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DIREITO PREVIDENCIÁRIO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever o histórico, as características e os princípios que regem a saúde no campo da seguridade social. > Identificar as diretrizes e as fontes de financiamento da saúde no Brasil. > Analisar a atuação do Sistema Único de Saúde no contexto da seguridade social no Brasil. Introdução A saúde é um direito que tem relação direta com a vida e a dignidade, fortalecendo o conceito de cidadania e o Estado Democrático de Direito. Pessoas saudáveis contribuem para o desenvolvimento social e econômico do país, fazendo com que a economia gire e com que novas práticas de saúde possam ser observadas, no que tange ao aumento da qualidade de vida. Mas o que significa direito à saúde e o que ele abrange? O direito à saúde tem relação com o aspecto físico, biológico, psicológico e social que envolve o ser humano e faz com que ele tenha dignidade e melhores condições de vida, o que faz com que as pessoas possam viver melhor e trabalhar melhor. Neste capítulo, você vai estudar como funciona a saúde no sistema de seguri- dade social brasileiro, o que são as determinantes sociais de saúde, como é feito o financiamento da saúde no Brasil, o que é a reserva do possível e o mínimo existencial e qual é o âmbito de atuação do Sistema Único de Saúde (SUS). Seguridade social e saúde Fernanda de Castro Nakamura A saúde no sistema de seguridade social brasileiro A saúde na Constituição Federal de 1988 é caracterizada como um direito social e prestacional. Social porque é um direito que abrange toda a sociedade, sem qualquer distinção entre as pessoas. Prestacional porque depende de políticas públicas do Estado para que seja possível a realização de suas ações e serviços. Conforme o art. 196 da Constituição Federal de 1988, a saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 2016, p. 118). A redação final sobre o direito à saúde faz parte do sistema da seguridade social, que visa à proteção das pessoas por prestações positivas pelo Estado com base no primado da ordem social, cujos fundamentos são o trabalho, o bem-estar e a justiça social. Na configuração atual, o sistema de seguridade social atribui ao Estado ob- jetivos a serem alcançados nas áreas da saúde, previdência e assistência social para que os brasileiros possam ter condições dignas de vida e de existência (CASTRO; LAZZARI, 2021). Dessa forma, o direito à saúde é um direito fundamental social, inerente à condição humana e essencial para o desenvolvimento de um Estado Democrático de Direito, estando, por isso, classificado como um direito universal e independente de contribuição por parte dos seus usuários. Contudo, o direito à saúde no Brasil nem sempre foi assim. O início da proteção social no Brasil teve um caráter assistencialista, que depois passou a ser privado e facultativo, até chegar nos dias de hoje, com um sistema uni- versal que se estende, efetivamente, a todas as pessoas (AGOSTINHO, 2020). Foi no Estado moderno que se iniciaram as relações de trabalho nas indústrias, com a migração de pessoas do campo para as cidades em busca de melhores condições de vida, o que ocasionou a superpopulação urbana. A sociedade avançava com a ciência, a tecnologia e os meios de se produzir bens e serviços. No entanto, o Estado não conseguia acompanhar a evolução das sociedades no que se refere à proteção das pessoas. Isso deu margem a revoltas e revoluções, como a Revolução Industrial do século XVIII, que introduziu novas dinâmicas sociais e consolidou o capitalismo de produção, voltado à busca do lucro (CASTRO; LAZZARI, 2021). Em diversos países do mundo não se tinha um sistema que visasse a proteger o indivíduo. A lei dominante era a do mercado, em que todos deve- Seguridade social e saúde2 riam buscar se satisfazer em suas necessidades, enquanto o Estado dava o mínimo, que era a assistência aos mais necessitados. No Brasil, o caráter assistencialista tem como referência a fundação das Santas Casas de Misericórdia no Brasil por religiosos, que tinham como objetivo prestar