc.; outros).</p><p>Mendes</p><p>143</p><p>• Períodos de descanso (necessidade – falta/ausência – de descanso se-</p><p>manal, com impactos sobre a saúde, sobre a vida social, cultural e reli-</p><p>giosa, e sobre a vida em família etc.; lazer “induzido”).</p><p>• Licenças por conta de férias remuneradas anuais e por outras razões</p><p>(necessidade – falta/ausência/ insuficiência – com impactos sobre a</p><p>saúde, sobre a vida social, cultural e familiar etc.; lazer “induzido” e con-</p><p>trolado como estratégia de dominação e consumismo; outros).</p><p>Horas e jornadas de trabalho de caráter extraordinário (horas extras</p><p>sistemáticas, obrigatórias e prolongadas; viajantes de longas distâncias;</p><p>outros).</p><p>• Trabalho noturno e trabalho em turnos (turnos “rodiziantes” e sem in-</p><p>tervalo adequado para recuperação; impactos sobre a vida familiar, vida</p><p>social; outros).</p><p>• Idade máxima de permanência na atividade (limites do envelhecimen-</p><p>to não respeitados; desconsideração das competências próprias do ido-</p><p>so; abusos e assédio moral; outros).</p><p>Extensões (ampliações) do conceito de nocividade do trabalho</p><p>• Extensão da nocividade do trabalho para o ambiente domiciliar ou</p><p>familiar (teletrabalho; trabalho em domicílio; exposições paraocupacio-</p><p>nais de risco; outros).</p><p>• Extensão da nocividade do trabalho para a comunidade circunvizinha</p><p>(impactos ambientais: ruído, poluição do ar, poluição do solo, poluição</p><p>da água; impactos sociais, culturais e socioeconômicos; outros).</p><p>• Extensão da nocividade do trabalho para o meio ambiente ampliado</p><p>ou remoto (contaminação de solos e lençóis freáticos; resíduos tóxicos</p><p>em alimentos; cadeias produtivas e ciclos de vida de alcance desconhe-</p><p>cido; outros).</p><p>• O trabalho em ambientes artificiais, especiais ou desfavoráveis à</p><p>vida humana (trabalho em grandes altitudes; trabalho em grandes</p><p>profundidades; trabalho offshore; trabalho confinado; trabalho em am-</p><p>bientes climatizados por exigências tecnológicas ou do processo de</p><p>trabalho; outros).</p><p>Quadro 2: classificação de nocividade do trabalho. Fonte: Mendes (2020).</p><p>(*) Classificação informal, desenvolvida pelo autor.</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>144</p><p>3.4 O trabalho nocivo pode impactar negativamente a saúde, de diferentes</p><p>formas e em diferentes graus</p><p>Começamos este capítulo mencionando que o trabalho numa sociedade</p><p>cidadã e justa é o meio que a maioria das pessoas tem (ou deveria ter) para</p><p>alcançar o bem-estar social. Seguimos lembrando, também, que o trabalho</p><p>pode ser um determinante social de saúde, quer como meio de vida, quer</p><p>agregando e desenvolvendo outras dimensões da vida. Numa sociedade justa</p><p>e cidadã, os trabalhadores e trabalhadoras se fazem respeitar pela sua força,</p><p>pela sua capacidade, sua inteligência, e ter uma profissão e um emprego justo</p><p>pode proporcionar o desenvolvimento de outras dimensões da vida. Vimos,</p><p>também, que, infelizmente, existem inúmeras formas de o trabalho se tornar</p><p>pernicioso, nocivo para a saúde e a vida de quem trabalha. Homens e mulhe-</p><p>res de todas as idades podem ter a sua vida prejudicada pelo trabalho e com</p><p>isso podem adoecer, se incapacitar, adquirir deficiências e limitações, e po-</p><p>dem morrer. A esta altura, já estamos alinhados com a não aceitação passiva</p><p>dessa possibilidade e ameaça. Estamos alinhados, também, com a intenção, o</p><p>dever, a obrigação de lutarmos contra estas ameaças, pois elas não são inexo-</p><p>ráveis, não são “fatalidades”, não são “má sorte”. Elas são socialmente constru-</p><p>ídas, e como tal, podemos intervir sobre elas.</p><p>Contudo, para direcionar nossas intervenções, de precaução de prevenção, de</p><p>cuidado e de reparação, é preciso tornar mais claro que a natureza da ação deleté-</p><p>ria do trabalho sobre a saúde de quem trabalha pode se apresentar em diferentes</p><p>formas, e, também, em diferentes graus de intensidade. Estaremos, então, a cami-</p><p>nho do pensamento causal, que, às vezes, é denominado “nexo causal”, ou seja, a</p><p>relação de causa versus efeito.</p><p>Para facilitar esta tarefa, nós iremos ler juntos um pequeno texto, produzido</p><p>pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o qual ajuda a organizar estas ideias.</p><p>A OMS denomina tudo como “doenças relacionadas ao trabalho”, mas a natureza</p><p>e o grau desta relação podem ser diferentes.</p><p>[...] se o trabalho produzir excesso de risco, ele poderá afetar a saú-</p><p>de, por meio de um ou mais dos seguintes modos:</p><p>i. causando doenças profissionais decorrentes de exposições espe-</p><p>cíficas químicas, físicas ou biológicas;</p><p>ii. promovendo</p><p>o agravamento de doenças existentes, de origem</p><p>não ocupacional;</p><p>Mendes</p><p>Usuário</p><p>Retângulo</p><p>145</p><p>iii. constituindo-se em um fator de risco de doenças de etiologia</p><p>múltipla (ORGANIZAÇÃO..., 1985).</p><p>Este pequeno trecho da OMS, sobre as “doenças relacionadas ao trabalho”, já</p><p>ajuda a organizar o nosso pensamento, pois se mostram diferentes os graus (e os</p><p>termos) utilizados para o papel do trabalho na produção de ataques à saúde de</p><p>quem trabalha.</p><p>Uma primeira forma é a possibilidade de o trabalho nocivo ser causa de do-</p><p>enças próprias (chamadas de “doenças profissionais”), que não ocorreriam se ele</p><p>não existisse, ou se ele não fosse exercido em condições potencialmente nocivas</p><p>ou patogênicas (isto é, capazes de causar adoecimento, dano etc.). O exemplo</p><p>mais típico e conhecido é a silicose, uma doença respiratória crônica, grave e pro-</p><p>gressiva, causada pela inalação continuada de poeira com sílica-livre (quartzo),</p><p>em determinada granulometria.</p><p>Uma segunda forma é a possibilidade de causar ou agravar doenças ditas “co-</p><p>muns”, isto é, não especialmente rotuladas como ‘profissionais’. Um exemplo típi-</p><p>co é a possibilidade de resfriados, sinusites e outras infecções respiratórias aco-</p><p>meterem trabalhadores em ambientes muito frios, seja em condições naturais, ou</p><p>artificiais. Além dos frigoríficos, um exemplo muito frequente é a climatização de</p><p>ambientes onde existam computadores. O que é bom para eles pode ser prejudi-</p><p>cial para as pessoas, e será ainda pior se elas tiverem que fazer uso da voz (como</p><p>em atividades de teleatendimento).</p><p>E a terceira forma, segundo esse texto da OMS, é a possibilidade de o trabalho</p><p>nocivo se constituir em um “fator de risco” de doenças ou agravos considerados</p><p>multicausais. Na linguagem de saúde, “fator de risco” é um aspecto do compor-</p><p>tamento pessoal ou do estilo de vida, da exposição ao meio ambiente, ou uma</p><p>característica própria ou herdada do indivíduo que se sabe, tendo como base a</p><p>evidência epidemiológica, estar associado com condições importantes de se pre-</p><p>venir para proteger a saúde. O fator de risco representa uma probabilidade maior</p><p>de ser atingido por determinada afecção ou dano.</p><p>Muito parecida com esta forma de a OMS organizar os adoecimentos relacio-</p><p>nados ao trabalho é a sistematização a seguir apresentada, proposta pelo médico</p><p>inglês Richard Schilling (1911-1997), conhecida no Brasil como “classificação de</p><p>Schilling” (SCHILLING, 1984). Confira do Quadro 3 a seguir:</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>146</p><p>Categoria Exemplos</p><p>I – Trabalho como</p><p>causa necessária</p><p>Intoxicação por chumbo; silicose;</p><p>asbestose; “doenças profissionais legalmente reco-</p><p>nhecidas”; outras.</p><p>II - Trabalho como fator</p><p>contributivo, mas não</p><p>necessário</p><p>Doença coronariana; doenças do aparelho locomo-</p><p>tor; câncer; varizes dos membros inferiores; outras.</p><p>III - Trabalho como pro-</p><p>vocador de um distúrbio</p><p>latente, ou agravador de</p><p>doença já existente</p><p>Bronquite crônica; dermatite de contato alérgica;</p><p>asma, doenças mentais; outras.</p><p>Quadro 3: Como o trabalho pode estar relacionado com a saúde/doença.</p><p>Fonte: O autor, com base na classificação proposta por Schilling (1984).</p><p>4. Considerações finais</p><p>Este breve texto introdutório buscou despertar a motivação e um compro-</p><p>misso com um “pacto pela vida e pela saúde” no exercício de todas as profissões,</p><p>e aqui, muito especialmente, de estudantes de Engenharia e profissionais – ho-</p><p>mens e mulheres – em exercício.</p><p>Por certo, os exemplos e “cases” aqui relatados não cobrem o grande “mundo</p><p>trabalho”, muito especialmente as novas morfologias do trabalho no capitalis-</p><p>mo contemporâneo, com a sua complexidade e os seus desafios, velhos e novos</p><p>(MENDES, 2020)8.</p><p>Vocês poderão ser – ou já são – verdadeiros promotores de vida e saúde no</p><p>mundo do trabalho, e estou certo de que a maioria de vocês tem mais força, mais</p><p>ferramentas e mais chance de sucesso do que nós, os assim chamados “profissio-</p><p>nais de saúde”. Parabéns!</p><p>8 - Ver, por exemplo, o belo texto do primeiro capítulo desta coletânea, sobre as transformações do trabalho.</p><p>Mendes</p><p>147</p><p>Referências</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde,...</p><p>BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Pro-</p><p>mulgada em 5 de outubro de 1988. Brasília, DF, 1988. Disponível em: . Acesso em:</p><p>12.jun. 2021.</p><p>BRASIL. Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990. Dispõe sobre as condições</p><p>para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o fun-</p><p>cionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Dis-</p><p>ponível em: . Aces-</p><p>so em: 12.jun. 2021.</p><p>ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora em Inglaterra. Porto: Edições Afronta-</p><p>mento, 1975.</p><p>HOUAISS, A.; VILLAR, M. S., 2001. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de</p><p>Janeiro: Objetiva, 2001.</p><p>INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Diretrizes para a vigilância do câncer relaciona-</p><p>do ao trabalho. 2ª ed. Rio de Janeiro, 2013. Disponível em: . Acesso em 11.jun.2021..</p><p>LAURELL, A. C.; NORIEGA, M. Processo de produção e saúde: trabalho e desgaste</p><p>operário. São Paulo: Hucitec, 1989.</p><p>MENDES, R. Georgius Agricola (1494-1555). In: MENDES, R. (Org.). Dicionário de</p><p>saúde e segurança do trabalhador: conceitos – definições – história – cultura.</p><p>Novo Hamburgo: Proteção Publicações, 2018a. p. 564-565.</p><p>MENDES, R. Patogênese das novas morfologias do trabalho no capitalismo con-</p><p>temporâneo: conhecer para mudar. Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 80,</p><p>p. 93-109, 2020.</p><p>MENDES, R. Percival Pott (1714-1788). In: MENDES, R. (Org.). Dicionário de saúde e</p><p>segurança do trabalhador: conceitos – definições – história – cultura. Novo Ham-</p><p>burgo: Proteção Publicações, 2018b. p. 871.</p><p>MENDES, R. William Farr (1807-1883). In: MENDES, R. (Org.). Dicionário de saúde e</p><p>segurança do trabalhador: conceitos – definições – história – cultura. Novo Ham-</p><p>burgo: Proteção Publicações, 2018c. p. 1.246-1.247.</p><p>ODDONE, I.; MARRI, G.; BRAINTE, S. G. G. Ambiente de trabalho: a luta dos trabalha-</p><p>dores pela saúde. São Paulo: Hucitec, 1986.</p><p>148</p><p>Mendes</p><p>ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Identificación de enfermedades relaciona-</p><p>das con el trabajo y medidas para combatirlas. Genebra, 1985. (Serie Informes</p><p>Técnicos, 714). Disponível em: . Acesso em 11.jun.2021.</p><p>RAMAZZINI, B. As doenças dos trabalhadores. 4ª ed. Trad. de Raimundo Estrela. São</p><p>Paulo: Fundacentro, 2016. Disponível em: . Acesso em: 11.jun. 2021.</p><p>REY, L. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. Rio de Janeiro: Guanaba-</p><p>ra-Koogan, 1999.</p><p>RIBEIRO, H. P.; LACAZ, F. A. C. (Org). De que adoecem e morrem os trabalhadores. São</p><p>Paulo: Diesat/Imesp, 1984.</p><p>SCHILLING, R. More effective prevention in occupational health practice? Journal of the So-</p><p>ciety of Occupational Medicine, Londres, v. 39, n. 2, p. 71-9, 1984. Disponível em: . Acesso em: 11 jun. 2021.</p><p>SELIGMANN-SILVA, E. Trabalho e desgaste mental: o direito de ser dono de si mes-</p><p>mo. São Paulo: Cortez, 2011.</p><p>149</p><p>Saúde mental e</p><p>trabalho</p><p>Maria Elizabeth Antunes Lima</p><p>6</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>151</p><p>1. Introdução</p><p>Este texto irá tratar de um tema relativamente recente entre nós e que é de</p><p>grande relevância para aqueles que atuam nos ambientes laborais: a forma pela</p><p>qual o trabalho pode afetar a saúde mental das pessoas. Será exposto, inicialmen-</p><p>te, um breve histórico desse campo de estudos</p><p>MAIA; CORDEIRO, 2017), que permitem prever os efeitos de uma mu-</p><p>dança organizacional antes que ela seja implantada. Tais métodos permitem que</p><p>a concepção não esteja limitada à questão “como isso vai funcionar?”, mas que</p><p>se pergunte muito cedo: “como faremos para trabalhar no novo sistema?”. Para</p><p>responder a essa questão, é indispensável fazer o cruzamento de muitas compe-</p><p>tências diferentes, entre as quais a dos operadores que asseguram a produção e</p><p>a manutenção. Esta abordagem participativa contribui para a confiabilidade do</p><p>sistema e pode contribuir também para o desenvolvimento das atividades das</p><p>diferentes pessoas envolvidas (BARCELLINI; VAN BELLEGHEM; DANIELLOU, 2016).</p><p>As Seções 1 a 5 deste livro me levam a falar de minhas atividades em Ergono-</p><p>mia e Saúde do Trabalhador, de 1980 a 2015, e a sublinhar as sucessivas expan-</p><p>sões que permitiram os encontros interdisciplinares. A Seção 3, sobre Segurança</p><p>no trabalho, me faz mencionar minhas funções no Instituto para uma Cultura de</p><p>Segurança Industrial e na Fundação para uma Cultura de Segurança Industrial,</p><p>entre 2015 e 2019. É claro que aí aprendi várias lições fortes.</p><p>A primeira é que muitos ergonomistas franceses não se interessam o suficien-</p><p>te pela segurança. A razão disso, sem dúvida, é porque pensam que a segurança</p><p>é apenas um mundo de regras, de procedimentos e de materiais específicos. No</p><p>entanto, os conceitos de segurança normatizada e de segurança em ação (AMAL-</p><p>BERTI; ROCHA; VILELA; ALMEIDA, 2018; MOREL; AMALBERTI; CHAUVIN, 2008;</p><p>NASCIMENTO et al., 2016) refletem aqueles de trabalho prescrito e trabalho real:</p><p>de um lado, procuramos antecipar os perigos e os riscos, e estabelecemos regras</p><p>e meios técnicos para tentar permitir um trabalho seguro (segurança normatiza-</p><p>da); de outro, em tempo real, a situação não é exatamente aquilo que se esperava</p><p>e a segurança repousa sobre a competência de mulheres e homens que estão em</p><p>campo (segurança em ação). Essas duas facetas da segurança estão obviamente</p><p>interligadas: de um lado, as iniciativas adotadas em campo inscrevem-se, ape-</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>14</p><p>sar de tudo, em um quadro mais amplo de regras; de outro, quando acontece</p><p>algo que não havia sido previsto, é desejável que as regras e meios técnicos se-</p><p>jam melhorados para aproveitar as lições do evento. Assim, a construção da se-</p><p>gurança deveria ser um vaivém permanente entre a antecipação e o retorno de</p><p>experiência, associando uma variedade de atores. Engenheiros(as) e peritos(as)</p><p>são indispensáveis, pois a antecipação de acidentes (por exemplo, nucleares)</p><p>que nunca aconteceram antes não pode se apoiar sobre a experiência vivida: o</p><p>cálculo é necessário. Os operadores de campo são essenciais, pois conhecem a</p><p>diversidade e a variabilidade das situações reais: sua experiência é necessária. Os</p><p>gestores mais próximos deveriam poder atuar como atores de uma articulação</p><p>permanente entre o normatizado e a ação de segurança, entre os conhecimentos</p><p>do universal e os conhecimentos do específico.</p><p>Mas de qual segurança estamos falando? Da prevenção dos acidentes de</p><p>trabalho? Da prevenção de acidentes industriais (nuclear, químico, barragens e</p><p>túneis, transporte rodoviário, ferroviário ou aéreo, médico-técnico…)? Da pre-</p><p>venção do terrorismo e da maldade? Na maior parte das organizações adminis-</p><p>trativas das empresas e dos países tais riscos são bem separados. Ora, do ponto</p><p>de vista dos métodos, a fronteira não passa entre os acidentes do trabalho e os</p><p>acidentes industriais, mas entre os acidentes menores e os acidentes potencial-</p><p>mente graves ou fatais. No caso de certos acidentes menores, uma sensibilização</p><p>individual dos trabalhadores pode ter um certo efeito, por exemplo: “não enviar</p><p>SMS no telefone celular enquanto está andando”. No caso dos acidentes graves,</p><p>fatais ou que poderiam ter sido fatais, a pesquisa da responsabilidade individual</p><p>não é pertinente se queremos evitar sua repetição: quase sempre são várias bar-</p><p>reiras de prevenção, recuperação ou mitigação que deveriam ter sido instaladas</p><p>pela organização e que se mostraram ausentes ou defeituosas (DESCAZEAUX; RE-</p><p>BEILLÉ; BRUNEL; SANTA-MARIA, 2019; ICSI, 2019).</p><p>O nível de segurança de uma empresa ou local frequentemente é</p><p>medido pela taxa de frequência de acidentes (Tf). De fato, se a Tf é</p><p>elevada, a política de prevenção deve ser dirigida a todos os riscos</p><p>apontados pelo estudo dos acidentes, ou pelas análises de riscos.</p><p>No entanto, algumas empresas mais maduras têm taxas de frequ-</p><p>ência reduzidas e acreditam ter atingido um alto nível de segurança.</p><p>Ora, a Tf é um retrovisor, que descreve o que já passou. Ela não diz</p><p>nada sobre o estado de preparação da empresa para o que poderia</p><p>acontecer de pior. Várias são as empresas com uma excelente Tf que</p><p>Daniellou</p><p>15</p><p>repentinamente são atingidas por um acidente grave ou por vários</p><p>acidentes de trabalho fatais. Essa constatação vem se opor a uma</p><p>interpretação errônea da pirâmide de Heinrich-Bird, segundo a qual</p><p>“se eu diminuir a base da pirâmide pela metade, então diminui pela</p><p>metade a probabilidade de um acidente fatal”. Isso não é verdade,</p><p>pois na base da pirâmide coexistem os acidentes menores, que não</p><p>tinham nenhuma chance de evoluir para um acidente fatal, e situa-</p><p>ções com alto potencial de gravidade (por exemplo, uma carga que</p><p>cai a 50cm de um trabalhador). Se suprimirmos todos os eventos me-</p><p>nores da base da pirâmide, a probabilidade de um acidente fatal não</p><p>diminui nada. É preciso, portanto, centrar a política de segurança na</p><p>prevenção dos acidentes graves e fatais por meio da detecção das</p><p>situações de alto potencial de gravidade em diferentes instâncias:</p><p>durante o projeto de concepção, fazendo o cálculo e simulação de si-</p><p>tuações futuras; no dia a dia, pelo retorno de experiência. Nos dois ca-</p><p>sos, são necessários engenheiros(as), gestores(as) e operadores(as).</p><p>O desafio de desenvolver a cultura de segurança foi descrito perfeitamente nes-</p><p>te livro. Ingredientes já bem conhecidos são necessários para um domínio melhor</p><p>dos riscos (ICSI, 2017): a consciência compartilhada dos riscos mais importantes; a</p><p>complementaridade entre a técnica, as regras e a atenção aos fatores humanos e</p><p>organizacionais; um equilíbrio pertinente entre os recursos atribuídos, de um lado,</p><p>à segurança normatizada e, de outro, à competência tanto individual dos trabalha-</p><p>dores como coletiva das equipes; uma cultura da dúvida, da atenção aos detalhes,</p><p>da pesquisa das causas profundas; a luta contra o silêncio organizacional (LLORY,</p><p>1999), em particular por uma cultura justa – as punições percebidas como injustas</p><p>podem ser um poderoso inimigo da segurança; a mobilização de todos, inclusive</p><p>dos setores de apoio (RH, compras…); as condições de interação entre as empre-</p><p>sas que compram serviços de terceiros e as empresas prestadoras de serviços; a</p><p>liderança da gestão e o envolvimento dos trabalhadores, especialmente dentro</p><p>dos espaços de debate sobre o trabalho (ROCHA; MOLLO; DANIELLOU, 2019).