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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
Angélica Ilacqua CRB-8/7057
Keller, Timothy
Nascimento, casamento e morte : como encontrar Deus nos eventos mais signi�cativos da
vida / Timothy Keller ; edição em um só volume ; tradução de Susana Klassen. - São
Paulo : Vida Nova, 2020. 
recurso digital; 1,5 MB
ISBN 978-65-86136-54-8 (recurso eletrônico)
Títulos dos originais: On Birth; On Marriage; On Death
1. Nascimento - Aspectos religiosos 2. Casamento - Aspectos religiosos 3. Morte -
Aspectos religiosos I. Título II. Klassen, Susana
20-2692
CDD 248.4
Índices para catálogo sistemático
1. Vida e práticas cristãs
©2020, de Timothy Keller
Títulos dos originais da série How to Find God: On birth; On marriage; On death, edições publicadas
por P������ B����, uma divisão da P������ R����� H���� LCC (New York, New York, EUA).
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por S�������� R�������� E������ V��� N���
Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020
vidanova.com.br | vidanova@vidanova.com.br
1.ª edição: 2020
Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação da fonte.
Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Todas as citações bíblicas sem indicação da versão foram traduzidas diretamente da New International
Version (NIV). As citações com indicação da versão in loco foram traduzidas da English Standard
Version (ESV) e da New American Standard Bible (NASB).
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Kenneth Lee Davis
G������� ���������
Fabiano Silveira Medeiros
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Danny Charão
Ubevaldo G. Sampaio
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Virginia Neumann
Marcia B. Medeiros
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Abner Arrais
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Sérgio Siqueira Moura
D����������
Sandra Reis Oliveira
http://vidanova.com.br/
mailto:vidanova@vidanova.com.br
C���
Douglas Lucas
P������� �� ������� �P��
Booknando
SUMÁRIO
Agradecimentos
Apresentação
PRIMEIRA PARTE: 
NASCIMENTO
1. Primeiro nascimento
2. Segundo nascimento
3. Crescer na graça
SEGUNDA PARTE: 
CASAMENTO
4. Começar o casamento
5. Manter o casamento
6. O destino do casamento
TERCEIRA PARTE: 
MORTE
Palavras introdutórias
7. O medo da morte: a consciência transforma a todos nós em covarde
s
8. A ruptura da morte: não se entristeçam como aqueles que não têm e
sperança
Palavras adicionais
Leitura recomendada sobre o tema da morte
A
AGRADECIMENTOS
o escrever este livro, devemos ainda mais gratidão que o habitual a
Brian Tart, nosso editor na Viking. Brian viu a re�exão curta sobre a
morte que Tim havia feito no funeral de Terry Hall, irmã de Kathy, e
propôs que a transformássemos em não apenas um, mas em três livros
curtos sobre nascimento, casamento e morte, reunidos para sua comodidade
neste único compêndio. Também somos gratos a nossos muitos amigos em
South Carolina que tornaram possível escrever este e os outros dois livros
em Folly Beach durante o verão passado.
A
APRESENTAÇÃO
vida é uma jornada, e encontrar e conhecer a Deus é essencial para
essa jornada. Quando uma criança nasce, quando nos aproximamos do
casamento e quando enfrentamos a morte, quer na velhice, quer muito
antes, esses acontecimentos geralmente são objeto de nossa re�exão.
Desvencilhamo-nos da correria da vida diária e voltamos às perguntas mais
primordiais feitas ao longo de todas as eras:
Tenho dedicado minha vida ao que de fato importa?
Estou preparado para encarar essa nova etapa da vida?
Tenho um relacionamento genuíno com Deus?
A transição mais fundamental na vida de qualquer ser humano é o que
a Bíblia chama novo nascimento ( Jo 3.1-8), ou tornar-se “nova criação”
(2Co 5.17). Evidentemente, pode acontecer em qualquer estágio da vida,
mas, não raro, as circunstâncias que nos levam à fé decisiva em Cristo
ocorrem durante essas fases de mudança radical de um estágio para outro.
Em 45 anos de ministério, minha esposa, Kathy, e eu observamos que as
pessoas se mostram especialmente abertas para explorar um relacionamento
com Deus em momentos importantes de transição.
Neste opúsculo dividido em três partes, queremos ajudar os leitores que
estão passando por grandes transformações a re�etir sobre o que constitui
uma vida verdadeiramente transformada. Nosso propósito é apresentar aos
leitores os fundamentos cristãos para os momentos mais importantes e
signi�cativos da vida. Começamos com o nascimento e o batismo, passamos
ao casamento e encerramos com a morte. Meu desejo é que estes textos
breves proporcionem orientação, consolo, sabedoria e, acima de tudo,
ajudem a apontar o caminho para encontrar Deus e conhecê-lo ao longo de
toda a vida.
Para nossos netos:
a alegria que sentimos quando
vocês nasceram só poderia ser
superada pela consciência de que
vocês experimentaram
o novo nascimento.
A
1
PRIMEIRO NASCIMENTO
Nasce a �m de renascermos,
vive para revivermos.
CANTAM ANJOS HARMONIAS, 
�� C������ W�����1
fé cristã ensina que cada indivíduo deve experimentar dois
nascimentos. No primeiro, nascemos para o mundo natural. Aquilo,
então, que Charles Wesley chama nosso “renascer”, e que Jesus chama
“nascer de novo” ( Jo 3.3), é o fato de que nascemos para o reino de Deus e
recebemos nova vida espiritual. Temos o primeiro nascimento porque Deus
é nosso Criador; podemos ter o segundo nascimento porque Deus também
é nosso Redentor. O Senhor é autor de ambos.
Diante disso, é apropriado que consideremos as questões espirituais
relacionadas aos dois nascimentos. O que signi�ca receber nova vida
humana de Deus? Quais são as responsabilidades da família e da igreja para
com os recém-nascidos? Como podemos ajudar as crianças que entraram
em nossa vida por meio do primeiro nascimento a experimentar o segundo
nascimento?
Espantoso e maravilhoso
Em vez de o Senhor criar diretamente cada novo ser humano, ele conferiu
à união de homem e mulher o poder singular que é trazer ao mundo novos
seres humanos. Não é de admirar que os recém-nascidos na Bíblia sejam
vistos com admiração, como sinais da bênção de Deus. A ordem inicial de
Deus para a raça humana foi: “Sejam férteis e multipliquem-se e encham a
terra” (Gn 1.28). Embora Deus não exija que todos se casem, conforme os
exemplos de Jesus e Paulo, Gênesis 1.28 explica por que temos a sensação
tão intensa de que estamos diante de um milagre de Deus quando olhamos
para um recém-nascido. Salmos 127.3 diz que todos os �lhos são
“recompensa” de Deus.
Mas há outro lado.
Com frequência, Deus envia ao mundo heróis e libertadores por meio
de casais desconsolados em razão de não conseguirem ter �lhos. Isaque,
Jacó, José, Sansão e Samuel nascem de mulheres que, até então, não
haviam conseguido conceber. E, no entanto, como mostra um rápido
levantamento da vida desses indivíduos (especialmente de Jacó, de José e de
Sansão), esses �lhos que foram “dádivas de Deus” também causaram grande
tristeza a seus pais.
Vemos um pouco disso no conhecido trecho de Salmos 139.13-16: “Tu
criaste o íntimo de meu ser e me teceste no ventre de minha mãe. Eu te
louvo porque me �zeste de modo espantoso e maravilhoso [...] Os teus olhos
viram meu corpo ainda sem forma; todos os dias determinados para mim
foram escritos em teu livro”. Nas palavras de um estudioso da Bíblia: “Nossa
formação pré-natal por Deus [é] forte lembrança do valor que ele nos dá
mesmo quando ainda somos embriões e de seus planos para nosso �m desde
o começo”.2
A expressão “de modo espantoso e maravilhoso” é extremamente rica.
Todo bebê que nasce no mundo é uma criação maravilhosa, mas, ao mesmo
tempo, espantosa. Quem olha para um recém-nascido — percebendo que é
uma nova vida humana à imagem do Criador, a qual entrou no mundo com
dons e chamados especí�cos, e uma vida planejada pelo Salvador da história
— reage, necessariamente, com uma espécie de temor e tremor. E ninguém
deve olhar para um bebê com mais admiração e temor que seus pais.
Quando Kathy e eu chegamos a casa com nosso primeiro recém-
nascido, �quei surpreso de vê-la envolver o bebê em um abraço“em que Paulo
diz que a justiça de Deus é revelada no evangelho”. Por �m, Lutero diz:
“Entendi que a justiça de Deus é a justiça que, por meio da graça e de
absoluta misericórdia, Deus nos concede pela fé. Então, senti que havia
renascido e passado pelas portas abertas para o paraíso [...] Quando percebi
a diferença, que a lei é uma coisa e o evangelho é outra, compreendi a
verdade”.7
É isso que acontece. Lutero sentiu como se tivesse sido atingido por
um raio. Durante anos, viveu ciente de que devia se arrepender de seus
pecados e obter o perdão de Deus, mas imaginou que tivesse de consertar a
si mesmo e oferecer a Deus uma vida justa a �m de alcançar sua bênção e
seu favor. De repente, percebeu não apenas que havia cometido pecados e
maldades, mas que até mesmo suas boas obras haviam sido realizadas pelos
motivos errados, a �m de controlar o que Deus e outros pensavam dele, de
criar uma identidade para si mesmo como pessoa de bem, de salvar a si
mesmo e fazer papel de Deus. Quando ele se arrependeu não apenas de
seus atos maus, mas também da motivação para suas boas obras, “[sentiu]
que havia renascido”. Quando percebeu a diferença entre o evangelho e a
tentativa de salvar a si mesmo por meio de esforços morais, ele
“[compreendeu] a verdade”.
A beleza de Jesus
A primeira coisa que precisamos fazer para ser convertidos, portanto, é
abandonar os planos de salvação própria e nos arrepender. Depois disso,
contudo, precisamos nos voltar para Jesus com fé e ver a beleza da obra que
ele realizou. Não basta apenas crer na graça de Deus de modo geral; é
preciso ter fé naquilo que Jesus Cristo fez de modo especí�co.
Vi meus três �lhos nascerem, e cada parto foi diferente. Choraram ou
�caram quietos, espernearam ou �caram quase imóveis. Mas nos três casos
houve um elemento em comum. Não nasceram, não obtiveram nova vida
ou foram trazidos ao mundo por seus esforços. Vieram ao mundo pela dor e
pelo trabalho de parto da mãe. Em nossa realidade atual, dar à luz não é tão
doloroso nem tão perigoso quanto no passado. Mas Jesus falou de nascer de
novo em uma época em que não era possível ver a luz da vida a menos que
alguém amasse você o su�ciente para não apenas sentir dor e sofrimento,
mas arriscar a vida por você. Aliás, naquele tempo, muitos nasciam à custa
da morte da mãe.
Por isso, mais adiante no Evangelho de João, Jesus faz uma
comparação impressionante. Em João 16.16, ele declara: “Mais um pouco e
não me verão”, referindo-se a sua morte na cruz. Logo em seguida, diz: “A
mulher que está dando à luz sente dores, porque chegou a sua hora; mas,
quando o bebê nasce, ela esquece a angústia por causa de sua alegria de ter
nascido ao mundo uma criança” ( Jo 16.21).
Por que, quando Jesus fala de sua morte, menciona repentinamente
uma mulher em trabalho de parto? E por que se refere ao momento
doloroso de dar à luz como “sua hora”? Como estudiosos do Evangelho de
João observam, sempre que Jesus fala de sua morte na cruz, ele a chama sua
“hora”.8
Percebe o que Jesus está dizendo? “Seu primeiro nascimento traz vida
física porque alguém arriscou a vida, mas seu segundo nascimento traz vida
espiritual e eterna porque alguém entregou a vida. E esse alguém fui eu.” E,
se continuarmos a acompanhar a metáfora de Jesus em João 16, veremos
que �ca ainda mais maravilhosa. Ele a�rma que, apesar da dor intensa, a
mãe enche-se de alegria ao ver o �lho. Portanto, Jesus tem a audácia de
dizer: “Esse é apenas um tênue vislumbre da alegria que eu sinto quando
olho para você. Suportei de bom grado sofrimento, tormento e morte, para
a alegria maior de salvar e amar você”. Enquanto você não entender esse
fato, crer e descansar nele, não pode nascer de novo.
1 É importante considerar que, embora a expressão “reino de Deus” seja usada com frequência nos
Evangelhos Sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas, ela quase nunca é usada pelo Evangelista João. Esse
é o único lugar em que ele emprega essa expressão, exceto uma alusão perto do �m do livro. Isso
signi�ca que, no Novo Testamento, o novo nascimento é estreitamente ligado ao conceito de reino de
Deus.
2 “Hē palingenesia, ‘o renascimento’ [...] [é] uma expressão mais típica da �loso�a estoica que dos
escritores judaicos, mas resume muito bem a esperança escatológica [do Antigo Testamento] de ‘novos
céus e nova terra’ (Is 65.17; 66.22 etc.). [...] No pensamento estoico, παλιγγενεσία era o termo para o
renascimento cíclico do mundo que surgia das cinzas de suas con�agrações periódicas”. R. T. France,
�e Gospel of Matthew, New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids:
Eerdmans, 2007), p. 742-3.
3 Essa seção se vale, em grande medida, de Archibald Alexander, �oughts on religious experience
(Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1967), p. 21-31.
4 Alexander, �oughts on religious experience, p. 64.
5 Larry Hurtado, Destroyer of the gods (Waco: Baylor University Press, 2016), p. 93-4.
6 “Convertam” também é usado aqui na KJV e na NASB. Outras traduções dizem apenas que
devemos “mudar”, mas o termo grego straphete signi�ca uma revolução completa em que se deixa de
rumar em uma direção e se volta para outra direção. De acordo com Jesus, essa mudança signi�ca nos
tornarmos espiritualmente “como crianças”, que con�am humildemente. Por isso, o estudioso da Bíblia
Leon Morris escreve: “Nesse contexto, ele [o termo straphete] indica uma mudança de direção da vida
como um todo, uma conversão”. Leon Morris, �e Gospel according to Matthew, Pillar New Testament
Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1992), p. 459.
7 Martin Luther, “Preface to Latin writings”, in: Luther’s works (St. Louis: Concordia, 1972),
vol. 34, p. 336-7.
8 “‘Hora’ (hōra) refere-se sempre a sua morte na cruz e à exaltação associada a ela (7.30; 8.20;
12.23,27; 13.1; 17.1), ou a suas consequências (5.28,29), e, portanto, seria arti�cial entender o termo
de outra forma aqui.” D. A. Carson, �e Gospel according to John (Leicester, Reino Unido/Grand
Rapids: InterVarsity/ Eerdmans, 1991), p. 171 [edição em português: O comentário de João, tradução
de Daniel de Oliveira; Vivian Nunes do Amaral (São Paulo: Shedd, 2007)].
A
3
CRESCER NA GRAÇA
Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo: Àqueles que, mediante
a justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco
uma fé igualmente preciosa [...] Seu divino poder nos deu todas as
coisas de que precisamos para uma vida piedosa [...] Ele nos deu suas
grandiosas e preciosas promessas, para que por elas vocês pudessem
participar da natureza divina [...] Por isso mesmo, façam todo esforço
para acrescentar à sua fé a virtude; à virtude o conhecimento; ao
conhecimento o domínio próprio; ao domínio próprio a perseverança;
à perseverança a piedade; à piedade a afeição mútua; e à afeição mútua
o amor. Pois, se vocês têm essas qualidades em medida crescente em
sua vida, elas impedirão que vocês, no pleno conhecimento de nosso
Senhor Jesus Cristo, sejam inoperantes e improdutivos. Todavia, quem
não as tem, está míope e cego, esquecendo-se de que foi puri�cado de
seus antigos pecados (2Pe 1.1,3-9).
Cresçam na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! (2Pe 3.18)
imagem que Jesus apresentou da salvação como novo nascimento
também foi usada no Novo Testamento por Paulo (Tt 3.5), Tiago (Tg
1.18), João (1Jo 5.1) e Pedro. Quando Pedro escreve sua primeira carta, diz
aos cristãos em duas ocasiões que eles nasceram de novo (1Pe 1.3,23). Não
podemos deixar passar despercebida uma das implicações mais claras dessa
metáfora do nascimento. Ao contrário da deusa Atena da lenda grega, nós,
seres humanos, não surgimos plenamente desenvolvidos da testa de Zeus.
Começamos como bebês minúsculos e impotentes. O contraste entre nosso
estado quando recém-nascidos e na vida adulta não poderia ser maior. O
crescimento pelo qual o recém-nascido tem de passar é espantoso; precisa
dobrar de tamanho nos quatro a seis primeiros meses.
Será que cristãos recém-nascidos na fé mostram algo semelhante a
esse tipo demudança e transformação? Como vimos, o alicerce para que
elas aconteçam foi lançado. O Espírito de Deus habita dentro de nós. Mas
será que crescemos?
Pedro, em sua segunda carta, fala de crescimento espiritual. Tanto nos
versículos iniciais quanto nas declarações �nais, ele nos exorta a “[crescer]
na graça”.
O crescimento na graça é possível
Lembre-se de quem escreve essa carta: “Simão Pedro, servo e apóstolo de
Jesus Cristo” (2Pe 1.1). Pedro foi um apóstolo que conviveu com Jesus. Viu
Cristo ser trans�gurado no monte. Ouviu a voz do Pai vinda do céu. Negou
Jesus, mas Jesus o perdoou, curou e o comissionou para que fosse líder em
seu movimento. Depois da ressurreição, com as marcas dos pregos ainda
visíveis, Jesus treinou Pedro pessoalmente.
Imagine se tudo isso acontecesse com você. Banalizamos o uso do
adjetivo “transformador” em nossa cultura, mas, sem dúvida, se você tivesse
visto a trans�guração e a ressurreição pessoalmente, essas experiências
teriam transformado toda sua vida. Observe, porém, o que Pedro diz:
“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo: Àqueles que, mediante a
justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo, receberam conosco uma fé
igualmente preciosa”. O termo grego para “igualmente” (isotimon) usado
aqui é “de igual mérito e valor”. Que extraordinário ele escrever para
cristãos há centenas de quilômetros e várias décadas depois desses
acontecimentos que ele viu com os próprios olhos e, ainda assim, a�rmar
que a fé desses cristãos tem o mesmo valor transformador que sua fé. Em
outras palavras, diz: “Sua vida pode ser tão radicalmente modi�cada pelo
evangelho de Jesus Cristo quanto minha vida foi”.
Como é possível? Pedro explica em seguida. De acordo com o versículo
4, por meio das “preciosas” promessas (mesmo termo), as promessas do
evangelho, “[participamos] da natureza divina”. Quando recebemos o
Espírito Santo por meio do novo nascimento, também recebemos, por
assim dizer, o DNA de Deus. Isso não signi�ca que somos, de algum modo,
amalgamados misticamente com o Ser divino, mas que o amor, a sabedoria,
a veracidade, a justiça, a misericórdia e a bondade de Deus são impressos
em nós. O Espírito Santo nos liga ao caráter espiritual de Deus da mesma
forma que o DNA nos liga ao caráter físico de nossos antepassados.
No �m das contas, não foram as experiências dos apóstolos como
testemunhas oculares que os transformaram. Lembre-se de que Judas
conviveu com Jesus, viu a beleza de seu ser e seus grandes milagres, mas
ainda assim se desviou. Mesmo quando o Jesus ressurreto apareceu aos
discípulos em um monte na Galileia, alguns o adoraram, “mas alguns
duvidaram” (Mt 28.17). O que verdadeiramente os transformou foi a
mesma coisa que todos os cristãos têm: a habitação interior do Espírito
Santo (At 1.8).
Quando a Bíblia nos exorta a crescer na graça, é muito diferente de
dizer: “Sejam virtuosos”. Muitos imaginam que o Novo Testamento está
simplesmente chamando as pessoas em geral a basear a vida no modelo
ético de Jesus. Dizem que ele foi um homem que praticou amor,
misericórdia e justiça. Se todos nós vivêssemos como ele, o mundo seria um
lugar melhor.
Com todo o respeito a essa ideia, os autores bíblicos não são tão
ingênuos e tolos. Chamar as pessoas a viver como Cristo, a adotar um modo
de vida inteiramente contrário à natureza humana por um ato de volição, é
pedir o impossível. As exortações da Bíblia para que os cristãos se tornem
semelhantes a Cristo partem do pressuposto de que nasceram de novo e são
participantes da natureza divina. Quando o Novo Testamento instrui: “Ame
seu próximo como a si mesmo”, quer dizer: “Alimentem a nova natureza
dentro de vocês para que possam amar seu próximo como a si mesmos”. É
preciso nascer a �m de crescer. Para que haja crescimento físico, é
necessário que haja nascimento físico. Para que haja crescimento espiritual,
é necessário que haja nascimento espiritual.
Se você é cristão, não há desculpa para não ter uma vida drasticamente
transformada. Você desistiu de mudar em determinadas áreas? Aprendeu a
conviver com maus hábitos e más condutas recorrentes em sua vida? Fez as
pazes silenciosamente com atitudes, medos e ressentimentos em seu
coração? Você tem “todas as coisas de que [precisa] para uma vida piedosa”
(v. 3). Crescer na graça é, agora, uma possibilidade cheia de poder.
O crescimento na graça é gradativo
Pedro fala de “acrescentar” à nossa fé qualidades sucessivas: virtude,
conhecimento, domínio próprio, afeição mútua; em seguida, diz que esses
elementos devem estar presentes “em medida crescente”. Em outras
palavras, o crescimento na graça é gradativo.
Nossa cultura nos ensina a ser impacientes. Uma empresa que leva
dois dias para entregar seus produtos pode ir à falência se um concorrente
entregar no dia seguinte. O computador que leva dez segundos para baixar
um arquivo pode sair de linha por causa de outro com uma con�guração
semelhante, mas que baixa arquivos em dois segundos. Tirado de linha por
causa de oito segundos! É nesse tipo de cultura que vivemos.
E, muitas vezes, a igreja sofre forte in�uência da cultura exatamente
nesse ponto. Várias igrejas e ministérios dizem com todas as letras, ou pelo
menos deixam implícito, que se você verdadeiramente entregar a vida a
Cristo, frequentar essas congregações e usar seus métodos de crescimento
espiritual, em breve será liberto de tudo o que o escraviza ou o faz sofrer.
Prometem vitória espiritual sobre seus problemas como uma solução
mágica.
No entanto, a Bíblia nunca se expressa desse modo. Nascemos de
novo; começamos como bebês espirituais, como Pedro diz em outra
passagem de suas cartas (1Pe 2.2). Ninguém deixa de ser bebê e se torna
adulto independente em algumas semanas ou meses. São necessários anos e
anos de desenvolvimento, esforço, erros (geralmente gigantescos) e
aprendizado em todas as áreas. Em momento nenhum a Bíblia diz
(parafraseando 1Pe 2.2): “Como recém-nascidos, bebam do leite espiritual
da Palavra de Deus para que cresçam na salvação. E, se beberem com muito
gosto, crescerão mais rápido”. Não. Bebês crescem no ritmo deles. E leva
um bocado de tempo.
Ainda assim, se você pegar uma pequena bolota de carvalho e tentar
usá-la para esmagar uma placa de cimento, a bolota se despedaçará.
Imagine, porém, que a placa de cimento faz parte de uma calçada. Plante a
bolota no solo debaixo da calçada. Se ela germinar, é possível que encontre
uma forma de crescer e, gradativamente, ao longo dos anos, empurre para o
lado a placa de cimento. Talvez até faça o cimento rachar. Esse é o poder do
crescimento que acontece de forma lenta, mas contínua.
Crescer na graça, portanto, é menos parecido com uma solução mágica
e mais parecido com uma bolota de carvalho. A graça entra em sua vida e,
se for regada e nutrida, com o tempo realiza uma transformação completa.
Se o poder de Deus está em você, cedo ou tarde ele tratará de suas maiores
fraquezas. Se o amor de Deus está em você, cedo ou tarde ele confrontará
seu egoísmo. Mas é gradativo.
É importante lembrar que, assim como crianças em fase de
crescimento, cristãos em fase de crescimento apresentarão várias diferenças
individuais. Pais que têm mais de um �lho sabem que nem todos aprendem
as primeiras palavras, dão os primeiros passos ou fazem qualquer outra coisa
exatamente na mesma idade, na mesma fase, com a mesma velocidade. Até
mesmo gêmeos são diferentes! O mesmo aplica-se ao crescimento
espiritual. Alguns de nós chegamos à família de Deus com um histórico
muito maior de di�culdades, maus-tratos e problemas de caráter que outros.
Alguns de nós chegamos com pouco ou nenhum conhecimento da Bíblia ou
de ensinamentos cristãos, enquanto outros de nós chegamos com bem mais
conhecimento. Por isso, o progresso na vida cristã, embora seja sempre
gradativo, acontece em um ritmo diferente para cada pessoa.
Há mais um aspecto em que o crescimento espiritual é semelhante ao
crescimento de uma criança rumo à vida adulta. O famoso compositor do
século 18, John Newton (autor do hino Surpreendente graça), tambémera
sábio pastor. Em cartas a um amigo, ele falou de três estágios básicos de
crescimento espiritual que correspondem sensivelmente a infância,
adolescência e vida adulta.1
Como crianças, os recém-convertidos com frequência são cheios de
entusiasmo e de novos e maravilhosos sentimentos de ausência de culpa e
de proximidade de Deus. Newton diz, porém, que embora tenham crido no
evangelho — segundo o qual o perdão é dádiva gratuita de Deus, não
obtida por esforço nem por mérito —, ainda não aprenderam a aplicar o
evangelho à vida como um todo. No fundo, ainda são legalistas. Sabem que
Deus os perdoou, mas fundamentam a certeza de que ele continua a amá-
los na própria capacidade de não pecar, na �delidade na oração e no
crescimento em conhecimento cristão, e especialmente na sensação de que
Deus está perto deles. Todas essas coisas servem de base para sua certeza de
que Deus os ama, em vez de serem o resultado da certeza de que Deus os
ama. Por isso, há correntes de ansiedade (“Será que Deus realmente me
ama?”) e de orgulho (“Entreguei minha vida a Cristo, ao contrário dos
obstinados”.) Cristãos novos na fé �cam excessivamente desanimados com
sentimentos negativos e fracassos espirituais, pois seus sentimentos e seus
sucessos espirituais são os supostos méritos no qual imaginam que o favor de
Deus para com eles se baseia.
Por isso, Newton observa, Deus muitas vezes permite um tempo em
que muitas coisas dão erradas na vida do cristão. Essa fase corresponde
sensivelmente à adolescência, pois os adolescentes com frequência resistem
à autoridade dos pais. Quando os sentimentos espirituais se dissipam e a
vida não vai bem, o cristão “adolescente” oscila entre raiva de Deus e raiva
de si mesmo. Contudo, Newton escreve: “Por meio dessas dispensações
variáveis, o Senhor os treina e os faz progredir”.
Em meio às di�culdades, Deus conduz os crentes a um entendimento
mais profundo do evangelho. Cristãos imaturos imaginam que sentimentos
e circunstâncias positivos são resultados merecidos em razão da força de sua
devoção a Cristo. A presunção sutil (ou não tão sutil) e a ingenuidade são
arrancadas deles por di�culdades e provações. Têm condições de avançar
quando se aprofundam nas duas verdades do evangelho: são mais pecadores
e falhos do que imaginavam, mas sua aceitação por Deus é mais
incondicionalmente garantida em Cristo do que jamais ousaram esperar.
Como Newton observa a respeito do cristão em crescimento: “A hora da
liberdade pela qual ele anseia se aproxima quando, por uma descoberta
adicional do glorioso evangelho, lhe será permitido conhecer sua aceitação e
se tornará possível descansar na salvação consumada pelo Senhor”.2
Por �m, Newton fala de cristãos maduros e “espiritualmente adultos”.
Uma vez que compreenderam o evangelho mais profundamente, são
capazes de lidar bem com o sofrimento, pois percebem que circunstâncias
adversas não signi�cam que estão sendo castigados por seus pecados, ou que
Deus não se importa. Além disso, uma vez que passaram a ter uma
perspectiva mais radical do amor incondicional de Deus por eles, também
têm força emocional para ser muito mais honestos sobre os pecados que os
assediam em vez de justi�cá-los ou negá-los. Podem, portanto, entender a si
mesmos e superar suas falhas de caráter como nunca antes. Newton diz que
“a felicidade e superioridade [do adulto em relação ao adolescente] se
encontra principalmente nisto: [...] por meios como orar, ler e ouvir a
Palavra, ele obteve percepção mais clara, profunda e abrangente do mistério
do amor redentor”.3
O crescimento na graça é essencial
Quando o Novo Testamento fala da graça, refere-se ao favor imerecido que
Deus concede, à sua disposição de nos aceitar não por causa de nossas obras
e de nosso histórico, mas em razão das obras e do histórico de Jesus. Em
certo sentido, portanto, não há como crescermos na graça. Não há como
sermos mais justi�cados e retos aos olhos de Deus. Não há como sermos
mais adotados em sua família. Em outro sentido, porém, é possível crescer
grandemente na in�uência dessas verdades em nosso coração. Nosso poder
e nossa experiência desses grandes privilégios podem aumentar. Quando
isso acontece, e somente quando isso acontece, temos em nossa vida um
poder dinâmico que nos transforma de dentro para fora.
Alguns anos atrás, quando nossa família estava em férias, fomos a um
restaurante fast-food, mas o atendimento não foi nada rápido. Nossa �la
andava devagar, pois a atendente atrás do balcão se enrolava com cada
pedido. À medida que nos aproximamos, percebi que o motivo da demora
era a di�culdade da atendente em falar inglês. Parecia ser uma imigrante
recém-chegada e não entendia o que outros lhe diziam. Fiquei impaciente e
pensei: “Por que a gerência colocou nessa função alguém que não é �uente
em nosso idioma?”. Em seguida, porém, me lembrei do versículo bíblico que
tinha visto naquela manhã em minha leitura diária. Era um versículo de
Deuteronômio, em que Deus instruía os israelitas a serem gentis com os
imigrantes e estrangeiros em seu meio:
“Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no
Egito” (Dt 10.19).
Essa recordação me pegou de jeito. Deus não disse (embora tivesse o direito
de dizer): “Amem os imigrantes e sejam gentis com eles porque eu estou
mandando!”. Uma instrução desse tipo teria colocado pressão diretamente
na vontade. Embora não haja nada de errado com essa abordagem, não cria
mudanças duradouras. Mas não foi dessa maneira que Deus formulou sua
ordem. Antes, ele diz aos israelitas: “Lembrem-se de que libertei vocês
quando eram estrangeiros e escravos. Agora, tratem imigrantes e
estrangeiros como eu tratei vocês”. Essa instrução não se atém a pressionar
a vontade; ela muda o coração, produz humildade e, ao mesmo tempo,
edi�ca com a lembrança do amor divino. Não é uma exortação à simples
conformidade ética. Exige crescimento na graça — deixar que a graça de
Deus permeie o pensamento e mude as motivações do coração.
Claro que entendi de imediato que a instrução também se aplicava a
mim. Nunca fui, literalmente, escravo no Egito, mas como Paulo observou,
também havia sido “excluído da cidadania” no reino de Deus e era um dos
“estrangeiros [...] sem esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em
Cristo Jesus, vocês que antes estavam longe foram aproximados mediante o
sangue de Cristo” (Ef 2.12,13). Jesus realizou essa obra ao abrir mão de seu
poder e de seu lugar no céu para que eu, forasteiro e estrangeiro espiritual,
pudesse ser aceito. Ele foi excluído para que eu pudesse ser incluído. Muito
antes das conversas atuais sobre “levar em conta nossa situação privilegiada”
ao interagir com os menos favorecidos, Deus deu a cada um de nós um
poderoso antídoto para nossa tendência natural de nos sentirmos superiores
em razão de classe social e raça.
Portanto, quando me aproximei do balcão para falar com a atendente,
veio à mente: “Senhor Jesus, também fui estrangeiro, mas o Senhor pagou
um preço in�nito para me aproximar de ti”.
Quando entendemos a graça, ela começa a mudar nosso coração e
alimentar a nova pessoa que Deus está formando dentro de nós. O
resultado é verdadeira paciência, gentileza e mudança de comportamento.
É a isso que nos referimos quando falamos que o crescimento na graça
é essencial, acontece de dentro para fora, e é orgânico, e não mecânico. É
possível formar um monte de pedras ao colocar cada vez mais pedras no
topo. Da mesma forma, é possível amontoar atividades cristãs e frequência
perfeita à igreja. É possível até crescer em conhecimento intelectual da
doutrina cristã e de fatos bíblicos. Mas isso não é o mesmo que tornar-se
mais sábio, profundo, alegre e amoroso.
Você está crescendo como um monte de pedras empilhadas ou está
crescendo como uma criança e se tornando um adulto maduro? O
crescimento é possível. O crescimento é gradativo. O crescimento é repleto
de graça e é essencial.
Quando o crescimento na graça é verdadeiro
Como identi�car que há um processo de crescimento na graça em
andamento? Archibald Alexander nos dá a seguintelista.
Haverá progresso geral, apesar de lapsos ocasionais. Nosso
crescimento por vezes será mais rápido e, por vezes, mais lento. Será mais
forte em uma área que em outra. Ao longo do tempo, contudo, acontecerão
avanços.