serviços de saúde aos mais pobres por caridade. A primeira Santa Casa de Misericórdia que se tem notícia é a de Santos (GOES, 2020). Esse tipo de assistência vem do conceito do Estado liberal, em que o poder público não tinha o compromisso de prestar serviços às pessoas, voltando a sua proteção somente aos necessitados, o que acarretou a exclusão de grande parcela da população. A evolução social que fez com que as pessoas migrassem dos campos para as cidades na busca de melhores condições de vida fez com que os problemas sanitários se agravassem, por meio de epidemias e endemias que causavam a morte de milhares de indivíduos, além de suscitar revoltas entre populações. Para amenizar essa situação, foi necessária uma ação proativa do Estado, no sentido de fazer políticas e programas sociais que tivessem como objetivo a proteção dos trabalhadores em um primeiro momento. Nesse contexto, o marco inicial da Previdência Social no Brasil foi o Decreto Legislativo nº 4.682, de 24 de janeiro de 1923, conhecido como Lei Eloy Chaves. Além de promover a proteção social referente ao trabalho com a criação das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs) aos ferroviários, a lei concedeu a eles a possibilidade de uma assistência médica e de diminuição dos custos dos medicamentos (CASTRO; LAZZARI, 2021). A Revolução de 1930 fez com que as caixas de aposentadorias e pensões fossem estendidas a todas as profissões, o que acarretou a unificação das CAPS em Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs) de nível nacional, organizados por categoria profissional (GOES, 2020). Nessa época, com o governo de Getúlio Vargas, criou-se o Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, por meio do Decreto nº 19.402, de 14 de novembro de 1930. Esse Ministério foi o responsável pela criação das con- ferências nacionais de saúde, com o objetivo de promover estudos voltados à educação e à saúde. Mesmo com a criação do Ministério, a garantia de acesso ao direito à saúde se dava com a vinculação aos regimes de previdência. Em outras palavras, a saúde fornecida por meio de ações e serviços do Estado era prestada somente aos trabalhadores, excluindo desse âmbito a população rural, que só veio a ser incluída com a edição da Lei nº 4.214, de 2 de março de 1963 (BRASIL, 1963), conhecida como Estatuto do Trabalhador Rural ou Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural). Seguridade social e saúde 3 Dos primórdios do Estado moderno até os anos que seguiram no século XX, no Brasil, a saúde era vinculada à condição do trabalhador, ou seja, só tinha direito à saúde quem tinha uma relação de emprego que permitisse contribuir para os IAPs. Com a criação do Instituto Nacional da Previdência Social (INPS), em 1967, período da ditadura militar, a condição de trabalho vinculada à saúde continuou, até que, na década de 1970, em virtude dos inúmeros problemas sanitários pelos quais o Brasil passava, surgiu o Movimento Sanitarista com a intenção de promover a ruptura com o regime militar (CASTRO; LAZZARI, 2021). As conquistas desse movimento foram vistas logo após o fim do regime ditatorial no Brasil, em 1985. A VIII Conferência Nacional de Saúde foi o marco para a ascensão do direito à saúde como um direito fundamental e social, conforme escrito no Relatório Final da Conferência realizada em 1986 (CON- FERÊNCIA NACIONAL DA SAÚDE, 1986, p. 12): Direito à saúde significa a garantia, pelo Estado de condições dignas de vida e de acesso universal e igualitário às ações e serviços de promoção, proteção e recuperação, em todos os seus níveis a todos os habitantes do território nacional, levando o desenvolvimento pleno do ser humano em sua individualidade. Apesar dea conferência apontar a necessidade de se ter o direito à saúde separado da previdência e da assistência, por conta da preocupação com o financiamento e com as ações dos governos, a Constituição de 1988 o colocou dentro do tripé do sistema da seguridade social. Assim, na configuração atual, a saúde tem como características o fato de ser um direito social, fundamental, prestacional, universal