</p><p>Há, entre os especialistas das ciências do trabalho, colegas que acreditam</p><p>que seu trabalho deve ser denunciar as más condições de trabalho e os agravos</p><p>à saúde ligados ao trabalho. Esse papel tem uma utilidade social, mas a denún-</p><p>cia não é a missão principal dos ergonomistas nem dos(as) engenheiros(as): o</p><p>papel desses profissionais é conceber e fazer evoluir as situações para que le-</p><p>vem em conta o trabalho humano. A ideia de uma “engenharia do trabalho”</p><p>Um livro que mudará vidas</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>16</p><p>– que também poderia ser chamada de “engenharia pelo trabalho” – deve ser</p><p>a de conceber sistemas eficientes: eficientes porque permitem às mulheres e</p><p>homens fazerem um trabalho de qualidade em segurança, no qual possam se</p><p>reconhecer, do qual possam se orgulhar, que contribua para a sua saúde. Mas</p><p>os(as) melhores engenheiros(as) (mesmo iluminados pelas luzes de todas as</p><p>seções deste livro!) não conseguirão isso sozinhos. Será preciso que</p><p>por meio de um percurso que vai</p><p>do seu surgimento na França até sua entrada no Brasil. Em seguida, serão trata-</p><p>dos alguns temas essenciais para aqueles que estão entrando em contato com a</p><p>questão: o problema do nexo causal entre transtornos mentais e trabalho, isto é,</p><p>como estabelecer adequadamente a relação entre o adoecimento mental de um</p><p>indivíduo e seu contexto laboral; as formas possíveis de intervir nesse contexto</p><p>para prevenir ou sanar os problemas que afetam a saúde mental das pessoas; em</p><p>que consiste o trabalho saudável, qual o tipo de empresa que consegue oferecê-</p><p>-lo aos seus empregados e quais são as condições socioeconômicas que permi-</p><p>tem sua ampliação.</p><p>Como a prática do engenheiro(a) impõe frequentemente um contato próxi-</p><p>mo com outras pessoas, sendo comum sua atuação como gestor(a) de equipes, o</p><p>conhecimento sobre o tema pode se tornar mais uma ferramenta para lidar com</p><p>os desafios que enfrenta diariamente. Não é raro, por exemplo, que esse profis-</p><p>sional seja o único representante da hierarquia acessível a um trabalhador que se</p><p>encontra em situação de sofrimento psicológico. Nesse caso, espera-se que seja</p><p>capaz de reconhecer minimamente o problema e dar a ele o encaminhamento</p><p>adequado, o que por si só justifica a inclusão deste capítulo em uma coletânea</p><p>voltada para o aprimoramento da sua formação.</p><p>O campo de estudos aqui denominado Saúde Mental e Trabalho (SM&T) é</p><p>composto por duas disciplinas que se complementam: a Ergoterapia, cujo objeto</p><p>é o papel terapêutico das atividades laborais, isto é, a compreensão da forma pela</p><p>qual o trabalho pode ser usado como um recurso no tratamento de problemas</p><p>psicológicos; e a Psicopatologia do Trabalho que, ao contrário, estuda os efeitos</p><p>negativos da atividade laboral, ou seja, os impactos desfavoráveis que apresenta</p><p>sobre a saúde mental daquele que a realiza.</p><p>Embora seja possível identificar traços da prática da Ergoterapia desde épocas</p><p>remotas (TOSQUELLES, 2009), as discussões em torno do trabalho como fator de</p><p>adoecimento emergiram apenas ao final da Segunda Guerra Mundial, na Fran-</p><p>ça, como resultado de um movimento denominado “psiquiatria social” (BILLIARD,</p><p>1996). Naquele período turbulento da história francesa, alguns hospitais psiqui-</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>152</p><p>átricos mais expostos aos bombardeios se viram obrigados a liberar boa parte</p><p>dos pacientes, já que tinha se tornado impossível alimentá-los ou mesmo garan-</p><p>tir sua segurança. Ao final da guerra, um grupo de psiquiatras decidiu retomar</p><p>o contato com esses antigos pacientes, constatando, com surpresa, que muitos</p><p>estavam bem adaptados ao seu meio, trabalhando e tendo, inclusive, conquista-</p><p>do o respeito profissional da sua comunidade. Diante disso, uma questão quase</p><p>inevitável emergiu: até que ponto o trabalho teve um papel importante nessa</p><p>surpreendente recuperação? O fato de terem alcançado certo grau de autono-</p><p>mia e se tornado socialmente úteis, além de economicamente independentes,</p><p>poderia ter pesado favoravelmente na regressão dos seus sintomas? A busca de</p><p>respostas a tais questões fez com que o campo da Ergoterapia tivesse um impulso</p><p>importante no contexto francês da época.</p><p>Mas foram também essas reflexões em torno dos impactos positivos do tra-</p><p>balho na saúde mental que acabaram conduzindo a outra interrogação, com o</p><p>sentido oposto, mas igualmente relevante: até que ponto a atividade laboral</p><p>pode estar na origem do adoecimento mental ou contribuir para seu desen-</p><p>volvimento? Foi Sivadon (1993) quem trouxe a primeira formulação clara dessa</p><p>pergunta, em um artigo que se tornou um clássico na área e cujo título, “Psico-</p><p>patologia do Trabalho”, inaugurava a nova disciplina. Nesse artigo, publicado</p><p>em 1953, mas que resultou de uma conferência realizada um ano antes, o psi-</p><p>quiatra francês abordou longamente sua experiência em torno dos efeitos po-</p><p>sitivos do trabalho no tratamento de doentes mentais, mas ao final propôs uma</p><p>questão importante a respeito da possibilidade de essa mesma atividade levar</p><p>ao adoecimento. Embora sua resposta a tal questão tenha sido mais hipotética</p><p>do que fundamentada em pesquisas, ele trouxe elementos relevantes a respei-</p><p>to da fadiga nervosa, um transtorno bastante frequente entre trabalhadores</p><p>submetidos a atividades repetitivas e com fortes exigências de produtividade.</p><p>Além de descrever alguns sintomas dessa doença, o autor sugeriu uma possível</p><p>relação entre o uso do álcool e as pressões impostas no trabalho, ao dizer que,</p><p>antes de emergir a fadiga nervosa, era comum que o trabalhador recorresse</p><p>a bebidas alcoólicas, tentando por meio dos seus efeitos reduzir os impactos</p><p>psicologicamente negativos do seu cotidiano laboral1.</p><p>1 - Essa relação entre o uso do álcool e o trabalho só seria estudada, de forma efetiva, algumas décadas depois,</p><p>trazendo elementos que corroboram essa primeira hipótese de Sivadon (1993) e confirmando a presença, entre</p><p>trabalhadores submetidos a fortes pressões no seu espaço laboral, do recurso a essa substância como um elemento</p><p>regulador, tanto do ponto de vista físico quanto psicológico. O leitor interessado poderá encontrar uma síntese</p><p>desses estudos em Lima e Leal (2015).</p><p>Lima</p><p>153</p><p>Embora tenha sido esse teórico o primeiro a trazer indicações sobre os possí-</p><p>veis impactos negativos do trabalho na saúde mental, foi Le Guillant (2006) quem</p><p>aprofundou essa questão por meio de pesquisas com diversas categorias profis-</p><p>sionais, além de inovar ao propor uma abordagem que envolvia dimensões psi-</p><p>cológicas e sociológicas a respeito do problema.</p><p>Alguns anos após o enfraquecimento do movimento da psiquiatria social,</p><p>emergiu no cenário francês a Psicodinâmica do Trabalho, trazendo a psicanálise</p><p>como teoria de base no tratamento da relação entre subjetividade e trabalho.</p><p>A partir de pesquisas lideradas por Dejours (1980, 1987, 2000), essa corrente</p><p>renunciou à Psicopatologia do Trabalho, argumentando que inexistem compro-</p><p>vações científicas sobre possíveis relações entre o trabalho e o adoecimento</p><p>mental. Atualmente, apresenta-se como uma nova disciplina cujo enfoque ul-</p><p>trapassa a doença para tratar da normalidade, isto é, o equilíbrio alcançado pelo</p><p>trabalhador entre as agressões que sofre do seu meio e as defesas que é capaz</p><p>de desenvolver contra elas.</p><p>São esses teóricos, além de outros que participaram da fundação e do desen-</p><p>volvimento desse importante campo de estudos, que serão tratados neste capítulo.</p><p>2. O surgimento do campo da Saúde Mental e</p><p>Trabalho (SM&T)</p><p>Como já foi assinalado, esse campo de estudos emergiu na França, no contex-</p><p>to de um movimento denominado “Psiquiatria Social”, que se originou de aconte-</p><p>cimentos ocorridos no período da Segunda Guerra Mundial, tendo suas bases te-</p><p>óricas assentadas por alguns dos mais eminentes psiquiatras da época. As novas</p><p>reflexões em torno do trabalho, que surgiram durante esse processo, giravam em</p><p>torno do seu papel no tratamento e na origem da doença mental, levando ao de-</p><p>senvolvimento de novas experiências no âmbito da Ergoterapia, cujos resultados</p><p>permitiram o surgimento de uma nova disciplina, a Psicopatologia do Trabalho.</p><p>Os teóricos que mais se destacaram nesse período foram Sivadon (1993), Tosquel-</p><p>les (2009) e Le Guillant (2006)2.</p><p>2 - Seria impossível abordar em um espaço necessariamente limitado toda a riqueza do pensamento de cada um</p><p>desses teóricos. A pretensão aqui é apenas a de apresentar algumas de suas proposições, mas esperando despertar,</p><p>no leitor, o interesse de conhecê-los melhor.</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>154</p><p>Entre os antecedentes desse movimento, pode-se citar a consolidação do tra-</p><p>balho como um objeto de pesquisas a partir da contribuição de uma vasta gama</p><p>de disciplinas, dentre elas, a sociologia empírica, as ciências de gestão, a psicotéc-</p><p>nica, a psicofisiologia do trabalho e a psicologia do trabalho. O encontro entre a</p><p>psiquiatria e a psicanálise pode ser considerado também como um acontecimento</p><p>relevante, uma vez que provocou uma cisão entre aqueles</p><p>que aderiram e os que se</p><p>recusaram a incorporar a teoria freudiana à prática psiquiátrica, originando escolas</p><p>diferentes que iriam se manifestar igualmente nessa área do conhecimento.</p><p>O primeiro teórico a se destacar, Sivadon (1993), propunha uma concepção</p><p>fundamentalmente organicista da doença mental, ou seja, no seu entendimento,</p><p>esse tipo de problema resultaria, sobretudo, de alterações orgânicas, sendo mais</p><p>explicadas por seus elementos genéticos do que por questões afetivas (BILLIARD,</p><p>1996). Sua maior contribuição foi para o campo da Ergoterapia, ao sistematizar</p><p>uma nova forma de abordar o doente mental, adotando o trabalho como um re-</p><p>curso no tratamento e como um valor de integração social. Mas foi ele também</p><p>quem cunhou a expressão “psicopatologia do trabalho”, deixando entrever que,</p><p>na sua busca pela compreensão do caráter positivo da atividade laboral, acabou</p><p>se deparando com a possibilidade de que essa mesma atividade conduzisse ao</p><p>adoecimento mental. É por esse motivo que, no artigo no qual nomeou a nova</p><p>disciplina, percorreu um longo caminho que ia da constatação de que o trabalho</p><p>pode ser uma fonte de crescimento e evolução, do ponto de vista psicológico, até</p><p>chegar a certas formas de organização dessa atividade que, ao levar a conflitos</p><p>insuperáveis, favoreceriam a emergência da doença mental.</p><p>Já Tosquelles (2009), psiquiatra catalão, radicado na França, trouxe um novo</p><p>enfoque para a Ergoterapia, sendo que o aspecto mais inovador no tratamento</p><p>que propunha aos portadores de transtornos mentais consistia no seu esforço em</p><p>superar qualquer imperativo de ordem moral ao oferecer as atividades. Segun-</p><p>do ele, o que realmente importava era explicitar o caminho pelo qual o homem</p><p>se constrói quando está produzindo algo, sendo este processo sempre realizado</p><p>com os outros e para os outros, por meio de trocas que vão além das questões</p><p>ideológicas ou morais. Pode-se dizer que essas foram as bases da sua “terapêu-</p><p>tica ativa”, ao sugerir que certos tipos de atividade teriam uma ação medicinal</p><p>e participariam do processo de cura dos pacientes. Mas ressaltava sempre que</p><p>não se tratava de propor quaisquer ocupações, nem um trabalho para passar o</p><p>tempo, ou simplesmente ganhar a vida, já que nada disso teria efeito positivo no</p><p>tratamento. O que propunha era uma atividade que permitisse ao sujeito colocar</p><p>algo de si. Em outros termos, o processo de cura só se instaurava realmente, se-</p><p>Lima</p><p>155</p><p>gundo ele, quando o paciente se tornava cuidador de si mesmo, incorporando no</p><p>trabalho seu próprio esforço, sendo que a possibilidade de alcançar bons resulta-</p><p>dos tinha relação com o grau de iniciativa e de atividade própria que o paciente</p><p>poderia colocar em prática (TOSQUELLES, 2009).</p><p>No âmbito da Psicopatologia do Trabalho, foi Le Guillant (2006) quem se tor-</p><p>nou o maior expoente, destacando-se entre seus pares ao adotar uma perspectiva</p><p>teórica de inspiração marxista, que incorporava dimensões sociais na compreen-</p><p>são da doença mental. Ele propôs uma teoria original e com sólida base empírica</p><p>a respeito dos impactos psicológicos do trabalho, buscando desvendar as pos-</p><p>síveis relações entre alienação mental e alienação social. Pode-se dizer que seu</p><p>foco principal, nesse contexto, consistia na busca de um maior entendimento a</p><p>respeito das “repercussões patológicas do condicionamento social e da alienação</p><p>no trabalho” (BILLIARD, 1996, p. 82). Dessa forma, ao contrário de Sivadon (1993),</p><p>que enfatizava as dimensões orgânicas na origem do adoecimento mental, Le</p><p>Guillant (2006) buscava apreender seus determinantes sociais, mas sem perder</p><p>de vista seus elementos psicológicos e físicos. Em outros termos, ele tentava iden-</p><p>tificar nas transformações sócio-históricas, elementos essenciais que atuariam no</p><p>desenvolvimento dessa patologia. Seu propósito consistia, portanto, em elaborar</p><p>o esboço de uma psicopatologia social, cujo foco era verificar o papel do meio</p><p>no surgimento e no desaparecimento dos distúrbios mentais. Ademais, como era</p><p>adepto de Politzer (1968), concluiu que somente o resgate das condições reais de</p><p>existência dos indivíduos, das suas formas concretas de trabalhar e de ganhar a</p><p>vida, é que permitiria entender melhor seu funcionamento psicológico e os dis-</p><p>túrbios que porventura viessem a apresentar (Le GUILLANT, 2006)3.</p><p>Assim, para esse teórico, a doença mental no trabalho seria uma consequên-</p><p>cia de toda a vida do sujeito, sendo daí que emergiu a proposta de um minucio-</p><p>so resgate da sua trajetória, a fim de alcançar um melhor entendimento sobre</p><p>o modo pelo qual a história individual se adiciona a um contexto desfavorável</p><p>de trabalho, dando origem ao transtorno propriamente dito. Embora admitisse</p><p>a dificuldade de se compreender concretamente como se dá a passagem entre a</p><p>experiência de vida e o adoecimento mental, Le Guillant (2006) realizou estudos</p><p>consistentes que revelavam a presença de certos quadros entre indivíduos per-</p><p>3 - Le Guillant (2006) sempre enfatizou a influência da “psicologia concreta” proposta por Georges Politzer no seu</p><p>pensamento. Ela se baseia em uma crítica dirigida à psicologia da sua época, considerada por ele como demasiada-</p><p>mente abstrata e incapaz de dar conta do seu próprio objeto. Como alternativa, ele propôs uma psicologia calcada</p><p>nas experiências de vida do sujeito (POLITZER, 1968).</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>156</p><p>tencentes a categorias profissionais específicas, sugerindo um paralelismo estrei-</p><p>to entre as experiências de trabalho e o desenvolvimento da doença. Alguns dos</p><p>seus resultados, como aqueles alcançados junto às telefonistas e às empregadas</p><p>domésticas da sua época, são válidos até hoje, apesar das diferenças históricas</p><p>e culturais, revelando a consistência de seus achados e da teoria que embasava</p><p>suas conclusões.</p><p>2.1 A contribuição de C. Dejours: da psicopatologia à psicodinâ-</p><p>mica do trabalho</p><p>Dejours (1980, 1987, 2000) é o teórico mais importante que emergiu no ce-</p><p>nário francês no período posterior ao “movimento da psiquiatria social”. Ele deu</p><p>início ao que se poderia considerar como uma segunda fase da Psicopatologia do</p><p>Trabalho na França, quando propôs a psicanálise como a teoria de base para a dis-</p><p>ciplina (BILLIARD, 1996). No entanto, esse recurso à teoria freudiana, com a fina-</p><p>lidade de explicar o sofrimento do homem no trabalho, é objeto de considerável</p><p>polêmica. Uma das objeções mais frequentes se refere à ausência de uma real dis-</p><p>cussão no âmbito da teoria psicanalítica a respeito do trabalho e seus impactos</p><p>na saúde mental, estando também ausente, em grande medida, uma reflexão a</p><p>respeito da alienação presente na relação do homem com sua atividade profissio-</p><p>nal (CODO; SAMPAIO; HITOMI, 1993; LIMA, 2016). A despeito disso, pode-se dizer</p><p>que esse autor trouxe inovações importantes para um campo de pesquisas que</p><p>começou a se delinear no seu país, a partir dos movimentos do Maio de 68, e que</p><p>se interessa pela investigação das consequências mentais do trabalho, mesmo</p><p>quando não surgem doenças mentais propriamente ditas (BILLIARD, 1996).</p><p>Ele constata um conflito frequente entre as exigências da organização do</p><p>trabalho e as necessidades fisiológicas e psicológicas do sujeito, gerando um</p><p>sofrimento que pode ser mais ou menos elaborado e, consequentemente, apre-</p><p>sentando repercussões mais ou menos acentuadas sobre a saúde mental, mas</p><p>propõe que o grande enigma a ser decifrado por essa disciplina não é o modo</p><p>como se desenvolve a doença mental e sim as formas encontradas pelo sujeito</p><p>para manter a normalidade. Em outros termos, o que importa realmente, para</p><p>ele, é compreender como os trabalhadores se defendem (de forma individual e/</p><p>ou coletiva) de modo a evitar a doença e preservar, ainda que precariamente, seu</p><p>equilíbrio. Foi a partir dessa mudança de ênfase que decidiu atribuir-lhe um novo</p><p>nome, alegando, entre outras coisas, que nunca foi estabelecida uma relação cau-</p><p>sal entre distúrbios psicológicos e a organização do trabalho, o que tornaria ina-</p><p>Lima</p><p>157</p><p>dequada sua denominação original. Segundo ele, ao chamá-la de “psicodinâmica</p><p>do trabalho”, conseguiu ampliar o campo da investigação, permitindo um olhar</p><p>para o sofrimento, mas também para o prazer no trabalho.</p><p>Em suma, para esse teórico, o trabalho não está na gênese de doenças men-</p><p>tais, podendo no máximo desencadeá-las e, ainda assim, sob circunstâncias bas-</p><p>tante específicas. No entanto, isso não o impediu de afirmar a presença de pelo</p><p>menos uma patologia, o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), decorren-</p><p>te da exposição do trabalhador a situações extremas (acidentes, assaltos ou ou-</p><p>tras formas de violência), como sendo diretamente originada da organização do</p><p>trabalho (DEJOURS, 1987). Evidentemente, isso tornou cientificamente insusten-</p><p>tável seu argumento sobre a inexistência de doenças mentais advindas do traba-</p><p>lho, além de tornar supérflua a proposta de renomear a disciplina.4</p><p>3. A Psicopatologia do Trabalho no Brasil</p><p>Embora, como foi dito acima, as primeiras discussões em torno do trabalho</p><p>como fator contributivo para o adoecimento mental remontem ao contexto fran-</p><p>cês do pós-guerra, elas só emergiram no Brasil ao final dos anos 1980. A publicação,</p><p>em 1987, do livro de Dejours, A loucura do trabalho – Ensaio de Psicopatologia do</p><p>Trabalho, foi um marco importante no desencadeamento dessa discussão, alimen-</p><p>tando as reflexões em torno da relação trabalho/saúde mental e incentivando os</p><p>pesquisadores brasileiros na busca por aperfeiçoamento e desenvolvimento de</p><p>estudos voltados para a nova especialidade que apenas ensaiava seus primeiros</p><p>passos. Embora, na época, já existissem algumas discussões em torno do assunto,</p><p>foi somente a partir daí que os psicólogos e outros profissionais interessados pela</p><p>questão da saúde mental no trabalho passaram a se dedicar realmente ao tema.