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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Keller, Timothy Nascimento, casamento e morte : como encontrar Deus nos eventos mais signi�cativos da vida / Timothy Keller ; edição em um só volume ; tradução de Susana Klassen. - São Paulo : Vida Nova, 2020. recurso digital; 1,5 MB ISBN 978-65-86136-54-8 (recurso eletrônico) Títulos dos originais: On Birth; On Marriage; On Death 1. Nascimento - Aspectos religiosos 2. Casamento - Aspectos religiosos 3. Morte - Aspectos religiosos I. Título II. Klassen, Susana 20-2692 CDD 248.4 Índices para catálogo sistemático 1. Vida e práticas cristãs ©2020, de Timothy Keller Títulos dos originais da série How to Find God: On birth; On marriage; On death, edições publicadas por P������ B����, uma divisão da P������ R����� H���� LCC (New York, New York, EUA). Todos os direitos em língua portuguesa reservados por S�������� R�������� E������ V��� N��� Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020 vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br 1.ª edição: 2020 Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte. Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New International Version (NIV). As citações com indicação da versão in loco foram traduzidas da English Standard Version (ESV) e da New American Standard Bible (NASB). D������ ��������� Kenneth Lee Davis G������� ��������� Fabiano Silveira Medeiros E����� �� ����� Danny Charão Ubevaldo G. Sampaio P��������� �� ����� Virginia Neumann Marcia B. Medeiros R������ �� ������ Abner Arrais G������� �� �������� Sérgio Siqueira Moura D���������� Sandra Reis Oliveira http://vidanova.com.br/ mailto:vidanova@vidanova.com.br C��� Douglas Lucas P������� �� ������� �P�� Booknando SUMÁRIO Agradecimentos Apresentação PRIMEIRA PARTE: NASCIMENTO 1. Primeiro nascimento 2. Segundo nascimento 3. Crescer na graça SEGUNDA PARTE: CASAMENTO 4. Começar o casamento 5. Manter o casamento 6. O destino do casamento TERCEIRA PARTE: MORTE Palavras introdutórias 7. O medo da morte: a consciência transforma a todos nós em covarde s 8. A ruptura da morte: não se entristeçam como aqueles que não têm e sperança Palavras adicionais Leitura recomendada sobre o tema da morte A AGRADECIMENTOS o escrever este livro, devemos ainda mais gratidão que o habitual a Brian Tart, nosso editor na Viking. Brian viu a re�exão curta sobre a morte que Tim havia feito no funeral de Terry Hall, irmã de Kathy, e propôs que a transformássemos em não apenas um, mas em três livros curtos sobre nascimento, casamento e morte, reunidos para sua comodidade neste único compêndio. Também somos gratos a nossos muitos amigos em South Carolina que tornaram possível escrever este e os outros dois livros em Folly Beach durante o verão passado. A APRESENTAÇÃO vida é uma jornada, e encontrar e conhecer a Deus é essencial para essa jornada. Quando uma criança nasce, quando nos aproximamos do casamento e quando enfrentamos a morte, quer na velhice, quer muito antes, esses acontecimentos geralmente são objeto de nossa re�exão. Desvencilhamo-nos da correria da vida diária e voltamos às perguntas mais primordiais feitas ao longo de todas as eras: Tenho dedicado minha vida ao que de fato importa? Estou preparado para encarar essa nova etapa da vida? Tenho um relacionamento genuíno com Deus? A transição mais fundamental na vida de qualquer ser humano é o que a Bíblia chama novo nascimento ( Jo 3.1-8), ou tornar-se “nova criação” (2Co 5.17). Evidentemente, pode acontecer em qualquer estágio da vida, mas, não raro, as circunstâncias que nos levam à fé decisiva em Cristo ocorrem durante essas fases de mudança radical de um estágio para outro. Em 45 anos de ministério, minha esposa, Kathy, e eu observamos que as pessoas se mostram especialmente abertas para explorar um relacionamento com Deus em momentos importantes de transição. Neste opúsculo dividido em três partes, queremos ajudar os leitores que estão passando por grandes transformações a re�etir sobre o que constitui uma vida verdadeiramente transformada. Nosso propósito é apresentar aos leitores os fundamentos cristãos para os momentos mais importantes e signi�cativos da vida. Começamos com o nascimento e o batismo, passamos ao casamento e encerramos com a morte. Meu desejo é que estes textos breves proporcionem orientação, consolo, sabedoria e, acima de tudo, ajudem a apontar o caminho para encontrar Deus e conhecê-lo ao longo de toda a vida. Para nossos netos: a alegria que sentimos quando vocês nasceram só poderia ser superada pela consciência de que vocês experimentaram o novo nascimento. A 1 PRIMEIRO NASCIMENTO Nasce a �m de renascermos, vive para revivermos. CANTAM ANJOS HARMONIAS, �� C������ W�����1 fé cristã ensina que cada indivíduo deve experimentar dois nascimentos. No primeiro, nascemos para o mundo natural. Aquilo, então, que Charles Wesley chama nosso “renascer”, e que Jesus chama “nascer de novo” ( Jo 3.3), é o fato de que nascemos para o reino de Deus e recebemos nova vida espiritual. Temos o primeiro nascimento porque Deus é nosso Criador; podemos ter o segundo nascimento porque Deus também é nosso Redentor. O Senhor é autor de ambos. Diante disso, é apropriado que consideremos as questões espirituais relacionadas aos dois nascimentos. O que signi�ca receber nova vida humana de Deus? Quais são as responsabilidades da família e da igreja para com os recém-nascidos? Como podemos ajudar as crianças que entraram em nossa vida por meio do primeiro nascimento a experimentar o segundo nascimento? Espantoso e maravilhoso Em vez de o Senhor criar diretamente cada novo ser humano, ele conferiu à união de homem e mulher o poder singular que é trazer ao mundo novos seres humanos. Não é de admirar que os recém-nascidos na Bíblia sejam vistos com admiração, como sinais da bênção de Deus. A ordem inicial de Deus para a raça humana foi: “Sejam férteis e multipliquem-se e encham a terra” (Gn 1.28). Embora Deus não exija que todos se casem, conforme os exemplos de Jesus e Paulo, Gênesis 1.28 explica por que temos a sensação tão intensa de que estamos diante de um milagre de Deus quando olhamos para um recém-nascido. Salmos 127.3 diz que todos os �lhos são “recompensa” de Deus. Mas há outro lado. Com frequência, Deus envia ao mundo heróis e libertadores por meio de casais desconsolados em razão de não conseguirem ter �lhos. Isaque, Jacó, José, Sansão e Samuel nascem de mulheres que, até então, não haviam conseguido conceber. E, no entanto, como mostra um rápido levantamento da vida desses indivíduos (especialmente de Jacó, de José e de Sansão), esses �lhos que foram “dádivas de Deus” também causaram grande tristeza a seus pais. Vemos um pouco disso no conhecido trecho de Salmos 139.13-16: “Tu criaste o íntimo de meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te louvo porque me �zeste de modo espantoso e maravilhoso [...] Os teus olhos viram meu corpo ainda sem forma; todos os dias determinados para mim foram escritos em teu livro”. Nas palavras de um estudioso da Bíblia: “Nossa formação pré-natal por Deus [é] forte lembrança do valor que ele nos dá mesmo quando ainda somos embriões e de seus planos para nosso �m desde o começo”.2 A expressão “de modo espantoso e maravilhoso” é extremamente rica. Todo bebê que nasce no mundo é uma criação maravilhosa, mas, ao mesmo tempo, espantosa. Quem olha para um recém-nascido — percebendo que é uma nova vida humana à imagem do Criador, a qual entrou no mundo com dons e chamados especí�cos, e uma vida planejada pelo Salvador da história — reage, necessariamente, com uma espécie de temor e tremor. E ninguém deve olhar para um bebê com mais admiração e temor que seus pais. Quando Kathy e eu chegamos a casa com nosso primeiro recém- nascido, �quei surpreso de vê-la envolver o bebê em um abraço“em que Paulo diz que a justiça de Deus é revelada no evangelho”. Por �m, Lutero diz: “Entendi que a justiça de Deus é a justiça que, por meio da graça e de absoluta misericórdia, Deus nos concede pela fé. Então, senti que havia renascido e passado pelas portas abertas para o paraíso [...] Quando percebi a diferença, que a lei é uma coisa e o evangelho é outra, compreendi a verdade”.7 É isso que acontece. Lutero sentiu como se tivesse sido atingido por um raio. Durante anos, viveu ciente de que devia se arrepender de seus pecados e obter o perdão de Deus, mas imaginou que tivesse de consertar a si mesmo e oferecer a Deus uma vida justa a �m de alcançar sua bênção e seu favor. De repente, percebeu não apenas que havia cometido pecados e maldades, mas que até mesmo suas boas obras haviam sido realizadas pelos motivos errados, a �m de controlar o que Deus e outros pensavam dele, de criar uma identidade para si mesmo como pessoa de bem, de salvar a si mesmo e fazer papel de Deus. Quando ele se arrependeu não apenas de seus atos maus, mas também da motivação para suas boas obras, “[sentiu] que havia renascido”. Quando percebeu a diferença entre o evangelho e a tentativa de salvar a si mesmo por meio de esforços morais, ele “[compreendeu] a verdade”. A beleza de Jesus A primeira coisa que precisamos fazer para ser convertidos, portanto, é abandonar os planos de salvação própria e nos arrepender. Depois disso, contudo, precisamos nos voltar para Jesus com fé e ver a beleza da obra que ele realizou. Não basta apenas crer na graça de Deus de modo geral; é preciso ter fé naquilo que Jesus Cristo fez de modo especí�co. Vi meus três �lhos nascerem, e cada parto foi diferente. Choraram ou �caram quietos, espernearam ou �caram quase imóveis. Mas nos três casos houve um elemento em comum. Não nasceram, não obtiveram nova vida ou foram trazidos ao mundo por seus esforços. Vieram ao mundo pela dor e pelo trabalho de parto da mãe. Em nossa realidade atual, dar à luz não é tão doloroso nem tão perigoso quanto no passado. Mas Jesus falou de nascer de novo em uma época em que não era possível ver a luz da vida a menos que alguém amasse você o su�ciente para não apenas sentir dor e sofrimento, mas arriscar a vida por você. Aliás, naquele tempo, muitos nasciam à custa da morte da mãe. Por isso, mais adiante no Evangelho de João, Jesus faz uma comparação impressionante. Em João 16.16, ele declara: “Mais um pouco e não me verão”, referindo-se a sua morte na cruz. Logo em seguida, diz: “A mulher que está dando à luz sente dores, porque chegou a sua hora; mas, quando o bebê nasce, ela esquece a angústia por causa de sua alegria de ter nascido ao mundo uma criança” ( Jo 16.21). Por que, quando Jesus fala de sua morte, menciona repentinamente uma mulher em trabalho de parto? E por que se refere ao momento doloroso de dar à luz como “sua hora”? Como estudiosos do Evangelho de João observam, sempre que Jesus fala de sua morte na cruz, ele a chama sua “hora”.8 Percebe o que Jesus está dizendo? “Seu primeiro nascimento traz vida física porque alguém arriscou a vida, mas seu segundo nascimento traz vida espiritual e eterna porque alguém entregou a vida. E esse alguém fui eu.” E, se continuarmos a acompanhar a metáfora de Jesus em João 16, veremos que �ca ainda mais maravilhosa. Ele a�rma que, apesar da dor intensa, a mãe enche-se de alegria ao ver o �lho. Portanto, Jesus tem a audácia de dizer: “Esse é apenas um tênue vislumbre da alegria que eu sinto quando olho para você. Suportei de bom grado sofrimento, tormento e morte, para a alegria maior de salvar e amar você”. Enquanto você não entender esse fato, crer e descansar nele, não pode nascer de novo. 1 É importante considerar que, embora a expressão “reino de Deus” seja usada com frequência nos Evangelhos Sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas, ela quase nunca é usada pelo Evangelista João. Esse é o único lugar em que ele emprega essa expressão, exceto uma alusão perto do �m do livro. Isso signi�ca que, no Novo Testamento, o novo nascimento é estreitamente ligado ao conceito de reino de Deus. 2 “Hē palingenesia, ‘o renascimento’ [...] [é] uma expressão mais típica da �loso�a estoica que dos escritores judaicos, mas resume muito bem a esperança escatológica [do Antigo Testamento] de ‘novos céus e nova terra’ (Is 65.17; 66.22 etc.). [...] No pensamento estoico, παλιγγενεσία era o termo para o renascimento cíclico do mundo que surgia das cinzas de suas con�agrações periódicas”. R. T. France, �e Gospel of Matthew, New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 2007), p. 742-3. 3 Essa seção se vale, em grande medida, de Archibald Alexander, �oughts on religious experience (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1967), p. 21-31. 4 Alexander, �oughts on religious experience, p. 64. 5 Larry Hurtado, Destroyer of the gods (Waco: Baylor University Press, 2016), p. 93-4. 6 “Convertam” também é usado aqui na KJV e na NASB. Outras traduções dizem apenas que devemos “mudar”, mas o termo grego straphete signi�ca uma revolução completa em que se deixa de rumar em uma direção e se volta para outra direção. De acordo com Jesus, essa mudança signi�ca nos tornarmos espiritualmente “como crianças”, que con�am humildemente. Por isso, o estudioso da Bíblia Leon Morris escreve: “Nesse contexto, ele [o termo straphete] indica uma mudança de direção da vida como um todo, uma conversão”. Leon Morris, �e Gospel according to Matthew, Pillar New Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1992), p. 459. 7 Martin Luther, “Preface to Latin writings”, in: Luther’s works (St. Louis: Concordia, 1972), vol. 34, p. 336-7. 8 “‘Hora’ (hōra) refere-se sempre a sua morte na cruz e à exaltação associada a ela (7.30; 8.20; 12.23,27; 13.1; 17.1), ou a suas consequências (5.28,29), e, portanto, seria arti�cial entender o termo de outra forma aqui.” D. A. Carson, �e Gospel according to John (Leicester, Reino Unido/Grand Rapids: InterVarsity/ Eerdmans, 1991), p. 171 [edição em português: O comentário de João, tradução de Daniel de Oliveira; Vivian Nunes do Amaral (São Paulo: Shedd, 2007)]. A 3 CRESCER NA GRAÇA Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo: Àqueles que, mediante a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé igualmente preciosa [...] Seu divino poder nos deu todas as coisas de que precisamos para uma vida piedosa [...] Ele nos deu suas grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês pudessem participar da natureza divina [...] Por isso mesmo, façam todo esforço para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança; à perseverança a piedade; à piedade a afeição mútua; e à afeição mútua o amor. Pois, se vocês têm essas qualidades em medida crescente em sua vida, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos. Todavia, quem não as tem, está míope e cego, esquecendo-se de que foi puri�cado de seus antigos pecados (2Pe 1.1,3-9). Cresçam na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! (2Pe 3.18) imagem que Jesus apresentou da salvação como novo nascimento também foi usada no Novo Testamento por Paulo (Tt 3.5), Tiago (Tg 1.18), João (1Jo 5.1) e Pedro. Quando Pedro escreve sua primeira carta, diz aos cristãos em duas ocasiões que eles nasceram de novo (1Pe 1.3,23). Não podemos deixar passar despercebida uma das implicações mais claras dessa metáfora do nascimento. Ao contrário da deusa Atena da lenda grega, nós, seres humanos, não surgimos plenamente desenvolvidos da testa de Zeus. Começamos como bebês minúsculos e impotentes. O contraste entre nosso estado quando recém-nascidos e na vida adulta não poderia ser maior. O crescimento pelo qual o recém-nascido tem de passar é espantoso; precisa dobrar de tamanho nos quatro a seis primeiros meses. Será que cristãos recém-nascidos na fé mostram algo semelhante a esse tipo demudança e transformação? Como vimos, o alicerce para que elas aconteçam foi lançado. O Espírito de Deus habita dentro de nós. Mas será que crescemos? Pedro, em sua segunda carta, fala de crescimento espiritual. Tanto nos versículos iniciais quanto nas declarações �nais, ele nos exorta a “[crescer] na graça”. O crescimento na graça é possível Lembre-se de quem escreve essa carta: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo” (2Pe 1.1). Pedro foi um apóstolo que conviveu com Jesus. Viu Cristo ser trans�gurado no monte. Ouviu a voz do Pai vinda do céu. Negou Jesus, mas Jesus o perdoou, curou e o comissionou para que fosse líder em seu movimento. Depois da ressurreição, com as marcas dos pregos ainda visíveis, Jesus treinou Pedro pessoalmente. Imagine se tudo isso acontecesse com você. Banalizamos o uso do adjetivo “transformador” em nossa cultura, mas, sem dúvida, se você tivesse visto a trans�guração e a ressurreição pessoalmente, essas experiências teriam transformado toda sua vida. Observe, porém, o que Pedro diz: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo: Àqueles que, mediante a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé igualmente preciosa”. O termo grego para “igualmente” (isotimon) usado aqui é “de igual mérito e valor”. Que extraordinário ele escrever para cristãos há centenas de quilômetros e várias décadas depois desses acontecimentos que ele viu com os próprios olhos e, ainda assim, a�rmar que a fé desses cristãos tem o mesmo valor transformador que sua fé. Em outras palavras, diz: “Sua vida pode ser tão radicalmente modi�cada pelo evangelho de Jesus Cristo quanto minha vida foi”. Como é possível? Pedro explica em seguida. De acordo com o versículo 4, por meio das “preciosas” promessas (mesmo termo), as promessas do evangelho, “[participamos] da natureza divina”. Quando recebemos o Espírito Santo por meio do novo nascimento, também recebemos, por assim dizer, o DNA de Deus. Isso não signi�ca que somos, de algum modo, amalgamados misticamente com o Ser divino, mas que o amor, a sabedoria, a veracidade, a justiça, a misericórdia e a bondade de Deus são impressos em nós. O Espírito Santo nos liga ao caráter espiritual de Deus da mesma forma que o DNA nos liga ao caráter físico de nossos antepassados. No �m das contas, não foram as experiências dos apóstolos como testemunhas oculares que os transformaram. Lembre-se de que Judas conviveu com Jesus, viu a beleza de seu ser e seus grandes milagres, mas ainda assim se desviou. Mesmo quando o Jesus ressurreto apareceu aos discípulos em um monte na Galileia, alguns o adoraram, “mas alguns duvidaram” (Mt 28.17). O que verdadeiramente os transformou foi a mesma coisa que todos os cristãos têm: a habitação interior do Espírito Santo (At 1.8). Quando a Bíblia nos exorta a crescer na graça, é muito diferente de dizer: “Sejam virtuosos”. Muitos imaginam que o Novo Testamento está simplesmente chamando as pessoas em geral a basear a vida no modelo ético de Jesus. Dizem que ele foi um homem que praticou amor, misericórdia e justiça. Se todos nós vivêssemos como ele, o mundo seria um lugar melhor. Com todo o respeito a essa ideia, os autores bíblicos não são tão ingênuos e tolos. Chamar as pessoas a viver como Cristo, a adotar um modo de vida inteiramente contrário à natureza humana por um ato de volição, é pedir o impossível. As exortações da Bíblia para que os cristãos se tornem semelhantes a Cristo partem do pressuposto de que nasceram de novo e são participantes da natureza divina. Quando o Novo Testamento instrui: “Ame seu próximo como a si mesmo”, quer dizer: “Alimentem a nova natureza dentro de vocês para que possam amar seu próximo como a si mesmos”. É preciso nascer a �m de crescer. Para que haja crescimento físico, é necessário que haja nascimento físico. Para que haja crescimento espiritual, é necessário que haja nascimento espiritual. Se você é cristão, não há desculpa para não ter uma vida drasticamente transformada. Você desistiu de mudar em determinadas áreas? Aprendeu a conviver com maus hábitos e más condutas recorrentes em sua vida? Fez as pazes silenciosamente com atitudes, medos e ressentimentos em seu coração? Você tem “todas as coisas de que [precisa] para uma vida piedosa” (v. 3). Crescer na graça é, agora, uma possibilidade cheia de poder. O crescimento na graça é gradativo Pedro fala de “acrescentar” à nossa fé qualidades sucessivas: virtude, conhecimento, domínio próprio, afeição mútua; em seguida, diz que esses elementos devem estar presentes “em medida crescente”. Em outras palavras, o crescimento na graça é gradativo. Nossa cultura nos ensina a ser impacientes. Uma empresa que leva dois dias para entregar seus produtos pode ir à falência se um concorrente entregar no dia seguinte. O computador que leva dez segundos para baixar um arquivo pode sair de linha por causa de outro com uma con�guração semelhante, mas que baixa arquivos em dois segundos. Tirado de linha por causa de oito segundos! É nesse tipo de cultura que vivemos. E, muitas vezes, a igreja sofre forte in�uência da cultura exatamente nesse ponto. Várias igrejas e ministérios dizem com todas as letras, ou pelo menos deixam implícito, que se você verdadeiramente entregar a vida a Cristo, frequentar essas congregações e usar seus métodos de crescimento espiritual, em breve será liberto de tudo o que o escraviza ou o faz sofrer. Prometem vitória espiritual sobre seus problemas como uma solução mágica. No entanto, a Bíblia nunca se expressa desse modo. Nascemos de novo; começamos como bebês espirituais, como Pedro diz em outra passagem de suas cartas (1Pe 2.2). Ninguém deixa de ser bebê e se torna adulto independente em algumas semanas ou meses. São necessários anos e anos de desenvolvimento, esforço, erros (geralmente gigantescos) e aprendizado em todas as áreas. Em momento nenhum a Bíblia diz (parafraseando 1Pe 2.2): “Como recém-nascidos, bebam do leite espiritual da Palavra de Deus para que cresçam na salvação. E, se beberem com muito gosto, crescerão mais rápido”. Não. Bebês crescem no ritmo deles. E leva um bocado de tempo. Ainda assim, se você pegar uma pequena bolota de carvalho e tentar usá-la para esmagar uma placa de cimento, a bolota se despedaçará. Imagine, porém, que a placa de cimento faz parte de uma calçada. Plante a bolota no solo debaixo da calçada. Se ela germinar, é possível que encontre uma forma de crescer e, gradativamente, ao longo dos anos, empurre para o lado a placa de cimento. Talvez até faça o cimento rachar. Esse é o poder do crescimento que acontece de forma lenta, mas contínua. Crescer na graça, portanto, é menos parecido com uma solução mágica e mais parecido com uma bolota de carvalho. A graça entra em sua vida e, se for regada e nutrida, com o tempo realiza uma transformação completa. Se o poder de Deus está em você, cedo ou tarde ele tratará de suas maiores fraquezas. Se o amor de Deus está em você, cedo ou tarde ele confrontará seu egoísmo. Mas é gradativo. É importante lembrar que, assim como crianças em fase de crescimento, cristãos em fase de crescimento apresentarão várias diferenças individuais. Pais que têm mais de um �lho sabem que nem todos aprendem as primeiras palavras, dão os primeiros passos ou fazem qualquer outra coisa exatamente na mesma idade, na mesma fase, com a mesma velocidade. Até mesmo gêmeos são diferentes! O mesmo aplica-se ao crescimento espiritual. Alguns de nós chegamos à família de Deus com um histórico muito maior de di�culdades, maus-tratos e problemas de caráter que outros. Alguns de nós chegamos com pouco ou nenhum conhecimento da Bíblia ou de ensinamentos cristãos, enquanto outros de nós chegamos com bem mais conhecimento. Por isso, o progresso na vida cristã, embora seja sempre gradativo, acontece em um ritmo diferente para cada pessoa. Há mais um aspecto em que o crescimento espiritual é semelhante ao crescimento de uma criança rumo à vida adulta. O famoso compositor do século 18, John Newton (autor do hino Surpreendente graça), tambémera sábio pastor. Em cartas a um amigo, ele falou de três estágios básicos de crescimento espiritual que correspondem sensivelmente a infância, adolescência e vida adulta.1 Como crianças, os recém-convertidos com frequência são cheios de entusiasmo e de novos e maravilhosos sentimentos de ausência de culpa e de proximidade de Deus. Newton diz, porém, que embora tenham crido no evangelho — segundo o qual o perdão é dádiva gratuita de Deus, não obtida por esforço nem por mérito —, ainda não aprenderam a aplicar o evangelho à vida como um todo. No fundo, ainda são legalistas. Sabem que Deus os perdoou, mas fundamentam a certeza de que ele continua a amá- los na própria capacidade de não pecar, na �delidade na oração e no crescimento em conhecimento cristão, e especialmente na sensação de que Deus está perto deles. Todas essas coisas servem de base para sua certeza de que Deus os ama, em vez de serem o resultado da certeza de que Deus os ama. Por isso, há correntes de ansiedade (“Será que Deus realmente me ama?”) e de orgulho (“Entreguei minha vida a Cristo, ao contrário dos obstinados”.) Cristãos novos na fé �cam excessivamente desanimados com sentimentos negativos e fracassos espirituais, pois seus sentimentos e seus sucessos espirituais são os supostos méritos no qual imaginam que o favor de Deus para com eles se baseia. Por isso, Newton observa, Deus muitas vezes permite um tempo em que muitas coisas dão erradas na vida do cristão. Essa fase corresponde sensivelmente à adolescência, pois os adolescentes com frequência resistem à autoridade dos pais. Quando os sentimentos espirituais se dissipam e a vida não vai bem, o cristão “adolescente” oscila entre raiva de Deus e raiva de si mesmo. Contudo, Newton escreve: “Por meio dessas dispensações variáveis, o Senhor os treina e os faz progredir”. Em meio às di�culdades, Deus conduz os crentes a um entendimento mais profundo do evangelho. Cristãos imaturos imaginam que sentimentos e circunstâncias positivos são resultados merecidos em razão da força de sua devoção a Cristo. A presunção sutil (ou não tão sutil) e a ingenuidade são arrancadas deles por di�culdades e provações. Têm condições de avançar quando se aprofundam nas duas verdades do evangelho: são mais pecadores e falhos do que imaginavam, mas sua aceitação por Deus é mais incondicionalmente garantida em Cristo do que jamais ousaram esperar. Como Newton observa a respeito do cristão em crescimento: “A hora da liberdade pela qual ele anseia se aproxima quando, por uma descoberta adicional do glorioso evangelho, lhe será permitido conhecer sua aceitação e se tornará possível descansar na salvação consumada pelo Senhor”.2 Por �m, Newton fala de cristãos maduros e “espiritualmente adultos”. Uma vez que compreenderam o evangelho mais profundamente, são capazes de lidar bem com o sofrimento, pois percebem que circunstâncias adversas não signi�cam que estão sendo castigados por seus pecados, ou que Deus não se importa. Além disso, uma vez que passaram a ter uma perspectiva mais radical do amor incondicional de Deus por eles, também têm força emocional para ser muito mais honestos sobre os pecados que os assediam em vez de justi�cá-los ou negá-los. Podem, portanto, entender a si mesmos e superar suas falhas de caráter como nunca antes. Newton diz que “a felicidade e superioridade [do adulto em relação ao adolescente] se encontra principalmente nisto: [...] por meios como orar, ler e ouvir a Palavra, ele obteve percepção mais clara, profunda e abrangente do mistério do amor redentor”.3 O crescimento na graça é essencial Quando o Novo Testamento fala da graça, refere-se ao favor imerecido que Deus concede, à sua disposição de nos aceitar não por causa de nossas obras e de nosso histórico, mas em razão das obras e do histórico de Jesus. Em certo sentido, portanto, não há como crescermos na graça. Não há como sermos mais justi�cados e retos aos olhos de Deus. Não há como sermos mais adotados em sua família. Em outro sentido, porém, é possível crescer grandemente na in�uência dessas verdades em nosso coração. Nosso poder e nossa experiência desses grandes privilégios podem aumentar. Quando isso acontece, e somente quando isso acontece, temos em nossa vida um poder dinâmico que nos transforma de dentro para fora. Alguns anos atrás, quando nossa família estava em férias, fomos a um restaurante fast-food, mas o atendimento não foi nada rápido. Nossa �la andava devagar, pois a atendente atrás do balcão se enrolava com cada pedido. À medida que nos aproximamos, percebi que o motivo da demora era a di�culdade da atendente em falar inglês. Parecia ser uma imigrante recém-chegada e não entendia o que outros lhe diziam. Fiquei impaciente e pensei: “Por que a gerência colocou nessa função alguém que não é �uente em nosso idioma?”. Em seguida, porém, me lembrei do versículo bíblico que tinha visto naquela manhã em minha leitura diária. Era um versículo de Deuteronômio, em que Deus instruía os israelitas a serem gentis com os imigrantes e estrangeiros em seu meio: “Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito” (Dt 10.19). Essa recordação me pegou de jeito. Deus não disse (embora tivesse o direito de dizer): “Amem os imigrantes e sejam gentis com eles porque eu estou mandando!”. Uma instrução desse tipo teria colocado pressão diretamente na vontade. Embora não haja nada de errado com essa abordagem, não cria mudanças duradouras. Mas não foi dessa maneira que Deus formulou sua ordem. Antes, ele diz aos israelitas: “Lembrem-se de que libertei vocês quando eram estrangeiros e escravos. Agora, tratem imigrantes e estrangeiros como eu tratei vocês”. Essa instrução não se atém a pressionar a vontade; ela muda o coração, produz humildade e, ao mesmo tempo, edi�ca com a lembrança do amor divino. Não é uma exortação à simples conformidade ética. Exige crescimento na graça — deixar que a graça de Deus permeie o pensamento e mude as motivações do coração. Claro que entendi de imediato que a instrução também se aplicava a mim. Nunca fui, literalmente, escravo no Egito, mas como Paulo observou, também havia sido “excluído da cidadania” no reino de Deus e era um dos “estrangeiros [...] sem esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vocês que antes estavam longe foram aproximados mediante o sangue de Cristo” (Ef 2.12,13). Jesus realizou essa obra ao abrir mão de seu poder e de seu lugar no céu para que eu, forasteiro e estrangeiro espiritual, pudesse ser aceito. Ele foi excluído para que eu pudesse ser incluído. Muito antes das conversas atuais sobre “levar em conta nossa situação privilegiada” ao interagir com os menos favorecidos, Deus deu a cada um de nós um poderoso antídoto para nossa tendência natural de nos sentirmos superiores em razão de classe social e raça. Portanto, quando me aproximei do balcão para falar com a atendente, veio à mente: “Senhor Jesus, também fui estrangeiro, mas o Senhor pagou um preço in�nito para me aproximar de ti”. Quando entendemos a graça, ela começa a mudar nosso coração e alimentar a nova pessoa que Deus está formando dentro de nós. O resultado é verdadeira paciência, gentileza e mudança de comportamento. É a isso que nos referimos quando falamos que o crescimento na graça é essencial, acontece de dentro para fora, e é orgânico, e não mecânico. É possível formar um monte de pedras ao colocar cada vez mais pedras no topo. Da mesma forma, é possível amontoar atividades cristãs e frequência perfeita à igreja. É possível até crescer em conhecimento intelectual da doutrina cristã e de fatos bíblicos. Mas isso não é o mesmo que tornar-se mais sábio, profundo, alegre e amoroso. Você está crescendo como um monte de pedras empilhadas ou está crescendo como uma criança e se tornando um adulto maduro? O crescimento é possível. O crescimento é gradativo. O crescimento é repleto de graça e é essencial. Quando o crescimento na graça é verdadeiro Como identi�car que há um processo de crescimento na graça em andamento? Archibald Alexander nos dá a seguintelista. Haverá progresso geral, apesar de lapsos ocasionais. Nosso crescimento por vezes será mais rápido e, por vezes, mais lento. Será mais forte em uma área que em outra. Ao longo do tempo, contudo, acontecerão avanços. Haverá cada vez menos egoísmo, cada vez mais capacidade de controlar a busca por grati�cação própria que custa muita tristeza a outros, especialmente a membros da família. Isso signi�ca um avanço em nossa capacidade de controlar gastos, alimentação e aquilo que dizemos em público. É interessante que Alexander acrescenta: “a versão falsa desse crescimento é uma consciência excessivamente escrupulosa que, por vezes, questiona até os prazeres mais inocentes”.4 Em algumas ocasiões, haverá a consciência da presença de Deus no culto e na oração como comunidade e o desejo crescente de se encontrar com ele nesses momentos de devoção. Sem dúvida, é algo variável, que depende de diversos fatores. Enfermidade, exaustão, provações e di�culdades, ou outras fases cheias de compromissos e atividades, podem levar a um declínio daquilo que autores mais antigos chamam “a presença perceptível [percebida] de Deus”. Em geral, porém, deve haver tempos contínuos, embora variáveis, em que temos comunhão com Deus em amor por meio da oração e da leitura da Palavra. O famoso hino de William Cowper descreve essa realidade: Por vezes, uma luz surpreende o cristão enquanto ele louva; é o Senhor que ascende com sua cura que repousa; quando nada lhe é alentador, ele concede à alma novamente um tempo de evidente esplendor, depois da chuva torrente.5 Haverá amor crescente por pessoas difíceis de amar, disposição de envolver-se com o bem geral da comunidade ao amar o próximo e especialmente desejo de se identi�car publicamente como cristão e compartilhar a fé na esperança de que outros comam do mesmo alimento que nos sustenta. Um sinal especialmente claro de crescimento na graça é a capacidade de suportar maus-tratos dos outros ao perdoá-los de coração e desejar o bem deles, ao mesmo tempo que buscamos com destemor, mas com humildade, justiça e reparação. Haverá dependência cada vez maior da sabedoria de Deus nos altos e baixos e nas circunstâncias da vida. Romanos 8.28 (Deus faz com que “todas as coisas [cooperem] para o bem daqueles que o amam”) não a�rma que cada mal especí�co produzirá algum bem, mas promete que, juntas, todas as coisas em nossa vida estão sendo encaminhadas de acordo com um plano, em sua maior parte invisível para nós, que opera para nosso benefício e para a glória de Deus. O cristão que depende dessa promessa descobre que “não importa quão sombrio seja seu horizonte, ou quantas di�culdades o cerquem [...] você aprendeu a viver pela fé. E o humilde contentamento com sua condição, ainda que seja de pobreza e obscuridade, mostra que você se bene�ciou de sentar-se aos pés de Jesus”.6 Por �m, um sinal de crescimento na graça será amor crescente por outros cristãos, e não apenas pelos membros de sua tribo especí�ca. Infelizmente, a igreja cristã ainda se encontra dividida, em grande parte, por raça e classe; é provável, portanto, que você vá à igreja com pessoas de sua raça, nível de instrução e classe social. Um excelente sinal de crescimento na graça, porém, é a descoberta de que temos uma ligação mais próxima com crentes de condição social diferente da nossa que com descrentes de mesma condição social. Esse amor por outros cristãos, quando genuíno, rompe barreiras de política e ideologia, raça e classe, que dividem todos os outros seres humanos. Você vê mudanças desse tipo em sua vida? Nova sensibilidade e identidade, novos hábitos e amores? De modo lento, mas certo, eles devem se desenvolver em seu interior e transformá-lo. Para um dos exemplos mais curiosos dessa nova criação, podemos voltar a Nicodemos, dessa vez com enfoque não em João 3, mas naquilo que o Evangelho nos diz a respeito dele no �m, quando Jesus morre. Em João 19, quando o corpo de Cristo ainda estava na cruz, Nicodemos e José de Arimateia, dois homens ricos e bem-sucedidos, membros do conselho de líderes judeu, pedem o corpo de Jesus e removem- no da cruz. Depois disso, o relato nos diz que eles mesmos preparam o corpo para o sepultamento. Limpam-no de todo sangue e sujeira. Envolvem-no ternamente com um pano em que são colocadas especiarias aromáticas. Esses gestos são espantosos. Por quê? Nicodemos e José agiram com ousadia e com coragem incrível, pois, quando o líder de um movimento era executado, ninguém queria ser um de seus seguidores. Aliás, todos os outros seguidores de Jesus estavam escondidos, mas esses dois homens se dispuseram a tomar providências e se identi�car abertamente como discípulos. Além disso, é importante entender que, naquela cultura, somente mulheres ou escravos lavavam e preparavam um corpo para ser sepultado, pois era uma tarefa considerada (com razão) impura. Homens de condição elevada nunca realizavam esse trabalho, mas foi o que José e Nicodemos �zeram. Isso signi�ca que algo havia mudado radicalmente em Nicodemos. Tinha mais audácia e coragem que antes. E, no entanto, seu orgulho masculino havia desaparecido. Mostrou-se mais destemido e humilde, mais valente e culturalmente �exível do que nunca. De onde veio essa masculinidade redimida? Veio do fato de que sua identidade como um todo havia sido desarraigada e replantada em novo solo, no solo do evangelho. Como observamos, o evangelho nos humilha e nos exalta mais que qualquer outra crença ou experiência. Se você salva a si mesmo, é destemido, mas um tanto arrogante; se fracassa, é humilde, mas inseguro. O evangelho lhe diz que, de si mesmo, você é um pecador incorrigível, mas, em Cristo, é salvo e amado pela graça. Essa realidade o torna semelhante a Nicodemos e José: simultaneamente ousado e humilde, forte e terno. O paradoxo do evangelho consiste no fato de que aqueles que reconhecem sua fraqueza absoluta se fortalecem imensamente, e somente quem, por assim dizer, “perde a sua vida” na verdade “a encontrará” (Mt 10.39). C. S. Lewis encerra seu livro Mere Christianity com uma descrição desse fenômeno. Esse princípio está presente na vida toda, de alto a baixo. Renda-se e você encontrará sua verdadeira identidade. Perca sua vida e você a salvará. Sujeite-se à morte, a morte de suas ambições e desejos mais estimados diariamente, e a morte de seu corpo no �m; sujeite cada �bra de seu ser, e você encontrará vida eterna. Não retenha nada. Nada do que você deixou de entregar será verdadeiramente seu. Nada em você que não morreu será ressuscitado dos mortos. Olhe para si mesmo e você encontrará, em longo prazo, somente ódio, solidão, desespero, fúria, ruína e decadência. Mas olhe para Cristo e você o encontrará e, com ele, todo o restante.7 A bênção de Deus Hebreus 6.7,8 diz que vida e crescimento vêm da “bênção de Deus”.8 Portanto, leitor, minha oração é para que você viva debaixo dessa bênção divina. O nascimento de um novo bebê é um acontecimento maravilhoso. Parabéns! O nascimento de uma nova vida em Cristo é um acontecimento eterno. Aleluia! Quem nasce uma vez, morre duas. Quem nasce duas vezes, morre uma. Agora, cresça “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18). 