e igualitário, essencial para o desenvolvimento humano e social do país. É um direito estendido a todas as pessoas, sem quaisquer distinções, tendo, ainda, como característica fundamental a ausência de contraprestação por parte dos usuários, bem como a possibilidade de sua prestação pela iniciativa privada. Os princípios gerais que regem a saúde no âmbito da seguridade social são a universalidade, a integralidade, a equidade, a descentralização, a par- ticipação comunitária e a participação da iniciativa privada. A universalidade diz respeito à abrangência do sistema que atende todas as pessoas sem distinção. A integralidade tem relação com os aspectos físico, biológico, psicológico e social que envolvem o direito à saúde em todos os níveis de atenção, não tratando somente de ações curativas. A equidade, que atende os indivíduos de acordo com as suas necessidades, considerando quem mais necessita das ações e serviços de saúde e quem menos necessita, baseado em um conceito de justiça social (CASTRO; LAZZARI, 2021). Seguridade social e saúde4 A descentralização significa uma distribuição de responsabilidades en- tre os entes federativos: União, Estados e Municípios. Ou seja, todos eles são responsáveis pela defesa da saúde, bem como têm em suas esferas de atuação secretarias, unidades básicas e hospitais públicos que atendem os usuários do SUS. A participação comunitária tem relação com o envolvimento da população nas ações e na gestão do SUS. No caso da iniciativa privada, é importante ter em mente que a prestação de serviços de saúde será fiscalizada pelo SUS, tendo um caráter complementar ao sistema público. As ações e serviços de saúde objetivam a manutenção de uma vida com qualidade e dignidade. Por isso, quando falamos em saúde dentro do sistema de seguridade social, estamos falando de um direito que tem como objetivo o bem-estar da pessoa, para que isso se reflita no seu trabalho e na efetivação de uma justiça social, a partir da qual todos possam usufruir de melhores condições de vida. Determinantes sociais de saúde Mas, afinal, o que é ter saúde? A saúde, no sistema de seguridade social, abrange uma gama maior de relações que vão além do processo de doença e de cura. Isso se deve ao fato de que a saúde, segundo a Constituição Federal de 1988, atende aos preceitos da constituição da Organização Mundial da Saúde (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, [20--], documento on-line), que, em preâmbulo, afirma: “A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”. Portanto, além de ofertar serviços e ações de saúde no processo de cura de doenças, o Estado deve fornecer condições para que as pessoas possam ter moradia, alimentação, saneamento básico, educação, trabalho, lazer, segurança, previdência, assistência social, dentre outros direitos que fazem com que a pessoa tenha uma vida mais digna e, consequentemente, mais saudável. Assim, entende-se que a dignidade e a saúde têm relação estreita com a garantia do direito à vida. As determinantes sociais da saúde condizem com a prestação de ações e serviços de saúde mais amplos, não podendo restringir somente às doenças a serem tratadas. Isso porque, ao voltar-se somente para o processo de cura e tratamento de doenças, há uma sobrecarga nas funções e no dever do Estado que deve promover a saúde de forma universal. Em outras palavras, para que haja a universalidade no direito à saúde, atendendo a um dos princípios básicos da seguridade social, o Estado precisa Seguridade social e saúde 5 ter condições de proteger as pessoas e, para isso, deve ter um planejamento voltado para a garantia de outros direitos que vão refletir na composição de um indivíduo é parte do desenvolvimento social e econômico do país. Financiamento da saúde no Brasil Dentro do sistema de seguridade social, a saúde tem o seu financiamento pautado pelo princípio basilar da diversidade de sua base, ou seja, a segu- ridade social é sustentada por diversas fontes de custeio, o que permite a sua sustentação. O dever de contribuir é de toda a sociedade, de forma indireta e direta, nos termos da