</p><p>No entanto, se é inegável a importância da obra (DEJOURS, 1987) no desen-</p><p>volvimento dessa especialidade no Brasil, não se pode negar também que ela</p><p>favoreceu o surgimento de um viés na produção nacional em torno do tema.</p><p>Como ela não se detém sobre toda a riqueza das discussões e controvérsias que</p><p>ocorreram nos primórdios da disciplina, nem tampouco reconhece a importância</p><p>dos seus fundadores, durante algum tempo, prevaleceu aqui uma visão pouco</p><p>realista a respeito das possibilidades e limites desse campo de estudos. Posterior-</p><p>4 - Para uma reflexão mais aprofundada sobre essa questão, sugere-se a leitura de Lima (2013).</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>158</p><p>mente, com a ampliação das publicações e do debate entre escolas, esse viés foi</p><p>consideravelmente reduzido, permitindo uma diversidade maior de pesquisas e</p><p>um melhor desenvolvimento da área, inclusive, com a manutenção de sua deno-</p><p>minação original por muitos pesquisadores.</p><p>Já o reconhecimento oficial dos transtornos mentais relacionados ao trabalho</p><p>só ocorreu aqui em 1999, por meio de uma portaria do Ministério da Saúde, que</p><p>publicou uma lista de quadros suscetíveis de serem identificados nos contextos</p><p>laborais, bem como seus possíveis códigos dentro da Classificação Internacional</p><p>das Doenças (CID). Desde então, o tema do nexo causal entre transtornos mentais</p><p>e trabalho se tornou mais presente e as questões relativas à saúde mental nos</p><p>contextos laborais passaram a ocupar um lugar cada vez mais proeminente nos</p><p>meios acadêmicos, inclusive, em eventos voltados para a saúde do trabalhador.</p><p>Em 2007, surgiu o nexo técnico epidemiológico (NTEP), cujo propósito con-</p><p>siste em considerar a relação entre o transtorno apresentado pelo trabalhador e</p><p>a atividade que exerce, a partir do cruzamento de informações epidemiológicas</p><p>em torno da incidência da doença no seu ramo de atuação. Essa medida repre-</p><p>sentou um avanço inegável, embora não tenha resolvido a questão, sobretudo,</p><p>por permitir que viesse à tona um expressivo número de casos de transtornos</p><p>mentais relacionados ao trabalho, ainda que fossem apenas presumidos, ou seja,</p><p>não eram reconhecidos por meio da emissão da Comunicação do Acidente de</p><p>Trabalho (CAT) (ALVES, 2015).</p><p>Seja como for, a constatação do crescente número de trabalhadores afastados</p><p>com queixas relativas ao sofrimento mental, ainda que seus quadros não sejam</p><p>reconhecidos como decorrentes da sua atividade laboral, faz com que essa ques-</p><p>tão seja cada vez mais discutida nos mais diversos contextos, inclusive aqueles</p><p>que ultrapassam a área da saúde propriamente dita, como o jurídico e o sindical.</p><p>O número cada vez maior de casos que chegam aos setores previdenciário e jurí-</p><p>dico gerou a necessidade premente de se avançar nos estudos sobre o nexo cau-</p><p>sal. Apenas para efeito de ilustração, no ano de 2017, foram concedidos 169.107</p><p>benefícios auxílios-doença por incapacidade laborativa, relacionados ao diag-</p><p>nóstico de transtornos mentais e do comportamento, sendo que tais transtornos</p><p>ocupavam o terceiro lugar entre os motivos de afastamento (BRASIL, 2017)5.</p><p>5 - Em uma matéria publicada no Blog da Saúde, divulgado pelo Ministério da Saúde do Brasil, em 2017, essa questão</p><p>já aparecia no título escolhido: “Transtornos mentais são a terceira principal causa de afastamentos do trabalho”.</p><p>Entre outras informações relevantes, apontava-se para a presença importante de quadros depressivos (30,67%) e de</p><p>ansiedade (17,9%) no pagamento de auxílio-doença não relacionados a acidentes de trabalho, sendo que aqueles</p><p>relacionados ao trabalho apresentavam números ainda mais expressivos: reações ao "stress" grave e transtornos de</p><p>Lima</p><p>159</p><p>4. O problema do nexo causal entre transtornos</p><p>mentais e trabalho</p><p>A existência ou não de um nexo causal entre a exposição a certas formas</p><p>de organização do trabalho e o desenvolvimento de distúrbios mentais espe-</p><p>cíficos talvez seja a polêmica mais importante que é posta aos pesquisadores</p><p>e profissionais que se dedicam ao campo da SM&T. Ao tratar pela primeira vez</p><p>do assunto, Sivadon (1993) já sugeria a presença desse nexo quando trouxe</p><p>a seguinte interrogação: “o trabalho, sob certas condições, seria suscetível de</p><p>provocar distúrbios mentais, ou de favorecer sua eclosão?” (SIVADON, 1993, p.</p><p>176). E para fortalecer a hipótese subentendida na questão, ele argumentou</p><p>em seguida que, embora fosse considerado abusivo atribuir a patologia sim-</p><p>plesmente à sobrecarga imposta ao trabalhador, não era difícil constatar um</p><p>aumento da frequência das neuroses na sociedade francesa da época, sendo</p><p>que sua distribuição não lhe parecia casual, pois eram “mais frequentes no meio</p><p>urbano do que no meio rural, no meio industrial do que no meio artesanal ou</p><p>comercial” (SIVADON, 1993, pp.176-177).</p><p>No entanto, ainda que admitisse a existência de situações laborais nocivas,</p><p>atribuía os problemas de saúde mental, sobretudo, às particularidades do traba-</p><p>lhador, isto é, o adoecimento dependia mais de suas necessidades e possibilida-</p><p>des do que da natureza do próprio trabalho. Foi dessa concepção que emergiu a</p><p>crítica de Billiard (2001) a esse teórico, ao afirmar que ele reduzia a importância da</p><p>organização do trabalho, apresentando muito mais uma “análise das fragilidades</p><p>funcionais pessoais”, além de ancorar suas ideias “em uma concepção neurofisio-</p><p>lógica e genética do desenvolvimento psíquico” (BILLIARD, 2001, p. 180-181).</p><p>Pode-se concluir que a reflexão de Sivadon (1993) em torno do nexo causal</p><p>foi comprometida pelo seu viés organicista, já que isto o impedia de considerar</p><p>adequadamente “as representações e as significações” (BILLIARD, 2001, p. 181),</p><p>além de levá-lo a perceber o adoecimento mental como estando relacionado, aci-</p><p>ma de tudo, com as capacidades adaptativas do sujeito. Parece evidente que tal</p><p>perspectiva culmina em uma visão das características nocivas do trabalho como</p><p>ocupando um lugar secundário.</p><p>adaptação, episódios depressivos e transtornos ansiosos causaram 79% dos afastamentos, no período entre 2012</p><p>e 2016. Acrescentava a matéria, ainda, que, devido a isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia proposto,</p><p>para o Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro)</p><p>daquele ano, que se discutisse globalmente a respeito da saúde</p><p>mental no ambiente de trabalho (Blog da Saúde, Ministério da Saúde, 10 de outubro de 2017).</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>160</p><p>Foi, portanto, Le Guillant (2006) quem mais avançou nessa questão durante</p><p>o período de fundação da nova disciplina. Seus estudos no campo da Psicopato-</p><p>logia do Trabalho eram, na sua maioria, dedicados à compreensão dos distúrbios</p><p>mentais que atingiam mais gravemente certas categorias profissionais. Um deles,</p><p>voltado para as empregadas domésticas, permitiu, de acordo com o próprio au-</p><p>tor, fazer aparecer as determinações sociais dos distúrbios mentais, ainda pou-</p><p>co conhecidas pela psiquiatria de sua época. Ou seja, em uma das investigações</p><p>mais amplas e profundas que se conhece nesse campo de estudos, ele explicitou</p><p>alguns mecanismos psicológicos presentes nas relações de dominação e servi-</p><p>dão, suscetíveis de favorecer o adoecimento.</p><p>O elemento que desencadeou a pesquisa foi a constatação de uma frequên-</p><p>cia anormal de empregadas domésticas em determinado hospital psiquiátrico, ao</p><p>ser comparada com a presença dessa categoria na população economicamente</p><p>ativa da região. A partir dessa evidência epidemiológica, Le Guillant (2006) reali-</p><p>zou um importante estudo qualitativo, no qual considerou amplamente as diver-</p><p>sas dimensões que compõem o problema, concluindo que essa atividade contém</p><p>um forte potencial de adoecimento.</p><p>Outra pesquisa relevante, igualmente realizada pelo autor, resultou em um</p><p>quadro que chamou, inicialmente, de “neurose das telefonistas”, mas que pre-</p><p>feriu denominar, posteriormente, “Síndrome Comum da Fadiga Nervosa”, já que</p><p>descobriu que se tratava de um conjunto de sintomas também constatado em</p><p>outras categorias profissionais submetidas a atividades monótonas, fragmenta-</p><p>das, com ritmos intensos, vigilância constante e altas exigências de rendimento.</p><p>Ou seja, ele percebeu que os processos tayloristas de trabalho, que se dissemi-</p><p>navam cada vez mais na França do pós-guerra, pareciam favorecer esse tipo</p><p>de problema, já que reduziam progressivamente os esforços musculares, mas</p><p>apresentavam, como contrapartida, altas exigências de velocidade, atenção e</p><p>precisão. Era o fato de ter de se submeter a tais exigências, durante um tem-</p><p>po considerável, que parecia favorecer o desenvolvimento dessa síndrome (LE</p><p>GUILLANT, 2006).</p><p>Esses estudos ainda preservam sua atualidade, apesar das inegáveis mudan-</p><p>ças introduzidas nos contextos laborais, em períodos posteriores à sua realização.</p><p>Tudo indica que Le Guillant (2006) foi capaz de perceber os efeitos iniciais de um</p><p>processo, ainda incipiente à sua época, mas que iria acentuar-se progressivamen-</p><p>te no decorrer da segunda metade do século XX em função das transformações</p><p>sofridas pela economia global e que repercutiriam de forma decisiva nos mais</p><p>diversos contextos de trabalho.</p><p>Lima</p><p>161</p><p>Foi Dejours (1980, 1987, 2000) quem desencadeou uma polêmica em torno</p><p>dessa questão do nexo. Desde sua primeira obra, esse autor já afirmava que “con-</p><p>trariamente ao que poderíamos imaginar, a exploração do sofrimento pela or-</p><p>ganização do trabalho não cria doenças mentais específicas”, pois “não existem</p><p>psicoses do trabalho, nem neuroses do trabalho” (DEJOURS, 1987, p. 122). Além</p><p>disso, ele se dirigiu, ainda que de forma genérica, aos fundadores da disciplina, di-</p><p>zendo que “mesmo os defensores mais incansáveis da nosologia psiquiátrica não</p><p>conseguiram trazer demonstrações convincentes da existência de uma patologia</p><p>mental ocasionada pelo trabalho”, acusando-os de simplistas por atribuírem, se-</p><p>gundo ele, “à sociedade a paternidade de todas as doenças mentais” (DEJOURS,</p><p>1987, p. 122). Deixou também explícita sua adesão à psicanálise como base teóri-</p><p>ca para entender o adoecimento mental no trabalho, ao afirmar que “as descom-</p><p>pensações psicóticas e neuróticas dependem em última instância da estrutura</p><p>(FREUD, 1932) das personalidades adquiridas bem antes da entrada na produção”</p><p>(DEJOURS, 1987, p. 158).</p><p>Ao propor a mudança do nome da disciplina para Psicodinâmica do Trabalho,</p><p>Dejours (2000), foi ainda mais contundente na sua crítica aos teóricos fundado-</p><p>res da Psicopatologia do Trabalho, tratando-os em bloco, ou seja, sem considerar</p><p>suas diferenças (ou mesmo divergências) e atribuindo a eles um modelo causa-</p><p>lista, fortemente influenciado pela medicina do trabalho, por afirmarem que as</p><p>exigências e pressões impostas pelo trabalho poderiam provocar transtornos</p><p>mentais. Foi por esse motivo, alegou ele, que estava renunciando ao enfoque</p><p>sobre esses transtornos, preferindo focalizar sua atenção sobre o sofrimento e</p><p>as defesas contra o sofrimento, isto é, direcionando seu olhar para “aquém da</p><p>doença mental descompensada” (DEJOURS, 2000, p. 206). Portanto, ao colocar a</p><p>normalidade como enigma central na disciplina que estava inaugurando, Dejours</p><p>(2000) renunciou a qualquer tipo de esforço no sentido de desvendar o nexo cau-</p><p>sal entre o adoecimento mental e o trabalho.</p><p>No entanto, ao contrário desse autor, muitos pesquisadores continuam a en-</p><p>frentar aquele que seria, de acordo com Le Guillant (2006), o maior desafio que</p><p>se apresenta às ciências do psiquismo e que consiste em apreender concreta-</p><p>mente como se dá a passagem entre as experiências de vida e o adoecimento</p><p>mental. Nesse sentido, torna-se essencial responder à crítica dirigida por ele aos</p><p>fundadores da disciplina, pois, como diz Clot (2006), Le Guillant jamais confundiu</p><p>nocividade do trabalho com doença profissional, nem tampouco entendia o ado-</p><p>ecimento como específico de determinada profissão. De fato, esse teórico não era</p><p>adepto da ideia determinista de uma causalidade linear entre pressões impostas</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>162</p><p>pelo trabalho e adoecimento. Para ele, entre as exigências do meio e a doença</p><p>mental propriamente dita, existe sempre uma elaboração subjetiva, isto é, uma</p><p>forma específica de cada um se apropriar psicologicamente daquela situação.</p><p>Assim, contrariamente às afirmações de Dejours (1987, 1992), Le Guillant (2006)</p><p>não aderia às antigas noções em torno da patologia mental, isto é, àquelas que a con-</p><p>cebiam como uma agressão que atinge, a partir do exterior, um sujeito indefeso, pois</p><p>entendia que, nesse processo, cada um elabora a situação com os recursos que pos-</p><p>sui, sendo que o resultado pode ser (ou não) o adoecimento (CLOT, 2006). É somente</p><p>assim que se torna possível entender como alguns adoecem e outros conseguem</p><p>preservar a saúde, apesar de estarem submetidos ao mesmo tipo de situação. Além</p><p>disso, mais do que uma Psicopatologia do Trabalho, o propósito de Le Guillant (2006),</p><p>como já foi dito, consistia em desenvolver uma psicopatologia social. Ao ampliar a no-</p><p>ção de “neurose das telefonistas “para “síndrome subjetiva comum da fadiga nervosa”,</p><p>por exemplo, ele alcançou o que se designa atualmente como doenças da produtivi-</p><p>dade, decorrentes da intensificação do trabalho (CLOT, 2006).</p><p>No Brasil, observa-se uma demanda crescente pelo estabelecimento desse nexo,</p><p>embora ainda prevaleça a busca por uma causalidade linear e, junto com ela, a ideia</p><p>de que deve ser estabelecido o peso exato das experiências pessoais em relação às</p><p>experiências no trabalho (LIMA, 2013). Isso é agravado pela influência de teorias</p><p>que defendem, como Dejours (1987), que os transtornos mentais que emergem no</p><p>trabalho decorrem, na verdade, das experiências anteriores à entrada do indivíduo</p><p>na vida profissional, ou seja, o trabalho seria apenas o locus no qual esse problema</p><p>eclode, atuando, no máximo, como uma espécie de desencadeador de um distúr-</p><p>bio latente. Apesar de ser mal fundamentada e se mostrar frequentemente contra-</p><p>ditória, essa tese está ainda fortemente presente entre nós, dificultando o reconhe-</p><p>cimento do verdadeiro lugar do trabalho na emergência de transtornos mentais</p><p>no trabalho. É, sobretudo, no contexto das perícias judiciais que os trabalhadores</p><p>se tornam vítimas dessa concepção enviesada e reducionista do transtorno</p><p>mental</p><p>como decorrente de predisposições ou fragilidades individuais, sendo comum que</p><p>se atribua a causa maior do acidente ao próprio acidentado (RIBEIRO, 2018).</p><p>O legado de Le Guillant (2006) permite que se pense o nexo causal entre tra-</p><p>balho e transtornos mentais, considerando sua real complexidade, especialmen-</p><p>te por ultrapassar as perspectivas de uma causalidade linear, evitando, assim, a</p><p>visão do psiquismo do trabalhador como mero reflexo de suas experiências. Ao</p><p>contrário, a doença é percebida por ele como uma forma de criação subjetiva</p><p>(CLOT, 2006), evidenciando que as agressões do meio sempre atingem um sujeito</p><p>capaz de reagir e elaborar psicologicamente suas próprias vivências.</p><p>Lima</p><p>163</p><p>5. A intervenção nos locais de trabalho e a</p><p>prevenção do adoecimento mental</p><p>Embora não tenha se detido muito sobre essa questão, é também Le Guillant</p><p>(2006) que oferece uma primeira inspiração para aquele que tenta intervir e pre-</p><p>venir a ocorrência de transtornos mentais nos ambientes de trabalho, graças a</p><p>uma premissa fundamental que pode ser extraída da sua obra: ao invés do traba-</p><p>lhador, é do trabalho que se deve cuidar em todos os sentidos do termo. Portanto,</p><p>para esse teórico, a transformação do trabalho é a melhor garantia da preserva-</p><p>ção da saúde mental dos trabalhadores.</p><p>Ao invés de propor uma classificação dos distúrbios presentes nas categorias</p><p>profissionais que estudou, ele parecia mais preocupado em estabelecer uma nova</p><p>clínica baseada na situação de trabalho e nas possibilidades de transformá-la (CLOT,</p><p>2006). No entanto, é necessário admitir que, apesar das pistas importantes que dei-</p><p>xou a esse respeito, ele não se dedicou suficientemente às estratégias para transfor-</p><p>mar os contextos laborais e nem tampouco aos recursos que podem ser adotados</p><p>para a prevenção de transtornos mentais nesses contextos.</p><p>Ademais, quando se percorre a história da SM&T, é forçoso admitir que, de</p><p>modo geral, tem ocorrido uma ênfase maior no diagnóstico das causas dos trans-</p><p>tornos mentais presentes nos contextos laborais do que no estabelecimento de</p><p>ações efetivas para se lidar com elas. Assim, após um período razoavelmente lon-</p><p>go de dedicação ao problema do nexo causal, os pesquisadores se depararam</p><p>com uma nova dificuldade em torno das estratégias para intervir nos locais de</p><p>trabalho e transformar as situações suscetíveis de gerá-lo.</p><p>No entanto, entre as modalidades de intervenção propostas para esse campo,</p><p>ocorrem alguns problemas. Em primeiro lugar, a permanência da ideia de que</p><p>as condições objetivas podem ser modificadas por meio de um ato puramente</p><p>subjetivo, isto é, pela pura e simples mudança de atitude pessoal diante dessas</p><p>condições. Isto significa que ainda não é devidamente considerado o fato de es-</p><p>tarmos lidando com determinações concretas cuja modificação só pode se dar na</p><p>(e pela) prática.</p><p>Em seguida, ainda prevalece, entre nós, a busca pela expertise, cabendo a um es-</p><p>pecialista diagnosticar os problemas e apresentar sugestões de mudança, sem se per-</p><p>mitir qualquer tipo de protagonismo aos assalariados. Finalmente, permanece a ideia</p><p>de que a escuta especializada dos assalariados seria a solução para seus problemas,</p><p>bastando oferecer a eles um atendimento psicológico para que suportem melhor as</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>164</p><p>dificuldades impostas pelo trabalho. Por meio dessa medida, as empresas esperam</p><p>evitar ou reduzir os afastamentos por transtornos mentais, mas a ideia implícita nessa</p><p>prática é a de que os problemas no mundo do trabalho têm sua origem em questões</p><p>estritamente pessoais, o que justifica o tratamento psicológico como uma medida</p><p>para saná-los. Outra questão que se encontra implícita nessa medida e que pode ser</p><p>ainda mais perniciosa é a visão do trabalhador como vítima, o que pode gerar o de-</p><p>nuncismo, que lhe é complementar. Ou seja, ao tratar o trabalhador como vítima, é</p><p>comum que se passe à etapa seguinte, a de denunciar os problemas que pretensa-</p><p>mente estão na origem dos transtornos mentais no trabalho. Mas como Ivar Oddone</p><p>já demonstrou, desde os anos 1970, na Itália, a ênfase na crítica e na denúncia das</p><p>condições inaceitáveis de trabalho não leva a avanços importantes e nem tampouco</p><p>possui qualquer poder resolutivo (ODDONE et al.,1981).</p><p>Assim, no que concerne à intervenção, o essencial é não perder de vista a pers-</p><p>pectiva de Le Guillant (2006), exposta acima, isto é, de que antes das pessoas, é</p><p>precisamente do trabalho que se deve cuidar. Trata-se, portanto, de manter o</p><p>foco nesse aspecto principal, que consiste no cuidado com o trabalho, de modo a</p><p>criar condições para torná-lo mais flexível, isto é, menos preso a regras e padrões</p><p>rígidos de comportamento, permitindo a cada um fazer os ajustes que necessita</p><p>para adaptá-lo ao seu modo de funcionamento mental e físico.