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140 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA prerrogativas do executivo, o imperador gozava de outras que advinham do Poder Moderador, mediante o qual podia escolher seus ministros sem consultar o Parlamento, assim como suspen- der, adiar ou dissolver a Câmara e convocar novas eleições. Tam- bém tinha direito de nomear os membros do Conselho de Estado e escolher os senadores dentre uma lista de três candidatos que recebessem o maior número de votos numa eleição senatorial. Se bem que a Carta Constitucional de 1824 concedesse po- der considerável ao imperador, também criava condições para a formação de uma poderosa oligarquia. O cargo de senador era vitalício e, como a idade mínima requerida era de quarenta anos, os senadores podiam manter-se no cargo por muito tempo. De fato, ao fim do Império, cinco senadores poderiam vangloriar-se de ter permanecido no Senado por mais de quarenta anos. Os membros do Conselho de Estado, ministros e chefes dos parti- dos políticos eram escolhidos entre os senadores. Durante o Pri- meiro e o Segundo Impérios, 40% dos senadores receberam títulos de nobreza. Juntamente com os conselheiros de Estado, também vitalícios, os senadores constituíam um grupo influente, inveja- do e respeitado. O apoio desses homens era decisivo para obter- se um empréstimo bancário, um posto na burocracia, uma pensão do governo, a aprovação de uma empresa ou companhia por ações, ou para o êxito numa carreira política. Dessa forma, senadores e conselheiros criaram uma grande clientela.8 Os membros da Câmara dos Deputados ocupavam um se- gundo lugar na hierarquia, se bem que, às vezes, fossem tão po- derosos quanto os primeiros. Apesar de eleitos por um período de quatro anos, freqüentemente conseguiam ser reeleitos para várias legislaturas ou detinham importantes cargos administra- tivos. Muitos encontraram na Câmara um caminho fácil para o Senado e o Conselho de Estado. Assim como os conselheiros de Estado e os senadores, os deputados pertenciam a uma rede polí- 8 Beatriz Westin Cerqueira Leite, O Senado nos anos finais do Império 1870- 1889. Brasília, 1978; Fernando Machado, O Conselho de Estado e sua história no Brasil. São Paulo, 1972; João Camillo de Oliveira Torres, O Conselho de Estado. Rio de Janeiro, 1965; A. E. Taunay, A Câmara dos Deputados. São Paulo, 1950; Waldemar de Almeida Barbosa, A Câmara dos Deputados e o Sistema Parlamentar do Governo no Brasil. Brasília, 1977. DA MONARQUIA À REPÚBLICA 141 tica de clientela e patronagem, que utilizavam tanto em seu pró- prio benefício quanto no de seus amigos e protegidos. O que dava poderes excepcionais a esses políticos, particu- larmente aos membros do Conselho de Estado, era a centraliza- ção excessiva do sistema político brasileiro, que subordinava as províncias ao governo central, os governos municipais às pro- víncias e colocava o poder judiciário, a Igreja, o Exército e até os empresários à mercê dos políticos. O governo central con- trolava as taxas de importação e exportação, a distribuição de terras desocupadas, os bancos, as estradas de ferro, as socieda- des anônimas, assim como determinava a política de mão-de- obra e os empréstimos. Até 1881, nenhuma sociedade anônima podia funcionar sem a autorização do Conselho de Estado. O governo central não só regulamentava, como também ampa- rava empresas locais e estrangeiras, autorizando ou proibindo seu funcionamento, proporcionando subsídios, garantindo ju- ros, estabelecendo prioridades, outorgando isenções fiscais. Não obstante sua inspiração e fraseologia liberais, a Carta Consti- tucional consolidava um sistema de clientela e patronagem ori- ginado no período colonial.9 Concedia também ao catolicismo o status de religião de Estado, proibindo o culto público de ou- tras religiões e concedendo à Igreja católica o direito de contro- lar os registros de nascimento, casamento e morte, bem como os cemitérios. Outra peculiaridade da Carta de 1824 foi incluir um artigo reproduzindo quase palavra por palavra a Declaração dos Direi- tos do Homem emitida na França em 1789. Comparado ao origi- nal havia, no entanto, algumas omissões bastante significativas e curiosas. Não foi incluído na Carta outorgada o artigo que na versão original francesa dizia “O princípio de toda soberania re- side essencialmente na nação. Nenhum corpo nem indivíduo podem exercer autoridade que não emane expressamente dela”. 9 Raymundo Faoro, Os donos do poder: formação do patronato político bra- sileiro, 2.ed., São Paulo, 1975, 2.v.; Maria Isaura Pereira de Queiroz, O mandonismo local na vida política brasileira. São Paulo, 1969; Afonso de E. Taunay, Memórias. Rio de Janeiro, 1960; João Camillo de Oliveira Tor- res, Os construtores do Império: idéias e lutas do partido conservador bra- sileiro. São Paulo, 1968. 