Haverá cada vez menos egoísmo, cada vez mais capacidade de
controlar a busca por grati�cação própria que custa muita tristeza a outros,
especialmente a membros da família. Isso signi�ca um avanço em nossa
capacidade de controlar gastos, alimentação e aquilo que dizemos em
público. É interessante que Alexander acrescenta: “a versão falsa desse
crescimento é uma consciência excessivamente escrupulosa que, por vezes,
questiona até os prazeres mais inocentes”.4
Em algumas ocasiões, haverá a consciência da presença de Deus no
culto e na oração como comunidade e o desejo crescente de se encontrar
com ele nesses momentos de devoção. Sem dúvida, é algo variável, que
depende de diversos fatores. Enfermidade, exaustão, provações e
di�culdades, ou outras fases cheias de compromissos e atividades, podem
levar a um declínio daquilo que autores mais antigos chamam “a presença
perceptível [percebida] de Deus”. Em geral, porém, deve haver tempos
contínuos, embora variáveis, em que temos comunhão com Deus em amor
por meio da oração e da leitura da Palavra. O famoso hino de William
Cowper descreve essa realidade:
Por vezes, uma luz surpreende
o cristão enquanto ele louva;
é o Senhor que ascende
com sua cura que repousa;
quando nada lhe é alentador,
ele concede à alma novamente
um tempo de evidente esplendor,
depois da chuva torrente.5
Haverá amor crescente por pessoas difíceis de amar, disposição de
envolver-se com o bem geral da comunidade ao amar o próximo e
especialmente desejo de se identi�car publicamente como cristão e
compartilhar a fé na esperança de que outros comam do mesmo alimento
que nos sustenta.
Um sinal especialmente claro de crescimento na graça é a capacidade
de suportar maus-tratos dos outros ao perdoá-los de coração e desejar o
bem deles, ao mesmo tempo que buscamos com destemor, mas com
humildade, justiça e reparação.
Haverá dependência cada vez maior da sabedoria de Deus nos altos e
baixos e nas circunstâncias da vida. Romanos 8.28 (Deus faz com que
“todas as coisas [cooperem] para o bem daqueles que o amam”) não a�rma
que cada mal especí�co produzirá algum bem, mas promete que, juntas,
todas as coisas em nossa vida estão sendo encaminhadas de acordo com um
plano, em sua maior parte invisível para nós, que opera para nosso benefício
e para a glória de Deus. O cristão que depende dessa promessa descobre
que “não importa quão sombrio seja seu horizonte, ou quantas di�culdades
o cerquem [...] você aprendeu a viver pela fé. E o humilde contentamento
com sua condição, ainda que seja de pobreza e obscuridade, mostra que você
se bene�ciou de sentar-se aos pés de Jesus”.6
Por �m, um sinal de crescimento na graça será amor crescente por
outros cristãos, e não apenas pelos membros de sua tribo especí�ca.
Infelizmente, a igreja cristã ainda se encontra dividida, em grande parte,
por raça e classe; é provável, portanto, que você vá à igreja com pessoas de
sua raça, nível de instrução e classe social. Um excelente sinal de
crescimento na graça, porém, é a descoberta de que temos uma ligação mais
próxima com crentes de condição social diferente da nossa que com
descrentes de mesma condição social. Esse amor por outros cristãos, quando
genuíno, rompe barreiras de política e ideologia, raça e classe, que dividem
todos os outros seres humanos.
Você vê mudanças desse tipo em sua vida? Nova sensibilidade e
identidade, novos hábitos e amores? De modo lento, mas certo, eles devem
se desenvolver em seu interior e transformá-lo.
Para um dos exemplos mais curiosos dessa nova criação, podemos
voltar a Nicodemos, dessa vez com enfoque não em João 3, mas naquilo
que o Evangelho nos diz a respeito dele no �m, quando Jesus morre.
Em João 19, quando o corpo de Cristo ainda estava na cruz,
Nicodemos e José de Arimateia, dois homens ricos e bem-sucedidos,
membros do conselho de líderes judeu, pedem o corpo de Jesus e removem-
no da cruz. Depois disso, o relato nos diz que eles mesmos preparam o
corpo para o sepultamento. Limpam-no de todo sangue e sujeira.
Envolvem-no ternamente com um pano em que são colocadas especiarias
aromáticas. Esses gestos são espantosos. Por quê?
Nicodemos e José agiram com ousadia e com coragem incrível, pois,
quando o líder de um movimento era executado, ninguém queria ser um de
seus seguidores. Aliás, todos os outros seguidores de Jesus estavam
escondidos, mas esses dois homens se dispuseram a tomar providências e se
identi�car abertamente como discípulos.
Além disso, é importante entender que, naquela cultura, somente
mulheres ou escravos lavavam e preparavam um corpo para ser sepultado,
pois era uma tarefa considerada (com razão) impura. Homens de condição
elevada nunca realizavam esse trabalho, mas foi o que José e Nicodemos
�zeram.
Isso signi�ca que algo havia mudado radicalmente em Nicodemos.
Tinha mais audácia e coragem que antes. E, no entanto, seu orgulho
masculino havia desaparecido. Mostrou-se mais destemido e humilde, mais
valente e culturalmente �exível do que nunca. De onde veio essa
masculinidade redimida? Veio do fato de que sua identidade como um todo
havia sido desarraigada e replantada em novo solo, no solo do evangelho.
Como observamos, o evangelho nos humilha e nos exalta mais que
qualquer outra crença ou experiência. Se você salva a si mesmo, é
destemido, mas um tanto arrogante; se fracassa, é humilde, mas inseguro. O
evangelho lhe diz que, de si mesmo, você é um pecador incorrigível, mas,
em Cristo, é salvo e amado pela graça. Essa realidade o torna semelhante a
Nicodemos e José: simultaneamente ousado e humilde, forte e terno.
O paradoxo do evangelho consiste no fato de que aqueles que
reconhecem sua fraqueza absoluta se fortalecem imensamente, e somente
quem, por assim dizer, “perde a sua vida” na verdade “a encontrará” (Mt
10.39). C. S. Lewis encerra seu livro Mere Christianity com uma descrição
desse fenômeno.
Esse princípio está presente na vida toda, de alto a baixo. Renda-se e
você encontrará sua verdadeira identidade. Perca sua vida e você a
salvará. Sujeite-se à morte, a morte de suas ambições e desejos mais
estimados diariamente, e a morte de seu corpo no �m; sujeite cada
�bra de seu ser, e você encontrará vida eterna. Não retenha nada.
Nada do que você deixou de entregar será verdadeiramente seu. Nada
em você que não morreu será ressuscitado dos mortos. Olhe para si
mesmo e você encontrará, em longo prazo, somente ódio, solidão,
desespero, fúria, ruína e decadência. Mas olhe para Cristo e você o
encontrará e, com ele, todo o restante.7
A bênção de Deus
Hebreus 6.7,8 diz que vida e crescimento vêm da “bênção de Deus”.8
Portanto, leitor, minha oração é para que você viva debaixo dessa bênção
divina.
O nascimento de um novo bebê é um acontecimento maravilhoso.
Parabéns!
O nascimento de uma nova vida em Cristo é um acontecimento
eterno. Aleluia! Quem nasce uma vez, morre duas. Quem nasce duas vezes,
morre uma.
Agora, cresça “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e
Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).
1 John Newton, �e works of John Newton (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1985), vol. 1, p.
197-217. As cartas das quais tratamos são as três primeiras: “Grace in the blade” [Graça na folha],
“Grace in the ear” [Graça na espiga] e “�e full corn in the ear” [O milho plenamente formado na
espiga]. Como se pode ver pelos títulos dessas três cartas, Newton usa várias imagens para descrever o
que ele chama cristãos A, B e C. Emprego aqui a metáfora de criança, adolescente e adulto.
2 Newton, �e works of John Newton, vol. 1, p. 203.
3 Newton, �e works of John Newton, “On grace in the full corn”, vol. 1, p. 211.
4 Archibald Alexander, �oughts on religious experience (Edinburgh: Banner of Truth Trust,
1967), p. 159. Alexander acrescenta que algumas pessoas fazem esforços legalistas tão intensos para
exercitar autocontroleque “hesitam até em ingerir o alimento diário” (p. 159).
5 William Cowper, Olney hymns (Minneapolis: Curiosmith, 2017).
6 Alexander, �oughts on religious experience, p. 160.
7 C. S. Lewis, Mere Christianity (New York: Macmillan, 1960) [edição em português:
Cristianismo puro e simples, tradução de Álvaro Oppermann; Marcelo Brandão Cipolla (São Paulo:
Martins Fontes, 2009)].
8 “O solo desfruta o benefício da chuva, que o rega com frequência para seu enriquecimento e sua
fertilidade, a �m de que, a seu tempo, possa, por sua produtividade, bene�ciar outros. Ao cumprir essa
função, o solo é abençoado por Deus. A produtividade espiritual é uma manifestação da operação da
graça divina; pois é Deus que envia a chuva de sua misericórdia sobre o solo da vida humana e também
é ele que, como agricultor, cuida de sua videira ( Jo 15.1) e a faz crescer (1Co 3.6s.).” Philip
Edgcumbe Hughes, A commentary on the Epistle to the Hebrews (Grand Rapids: Eerdmans, 1977), p.
222.
Em memória do dr. R. C. Sproul, 
que realizou nossa cerimônia 
de casamento e nos encaminhou 
devidamente em nossa teologia 
e em nossa jornada 
como casal.
P
4
COMEÇAR O CASAMENTO
or que se dar ao trabalho de casar?
Nas palavras da cerimônia de casamento cristã tradicional, “Deus
instituiu e santi�cou o casamento para o bem e a felicidade da
humanidade”.1 Embora essa declaração seja verdadeira, não pode ser o �m
da discussão para nós hoje.
A relevância do casamento é uma questão mais premente na
atualidade do que em qualquer outro momento. No passado, tomava-se por
certo que, quando alguém se tornava membro adulto da sociedade, casava-
se e tinha �lhos, e era o que fazia a maioria das pessoas. Contudo, adultos
mais jovens em países ocidentais de hoje adiam o casamento como nunca
antes. Quase um terço de todos os millennials nos Estados Unidos
permanece solteiro até os 40 anos, e é possível que 25% nem se case, a
maior proporção de qualquer geração na história moderna.2 Por quê? Há
dois motivos pelos quais tantos casamentos nem sequer começam: pressões
econômicas e o crescimento do individualismo em nossa cultura.
Temores a respeito do casamento
O fator econômico pode ser observado na convicção amplamente difundida
de adultos solteiros de que é necessário ter uma boa carreira que
proporcione estabilidade �nanceira antes de se casar, e de que o mesmo se
aplica, obviamente, ao possível cônjuge. Por trás dessa pressuposição há a
ideia de que a vida de casado consome um bocado de recursos,
especialmente com a chegada dos �lhos. Acredita-se, portanto, que antes de
se casar é preciso ter renda garantida, economias razoáveis e, talvez até, um
portfólio de investimentos.
No entanto, essa ideia é contrária a estatísticas e à tradição.
Tradicionalmente, as pessoas se casavam não porque tinham segurança e
estabilidade �nanceiras, mas, sim, para obtê-las. O casamento traz consigo
benefícios econômicos ímpares. Estudos mostram que casados poupam bem
mais que solteiros. Os cônjuges podem incentivar um ao outro a mais
autodisciplina do que os amigos. Cônjuges também dão mais apoio um ao
outro nas provações da vida e, portanto, têm mais saúde física e mental que
solteiros.
Outro fator para o declínio do casamento identi�cado por especialistas
é “considerável individualismo”.3 Essa é uma expressão popularizada por
sociólogos para designar uma tendência cultural crescente. Em culturas
tradicionais, a identidade pessoal era percebida com referência a
relacionamentos. “Quem eu sou” era de�nido por meu lugar na família, na
comunidade e, talvez, no Universo com Deus. Tornava-me uma pessoa de
valor ao cumprir minhas responsabilidades nesses relacionamentos. Hoje
em dia, porém, voltamo-nos para dentro. “Quem eu sou” não deve ser
determinado por aquilo que outros dizem ou pensam de mim. Torno-me
uma pessoa digna de valor ao descobrir meus desejos e sentimentos mais
profundos e ao expressá-los. Uma vez que eu tiver identi�cado quem eu
sou, posso começar relacionamentos, mas somente com aqueles que me
aceitam em meus termos.
Essa abordagem moderna à identidade é incutida em nós por nossa
cultura de inúmeras formas. No �lme Moana, de 2016, a princesa herdeira
em uma ilha da Polinésia é informada por seu pai de que ela será a futura
líder de sua nação e terá de se sujeitar a diversas responsabilidades
tradicionais. Em vez disso, o desejo de Moana é cruzar os mares em busca
de aventura. Sua avó entoa para ela uma canção em que lhe diz que “sua
verdadeira identidade” não se encontra em seus deveres e responsabilidades
sociais, mas na expressão de seus desejos mais profundos. Explica para
Moana que, se uma “voz interior” em seu coração lhe disser para seguir
esses desejos, “essa voz interior é quem você é”.4
Somos bombardeados continuamente por essa mensa- gem: na
televisão, nos �lmes, em anúncios, em salas de aula, em livros, em redes
sociais e em conversas com amigos, até que se transforma em uma
pressuposição inquestionável e praticamente invisível a respeito de como
nos tornamos pessoas autênticas.
O efeito dessa identidade moderna sobre o casamento é expressivo.
Signi�ca que não desejamos nem mesmo pensar em casamento se não
tivermos de�nido nossa identidade singular. Não queremos que ninguém
mais tenha o direito de dizer quem somos enquanto nós mesmos não
tivermos plena certeza de nossa identidade. Além disso, hoje em dia
esperamos e até mesmo exigimos que todos os relacionamentos sejam
transacionais, mantidos apenas enquanto são vantajosos para nós, e não
comprometidos e permanentes. Se a impermanência é o modelo em vigor,
casamento e especialmente a criação de �lhos se tornam bastante
problemáticos, pois sair de um casamento é difícil, e abandonar um
relacionamento entre pais e �lhos é praticamente impossível. E se o
relacionamento com o cônjuge ou com os �lhos for um obstáculo para você
expressar sua “verdadeira identidade”?
Em nossos dias, muitos só se casam quando imaginam ter encontrado
um cônjuge que não tentará mudá-los e que proverá recursos emocionais e
�nanceiros para ajudá-los a alcançar seus objetivos pessoais.
No entanto, é uma ilusão pensar que descobriremos nossa identidade
se a buscarmos somente em nosso interior, e não em relacionamentos com
outros. Todo coração tem diversos desejos profundos e contraditórios. Medo
e raiva coexistem com esperança e ambição. Procuramos organizar esses
desejos contraditórios e identi�car quais “não correspondem a nossa
verdadeira identidade”. Mas e se todos eles fazem parte de quem somos?
Como decidir quais correspondem a nosso “eu” ou não?
A resposta é que passamos a admirar e respeitar indivíduos ou grupos
cujas ideias podemos usar para selecionar e avaliar os impulsos de nosso
coração. Em outras palavras, ao contrário da mensagem que nos é
transmitida, desenvolvemos nossa identidade não apenas ao olhar para
dentro de nós mesmos, mas por meio de relacionamentos importantes e
narrativas que moldam profundamente o modo que nos vemos. Não
olhamos apenas para nosso interior.
A abordagem tradicional ao casamento era sábia em sua compreensão
intuitiva de que ele formaria e reformaria nossa identidade de modo
profundo. E isso é bom, pois a identidade sempre se desenvolve nas
negociações com as pessoas importantes em sua vida. Como a psicóloga
Jennifer B. Rhodes diz, “Em gerações anteriores, as pessoas estavam mais
dispostas a tomar essa decisão [de casar] e [depois] tentar entendê-la”.5 Que
maneira melhor existe de descobrir sua identidade do que se casar com
alguém que você ama e respeita e, então, embarcar juntos nesse processo de
autoconhecimento?
Diante disso, o declínio atual do casamento baseia-se em duas
convicções equivocadas a seu respeito, a saber, que consome recursos
econômicos e que é um empecilho para o pleno desenvolvimento de nossa
liberdade e identidade.
O casamento foi feito para nós
Estudiosos de ciências sociais reuniram evidências contrárias a essas duas
perspectivas equivocadas e mostram que o casamento traz consideráveis
benefícios econômicos e psicológicos.Além disso, há fortes indícios de que a
família tradicional é essencial para o bem-estar de crianças e jovens e de que
os �lhos se saem muito melhor quando são criados em famílias em que pai e
mãe são casados um com o outro. Essas constatações não devem causar
surpresa aos cristãos.6 Gênesis diz que Deus instituiu o casamento quando
criou a raça humana. Não devemos entender que, por isso, todos os
indivíduos adultos têm de se casar. Jesus foi solteiro e, uma vez que ele é o
exemplo supremo de como uma pessoa deve ser, não podemos insistir, como
fazem algumas culturas, que é necessário se casar para ser uma pessoa
plenamente realizada. Contudo, também não podemos ver o casamento da
mesma forma que nossa cultura, apenas como um desdobramento evolutivo
para guardar os direitos de propriedade na era neolítica e que, hoje em dia,
pode ser alterado ou descartado como nos aprouver.
Wendell Berry fez um pronunciamento famoso sobre a ideia moderna
de que ter sexo dentro ou fora do casamento “é uma questão inteiramente
pessoal”. Ele discordou: “O sexo não é e não pode ser uma ‘questão pessoal’
do indivíduo, nem é apenas um assunto que diz respeito somente ao casal.
Como qualquer poder necessário, precioso e volátil comumente exercido, o
sexo diz respeito a todos”.7 Sexo fora do casamento produz bebês fora do
casamento, muitas vezes transmite doenças e cria em nós o hábito de tratar
outros como objetos de prazer, e não como pessoas. Tudo isso tem enorme
impacto sobre condições sociais que afetam a todos.
Sabemos que essa linha de raciocínio é extremamente contraintuitiva
no Ocidente atual, mas foi e é bastante natural para a maioria dos seres
humanos da maioria dos lugares e épocas. Sua escolha a respeito do
casamento não é, em última análise, uma decisão pessoal. Afeta todos ao
seu redor.
O casamento foi feito para nós, e a raça humana foi feita para o
casamento.
Medo de fracassar
Há outro motivo que muitas pessoas dão para explicar a relutância moderna
em se casar. “Vi como o casamento de meus pais foi difícil e não quero isso
para mim.” O medo de con�ito e de fracasso impede muitos de procurar um
cônjuge ou, no mínimo, leva-os a buscar um possível companheiro
praticamente livre de defeitos ou fraquezas. Alguns supõem que, pelo fato
de seus pais terem se divorciado, existe probabilidade maior de que seu
futuro casamento também terminará em divórcio.
Em um artigo para a revista �e Atlantic, Joe Pinsker a�rma que, além
de pesquisas recentes mostrarem que não é o caso, ser exposto a maus
casamentos também pode fornecer recursos para construir um bom
casamento.8 Ele dá o exemplo de um homem chamado Justin Lange.
Depois do divórcio dos pais de Justin, a mãe dele se casou mais duas vezes e
o pai, mais três vezes. Justin concluiu que ser casado é difícil demais e que
ele não entraria em um relacionamento desse tipo. No entanto ele
conheceu uma mulher, apaixonou-se por ela e, apesar de tudo, os dois têm
um casamento feliz. Como é possível? “Ele atribuiu sua felicidade presente
[...] a fazer o oposto do exemplo que recebeu de seus pais.”9 Aprendeu a
construir um bom casamento ao não cometer os mesmos erros que eles.
Acima de tudo, reconheceu o maior erro de seus pais: assumir
verbalmente um compromisso para o resto da vida, mas “não estar dispostos
a agir de acordo com ele”. O divórcio, às vezes, é necessário, e a Bíblia o
permite. Estudos longitudinais mostram, contudo, que dois terços dos
casamentos infelizes se tornarão, em cinco anos, uniões felizes se os
cônjuges persistirem.10 Justin Lange descobriu que era uma ilusão acreditar
que, se encontrasse a companheira certa, não brigariam como os pais dele
brigavam. Superou o medo de que o casamento seria difícil. Claro que seria
difícil. Também superou o medo de que haveria con�itos. Claro que
haveria. O segredo, porém, é não deixar que essas coisas enfraqueçam o
compromisso de amar um ao outro em meio a todas as di�culdades. Justin
comenta: “Talvez você �que chateado com algo trivial hoje, mas fará
diferença adiante? Deixe acontecer e mantenha o foco nas coisas
importantes”.11
Um conceito equivocado de sexo
Há outro motivo apresentado com frequência tanto por pesquisadores
quanto por homens pelo qual indivíduos do sexo masculino têm menos
interesse em se casar hoje do que tinham no passado. Pesquisadores
destacam que a pronta disponibilidade de sexo é outro motivo para a
redução no número de casamentos.12 Em várias ocasiões, ouvimos homens
nos dizerem a mesma coisa sem rodeios: “No passado, era preciso se casar
para ter um relacionamento sexual, mas isso mudou completamente”.
Essa atitude considera o sexo um bem de consumo que costumava ser
caro. Houve um tempo em que, para ter sexo, era preciso abrir mão da
independência e se casar. O preço era alto, mas agora o sexo está disponível
por um custo menor, por assim dizer. Dentro dessa perspectiva, contudo, o
sexo é considerado uma experiência física e emocional que pode ser
igualmente boa, senão melhor, fora do casamento.
O cristianismo trouxe consigo desde seu início um novo e
revolucionário conceito de sexo. Era apenas uma parte (singularmente
prazerosa, poderosa e inseparável) da entrega mútua. Ser amado e
admirado, mas não verdadeiramente conhecido, traz pouca satisfação. Ser
conhecido, mas rejeitado e não amado, é nosso maior pesadelo. Mas,
tornar-se vulnerável e, portanto, plenamente conhecido, e ainda assim
plenamente amado por alguém que admiramos é a maior satisfação
possível. No casamento, os cônjuges perdem a independência e se tornam
vulneráveis e interdependentes. Não retêm nada para se relacionar apenas
de modo temporário, condicional e transacional. Entregam-se inteiramente
um ao outro emocional, física, legal e �nanceiramente.
De acordo com a ética sexual surpreendente dos cristãos primitivos, o
sexo é o sinal dessa entrega total e o meio para ela e não deve ser usado
para nenhum outro propósito. Ter sexo por outro motivo, qualquer que seja,
é ter um conceito equivocado a seu respeito. A concessão de acesso a nosso
corpo deve ser acompanhada de uma abertura mútua da vida como um todo
pela aliança vitalícia do casamento. Os primeiros cristãos ensinavam que,
somente nessa situação, o sexo pode se tornar o ato unitivo e realizador que
foi criado para ser.
Esse novo código sexual de “não ter sexo fora do casamento” causou
espanto no mundo romano, pois parecia extremamente restritivo.13 Na
verdade, porém, elevou o sexo de mero objeto de consumo para uma forma
de criar vínculo e comunidade incomparavelmente fortes entre dois seres
humanos e a uma forma de honrar e se assemelhar àquele que se entregou
inteiramente por nós, para que pudéssemos ser libertos a �m de nos
entregar inteiramente a ele.
Fujam da imoralidade sexual [...] Vocês não sabem que seu corpo é
templo do Espírito Santo que habita em vocês, que receberam de
Deus? Vocês não pertencem a si mesmos; foram comprados por preço.
Portanto, honrem a Deus com o corpo (1Co 6.18-20).
Assim como os cidadãos da Roma antiga, hoje em dia muitos
consideram a ética sexual bíblica restritiva e pouco atraente. E, no entanto,
há sinais e evidências de que a perspectiva cristã supostamente obsoleta
ainda corresponde a nossas intuições mais profundas a respeito do sexo.
Sexo superconsensual
Em um artigo para o jornal �e New York Times, uma mulher relata um
encontro sexual com um homem que ela conheceu pelo aplicativo Tinder.
A mulher tinha quase 30 anos e o homem, 24, uma diferença de idade que
não pareceu muito importante até que ele “começou a pedir meu
consentimento para quase tudo”.14 Perguntou se podia tirar o suéter dela e,
quando ela disse sim, perguntou se podia tirar a camiseta, e depois o sutiã.
Em tom de desprezo, ela explicou que ele não precisava pedir permissão
para cada coisa. “Uma mudança drástica” havia ocorrido no “treinamento
sexual” dos rapazes mais jovens, levando-os a pedir, repetidamente,
consentimento verbal. Terminado o encontro, a autora do artigo comentou:
“Na verdade, gostei do que ele fez como forma de cuidarde mim. Não
estava habituada a receber esse tipo de cuidado”.15 A experiência tinha lhe
dado uma sensação de grande intimidade.
Mais tarde, porém, quando ela enviou uma mensagem de texto para o
rapaz, ele não respondeu; simplesmente sumiu do mapa. Quando ela
contou a suas amigas que �cou chateada, elas não entenderam. Ela
explicou: “O fato de ele ter pedido meu consentimento repetidamente fez o
sexo parecer um ato sagrado. E depois ele sumiu”. Ainda assim, suas amigas
não entenderam por que ela �cou tão magoada, mas,
... nos dias e nas semanas seguintes, comecei a pensar que a
abordagem atual de nossa cultura ao consentimento é limitada demais
[...] O consentimento não funciona se o relegamos apenas ao âmbito
sexual. Nosso corpo é apenas uma parte da complexa constelação de
nossa identidade. Basear nossa cultura de consentimento somente no
corpo é esperar que o cuidado seja apenas físico. Gostaria que víssemos
o consentimento como algo [...] mais ligado a se preocupar com o
outro como um todo [...] A�nal, creio que a maioria de nós não
responderia sim se a pergunta fosse: “Tudo bem se eu agir como se me
importasse com você e depois desaparecer?”.16
Se o que a Bíblia diz sobre o plano de Deus para o casamento e a
sexualidade é verdade, a experiência dessa mulher não causa surpresa.
Quando entregamos o corpo um ao outro sem entregar a vida como um
todo, deixamos de reconhecer a natureza integrada de nosso eu. O corpo
não é separado do todo. O sexo deve ser, verdadeiramente, a oferta
recíproca da vida um ao outro, e é desumanizador entregar o corpo a
alguém que não tem problema em sumir depois e não se importa conosco.
Os cristãos têm o conceito mais profundo e amplo possível de
consentimento. Quando os cristãos a�rmam que o sexo é somente para o
casamento, querem dizer que o sexo deve ser superconsensual.
Procurar devidamente o casamento
A�nal, como se começa um casamento? Grande parte dos leitores
responderia: obviamente, ao procurar e encontrar alguém com quem se
casar. No entanto, essa é uma resposta moderna. No passado, quem escolhia
o cônjuge era a família. Mesmo um século atrás, embora os cônjuges
�zessem a própria escolha, as opções eram limitadas. A maioria das pessoas
vivia em comunidades menores. Era preciso escolher um cônjuge de um
grupo relativamente pequeno de indivíduos, e quase todos eles podiam ser
avaliados ao longo de vários anos por meio de interação pessoal.
Tudo isso mudou. Agora, se você usar aplicativos para encontros, pode
se tornar parte de uma comunidade de trinta milhões de usuários. O
número de possíveis parceiros é vertiginoso, e o desa�o de escolher um
dentre eles pode ser paralisante. Mesmo que você supere o medo, porém, a
própria maneira de avaliar milhares de pessoas não por experiência
presencial e pessoal, mas online, pode dar nova forma à busca. Pessoas são
reduzidas a produtos de consumo, comparadas quanto a altura, peso,
aparência e a�ns.
Infelizmente, mesmo sem redes sociais, sempre tivemos a tendência de
operar dessa forma. É instintivo para uma pessoa solteira entrar em um
ambiente no qual há outras pessoas solteiras e eliminar implicitamente
como possíveis candidatos quaisquer indivíduos que não correspondam a
seus padrões baseados em elementos físicos e �nanceiros. Uma vez que
eliminamos esses indivíduos, olhamos novamente aos que restaram no
grupo e avaliamos coisas como caráter e uma sensação de “ligação” ou
a�nidade. O problema é que já excluímos pessoas que talvez tivessem o
caráter e a a�nidade que buscamos.
Redes sociais e aplicativos de encontros só reforçam exponencialmente
essa estratégia ine�caz. Uma das grandes di�culdades é que as pessoas que
você vê online lhe fornecem uma representação extremamente �ltrada.
Você busca a�nidade e caráter, mas, como um pesquisador destaca, “Não há
evidências de que seja possível avaliar esses elementos online”. Antes, diz
Eli Finkel, da Northwestern University, ideias equivocadas correm soltas no
mundo virtual. “Vocês imaginam que sabem o que desejam, mas, na
verdade, o que precisam é sentar-se à mesa e pedir uma cerveja.”17
Isso signi�ca que não devemos tentar conhecer pessoas online? Não
necessariamente, mas a única forma de fazê-lo é, primeiro, resistir abordar
o casamento como abordamos uma compra e não eliminar pessoas com
base apenas em parâmetros físicos e �nanceiros e, segundo, encontrar
maneiras de “sentar-nos à mesa” e conhecer a pessoa.
Quando tivermos encontrado formas de interagir pessoalmente com
alguém, o que devemos buscar?
1. Se você é crente, procure alguém que também seja. À primeira vista, pode
parecer preconceito, mas, se alguém não compartilha de sua fé cristã,
signi�ca que não entende sua fé. E, se sua fé é supremamente importante
para sua forma de pensar e viver, signi�ca que essa pessoa também não
entende você. Sem dúvida, a essência de um bom casamento é ter alguém
que compreenda você, mas, se a pessoa não compartilha de sua fé, essa
compreensão é impossível. A única maneira de desenvolver intimidade em
um relacionamento como esse é você relegar Jesus a uma posição mais
periférica no que se refere aos seus pensamentos e percepções diários.
Em 2Coríntios 6.14, nós, cristãos, somos exortados a não nos colocar
em “jugo desigual” em nossos relacionamentos próximos com pessoas que
não compartilham de nossas crenças mais profundas. A imagem é de um
agricultor que procura colocar debaixo do mesmo jugo dois animais
diferentes, por exemplo, um boi e um jumento, com altura, peso e ritmo
diferentes. Em vez de o jugo pesado de madeira usar a força dos animais
para realizar a tarefa, ele causaria desconforto e machucaria ambos. O
casamento entre um cristão convicto e praticante e uma pessoa que não
segue esse caminho pode, portanto, ser injusto e doloroso para os dois
cônjuges.
2. Procure alguém que continuará a ser atraente para você quando perder a
beleza da juventude. Embora a atração física deva crescer entre os cônjuges,
tem de se basear em um tipo mais profundo de atração. No livro bíblico de
Cântico dos Cânticos, o amante diz: “Você roubou meu coração com um
simples olhar” (Ct 4.9). Por mais que Cânticos celebre o amor sexual, a
parte do corpo que recebe maior atenção dos amantes são os olhos um do
outro. E o enfoque não é tanto sobre a beleza de seu formato, mas sobre o
“olhar” que revela o caráter e a personalidade do amante. Aliás, à medida
que o corpo envelhece e perde sua beleza, o olhar pode se tornar ainda mais
expressivo e sábio, mais alegre e amoroso. Ser cativado pelos olhos de
alguém é uma forma de dizer que você é atraído pelo coração da pessoa.
A atração romântica não deve desconsiderar a aparência física, mas
essa não pode ser a parte mais importante, pois, em longo prazo, ninguém
mantém a mesma aparência. De acordo com Paulo em 2Coríntios 4.16, à
medida que o corpo dos crentes se torna mais fraco e idoso, é possível eles se
tornarem interiormente mais fortes e belos. Quanto mais �xarmos o olhar
na beleza interior de nosso cônjuge, mais a atração física se desenvolverá,
mesmo à medida que nossa aparência física se tornar menos atraente com o
passar dos anos.
3. Por �m, aconselhe-se com outros a respeito de seu relacionamento antes de
se casar. No passado, di�cilmente alguém se envolvia em um
relacionamento romântico sem que família e amigos �cassem sabendo. Era
natural receber opiniões de várias pessoas ao redor que conheciam ambas as
partes. Hoje em dia, somos pessoas em trânsito que dependem da telefonia
móvel. Mudamo-nos de um lugar para outro. Muitos que nos veem
pessoalmente todos os dias não nos conhecem bem. Enquanto isso, muitos
que nos conhecem há mais tempo estão distantes e só nos “veem” por meio
das representações �ltradas que colocamos online. Vários de nossos
companheiros de longa data não fazem ideia do que verdadeiramente se
passa em nossa vida.
Por consequência, tomamos mais decisões em um vácuo, e isso inclui
decisões a respeito de romance e casamento. No entanto, o casamento é
uma escolha importante demais para ser feita semreceber conselhos, é
necessário ouvir a opinião de casais com mais sabedoria e experiência. Peça
conselho a eles e aproveite essa sabedoria.
Começar devidamente o casamento
Uma vez que você se casa, de que maneira começa a lançar o alicerce para
um relacionamento rico e longo?
Antes de nos casarmos, Kathy ouviu várias vezes que o dia do
casamento seria “o dia mais feliz de sua vida”. Esperávamos sinceramente
que não fosse! Cada dia depois da cerimônia de casamento foi um dia em
que progredimos em compreensão um do outro e nos ajustes para servir um
ao outro. Cada dia tem sido um dia a mais para aprender e aproveitar
melhor os frutos do arrependimento e do perdão.