</p><p>Nesse sentido, alguns aspectos essenciais devem ser considerados: a realiza-</p><p>ção de diagnósticos conjuntos com a participação ativa das pessoas envolvidas; o</p><p>resgate da inteligência prática, isto é, do conhecimento adquirido pelo trabalha-</p><p>dor no exercício de sua atividade, aperfeiçoando medidas já tomadas por ele para</p><p>prevenir desgastes no seu trabalho; fortalecimento dos coletivos de trabalho,</p><p>com a atenção para o fato de que a ideia de tornar os coletivos mais sólidos ul-</p><p>trapassa o mero aperfeiçoamento do trabalho em equipe; melhoria dos sistemas</p><p>de avaliação, de promoção, das políticas salariais e dos métodos de treinamento,</p><p>permitindo maior participação das pessoas na sua elaboração e implementação,</p><p>uma vez que as mudanças só serão eficazes se forem pensadas e efetivadas com a</p><p>participação ativa daqueles que são diretamente afetados por elas.</p><p>6. À guisa de conclusão</p><p>Desde seus primórdios, o campo da saúde mental no trabalho vem se desen-</p><p>volvendo por meio de discussões, rupturas e inevitáveis tensões que acompa-</p><p>Lima</p><p>165</p><p>nham a construção de qualquer área do conhecimento. No caso brasileiro não</p><p>tem sido diferente, sendo possível observar, após algumas décadas de estudos</p><p>e debates, uma boa produção teórica sobre o assunto, além do crescimento da</p><p>quantidade de grupos de pesquisa nos centros acadêmicos. No entanto, ainda</p><p>é necessário avançar mais em alguns aspectos, sendo um deles o aumento da</p><p>compreensão de como é possível contribuir para tornar os contextos de trabalho</p><p>psicologicamente mais saudáveis.</p><p>Antes de tudo, caberia refletir sobre o que pode ser considerado um trabalho</p><p>saudável e sobre as condições necessárias para se ampliar o número de empresas</p><p>que oferecem esse tipo de trabalho aos seus assalariados. Clot e Gollac (2014) trata-</p><p>ram bem dessa questão quando discutiram um estudo comparativo entre diversos</p><p>países europeus a respeito da maior ou menor presença de “empresas qualificantes”,</p><p>ou seja, aquelas cuja busca pela eficácia repousa mais na autonomia individual, na</p><p>cooperação e na tomada de decisão coletiva do que na intensificação do trabalho.</p><p>O ponto de partida do estudo foi a premissa de que o ambiente dessas em-</p><p>presas é bem mais favorável à saúde mental e física dos assalariados, uma vez</p><p>que proporciona um maior equilíbrio entre o esforço e a recompensa, entre os</p><p>espaços de trabalho e extratrabalho, além de estar mais presente o sentimento de</p><p>justiça. Ademais, seus empregados se sentem mais seguros quanto à manuten-</p><p>ção do emprego e são menos expostos às situações penosas e de risco.</p><p>A conclusão é de que essas práticas estão mais presentes entre os países do</p><p>Norte da Europa, ou seja, aqueles que são mais avançados em alguns parâmetros</p><p>sociais: possuem políticas de educação ativas, eficazes e igualitárias, permitindo</p><p>que cada um tenha um capital cultural para aplicar no seu trabalho, fazendo com</p><p>que as barreiras entre dirigentes e subordinados sejam reduzidas; apresentam</p><p>pouca desigualdade de gênero, com reduzida pressão sobre as mulheres e fraca</p><p>imposição de trabalho penoso para os homens; oferecem mecanismos de pro-</p><p>teção contra o desemprego e apresentam uma alta taxa de sindicalização,</p><p>per-</p><p>mitindo negociações mais favoráveis aos assalariados; possuem uma tradição de</p><p>negociação descentralizada e uma relativa redução das desigualdades sociais,</p><p>acompanhada de políticas de redistribuição bastante ativas.</p><p>Um aspecto importante é que a opção por esse tipo de política mais favorável</p><p>à saúde não implica custos proibitivos, uma vez que o estudo constata que as em-</p><p>presas qualificantes são também as mais prósperas da Europa. Além disso, os pes-</p><p>quisadores observaram uma espécie de círculo virtuoso em que uma sociedade</p><p>mais igualitária favorece a emergência de empresas qualificantes e estas, por sua</p><p>vez, facilitam a inovação, que se expande de forma ampla. A conclusão é de que</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>166</p><p>a organização qualificante se insere em um conjunto socioeconômico coerente e</p><p>seu contexto resulta de uma construção histórica. Sendo assim, a efetividade das</p><p>transformações introduzidas no trabalho depende de um conjunto mais vasto de</p><p>transformações econômicas e sociais (CLOT; GOLLAC, 2014).</p><p>Finalmente, no que concerne aos problemas psicológicos presentes nos con-</p><p>textos de trabalho, observa-se, atualmente, o uso generalizado do termo estres-</p><p>se, visando a classificar as questões de saúde mental ali existentes. No entanto,</p><p>como, conclui Clot (2010), isso serve apenas para afastar o que realmente impor-</p><p>ta, que é o sentido do trabalho para aquele que o realiza. Em outros termos, essa</p><p>opção pelo diagnóstico de um “distúrbio de adaptação”, como é comumente clas-</p><p>sificado o quadro de estresse, apenas permite que se coloque de lado o fato de</p><p>que as atividades oferecidas aos assalariados podem se tornar “dramaticamente</p><p>insignificantes” (CLOT, 2010, p.111).</p><p>Ao invés de agir sobre a organização do trabalho, acrescenta-se apenas à ges-</p><p>tão estratégica e financeira das empresas uma dimensão psicológica que consiste</p><p>mais em uma “engenharia do sofrimento profissional”, agindo como uma espécie</p><p>de “amortecedor psicológico” para a pressão produtivista (CLOT, 2010, p. 131). Na</p><p>realidade, o que comumente se revela ao pesquisador é que a fadiga do assala-</p><p>riado não se deve à realização da tarefa, mas aos impedimentos que ele sofre,</p><p>impossibilitando-o de finalizar o que começou, ou mesmo obrigando-o a iniciar</p><p>uma atividade, ciente de que não poderá cumpri-la adequadamente.</p><p>Portanto, o melhor caminho para recuperar os vínculos entre saúde e traba-</p><p>lho é aquele que permite a restauração do “poder de agir” dos indivíduos, a qual</p><p>somente pode ocorrer mediante a instalação de um debate em torno do trabalho</p><p>bem feito, já que “bem-estar no trabalho” e “fazer bem o trabalho” não podem</p><p>ser pensados de forma independente um do outro (CLOT, 2010). É por essa razão</p><p>que, entre cuidar do indivíduo e cuidar do trabalho, a escolha deve recair sobre a</p><p>segunda alternativa, pois se a atividade passa a ser objeto de cuidados, as pessoas</p><p>que a realizam serão necessariamente alcançadas.</p><p>Referências</p><p>Lima</p><p>ALVES, N. C. R. A construção sociopolítica dos transtornos mentais e do comporta-</p><p>mento relacionados ao trabalho. 2015. Tese de Doutorado, Universidade de São</p><p>Paulo, São Paulo, 2015.</p><p>167</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e...</p><p>BILLIARD, I. Les conditions historiques et sociales de l’apparition de la psychopa-</p><p>thologie du travail en France (1929-1952). In: CLOT, Y. (Org.). Les histoires da la</p><p>psychologie du travail. Paris: Octarès, 1996.</p><p>BILLIARD, I. Santé mentale et travail. L´émergence de la psychopathologie du tra-</p><p>vail. Paris: La Dispute, 2001.</p><p>BRASIL. Ministério da Fazenda. Secretaria de Previdência. Anuário estatístico da</p><p>Previdência Social. v.24. Brasília, DF, 2017. Disponível em: . Acesso em: 15. mai. 2021.</p><p>CLOT, Y. Le travail à coeur – pour em finir avec les risques psychosociaux. Paris: La</p><p>découverte, 2010.</p><p>CLOT, Y. Prefácio ao livro Louis Le Guillant – da ergoterapia à psicopatologia do tra-</p><p>balho. Petrópolis: Vozes, 2006.</p><p>CLOT, Y.; GOLLAC, M. Le travail peut-il devenir supportable? Paris: Armand Colin,</p><p>2014.</p><p>CODO, W.; SAMPAIO, J. E; HITOMI, A. Indivíduo, trabalho e sofrimento. Petrópolis:</p><p>Vozes, 1993.</p><p>DEJOURS, C. A loucura do trabalho. Ensaio de psicopatologia do trabalho. São Pau-</p><p>lo: Oboré, 1987.</p><p>DEJOURS, C. Travail, usure mentale. Paris: Centurion, 1980.</p><p>DEJOURS, C. Travail, usure mentale (nouvelle édition augmentée). Paris: Bayard</p><p>Éditions, 2000.</p><p>FREUD, S. Nouvelles conferences sur la psychanalyse. Paris: Éd. Gallimard, 1932.</p><p>LE GUILLANT, L. Escritos de Louis Le Guillant – da ergoterapia à psicopatologia do</p><p>trabalho. Petrópolis: Vozes, 2006.</p><p>LIMA, M. E. A. A polêmica em torno do nexo causal entre transtorno mental e</p><p>trabalho. In: FERREIRA, J. J.; PENIDO, L. O. Saúde mental no trabalho: coletânea</p><p>do fórum de saúde e segurança no trabalho do Estado de Goiás. Goiânia: Cir</p><p>Gráfica, 2013.</p><p>LIMA, M. E. A. O lugar e o sentido atribuídos ao trabalho nos escritos culturais de</p><p>Freud. Cadernos de Psicologia Social e do Trabalho, v. 19, n. 1, p 103-119, 2016.</p><p>LIMA, M. E. A.; LEAL, R. M. C. (Org.), Álcool e trabalho – revisitando conceitos à luz</p><p>de novas descobertas. Curitiba: Juruá, 2015</p><p>ODDONE, I.; RE, A.; BRIANTE, G. Rédecouvrir la expérience ouvrière: vers une autre</p><p>psychologie du travail? Paris: Éditions Sociales, 1981.</p><p>168</p><p>Lima</p><p>POLITZER, G. Critique des fondements de la psychologie. Paris: PUF, 1968.</p><p>RIBEIRO, B. C. O panorama atual das perícias em trabalho-saúde. 2018. Tese</p><p>(doutorado em Educação), Faculdade de Educação da Unicamp, Unicamp,</p><p>Campinas, 2018</p><p>SIVADON, P. Psychiatrie et socialités. Paris: Érès, 1993.</p><p>TOSQUELLES, F. Le travail thérapeutique em psychiatrie. Paris: Érès, 2009.</p><p>169</p><p>Acidentes e</p><p>doenças: violência</p><p>no cotidiano dos</p><p>trabalhadores</p><p>Maria Maeno</p><p>Daniela Sanches Tavares</p><p>7</p><p>Acesse</p><p>www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>para materiais complementares</p><p>e atualizados - incluindo atividades e</p><p>indicação de filmes, artigos e livros.</p><p>171</p><p>1. Introdução</p><p>Razão e sensibilidade. Talvez alguns tenham lido este primeiro livro de Jane</p><p>Austen, publicado em 1811, ou assistido ao filme de mesmo nome, lançado em</p><p>1996. Entre damas e cavalheiros bem vestidos, na Inglaterra do final do século</p><p>XVIII e início do século XIX, a história tem como protagonistas duas de três irmãs</p><p>que, de uma hora para outra, se veem desprovidas financeiramente, ao perderem</p><p>seu pai e verem a herança toda ser destinada a um meio-irmão, simplesmente por</p><p>ser homem, em uma época em que os dotes definiam os destinos das mulheres.</p><p>Em diferentes momentos, a trama desnuda ao leitor ou expectador a discrimi-</p><p>nação contra a mulher, seu papel subalterno naquela sociedade, na qual o casa-</p><p>mento era o único caminho “digno” para conquistas materiais e para a ampliação</p><p>de seus círculos sociais. A trama expõe situações que permitem suscitar várias</p><p>críticas das relações sociais no seio do mundo britânico da época.</p><p>Longe do mundo reconstituído por Jane Austen, do lado de cá do planeta,</p><p>[...] entre meados do século XVI e a abolição em 1888 do tráfico no</p><p>Brasil, mais de 14 milhões de pessoas, principalmente da África Oci-</p><p>dental e do Golfo da Guiné, foram arrancadas de suas comunidades</p><p>de origem para serem deportadas às colônias europeias do Caribe,</p><p>ao Sul do que seriam os Estados Unidos, e à costa brasileira.</p><p>[...] Constituíram a força de trabalho que impulsionou a primeira</p><p>agricultura de exportação, o cultivo de açúcar, de tabaco e de algo-</p><p>dão, matérias-primas que propiciaram o capitalismo europeu, parti-</p><p>cularmente o britânico (WILLIAMS, 2017).</p><p>Tanto nas terras europeias como nas Américas, sabia-se que o sangue de ne-</p><p>gros escravizados se misturava com o dos operários ingleses (ENGELS, 1975) e</p><p>estava em cada peça manufaturada na Inglaterra. Esses sequestros de pessoas le-</p><p>vadas de um continente a outro perduraram durante séculos, sem que houvesse</p><p>a predominância de sentimento ou percepção de violência. Era assim.</p><p>Ao longo dos séculos, ao sabor de transformações sociais de várias naturezas,</p><p>damas</p><p>e cavalheiros, circunscritos a uma restrita realidade social, foram desen-</p><p>volvendo, paulatinamente, a sensibilidade a vários tipos de injustiças, desigual-</p><p>dades e ofensas aos cidadãos e cidadãs, por motivo de gênero, raça, cor, religião</p><p>e mesmo classe social. No entanto, predomina até hoje a insensibilidade frente</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>172</p><p>à intensa exploração das forças e da saúde a que está submetida boa parte da</p><p>população mundial em prol da produção de riquezas materiais. Ao contrário, o</p><p>subjugo psicológico, moral, cultural e econômico que possibilita tal exploração é</p><p>incrivelmente decodificado na sociedade atual como oportunidade.</p><p>O magnífico livro Trabalhadores, de Sebastião Salgado (1996), permite um</p><p>passeio pelas atividades de trabalho pesadas, duras, sejam manuais ou indus-</p><p>triais, por meio de fotografias tão vivas que parecem mostrar em cada cena um</p><p>acidente prestes a acontecer, um adoecimento a ser desencadeado. São cenas</p><p>de trabalho nos canaviais do Brasil e de Cuba, nas plantações de chá de Ruanda,</p><p>nas estradas de ferro da França, no garimpo de Serra Pelada, nas minas de carvão</p><p>da Índia, em fábricas têxteis de Bangladesh e do Cazaquistão, de aço na França e</p><p>Ucrânia, em poços de petróleo do Kuwait e em tantos outros lugares, cujos traba-</p><p>lhadores não usufruem dos benefícios das riquezas extraídas da natureza. Apesar</p><p>de suas imagens terem sido eternizadas em plena atividade de trabalho no século</p><p>XX, os trabalhadores se mantêm a uma distância igualmente abissal do imagi-</p><p>nário dos frequentadores dos belos ambientes limpos e perfumados de grandes</p><p>centros urbanos de um outro mundo, como acontecia no século XIX.</p><p>2. Séculos XIX/XX, Austrália</p><p>Geração roubada, filme australiano1 lançado em 2002, foi exibido na 43ª Mos-</p><p>tra de Cinema Internacional de São Paulo, baseado no livro Follow the rabbit-proof</p><p>fence, da escritora aborígene Doris Pilkington Garimara. Entre 1880 e 1960, o go-</p><p>verno australiano sequestrava crianças mestiças (a miscigenação era proibida) e</p><p>as entregava a famílias brancas, para as quais passavam a trabalhar. O filme e o</p><p>livro tratam da história da mãe de Doris, Molly Craig, de mãe aborígene e pai bran-</p><p>co, que, em 1930, quando tinha 14 anos, foi levada de Jigalong, uma comunidade</p><p>na parte ocidental do país, onde morava, para viver em um acampamento onde</p><p>seria preparada para conviver com os brancos. Junto com ela, foram também a</p><p>irmã Daisy e a prima Grace. Não podiam falar o dialeto, sofriam castigos físicos e</p><p>psicológicos e eram obrigadas a frequentar a igreja anglicana local, evidencian-</p><p>do a intenção de anulação de sua cultura e modo de vida. Elas decidem fugir</p><p>e a única forma de voltar para casa era percorrer os 2.500 quilômetros que as</p><p>1 - (GERAÇÃO..., 2002), consulte a lista ao final.</p><p>Maeno e Tavares</p><p>173</p><p>separavam da comunidade. E foi o que fizeram, seguindo uma cerca de cinco mil</p><p>quilômetros, que atravessa o deserto (outback australiano) e foi construída para</p><p>proteger a lavoura dos coelhos e os rebanhos de ovelhas dos dingos, uma espécie</p><p>de cão selvagem e feroz. Molly foi recapturada aos 24 anos, quando já tinha duas</p><p>filhas. Fugiu novamente, levando apenas uma das filhas. Doris, a autora do livro,</p><p>foi deixada para trás e só reencontrou a mãe depois de 31 anos. Sua irmã, roubada</p><p>de sua mãe, nunca mais foi reencontrada.</p><p>Embora a última cena do filme seja reconfortante, com Molly e sua irmã, já</p><p>idosas, caminhando em sua comunidade, lembrando do passado, relatos recen-</p><p>tes mostram que os aborígenes australianos continuam discriminados e vítimas</p><p>de ações não condizentes com uma imagem cultivada de país que motivou até</p><p>recentemente milhares de estudantes brasileiros e de outras nacionalidades a</p><p>buscarem intercâmbio em um país cidadão e seguro. Em 2015, Carlin2, em uma</p><p>matéria jornalística com o título “Austrália: as frustrações da perfeição“, depois de</p><p>passar dez dias naquele país, relatou que se sentiu aliviado ao subir ao avião para</p><p>o voo de volta, para reencontrar a desordem da “velha Europa”, porque, por um</p><p>lado, as “preocupações dos australianos são tão banais; e, por outro, porque o pa-</p><p>raíso aborrece.” Aparentemente paradoxal, praticamente na mesma época, outra</p><p>matéria jornalística relatava uma realidade distinta do mesmo país “paradisíaco”</p><p>descrito por Carlin. Pilger3 afirmava que a prática de roubar crianças aborígenes,</p><p>até de maternidades, era disseminada, mais ainda do que na época da publicação</p><p>do Relatório do inquérito nacional da separação de crianças aborígenes e das ilhas</p><p>do Estreito de Torres4 de suas Famílias, em 1997, quando se analisou a legislação ao</p><p>longo da história recente da Austrália e as práticas racistas, discriminatórias e ge-</p><p>nocidas em relação aos aborígenes (COMMONWEALTH..., 1997). Wittmann (2017)</p><p>analisou os relatos de mulheres aborígenes australianas, que viveram a separação</p><p>de suas famílias quando crianças e que estavam em um processo de retorno às</p><p>suas comunidades.</p><p>Se pensarmos em adjetivos que qualifiquem os cenários descritos, certamen-</p><p>te virão à tona desrespeito, violência, injustiça, desumanidade, maldade, desi-</p><p>2 - CARLIN, J. Austrália: as frustrações da perfeição. Como um dos países mais ricos do mundo não alcançou</p><p>a satisfação. El Pais, 26 out. 2015. Disponível em: . Acesso em 12.mai.2020.</p><p>3 - PILGER, J. Infância roubada. Opera Mundi, São Paulo, 15.mai.2014. Disponível em: . Acesso em: 18.mai.2021.</p><p>4 - O Estreito de Torres é uma passagem náutica entre a Península de York, extremo Norte da Austrália, e a Nova</p><p>Guiné, ilha da Melanésia, parte do estado independente de Papua-Nova Guiné e outra parte território da Indonésia.</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>174</p><p>gualdade, brutalidade. Nada que combine com o que entendemos por civilidade.</p><p>São situações em que há imposição de suplício físico e psicológico a pessoas que</p><p>são colocadas em posição de extrema vulnerabilidade. As relações de domina-</p><p>ção para explorar o outro povo ou grupo, seja como uso de mão-de-obra barata,</p><p>seja como apropriação de recursos sob suas posses, modificam-se, mas não se</p><p>extinguem. Renovam-se, camuflam-se, travestem-se com o auxílio da linguagem.</p><p>A exploração dos aborígines passa a ser chamada de inserção numa cultura que</p><p>muito teria a lhes oferecer. A inserção dos aborígines na sociedade australiana e</p><p>seu uso como mão de obra barata são faces do mesmo processo.</p><p>Ao longo da história, a marca da exploração é o que caracteriza as relações</p><p>de desigualdade, em diferentes contextos, as quais, mesmo suscitando alguns</p><p>movimentos contrários e de resistência, encontram um silêncio cúmplice, tão co-</p><p>nhecido quanto constrangedor.</p><p>A violência no trabalho se naturaliza no cenário de exploração sob o discurso</p><p>de que o trabalho dignifica e enobrece, quando ao contrário, adoece e mata.</p><p>3. As violências: antes e durante a pandemia.</p><p>Acidentes e doenças</p><p>Permanentes na história da humanidade, as violências se manifestam de for-</p><p>mas diferentes, de acordo com os fatos políticos, econômicos e culturais vigentes</p><p>em cada local e época (BURKE, 1995; CHESNAIS, 1981; WIEVIORKA, 2006).</p><p>Sob esta perspectiva, as violências relacionadas ao trabalho na contempora-</p><p>neidade não devem ser analisadas como fenômenos isolados, a-históricos e tam-</p><p>pouco sob um enfoque interpessoal, mas sim como manifestações consonantes</p><p>com a gestão e a cultura organizacionais no capitalismo globalizado (BERLINGIE-</p><p>RI, 2015).