1 John Newton, �e works of John Newton (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1985), vol. 1, p. 197-217. As cartas das quais tratamos são as três primeiras: “Grace in the blade” [Graça na folha], “Grace in the ear” [Graça na espiga] e “�e full corn in the ear” [O milho plenamente formado na espiga]. Como se pode ver pelos títulos dessas três cartas, Newton usa várias imagens para descrever o que ele chama cristãos A, B e C. Emprego aqui a metáfora de criança, adolescente e adulto. 2 Newton, �e works of John Newton, vol. 1, p. 203. 3 Newton, �e works of John Newton, “On grace in the full corn”, vol. 1, p. 211. 4 Archibald Alexander, �oughts on religious experience (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1967), p. 159. Alexander acrescenta que algumas pessoas fazem esforços legalistas tão intensos para exercitar autocontroleque “hesitam até em ingerir o alimento diário” (p. 159). 5 William Cowper, Olney hymns (Minneapolis: Curiosmith, 2017). 6 Alexander, �oughts on religious experience, p. 160. 7 C. S. Lewis, Mere Christianity (New York: Macmillan, 1960) [edição em português: Cristianismo puro e simples, tradução de Álvaro Oppermann; Marcelo Brandão Cipolla (São Paulo: Martins Fontes, 2009)]. 8 “O solo desfruta o benefício da chuva, que o rega com frequência para seu enriquecimento e sua fertilidade, a �m de que, a seu tempo, possa, por sua produtividade, bene�ciar outros. Ao cumprir essa função, o solo é abençoado por Deus. A produtividade espiritual é uma manifestação da operação da graça divina; pois é Deus que envia a chuva de sua misericórdia sobre o solo da vida humana e também é ele que, como agricultor, cuida de sua videira ( Jo 15.1) e a faz crescer (1Co 3.6s.).” Philip Edgcumbe Hughes, A commentary on the Epistle to the Hebrews (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), p. 222. Em memória do dr. R. C. Sproul, que realizou nossa cerimônia de casamento e nos encaminhou devidamente em nossa teologia e em nossa jornada como casal. P 4 COMEÇAR O CASAMENTO or que se dar ao trabalho de casar? Nas palavras da cerimônia de casamento cristã tradicional, “Deus instituiu e santi�cou o casamento para o bem e a felicidade da humanidade”.1 Embora essa declaração seja verdadeira, não pode ser o �m da discussão para nós hoje. A relevância do casamento é uma questão mais premente na atualidade do que em qualquer outro momento. No passado, tomava-se por certo que, quando alguém se tornava membro adulto da sociedade, casava- se e tinha �lhos, e era o que fazia a maioria das pessoas. Contudo, adultos mais jovens em países ocidentais de hoje adiam o casamento como nunca antes. Quase um terço de todos os millennials nos Estados Unidos permanece solteiro até os 40 anos, e é possível que 25% nem se case, a maior proporção de qualquer geração na história moderna.2 Por quê? Há dois motivos pelos quais tantos casamentos nem sequer começam: pressões econômicas e o crescimento do individualismo em nossa cultura. Temores a respeito do casamento O fator econômico pode ser observado na convicção amplamente difundida de adultos solteiros de que é necessário ter uma boa carreira que proporcione estabilidade �nanceira antes de se casar, e de que o mesmo se aplica, obviamente, ao possível cônjuge. Por trás dessa pressuposição há a ideia de que a vida de casado consome um bocado de recursos, especialmente com a chegada dos �lhos. Acredita-se, portanto, que antes de se casar é preciso ter renda garantida, economias razoáveis e, talvez até, um portfólio de investimentos. No entanto, essa ideia é contrária a estatísticas e à tradição. Tradicionalmente, as pessoas se casavam não porque tinham segurança e estabilidade �nanceiras, mas, sim, para obtê-las. O casamento traz consigo benefícios econômicos ímpares. Estudos mostram que casados poupam bem mais que solteiros. Os cônjuges podem incentivar um ao outro a mais autodisciplina do que os amigos. Cônjuges também dão mais apoio um ao outro nas provações da vida e, portanto, têm mais saúde física e mental que solteiros. Outro fator para o declínio do casamento identi�cado por especialistas é “considerável individualismo”.3 Essa é uma expressão popularizada por sociólogos para designar uma tendência cultural crescente. Em culturas tradicionais, a identidade pessoal era percebida com referência a relacionamentos. “Quem eu sou” era de�nido por meu lugar na família, na comunidade e, talvez, no Universo com Deus. Tornava-me uma pessoa de valor ao cumprir minhas responsabilidades nesses relacionamentos. Hoje em dia, porém, voltamo-nos para dentro. “Quem eu sou” não deve ser determinado por aquilo que outros dizem ou pensam de mim. Torno-me uma pessoa digna de valor ao descobrir meus desejos e sentimentos mais profundos e ao expressá-los. Uma vez que eu tiver identi�cado quem eu sou, posso começar relacionamentos, mas somente com aqueles que me aceitam em meus termos. Essa abordagem moderna à identidade é incutida em nós por nossa cultura de inúmeras formas. No �lme Moana, de 2016, a princesa herdeira em uma ilha da Polinésia é informada por seu pai de que ela será a futura líder de sua nação e terá de se sujeitar a diversas responsabilidades tradicionais. Em vez disso, o desejo de Moana é cruzar os mares em busca de aventura. Sua avó entoa para ela uma canção em que lhe diz que “sua verdadeira identidade” não se encontra em seus deveres e responsabilidades sociais, mas na expressão de seus desejos mais profundos. Explica para Moana que, se uma “voz interior” em seu coração lhe disser para seguir esses desejos, “essa voz interior é quem você é”.4 Somos bombardeados continuamente por essa mensa- gem: na televisão, nos �lmes, em anúncios, em salas de aula, em livros, em redes sociais e em conversas com amigos, até que se transforma em uma pressuposição inquestionável e praticamente invisível a respeito de como nos tornamos pessoas autênticas. O efeito dessa identidade moderna sobre o casamento é expressivo. Signi�ca que não desejamos nem mesmo pensar em casamento se não tivermos de�nido nossa identidade singular. Não queremos que ninguém mais tenha o direito de dizer quem somos enquanto nós mesmos não tivermos plena certeza de nossa identidade. Além disso, hoje em dia esperamos e até mesmo exigimos que todos os relacionamentos sejam transacionais, mantidos apenas enquanto são vantajosos para nós, e não comprometidos e permanentes. Se a impermanência é o modelo em vigor, casamento e especialmente a criação de �lhos se tornam bastante problemáticos, pois sair de um casamento é difícil, e abandonar um relacionamento entre pais e �lhos é praticamente impossível. E se o relacionamento com o cônjuge ou com os �lhos for um obstáculo para você expressar sua “verdadeira identidade”? Em nossos dias, muitos só se casam quando imaginam ter encontrado um cônjuge que não tentará mudá-los e que proverá recursos emocionais e �nanceiros para ajudá-los a alcançar seus objetivos pessoais. No entanto, é uma ilusão pensar que descobriremos nossa identidade se a buscarmos somente em nosso interior, e não em relacionamentos com outros. Todo coração tem diversos desejos profundos e contraditórios. Medo e raiva coexistem com esperança e ambição. Procuramos organizar esses desejos contraditórios e identi�car quais “não correspondem a nossa verdadeira identidade”. Mas e se todos eles fazem parte de quem somos? Como decidir quais correspondem a nosso “eu” ou não? A resposta é que passamos a admirar e respeitar indivíduos ou grupos cujas ideias podemos usar para selecionar e avaliar os impulsos de nosso coração. Em outras palavras, ao contrário da mensagem que nos é transmitida, desenvolvemos nossa identidade não apenas ao olhar para dentro de nós mesmos, mas por meio de relacionamentos importantes e narrativas que moldam profundamente o modo que nos vemos. Não olhamos apenas para nosso interior. A abordagem tradicional ao casamento era sábia em sua compreensão intuitiva de que ele formaria e reformaria nossa identidade de modo profundo. E isso é bom, pois a identidade sempre se desenvolve nas negociações com as pessoas importantes em sua vida. Como a psicóloga Jennifer B. Rhodes diz, “Em gerações anteriores, as pessoas estavam mais dispostas a tomar essa decisão [de casar] e [depois] tentar entendê-la”.5 Que maneira melhor existe de descobrir sua identidade do que se casar com alguém que você ama e respeita e, então, embarcar juntos nesse processo de autoconhecimento? Diante disso, o declínio atual do casamento baseia-se em duas convicções equivocadas a seu respeito, a saber, que consome recursos econômicos e que é um empecilho para o pleno desenvolvimento de nossa liberdade e identidade. O casamento foi feito para nós Estudiosos de ciências sociais reuniram evidências contrárias a essas duas perspectivas equivocadas e mostram que o casamento traz consideráveis benefícios econômicos e psicológicos.Além disso, há fortes indícios de que a família tradicional é essencial para o bem-estar de crianças e jovens e de que os �lhos se saem muito melhor quando são criados em famílias em que pai e mãe são casados um com o outro. Essas constatações não devem causar surpresa aos cristãos.6 Gênesis diz que Deus instituiu o casamento quando criou a raça humana. Não devemos entender que, por isso, todos os indivíduos adultos têm de se casar. Jesus foi solteiro e, uma vez que ele é o exemplo supremo de como uma pessoa deve ser, não podemos insistir, como fazem algumas culturas, que é necessário se casar para ser uma pessoa plenamente realizada. Contudo, também não podemos ver o casamento da mesma forma que nossa cultura, apenas como um desdobramento evolutivo para guardar os direitos de propriedade na era neolítica e que, hoje em dia, pode ser alterado ou descartado como nos aprouver. Wendell Berry fez um pronunciamento famoso sobre a ideia moderna de que ter sexo dentro ou fora do casamento “é uma questão inteiramente pessoal”. Ele discordou: “O sexo não é e não pode ser uma ‘questão pessoal’ do indivíduo, nem é apenas um assunto que diz respeito somente ao casal. Como qualquer poder necessário, precioso e volátil comumente exercido, o sexo diz respeito a todos”.7 Sexo fora do casamento produz bebês fora do casamento, muitas vezes transmite doenças e cria em nós o hábito de tratar outros como objetos de prazer, e não como pessoas. Tudo isso tem enorme impacto sobre condições sociais que afetam a todos. Sabemos que essa linha de raciocínio é extremamente contraintuitiva no Ocidente atual, mas foi e é bastante natural para a maioria dos seres humanos da maioria dos lugares e épocas. Sua escolha a respeito do casamento não é, em última análise, uma decisão pessoal. Afeta todos ao seu redor. O casamento foi feito para nós, e a raça humana foi feita para o casamento. Medo de fracassar Há outro motivo que muitas pessoas dão para explicar a relutância moderna em se casar. “Vi como o casamento de meus pais foi difícil e não quero isso para mim.” O medo de con�ito e de fracasso impede muitos de procurar um cônjuge ou, no mínimo, leva-os a buscar um possível companheiro praticamente livre de defeitos ou fraquezas. Alguns supõem que, pelo fato de seus pais terem se divorciado, existe probabilidade maior de que seu futuro casamento também terminará em divórcio. Em um artigo para a revista �e Atlantic, Joe Pinsker a�rma que, além de pesquisas recentes mostrarem que não é o caso, ser exposto a maus casamentos também pode fornecer recursos para construir um bom casamento.8 Ele dá o exemplo de um homem chamado Justin Lange. Depois do divórcio dos pais de Justin, a mãe dele se casou mais duas vezes e o pai, mais três vezes. Justin concluiu que ser casado é difícil demais e que ele não entraria em um relacionamento desse tipo. No entanto ele conheceu uma mulher, apaixonou-se por ela e, apesar de tudo, os dois têm um casamento feliz. Como é possível? “Ele atribuiu sua felicidade presente [...] a fazer o oposto do exemplo que recebeu de seus pais.”9 Aprendeu a construir um bom casamento ao não cometer os mesmos erros que eles. Acima de tudo, reconheceu o maior erro de seus pais: assumir verbalmente um compromisso para o resto da vida, mas “não estar dispostos a agir de acordo com ele”. O divórcio, às vezes, é necessário, e a Bíblia o permite. Estudos longitudinais mostram, contudo, que dois terços dos casamentos infelizes se tornarão, em cinco anos, uniões felizes se os cônjuges persistirem.10 Justin Lange descobriu que era uma ilusão acreditar que, se encontrasse a companheira certa, não brigariam como os pais dele brigavam. Superou o medo de que o casamento seria difícil. Claro que seria difícil. Também superou o medo de que haveria con�itos. Claro que haveria. O segredo, porém, é não deixar que essas coisas enfraqueçam o compromisso de amar um ao outro em meio a todas as di�culdades. Justin comenta: “Talvez você �que chateado com algo trivial hoje, mas fará diferença adiante? Deixe acontecer e mantenha o foco nas coisas importantes”.11 Um conceito equivocado de sexo Há outro motivo apresentado com frequência tanto por pesquisadores quanto por homens pelo qual indivíduos do sexo masculino têm menos interesse em se casar hoje do que tinham no passado. Pesquisadores destacam que a pronta disponibilidade de sexo é outro motivo para a redução no número de casamentos.12 Em várias ocasiões, ouvimos homens nos dizerem a mesma coisa sem rodeios: “No passado, era preciso se casar para ter um relacionamento sexual, mas isso mudou completamente”. Essa atitude considera o sexo um bem de consumo que costumava ser caro. Houve um tempo em que, para ter sexo, era preciso abrir mão da independência e se casar. O preço era alto, mas agora o sexo está disponível por um custo menor, por assim dizer. Dentro dessa perspectiva, contudo, o sexo é considerado uma experiência física e emocional que pode ser igualmente boa, senão melhor, fora do casamento. O cristianismo trouxe consigo desde seu início um novo e revolucionário conceito de sexo. Era apenas uma parte (singularmente prazerosa, poderosa e inseparável) da entrega mútua. Ser amado e admirado, mas não verdadeiramente conhecido, traz pouca satisfação. Ser conhecido, mas rejeitado e não amado, é nosso maior pesadelo. Mas, tornar-se vulnerável e, portanto, plenamente conhecido, e ainda assim plenamente amado por alguém que admiramos é a maior satisfação possível. No casamento, os cônjuges perdem a independência e se tornam vulneráveis e interdependentes. Não retêm nada para se relacionar apenas de modo temporário, condicional e transacional. Entregam-se inteiramente um ao outro emocional, física, legal e �nanceiramente. De acordo com a ética sexual surpreendente dos cristãos primitivos, o sexo é o sinal dessa entrega total e o meio para ela e não deve ser usado para nenhum outro propósito. Ter sexo por outro motivo, qualquer que seja, é ter um conceito equivocado a seu respeito. A concessão de acesso a nosso corpo deve ser acompanhada de uma abertura mútua da vida como um todo pela aliança vitalícia do casamento. Os primeiros cristãos ensinavam que, somente nessa situação, o sexo pode se tornar o ato unitivo e realizador que foi criado para ser. Esse novo código sexual de “não ter sexo fora do casamento” causou espanto no mundo romano, pois parecia extremamente restritivo.13 Na verdade, porém, elevou o sexo de mero objeto de consumo para uma forma de criar vínculo e comunidade incomparavelmente fortes entre dois seres humanos e a uma forma de honrar e se assemelhar àquele que se entregou inteiramente por nós, para que pudéssemos ser libertos a �m de nos entregar inteiramente a ele. Fujam da imoralidade sexual [...] Vocês não sabem que seu corpo é templo do Espírito Santo que habita em vocês, que receberam de Deus? Vocês não pertencem a si mesmos; foram comprados por preço. Portanto, honrem a Deus com o corpo (1Co 6.18-20). Assim como os cidadãos da Roma antiga, hoje em dia muitos consideram a ética sexual bíblica restritiva e pouco atraente. E, no entanto, há sinais e evidências de que a perspectiva cristã supostamente obsoleta ainda corresponde a nossas intuições mais profundas a respeito do sexo. Sexo superconsensual Em um artigo para o jornal �e New York Times, uma mulher relata um encontro sexual com um homem que ela conheceu pelo aplicativo Tinder. A mulher tinha quase 30 anos e o homem, 24, uma diferença de idade que não pareceu muito importante até que ele “começou a pedir meu consentimento para quase tudo”.14 Perguntou se podia tirar o suéter dela e, quando ela disse sim, perguntou se podia tirar a camiseta, e depois o sutiã. Em tom de desprezo, ela explicou que ele não precisava pedir permissão para cada coisa. “Uma mudança drástica” havia ocorrido no “treinamento sexual” dos rapazes mais jovens, levando-os a pedir, repetidamente, consentimento verbal. Terminado o encontro, a autora do artigo comentou: “Na verdade, gostei do que ele fez como forma de cuidarde mim. Não estava habituada a receber esse tipo de cuidado”.15 A experiência tinha lhe dado uma sensação de grande intimidade. Mais tarde, porém, quando ela enviou uma mensagem de texto para o rapaz, ele não respondeu; simplesmente sumiu do mapa. Quando ela contou a suas amigas que �cou chateada, elas não entenderam. Ela explicou: “O fato de ele ter pedido meu consentimento repetidamente fez o sexo parecer um ato sagrado. E depois ele sumiu”. Ainda assim, suas amigas não entenderam por que ela �cou tão magoada, mas, ... nos dias e nas semanas seguintes, comecei a pensar que a abordagem atual de nossa cultura ao consentimento é limitada demais [...] O consentimento não funciona se o relegamos apenas ao âmbito sexual. Nosso corpo é apenas uma parte da complexa constelação de nossa identidade. Basear nossa cultura de consentimento somente no corpo é esperar que o cuidado seja apenas físico. Gostaria que víssemos o consentimento como algo [...] mais ligado a se preocupar com o outro como um todo [...] A�nal, creio que a maioria de nós não responderia sim se a pergunta fosse: “Tudo bem se eu agir como se me importasse com você e depois desaparecer?”.16 Se o que a Bíblia diz sobre o plano de Deus para o casamento e a sexualidade é verdade, a experiência dessa mulher não causa surpresa. Quando entregamos o corpo um ao outro sem entregar a vida como um todo, deixamos de reconhecer a natureza integrada de nosso eu. O corpo não é separado do todo. O sexo deve ser, verdadeiramente, a oferta recíproca da vida um ao outro, e é desumanizador entregar o corpo a alguém que não tem problema em sumir depois e não se importa conosco. Os cristãos têm o conceito mais profundo e amplo possível de consentimento. Quando os cristãos a�rmam que o sexo é somente para o casamento, querem dizer que o sexo deve ser superconsensual. Procurar devidamente o casamento A�nal, como se começa um casamento? Grande parte dos leitores responderia: obviamente, ao procurar e encontrar alguém com quem se casar. No entanto, essa é uma resposta moderna. No passado, quem escolhia o cônjuge era a família. Mesmo um século atrás, embora os cônjuges �zessem a própria escolha, as opções eram limitadas. A maioria das pessoas vivia em comunidades menores. Era preciso escolher um cônjuge de um grupo relativamente pequeno de indivíduos, e quase todos eles podiam ser avaliados ao longo de vários anos por meio de interação pessoal. Tudo isso mudou. Agora, se você usar aplicativos para encontros, pode se tornar parte de uma comunidade de trinta milhões de usuários. O número de possíveis parceiros é vertiginoso, e o desa�o de escolher um dentre eles pode ser paralisante. Mesmo que você supere o medo, porém, a própria maneira de avaliar milhares de pessoas não por experiência presencial e pessoal, mas online, pode dar nova forma à busca. Pessoas são reduzidas a produtos de consumo, comparadas quanto a altura, peso, aparência e a�ns. Infelizmente, mesmo sem redes sociais, sempre tivemos a tendência de operar dessa forma. É instintivo para uma pessoa solteira entrar em um ambiente no qual há outras pessoas solteiras e eliminar implicitamente como possíveis candidatos quaisquer indivíduos que não correspondam a seus padrões baseados em elementos físicos e �nanceiros. Uma vez que eliminamos esses indivíduos, olhamos novamente aos que restaram no grupo e avaliamos coisas como caráter e uma sensação de “ligação” ou a�nidade. O problema é que já excluímos pessoas que talvez tivessem o caráter e a a�nidade que buscamos. Redes sociais e aplicativos de encontros só reforçam exponencialmente essa estratégia ine�caz. Uma das grandes di�culdades é que as pessoas que você vê online lhe fornecem uma representação extremamente �ltrada. Você busca a�nidade e caráter, mas, como um pesquisador destaca, “Não há evidências de que seja possível avaliar esses elementos online”. Antes, diz Eli Finkel, da Northwestern University, ideias equivocadas correm soltas no mundo virtual. “Vocês imaginam que sabem o que desejam, mas, na verdade, o que precisam é sentar-se à mesa e pedir uma cerveja.”17 Isso signi�ca que não devemos tentar conhecer pessoas online? Não necessariamente, mas a única forma de fazê-lo é, primeiro, resistir abordar o casamento como abordamos uma compra e não eliminar pessoas com base apenas em parâmetros físicos e �nanceiros e, segundo, encontrar maneiras de “sentar-nos à mesa” e conhecer a pessoa. Quando tivermos encontrado formas de interagir pessoalmente com alguém, o que devemos buscar? 1. Se você é crente, procure alguém que também seja. À primeira vista, pode parecer preconceito, mas, se alguém não compartilha de sua fé cristã, signi�ca que não entende sua fé. E, se sua fé é supremamente importante para sua forma de pensar e viver, signi�ca que essa pessoa também não entende você. Sem dúvida, a essência de um bom casamento é ter alguém que compreenda você, mas, se a pessoa não compartilha de sua fé, essa compreensão é impossível. A única maneira de desenvolver intimidade em um relacionamento como esse é você relegar Jesus a uma posição mais periférica no que se refere aos seus pensamentos e percepções diários. Em 2Coríntios 6.14, nós, cristãos, somos exortados a não nos colocar em “jugo desigual” em nossos relacionamentos próximos com pessoas que não compartilham de nossas crenças mais profundas. A imagem é de um agricultor que procura colocar debaixo do mesmo jugo dois animais diferentes, por exemplo, um boi e um jumento, com altura, peso e ritmo diferentes. Em vez de o jugo pesado de madeira usar a força dos animais para realizar a tarefa, ele causaria desconforto e machucaria ambos. O casamento entre um cristão convicto e praticante e uma pessoa que não segue esse caminho pode, portanto, ser injusto e doloroso para os dois cônjuges. 2. Procure alguém que continuará a ser atraente para você quando perder a beleza da juventude. Embora a atração física deva crescer entre os cônjuges, tem de se basear em um tipo mais profundo de atração. No livro bíblico de Cântico dos Cânticos, o amante diz: “Você roubou meu coração com um simples olhar” (Ct 4.9). Por mais que Cânticos celebre o amor sexual, a parte do corpo que recebe maior atenção dos amantes são os olhos um do outro. E o enfoque não é tanto sobre a beleza de seu formato, mas sobre o “olhar” que revela o caráter e a personalidade do amante. Aliás, à medida que o corpo envelhece e perde sua beleza, o olhar pode se tornar ainda mais expressivo e sábio, mais alegre e amoroso. Ser cativado pelos olhos de alguém é uma forma de dizer que você é atraído pelo coração da pessoa. A atração romântica não deve desconsiderar a aparência física, mas essa não pode ser a parte mais importante, pois, em longo prazo, ninguém mantém a mesma aparência. De acordo com Paulo em 2Coríntios 4.16, à medida que o corpo dos crentes se torna mais fraco e idoso, é possível eles se tornarem interiormente mais fortes e belos. Quanto mais �xarmos o olhar na beleza interior de nosso cônjuge, mais a atração física se desenvolverá, mesmo à medida que nossa aparência física se tornar menos atraente com o passar dos anos. 3. Por �m, aconselhe-se com outros a respeito de seu relacionamento antes de se casar. No passado, di�cilmente alguém se envolvia em um relacionamento romântico sem que família e amigos �cassem sabendo. Era natural receber opiniões de várias pessoas ao redor que conheciam ambas as partes. Hoje em dia, somos pessoas em trânsito que dependem da telefonia móvel. Mudamo-nos de um lugar para outro. Muitos que nos veem pessoalmente todos os dias não nos conhecem bem. Enquanto isso, muitos que nos conhecem há mais tempo estão distantes e só nos “veem” por meio das representações �ltradas que colocamos online. Vários de nossos companheiros de longa data não fazem ideia do que verdadeiramente se passa em nossa vida. Por consequência, tomamos mais decisões em um vácuo, e isso inclui decisões a respeito de romance e casamento. No entanto, o casamento é uma escolha importante demais para ser feita semreceber conselhos, é necessário ouvir a opinião de casais com mais sabedoria e experiência. Peça conselho a eles e aproveite essa sabedoria. Começar devidamente o casamento Uma vez que você se casa, de que maneira começa a lançar o alicerce para um relacionamento rico e longo? Antes de nos casarmos, Kathy ouviu várias vezes que o dia do casamento seria “o dia mais feliz de sua vida”. Esperávamos sinceramente que não fosse! Cada dia depois da cerimônia de casamento foi um dia em que progredimos em compreensão um do outro e nos ajustes para servir um ao outro. Cada dia tem sido um dia a mais para aprender e aproveitar melhor os frutos do arrependimento e do perdão. Nossa atitude talvez seja relacionada a um comentário informal feito por R. C. Sproul, o pastor que realizou nossa cerimônia de casamento. Ele disse: “Vesta e eu somos casados há quinze anos, e acho que estamos começando a pegar o jeito”. À primeira vista, essa declaração pode parecer um tanto assustadora. Quinze anos e ainda estão tentando pegar o jeito? Agora, porém, da perspectiva de 45 anos de casados, parece-nos que talvez tenhamos subestimado quanto tempo leva para conhecer os ritmos do coração e da vida um do outro, praticar a negação própria em favor da saúde do relacionamento e adquirir conhecimento de linguagens do amor estrangeiras (de outra pessoa). Mas, quer a curva de aprendizado seja longa ou curta, todo casamento precisa começar devidamente para que seja edi�cado de forma ainda melhor. Relacionamos alguns (não todos) hábitos, práticas, comportamentos e atitudes fundamentais que devem ser estabelecidos desde o início.18 1. Nunca durmam com raiva. Esse conselho se tornou clichê, mas há um forte motivo bíblico por trás dele. Segue a instrução de Paulo em Efésios 4.26 para “não [deixar] que o sol se ponha sobre sua ira”. Isso signi�ca que, em vez de reprimir e esconder sua infelicidade, você e seu cônjuge devem desenvolver um novo conjunto de aptidões. Entre essas aptidões, podemos citar: primeiro, expressar o que incomoda de forma honesta, mas sem atacar. Segundo, aprender a se arrepender sinceramente por ter magoado seu cônjuge, mas fazê-lo sem buscar justi�cativas e sem se autodepreciar a ponto de seu cônjuge dizer: “Quer saber, melhor deixar assim mesmo”. Terceiro, aprender a dar e a receber perdão. Em círculos médicos, é amplamente aceita a ideia de que é durante o sono que as coisas aprendidas e vivenciadas durante o dia se organizam em memórias e hábitos. Ir dormir com raiva de seu cônjuge alimentará uma atitude de ressentimento. Se o �zer repetidamente, esse ressentimento se transformará em raiva profunda e até mesmo em ódio. Como evitar dormir com raiva? Veja o número 2. 2. Façam da oração juntos as últimas palavras de seu dia. É difícil orar com raiva e, mesmo que vocês apenas passem cinco minutos pedindo a Deus a bênção dele sobre sua família e sua vida, terão de abrir mão da raiva para entrar na presença de Deus. 3. Ofereçam sexo um ao outro com frequência. Pode parecer óbvio para os recém-casados! No entanto, a energia sexual é como todas as outras formas de energia e, quando estamos cansados, é fácil nos esquecermos do sexo ou adiá-lo para “um momento melhor”. Falta de toque íntimo pode causar distanciamento entre os cônjuges. Usamos o verbo “oferecer” intencionalmente. Todos nós acreditamos no mito de que paixão intensa toma conta dos dois ao mesmo tempo; na verdade, porém, uma pessoa geralmente tem mais interesse em sexo que a outra. Nessas ocasiões, a pessoa menos interessada pode oferecer sexo como uma dádiva. Paulo, solteiro, transforma essa ideia em uma ordem bíblica contracultural: O marido deve cumprir seus deveres conjugais para com sua esposa, e da mesma forma a esposa para com seu marido. A esposa não tem autoridade sobre o próprio corpo, mas, sim, o marido. Da mesma forma, o marido não tem autoridade sobre o próprio corpo, mas, sim, a esposa. Não se privem um do outro, exceto, talvez, por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio (1Co 7.3-5). Em um mundo em que todos os privilégios sexuais eram dos homens, Paulo a�rma que maridos e esposas têm direitos iguais sobre o corpo um do outro, e que não é bom “se privar” um do outro a menos que seja por mútuo consentimento e por um período curto. 