Nossa atitude talvez seja relacionada a um comentário informal feito
por R. C. Sproul, o pastor que realizou nossa cerimônia de casamento. Ele
disse: “Vesta e eu somos casados há quinze anos, e acho que estamos
começando a pegar o jeito”. À primeira vista, essa declaração pode parecer
um tanto assustadora. Quinze anos e ainda estão tentando pegar o jeito?
Agora, porém, da perspectiva de 45 anos de casados, parece-nos que talvez
tenhamos subestimado quanto tempo leva para conhecer os ritmos do
coração e da vida um do outro, praticar a negação própria em favor da saúde
do relacionamento e adquirir conhecimento de linguagens do amor
estrangeiras (de outra pessoa). Mas, quer a curva de aprendizado seja longa
ou curta, todo casamento precisa começar devidamente para que seja
edi�cado de forma ainda melhor. Relacionamos alguns (não todos) hábitos,
práticas, comportamentos e atitudes fundamentais que devem ser
estabelecidos desde o início.18
1. Nunca durmam com raiva. Esse conselho se tornou clichê, mas há um
forte motivo bíblico por trás dele. Segue a instrução de Paulo em Efésios
4.26 para “não [deixar] que o sol se ponha sobre sua ira”. Isso signi�ca que,
em vez de reprimir e esconder sua infelicidade, você e seu cônjuge devem
desenvolver um novo conjunto de aptidões. Entre essas aptidões, podemos
citar: primeiro, expressar o que incomoda de forma honesta, mas sem
atacar. Segundo, aprender a se arrepender sinceramente por ter magoado
seu cônjuge, mas fazê-lo sem buscar justi�cativas e sem se autodepreciar a
ponto de seu cônjuge dizer: “Quer saber, melhor deixar assim mesmo”.
Terceiro, aprender a dar e a receber perdão.
Em círculos médicos, é amplamente aceita a ideia de que é durante o
sono que as coisas aprendidas e vivenciadas durante o dia se organizam em
memórias e hábitos. Ir dormir com raiva de seu cônjuge alimentará uma
atitude de ressentimento. Se o �zer repetidamente, esse ressentimento se
transformará em raiva profunda e até mesmo em ódio. Como evitar dormir
com raiva? Veja o número 2.
2. Façam da oração juntos as últimas palavras de seu dia. É difícil orar com
raiva e, mesmo que vocês apenas passem cinco minutos pedindo a Deus a
bênção dele sobre sua família e sua vida, terão de abrir mão da raiva para
entrar na presença de Deus.
3. Ofereçam sexo um ao outro com frequência. Pode parecer óbvio para os
recém-casados! No entanto, a energia sexual é como todas as outras formas
de energia e, quando estamos cansados, é fácil nos esquecermos do sexo ou
adiá-lo para “um momento melhor”. Falta de toque íntimo pode causar
distanciamento entre os cônjuges. Usamos o verbo “oferecer”
intencionalmente. Todos nós acreditamos no mito de que paixão intensa
toma conta dos dois ao mesmo tempo; na verdade, porém, uma pessoa
geralmente tem mais interesse em sexo que a outra. Nessas ocasiões, a
pessoa menos interessada pode oferecer sexo como uma dádiva. Paulo,
solteiro, transforma essa ideia em uma ordem bíblica contracultural:
O marido deve cumprir seus deveres conjugais para com sua esposa, e
da mesma forma a esposa para com seu marido. A esposa não tem
autoridade sobre o próprio corpo, mas, sim, o marido. Da mesma
forma, o marido não tem autoridade sobre o próprio corpo, mas, sim, a
esposa. Não se privem um do outro, exceto, talvez, por mútuo
consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração.
Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não
terem domínio próprio (1Co 7.3-5).
Em um mundo em que todos os privilégios sexuais eram dos homens, Paulo
a�rma que maridos e esposas têm direitos iguais sobre o corpo um do outro,
e que não é bom “se privar” um do outro a menos que seja por mútuo
consentimento e por um período curto.
4. Tomem decisões re�etidas a respeito de sua vida e de suas tradições como
família. Vocês cresceram observando seus pais ou outros adultos nos papéis
deles como homens e mulheres, maridos e esposas, pais, avós e assim por
diante. É inevitável que tragam esses modelos inconscientemente para o
casamento. É dessa forma que o marido trata a esposa. Essa é a maneira de
comemorar as festas. As férias são sempre na praia. Essas pressuposições
in�uirão em sua vida conjunta em coisas grandes e pequenas, portanto é
melhor tratá-las de forma consciente e resolver como casal de que maneira
sua nova unidade familiar procederá.
Quando nos casamos, Kathy trouxe consigo a imagem de um marido
que preparava o café da manhã de sábado para que a esposa pudesse dormir
um pouco mais e que sabia trocar fraldas com grande habilidade. (Com
cinco �lhos, adquiriu prática de sobra!) Tim, em contrapartida, veio de uma
família em que o pai tinha de estar no trabalho às 5 da manhã e voltava
para casa exausto à noite. Além de prover para a família, não era pedido
dele que contribuísse de nenhuma outra maneira. Pouco depois que nosso
primeiro �lho nasceu, os pais de Tim o chamaram de lado, preocupados
porque Kathy estava “mandando nele”, pois ela havia pedido que ele
trocasse uma fralda do bebê. Tim respondeu com �rmeza: “Mãe, pai, muito
obrigado por sua preocupação, mas em nossa família fazemos as coisas de
forma diferente”. Abrir presentes na manhã de Natal? Vocês decidem.
Música ou TV logo cedo? (Kathy soltou um grito de exasperação quando
Tim ligou o rádio na primeira manhã juntos em nosso apartamento! Com
certeza devíamos ter conversado sobre isso antes!)
Não estamos falando da prática horrível de negociar cada tarefa e
manter um registro para ver quem está fazendo sua parte. Tratamos
demoradamente dos papéis masculinos e femininos no casamento em outro
livro. Estamos falando de criar novas tradições adequadas para sua nova
família, em vez de tomar por certo que as coisas devem ser feitas de acordo
com os costumes de sua família de origem.
5. Por �m, aprendam as “linguagens do amor” um do outro. Um dos livros
mais importantes que lemos foi How do you say “I love you?” [Como se diz
“eu te amo”?].19 No começo do livro, o autor dá um exemplo em que um
homem alemão diz “Ich liebe dich” para uma moça francesa. Ele expressa
amor, mas ela não o sente, pois ele literalmente não comunica seu afeto em
uma linguagem compreensível para ela. É algo natural, diz o autor, pois “a
maioria das pessoas só fala as linguagens do amor que elas próprias
entendem”.20
Em seguida, ele propõe (muito corretamente, de acordo com nossa
experiência) que temos certas maneiras em que desejamos que outros
expressem amor por nós. No aconselhamento que �zemos antes de nos
casar, R. C. Sproul contou uma história de seu casamento como ilustração.
No aniversário dele, esperava receber um novo conjunto de tacos de golfe.
Mas Vesta, sua esposa bastante prática, lhe deu seis camisas brancas.
Quando chegou o aniversário dela, ele a surpreendeu com um casaco
so�sticado, certo de que ela �caria encantada; na verdade, porém, o que ela
queria era uma máquina de lavar nova. Cada um havia falado apenas a
própria linguagem do amor, e não a linguagem do outro.
Em nosso caso, quando Tim ajuda Kathy de forma proativa com as
tarefas domésticas, seu gesto tem muito mais valor emocional do que
quando ele expressa verbalmente que a ama, ou mesmo quando lhe compra
um presente. Em outras palavras, quando ele “diz” que a ama de formas
práticas, ela se sente muito mais amada do que quando ele expressa afeto de
outra maneira. Ele fala sua linguagem do amor. Swiharte outros
apresentam uma lista de várias “linguagens do amor”: passar tempo juntos,
suprir necessidades emocionais, expressar afeto com palavras, com toque
físico, estar do mesmo lado, fazer a�orar o que cada um tem de melhor e
outros. É essencial descobrir as linguagens do amor que seu cônjuge mais
valoriza e se tornar �uente nelas, mesmo que não sejam igualmente
importantes para você.
Conversem, cheguem a um acordo e comecem a praticar esses cinco itens e
seu casamento estará bem encaminhado!
1 De “�e order for the solemnization of marriage”, in: Book of common worship (Philadelphia:
Presbyterian Board of Publication, 1906), da Igreja Presbiteriana, e de Gênesis 2.22-24.
2 Belinda Luscombe, “Why 25% of millennials will never get married”, Time (September 24,
2014), disponível em: https://time.com/3422624/report-millennials-marriage/#:~:text=�e%20thre
e%20main%20reasons%20people,a%20while%2C%20for%20shacking%20up, acesso em: 22 set
2020.
3 Veja Robert Bellah et al., Habits of the heart: individualism and commitment in American life
(Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 2007).
4 Where you are, letra de Mark Mancina e Lin-Manuel Miranda, do álbum Moana (2016). Por
ironia, essa é uma abordagem bastante ocidental e individualista à identidade sobreposta de forma
desajeitada com uma garota (�ctícia) de uma cultura não ocidental. Sem dúvida, está dentro do escopo
da licença poética, mas convém destacar que se trata de um exemplo de como pessoas na cultura
secular ocidental consideram sua cosmovisão a verdade universal que pode aprimorar as culturas do
restante do mundo.
5 Jennifer B. Rhodes, citada em Marissa Hermanson, “How millennials are rede�ning marriage”,
Gottman Institute, Gottman Relationship Blog ( July 3, 2018), disponível em: http://www.gottman.co
m/blog/millennials-rede�ning-marriage/, acesso em: 22 set. 2020.
6 Apenas um exemplo dentre vários estudos: W. Bradford Wilcox, “�e new progressive
argument: for kids, marriage per se doesn’t matter”, Institute for Family Studies (September 15,
2014), disponível em: http://ifstudies.org/blog/for-kids-marriage-per-se-doesnt-matter-right/, acesso
em: 22 set. 2020.
https://time.com/3422624/report-millennials-marriage/#:~:text=The%20three%20main%20reasons%20people,
http://www.gottman.com/blog/millennials-redefining-marriage/
http://ifstudies.org/blog/for-kids-marriage-per-se-doesnt-matter-right/
7 Wendell Berry, “Sex, economy, freedom and community”, in: Sex, economy, freedom, and
community (New York: Pantheon, 1993), p. 119.
8 Joe Pinsker, “How successful are the marriages of people with divorced parents?”, Atlantic (May
30, 2019).
9 Pinsker, “How successful are the marriages of people with divorced parents?”, grifo dos autores.
10 Linda J. Waite et al., “Does divorce make people happy? Findings from a study of unhappy
marriages”, Institute for American Values, 2002, disponível em: http://www.americanvalues.org/searc
h/item.php?id=13, acesso em 22 set. 2020.
11 Pinsker, “How successful are the marriages of people with divorced parents?”.
12 Paula England, “Is the retreat from marriage due to cheap sex, men’s waning job prospects, or
both?”, Institute for Family Studies (November 1, 2017), disponível em: http://ifstudies.org/blog/is-
the-retreat-from-marriage-due-to-cheap-sex-mens-waning-job-prospects-or-both/, acesso em: 22 set.
2020.
13 Kyle Harper, From shame to sin: the Christian transformation of sexual morality in late antiquity
(Cambridge: Harvard University Press, 2016), p. 86. Veja também todo o capítulo 2 de Harper, “�e
will and the world in early Christian sexuality”, p. 80-133.
14 Courtney Sender, “He asked permission to touch, but not to ghost”, New York Times
(September 7, 2018).
15 Sender, “He asked permission to touch, but not to ghost”.
16 Ibidem.
17 Citado em Carolyn Kaufman, “Why �nding a life partner isn’t that simple”, Psychology Today
(April 20, 2013).
18 Um aviso: se vocês estão morando juntos antes do casamento (espero que não, pois essa não é
uma boa forma de se preparar para o casamento), essas sugestões também se aplicam a vocês. Veja
Timothy; Kathy Keller, “Introduction”, in: �e meaning of marriage (New York: Penguin, 2011)
[edição em português: O signi�cado do casamento, tradução de Susana Klassen (São Paulo: Vida Nova,
2012)].
19 Judson Swihart, How do you say “I love you”? (Downers Grove: InterVarsity, 1977). Um livro
popular bem mais conhecido e recente sobre esse assunto é Gary Chapman, �e 5 love languages: the
secret to love that lasts (Chicago: North�eld, 2010) [edição em português: As 5 linguagens do amor: como
expressar um compromisso de amor a seu cônjuge, 3. ed., tradução de Emirson Justino (São Paulo: Mundo
Cristão, 2013)].
http://www.americanvalues.org/search/item.php?id=13
http://ifstudies.org/blog/is-the-retreat-from-marriage-due-to-cheap-sex-mens-waning-job-prospects-or-both/
20 Swihart, How do you say “I love you”?, p. 15.
A
5
MANTER O CASAMENTO
Bíblia começa com um casamento em Gênesis e termina com o
banquete de casamento do Cordeiro em Apocalipse. Na perspectiva
cristã, o casamento volta nosso olhar para Deus e para o evangelho, mas, ao
mesmo tempo, o evangelho fornece-nos os melhores recursos possíveis para
o casamento. Eis o primeiro casamento, retratado para nós em Gênesis 2.
O S����� Deus declarou: “Não é bom que o homem esteja só; farei
uma ajudadora adequada para ele”. O S����� Deus havia formado da
terra todos os animais do campo e todas as aves do céu. Trouxe-os ao
homem para ver como este lhes chamaria; e o nome que o homem
desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu
nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os
animais do campo. No entanto, não se encontrou para o homem uma
ajudadora adequada. Então o S����� Deus fez o homem cair em
profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas,
fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do
homem, o S����� Deus fez uma mulher e a trouxe a ele. Disse o
homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; ela
será chamada ‘mulher’, porque do homem foi tirada”. Por essa razão, o
homem deixará pai e mãe e se unirá à sua esposa, e eles se tornarão
uma só carne. O homem e sua esposa viviam nus, e não sentiam
vergonha (Gn 2.18-25).
Busquemos nessa passagem aquilo que precisamos para um bom casamento
em longo prazo, ao longo de décadas. Ela nos fala de três coisas que temos
de fazer.
Evitar a idolatria
É costume em cerimônias de casamento a esposa caminhar até o noivo, com
frequência acompanhada do pai ou de pai e mãe, ou de outra pessoa.
Gênesis mostra que essa tradição remonta ao jardim do Éden. Nesse caso,
Deus conduziu a esposa ao marido.
E, quando Adão vê Eva, ele declama um poema, o primeiro registrado
na Bíblia. Na maioria das Bíblias, é impresso na página com indentação, em
forma de verso. O homem irrompe em cântico ao ver sua esposa.
A primeira palavra que ele diz em hebraico signi�ca “En�m”. Também
pode ser traduzida por “Finalmente!”. Diz: “Era ela que eu estava
procurando. Era ela que estava faltando”. Mas quem é ela? Ele a�rma que
ela é “osso dos meus ossos e carne da minha carne”. É uma forma de dizer:
“Eu me encontrei em você. Finalmente, ao conhecer você, posso conhecer a
mim mesmo”. Lembre-se de que Adão está no paraíso, onde tem um
relacionamento perfeito com Deus. E, no entanto, ao encontrar sua esposa
e companheira, fala de algo tão profundo dentro de nós que ele irrompe em
adoração por meio de uma expressão artística. Essa reação mostra um fato
importante que precisamos entender a �m de ter um casamento bem-
sucedido em longo prazo.
John Newton, mais conhecido por ser autor do hino Amazing grace
[Surpreendente graça], também foi sábio pastor na Inglaterra do século 18.
Escreveu uma série de cartas para um jovem casal que estava dando os
primeiros passos no casamento. Newton aconselhava recém-casados com
frequência e dizia que talvez imaginemos que ter um mau casamento seja o
pior problema que alguémpode enfrentar. No entanto, ter um bom
casamento pode representar um perigo espiritual igualmente sério. Ele
escreve:
Com um cônjuge tão amável, seu maior perigo talvez se encontre na
felicidade excessiva. Lamentavelmente, a natureza enganosa de nosso
coração em tempo de prosperidade nos expõe ao maior de todos os
males, a saber, afastar-nos da fonte de água viva e sentar-nos junto a
cisternas rachadas. Permita-me aconselhá-los, sim, aconselhar ambos:
tomem cuidado com a idolatria. Eu sofri em razão desse mal; ele me
angustiou com muitos temores imaginários e me causou muitas
humilhações e tristezas reais. [...] O velho fermento, a tendência a uma
aliança de obras, ainda se apega a mim.1
Do que Newton está falando? Ele está usando imagens da Bíblia.
Cisternas eram tanques abertos feitos de pedra ou argamassa de cal que as
pessoas usavam em tempos antigos a �m de coletar água da chuva para uso
doméstico. Se, contudo, a cisterna estava rachada, a água vazava, e não
havia como saciar a sede. “Cisternas rachadas” ( Jr 2.13) era uma metáfora
empregada pelos profetas para denotar como buscamos satisfação e
segurança mais profundas em coisas do mundo, em vez de buscá-las em
Deus. Jesus disse à mulher samaritana que a única fonte de satisfação
absoluta não se encontrava em romance e casamento, mas nele ( Jo 4.14), a
fonte de “água viva”.
Newton diz que bons casamentos correm o risco de afastar nosso
coração de Deus e voltá-lo para o cônjuge como fonte suprema de amor,
segurança e alegria. Além disso, ele a�rma que um bom casamento pode ser
a causa de voltarmos a uma “aliança de obras”. O que isso signi�ca?
“Aliança de obras” é um termo teológico antigo para um sistema em
que obtemos a salvação por meio de nosso desempenho. Talvez digamos:
“Deus me abençoará e me levará para o céu porque vivo de forma correta e
mereço ser salvo”. O evangelho cristão é inteiramente contrário a essa
forma de pensar. A Bíblia diz: “Pois é pela graça que vocês são salvos, por
meio da fé, e isso não vem de vocês, é dom de Deus, não por [suas boas]
obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8,9).
Como ministro anglicano, John Newton tinha plena ciência desse fato,
pelo menos intelectualmente. De modo prático, no entanto, o fato de ele
haver transformado sua esposa e seu casamento em ídolos o levou a recair
em uma aliança de obras. E o mesmo pode acontecer conosco. Procuramos
em nosso cônjuge coisas que somente Deus pode nos dar. Buscamos no
amor, no respeito e no apoio de nosso cônjuge a percepção de nosso valor e
de nossa dignidade. Em outras palavras, esperamos que nosso cônjuge nos
salve. Em certo sentido, voltamos à aliança de obras.
É fácil de isso acontecer, pois o casamento é algo maravilhoso. E é fácil
transformar algo maravilhoso no bem supremo de nossa vida.
Como Newton diz, esse caminho o levou a muitos temo- res,
humilhações e tristezas. De que maneira? Colocamos pressão insuportável
sobre nosso cônjuge para que sempre esteja saudável, feliz, contente
conosco e nos apoiando. E, no entanto, ninguém pode suportar o peso desse
nível de expectativa. Críticas de nosso cônjuge nos destroem. Problemas
com nosso cônjuge também podem nos deixar arrasados. Se algo não vai
bem no relacionamento, a vida começa a se desintegrar. E, se o cônjuge
falece, como nosso “deus” poderá nos consolar com seu amor quando ele
está em um caixão?
Diante disso, o que podemos fazer? Não devemos tentar reduzir o
amor por nosso cônjuge ou pela pessoa com quem pretendemos nos casar.
Antes, precisamos aumentar o amor por Deus. De acordo com C. S. Lewis,
provavelmente é impossível amar demais qualquer ser humano. Talvez o
amemos demais em comparação com nosso amor por Deus, mas o
problema está na pequenez de nosso amor por Deus, e não na grandeza de
nosso amor pela pessoa. Se não tivermos um relacionamento de amor
verdadeiro e existencial com Deus, o casamento acabará conosco.2
Em sociedades tradicionais, você não é ninguém a menos que seja
casado com alguém, mas a fé cristã começou com um homem solteiro. Em
2Coríntios, Paulo, essencialmente, diz: “Você quer se casar? Ótimo. Não é
casado? Ótimo”. A intenção de Paulo é mostrar que o relacionamento que
todo cristão solteiro tem com Deus por meio de Cristo é tão íntimo, e o
relacionamento com os irmãos e irmãs da família de fé é tão próximo, que
nenhum solteiro deve ser considerado alguém que não tem família ou que
não está desfrutando o maior amor de todos.
Portanto, a primeira coisa que precisamos fazer para ter um excelente
casamento é, paradoxalmente, entender seu caráter secundário. Mas essa é
apenas a primeira coisa.
Ter paciência para a longa jornada
Em Gênesis 2.18 lemos: “Não é bom que o homem esteja só; farei uma
ajudadora adequada para ele”. O termo hebraico ezer, traduzido por
“ajudadora”, é usado com frequência na Bíblia em referência a reforços
militares. Imagine que você é um pequeno destacamento cercado de forças
inimigas muito maiores. De repente, chegam os reforços para lutar ao seu
lado. Pense em seu alívio e sua alegria! Sem eles, você teria sido derrotado.
Esse é o sentido do termo aqui e, em várias passagens da Bíblia, é usado
com referência a Deus. “Ajudadora” não signi�ca, portanto, “assistente”,
mas alguém com força adicional que você não tem. Esse é o termo usado
para a mulher, a esposa no primeiro relacionamento conjugal.
Mas há outro termo: “adequada”. Em algumas versões, esse termo é
traduzido por “apropriada” ou “idônea”, uma quali�cação tradicional (mas
não muito esclarecedora) para a esposa.
Precisamos investigar em maior profundidade o signi�cado pleno do
termo hebraico original. Na frase que diz: “Farei uma ajudadora adequada
para ele”, na verdade há dois termos hebraicos traduzidos por “adequada”. O
hebraico diz, literalmente, “Farei uma ajudadora semelhante oposta a ele”.
Nossa primeira impressão é de uma contradição; a�nal, é “semelhante” ou
“oposta”? É elucidativo, contudo, pensar em duas peças de um quebra-
cabeça. As duas peças não se encaixam se são idênticas, tampouco se são
aleatoriamente diferentes. Apenas se encaixam de modo perfeito quando
são corretamente diferentes, de uma forma correspondente, mas
complementar.
Deus coloca na vida de Adão (e, portanto, Deus coloca na vida de Eva)
alguém com enorme poder, mas com um poder diferente. “Semelhante
oposta”, qualquer que possam ser outros signi�cados, quer dizer não
intercambiável. Tanto o homem quanto a mulher têm qualidades e
grandezas, perspectivas e poderes que diferem um do outro. No casamento,
uma pessoa entra em sua vida, uma pessoa profunda e misteriosamente
diferente.
Muitos tentaram de�nir masculinidade e feminilidade por meio de
uma lista de características especí�cas. Assim que começamos a relacioná-
las, porém, descobrimos que não correspondem a pessoas de todas as
culturas, e nem mesmo de todos os temperamentos. É extremamente
importante observar que a Bíblia não nos fornece uma lista de
características masculinas e femininas. E, no entanto, ela pressupõe
diferenças entre um e outro, especialmente aqui em Gênesis 1 e 2. De
acordo com a mensagem do texto, somente juntos, munidos com todos os
recursos de masculinidade e feminilidade, os dois são capazes de enfrentar a
vida como casal. O contexto militar do termo “ajudadora” aponta para essa
ideia. Somente juntos vocês terão todo o necessário para não serem
derrotados.
Nós (Tim e Kathy) não nos encaixamos nos estereótipos estabelecidos
para o homem ou para a mulher. É arrazoado dizer que, de acordo com os
padrões tradicionais, Tim não é extremamente masculino e Kathy não é
extremamente feminina. E, no entanto, logo que casamos, começamos a
perceber que enxergávamos o mundo de forma bem diferente, e que essas
diferenças não podiam ser atribuídas apenas a temperamento, família, classe
social ou etnia. Por exemplo, Kathy �cou abismada com a capacidade de
Tim de colocar os sentimentos e medos de lado, a �m de se concentrar no
que precisava ser feito. Embora, como mulher, ela também fosse
plenamente capaz de se dedicar inteiramenteapertado e
chorar. De acordo com ela, aquilo se deu, em parte, aos hormônios se
manifestando, mas, em parte, também foi o reconhecimento das
consequências de termos gerado um pequeno ser humano, membro de uma
raça caída. Sim, “todos os dias determinados para [ele] foram escritos” no
livro de Deus, mas, sendo adulta, Kathy sabia que o livro de nosso �lho
teria decepção, mágoa, fracasso, dor, perda e, por �m, morte. Tudo isso
aconteceria por mais que nos esforçássemos para protegê-lo. Portanto, ela
literalmente estremeceu diante da responsabilidade de ser mãe dessa
maravilha do Universo. E, quando re�eti melhor, também estremeci.
Kathy concluiu:
Certa mãe referiu-se ao nascimento de uma criança como um
“terremoto na família”. Quer esse acontecimento seja cheio de alegria
e desejado ou não, quer a criança seja a primeira ou a décima quarta,
saudável ou com necessidades especiais, essa nova pessoa que entra no
mundo altera a história de maneiras grandes e pequenas pelo simples
fato de existir. Como alguém que acabou de se tornar pai ou mãe, você
se tornou parte de um grupo que remonta a milênios e que abarca
rainhas e escravos, adolescentes de treze anos em culturas antigas e
pelo menos uma mulher de noventa anos, Sara, mãe de Isaque, na
Bíblia. Há um bom motivo pelo qual todos os reinos, tribos, línguas e
nações têm rituais associados ao ato de dar à luz. É um acontecimento
quase místico receber um ser humano que não existia, mas que agora
existe.
Bênção ou fardo?
Trazer ao mundo uma nova vida é o que de mais tremendo e
impressionante alguém pode fazer. Cabe às mulheres o privilégio especial
de acolher e nutrir a nova vida, como participantes com Deus na criação.
Quando o sexo feminino recebe voluntariamente o carinho do sexo
masculino, o poder concedido às mulheres é desencadeado, e uma vida que
antes não existia �oresce para o mundo.3 A criação de uma nova vida não
apenas impele a civilização e a cultura para a nova geração em suas
inúmeras formas, mas também traz incontáveis mudanças para os membros
da presente geração e exige sacrifícios em uma escala que talvez jamais
tenham experimentado.
Hoje em dia, porém, há no mínimo certa ambivalência a respeito desse
enorme privilégio.
É nítido o medo (mais que a maravilha) diante da ideia de ter �lhos.
Vivemos em uma sociedade que tem visto um rápido declínio da taxa de
natalidade, a ponto de haver menos nascimentos que mortes, o que causa
um baixo nível de substituição chamado “desnatalidade”. Menos pessoas
hoje em dia consideram que ter �lhos é uma bênção.
Os progressistas costumam jogar a culpa em fatores econômicos, e os
conservadores costumam ressaltar o crescente egoísmo. Um dos melhores
livros sobre esse assunto é All joy and no fun: the paradox of modern
parenthood, de Jennifer Senior, pois a autora toma o cuidado de não fazer
generalizações excessivas. Senior relaciona vários motivos para a
ambivalência contemporânea em relação a ter �lhos, mas dois deles se
destacam.
O primeiro é a ênfase nunca antes vista da cultura moderna sobre
autonomia e realização pessoais. Temos mais liberdade de escolher nossa
carreira, prática sexual, onde vamos morar, se vamos nos casar e
permanecer casados e se vamos ter �lhos ou não. “Poucos desejam voltar
atrás no avanço histórico que nos deu essas liberdades recém-descobertas”,
ela escreve, mas “passamos a de�nir liberdade de forma negativa, como
ausência de dependência, como direito de não ter obrigações para com o
outro [...] [e] como isenção de responsabilidade social imposta sobre nossos
recursos �nanceiros e nosso tempo”.4
Uma vez que temos um conceito fortemente arraigado de liberdade
como isenção de obrigações, “tornar-nos pais é um choque atordoante”.
Agora temos o direito de escolher ou mudar qualquer coisa que não pareça
nos satisfazer, ou nos buscar o que nos bene�cie: trabalho, localização,
carreira, cônjuge. “No entanto, não podemos escolher nem mudar nossos
�lhos. Eles são a última obrigação imposta em uma cultura que não requer
praticamente nenhum outro compromisso.”5
Não creio que o “choque atordoante” para os pais possa ser
interpretado apenas como absoluto egoísmo. Antes, criar �lhos desa�a
todos os hábitos do coração que nossa cultura formou em nós no tocante a
relacionamentos. Mudar esses hábitos não é fácil nem simples.
Outro motivo pelo qual ter �lhos hoje em dia é tão paradoxal é o fato
de que os pais dedicam mais do que nunca capital emocional e �nanceiro à
educação dos �lhos, a tal ponto que ter �lhos “talvez tenha se tornado [...]
uma pro�ssão, por assim dizer”. Só há um problema com essa pro�ssão:
“seus objetivos não são nada claros”. O que os pais desejam realizar em
relação a seus �lhos? Por exemplo, “hoje em dia, os pais [...] são
responsáveis pelo bem-estar psicológico dos �lhos, o que, à primeira vista, é
um objetivo louvável. Mas também é obscuro”.6 Quem de�ne “bem-estar
psicológico”? É simplesmente sinônimo de felicidade? Não existem pessoas
cruéis e felizes? O objetivo, então, é tornar os �lhos íntegros e bons?
Embora esse talvez seja o desejo dos pais de hoje, eles vivem em uma
sociedade que a�rma categoricamente que os valores morais são construídos
pela cultura. E, em geral, acrescenta-se a isso que não devemos impor
nossos valores sobre nossos �lhos, mas deixar que eles escolham os valores
deles. Sério? Será que não devemos nos preocupar se estão se tornando
honestos, compassivos, justos e pacientes? Podemos deixar que escolham
essas coisas ou não?
Os cristãos têm recursos diretamente pertinentes a esses desa�os. Para
começar, o ensino bíblico a respeito da natureza humana reestrutura as
expectativas dos pais. Os livros atuais de psicologia infantil (e, o que é ainda
mais popular, os conselhos informais sobre educação de �lhos) partem,
inevitavelmente, de alguma �loso�a antropológica, de um conceito da
natureza humana por trás de todo o restante. Ela pode ser otimista ou
pessimista a respeito de nossa capacidade de moldar a vida por meio das
nossas escolhas. Pode considerar a natureza humana basicamente boa ou
irremediavelmente má. A Bíblia, contudo, nos diz que os seres humanos são
muito melhores e muito piores do que podemos imaginar. Fomos criados à
imagem de Deus, mas profundamente des�gurados pelo pecado. Como a
personagem principal de As crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, diz para as
crianças:
“Vocês são descendentes do senhor Adão e da senhora Eva”, disse
Aslam. “É honra su�ciente para erguer a cabeça do mais pobre
mendigo e vergonha su�ciente para encurvar os ombros do maior
imperador da terra. Deem-se por satisfeitos”.7
Essa perspectiva cristã da natureza humana ajuda os pais a aprender com
inúmeras abordagens mais reducionistas ao desenvolvimento infantil sem
aceitá-las plenamente. Há livros mais “conservadores” que enfatizam coisas
como disciplina, limites e o ensino de valores morais, bem como conteúdos
mais “progressistas” que enfatizam ouvir os �lhos, dar-lhes forte a�rmação e
liberdade para questionar e pensar por si mesmos. A perspectiva cristã dos
seres humanos como portadores caídos da imagem divina pode tomar
emprestado de todas essas abordagens e aprender com elas sem adotar seus
conceitos mais simplistas do coração humano.
Além dessa compreensão fundamental da natureza humana, o
cristianismo oferece outro recurso que trata diretamente dos desa�os que
pais sempre enfrentaram, e enfrentam hoje.
Entregar o filho
Os �lhos são uma alegria, mas, muitas vezes, a impressão dos pais é a de
que a responsabilidade é pesada demais. Diante disso, a igreja cristã oferece
o sacramento do batismo.8 Embora nem todos os cristãos pratiquem o
batismo de crianças, a maioria tem alguma forma de dedicar os �lhos
publicamente a Deus que segue a prática judaica. A Bíblia diz que, depois
do nascimento de Jesus, “José e Maria o levaram a Jerusalém para
apresentá-lo ao Senhor” (Lc 2.22).
Quando apresentamos nossos �lhos a Deus no batismo, esse ato não
lhes confere salvação de forma automática. Assim como Deus não cria
novos seres humanos em um passea uma tarefa, Tim o fazia de
modo bastante diferente. Kathy via coisas em Tim que ele jamais teria
conseguido enxergar; isso porque ela é diferente de Tim, mas próximo o
su�ciente dele para notar essas coisas.
Com o passar do tempo, percebemos mais aspectos em que nosso
casamento nos tornou semelhantes às duas peças de quebra-cabeça
encaixadas uma na outra para formar um todo maior. Agora, quando coisas
acontecem com Tim e ele precisa reagir em uma fração de segundo, tem
consciência do que Kathy pensaria, diria ou faria na mesma situação. O fato
de estarem entrelaçados há tanto tempo fez com que as perspectivas dela
fossem impressas nele. Isso signi�ca que sua gama de possíveis reações não
abrange mais apenas seus recursos, mas também os de Kathy. Naquela
fração de segundo, ele pode pensar: “Sei o que Kathy faria. Será que é mais
prudente e apropriado do que meu modo habitual de reagir?”. E, com
frequência, ele faz as coisas como Kathy as faria.
Seu portfólio de sabedoria tornou-se permanentemente diversi�cado.