</p><p>A análise do contexto social, político e econômico, bem como dos aspectos or-</p><p>ganizacionais do trabalho é essencial para que se compreenda tanto as agressões</p><p>físicas sofridas por profissionais da saúde (BAPTISTA et al., 2017) e da educação</p><p>(MELANDA et al., 2018) como o assédio moral sobre os bancários, premidos por</p><p>metas de produtividade (SOBOLL, 2008).</p><p>Zizek (2014) manifesta preocupação em trazer à tona o que ele chama de</p><p>“violência sistêmica”, uma violência que não seria somente a física, tampouco</p><p>se esgotaria na consideração daquilo que ele chamaria de violência ideológica,</p><p>Maeno e Tavares</p><p>175</p><p>como o racismo e a discriminação sexual, entre outras. A violência sistêmica en-</p><p>globaria formas mais sutis de coerção que sustentam as relações de dominação e de</p><p>exploração, incluindo a ameaça de violência” (ZIZEK, 2014, p.33), que decorreriam</p><p>do “funcionamento regular de nossos sistemas econômico e político” (ZIZEK, 2014,</p><p>p. 24). Ou seja, segundo o autor, há fatos concretos e materiais que fazem com</p><p>que pessoas, grupos e populações sejam mantidos numa posição de absoluta</p><p>vulnerabilidade, a ponto de se submeterem a condições de existência (sobretudo</p><p>trabalho) subumanas e isso decorre do funcionamento normal do nosso sistema</p><p>econômico e político. Essa é a violência pela qual gostaríamos de iniciar.</p><p>No Brasil, a parcela 1% mais rica concentra quase um terço da renda total do</p><p>país. Se levarmos em conta os 10% mais ricos, a concentração é de 41,9% da ren-</p><p>da total. São dados de um importante relatório do Programa das Nações Unidas</p><p>para o Desenvolvimento (UNITED NATIONS..., 2019), que destaca os altos níveis de</p><p>desigualdade do Brasil, África Subsaariana e Oriente Médio, sendo o Brasil o se-</p><p>gundo país que mais concentra renda no mundo, ficando atrás apenas do Catar.</p><p>Talvez esses números ganhem concretude, se os transpusermos para o chão</p><p>de uma grande cidade como São Paulo, cujos indicadores de 2019, referentes à</p><p>população, meio ambiente, segurança viária, direitos humanos, habitação, saúde,</p><p>educação, cultura, esporte, trabalho e renda nos revelam uma desigualdade des-</p><p>concertante entre os seus 96 distritos. Por exemplo, o coeficiente de mortalidade</p><p>infantil (morte de crianças com menos de um ano de idade) variou de 1,07 a 25,49</p><p>a cada 1.000 nascidos vivos. O coeficiente de mortalidade materna (morte femi-</p><p>nina relacionada à gestação, parto e puerpério) variou de 0 a 52,4 a cada 10.000</p><p>nascidos vivos. E o coeficiente de baixo peso ao nascer (menos de 2,5kg) variou</p><p>de 6,5% a 12,78%. Já a proporção de favelas em relação ao total de domicílios va-</p><p>riou de 0 a 49,15%. Talvez um dos dados mais emblemáticos seja a idade média ao</p><p>morrer, que variou de 57,31 a 80,57 anos. Comparados a 2018, houve aumento da</p><p>desigualdade de importantes indicadores, entre os quais a violência contra a mu-</p><p>lher e o feminicídio, a gravidez na adolescência, o número de leitos hospitalares,</p><p>a mortalidade infantil, o número de atropelamentos e a idade média ao morrer</p><p>(REDE NOSSA..., 2019).</p><p>Todos esses números se expressam no cotidiano dos moradores dos distritos</p><p>com os piores indicadores nas formas de maiores filas para serviços de saúde, em</p><p>mais enterros de crianças, jovens e mulheres, em condições insalubres de mora-</p><p>dia, em mais violências de todos os tipos. E inevitavelmente potencializam a vul-</p><p>nerabilidade dessas pessoas frente a contratos de trabalho abusivos ou até mes-</p><p>mo a ausência deles. A urgência por renda mina qualquer força de resistência a</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>176</p><p>insultos, agressões, humilhações e desprezo aos direitos. É o que vemos durante a</p><p>longa crise sanitária pela qual passa o Brasil em decorrência do novo coronavírus.</p><p>Segundo o IBGE5, na semana de 3 a 9 de maio de 2020, 16,6 milhões de pessoas</p><p>(19,8% dos ocupados) estavam afastadas do trabalho devido ao distanciamento</p><p>físico, sendo que esse número foi decrescendo semana a semana, chegando a 4,7</p><p>milhões (5,7% dos ocupados) na semana de 2 a 8 de agosto.</p><p>As pessoas inseridas em atividades consideradas essenciais (BRASIL, 2020a) e</p><p>outras convocadas pelos empregadores continuaram a trabalhar. Além das res-</p><p>trições das atividades de trabalho formal na indústria, no comércio e na área de</p><p>serviços, as ruas se esvaziaram do comércio de rua, expressão da informalidade.</p><p>Desapareceram os pipoqueiros, vendedores de frutas, de bolos e outros doces,</p><p>malabaristas de cruzamentos, limpadores de para-brisas, flanelinhas, vendedores</p><p>de bijuterias, artesanato, roupas, quadros, miudezas, entre outros. Trabalhadores</p><p>como manicures, cabeleireiros, diaristas tiveram suas demandas bastante redu-</p><p>zidas. Por força dos parlamentares de oposição ao Governo Federal, o Congresso</p><p>Nacional6 definiu o auxílio-emergencial no valor de R$ 600,00 mensais, por três</p><p>meses, em abril (BRASIL, 2020b), para muitos desses trabalhadores citados, en-</p><p>quadrados, entre outras, nas condições de contribuintes individuais e dos chama-</p><p>dos microempreendedores individuais. Inicialmente previsto para ser pago em</p><p>três parcelas de 600 reais, o auxílio-emergencial foi prorrogado por dois meses. A</p><p>partir de setembro, o governo aceitou pagar mais 4 parcelas, porém cortando o</p><p>valor pela metade, passando cada uma delas a 300 reais. Nos primeiros meses de</p><p>2021 foram intensos os debates sobre a necessidade de se retomar o auxílio, fren-</p><p>te, agora, não só ao recrudescimento da pandemia, mas também ao agravamento</p><p>da crise econômica. Em março de 2021, o governo anunciou que seriam concedi-</p><p>das mais quatro parcelas, com valores entre 150 a 375 reais, pagas a 45,6 milhões</p><p>de pessoas no Brasil, 22,6 milhões a menos que as contempladas em 20207. Em</p><p>julho de 2021, anunciou que seria prorrogado até outubro.</p><p>5 - IBGE. PNAD Covid19: 5,7% da população ocupada estava afastada do trabalho devido ao distanciamento so-</p><p>cial na primeira semana de agosto. Em 28.ago.2020. Disponível em: . Acesso em</p><p>7.mai.2021.</p><p>6 - CÃMARA DOS DEPUTADOS. Líderes da oposição propõem renda básica emergencial durante a pandemia. Brasília,</p><p>DF, 2020. Disponível em: . Acesso em 13.mai.2021.</p><p>7 - https://brasil.elpais.com/economia/2021-03-31/auxilio-emergencial-de-2021-comeca-em-6-abril-com-valores-</p><p>-menores-e-menos-beneficiados-saiba-as-regras.html</p><p>Maeno e Tavares</p><p>177</p><p>Em 2020, dos aproximadamente 211 milhões de habitantes, 93 milhões consta-</p><p>ram do cadastro processado para receber esse auxílio emergencial e 50,3 milhões</p><p>foram aprovados8. Trata-se do reconhecimento formal de que pelo menos 25% dos</p><p>brasileiros vivem numa situação de extrema instabilidade econômica e vulnerabi-</p><p>lidade. E de fato, esse grande contingente não tem condições de sobreviver sem</p><p>trabalhar mesmo por alguns dias ou semanas. É como se a todo momento, suas</p><p>vidas estivessem por um triz de serem perdidas. Não se pode esquecer que parcela</p><p>importante desse um quarto da população brasileira não tem onde morar ou mora</p><p>em favelas, ou comunidades, sem rede de água e saneamento básico.</p><p>O retorno à normalidade, chavão do período pandêmico, significa então, o re-</p><p>torno a uma situação na qual todas essas desigualdades e vulnerabilidades de boa</p><p>parcela da população do país permaneciam ocultas e não afloravam de uma forma</p><p>tão clara para todos. Uma normalidade de violências para esses 25% da popula-</p><p>ção, que se expressa na negação de direitos, exclusão e humilhação social (MINAYO;</p><p>SOUZA, 2005, p. 146; MINAYO, 2007, pp. 32-33) tão presentes nos trabalhos precari-</p><p>zados, abordados no primeiro capítulo deste livro por Antunes e Praun. Assistimos,</p><p>durante a pandemia, a outras manifestações de violência, quando, por exemplo,</p><p>a retomada das atividades econômicas é colocada como um sacrifício inevitável</p><p>para que o país “prospere”, a partir de um discurso que subordina toda a vida em</p><p>sociedade às leis da economia. Trata-se de uma linguagem da gestão contempo-</p><p>rânea, na qual o desprezo pela vida é travestido de falhas operacionais, como por</p><p>exemplo, nos problemas dos aplicativos e alegado erro de cadastro9; a demora nos</p><p>procedimentos passa a ser propalada como rigor e seriedade, subestimando</p><p>a ne-</p><p>cessidade de socorro a quem passa fome e atrasa suas contas10 e as dificuldades</p><p>previstas entre a população mais pobre, como limitação de acesso à rede de inter-</p><p>net, inexistência de número de um telefone celular para registro ou inexistência</p><p>8 - G1. Auxílio emergencial: de 93 milhões de cadastros processados pela Dataprev, 50,3 milhões foram aprovados.</p><p>2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>9 - G1 SP. Dados como mortos pela Caixa, trabalhadores informais de SP têm auxílio emergencial negado. São Paulo,</p><p>2020. Disponível em: . Acesso em: 13.mai.2021.9 G1. Auxílio emer-</p><p>gencial de R$ 600 revela 46 milhões de brasileiros invisíveis aos olhos do governo. 2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>10 - Dados como mortos pela Caixa, trabalhadores informais de SP têm auxílio emergencial negado. Disponível em</p><p>https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/05/22/dados-como-mortos-pela-caixa-trabalhadores-informais-</p><p>-de-sp-tem-auxilio-emergencial-negado.ghtml > acesso em: 22.mai.2020.</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>178</p><p>de conta bancária. Trata-se de uma violência naturalizada por muitos, que leva ao</p><p>assujeitamento e à usurpação da dignidade humana, que condiciona e pavimenta</p><p>o caminho para outras formas de violência que têm espaço no trabalho.</p><p>Esse cenário social desalentador, no mundo do trabalho formal, pode ser</p><p>sintetizado pelo processo de reestruturação produtiva e terceirização, que</p><p>data de décadas e que oculta as responsabilidades pelo mal-estar e produção</p><p>de acidentes e doenças também de forma desigual. Costa (2016) lembra que</p><p>a primeira manifestação da Central Única dos Trabalhadores (CUT) contra a</p><p>terceirização consta nas resoluções do seu 5º Congresso Nacional, em 1994.</p><p>As diferenças das possibilidades de morrer no trabalho são moduladas pela</p><p>inserção em determinados setores de um mesmo ramo econômico e por mo-</p><p>dalidades de vínculos empregatícios. Em uma análise de Comunicações de</p><p>Acidentes de Trabalho (CATs) de 2013, realizada por Druck e Filgueiras (2014),</p><p>no grupo estudado, as chances de um trabalhador de empresas pertencentes</p><p>a três códigos da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) da</p><p>construção civil morrer, em comparação à probabilidade média de se morrer</p><p>desenvolvendo outra atividade do mercado formal, mostraram-se maiores.</p><p>Trabalhadores de obras de acabamento tinham 2,32 vezes mais possibilidades</p><p>de morrer no trabalho quando comparadas a outras atividades, sendo desse</p><p>grupo, 18 terceirizados e dois contratados diretos; os de obras de terraplana-</p><p>gem tinham 3,3 vezes mais, sendo 18 terceirizados e um contratado direto. E</p><p>os de serviços especializados não especificados e de obras de fundação, 2,45</p><p>vezes mais, sendo 30 terceirizados e quatro empregados diretos.</p><p>Coutinho (2016) demonstra a enorme diferença de número de mortos no tra-</p><p>balho entre efetivos e terceirizados da Petrobras entre 1995 e 2013, destacando</p><p>que morreram em média 7,23 vezes mais terceirizados do que efetivos.</p><p>As mortes no trabalho, assim, antes da pandemia, já faziam parte do cenário</p><p>de violência estrutural ao qual a sociedade e os trabalhadores já estavam habitu-</p><p>ados, ou pelo menos, conformados, considerando-as inevitáveis.</p><p>4. A vida do trabalhador brasileiro no século XXI</p><p>em plena pandemia</p><p>Em fevereiro de 2020, havia aproximadamente 12,5 milhões de desocupados</p><p>no Brasil. Dos 93,4 milhões de ocupados, 24,2 milhões trabalhavam por conta pró-</p><p>Maeno e Tavares</p><p>179</p><p>pria e 11,6 milhões trabalhavam sem carteira assinada no setor privado. A taxa</p><p>de informalidade média no Brasil era de 41,1% e o desemprego havia crescido</p><p>87,7% de 2014 a 201911. Nesse mesmo mês foi diagnosticado o primeiro caso de</p><p>Covid-19 no país.</p><p>A partir daí, tivemos um período de relativo estado de distanciamento físico</p><p>em todo o país, com pouco controle e fiscalização, com manifestações contrárias</p><p>ao conhecimento científico da mais alta autoridade política do país e ausência de</p><p>comando nacional. O apoio financeiro para que as famílias em situação econômi-</p><p>ca precária pudessem continuar subsistindo mesmo com a interrupção de suas</p><p>atividades de trabalho foi dificultado, retardado, interrompido, teve seu valor di-</p><p>minuído e o número de pessoas alcançadas restringido.</p><p>A primeira morte por Covid-19, ocorrida no Rio de Janeiro, foi de uma empre-</p><p>gada doméstica de 63 anos, diabética e hipertensa, que trabalhava no Leblon, na</p><p>zona Sul da cidade, e era moradora de Miguel Pereira, município a cem quilôme-</p><p>tros de onde trabalhava12. Sua empregadora havia retornado de viagem à Europa</p><p>e tinha sido diagnosticada com Covid-19, encontrando-se com orientações de</p><p>permanecer isolada em casa. E se recuperou. Será que a empregada havia sido</p><p>informada desse risco de contágio, que efetivamente ocorreu13? Um caso que fala</p><p>por mil, emblemático do efeito diverso que tem esta e outras doenças nas dife-</p><p>rentes camadas da população.</p><p>O vírus começou a atingir os trabalhadores que prestam serviços para pessoas</p><p>das camadas média e alta, geralmente alheias às demais doenças infectoconta-</p><p>giosas abundantes em nosso país. Assim, os trabalhadores domésticos, entre eles,</p><p>empregadas e cozinheiras, babás, cuidadores de idosos e pessoas com deficiên-</p><p>cia, guardas e motoristas privados, trabalhadores dos condomínios, trabalhado-</p><p>res do correio, entregadores de alimentos e outros produtos, cabeleireiros e mani-</p><p>cures, na condição de portadores assintomáticos ou no período pré-sintomático,</p><p>levaram o vírus para seus locais de moradia, geralmente distantes de onde traba-</p><p>lham nas grandes cidades.</p><p>11 - REDE BRASIL ATUAL. O país tem 11 estados com mais de 50% na informalidade, que “sustenta” o emprego. São</p><p>Paulo, 2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>12 - BRASIL DE FATO. Trabalhadora doméstica é a primeira vítima do coronavírus no Estado do Rio. Rio de Janeiro,</p><p>2020. Disponível em: . Acesso em 14.mai.2021.</p><p>13 - PÚBLICA. Primeira morte no Rio por coronavírus, doméstica não foi informada do risco de contágio pela “patroa”.</p><p>2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai. 2021.</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>180</p><p>A certeza da crescente disseminação, prevista por inúmeros epidemiologistas</p><p>e cientistas, fez com que os serviços de saúde privados de ponta tomassem pro-</p><p>vidências para rapidamente conter ou restringir a possibilidade de contaminação</p><p>de sua clientela. O SUS ofereceu essa proteção aos usuários e aos seus trabalha-</p><p>dores de maneira desigual no país. Abundantes foram as denúncias de sindicatos</p><p>referentes às condições sob as quais os trabalhadores da saúde atuaram e con-</p><p>tinuam atuando na pandemia, no tocante à falta de equipamentos de proteção</p><p>pessoal, de medicamentos adequados, ao excesso e sobrecarga de trabalho, à</p><p>falta de ventilação adequada nos ambientes de trabalho, entre outros aspectos.</p><p>O Brasil é provavelmente o país com o maior número de mortes de médicos e</p><p>profissionais de enfermagem do mundo14.</p><p>5. O caso dos frigoríficos: exportação é atividade</p><p>essencial?</p><p>Observe-se o quadro a seguir, de dados comparativos referentes à exportação</p><p>de carne bovina e derivados dos meses de janeiro a julho de 2019 e 202015.</p><p>Quadro comparativo de exportação de carne bovina de janeiro a julho de</p><p>2019 e 2020</p><p>14 - Carta Manifesto assinada por 20 entidades ligadas à saúde coletiva. Em defesa da vida. Solidariedade aos pro-</p><p>fissionais de saúde mortos por Covid-19. Brasil pais com maior número de mortes de médicas, médicos, enfermeiras</p><p>e enfermeiros pela Covid-19. Disponível em: . Acesso em: 1.set.2020.</p><p>15 - ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE FRIGORÍFICOS. Exportação brasileira de carne bovina e derivados, janeiro a julho</p><p>de 2020. Curitiba, 2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>Maeno e Tavares</p><p>181</p><p>Fonte: sítio ABRAFRIGO: http://abrafrigo.com.br/wp-content/uploads/2020/07/ABRAFRIGO-Expor-</p><p>ta%C3%A7%C3%A3o-Carne-Bovina-Jan_2019-a-Jul_2020.pdf > acesso em 24/08/2020</p><p>Nos meses de março e abril, houve uma variação de 3% e -1%, respectiva-</p><p>mente, sendo que nesses meses estava em vigor o decreto que definia as ativi-</p><p>dades essenciais que poderiam continuar funcionando durante a pandemia, não</p><p>constando dentre elas as executadas pelos frigoríficos especificamente para ex-</p><p>portação (BRASIL, 2020a). É possível que as exportações de abril reflitam estoque</p><p>acumulado nos meses anteriores. No entanto, nos meses subsequentes, as varia-</p><p>ções continuaram positivas, chegando a 21% em maio e 28% em junho, dirimin-</p><p>do eventuais dúvidas sobre o efetivo crescimento das atividades de exportação.</p><p>Os trabalhadores desse ramo mantiveram-se trabalhando por todo o período.</p><p>Alvo de estudos, denúncias e processos judiciais referentes a precárias condições</p><p>de trabalho e ocorrência de acidentes e doenças relacionadas à organização do</p><p>trabalho anteriores à pandemia16 17 18 (OLIVEIRA; MENDES, 2014; SARDÁ; RUIZ;</p><p>KIRTSCHIG, 2009), o setor frigorífico tem merecido especial atenção das autori-</p><p>dades sanitárias.</p><p>No contexto da pandemia, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de</p><p>Carnes e Derivados, Frangos, Rações Balanceadas, Alimentação e Afins de Crici-</p><p>úma e Região entrou com uma ação coletiva, que foi decidida em primeira ins-</p><p>16 - JUSBRASIL. A vida por trás da linha de produção nos frigoríficos. Porto Alegre, 2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>17 - REPÓRTER BRASIL. “Carne e Osso” retrata trabalho nos frigoríficos brasileiros. São Paulo, 2011. Disponível em:</p><p>. Acesso</p><p>em: 14.mai.2021.</p><p>18 - REL-UITA. Seara e JBS podem pagar R$ 29 milhões por irregularidades trabalhistas. Montevideu, 2017. Dispo-</p><p>nível em: . Acesso</p><p>em: 14.mai.2021.</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>182</p><p>tância, em 20/3/2020, pela paralisação integral das atividades de duas grandes</p><p>empresas (JBS e Seara), sem prejuízo de remuneração. O juiz determinou que as</p><p>empresas poderiam “de comum acordo com a entidade sindical, apresentar ao</p><p>juízo, na sequência, plano de redução de atividades que salvaguarde a saúde de</p><p>seus empregados, no sentido de evitar a paralisação total19”.</p><p>O recurso das empresas foi decidido, em segunda instância, em 21/3/2020,</p><p>quando a desembargadora considerou que a indústria frigorífica desempenha</p><p>“importantíssima função destinada à alimentação da população em geral” e que</p><p>as empresas haviam tomado providências para garantir as condições de higiene</p><p>adequadas para evitar o adoecimento por Sars-Cov2, revertendo a decisão de tu-</p><p>tela de urgência que havia sido proferida na ação civil coletiva20.</p><p>A comparação das duas decisões judiciais evidencia diferentes pontos de vista</p><p>sobre o problema e provoca algumas reflexões. Não estavam harmonizadas, na</p><p>decisão de primeira instância, as determinações sanitárias com o respeito à ma-</p><p>nutenção das atividades essenciais, ao determinar um plano de redução de ativi-</p><p>dades com o cotejamento necessário para que se garantisse a segurança alimen-</p><p>tar com a produção de alimentos para a população brasileira? O que a decisão</p><p>da primeira instância não teria contemplado, ao relevar para um segundo plano</p><p>a parcela de exportação? A lucratividade do setor por alguns meses? A reforma</p><p>da decisão pode ser compreendida como a opção pela priorização da produção</p><p>total de carnes, incluída a parte destinada à exportação, em detrimento de maior</p><p>segurança e proteção à saúde dos trabalhadores.