4. Tomem decisões re�etidas a respeito de sua vida e de suas tradições como família. Vocês cresceram observando seus pais ou outros adultos nos papéis deles como homens e mulheres, maridos e esposas, pais, avós e assim por diante. É inevitável que tragam esses modelos inconscientemente para o casamento. É dessa forma que o marido trata a esposa. Essa é a maneira de comemorar as festas. As férias são sempre na praia. Essas pressuposições in�uirão em sua vida conjunta em coisas grandes e pequenas, portanto é melhor tratá-las de forma consciente e resolver como casal de que maneira sua nova unidade familiar procederá. Quando nos casamos, Kathy trouxe consigo a imagem de um marido que preparava o café da manhã de sábado para que a esposa pudesse dormir um pouco mais e que sabia trocar fraldas com grande habilidade. (Com cinco �lhos, adquiriu prática de sobra!) Tim, em contrapartida, veio de uma família em que o pai tinha de estar no trabalho às 5 da manhã e voltava para casa exausto à noite. Além de prover para a família, não era pedido dele que contribuísse de nenhuma outra maneira. Pouco depois que nosso primeiro �lho nasceu, os pais de Tim o chamaram de lado, preocupados porque Kathy estava “mandando nele”, pois ela havia pedido que ele trocasse uma fralda do bebê. Tim respondeu com �rmeza: “Mãe, pai, muito obrigado por sua preocupação, mas em nossa família fazemos as coisas de forma diferente”. Abrir presentes na manhã de Natal? Vocês decidem. Música ou TV logo cedo? (Kathy soltou um grito de exasperação quando Tim ligou o rádio na primeira manhã juntos em nosso apartamento! Com certeza devíamos ter conversado sobre isso antes!) Não estamos falando da prática horrível de negociar cada tarefa e manter um registro para ver quem está fazendo sua parte. Tratamos demoradamente dos papéis masculinos e femininos no casamento em outro livro. Estamos falando de criar novas tradições adequadas para sua nova família, em vez de tomar por certo que as coisas devem ser feitas de acordo com os costumes de sua família de origem. 5. Por �m, aprendam as “linguagens do amor” um do outro. Um dos livros mais importantes que lemos foi How do you say “I love you?” [Como se diz “eu te amo”?].19 No começo do livro, o autor dá um exemplo em que um homem alemão diz “Ich liebe dich” para uma moça francesa. Ele expressa amor, mas ela não o sente, pois ele literalmente não comunica seu afeto em uma linguagem compreensível para ela. É algo natural, diz o autor, pois “a maioria das pessoas só fala as linguagens do amor que elas próprias entendem”.20 Em seguida, ele propõe (muito corretamente, de acordo com nossa experiência) que temos certas maneiras em que desejamos que outros expressem amor por nós. No aconselhamento que �zemos antes de nos casar, R. C. Sproul contou uma história de seu casamento como ilustração. No aniversário dele, esperava receber um novo conjunto de tacos de golfe. Mas Vesta, sua esposa bastante prática, lhe deu seis camisas brancas. Quando chegou o aniversário dela, ele a surpreendeu com um casaco so�sticado, certo de que ela �caria encantada; na verdade, porém, o que ela queria era uma máquina de lavar nova. Cada um havia falado apenas a própria linguagem do amor, e não a linguagem do outro. Em nosso caso, quando Tim ajuda Kathy de forma proativa com as tarefas domésticas, seu gesto tem muito mais valor emocional do que quando ele expressa verbalmente que a ama, ou mesmo quando lhe compra um presente. Em outras palavras, quando ele “diz” que a ama de formas práticas, ela se sente muito mais amada do que quando ele expressa afeto de outra maneira. Ele fala sua linguagem do amor. Swiharte outros apresentam uma lista de várias “linguagens do amor”: passar tempo juntos, suprir necessidades emocionais, expressar afeto com palavras, com toque físico, estar do mesmo lado, fazer a�orar o que cada um tem de melhor e outros. É essencial descobrir as linguagens do amor que seu cônjuge mais valoriza e se tornar �uente nelas, mesmo que não sejam igualmente importantes para você. Conversem, cheguem a um acordo e comecem a praticar esses cinco itens e seu casamento estará bem encaminhado! 1 De “�e order for the solemnization of marriage”, in: Book of common worship (Philadelphia: Presbyterian Board of Publication, 1906), da Igreja Presbiteriana, e de Gênesis 2.22-24. 2 Belinda Luscombe, “Why 25% of millennials will never get married”, Time (September 24, 2014), disponível em: https://time.com/3422624/report-millennials-marriage/#:~:text=�e%20thre e%20main%20reasons%20people,a%20while%2C%20for%20shacking%20up, acesso em: 22 set 2020. 3 Veja Robert Bellah et al., Habits of the heart: individualism and commitment in American life (Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 2007). 4 Where you are, letra de Mark Mancina e Lin-Manuel Miranda, do álbum Moana (2016). Por ironia, essa é uma abordagem bastante ocidental e individualista à identidade sobreposta de forma desajeitada com uma garota (�ctícia) de uma cultura não ocidental. Sem dúvida, está dentro do escopo da licença poética, mas convém destacar que se trata de um exemplo de como pessoas na cultura secular ocidental consideram sua cosmovisão a verdade universal que pode aprimorar as culturas do restante do mundo. 5 Jennifer B. Rhodes, citada em Marissa Hermanson, “How millennials are rede�ning marriage”, Gottman Institute, Gottman Relationship Blog ( July 3, 2018), disponível em: http://www.gottman.co m/blog/millennials-rede�ning-marriage/, acesso em: 22 set. 2020. 6 Apenas um exemplo dentre vários estudos: W. Bradford Wilcox, “�e new progressive argument: for kids, marriage per se doesn’t matter”, Institute for Family Studies (September 15, 2014), disponível em: http://ifstudies.org/blog/for-kids-marriage-per-se-doesnt-matter-right/, acesso em: 22 set. 2020. https://time.com/3422624/report-millennials-marriage/#:~:text=The%20three%20main%20reasons%20people, http://www.gottman.com/blog/millennials-redefining-marriage/ http://ifstudies.org/blog/for-kids-marriage-per-se-doesnt-matter-right/ 7 Wendell Berry, “Sex, economy, freedom and community”, in: Sex, economy, freedom, and community (New York: Pantheon, 1993), p. 119. 8 Joe Pinsker, “How successful are the marriages of people with divorced parents?”, Atlantic (May 30, 2019). 9 Pinsker, “How successful are the marriages of people with divorced parents?”, grifo dos autores. 10 Linda J. Waite et al., “Does divorce make people happy? Findings from a study of unhappy marriages”, Institute for American Values, 2002, disponível em: http://www.americanvalues.org/searc h/item.php?id=13, acesso em 22 set. 2020. 11 Pinsker, “How successful are the marriages of people with divorced parents?”. 12 Paula England, “Is the retreat from marriage due to cheap sex, men’s waning job prospects, or both?”, Institute for Family Studies (November 1, 2017), disponível em: http://ifstudies.org/blog/is- the-retreat-from-marriage-due-to-cheap-sex-mens-waning-job-prospects-or-both/, acesso em: 22 set. 2020. 13 Kyle Harper, From shame to sin: the Christian transformation of sexual morality in late antiquity (Cambridge: Harvard University Press, 2016), p. 86. Veja também todo o capítulo 2 de Harper, “�e will and the world in early Christian sexuality”, p. 80-133. 14 Courtney Sender, “He asked permission to touch, but not to ghost”, New York Times (September 7, 2018). 15 Sender, “He asked permission to touch, but not to ghost”. 16 Ibidem. 17 Citado em Carolyn Kaufman, “Why �nding a life partner isn’t that simple”, Psychology Today (April 20, 2013). 18 Um aviso: se vocês estão morando juntos antes do casamento (espero que não, pois essa não é uma boa forma de se preparar para o casamento), essas sugestões também se aplicam a vocês. Veja Timothy; Kathy Keller, “Introduction”, in: �e meaning of marriage (New York: Penguin, 2011) [edição em português: O signi�cado do casamento, tradução de Susana Klassen (São Paulo: Vida Nova, 2012)]. 19 Judson Swihart, How do you say “I love you”? (Downers Grove: InterVarsity, 1977). Um livro popular bem mais conhecido e recente sobre esse assunto é Gary Chapman, �e 5 love languages: the secret to love that lasts (Chicago: North�eld, 2010) [edição em português: As 5 linguagens do amor: como expressar um compromisso de amor a seu cônjuge, 3. ed., tradução de Emirson Justino (São Paulo: Mundo Cristão, 2013)]. http://www.americanvalues.org/search/item.php?id=13 http://ifstudies.org/blog/is-the-retreat-from-marriage-due-to-cheap-sex-mens-waning-job-prospects-or-both/ 20 Swihart, How do you say “I love you”?, p. 15. A 5 MANTER O CASAMENTO Bíblia começa com um casamento em Gênesis e termina com o banquete de casamento do Cordeiro em Apocalipse. Na perspectiva cristã, o casamento volta nosso olhar para Deus e para o evangelho, mas, ao mesmo tempo, o evangelho fornece-nos os melhores recursos possíveis para o casamento. Eis o primeiro casamento, retratado para nós em Gênesis 2. O S����� Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei uma ajudadora adequada para ele”. O S����� Deus havia formado da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu. Trouxe-os ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais do campo. No entanto, não se encontrou para o homem uma ajudadora adequada. Então o S����� Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o S����� Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Disse o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; ela será chamada ‘mulher’, porque do homem foi tirada”. Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua esposa, e eles se tornarão uma só carne. O homem e sua esposa viviam nus, e não sentiam vergonha (Gn 2.18-25). Busquemos nessa passagem aquilo que precisamos para um bom casamento em longo prazo, ao longo de décadas. Ela nos fala de três coisas que temos de fazer. Evitar a idolatria É costume em cerimônias de casamento a esposa caminhar até o noivo, com frequência acompanhada do pai ou de pai e mãe, ou de outra pessoa. Gênesis mostra que essa tradição remonta ao jardim do Éden. Nesse caso, Deus conduziu a esposa ao marido. E, quando Adão vê Eva, ele declama um poema, o primeiro registrado na Bíblia. Na maioria das Bíblias, é impresso na página com indentação, em forma de verso. O homem irrompe em cântico ao ver sua esposa. A primeira palavra que ele diz em hebraico signi�ca “En�m”. Também pode ser traduzida por “Finalmente!”. Diz: “Era ela que eu estava procurando. Era ela que estava faltando”. Mas quem é ela? Ele a�rma que ela é “osso dos meus ossos e carne da minha carne”. É uma forma de dizer: “Eu me encontrei em você. Finalmente, ao conhecer você, posso conhecer a mim mesmo”. Lembre-se de que Adão está no paraíso, onde tem um relacionamento perfeito com Deus. E, no entanto, ao encontrar sua esposa e companheira, fala de algo tão profundo dentro de nós que ele irrompe em adoração por meio de uma expressão artística. Essa reação mostra um fato importante que precisamos entender a �m de ter um casamento bem- sucedido em longo prazo. John Newton, mais conhecido por ser autor do hino Amazing grace [Surpreendente graça], também foi sábio pastor na Inglaterra do século 18. Escreveu uma série de cartas para um jovem casal que estava dando os primeiros passos no casamento. Newton aconselhava recém-casados com frequência e dizia que talvez imaginemos que ter um mau casamento seja o pior problema que alguémpode enfrentar. No entanto, ter um bom casamento pode representar um perigo espiritual igualmente sério. Ele escreve: Com um cônjuge tão amável, seu maior perigo talvez se encontre na felicidade excessiva. Lamentavelmente, a natureza enganosa de nosso coração em tempo de prosperidade nos expõe ao maior de todos os males, a saber, afastar-nos da fonte de água viva e sentar-nos junto a cisternas rachadas. Permita-me aconselhá-los, sim, aconselhar ambos: tomem cuidado com a idolatria. Eu sofri em razão desse mal; ele me angustiou com muitos temores imaginários e me causou muitas humilhações e tristezas reais. [...] O velho fermento, a tendência a uma aliança de obras, ainda se apega a mim.1 Do que Newton está falando? Ele está usando imagens da Bíblia. Cisternas eram tanques abertos feitos de pedra ou argamassa de cal que as pessoas usavam em tempos antigos a �m de coletar água da chuva para uso doméstico. Se, contudo, a cisterna estava rachada, a água vazava, e não havia como saciar a sede. “Cisternas rachadas” ( Jr 2.13) era uma metáfora empregada pelos profetas para denotar como buscamos satisfação e segurança mais profundas em coisas do mundo, em vez de buscá-las em Deus. Jesus disse à mulher samaritana que a única fonte de satisfação absoluta não se encontrava em romance e casamento, mas nele ( Jo 4.14), a fonte de “água viva”. Newton diz que bons casamentos correm o risco de afastar nosso coração de Deus e voltá-lo para o cônjuge como fonte suprema de amor, segurança e alegria. Além disso, ele a�rma que um bom casamento pode ser a causa de voltarmos a uma “aliança de obras”. O que isso signi�ca? “Aliança de obras” é um termo teológico antigo para um sistema em que obtemos a salvação por meio de nosso desempenho. Talvez digamos: “Deus me abençoará e me levará para o céu porque vivo de forma correta e mereço ser salvo”. O evangelho cristão é inteiramente contrário a essa forma de pensar. A Bíblia diz: “Pois é pela graça que vocês são salvos, por meio da fé, e isso não vem de vocês, é dom de Deus, não por [suas boas] obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9). Como ministro anglicano, John Newton tinha plena ciência desse fato, pelo menos intelectualmente. De modo prático, no entanto, o fato de ele haver transformado sua esposa e seu casamento em ídolos o levou a recair em uma aliança de obras. E o mesmo pode acontecer conosco. Procuramos em nosso cônjuge coisas que somente Deus pode nos dar. Buscamos no amor, no respeito e no apoio de nosso cônjuge a percepção de nosso valor e de nossa dignidade. Em outras palavras, esperamos que nosso cônjuge nos salve. Em certo sentido, voltamos à aliança de obras. É fácil de isso acontecer, pois o casamento é algo maravilhoso. E é fácil transformar algo maravilhoso no bem supremo de nossa vida. Como Newton diz, esse caminho o levou a muitos temo- res, humilhações e tristezas. De que maneira? Colocamos pressão insuportável sobre nosso cônjuge para que sempre esteja saudável, feliz, contente conosco e nos apoiando. E, no entanto, ninguém pode suportar o peso desse nível de expectativa. Críticas de nosso cônjuge nos destroem. Problemas com nosso cônjuge também podem nos deixar arrasados. Se algo não vai bem no relacionamento, a vida começa a se desintegrar. E, se o cônjuge falece, como nosso “deus” poderá nos consolar com seu amor quando ele está em um caixão? Diante disso, o que podemos fazer? Não devemos tentar reduzir o amor por nosso cônjuge ou pela pessoa com quem pretendemos nos casar. Antes, precisamos aumentar o amor por Deus. De acordo com C. S. Lewis, provavelmente é impossível amar demais qualquer ser humano. Talvez o amemos demais em comparação com nosso amor por Deus, mas o problema está na pequenez de nosso amor por Deus, e não na grandeza de nosso amor pela pessoa. Se não tivermos um relacionamento de amor verdadeiro e existencial com Deus, o casamento acabará conosco.2 Em sociedades tradicionais, você não é ninguém a menos que seja casado com alguém, mas a fé cristã começou com um homem solteiro. Em 2Coríntios, Paulo, essencialmente, diz: “Você quer se casar? Ótimo. Não é casado? Ótimo”. A intenção de Paulo é mostrar que o relacionamento que todo cristão solteiro tem com Deus por meio de Cristo é tão íntimo, e o relacionamento com os irmãos e irmãs da família de fé é tão próximo, que nenhum solteiro deve ser considerado alguém que não tem família ou que não está desfrutando o maior amor de todos. Portanto, a primeira coisa que precisamos fazer para ter um excelente casamento é, paradoxalmente, entender seu caráter secundário. Mas essa é apenas a primeira coisa. Ter paciência para a longa jornada Em Gênesis 2.18 lemos: “Não é bom que o homem esteja só; farei uma ajudadora adequada para ele”. O termo hebraico ezer, traduzido por “ajudadora”, é usado com frequência na Bíblia em referência a reforços militares. Imagine que você é um pequeno destacamento cercado de forças inimigas muito maiores. De repente, chegam os reforços para lutar ao seu lado. Pense em seu alívio e sua alegria! Sem eles, você teria sido derrotado. Esse é o sentido do termo aqui e, em várias passagens da Bíblia, é usado com referência a Deus. “Ajudadora” não signi�ca, portanto, “assistente”, mas alguém com força adicional que você não tem. Esse é o termo usado para a mulher, a esposa no primeiro relacionamento conjugal. Mas há outro termo: “adequada”. Em algumas versões, esse termo é traduzido por “apropriada” ou “idônea”, uma quali�cação tradicional (mas não muito esclarecedora) para a esposa. Precisamos investigar em maior profundidade o signi�cado pleno do termo hebraico original. Na frase que diz: “Farei uma ajudadora adequada para ele”, na verdade há dois termos hebraicos traduzidos por “adequada”. O hebraico diz, literalmente, “Farei uma ajudadora semelhante oposta a ele”. Nossa primeira impressão é de uma contradição; a�nal, é “semelhante” ou “oposta”? É elucidativo, contudo, pensar em duas peças de um quebra- cabeça. As duas peças não se encaixam se são idênticas, tampouco se são aleatoriamente diferentes. Apenas se encaixam de modo perfeito quando são corretamente diferentes, de uma forma correspondente, mas complementar. Deus coloca na vida de Adão (e, portanto, Deus coloca na vida de Eva) alguém com enorme poder, mas com um poder diferente. “Semelhante oposta”, qualquer que possam ser outros signi�cados, quer dizer não intercambiável. Tanto o homem quanto a mulher têm qualidades e grandezas, perspectivas e poderes que diferem um do outro. No casamento, uma pessoa entra em sua vida, uma pessoa profunda e misteriosamente diferente. Muitos tentaram de�nir masculinidade e feminilidade por meio de uma lista de características especí�cas. Assim que começamos a relacioná- las, porém, descobrimos que não correspondem a pessoas de todas as culturas, e nem mesmo de todos os temperamentos. É extremamente importante observar que a Bíblia não nos fornece uma lista de características masculinas e femininas. E, no entanto, ela pressupõe diferenças entre um e outro, especialmente aqui em Gênesis 1 e 2. De acordo com a mensagem do texto, somente juntos, munidos com todos os recursos de masculinidade e feminilidade, os dois são capazes de enfrentar a vida como casal. O contexto militar do termo “ajudadora” aponta para essa ideia. Somente juntos vocês terão todo o necessário para não serem derrotados. Nós (Tim e Kathy) não nos encaixamos nos estereótipos estabelecidos para o homem ou para a mulher. É arrazoado dizer que, de acordo com os padrões tradicionais, Tim não é extremamente masculino e Kathy não é extremamente feminina. E, no entanto, logo que casamos, começamos a perceber que enxergávamos o mundo de forma bem diferente, e que essas diferenças não podiam ser atribuídas apenas a temperamento, família, classe social ou etnia. Por exemplo, Kathy �cou abismada com a capacidade de Tim de colocar os sentimentos e medos de lado, a �m de se concentrar no que precisava ser feito. Embora, como mulher, ela também fosse plenamente capaz de se dedicar inteiramenteapertado e chorar. De acordo com ela, aquilo se deu, em parte, aos hormônios se manifestando, mas, em parte, também foi o reconhecimento das consequências de termos gerado um pequeno ser humano, membro de uma raça caída. Sim, “todos os dias determinados para [ele] foram escritos” no livro de Deus, mas, sendo adulta, Kathy sabia que o livro de nosso �lho teria decepção, mágoa, fracasso, dor, perda e, por �m, morte. Tudo isso aconteceria por mais que nos esforçássemos para protegê-lo. Portanto, ela literalmente estremeceu diante da responsabilidade de ser mãe dessa maravilha do Universo. E, quando re�eti melhor, também estremeci. Kathy concluiu: Certa mãe referiu-se ao nascimento de uma criança como um “terremoto na família”. Quer esse acontecimento seja cheio de alegria e desejado ou não, quer a criança seja a primeira ou a décima quarta, saudável ou com necessidades especiais, essa nova pessoa que entra no mundo altera a história de maneiras grandes e pequenas pelo simples fato de existir. Como alguém que acabou de se tornar pai ou mãe, você se tornou parte de um grupo que remonta a milênios e que abarca rainhas e escravos, adolescentes de treze anos em culturas antigas e pelo menos uma mulher de noventa anos, Sara, mãe de Isaque, na Bíblia. Há um bom motivo pelo qual todos os reinos, tribos, línguas e nações têm rituais associados ao ato de dar à luz. É um acontecimento quase místico receber um ser humano que não existia, mas que agora existe. Bênção ou fardo? Trazer ao mundo uma nova vida é o que de mais tremendo e impressionante alguém pode fazer. Cabe às mulheres o privilégio especial de acolher e nutrir a nova vida, como participantes com Deus na criação. Quando o sexo feminino recebe voluntariamente o carinho do sexo masculino, o poder concedido às mulheres é desencadeado, e uma vida que antes não existia �oresce para o mundo.3 A criação de uma nova vida não apenas impele a civilização e a cultura para a nova geração em suas inúmeras formas, mas também traz incontáveis mudanças para os membros da presente geração e exige sacrifícios em uma escala que talvez jamais tenham experimentado. Hoje em dia, porém, há no mínimo certa ambivalência a respeito desse enorme privilégio. É nítido o medo (mais que a maravilha) diante da ideia de ter �lhos. Vivemos em uma sociedade que tem visto um rápido declínio da taxa de natalidade, a ponto de haver menos nascimentos que mortes, o que causa um baixo nível de substituição chamado “desnatalidade”. Menos pessoas hoje em dia consideram que ter �lhos é uma bênção. Os progressistas costumam jogar a culpa em fatores econômicos, e os conservadores costumam ressaltar o crescente egoísmo. Um dos melhores livros sobre esse assunto é All joy and no fun: the paradox of modern parenthood, de Jennifer Senior, pois a autora toma o cuidado de não fazer generalizações excessivas. Senior relaciona vários motivos para a ambivalência contemporânea em relação a ter �lhos, mas dois deles se destacam. O primeiro é a ênfase nunca antes vista da cultura moderna sobre autonomia e realização pessoais. Temos mais liberdade de escolher nossa carreira, prática sexual, onde vamos morar, se vamos nos casar e permanecer casados e se vamos ter �lhos ou não. “Poucos desejam voltar atrás no avanço histórico que nos deu essas liberdades recém-descobertas”, ela escreve, mas “passamos a de�nir liberdade de forma negativa, como ausência de dependência, como direito de não ter obrigações para com o outro [...] [e] como isenção de responsabilidade social imposta sobre nossos recursos �nanceiros e nosso tempo”.4 Uma vez que temos um conceito fortemente arraigado de liberdade como isenção de obrigações, “tornar-nos pais é um choque atordoante”. Agora temos o direito de escolher ou mudar qualquer coisa que não pareça nos satisfazer, ou nos buscar o que nos bene�cie: trabalho, localização, carreira, cônjuge. “No entanto, não podemos escolher nem mudar nossos �lhos. Eles são a última obrigação imposta em uma cultura que não requer praticamente nenhum outro compromisso.”5 Não creio que o “choque atordoante” para os pais possa ser interpretado apenas como absoluto egoísmo. Antes, criar �lhos desa�a todos os hábitos do coração que nossa cultura formou em nós no tocante a relacionamentos. Mudar esses hábitos não é fácil nem simples. Outro motivo pelo qual ter �lhos hoje em dia é tão paradoxal é o fato de que os pais dedicam mais do que nunca capital emocional e �nanceiro à educação dos �lhos, a tal ponto que ter �lhos “talvez tenha se tornado [...] uma pro�ssão, por assim dizer”. Só há um problema com essa pro�ssão: “seus objetivos não são nada claros”. O que os pais desejam realizar em relação a seus �lhos? Por exemplo, “hoje em dia, os pais [...] são responsáveis pelo bem-estar psicológico dos �lhos, o que, à primeira vista, é um objetivo louvável. Mas também é obscuro”.6 Quem de�ne “bem-estar psicológico”? É simplesmente sinônimo de felicidade? Não existem pessoas cruéis e felizes? O objetivo, então, é tornar os �lhos íntegros e bons? Embora esse talvez seja o desejo dos pais de hoje, eles vivem em uma sociedade que a�rma categoricamente que os valores morais são construídos pela cultura. E, em geral, acrescenta-se a isso que não devemos impor nossos valores sobre nossos �lhos, mas deixar que eles escolham os valores deles. Sério? Será que não devemos nos preocupar se estão se tornando honestos, compassivos, justos e pacientes? Podemos deixar que escolham essas coisas ou não? Os cristãos têm recursos diretamente pertinentes a esses desa�os. Para começar, o ensino bíblico a respeito da natureza humana reestrutura as expectativas dos pais. Os livros atuais de psicologia infantil (e, o que é ainda mais popular, os conselhos informais sobre educação de �lhos) partem, inevitavelmente, de alguma �loso�a antropológica, de um conceito da natureza humana por trás de todo o restante. Ela pode ser otimista ou pessimista a respeito de nossa capacidade de moldar a vida por meio das nossas escolhas. Pode considerar a natureza humana basicamente boa ou irremediavelmente má. A Bíblia, contudo, nos diz que os seres humanos são muito melhores e muito piores do que podemos imaginar. Fomos criados à imagem de Deus, mas profundamente des�gurados pelo pecado. Como a personagem principal de As crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, diz para as crianças: “Vocês são descendentes do senhor Adão e da senhora Eva”, disse Aslam. “É honra su�ciente para erguer a cabeça do mais pobre mendigo e vergonha su�ciente para encurvar os ombros do maior imperador da terra. Deem-se por satisfeitos”.7 Essa perspectiva cristã da natureza humana ajuda os pais a aprender com inúmeras abordagens mais reducionistas ao desenvolvimento infantil sem aceitá-las plenamente. Há livros mais “conservadores” que enfatizam coisas como disciplina, limites e o ensino de valores morais, bem como conteúdos mais “progressistas” que enfatizam ouvir os �lhos, dar-lhes forte a�rmação e liberdade para questionar e pensar por si mesmos. A perspectiva cristã dos seres humanos como portadores caídos da imagem divina pode tomar emprestado de todas essas abordagens e aprender com elas sem adotar seus conceitos mais simplistas do coração humano. Além dessa compreensão fundamental da natureza humana, o cristianismo oferece outro recurso que trata diretamente dos desa�os que pais sempre enfrentaram, e enfrentam hoje. Entregar o filho Os �lhos são uma alegria, mas, muitas vezes, a impressão dos pais é a de que a responsabilidade é pesada demais. Diante disso, a igreja cristã oferece o sacramento do batismo.8 Embora nem todos os cristãos pratiquem o batismo de crianças, a maioria tem alguma forma de dedicar os �lhos publicamente a Deus que segue a prática judaica. A Bíblia diz que, depois do nascimento de Jesus, “José e Maria o levaram a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2.22). Quando apresentamos nossos �lhos a Deus no batismo, esse ato não lhes confere salvação de forma automática. Assim como Deus não cria novos seres humanos em um passea uma tarefa, Tim o fazia de modo bastante diferente. Kathy via coisas em Tim que ele jamais teria conseguido enxergar; isso porque ela é diferente de Tim, mas próximo o su�ciente dele para notar essas coisas. Com o passar do tempo, percebemos mais aspectos em que nosso casamento nos tornou semelhantes às duas peças de quebra-cabeça encaixadas uma na outra para formar um todo maior. Agora, quando coisas acontecem com Tim e ele precisa reagir em uma fração de segundo, tem consciência do que Kathy pensaria, diria ou faria na mesma situação. O fato de estarem entrelaçados há tanto tempo fez com que as perspectivas dela fossem impressas nele. Isso signi�ca que sua gama de possíveis reações não abrange mais apenas seus recursos, mas também os de Kathy. Naquela fração de segundo, ele pode pensar: “Sei o que Kathy faria. Será que é mais prudente e apropriado do que meu modo habitual de reagir?”. E, com frequência, ele faz as coisas como Kathy as faria. Seu portfólio de sabedoria tornou-se permanentemente diversi�cado. Ele é uma pessoa diferente, mas ainda é ele mesmo. Não se tornou mais feminino. Aliás, em vários aspectos, tornou-se mais masculino com o passar do tempo. O que aconteceu? Kathy entrou na vida de Tim, e agora ele não apenas enxerga melhor, pelos olhos dela, quem ele é, mas também passou por crescimento. Tornou-se quem ele deve ser, mas somente por meio das interações diárias, próximas, muitas vezes dolorosas, com uma pessoa semelhante a ele, que não é ele, oposta a ele. Talvez não seja necessário dizer (mas o faremos de qualquer modo) que o marido também deve ser ajudador de sua esposa. Não foi apenas uma questão de colocar Eva na vida de Adão para ajudá-lo com os recursos pertinentes a ela, a �m de que ele se tornasse quem devia ser. Efésios 5.25- 27 diz que os maridos devem amar as esposas de forma sacri�cial, como Cristo nos amou, e com o mesmo propósito, a saber, tornar as esposas radiantes e belas à medida que vencem suas imperfeições e falhas. Em certo sentido, é o inverso de Gênesis 2. Os maridos devem usar seus recursos especí�cos pertinentes a eles para ajudar as esposas a se tornarem quem Deus as criou para ser, da mesma forma que as esposas ajudam os maridos. Tudo isso, porém, pressupõe uma longa jornada, um processo demorado. Ninguém muda e se torna o que foi criado para ser da noite para o dia. Devemos usar nossos diferentes dons e amar um ao outro sacri�cialmente, a �m de ajudar um ao outro a crescer e a se desenvolver ao longo de toda a vida. Podemos dizer que essa não é a perspectiva de casamento que tem adquirido proeminência em nossa cultura. Hoje em dia, somos consumidores. E consumidores sempre fazem, instintivamente, análises de custo e benefício. A lógica do mercado, de investir e comprar e, então, vender para obter lucro, invadiu todas as áreas da vida, e isso inclui o casamento. Logo, procuramos um cônjuge que supra nossas necessidades, não exija muita dedicação de nossa parte, não tente nos mudar e seja compatível conosco em todos os aspectos. Se entramos em um casamento com alguém “semelhante oposto” a nós, que começa a nos dizer coisas a nosso respeito que não desejamos ouvir, declaramos: “Não está certo. O casamento deveria ser a maior felicidade de minha vida. Por que sempre temos essas confrontações?”. A resposta é: porque você está recebendo ajuda. E só depois de haver atravessado o desconforto, você descobrirá a pessoa que Deus quer que você seja. Essas duas primeiras coisas que precisamos fazer — evitar a idolatria e ter paciência para uma longa e, por vezes, difícil jornada — podem ser consideradas problemas opostos. Por um lado, devemos evitar a ingenuidade romântica que coloca o cônjuge em um pedestal. Por outro, devemos evitar a raiva que sentimos diante do fato de que é extremamente trabalhoso amar alguém tão diferente de nós, que nos diz coisas que não queremos ouvir. Na mitologia grega, Ulisses teve de passar com sua embarcação por entre os monstros marinhos Cila e Caríbdis. Se alguém se aproximasse demais de um dos monstros, havia o risco de desviar dele e �car ao alcance do outro monstro. Sem dúvida, muitas pessoas abandonaram a idolatria no casamento e caíram nos braços da profunda desilusão. De que precisamos para permanecer fora do alcance dos dois “monstros”? Como evitar esperar demais ou de menos do casamento? A alegre humildade que só o evangelho pode dar Gênesis 2.18 diz: “O S����� Deus declarou: ‘Não é bom que o homem esteja só; farei uma ajudadora adequada para ele’”. Essa é uma asserção surpreendente. Por que Adão se sentiria solitário e insatisfeito no paraíso, antes de existir qualquer pecado no mundo? Tinha um relacionamento perfeito com Deus; como podia estar só? Na verdade, há apenas uma resposta possível. Deus planejou que Adão precisasse de alguém além de Deus. Claro que a necessidade suprema de nosso coração é pelo amor de Deus. Mas ele nos criou para que também precisemos de amor humano. Pense em como esse é um ato extremamente humilde e abnegado da parte de Deus. Ele criou os seres humanos para que necessitem não apenas dele, mas de outros relacionamentos, outras pessoas, outros corações. É claramente falsa a ideia de que Deus criou os seres humanos para não se sentir solitário, ou a �m de ter alguém para amar (como quem tem um �lho), ou porque precisava de adoradores. E, no entanto, essa abnegação não é nada em comparação com a humildade e o amor sacri�cial que Deus nos mostra mais adiante na Bíblia quando diz repetidamente por meio de profetas como Isaías, Jeremias e Oseias: “Eu sou o noivo e você, meu povo, é a noiva”. A referência a “noivo” signi�ca que somente em Deus temos o amante e o cônjuge que nos satisfaz supremamente. Ele é nosso “ajudador” supremo. Martinho Lutero escreveu a esse respeito: Castelo forte é nosso Deus, fortaleza que nunca falha;nosso ajudador ele é, em meio a incontáveis a�ições mortais que prevalecem. Deus é nossa ajuda em meio a “a�ições mortais” porque é semelhante- oposto a você. É como você, pois você foi criado à imagem dele, pessoal e relacional como ele. Mas é diferente de você, pois é perfeitamente santo. Você jamais será a pessoa que deve ser se Deus não entrar em sua vida. E dizer que ele é o “noivo” signi�ca que não pode ser apenas uma entidade na qual acreditamos de forma abstrata, ou mesmo apenas uma divindade a cujas regras obedecemos. É preciso haver intimidade no relacionamento. É preciso haver interação. Ele precisa nos falar por meio de sua Palavra, e temos de derramar nossa alma diante dele em oração e adoração. O amor matrimonial de Deus precisa ser vertido em nosso coração por meio do Espírito (Rm 5.5). A única maneira de não transformar seu cônjuge humano em ídolo ou salvador é ter Deus em sua vida como seu noivo. A imagem do “noivo” também signi�ca que, em Deus, temos o cônjuge mais paciente e longânime que já existiu. O tema de Deus como noivo de seu povo aparece ao longo de toda a Bíblia. No Antigo Testamento, Deus diz que ele é o noivo de Israel. Mas Israel se afastou dele repetidamente para adorar outros deuses e, ao fazê-lo, diz-se que cometeu adultério espiritual. Jeremias 2 e 3 e Ezequiel 16 são retratos vívidos desse “mau casamento”, mas a exposição mais conhecida desse tema se encontra em Oseias. Deus instrui seu profeta a se casar com Gômer, uma mulher que lhe seria in�el, “pois como esposa adúltera, essa terra [Israel] é culpada de in�delidade ao S�����” (Os 1.2).3 E é isso que acontece. Gômer corre atrás de outros amantes. A parte mais conhecida e tocante da história se encontra no terceiro capítulo. Além de Gômer ter sido in�el, também parece ter se prostituído, pois a única maneira de Oseias tê-la de volta é comprá-la de um homem que era seu proprietário. Deus diz a Oseias para fazer exatamente isso. O profeta escreve: O S����� me disse: “Vá, demonstre amor novamente por sua esposa, apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o S����� ama os israelitas, apesar de eles se voltarem para outros deuses e de amarem os bolossagrados de uvas passas”. Por isso eu a comprei por quinze peças de prata e um barril e meio de cevada. E eu lhe disse: “Você viverá comigo por muitos dias; você não será mais prostituta nem terá intimidade com nenhum outro homem, e eu me comportarei da mesma forma em relação a você” (Os 3.1-3). Esta não é apenas uma história comovente de amor incansável. Deus dá a entender que, assim como é necessário sacrifício próprio para amar um cônjuge in�el, a �m de que o amor de Deus por nós seja mantido também há custo e sacrifício da parte dele. Na vida e morte de Jesus, vemos a conclusão lógica dessa verdade. Em Mateus 9, quando os discípulos de João perguntaram a Jesus: “Por que [...] os teus discípulos não jejuam?”, ele respondeu: “Como podem os amigos do noivo �car de luto enquanto o noivo está com eles?”