142 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA Também faltava o artigo VI: “A lei é expressão da vontade geral”. Finalmente, o artigo II: “O objetivo de toda associação política é a preservação dos direitos naturais e inalienáveis do homem. Estes direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistên- cia perante a opressão” foi reproduzido omitindo-se as seis últi- mas palavras. As omissões podem ser explicadas pelo fato de a Carta ter sido promulgada pelo imperador e não ser uma Consti- tuição redigida pelos “representantes da nação”. No entanto, elas expressavam bem as tendências antidemocráticas e oligárquicas das elites brasileiras. O caráter antidemocrático das elites ficou claro tanto nos debates da Assembléia Constituinte quanto nos da Câmara dos Deputados que a sucedeu. A maioria dos deputados teria feito suas as palavras do ex-revolucionário de 1817, Henriques de Rezende, que, apesar de sua trajetória revolucionária e republi- cana, declarou na Assembléia Constituinte ser “um inimigo da democracia”.10 Nessas condições, não é de espantar que homens que tão enfaticamente expressavam sua hostilidade à democra- cia escolhessem um sistema eleitoral baseado no voto indireto e num certo nível de renda, negando assim o direito ao voto à maioria da população brasileira. Ficaram excluídos do conceito de cidadão escravos, índios e mulheres. Adotou-se a eleição indireta. Na eleição primária, os votantes escolhiam os eleitores; na secundária, os eleitores es- colhiam os deputados e senadores. Ficaram impedidos de votar nas eleições primárias para escolha dos eleitores os menores de 25 anos, com exceção dos casados e oficiais militares maiores de 21; os bacharéis formados e clérigos de ordem sacra. Foram ex- cluídos também os filhos-família, quando vivessem em compa- nhia de seus pais, salvo no caso de exercerem ofícios públicos; os criados de servir, ressalvando-se os guarda-livros e primeiros-cai- xeiros das casas de comércio, os criados da Casa Imperial que não fossem de galão branco e os administradores das fazendas rurais e fábricas. Estavam também excluídos os religiosos que vivessem em comunidade claustral; os libertos e os criminosos pronunciados em querela ou devassa, assim como todos que não 10 Anais do Parlamento Brasileiro, Assembléia Constituinte, 1823, v.I, p.94. DA MONARQUIA À REPÚBLICA 143 tivessem renda líquida anual de 100$000 por bens de raiz, in- dústria, comércio ou empregos. Para a seleção de eleitores a exigência ainda era maior do que para a de votantes. Não podiam ser eleitores e votar nas eleições secundárias, para escolher deputados, senadores e mem- bros dos Conselhos de Província, os que não tivessem no míni- mo 400$000 de renda líquida, fossem brasileiros e professassem a religião católica. Nessas condições, o corpo eleitoral ficou muito reduzido, havendo casos de deputados eleitos com um pouco mais de uma centena de votos. Durante o Primeiro e o Segundo Impérios, não obstante vá- rias reformas eleitorais (1846, 1855, 1862, 1876 e 1881), o siste- ma eleitoral foi controlado por uma minoria. Os eleitores, até a queda do Império, representavam entre 1,5% e 2% da população total. Um grupo tão pequeno podia ser facilmente manipulado. A política era mais um produto de alianças ou rivalidadesfami- liares do que de ideologia. As eleições eram controladas pelos chefes locais que, mediante o sistema de clientela e patronagem, podiam carrear votos para seus candidatos favoritos. O apoio obrigava a reciprocidade. Desse modo, por trás da fachada libe- ral, as influências pessoais, as lealdades individuais e os favores recíprocos eram os ingredientes reais do poder. A retórica polí- tica estava subordinada à opinião de uns poucos que controla- vam o eleitorado. De tempos em tempos, algum aspirante a político, fugindo à regra, tentava fazer carreira mediante a dis- cussão de temas que talvez fossem demasiado radicais para o gosto das classes governantes. Mas logo que, por algum moti- vo, conseguia um lugar na Câmara dos Deputados, seu radica- lismo convertia-se em moderação.11 Aqueles que persistiam em suas posições radicais eram condenados ao ostracismo político. Essa situação mudou apenas nas últimas décadas do Segundo Império, quando o desenvolvimento econômico e o apareci- mento de novos grupos de interesse criaram um novo público favorável a reformas. Mas mesmo então, em razão das restrições da lei eleitoral, a grande maioria da população brasileira seguia 11 Raymundo de Magalhães Jr., Três panfletários do Segundo Reinado. São Paulo, 1956. (Vagas Luzes, p.13) Considerando o contexto histórico mundial no período aludido e sabendo que Chael foi militante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), pode-se afirmar que a causa a que se refere o poeta era a: a) Derrubada da ditadura militar e sua substituição por uma república socialista. b) Luta pela liberdade democrática e anistia aos presos políticos através da ação política. c) Revolução armada infiltrada na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. d) Instauração do comunismo por meio do foquismo e da Operação Bandeirantes (Oban). e) Combate ao capitalismo burguês e defesa da Doutrina de Segurança Nacional. 