Ele é uma pessoa diferente, mas ainda é ele mesmo. Não se tornou mais
feminino. Aliás, em vários aspectos, tornou-se mais masculino com o passar
do tempo. O que aconteceu? Kathy entrou na vida de Tim, e agora ele não
apenas enxerga melhor, pelos olhos dela, quem ele é, mas também passou
por crescimento. Tornou-se quem ele deve ser, mas somente por meio das
interações diárias, próximas, muitas vezes dolorosas, com uma pessoa
semelhante a ele, que não é ele, oposta a ele.
Talvez não seja necessário dizer (mas o faremos de qualquer modo)
que o marido também deve ser ajudador de sua esposa. Não foi apenas uma
questão de colocar Eva na vida de Adão para ajudá-lo com os recursos
pertinentes a ela, a �m de que ele se tornasse quem devia ser. Efésios 5.25-
27 diz que os maridos devem amar as esposas de forma sacri�cial, como
Cristo nos amou, e com o mesmo propósito, a saber, tornar as esposas
radiantes e belas à medida que vencem suas imperfeições e falhas. Em certo
sentido, é o inverso de Gênesis 2. Os maridos devem usar seus recursos
especí�cos pertinentes a eles para ajudar as esposas a se tornarem quem
Deus as criou para ser, da mesma forma que as esposas ajudam os maridos.
Tudo isso, porém, pressupõe uma longa jornada, um processo
demorado. Ninguém muda e se torna o que foi criado para ser da noite para
o dia. Devemos usar nossos diferentes dons e amar um ao outro
sacri�cialmente, a �m de ajudar um ao outro a crescer e a se desenvolver ao
longo de toda a vida.
Podemos dizer que essa não é a perspectiva de casamento que tem
adquirido proeminência em nossa cultura. Hoje em dia, somos
consumidores. E consumidores sempre fazem, instintivamente, análises de
custo e benefício. A lógica do mercado, de investir e comprar e, então,
vender para obter lucro, invadiu todas as áreas da vida, e isso inclui o
casamento. Logo, procuramos um cônjuge que supra nossas necessidades,
não exija muita dedicação de nossa parte, não tente nos mudar e seja
compatível conosco em todos os aspectos. Se entramos em um casamento
com alguém “semelhante oposto” a nós, que começa a nos dizer coisas a
nosso respeito que não desejamos ouvir, declaramos: “Não está certo. O
casamento deveria ser a maior felicidade de minha vida. Por que sempre
temos essas confrontações?”. A resposta é: porque você está recebendo
ajuda. E só depois de haver atravessado o desconforto, você descobrirá a
pessoa que Deus quer que você seja.
Essas duas primeiras coisas que precisamos fazer — evitar a idolatria e
ter paciência para uma longa e, por vezes, difícil jornada — podem ser
consideradas problemas opostos. Por um lado, devemos evitar a ingenuidade
romântica que coloca o cônjuge em um pedestal. Por outro, devemos evitar
a raiva que sentimos diante do fato de que é extremamente trabalhoso amar
alguém tão diferente de nós, que nos diz coisas que não queremos ouvir. Na
mitologia grega, Ulisses teve de passar com sua embarcação por entre os
monstros marinhos Cila e Caríbdis. Se alguém se aproximasse demais de
um dos monstros, havia o risco de desviar dele e �car ao alcance do outro
monstro. Sem dúvida, muitas pessoas abandonaram a idolatria no
casamento e caíram nos braços da profunda desilusão.
De que precisamos para permanecer fora do alcance dos dois
“monstros”? Como evitar esperar demais ou de menos do casamento?
A alegre humildade que só o evangelho pode dar
Gênesis 2.18 diz: “O S����� Deus declarou: ‘Não é bom que o homem
esteja só; farei uma ajudadora adequada para ele’”. Essa é uma asserção
surpreendente. Por que Adão se sentiria solitário e insatisfeito no paraíso,
antes de existir qualquer pecado no mundo? Tinha um relacionamento
perfeito com Deus; como podia estar só? Na verdade, há apenas uma
resposta possível. Deus planejou que Adão precisasse de alguém além de
Deus. Claro que a necessidade suprema de nosso coração é pelo amor de
Deus. Mas ele nos criou para que também precisemos de amor humano.
Pense em como esse é um ato extremamente humilde e abnegado da
parte de Deus. Ele criou os seres humanos para que necessitem não apenas
dele, mas de outros relacionamentos, outras pessoas, outros corações. É
claramente falsa a ideia de que Deus criou os seres humanos para não se
sentir solitário, ou a �m de ter alguém para amar (como quem tem um
�lho), ou porque precisava de adoradores. E, no entanto, essa abnegação
não é nada em comparação com a humildade e o amor sacri�cial que Deus
nos mostra mais adiante na Bíblia quando diz repetidamente por meio de
profetas como Isaías, Jeremias e Oseias: “Eu sou o noivo e você, meu povo,
é a noiva”.
A referência a “noivo” signi�ca que somente em Deus temos o amante
e o cônjuge que nos satisfaz supremamente. Ele é nosso “ajudador”
supremo. Martinho Lutero escreveu a esse respeito:
Castelo forte é nosso Deus, fortaleza que nunca falha;nosso ajudador
ele é, em meio a incontáveis a�ições mortais que prevalecem.
Deus é nossa ajuda em meio a “a�ições mortais” porque é semelhante-
oposto a você. É como você, pois você foi criado à imagem dele, pessoal e
relacional como ele. Mas é diferente de você, pois é perfeitamente santo.
Você jamais será a pessoa que deve ser se Deus não entrar em sua vida. E
dizer que ele é o “noivo” signi�ca que não pode ser apenas uma entidade na
qual acreditamos de forma abstrata, ou mesmo apenas uma divindade a
cujas regras obedecemos. É preciso haver intimidade no relacionamento. É
preciso haver interação. Ele precisa nos falar por meio de sua Palavra, e
temos de derramar nossa alma diante dele em oração e adoração. O amor
matrimonial de Deus precisa ser vertido em nosso coração por meio do
Espírito (Rm 5.5). A única maneira de não transformar seu cônjuge
humano em ídolo ou salvador é ter Deus em sua vida como seu noivo.
A imagem do “noivo” também signi�ca que, em Deus, temos o
cônjuge mais paciente e longânime que já existiu.
O tema de Deus como noivo de seu povo aparece ao longo de toda a
Bíblia. No Antigo Testamento, Deus diz que ele é o noivo de Israel. Mas
Israel se afastou dele repetidamente para adorar outros deuses e, ao fazê-lo,
diz-se que cometeu adultério espiritual. Jeremias 2 e 3 e Ezequiel 16 são
retratos vívidos desse “mau casamento”, mas a exposição mais conhecida
desse tema se encontra em Oseias. Deus instrui seu profeta a se casar com
Gômer, uma mulher que lhe seria in�el, “pois como esposa adúltera, essa
terra [Israel] é culpada de in�delidade ao S�����” (Os 1.2).3 E é isso que
acontece. Gômer corre atrás de outros amantes.
A parte mais conhecida e tocante da história se encontra no terceiro
capítulo. Além de Gômer ter sido in�el, também parece ter se prostituído,
pois a única maneira de Oseias tê-la de volta é comprá-la de um homem
que era seu proprietário. Deus diz a Oseias para fazer exatamente isso. O
profeta escreve:
O S����� me disse: “Vá, demonstre amor novamente por sua esposa,
apesar de ela ser amada por outro e ser adúltera. Ame-a como o
S����� ama os israelitas, apesar de eles se voltarem para outros
deuses e de amarem os bolossagrados de uvas passas”. Por isso eu a
comprei por quinze peças de prata e um barril e meio de cevada. E eu
lhe disse: “Você viverá comigo por muitos dias; você não será mais
prostituta nem terá intimidade com nenhum outro homem, e eu me
comportarei da mesma forma em relação a você” (Os 3.1-3).
Esta não é apenas uma história comovente de amor incansável. Deus dá a
entender que, assim como é necessário sacrifício próprio para amar um
cônjuge in�el, a �m de que o amor de Deus por nós seja mantido também
há custo e sacrifício da parte dele. Na vida e morte de Jesus, vemos a
conclusão lógica dessa verdade.
Em Mateus 9, quando os discípulos de João perguntaram a Jesus: “Por
que [...] os teus discípulos não jejuam?”, ele respondeu: “Como podem os
amigos do noivo �car de luto enquanto o noivo está com eles?”. Jejuar era
um rito religioso acompanhado de arrependimento e oração. Jesus
respondeu com uma ilustração que comunicou o fato óbvio de que, quando
vamos a uma festa de casamento, não jejuamos. (Talvez até tiremos férias
da dieta.) Mas, quando Jesus se referiu a si mesmo como “o noivo”, os
ouvintes devem ter se espantado. Todos sabiam que o noivo de Israel era o
Senhor Deus. Então, Jesus acrescentou: “Virão dias em que o noivo lhes
será tirado; então jejuarão” (Mt 9.15). Estava dizendo duas coisas a respeito
de si mesmo: primeiro, ele é nosso noivo divino e, segundo, veio para
morrer por nós, para ser levado embora.
Aquilo que o livro de Oseias deixou implícito é apresentado em letras
garrafais no Novo Testamento. Deus é o amante e o cônjuge de seu povo.
Mas nós lhe demos um casamento infernal. Deus está no pior e mais longo
casamento da história do mundo. Voltamo-nos para ídolos em nosso
coração, afastamo-nos dele e fomos péssimos cônjuges. Mas Deus não nos
abandonou.
Em Jesus Cristo, Deus entrou no mundo e, ao morrer na cruz, pagou o
preço para nos resgatar de nosso pecado e de nossa escravidão. Em essência,
Deus nos diz na Bíblia: “Em Jesus Cristo, entreguei minha vida por vocês.
Fiz em proporções cósmicas e de modo visível aquilo que vocês têm de fazer
sempre que amam alguém falho e imperfeito. Foi um sacrifício substitutivo.
Seu pecado, seu mal, seus problemas foram todos transferidos para mim, a
�m de que minha justiça fosse transferida para vocês. Entendem? Agora
entendem o quanto eu os amo. Agora entendem o quanto me deleito em
vocês”. Essa mensagem é o maior e mais transformador poder do mundo.
Percebeu que, se nos fundamentarmos nessa realidade, ela nos dá o
maior ânimo possível para a longa jornada do casamento? Lembre-se de
que Jesus veio “para o que era seu, mas os seus não o receberam” ( Jo 1.11).
Não apenas o desprezamos, mas também o pregamos à cruz. Alguns talvez
estejam em um casamento difícil e concluam: “Meu cônjuge está me
cruci�cando”, mas no caso de Deus, foi o que verdadeiramente aconteceu.
E, no entanto, Jesus nos amou não porque somos bons, mas para nos tornar
bons. Ele nos ama para nosso bem, e não para o bem dele e, por isso,
permaneceu conosco e nos amou. Quando surgir a vontade de desistir de
um cônjuge difícil, lembre-se da paciência de Jesus com você. A �m de
perseverar no casamento, precisamos olhar repetidamente para nosso
cônjuge e dizer: “Você me ofendeu, mas eu ofendi meu cônjuge supremo,
Jesus Cristo, e ele pagou o preço e me perdoou. Portanto, sou amado por ele
o su�ciente para oferecer o mesmo a você”. Essa é a única maneira de ter
paciência para a jornada.
E, voltando ao que dissemos no início, conhecer o amor matrimonial
de Cristo é a chave para evitar a idolatria. No ensaio clássico, “Sobre a
liberdade do cristão”, Martinho Lutero escreve:
A terceira graça incomparável da fé é esta: ela une a alma a Cristo
como a esposa ao marido [...] [E]ntão, segue-se que passam a
compartilhar de tudo o que têm, tanto as coisas boas quanto as ruins;
com isso, tudo o que Cristo têm, a alma que crê pode tomar para si e
gloriar-se de que lhe pertence, e tudo o que pertence à alma, Cristo
toma para si [...] Quando a fé intervém, pecado, morte e inferno
pertencem a Cristo, e graça, vida e salvação são concedidos à alma.
Pois, se Cristo é o marido, deve tomar para si o que é da esposa e, ao
mesmo tempo, conceder à esposa aquilo que é dele [...] [Portanto],
pela aliança de casamento da fé [...] a alma que crê [...] é liberta de
todo o pecado, não teme a morte, é salva do inferno e recebe justiça
eterna, vida e salvação de Jesus Cristo, nosso esposo.
Quem é capaz de estimar devidamente o altíssimo valor dessas
núpcias reais? Quem é capaz de compreender as riquezas da glória de
sua graça? [...] Com base em tudo isso vocês também compreenderão
por que se atribui tanta importância à fé, para que somente ela cumpra
a lei e justi�que sem obras.4
Lutero está certo quando diz que ninguém é capaz de “estimar
devidamente o valor dessas núpcias reais”. E, no entanto, precisamos tentar.
A cada dia, devemos pensar no amor matrimonial de Cristo, apreciá-lo,
deleitar-nos e regozijar-nos nele em prazer crescente. Ao fazê-lo, seremos
guardados de transformar em ídolo o amor humano de que precisamos de
nosso cônjuge; também teremos “graça, vida e salvação” que encontramos
somente em Jesus. Esse cônjuge, Jesus Cristo, é o único que
verdadeiramente nos salvará. É o único que pode verdadeiramente nos
satisfazer.
Seu casamento com ele é o alicerce mais sólido possível para seu
casamento com qualquer outra pessoa.
1 John Newton; Richard Cecil, �e works of John Newton (London, Reino Unido: Hamilton,
Adams, 1824), vol. 6, p. 132-3.
2 C. S. Lewis, �e four loves (New York: HarperCollins, 2017), p. 157 [edição em português: Os
quatro amores, 2. ed., tradução de Paulo Salles (São Paulo: Martins Fontes, 2009)].
3 Para um estudo importante do tema “Deus como nosso cônjuge”, veja Raymond C. Ortlund Jr.,
God’s unfaithful wife: a biblical theology of spiritual adultery (Downers Grove: IVP Academic, 2003).
4 Texto de First principles of the Reformation, organização de Henry Wace; C. A. Buchheim
(London, Reino Unido: John Murray, 1883), disponível em: https://sourcebooks.fordham.edu/mod/l
uther-freedomchristian.asp, acesso em: 22 set. 2020.
https://sourcebooks.fordham.edu/mod/luther-freedomchristian.asp
E
6
O DESTINO DO CASAMENTO
ntão ouvi algo semelhante ao som de uma grande multidão, como o
estrondo de muitas águas e fortes trovões, que bradava:
“Aleluia!
Pois reina nosso Senhor Deus todo-poderoso.
Regozijemo-nos, alegremo-nos
e demos glória a ele!
Pois chegou a hora do casamento do Cordeiro,
e sua noiva já se aprontou.
Foi-lhe dado para vestir-se linho �no,
brilhante e puro” (Ap 19.6-8).
Então vi “um novo céu e uma nova terra”, pois o primeiro céu e a
primeira terra tinham passado; e o mar já não existia. Vi a Cidade
Santa, a Nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus,
preparada como uma noiva adornada para seu marido (Ap 21.1,2).
O casamento é uma jornada que, tradicionalmente, se diz que tem um �m:
“até que a morte nos separe”. Em certo sentido, é verdade que a morte
constitui o �m do casamento. O cônjuge que sobrevive tem liberdade, por
exemplo, de casar novamente. E, no entanto, a perspectiva cristã do
casamento nos prepara para uma união eterna da qual o casamento aqui na
terra é apenas o antegosto. E até mesmo o relacionamento conjugal que
dois cristãos têm aqui neste mundo não precisa ser considerado algo
encerrado ou reduzido pela morte.
Para entender o verdadeiro destino do casamento, precisamos
considerar o sexo, o objetivo da história e a ressurreição.
O sexo como placa de sinalização
Muitos já ressaltaram que a Bíblia não é um livro pudico. Celebra, em
vários momentos, a beleza e os prazeres do amor sexual, como vemos nos
versos poéticos em Provérbios 5.18-20, de acordo com os quais o marido
deve se saciar com seios da esposa, ou em todo o livro de Cântico dos
Cânticos de Salomão. No entanto, a Bíblia vai além da franqueza, e até da
diversão, quando fala sobre sexo. Vai à glória.
Em Romanos 7, o apóstolo Paulo compara os cristãos a uma mulher
queestava casada “com a lei”. Em outras palavras, estávamos tentando nos
salvar por meio de nosso desempenho, quer fosse observância religiosa da
lei moral de Deus, quer a busca por riqueza, carreira ou uma causa. Mas,
quando cremos em Cristo, passamos a estar casados com aquele “que
ressuscitou dos mortos, a �m de que venhamos a produzir fruto para Deus”
(Rm 7.4). Essa é uma imagem ousada. Como a esposa se coloca nos braços
do marido, e �lhos nascem no mundo por meio de seu corpo, nós nos
colocamos nos braços de Jesus e também damos fruto, seja de nossa vida
transformada (Gl 5.22,23), seja de boas obras que transformam a vida de
outros (Cl 1.6,10).1
Alguns comentaristas têm di�culdade com a imagem que Paulo usa
aqui e dizem que é “indecorosa”. Sem dúvida, é um tanto espantosa.2 A
metáfora, contudo, parece bastante clara. Em certo sentido, a sexualidade
conjugal, com o potencial de criar nova vida, aponta para o relacionamento
supremo de amor com Jesus Cristo. A união com ele pela fé nos
proporciona a experiência máxima de amor que, por sua vez, pode dar fruto
que gera vida. Como Paulo a�rma, esse relacionamento começa no
presente, e a produção de fruto também pode começar no presente. Em
outra passagem, contudo, a Bíblia diz que a comunhão com Cristo e seu
amor que temos no presente é apenas um pálido vislumbre de como será
vê-lo face a face (1Co 13.12).
De acordo com o texto bíblico, no momento conhecemos nosso
Cônjuge apenas pela fé, e não pelo que vemos (2Co 5.7). O amor que
experimentamos aqui só pode ser parcial. Mas, quando virmos Cristo face a
face, a concretização de nosso ser e a transformação de seu amor serão
completas (1Jo 3.2,3).
O que signi�cam todas essas passagens segundo as quais Jesus é nosso
esposo e noivo? Signi�cam, no mínimo, que o sexo no casamento é uma
indicação e um antegosto da alegria desse futuro mundo perfeito de amor.
No céu, quando conhecermos Jesus em pessoa, entraremos em uma união
de amor com ele e com todos que o amam. Naquele dia magní�co, haverá
imenso prazer, enorme alegria e profunda segurança dos quais o sexo mais
extasiante entre um homem e uma mulher é apenas um eco.
Como vimos anteriormente, 1Coríntios 6 diz que o sexo fora do
casamento é errado. Contudo, nesse texto Paulo não apenas fornece a base
para a proibição, mas também explica por que é errado para o cristão.
Aquele que se une ao Senhor é um espírito com ele. Fujam da
imoralidade sexual [...] Quem peca sexualmente, peca contra o próprio
corpo. Acaso não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito
Santo que habita em vocês, que receberam de Deus? Vocês não são de
si mesmos (1Co 6.17-19).
Paulo nos lembra (como em Rm 7.4) de que somos casados com Cristo
e, portanto, de que o Espírito Santo vem habitar em nós. Logo, ele conclui
que não devemos fazer nada de ordem sexual com nosso corpo que não
re�ita esse relacionamento com Cristo. Quando nos unimos a Cristo,
entregamo-nos inteira, exclusiva e permanentemente a ele, como ele se
sacri�cou por nós. De modo semelhante, não devemos ter sexo fora do
contexto em que entregamos nossa vida inteira, exclusiva e
permanentemente a nosso cônjuge. Qualquer outro uso do sexo não
permite que ele seja aquilo que Deus o criou para ser: uma placa de
sinalização de nossa união presente e futura com ele.
É isso que a Bíblia ensina sobre sexo, e vai muito além da “positividade
sexual”. Muitos hoje em dia foram educados com a ideia de que “Sexo é
perigoso e um tanto sujo”. Depois disso, alguns passaram ao outro extremo
ao dizer que “Sexo é uma coisa boa, que traz prazer e satisfação e pode ser
usado como você desejar, desde que seja consensual”.
A perspectiva bíblica do sexo é in�nitamente mais elevada que
qualquer uma dessas outras perspectivas, e não é algo intermediário. Sexo
não é sujo; foi criado por Deus e considerado “bom” (Gn 1.26-31). No
entanto, o sexo é muito mais que um apetite, como a fome.
A glória de Deus na face de Jesus é a beleza e o amor que buscamos
em nossa vida. “Em tua face há plenitude de alegria; à tua direita há
prazeres eternos” (Sl 16.11). Finalmente, experimentaremos a
concretização de nossa natureza plena, a satisfação in�nita da presença do
Senhor (Sl 17.15).
Será um dia de prazer? Claro que sim. E é por isso que o sexo, a
analogia terrena, é divertido e prazeroso. No entanto, o sexo pode ser mais
que uma emoção momentânea se o alinharmos no tempo e no espaço com
aquilo para que ele aponta no futuro. Devemos usá-lo como maneira de
dizer a outra pessoa: “Eu lhe pertenço completa, exclusiva e
permanentemente”. Quando o fazemos, o sexo se torna não uma forma de
obter prazer de alguém, mas um ato que produz união profunda, uma forma
de amalgamar duas vidas humanas em uma só entidade e comunidade, e
uma forma de moldar o coração para que ame sacri�cialmente, como Jesus
nos amou. Somente no contexto do casamento o sexo alcança seu pleno
potencial de dar prazer e satisfação.
Portanto, o sexo, como o casamento, aponta para algo além de si
mesmo. Se não virmos esse futuro e não depositarmos nosso coração nele,
sexo e casamento sempre causarão amargas decepções.
O fim da história
Como Lutero diz, em conformidade com as ideias de Paulo, em certo
sentido já estamos casados com Cristo. Há outro sentido, entretanto, em
que ainda não estamos casados; nossa situação é mais parecida com um
noivado. Apocalipse diz que “o banquete de casamento do Cordeiro” é um
dia futuro em que nos casaremos com Jesus (Ap 19.7). O grande dia de
casamento, em que somos envoltos em seus braços, é o único dia de
casamento que verdadeiramente colocará tudo em ordem em nossa vida.
É signi�cativo que a Bíblia comece em Gênesis com um casamento, e
que o propósito original que esse casamento devia cumprir fosse encher esse
mundo de �lhos de Deus. No entanto, Adão e Eva se afastaram de Deus, e
o primeiro casamento não cumpriu seu propósito.
Quando chegamos ao �m da Bíblia, vemos a igreja “[descer] do céu,
da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para seu marido”.
Os re�exos de Gênesis são inequívocos. Mais uma vez, vemos Deus trazer
uma noiva para seu marido, mas agora o marido é Jesus, e nós somos a
noiva. No primeiro casamento, Adão não interferiu e não ajudou sua esposa
quando ela precisou dele. Mas, no �m dos tempos, haverá outro
matrimônio, o banquete de casamento do Cordeiro, e seu propósito também
é encher o mundo de �lhos de Deus. Esse casamento será bem-sucedido
naquilo em que o primeiro casamento fracassou, pois, enquanto o primeiro
marido na história falhou, o Segundo Marido não falha. O verdadeiro
Adão, Jesus Cristo, jamais falhará com sua esposa, a segunda Eva, sua
igreja.
Observemos, ainda, algo novo que não é mencionado em Gênesis.
Apocalipse diz que nós, seu povo, estaremos belamente adornados para
nosso esposo. Claro que o principal motivo pelo qual não há referência
nenhuma a um vestido de casamento no jardim do Éden é que Adão e Eva
estavam “nus, e não sentiam vergonha”. Contudo, isso foi antes de o pecado
entrar em cena. Em várias ocasiões, a Bíblia fala de modo metafórico da
necessidade de que nosso pecado seja coberto por vestes limpas e belas (Sl
32; Ez 16; Zc 3). A �m de sermos belos para nosso marido, nossos pecados
terão de ser cobertos por sua graça e sua justiça (Fp 3.9). E a imagem do
vestido de casamento transmite essa realidade de modo maravilhoso.
Roupas de casamento são feitas para que nos sintamos lindos, a melhor
versão possível de nós mesmos. As roupas são uma excelente metáfora para
a maneira que Jesus cobre nossos pecados e nos veste com sua justiça a um
custo in�nitamente alto para ele. O evangelho consiste no fato de que
Cristo viveu a vida bela e boa que nós deveríamos ter vivido. Mas agora,
pela fé a beleza dele repousa sobre nós. Quando cremos, recebemos sua
justiça, como Martinho Lutero explicou. Apocalipse diz que, em certo
sentido, caminharemos pelo corredor da igreja em direção a Jesus, e
pareceremos lindos para ele. Dá para entender o quanto essa imagem é
espantosa?
Como pastor, tive o privilégiode �car ao lado do noivo em centenas de
casamentos. Minha esposa e eu sempre observamos o momento antes da
chegada da noiva. É possível identi�car exatamente quando o noivo a vê
aparecer na porta da igreja. Ele respira fundo e seu coração dá um salto
quando ele a contempla tão radiante. O resplendor no rosto do noivo re�ete
o brilho no rosto da noiva quando olham um para o outro.
A Bíblia está mesmo dizendo que Jesus vê toda essa beleza em nós?
Que receberemos esse tipo de amor do Senhor do Universo? Sim. É isso
que signi�ca estar “em Cristo”; signi�ca pertencer a ele. Claro que só
conseguimos entender essa realidade parcialmente de forma intelectual e
experiencial. Lemos em 1João 3.2: “Queridos amigos [...] aquilo que
havemos de ser ainda não se manifestou. Mas sabemos que, quando Cristo
se manifestar, seremos semelhantes a ele, pois o veremos como ele é”. A
primeira visão de sua beleza e glória e a primeira experiência direta de seu
amor nos transformarão de imediato em pessoas imaculadas, caracterizadas
por “liberdade e glória” (Rm 8.21). Claro que esse dia está no futuro, mas
depois João acrescenta; “Todos que nele têm essa esperança puri�cam-se a
si mesmos, assim como ele é puro” (3.3). João diz que essa bem-aventurada
visão futura e esse banquete de casamento serão tão magní�cos que até
mesmo esperar por eles (ter o mais ín�mo antegosto deles e descansar em
sua certeza) começa a nos transformar no presente.
Ao nos alegrarmos no amor matrimonial de Jesus, sere- mos
transformados. Medos, ciúmes, ressentimentos, tédio, desilusão, solidão,
tudo o que torna sombria nossa vida se reduzirão. E somente se você olhar
além do �m de seu casamento terreno, para sua união com Cristo, será
capaz de amar devidamente seu esposo ou sua esposa.
Precisamos abandonar a ilusão de que “Se eu encontrar a pessoa certa e
me casar, terei uma vida tranquila”. Não. Só existe uma “Pessoa certa”, que
está à sua espera no �m dos tempos, no banquete. Quando você vir a glória
de Jesus, ela compensará em proporção incalculável as experiências mais
terríveis. E a beleza com a qual ele vestirá você naquele dia será mais
esplendorosa que o vestido de casamento mais lindo que você já viu.
O fim do casamento?
Mateus 22 fala dos saduceus, um partido de líderes do antigo Israel que não
acreditava em uma ressurreição futura dos mortos. Os saduceus sabiam que
Jesus acreditava na ressurreição e a ensinava e, portanto, tentaram pegá-lo
em uma armadilha. Apresentaram um caso hipotético. Havia sete irmãos, e
o primeiro se casou. No entanto, ele morreu, e a viúva se casou com o
segundo irmão. O segundo irmão morreu, e a viúva se casou com o irmão
seguinte. A situação repetiu-se até que os sete irmãos morreram. “Pois
bem”, concluíram os saduceus, “na ressurreição, de qual dos sete ela será
esposa, uma vez que todos foram casados com ela?”.
Jesus começou sua resposta com as seguintes palavras: “Vocês estão
enganados, pois não conhecem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt
22.29). Além de não conhecerem a Bíblia, o Deus deles era pequeno
demais. Não tinham ideia de sua sabedoria, glória e amor in�nitos. Não
eram capazes de imaginar que ele criará um mundo bastante diferente
daquele que temos hoje.
Quanto ao ensino da Bíblia, Jesus diz:
Vocês não leram o que Deus lhes disse: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o
Deus de Isaque e o Deus de Jacó’? Ele não é Deus de mortos, mas de
vivos” (Mt 22.31,32).
Deus nunca diz. “Eu fui o Deus de Abraão, Isaque e Jacó.” Embora
Deus tenha dito essas palavras a Moisés séculos depois da morte dos
patriarcas (Êx 3.6), ele nunca se refere a eles como se seu relacionamento
estivesse no passado. “Eu sou seu Deus”, diz o Senhor, e Jesus acrescenta:
“Ele não é Deus de mortos, mas de vivos”. Em outras palavras, ninguém
que tem o Deus verdadeiro como seu Deus está morto. Um estudioso da
Bíblia explicou a declaração de Jesus da seguinte forma: “Aqueles com os
quais o Deus vivo se identi�ca não podem estar verdadeiramente mortos e,
portanto, devem estar vivos com ele depois que sua vida na terra termina”.3
Com isso, Jesus de�ne o princípio geral de que unir-se com Deus pela fé
signi�ca estar destinado a uma vida maior que se estende além do �m desta
vida.
Com referência ao caso hipotético apresentado pelos saduceus, Jesus
diz: “Na ressurreição, as pessoas não se casarão nem se darão em
casamento; serão como os anjos no céu” (Mt 22.30).
A princípio, essa asserção parece signi�car que a morte é, na realidade,
o �m dos casamentos. Sem dúvida, na ressurreição seremos “como os
anjos”, no sentido de que não haverá necessidade de procriação para repor a
população. Uma vez que não haverá morte, podemos imaginar por que uma
instituição dedicada em grande parte à geração e desenvolvimento de nova
vida não será necessária.
No entanto, R. T. France, em seu comentário sobre Mateus, faz uma
pergunta que �ca no ar quando ouvimos as palavras de Jesus. France
escreve: “Aqueles que encontraram algumas das alegrias mais profundas da
vida terrena no vínculo especial do relacionamento conjugal talvez �quem
desalentados de ouvir que devem deixá-lo para trás”. Contudo, France
observa que os termos “casar” e “dar-se em casamento” usados por Jesus são
dois verbos que se referem ao costume de o pai da noiva entregar a noiva e
ao ato de o noivo recebê-la. Em outras palavras, Jesus está dizendo que essa
formação ativa de pares no casamento não terá continuidade. Em seguida,
France acrescenta:
Observe, porém, que aquilo que Jesus declara que será inapropriado no
céu em relação ao casamento não é o amor. [Por que não pode ser que]
os relacionamentos celestes consistirão não em algo menos que o
casamento, mas sim, em algo mais [?] Ele não diz que o amor entre
aqueles que foram casados na terra desaparecerá; antes, deixa implícito
que será ampliado para que ninguém seja excluído.4
Em �e four loves, C. S. Lewis fala de um trio de amigos — Jack (C. S.
Lewis), Ronald ( J. R. R. Tolkien) e Charles (Charles Williams). Quando
Charles morreu, Lewis observou que, por consequência, ele não passou a
ter “mais” de Ronald. Os aspectos de Ronald que Charles fazia a�orar
tinham se perdido para Jack. Em outras palavras, quanto mais Jack
compartilhava a amizade de Ronald com outros, mais ele a tinha para si
mesmo. Lewis conclui que essa é uma imagem tênue dos relacionamentos
perfeitos de amor que teremos no céu, em que ciúmes e egoísmo não
existirão.5
Portanto, a resposta para a pergunta apresentada pelos saduceus (De
qual irmão a mulher seria esposa na ressurreição?) é: ela será esposa de
todos eles, e mais. (Essa é uma boa resposta para quem �cou viúvo e,
depois, também teve um bom segundo casamento.) A resposta é que cada
um estará em um relacionamento de amor o mais chegado possível com
todos os outros, pois o amor perfeito de Cristo �uirá para nós e de nós como
uma fonte, como um rio.
Ainda estaremos com nosso cônjuge terreno no céu, na ressurreição?
Sem dúvida. Observe Jesus, o primogênito dos mortos. Quando ele
encontrou pessoas que ele conhecia, como no caminho para Emaús em
Lucas 24, elas não o identi�caram de imediato, mas depois o reconheceram.
Ele ainda era ele mesmo, embora tivesse agora um corpo ressurreto
perfeito. Seus amigos ainda eram seus amigos.
E quem poderá se alegrar mais com sua nova existência ressurreta que
seu cônjuge de muitos anos? Quando todos os seus pecados e imperfeições
forem removidos de sua alma e de seu corpo, seu cônjuge poderá dizer com
in�nita alegria: “Eu sempre soube que você poderia ser assim. Eu percebi.
Mas agora, olhe só!”.
Na carta de John Newton para os recém-casados citada anteriormente,
ele escreve sobre o relacionamento que terão um com o outro depois da
morte:
Tão certamente quanto vocês estão unidos, também serão separados, e
essa separação será difícil para a carne e o sangue; mas será apenas por
pouco tempo. Vocês caminharão juntos como co-herdeiros da vida
eterna, colaboradores e participantes das alegrias espirituais um do
outro e, por �m, se encontrarão diante do trono de glória eestarão
para sempre com o Senhor. Que vocês vivam debaixo da in�uência
dessas perspectivas e descubram que cada dulçor se torna ainda mais
doce com o resplendor do Sol da Justiça em sua alma e que cada cruz
santi�cada os conduz a uma dependência mais próxima, imediata e
absoluta dele.6
O �m do casamento aqui na terra será nada menos que a entrada em
um banquete sem �m, em que você será unido a seu companheiro terreno
de formas impossíveis de concretizar neste mundo, bem como a todos os
outros e a Jesus, o “Amante de sua alma”.