. Jejuar era um rito religioso acompanhado de arrependimento e oração. Jesus respondeu com uma ilustração que comunicou o fato óbvio de que, quando vamos a uma festa de casamento, não jejuamos. (Talvez até tiremos férias da dieta.) Mas, quando Jesus se referiu a si mesmo como “o noivo”, os ouvintes devem ter se espantado. Todos sabiam que o noivo de Israel era o Senhor Deus. Então, Jesus acrescentou: “Virão dias em que o noivo lhes será tirado; então jejuarão” (Mt 9.15). Estava dizendo duas coisas a respeito de si mesmo: primeiro, ele é nosso noivo divino e, segundo, veio para morrer por nós, para ser levado embora. Aquilo que o livro de Oseias deixou implícito é apresentado em letras garrafais no Novo Testamento. Deus é o amante e o cônjuge de seu povo. Mas nós lhe demos um casamento infernal. Deus está no pior e mais longo casamento da história do mundo. Voltamo-nos para ídolos em nosso coração, afastamo-nos dele e fomos péssimos cônjuges. Mas Deus não nos abandonou. Em Jesus Cristo, Deus entrou no mundo e, ao morrer na cruz, pagou o preço para nos resgatar de nosso pecado e de nossa escravidão. Em essência, Deus nos diz na Bíblia: “Em Jesus Cristo, entreguei minha vida por vocês. Fiz em proporções cósmicas e de modo visível aquilo que vocês têm de fazer sempre que amam alguém falho e imperfeito. Foi um sacrifício substitutivo. Seu pecado, seu mal, seus problemas foram todos transferidos para mim, a �m de que minha justiça fosse transferida para vocês. Entendem? Agora entendem o quanto eu os amo. Agora entendem o quanto me deleito em vocês”. Essa mensagem é o maior e mais transformador poder do mundo. Percebeu que, se nos fundamentarmos nessa realidade, ela nos dá o maior ânimo possível para a longa jornada do casamento? Lembre-se de que Jesus veio “para o que era seu, mas os seus não o receberam” ( Jo 1.11). Não apenas o desprezamos, mas também o pregamos à cruz. Alguns talvez estejam em um casamento difícil e concluam: “Meu cônjuge está me cruci�cando”, mas no caso de Deus, foi o que verdadeiramente aconteceu. E, no entanto, Jesus nos amou não porque somos bons, mas para nos tornar bons. Ele nos ama para nosso bem, e não para o bem dele e, por isso, permaneceu conosco e nos amou. Quando surgir a vontade de desistir de um cônjuge difícil, lembre-se da paciência de Jesus com você. A �m de perseverar no casamento, precisamos olhar repetidamente para nosso cônjuge e dizer: “Você me ofendeu, mas eu ofendi meu cônjuge supremo, Jesus Cristo, e ele pagou o preço e me perdoou. Portanto, sou amado por ele o su�ciente para oferecer o mesmo a você”. Essa é a única maneira de ter paciência para a jornada. E, voltando ao que dissemos no início, conhecer o amor matrimonial de Cristo é a chave para evitar a idolatria. No ensaio clássico, “Sobre a liberdade do cristão”, Martinho Lutero escreve: A terceira graça incomparável da fé é esta: ela une a alma a Cristo como a esposa ao marido [...] [E]ntão, segue-se que passam a compartilhar de tudo o que têm, tanto as coisas boas quanto as ruins; com isso, tudo o que Cristo têm, a alma que crê pode tomar para si e gloriar-se de que lhe pertence, e tudo o que pertence à alma, Cristo toma para si [...] Quando a fé intervém, pecado, morte e inferno pertencem a Cristo, e graça, vida e salvação são concedidos à alma. Pois, se Cristo é o marido, deve tomar para si o que é da esposa e, ao mesmo tempo, conceder à esposa aquilo que é dele [...] [Portanto], pela aliança de casamento da fé [...] a alma que crê [...] é liberta de todo o pecado, não teme a morte, é salva do inferno e recebe justiça eterna, vida e salvação de Jesus Cristo, nosso esposo. Quem é capaz de estimar devidamente o altíssimo valor dessas núpcias reais? Quem é capaz de compreender as riquezas da glória de sua graça? [...] Com base em tudo isso vocês também compreenderão por que se atribui tanta importância à fé, para que somente ela cumpra a lei e justi�que sem obras.4 Lutero está certo quando diz que ninguém é capaz de “estimar devidamente o valor dessas núpcias reais”. E, no entanto, precisamos tentar. A cada dia, devemos pensar no amor matrimonial de Cristo, apreciá-lo, deleitar-nos e regozijar-nos nele em prazer crescente. Ao fazê-lo, seremos guardados de transformar em ídolo o amor humano de que precisamos de nosso cônjuge; também teremos “graça, vida e salvação” que encontramos somente em Jesus. Esse cônjuge, Jesus Cristo, é o único que verdadeiramente nos salvará. É o único que pode verdadeiramente nos satisfazer. Seu casamento com ele é o alicerce mais sólido possível para seu casamento com qualquer outra pessoa. 1 John Newton; Richard Cecil, �e works of John Newton (London, Reino Unido: Hamilton, Adams, 1824), vol. 6, p. 132-3. 2 C. S. Lewis, �e four loves (New York: HarperCollins, 2017), p. 157 [edição em português: Os quatro amores, 2. ed., tradução de Paulo Salles (São Paulo: Martins Fontes, 2009)]. 3 Para um estudo importante do tema “Deus como nosso cônjuge”, veja Raymond C. Ortlund Jr., God’s unfaithful wife: a biblical theology of spiritual adultery (Downers Grove: IVP Academic, 2003). 4 Texto de First principles of the Reformation, organização de Henry Wace; C. A. Buchheim (London, Reino Unido: John Murray, 1883), disponível em: https://sourcebooks.fordham.edu/mod/l uther-freedomchristian.asp, acesso em: 22 set. 2020. https://sourcebooks.fordham.edu/mod/luther-freedomchristian.asp E 6 O DESTINO DO CASAMENTO ntão ouvi algo semelhante ao som de uma grande multidão, como o estrondo de muitas águas e fortes trovões, que bradava: “Aleluia! Pois reina nosso Senhor Deus todo-poderoso. Regozijemo-nos, alegremo-nos e demos glória a ele! Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro, e sua noiva já se aprontou. Foi-lhe dado para vestir-se linho �no, brilhante e puro” (Ap 19.6-8). Então vi “um novo céu e uma nova terra”, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para seu marido (Ap 21.1,2). O casamento é uma jornada que, tradicionalmente, se diz que tem um �m: “até que a morte nos separe”. Em certo sentido, é verdade que a morte constitui o �m do casamento. O cônjuge que sobrevive tem liberdade, por exemplo, de casar novamente. E, no entanto, a perspectiva cristã do casamento nos prepara para uma união eterna da qual o casamento aqui na terra é apenas o antegosto. E até mesmo o relacionamento conjugal que dois cristãos têm aqui neste mundo não precisa ser considerado algo encerrado ou reduzido pela morte. Para entender o verdadeiro destino do casamento, precisamos considerar o sexo, o objetivo da história e a ressurreição. O sexo como placa de sinalização Muitos já ressaltaram que a Bíblia não é um livro pudico. Celebra, em vários momentos, a beleza e os prazeres do amor sexual, como vemos nos versos poéticos em Provérbios 5.18-20, de acordo com os quais o marido deve se saciar com seios da esposa, ou em todo o livro de Cântico dos Cânticos de Salomão. No entanto, a Bíblia vai além da franqueza, e até da diversão, quando fala sobre sexo. Vai à glória. Em Romanos 7, o apóstolo Paulo compara os cristãos a uma mulher queestava casada “com a lei”. Em outras palavras, estávamos tentando nos salvar por meio de nosso desempenho, quer fosse observância religiosa da lei moral de Deus, quer a busca por riqueza, carreira ou uma causa. Mas, quando cremos em Cristo, passamos a estar casados com aquele “que ressuscitou dos mortos, a �m de que venhamos a produzir fruto para Deus” (Rm 7.4). Essa é uma imagem ousada. Como a esposa se coloca nos braços do marido, e �lhos nascem no mundo por meio de seu corpo, nós nos colocamos nos braços de Jesus e também damos fruto, seja de nossa vida transformada (Gl 5.22,23), seja de boas obras que transformam a vida de outros (Cl 1.6,10).1 Alguns comentaristas têm di�culdade com a imagem que Paulo usa aqui e dizem que é “indecorosa”. Sem dúvida, é um tanto espantosa.2 A metáfora, contudo, parece bastante clara. Em certo sentido, a sexualidade conjugal, com o potencial de criar nova vida, aponta para o relacionamento supremo de amor com Jesus Cristo. A união com ele pela fé nos proporciona a experiência máxima de amor que, por sua vez, pode dar fruto que gera vida. Como Paulo a�rma, esse relacionamento começa no presente, e a produção de fruto também pode começar no presente. Em outra passagem, contudo, a Bíblia diz que a comunhão com Cristo e seu amor que temos no presente é apenas um pálido vislumbre de como será vê-lo face a face (1Co 13.12). De acordo com o texto bíblico, no momento conhecemos nosso Cônjuge apenas pela fé, e não pelo que vemos (2Co 5.7). O amor que experimentamos aqui só pode ser parcial. Mas, quando virmos Cristo face a face, a concretização de nosso ser e a transformação de seu amor serão completas (1Jo 3.2,3). O que signi�cam todas essas passagens segundo as quais Jesus é nosso esposo e noivo? Signi�cam, no mínimo, que o sexo no casamento é uma indicação e um antegosto da alegria desse futuro mundo perfeito de amor. No céu, quando conhecermos Jesus em pessoa, entraremos em uma união de amor com ele e com todos que o amam. Naquele dia magní�co, haverá imenso prazer, enorme alegria e profunda segurança dos quais o sexo mais extasiante entre um homem e uma mulher é apenas um eco. Como vimos anteriormente, 1Coríntios 6 diz que o sexo fora do casamento é errado. Contudo, nesse texto Paulo não apenas fornece a base para a proibição, mas também explica por que é errado para o cristão. Aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele. Fujam da imoralidade sexual [...] Quem peca sexualmente, peca contra o próprio corpo. Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo que habita em vocês, que receberam de Deus? Vocês não são de si mesmos (1Co 6.17-19). Paulo nos lembra (como em Rm 7.4) de que somos casados com Cristo e, portanto, de que o Espírito Santo vem habitar em nós. Logo, ele conclui que não devemos fazer nada de ordem sexual com nosso corpo que não re�ita esse relacionamento com Cristo. Quando nos unimos a Cristo, entregamo-nos inteira, exclusiva e permanentemente a ele, como ele se sacri�cou por nós. De modo semelhante, não devemos ter sexo fora do contexto em que entregamos nossa vida inteira, exclusiva e permanentemente a nosso cônjuge. Qualquer outro uso do sexo não permite que ele seja aquilo que Deus o criou para ser: uma placa de sinalização de nossa união presente e futura com ele. É isso que a Bíblia ensina sobre sexo, e vai muito além da “positividade sexual”. Muitos hoje em dia foram educados com a ideia de que “Sexo é perigoso e um tanto sujo”. Depois disso, alguns passaram ao outro extremo ao dizer que “Sexo é uma coisa boa, que traz prazer e satisfação e pode ser usado como você desejar, desde que seja consensual”. A perspectiva bíblica do sexo é in�nitamente mais elevada que qualquer uma dessas outras perspectivas, e não é algo intermediário. Sexo não é sujo; foi criado por Deus e considerado “bom” (Gn 1.26-31). No entanto, o sexo é muito mais que um apetite, como a fome. A glória de Deus na face de Jesus é a beleza e o amor que buscamos em nossa vida. “Em tua face há plenitude de alegria; à tua direita há prazeres eternos” (Sl 16.11). Finalmente, experimentaremos a concretização de nossa natureza plena, a satisfação in�nita da presença do Senhor (Sl 17.15). Será um dia de prazer? Claro que sim. E é por isso que o sexo, a analogia terrena, é divertido e prazeroso. No entanto, o sexo pode ser mais que uma emoção momentânea se o alinharmos no tempo e no espaço com aquilo para que ele aponta no futuro. Devemos usá-lo como maneira de dizer a outra pessoa: “Eu lhe pertenço completa, exclusiva e permanentemente”. Quando o fazemos, o sexo se torna não uma forma de obter prazer de alguém, mas um ato que produz união profunda, uma forma de amalgamar duas vidas humanas em uma só entidade e comunidade, e uma forma de moldar o coração para que ame sacri�cialmente, como Jesus nos amou. Somente no contexto do casamento o sexo alcança seu pleno potencial de dar prazer e satisfação. Portanto, o sexo, como o casamento, aponta para algo além de si mesmo. Se não virmos esse futuro e não depositarmos nosso coração nele, sexo e casamento sempre causarão amargas decepções. O fim da história Como Lutero diz, em conformidade com as ideias de Paulo, em certo sentido já estamos casados com Cristo. Há outro sentido, entretanto, em que ainda não estamos casados; nossa situação é mais parecida com um noivado. Apocalipse diz que “o banquete de casamento do Cordeiro” é um dia futuro em que nos casaremos com Jesus (Ap 19.7). O grande dia de casamento, em que somos envoltos em seus braços, é o único dia de casamento que verdadeiramente colocará tudo em ordem em nossa vida. É signi�cativo que a Bíblia comece em Gênesis com um casamento, e que o propósito original que esse casamento devia cumprir fosse encher esse mundo de �lhos de Deus. No entanto, Adão e Eva se afastaram de Deus, e o primeiro casamento não cumpriu seu propósito. Quando chegamos ao �m da Bíblia, vemos a igreja “[descer] do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para seu marido”. Os re�exos de Gênesis são inequívocos. Mais uma vez, vemos Deus trazer uma noiva para seu marido, mas agora o marido é Jesus, e nós somos a noiva. No primeiro casamento, Adão não interferiu e não ajudou sua esposa quando ela precisou dele. Mas, no �m dos tempos, haverá outro matrimônio, o banquete de casamento do Cordeiro, e seu propósito também é encher o mundo de �lhos de Deus. Esse casamento será bem-sucedido naquilo em que o primeiro casamento fracassou, pois, enquanto o primeiro marido na história falhou, o Segundo Marido não falha. O verdadeiro Adão, Jesus Cristo, jamais falhará com sua esposa, a segunda Eva, sua igreja. Observemos, ainda, algo novo que não é mencionado em Gênesis. Apocalipse diz que nós, seu povo, estaremos belamente adornados para nosso esposo. Claro que o principal motivo pelo qual não há referência nenhuma a um vestido de casamento no jardim do Éden é que Adão e Eva estavam “nus, e não sentiam vergonha”. Contudo, isso foi antes de o pecado entrar em cena. Em várias ocasiões, a Bíblia fala de modo metafórico da necessidade de que nosso pecado seja coberto por vestes limpas e belas (Sl 32; Ez 16; Zc 3). A �m de sermos belos para nosso marido, nossos pecados terão de ser cobertos por sua graça e sua justiça (Fp 3.9). E a imagem do vestido de casamento transmite essa realidade de modo maravilhoso. Roupas de casamento são feitas para que nos sintamos lindos, a melhor versão possível de nós mesmos. As roupas são uma excelente metáfora para a maneira que Jesus cobre nossos pecados e nos veste com sua justiça a um custo in�nitamente alto para ele. O evangelho consiste no fato de que Cristo viveu a vida bela e boa que nós deveríamos ter vivido. Mas agora, pela fé a beleza dele repousa sobre nós. Quando cremos, recebemos sua justiça, como Martinho Lutero explicou. Apocalipse diz que, em certo sentido, caminharemos pelo corredor da igreja em direção a Jesus, e pareceremos lindos para ele. Dá para entender o quanto essa imagem é espantosa? Como pastor, tive o privilégiode �car ao lado do noivo em centenas de casamentos. Minha esposa e eu sempre observamos o momento antes da chegada da noiva. É possível identi�car exatamente quando o noivo a vê aparecer na porta da igreja. Ele respira fundo e seu coração dá um salto quando ele a contempla tão radiante. O resplendor no rosto do noivo re�ete o brilho no rosto da noiva quando olham um para o outro. A Bíblia está mesmo dizendo que Jesus vê toda essa beleza em nós? Que receberemos esse tipo de amor do Senhor do Universo? Sim. É isso que signi�ca estar “em Cristo”; signi�ca pertencer a ele. Claro que só conseguimos entender essa realidade parcialmente de forma intelectual e experiencial. Lemos em 1João 3.2: “Queridos amigos [...] aquilo que havemos de ser ainda não se manifestou. Mas sabemos que, quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é”. A primeira visão de sua beleza e glória e a primeira experiência direta de seu amor nos transformarão de imediato em pessoas imaculadas, caracterizadas por “liberdade e glória” (Rm 8.21). Claro que esse dia está no futuro, mas depois João acrescenta; “Todos que nele têm essa esperança puri�cam-se a si mesmos, assim como ele é puro” (3.3). João diz que essa bem-aventurada visão futura e esse banquete de casamento serão tão magní�cos que até mesmo esperar por eles (ter o mais ín�mo antegosto deles e descansar em sua certeza) começa a nos transformar no presente. Ao nos alegrarmos no amor matrimonial de Jesus, sere- mos transformados. Medos, ciúmes, ressentimentos, tédio, desilusão, solidão, tudo o que torna sombria nossa vida se reduzirão. E somente se você olhar além do �m de seu casamento terreno, para sua união com Cristo, será capaz de amar devidamente seu esposo ou sua esposa. Precisamos abandonar a ilusão de que “Se eu encontrar a pessoa certa e me casar, terei uma vida tranquila”. Não. Só existe uma “Pessoa certa”, que está à sua espera no �m dos tempos, no banquete. Quando você vir a glória de Jesus, ela compensará em proporção incalculável as experiências mais terríveis. E a beleza com a qual ele vestirá você naquele dia será mais esplendorosa que o vestido de casamento mais lindo que você já viu. O fim do casamento? Mateus 22 fala dos saduceus, um partido de líderes do antigo Israel que não acreditava em uma ressurreição futura dos mortos. Os saduceus sabiam que Jesus acreditava na ressurreição e a ensinava e, portanto, tentaram pegá-lo em uma armadilha. Apresentaram um caso hipotético. Havia sete irmãos, e o primeiro se casou. No entanto, ele morreu, e a viúva se casou com o segundo irmão. O segundo irmão morreu, e a viúva se casou com o irmão seguinte. A situação repetiu-se até que os sete irmãos morreram. “Pois bem”, concluíram os saduceus, “na ressurreição, de qual dos sete ela será esposa, uma vez que todos foram casados com ela?”. Jesus começou sua resposta com as seguintes palavras: “Vocês estão enganados, pois não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22.29). Além de não conhecerem a Bíblia, o Deus deles era pequeno demais. Não tinham ideia de sua sabedoria, glória e amor in�nitos. Não eram capazes de imaginar que ele criará um mundo bastante diferente daquele que temos hoje. Quanto ao ensino da Bíblia, Jesus diz: Vocês não leram o que Deus lhes disse: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Ele não é Deus de mortos, mas de vivos” (Mt 22.31,32). Deus nunca diz. “Eu fui o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.” Embora Deus tenha dito essas palavras a Moisés séculos depois da morte dos patriarcas (Êx 3.6), ele nunca se refere a eles como se seu relacionamento estivesse no passado. “Eu sou seu Deus”, diz o Senhor, e Jesus acrescenta: “Ele não é Deus de mortos, mas de vivos”. Em outras palavras, ninguém que tem o Deus verdadeiro como seu Deus está morto. Um estudioso da Bíblia explicou a declaração de Jesus da seguinte forma: “Aqueles com os quais o Deus vivo se identi�ca não podem estar verdadeiramente mortos e, portanto, devem estar vivos com ele depois que sua vida na terra termina”.3 Com isso, Jesus de�ne o princípio geral de que unir-se com Deus pela fé signi�ca estar destinado a uma vida maior que se estende além do �m desta vida. Com referência ao caso hipotético apresentado pelos saduceus, Jesus diz: “Na ressurreição, as pessoas não se casarão nem se darão em casamento; serão como os anjos no céu” (Mt 22.30). A princípio, essa asserção parece signi�car que a morte é, na realidade, o �m dos casamentos. Sem dúvida, na ressurreição seremos “como os anjos”, no sentido de que não haverá necessidade de procriação para repor a população. Uma vez que não haverá morte, podemos imaginar por que uma instituição dedicada em grande parte à geração e desenvolvimento de nova vida não será necessária. No entanto, R. T. France, em seu comentário sobre Mateus, faz uma pergunta que �ca no ar quando ouvimos as palavras de Jesus. France escreve: “Aqueles que encontraram algumas das alegrias mais profundas da vida terrena no vínculo especial do relacionamento conjugal talvez �quem desalentados de ouvir que devem deixá-lo para trás”. Contudo, France observa que os termos “casar” e “dar-se em casamento” usados por Jesus são dois verbos que se referem ao costume de o pai da noiva entregar a noiva e ao ato de o noivo recebê-la. Em outras palavras, Jesus está dizendo que essa formação ativa de pares no casamento não terá continuidade. Em seguida, France acrescenta: Observe, porém, que aquilo que Jesus declara que será inapropriado no céu em relação ao casamento não é o amor. [Por que não pode ser que] os relacionamentos celestes consistirão não em algo menos que o casamento, mas sim, em algo mais [?] Ele não diz que o amor entre aqueles que foram casados na terra desaparecerá; antes, deixa implícito que será ampliado para que ninguém seja excluído.4 Em �e four loves, C. S. Lewis fala de um trio de amigos — Jack (C. S. Lewis), Ronald ( J. R. R. Tolkien) e Charles (Charles Williams). Quando Charles morreu, Lewis observou que, por consequência, ele não passou a ter “mais” de Ronald. Os aspectos de Ronald que Charles fazia a�orar tinham se perdido para Jack. Em outras palavras, quanto mais Jack compartilhava a amizade de Ronald com outros, mais ele a tinha para si mesmo. Lewis conclui que essa é uma imagem tênue dos relacionamentos perfeitos de amor que teremos no céu, em que ciúmes e egoísmo não existirão.5 Portanto, a resposta para a pergunta apresentada pelos saduceus (De qual irmão a mulher seria esposa na ressurreição?) é: ela será esposa de todos eles, e mais. (Essa é uma boa resposta para quem �cou viúvo e, depois, também teve um bom segundo casamento.) A resposta é que cada um estará em um relacionamento de amor o mais chegado possível com todos os outros, pois o amor perfeito de Cristo �uirá para nós e de nós como uma fonte, como um rio. Ainda estaremos com nosso cônjuge terreno no céu, na ressurreição? Sem dúvida. Observe Jesus, o primogênito dos mortos. Quando ele encontrou pessoas que ele conhecia, como no caminho para Emaús em Lucas 24, elas não o identi�caram de imediato, mas depois o reconheceram. Ele ainda era ele mesmo, embora tivesse agora um corpo ressurreto perfeito. Seus amigos ainda eram seus amigos. E quem poderá se alegrar mais com sua nova existência ressurreta que seu cônjuge de muitos anos? Quando todos os seus pecados e imperfeições forem removidos de sua alma e de seu corpo, seu cônjuge poderá dizer com in�nita alegria: “Eu sempre soube que você poderia ser assim. Eu percebi. Mas agora, olhe só!”. Na carta de John Newton para os recém-casados citada anteriormente, ele escreve sobre o relacionamento que terão um com o outro depois da morte: Tão certamente quanto vocês estão unidos, também serão separados, e essa separação será difícil para a carne e o sangue; mas será apenas por pouco tempo. Vocês caminharão juntos como co-herdeiros da vida eterna, colaboradores e participantes das alegrias espirituais um do outro e, por �m, se encontrarão diante do trono de glória eestarão para sempre com o Senhor. Que vocês vivam debaixo da in�uência dessas perspectivas e descubram que cada dulçor se torna ainda mais doce com o resplendor do Sol da Justiça em sua alma e que cada cruz santi�cada os conduz a uma dependência mais próxima, imediata e absoluta dele.6 O �m do casamento aqui na terra será nada menos que a entrada em um banquete sem �m, em que você será unido a seu companheiro terreno de formas impossíveis de concretizar neste mundo, bem como a todos os outros e a Jesus, o “Amante de sua alma”. 1 “�e fruitful bride”, in: Francis Schaeffer, True spirituality (Wheaton: Tyndale, 2001), p. 72- 81 [edição em português: Verdadeira espiritualidade (São Paulo: Cultura Cristã, 2008)]. 2 John Murray, �e Epistle to the Romans, ed. em vol. único (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), p. 244, esp. nota 7. 3 R. T. France, �e Gospel of Matthew, �e New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 2007), p. 840-1. 4 France, �e Gospel of Matthew, p. 839. 5 C. S. Lewis, �e four loves (New York: HarperCollins, 2017), p. 78-9 [edição em português: Os quatro amores, 2. ed., tradução de Paulo Salles (São Paulo: Martins Fontes, 2009)]. 6 John Newton; Richard Cecil, �e works of John Newton (London, Reino Unido: Hamilton, Adams, 1824), vol. 6, p. 132-3. Em memória de T���� K����� H���, que nos informou claramente o que ela queria que fosse dito em seu funeral. E com gratidão a seus irmãos: S��, S���� � L���, que quiseram ver essa mensagem impressa. Foi o começo de tudo. Terry teria �cado muito contente. À PALAVRAS INTRODUTÓRIAS medida que Tim e eu envelhecemos, vemo-nos com frequência cada vez maior diante da morte tanto pastoral quanto pessoalmente. Nossos amigos e familiares mais chegados estão começando a morrer. Nos últimos dezoito meses, tivemos três falecimentos em nossa família; e só nos três últimos meses, conversamos com um amigo e com um membro da família sobre como enfrentar a morte iminente. Muito do que dissemos nessas conversas está neste livro. A base para esta seção sobre a “Morte” é um sermão que meu marido pregou no funeral de minha irmã Terry Hall em 6 de janeiro de 2018. Ela faleceu em casa no Natal, cercada pela família, depois de uma longa batalha contra o câncer de mama metastático. Terry sabia que estava morrendo e deixou instruções para nós sobre hinos, orações e outros elementos que ela desejava em seu culto fúnebre. Fez questão que Tim pregasse o evangelho nessa ocasião, e não apenas falasse da vida dela (por mais que a amássemos e admirássemos). Ela sabia que “a morte costuma concentrar a mente de modo maravilhoso”1 e queria que as pessoas presentes em seu funeral fossem preparadas para a própria morte. Este livro é dedicado a ela, a seu marido, Bob, e a suas �lhas, Ruth Hall Ramsey e Rachael Hall. O sermão daquele dia foi, em todos os aspectos, comovente e memorável. O pedido para que ele fosse publicado veio de Sue e Lynn, irmãs de Terry, e de seu irmão, Steve. K���� K����� Julho de 2018 1 Da conhecida citação de Samuel Johnson, em James Boswell, �e life of Samuel Johnson, LLD (New York: Penguin Classics, 2008), p. 231 [edição em português: A vida de Samuel Johnson, tradução de José Filardo (Amazon Digital Services LLC, 2019), 3 vols.]. A 7 O MEDO DA MORTE A CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A TODOS NÓS EM COVARDES ... para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte (Hb 2.14,15). morte é a Grande Interrupção; arranca nossos amados de nós, ou vice- versa. A morte é a Grande Divisão; separa a parte material da parte imaterial e rasga nosso ser, que não foi criado para existir de forma desencarnada nem mesmo por um instante. A morte é o Grande Insulto; lembra-nos, como Shakespeare disse, de que somos alimento para os vermes.2 [Somos] literalmente divididos ao meio: [O ser humano] tem consciência de sua singularidade esplêndida, pois se destaca na natureza com altaneira majestade; e, no entanto, volta ao solo, onde é enterrado para, cego e mudo, apodrecer e desaparecer para sempre.3 A morte é horrenda, assustadora, cruel e incomum. Não corresponde ao que a vida deveria ser, e nossa tristeza diante da morte reconhece esse fato. A morte é nossa Grande Inimiga, mais que qualquer outra coisa. Apropria-se de cada um de nós e nos persegue incansavelmente ao longo de todos os nossos dias. Nossos contemporâneos escrevem e falam interminavelmente de amor, especialmente amor romântico, que escapa por entre os dedos de muitos. Mas ninguém pode evitar a morte. Alguém disse que guerras e pragas nunca elevaram o número de mortes; sempre houve uma morte para cada pessoa, sem exceções. E, no entanto, parecemos muito menos preparados para ela que nossos antepassados. Por que será? A bênção da medicina moderna Um dos motivos é, paradoxalmente, que a grande bênção da medicina moderna escondeu a morte de nós. Annie Dillard, em sua obra de �cção �e living [Os vivos], dedica uma página inteira à espantosa variedade de maneiras que a morte arrebatava os vivos de seu lar e de sua família sem nenhum aviso no século 19. Mulheres tinham febre e morriam no parto, e bebês morriam de debilidade ou da severidade do ar. Homens morriam por causa de [...] rios e cavalos, touros, serras a vapor, engrenagens de moinhos, rochas de pedreiras, árvores que caíam ou troncos que rolavam. [...] Crianças perdiam a vida quando [...] coisas duras as esmagavam, como árvores e o solo ao serem atiradas ou caírem de cavalos; se afogavam em água; �cavam doentes, e dores de ouvido se espalhavam para o cérebro; ardiam em febre de sarampo, ou a pneumonia as levava de um dia para o outro.4 A morte era algo que as pessoas costumavam ver de perto. Um exemplo é o conhecido pastor e teólogo inglês John Owen (1616-1683), que perdeu seus onze �lhos, bem como sua primeira esposa. Uma vez que as pessoas faleciam onde viviam, em casa, Owen literalmente viu quase todos que ele amava morrerem diante de seus olhos. No período colonial nos Estados Unidos, famílias perdiam, em média, um de cada três �lhos antes que chegassem à vida adulta. E, tendo em conta que a expectativa de vida de todos naquela época era cerca de quarenta anos, muitos perdiam os pais na infância. Quase todos cresciam vendo corpos e observando familiares jovens e velhos morrerem.5 A medicina e a ciência reduziram muitas das causas de morte precoce e, hoje em dia, a grande maioria das pessoas de�nha e morre em hospitais e clínicas de cuidados paliativos, longe dos olhos de outros. É normal em nossos dias chegar à vida adulta sem nunca ter visto alguém morrer, ou nem mesmo o corpo de um morto, exceto de relance, em um caixão aberto durante um funeral. Atul Gawande e outros destacaram que o fato de a morte ocorrer de forma oculta na sociedade moderna signi�ca que nós, dentre todas as outras culturas, vivemos em negação do caráter inexorável de nossa morte que, cedo ou tarde, virá. Em Salmos 90.12, o salmista pede a Deus que nos ensine “a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”. Sempre houve o risco de os seres humanos viverem em negação de sua mortalidade. Claro que sabemos intelectual e racionalmente que vamos morrer, mas, lá no fundo, reprimimos esse fato e agimos como se fôssemos viver para sempre. De acordo com o salmista, agir desse modo não é sábio. A morte é a única inevitabilidade absoluta; e, no entanto, hoje em dia não fazemos planos em relação a ela e não vivemos como se ela fosse acontecer. Evitamos médicos por medo, negamos a mortalidade de nosso corpo e supomos que ele continuará a funcionar para sempre. Ainda assim, diante da morte iminente exigimos procedimentos médicos extremos e irrealistas.6 Consideramos até que conversas sobre morte são “de mau gosto” ou coisa pior. O antropólogo Geoffrey Gorer propõe em seu ensaio “A pornogra�a da morte” que a cultura contemporânea da morte substituiu o sexo como novo tabu.7 Setrês mil anos atrás a negação da morte era uma questão problemática, como o salmo 90 mostra, hoje é in�nitamente pior. O progresso médico sustenta a ilusão de que a morte pode ser adiada por tempo inde�nido. É mais raro que nunca ver pessoas que, como os antigos, estão em paz com sua mortalidade. E existem até mesmo pensadores que acreditam seriamente que a morte pode ser solucionada como qualquer “questão de desempenho” tecnológica.8 Muitos no Vale do Silício têm obsessão por vencer a mortalidade e viver para