Lei nº 8.212, de 24 de julho de 1991, Lei de custeio, (BRASIL, 1991), que institui o plano de custeio com recursos provindos da União, dos Estados e dos Municípios e de contribuições sociais que incidem sobre a folha de salários e rendimentos, a receita ou o faturamento e o lucro de empresas, do trabalhador e de demais segurados da previdência social, as verbas de loterias, que são definidas como concursos de prognósticos, e, do importador de bens ou serviços do exterior, segundo define o art. 195 da Constituição Federal de 1988. O plano de custeio, nas palavras de Horvath Júnior (2011, p. 117) é “[...] o conjunto de normas e previsões de despesas e receitas fundamentadas em avaliações atuariais destinadas à planificação econômica do regime e seu consequente equilíbrio financeiro-atuarial”. É a previsão do recebimento dos recursos frente aos gastos que são necessárias para a manutenção da seguridade. Apesar da diversidade da base de financiamento, a seguridade social tem um caixa único e diferente da receita tributária federal tendo, portanto, uma base de financiamento que serve somente às suas finalidades (CASTRO; LAZZARI, 2021). Quando a Constituição Federal de 1988 coloca que toda a sociedade deve colaborar com o financiamento da seguridade social, ela deixa claro um princí- pio importante que também serve de norte a todo o sistema: a solidariedade. Por esse princípio, tem-se que toda a sociedade, de forma indiscriminada, deve contribuir para a manutenção do sistema, para que ele possa ser capaz de proteger as pessoas em diversas situações relacionadas à previdência, à assistência e à saúde. Apesar de a saúde não ser contributiva, ou seja, não é preciso pagar pelos serviços do SUS, por ser um direito amplo e universal, ela encontra sua forma de autossustentação no orçamento da seguridade social. A legislação que Seguridade social e saúde6 rege o SUS dispõe que parte do orçamento da seguridade social deve ser destinada a atender às diretrizes e às metas em ações e serviços de saúde conforme a Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990 (BRASIL, 1990a), e a Lei nº 8.142, de 28 de dezembro de 1990 (BRASIL, 1990b), que tratam sobre a participação da comunidade na gestão do SUS e a transferência de recursos financeiros intergovernamentais. Quando se fala em participação da comunidade na esfera da gestão dos recursos financeiros do SUS, deve-se ter em mente o controle social que é exercido sobre as despesas públicas na área da saúde. Esse controle é essencial para o funcionamento do sistema e encontra-se previsto em toda a legislação que rege o SUS. Os órgãos de controle que representam a socie- dade e fazem com que a gestão do SUS seja democrática e comunitária são as conferências e conselhos de saúde de âmbito federal, estadual e municipal, obedecendo à destinação dos recursos distribuídos na rede regionalizada e hierarquizada do SUS. Os recursos que são base de sustentação ao SUS provêm, portanto, de parte do orçamento da seguridade social e de outras fontes elencadas na legislação e na Constituição Federal de 1988. Essas outras fontes estão pre- vistas no art. 32 da Lei nº 8.080/1990 e correspondem a serviços que podem ser prestados sem prejuízo da assistência à saúde, como ajuda, doações e donativos, alienações patrimoniais, rendimentos de capital, taxas, multas, emolumentos e preços públicos arrecadados pelo SUS, rendas eventuaisque podem ser comerciais e industriais (BRASIL, 1990a). Além disso, por disposição constitucional, os entes federados devem aplicar parte de suas receitas em ações e serviços de saúde, obedecendo ao sistema de repartição das receitas tributárias em que parte dos tributos arrecadados por um ente é transferido a outro. Com relação isso, tem-se que a União deve aplicar, no mínimo, 15% da sua receita corrente líquida, que corresponde ao exercício financeiro, coincidindo com o ano civil, tendo o percurso temporal de 12 meses, além do montante referente ao percentual que corresponde à variação do Produto Interno Bruto (PIB), de acordo com a Lei Complementar nº 141 de 2012 (BRASIL, 2012). Se