</p><p>É importante considerar o contexto dessas empresas, que são sediadas fre-</p><p>quentemente em municípios pequenos, sendo os trabalhadores desses frigorífi-</p><p>cos parcela importante da população geral, podendo, involuntariamente, desem-</p><p>penhar o papel de portadores do vírus da comunidade para dentro das empresas</p><p>e vice-versa. Não se pode isentar a responsabilidade constitucional dos gestores</p><p>públicos das esferas municipais, estaduais e federal pela coordenação de políticas</p><p>e ações envolvendo decisões na economia, saúde, assistência social, ciência e tec-</p><p>nologia, cultura e comunicação, contando com a participação de representantes</p><p>da comunidade. Sendo os espaços das empresas parte dos territórios municipais,</p><p>19 - RECONDO, F. JBS consegue reverter decisão que suspendeu atividades em razão do coronavírus. Jota, São Paulo,</p><p>21 mar. 2020. Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>20 - ANGELO, T. Desembargadora reverte decisão que suspendeu atividades da JBS e Seara. Consultor Jurídico, São</p><p>Paulo, 22 mar. 2020. Disponível em: .Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>Maeno e Tavares</p><p>183</p><p>as orientações para a garantia de condições sanitárias e de segurança da popu-</p><p>lação incluem necessariamente a saúde dos trabalhadores, direito constitucional</p><p>de responsabilidade do Poder Público (BRASIL, 1988; 1990).</p><p>6. A sequência dos fatos evidencia uma situação</p><p>crítica para a saúde dos trabalhadores dos</p><p>frigoríficos e suas famílias: acidentes, LER/</p><p>DORT, adoecimento mental e Covid-19</p><p>Na vigência da pandemia, por denúncias referentes a uma unidade da JBS, em</p><p>Passo Fundo (RS), em trabalho conjunto com a vigilância sanitária daquele muni-</p><p>cípio, o Ministério Público do Trabalho (MPT) começou a investigar as condições</p><p>de trabalho oferecidas pela empresa. A vigilância sanitária “detectou aglomera-</p><p>ção de funcionários na área de lazer durante a troca de turnos; local de triagem</p><p>inadequado; incompatibilidade entre número de funcionários e cumprimento</p><p>do distanciamento; demarcação errônea do distanciamento (um metro); falta de</p><p>comunicação e subnotificação dos casos suspeitos para a vigilância epidemioló-</p><p>gica municipal; falta de monitoramento dos funcionários afastados pela empresa</p><p>e máscaras ineficientes21.” A empresa foi interditada no dia 24 de abril de 2020.</p><p>Segundo a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, a empresa tinha,</p><p>na época, 20 trabalhadores com Covid-19 confirmados, com dois falecimentos de</p><p>parentes próximos22. Essa unidade retomou as atividades no dia 20 de maio, após</p><p>quase um mês de interdição, por decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST),</p><p>após fiscalização da Prefeitura de Passo Fundo, que considerou as adequações</p><p>feitas pela empresa satisfatórias. Segundo informações, após serem imunizados</p><p>contra H1N1, os trabalhadores foram treinados quanto a procedimentos para</p><p>garantir a segurança, tendo passado por triagem, com controle de temperatu-</p><p>ra, que deve ocorrer diariamente nos ônibus fretados pela empresa, cuja taxa de</p><p>ocupação</p><p>eles gra-</p><p>dualmente teçam interações com os(as) gestores(as), os(as) operadores(as) de</p><p>campo, outros(as) colegas engenheiros(as) e técnicos, profissionais da saúde no</p><p>trabalho e vários outros; será preciso que eles passem tempo em campo, obser-</p><p>vando e escutando, favorecendo os debates e as simulações participativas para</p><p>que, pouco a pouco, consigam influenciar um pouco o processo de concepção</p><p>e a vida cotidiana. Será talvez a obra de uma vida toda: uma gota de água no</p><p>oceano de condições de trabalho difíceis, uma verdadeira chance de desenvol-</p><p>vimento para alguns dos seus parceiros e para você mesmo.</p><p>Referências</p><p>AMALBERTI, R.; ROCHA, R.; VILELA, R. A. G.; ALMEIDA, I. M. Gestão de segurança</p><p>em sistemas complexos e perigosos teorias e práticas: uma entrevista com René</p><p>Amalberti. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, São Paulo, n. 43, 2018. Dis-</p><p>ponível em: . Acesso em: 15.mai.2021.</p><p>BARCELLINI, F.; VAN BELLEGHEM, F.; DANIELLOU, F. Os projetos de concepção</p><p>como oportunidade de desenvolvimento das atividades. In: FALZON, P. Ergono-</p><p>mia construtiva, São Paulo: Blücher, 2016.</p><p>CAROLY, S.; SIMONET, P.; VÉZINA, N. Marge de manœuvre et pouvoir d’agir dans</p><p>la prévention des TMS et des RPS. Le travail humain, v. 78, n. especial, 2015/1.</p><p>CLOT, Y. Le travail sans l’homme? Pour une psychologie des milieux de travail et de</p><p>vie. Paris: La Découverte, 1995.</p><p>CURIE, J. Travail, personnalisation et changements sociaux. Toulouse: Octarès</p><p>Éditions, 1996.</p><p>CURIE, J. Condições da pesquisa científica em ergonomia. In: DANIELLOU, F. A er-</p><p>gonomia em busca de seus princípios. São Paulo: Blücher, 2004. Debates Episte-</p><p>mológicos.</p><p>Daniellou</p><p>17</p><p>DANIELLOU, F. The French-speaking ergonomists’ approach to work activity:</p><p>cross-influences of field intervention and conceptual models. Theoretical Issues</p><p>in Ergonomics Science, v. 6, n. 5, p. 409-427, 2005.</p><p>DANIELLOU, F. L’ergologie, en dialogues parmi les ergo-disciplines (prefácio). In:</p><p>DURRIVE, L. L’expérience des normes. Toulouse: Octarès Éditions, 2015.</p><p>DANIELLOU, F. Alain Wisner, l’organisation du travail et la souffrance psychique. In:</p><p>CHRISTOL-SOUVIRON, M; LEDUC, S, DROUIN, A.; ETIENNE, P. (coord.). 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Disponível em: . Acesso em: 14.mai.2021.</p><p>JACKSON, J. M.; LIMA, F. P. A. Análise ergonômica do trabalho no Brasil: transferên-</p><p>cia tecnológica bem-sucedida? Rev. Bras. Saúde Ocup., São Paulo, v. 40, n. 131 p.</p><p>12-17, 2015.</p><p>JOURNÉ, B. Les organisations complexes à risques: gérer la sûreté par les ressources,</p><p>étude de situations de conduite de centrales nucléaires. 1999. Tese - École Poly-</p><p>technique, Paris, 1999.</p><p>LIMA, F.; DUARTE, F. Integrando a ergonomia ao projeto de engenharia: especifi-</p><p>cações ergonômicas e configurações de uso. Gestão & Produção, São Carlos, n.</p><p>21, p. 679-690, 2014.</p><p>LLORY, M. Acidentes industriais, o custo do silêncio. Rio de Janeiro: Multimais, 1999.</p><p>MOREL, G.; AMALBERTI, R.; CHAUVIN, C. Articulating the differences between safe-</p><p>ty and resilience: the decision-making process of professional sea-fishing skip-</p><p>pers. Human Factors, v. 50, n. 1, p. 1-16, 2008.</p><p>NASCIMENTO, A. et al. Construir a segurança: do normativo ao adaptativo. In: P.</p><p>FALZON, Ergonomia construtiva, São Paulo: Blucher, 2016.</p><p>PETIT, J.; DUGUÉ, B. L’intervention ergonomique sur les risques psychosociaux</p><p>dans les organisations: enjeux théoriques et méthodologiques. Le Travail Hu-</p><p>main, v. 74, n. 4, p. 391-409, 2011.</p><p>ROCHA, R.; MOLLO, V.; DANIELLOU, F. Contributions and conditions of structured</p><p>debates on work on safety construction. Safety Science, n. 113, p. 192-199, 2019.</p><p>SCHWARTZ, Y. Expérience et connaissance du travail. Paris: Editions Sociales, 1998.</p><p>SZNELWAR, L. I.; MASCIA, F. L.; BOUYER, G. L’empêchement au travail: une source</p><p>majeure de TMS? Activités, v. 3, n. 2., out 2006. Disponível em: . Acesso em: 20.mai.2021.</p><p>TERSSAC, G. de; LOMPRÉ, N. Pratiques organisationnelles dans les ensembles pro-</p><p>ductifs: essai d’interprétation. In: SPERANDIO, J. C. (dir.), L’ergonomie face aux</p><p>changements technologiques. Toulouse: Octarès Éditions, 1996. p. 51-66.</p><p>Daniellou</p><p>19</p><p>Autores</p><p>por ordem alfabética</p><p>Adelaide Nascimento</p><p>Doutora em Ergonomia. Professora da Pós-Gradu-</p><p>ação em Ergonomia no Centre de Recherche sur le</p><p>Travail et le Développement. CRTD, Cnam - França.</p><p>Airton Marinho Da Silva</p><p>Mestre em Saúde Pública. Professor do curso de</p><p>pós graduação em Ergonomia – Faculdade de</p><p>Engenharia UFMG – Departamento de Engenharia</p><p>de Produção.</p><p>Amanda Aparecida Silva</p><p>Doutora em Ciências. Pós-doutoranda na Facul-</p><p>dade de Saúde Pública da Universidade de São</p><p>Paulo (USP).</p><p>Alessandro José Nunes da Silva</p><p>Mestre em Saúde Coletiva. Técnico de Segurança</p><p>do Trabalho do CEREST Piracicaba.</p><p>Ana Valéria Carneiro Dias</p><p>Doutora em Engenharia de Produção. Professora</p><p>Associada do Departamento de Engenharia de</p><p>Produção da Escola de Engenharia da Universida-</p><p>de Federal de Minas Gerais (UFMG).</p><p>Andréa Regina Martins Fontes</p><p>Doutora em Engenharia de Produção. Professora</p><p>Associada no Departamento de Engenharia de</p><p>Produção Campus Sorocaba da Universidade</p><p>Federal de São Carlos (DEP-So/UFSCar).</p><p>Angela Paula Simonelli</p><p>Doutora em Engenharia de Produção. Professora</p><p>Associada da Universidade Federal do Paraná</p><p>(UFPR).</p><p>Claudio Marcelo Brunoro</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Fundador</p><p>do Instituto Trabalhar. Professor convidado da</p><p>Fundação Dom Cabral (FDC).</p><p>Daniel Braatz</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor</p><p>Adjunto do Departamento de Engenharia de</p><p>Produção da Universidade Federal de São Carlos</p><p>(UFSCar).</p><p>Daniela da Silva Rodrigues</p><p>Doutoranda em Terapia Ocupacional. Professora</p><p>do curso de Terapia Ocupacional da Universidade</p><p>de Brasília (UnB).</p><p>Daniela Sanches Tavares</p><p>Mestre em Saúde Pública. Tecnologista</p><p>deve ser mantida em 50%. O que não se explicou é qual treinamento</p><p>21 - Descaso culmina em interdição de frigorífico da JBS no Rio Grande do Sul. Disponível em: . Acesso em: 15.jul. 2021.</p><p>22 - Mais um frigorífico da JBS é interditado por surto de Covid-19. Disponível em https://www.congressointernacio-</p><p>naldotrabalho.com/copia-noticias-epicovid19erro > acesso em 19.mai.2020.</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>184</p><p>seria efetivo contra a disseminação do novo coronavírus quando se trabalha a</p><p>uma distância exígua de outros colegas em ambiente de ar refrigerado, com pou-</p><p>ca renovação do ar. Considerando apenas esses aspectos, não haveria dois fatos</p><p>contraindicados por qualquer guia de prevenção da Covid-19, quais sejam, proxi-</p><p>midade física e pouca ventilação em um ambiente fechado?</p><p>Trata-se do exemplo de uma empresa do ramo frigorífico, mas há evidências</p><p>de que outras do mesmo ramo apresentam problemas semelhantes aos encon-</p><p>trados pela Vigilância Sanitária de Passo Fundo23 24 25. A associação entre frigorífi-</p><p>cos e a disseminação do novo coronavírus entre os trabalhadores ocorre em ou-</p><p>tros países, como os Estados Unidos, Austrália, Alemanha, entre outros26 27. Esta</p><p>não seria mais uma crônica do adoecimento e da morte anunciada?28</p><p>Os frigoríficos, assim como outros ramos econômicos, já foram e seguem</p><p>sendo cenário de adoecimentos crônicos por LER/DORT e adoecimentos men-</p><p>tais, pelo ritmo intenso de trabalho, com consequências nefastas à saúde pú-</p><p>blica e à sociedade. O documentário Carne, osso, já mencionado em outros</p><p>capítulos desse livro, nos mostra situações em que trabalhadores têm sua dig-</p><p>nidade e saúde duramente atingidas. A violência psicológica é presente na</p><p>simples vivência desse cotidiano opressivo do ritmo extenuante imposto pela</p><p>esteira, do trabalhar com dor até ficar inválido. O documentário traz também</p><p>a violência perpetrada contra trabalhadores já adoecidos, pela negação do</p><p>seu adoecimento e consequente imposição do trabalho até a cronificação e o</p><p>desenvolvimento de sequelas.</p><p>23 - Foco de Covid-19, frigoríficos com milhares de trabalhadores são interditados no RS. Disponível em: .Acesso em: 15.jul.2021.</p><p>24 - Com casos de Covid-19, frigoríficos são interditados no RS e em SC. Disponível em: . Acesso em: 15.jul.2021.</p><p>25 - Ministério Público do Trabalho interdita unidade da Seara em Santa Catarina. Disponível em: . Acesso em: Acesso em: 15.jul.2021.</p><p>26 - US coronavirus hotspots linked to meat processing plants. Disponível em: . Acesso em: 15.jul.2021.</p><p>27 - “Chaotic and crazy”: meat plants around the world struggle with virus outbreaks. Disponível em: . Acesso em: 15.jul.2021.</p><p>28 - Livre adaptação do título de um livro intitulado Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez,</p><p>escritor colombiano, considerado um grande expoente da literatura latino-americana. O livro trata do assassinato de</p><p>Santiago Nasar, de conhecimento prévio de todos do vilarejo onde se passa a história, sem que alguém faça qualquer</p><p>coisa para impedir.</p><p>Maeno e Tavares</p><p>185</p><p>Tavares et al. (2019) reconhecem o processo de adoecimento e afastamento</p><p>do trabalho como causa de grande vulnerabilidade para violências no ambiente</p><p>de trabalho e agruparam estas violências em três categorias.</p><p>[A primeira delas seria] o descrédito e a deslegitimação do quadro</p><p>de adoecimento, da vivência e da fala do trabalhador adoecido e da</p><p>relação disso com o trabalho. Depois, a negação dos direitos sociais</p><p>decorrentes desse adoecimento, que visariam a garantir a sobrevi-</p><p>vência digna quando impossibilitado de trabalhar. E, por último, as</p><p>diferentes interações interpessoais em que agentes da empresa e</p><p>da Previdência Social, no desenvolvimento de sua tarefa de aten-</p><p>der o trabalhador e ainda que muitas vezes sem a intenção, acabam</p><p>por maltratar, humilhar, ofender ou mesmo praticar atos de assédio</p><p>contra o adoecido com vistas às metas e às diretrizes organizacio-</p><p>nais ou institucionais (TAVARES et al., 2019, p. 95).</p><p>7. Empresas de teleatendimento/</p><p>telemarketing/call center. LER/DORT,</p><p>infecção urinária, alterações vocais,</p><p>adoecimento mental, Covid-19</p><p>Mal remunerados, em ambiente competitivo, sofrendo limitações até para</p><p>idas ao banheiro, submetendo-se a regras de controle do corpo e postura, in-</p><p>centivados a introjetar sentimentos e valores propícios a uma venda, sentindo-</p><p>-se desprestigiados, correndo sempre atrás de metas crescentes e de pequenas</p><p>e duvidosas recompensas, monitorados continuamente, controlados em todos</p><p>os movimentos e ações por supervisores, ferramentas e sistemas informatizados,</p><p>sem pausas, a despeito da obrigatoriedade normativa, são aproximadamente 450</p><p>mil jovens em atividade de teleatendimento, sendo que mais de 46% se distri-</p><p>buem no Estado de São Paulo (Relação Anual de Informações Sociais de 2018) em</p><p>espaços físicos de grandes dimensões, às centenas e até milhares. Lembram os</p><p>digitadores das décadas de 1980 e 1990, protagonistas de significativa mobiliza-</p><p>ção de segmentos sociais e de setores governamentais em torno de uma questão</p><p>chave do adoecimento musculoesquelético que se evidenciava à época e que,</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência...</p><p>186</p><p>um pouco mais tarde, também viria a ser relacionada ao sofrimento mental entre</p><p>trabalhadores. Qual seja, o elevado ritmo de trabalho em atividades que exigiam</p><p>a execução de movimentos repetitivos com os membros superiores.</p><p>A elaboração da NR-17, publicada em 1990, buscou justamente colocar limi-</p><p>tes nesse sentido. Houve forte resistência dos representantes patronais, alegando</p><p>obstrução do poder diretivo do empregador (BRASIL, 2002)29, o que desconstrói o</p><p>mito de que não haveria conflitos entre os interesses da preservação da saúde e da</p><p>produtividade do trabalho. Na época, trabalhadores de vários ramos econômicos</p><p>procuravam os serviços de ortopedia, públicos e privados, e os centros de referên-</p><p>cia em saúde do trabalhador, com queixas de dores crônicas e incapacitantes, de-</p><p>correntes da superutilização do sistema musculoesquelético, sem o devido tempo</p><p>de recuperação. Os diagnósticos de tendinites e tenossinovites, síndromes do túnel</p><p>do carpo e síndromes miofasciais eram abundantes, e grandes contingentes das</p><p>categorias mais organizadas conseguiram caracterizar o seu caráter ocupacional.</p><p>Aspectos clínicos, sociais, reabilitacionais e de exames de imagens foram pauta</p><p>de congressos e seminários das mais diferentes especialidades da saúde. As con-</p><p>trovérsias sobre os determinantes e sobre o papel do trabalho no aparecimento e</p><p>manutenção dos quadros clínicos variados, atingindo as partes moles do sistema</p><p>musculoesquelético, eram discutidas em mesas de negociações entre sindicatos</p><p>e empresas. O Ministério da Saúde dedicou o capítulo 18 às lesões por esforços</p><p>repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/DORT) em</p><p>uma robusta publicação de orientações aos serviços de saúde (BRASIL, 2001) e seu</p><p>último protocolo específico é de 2012 (BRASIL, 2012). A Previdência Social publicou</p><p>várias normas técnicas, sendo a última de 2003 (BRASIL, 2003).</p><p>Em 2007, foi publicada a Portaria SIT nº 9, pelo extinto Ministério do Trabalho</p><p>e Emprego (BRASIL, 2007), acrescentando o anexo II à NR-17, tratando especifica-</p><p>mente das condições de trabalho dos operadores de telemarketing. Sua leitura</p><p>dá uma ideia</p><p>da Fun-</p><p>dação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e</p><p>Medicina do Trabalho (Fundacentro).</p><p>Esdras Paravizo</p><p>Doutorando em Engenharia na Universidade de</p><p>Cambridge (UK). Engenheiro de Produção e Mestre</p><p>em Engenharia de Produção pela Universidade</p><p>Federal de São Carlos (UFSCar).</p><p>Eugênio Paceli Hatem Diniz</p><p>Doutor em Saúde Pública. Pesquisador da FUNDA-</p><p>CENTRO-MG e professor e orientador nos cursos de</p><p>Especialização em Ergonomia da UFMG e UFRJ.</p><p>Fausto Leopoldo Mascia</p><p>Doutor em Ergonomia. Professor do Departamen-</p><p>to de Engenharia de Produção da Universidade de</p><p>São Paulo (USP).</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>20</p><p>Flavia Traldi de Lima</p><p>Mestre em Ciências Humanas Sociais Aplicadas.</p><p>Coordenadora de graduação e docente do curso</p><p>de Psicologia da Faculdade Anhanguera de Rio</p><p>Claro-SP.</p><p>Francisco de Paula Antunes Lima</p><p>Doutor em Ergonomia. Professor Titular da Escola</p><p>de Engenharia da Universidade Federal de Minas</p><p>Gerais (UFMG).</p><p>Francisco José de Castro Moura Duarte</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor</p><p>Associado do Programa de Engenharia de Pro-</p><p>dução da Universidade Federal do Rio de Janeiro</p><p>(COPPE/UFRJ).</p><p>Giovana Brentini Zanchetta</p><p>Graduada em Direito e em Ciências Políticas.</p><p>Advogada trabalhista. Bacharel em Ciências</p><p>Sociais pela Unicamp. Pós-graduanda em Direito</p><p>do Trabalho pela USP.</p><p>Ildeberto Muniz de Almeida</p><p>Doutor em Saúde Pública. Professor do Departa-</p><p>mento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina</p><p>de Botucatu, Universidade Estadual Paulista Júlio</p><p>de Mesquita Filho (UNESP).</p><p>Isaías Torres</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor</p><p>Adjunto no Departamento de Engenharia de Pro-</p><p>dução Campus Sorocaba da Universidade Federal</p><p>de São Carlos (UFSCar).</p><p>João Alberto Camarotto</p><p>Doutor em Arquitetura e Urbanismo. Professor</p><p>Titular do Departamento de Engenharia de</p><p>Produção da Universidade Federal de São Carlos</p><p>(UFSCar).</p><p>João Marcos Bittencourt</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor</p><p>no curso de Desenho Industrial da Universidade</p><p>Federal do Fluminense (UFF).