1 “�e fruitful bride”, in: Francis Schaeffer, True spirituality (Wheaton: Tyndale, 2001), p. 72-
81 [edição em português: Verdadeira espiritualidade (São Paulo: Cultura Cristã, 2008)].
2 John Murray, �e Epistle to the Romans, ed. em vol. único (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), p.
244, esp. nota 7.
3 R. T. France, �e Gospel of Matthew, �e New International Commentary on the New
Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 2007), p. 840-1.
4 France, �e Gospel of Matthew, p. 839.
5 C. S. Lewis, �e four loves (New York: HarperCollins, 2017), p. 78-9 [edição em português: Os
quatro amores, 2. ed., tradução de Paulo Salles (São Paulo: Martins Fontes, 2009)].
6 John Newton; Richard Cecil, �e works of John Newton (London, Reino Unido: Hamilton,
Adams, 1824), vol. 6, p. 132-3.
Em memória de
T���� K����� H���,
que nos informou claramente
o que ela queria que fosse
dito em seu funeral.
E com gratidão a seus irmãos:
S��, S���� � L���,
que quiseram ver essa mensagem
impressa. Foi o começo de tudo.
Terry teria �cado muito contente.
À
PALAVRAS INTRODUTÓRIAS
medida que Tim e eu envelhecemos, vemo-nos com frequência cada
vez maior diante da morte tanto pastoral quanto pessoalmente. Nossos
amigos e familiares mais chegados estão começando a morrer. Nos últimos
dezoito meses, tivemos três falecimentos em nossa família; e só nos três
últimos meses, conversamos com um amigo e com um membro da família
sobre como enfrentar a morte iminente. Muito do que dissemos nessas
conversas está neste livro.
A base para esta seção sobre a “Morte” é um sermão que meu marido
pregou no funeral de minha irmã Terry Hall em 6 de janeiro de 2018. Ela
faleceu em casa no Natal, cercada pela família, depois de uma longa batalha
contra o câncer de mama metastático. Terry sabia que estava morrendo e
deixou instruções para nós sobre hinos, orações e outros elementos que ela
desejava em seu culto fúnebre. Fez questão que Tim pregasse o evangelho
nessa ocasião, e não apenas falasse da vida dela (por mais que a amássemos
e admirássemos). Ela sabia que “a morte costuma concentrar a mente de
modo maravilhoso”1 e queria que as pessoas presentes em seu funeral
fossem preparadas para a própria morte.
Este livro é dedicado a ela, a seu marido, Bob, e a suas �lhas, Ruth
Hall Ramsey e Rachael Hall. O sermão daquele dia foi, em todos os
aspectos, comovente e memorável. O pedido para que ele fosse publicado
veio de Sue e Lynn, irmãs de Terry, e de seu irmão, Steve.
K���� K�����
Julho de 2018
1 Da conhecida citação de Samuel Johnson, em James Boswell, �e life of Samuel Johnson, LLD
(New York: Penguin Classics, 2008), p. 231 [edição em português: A vida de Samuel Johnson, tradução
de José Filardo (Amazon Digital Services LLC, 2019), 3 vols.].
A
7
O MEDO DA MORTE
A CONSCIÊNCIA TRANSFORMA A TODOS NÓS EM
COVARDES
... para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder da
morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida
estiveram escravizados pelo medo da morte (Hb 2.14,15).
morte é a Grande Interrupção; arranca nossos amados de nós, ou vice-
versa.
A morte é a Grande Divisão; separa a parte material da parte imaterial e
rasga nosso ser, que não foi criado para existir de forma desencarnada nem
mesmo por um instante.
A morte é o Grande Insulto; lembra-nos, como Shakespeare disse, de
que somos alimento para os vermes.2
[Somos] literalmente divididos ao meio: [O ser humano] tem
consciência de sua singularidade esplêndida, pois se destaca na
natureza com altaneira majestade; e, no entanto, volta ao solo, onde é
enterrado para, cego e mudo, apodrecer e desaparecer para sempre.3
A morte é horrenda, assustadora, cruel e incomum. Não corresponde
ao que a vida deveria ser, e nossa tristeza diante da morte reconhece esse
fato.
A morte é nossa Grande Inimiga, mais que qualquer outra coisa.
Apropria-se de cada um de nós e nos persegue incansavelmente ao longo
de todos os nossos dias. Nossos contemporâneos escrevem e falam
interminavelmente de amor, especialmente amor romântico, que escapa por
entre os dedos de muitos. Mas ninguém pode evitar a morte. Alguém disse
que guerras e pragas nunca elevaram o número de mortes; sempre houve
uma morte para cada pessoa, sem exceções. E, no entanto, parecemos muito
menos preparados para ela que nossos antepassados. Por que será?
A bênção da medicina moderna
Um dos motivos é, paradoxalmente, que a grande bênção da medicina
moderna escondeu a morte de nós. Annie Dillard, em sua obra de �cção
�e living [Os vivos], dedica uma página inteira à espantosa variedade de
maneiras que a morte arrebatava os vivos de seu lar e de sua família sem
nenhum aviso no século 19.
Mulheres tinham febre e morriam no parto, e bebês morriam de
debilidade ou da severidade do ar. Homens morriam por causa de [...]
rios e cavalos, touros, serras a vapor, engrenagens de moinhos, rochas
de pedreiras, árvores que caíam ou troncos que rolavam. [...] Crianças
perdiam a vida quando [...] coisas duras as esmagavam, como árvores e
o solo ao serem atiradas ou caírem de cavalos; se afogavam em água;
�cavam doentes, e dores de ouvido se espalhavam para o cérebro;
ardiam em febre de sarampo, ou a pneumonia as levava de um dia para
o outro.4
A morte era algo que as pessoas costumavam ver de perto. Um
exemplo é o conhecido pastor e teólogo inglês John Owen (1616-1683),
que perdeu seus onze �lhos, bem como sua primeira esposa. Uma vez que
as pessoas faleciam onde viviam, em casa, Owen literalmente viu quase
todos que ele amava morrerem diante de seus olhos. No período colonial
nos Estados Unidos, famílias perdiam, em média, um de cada três �lhos
antes que chegassem à vida adulta. E, tendo em conta que a expectativa de
vida de todos naquela época era cerca de quarenta anos, muitos perdiam os
pais na infância. Quase todos cresciam vendo corpos e observando
familiares jovens e velhos morrerem.5
A medicina e a ciência reduziram muitas das causas de morte precoce
e, hoje em dia, a grande maioria das pessoas de�nha e morre em hospitais e
clínicas de cuidados paliativos, longe dos olhos de outros. É normal em
nossos dias chegar à vida adulta sem nunca ter visto alguém morrer, ou nem
mesmo o corpo de um morto, exceto de relance, em um caixão aberto
durante um funeral.
Atul Gawande e outros destacaram que o fato de a morte ocorrer de
forma oculta na sociedade moderna signi�ca que nós, dentre todas as outras
culturas, vivemos em negação do caráter inexorável de nossa morte que,
cedo ou tarde, virá. Em Salmos 90.12, o salmista pede a Deus que nos
ensine “a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio”. Sempre
houve o risco de os seres humanos viverem em negação de sua mortalidade.
Claro que sabemos intelectual e racionalmente que vamos morrer, mas, lá
no fundo, reprimimos esse fato e agimos como se fôssemos viver para
sempre. De acordo com o salmista, agir desse modo não é sábio. A morte é a
única inevitabilidade absoluta; e, no entanto, hoje em dia não fazemos
planos em relação a ela e não vivemos como se ela fosse acontecer.
Evitamos médicos por medo, negamos a mortalidade de nosso corpo e
supomos que ele continuará a funcionar para sempre. Ainda assim, diante
da morte iminente exigimos procedimentos médicos extremos e irrealistas.6
Consideramos até que conversas sobre morte são “de mau gosto” ou coisa
pior. O antropólogo Geoffrey Gorer propõe em seu ensaio “A pornogra�a
da morte” que a cultura contemporânea da morte substituiu o sexo como
novo tabu.7
Setrês mil anos atrás a negação da morte era uma questão
problemática, como o salmo 90 mostra, hoje é in�nitamente pior. O
progresso médico sustenta a ilusão de que a morte pode ser adiada por
tempo inde�nido. É mais raro que nunca ver pessoas que, como os antigos,
estão em paz com sua mortalidade. E existem até mesmo pensadores que
acreditam seriamente que a morte pode ser solucionada como qualquer
“questão de desempenho” tecnológica.8 Muitos no Vale do Silício têm
obsessão por vencer a mortalidade e viver para sempre. Tudo isso signi�ca
que, hoje em dia, as pessoas são mais irrealistas e despreparadas para a
morte que em qualquer outro período da história.
Felicidade deste mundo
Outro motivo pelo qual temos tanta di�culdade com a morte nos dias de
hoje é a exigência da era secular de felicidade e realização neste mundo. O
antropólogo Richard Shweder fez um levantamento das maneiras que
culturas não ocidentais e culturas mais antigas ajudam seus membros a
enfrentar sofrimento.9 Todas o fazem ao ensinar seus membros sobre o
sentido da vida, o motivo principal pelo qual cada um deve viver. Em muitas
sociedades, acredita-se que seu povo e sua família (�lhos e netos) são os
motivos mais importantes para viver, pois neles a vida de cada indivíduo
continua depois que ele morre. O budismo e várias outras culturas orientais
antigas ensinam que o signi�cado da vida se encontra na natureza ilusória
deste mundo e, portanto, em transcendê-lo por meio da serenidade interior
e da separação da alma. Outras culturas acreditam em reencarnação, ou em
um céu ou nirvana depois da morte e, portanto, o propósito central de cada
indivíduo é viver e crer a �m de que a alma realize a jornada para o céu.
Embora essas crenças sejam bastante diferentes umas das outras,
Shweder propõe que elas têm um elemento em comum. Em todos os casos,
o motivo para viver é algo exterior a este mundo e esta vida materiais, um
objeto que sofrimento e morte não tocam. Pode ser o céu ao morrer, ou a
possibilidade de sair do ciclo de reencarnação e entrar no êxtase eterno, ou a
perda da ilusão do mundo e a volta à Alma Única do Universo, ou ter uma
vida honrada e, depois da morte, ser recebido por seus ancestrais. Em cada
caso, tragédia e morte não são capazes de destruir o signi�cado da vida e,
aliás, apressam a jornada rumo a seu objetivo, quer seja por meio de
crescimento espiritual, pelo desenvolvimento de honra e virtude, ou pelo
ingresso na eternidade de alegria.
A cultura moderna, porém, é fundamentalmente secular. Na opinião
de muitos, uma vez que não há Deus, alma ou espírito e que a realidade não
tem nenhuma dimensão transcendente ou sobrenatural, o presente mundo
material é só o que existe. Portanto, aquilo que dá signi�cado e propósito a
sua vida tem de estar no âmbito do tempo presente aqui na terra. Devemos,
por assim dizer, repousar nosso coração em algo dentro dos horizontes
limitados de tempo e espaço. Aquilo que você escolher para dar sentido a
sua vida terá de ser alguma forma de felicidade, consolo ou realização deste
mundo. Ou, na melhor das hipóteses, poderá ser um relacionamento de
amor.
É evidente, porém, que a morte destrói todas essas coisas. Logo,
enquanto outras culturas e cosmovisões consideram o sofrimento e a morte
capítulos de enorme importância (e não �nais) na história coerente da vida,
a perspectiva secular é completamente diferente. O sofrimento é uma
interrupção, e a morte é o �nal absoluto. De acordo com Shweder, para as
pessoas de hoje:
O sofrimento é [...] separado da estrutura narrativa da vida humana
[...] uma espécie de “ruído”, uma interferência acidental no drama da
vida do sofredor [...] O sofrimento não [tem] nenhuma relação
inteligível com a trama, exceto como interrupção caótica.10
A cultura moderna é, portanto, a que se sai pior em toda a história na
tarefa de preparar seus membros para a única coisa inevitável: a morte.
Quando esse horizonte limitado de signi�cado se une ao avanço da
medicina, deixa muitos paralisados de ansiedade e medo quando
confrontados com alguém que esteja morrendo.
Mark Ashton foi vigário da igreja anglicana St. Andrew the Great, em
Cambridge, Inglaterra. Aos 62 anos, no �m de 2008, recebeu o diagnóstico
de câncer inoperável na vesícula biliar. Em razão de sua fé e alegria em
Cristo, demostrou grande con�ança diante da morte, e até certa expectativa,
apesar de ter plena consciência da tristeza de sua família. Ao longo dos
quinze meses seguintes, conversou a respeito da própria morte com
praticamente todos com quem se encontrou, e o fez com facilidade,
eloquência e compostura. No entanto, a abordagem de Ashton perturbou
muita gente, que teve di�culdade de lidar não apenas com sua atitude, mas
com sua presença.
Ashton observou: “Nossa era é tão desprovida de esperança diante da
morte que o tema se tornou tabu”. Ele foi a um salão em Eastbourne, onde
puxou conversa com a cabeleireira que o atendeu. Quando ela “me
perguntou como eu estava e respondi que havia sido informado pouco
tempo antes que tinha apenas mais alguns meses de vida”, a cordialidade e a
conversa cessaram. Por mais que eu tentasse puxar assunto, “não consegui
extrair nem uma palavra sequer dela durante o corte de cabelo”.11 Em vez
de aceitarmos a morte e nos prepararmos para ela, a evitamos e negamos.
A sensação de insignificância
O terceiro motivo pelo qual a cultura secular atual tem tanta di�culdade
com a morte é o fato de que, ao rede�nir morte como não existência, criou
uma profunda sensação de insigni�cância. Ernest Becker, autor de �e
denial of death, obra vencedora do Prêmio Pulitzer, a�rma que os seres
humanos não conseguem aceitar que tudo o que somos — nosso ser
consciente, nossos amores, nossos anseios profundos por beleza, bondade,
verdade — deixarão de existir para sempre, literalmente em um piscar de
olhos. Se a morte é verdadeiramente o �m, se todos nós morremos e, cedo
ou tarde, até mesmo a civilização humana “morrerá” com a morte do Sol,
nada do que fazemos tem relevância �nal. Se viemos do nada e vamos para
o nada, como evitar, mesmo agora, a sensação de vazio? Portanto, ele
escreve:
A ideia de morte, o medo dela, assombra o animal humano como
nenhuma outra coisa; é a força motriz da atividade humana —
atividade planejada, em grande medida, para superar a morte por meio
da negação [...] de que é o destino �nal.12
O medo da insigni�cância diante da não existência precisa ser tratado
de alguma forma. Becker cita antropólogos que dizem que os antigos
tinham muito menos temor da morte e que a morte era “acompanhada de
regozijo e festividades”. Como Becker acrescenta corretamente, embora o
medo da morte seja um elemento universal da humanidade, os antigos
lidavam com ela por meio da crença em vida e signi�cado depois dela.
Acreditavam na eternidade e, portanto, a morte era a “promoção máxima”.
Nosso problema hoje é que “a maioria dos ocidentais tem di�culdade em
acreditar nisso, motivo pelo qual o medo da morte é parte tão proeminente
de nossa constituição psicológica”.13
O restante do livro de Becker baseia-se nessa tese, a saber, que a
cultura moderna e secular tem uma di�culdade com a morte que nenhuma
outra sociedade enfrentou. Ele argumenta que a importância exagerada
conferida a tantas coisas na cultura moderna — sexo, romance, dinheiro e
carreira, política e causas sociais — exempli�ca as maneiras usadas pelas
pessoas para buscar a sensação de relevância diante da morte sem ter de
recorrer a Deus e à religião.
Como Becker, pensadores não cristãos do século 20 tinham
consciência de que, à medida que a religião e a fé em Deus desaparecessem,
a morte se tornaria um problema. Existencialistas, como Albert Camus em
“O mito de Sísifo”, a�rmavam que o caráter de�nitivo da morte tornava a
vida absurda e que era errado tentar negar esse fato ao perder-se em
prazeres e realizações.14 Uma ilustração pode ser de ajuda. Imagine que um
bandido entrou em sua casa, amarrou você e anunciou que vai matá-lo.
Imagine, ainda, que você não tem nenhuma esperança de ser socorrido. Ese o bandido dissesse: “Eu não sou cruel. Diga-me uma coisa que lhe dá
grande alegria”. Você responde que gosta de jogar xadrez. “Pois bem, vamos
jogar uma partida de xadrez antes de eu matá-lo. Tornará mais agradáveis
seus últimos momentos, não é mesmo?” A única resposta sincera seria que a
morte iminente removeria toda a satisfação proporcionada pelo jogo. A
morte subtrai a importância e a alegria das coisas.
Becker vai ainda mais longe e diz que esse medo da morte é algo
singular a nós, seres humanos.
É aterrador encontrar-se nesse dilema e ter de viver com ele. Os
animais inferiores são, evidentemente, poupados dessa contradição
a�itiva, pois faltam-lhes identidade simbólica e a respectiva consciência
própria. [...] O conhecimento da morte é re�etivo e conceitual, e
animais são poupados dele. [Eles experimentam a morte] como alguns
minutos de medo, alguns segundos de angústia, e depois acaba. Mas
passar a vida inteira sendo assombrado pela morte em nossos sonhos e
até nos dias mais ensolarados é outra história.15
Pensadores não cristãos mais recentes não se expressam de modo tão
sombrio. Muitos hoje se valem dos �lósofos antigos Epicuro e Lucrécio e
a�rmam que “não há motivo para ter medo da morte”, e há uma série de
artigos com essa mensagem, como é o caso do ensaio de Jessica Brown no
jornal �e Guardian: “We fear death, but what if dying isn’t as bad as we
think?” [Tememos a morte, mas e se morrer não é tão ruim quanto
imaginamos?].16 De acordo com essa linha de raciocínio, quando morremos
não sabemos nada e não sentimos nada. Não há dor nem a�ição. Por que
temer a morte? Mas os esforços para dizer que as pessoas não precisam se
preocupar com a morte não dão resultados para a maioria. O �lósofo Luc
Ferry a�rma que é “brutal” e desonesto dizer às pessoas diante da morte e,
portanto, diante da perda de todos os relacionamentos de amor que não
devem temer a morte.17 Dylan �omas toca em um ponto com o qual nos
identi�camos muito mais quando diz: “Enfureçam-se, enfureçam-se com o
perecimento da luz”.18
Becker tem razão. A raça humana como um todo não consegue não
temer e odiar a morte. É um problema singular e profundo. A religião nos
dava ferramentas que ajudavam a enfrentar nosso inimigo mais temível, e o
secularismo não propôs nada que compense por sua perda.
Medo de julgamento
O quarto motivo pelo qual temos di�culdade com a morte hoje em dia é a
perda das categorias de pecado, culpa e perdão na cultura moderna.
Friedrich Nietzsche declarou que a ideia e o sentimento de “dívida” ou culpa
nasceram nos seres humanos junto com a crença em um Deus (ou deuses)
transcendente ao qual devemos obediência. Nietzsche dizia com satisfação
que, à medida que a religião desaparecesse e cada vez mais pessoas
deixassem de crer em um Deus de julgamento, ocorreria um declínio em
nossa sensação de culpa. O ateísmo poderia até signi�car “uma segunda
inocência”.19
Wilfred M. McClay argumenta em “�e strange persistence of guilt”
[A estranha persistência da culpa] que a predição de Nietzsche não se
cumpriu.20 De acordo com McClay, Freud foi melhor profeta quando disse
que a culpa é uma característica insubstituível de qualquer civilização. É o
preço que temos de pagar para refrear o tipo de comportamento egoísta que
enfraquece sociedades. Isso signi�ca que, mesmo que tentemos acabar com
nossa sensação de pecaminosidade e culpa, ela persistirá e assumirá outras
formas. “A culpa é astuciosa, enganadora, um camaleão capaz de se
disfarçar, se esconder, mudar de tamanho e de aparência [...] ao mesmo
tempo que consegue persistir e se aprofundar.”21 Freud chamou a culpa
unbehagen. Esse termo signi�ca “mal-estar”, uma forte sensação de
desconforto a respeito de si mesmo e da vida em si que provoca uma série
recorrente de perguntas: “Por que a vida não é melhor? Por que não me
enturmo? Por que sinto necessidade de me esforçar tanto para provar meu
valor? Será que alguém me amará de verdade?”.
No momento, nossa cultura secular acredita em Nietzsche, e não em
Freud, e fez todo o possível para libertar indivíduos a �m de que se
entreguem ao prazer em total liberdade de autoexpressão. Isso signi�ca
remover as palavras “pecado” e “culpa” do discurso público para que todos se
sintam à vontade para criar e concretizar a identidade que escolherem. No
entanto, essa ideia nos colocou em uma situação estranha. Como diz um
estudioso, vemos o mal e o pecado ao nosso redor, coisas “que nossa cultura
não nos dá mais o vocabulário para expressar” e, portanto, “um abismo se
abriu em nossa cultura entre a visibilidade do mal e os recursos intelectuais
disponíveis para lidar com ele”.22
Muitos chamam a atenção para o fato de que nossa sociedade atual
continua a ser moralista e julgadora. Vivemos em uma “cultura de
confrontação”, em que as pessoas são categorizadas de forma reducionista e
consideradas boas ou más e, depois, publicamente humilhadas até que
percam seu emprego e sua comunidade.23 Pessoas são acusadas de coisas que
costumavam ser denominadas pecados e são castigadas e banidas de
maneiras extremamente parecidas com ritos de puri�cação cerimonial
religiosa.
Como McClay destaca, os seres humanos não conseguem abandonar
seus re�exos morais — uma crença em absolutos morais, em pecado e
julgamento e na imposição de culpa e vergonha. No entanto, deixamos para
trás as antigas crenças subjacentes em Deus, no céu e no inferno e,
portanto, perdemos os antigos recursos para arrependimento, demonstração
de graça e concessão de perdão.24
Tudo isso desencadeia uma crise para nossos contemporâneos diante
da morte. Como pastor, passei muitas horas na presença de pessoas que
estavam morrendo. À medida que a morte se aproxima, elas fazem uma
recapitulação de sua vida e sentem enorme arrependimento. O unbehagen,
ou intenso descontentamento consigo mesmas, assume o primeiro plano.
Talvez sintam culpa por algumas coisas não ditas ou feitas a entes queridos,
por pedidos de desculpas nunca expressados ou recebidos, por bondades
recusadas ou por grosserias cometidas pelas quais não podem mais pedir
perdão, por oportunidades desperdiçadas ou mesmo por uma vida
desperdiçada.
Além de arrependimentos em relação ao passado, con- tudo, também
há medo do futuro. T. S. Eliot escreve: “Não aquilo que chamamos morte,
mas aquilo que além da morte não é morte / Tememos, tememos”.25 Por
trás e debaixo de todas as outras emoções se encontra o medo de
julgamento. Em 1Coríntios 15, a extensa abordagem de Paulo sobre a
morte, ele a�rma que “o aguilhão da morte é o pecado” (v. 56). Como ele
ensinou em Romanos 1.20-22, todos nós sabemos, em nosso coração, por
mais oculto que esteja esse conhecimento, que Deus é nosso Criador e que
ele merece nossa adoração e obediência. No entanto, “suprimimos” (v. 18)
esse conhecimento a �m de declarar soberania sobre nossa vida.
No entanto, a morte torna a nossa insatisfação conosco mesmos muito
mais consciente. É impossível calar nossa consciência como fazíamos antes.
O personagem Hamlet, de Shakespeare, pensa em suicídio, mas decide não
cometê-lo. Tem medo de algo depois da morte, medo “da terra incógnita de
cujas fronteiras nenhum viajante retorna”, o que nos leva a temer o
julgamento. Portanto, “suportamos os males que temos, [em vez de] fugir
para outros que desconhecemos”, pois “a consciência transforma todos nós
em covardes”.26
Apesar de todos os esforços, a culpa persiste e, mais do que nunca,
quando enfrentamos a morte. A cultura moderna nos dá pouquíssima ajuda
para lidar com ela, mas a fé cristã nos oferece alguns recursos
extraordinários.
Nosso campeão
Em vez de viver com medo da morte, devemos considerá-la uma sacudida
espiritual para nos despertar da falsa convicção de que viveremos para
sempre. Em um funeral, especialmente de um amigo ou de um ente
querido, ouça Deus falar com você, dizer-lhe que tudo na vida é temporário,
exceto o amor dele. Essa é a realidade.
Tudo nesta vida será tomado de nós, exceto uma coisa: o amor de
Deus, que pode nos acompanhar na morte, nos fazer atravessá-la e nos
levarpara os braços dele. Essa é a única coisa impossível de perder. Sem o
amor de Deus para nos acolher, sempre nos sentiremos radicalmente
inseguros, e devemos nos sentir dessa forma.
Um de meus professores de teologia, Addison Leitch, falou aos alunos
de uma ocasião em que ele foi preletor em um congresso missionário. Duas
moças que ouviram sua pregação resolveram que queriam dedicar a vida ao
serviço missionário. Os respectivos pais das moças �caram extremamente
chateados com o dr. Leitch que, no parecer deles, havia enchido a cabeça
dessas jovens com fanatismo religioso. Disseram-lhe: “Você sabe que o
trabalho missionário é extremamente incerto. O salário é baixo e pode
haver muitos perigos. Tentamos conversar com nossas �lhas. Elas precisam
de emprego e de uma carreira, talvez de um mestrado ou algo semelhante
para que possam ter alguma segurança antes de correr atrás dessa história
de missões”.
O dr. Leitch lhes disse o seguinte: “Vocês querem que elas tenham
segurança? Todos nós estamos em uma pequena rocha que chamamos
Terra, girando pelo espaço a milhões de quilômetros por hora. Algum dia,
um alçapão se abrirá debaixo de cada um de nós e despencaremos por ele.
Então, ou haverá milhões e milhões de quilômetros de vazio, ou os braços
eternos de Deus. E vocês querem que elas façam um mestrado para ter um
pouco mais de segurança?”.27
É na morte que Deus diz: “Se eu não sou sua segurança, você não tem
segurança nenhuma, pois sou a única coisa que não lhe pode ser tirada. Eu
acolherei você em meus braços eternos. Todos os outros braços o
decepcionarão, mas eu jamais o abandonarei”.
É extremamente desagradável sermos sacudidos, mas funciona. Ao
despertar de suas ilusões, porém, �que em paz, pois se, pela fé, temos Jesus
Cristo como Salvador, eis o que ele nos oferece.
Lemos em Hebreus:
Ao trazer muitos �lhos à glória, convinha que Deus, para quem e por
meio de quem tudo existe, tornasse perfeito, mediante o sofrimento, o
pioneiro da salvação deles. [...] Ele também participou de sua condição
humana, para que, por sua morte, derrotasse aquele que tem o poder
da morte, isto é, o Diabo, e libertasse aqueles que durante toda a vida
estiveram escravizados pelo medo da morte (Hb 2.10,14,15).
Para que Jesus nos salvasse, ele se tornou “pioneiro” de nossa salvação
por meio do sofrimento e da morte. O termo usado aqui é archēgos. O
estudioso da Bíblia William Lane diz que esse termo deveria ser traduzido
por “nosso campeão”.28
O campeão era o soldado que participava de um combate
representativo. Quando Davi enfrentou Golias, os dois lutaram como
campeões de seus respectivos exércitos. Travaram um combate na condição
de substitutos. Quando o campeão vencia, todo o seu exército era vitorioso
na batalha, embora nenhum dos outros combatentes houvesse levantado
um dedo. Foi o que Jesus fez. Ele enfrentou nossos maiores inimigos, o
pecado e a morte. Ao contrário de Davi, ele não apenas arriscou a vida, mas
entregou a vida; ao fazê-lo, porém, derrotou esses adversários. O castigo
que merecíamos por nossos pecados ele tomou sobre si em nosso lugar,
como nosso substituto. Mas, uma vez que ele próprio era um ser humano de
perfeito e impecável amor por Deus e pelo próximo, a morte não pôde detê-
lo (At 2.24). Ele ressuscitou dos mortos.
Por isso, em Hebreus 2.14, o autor diz que ele derrotou a morte, pois
morreu por nós, removeu nosso castigo e garantiu a ressurreição futura de
todos que se unem a ele pela fé. Jesus Cristo, nosso grande capitão e
campeão, matou a morte.
Todas as religiões falam de morte e de vida depois da morte, mas, em
geral, proclamam que temos de viver de forma correta a �m de estar
preparados para a eternidade. E, no entanto, à medida que a morte se
aproxima, todos nós sabemos que não chegamos nem perto de fazer o
melhor que podíamos; não vivemos como deveríamos ter vivido.
Consequentemente, por bons motivos, permanecemos até o �m
escravizados pelo medo da morte.
O cristianismo é diferente. Não nos deixa sozinhos diante da morte,
exibindo nosso histórico de vida e torcendo para que seja su�ciente. Em vez
disso, ele nos dá um campeão que derrotou a morte, que nos perdoa e nos
cobre com seu amor. Enfrentamos a morte “nele” e com o histórico perfeito
dele (Fp 3.9). À medida que sabemos dessa verdade, cremos nela e a
aceitamos, somos libertos do poder da morte.
Portanto, quando Hamlet falou da “terra incógnita de cujas fronteiras
nenhum viajante retorna”, estava errado. Alguém voltou dos mortos. Jesus
Cristo destruiu o poder da morte e “uma fenda se abriu” para nós “nas
paredes impiedosas do mundo”.29 Quando entendemos essa verdade pela fé,
não precisamos mais temer a escuridão.
Paulo escreveu as famosas palavras:
“Onde está, ó morte, a sua vitória?
Onde está, ó morte, seu aguilhão?” (1Co 15.55).
Paulo não enfrenta a morte de forma estoica. Ele zomba dela. Como é
possível alguém em sã consciência olhar para o inimigo mais poderoso da
humanidade e zombar dele? Logo em seguida, Paulo dá a resposta: “O
aguilhão da morte é o pecado, e o poder do pecado é a lei. Mas graças a
Deus! Ele nos dá vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co
15.56,57). De acordo com Paulo, o “aguilhão da morte” (como Hamlet diz)
é nossa consciência, nossa percepção de pecado e julgamento diante da lei
moral. Mas Cristo removeu o pecado e o julgamento ou, mais
precisamente, tomou-o sobre si para todos que creem.
Donald Grey Barnhouse era pastor da igreja Tenth Presbyterian
Church, na Filadél�a, quando sua esposa, com menos de 40 anos de idade,
morreu de câncer e o deixou com quatro �lhos, todos com menos de 12
anos. Quando Grey e os �lhos iam de carro para o funeral, um caminhão
enorme passou na pista da esquerda e projetou sobre eles sua sombra.
Barnhouse perguntou a todos no carro: “Vocês preferem ser atropelados
pelo caminhão ou pela sombra do caminhão?”. O �lho de 11 anos
respondeu: “Pela sombra, é claro”. Barnhouse concluiu: “Foi o que
aconteceu com sua mãe. Somente a sombra da morte passou sobre ela, pois
a morte em si atropelou Jesus”.30
O aguilhão da morte é o pecado, e o veneno foi para Jesus.
Portanto, qualquer indivíduo cristão tem poder para triunfar sobre a
morte dessa maneira. Lembro-me de uma conversa que tive com um amigo
sobre a esposa dele, que sofria de uma enfermidade crônica e que,
repetidamente, contrariou as predições médicas e “venceu a morte”.
Naquela ocasião, ela estava gravemente enferma outra vez, e havia a
possibilidade real de que não se recuperasse. Durante a conversa,
concordamos que, não importava o que acontecesse, o crente sempre vence a
morte, quer faleça, quer não. Jesus Cristo derrotou a morte, e agora a única
coisa que ela pode fazer é nos tornar mais felizes e amados que nunca. Se
Jesus morreu por você e ressuscitou para ser seu vivo Salvador, o que a
morte pode lhe fazer?
2 William Shakespeare, Hamlet, 4.3.30-31: “Pode acontecer de um homem pescar com o verme
que comeu o rei”.
3 Ernest Becker, �e denial of death (New York: Free Press, 1973), p. 26 [edição em português: A
negação da morte: uma abordagem psicológica sobre a �nitude humana, tradução de Luiz Carlos do
Nascimento Silva (Rio de Janeiro: Record, 2007)].
4 Annie Dillard, �e living: a novel (New York: HarperCollins, 1992), p. 141.
5 Howard P. Chudacoff, Children at play: an American history (New York: New York University
Press, 2007), p. 22.
6 Atul Gawande, Being mortal: medicine and what matters in the end (New York: Metropolitan,
2014) [edição em português: Mortais: nós, a medicina e o que realmente importa no �nal, tradução de
Renata Telles (Rio de Janeiro: Objetiva, 2017)].
7 Geoffrey Gorer, “�e pornography of death”, 2003, disponível em: https://www.romolocapuan
o.com/wp-content/uploads/2013/08/Gorer.pdf, acesso em: 22 set. 2020.