o crescimento do PIB for baixo, haverá uma queda significativa de investimentos em saúde pela União. Os Estados devem aplicar 12% da arrecadação dos impostos de sua com- petência, além dos recursos recebidos por meio da repartição das receitas tributárias, sendo que, nesse caso, os Estados recebem o produto da arreca- dação do imposto de renda retido na fonte e 21% do imposto que vier a ser instituído pela União por meio de Lei Complementar. Os Municípios e o Distrito Federal, por sua vez, devem aplicar 15% da arrecadação dos impostos de sua Seguridade social e saúde 7 competência, lembrando que no caso do Distrito Federal há a acumulação dos impostos municipais e estaduais. Somadas a essa arrecadação, tem-se as receitas provindas da repartição das receitas tributárias, sendo que os municípios têm o recebimento do produto da arrecadação do imposto de renda de autarquias e fundações, 50% da arrecadação do imposto territorial rural, 50% da arrecadação do IPVA e 25% da arrecadação relativa ao ICMS. Observe que o sistema de financiamento da saúde visa ao atendimento da complexidade de suas ações e serviços com a finalidade de se atender a todas as pessoas, primando, assim, pela universalização. Por isso, é essencial que os recursos sejam capazes de prover ações e serviços em saúde, objetivando o bem-estar geral do indivíduo. Reserva do possível e o mínimo existencial A reserva do possível e o mínimo existencial equivalem, respectivamente, à quantidade de recursos que serão dispendidos pelo Estado em direitos sociais e ao básico que é necessário para uma pessoa viver. Quando se fala em saúde, entende-se esses dois termos como partes integrantes do sistema que financia as suas ações e serviços. Isso se deve ao fato de que os recursos são finitos e as necessidades são infinitas. Segundo Barroso (2019, p. 108), o mínimo existencial “[...] está no núcleo essencial dos direitos sociais e econômicos”, devendo ser parte integrante da realização dos direitos fundamentais, sobretudo o direito à saúde. Ou seja, quando um direito é fundamental, como é o caso da saúde, ele deve ser garantido para que a pessoa possa, ao menos, viver. Esse é o motivo pelo qual, o mínimo existencial não pode ser reduzido em face de falta de recursos pelo poder público. A reserva do possível, no caso da saúde, não pode servir como uma desculpa para o Estado não investir em ações e serviços que visem à garantia do direito à vida a todos os cidadãos. Solha (2014) destaca que há uma estratégia de repasse dos recursos para que os serviços sejam efetivos no atendimento da população local e regional. A autora coloca que as Normas Operacionais Básicas (NOB) e as Normas Operacionais de Assistência à Saúde (NOAS), normas que regem a municipalização das ações e dos serviços de saúde, facilitaram o sistema de repasses, de modo a organizar os recursos que deverão ser aplicados e as áreas que deverão receber mais atenção do poder público. Um bom exemplo ocorreu durante a pandemia do coronavírus, quando os entes federados — União, Estados e Municípios — tiveram que se reorganizar Seguridade social e saúde8 com relação aos seus recursos para que a saúde da população pudesse ser garantida e protegida durante esse período excepcional. Isso se deve ao fato de que a proteção da saúde na pandemia do coronavírus demandou uma atuação maior do Estado no sentido de educar as pessoas para se autoprotegerem, bem como organizar as redes de ações e serviços de saúde para que os casos de Covid-19 pudessem ser atendidos. No auge da pandemia, muitos Municípios e Estados tomaram medidas extremamente restritivas para evitar a circulação de pessoas e propagação do vírus e, assim, manter uma estrutura administrativa que pudesse ser capaz de atender a todas as pessoas que viessem a necessitar do sistema de saúde. O projeto S realizado pelo Instituto Butantan na cidade de Serrana, interior do Estado de São Paulo, teve como objetivo imunizar toda a população contra a Covid-19 e, assim, realizar um estudo clínico sobre como o vírus se propagaria em um ambiente amplamente imunizado. Com a vacinação de