</p><p>José Marçal Jackson Filho</p><p>Doutor em Ergonomia. Pesquisador Titular III da</p><p>Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e</p><p>Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO).</p><p>Laerte Idal Sznelwar</p><p>Doutor em Ergonomia. Professor do Departamen-</p><p>to de Engenharia de Produção da Escola Politécni-</p><p>ca da Universidade de São Paulo (USP).</p><p>Leonardo Ferreira Reis</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor</p><p>Adjunto do curso de Engenharia de Saúde e Segu-</p><p>rança na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI).</p><p>Luci Praun</p><p>Doutora em Sociologia. Professora Adjunta da</p><p>Universidade Federal do Acre. Integrante do Grupo</p><p>de Pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamor-</p><p>foses (Unicamp).</p><p>Luiz Felipe Silva</p><p>Doutor em Saúde Pública. Professor Associado no</p><p>Instituto de Recursos Naturais da Universidade</p><p>Federal de Itajubá (UNIFEI).</p><p>Luiz Alfredo Scienza</p><p>Especialista em Toxicologia Aplicada. Auditor-fis-</p><p>cal do Trabalho na área de segurança e saúde do</p><p>trabalhador da SRTE/RS. Professor no Departa-</p><p>mento de Medicina Social, Faculdade de Medicina</p><p>– UFRGS.</p><p>Autores</p><p>21</p><p>Luiz Tonin</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor</p><p>Adjunto no Departamento de Engenharia de Produ-</p><p>ção da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).</p><p>Marcelo Araújo Campos</p><p>Graduado em Medicina. Professor do Instituto</p><p>Federal Minas Gerais (IFMG).</p><p>Maria Elizabeth Antunes Lima</p><p>Doutora em Sociologia do Trabalho. Professora</p><p>Titular aposentada da Universidade Federal de</p><p>Minas Gerais (UFMG).</p><p>Maria Maeno</p><p>Doutora em Saúde Pública. Pesquisadora da</p><p>Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e</p><p>Medicina do Trabalho (FUNDACENTRO).</p><p>Mário Parreiras de Faria</p><p>Mestre em Saúde Pública. Auditor Fiscal do Traba-</p><p>lho. Instrutor da Escola Nacional da Inspeção do</p><p>Trabalho.</p><p>Mauro José Andrade Terêso</p><p>Doutor em Educação. Professor Titular da Facul-</p><p>dade de Engenharia Agrícola da Universidade</p><p>Estadual de Campinas (UNICAMP).</p><p>Paola Stolagli Lustre</p><p>Graduada em Direito. Advogada, Pós Graduada</p><p>em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho,</p><p>Pós Graduada em Sistema de Gestão Integrados</p><p>em Qualidade, Meio Ambiente, Segurança e Saúde</p><p>no Trabalho e Responsabilidade Social.</p><p>Raoni Rocha</p><p>Doutor em Ergonomia. Professor Adjunto do</p><p>Departamento de Engenharia de Produção, Admi-</p><p>nistração e Economia da Universidade Federal de</p><p>Ouro Preto (UFOP).</p><p>Raquel Guimarães Soares</p><p>Doutora em Educação. Professora da Universidade</p><p>Estadual de Minas Gerais (UEMG) e no curso de</p><p>Especialização em Ergonomia na Universidade</p><p>Federal de Minas Gerais (UFMG).</p><p>Renata Bastos Ferreira Antipoff</p><p>Doutora em Educação. Professora do Instituto</p><p>Federal Minas Gerais (IFMG).</p><p>Renato Luvizoto</p><p>Doutor em Engenharia de Produção. Professor da</p><p>Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM).</p><p>René Mendes</p><p>Doutor em Saúde Pública. Professor Titular da</p><p>Faculdade de Medicina da UFMG (aposenta-</p><p>do) e Pesquisador Colaborador do Instituto de</p><p>Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São</p><p>Paulo (USP).</p><p>Ricardo Antunes</p><p>Doutor em Ciências Sociais. Professor Titular de</p><p>Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências</p><p>Humanas da Universidade Estadual de Campinas</p><p>(UNICAMP).</p><p>Roberto Funes Abrahão</p><p>Doutor em Engenharia Mecância. Professor As-</p><p>sociado da Faculdade de Engenharia Agrícola da</p><p>Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).</p><p>Rodolfo Andrade Gouveia Vilela</p><p>Doutor em Saúde Coletiva. Professor Sênior na</p><p>Faculdade de Saúde Pública da Universidade de</p><p>São Paulo (USP).</p><p>Sandra Donatelli</p><p>Doutora em Ciências. Profissional aposentada do</p><p>Serviço de Ergonomia da Fundação Jorge Duprat</p><p>Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho</p><p>(FUNDACENTRO).</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>22</p><p>Sandra Gemma</p><p>Livre Docente em Ergonomia, Saúde e Trabalho.</p><p>Professora da Faculdade de Ciências Aplicadas</p><p>Campus Limeira da Universidade Estadual de</p><p>Campinas (UNICAMP).</p><p>Silvio Beltramelli Neto</p><p>Doutor em Direito do Trabalho. Membro do</p><p>Ministério Público do Trabalho. Professor Titular</p><p>da Pontifícia Universidade Católica de Campinas</p><p>(PUC-Campinas).</p><p>Simone Alves dos Santos</p><p>Doutora em Saúde Pública. Diretora técnica da Divi-</p><p>são de Saúde do Trabalhador/CEREST Estadual, do</p><p>Centro de Vigilância Sanitária, Secretaria de Estado</p><p>da Saúde de São Paulo.</p><p>Uiara Bandineli Montedo</p><p>Doutora em Engenharia de Produção. Pro-</p><p>fessora do Departamento de Engenharia de</p><p>Produção da Escola Politécnica da Universidade</p><p>de São Paulo (USP).</p><p>Vitor Filgueiras</p><p>Doutor em Ciências Sociais. Professor de Economia</p><p>da Universidade Federal da Bahia (UFBA).</p><p>Autores</p><p>Informações adicionais sobre os autores (com links para currículos e redes sociais),</p><p>nomes dos revisores e estudantes que nos auxiliaram, organizadores e apoiado-</p><p>res estão disponíveis em: www.engenhariadotrabalho.com.br</p><p>23</p><p>Sumário</p><p>Prefácio ................................................................................................................................5</p><p>François Daniellou</p><p>Autores .............................................................................................................................. 19</p><p>Apresentação: Uma nova Engenharia do Trabalho ....................................................... 25</p><p>Daniel Braatz, Raoni Rocha, Sandra Gemma, Alessandro Silva e Amanda Aparecida Silva</p><p>SEÇÃO I - TRABALHO</p><p>Capítulo 1 - Transformações do trabalho no mundo contemporâneo ......................... 41</p><p>Ricardo Antunes e Luci Praun</p><p>Capítulo 2 - Modelos de organização do trabalho: por uma organização colaborativa ...... 55</p><p>Ana Valéria Carneiro Dias, Francisco de Paula Antunes Lima e Leonardo Ferreira Reis</p><p>Capítulo 3 - Qual é o sentido do trabalho? ..................................................................... 79</p><p>Claudio Marcelo Brunoro, Uiara Bandineli Montedo, Fausto Leopoldo Mascia e</p><p>Laerte Idal Sznelwar</p><p>Capítulo 4 - Saúde e Segurança no Trabalho: um direito humano ............................... 99</p><p>Silvio Beltramelli Neto, Giovana Brentini Zanchetta e Paola Stolagli Lustre</p><p>SEÇÃO II - SAÚDE DOS TRABALHADORES</p><p>Capítulo 5 - A relação entre saúde, trabalho e adoecimento ......................................</p><p>125</p><p>René Mendes</p><p>Capítulo 6 - Saúde mental e trabalho ........................................................................... 149</p><p>Maria Elizabeth Antunes Lima</p><p>Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência no cotidiano dos trabalhadores ........... 169</p><p>Maria Maeno e Daniela Sanches Tavares</p><p>Capítulo 8 - Vigilância em saúde do trabalhador ........................................................ 199</p><p>Simone Alves, Alessandro Silva e Luiz Felipe Silva</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>24</p><p>SEÇÃO III - SEGURANÇA NO TRABALHO</p><p>Capítulo 9 - História e contexto da segurança do trabalho ........................................ 227</p><p>Vitor Filgueiras e Luiz Alfredo Scienza</p><p>Capítulo 10 - Aspectos legais e normativos da segurança e os seus limites ............. 249</p><p>Eugênio Paceli Hatem Diniz, Airton Marinho da Silva e Marcelo Araújo Campos</p><p>Capítulo 11 - Razões para a persistência da insegurança no trabalho ...................... 271</p><p>Rodolfo Andrade Gouveia Vilela, Ildeberto Muniz de Almeida e Mário Parreiras de Faria</p><p>Capítulo 12 - Por uma cultura de segurança nas organizações .................................. 293</p><p>Raoni Rocha e Rodolfo Andrade Gouveia Vilela</p><p>SEÇÃO IV - ERGONOMIA</p><p>Capítulo 13 - Elementos da história da ergonomia no Brasil ..................................... 321</p><p>José Marçal Jackson Filho, Francisco Lima, Sandra Donatelli e Angela Paula Simonelli</p><p>Capítulo 14 - Abordagem ergonômica centrada no trabalho real ............................. 343</p><p>Sandra Gemma, Roberto Funes Abrahão, Flávia Traldi de Lima e Mauro José Andrade Tereso</p><p>Capítulo 15 - Cognição e trabalho ................................................................................ 363</p><p>Renata Bastos Ferreira Antipoff e Raquel Guimarães Soares</p><p>Capítulo 16 - Dos fatores humanos à compreensão da atividade de trabalho ......... 385</p><p>Daniela da Silva Rodrigues e Luiz Tonin</p><p>Capítulo 17 - Análise do trabalho em ergonomia: modelos, métodos e ferramentas .... 411</p><p>Adelaide Nascimento e Raoni Rocha</p><p>SEÇÃO V - PROJETO DO TRABALHO</p><p>Capítulo 18 - Breve história e contexto do projeto do trabalho ................................. 437</p><p>Luiz Antônio Tonin e João Alberto Camarotto</p><p>Capítulo 19 - Contribuições da simulação em ergonomia para a Engenharia do Traba-</p><p>lho: perspectivas metodológicas e conceitos operacionais ....................................... 463</p><p>João Marcos Bittencourt e Francisco José de Castro Moura Duarte</p><p>Capítulo 20 - Técnicas de apoio ao projeto do trabalho.............................................. 491</p><p>Renato Luvizoto, Andréa Regina Martins Fontes e Isaías Torres</p><p>Capítulo 21 - Projeto participativo do trabalho: desafios e boas práticas ................ 517</p><p>Daniel Braatz e Esdras Paravizo</p><p>Posfácio ........................................................................................................................... 543</p><p>Leda Leal Ferreira</p><p>25</p><p>Apresentação</p><p>Uma nova Engenharia do Trabalho</p><p>Daniel Braatz, Raoni Rocha, Sandra Gemma,</p><p>Alessandro Silva e Amanda Aparecida Silva</p><p>Introdução</p><p>É comum que o recém-formado em Engenharia no Brasil faça um juramento</p><p>no dia de sua colação de grau prometendo não se deixar cegar pelo brilho exces-</p><p>sivo da tecnologia e que irá trabalhar para o bem das pessoas e não das máquinas.</p><p>Pode ser interessante uma análise da razão pela qual uma categoria inteira</p><p>faça um juramento sobre algo tão elementar como “trabalhar para o bem das pes-</p><p>soas”, não é mesmo? Os engenheiros e engenheiras foram – e ainda são – respon-</p><p>sáveis por grandes avanços em nossa sociedade, estando fortemente vinculados</p><p>com sistemas, obras e produtos altamente complexos, sofisticados e de alto teor</p><p>tecnológico, mas dificilmente observamos nesses projetos o ser humano como</p><p>parte ou, menos ainda, como elemento central do objeto de intervenção, como</p><p>anuncia o juramento.</p><p>As pessoas são compreendidas, na grande maioria das vezes, como benefici-</p><p>árias dos resultados do trabalho dos engenheiros, mas não como elemento fun-</p><p>damental em sua concepção. A residência, o carro, o computador, a iluminação,</p><p>o sistema de aquecimento, entre tantos outros produtos da engenharia estão a</p><p>serviço de um maior conforto e desenvolvimento da sociedade, como apregoado</p><p>pelo juramento.</p><p>Mas o que dizemos acerca das pessoas que operacionalmente geram esses</p><p>resultados? São elas merecedoras da atenção e dedicação dos profissionais que</p><p>tanto se aplicam ao planejamento, projeto, gestão e controle dos sistemas produ-</p><p>tivos (incluindo aqui dos materiais, serviços, produtos, equipamentos e das mais</p><p>diversas operações envolvidas)?</p><p>A sociedade contemporânea continua marcada pela divisão taylorista das tarefas,</p><p>na qual alguns indivíduos pensam e planejam o trabalho para que outros o executem</p><p>– com a menor chance possível de errar ou se desviar daquilo que foi planejado.</p><p>Usuário</p><p>Retângulo</p><p>Usuário</p><p>Linha</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>26</p><p>Por si só, essa abordagem já nos dá uma ideia da necessidade pujante de mu-</p><p>dança do paradigma vigente. Evitar o erro ou desvio, nesta concepção, é afirmar</p><p>indiretamente que quem planeja, projeta e gerencia teria a capacidade de se an-</p><p>tecipar integralmente ao que será vivenciado e de saber, de antemão, o que é o</p><p>melhor a ser feito (em relação direta com o conceito de one best way – ou seja</p><p>um método ideal ou ótimo). E que qualquer mudança a posteriori daquilo que foi</p><p>previsto seria, então, considerado como falha ou desvio, podendo comprometer</p><p>a qualidade, segurança, desempenho etc.</p><p>É sob a luz dessa discussão que essa obra propõe outra abordagem para</p><p>o campo da Engenharia do Trabalho, historicamente bastante associada à</p><p>«Segurança do Trabalho», «Planejamento de Métodos e Processos» e «Estudo de</p><p>Tempos e Movimentos», mas sempre negligenciando a integralidade do trabalho,</p><p>com o seu caráter vivo, complexo, imprevisível e variável.</p><p>A Engenharia do Trabalho na presente iniciativa se propõe a ser uma área</p><p>do conhecimento que articula disciplinas que dão base para olhar, entender e</p><p>projetar o trabalho, tendo o ser humano como um elemento central para obter</p><p>resultados em termos de qualidade, produtividade, segurança e bem-estar. Es-</p><p>pera-se, assim, que essa articulação seja desenvolvida e aprimorada em todos</p><p>os cursos de engenharia já existentes no Brasil, bem como naqueles que ainda</p><p>serão ofertados.</p><p>As formações em Engenharia</p><p>O cenário contemporâneo demanda uma formação diferenciada nos cursos de</p><p>graduação, incluindo os cursos de engenharia. Há mais de uma década, Cardoso</p><p>(2008, p.47) apontou que a “nova Engenharia” demanda dos profissionais distintas</p><p>qualificações não cobradas anteriormente, tais como “liderança, eficiência em co-</p><p>municação oral e escrita, espírito empreendedor, fluência em mais de uma língua</p><p>estrangeira”, enfatizando que as únicas exigências remanescentes seriam a sólida</p><p>formação básica com forte componente das humanidades para garantir a capaci-</p><p>dade de trabalho em grupo e a eficiência diferenciada em suas atividades.</p><p>Nos parece que os conteúdos denominados como sendo “humanidades” são,</p><p>em alguma medida, limitados no campo da formação em engenharia, pensados</p><p>muitas vezes de forma simplista ou por demais aplicada, para além do que já foi</p><p>exposto antes. Em outras palavras, o uso utilitarista dos conteúdos referentes às</p><p>27</p><p>ciências humanas e sociais parece empobrecer as possibilidades de oferta de co-</p><p>nhecimentos e, mais do que isso, ferir a capacidade crítica de formação destes</p><p>profissionais. Destarte, a invisibilidade do trabalho na formação em engenharia</p><p>fragiliza a possibilidade de atuação destes profissionais, trazendo consequências</p><p>de difícil apreensão, mormente ligadas ao desenvolvimento de projetos com con-</p><p>dições de trabalho pouco favoráveis à construção da saúde, da eficiência e do de-</p><p>senvolvimento profissional dos(as) demais trabalhadores(as) envolvidos(as). Essa</p><p>situação contrasta frontalmente com o sonho dos(as) estudantes que buscam</p><p>“engenheirar” um mundo para melhor, fazendo jus ao seu juramento profissional.</p><p>Os docentes e responsáveis</p><p>por cursos de Engenharia deveriam, portanto, se</p><p>perguntar: será que não estamos falhando na formação ao não discutir o que seria</p><p>“o bem do homem”, e, porque não dizer “o bem da mulher”? Será que “o bem” das</p><p>mulheres e dos homens não passa, necessariamente, por estar bem no trabalho?</p><p>Neste ponto, é fato que o trabalho assumiu uma parcela importante da di-</p><p>nâmica e do sentido nas vidas das mulheres e homens na nossa sociedade. A</p><p>formação e profissão são determinantes na construção das nossas identidades</p><p>e cada vez mais o trabalho avança sobre os até então bem definidos limites de</p><p>tempo (horário de trabalho das 08:00 às 18:00) e espaço (os limites prediais das</p><p>fábricas, escritórios etc.).</p><p>Embora, aparentemente, o trabalho pareça estar subentendido nas disciplinas</p><p>que compõem as formações em Engenharia, sabe-se que é bem possível tratar</p><p>das disciplinas sobre gestão, sistemas, processos, produtos, artefatos e ferramen-</p><p>tas, tecnologias, sem ao menos tocar no trabalho “vivo” ou “real”, tal como ele</p><p>acontece. Sua invisibilidade, provocada pelo sistema positivista e excessivamente</p><p>confiante de que conhecemos melhor o trabalho do outro do que ele próprio,</p><p>acaba por esvaziar as possibilidades de discussão aprofundada e bem embasada</p><p>no que o trabalho pode representar para os sujeitos, coletivos e a sociedade.</p><p>Quando são mencionados os sujeitos que trabalham, a engenharia se mostra</p><p>muitas vezes simplista, reduzindo a atividade humana a termos como “mão de</p><p>obra”, “hora-homem-trabalhada”, “colaborador”, “tarefeiro”, “obreiro”, “capital intelec-</p><p>tual”, entre outros. Raramente se coloca o indivíduo em sua integralidade, como su-</p><p>jeito de capacidades, habilidades, emoções, necessidades e interesses complexos,</p><p>sem mencionar aqui a questão de gênero, ainda tão pouco contemplada. Ignora-se,</p><p>frequentemente, esse indivíduo agindo diante de um trabalho que é – e sempre</p><p>será em maior ou menor grau – distinto daquilo que foi planejado.</p><p>Por sua vez, colocar o trabalho como uma categoria central na formação das</p><p>engenheiras e engenheiros requer convocar distintas ciências para pensá-lo e</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>28</p><p>melhor compreendê-lo de forma integrada. Isso exige, sobretudo, que tenhamos</p><p>abertura para discutir o ser humano em atividade, suas capacidades, limites e</p><p>possibilidades de atuação.</p><p>Em pesquisa recente (PARAVIZO et al., 2021), apresentada no II Fórum de Enge-</p><p>nharia do Trabalho1, é possível ter uma noção inicial que enquanto alguns cursos</p><p>abordam as temáticas das ciências aplicadas do trabalho com disciplinas específicas,</p><p>outros ignoram essa área do conhecimento. Os pesquisadores encontraram inicial-</p><p>mente 1527 disciplinas que apresentavam potencial de relação com tais temáticas</p><p>em 16 universidades brasileiras em 105 cursos de graduação em engenharia. Após</p><p>a definição de critérios de refinamento, foram analisadas qualitativamente 131 disci-</p><p>plinas que apontaram uma relação bastante desigual entre os cursos analisados. En-</p><p>quanto a relação de disciplinas desta área para o curso de Engenharia de Produção foi</p><p>de 3,65 disciplinas por curso, para os cursos de Engenharia Elétrica e Engenharia Civil</p><p>esse indicador foi, respectivamente, 0,67 e 0,80 disciplina por curso. Esses indicadores</p><p>que por si só já são críticos, podem ser ainda piores se considerarmos o fato de que</p><p>algumas das disciplinas selecionadas no estudo talvez não tenham o trabalho como</p><p>elemento central em seu processo de ensino e aprendizagem.</p><p>Há, portanto, um fracasso na formação em engenharia no que tange às ciên-</p><p>cias do trabalho, notadamente ligadas à saúde, segurança, ergonomia e projeto</p><p>do trabalho. Esse cenário se agrava ao analisarmos o contexto de mudanças que o</p><p>mundo do trabalho vem sofrendo nos últimos anos. Por um lado, passamos pela</p><p>4ª revolução industrial, que começou na virada do século, e é caracterizada pelo</p><p>desenvolvimento de máquinas inteligentes, sensores cada vez menores e mais</p><p>poderosos e pela internet das coisas (entre outras tecnologias que sustentam o</p><p>conceito da Indústria 4.0). Isso tem mudado a indústria, com uma tendência à</p><p>automatização quase que completa das fábricas.</p><p>Esse desenvolvimento tecnológico somado às crises financeiras globais pro-</p><p>vocadas pelo desenvolvimento das políticas liberais iniciadas nos anos 1990, ge-</p><p>rou o fenômeno da “uberização” das relações de trabalho, no qual poucas e gran-</p><p>des empresas, concentrando enormes riquezas, passam a desenvolver relações</p><p>de trabalho baseadas no desenvolvimento de plataformas digitais para comercia-</p><p>lização de produtos e serviços, utilizando como força de trabalho os milhões de</p><p>desempregados no mundo todo.