8 Veja David Bosworth, “�e new immortalists”, Hedgehog Review 17, n. 2 (Summer 2015).
9 Richard A. Shweder; Nancy C. Much; Manamohan Mahapatra; Lawrence Park, “�e ‘big
three’ of morality (autonomy, community, divinity) and the ‘big three’ explanationsof suffering”, in:
Richard A. Shweder, Why do men barbecue? Recipes for cultural psychology (Cambridge: Harvard
University Press, 2003), p. 74. Para mais considerações sobre esse assunto, veja “�e cultures of
suffering” [As culturas do sofrimento], in: Timothy Keller, Walking with God through pain and suffering
(New York: Penguin/Riverhead, 2013), p. 13-34 [edição em português: Caminhando com Deus em
meio à dor e ao sofrimento, tradução de Eulália Pacheco Kregness (São Paulo: Vida Nova, 2016)].
10 Shweder, Why do men barbecue? Recipes for cultural psychology, p. 125.
11 Mark Ashton, On my way to heaven: facing death with Christ (Chorley: 10Publishing, 2010),
p. 7-8.
12 Becker, �e denial of death, p. xvii.
13 Becker, �e denial of death, p. xvii.
14 Albert Camus, �e myth of Sisyphus and other essays (New York: Alfred A. Knopf, 1955) [edição
em português: O mito de Sísifo, tradução da edição francesa de Ari Roitman; Paulina Watch (Rio de
Janeiro: Record, 2018)].
15 Becker, �e denial of death, p. 26-7.
16 Veja Julian Barnes, Nothing to be frightened of (London, Reino Unido: Jonathan Cape, 2008)
[edição em português: Nada a temer, tradução de Léa Viveiros de Castro (Rio de Janeiro: Rocco,
2009)]. O artigo de Jessica E. Brown “We fear death, but what if dying isn’t as bad as we think?” foi
publicado no jornal �e Guardian ( July 25, 2017).
17 Luc Ferry, A brief history of thought: a philosophical guide to living (New York: Harper, 2010), p.
4.
18 De Dylan �omas, In country sleep, and other poems (London, Reino Unido: Dent, 1952).
19 Citado em Wilfred M. McClay, “�e strange persistence of guilt”, Hedgehog Review 19, n. 1
(Spring 2017).
20 McClay, “�e strange persistence of guilt”. Andrew Delbanco, �e death of Satan: how
Americans have lost the sense of evil (New York: Farrar, Straus and Giroux, 1995), p. 3, 9.
21 McClay, “�e strange persistence of guilt”.
https://www.romolocapuano.com/wp-content/uploads/2013/08/Gorer.pdf
22 Andrew Delbanco, �e death of Satan: how Americans have lost the sense of evil (New York:
Farrar, Straus and Giroux, 1995), p. 3, 9.
23 David Brooks, “�e cruelty of call-out culture”, New York Times ( January 14, 2019).
24 McClay, “�e strange persistence of guilt”.
25 De Eliot, “Murder in the cathedral”, in: �e complete plays of T. S. Eliot (New York: Harcourt,
Brace, and World, Inc., 1935), p. 43 [edição em português: T. S. Eliot: obra completa, tradução de
Ivan Junqueira; Ivo Barroso (São Paulo: Arx, 2004)].
26 Hamlet, 3.1.87-88, 91.
27 Essa história foi relatada pelo dr. Leitch para um grupo de alunos da faculdade do qual eu
fazia parte, em Bucknell University, em 1970.
28 William L. Lane, Hebrews 1—8, Word Biblical Commentary (Dallas: Word, 1991), vol. 47,
p. 55-8.
29 C. S. Lewis, �e weight of glory [edição em português: O peso da glória (Rio de Janeiro: �omas
Nelson Brasil, 2017)].
30 Margaret N. Barnhouse, �at man Barnhouse (Carol Stream: Tyndale, 1983), p. 186.
N
8
A RUPTURA DA MORTE
NÃO SE ENTRISTEÇAM COMO AQUELES QUE NÃO
TÊM ESPERANÇA
Irmãos, não queremos que vocês [...] se entristeçam como o restante
da humanidade que não tem esperança. Pois, cremos que Jesus morreu
e ressuscitou e, portanto, também cremos que Deus trará juntamente
com Jesus aqueles que nele dormiram (1Ts 4.13,14).
o capítulo anterior, conversamos sobre como enfrentar a própria morte
sem temor. Mas como enfrentar a morte de nossos queridos? Posso
dizer sem medo de errar que haverá muita morte em seu futuro. Se você
tiver a felicidade de viver por muitos anos, deparará cada vez mais com a
morte, não apenas de colegas, mas também de amigos, e não apenas de
amigos, mas também de pessoas muito amadas. De acordo com
1Tessalonicenses 4, o cristianismo nos dá recursos extraordinários para lidar
com nossa morte e também com a perda de pessoas que amamos.
Na epígrafe acima, Paulo diz a seus amigos: “Não quero que vocês se
entristeçam como o restante da humanidade que não tem esperança”. Essa
é uma frase com duas negações. Na verdade, ele está dizendo: “Quero que
se entristeçam com esperança”. Paulo pede um equilíbrio extremo diante do
Grande Inimigo. Quando imaginamos alguém “equilibrado” geralmente
pensamos em alguém que evita extremos, mas Paulo nos exorta a buscar
uma combinação equilibrada de dois extremos. Observe que ele não diz:
“Não se entristeçam”. Ele quer que os cristãos se entristeçam quando seus
queridos morrerem, mas quer que o façam de um modo especí�co. Também
não diz: “Em vez de se entristecerem, quero que tenham esperança”, nem
“Não há esperança nenhuma, então é melhor chorar e se entristecer”.
Antes, ele diz que os cristãos podem e devem se entristecer profunda e
plenamente e, no entanto, fazê-lo com esperança. Como isso funciona?
Devemos nos entristecer
Devemos nos entristecer, e não adotar uma abordagem estoica. Embora a
tristeza seja apropriada, pode se transformar em amargura; pode tornar a
vida amarga e sombria e sufocar a alegria, a menos que seja temperada com
esperança. O exemplo mais notável disso é Jesus no túmulo de seu amigo
Lázaro em João 11. Jesus não foi até Maria e Marta, as irmãs enlutadas, e
aconselhou: “Não �quem assim. Nada de drama. Cabeça erguida. Sejam
fortes”. Não falou nada disso. Quando Maria se dirige a ele, o texto nos
informa no versículo mais curto da Bíblia que “Jesus chorou” ( Jo 11.35). Ele
não fala, mas apenas chora. E, então, quando Jesus vai ao túmulo de Lázaro
(embora a tradução em nosso idioma não mostre claramente), o texto diz
que ele “bufava de ira” ( Jo 11.38).1
Jesus, o Filho de Deus, sabia muito bem que estava prestes a realizar
um grande milagre e ressuscitar seu amigo. Seria de imaginar que ele
caminharia para o túmulo serenamente, sorrindo e pensando: “Esperem até
ver o que farei! Vai �car tudo bem!”. Em vez disso, ele chora, se entristece,
�ca irado.
Como é possível o Criador do mundo se irar com algo em seu mundo?
Só é possível se a morte for uma intrusa. A morte não fazia parte do plano
original de Deus para o mundo e para a vida humana. Veja os três primeiros
capítulos de Gênesis. Não fomos criados para morrer; fomos criados para
permanecer. Fomos criados para nos tornar cada vez mais belos com a
passagem do tempo, e não cada vez mais debilitados. Fomos criados para
nos fortalecer, e não enfraquecer e morrer. Paulo explica em Romanos
8.18-23 que, quando nos afastamos de Deus e nos tornamos nossos
próprios senhores e salvadores, tudo se desintegrou. Nosso corpo, a ordem
natural, nosso coração, nossos relacionamentos, nada funciona como foi
criado originariamente para funcionar. Tudo está des�gurado, distorcido e
quebrado, e a morte faz parte desse quadro (Gn 3.7-19). Por isso, Jesus
chora e �ca irado com a monstruosidade da morte. Ela é uma terrível
distorção da criação que ele ama.
Portanto, a reação estoica de “nada de drama” diante da morte e da
tristeza é errada. Há muitas versões dessa reação. Uma delas diz: “Não �que
assim. Ele está com o Senhor. O Senhor faz todas as coisas cooperarem
para bem. Não precisa chorar tanto. Claro que você vai sentir saudades
dele, mas agora ele está no céu. E tudo acontece por um motivo”.
Tecnicamente, talvez não haja nada de errado com essas declarações. É
possível que sejam verdadeiras. Mas Jesus também conhecia todas elas.
Sabia que Lázaro seria ressuscitado. Sabia dessa parte do plano do Pai para
seu ministério. E, ainda assim, ele se entristeceu profundamente e se irou.
Por quê? Porque essa é a reação correta diante do mal e da inaturalidade da
morte.
A maioria dos conselhos não cristãos para os enlutados é uma versão
do estoicismo. Encontramos um exemplo antigo na Ilíada, em que Aquiles
diz ao pai do falecido Heitor: “Seja forte [...] De nada adiantará entristecer-
se por seu �lho”.2 Os céticos atuais dirão: “A morte é o �m. Nada mais.
Entristecer-se por causa dela não faz diferença. Não ajuda em nada. As
coisas são assim”.
Uma versão moderna mais so�sticada da perspectiva secular nos instrui
a considerar a morte uma parte perfeitamente natural do ciclo da vida.Diz:
“A morte é natural. Faz parte da vida. Não há motivo para ter medo. Nosso
corpo enriquece o solo como fazem a grama, as árvores e os outros animais
quando morrem. Por �m, tornamo-nos poeira cósmica. Continuamos a
fazer parte do Universo. É tranquilo”. Mas será que esse conceito de morte
corresponde a nossas intuições mais profundas?
O �lósofo cristão Peter Kreeft conta a história de um casal de amigos
dele. Nenhum dos dois era religioso. Tinham um �lho de 7 anos cujo primo
de 3 anos faleceu.
Sentaram-se com o menino e procuraram consolá-lo. Disseram: “A
morte é perfeitamente natural”. E, então, tentaram ajudá-lo ao explicar:
“Não tem nada de errado com a morte. Ela é perfeitamente natural.
Quando você morre, seu corpo vai para a terra, enriquece o solo e outras
coisas podem crescer. Você viu no Rei leão. Lembra?”.
Em vez de o garoto ser consolado, ele saiu do quarto correndo e
gritando: “Eu não quero que ele seja adubo!”.3
Esse menino estava mais próximo da perspectiva de Jesus que seus
pais. Estava triste. A morte não é normal. Não é como deve ser. Não é
como Deus criou o mundo.
Dizer: “A morte é natural” é endurecer e talvez até matar uma parte da
esperança de nosso coração que nos torna humanos. Sabemos, lá no fundo,
que não somos como as árvores ou a grama. Fomos criados para permanecer.
Não queremos ser efêmeros e irrelevantes. Não queremos ser apenas uma
onda sobre a areia. Desejamos no mais recôndito de nosso coração um
amor duradouro.
A morte não é o ideal. É anormal, não é uma amiga e não é correta.
Não faz parte, verdadeiramente, do círculo da vida. Por isso nos
entristecemos. Choramos. A Bíblia nos instrui não apenas a chorar, mas a
chorar com os que choram (Rm 12.15, NASB). Temos de chorar um
bocado.
Devemos nos entristecer com esperança
Embora certamente tenhamos o direito de nos entristecer, Paulo diz que
devemos nos entristecer com esperança. Como vimos, reprimir a tristeza e a
ira diante da morte não apenas faz mal para nós psicologicamente, mas
também é prejudicial para nossa humanidade. E, no entanto, a ira também
pode ser desumanizadora e nos tornar amargurados e endurecidos. Isso
signi�ca que não podemos apenas nos “[enfurecer] com o perecimento da
luz”. Também precisamos de uma esperança que in�uencie nossa forma de
nos entristecer.
Mas que motivo temos para esperança? Observe Jesus no túmulo de
seu amigo Lázaro. Jesus estava triste, chorava e estava irado, embora
soubesse que, em poucos minutos, ressuscitaria seu amigo.
Ele tem conhecimento, porém, de algo que ninguém mais poderia
imaginar. No �m do capítulo 11 de João, depois que Jesus ressuscita Lázaro,
todos os seus adversários dizem: “É a gota d’água. Agora vamos ter de
matá-lo. Vamos ter de matar Jesus”.
Jesus sabia que a ressurreição de Lázaro forçaria seus inimigos a tomar
medidas extremas. Por isso, estava ciente de que a única forma de tirar
Lázaro do túmulo era ele próprio se colocar lá dentro. A �m de Jesus
garantir ressurreição para todos que creem nele, precisa colocar-se na
sepultura. Foi o que fez na cruz.
Graças à morte de Jesus, somos libertos do pecado e da morte e
participamos de sua ressurreição, como diz em Romanos 6.5-9:
Pois, se fomos unidos a ele na semelhança de sua morte, certamente o
seremos também na semelhança de sua ressurreição. Pois sabemos que
nosso velho homem foi cruci�cado com ele, para que o corpo
governado pelo pecado seja destruído, para que não mais sejamos
escravos do pecado; pois quem morreu foi liberto do pecado. Ora, se
morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos. Pois
sabemos que, tendo Cristo sido ressuscitado dos mortos, não pode
morrer outra vez: a morte não tem mais domínio sobre ele.
Jesus venceu a morte, e participaremos de sua ressurreição. Essa é
nossa esperança.
Se você não tem essa esperança, não sei ao certo o que você faz na
presença da morte. Mas sei o que pode fazer: pode deixá-la envenenar sua
alma e causar desespero. Ou pode acrescentar esperança à sua tristeza.
Costumamos imaginar que tristeza e esperança são mutuamente
exclusivas, mas Paulo diz que não é o caso. Uma ilustração pode ser útil para
entender como as duas andam juntas. Durante muitos anos, costumava-se
salgar carne para conservá-la. (Se você alguma vez comeu presunto curado,
sabe que esse método de conservação ainda é usado.) O sal curava a carne
para que não se estragasse.
De modo semelhante, a menos que você salgue sua tristeza com
esperança, sua tristeza vai piorar.
Quando nos entristecemos e nos iramos diante da morte, reagimos a
um grande mal de forma apropriada. No entanto, os cristãos têm uma
esperança que pode ser “esfregada” em nossa tristeza e ira como o sal é
esfregado na carne. Não é certo reprimir a ira nem dar lugar ao desespero.
Nem a ira reprimida nem a fúria desenfreada fazem bem à alma. Mas
aplicar esperança à tristeza nos torna sábios, compassivos, humildes e
bondosos.
Entristeça-se plenamente, mas com profunda esperança! Entende por
que eu disse que não é moderação intermediária, mas, sim, uma
combinação dos extremos? Essa combinação lhe dará mais força que o
estoicismo e mais liberdade para lamentar que o desespero.
Minha experiência pessoal com essa realidade aconteceu vários anos
atrás. Um nódulo foi encontrado em minha tireoide e enviado para biópsia.
Estava na clínica quando a patologista me disse: “Você tem um carcinoma”.
A expressão de espanto em meu rosto foi o motivo pelo qual ela
acrescentou: “Mas com certeza tem tratamento!”. E, de fato, foi possível
tratar o câncer de tireoide. Ainda assim, nos meses subsequentes, percebi
que uma coisa é dizer às pessoas: “Os cristãos têm esperança diante da
morte” e outra é apropriar-se dessa esperança de modo pessoal e prático
quando temos um câncer que pode nos matar.
Descobri que uma das maneiras fundamentais de ter acesso a essa
esperança cristã era meditar sobre as palavras de Paulo quando ele disse que
não queria que seus amigos se entristecessem “como o restante da
humanidade que não tem esperança”. Alguns comentaristas ressaltam que
há muitas religiões, e quase todas elas acreditam em algum tipo de vida
depois da morte. Como é possível, então, Paulo dizer que o restante da raça
humana não tem esperança diante da morte?
Como outros observaram, Paulo fala de modo relativo. Quando Jesus
diz em Lucas 14.26 que seus seguidores devem “odiar seu pai e sua mãe”,
quer dizer que a devoção ao Senhor deve ser tão grande que, em
comparação com ela, todos os outros vínculos de lealdade empalidecem e
parecem ódio. De modo semelhante, Paulo não diz que ninguém tem
expectativa de vida depois da morte, mas que a esperança futura do cristão é
singularmente poderosa. Ele nos chama a ter prazer na grandeza de nossa
esperança a �m de que nos preparemos para a morte.
O poder da esperança cristã
Quais são algumas das características dessa esperança singular que temos
diante da morte?
Esperança pessoal
É uma esperança pessoal. O futuro daqueles que morrem em Cristo é um
mundo de amor in�nito. Algumas religiões dizem: “Sim, há vida depois da
morte, mas perde-se a consciência pessoal. Perde-se a percepção de
individualidade que, aliás, é uma ilusão. É como se você fosse uma gota
d’água que volta para o mar. Deixa de ser uma gota e torna-se parte da
Alma Única. Depois da morte, não há mais você ou eu, mas continuamos a
fazer parte do Universo”.
Contudo, Paulo diz:
Pois, com uma ordem sonora, com a voz do arcanjo e o ressoar da
trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em
Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos
seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro
com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre.
Portanto, consolem-se uns aos outros com estas palavras (1Ts 4.16-
18).
Observe todas as referências ao fato de que estaremos juntos uns com
os outros. Você estará com as pessoas que perdeu. Veja, também, a
expressão “com o Senhor”. Estaremos com ele para sempre. Essas são
palavras que signi�cam relacionamentosde mágica, mas o faz por meio da união
de um homem e de uma mulher, em geral ele produz o segundo nascimento
de forma semelhante ao primeiro, por meio de relacionamentos de amor e,
com frequência, por intermédio da família.
Existe a tendência de os pecados se repetirem dentro da família.
Procuramos em nossos pais e avós fraquezas que vemos em nós mesmos,
embora não gostemos dessas características e nos esforcemos ao máximo
para evitá-las. No entanto, a graça também é experimentada dentro da
família. Amor e bons exemplos de fé e graça podem levar a criança a buscar
essas mesmas coisas para sua vida.
Batizar o �lho é de imensa ajuda para os pais. Eles fazem votos em um
culto público, cercados de amigos da comunidade cristã. Hoje em dia, com
exceção das cerimônias de casamento, as promessas feitas em público estão
praticamente extintas, e, com isso, abrimos mão de um poderoso
mecanismo para a formação do caráter. Fazer promessas solenes diante de
familiares e amigos é algo que nos molda e deixa uma impressão indelével
em nossa mente, coração e volição.
No batismo, os pais fazem juramentos que implicam obrigações dentro
de uma aliança. Prometemos crescer na graça (veja “Crescer na graça”) a
�m de atrair nossos �lhos não tanto para nós, mas para nosso Salvador e
Senhor. Prometemos educar a criança não em isolamento, mas no meio de
uma comunidade de fé cujos membros são unidos por promessas feitas a
Deus e uns aos outros. Em geral, os que estão ao nosso redor no batismo
fazem votos verbais públicos de nos apoiar e também de cuidar de nossos
�lhos. Nossa comunidade reúne-se para nos apoiar, e nos sentimos
fortalecidos para o chamado e para a missão de educar nossos �lhos. E,
embora o batismo não salve a criança, cremos que graça e as força divinas
reais de Deus são concedidas em resposta a esses votos, pois nosso Deus é
um Deus de aliança que honra promessas (Sl 56.12,13).
Há quase tantos conjuntos de promessas feitas pelos pais no batismo
quanto há denominações, mas um deles se destacou para nós:
Para os pais
1. Vocês reconhecem que são salvos somente pela fé em Jesus? Não por
qualquer outra coisa que tenham feito ou venham a fazer, mas pela
obra consumada de Cristo, a morte na cruz, por meio da qual ele
tomou sobre si o castigo por nossos pecados?
2. Vocês entendem que o batismo não é uma ordenança salvadora e,
embora mostre que seu �lho se torna parte da comunidade da aliança,
não é algo mágico? Entendem que cabe a seu �lho receber Cristo
como Salvador e Senhor quando se tornar responsável diante dele?
3. Fizeram com Deus a aliança de devolver seu �lho a ele para que, se
Deus em sua providência o chamar para si, não se queixem contra ele?
Ou, se seu �lho chegar à vida adulta e for vocacionado para servir a
Deus em um lugar distante, não o impeçam, mas o incentivem?
4. Prometem nessa aliança de sacramento com Deus educar seu �lho na
instrução, obediência e adoração ao Senhor, orar por ele e mantê-lo na
comunhão do povo de Deus, sendo �éis e afetuosos em seu lar, sendo
exemplos piedosos de fé e, portanto, esforçando-se ao máximo para
conduzi-lo ao conhecimento salvador de Cristo?
Para a congregação
1. Vocês, membros desta congregação, se comprometem a orar por esses
pais à medida que educam seus �lhos na fé cristã e a apoiá-los em seus
esforços de dar aos �lhos deles mais exemplos de obediência e serviço a
Deus? Se esses pais não cumprirem a tarefa que receberam de Deus,
vocês se comprometem a repreendê-los e a corrigi-los com toda
humildade?9
Educar o filho
Dedicar o �lho a Deus por meio de promessas públicas diante da
congregação conduz os pais a uma série de práticas cujo propósito é voltar o
coração da criança para Deus. A cultura ocidental secular apresenta muitos
desa�os ímpares a pais cristãos que desejam seguir esse caminho.
As instituições culturais de nossa sociedade têm diversas premissas de
fé a respeito da natureza humana e da moralidade e, no entanto, em geral
não cristãos não reconhecem que essas premissas são crenças. Absorvemos
as narrativas preponderantes da cultura por meio de anúncios, �lmes, séries,
redes sociais e de inúmeras outras formas: “Seja �el a si mesmo”; “Corra
atrás da felicidade e não abra mão dela”; “Você deve ter liberdade de viver
como quiser, desde que não prejudique os outros”; “Ninguém tem o direito
de dizer aos outros o que é certo ou errado”; “Viva de acordo com sua
verdade”. Cada uma dessas declarações é nitidamente contrária ao ensino
bíblico sobre discipulado, sobre pecado e graça e sobre o caráter de Deus.
Todas elas pressupõem crenças bem questionáveis a respeito do propósito e
da identidade dos seres humanos; e, no entanto, são apresentadas como
convicções inegáveis e simplesmente objetivas, arrazoadas, abertas e
cientí�cas. Sociólogos chamam esse fenômeno “misti�cação”, criar a
impressão de que argumentos refutáveis na verdade são fatos incontestáveis
a respeito da realidade.
Vemos um bom exemplo disso em um artigo da revista New York Times
sobre sexo. A autora a�rma que, durante séculos, sociedades tradicionais
“consideraram aberrantes e condenaram prazeres sexuais que, como
sabemos hoje, são saudáveis”.10 Essas culturas mais antigas, contudo, não
consideravam essas práticas sexuais “doentias”, mas, sim, erradas. Era uma
avaliação moral. No entanto, a autora não declara que, “como sabemos
hoje, não existem normas morais em relação à sexualidade”, embora seja o
que ela quer dizer. Em vez disso, ela envolve em linguagem cientí�ca suas
convicções a respeito da sexualidade que, em muitos aspectos, remetem às
crenças da cultura greco-romana antiga.
Pais cujo desejo é que o coração de seu �lho se volte para Cristo e para
o evangelho precisam estar cientes de que a cultura apresenta suas crenças
como se fossem simplesmente bom senso e de ampla aceitação. Todos os
dias, jovens passam horas nas redes sociais, imersos em ondas de histórias,
depoimentos, �lmes, vídeos e anúncios que transmitem uma cosmovisão da
modernidade secular.
Se você imagina que simplesmente levar o �lho à igreja ou ao grupo de
jovens uma vez por semana será su�ciente para vencer tudo isso e formá-lo
para que seja um cristão dedicado, está enganado. O que provavelmente
ocorrerá será o oposto: os hábitos mais profundos do coração e o
discernimento instintivo de seu �lho se tornarão desvinculados das
narrativas bíblicas que ele professa em público. Em algum momento no �m
da adolescência ou na faculdade, o cristianismo deixará de parecer plausível.
O que os pais podem fazer? O sociólogo James D. Hunter estudou
currículos de “formação de caráter” usados em escolas em todo o território
dos Estados Unidos. Cada currículo tem por objetivo produzir nos alunos
honestidade, justiça, bondade, generosidade, sabedoria, autocontrole e
outras virtudes. Hunter mostra, porém, que nenhum desses cursos e
conteúdos usados em escolas públicas e particulares (confessionais ou não)
produz, comprovadamente, mudança de caráter nos alunos.11
Martin Luther King Jr. é, com frequência, apresentado nesses
currículos como modelo da virtude da justiça, e os alunos são exortados a
imitá-lo. Hunter pergunta, contudo, como Martin Luther King Jr. se tornou
esse homem? Foi produto de uma comunidade forte e profícua, a igreja
afro-americana, que transmitia a seus membros não apenas princípios
éticos, mas uma “cosmologia”, uma forma de entender o Universo por meio
da história do Deus do livro de Êxodo, o Deus que liberta. Essa história não
era ensinada na igreja apenas como relato inspirador de algo que havia
acontecido no passado, mas como narrativa que explica a história como um
todo e como as pessoas podem viver hoje.
Em resumo, o que gerou alguém como Martin Luther King Jr. foi uma
comunidade sólida que encarnou e praticou uma visão moral clara, baseada
em um conjunto de crenças a respeito da origem do mundo, da natureza do
ser humano e de seu destino.12 Evidentemente, salas de aula não são
capazes de produzir tudo isso, mas famílias são, especialmente quando se
encontram inseridas em uma comunidadepessoais, relacionamentos perfeitos
de amor que duram para sempre.
O conhecido sermão de Jonathan Edwards “O céu é um mundo de
amor” começa com a asserção de que a maior felicidade que podemos
conhecer é ser amados por outra pessoa; ele acrescenta, porém, que na terra
os mais extraordinários relacionamentos de amor são como um cano
entupido pelo qual passa apenas um pouco de água (ou de amor). No céu,
porém, todos os pontos de “entupimento” serão removidos e o amor que
experimentaremos será in�nito e inexprimivelmente maior que qualquer
coisa que tenhamos vivenciado aqui.4 Na terra, escondemo-nos por trás de
fachadas, pois temos medo de ser rejeitados, mas isso signi�ca que jamais
experimentaremos o poder transformador de sermos plenamente
conhecidos e, ainda assim, inteiramente amados. Além disso, amamos de
forma egoísta e invejosa, que atrapalha, enfraquece e até acaba com
relacionamentos de amor. Por �m, nossos relacionamentos de amor se
desenvolvem à sombra do medo de perder a outra pessoa, o que pode nos
tornar controladores a ponto de afastar as pessoas ou, em outros casos, nos
levar a ter medo de assumir qualquer compromisso.
Edwards encerra o sermão com a declaração de que todas essas coisas
que podem reduzir o amor neste mundo e transformá-lo em apenas um �o
de água no leito de um rio são removidas quando chegamos ao céu, onde o
amor é uma torrente perpétua e uma fonte de prazer e êxtase que �ui
in�nita e eternamente para nós e de nós.
A esperança cristã é de um futuro pessoal de relacionamentos de amor.
Esperança material
Nossa esperança também é material. Observe que Paulo não diz apenas que
iremos para o céu. Ele diz que “os mortos em Cristo ressuscitarão”. Sim,
cremos que nossa alma vai para o céu quando morremos, mas esse não é o
�nal culminante da salvação. No �m de todas as coisas, teremos um novo
corpo. Seremos ressuscitados como Jesus foi. Lembre-se de que quando o
Jesus ressurreto encontrou seus discípulos, asseverou que tinha “carne e
osso”, que não era um espírito. Para provar esse fato, comeu diante deles (Lc
24.37-43). Ensinou seus discípulos que, ao contrário de todas as outras
principais religiões, o cristianismo não promete um futuro somente
espiritual, mas céus e terra renovados, um mundo material aperfeiçoado do
qual terão sido eliminados lágrimas, enfermidades, o mal, a injustiça e a
morte.
Nosso futuro não é imaterial. No reino de Deus, não vamos levitar
como fantasmas. Vamos caminhar, comer, abraçar e ser abraçados. Vamos
amar. Vamos cantar, pois teremos cordas vocais. E vamos fazer tudo isso
com graus de alegria, excelência, satisfação, beleza e poder que não somos
capazes de imaginar no presente. Vamos comer e beber com o Filho do
Homem.
E essa é a derrota de�nitiva da morte. Não é apenas um consolo no
céu para a vida material que perdemos. É a restauração dessa vida. É
receber o amor, o corpo, a mente, o ser pelos quais sempre ansiamos.
Você tem uma identidade verdadeira, uma essência autêntica dentro de
si, mas também tem uma porção de falhas e fraquezas que encobrem,
des�guram e escondem essa identidade. A esperança cristã, porém, é de que
o amor e a santidade de Deus consumirão as falhas e as fraquezas. Naquele
dia, olharemos uns para os outros e diremos: “Sabia que você poderia ser
assim. Tive lampejos e vislumbres de seu verdadeiro eu. E agora, olhe só!”.
Paulo, que tinha algum conhecimento de outras culturas e religiões do
mundo, diz que nosso futuro não é um mundo impessoal e imaterial de
espiritualidade abstrata, mas um futuro pessoal de relacionamentos de amor
e de restauração de todas as coisas.
Se a consciência desse futuro estivesse sempre presente em nossa
mente, será que �caríamos tão desanimados quanto �camos por vezes? Por
que pensar em vingança contra quem o tratou de forma injusta se você sabe
que receberá não apenas tudo o que desejou, mas ainda mais do que ousa
pedir ou imaginar? Por que ter inveja de alguém? Essa esperança é
transformadora.
Esperança beatífica
A esperança pessoal e a esperança material são acompanhadas de esperança
beatí�ca. Paulo não diz que simplesmente estaremos junto com outros. E
também não gasta muito tempo explicando como o mundo será lindo
quando for restaurado. Essa não é a ideia central em sua mente. A nota
�nal, a ênfase maior é que estaremos “com o Senhor para sempre” (1Ts
4.17). Em outras palavras, teremos perfeita comunhão com ele e o veremos
face a face. Historicamente, essa realidade é chamada “visão beatí�ca”.
Paulo fala a seu respeito em 1Coríntios 13.12: “Agora, pois, vemos
apenas um re�exo, como em espelho; mas, então, veremos face a face.
Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, assim como sou
plenamente conhecido”. João também fala dessa visão em 1João 3.2:
“Sabemos que, quando Cristo se manifestar, seremos semelhantes a ele,
pois o veremos como ele é”. Quando olharmos para a face de Cristo,
seremos completamente transformados, pois, como Paulo diz, �nalmente
seremos plenamente conhecidos e, no entanto, plenamente amados.
Quando Moisés pediu, com temor e tremor, para ver a glória divina
(Êx 33.18), Deus respondeu que seria fatal para qualquer ser humano
contemplar sua glória diretamente (Êx 33.19,20). Seres humanos pecadores
não podem entrar na presença do Deus santo e viver. Contudo, Moisés
certamente sabia do perigo. Por que, a�nal de contas, ele buscou essa visão
direta da glória de Deus? Porque sabia intuitivamente que fomos criados
para conhecer e amar a Deus de modo supremo, para ter comunhão com
seu amor e ver sua beleza. Moisés sabia, em alguma medida, que nossa
inquietação humana, aquilo que nos leva a buscar aprovação, consolo,
experiências estéticas, amor, poder, realização, é uma forma de preencher o
que Agostinho chamou, celebremente, “um vazio do formato de Deus”
dentro de nós. Em todos os braços procuramos os braços de Deus, em toda
a face cheia de amor procuramos a face de Deus, em toda a realização
procuramos a aprovação de Deus.
Moisés estava em busca da visão beatí�ca, do relacionamento direto,
face a face, com Deus para o qual fomos criados. A resposta de Deus a
Moisés é, basicamente, o tema do restante da Bíblia e do próprio
evangelho. Deus disse a Moisés que ele teria de ser coberto ou escondido na
fenda de uma rocha para que visse apenas as “costas” de Deus (Êx 33.19-
23). No Antigo Testamento, vemos a glória de Deus residir no Santo dos
Santos no Tabernáculo, presente no meio de seu povo, mas, em sua maior
parte, inacessível.
Quando Jesus vem ao mundo, porém, João anuncia que, em Cristo,
“vimos a sua glória” ( Jo 1.14), e Paulo acrescenta que, graças à morte e à
obra de Cristo em nosso favor, aqueles que creem nele experimentam, pela
fé, um antegosto dessa futura visão transformadora. Escreve:
Pois Deus, que disse: “Das trevas resplandeça a luz”, ele mesmo fez sua
luz brilhar em nosso coração, para iluminação do conhecimento da
glória de Deus na face de Cristo (2Co 4.6).
Esse não é o encontro direto, face a face, que Moisés pediu e que, de
acordo com Paulo e João, ainda está no futuro. Antes, é uma “visão pela fé”
que podemos ter no presente. Ainda não podemos ver a glória de Deus com
nossos olhos físicos, mas, pela fé, a Palavra e o Espírito podem nos dar forte
percepção de sua presença e realidade em nossa vida e em nosso coração.
Por vezes, lemos promessas e verdades das Escrituras, e Jesus se torna
irresistivelmente real e consolador para nós. Paulo expressa esse fato da
seguinte forma:
E todos nós, que com a face descoberta contemplamos a glória do
Senhor, estamos sendo transformados em sua imagem com glória cada
vez maior vinda do Senhor, que é Espírito” (2Co 3.18).