toda a população da cidade de Serrana, obteve-se uma queda no número de mortes e internações por Covid-19, assim como nos casos sintomáticos do coronavírus. O sucesso do projeto demonstrou a importância da imunização no auge da pandemia, o que refletiu de forma impactante na manutenção do sistema de saúde pública municipal que não ficou sobrecarregado com falta de leitos e UTIs de Covid-19. Assim, com a queda da circulação do vírus, o sistema de saúde da cidade pôde atender a toda a população, inclusive com relação a outras doenças, pri- mando pela efetivação do direito à saúde e pela correta aplicação dos recursos financeiros para atender às demandas do SUS. A atuação do Sistema Único de Saúde A origem do SUS se deu por meio da Constituição Federal de 1988, com a finalidade de concretizar as ações e serviços de saúde que se encontram dentro do subsistema da saúde na seguridade social. Hoje, o SUS se configura como um dos sistemas mais complexos e completos do mundo em termos de assistência à saúde pública, que, no caso brasileiro, é gratuita e universal. As ações e serviços de saúde na configuração do SUS demandam a manu- tenção de um sistema que é único, regionalizado e hierarquizado, conforme previsão do art. 198 da Constituição Federal de 1988, que coloca como di- retrizes: a descentralização, a integralidade e a participação comunitária. A descentralização, que tem relação com a regionalização, equivale ao fato de que o SUS se encontra tanto no âmbito regional, nos Estados, como em âmbito local, nos municípios, cada um com uma direção que é única à sua abrangência (BRASIL, 2016). Seguridade social e saúde 9 A integralidade tem relação com as ações e serviços de saúde para o enfrentamento de doenças, recuperação, reabilitação e de promoção da saúde, constituindo o atendimento em toda a sua amplitude com a garantia de uma vida saudável e digna. No Quadro 1, veja quais são as diferenças entre promoção da saúde, prevenção de doenças, recuperação da saúde e reabili- tação, elementos que compõem a diretriz da integralidade no atendimento em saúde pelo SUS. Quadro 1. Diferenças entre promoção da saúde, prevenção de doenças, recuperação da saúde e reabilitação Promoção da saúde Prevenção de doenças Recuperação da saúde Reabilitação � Atua sobre os determinantes sociais de saúde, com foco na melhoria das condições sociais e na redução das desigualdades sociais. � A população deve ter participação ativa no processo. � A articulação intersetorial é a estratégia de escolha para o planejamento de ações de promoção. � Atua sobre os fatores de risco a fim de evitar adoecimento, sejam eles biológicos, ambientais ou psicossociais. Por exemplo, campanhas com orientações sobre alimentação saudável e importância da atividade física regular. � O foco está na atuação dos profissionais e na adoção de hábitos saudáveis de vida pelos indivíduos. � Atua sobre o indivíduo/ comunidade doente, visando à melhoria do quadro clínico, com controle/ eliminação da doença e evitação de morte/ sequelas. Por exemplo, tratamento dehipertensão arterial sistêmica (HAS). � Atua sobre as sequelas (físicas, sociais, psicológicas) causadas por doença ou agravos, visando à reinserção do indivíduo em sua família, comunidade e trabalho e à recuperação de sua capacidade vital. Por exemplo, indivíduo que sofreu amputação de membro inferior e recebe tratamento para colocação de prótese, considerando a sua adaptação física e psicológica para o uso do dispositivo. Fonte: Adaptada de Solha (2014). Seguridade social e saúde10 A participação comunitária tem relação com a democratização da gestão no SUS. As ações e os serviços de saúde precisam ser fiscalizados e contro- lados pela sociedade, que é quem receberá o atendimento de saúde pública. Por isso, é essencial a participação dos conselhos municipais, estaduais e nacional de saúde nas ações tomadas pelo SUS para a proteção da saúde e da vida das pessoas. Vigilância sanitária A primeira atribuição do SUS que se encontra na legislação é a execução de ações na área da vigilância sanitária e epidemiológica, de saúde do trabalhador