63 - (UFG GO) A cidadania expressa-se no usufruto de direitos civis, políticos e sociais. Vargas, no Estado Novo (1937 a 1945), atendeu às demandas sociais com a legislação trabalhista. Porém, ao iniciar seu governo, restringiu o exercício da cidadania no que concerne aos direitos políticos, ao: a) submeter a administração dos Estados ao controle dos órgãos federais. b) centralizar o poder, governando com base em medidas provisórias e decretos-leis. c) fechar o Congresso, extinguindo os partidos políticos e outorgando uma nova Constituição. d) fortalecer a liderança pessoal do presidente junto aos trabalhadores por meio de garantia de direitos sociais. e) nomear militares para postos no governo dos estados nordestinos, limitando o poder dos antigos oligarcas. 64 - (UNAERP SP) Dentre as opções abaixo, assinale a que não constitui uma inovação trazida pela Constituição de 1934: a) O voto secreto. b) O voto feminino. c) O salário mínimo. d) A criação da Justiça do Trabalho. e) A eleição direta para Presidente da República. 65 - (UNIFESP SP) Benedito Valadares, em suas Memórias (Tempos Idos e Vividos, 1966), assim descreve os fundadores de um dos partidos políticos que surge no fim do Estado Novo: … os que não aceitaram a Revolução de 30; os que a fizeram e se sentiram traídos...; os que a fizeram e se desentenderam com o presidente...; os que assinaram o “Manifesto dos Mineiros”; todos aqueles que por questões políticas e/ou pessoais não aceitavam a organização ditatorial montada sob a Constituição de 37. O partido em questão chama-se: a) Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). b) Partido Comunista Brasileiro (PCB). c) Partido Social Democrático (PSD). d) União Democrática Nacional (UDN). e) Partido Socialista Brasileiro (PSB). 66 - (UERJ) O populismo brasileiro surge sob o comando de Vargas e os políticos a ele associados. Desde 1930, pouco a pouco, vai-se estruturando esse novo movimento político. Ao lado das medidas concretas, desenvolveu-se a ideologia e a linguagem do populismo. (IANNI, Otávio. In: MOTA, Myriam Becho e BRAICK, Patrícia Ramos. História: das cavernas ao Terceiro Milênio. São Paulo: Moderna, 1997.) Duas ações representativas do populismo varguista estão apontadas em: a) implantação de organizações econômicas e redistribuição de terras aos camponeses b) estatização das indústrias de bens de capital e limitação dos investimentos estrangeiros c) modernização das estruturas econômicas e concessão de direitos aos trabalhadores urbanos d) adoção de discurso antiimperialista e estímulo ao alistamento contra a ingerência norte- americana 67 - (EFOA MG) Durante o chamado “Estado Novo” (1937-1945), Getúlio Vargas governou o país suprimindo as liberdades democráticas e promovendo novas formas de política sindical e trabalhista. Ao final do Estado Novo, assistese à emergência de um movimento denominado “queremismo”. Sobre o “queremismo”, assinale a afirmativa CORRETA: a) Expressava os movimentos de oposição a Vargas, e seu documento central foi o “Manifesto dos Mineiros”, exigindo uma constituição democrática. b) Constituiu um movimento de apoio à continuidade de Vargas no poder, apoiado por setores do regime e pelos comunistas. c) Foi um movimento milenarista camponês, que acreditava no retorno iminente do messias, ocorrido no início da década de 1940 em Goiás. d) Foi um movimento fascista, que desejava o alinhamento do Brasil com as potências do Eixo durante a Segunda Guerra Mundial. e) Representava as insatisfações das classes populares urbanas em relação à carestia dos alimentos e do transporte, e aspirava por maior liberdade sindical. 68 - (FURG RS) A Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, promulgada em 1934, teve vida efêmera, tendo em vista a) a Revolução Constitucionalista promovida pelos paulistas. b) a Intentona Integralista que visava derrubar o Presidente da República. c) o Movimento Aliancista de 1934 que pretendia a unificação partidária, buscando a reconstitucionalização nacional. d) o Golpe de Estado perpetrado em 1937. e) a Revolução de 1936, que pretendia implantar reformas de cunho socialdemocrático no Brasil. 69 - (FURG RS) O político gaúcho Getúlio Vargas foi um dos governantes brasileiros que mais tempo permaneceu no poder. Podemos afirmar que as várias ascensões de Vargas à Presidência deram- se através I. da campanha oposicionista da Aliança Liberal que nas eleições derrotou o candidato governista Julio Prestes. II. da Revolução de 1930 que derrubou a República Velha, formando- se o novo Governo Constitucional. III. da eleição direta, promovida em 1934, após a promulgação da Constituição. IV. da vitória nas eleições de 1938, advindo daí o governo que ficou conhecido como Estado Novo. V. da eleição indireta promovida a partir da Assembléia Nacional Constituinte de 1946. Podemos afirmar que a) I, II e III estão corretos. b) II, III e IV estão corretos. c) I, IV e V estão corretos. d) Todos estão corretos. e) Nenhum está correto. 70 - (UFMS) Regime ditatorial de feições corporativas, instaurado por Getúlio Vargas em 1937, o Estado Novo teve seu fim em outubro de 1945, devido a) ao fim do mandato presidencial de Getúlio Vargas.