Paulo fala de algo que ocorre muito mais raramente do que deveria,
mas não é uma experiência reservada para uns poucos santos. Em
Romanos, ele escreve: “A esperança não nos decepciona, pois o amor de
Deus foi derramado em nosso coração por meio do Espírito Santo que nos
foi dado” (Rm 5.5). Ele a�rma que nossa esperança futura é fortalecida na
proporção em que não apenasconhecemos intelectualmente o amor de
Deus, mas em que ele é derramado em nosso coração — é experimentado
— por meio do Espírito Santo. Muitos vivenciaram aquilo a que Paulo se
refere. Talvez você esteja lendo a Bíblia, orando ou cantando louvores a
Deus quando percebe sua grandeza e seu amor. É apenas parcial, apenas
pela fé, mas o consola e o transforma. É a luz de sua face que resplandece
em nosso coração. William Cowper escreveu:
Por vezes, uma luz surpreende
o cristão enquanto ele louva;
é o Senhor que ascende
com sua cura que repousa.5
Como C. S. Lewis observa, se essa parte da glória de Deus que se
encontra correnteza abaixo é tão inebriante, como será beber diretamente
da fonte?6
Para isso fomos projetados. O salmo 16 termina com uma frase que
diz, literalmente: “Em tua face há plenitude de alegria; à tua direita há
prazeres eternos” (Sl 16.11). De acordo com Salmos 17.15, depois da
morte, “Quando despertar, �carei satisfeito ao ver a tua semelhança”. John
Flavel, pastor e teólogo inglês do século 17, escreveu sobre Salmos 17.15 e
sobre a visão de Deus em nosso futuro:
Será uma visão que proporcionará satisfação (Sl 17.15). [...] O
entendimento não pode mais saber, a vontade não pode mais desejar,
as afeições de alegria, deleite e amor descansam plenamente e se
aquietam em seu devido centro. [...] Tudo o que lhe dá prazer nas
coisas terrenas jamais poderá satisfazê-lo, pois todos os seus desejos
são, eminentemente, pelo próprio Deus. [...] Os consolos que você teve
aqui são apenas gotas que estimulam, em vez de satisfazer, os apetites
de sua alma; mas o Cordeiro [...] os conduzirá a fontes de água viva (Ap
7.17).7
Kathy às vezes comenta comigo: “Uma das coisas boas da glória futura
é que não precisamos comprar souvenirs”. Sabe o que ela quer dizer com
isso? Não vivemos com arrependimentos. Não dizemos: “Não tirei fotos
quando visitei aquele lugar” ou “Não tive esta ou aquela experiência”.
Qualquer coisa maravilhosa ou extraordinária neste mundo é apenas um
eco ou antegosto do que está presente na visão de Deus e no novo céu e
nova terra, o mundo de amor.
Quando, por �m, você vir o Deus do Universo olhar para você com
amor, todas as potencialidades de sua alma serão liberadas e você
experimentará a gloriosa liberdade dos �lhos de Deus.
Esperança garantida
Há mais um aspecto singular da esperança disponível aos cristãos.
Enquanto outras religiões talvez creiam em vida depois da morte, não
oferecem �rme garantia quanto a quem a desfrutará. Teócrito escreveu:
“Esperanças são para os vivos; os mortos não têm esperança”.8 Outras
religiões não têm como oferecer a nenhum indivíduo a certeza de que ele é
su�cientemente virtuoso para merecer uma boa existência na vida depois da
morte.9
No entanto, Paulo escreve:
Cremos que Jesus morreu e ressurgiu e, portanto, cremos também que
Deus trará com Jesus aqueles que nele dormiram (1Ts 4.14).
Sobre o que Paulo está falando? O salário do pecado é a morte (Rm
6.23). É isso que merecemos. Quando um prisioneiro pagou toda a sua
dívida, ele é liberto; a lei não tem mais direito de detê-lo. Portanto, quando
Jesus pagou toda a dívida do pecado com sua morte, foi ressuscitado. A lei e
a morte não podiam mais detê-lo. E também não podem nos deter se
cremos nele. “Agora, já não há condenação para aqueles que estão em
Cristo Jesus” (Rm 8.1). Quando depositamos nele nossa fé, estamos livres
de condenação, como se nós mesmos tivéssemos cumprido a pena, como se
tivéssemos morrido. “Ora, se morremos com Cristo, cremos que também
com ele viveremos” (Rm 6.8). É isso que Paulo diz em 1Tessalonicenses 4.
Não apenas sabemos do mundo futuro de amor, da visão de Deus e de um
Universo renovado. Recebemos a garantia de que essas coisas espantosas
são nossas. Não imaginamos, cheios de ansiedade, se fomos bons o
su�ciente para estar com Deus quando morrermos. Vivemos com a
profunda certeza de todas essas coisas. Ela também faz parte de nossa
esperança cristã sem igual.
O que mais poderíamos pedir?
Em Marcos 5, Jesus é levado a um quarto em que há uma garotinha
morta. Todos choram alto e se lamentam, mas Jesus está calmo. Senta-se e
segura a mão da menina. O relato de testemunhas oculares registra as
palavras em aramaico que Jesus Cristo disse a ela: “Talitha koum”, cuja
tradução mais apropriada é: “Meu amor, levante-se”. E ela se levantou.
Jesus senta-se, segura a mão da menina e fala com ela como um pai ou
uma mãe fala com uma criança em uma manhã ensolarada. Jesus diz: “Meu
amor, é hora de se levantar”.
O que Jesus tem diante de si naquele momento? A força mais
tremenda, inexorável e implacável que a raça humana precisa enfrentar: a
morte.
E, com um leve movimento da mão, ele faz a menina se levantar! É
sua forma de dizer: “Se eu o seguro pela mão, e se você me conhece pela fé,
nada pode lhe fazer mal. Até mesmo a morte, quando chegar, será apenas
como despertar de uma boa noite de sono. Se eu o seguro pela mão, até
mesmo a morte, quando chegar, apenas o transformará em alguém mais
extraordinário. Nada pode lhe fazer mal. Fique em paz.”
C. S. Lewis diz: “Ele transformará o mais fraco e o mais imundo
dentre nós [...] em uma esplendorosa e radiante criatura imortal, que pulsa
com energia, alegria, sabedoria e amor inimagináveis, um espelho límpido,
sem manchas, que re�ete Deus com perfeição (embora, evidentemente, em
menor escala). Seu poder, prazer e bondade in�nitos. [...] É isso que nos
espera. Nada menos”.10
Devemos rir e cantar de alegria
Em nossa cultura, um dos poucos lugares em que é aceitável falar sobre
morte é em um funeral. As pessoas comparecem a funerais por diferentes
motivos. Um deles, obviamente, é honrar o falecido e expressar admiração
por sua vida singular. No entanto, nossa mente também é obrigada a re�etir
sobre coisas de importância suprema. Assim como pensamos em nosso
casamento (em lembrança ou em expectativa) quando assistimos a uma
cerimônia de casamento, um funeral nos confronta com o fato de que, um
dia, outros comparecerão a nosso funeral. Com frequência, esse fato volta
nossa atenção para perguntas sobre a realidade de Deus e da vida depois da
morte, mesmo que esses pensamentos não surjam habitualmente. Depois de
um funeral, porém, a menos que o falecido seja um membro da família ou
um amigo chegado, a mente volta a seu modo habitual para manter os
pensamentos sobre a morte afastados ao máximo.
Em um culto fúnebre (em contraste com um culto em memória do
falecido), estamos literalmente na presença da morte. Há um corpo no
caixão. Embora as pessoas tenham várias reações na presença da morte,
podemos cometer dois erros opostos: um é desesperar-nos em excesso;
outro é dar de ombros e deixar de aprender uma lição necessária.
Nenhuma dessas atitudes nos bene�cia; logo, devemos seguir a
instrução que a Bíblia nos dá: devemos nos entristecer e ter esperança;
devemos despertar da negação e descobrir uma fonte de paz que não nos
abandonará; e, por �m, devemos rir e cantar.
A Bíblia diz que, quando o Filho de Deus voltar, os montes e os
bosques cantarão de alegria. Quando o Filho de Deus se levantar trazendo
cura em suas asas, quando Jesus Cristo voltar, a Bíblia diz que os montes e
as árvores cantarão de alegria, pois nas mãos dele �nalmente nos
tornaremos tudo o que Deus planejou que fôssemos.
E se é verdade que os montes e as árvores cantarão de alegria, o que
seremos capazes de fazer?
Uma das grandes expressões de esperança da literatura cristã vem de
George Herbert, poeta cristão do século 17. Ele escreveu um poema
chamado Um hino diálogo. De modo elegante e potente, imagina um
diálogo entre a morte e o cristão com base em 1Coríntios 15.
UM HINO DIÁLOGO
George Herbert
C������: Ai, pobre Morte! Onde está tua glória? 
Onde está tua afamada força, teu antigo aguilhão?
M����: Ai, pobre mortal, ignorante da história! 
Vai e lê como matei teu Rei.
C������: Pobre morte! E quem com isso foi ferido? 
Tua maldição, lançada sobre ele, torna-te amaldiçoada.
M����: Os vencidos podem falar, mas um dia tu 
morrerás; 
Estes braçoste esmagarão.
C������: Não me poupes; faze o pior que puderes. Um dia, serei
melhor que antes; e tu, muito pior, deixarás de existir.
Cristão olha para a Morte e diz: “Venha, não me poupe. Faça o pior
que puder. Atinja-me com teu golpe mais potente. Quanto mais me
humilhar, mais alto me elevará. Com quanto mais força me acertar, mais
radiante e glorioso serei”. Em outro texto, George Herbert diz: “A morte
costumava ser carrasco, mas o evangelho a transformou em jardineiro”. A
morte podia nos esmagar, mas agora a única coisa que pode fazer é nos
plantar no solo de Deus para que nos tornemos algo extraordinário.
Muitos anos atrás, pouco antes de o conhecido pastor de Chicago,
Dwight Moody, falecer, ele disse: “Em breve, vocês lerão nos jornais de
Chicago que Dwight Moody faleceu. Não acreditem. Estarei mais vivo que
agora”.
Entristeça-se com esperança; desperte e �que em paz; ria diante da
morte e cante de alegria por aquilo que o espera. Se Jesus o segura pela
mão, você pode cantar.
Uma oração
Nosso Pai, tu és a força de teu povo, e pedimos agora que cures os
entristecidos em nosso meio e cuides de suas feridas. Pedimos que lhes
concedas, e a todos os outros, a visão da vida em que todas as lágrimas
foram enxugadas e todas as sombras fugiram.
Desperta-nos agora no poder de teu Espírito para que te sigamos com
esperança e con�ança e concede-nos teu bondoso poder para nos proteger,
teu sábio poder para nos sustentar, tua beleza para nos extasiar, tua paz para
nos satisfazer, e eleva nosso coração na luz e no amor de tua presença.
Pedimos em nome de Jesus Cristo, aquele que é a Ressurreição e a Vida.
Amém.
1 Consulte algum bom comentário. Um exemplo: George R. Beasley-Murray, John, Word
Biblical Commentary (Plano: �omas Nelson, 1999), vol. 36, p. 194.
2 Homer, �e Iliad, 24.549-51, citado em N. T. Wright, �e resurrection of the Son of God
(Minneapolis: Fortress, 2003), p. 2 [edição em português: A ressurreição do �lho de Deus (São Paulo:
Paulus, 2013)].
3 Peter Kreeft, Love is stronger than death (San Francisco: Ignatius, 1979), p. 2-3.
4 Veja Jonathan Edwards, “Sermon �fteen: heaven is a world of love”, in: �e works of Jonathan
Edwards, WJE Online, Jonathan Edwards Center, Yale University, disponível em: http://edwards.yal
e.edu/archive?path=aHR0cDovL2Vkd2FyZHMueWFsZS5lZHUvY2dpLWJpbi9uZXdwaGlsby9n
ZXRvYmplY3QucGw/Yy43OjQ6MTUud2plbw==, acesso em: 23 set. 2020.
5 De Sometimes a light surprises, hino de William Cowper, 1779.
6 C. S. Lewis, “�e weight of glory”.
7 John Flavel, Pneumatologia: a treatise of the soul of man, in: �e works of John Flavel (Edinburgh:
Banner of Truth Trust, 1968), vol. 3, p. 121.
8 Citado em F. F. Bruce, 1 and 2 �essalonians, Word Biblical Commentary (Plano: �omas
Nelson, 1982), vol. 45, p. 96.
9 Veja, por exemplo, N. T. Wright, Resurrection of the Son of God, p. 32-206.
10 C. S. Lewis, Mere Christianity (New York: Macmillan, 1960), p. 174-5 [edição em português:
Cristianismo puro e simples, tradução de Álvaro Oppermann; Marcelo Brandão Cipolla (São Paulo:
Martins Fontes, 2009)].
http://edwards.yale.edu/archive?path=aHR0cDovL2Vkd2FyZHMueWFsZS5lZHUvY2dpLWJpbi9uZXdwaGlsby9nZXRvYmplY3QucGw/Yy43OjQ6MTUud2plbw==
A
PALAVRAS ADICIONAIS
SE VOCÊ ESTÁ DIANTE DA POSSIBILIDADE DE
MORRER
fé cristã confere aos crentes promessas e esperanças sem igual diante da
morte. Devemos sempre orar pedindo cura, pois temos um Deus todo-
poderoso que ouve nossas orações. Mas também devemos estar preparados
para nos encontrar com ele face a face a qualquer momento. Essa é nossa
oportunidade de fazer ambas as coisas: orar e nos preparar.
Você crê que Jesus veio para ser seu Salvador, para viver a vida que
você deveria viver e também para morrer em seu lugar a �m de fazer
expiação por seus pecados e lhe dar salvação como dádiva gratuita da graça?
Você se arrependeu de tudo o que fez de errado e deixou essas coisas para
trás? Você con�a e descansa somente nele para ser aceito por Deus?
Se você tem essa fé, não enfrentará a condenação de Deus (Rm 8.1).
Se ainda sente di�culdade de experimentar o consolo e a certeza do
amor de Deus diante da morte, pergunte-se: “Está clara em minha mente a
diferença entre salvação pela fé na obra e no histórico de Cristo, e não em
minha obra e meu histórico? Será que, de maneiras sutis, meu coração ainda
se apega, em parte, à ideia de que preciso merecer a salvação?”. Se você
ainda pensa que precisa merecer a salvação, recordações de fracassos do
passado obscurecerão seu coração. Rejeite esses pensamentos e medite em
Filipenses 3.4-9. Paulo diz nessa passagem que, se alguém pensa que pode
“con�ar na carne” (a convicção de que boas obras nos tornam merecedores
da vida eterna), ele muito mais. Paulo não conhecia ninguém mais religioso
e moralmente zeloso que ele próprio. Mas ele entendia que essas coisas de
nada adiantavam. A única coisa que importava era “ser encontrado nele,
não tendo minha própria justiça [histórico moral] que procede da lei, mas a
que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus e se baseia
na fé”.
Há muitas promessas bíblicas nas quais os crentes podem meditar ao
enfrentar a morte. Eis alguns textos para considerar ao longo da semana ao
re�etir sobre sua morte ou ver-se diante dela. São sete textos, um para cada
dia:
Segunda-feira. “Aguardo ansiosamente e espero que em nada serei
envergonhado, mas que terei coragem su�ciente para que agora, como
sempre, Cristo seja exaltado em meu corpo, quer pela vida, quer pela morte.
Porque, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro. Caso continue
vivendo no corpo, terei fruto do meu trabalho. E, no entanto, o que devo
escolher? Não sei! Estou dividido entre os dois” (Fp 1.20-23). Embora a
Bíblia diga que a morte é uma monstruosidade trágica, para o cristão, que tem
certeza de seu relacionamento com Deus, é uma situação em que eles só têm a
ganhar. Há maneiras inigualáveis de servir a Deus e de desfrutá-lo tanto aqui
quanto no céu. Paulo não está mentindo quando diz que se sente “dividido entre
os dois”.
Terça-feira. “Mas agora, assim diz o S����� [...]: ‘Não tema, pois eu o
resgatei; eu o chamei pelo nome; você é meu. Quando você atravessar as
águas, eu estarei com você; e, quando atravessar os rios, eles não o
encobrirão. Quando você passar pelo fogo, não se queimará; as chamas não
o deixarão em brasas. Pois eu sou o S�����, o seu Deus, o Santo de Israel,
o seu Salvador’” (Is 43.1-3). Deus diz claramente que, se pertencemos a ele, ele
jamais nos abandonará. O sofrimento aqui só nos torna mais belos, da mesma
forma que a pressão cria o diamante. E, se morremos, é apenas uma porta escura
para a alegria suprema. Re�ita sobre este hino baseado em Isaías 43:
A alma que em Cristo buscou repousar,
a seus inimigos não vou entregar.
Embora o inferno a queira abalar,
jamais, jamais eu a hei de abandonar.1
Quarta-feira. “Por isso não desanimamos. Embora exteriormente
estejamos nos desgastando, interiormente estamos sendo renovados dia
após dia. Pois os nossos sofrimentos leves e momentâneos estão produzindo
para nós uma glória eterna que pesa mais do que todos eles. Assim, �xamos
os olhos não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é
temporário, mas o que não se vê é eterno” (2Co 4.16-18). Se chegamos à
velhice, percebemos nosso corpo (e nossa beleza) se desvanecer, mas, se estamos
crescendo na graça de Deus, nossa alma está, por assim dizer, se tornando cada
vez mais forte e bela. Na morte, essa inversão é completa. Nosso corpo se
desintegra e nos tornamos esplendorosamente gloriosos. Console-se com essas
palavras.
Quinta-feira. “Sabemos que, se for destruída nossa tenda, a habitação
terrena em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa
eterna no céu, não construída por mãos humanas. [...] Pois, enquanto
estamos nesta casa, gememos e nos angustiamos, porque não queremos ser
despidos, mas revestidos de nossa habitação celestial, para que aquilo que é
mortal seja absorvido pela vida. [...] Temos, pois, con�ança e preferimos
estarausentes do corpo e habitar com o Senhor. Por isso, temos o propósito
de lhe agradar, quer estejamos no corpo, quer fora dele” (2Co 5.1,4,8,9).
Diz-se que um capelão do exército consolou com as seguintes palavras um soldado
assustado antes da batalha: “Se viver, Jesus estará com você, mas, se morrer, você
estará com ele. De qualquer forma, ele cuida de você”.
Sexta-feira. “Não se perturbe o coração de vocês. Vocês creem em Deus;
creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não
fosse assim, acaso eu lhes teria dito que vou lhes preparar lugar? E se eu for
e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam
onde eu estiver [...] Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou
como o mundo a dá. Não se perturbe seu coração, nem tenha medo” ( Jo
14.1-3,27). O mundo só pode nos oferecer a paz que diz: “Provavelmente não
será tão ruim”. A paz de Jesus é diferente. Ela diz: “Mesmo que o pior ocorra, sua
morte será, em última análise, a melhor coisa que pode acontecer”. Todos ansiamos
por um “lugar” que seja nosso verdadeiro lar. Jesus diz que esse lugar está
esperando por você.
Sábado. “Se a�rmarmos que estamos sem pecado, enganamo-nos a nós
mesmos, e a verdade não está em nós. Se confessarmos nossos pecados, ele
é �el e justo para perdoar os nossos pecados e nos puri�car de toda injustiça.
[...] escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém,
alguém pecar, temos um advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” (1Jo
1.8—2.1). Se nos recusarmos a reconhecer nosso pecado e o encobrirmos, Deus o
revelará. Se nos arrependermos sem inventar desculpas e o revelarmos, Deus o
cobrirá da maneira mais extraordinária. Os crentes sabem que Cristo está, por
assim dizer, diante do tribunal de justiça e é nosso “advogado de defesa”. Quando
Deus, o Juiz, olha para nós, ele nos vê “em Cristo”, e nossos pecados não podem
nos condenar. O cristão não tem motivo para temer a morte ou o julgamento.
Domingo. “Pois considero que os sofrimentos do presente não se podem
comparar com a glória que será revelada em nós. [...] Que diremos, então,
diante dessas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que
não poupou nem o próprio Filho, mas o entregou por todos nós, como não
nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem trará alguma
acusação contra os escolhidos de Deus? É Deus quem os justi�ca. Quem os
condenará? Foi Cristo Jesus que morreu — mais do que isso, que foi
ressuscitado — e que está à direita de Deus e também intercede por nós.
Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, angústia,
perseguição, fome, nudez, perigo ou espada? [...] Não, em todas essas coisas
somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois tenho
certeza de que nem morte, nem vida, nem anjos, nem autoridades, nem
coisas do presente nem do futuro, nem poderes, nem altura, nem
profundidade, nem qualquer outra coisa na criação poderá nos separar do
amor de Deus em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.18,31-35,37-39,
ESV). A resposta para a pergunta de Paulo é: “Nada! Nada no céu, na terra ou
em qualquer lugar pode nos separar do amor de Deus em Cristo!”. Junto do caixão
de nossos queridos ou ao contemplarmos nossa morte futura, temos convicção de
que nada pode nos separar de Deus.
Se você perdeu alguém querido
Se a morte foi repentina, não imagine que você precisa tomar de imediato
decisões importantes, como onde morará ou se mudará de emprego. É
provável que não seja um bom momento para tomar decisões desse tipo. Se
a pessoa querida morreu depois de uma longa enfermidade, ou mesmo
depois de um tempo em que �cou inconsciente ou confusa, muitas vezes
começamos a “abrir mão” dela em nosso coração antes de ela falecer. Mas,
se a morte foi um choque inesperado, é possível que você tenha uma
impressão de irrealidade por um bom tempo. É a sensação de que você está
em um sonho, ou em um �lme, ou de que é outra pessoa. Nessa situação,
viva um dia de cada vez e faça uma coisa de cada vez, à medida que for
necessário, sem gastar tempo demais ou de menos com outros. À medida
que você assimilar a realidade e, por �m, começar a abrir mão da pessoa,
terá mais condições de pensar no futuro. Mas não se apresse.
Seja honesto a respeito de seus pensamentos e sentimentos em relação
a outros, a Deus ou até a si mesmo. Não imagine que é “pouco espiritual”
ter questionamentos e esbravejar. Lembre-se de Jesus, que chorou e se irou
com a morte de seu amigo Lázaro. Lembre-se de Jó, que clamou ao Senhor.
Jó se queixou em alta voz, mas se queixou para Deus. Ele nunca deixou de
orar e de se encontrar com Deus, embora essa prática não lhe tenha trazido
muitos benefícios imediatos. Só porque sabemos que uma pessoa querida
está com Cristo e que, um dia, estaremos juntos, não signi�ca que devemos
nos sentir felizes no presente e reprimir a tristeza, ou mesmo a ira. De
maneira nenhuma. Jesus não reprimiu os sentimentos dele! Contudo, não
expresse emoções de uma forma inteiramente desenfreada, prejudicial a si
mesmo ou a outros ao seu redor.
Quando perdemos alguém querido que era crente, devemos meditar
no estado de alegria em que ele agora se encontra. Quando a esposa de C.
S. Lewis faleceu, ele ouviu alguém dizer: “Ela está na mão de Deus” e, de
repente, uma imagem se formou em sua mente:
“Ela está na mão de Deus.” Essa ideia ganha nova energia quando
penso em minha esposa como uma espada. Talvez a vida terrena que
dividi com ela fosse apenas uma parte do processo de lhe conferir
têmpera. Agora, quem sabe ele segura sua empunhadura; avalia o peso
da nova arma; faz com ela raios no céu. “Uma verdadeira lâmina de
Jerusalém.” [...] Que perverso seria se pudéssemos trazer de volta os
mortos!2
Se pudéssemos ver �sicamente nossos queridos neste momento, seriam tão
extraordinariamente radiantes e belos que seríamos tentados a nos curvar e
adorá-los. Não que eles deixariam.
O maior desa�o depois de perder alguém querido é perceber que o
amor, a alegria e a graça que agora parecem ter sumido ainda estão
disponíveis diretamente da fonte original, o Senhor. Há profundezas, fontes
de poder disponíveis na comunhão com ele, das quais você ainda nem
começou a beber. Não é algo que acontece de imediato. Não espere uma
vida de oração muito maravilhosa por enquanto. Ela virá acompanhada da
mesma impressão de irrealidade que todas as outras coisas. Mas, com o
tempo, haverá consolo e paz inimagináveis a seu dispor. Quando temos
outras coisas — cônjuge, família, amigos, saúde, um lar, segurança —, não
somos impelidos a verdadeiramente sondar as profundezas daquilo que está
a nosso dispor na comunhão e na oração. Há mais que su�ciente para
sustentá-lo para o resto de sua vida como alguém mais profundo, mais sábio
e até mais alegre (em alguns aspectos) do que antes da tragédia. Por vezes,
feridas desse tipo jamais desaparecem. Mas, como as marcas dos pregos nas
mãos de Jesus, podem se tornar “ricas feridas [...] glori�cadas em beleza”.3
Apegue-se à esperança de que você não sentirá para sempre o vazio que
sente agora.
Eis algumas passagens para re�etir durante uma semana ao enfrentar
a morte de alguém querido. São sete textos, um para cada dia:
Segunda-feira. “Os dias do ser humano estão determinados; tu decretaste o
número de seus meses e estabeleceste limites que ele não pode ultrapassar.
Por isso, desvia dele o teu olhar, e deixa-o, até que ele cumpra seu tempo
como trabalhador contratado” ( Jó 14.5,6). “Tiraste de mim meus amigos e
meus companheiros; [agora] as trevas são minha companhia mais chegada”
(Sl 88.18). O que nos revela o fato de Deus não apenas permitir, mas incluir,
esses pensamentos em sua Palavra? Ele sabe como nos sentimos e o que dizemos
quando estamos em desespero.4
Terça-feira. “O justo perece, e ninguém pondera sobre isso em seu coração;
os piedosos são tirados, e ninguém entende que os justos são tirados para
serem poupados do mal. Aqueles que andam retamente entrarão na paz;
acharão descanso na morte” (Is 57.1,2). Da nossa perspectiva, a morte,
especialmentedos jovens, não é nada além de um grande mal. E, no entanto, não
conhecemos o futuro. E se a morte é a forma de Deus tomar pessoas para si, lhes
dar paz e salvá-las do mal? Por que essa ideia é tão contraintuitiva para os seres
humanos?
Quarta-feira. Leia João 11.17-44. Jesus mostra que ele vê a morte da
perspectiva de Deus e da perspectiva dos seres humanos enlutados. Ele
chora com Maria e Marta e, no entanto, se ira (v. 38) com a morte, mesmo
sabendo que ressuscitará Lázaro de imediato. Embora Deus esteja trazendo
seu povo para o lar com ele, conhece a tristeza e a devastação que a morte causa e
se entristece profundamente junto conosco. É de ajuda para você em algum aspecto
saber que Deus odeia a morte? “Disse-lhe Jesus: ‘Eu sou a ressurreição e a
vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê
em mim, jamais morrerá. Você crê nisso?’” ( Jo 11.25,26). Você crê nisso? Em
caso a�rmativo, de que maneira isso in�uencia sua forma de se entristecer?
Quinta-feira. “E, se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é inútil;
vocês ainda estão em seus pecados. Nesse caso, também os que dormiram
em Cristo estão perdidos. Se é somente para esta vida que temos esperança
em Cristo, dentre todas as pessoas somos as mais dignas de compaixão. Mas
de fato Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo as primícias dentre
aqueles que dormiram. Uma vez que a morte veio por meio de um só
homem, também a ressurreição dos mortos veio por meio de um só homem.
Pois da mesma forma que em Adão todos morrem, em Cristo todos serão
vivi�cados” (1Co 15.17-22). Paulo aposta a credibilidade de todo o cristianismo
no fato de que Jesus ressuscitou dos mortos. Se a fé cristã é apenas um consolo
nesta vida, somos dignos de compaixão, e aqueles que morreram esperando em
Cristo se foram para sempre. Portanto, antes de considerar qualquer outro
ensinamento ou proposição do cristianismo, esta é a primeira pergunta a fazer:
Jesus foi ressuscitado dos mortos? Se a resposta for “sim”, o caminho adiante,
embora traga sofrimento, conduz à esperança. Se a resposta for “não”, a vida não
tem sentido. Qual é a resposta?
Sexta-feira. “Sabemos que, se for destruída nossa tenda, a habitação terrena
em que vivemos, temos da parte de Deus um edifício, uma casa eterna no
céu, não construída por mãos humanas. Enquanto isso, gememos,
desejando ser revestidos de nossa habitação celestial. Pois, enquanto
estamos nesta casa, gememos e nos angustiamos, porque não queremos ser
despidos, mas revestidos da nossa habitação celestial, para que aquilo que é
mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem nos preparou para esse
propósito foi Deus, que nos deu o Espírito como garantia do que está por
vir” (2Co 5.1-5). Paulo rejeita de modo especí�co a ideia de que, quando
morremos, nos tornamos espíritos desencarnados; antes, somos revestidos de
imortalidade. Ele já havia tratado desse tema em 1Coríntios 15, em que falou
sobre a ressurreição do corpo (v. 42-54). Portanto, a passagem pela morte não é o
ingresso em uma vida fantasmagórica, mas em uma vida de plenitude e alegria
inimagináveis. Nossos queridos não dos deixam para, então, entrarem em um
lugar de escuridão. Eles nos deixam e entram na luz.
Sábado. “O S����� é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz deitar em
pastos verdejantes. Conduz-me para as águas tranquilas. Restaura minha
alma. Conduz-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome. Ainda
que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque
tu estás comigo; tua vara e teu cajado me consolam. Preparas diante de mim
uma mesa na presença de meus inimigos; unges a minha cabeça com óleo, o
meu cálice transborda. Bondade e misericórdia certamente me seguirão
todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do S����� para todo o
sempre” (Sl 23, ESV). Eis uma série de consolos para os entristecidos. Ao
caminhar pelo vale da sombra da morte, lembre-se de que Jesus, o Pastor, o
conduziu até ali. Ele tem consolo para lhe oferecer e maneiras de fortalecê-lo,
aprofundá-lo e desenvolvê-lo que seriam impossíveis em qualquer outra situação.
Portanto, agradeça pela presença dele, não se entregue à autocomiseração e
busque-o em oração mesmo quando não sentir a presença dele (ele está presente).
Jesus passou pela morte, sozinho e rejeitado por todos (Mt 27.46) para que, ao
enfrentarmos a morte de nossos queridos, ou mesmo nossa morte, jamais estejamos
sozinhos.
Domingo. “Portanto, agora, já não há condenação para aqueles que estão
em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito que dá
vida libertou você da lei do pecado e da morte” (Rm 8.1,2). Muitos não têm
consciência da condenação que foi pronunciada sobre eles, ou não sabem de sua
magnitude, exceto, talvez, por uma sensação incômoda de apreensão. Diante da
morte, porém, nosso Inimigo permite que vejamos toda a amplitude de nossa
traição cósmica. Que resposta temos para lhe dar? Apenas que Jesus tomou sobre si
nosso castigo e nos libertou, e agora não resta condenação para nós. Alegre-se!
1 De How �rm a foundation, hino de John Rippon, 1787, tradução de Fabiano Silveira Medeiros.
2 C. S. Lewis, A grief observed (New York: HarperOne, 2001), p. 63, 76 [edição em português: A
anatomia de uma dor: um luto em observação, tradução de Alípio Franca (São Paulo: Vida, 2006)].
3 De Crown him with many crowns, hino de Matthew Bridges e Godfrey �ring, 1851.
4 Derek Kidner, Psalms 1—72: an introduction and commentary (Leicester, Reino Unido:
InterVarsity, 1973), p. 157.
LEITURA RECOMENDADA SOBRE O TEMA DA
MORTE
B����, Joseph. �e view from a hearse (Elgin: David C. Cook, 1969).
E�����, Elisabeth. Facing the death of someone you love (Westchester: Good
News, 1982).
K�����, Timothy. Walking with God through pain and suffering (New York:
Penguin/Riverhead, 2013).
______. Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento. Tradução de
Eulália Pacheco Kregness (São Paulo: Vida Nova, 2016). Tradução de:
Walking with God through pain and suffering.
______. Making sense of God: �nding God in the modern world. (New York:
Penguin, 2016).
______. Deus na era secular: como céticos podem encontrar sentido no
cristianismo. Tradução de Jurandy Bravo (São Paulo: Vida Nova,
2018). Tradução de: Making sense of God.
CONHEÇA OUTRAS OBRAS DE TIMOTHY
KELLER
O autor mostra a todos — cristãos, céticos, solteiros, casais casados há muito tempo e aos
que estão prestes a noivar — a visão do que o casamento deve ser segundo a Bíblia.
Usando a Bíblia como guia, e com os comentários muito perspicazes de Kathy, sua esposa
há 37 anos, Keller mostra que Deus criou o casamento para nos trazer para mais perto dele
e para dar mais alegria à nossa vida.
Jesus mudou a vida de cada pessoa com quem se encontrou nos Evangelhos. Por meio de
experiências e palavras poderosas, ofereceu às indagações dessas pessoas respostas
inesperadas e transformadoras. Esses diálogos podem oferecer respostas a nossos
questionamentos e dúvidas ainda hoje.
“Você deseja saber quem é, quais são seus pontos fortes e fracos? Deseja ser uma pessoa
compassiva e que sabe ajudar os que estão sofrendo? Quer confiar tanto em Deus que não
se abalará com as decepções da vida? Deseja ter sabedoria para direcionar a vida? Esses
quatro desejos comuns são cruciais, mas nenhum deles é alcançado sem sofrimento. Não
há como saber quem realmente somos até sermos provados. Não há como demonstrar
empatia e solidariedade para com as pessoas que sofrem, a não ser que tenhamos sofrido.