sempre. Tudo isso signi�ca que, hoje em dia, as pessoas são mais irrealistas e despreparadas para a morte que em qualquer outro período da história. Felicidade deste mundo Outro motivo pelo qual temos tanta di�culdade com a morte nos dias de hoje é a exigência da era secular de felicidade e realização neste mundo. O antropólogo Richard Shweder fez um levantamento das maneiras que culturas não ocidentais e culturas mais antigas ajudam seus membros a enfrentar sofrimento.9 Todas o fazem ao ensinar seus membros sobre o sentido da vida, o motivo principal pelo qual cada um deve viver. Em muitas sociedades, acredita-se que seu povo e sua família (�lhos e netos) são os motivos mais importantes para viver, pois neles a vida de cada indivíduo continua depois que ele morre. O budismo e várias outras culturas orientais antigas ensinam que o signi�cado da vida se encontra na natureza ilusória deste mundo e, portanto, em transcendê-lo por meio da serenidade interior e da separação da alma. Outras culturas acreditam em reencarnação, ou em um céu ou nirvana depois da morte e, portanto, o propósito central de cada indivíduo é viver e crer a �m de que a alma realize a jornada para o céu. Embora essas crenças sejam bastante diferentes umas das outras, Shweder propõe que elas têm um elemento em comum. Em todos os casos, o motivo para viver é algo exterior a este mundo e esta vida materiais, um objeto que sofrimento e morte não tocam. Pode ser o céu ao morrer, ou a possibilidade de sair do ciclo de reencarnação e entrar no êxtase eterno, ou a perda da ilusão do mundo e a volta à Alma Única do Universo, ou ter uma vida honrada e, depois da morte, ser recebido por seus ancestrais. Em cada caso, tragédia e morte não são capazes de destruir o signi�cado da vida e, aliás, apressam a jornada rumo a seu objetivo, quer seja por meio de crescimento espiritual, pelo desenvolvimento de honra e virtude, ou pelo ingresso na eternidade de alegria. A cultura moderna, porém, é fundamentalmente secular. Na opinião de muitos, uma vez que não há Deus, alma ou espírito e que a realidade não tem nenhuma dimensão transcendente ou sobrenatural, o presente mundo material é só o que existe. Portanto, aquilo que dá signi�cado e propósito a sua vida tem de estar no âmbito do tempo presente aqui na terra. Devemos, por assim dizer, repousar nosso coração em algo dentro dos horizontes limitados de tempo e espaço. Aquilo que você escolher para dar sentido a sua vida terá de ser alguma forma de felicidade, consolo ou realização deste mundo. Ou, na melhor das hipóteses, poderá ser um relacionamento de amor. É evidente, porém, que a morte destrói todas essas coisas. Logo, enquanto outras culturas e cosmovisões consideram o sofrimento e a morte capítulos de enorme importância (e não �nais) na história coerente da vida, a perspectiva secular é completamente diferente. O sofrimento é uma interrupção, e a morte é o �nal absoluto. De acordo com Shweder, para as pessoas de hoje: O sofrimento é [...] separado da estrutura narrativa da vida humana [...] uma espécie de “ruído”, uma interferência acidental no drama da vida do sofredor [...] O sofrimento não [tem] nenhuma relação inteligível com a trama, exceto como interrupção caótica.10 A cultura moderna é, portanto, a que se sai pior em toda a história na tarefa de preparar seus membros para a única coisa inevitável: a morte. Quando esse horizonte limitado de signi�cado se une ao avanço da medicina, deixa muitos paralisados de ansiedade e medo quando confrontados com alguém que esteja morrendo. Mark Ashton foi vigário da igreja anglicana St. Andrew the Great, em Cambridge, Inglaterra. Aos 62 anos, no �m de 2008, recebeu o diagnóstico de câncer inoperável na vesícula biliar. Em razão de sua fé e alegria em Cristo, demostrou grande con�ança diante da morte, e até certa expectativa, apesar de ter plena consciência da tristeza de sua família. Ao longo dos quinze meses seguintes, conversou a respeito da própria morte com praticamente todos com quem se encontrou, e o fez com facilidade, eloquência e compostura. No entanto, a abordagem de Ashton perturbou muita gente, que teve di�culdade de lidar não apenas com sua atitude, mas com sua presença. Ashton observou: “Nossa era é tão desprovida de esperança diante da morte que o tema se tornou tabu”. Ele foi a um salão em Eastbourne, onde puxou conversa com a cabeleireira que o atendeu. Quando ela “me perguntou como eu estava e respondi que havia sido informado pouco tempo antes que tinha apenas mais alguns meses de vida”, a cordialidade e a conversa cessaram. Por mais que eu tentasse puxar assunto, “não consegui extrair nem uma palavra sequer dela durante o corte de cabelo”.11 Em vez de aceitarmos a morte e nos prepararmos para ela, a evitamos e negamos. A sensação de insignificância O terceiro motivo pelo qual a cultura secular atual tem tanta di�culdade com a morte é o fato de que, ao rede�nir morte como não existência, criou uma profunda sensação de insigni�cância. Ernest Becker, autor de �e denial of death, obra vencedora do Prêmio Pulitzer, a�rma que os seres humanos não conseguem aceitar que tudo o que somos — nosso ser consciente, nossos amores, nossos anseios profundos por beleza, bondade, verdade — deixarão de existir para sempre, literalmente em um piscar de olhos. Se a morte é verdadeiramente o �m, se todos nós morremos e, cedo ou tarde, até mesmo a civilização humana “morrerá” com a morte do Sol, nada do que fazemos tem relevância �nal. Se viemos do nada e vamos para o nada, como evitar, mesmo agora, a sensação de vazio? Portanto, ele escreve: A ideia de morte, o medo dela, assombra o animal humano como nenhuma outra coisa; é a força motriz da atividade humana — atividade planejada, em grande medida, para superar a morte por meio da negação [...] de que é o destino �nal.12 O medo da insigni�cância diante da não existência precisa ser tratado de alguma forma. Becker cita antropólogos que dizem que os antigos tinham muito menos temor da morte e que a morte era “acompanhada de regozijo e festividades”. Como Becker acrescenta corretamente, embora o medo da morte seja um elemento universal da humanidade, os antigos lidavam com ela por meio da crença em vida e signi�cado depois dela. Acreditavam na eternidade e, portanto, a morte era a “promoção máxima”. Nosso problema hoje é que “a maioria dos ocidentais tem di�culdade em acreditar nisso, motivo pelo qual o medo da morte é parte tão proeminente de nossa constituição psicológica”.13 O restante do livro de Becker baseia-se nessa tese, a saber, que a cultura moderna e secular tem uma di�culdade com a morte que nenhuma outra sociedade enfrentou. Ele argumenta que a importância exagerada conferida a tantas coisas na cultura moderna — sexo, romance, dinheiro e carreira, política e causas sociais — exempli�ca as maneiras usadas pelas pessoas para buscar a sensação de relevância diante da morte sem ter de recorrer a Deus e à religião. Como Becker, pensadores não cristãos do século 20 tinham consciência de que, à medida que a religião e a fé em Deus desaparecessem, a morte se tornaria um problema. Existencialistas, como Albert Camus em “O mito de Sísifo”, a�rmavam que o caráter de�nitivo da morte tornava a vida absurda e que era errado tentar negar esse fato ao perder-se em prazeres e realizações.14 Uma ilustração pode ser de ajuda. Imagine que um bandido entrou em sua casa, amarrou você e anunciou que vai matá-lo. Imagine, ainda, que você não tem nenhuma esperança de ser socorrido. Ese o bandido dissesse: “Eu não sou cruel. Diga-me uma coisa que lhe dá grande alegria”. Você responde que gosta de jogar xadrez. “Pois bem, vamos jogar uma partida de xadrez antes de eu matá-lo. Tornará mais agradáveis seus últimos momentos, não é mesmo?” A única resposta sincera seria que a morte iminente removeria toda a satisfação proporcionada pelo jogo. A morte subtrai a importância e a alegria das coisas. Becker vai ainda mais longe e diz que esse medo da morte é algo singular a nós, seres humanos. É aterrador encontrar-se nesse dilema e ter de viver com ele. Os animais inferiores são, evidentemente, poupados dessa contradição a�itiva, pois faltam-lhes identidade simbólica e a respectiva consciência própria. [...] O conhecimento da morte é re�etivo e conceitual, e animais são poupados dele. [Eles experimentam a morte] como alguns minutos de medo, alguns segundos de angústia, e depois acaba. Mas passar a vida inteira sendo assombrado pela morte em nossos sonhos e até nos dias mais ensolarados é outra história.15 Pensadores não cristãos mais recentes não se expressam de modo tão sombrio. Muitos hoje se valem dos �lósofos antigos Epicuro e Lucrécio e a�rmam que “não há motivo para ter medo da morte”, e há uma série de artigos com essa mensagem, como é o caso do ensaio de Jessica Brown no jornal �e Guardian: “We fear death, but what if dying isn’t as bad as we think?” [Tememos a morte, mas e se morrer não é tão ruim quanto imaginamos?].16 De acordo com essa linha de raciocínio, quando morremos não sabemos nada e não sentimos nada. Não há dor nem a�ição. Por que temer a morte? Mas os esforços para dizer que as pessoas não precisam se preocupar com a morte não dão resultados para a maioria. O �lósofo Luc Ferry a�rma que é “brutal” e desonesto dizer às pessoas diante da morte e, portanto, diante da perda de todos os relacionamentos de amor que não devem temer a morte.17 Dylan �omas toca em um ponto com o qual nos identi�camos muito mais quando diz: “Enfureçam-se, enfureçam-se com o perecimento da luz”.18 Becker tem razão. A raça humana como um todo não consegue não temer e odiar a morte. É um problema singular e profundo. A religião nos dava ferramentas que ajudavam a enfrentar nosso inimigo mais temível, e o secularismo não propôs nada que compense por sua perda. Medo de julgamento O quarto motivo pelo qual temos di�culdade com a morte hoje em dia é a perda das categorias de pecado, culpa e perdão na cultura moderna. Friedrich Nietzsche declarou que a ideia e o sentimento de “dívida” ou culpa nasceram nos seres humanos junto com a crença em um Deus (ou deuses) transcendente ao qual devemos obediência. Nietzsche dizia com satisfação que, à medida que a religião desaparecesse e cada vez mais pessoas deixassem de crer em um Deus de julgamento, ocorreria um declínio em nossa sensação de culpa. O ateísmo poderia até signi�car “uma segunda inocência”.19 Wilfred M. McClay argumenta em “�e strange persistence of guilt” [A estranha persistência da culpa] que a predição de Nietzsche não se cumpriu.20 De acordo com McClay, Freud foi melhor profeta quando disse que a culpa é uma característica insubstituível de qualquer civilização. É o preço que temos de pagar para refrear o tipo de comportamento egoísta que enfraquece sociedades. Isso signi�ca que, mesmo que tentemos acabar com nossa sensação de pecaminosidade e culpa, ela persistirá e assumirá outras formas. “A culpa é astuciosa, enganadora, um camaleão capaz de se disfarçar, se esconder, mudar de tamanho e de aparência [...] ao mesmo tempo que consegue persistir e se aprofundar.”21 Freud chamou a culpa unbehagen. Esse termo signi�ca “mal-estar”, uma forte sensação de desconforto a respeito de si mesmo e da vida em si que provoca uma série recorrente de perguntas: “Por que a vida não é melhor? Por que não me enturmo? Por que sinto necessidade de me esforçar tanto para provar meu valor? Será que alguém me amará de verdade?”. No momento, nossa cultura secular acredita em Nietzsche, e não em Freud, e fez todo o possível para libertar indivíduos a �m de que se entreguem ao prazer em total liberdade de autoexpressão. Isso signi�ca remover as palavras “pecado” e “culpa” do discurso público para que todos se sintam à vontade para criar e concretizar a identidade que escolherem. No entanto, essa ideia nos colocou em uma situação estranha. Como diz um estudioso, vemos o mal e o pecado ao nosso redor, coisas “que nossa cultura não nos dá mais o vocabulário para expressar” e, portanto, “um abismo se abriu em nossa cultura entre a visibilidade do mal e os recursos intelectuais disponíveis para lidar com ele”.22 Muitos chamam a atenção para o fato de que nossa sociedade atual continua a ser moralista e julgadora. Vivemos em uma “cultura de confrontação”, em que as pessoas são categorizadas de forma reducionista e consideradas boas ou más e, depois, publicamente humilhadas até que percam seu emprego e sua comunidade.23 Pessoas são acusadas de coisas que costumavam ser denominadas pecados e são castigadas e banidas de maneiras extremamente parecidas com ritos de puri�cação cerimonial religiosa. Como McClay destaca, os seres humanos não conseguem abandonar seus re�exos morais — uma crença em absolutos morais, em pecado e julgamento e na imposição de culpa e vergonha. No entanto, deixamos para trás as antigas crenças subjacentes em Deus, no céu e no inferno e, portanto, perdemos os antigos recursos para arrependimento, demonstração de graça e concessão de perdão.24 Tudo isso desencadeia uma crise para nossos contemporâneos diante da morte. Como pastor, passei muitas horas na presença de pessoas que estavam morrendo. À medida que a morte se aproxima, elas fazem uma recapitulação de sua vida e sentem enorme arrependimento. O unbehagen, ou intenso descontentamento consigo mesmas, assume o primeiro plano. Talvez sintam culpa por algumas coisas não ditas ou feitas a entes queridos, por pedidos de desculpas nunca expressados ou recebidos, por bondades recusadas ou por grosserias cometidas pelas quais não podem mais pedir perdão, por oportunidades desperdiçadas ou mesmo por uma vida desperdiçada. Além de arrependimentos em relação ao passado, con- tudo, também há medo do futuro. T. S. Eliot escreve: “Não aquilo que chamamos morte, mas aquilo que além da morte não é morte / Tememos, tememos”.25 Por trás e debaixo de todas as outras emoções se encontra o medo de julgamento. Em 1Coríntios 15, a extensa abordagem de Paulo sobre a morte, ele a�rma que “o aguilhão da morte é o pecado” (v. 56). Como ele ensinou em Romanos 1.20-22, todos nós sabemos, em nosso coração, por mais oculto que esteja esse conhecimento, que Deus é nosso Criador e que ele merece nossa adoração e obediência. No entanto, “suprimimos” (v. 18) esse conhecimento a �m de declarar soberania sobre nossa vida. No entanto, a morte torna a nossa insatisfação conosco mesmos muito mais consciente. É impossível calar nossa consciência como fazíamos antes. O personagem Hamlet, de Shakespeare, pensa em suicídio, mas decide não cometê-lo. Tem medo de algo depois da morte, medo “da terra incógnita de cujas fronteiras nenhum viajante retorna”, o que nos leva a temer o julgamento. Portanto, “suportamos os males que temos, [em vez de] fugir para outros que desconhecemos”, pois “a consciência transforma todos nós em covardes”.26 Apesar de todos os esforços, a culpa persiste e, mais do que nunca, quando enfrentamos a morte. A cultura moderna nos dá pouquíssima ajuda para lidar com ela, mas a fé cristã nos oferece alguns recursos extraordinários. Nosso campeão Em vez de viver com medo da morte, devemos considerá-la uma sacudida espiritual para nos despertar da falsa convicção de que viveremos para sempre. Em um funeral, especialmente de um amigo ou de um ente querido, ouça Deus falar com você, dizer-lhe que tudo na vida é temporário, exceto o amor dele. Essa é a realidade. Tudo nesta vida será tomado de nós, exceto uma coisa: o amor de Deus, que pode nos acompanhar na morte, nos fazer atravessá-la e nos levarpara os braços dele. Essa é a única coisa impossível de perder. Sem o amor de Deus para nos acolher, sempre nos sentiremos radicalmente inseguros, e devemos nos sentir dessa forma. Um de meus professores de teologia, Addison Leitch, falou aos alunos de uma ocasião em que ele foi preletor em um congresso missionário. Duas moças que ouviram sua pregação resolveram que queriam dedicar a vida ao serviço missionário. Os respectivos pais das moças �caram extremamente chateados com o dr. Leitch que, no parecer deles, havia enchido a cabeça dessas jovens com fanatismo religioso. Disseram-lhe: “Você sabe que o trabalho missionário é extremamente incerto. O salário é baixo e pode haver muitos perigos. Tentamos conversar com nossas �lhas. Elas precisam de emprego e de uma carreira, talvez de um mestrado ou algo semelhante para que possam ter alguma segurança antes de correr atrás dessa história de missões”. O dr. Leitch lhes disse o seguinte: “Vocês querem que elas tenham segurança? Todos nós estamos em uma pequena rocha que chamamos Terra, girando pelo espaço a milhões de quilômetros por hora. Algum dia, um alçapão se abrirá debaixo de cada um de nós e despencaremos por ele. Então, ou haverá milhões e milhões de quilômetros de vazio, ou os braços eternos de Deus. E vocês querem que elas façam um mestrado para ter um pouco mais de segurança?”.27 É na morte que Deus diz: “Se eu não sou sua segurança, você não tem segurança nenhuma, pois sou a única coisa que não lhe pode ser tirada. Eu acolherei você em meus braços eternos. Todos os outros braços o decepcionarão, mas eu jamais o abandonarei”. É extremamente desagradável sermos sacudidos, mas funciona. Ao despertar de suas ilusões, porém, �que em paz, pois se, pela fé, temos Jesus Cristo como Salvador, eis o que ele nos oferece. Lemos em Hebreus: Ao trazer muitos �lhos à glória, convinha que Deus, para quem e por meio de quem tudo existe, tornasse perfeito, mediante o sofrimento, o pioneiro da salvação deles. [...] Ele também participou de sua condição humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida estiveram escravizados pelo medo da morte (Hb 2.10,14,15). Para que Jesus nos salvasse, ele se tornou “pioneiro” de nossa salvação por meio do sofrimento e da morte. O termo usado aqui é archēgos. O estudioso da Bíblia William Lane diz que esse termo deveria ser traduzido por “nosso campeão”.28 O campeão era o soldado que participava de um combate representativo. Quando Davi enfrentou Golias, os dois lutaram como campeões de seus respectivos exércitos. Travaram um combate na condição de substitutos. Quando o campeão vencia, todo o seu exército era vitorioso na batalha, embora nenhum dos outros combatentes houvesse levantado um dedo. Foi o que Jesus fez. Ele enfrentou nossos maiores inimigos, o pecado e a morte. Ao contrário de Davi, ele não apenas arriscou a vida, mas entregou a vida; ao fazê-lo, porém, derrotou esses adversários. O castigo que merecíamos por nossos pecados ele tomou sobre si em nosso lugar, como nosso substituto. Mas, uma vez que ele próprio era um ser humano de perfeito e impecável amor por Deus e pelo próximo, a morte não pôde detê- lo (At 2.24). Ele ressuscitou dos mortos. Por isso, em Hebreus 2.14, o autor diz que ele derrotou a morte, pois morreu por nós, removeu nosso castigo e garantiu a ressurreição futura de todos que se unem a ele pela fé. Jesus Cristo, nosso grande capitão e campeão, matou a morte. Todas as religiões falam de morte e de vida depois da morte, mas, em geral, proclamam que temos de viver de forma correta a �m de estar preparados para a eternidade. E, no entanto, à medida que a morte se aproxima, todos nós sabemos que não chegamos nem perto de fazer o melhor que podíamos; não vivemos como deveríamos ter vivido. Consequentemente, por bons motivos, permanecemos até o �m escravizados pelo medo da morte. O cristianismo é diferente. Não nos deixa sozinhos diante da morte, exibindo nosso histórico de vida e torcendo para que seja su�ciente. Em vez disso, ele nos dá um campeão que derrotou a morte, que nos perdoa e nos cobre com seu amor. Enfrentamos a morte “nele” e com o histórico perfeito dele (Fp 3.9). À medida que sabemos dessa verdade, cremos nela e a aceitamos, somos libertos do poder da morte. Portanto, quando Hamlet falou da “terra incógnita de cujas fronteiras nenhum viajante retorna”, estava errado. Alguém voltou dos mortos. Jesus Cristo destruiu o poder da morte e “uma fenda se abriu” para nós “nas paredes impiedosas do mundo”.29 Quando entendemos essa verdade pela fé, não precisamos mais temer a escuridão. Paulo escreveu as famosas palavras: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, seu aguilhão?” (1Co 15.55). Paulo não enfrenta a morte de forma estoica. Ele zomba dela. Como é possível alguém em sã consciência olhar para o inimigo mais poderoso da humanidade e zombar dele? Logo em seguida, Paulo dá a resposta: “O aguilhão da morte é o pecado, e o poder do pecado é a lei. Mas graças a Deus! Ele nos dá vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 15.56,57). De acordo com Paulo, o “aguilhão da morte” (como Hamlet diz) é nossa consciência, nossa percepção de pecado e julgamento diante da lei moral. Mas Cristo removeu o pecado e o julgamento ou, mais precisamente, tomou-o sobre si para todos que creem. Donald Grey Barnhouse era pastor da igreja Tenth Presbyterian Church, na Filadél�a, quando sua esposa, com menos de 40 anos de idade, morreu de câncer e o deixou com quatro �lhos, todos com menos de 12 anos. Quando Grey e os �lhos iam de carro para o funeral, um caminhão enorme passou na pista da esquerda e projetou sobre eles sua sombra. Barnhouse perguntou a todos no carro: “Vocês preferem ser atropelados pelo caminhão ou pela sombra do caminhão?”. O �lho de 11 anos respondeu: “Pela sombra, é claro”. Barnhouse concluiu: “Foi o que aconteceu com sua mãe. Somente a sombra da morte passou sobre ela, pois a morte em si atropelou Jesus”.30 O aguilhão da morte é o pecado, e o veneno foi para Jesus. Portanto, qualquer indivíduo cristão tem poder para triunfar sobre a morte dessa maneira. Lembro-me de uma conversa que tive com um amigo sobre a esposa dele, que sofria de uma enfermidade crônica e que, repetidamente, contrariou as predições médicas e “venceu a morte”. Naquela ocasião, ela estava gravemente enferma outra vez, e havia a possibilidade real de que não se recuperasse. Durante a conversa, concordamos que, não importava o que acontecesse, o crente sempre vence a morte, quer faleça, quer não. Jesus Cristo derrotou a morte, e agora a única coisa que ela pode fazer é nos tornar mais felizes e amados que nunca. Se Jesus morreu por você e ressuscitou para ser seu vivo Salvador, o que a morte pode lhe fazer? 2 William Shakespeare, Hamlet, 4.3.30-31: “Pode acontecer de um homem pescar com o verme que comeu o rei”. 3 Ernest Becker, �e denial of death (New York: Free Press, 1973), p. 26 [edição em português: A negação da morte: uma abordagem psicológica sobre a �nitude humana, tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva (Rio de Janeiro: Record, 2007)]. 4 Annie Dillard, �e living: a novel (New York: HarperCollins, 1992), p. 141. 5 Howard P. Chudacoff, Children at play: an American history (New York: New York University Press, 2007), p. 22. 6 Atul Gawande, Being mortal: medicine and what matters in the end (New York: Metropolitan, 2014) [edição em português: Mortais: nós, a medicina e o que realmente importa no �nal, tradução de Renata Telles (Rio de Janeiro: Objetiva, 2017)]. 7 Geoffrey Gorer, “�e pornography of death”, 2003, disponível em: https://www.romolocapuan o.com/wp-content/uploads/2013/08/Gorer.pdf, acesso em: 22 set. 2020. 8 Veja David Bosworth, “�e new immortalists”, Hedgehog Review 17, n. 2 (Summer 2015). 9 Richard A. Shweder; Nancy C. Much; Manamohan Mahapatra; Lawrence Park, “�e ‘big three’ of morality (autonomy, community, divinity) and the ‘big three’ explanationsof suffering”, in: Richard A. Shweder, Why do men barbecue? Recipes for cultural psychology (Cambridge: Harvard University Press, 2003), p. 74. Para mais considerações sobre esse assunto, veja “�e cultures of suffering” [As culturas do sofrimento], in: Timothy Keller, Walking with God through pain and suffering (New York: Penguin/Riverhead, 2013), p. 13-34 [edição em português: Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento, tradução de Eulália Pacheco Kregness (São Paulo: Vida Nova, 2016)]. 10 Shweder, Why do men barbecue? Recipes for cultural psychology, p. 125. 11 Mark Ashton, On my way to heaven: facing death with Christ (Chorley: 10Publishing, 2010), p. 7-8. 12 Becker, �e denial of death, p. xvii. 13 Becker, �e denial of death, p. xvii. 14 Albert Camus, �e myth of Sisyphus and other essays (New York: Alfred A. Knopf, 1955) [edição em português: O mito de Sísifo, tradução da edição francesa de Ari Roitman; Paulina Watch (Rio de Janeiro: Record, 2018)]. 15 Becker, �e denial of death, p. 26-7. 16 Veja Julian Barnes, Nothing to be frightened of (London, Reino Unido: Jonathan Cape, 2008) [edição em português: Nada a temer, tradução de Léa Viveiros de Castro (Rio de Janeiro: Rocco, 2009)]. O artigo de Jessica E. Brown “We fear death, but what if dying isn’t as bad as we think?” foi publicado no jornal �e Guardian ( July 25, 2017). 17 Luc Ferry, A brief history of thought: a philosophical guide to living (New York: Harper, 2010), p. 4. 18 De Dylan �omas, In country sleep, and other poems (London, Reino Unido: Dent, 1952). 19 Citado em Wilfred M. McClay, “�e strange persistence of guilt”, Hedgehog Review 19, n. 1 (Spring 2017). 20 McClay, “�e strange persistence of guilt”. Andrew Delbanco, �e death of Satan: how Americans have lost the sense of evil (New York: Farrar, Straus and Giroux, 1995), p. 3, 9. 21 McClay, “�e strange persistence of guilt”. https://www.romolocapuano.com/wp-content/uploads/2013/08/Gorer.pdf 22 Andrew Delbanco, �e death of Satan: how Americans have lost the sense of evil (New York: Farrar, Straus and Giroux, 1995), p. 3, 9. 23 David Brooks, “�e cruelty of call-out culture”, New York Times ( January 14, 2019). 24 McClay, “�e strange persistence of guilt”. 25 De Eliot, “Murder in the cathedral”, in: �e complete plays of T. S. Eliot (New York: Harcourt, Brace, and World, Inc., 1935), p. 43 [edição em português: T. S. Eliot: obra completa, tradução de Ivan Junqueira; Ivo Barroso (São Paulo: Arx, 2004)]. 26 Hamlet, 3.1.87-88, 91. 27 Essa história foi relatada pelo dr. Leitch para um grupo de alunos da faculdade do qual eu fazia parte, em Bucknell University, em 1970. 28 William L. Lane, Hebrews 1—8, Word Biblical Commentary (Dallas: Word, 1991), vol. 47, p. 55-8. 29 C. S. Lewis, �e weight of glory [edição em português: O peso da glória (Rio de Janeiro: �omas Nelson Brasil, 2017)]. 30 Margaret N. Barnhouse, �at man Barnhouse (Carol Stream: Tyndale, 1983), p. 186. N 8 A RUPTURA DA MORTE NÃO SE ENTRISTEÇAM COMO AQUELES QUE NÃO TÊM ESPERANÇA Irmãos, não queremos que vocês [...] se entristeçam como o restante da humanidade que não tem esperança. Pois, cremos que Jesus morreu e ressuscitou e, portanto, também cremos que Deus trará juntamente com Jesus aqueles que nele dormiram (1Ts 4.13,14). o capítulo anterior, conversamos sobre como enfrentar a própria morte sem temor. Mas como enfrentar a morte de nossos queridos? Posso dizer sem medo de errar que haverá muita morte em seu futuro. Se você tiver a felicidade de viver por muitos anos, deparará cada vez mais com a morte, não apenas de colegas, mas também de amigos, e não apenas de amigos, mas também de pessoas muito amadas. De acordo com 1Tessalonicenses 4, o cristianismo nos dá recursos extraordinários para lidar com nossa morte e também com a perda de pessoas que amamos. Na epígrafe acima, Paulo diz a seus amigos: “Não quero que vocês se entristeçam como o restante da humanidade que não tem esperança”. Essa é uma frase com duas negações. Na verdade, ele está dizendo: “Quero que se entristeçam com esperança”. Paulo pede um equilíbrio extremo diante do Grande Inimigo. Quando imaginamos alguém “equilibrado” geralmente pensamos em alguém que evita extremos, mas Paulo nos exorta a buscar uma combinação equilibrada de dois extremos. Observe que ele não diz: “Não se entristeçam”. Ele quer que os cristãos se entristeçam quando seus queridos morrerem, mas quer que o façam de um modo especí�co. Também não diz: “Em vez de se entristecerem, quero que tenham esperança”, nem “Não há esperança nenhuma, então é melhor chorar e se entristecer”. Antes, ele diz que os cristãos podem e devem se entristecer profunda e plenamente e, no entanto, fazê-lo com esperança. Como isso funciona? Devemos nos entristecer Devemos nos entristecer, e não adotar uma abordagem estoica. Embora a tristeza seja apropriada, pode se transformar em amargura; pode tornar a vida amarga e sombria e sufocar a alegria, a menos que seja temperada com esperança. O exemplo mais notável disso é Jesus no túmulo de seu amigo Lázaro em João 11. Jesus não foi até Maria e Marta, as irmãs enlutadas, e aconselhou: “Não �quem assim. Nada de drama. Cabeça erguida. Sejam fortes”. Não falou nada disso. Quando Maria se dirige a ele, o texto nos informa no versículo mais curto da Bíblia que “Jesus chorou” ( Jo 11.35). Ele não fala, mas apenas chora. E, então, quando Jesus vai ao túmulo de Lázaro (embora a tradução em nosso idioma não mostre claramente), o texto diz que ele “bufava de ira” ( Jo 11.38).1 Jesus, o Filho de Deus, sabia muito bem que estava prestes a realizar um grande milagre e ressuscitar seu amigo. Seria de imaginar que ele caminharia para o túmulo serenamente, sorrindo e pensando: “Esperem até ver o que farei! Vai �car tudo bem!”. Em vez disso, ele chora, se entristece, �ca irado. Como é possível o Criador do mundo se irar com algo em seu mundo? Só é possível se a morte for uma intrusa. A morte não fazia parte do plano original de Deus para o mundo e para a vida humana. Veja os três primeiros capítulos de Gênesis. Não fomos criados para morrer; fomos criados para permanecer. Fomos criados para nos tornar cada vez mais belos com a passagem do tempo, e não cada vez mais debilitados. Fomos criados para nos fortalecer, e não enfraquecer e morrer. Paulo explica em Romanos 8.18-23 que, quando nos afastamos de Deus e nos tornamos nossos próprios senhores e salvadores, tudo se desintegrou. Nosso corpo, a ordem natural, nosso coração, nossos relacionamentos, nada funciona como foi criado originariamente para funcionar. Tudo está des�gurado, distorcido e quebrado, e a morte faz parte desse quadro (Gn 3.7-19). Por isso, Jesus chora e �ca irado com a monstruosidade da morte. Ela é uma terrível distorção da criação que ele ama. Portanto, a reação estoica de “nada de drama” diante da morte e da tristeza é errada. Há muitas versões dessa reação. Uma delas diz: “Não �que assim. Ele está com o Senhor. O Senhor faz todas as coisas cooperarem para bem. Não precisa chorar tanto. Claro que você vai sentir saudades dele, mas agora ele está no céu. E tudo acontece por um motivo”. Tecnicamente, talvez não haja nada de errado com essas declarações. É possível que sejam verdadeiras. Mas Jesus também conhecia todas elas. Sabia que Lázaro seria ressuscitado. Sabia dessa parte do plano do Pai para seu ministério. E, ainda assim, ele se entristeceu profundamente e se irou. Por quê? Porque essa é a reação correta diante do mal e da inaturalidade da morte. A maioria dos conselhos não cristãos para os enlutados é uma versão do estoicismo. Encontramos um exemplo antigo na Ilíada, em que Aquiles diz ao pai do falecido Heitor: “Seja forte [...] De nada adiantará entristecer- se por seu �lho”.2 Os céticos atuais dirão: “A morte é o �m. Nada mais. Entristecer-se por causa dela não faz diferença. Não ajuda em nada. As coisas são assim”. Uma versão moderna mais so�sticada da perspectiva secular nos instrui a considerar a morte uma parte perfeitamente natural do ciclo da vida.Diz: “A morte é natural. Faz parte da vida. Não há motivo para ter medo. Nosso corpo enriquece o solo como fazem a grama, as árvores e os outros animais quando morrem. Por �m, tornamo-nos poeira cósmica. Continuamos a fazer parte do Universo. É tranquilo”. Mas será que esse conceito de morte corresponde a nossas intuições mais profundas? O �lósofo cristão Peter Kreeft conta a história de um casal de amigos dele. Nenhum dos dois era religioso. Tinham um �lho de 7 anos cujo primo de 3 anos faleceu. Sentaram-se com o menino e procuraram consolá-lo. Disseram: “A morte é perfeitamente natural”. E, então, tentaram ajudá-lo ao explicar: “Não tem nada de errado com a morte. Ela é perfeitamente natural. Quando você morre, seu corpo vai para a terra, enriquece o solo e outras coisas podem crescer. Você viu no Rei leão. Lembra?”. Em vez de o garoto ser consolado, ele saiu do quarto correndo e gritando: “Eu não quero que ele seja adubo!”.3 Esse menino estava mais próximo da perspectiva de Jesus que seus pais. Estava triste. A morte não é normal. Não é como deve ser. Não é como Deus criou o mundo. Dizer: “A morte é natural” é endurecer e talvez até matar uma parte da esperança de nosso coração que nos torna humanos. Sabemos, lá no fundo, que não somos como as árvores ou a grama. Fomos criados para permanecer. Não queremos ser efêmeros e irrelevantes. Não queremos ser apenas uma onda sobre a areia. Desejamos no mais recôndito de nosso coração um amor duradouro. A morte não é o ideal. É anormal, não é uma amiga e não é correta. Não faz parte, verdadeiramente, do círculo da vida. Por isso nos entristecemos. Choramos. A Bíblia nos instrui não apenas a chorar, mas a chorar com os que choram (Rm 12.15, NASB). Temos de chorar um bocado. Devemos nos entristecer com esperança Embora certamente tenhamos o direito de nos entristecer, Paulo diz que devemos nos entristecer com esperança. Como vimos, reprimir a tristeza e a ira diante da morte não apenas faz mal para nós psicologicamente, mas também é prejudicial para nossa humanidade. E, no entanto, a ira também pode ser desumanizadora e nos tornar amargurados e endurecidos. Isso signi�ca que não podemos apenas nos “[enfurecer] com o perecimento da luz”. Também precisamos de uma esperança que in�uencie nossa forma de nos entristecer. Mas que motivo temos para esperança? Observe Jesus no túmulo de seu amigo Lázaro. Jesus estava triste, chorava e estava irado, embora soubesse que, em poucos minutos, ressuscitaria seu amigo. Ele tem conhecimento, porém, de algo que ninguém mais poderia imaginar. No �m do capítulo 11 de João, depois que Jesus ressuscita Lázaro, todos os seus adversários dizem: “É a gota d’água. Agora vamos ter de matá-lo. Vamos ter de matar Jesus”. Jesus sabia que a ressurreição de Lázaro forçaria seus inimigos a tomar medidas extremas. Por isso, estava ciente de que a única forma de tirar Lázaro do túmulo era ele próprio se colocar lá dentro. A �m de Jesus garantir ressurreição para todos que creem nele, precisa colocar-se na sepultura. Foi o que fez na cruz. Graças à morte de Jesus, somos libertos do pecado e da morte e participamos de sua ressurreição, como diz em Romanos 6.5-9: Pois, se fomos unidos a ele na semelhança de sua morte, certamente o seremos também na semelhança de sua ressurreição. Pois sabemos que nosso velho homem foi cruci�cado com ele, para que o corpo governado pelo pecado seja destruído, para que não mais sejamos escravos do pecado; pois quem morreu foi liberto do pecado. Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos. Pois sabemos que, tendo Cristo sido ressuscitado dos mortos, não pode morrer outra vez: a morte não tem mais domínio sobre ele. Jesus venceu a morte, e participaremos de sua ressurreição. Essa é nossa esperança. Se você não tem essa esperança, não sei ao certo o que você faz na presença da morte. Mas sei o que pode fazer: pode deixá-la envenenar sua alma e causar desespero. Ou pode acrescentar esperança à sua tristeza. Costumamos imaginar que tristeza e esperança são mutuamente exclusivas, mas Paulo diz que não é o caso. Uma ilustração pode ser útil para entender como as duas andam juntas. Durante muitos anos, costumava-se salgar carne para conservá-la. (Se você alguma vez comeu presunto curado, sabe que esse método de conservação ainda é usado.) O sal curava a carne para que não se estragasse. De modo semelhante, a menos que você salgue sua tristeza com esperança, sua tristeza vai piorar. Quando nos entristecemos e nos iramos diante da morte, reagimos a um grande mal de forma apropriada. No entanto, os cristãos têm uma esperança que pode ser “esfregada” em nossa tristeza e ira como o sal é esfregado na carne. Não é certo reprimir a ira nem dar lugar ao desespero. Nem a ira reprimida nem a fúria desenfreada fazem bem à alma. Mas aplicar esperança à tristeza nos torna sábios, compassivos, humildes e bondosos. Entristeça-se plenamente, mas com profunda esperança! Entende por que eu disse que não é moderação intermediária, mas, sim, uma combinação dos extremos? Essa combinação lhe dará mais força que o estoicismo e mais liberdade para lamentar que o desespero. Minha experiência pessoal com essa realidade aconteceu vários anos atrás. Um nódulo foi encontrado em minha tireoide e enviado para biópsia. Estava na clínica quando a patologista me disse: “Você tem um carcinoma”. A expressão de espanto em meu rosto foi o motivo pelo qual ela acrescentou: “Mas com certeza tem tratamento!”. E, de fato, foi possível tratar o câncer de tireoide. Ainda assim, nos meses subsequentes, percebi que uma coisa é dizer às pessoas: “Os cristãos têm esperança diante da morte” e outra é apropriar-se dessa esperança de modo pessoal e prático quando temos um câncer que pode nos matar. Descobri que uma das maneiras fundamentais de ter acesso a essa esperança cristã era meditar sobre as palavras de Paulo quando ele disse que não queria que seus amigos se entristecessem “como o restante da humanidade que não tem esperança”. Alguns comentaristas ressaltam que há muitas religiões, e quase todas elas acreditam em algum tipo de vida depois da morte. Como é possível, então, Paulo dizer que o restante da raça humana não tem esperança diante da morte? Como outros observaram, Paulo fala de modo relativo. Quando Jesus diz em Lucas 14.26 que seus seguidores devem “odiar seu pai e sua mãe”, quer dizer que a devoção ao Senhor deve ser tão grande que, em comparação com ela, todos os outros vínculos de lealdade empalidecem e parecem ódio. De modo semelhante, Paulo não diz que ninguém tem expectativa de vida depois da morte, mas que a esperança futura do cristão é singularmente poderosa. Ele nos chama a ter prazer na grandeza de nossa esperança a �m de que nos preparemos para a morte. O poder da esperança cristã Quais são algumas das características dessa esperança singular que temos diante da morte? Esperança pessoal É uma esperança pessoal. O futuro daqueles que morrem em Cristo é um mundo de amor in�nito. Algumas religiões dizem: “Sim, há vida depois da morte, mas perde-se a consciência pessoal. Perde-se a percepção de individualidade que, aliás, é uma ilusão. É como se você fosse uma gota d’água que volta para o mar. Deixa de ser uma gota e torna-se parte da Alma Única. Depois da morte, não há mais você ou eu, mas continuamos a fazer parte do Universo”. Contudo, Paulo diz: Pois, com uma ordem sonora, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre. Portanto, consolem-se uns aos outros com estas palavras (1Ts 4.16- 18). Observe todas as referências ao fato de que estaremos juntos uns com os outros. Você estará com as pessoas que perdeu. Veja, também, a expressão “com o Senhor”. Estaremos com ele para sempre. Essas são palavras que signi�cam relacionamentosde mágica, mas o faz por meio da união de um homem e de uma mulher, em geral ele produz o segundo nascimento de forma semelhante ao primeiro, por meio de relacionamentos de amor e, com frequência, por intermédio da família. Existe a tendência de os pecados se repetirem dentro da família. Procuramos em nossos pais e avós fraquezas que vemos em nós mesmos, embora não gostemos dessas características e nos esforcemos ao máximo para evitá-las. No entanto, a graça também é experimentada dentro da família. Amor e bons exemplos de fé e graça podem levar a criança a buscar essas mesmas coisas para sua vida. Batizar o �lho é de imensa ajuda para os pais. Eles fazem votos em um culto público, cercados de amigos da comunidade cristã. Hoje em dia, com exceção das cerimônias de casamento, as promessas feitas em público estão praticamente extintas, e, com isso, abrimos mão de um poderoso mecanismo para a formação do caráter. Fazer promessas solenes diante de familiares e amigos é algo que nos molda e deixa uma impressão indelével em nossa mente, coração e volição. No batismo, os pais fazem juramentos que implicam obrigações dentro de uma aliança. Prometemos crescer na graça (veja “Crescer na graça”) a �m de atrair nossos �lhos não tanto para nós, mas para nosso Salvador e Senhor. Prometemos educar a criança não em isolamento, mas no meio de uma comunidade de fé cujos membros são unidos por promessas feitas a Deus e uns aos outros. Em geral, os que estão ao nosso redor no batismo fazem votos verbais públicos de nos apoiar e também de cuidar de nossos �lhos. Nossa comunidade reúne-se para nos apoiar, e nos sentimos fortalecidos para o chamado e para a missão de educar nossos �lhos. E, embora o batismo não salve a criança, cremos que graça e as força divinas reais de Deus são concedidas em resposta a esses votos, pois nosso Deus é um Deus de aliança que honra promessas (Sl 56.12,13). Há quase tantos conjuntos de promessas feitas pelos pais no batismo quanto há denominações, mas um deles se destacou para nós: Para os pais 1. Vocês reconhecem que são salvos somente pela fé em Jesus? Não por qualquer outra coisa que tenham feito ou venham a fazer, mas pela obra consumada de Cristo, a morte na cruz, por meio da qual ele tomou sobre si o castigo por nossos pecados? 2. Vocês entendem que o batismo não é uma ordenança salvadora e, embora mostre que seu �lho se torna parte da comunidade da aliança, não é algo mágico? Entendem que cabe a seu �lho receber Cristo como Salvador e Senhor quando se tornar responsável diante dele? 3. Fizeram com Deus a aliança de devolver seu �lho a ele para que, se Deus em sua providência o chamar para si, não se queixem contra ele? Ou, se seu �lho chegar à vida adulta e for vocacionado para servir a Deus em um lugar distante, não o impeçam, mas o incentivem? 4. Prometem nessa aliança de sacramento com Deus educar seu �lho na instrução, obediência e adoração ao Senhor, orar por ele e mantê-lo na comunhão do povo de Deus, sendo �éis e afetuosos em seu lar, sendo exemplos piedosos de fé e, portanto, esforçando-se ao máximo para conduzi-lo ao conhecimento salvador de Cristo? Para a congregação 1. Vocês, membros desta congregação, se comprometem a orar por esses pais à medida que educam seus �lhos na fé cristã e a apoiá-los em seus esforços de dar aos �lhos deles mais exemplos de obediência e serviço a Deus? Se esses pais não cumprirem a tarefa que receberam de Deus, vocês se comprometem a repreendê-los e a corrigi-los com toda humildade?9 Educar o filho Dedicar o �lho a Deus por meio de promessas públicas diante da congregação conduz os pais a uma série de práticas cujo propósito é voltar o coração da criança para Deus. A cultura ocidental secular apresenta muitos desa�os ímpares a pais cristãos que desejam seguir esse caminho. As instituições culturais de nossa sociedade têm diversas premissas de fé a respeito da natureza humana e da moralidade e, no entanto, em geral não cristãos não reconhecem que essas premissas são crenças. Absorvemos as narrativas preponderantes da cultura por meio de anúncios, �lmes, séries, redes sociais e de inúmeras outras formas: “Seja �el a si mesmo”; “Corra atrás da felicidade e não abra mão dela”; “Você deve ter liberdade de viver como quiser, desde que não prejudique os outros”; “Ninguém tem o direito de dizer aos outros o que é certo ou errado”; “Viva de acordo com sua verdade”. Cada uma dessas declarações é nitidamente contrária ao ensino bíblico sobre discipulado, sobre pecado e graça e sobre o caráter de Deus. Todas elas pressupõem crenças bem questionáveis a respeito do propósito e da identidade dos seres humanos; e, no entanto, são apresentadas como convicções inegáveis e simplesmente objetivas, arrazoadas, abertas e cientí�cas. Sociólogos chamam esse fenômeno “misti�cação”, criar a impressão de que argumentos refutáveis na verdade são fatos incontestáveis a respeito da realidade. Vemos um bom exemplo disso em um artigo da revista New York Times sobre sexo. A autora a�rma que, durante séculos, sociedades tradicionais “consideraram aberrantes e condenaram prazeres sexuais que, como sabemos hoje, são saudáveis”.10 Essas culturas mais antigas, contudo, não consideravam essas práticas sexuais “doentias”, mas, sim, erradas. Era uma avaliação moral. No entanto, a autora não declara que, “como sabemos hoje, não existem normas morais em relação à sexualidade”, embora seja o que ela quer dizer. Em vez disso, ela envolve em linguagem cientí�ca suas convicções a respeito da sexualidade que, em muitos aspectos, remetem às crenças da cultura greco-romana antiga. Pais cujo desejo é que o coração de seu �lho se volte para Cristo e para o evangelho precisam estar cientes de que a cultura apresenta suas crenças como se fossem simplesmente bom senso e de ampla aceitação. Todos os dias, jovens passam horas nas redes sociais, imersos em ondas de histórias, depoimentos, �lmes, vídeos e anúncios que transmitem uma cosmovisão da modernidade secular. Se você imagina que simplesmente levar o �lho à igreja ou ao grupo de jovens uma vez por semana será su�ciente para vencer tudo isso e formá-lo para que seja um cristão dedicado, está enganado. O que provavelmente ocorrerá será o oposto: os hábitos mais profundos do coração e o discernimento instintivo de seu �lho se tornarão desvinculados das narrativas bíblicas que ele professa em público. Em algum momento no �m da adolescência ou na faculdade, o cristianismo deixará de parecer plausível. O que os pais podem fazer? O sociólogo James D. Hunter estudou currículos de “formação de caráter” usados em escolas em todo o território dos Estados Unidos. Cada currículo tem por objetivo produzir nos alunos honestidade, justiça, bondade, generosidade, sabedoria, autocontrole e outras virtudes. Hunter mostra, porém, que nenhum desses cursos e conteúdos usados em escolas públicas e particulares (confessionais ou não) produz, comprovadamente, mudança de caráter nos alunos.11 Martin Luther King Jr. é, com frequência, apresentado nesses currículos como modelo da virtude da justiça, e os alunos são exortados a imitá-lo. Hunter pergunta, contudo, como Martin Luther King Jr. se tornou esse homem? Foi produto de uma comunidade forte e profícua, a igreja afro-americana, que transmitia a seus membros não apenas princípios éticos, mas uma “cosmologia”, uma forma de entender o Universo por meio da história do Deus do livro de Êxodo, o Deus que liberta. Essa história não era ensinada na igreja apenas como relato inspirador de algo que havia acontecido no passado, mas como narrativa que explica a história como um todo e como as pessoas podem viver hoje. Em resumo, o que gerou alguém como Martin Luther King Jr. foi uma comunidade sólida que encarnou e praticou uma visão moral clara, baseada em um conjunto de crenças a respeito da origem do mundo, da natureza do ser humano e de seu destino.12 Evidentemente, salas de aula não são capazes de produzir tudo isso, mas famílias são, especialmente quando se encontram inseridas em uma comunidadepessoais, relacionamentos perfeitos de amor que duram para sempre. O conhecido sermão de Jonathan Edwards “O céu é um mundo de amor” começa com a asserção de que a maior felicidade que podemos conhecer é ser amados por outra pessoa; ele acrescenta, porém, que na terra os mais extraordinários relacionamentos de amor são como um cano entupido pelo qual passa apenas um pouco de água (ou de amor). No céu, porém, todos os pontos de “entupimento” serão removidos e o amor que experimentaremos será in�nito e inexprimivelmente maior que qualquer coisa que tenhamos vivenciado aqui.4 Na terra, escondemo-nos por trás de fachadas, pois temos medo de ser rejeitados, mas isso signi�ca que jamais experimentaremos o poder transformador de sermos plenamente conhecidos e, ainda assim, inteiramente amados. Além disso, amamos de forma egoísta e invejosa, que atrapalha, enfraquece e até acaba com relacionamentos de amor. Por �m, nossos relacionamentos de amor se desenvolvem à sombra do medo de perder a outra pessoa, o que pode nos tornar controladores a ponto de afastar as pessoas ou, em outros casos, nos levar a ter medo de assumir qualquer compromisso. Edwards encerra o sermão com a declaração de que todas essas coisas que podem reduzir o amor neste mundo e transformá-lo em apenas um �o de água no leito de um rio são removidas quando chegamos ao céu, onde o amor é uma torrente perpétua e uma fonte de prazer e êxtase que �ui in�nita e eternamente para nós e de nós. A esperança cristã é de um futuro pessoal de relacionamentos de amor. Esperança material Nossa esperança também é material. Observe que Paulo não diz apenas que iremos para o céu. Ele diz que “os mortos em Cristo ressuscitarão”. Sim, cremos que nossa alma vai para o céu quando morremos, mas esse não é o �nal culminante da salvação. No �m de todas as coisas, teremos um novo corpo. Seremos ressuscitados como Jesus foi. Lembre-se de que quando o Jesus ressurreto encontrou seus discípulos, asseverou que tinha “carne e osso”, que não era um espírito. Para provar esse fato, comeu diante deles (Lc 24.37-43). Ensinou seus discípulos que, ao contrário de todas as outras principais religiões, o cristianismo não promete um futuro somente espiritual, mas céus e terra renovados, um mundo material aperfeiçoado do qual terão sido eliminados lágrimas, enfermidades, o mal, a injustiça e a morte. Nosso futuro não é imaterial. No reino de Deus, não vamos levitar como fantasmas. Vamos caminhar, comer, abraçar e ser abraçados. Vamos amar. Vamos cantar, pois teremos cordas vocais. E vamos fazer tudo isso com graus de alegria, excelência, satisfação, beleza e poder que não somos capazes de imaginar no presente. Vamos comer e beber com o Filho do Homem. E essa é a derrota de�nitiva da morte. Não é apenas um consolo no céu para a vida material que perdemos. É a restauração dessa vida. É receber o amor, o corpo, a mente, o ser pelos quais sempre ansiamos. Você tem uma identidade verdadeira, uma essência autêntica dentro de si, mas também tem uma porção de falhas e fraquezas que encobrem, des�guram e escondem essa identidade. A esperança cristã, porém, é de que o amor e a santidade de Deus consumirão as falhas e as fraquezas. Naquele dia, olharemos uns para os outros e diremos: “Sabia que você poderia ser assim. Tive lampejos e vislumbres de seu verdadeiro eu. E agora, olhe só!”. Paulo, que tinha algum conhecimento de outras culturas e religiões do mundo, diz que nosso futuro não é um mundo impessoal e imaterial de espiritualidade abstrata, mas um futuro pessoal de relacionamentos de amor e de restauração de todas as coisas. Se a consciência desse futuro estivesse sempre presente em nossa mente, será que �caríamos tão desanimados quanto �camos por vezes? Por que pensar em vingança contra quem o tratou de forma injusta se você sabe que receberá não apenas tudo o que desejou, mas ainda mais do que ousa pedir ou imaginar? Por que ter inveja de alguém? Essa esperança é transformadora. Esperança beatífica A esperança pessoal e a esperança material são acompanhadas de esperança beatí�ca. Paulo não diz que simplesmente estaremos junto com outros. E também não gasta muito tempo explicando como o mundo será lindo quando for restaurado. Essa não é a ideia central em sua mente. A nota �nal, a ênfase maior é que estaremos “com o Senhor para sempre” (1Ts 4.17). Em outras palavras, teremos perfeita comunhão com ele e o veremos face a face. Historicamente, essa realidade é chamada “visão beatí�ca”. Paulo fala a seu respeito em 1Coríntios 13.12: “Agora, pois, vemos apenas um re�exo, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, assim como sou plenamente conhecido”. João também fala dessa visão em 1João 3.2: “Sabemos que, quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é”. Quando olharmos para a face de Cristo, seremos completamente transformados, pois, como Paulo diz, �nalmente seremos plenamente conhecidos e, no entanto, plenamente amados. Quando Moisés pediu, com temor e tremor, para ver a glória divina (Êx 33.18), Deus respondeu que seria fatal para qualquer ser humano contemplar sua glória diretamente (Êx 33.19,20). Seres humanos pecadores não podem entrar na presença do Deus santo e viver. Contudo, Moisés certamente sabia do perigo. Por que, a�nal de contas, ele buscou essa visão direta da glória de Deus? Porque sabia intuitivamente que fomos criados para conhecer e amar a Deus de modo supremo, para ter comunhão com seu amor e ver sua beleza. Moisés sabia, em alguma medida, que nossa inquietação humana, aquilo que nos leva a buscar aprovação, consolo, experiências estéticas, amor, poder, realização, é uma forma de preencher o que Agostinho chamou, celebremente, “um vazio do formato de Deus” dentro de nós. Em todos os braços procuramos os braços de Deus, em toda a face cheia de amor procuramos a face de Deus, em toda a realização procuramos a aprovação de Deus. Moisés estava em busca da visão beatí�ca, do relacionamento direto, face a face, com Deus para o qual fomos criados. A resposta de Deus a Moisés é, basicamente, o tema do restante da Bíblia e do próprio evangelho. Deus disse a Moisés que ele teria de ser coberto ou escondido na fenda de uma rocha para que visse apenas as “costas” de Deus (Êx 33.19- 23). No Antigo Testamento, vemos a glória de Deus residir no Santo dos Santos no Tabernáculo, presente no meio de seu povo, mas, em sua maior parte, inacessível. Quando Jesus vem ao mundo, porém, João anuncia que, em Cristo, “vimos a sua glória” ( Jo 1.14), e Paulo acrescenta que, graças à morte e à obra de Cristo em nosso favor, aqueles que creem nele experimentam, pela fé, um antegosto dessa futura visão transformadora. Escreve: Pois Deus, que disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ele mesmo fez sua luz brilhar em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2Co 4.6). Esse não é o encontro direto, face a face, que Moisés pediu e que, de acordo com Paulo e João, ainda está no futuro. Antes, é uma “visão pela fé” que podemos ter no presente. Ainda não podemos ver a glória de Deus com nossos olhos físicos, mas, pela fé, a Palavra e o Espírito podem nos dar forte percepção de sua presença e realidade em nossa vida e em nosso coração. Por vezes, lemos promessas e verdades das Escrituras, e Jesus se torna irresistivelmente real e consolador para nós. Paulo expressa esse fato da seguinte forma: E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do Senhor, estamos sendo transformados em sua imagem com glória cada vez maior vinda do Senhor, que é Espírito” (2Co 3.18). Paulo fala de algo que ocorre muito mais raramente do que deveria, mas não é uma experiência reservada para uns poucos santos. Em Romanos, ele escreve: “A esperança não nos decepciona, pois o amor de Deus foi derramado em nosso coração por meio do Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). Ele a�rma que nossa esperança futura é fortalecida na proporção em que não apenasconhecemos intelectualmente o amor de Deus, mas em que ele é derramado em nosso coração — é experimentado — por meio do Espírito Santo. Muitos vivenciaram aquilo a que Paulo se refere. Talvez você esteja lendo a Bíblia, orando ou cantando louvores a Deus quando percebe sua grandeza e seu amor. É apenas parcial, apenas pela fé, mas o consola e o transforma. É a luz de sua face que resplandece em nosso coração. William Cowper escreveu: Por vezes, uma luz surpreende o cristão enquanto ele louva; é o Senhor que ascende com sua cura que repousa.5 Como C. S. Lewis observa, se essa parte da glória de Deus que se encontra correnteza abaixo é tão inebriante, como será beber diretamente da fonte?6 Para isso fomos projetados. O salmo 16 termina com uma frase que diz, literalmente: “Em tua face há plenitude de alegria; à tua direita há prazeres eternos” (Sl 16.11). De acordo com Salmos 17.15, depois da morte, “Quando despertar, �carei satisfeito ao ver a tua semelhança”. John Flavel, pastor e teólogo inglês do século 17, escreveu sobre Salmos 17.15 e sobre a visão de Deus em nosso futuro: Será uma visão que proporcionará satisfação (Sl 17.15). [...] O entendimento não pode mais saber, a vontade não pode mais desejar, as afeições de alegria, deleite e amor descansam plenamente e se aquietam em seu devido centro. [...] Tudo o que lhe dá prazer nas coisas terrenas jamais poderá satisfazê-lo, pois todos os seus desejos são, eminentemente, pelo próprio Deus. [...] Os consolos que você teve aqui são apenas gotas que estimulam, em vez de satisfazer, os apetites de sua alma; mas o Cordeiro [...] os conduzirá a fontes de água viva (Ap 7.17).7 Kathy às vezes comenta comigo: “Uma das coisas boas da glória futura é que não precisamos comprar souvenirs”. Sabe o que ela quer dizer com isso? Não vivemos com arrependimentos. Não dizemos: “Não tirei fotos quando visitei aquele lugar” ou “Não tive esta ou aquela experiência”. Qualquer coisa maravilhosa ou extraordinária neste mundo é apenas um eco ou antegosto do que está presente na visão de Deus e no novo céu e nova terra, o mundo de amor. Quando, por �m, você vir o Deus do Universo olhar para você com amor, todas as potencialidades de sua alma serão liberadas e você experimentará a gloriosa liberdade dos �lhos de Deus. Esperança garantida Há mais um aspecto singular da esperança disponível aos cristãos. Enquanto outras religiões talvez creiam em vida depois da morte, não oferecem �rme garantia quanto a quem a desfrutará. Teócrito escreveu: “Esperanças são para os vivos; os mortos não têm esperança”.8 Outras religiões não têm como oferecer a nenhum indivíduo a certeza de que ele é su�cientemente virtuoso para merecer uma boa existência na vida depois da morte.9 No entanto, Paulo escreve: Cremos que Jesus morreu e ressurgiu e, portanto, cremos também que Deus trará com Jesus aqueles que nele dormiram (1Ts 4.14). Sobre o que Paulo está falando? O salário do pecado é a morte (Rm 6.23). É isso que merecemos. Quando um prisioneiro pagou toda a sua dívida, ele é liberto; a lei não tem mais direito de detê-lo. Portanto, quando Jesus pagou toda a dívida do pecado com sua morte, foi ressuscitado. A lei e a morte não podiam mais detê-lo. E também não podem nos deter se cremos nele. “Agora, já não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1). Quando depositamos nele nossa fé, estamos livres de condenação, como se nós mesmos tivéssemos cumprido a pena, como se tivéssemos morrido. “Ora, se morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6.8). É isso que Paulo diz em 1Tessalonicenses 4. Não apenas sabemos do mundo futuro de amor, da visão de Deus e de um Universo renovado. Recebemos a garantia de que essas coisas espantosas são nossas. Não imaginamos, cheios de ansiedade, se fomos bons o su�ciente para estar com Deus quando morrermos. Vivemos com a profunda certeza de todas essas coisas. Ela também faz parte de nossa esperança cristã sem igual. O que mais poderíamos pedir? Em Marcos 5, Jesus é levado a um quarto em que há uma garotinha morta. Todos choram alto e se lamentam, mas Jesus está calmo. Senta-se e segura a mão da menina. O relato de testemunhas oculares registra as palavras em aramaico que Jesus Cristo disse a ela: “Talitha koum”, cuja tradução mais apropriada é: “Meu amor, levante-se”. E ela se levantou. Jesus senta-se, segura a mão da menina e fala com ela como um pai ou uma mãe fala com uma criança em uma manhã ensolarada. Jesus diz: “Meu amor, é hora de se levantar”. O que Jesus tem diante de si naquele momento? A força mais tremenda, inexorável e implacável que a raça humana precisa enfrentar: a morte. E, com um leve movimento da mão, ele faz a menina se levantar! É sua forma de dizer: “Se eu o seguro pela mão, e se você me conhece pela fé, nada pode lhe fazer mal. Até mesmo a morte, quando chegar, será apenas como despertar de uma boa noite de sono. Se eu o seguro pela mão, até mesmo a morte, quando chegar, apenas o transformará em alguém mais extraordinário. Nada pode lhe fazer mal. Fique em paz.” C. S. Lewis diz: “Ele transformará o mais fraco e o mais imundo dentre nós [...] em uma esplendorosa e radiante criatura imortal, que pulsa com energia, alegria, sabedoria e amor inimagináveis, um espelho límpido, sem manchas, que re�ete Deus com perfeição (embora, evidentemente, em menor escala). Seu poder, prazer e bondade in�nitos. [...] É isso que nos espera. Nada menos”.10 Devemos rir e cantar de alegria Em nossa cultura, um dos poucos lugares em que é aceitável falar sobre morte é em um funeral. As pessoas comparecem a funerais por diferentes motivos. Um deles, obviamente, é honrar o falecido e expressar admiração por sua vida singular. No entanto, nossa mente também é obrigada a re�etir sobre coisas de importância suprema. Assim como pensamos em nosso casamento (em lembrança ou em expectativa) quando assistimos a uma cerimônia de casamento, um funeral nos confronta com o fato de que, um dia, outros comparecerão a nosso funeral. Com frequência, esse fato volta nossa atenção para perguntas sobre a realidade de Deus e da vida depois da morte, mesmo que esses pensamentos não surjam habitualmente. Depois de um funeral, porém, a menos que o falecido seja um membro da família ou um amigo chegado, a mente volta a seu modo habitual para manter os pensamentos sobre a morte afastados ao máximo. Em um culto fúnebre (em contraste com um culto em memória do falecido), estamos literalmente na presença da morte. Há um corpo no caixão. Embora as pessoas tenham várias reações na presença da morte, podemos cometer dois erros opostos: um é desesperar-nos em excesso; outro é dar de ombros e deixar de aprender uma lição necessária. Nenhuma dessas atitudes nos bene�cia; logo, devemos seguir a instrução que a Bíblia nos dá: devemos nos entristecer e ter esperança; devemos despertar da negação e descobrir uma fonte de paz que não nos abandonará; e, por �m, devemos rir e cantar. A Bíblia diz que, quando o Filho de Deus voltar, os montes e os bosques cantarão de alegria. Quando o Filho de Deus se levantar trazendo cura em suas asas, quando Jesus Cristo voltar, a Bíblia diz que os montes e as árvores cantarão de alegria, pois nas mãos dele �nalmente nos tornaremos tudo o que Deus planejou que fôssemos. E se é verdade que os montes e as árvores cantarão de alegria, o que seremos capazes de fazer? Uma das grandes expressões de esperança da literatura cristã vem de George Herbert, poeta cristão do século 17. Ele escreveu um poema chamado Um hino diálogo. De modo elegante e potente, imagina um diálogo entre a morte e o cristão com base em 1Coríntios 15. UM HINO DIÁLOGO George Herbert C������: Ai, pobre Morte! Onde está tua glória? Onde está tua afamada força, teu antigo aguilhão? M����: Ai, pobre mortal, ignorante da história! Vai e lê como matei teu Rei. C������: Pobre morte! E quem com isso foi ferido? Tua maldição, lançada sobre ele, torna-te amaldiçoada. M����: Os vencidos podem falar, mas um dia tu morrerás; Estes braçoste esmagarão. C������: Não me poupes; faze o pior que puderes. Um dia, serei melhor que antes; e tu, muito pior, deixarás de existir. Cristão olha para a Morte e diz: “Venha, não me poupe. Faça o pior que puder. Atinja-me com teu golpe mais potente. Quanto mais me humilhar, mais alto me elevará. Com quanto mais força me acertar, mais radiante e glorioso serei”. Em outro texto, George Herbert diz: “A morte costumava ser carrasco, mas o evangelho a transformou em jardineiro”. A morte podia nos esmagar, mas agora a única coisa que pode fazer é nos plantar no solo de Deus para que nos tornemos algo extraordinário. Muitos anos atrás, pouco antes de o conhecido pastor de Chicago, Dwight Moody, falecer, ele disse: “Em breve, vocês lerão nos jornais de Chicago que Dwight Moody faleceu. Não acreditem. Estarei mais vivo que agora”. Entristeça-se com esperança; desperte e �que em paz; ria diante da morte e cante de alegria por aquilo que o espera. Se Jesus o segura pela mão, você pode cantar. Uma oração Nosso Pai, tu és a força de teu povo, e pedimos agora que cures os entristecidos em nosso meio e cuides de suas feridas. Pedimos que lhes concedas, e a todos os outros, a visão da vida em que todas as lágrimas foram enxugadas e todas as sombras fugiram. Desperta-nos agora no poder de teu Espírito para que te sigamos com esperança e con�ança e concede-nos teu bondoso poder para nos proteger, teu sábio poder para nos sustentar, tua beleza para nos extasiar, tua paz para nos satisfazer, e eleva nosso coração na luz e no amor de tua presença. Pedimos em nome de Jesus Cristo, aquele que é a Ressurreição e a Vida. Amém. 1 Consulte algum bom comentário. Um exemplo: George R. Beasley-Murray, John, Word Biblical Commentary (Plano: �omas Nelson, 1999), vol. 36, p. 194. 2 Homer, �e Iliad, 24.549-51, citado em N. T. Wright, �e resurrection of the Son of God (Minneapolis: Fortress, 2003), p. 2 [edição em português: A ressurreição do �lho de Deus (São Paulo: Paulus, 2013)]. 3 Peter Kreeft, Love is stronger than death (San Francisco: Ignatius, 1979), p. 2-3. 4 Veja Jonathan Edwards, “Sermon �fteen: heaven is a world of love”, in: �e works of Jonathan Edwards, WJE Online, Jonathan Edwards Center, Yale University, disponível em: http://edwards.yal e.edu/archive?path=aHR0cDovL2Vkd2FyZHMueWFsZS5lZHUvY2dpLWJpbi9uZXdwaGlsby9n ZXRvYmplY3QucGw/Yy43OjQ6MTUud2plbw==, acesso em: 23 set. 2020. 5 De Sometimes a light surprises, hino de William Cowper, 1779. 6 C. S. Lewis, “�e weight of glory”. 7 John Flavel, Pneumatologia: a treatise of the soul of man, in: �e works of John Flavel (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1968), vol. 3, p. 121. 8 Citado em F. F. Bruce, 1 and 2 �essalonians, Word Biblical Commentary (Plano: �omas Nelson, 1982), vol. 45, p. 96. 9 Veja, por exemplo, N. T. Wright, Resurrection of the Son of God, p. 32-206. 10 C. S. Lewis, Mere Christianity (New York: Macmillan, 1960), p. 174-5 [edição em português: Cristianismo puro e simples, tradução de Álvaro Oppermann; Marcelo Brandão Cipolla (São Paulo: Martins Fontes, 2009)]. http://edwards.yale.edu/archive?path=aHR0cDovL2Vkd2FyZHMueWFsZS5lZHUvY2dpLWJpbi9uZXdwaGlsby9nZXRvYmplY3QucGw/Yy43OjQ6MTUud2plbw== A PALAVRAS ADICIONAIS SE VOCÊ ESTÁ DIANTE DA POSSIBILIDADE DE MORRER fé cristã confere aos crentes promessas e esperanças sem igual diante da morte. Devemos sempre orar pedindo cura, pois temos um Deus todo- poderoso que ouve nossas orações. Mas também devemos estar preparados para nos encontrar com ele face a face a qualquer momento. Essa é nossa oportunidade de fazer ambas as coisas: orar e nos preparar. Você crê que Jesus veio para ser seu Salvador, para viver a vida que você deveria viver e também para morrer em seu lugar a �m de fazer expiação por seus pecados e lhe dar salvação como dádiva gratuita da graça? Você se arrependeu de tudo o que fez de errado e deixou essas coisas para trás? Você con�a e descansa somente nele para ser aceito por Deus? Se você tem essa fé, não enfrentará a condenação de Deus (Rm 8.1). Se ainda sente di�culdade de experimentar o consolo e a certeza do amor de Deus diante da morte, pergunte-se: “Está clara em minha mente a diferença entre salvação pela fé na obra e no histórico de Cristo, e não em minha obra e meu histórico? Será que, de maneiras sutis, meu coração ainda se apega, em parte, à ideia de que preciso merecer a salvação?”