e de assistência terapêutica integral, que inclui a assistên- cia farmacêutica. A vigilância sanitária compreende as ações referentes à proteção da saúde, eliminando, diminuindo ou prevenindo os seus riscos. Nesse campo de atuação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é responsável por intervir em problemas sanitários que advém do meio ambiente e da produção e circulação de bens e serviços. Para tanto, ela realiza o controle dos bens de consumo, medicamentos, vacinas, etc. de modo a atestar sua qualidade e capacidade de consumo por pessoas. Além disso, a Anvisa fiscaliza toda a gama de prestação de serviços em saúde a fim de atestar a sua qualidade. 9oi A Anvisa, criada por meio da Lei nº 8.080/1990, tem como atribuições coordenar as ações em vigilância sanitária de produtos e serviços colocados à disposição das pessoas e que têm relação com a saúde. Vigilância epidemiológica Na vigilância epidemiológica, a intenção é desenvolver ações que visem à promoção do conhecimento, à prevenção ou à detecção de mudanças das determinantes de saúde individual ou coletiva, atuando, principalmente, no controle e prevenção de doenças, de acordo com o § 2º do art. 6º da Lei nº 8.080/1990 (BRASIL, 1990a). Nesse âmbito, Costa e Higa (2019) esclarecem que o Brasil conta com uma estrutura de vigilância epidemiológica ligada ao Ministério da Saúde, que é o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE), que atua em todo o território nacional, abrangendo estados e municípios. O SNVE, dentre Seguridade social e saúde 11 outras funções, é o responsável por executar as investigações e ações de prevenção de doenças e surtos, procurando desenvolver metodologias para o seu combate e eliminação (COSTA; HIGA, 2019). Saúde do trabalhador Com relação à saúde do trabalhador, a legislação coloca uma série de ações que devem ser tomadas com relação à promoção e à proteção da saúde no meio ambiente de trabalho. Isso se deve ao fato de que o ambiente de trabalho não pode ser um local que faça com que a pessoa adquira doenças ou agrave as já existentes. Contudo, o que dizer com relação aos trabalhos insalubres e perigosos? Como o SUS faz a proteção e promoção da saúde do trabalhador nesses locais? Para esses trabalhos, a vigilância em saúde do trabalhador deve investigar métodos que tenham como objetivo a proteção e a diminuição dos riscos no ambiente de trabalho, por meio da utilização de equipamentos de proteção e de práticas que possam, de fato, proteger o trabalhador. Saneamento básico Outra atribuição do SUS é participar da formulação da política e da execução de ações de saneamento básico, conforme consta o art. 6º, inciso II, da Lei nº 8.080/1990, sendo uma vertente essencial para a preservação e a promoção da saúde humana (BRASIL, 1990a). As ações de saneamento básico se relacionam com o abastecimento de água potável, tratamento de esgotos e resíduos sólidos e manejo de águas pluviais. A vigilância sanitária, nos três entes da federação, União, Estados e Municípios, é a responsável pelo controle e fiscalização dessas ações e da realização de políticas que promovam o saneamento básico. Vigilância alimentar e nutricional Cabe ao SUS a realização da vigilância nutricional e orientação alimentar, bem como a fiscalização e a inspeção de alimentos, água e bebidas para o consumo humano, conforme o art. 6º, incisos IV e VIII, da Lei nº 8.080/1990 (BRASIL, 1990a). A realização da fiscalização dos alimentos, água e bebidas é realizada pela Anvisa, que deve atestar a sua qualidade na disponibilização para o consumo humano. Seguridade social e saúde12 Além disso, a vigilância alimentar e nutricional tem como objetivo pro- mover práticas alimentares que sejam adequadas à proteção da saúde e ao aumento da qualidade de vida. Por isso, a vigilância alimentar e nutricional realiza estudos para investigar as práticas alimentares da população e, assim, trabalhar em políticas que ressaltem a alimentação e nutrição adequadas. Medicamentos e insumos Da mesma forma, cabe ao SUS formular a política de medicamentos, imu- nobiológicos, equipamentos e