</p><p>A grande questão nessas novas relações de trabalho é a ausência de todo tipo</p><p>de responsabilização das plataformas em relação aos “parceiros” ou “empreende-</p><p>1 - Apresentação realizada no II Fórum de Engenharia do Trabalho, disponível em https://youtu.be/sNel1VUNOuk.</p><p>29</p><p>dores” nelas cadastrados. O trabalho tornou-se, assim, mais informal, mais preca-</p><p>rizado e feito sob demanda (ANTUNES, 2020). E é esse justamente o 2º aspecto</p><p>central do novo mundo do trabalho: o crescimento do trabalho informal. Segun-</p><p>do a Organização Internacional do Trabalho, 61% das pessoas que compõem a</p><p>força de trabalho mundial atuam de maneira informal. Só no Brasil, atualmente</p><p>são cerca de 40 milhões de pessoas (ILO, 2018).</p><p>A esses dois fatos – o desenvolvimento da Indústria 4.0 e do trabalho infor-</p><p>mal – se soma ainda o processo de financeirização da gestão ocorrida também</p><p>como resultado do neoliberalismo a níveis extremos, levando a situações como</p><p>flexibilização na legislação trabalhista e gestores cada vez mais ligados à regras</p><p>e indicadores numéricos muitas vezes distanciados da realidade do trabalho. As</p><p>consequências desse quadro são catastróficas para o(a) trabalhador(a). O tra-</p><p>balho está cada vez mais precarizado, nunca se adoeceu tanto pelos chamados</p><p>riscos psicossociais (ansiedade, estresse, depressão) e as catástrofes industriais</p><p>continuam cada vez mais presentes em nossa sociedade. A pandemia provocada</p><p>pelo Covid-19, iniciada em 2020, somente intensificou e agravou esse movimento</p><p>que já existia anteriormente.</p><p>Um pouco da história da Engenharia do Trabalho</p><p>A partir da constatação de que os cursos de Engenharia não contemplam, em</p><p>sua imensa maioria, disciplinas que tragam à tona as reflexões sobre o mundo do</p><p>trabalho real, a Engenharia do Trabalho oferece conceitos, metodologias e práti-</p><p>cas que permitem o(a) engenheiro(a) a compreender e transformar o trabalho da</p><p>forma como ele realmente funciona.</p><p>Cumpre destacar que, embora a abordagem da Engenharia do Trabalho aqui</p><p>proposta seja original – por contemplar o trabalho real como centro da análise – o</p><p>termo em si já é utilizado em cursos de Engenharia e aparece como sendo uma das</p><p>áreas da Engenharia de Produção segundo a Associação Brasileira de Engenharia</p><p>de Produção (ABEPRO). Segundo o site desta instituição (http://www.abepro.org.</p><p>br/interna.asp?c=362) a Engenharia do Trabalho é definida como sendo responsá-</p><p>vel pelo “projeto, aperfeiçoamento, implantação e avaliação de tarefas, sistemas de</p><p>trabalho, produtos, ambientes e sistemas para fazê-los compatíveis com as necessida-</p><p>des, habilidades e capacidades das pessoas visando a melhor qualidade e produtivida-</p><p>de, preservando a saúde e integridade física”. A Abepro destaca ainda que os conheci-</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>30</p><p>mentos da Engenharia do Trabalho “são usados na compreensão das interações entre</p><p>os humanos e outros elementos de um sistema. Pode-se também afirmar que esta área</p><p>trata da tecnologia da interface máquina - ambiente - homem - organização”.</p><p>Historicamente, docentes, cursos e instituições trabalharam na construção e</p><p>utilização do termo Engenharia do Trabalho, como por exemplo, as universida-</p><p>des UFRJ, UFSCar, UFPB, UFOP, entre outras. Contudo, as disciplinas oferecidas</p><p>em alguns destes cursos e instituições foram ou ainda são voltadas para tópi-</p><p>cos como “estudo</p><p>de tempos e movimentos”, “projeto de métodos de trabalho”,</p><p>“análise do processo produtivo”, “estudo de micromovimentos”, “princípios de</p><p>economia de movimentos relacionados ao uso do corpo humano, local de tra-</p><p>balho e projeto de ferramentas e equipamentos”, “determinação de tempos-pa-</p><p>drão”, “amostragem do trabalho”, “medida do trabalho por métodos fisiológicos”</p><p>ou “treinamento do operador”.</p><p>Este viés pode ser explicado pela própria origem da engenharia de produção,</p><p>que teve na administração científica do trabalho, o primeiro e um dos mais in-</p><p>fluentes modelos de administração e organização do trabalho (criado pelo ame-</p><p>ricano Frederick Winslow Taylor no fim do século XIX e início do século XX). Se,</p><p>por um lado, tal abordagem teve como mérito colocar o trabalho como objeto de</p><p>estudo e atenção, por outro é comum a crítica ao taylorismo por sua visão redu-</p><p>cionista e tecnicista, ao não considerar a variabilidade intrínseca que constitui o</p><p>mundo trabalho e as características psicofisiológicas dos trabalhadores.</p><p>Além das fronteiras da engenharia de produção, é comum percebermos o</p><p>termo Engenharia do Trabalho como sinônimo de Engenharia de Segurança do</p><p>Trabalho, o que restringe ainda mais a sua área de atuação e aplicação, visto que</p><p>o relaciona com uma área profissional específica que tem como principais prota-</p><p>gonistas os técnicos de segurança do trabalho e os engenheiros com especializa-</p><p>ção (pós-graduação lato sensu) em segurança do trabalho. Não se discute aqui a</p><p>relevância da área de segurança do trabalho ou o papel que estes profissionais</p><p>desempenham dentro das empresas e demais organizações. Consideramos que</p><p>a engenharia de segurança do trabalho foi e continuará sendo uma importan-</p><p>te área do conhecimento e da atuação de diversos profissionais comprometidos</p><p>com a melhoria das condições de trabalho, bem como da diminuição dos aciden-</p><p>tes e adoecimentos no trabalho. O que destacamos é a necessária distinção a ser</p><p>feita entre o campo de atuação da Engenharia do Trabalho e aquele da Engenha-</p><p>ria de Segurança do Trabalho, dado que, conforme mencionado anteriormente, a</p><p>Engenharia do Trabalho é um campo de conhecimento amplo que busca articular</p><p>distintas áreas, sendo uma delas a segurança do trabalho.</p><p>31</p><p>Assim, nasce a proposta de um novo significado e propósito para o termo En-</p><p>genharia do Trabalho: levar o tema “trabalho” para graduandos e graduandas de</p><p>todas as diversas ramificações da engenharia em um espectro amplo, muito além</p><p>de uma visão normativa e simplificadora da realidade.</p><p>Origem e sentido deste livro</p><p>O livro Engenharia do Trabalho e todas as ações correlatas nascem de uma</p><p>iniciativa coletiva cuja semente foi a inquietação com acidentes de trabalho em</p><p>altura, que emerge na prática dos profissionais do Centro de Referência em Saúde</p><p>do Trabalhador (CEREST) da região de Piracicaba-SP. Tais inquietações são relati-</p><p>vas ao contexto de suas experiências de investigação de acidentes com mortes</p><p>durante o trabalho.</p><p>Um evento considerado crítico pela equipe do CEREST ocorreu em julho de</p><p>2013, em uma obra do anel viário às margens da rodovia que liga Piracicaba</p><p>a Limeira, no Estado de São Paulo. Na ocasião, dez homens que trabalhavam</p><p>na construção da ponte foram vítimas de um acidente. A ponte desmoronou</p><p>com nove trabalhadores sobre ela e, destes, cinco que estavam com os cintos</p><p>de segurança travados nas estruturas morreram. Os outros quatros, que não</p><p>estavam presos às estruturas, sobreviveram. Três destes caíram no rio e escapa-</p><p>ram nadando, enquanto o último conseguiu se soltar do cinto e ficar na parte</p><p>estrutural, que não caiu.</p><p>Neste acidente, a dificuldade e a morosidade nas ações institucionais, bem</p><p>como a limitação da equipe do CEREST Piracicaba para analisar o caso, provocou</p><p>um profundo processo de reflexão nos profissionais envolvidos com a investigação.</p><p>Dois anos depois, outro acidente emblemático ocorreu com dois trabalhado-</p><p>res, carpinteiros, que se preparavam para tirar uma pedra de concreto presa em</p><p>uma tela de proteção na bandeja lateral de uma edificação a 35 metros de altu-</p><p>ra (altura equivalente a nove andares). Um dos trabalhadores caiu durante uma</p><p>mudança de nível para a qual era usada uma escada manual pequena, no espaço</p><p>livre formado entre a bandeja e a janela da escadaria, resultando em seu óbito. Ele</p><p>era integrante da CIPA e reconhecido como uma pessoa zelosa tanto em relação</p><p>à sua própria segurança, quanto à de seus colegas.</p><p>Diante destas situações perturbadoras e na perspectiva de trilhar novos ca-</p><p>minhos em busca da redução de acidentes do trabalho com óbitos, o CEREST,</p><p>Braatz, Rocha, Gemma, Silva e Silva</p><p>32</p><p>sempre em diálogo com professores de universidades, enviou um ofício ao Pro-</p><p>curador do Trabalho da 15ª Região, Dr. Silvio Beltramelli Neto, um dos autores</p><p>do presente livro, solicitando apoio para desenvolver um projeto diferenciado</p><p>de prevenção de acidentes de trabalho contra queda de altura. Essa ação arti-</p><p>culou diversos outros parceiros e a instauração de um procedimento promo-</p><p>cional2 cuja primeira reunião ocorreu em março de 2016, com representantes</p><p>dos seguintes órgãos: Ministério Público do Trabalho da 15ª Região, CEREST/</p><p>Piracicaba, Divisão de Vigilância Sanitária do Trabalho do Estado de São Paulo,</p><p>Setor de Segurança e Saúde da Superintendência Regional do Trabalho do Es-</p><p>tado de SP, Fundacentro, Gerências Regionais do Trabalho e Emprego (GRTE) de</p><p>Campinas e de Piracicaba, Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de</p><p>Saúde Pública da USP e Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Me-</p><p>dicina da Unesp de Botucatu/SP. A partir deste trabalho coletivo constituiu-se</p><p>uma compreensão melhor dos acidentes com mortes no trabalho em altura, e</p><p>dos instrumentos e formas de intervenção na área.</p><p>É necessário dizer que um dos espaços que despontou como necessidade</p><p>expressiva de intervenção foi o educacional, do saber integrado entre</p><p>planejamento, projeto, saúde e segurança do trabalho, inicialmente ao campo</p><p>das Engenharias. Isto porque, para aqueles e aquelas que investigam o acidente</p><p>de trabalho, é evidente o papel da Engenharia como um campo transformador</p><p>e presente em toda a atividade humana, mas que ao mesmo tempo, seus</p><p>profissionais são majoritariamente carentes de uma percepção mais humanista</p><p>e integrada sobre a preservação da saúde e integridade física no trabalho, desde</p><p>o início de sua formação.</p><p>Com o intuito de diminuir esta lacuna na formação em Engenharia, os(as)</p><p>organizadores(as) do presente livro, docentes ligados às universidades públicas</p><p>(UFSCar, UFOP e UNICAMP) cuja trajetória de atuação se insere no campo em</p><p>questão, foram convidados pelo MPT para organizar este material, com conte-</p><p>údo ligado à promoção e preservação da saúde em situações de trabalho. Uma</p><p>importante lacuna teórica, no entanto, tornou-se explícita durante o processo de</p><p>organização e composição da obra, e em seu entremeio, o conceito e a formula-</p><p>2 - Procedimento Promocional é um instrumento do Ministério Público para antecipar ou visualizar demandas es-</p><p>truturais, de forma a buscar compreender os motivos pelos quais as coisas acontecem diferente do que é esperado</p><p>do ponto de vista da legislação e da dignidade de quem trabalha, e então, efetivar caminhos para uma transforma-</p><p>ção estrutural. Sem o uso desse instrumento, a intervenção em ação judicial em situações de desconformidade de</p><p>cumprimento de legislação fora do juízo, ou seja, em área de investigação, aconteceria de maneira pulverizada e</p><p>individualizada.</p><p>33</p><p>ção do campo da Engenharia do Trabalho começou a tomar corpo, assim como</p><p>outras demandas e ações foram sendo organizadas.</p><p>Apresentação das seções e capítulos</p><p>A seguir, apresentamos o conteúdo deste livro que é composto de cinco se-</p><p>ções e 21 capítulos, e que contou com a participação voluntária de 51 autores</p><p>para compor esta obra de veiculação gratuita para todo o Brasil, coordenada gen-</p><p>tilmente por seus organizadores.</p><p>As seções referem-se ao trabalho em si e ao que estamos considerando</p>deve ser mantida em 50%. O que não se explicou é qual treinamento 21 - Descaso culmina em interdição de frigorífico da JBS no Rio Grande do Sul. Disponível em: <https://www.con- gressointernacionaldotrabalho.com/copia-noticias-cursounicamp>. Acesso em: 15.jul. 2021. 22 - Mais um frigorífico da JBS é interditado por surto de Covid-19. Disponível em https://www.congressointernacio- naldotrabalho.com/copia-noticias-epicovid19erro > acesso em 19.mai.2020. Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência... 184 seria efetivo contra a disseminação do novo coronavírus quando se trabalha a uma distância exígua de outros colegas em ambiente de ar refrigerado, com pou- ca renovação do ar. Considerando apenas esses aspectos, não haveria dois fatos contraindicados por qualquer guia de prevenção da Covid-19, quais sejam, proxi- midade física e pouca ventilação em um ambiente fechado? Trata-se do exemplo de uma empresa do ramo frigorífico, mas há evidências de que outras do mesmo ramo apresentam problemas semelhantes aos encon- trados pela Vigilância Sanitária de Passo Fundo23 24 25. A associação entre frigorífi- cos e a disseminação do novo coronavírus entre os trabalhadores ocorre em ou- tros países, como os Estados Unidos, Austrália, Alemanha, entre outros26 27. Esta não seria mais uma crônica do adoecimento e da morte anunciada?28 Os frigoríficos, assim como outros ramos econômicos, já foram e seguem sendo cenário de adoecimentos crônicos por LER/DORT e adoecimentos men- tais, pelo ritmo intenso de trabalho, com consequências nefastas à saúde pú- blica e à sociedade. O documentário Carne, osso, já mencionado em outros capítulos desse livro, nos mostra situações em que trabalhadores têm sua dig- nidade e saúde duramente atingidas. A violência psicológica é presente na simples vivência desse cotidiano opressivo do ritmo extenuante imposto pela esteira, do trabalhar com dor até ficar inválido. O documentário traz também a violência perpetrada contra trabalhadores já adoecidos, pela negação do seu adoecimento e consequente imposição do trabalho até a cronificação e o desenvolvimento de sequelas. 23 - Foco de Covid-19, frigoríficos com milhares de trabalhadores são interditados no RS. Disponível em: <https:// www. brasildefato.com.br/2020/05/08/foco-de-covid-19-frigorificos-com-milhares-de-trabalhadores-sao-interdita- dos-no-rs>.Acesso em: 15.jul.2021. 24 - Com casos de Covid-19, frigoríficos são interditados no RS e em SC. Disponível em: <https://economia.uol.com. br/ noticias/estadao-conteudo/2020/05/18/com-casos-de-coronavirus-frigorificos-sao-interditados-no-rs-e-em-sc. htm>. Acesso em: 15.jul.2021. 25 - Ministério Público do Trabalho interdita unidade da Seara em Santa Catarina. Disponível em: <https://www.portaldbo. com.br/ministerio-publico-do-trabalho-interdita-unidade-da-seara-em-santa-catarina>. Acesso em: Acesso em: 15.jul.2021. 26 - US coronavirus hotspots linked to meat processing plants. Disponível em: <https://www.theguardian.com/ world/2020/may/15/us-coronavirus-meat-packing-plants-food>. Acesso em: 15.jul.2021. 27 - “Chaotic and crazy”: meat plants around the world struggle with virus outbreaks. Disponível em: <https://www. theguardian.com/environment/2020/may/11/chaotic-and-crazy-meat-plants-around-the-world-struggle-with- -virus-outbreaks>. Acesso em: 15.jul.2021. 28 - Livre adaptação do título de um livro intitulado Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, escritor colombiano, considerado um grande expoente da literatura latino-americana. O livro trata do assassinato de Santiago Nasar, de conhecimento prévio de todos do vilarejo onde se passa a história, sem que alguém faça qualquer coisa para impedir. Maeno e Tavares 185 Tavares et al. (2019) reconhecem o processo de adoecimento e afastamento do trabalho como causa de grande vulnerabilidade para violências no ambiente de trabalho e agruparam estas violências em três categorias. [A primeira delas seria] o descrédito e a deslegitimação do quadro de adoecimento, da vivência e da fala do trabalhador adoecido e da relação disso com o trabalho. Depois, a negação dos direitos sociais decorrentes desse adoecimento, que visariam a garantir a sobrevi- vência digna quando impossibilitado de trabalhar. E, por último, as diferentes interações interpessoais em que agentes da empresa e da Previdência Social, no desenvolvimento de sua tarefa de aten- der o trabalhador e ainda que muitas vezes sem a intenção, acabam por maltratar, humilhar, ofender ou mesmo praticar atos de assédio contra o adoecido com vistas às metas e às diretrizes organizacio- nais ou institucionais (TAVARES et al., 2019, p. 95). 7. Empresas de teleatendimento/ telemarketing/call center. LER/DORT, infecção urinária, alterações vocais, adoecimento mental, Covid-19 Mal remunerados, em ambiente competitivo, sofrendo limitações até para idas ao banheiro, submetendo-se a regras de controle do corpo e postura, in- centivados a introjetar sentimentos e valores propícios a uma venda, sentindo- -se desprestigiados, correndo sempre atrás de metas crescentes e de pequenas e duvidosas recompensas, monitorados continuamente, controlados em todos os movimentos e ações por supervisores, ferramentas e sistemas informatizados, sem pausas, a despeito da obrigatoriedade normativa, são aproximadamente 450 mil jovens em atividade de teleatendimento, sendo que mais de 46% se distri- buem no Estado de São Paulo (Relação Anual de Informações Sociais de 2018) em espaços físicos de grandes dimensões, às centenas e até milhares. Lembram os digitadores das décadas de 1980 e 1990, protagonistas de significativa mobiliza- ção de segmentos sociais e de setores governamentais em torno de uma questão chave do adoecimento musculoesquelético que se evidenciava à época e que, Capítulo 7 - Acidentes e doenças: violência... 186 um pouco mais tarde, também viria a ser relacionada ao sofrimento mental entre trabalhadores. Qual seja, o elevado ritmo de trabalho em atividades que exigiam a execução de movimentos repetitivos com os membros superiores. A elaboração da NR-17, publicada em 1990, buscou justamente colocar limi- tes nesse sentido. Houve forte resistência dos representantes patronais, alegando obstrução do poder diretivo do empregador (BRASIL, 2002)29, o que desconstrói o mito de que não haveria conflitos entre os interesses da preservação da saúde e da produtividade do trabalho. Na época, trabalhadores de vários ramos econômicos procuravam os serviços de ortopedia, públicos e privados, e os centros de referên- cia em saúde do trabalhador, com queixas de dores crônicas e incapacitantes, de- correntes da superutilização do sistema musculoesquelético, sem o devido tempo de recuperação. Os diagnósticos de tendinites e tenossinovites, síndromes do túnel do carpo e síndromes miofasciais eram abundantes, e grandes contingentes das categorias mais organizadas conseguiram caracterizar o seu caráter ocupacional. Aspectos clínicos, sociais, reabilitacionais e de exames de imagens foram pauta de congressos e seminários das mais diferentes especialidades da saúde. As con- trovérsias sobre os determinantes e sobre o papel do trabalho no aparecimento e manutenção dos quadros clínicos variados, atingindo as partes moles do sistema musculoesquelético, eram discutidas em mesas de negociações entre sindicatos e empresas. O Ministério da Saúde dedicou o capítulo 18 às lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (LER/DORT) em uma robusta publicação de orientações aos serviços de saúde (BRASIL, 2001) e seu último protocolo específico é de 2012 (BRASIL, 2012). A Previdência Social publicou várias normas técnicas, sendo a última de 2003 (BRASIL, 2003). Em 2007, foi publicada a Portaria SIT nº 9, pelo extinto Ministério do Trabalho e Emprego (BRASIL, 2007), acrescentando o anexo II à NR-17, tratando especifica- mente das condições de trabalho dos operadores de telemarketing. Sua leitura dá uma ideia