. Se você ainda pensa que precisa merecer a salvação, recordações de fracassos do passado obscurecerão seu coração. Rejeite esses pensamentos e medite em Filipenses 3.4-9. Paulo diz nessa passagem que, se alguém pensa que pode “con�ar na carne” (a convicção de que boas obras nos tornam merecedores da vida eterna), ele muito mais. Paulo não conhecia ninguém mais religioso e moralmente zeloso que ele próprio. Mas ele entendia que essas coisas de nada adiantavam. A única coisa que importava era “ser encontrado nele, não tendo minha própria justiça [histórico moral] que procede da lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia na fé”. Há muitas promessas bíblicas nas quais os crentes podem meditar ao enfrentar a morte. Eis alguns textos para considerar ao longo da semana ao re�etir sobre sua morte ou ver-se diante dela. São sete textos, um para cada dia: Segunda-feira. “Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei envergonhado, mas que terei coragem su�ciente para que agora, como sempre, Cristo seja exaltado em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porque, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E, no entanto, o que devo escolher? Não sei! Estou dividido entre os dois” (Fp 1.20-23). Embora a Bíblia diga que a morte é uma monstruosidade trágica, para o cristão, que tem certeza de seu relacionamento com Deus, é uma situação em que eles só têm a ganhar. Há maneiras inigualáveis de servir a Deus e de desfrutá-lo tanto aqui quanto no céu. Paulo não está mentindo quando diz que se sente “dividido entre os dois”. Terça-feira. “Mas agora, assim diz o S����� [...]: ‘Não tema, pois eu o resgatei; eu o chamei pelo nome; você é meu. Quando você atravessar as águas, eu estarei com você; e, quando atravessar os rios, eles não o encobrirão. Quando você passar pelo fogo, não se queimará; as chamas não o deixarão em brasas. Pois eu sou o S�����, o seu Deus, o Santo de Israel, o seu Salvador’” (Is 43.1-3). Deus diz claramente que, se pertencemos a ele, ele jamais nos abandonará. O sofrimento aqui só nos torna mais belos, da mesma forma que a pressão cria o diamante. E, se morremos, é apenas uma porta escura para a alegria suprema. Re�ita sobre este hino baseado em Isaías 43: A alma que em Cristo buscou repousar, a seus inimigos não vou entregar. Embora o inferno a queira abalar, jamais, jamais eu a hei de abandonar.1 Quarta-feira. “Por isso não desanimamos. Embora exteriormente estejamos nos desgastando, interiormente estamos sendo renovados dia após dia. Pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, �xamos os olhos não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é temporário, mas o que não se vê é eterno” (2Co 4.16-18). Se chegamos à velhice, percebemos nosso corpo (e nossa beleza) se desvanecer, mas, se estamos crescendo na graça de Deus, nossa alma está, por assim dizer, se tornando cada vez mais forte e bela. Na morte, essa inversão é completa. Nosso corpo se desintegra e nos tornamos esplendorosamente gloriosos. Console-se com essas palavras. Quinta-feira. “Sabemos que, se for destruída nossa tenda, a habitação terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna no céu, não construída por mãos humanas. [...] Pois, enquanto estamos nesta casa, gememos e nos angustiamos, porque não queremos ser despidos, mas revestidos de nossa habitação celestial, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida. [...] Temos, pois, con�ança e preferimos estarausentes do corpo e habitar com o Senhor. Por isso, temos o propósito de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer fora dele” (2Co 5.1,4,8,9). Diz-se que um capelão do exército consolou com as seguintes palavras um soldado assustado antes da batalha: “Se viver, Jesus estará com você, mas, se morrer, você estará com ele. De qualquer forma, ele cuida de você”. Sexta-feira. “Não se perturbe o coração de vocês. Vocês creem em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, acaso eu lhes teria dito que vou lhes preparar lugar? E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiver [...] Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe seu coração, nem tenha medo” ( Jo 14.1-3,27). O mundo só pode nos oferecer a paz que diz: “Provavelmente não será tão ruim”. A paz de Jesus é diferente. Ela diz: “Mesmo que o pior ocorra, sua morte será, em última análise, a melhor coisa que pode acontecer”. Todos ansiamos por um “lugar” que seja nosso verdadeiro lar. Jesus diz que esse lugar está esperando por você. Sábado. “Se a�rmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, ele é �el e justo para perdoar os nossos pecados e nos puri�car de toda injustiça. [...] escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo 1.8—2.1). Se nos recusarmos a reconhecer nosso pecado e o encobrirmos, Deus o revelará. Se nos arrependermos sem inventar desculpas e o revelarmos, Deus o cobrirá da maneira mais extraordinária. Os crentes sabem que Cristo está, por assim dizer, diante do tribunal de justiça e é nosso “advogado de defesa”. Quando Deus, o Juiz, olha para nós, ele nos vê “em Cristo”, e nossos pecados não podem nos condenar. O cristão não tem motivo para temer a morte ou o julgamento. Domingo. “Pois considero que os sofrimentos do presente não se podem comparar com a glória que será revelada em nós. [...] Que diremos, então, diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou nem o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem trará alguma acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justi�ca. Quem os condenará? Foi Cristo Jesus que morreu — mais do que isso, que foi ressuscitado — e que está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo ou espada? [...] Não, em todas essas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois tenho certeza de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem autoridades, nem coisas do presente nem do futuro, nem poderes, nem altura, nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação poderá nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.18,31-35,37-39, ESV). A resposta para a pergunta de Paulo é: “Nada! Nada no céu, na terra ou em qualquer lugar pode nos separar do amor de Deus em Cristo!”. Junto do caixão de nossos queridos ou ao contemplarmos nossa morte futura, temos convicção de que nada pode nos separar de Deus. Se você perdeu alguém querido Se a morte foi repentina, não imagine que você precisa tomar de imediato decisões importantes, como onde morará ou se mudará de emprego. É provável que não seja um bom momento para tomar decisões desse tipo. Se a pessoa querida morreu depois de uma longa enfermidade, ou mesmo depois de um tempo em que �cou inconsciente ou confusa, muitas vezes começamos a “abrir mão” dela em nosso coração antes de ela falecer. Mas, se a morte foi um choque inesperado, é possível que você tenha uma impressão de irrealidade por um bom tempo. É a sensação de que você está em um sonho, ou em um �lme, ou de que é outra pessoa. Nessa situação, viva um dia de cada vez e faça uma coisa de cada vez, à medida que for necessário, sem gastar tempo demais ou de menos com outros. À medida que você assimilar a realidade e, por �m, começar a abrir mão da pessoa, terá mais condições de pensar no futuro. Mas não se apresse. Seja honesto a respeito de seus pensamentos e sentimentos em relação a outros, a Deus ou até a si mesmo. Não imagine que é “pouco espiritual” ter questionamentos e esbravejar. Lembre-se de Jesus, que chorou e se irou com a morte de seu amigo Lázaro. Lembre-se de Jó, que clamou ao Senhor. Jó se queixou em alta voz, mas se queixou para Deus. Ele nunca deixou de orar e de se encontrar com Deus, embora essa prática não lhe tenha trazido muitos benefícios imediatos. Só porque sabemos que uma pessoa querida está com Cristo e que, um dia, estaremos juntos, não signi�ca que devemos nos sentir felizes no presente e reprimir a tristeza, ou mesmo a ira. De maneira nenhuma. Jesus não reprimiu os sentimentos dele! Contudo, não expresse emoções de uma forma inteiramente desenfreada, prejudicial a si mesmo ou a outros ao seu redor. Quando perdemos alguém querido que era crente, devemos meditar no estado de alegria em que ele agora se encontra. Quando a esposa de C. S. Lewis faleceu, ele ouviu alguém dizer: “Ela está na mão de Deus” e, de repente, uma imagem se formou em sua mente: “Ela está na mão de Deus.” Essa ideia ganha nova energia quando penso em minha esposa como uma espada. Talvez a vida terrena que dividi com ela fosse apenas uma parte do processo de lhe conferir têmpera. Agora, quem sabe ele segura sua empunhadura; avalia o peso da nova arma; faz com ela raios no céu. “Uma verdadeira lâmina de Jerusalém.” [...] Que perverso seria se pudéssemos trazer de volta os mortos!2 Se pudéssemos ver �sicamente nossos queridos neste momento, seriam tão extraordinariamente radiantes e belos que seríamos tentados a nos curvar e adorá-los. Não que eles deixariam. O maior desa�o depois de perder alguém querido é perceber que o amor, a alegria e a graça que agora parecem ter sumido ainda estão disponíveis diretamente da fonte original, o Senhor. Há profundezas, fontes de poder disponíveis na comunhão com ele, das quais você ainda nem começou a beber. Não é algo que acontece de imediato. Não espere uma vida de oração muito maravilhosa por enquanto. Ela virá acompanhada da mesma impressão de irrealidade que todas as outras coisas. Mas, com o tempo, haverá consolo e paz inimagináveis a seu dispor. Quando temos outras coisas — cônjuge, família, amigos, saúde, um lar, segurança —, não somos impelidos a verdadeiramente sondar as profundezas daquilo que está a nosso dispor na comunhão e na oração. Há mais que su�ciente para sustentá-lo para o resto de sua vida como alguém mais profundo, mais sábio e até mais alegre (em alguns aspectos) do que antes da tragédia. Por vezes, feridas desse tipo jamais desaparecem. Mas, como as marcas dos pregos nas mãos de Jesus, podem se tornar “ricas feridas [...] glori�cadas em beleza”.3 Apegue-se à esperança de que você não sentirá para sempre o vazio que sente agora. Eis algumas passagens para re�etir durante uma semana ao enfrentar a morte de alguém querido. São sete textos, um para cada dia: Segunda-feira. “Os dias do ser humano estão determinados; tu decretaste o número de seus meses e estabeleceste limites que ele não pode ultrapassar. Por isso, desvia dele o teu olhar, e deixa-o, até que ele cumpra seu tempo como trabalhador contratado” ( Jó 14.5,6). “Tiraste de mim meus amigos e meus companheiros; [agora] as trevas são minha companhia mais chegada” (Sl 88.18). O que nos revela o fato de Deus não apenas permitir, mas incluir, esses pensamentos em sua Palavra? Ele sabe como nos sentimos e o que dizemos quando estamos em desespero.4 Terça-feira. “O justo perece, e ninguém pondera sobre isso em seu coração; os piedosos são tirados, e ninguém entende que os justos são tirados para serem poupados do mal. Aqueles que andam retamente entrarão na paz; acharão descanso na morte” (Is 57.1,2). Da nossa perspectiva, a morte, especialmentedos jovens, não é nada além de um grande mal. E, no entanto, não conhecemos o futuro. E se a morte é a forma de Deus tomar pessoas para si, lhes dar paz e salvá-las do mal? Por que essa ideia é tão contraintuitiva para os seres humanos? Quarta-feira. Leia João 11.17-44. Jesus mostra que ele vê a morte da perspectiva de Deus e da perspectiva dos seres humanos enlutados. Ele chora com Maria e Marta e, no entanto, se ira (v. 38) com a morte, mesmo sabendo que ressuscitará Lázaro de imediato. Embora Deus esteja trazendo seu povo para o lar com ele, conhece a tristeza e a devastação que a morte causa e se entristece profundamente junto conosco. É de ajuda para você em algum aspecto saber que Deus odeia a morte? “Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, jamais morrerá. Você crê nisso?’” ( Jo 11.25,26). Você crê nisso? Em caso a�rmativo, de que maneira isso in�uencia sua forma de se entristecer? Quinta-feira. “E, se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é inútil; vocês ainda estão em seus pecados. Nesse caso, também os que dormiram em Cristo estão perdidos. Se é somente para esta vida que temos esperança em Cristo, dentre todas as pessoas somos as mais dignas de compaixão. Mas de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre aqueles que dormiram. Uma vez que a morte veio por meio de um só homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem. Pois da mesma forma que em Adão todos morrem, em Cristo todos serão vivi�cados” (1Co 15.17-22). Paulo aposta a credibilidade de todo o cristianismo no fato de que Jesus ressuscitou dos mortos. Se a fé cristã é apenas um consolo nesta vida, somos dignos de compaixão, e aqueles que morreram esperando em Cristo se foram para sempre. Portanto, antes de considerar qualquer outro ensinamento ou proposição do cristianismo, esta é a primeira pergunta a fazer: Jesus foi ressuscitado dos mortos? Se a resposta for “sim”, o caminho adiante, embora traga sofrimento, conduz à esperança. Se a resposta for “não”, a vida não tem sentido. Qual é a resposta? Sexta-feira. “Sabemos que, se for destruída nossa tenda, a habitação terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna no céu, não construída por mãos humanas. Enquanto isso, gememos, desejando ser revestidos de nossa habitação celestial. Pois, enquanto estamos nesta casa, gememos e nos angustiamos, porque não queremos ser despidos, mas revestidos da nossa habitação celestial, para que aquilo que é mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem nos preparou para esse propósito foi Deus, que nos deu o Espírito como garantia do que está por vir” (2Co 5.1-5). Paulo rejeita de modo especí�co a ideia de que, quando morremos, nos tornamos espíritos desencarnados; antes, somos revestidos de imortalidade. Ele já havia tratado desse tema em 1Coríntios 15, em que falou sobre a ressurreição do corpo (v. 42-54). Portanto, a passagem pela morte não é o ingresso em uma vida fantasmagórica, mas em uma vida de plenitude e alegria inimagináveis. Nossos queridos não dos deixam para, então, entrarem em um lugar de escuridão. Eles nos deixam e entram na luz. Sábado. “O S����� é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz deitar em pastos verdejantes. Conduz-me para as águas tranquilas. Restaura minha alma. Conduz-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo; tua vara e teu cajado me consolam. Preparas diante de mim uma mesa na presença de meus inimigos; unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do S����� para todo o sempre” (Sl 23, ESV). Eis uma série de consolos para os entristecidos. Ao caminhar pelo vale da sombra da morte, lembre-se de que Jesus, o Pastor, o conduziu até ali. Ele tem consolo para lhe oferecer e maneiras de fortalecê-lo, aprofundá-lo e desenvolvê-lo que seriam impossíveis em qualquer outra situação. Portanto, agradeça pela presença dele, não se entregue à autocomiseração e busque-o em oração mesmo quando não sentir a presença dele (ele está presente). Jesus passou pela morte, sozinho e rejeitado por todos (Mt 27.46) para que, ao enfrentarmos a morte de nossos queridos, ou mesmo nossa morte, jamais estejamos sozinhos. Domingo. “Portanto, agora, já não há condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito que dá vida libertou você da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1,2). Muitos não têm consciência da condenação que foi pronunciada sobre eles, ou não sabem de sua magnitude, exceto, talvez, por uma sensação incômoda de apreensão. Diante da morte, porém, nosso Inimigo permite que vejamos toda a amplitude de nossa traição cósmica. Que resposta temos para lhe dar? Apenas que Jesus tomou sobre si nosso castigo e nos libertou, e agora não resta condenação para nós. Alegre-se! 1 De How �rm a foundation, hino de John Rippon, 1787, tradução de Fabiano Silveira Medeiros. 2 C. S. Lewis, A grief observed (New York: HarperOne, 2001), p. 63, 76 [edição em português: A anatomia de uma dor: um luto em observação, tradução de Alípio Franca (São Paulo: Vida, 2006)]. 3 De Crown him with many crowns, hino de Matthew Bridges e Godfrey �ring, 1851. 4 Derek Kidner, Psalms 1—72: an introduction and commentary (Leicester, Reino Unido: InterVarsity, 1973), p. 157. LEITURA RECOMENDADA SOBRE O TEMA DA MORTE B����, Joseph. �e view from a hearse (Elgin: David C. Cook, 1969). E�����, Elisabeth. Facing the death of someone you love (Westchester: Good News, 1982). K�����, Timothy. Walking with God through pain and suffering (New York: Penguin/Riverhead, 2013). ______. Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento. Tradução de Eulália Pacheco Kregness (São Paulo: Vida Nova, 2016). Tradução de: Walking with God through pain and suffering. ______. Making sense of God: �nding God in the modern world. (New York: Penguin, 2016). ______. Deus na era secular: como céticos podem encontrar sentido no cristianismo. Tradução de Jurandy Bravo (São Paulo: Vida Nova, 2018). Tradução de: Making sense of God. CONHEÇA OUTRAS OBRAS DE TIMOTHY KELLER O autor mostra a todos — cristãos, céticos, solteiros, casais casados há muito tempo e aos que estão prestes a noivar — a visão do que o casamento deve ser segundo a Bíblia. Usando a Bíblia como guia, e com os comentários muito perspicazes de Kathy, sua esposa há 37 anos, Keller mostra que Deus criou o casamento para nos trazer para mais perto dele e para dar mais alegria à nossa vida. Jesus mudou a vida de cada pessoa com quem se encontrou nos Evangelhos. Por meio de experiências e palavras poderosas, ofereceu às indagações dessas pessoas respostas inesperadas e transformadoras. Esses diálogos podem oferecer respostas a nossos questionamentos e dúvidas ainda hoje. “Você deseja saber quem é, quais são seus pontos fortes e fracos? Deseja ser uma pessoa compassiva e que sabe ajudar os que estão sofrendo? Quer confiar tanto em Deus que não se abalará com as decepções da vida? Deseja ter sabedoria para direcionar a vida? Esses quatro desejos comuns são cruciais, mas nenhum deles é alcançado sem sofrimento. Não há como saber quem realmente somos até sermos provados. Não há como demonstrar empatia e solidariedade para com as pessoas que sofrem, a não ser que tenhamos sofrido. Não há como aprender de verdade a confiar em Deus até começarmos a afundar nas águas.” Jesus veio a este mundo como rei, mas um rei que teve de carregar um fardo que ninguém jamais suportou. A cruz do Rei traz um relato da vida de Cristo no Evangelho de Marcos, mas apresentado sob a ótica de Keller. Por meio desse relato, descobrimos o significado cósmico, histórico e pessoal da vida de Jesus, e somos desafiados a reexaminar nosso relacionamento com Deus. Salmos é o livro de cânticos das Escrituras. Jesus conhecia intimamentetodos os 150 salmos e se valeu deles ao enfrentar várias situações, até mesmo a morte. Duas décadas atrás, Tim Keller começou a ler todo o Livro de Salmos a cada mês. Os cânticos de Jesus baseia-se em todos esses anos de estudo, reflexão e inspiração registrados em diários de oração. Kathy Keller dedicou-se à leitura dos salmos para encontrar apoio durante um período prolongado de enfermidade. Juntos, eles registraram o significado de cada versículo, convidando os leitores a mergulhar na vasta sabedoria dos salmos. Nesse devocional, Tim Keller — juntamente com a esposa, Kathy —oferece a seus leitores reflexões novas e inspiradoras para cada dia do ano e baseadas em diferentes passagens desse livro sapiencial. Com sua capacidade marcante de relacionar uma compreensão profunda da Bíblia com o pensamento contemporâneo e com as questões práticas que todos enfrentamos, Keller desvenda a poesia magistral e os valiosos ensinamentos de Provérbios e nos guia em direção a uma nova compreensão do que significa viver bem. Ficha catalográfica Folha de rosto Créditos Agradecimentos Apresentação Primeira parte: Nascimento 1. Primeiro nascimento 2. Segundo nascimento 3. Crescer na graça Segunda parte: Casamento 4. Começar o casamento 5. Manter o casamento 6. O destino do casamento Terceira parte: Morte Palavras introdutórias 7. O medo da morte: a consciência transforma a todos nós em covardes 8. A ruptura da morte: não se entristeçam como aqueles que não têm esperança Palavras adicionais Leitura recomendada sobre o tema da mortede fé. Hunter chama esse fenômeno de ecossistema moral. Consiste em comunidades que se reforçam mutuamente em contextos nos quais as crianças vivem, como a igreja e o lar (e, por vezes, também a escola) e em que determinada visão e narrativa do mundo e dos valores morais provenientes delas são ensinadas, explicadas, exempli�cadas e aplicadas à vida diária. As características dessa comunidade formativa sempre abrangem uma cosmologia moral e um texto investido de autoridade, bem como discurso moral, imaginação moral e apresentação de modelos morais. Um ecossistema moral Em Deuteronômio 6, a Bíblia oferece um vislumbre do ecossistema moral que os pais cristãos devem estabelecer com seus �lhos para que estes se transformem em cristãos prudentes, com caráter moral fundamentado no evangelho. O início de Deuteronômio 6 apresenta o objetivo da formação de caráter. Estes são os mandamentos, os decretos e as leis que o S�����, seu Deus, ordenou que eu lhes ensinasse, para que vocês os cumpram na terra que vocês estão atravessando o Jordão para dela tomar posse, a �m de que vocês, seus �lhos e os �lhos deles temam ao S�����, seu Deus enquanto viverem ao guardarem todos os seus decretos e mandamentos, que eu lhes ordeno e para que tenham vida longa. Ouça, Israel, e tenha o cuidado de obedecer para que tudo lhe vá bem e para que você se multiplique grandemente em uma terra que mana leite e mel, como lhe prometeu o S�����, o Deus de seus antepassados (Dt 6.1-3). O objetivo não é apenas comportamento ético (“guardem todos os seus decretos e mandamentos”), mas também a reverência e a admiração interiores diante da grandeza de Deus (“temam ao Senhor”). É um coração transformado, e não apenas aquiescência comportamental. Para isso, são necessários hábitos do coração em que Deus é a maior fonte de signi�cado, identidade, esperança e felicidade. Como é possível desenvolver esse coração? Princípios morais só fazem sentido quando são fundamentados em uma cosmologia moral, um retrato do Universo que os sustente. Vemos aqui que, se obedecermos aos mandamentos de Deus, “tudo [nos irá] bem” e “[teremos] vida longa” (v. 3). O Deus da Bíblia é nosso amoroso Criador, que nos projetou para servir, conhecer e amar a Deus e a nosso próximo. Portanto, obedecer às leis de nosso Criador é não apenas honrá-lo, mas também viver de acordo com a forma que fomos projetados, como faz o peixe quando vive na água, e não em terra seca, ou como faz o proprietário de um carro quando segue as instruções do manual. Nessa comunidade, também há um texto moral investido de autoridade, a Bíblia. Deuteronômio é uma série de sermões de Moisés para a comunidade do povo de Deus. Os Dez Mandamentos, divinamente revelados, são apresentados no capítulo 5, e, no capítulo 6, Moisés diz que “esses mandamentos” são os que “devem estar no coração dos israelitas” e gravados na mente de seus �lhos. É evidente que a igreja cristã tem, além de Deuteronômio, a Bíblia inteira como texto investido de autoridade para a sabedoria moral prática. A comunidade cristã conta, ainda, com o que Hunter chama discurso moral. Não basta anotar as regras morais em um quadro e obrigar os estudantes a memorizá-las. Como Deuteronômio 6 diz, é preciso “[conversar] sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar” (v. 7). Aplicar as normas à vida diária concreta exige atenção constante e muita sabedoria. Temos de considerar as várias escolhas que fazemos todos os dias e perguntar: “Qual é a conduta certa nessa situação?”. Precisamos explicar para nossos �lhos por que determinada decisão ou ação harmoniza com o que sabemos sobre Jesus e seu evangelho. Temos de mostrar às crianças que as ordens de Deus não são apenas algo em que cremos de forma abstrata, mas algo que precisa estar “nos braços [...] [e] na testa” (v. 8). Devemos mostrar como os pensamentos diários (“testa”) e como as ações diárias (“braços”) são moldados por nossa fé e nossa experiência de Cristo. Nessa comunidade, também há imaginação moral. O texto clássico de Alasdair MacIntyre, After virtue, mostra que há séculos o caráter moral tem sido instilado de modo mais e�caz por histórias que corpori�cam e ilustram qualidades morais.13 As histórias do passado de nossa comunidade por vezes são as mais formativas. No futuro, quando seu �lho lhes perguntar “O que signi�cam estes preceitos, decretos e leis que o S�����, nosso Deus, ordenou a vocês?”, respondam: “Fomos escravos do faraó no Egito, mas o S����� nos tirou do Egito com mão poderosa. Diante de nossos olhos, o S����� realizou sinais e maravilhas grandiosos e terríveis contra o Egito e contra o faraó e toda a sua família. Mas ele nos tirou de lá para nos trazer para cá e nos dar a terra que, sob juramento, prometeu a nossos antepassados. O S����� nos ordenou que obedecêssemos a todos esses decretos e que temêssemos o S�����, nosso Deus, para que sempre fôssemos bem-sucedidos e preservados em vida, como é o caso hoje” (Dt 6.20-24). Observe que, quando os �lhos �zerem a importante pergunta “Por quê?” — “Por que jamais devemos mentir? Jamais devemos roubar? Jamais devemos cometer adultério?” —, a resposta não deve ser um sermão sobre �loso�a moral. Antes, os pais devem responder com narrativas, histórias de lutas entre bem e mal, que cativam a imaginação e formam o coração muito mais que argumentos e proposições. Hebreus 11 fornece um resumo neotestamentário daqueles que podemos chamar “heróis da fé”, como Abraão, Jacó, José, Moisés e outros. É importante entender, porém, que essas �guras bíblicas não são como os exemplos morais de outras culturas. Abraão, Jacó, Davi, Pedro (entre vários outros) eram profundamente imperfeitos e tiveram uma vida caracterizada por sérios e repetidos fracassos morais. Por que essas são as histórias o que devemos apresentar a nossos �lhos? Porque o evangelho é a mensagem da salvação por meio da graça imerecida de Deus. A salvação em Cristo não é para os poderosos, competentes e bem-sucedidos, mas para os que têm força su�ciente para reconhecer que não são nenhuma dessas coisas. Em lugar de uma série de modelos de virtude ideais, triunfantes e quase impecáveis, a Bíblia mostra pessoas fracas que não merecem a graça de Deus, que não a buscam e não a valorizam, mesmo depois de, apesar de tudo, Deus a ter concedido. Os que mais recebem graça são os que se mostram mais arrependidos. São narrativas como essas que apresentam de modo bastante vívido os princípios e o poder do evangelho. Os princípios morais cristãos são implicações dinâmicas do amor salvador de Jesus por nós no evangelho. Fazer justiça, ser honestos, reconciliar-nos com inimigos e permanecer puros são coisas que desejamos fazer quando o evangelho da graça custosa de Jesus é não apenas compreendido, mas assimilado com o coração e aplicado à vida diária. Por �m, a comunidade cristã que constitui um ecossistema moral é caracterizada pela apresentação de modelos morais. Em meio às várias instruções sobre o que devemos fazer com nossos �lhos, Moisés diz: Obedeçam com cuidado aos mandamentos do S�����, seu Deus, e aos preceitos e decretos que ele lhes deu. Façam o que é justo e bom aos olhos do S����� (Dt 6.17,18). É possível que esse seja o elemento mais prático de uma comunidade e�caz, que forma caráter. Crianças precisam ver valores e características morais exempli�cados nas pessoas ao redor. Temos de viver aquilo que cremos e professamos. A hipocrisia afasta nossos �lhos de nós e, quando isso acontece, é um distanciamento merecido. Kathy e eu somos gratos porque, apesar de termos sido pais apenas medianos, nossos �lhos adolescentes desenvolveram grande apreço pela fé cristã. Isso porque, em nossa igreja em Nova York, cresceram cercados de rapazes e moças na casa dos 20 e 30 anos, bem-sucedidos em suas áreas de atuação e de caráter cativante, mas também seriamente comprometidos com Cristo. Hoje em dia, manuais de educação de �lhos muitas vezes aconselham os pais a não tentar incutir seus“valores” nos �lhos, mas lhes dar apoio para que formem os próprios valores.14 A realidade, porém, é que todos no mundo ao redor — desde anunciantes a redes sociais, e a maioria dos professores de seus �lhos — tentarão implícita ou explicitamente catequizá- los com ideias como “viva sua verdade”. Se você não se empenhar em ensinar seus �lhos, outra pessoa o fará. Se não criarmos ecossistemas morais que formem nossos �lhos à semelhança de Cristo, eles serão formados pelos ecossistemas morais do mundo. Suportar a espada Quando Maria e José levaram Jesus ao templo para ser dedicado, encontraram Simeão, um senhor idoso que, pelo Espírito Santo, discerniu que a criança era o Messias há muito prometido. Depois da conhecida declaração “Agora podes despedir em paz o teu servo. Pois meus olhos viram tua salvação” (Lc 2.29,30), Simeão voltou-se para Maria e profetizou: Este menino está destinado a causar a queda e a elevação de muitos em Israel, e a ser um sinal contra o qual se falará, e assim, o pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a você, uma espada também atravessará sua alma (Lc 2.34,35). Simeão diz que, apesar de toda a paz que Jesus trará ao mundo, ele também trará con�ito. Ao a�rmar que é o Filho de Deus, ele proverá salvação e descanso para muitos, mas outros o rejeitarão e, portanto, haverá divisão a seu respeito. Maria, em especial, como mãe de Jesus, experimentará a mais profunda alegria de ver a grandeza de seu �lho junto com a mais profunda tristeza de vê-lo ser preso, torturado e morto. Claro que, depois da ressurreição de Jesus, �caria evidente para Maria que o sofrimento suportado por seu �lho tinha sido para a salvação de todos nós. Até então, porém, sua experiência não seria diferente da de todas as mães e pais. Em meio à alegria, há uma espada. Em certo sentido, todo relacionamento de amor é acompanhado de “uma espada que atravessa o coração”, pois, quando verdadeiramente amamos alguém, ligamos nosso coração a essa pessoa e atrelamos nossa felicidade à felicidade dela. Não podemos ser plenamente felizes enquanto ela não for feliz. No caso dos pais, esse vínculo é involuntário; daí dizer que “você só conseguirá ser feliz na mesma medida que seu �lho mais infeliz”.15 Não é de admirar que tantos hoje em dia tenham resolvido não ser pais. Mas, assim como Jesus não podia abençoar o mundo sem causar sofrimento a seus pais, não podemos dar ao mundo a bênção da nova vida de nossos �lhos sem aceitar a espada em nosso coração. Devemos suportar a espada com fervorosas orações, e não com autopiedade e preocupação (Fp 4.6), mas também com a consciência de que o próprio Jesus nos deu a salvação pela qual ele pagou um preço inimaginável, acompanhado, literalmente, de pregos e espinhos. Eis o recurso extraordinário que o cristianismo oferece aos pais: o exemplo de Cristo, que nos mostra que nutrir vida sempre exige sacrifício. Aqueles que desejam ver a civilização ter continuidade e o amor crescer aceitam de bom grado os sacrifícios que acompanham a nova vida. Esse livro é dirigido a eles. Se você entregar seus �lhos a Deus, cultivar o coração deles em comunidade e aceitar com oração e graça o sacrifício de educá-los, é possível que eles contemplem o segundo e “novo” nascimento pelo Espírito Santo. É desse tema que trataremos nos próximos dois capítulos. 1 Tradução de Robert Hawkey Moreton (1887), in: Hinário para o culto cristão (Rio de Janeiro: JUERP, 1990), n. 96. 2 Derek Kidner, Psalms 73—150: an introduction and commentary, Tyndale Old Testament Commentaries (Downers Grove: InterVarsity, 1975), vol. 16, p. 502-3 [edição em português: Salmos 73—150: introdução e comentário, Cultura Bíblica (São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1981 [reimpr., 1992])]. 3 Christy Raj tece comentários interessantes sobre os gêneros na Trilogia Cósmica de C. S. Lewis, disponível em: http://withhandsopen.com, acesso em: 22 set. 2020. Recomendo tanto os textos de Raj quanto uma leitura atenciosa de Out of the silent planet [Além do planeta silencioso], Perelandra e �at hideous strength [Aquela fortaleza medonha] (publicados em 2019 pela �omas Nelson Brasil) para algumas das re�exões mais instigantes e proveitosas escritas até hoje sobre masculinidade/gênero masculino e feminilidade/gênero feminino. 4 Jennifer Senior, All joy and no fun: the paradox of modern parenthood (New York: HarperCollins, 2014), p. 43 [edição em português: Muita alegria, pouca diversão: o paradoxo da vida com �lhos, tradução de Alyda Sauer (Rio de Janeiro: Bicicleta Amarela, 2015)]. 5 Senior, All joy and no fun, p. 44. 6 Senior, All joy and no fun, p. 8. 7 C. S. Lewis, Prince Caspian (New York: Macmillan, 1951), p. 182 [edição em português: Príncipe Caspian, tradução de Paulo Mendes Campos (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017)]. 8 A maioria das igrejas cristãs no mundo (a Ortodoxa Oriental, a Católica, a Anglicana, a Luterana, a Presbiterana e a Metodista reformada) pratica o batismo de crianças, mas claro que há centenas de milhões de cristãos que não o praticam e que só batizam pessoas com idade su�ciente para fazer uma pro�ssão consciente de fé. Não procuraremos apresentar aqui uma defesa do batismo de crianças. Antes, cremos que quase todos os cristãos entendem e praticam, de uma forma ou de outra, o http://withhandsopen.com/ gesto espiritual básico da circuncisão israelita e do batismo cristão de crianças, o gesto de oferecer o �lho a Deus, trazê-lo para dentro da comunidade de fé, orar pela graça de Deus e esperar que essa graça seja derramada sobre a família para a tarefa de educar os �lhos. 9 Há diversas versões dessas perguntas online. Evidentemente, foram alteradas para uso em diferentes igrejas, e não há como identi�car qual versão é mais próxima do original. Forneço uma representação das variantes ligeiramente diferentes que encontrei. 10 Kim Tingley, “What can brain scans tell us about sex?”, New York Times Magazine (September 18, 2019). 11 Veja James D. Hunter, �e death of character (New York: Basic, 2001). 