insumos de interesse da saúde. A atuação do SUS no tratamento e cura de doenças é algo que tem muita relevância para a qualidade de vida e a dignidade dos cidadãos. Por isso, na rede de atendimento do SUS há a disponibilização de farmácias que distribuem gratuitamente medicamentos e insumos para os seus usuários. Esses medicamentos e insumos são listados na Relação Nacional de Medicamentos (Rename) e nas listas estaduais e municipais, abrangendo várias enfermidades. A falta desses medicamentos e insumos é de responsabilidade do poder público, que deve alinhar o seu planejamento financeiro e político para a sua distribuição correta perante a população. Nessa atribuição entram, ainda, os imunizantes/vacinas que visam à prevenção e à eliminação de doenças e os equipamentos necessários para o atendimento adequado e completo dos usuários da rede pública de saúde. Como parte importante do tratamento em saúde, tem-se a formulação e a execução de políticas de sangue e seus derivados essenciais na utilização de alguns tratamentos. Ainda, no tocante, ao tratamento, o SUS deve investir em tecnologia e desenvolvimento científico para a descoberta de novas técnicas de proteção e promoção de saúde, a fim de conceder à população o melhor atendimento. Vigilância ambiental De acordo com Costa e Higa (2019), cabe à vigilância ambiental a fiscalização, o controle e a colaboração na proteção do meio ambiente em todos os seus aspectos, de modo a averiguar quais fatores ambientais impactam na saúde da população. Esses fatores ambientais geralmente são relacionados aos processos de urbanização, em que deve ser averiguado a viabilidade de uma construção em um determinado local, a qualidade do ambiente de trabalho, a poluição sonora, visual, térmica, radioativa, entre outras que podem influir negativamente na qualidade de vida e na saúde da população. Seguridade social e saúde 13 Em razão disso, dentro dessa atribuição há o controle e fiscalização de produtos para a saúde, tal como os que são relacionados a substâncias radioa- tivas, tóxicas e psicoativas, nos seus processos de produção, armazenamento, utilização e transporte. Ainda dentro da vigilância ambiental, pode-se destacar a vigilância de zoonoses que tem como função avaliar a qualidade da saúde de animais para evitar a transmissão de doenças infecciosas em pessoas. Recursos humanos em saúde Por fim, tem-se a formação dos recursos humanos em saúde para que o atendimento seja feito de forma completa e satisfatória nas unidades básicas de saúde e em hospitais estaduais financiados pelo sistema público. Conforme pôde ser visto neste capítulo, o subsistema da saúde dentro da seguridade social tem uma complexidade e uma amplitude de relações que vão além do processode cura de doenças. Pensar em saúde, é pensar em qualidade de vida e em melhores condições de vivência e sobrevivência, a fim de que as pessoas sejam capazes de contribuir para o desenvolvimento social e econômico do país. E isso só é possível se as pessoas estiverem bem servidas e bem atendidas nos serviços de saúde. Nesse contexto, a capacitação técnica e jurídica na área da saúde para os profissionais do Direito é de extrema importância e relevância para a concretização e efetivação dos direitos de cidadania, sendo uma verdadeira luta a favor da vida. Referências AGOSTINHO, T. Manual de direito previdenciário. São Paulo: Saraiva, 2020. BARROSO, L. R. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos funda- mentais e a construção do novo modelo. 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2019. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1990. Brasília, DF: Senado Federal, 2016. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/ id/522095/CF88_EC92_2016_Livro.pdf?ssequenc=1&isAllowed=y. Acesso em: 30 out. 2021. BRASIL. Lei complementar n. 141, de 13 de janeiro de 2012. Diário Oficial da União, Brasília, DF, ano 149, n. 11, seção 1, p. 1-4, 16 jan. 2012. Disponível em: https://pesquisa. in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=1&data=16/01/2012. 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