12 Veja Hunter, �e death of character, part three: unintended consequences, p. 153-227. “Uma série de evidências mostra que a educação moral tem efeitos mais duradouros sobre os jovens quando eles se encontram inseridos em um mundo social que encarna de modo coerente uma [cosmologia] moral de�nida por um entendimento claro e inteligível do bem público e pessoal [...] em que a escola, as organizações de jovens e a comunidade de modo mais amplo têm em comum uma cultura moral integrada e se reforçam mutuamente. [...] É claro que comunidades com esse nível de integração e estabilidade culturais são raras nos Estados Unidos hoje em dia” (p. 155). 13 Alasdair MacIntyre, After virtue: a study in moral theory (South Bend: University of Notre Dame Press, 2007) [edição em português: Depois da virtude: um estudo em teoria moral, tradução de Jussara Simões (São Paulo: EDUSC, 2001)]. 14 Essas duas perspectivas são devidamente apresentadas em Kenneth Keniston; Carnegie Council on Children, All our children: the American family under pressure (New York: Houghton-Mifflin Harcourt Press, 1978). 15 Timothy Keller; Kathy Keller, God’s wisdom for navigating life (New York: Viking, 2016), p. 285 [edição em português: A sabedoria de Deus: um ano de devocionais diários em Provérbios, tradução de Lucília Marques (São Paulo: Vida Nova, 2019)]. E 2 SEGUNDO NASCIMENTO Havia um fariseu chamado Nicodemos, membro do conselho de líderes judeus. Ele veio a Jesus, à noite, e disse: “Rabi, sabemos que és mestre vindo da parte de Deus. Pois ninguém pode realizar os sinais miraculosos que estás fazendo se Deus não estiver com ele”. Em resposta, Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo”. “Como alguém pode nascer, sendo velho?”, perguntou Nicodemos. “Certamente não pode entrar pela segunda vez no ventre de sua mãe e renascer!” Jesus respondeu: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. O que é nascido da carne écarne, mas o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3.1-6). sse é o texto mais conhecido e mais importante da Bíblia sobre nascer de novo, ou nascer pela segunda vez. Ele nos permite tratar de várias perguntas sobre o novo nascimento. A quem se aplica? De onde vem? O que ele realiza? Como acontece? A quem se aplica? O que vem à mente dos americanos em geral quando ouvem a expressão “cristão nascido de novo”? Com frequência, pensam em um tipo especí�co de pessoa. Há quem seja emotivo, busque uma experiência de catarse e goste de levantar as mãos e balançar o corpo enquanto canta hinos. No parecer de muitos, esse é o tipo de pessoa que gosta da religião do novo nascimento. Outros pensam em indivíduos que precisam de um bocado de estrutura moral. É possível que tenham vivido de forma desregrada, caído em vícios e enfrentado outros problemas que tomaram conta de sua vida. Acredita-se que pode ser bom para indivíduos nessa situação ter uma religião com vários princípios absolutos e regras. Esse é outro tipo de pessoa que precisa da religião do novo nascimento. Por �m, em nossa sociedade, cristãos “nascidos de novo” são conhecidos por votar em candidatos politicamente conservadores. Sem dúvida, a realidade é muito mais complexa, mas a imagem pública leva ao mesmo tipo de conclusão. Acredita-se que ser nascido de novo é algo apenas para pessoas com determinado temperamento, experiência de vida ou a�nidade política. O problema dessas ideias �ca evidente em Nicodemos. O capítulo 3 do Evangelho de João mostra um homem que procura Jesus à noite. O texto nos fornece diversas informações a seu respeito em poucas palavras. Era “fariseu” e “membro do conselho de líderes judeus”, o Sinédrio. Com base nesses dois fatos, podemos deduzir várias coisas a seu respeito. Como membro do conselho, era um homem mais velho da classe governante. Como fariseu, não apenas era íntegro e religioso, mas tinha grande autodisciplina. Não era, portanto, o “tipo emotivo”. Nem era alguém cuja vida tinha se desintegrado e que precisava de estrutura moral. Era fariseu, o exemplo perfeito de estrutura moral. Mas será que era do tipo ultraconservador? Talvez essa seja sua impressão, mas considere o modo surpreendente em que ele é retratado aqui. Ocupa um lugar no centro do poder, é guardião das principais instituições culturais de sua época. E, no entanto, o vemos procurar Jesus, um homem que nunca havia frequentado as escolas rabínicas, que não tinha credenciais acadêmicas nem políticas e que vinha dos níveis mais baixos da classe trabalhadora. Apesar disso tudo, Nicodemos se dirige a ele de forma respeitosa, chama-o “rabi” e deseja aprender com ele. Esse quadro mostra não apenas enorme generosidade de espírito, mas também uma mente aberta em grau extraordinário. A�nal de contas, quem é Nicodemos? É um indivíduo íntegro e bem- sucedido, mas generoso, tolerante e aberto para novas ideias. Não é alguém com uma vida disfuncional, que precisa de estrutura, nem alguém emotivo, que precisa de uma experiência de catarse, e também não é alguém preconceituoso e conservador. Ainda assim, é a ele que Jesus diz: “Você precisa nascer de novo”. Jesus não diz “Sabe de uma coisa, Nicodemos? Você é um sujeito legal em vários aspectos. Tem muita coisa a seu favor, mas, se acrescentar os seguintes deveres e práticas, �cará quites com Deus”. Não. A mensagem é: nada do que Nicodemos tinha feito até então o havia aproximado um centímetro de Deus. Jesus disse: “Se você quer se relacionar com o Rei do mundo, terá de ser completamente refeito, da estaca zero. Terá de nascer de novo”. O chamado de Jesus não pode, portanto, ser um chamado para que pessoas disfuncionais adotem uma moralidade e uma religião estruturadas. Na verdade, é um desa�o à moralidade e à religião, pois são elas que Nicodemos representa. Jesus subverte o sentimento de superioridade segundo o qual o novo nascimento é apenas para determinados tipos de pessoa. E, se a salvação se baseia no novo nascimento, e não em realizações pessoais, qualquer um pode nascer de novo. O que Jesus diz é radical, mas simples. Todos precisam nascer de novo, pois não há outra forma de ver o reino de Deus. O novo nascimento é para todos. De onde vem? Em João 3.3, Jesus diz que é preciso nascer de novo para ver o reino de Deus e, no versículo 5, ele diz que é preciso nascer de novo para entrar no reino de Deus.1 Lembre-se de que Jesus está falando com um fariseu. O que “reino de Deus” signi�cava para um judeu como Nicodemos? Signi�cava a ressurreição no �m dos tempos, os novos céus e a nova terra prometidos por Isaías (Is 65.17; 66.22). Assim como uma equipe ou organização repleta de con�itos e disfunções se torna uma unidade coesa debaixo de um bom líder, quando Deus voltar à terra no �m dos tempos, a presença de seu pleno poder régio e de sua glória porá tudo em ordem. Muitos �lósofos gregos acreditavam que a história era in�nita e cíclica, com grandes expurgações periódicas em que o mundo era queimado e puri�cado. Depois dessas expurgações, a história recomeçava. Chamavam esse fenômeno palingenesia, que signi�ca regeneração ou renascimento do mundo. Mas esses “renascimentos” nunca eram de�nitivos. Eram um recomeço, mas a história sempre se movia, inevitavelmente, para a decadência.2 No entanto, em Mateus 19.28 Jesus lança mão desse termo técnico da �loso�a grega e o emprega de forma surpreendente. Fala da “renovação de todas as coisas [palingenesia], quando o Filho do Homem se assentar em seu trono glorioso”. Diz que os �lósofos estavam equivocados. Quando ele voltar para governar, haverá uma regeneração do mundo, mas será de�nitiva. Não apenas encerrará o ciclo das coisas para que possam voltar a acontecer, mas destruirá todo o mal e a morte e eliminará o sofrimento e as lágrimas. Evidentemente, essa a�rmação, em si mesma, é uma declaração espantosa. Em Tito 3.5,6, porém, quando Paulo fala do novo nascimento, diz: “Ele nos salvou pelo lavar da regeneração e da renovação pelo Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador”. Em nossa língua, essas palavras não impressionam tanto, mas o termo grego para “regeneração” é palingenesia. Paulo diz claramente o que Jesus deixou implícito ao associar o novo nascimento ao reino de Deus. O reino de Deus e todo o seu poder in�nito de puri�car e renovar só virão plenamente no �m da história, mas o novo nascimento é uma implantação do poder futuro de Deus em sua vida agora. A glória futura que Deus revelará no �m dos tempos para curar todas as coisas no mundo pode entrar em sua vida neste momento, de modo parcial, porém real, e começar a transformar você de dentro para fora. De onde vem o novo nascimento? Vem do futuro! Sem dúvida, é surpreendente ver na Bíblia uma mensagem associada com mais frequência a histórias de viagem no tempo, mas temos aqui um relato de não �cção de viagem no tempo. No novo nascimento não vamos ao futuro; o futuro vem a nós. O que viaja é o tempo e não nós. O novo nascimento é o poder de Deus de regenerar o mundo, poder que entra em sua vida no presente para começar de modo lento, mas indubitável, a transformar você à imagem de seu Filho (Rm 8.29). Uma vez que essa ideia pode parecer bastante abstrata, deixe-me mostrar uma implicação extremamente prática. Nunca subestime o poder de transformação do novo nascimento. Veja Pedro, um sujeito covarde, sem força moral. Veja Paulo, um sujeito rígido, severo e cruel. E, no entanto, o novo nascimento transformou Pedro em leão corajoso e Paulo em terno pastor e transformou ambos em �guras que mudaram o mundo. Por acaso eles eram feitos de matéria-prima mais promissora que você ou eu? De jeito nenhum. Não existe nada em nossa vida — mágoa, temor, culpa, vergonha, fraqueza ou defeito — que o novo nascimento não possa remover e começar a curar. O que faz? A característica mais essencial do novo nascimento é o que ele faz com a pessoa que o experimenta. As palavras de Jesus nos mostram que o novo nascimento é, como se esperadessa metáfora, a implantação de nova vida. Em João 3.5, Jesus diz que precisamos “nascer da água e do Espírito”. Na opinião de muitos, isso signi�ca que duas coisas são necessárias para que sejamos salvos: precisamos de fé e do batismo. É bem mais provável, contudo, que Jesus esteja falando de uma coisa só. Estudiosos da Bíblia mostram que Jesus está se referindo a Ezequiel 36, em que o Espírito de Deus é comparado a água, pois em climas áridos, de deserto, a água era tão necessária para a vida que era, praticamente, sinônimo de vida. Em resumo, o novo nascimento é a implantação da vida de Deus, do próprio Espírito Santo, em você. O que isso signi�ca? Sem dúvida, poderíamos dizer uma porção de coisas se olhássemos para diversas partes do Novo Testamento. Vamos nos limitar, porém, à metáfora que Jesus emprega aqui, de nascer como uma criança que sai do ventre materno para o mundo. Nascer de novo signi�ca duas coisas que �cam implícitas nessa imagem: nova sensibilidade e nova identidade. No novo nascimento, recebemos nova sensibilidade.3 Jesus diz que é necessário nascer de novo para “ver” o reino de Deus (v. 3). Todos os seres vivos, até mesmo as plantas, têm alguma forma de perceber seu ambiente. Os seres humanos, obviamente, têm os cinco sentidos e, quando o bebê nasce, é bombardeado por novas experiências sensoriais de luzes, sons, odores e sabores. Deve ser arrebatador. De modo semelhante, o novo nascimento é acompanhado de um novo sentido espiritual. É a capacidade não apenas de compreender intelectualmente verdades anteriormente incompreensíveis a respeito de Deus, de nós mesmos e do mundo, mas também de sentir essas verdades no coração de forma inteiramente nova. Estar espiritualmente vivo signi�ca ser capaz de perceber realidades espirituais, pois agora temos visão e paladar espirituais. Uma das primeiras áreas em que essa mudança �ca evidente é na forma de ler a Bíblia. Talvez você tenha sido criado na igreja e na escola dominical, conheça as histórias da Bíblia e tenha até memorizado uma porção de versículos. Depois do novo nascimento, contudo, você começa a perceber ligações e verdades na Bíblia que nunca havia observado antes ou com as quais talvez houvesse concordado mentalmente, mas que agora impelem, consolam e iluminam você de maneiras inéditas. Você tinha ouvido que “Deus ama você”, que “Deus é santo e justo” e que “Deus cuida de você”, e talvez concordasse com algumas dessas proposições, mas agora elas se tornam realidades transformadoras que in�uenciam sua vida diária e suas ações. Você começa a enxergar implicações antes inimagináveis. Talvez diga: “Espere um pouco. Se isso é verdade a respeito de Deus, por que me sinto dessa forma? Por que me comporto dessa forma? Não preciso mais ser assim”. Archibald Alexander, o primeiro professor de teologia do Princeton �eological Seminary, no início do século 19, fala dessa experiência: Todo o ser humano em que essa operação divina foi realizada experimenta novas perspectivas da verdade divina. A alma vê, nessas coisas, aquilo que jamais havia visto antes. Ela discerne, na verdade de Deus, uma beleza e uma excelência das quais, até então, não tinha concepção alguma. Logo em seguida, Alexander a�rma que, embora esse novo “sentido” e essa nova “sensibilidade” espirituais estejam presentes em todos os que passam pelo novo nascimento, não devemos esperar que surjam e se desenvolvam de forma idêntica em todos. Escreve: “Qualquer que seja a diversidade na clareza das perspectivas de diferentes indivíduos, ou nas verdades especí�cas apresentadas à mente, todos concordam que há uma nova percepção da verdade”.4 Ninguém pode asseverar que essas novas percepções surgem da mesma maneira. Por vezes, as mudanças são drásticas e, por vezes, são bastante gradativas. Além disso, nem sempre é a mesma verdade especí�ca que fala mais profundamente ao indivíduo recém-nascido na fé. Esse novo sentido espiritual pode operar de inúmeras maneiras diferentes. Ainda assim, existem alguns elementos em comum. Um deles é que os crentes dizem: “Ouvi isso minha vida inteira, mas nunca havia feito sentido”. De modo especí�co, é comum pessoas declararem que o amor de Jesus ao morrer na cruz por elas �nalmente se tornou palpável, comovente e belo. “Como bebês recém-nascidos, desejem intensamente o puro leite espiritual da Palavra” (NASB), o apóstolo Pedro escreve em 1Pedro 2.2. Verdades bíblicas deixam de ser apenas palavras em uma página e passam a ser alimento e bebida que você desfruta e que se tornam parte de quem você é. Eis um exemplo claro. Anos atrás, participei de uma comissão de pastores encarregada de avaliar rapazes prestes a ingressar no ministério. Pedimos que cada um deles relatasse em poucas palavras como havia chegado a crer em Cristo. Todos deram um testemunho parecido: “Embora tenha crescido na igreja, não ouvi ser pregado ali o evangelho da salvação somente pela graça”. Em seguida, explicaram que, por �m, tinham ouvido o evangelho por meio de algum outro ministério. Depois que mais um candidato disse a mesma coisa, um dos pastores da comissão contou uma história. Disse que também tinha sido criado na igreja e que, a certa altura, havia até procurado estudar o cristianismo ao fazer cursos, entre eles um em que estudou sobre Martinho Lutero e leu trechos de seu famoso comentário de Gálatas. Alguns anos depois, quando ele estava no exército, o capelão explicou-lhe o evangelho. Ele percebeu que sempre havia imaginado que ser cristão signi�cava tentar viver como Jesus e que, se o �zesse com sinceridade e dedicação su�cientes, iria para o céu. O capelão mostrou-lhe, porém, que a salvação era somente pela graça por meio da obra de Cristo em nosso favor (sua vida, morte e ressurreição) e que a salvação podia ser recebida de uma vez por todas em um ato de fé. Com gratidão e alegria, ele deu esse passo de fé com o capelão. Em seguida, perguntou ao capelão por que ninguém havia lhe apresentado o evangelho antes, e acrescentou: “Não sei como Martinho Lutero não conhecia o evangelho”. O capelão �cou perplexo e pediu que ele explicasse. Ele respondeu: “Li o livro dele sobre Gálatas e não vi o evangelho ali”. Calmamente, o capelão sugeriu que ele relesse o livro. “Foi o que �z”, disse o pastor. “E percebi que o evangelho estava presente em praticamente todas as páginas, em passagens que eu mesmo havia sublinhado e destacado”. Ele não tinha conseguido enxergá-lo porque seus olhos espirituais não haviam sido abertos. O pastor concluiu sua história com a observação: “Neste exato momento, há pessoas em minha igreja, para as quais eu prego, que não estão ouvindo o evangelho, pois ainda não têm os ‘ouvidos para ouvir’ que acompanham o novo nascimento”. Nova identidade Além de nova visão e novo sentido espirituais, o novo nascimento proporciona uma nova identidade. Essa ideia harmoniza com a metáfora do novo nascimento. Nascer como bebê é se tornar parte de uma família e receber um nome. Então João diz: Mas, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem �lhos de Deus, �lhos nascidos não de descendência natural, nem por decisão humana ou pela vontade do marido, mas nascidos de Deus ( Jo 1.12,13). Ser “nascidos de Deus” signi�ca não ter mais nome nem identidade baseados em “descendência natural”, a condição social ou linhagem familiar da cultura tradicional, nem em “decisão humana”, a realização e o desempenho da meritocracia moderna. Antes, signi�ca ter os “direitos” e privilégios de ser �lho de Deus. É uma nova percepção de identidade e de valor com base no amor paterno de Deus e em sua identi�cação conosco, tudo isso obtido pela obra de Cristo, e não nossa. É nessa realidade que ingressamos quando nascemos de novo. O que isso signi�ca na prática? Nascer de novo não signi�ca tornar-se apenas uma pessoa aprimorada, mas, sim, tornar-se uma nova pessoa. Paulo diz que “se alguém está em Cristo, é nova criação” (2Co 5.17). Não quer dizer que literalmente tudo em nós muda quando nascemos de novo. Antes, algo radicalmentenovo entra em nosso ser e tudo o que havia dentro de nós muda de lugar e é, por assim dizer, recon�gurado. Em uma passagem conhecida, Paulo diz que, “em Cristo”, não há mais “judeu nem grego, homem nem mulher, escravo nem livre, pois todos são um em Cristo Jesus” (Gl 3.28). E, no entanto, isso não quer dizer que as distinções são inteiramente apagadas. O estudioso do Novo Testamento Larry Hurtado escreve: As distinções étnicas, sociais e de sexo [...] [dos cristãos] devem ser consideradas radicalmente relativizadas, [pois] todos os crentes, de qualquer grupo étnico, sexual ou social são agora “um em Cristo Jesus”. Mas [...] Paulo não considera que essas distinções são eliminadas. Diante disso, por exemplo, [...] ele continuou a se referir a si mesmo com orgulho como membro de seu povo ancestral, “hebreu” e “israelita” [...], mas também asseverou que, “em Cristo”, [...] não se deve mais considerar que essas distinções de�nem os crentes como faziam anteriormente.5 A “novidade” do novo nascimento não consiste, portanto, na eliminação de todos os diversos elementos de sua vida: seu sexo, sua nacionalidade, sua classe social e a�ns. Agora, porém, nenhum desses elementos é o principal fator que de�ne sua identidade. Não são mais seu signi�cado e sua segurança fundamentais, e não é com base neles que você se valoriza e se de�ne. Para determinado indivíduo, a nacionalidade (“Sou irlandês”) talvez seja menos importante para sua identidade do que a vocação (“Sou advogado bem-sucedido”). Mas, para outro advogado irlandês, a nacionalidade é a fonte maior de orgulho e signi�cado e, portanto, ele se solidariza mais com outros de sua nacionalidade que com outros de sua pro�ssão. Para outro indivíduo ainda, o ativismo social talvez seja o principal elemento de signi�cado de sua vida, o que o leva sentir mais unidade e orgulho em relação àqueles que têm a mesma linha política e de justiça social que em relação a outros de nacionalidade ou vocação semelhante. Em todos os casos, porém, existe algo de que nos orgulhamos acima de tudo, algo que nos dá a convicção de que somos pessoas de bem e de que temos razão de existir. Em Cristo, é isso que muda. Todos os outros elementos de identidade são questões de desempenho ou linhagem que, não apenas nos tornam inseguros e temerosos de não estar à altura de nossa empreitada, mas também costumam nos tornar tribais e frios em relação aos que não compartilham dessa identidade. No entanto, o evangelho é radicalmente diferente. Primeiro, permite que compreendamos a nós mesmos de forma singular e transformadora. Diz que estamos tão perdidos e somos tão incapazes de agradar a Deus que Jesus teve de morrer por nós. Na cruz, nossos pecados foram lançados sobre Jesus (ele foi tratado como o nosso histórico de vida merece) para que, ao crermos nele, recebamos sua justiça. Em outras palavras, somos tratados como o histórico de vida que Jesus merece (2Co 5.21). Agora, Deus nos ama “em Cristo” como se tivéssemos feito tudo o que Cristo fez. E ele nos ama “assim como ama” seu Filho ( Jo 17.23). Esse passa a ser o alicerce mais profundo de nossa identidade, de nosso signi�cado e do conceito de nós mesmos, que reduz, mas não remove todos os outros aspectos que são verdades acerca de nós mesmos. À primeira vista, talvez se chegue à conclusão de que essa realidade torna os cristãos apenas mais uma tribo que despreza aqueles que não têm a mesma verdade, mas isso signi�ca esquecer o que é a verdade do evangelho. O evangelho diz que merecemos a morte, mas fomos salvos pela mais pura graça. Os únicos salvos são aqueles que �nalmente reconhecem que não são espiritual ou moralmente melhores que outros. Contudo, a salvação pela graça não apenas nos humilha, mas, ao mesmo tempo, também nos exalta. Tiago 1.9,10 diz que os cristãos economicamente pobres “devem se orgulhar de sua alta posição”, mas os cristãos ricos ou com boa condição de vida “devem se orgulhar em sua humilhação”. Vejamos com mais detalhes o que isso signi�ca. A identidade comum tem altos e baixos que dependem de desempenho. Se seu maior orgulho é sua etnia ou sua família, o desempenho de outros em sua tribo (ou seu próprio desempenho) trará honra ou vergonha para todos. Haverá ocasiões em que você se encherá de orgulho e ocasiões em que será humilhado. Se sua identidade é ocidental tradicional, com base em suas realizações individuais, também tem altos e baixos. O cristão que aceitou o evangelho, porém, recebeu a mensagem de que somos pecadores e, em nós mesmos, dignos de condenação; ainda assim, somos perfeita e incondicionalmente amados em Cristo e livres de condenação (Rm 8.1). Portanto, sempre temos em nossa mente, de forma simultânea, uma posição baixa e uma posição ainda mais elevada. Tiago destaca que, em diferentes ocasiões e situações, é bom que os cristãos re�itam mais demoradamente em uma dessas verdades que na outra. Se você é pobre e a vida inteira ouviu que não tem valor, deve meditar constantemente na posição elevada em que o evangelho o colocou, a �m de curar sua alma. Mas, se você é bem-sucedido e a vida inteira recebeu elogios, deve pensar demoradamente e com frequência na posição humilde em que o evangelho o colocou. Na verdade, essa nova identidade é, portanto, “nova criação”, que muda tudo. Muda nossa atitude em relação a pessoas de outras raças e classes, pois nossa raça ou condição social não domina nossa identidade, levando-nos a menosprezar outros. Nossa nova posição “humilde” permite que ouçamos pessoas das quais outrora teríamos menosprezado. Mas nossa nova posição “elevada” permite que enfrentemos desa�os ou nos pronunciemos contra a injustiça e a combatamos, ou que compartilhemos nossa fé cristã, tudo isso por meio de ações que, em outros tempos, não teríamos força interior para tentar colocar em prática, ou nem mesmo desejo de realizar. De que maneira o novo nascimento provoca essa mudança? O primeiro elemento da identidade — nova visão e nova sensibilidade — é fundamental para o segundo. Se alguém simplesmente diz a uma criança solitária e triste em um orfanato que ela foi adotada por uma família maravilhosa, essas palavras não trazem nenhuma mudança. É necessário que a criança conheça os novos familiares, seja abraçada, amada e cuidada por eles diariamente. Só então a mudança legal de nome se traduzirá em felicidade e segurança interiores. Da mesma forma, tornamo-nos legalmente �lhos de Deus quando depositamos nossa fé em Cristo ( Jo 1.12,13). No entanto, esse fato não recon�gura nosso coração nem nossa identidade funcional a menos que, por meio da nova presença do Espírito de Deus, percebamos seu amor, sua santidade, sua glória e sua realidade. Paulo diz que, quando entregamos nossa vida a Cristo, o Espírito de Deus vem habitar em nosso coração e “por meio [do Espírito] clamamos: [...] ‘Pai’. O próprio Espírito dá testemunho a nosso espírito que somos �lhos de Deus” (Rm 8.15,16). Ao participarmos das práticas cristãs comuns — ler a Bíblia e ouvi-la ser pregada, orar individualmente e com outros, edi�car uns aos outros na comunidade cristã, participar do batismo e da ceia do Senhor —, o Espírito torna real para nosso coração a nova identidade e, de modo lento, mas inequívoco, vamos sendo mudados. Como Santo Agostinho expressou, o novo nascimento começa a “reordenar nossas afeições”. Não amamos menos nossos familiares, nossa carreira ou as pessoas; antes, pelo poder do Espírito Santo, aprendemos a valorizar o amor de Deus cada vez mais. Lembro-me de aconselhar no início do ministério uma mulher cuja vida tinha sido transformada pelo evangelho. Ao relatar sua história, ela recordou-se de pelo menos quatro estágios de sua trajetória. Quando era menina, frequentava uma igreja austera e dizia a si mesma: “Sei que sou especial porque sou mais virtuosa que todos os meus amigos”. O problema, obviamente, é que, quando ela tropeçou, odiou a si mesma, pois a base de seu valor próprio começou a se desintegrar. Passou, então, ao estágio da vida em que dizia a si mesma: “Sei que sou alguém especialporque um rapaz maravilhoso me ama”. Essa ideia só aumentou sua instabilidade. Ela não apenas vivia entre altos e baixos emocionais, dependendo da atenção que recebia de homens, mas, por medo, demorava a terminar relacionamentos prejudiciais. Depois de vários anos, ela encontrou amigos que a criticaram justi�cadamente por atrelar sua identidade e felicidade à atenção de homens e a envolvimentos românticos. Acrescentaram, porém, que seu valor próprio devia se basear em sua carreira. Ela aceitou o conselho deles e se dedicou aos estudos e ao trabalho. Passou a dizer a si mesma: “Sou alguém porque sou bem-sucedida, ganho muito dinheiro e exerço impacto no mundo”. Contudo, sempre que enfrentava uma di�culdade em sua carreira, �cava arrasada, como costumava �car quando encontrava di�culdades na vida romântica. Depois disso, alguém lhe disse: “Você não precisa disso tudo para saber que é importante. Só precisa saber que é uma pessoa boa e amável, que ajuda outros”. Ela se dedicou, então, a ajudar outros por meio de trabalhos voluntários. Passou a ouvir qualquer um que estivesse com problemas. Esforçou-se para ajudar pessoas emocionalmente carentes, até que se esgotou. Então, odiou a si mesma porque devia amar as pessoas, mas nem sequer gostava delas. Em suas mudanças de identidade, ela passou de “Sou alguém porque sou virtuosa” para “Sou alguém porque sou linda”, para “Sou alguém porque sou bem-sucedida” e para “Sou alguém porque ajudo outros”. Por �m, percebeu que, a cada etapa, havia tentado salvar a si mesma e estava exausta. Disse: “Percebi que precisava encarecidamente entender que Deus me amava porque, de fato, me amava e por causa daquilo que Jesus havia feito. Esse fato mudou tudo”. O novo nascimento não é uma questão de ter baixa autoestima e precisar de incentivo de Deus. O novo nascimento não é uma espécie de suplemento vitamínico que acrescenta a ideia vaga do “amor de Deus” à mistura de todas as coisas que usamos para construir valor próprio. Nascer de novo não apenas muda o que buscamos como nosso bem supremo, mas também como empreendemos essa busca. Nosso coração descansa no amor oferecido livremente por Cristo a nós; não precisamos nos esforçar para obtê-lo. É uma identidade que se �rma em um alicerce inteiramente novo. Conta-se a seguinte história (provavelmente uma lenda) a respeito de Santo Agostinho. Ele foi convertido depois de ter vários relacionamentos com mulheres. Certo dia, enquanto caminhava pela rua, uma ex-amante veio cumprimentá-lo. Agostinho foi cortês, mas um tanto frio. A mulher �cou perplexa. Ele se despediu educadamente e, quando começou a se afastar, ela disse: “Agostinho, sou eu. Lembra?”. Ele se voltou com um sorriso e disse: “Sim. Mas este não sou eu”. As coisas que mais importavam para ele deixaram de motivá-lo e dominá-lo. Em lugar de um vazio carente, agora tinha plenitude interior. Havia nascido de novo. Como acontece? Até aqui, falei sobre conversão (voltar-se para Deus com fé) e novo nascimento como se fossem a mesma coisa. No entanto, teólogos, ao longo dos anos, articularam uma distinção útil. Em certo sentido, pode-se dizer que são dois lados da mesma moeda, pois sempre andam juntos. Jesus declarou em Mateus 18.3: “A não ser que vocês se convertam [...] não entrarão no reino de Deus” (NASB)6 e, em João 3, disse que, se alguém não for “nascido do Espírito”, não pode entrar no reino de Deus. Se as duas coisas são absolutamente necessárias, segue-se que ninguém é verdadeiramente cristão, cidadão do reino de Deus e �lho em sua família se ambas não acontecerem. Contudo, embora a Bíblia nos instrua constantemente a depositar nossa fé em Deus, em nenhuma passagem diz que devemos ser o agente do novo nascimento. Como poderíamos? Seria contrário à metáfora. A regeneração do coração, a implantação do Espírito Santo, não é algo que podemos fazer, assim como um bebê não pode decidir ser concebido e nascer. E, no entanto, voltar-nos para Deus com fé é algo que somos chamados a fazer. A conversão é aquilo que você e eu fazemos para nos achegar a Deus, mas o novo nascimento é o que Deus faz dentro de nós. Na realidade, a pergunta é “Como nos voltamos para Deus a �m de que possamos nascer de novo?”. A resposta tem duas partes que �cam implícitas aqui. A primeira diz respeito à graça. A segunda diz respeito a Cristo. Primeiro, precisamos abandonar nossos pecados e os esforços para salvarmos a nós mesmos. Jesus disse a Nicodemos em João 3: “É necessário nascer de novo”. Em João 4, vemos um excelente exemplo em que Jesus chama à conversão uma mulher que é exatamente o oposto de Nicodemos. A diferença não é apenas se é homem ou mulher. Aos olhos do mundo, a vida dela era um fracasso total, enquanto a vida dele era o mais absoluto sucesso e, no entanto, Jesus chama os dois para que sejam salvos pela graça, como dádiva. Quando nos mudamos para Nova York no �m da década de 1980, Manhattan era um lugar bem diferente do que é hoje. Uma vez por mês, eu dava uma palestra em um café da manhã no Harvard Club e, quando saía da estação do metrô na Sexta Avenida, deparava-me com prostitutas e tra�cantes. Dali, caminhava para a sede do Harvard Club, com suas paredes revestidas de madeira, poltronas de couro extremamente acolchoadas, lenha crepitando nas lareiras e seus membros com a aparência próspera de pessoas que tinham a vida em ordem (como era o caso de muitos). O evangelho mostrou-me naquela época e continua a me mostrar que Nicodemos no Harvard Club e a mulher samaritana na calçada eram igualmente desquali�cados para qualquer salvação baseada em desempenho e, no entanto, igualmente quali�cados para a salvação baseada na graça. Esta é a mensagem: não importa quão virtuosa e organizada seja sua vida, você precisa nascer de novo; também não importa quão caótica sua vida tenha sido ou quão frequente e terrivelmente você tenha errado, você pode nascer de novo. Jesus diz: “Todos estão no mesmo nível. A pessoa com as maiores realizações e a pessoa cuja vida parece o maior fracasso vêm a Deus como iguais. Você está na mesma situação. Precisa e pode nascer de novo”. Nicodemos havia tentado se salvar com sua moralidade e suas realizações e, portanto, estava fazendo papel de Deus, procurando ser o próprio salvador. A mulher junto ao poço em João 4 é apresentada como alguém que havia buscado alegria e satisfação em uma série de envolvimentos românticos e casamentos desfeitos. Estava tentando fazer a mesma coisa. Por certo, agiu de uma forma que lhe trouxe opróbrio social, enquanto a conduta de Nicodemos lhe trouxe honra social. Aos olhos de Deus, porém, quer tentemos nos salvar ao sermos virtuosos, prestativos, ou belos, não importa. Ao procurarmos salvar a nós mesmos, colocamo-nos no lugar de Deus. Portanto, todos (os que parecem ser “os melhores” e “os piores”) estão na mesma situação e no mesmo nível quanto a sua necessidade da graça de Deus. Bebês não contribuem em nada para sua concepção e seu nascimento. Não conferem existência a si mesmos. Não nascem porque planejaram fazê-lo. Tudo diz respeito ao que os pais �zeram. Não tem ligação nenhuma com o que os bebês fazem. De modo paradoxal, a �m de receber salvação, você precisa entender que não tem condições de contribuir em nada para que ela aconteça. Enquanto você pensar: “Posso me salvar. Sou um sujeito su�cientemente bom”, ainda está espiritualmente cego. Não consegue ver o reino de Deus nem experimentar a graça divina. A mudança se chama arrependimento, e não signi�ca apenas lamentar por este ou aquele pecado. É o que Bíblia chama “arrependimento para a vida” (At 11.18). A primeira coisa que você precisa fazer para ser convertido é arrepender-se diante da graça de Deus e dizer: “Percebo que tenho procurado salvar a mim mesmo e preciso de tua graça generosa”. O exemplo mais famoso desse arrependimento é o próprio Martinho Lutero. Ao relatar sua conversão, ele observa: “Labutei diligente e ansiosamente para encontrar uma forma de entender as palavras de Paulo em Romanos 1.17”. Sua di�culdade era com esse versículo