Não há como aprender de verdade a confiar em Deus até começarmos a afundar nas águas.”
Jesus veio a este mundo como rei, mas um rei que teve de carregar um fardo que ninguém
jamais suportou. A cruz do Rei traz um relato da vida de Cristo no Evangelho de Marcos, mas
apresentado sob a ótica de Keller. Por meio desse relato, descobrimos o significado cósmico,
histórico e pessoal da vida de Jesus, e somos desafiados a reexaminar nosso
relacionamento com Deus.
Salmos é o livro de cânticos das Escrituras. Jesus conhecia intimamentetodos os 150
salmos e se valeu deles ao enfrentar várias situações, até mesmo a morte.
Duas décadas atrás, Tim Keller começou a ler todo o Livro de Salmos a cada mês. Os
cânticos de Jesus baseia-se em todos esses anos de estudo, reflexão e inspiração
registrados em diários de oração. Kathy Keller dedicou-se à leitura dos salmos para encontrar
apoio durante um período prolongado de enfermidade. Juntos, eles registraram o significado
de cada versículo, convidando os leitores a mergulhar na vasta sabedoria dos salmos.
Nesse devocional, Tim Keller — juntamente com a esposa, Kathy —oferece a seus leitores
reflexões novas e inspiradoras para cada dia do ano e baseadas em diferentes passagens
desse livro sapiencial. Com sua capacidade marcante de relacionar uma compreensão
profunda da Bíblia com o pensamento contemporâneo e com as questões práticas que todos
enfrentamos, Keller desvenda a poesia magistral e os valiosos ensinamentos de Provérbios e
nos guia em direção a uma nova compreensão do que significa viver bem.
	Ficha catalográfica
	Folha de rosto
	Créditos
	Agradecimentos
	Apresentação
	Primeira parte: Nascimento
	1. Primeiro nascimento
	2. Segundo nascimento
	3. Crescer na graça
	Segunda parte: Casamento
	4. Começar o casamento
	5. Manter o casamento
	6. O destino do casamento
	Terceira parte: Morte
	Palavras introdutórias
	7. O medo da morte: a consciência transforma a todos nós em covardes
	8. A ruptura da morte: não se entristeçam como aqueles que não têm esperança
	Palavras adicionais
	Leitura recomendada sobre o tema da mortede fé.
Hunter chama esse fenômeno de ecossistema moral. Consiste em
comunidades que se reforçam mutuamente em contextos nos quais as
crianças vivem, como a igreja e o lar (e, por vezes, também a escola) e em
que determinada visão e narrativa do mundo e dos valores morais
provenientes delas são ensinadas, explicadas, exempli�cadas e aplicadas à
vida diária. As características dessa comunidade formativa sempre
abrangem uma cosmologia moral e um texto investido de autoridade, bem
como discurso moral, imaginação moral e apresentação de modelos morais.
Um ecossistema moral
Em Deuteronômio 6, a Bíblia oferece um vislumbre do ecossistema moral
que os pais cristãos devem estabelecer com seus �lhos para que estes se
transformem em cristãos prudentes, com caráter moral fundamentado no
evangelho. O início de Deuteronômio 6 apresenta o objetivo da formação
de caráter.
Estes são os mandamentos, os decretos e as leis que o S�����, seu
Deus, ordenou que eu lhes ensinasse, para que vocês os cumpram na
terra que vocês estão atravessando o Jordão para dela tomar posse, a
�m de que vocês, seus �lhos e os �lhos deles temam ao S�����, seu
Deus enquanto viverem ao guardarem todos os seus decretos e
mandamentos, que eu lhes ordeno e para que tenham vida longa.
Ouça, Israel, e tenha o cuidado de obedecer para que tudo lhe vá bem
e para que você se multiplique grandemente em uma terra que mana
leite e mel, como lhe prometeu o S�����, o Deus de seus
antepassados (Dt 6.1-3).
O objetivo não é apenas comportamento ético (“guardem todos os seus
decretos e mandamentos”), mas também a reverência e a admiração
interiores diante da grandeza de Deus (“temam ao Senhor”). É um coração
transformado, e não apenas aquiescência comportamental. Para isso, são
necessários hábitos do coração em que Deus é a maior fonte de signi�cado,
identidade, esperança e felicidade. Como é possível desenvolver esse
coração?
Princípios morais só fazem sentido quando são fundamentados em
uma cosmologia moral, um retrato do Universo que os sustente. Vemos aqui
que, se obedecermos aos mandamentos de Deus, “tudo [nos irá] bem” e
“[teremos] vida longa” (v. 3). O Deus da Bíblia é nosso amoroso Criador,
que nos projetou para servir, conhecer e amar a Deus e a nosso próximo.
Portanto, obedecer às leis de nosso Criador é não apenas honrá-lo, mas
também viver de acordo com a forma que fomos projetados, como faz o
peixe quando vive na água, e não em terra seca, ou como faz o proprietário
de um carro quando segue as instruções do manual.
Nessa comunidade, também há um texto moral investido de autoridade,
a Bíblia. Deuteronômio é uma série de sermões de Moisés para a
comunidade do povo de Deus. Os Dez Mandamentos, divinamente
revelados, são apresentados no capítulo 5, e, no capítulo 6, Moisés diz que
“esses mandamentos” são os que “devem estar no coração dos israelitas” e
gravados na mente de seus �lhos. É evidente que a igreja cristã tem, além
de Deuteronômio, a Bíblia inteira como texto investido de autoridade para a
sabedoria moral prática.
A comunidade cristã conta, ainda, com o que Hunter chama discurso
moral. Não basta anotar as regras morais em um quadro e obrigar os
estudantes a memorizá-las. Como Deuteronômio 6 diz, é preciso
“[conversar] sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver
andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar” (v. 7).
Aplicar as normas à vida diária concreta exige atenção constante e muita
sabedoria. Temos de considerar as várias escolhas que fazemos todos os dias
e perguntar: “Qual é a conduta certa nessa situação?”. Precisamos explicar
para nossos �lhos por que determinada decisão ou ação harmoniza com o
que sabemos sobre Jesus e seu evangelho. Temos de mostrar às crianças que
as ordens de Deus não são apenas algo em que cremos de forma abstrata,
mas algo que precisa estar “nos braços [...] [e] na testa” (v. 8). Devemos
mostrar como os pensamentos diários (“testa”) e como as ações diárias
(“braços”) são moldados por nossa fé e nossa experiência de Cristo.
Nessa comunidade, também há imaginação moral. O texto clássico de
Alasdair MacIntyre, After virtue, mostra que há séculos o caráter moral tem
sido instilado de modo mais e�caz por histórias que corpori�cam e ilustram
qualidades morais.13 As histórias do passado de nossa comunidade por vezes
são as mais formativas.
No futuro, quando seu �lho lhes perguntar “O que signi�cam estes
preceitos, decretos e leis que o S�����, nosso Deus, ordenou a
vocês?”, respondam: “Fomos escravos do faraó no Egito, mas o
S����� nos tirou do Egito com mão poderosa. Diante de nossos
olhos, o S����� realizou sinais e maravilhas grandiosos e terríveis
contra o Egito e contra o faraó e toda a sua família. Mas ele nos tirou
de lá para nos trazer para cá e nos dar a terra que, sob juramento,
prometeu a nossos antepassados. O S����� nos ordenou que
obedecêssemos a todos esses decretos e que temêssemos o S�����,
nosso Deus, para que sempre fôssemos bem-sucedidos e preservados
em vida, como é o caso hoje” (Dt 6.20-24).
Observe que, quando os �lhos �zerem a importante pergunta “Por quê?” —
“Por que jamais devemos mentir? Jamais devemos roubar? Jamais devemos
cometer adultério?” —, a resposta não deve ser um sermão sobre �loso�a
moral. Antes, os pais devem responder com narrativas, histórias de lutas
entre bem e mal, que cativam a imaginação e formam o coração muito mais
que argumentos e proposições.
Hebreus 11 fornece um resumo neotestamentário daqueles que
podemos chamar “heróis da fé”, como Abraão, Jacó, José, Moisés e outros.
É importante entender, porém, que essas �guras bíblicas não são como os
exemplos morais de outras culturas. Abraão, Jacó, Davi, Pedro (entre vários
outros) eram profundamente imperfeitos e tiveram uma vida caracterizada
por sérios e repetidos fracassos morais. Por que essas são as histórias o que
devemos apresentar a nossos �lhos?
Porque o evangelho é a mensagem da salvação por meio da graça
imerecida de Deus. A salvação em Cristo não é para os poderosos,
competentes e bem-sucedidos, mas para os que têm força su�ciente para
reconhecer que não são nenhuma dessas coisas. Em lugar de uma série de
modelos de virtude ideais, triunfantes e quase impecáveis, a Bíblia mostra
pessoas fracas que não merecem a graça de Deus, que não a buscam e não a
valorizam, mesmo depois de, apesar de tudo, Deus a ter concedido. Os que
mais recebem graça são os que se mostram mais arrependidos. São
narrativas como essas que apresentam de modo bastante vívido os princípios
e o poder do evangelho. Os princípios morais cristãos são implicações
dinâmicas do amor salvador de Jesus por nós no evangelho. Fazer justiça,
ser honestos, reconciliar-nos com inimigos e permanecer puros são coisas
que desejamos fazer quando o evangelho da graça custosa de Jesus é não
apenas compreendido, mas assimilado com o coração e aplicado à vida
diária.
Por �m, a comunidade cristã que constitui um ecossistema moral é
caracterizada pela apresentação de modelos morais. Em meio às várias
instruções sobre o que devemos fazer com nossos �lhos, Moisés diz:
Obedeçam com cuidado aos mandamentos do S�����, seu Deus, e
aos preceitos e decretos que ele lhes deu. Façam o que é justo e bom
aos olhos do S����� (Dt 6.17,18).
É possível que esse seja o elemento mais prático de uma comunidade e�caz,
que forma caráter. Crianças precisam ver valores e características morais
exempli�cados nas pessoas ao redor. Temos de viver aquilo que cremos e
professamos. A hipocrisia afasta nossos �lhos de nós e, quando isso
acontece, é um distanciamento merecido.
Kathy e eu somos gratos porque, apesar de termos sido pais apenas
medianos, nossos �lhos adolescentes desenvolveram grande apreço pela fé
cristã. Isso porque, em nossa igreja em Nova York, cresceram cercados de
rapazes e moças na casa dos 20 e 30 anos, bem-sucedidos em suas áreas de
atuação e de caráter cativante, mas também seriamente comprometidos com
Cristo.
Hoje em dia, manuais de educação de �lhos muitas vezes aconselham
os pais a não tentar incutir seus“valores” nos �lhos, mas lhes dar apoio para
que formem os próprios valores.14 A realidade, porém, é que todos no
mundo ao redor — desde anunciantes a redes sociais, e a maioria dos
professores de seus �lhos — tentarão implícita ou explicitamente catequizá-
los com ideias como “viva sua verdade”. Se você não se empenhar em
ensinar seus �lhos, outra pessoa o fará. Se não criarmos ecossistemas morais
que formem nossos �lhos à semelhança de Cristo, eles serão formados pelos
ecossistemas morais do mundo.
Suportar a espada
Quando Maria e José levaram Jesus ao templo para ser dedicado,
encontraram Simeão, um senhor idoso que, pelo Espírito Santo, discerniu
que a criança era o Messias há muito prometido. Depois da conhecida
declaração “Agora podes despedir em paz o teu servo. Pois meus olhos
viram tua salvação” (Lc 2.29,30), Simeão voltou-se para Maria e profetizou:
Este menino está destinado a causar a queda e a elevação de muitos
em Israel, e a ser um sinal contra o qual se falará, e assim, o
pensamento de muitos corações será revelado. Quanto a você, uma
espada também atravessará sua alma (Lc 2.34,35).
Simeão diz que, apesar de toda a paz que Jesus trará ao mundo, ele também
trará con�ito. Ao a�rmar que é o Filho de Deus, ele proverá salvação e
descanso para muitos, mas outros o rejeitarão e, portanto, haverá divisão a
seu respeito. Maria, em especial, como mãe de Jesus, experimentará a mais
profunda alegria de ver a grandeza de seu �lho junto com a mais profunda
tristeza de vê-lo ser preso, torturado e morto. Claro que, depois da
ressurreição de Jesus, �caria evidente para Maria que o sofrimento
suportado por seu �lho tinha sido para a salvação de todos nós. Até então,
porém, sua experiência não seria diferente da de todas as mães e pais. Em
meio à alegria, há uma espada.
Em certo sentido, todo relacionamento de amor é acompanhado de
“uma espada que atravessa o coração”, pois, quando verdadeiramente
amamos alguém, ligamos nosso coração a essa pessoa e atrelamos nossa
felicidade à felicidade dela. Não podemos ser plenamente felizes enquanto
ela não for feliz. No caso dos pais, esse vínculo é involuntário; daí dizer que
“você só conseguirá ser feliz na mesma medida que seu �lho mais infeliz”.15
Não é de admirar que tantos hoje em dia tenham resolvido não ser
pais. Mas, assim como Jesus não podia abençoar o mundo sem causar
sofrimento a seus pais, não podemos dar ao mundo a bênção da nova vida
de nossos �lhos sem aceitar a espada em nosso coração. Devemos suportar a
espada com fervorosas orações, e não com autopiedade e preocupação (Fp
4.6), mas também com a consciência de que o próprio Jesus nos deu a
salvação pela qual ele pagou um preço inimaginável, acompanhado,
literalmente, de pregos e espinhos.
Eis o recurso extraordinário que o cristianismo oferece aos pais: o
exemplo de Cristo, que nos mostra que nutrir vida sempre exige sacrifício.
Aqueles que desejam ver a civilização ter continuidade e o amor crescer
aceitam de bom grado os sacrifícios que acompanham a nova vida. Esse
livro é dirigido a eles.
Se você entregar seus �lhos a Deus, cultivar o coração deles em
comunidade e aceitar com oração e graça o sacrifício de educá-los, é possível
que eles contemplem o segundo e “novo” nascimento pelo Espírito Santo. É
desse tema que trataremos nos próximos dois capítulos.
1 Tradução de Robert Hawkey Moreton (1887), in: Hinário para o culto cristão (Rio de Janeiro:
JUERP, 1990), n. 96.
2 Derek Kidner, Psalms 73—150: an introduction and commentary, Tyndale Old Testament
Commentaries (Downers Grove: InterVarsity, 1975), vol. 16, p. 502-3 [edição em português: Salmos
73—150: introdução e comentário, Cultura Bíblica (São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1981
[reimpr., 1992])].
3 Christy Raj tece comentários interessantes sobre os gêneros na Trilogia Cósmica de C. S. Lewis,
disponível em: http://withhandsopen.com, acesso em: 22 set. 2020. Recomendo tanto os textos de Raj
quanto uma leitura atenciosa de Out of the silent planet [Além do planeta silencioso], Perelandra e �at
hideous strength [Aquela fortaleza medonha] (publicados em 2019 pela �omas Nelson Brasil) para
algumas das re�exões mais instigantes e proveitosas escritas até hoje sobre masculinidade/gênero
masculino e feminilidade/gênero feminino.
4 Jennifer Senior, All joy and no fun: the paradox of modern parenthood (New York: HarperCollins,
2014), p. 43 [edição em português: Muita alegria, pouca diversão: o paradoxo da vida com �lhos,
tradução de Alyda Sauer (Rio de Janeiro: Bicicleta Amarela, 2015)].
5 Senior, All joy and no fun, p. 44.
6 Senior, All joy and no fun, p. 8.
7 C. S. Lewis, Prince Caspian (New York: Macmillan, 1951), p. 182 [edição em português:
Príncipe Caspian, tradução de Paulo Mendes Campos (São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017)].
8 A maioria das igrejas cristãs no mundo (a Ortodoxa Oriental, a Católica, a Anglicana, a
Luterana, a Presbiterana e a Metodista reformada) pratica o batismo de crianças, mas claro que há
centenas de milhões de cristãos que não o praticam e que só batizam pessoas com idade su�ciente para
fazer uma pro�ssão consciente de fé. Não procuraremos apresentar aqui uma defesa do batismo de
crianças. Antes, cremos que quase todos os cristãos entendem e praticam, de uma forma ou de outra, o
http://withhandsopen.com/
gesto espiritual básico da circuncisão israelita e do batismo cristão de crianças, o gesto de oferecer o
�lho a Deus, trazê-lo para dentro da comunidade de fé, orar pela graça de Deus e esperar que essa
graça seja derramada sobre a família para a tarefa de educar os �lhos.
9 Há diversas versões dessas perguntas online. Evidentemente, foram alteradas para uso em
diferentes igrejas, e não há como identi�car qual versão é mais próxima do original. Forneço uma
representação das variantes ligeiramente diferentes que encontrei.
10 Kim Tingley, “What can brain scans tell us about sex?”, New York Times Magazine
(September 18, 2019).
11 Veja James D. Hunter, �e death of character (New York: Basic, 2001).
12 Veja Hunter, �e death of character, part three: unintended consequences, p. 153-227. “Uma série
de evidências mostra que a educação moral tem efeitos mais duradouros sobre os jovens quando eles se
encontram inseridos em um mundo social que encarna de modo coerente uma [cosmologia] moral
de�nida por um entendimento claro e inteligível do bem público e pessoal [...] em que a escola, as
organizações de jovens e a comunidade de modo mais amplo têm em comum uma cultura moral
integrada e se reforçam mutuamente. [...] É claro que comunidades com esse nível de integração e
estabilidade culturais são raras nos Estados Unidos hoje em dia” (p. 155).
13 Alasdair MacIntyre, After virtue: a study in moral theory (South Bend: University of Notre
Dame Press, 2007) [edição em português: Depois da virtude: um estudo em teoria moral, tradução de
Jussara Simões (São Paulo: EDUSC, 2001)].
14 Essas duas perspectivas são devidamente apresentadas em Kenneth Keniston; Carnegie
Council on Children, All our children: the American family under pressure (New York: Houghton-Mifflin
Harcourt Press, 1978).
15 Timothy Keller; Kathy Keller, God’s wisdom for navigating life (New York: Viking, 2016), p.
285 [edição em português: A sabedoria de Deus: um ano de devocionais diários em Provérbios, tradução de
Lucília Marques (São Paulo: Vida Nova, 2019)].
E
2
SEGUNDO NASCIMENTO
Havia um fariseu chamado Nicodemos, membro do conselho de
líderes judeus. Ele veio a Jesus, à noite, e disse: “Rabi, sabemos que és
mestre vindo da parte de Deus. Pois ninguém pode realizar os sinais
miraculosos que estás fazendo se Deus não estiver com ele”.
Em resposta, Jesus declarou: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode
ver o reino de Deus se não nascer de novo”.
“Como alguém pode nascer, sendo velho?”, perguntou
Nicodemos. “Certamente não pode entrar pela segunda vez no ventre
de sua mãe e renascer!”
Jesus respondeu: “Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no
reino de Deus se não nascer da água e do Espírito. O que é nascido da
carne écarne, mas o que é nascido do Espírito é espírito” ( Jo 3.1-6).
sse é o texto mais conhecido e mais importante da Bíblia sobre nascer
de novo, ou nascer pela segunda vez. Ele nos permite tratar de várias
perguntas sobre o novo nascimento. A quem se aplica? De onde vem? O
que ele realiza? Como acontece?
A quem se aplica?
O que vem à mente dos americanos em geral quando ouvem a expressão
“cristão nascido de novo”? Com frequência, pensam em um tipo especí�co
de pessoa. Há quem seja emotivo, busque uma experiência de catarse e
goste de levantar as mãos e balançar o corpo enquanto canta hinos. No
parecer de muitos, esse é o tipo de pessoa que gosta da religião do novo
nascimento.
Outros pensam em indivíduos que precisam de um bocado de estrutura
moral. É possível que tenham vivido de forma desregrada, caído em vícios e
enfrentado outros problemas que tomaram conta de sua vida. Acredita-se
que pode ser bom para indivíduos nessa situação ter uma religião com vários
princípios absolutos e regras. Esse é outro tipo de pessoa que precisa da
religião do novo nascimento.
Por �m, em nossa sociedade, cristãos “nascidos de novo” são
conhecidos por votar em candidatos politicamente conservadores. Sem
dúvida, a realidade é muito mais complexa, mas a imagem pública leva ao
mesmo tipo de conclusão. Acredita-se que ser nascido de novo é algo
apenas para pessoas com determinado temperamento, experiência de vida
ou a�nidade política.
O problema dessas ideias �ca evidente em Nicodemos. O capítulo 3 do
Evangelho de João mostra um homem que procura Jesus à noite. O texto
nos fornece diversas informações a seu respeito em poucas palavras. Era
“fariseu” e “membro do conselho de líderes judeus”, o Sinédrio. Com base
nesses dois fatos, podemos deduzir várias coisas a seu respeito. Como
membro do conselho, era um homem mais velho da classe governante.
Como fariseu, não apenas era íntegro e religioso, mas tinha grande
autodisciplina.
Não era, portanto, o “tipo emotivo”. Nem era alguém cuja vida tinha se
desintegrado e que precisava de estrutura moral. Era fariseu, o exemplo
perfeito de estrutura moral.
Mas será que era do tipo ultraconservador? Talvez essa seja sua
impressão, mas considere o modo surpreendente em que ele é retratado
aqui. Ocupa um lugar no centro do poder, é guardião das principais
instituições culturais de sua época. E, no entanto, o vemos procurar Jesus,
um homem que nunca havia frequentado as escolas rabínicas, que não tinha
credenciais acadêmicas nem políticas e que vinha dos níveis mais baixos da
classe trabalhadora. Apesar disso tudo, Nicodemos se dirige a ele de forma
respeitosa, chama-o “rabi” e deseja aprender com ele. Esse quadro mostra
não apenas enorme generosidade de espírito, mas também uma mente
aberta em grau extraordinário.
A�nal de contas, quem é Nicodemos? É um indivíduo íntegro e bem-
sucedido, mas generoso, tolerante e aberto para novas ideias. Não é alguém
com uma vida disfuncional, que precisa de estrutura, nem alguém emotivo,
que precisa de uma experiência de catarse, e também não é alguém
preconceituoso e conservador. Ainda assim, é a ele que Jesus diz: “Você
precisa nascer de novo”.
Jesus não diz “Sabe de uma coisa, Nicodemos? Você é um sujeito legal
em vários aspectos. Tem muita coisa a seu favor, mas, se acrescentar os
seguintes deveres e práticas, �cará quites com Deus”. Não. A mensagem é:
nada do que Nicodemos tinha feito até então o havia aproximado um
centímetro de Deus. Jesus disse: “Se você quer se relacionar com o Rei do
mundo, terá de ser completamente refeito, da estaca zero. Terá de nascer de
novo”.
O chamado de Jesus não pode, portanto, ser um chamado para que
pessoas disfuncionais adotem uma moralidade e uma religião estruturadas.
Na verdade, é um desa�o à moralidade e à religião, pois são elas que
Nicodemos representa. Jesus subverte o sentimento de superioridade
segundo o qual o novo nascimento é apenas para determinados tipos de
pessoa. E, se a salvação se baseia no novo nascimento, e não em realizações
pessoais, qualquer um pode nascer de novo.
O que Jesus diz é radical, mas simples. Todos precisam nascer de novo,
pois não há outra forma de ver o reino de Deus. O novo nascimento é para
todos.
De onde vem?
Em João 3.3, Jesus diz que é preciso nascer de novo para ver o reino de
Deus e, no versículo 5, ele diz que é preciso nascer de novo para entrar no
reino de Deus.1
Lembre-se de que Jesus está falando com um fariseu. O que “reino de
Deus” signi�cava para um judeu como Nicodemos? Signi�cava a
ressurreição no �m dos tempos, os novos céus e a nova terra prometidos por
Isaías (Is 65.17; 66.22). Assim como uma equipe ou organização repleta de
con�itos e disfunções se torna uma unidade coesa debaixo de um bom líder,
quando Deus voltar à terra no �m dos tempos, a presença de seu pleno
poder régio e de sua glória porá tudo em ordem.
Muitos �lósofos gregos acreditavam que a história era in�nita e cíclica,
com grandes expurgações periódicas em que o mundo era queimado e
puri�cado. Depois dessas expurgações, a história recomeçava. Chamavam
esse fenômeno palingenesia, que signi�ca regeneração ou renascimento do
mundo. Mas esses “renascimentos” nunca eram de�nitivos. Eram um
recomeço, mas a história sempre se movia, inevitavelmente, para a
decadência.2
No entanto, em Mateus 19.28 Jesus lança mão desse termo técnico da
�loso�a grega e o emprega de forma surpreendente. Fala da “renovação de
todas as coisas [palingenesia], quando o Filho do Homem se assentar em seu
trono glorioso”. Diz que os �lósofos estavam equivocados. Quando ele
voltar para governar, haverá uma regeneração do mundo, mas será
de�nitiva. Não apenas encerrará o ciclo das coisas para que possam voltar a
acontecer, mas destruirá todo o mal e a morte e eliminará o sofrimento e as
lágrimas.
Evidentemente, essa a�rmação, em si mesma, é uma declaração
espantosa. Em Tito 3.5,6, porém, quando Paulo fala do novo nascimento,
diz: “Ele nos salvou pelo lavar da regeneração e da renovação pelo Espírito
Santo, que ele derramou sobre nós generosamente por meio de Jesus Cristo,
nosso Salvador”. Em nossa língua, essas palavras não impressionam tanto,
mas o termo grego para “regeneração” é palingenesia. Paulo diz claramente
o que Jesus deixou implícito ao associar o novo nascimento ao reino de
Deus.
O reino de Deus e todo o seu poder in�nito de puri�car e renovar só
virão plenamente no �m da história, mas o novo nascimento é uma
implantação do poder futuro de Deus em sua vida agora. A glória futura que
Deus revelará no �m dos tempos para curar todas as coisas no mundo pode
entrar em sua vida neste momento, de modo parcial, porém real, e começar
a transformar você de dentro para fora.
De onde vem o novo nascimento? Vem do futuro! Sem dúvida, é
surpreendente ver na Bíblia uma mensagem associada com mais frequência
a histórias de viagem no tempo, mas temos aqui um relato de não �cção de
viagem no tempo. No novo nascimento não vamos ao futuro; o futuro vem
a nós. O que viaja é o tempo e não nós. O novo nascimento é o poder de
Deus de regenerar o mundo, poder que entra em sua vida no presente para
começar de modo lento, mas indubitável, a transformar você à imagem de
seu Filho (Rm 8.29).
Uma vez que essa ideia pode parecer bastante abstrata, deixe-me
mostrar uma implicação extremamente prática. Nunca subestime o poder de
transformação do novo nascimento. Veja Pedro, um sujeito covarde, sem
força moral. Veja Paulo, um sujeito rígido, severo e cruel. E, no entanto, o
novo nascimento transformou Pedro em leão corajoso e Paulo em terno
pastor e transformou ambos em �guras que mudaram o mundo. Por acaso
eles eram feitos de matéria-prima mais promissora que você ou eu? De jeito
nenhum. Não existe nada em nossa vida — mágoa, temor, culpa, vergonha,
fraqueza ou defeito — que o novo nascimento não possa remover e
começar a curar.
O que faz?
A característica mais essencial do novo nascimento é o que ele faz com a
pessoa que o experimenta. As palavras de Jesus nos mostram que o novo
nascimento é, como se esperadessa metáfora, a implantação de nova vida.
Em João 3.5, Jesus diz que precisamos “nascer da água e do Espírito”.
Na opinião de muitos, isso signi�ca que duas coisas são necessárias para que
sejamos salvos: precisamos de fé e do batismo. É bem mais provável,
contudo, que Jesus esteja falando de uma coisa só. Estudiosos da Bíblia
mostram que Jesus está se referindo a Ezequiel 36, em que o Espírito de
Deus é comparado a água, pois em climas áridos, de deserto, a água era tão
necessária para a vida que era, praticamente, sinônimo de vida. Em resumo,
o novo nascimento é a implantação da vida de Deus, do próprio Espírito
Santo, em você. O que isso signi�ca? Sem dúvida, poderíamos dizer uma
porção de coisas se olhássemos para diversas partes do Novo Testamento.
Vamos nos limitar, porém, à metáfora que Jesus emprega aqui, de nascer
como uma criança que sai do ventre materno para o mundo. Nascer de
novo signi�ca duas coisas que �cam implícitas nessa imagem: nova
sensibilidade e nova identidade.
No novo nascimento, recebemos nova sensibilidade.3 Jesus diz que é
necessário nascer de novo para “ver” o reino de Deus (v. 3).
Todos os seres vivos, até mesmo as plantas, têm alguma forma de
perceber seu ambiente. Os seres humanos, obviamente, têm os cinco
sentidos e, quando o bebê nasce, é bombardeado por novas experiências
sensoriais de luzes, sons, odores e sabores. Deve ser arrebatador.
De modo semelhante, o novo nascimento é acompanhado de um novo
sentido espiritual. É a capacidade não apenas de compreender
intelectualmente verdades anteriormente incompreensíveis a respeito de
Deus, de nós mesmos e do mundo, mas também de sentir essas verdades no
coração de forma inteiramente nova. Estar espiritualmente vivo signi�ca ser
capaz de perceber realidades espirituais, pois agora temos visão e paladar
espirituais. Uma das primeiras áreas em que essa mudança �ca evidente é
na forma de ler a Bíblia. Talvez você tenha sido criado na igreja e na escola
dominical, conheça as histórias da Bíblia e tenha até memorizado uma
porção de versículos. Depois do novo nascimento, contudo, você começa a
perceber ligações e verdades na Bíblia que nunca havia observado antes ou
com as quais talvez houvesse concordado mentalmente, mas que agora
impelem, consolam e iluminam você de maneiras inéditas.
Você tinha ouvido que “Deus ama você”, que “Deus é santo e justo” e
que “Deus cuida de você”, e talvez concordasse com algumas dessas
proposições, mas agora elas se tornam realidades transformadoras que
in�uenciam sua vida diária e suas ações. Você começa a enxergar
implicações antes inimagináveis. Talvez diga: “Espere um pouco. Se isso é
verdade a respeito de Deus, por que me sinto dessa forma? Por que me
comporto dessa forma? Não preciso mais ser assim”. Archibald Alexander, o
primeiro professor de teologia do Princeton �eological Seminary, no início
do século 19, fala dessa experiência:
Todo o ser humano em que essa operação divina foi realizada
experimenta novas perspectivas da verdade divina. A alma vê, nessas
coisas, aquilo que jamais havia visto antes. Ela discerne, na verdade de
Deus, uma beleza e uma excelência das quais, até então, não tinha
concepção alguma.
Logo em seguida, Alexander a�rma que, embora esse novo “sentido” e essa
nova “sensibilidade” espirituais estejam presentes em todos os que passam
pelo novo nascimento, não devemos esperar que surjam e se desenvolvam
de forma idêntica em todos. Escreve: “Qualquer que seja a diversidade na
clareza das perspectivas de diferentes indivíduos, ou nas verdades especí�cas
apresentadas à mente, todos concordam que há uma nova percepção da
verdade”.4 Ninguém pode asseverar que essas novas percepções surgem da
mesma maneira. Por vezes, as mudanças são drásticas e, por vezes, são
bastante gradativas. Além disso, nem sempre é a mesma verdade especí�ca
que fala mais profundamente ao indivíduo recém-nascido na fé. Esse novo
sentido espiritual pode operar de inúmeras maneiras diferentes.
Ainda assim, existem alguns elementos em comum. Um deles é que os
crentes dizem: “Ouvi isso minha vida inteira, mas nunca havia feito
sentido”. De modo especí�co, é comum pessoas declararem que o amor de
Jesus ao morrer na cruz por elas �nalmente se tornou palpável, comovente
e belo. “Como bebês recém-nascidos, desejem intensamente o puro leite
espiritual da Palavra” (NASB), o apóstolo Pedro escreve em 1Pedro 2.2.
Verdades bíblicas deixam de ser apenas palavras em uma página e passam a
ser alimento e bebida que você desfruta e que se tornam parte de quem você
é.
Eis um exemplo claro. Anos atrás, participei de uma comissão de
pastores encarregada de avaliar rapazes prestes a ingressar no ministério.
Pedimos que cada um deles relatasse em poucas palavras como havia
chegado a crer em Cristo. Todos deram um testemunho parecido: “Embora
tenha crescido na igreja, não ouvi ser pregado ali o evangelho da salvação
somente pela graça”. Em seguida, explicaram que, por �m, tinham ouvido o
evangelho por meio de algum outro ministério. Depois que mais um
candidato disse a mesma coisa, um dos pastores da comissão contou uma
história.
Disse que também tinha sido criado na igreja e que, a certa altura,
havia até procurado estudar o cristianismo ao fazer cursos, entre eles um em
que estudou sobre Martinho Lutero e leu trechos de seu famoso comentário
de Gálatas. Alguns anos depois, quando ele estava no exército, o capelão
explicou-lhe o evangelho. Ele percebeu que sempre havia imaginado que
ser cristão signi�cava tentar viver como Jesus e que, se o �zesse com
sinceridade e dedicação su�cientes, iria para o céu. O capelão mostrou-lhe,
porém, que a salvação era somente pela graça por meio da obra de Cristo
em nosso favor (sua vida, morte e ressurreição) e que a salvação podia ser
recebida de uma vez por todas em um ato de fé. Com gratidão e alegria, ele
deu esse passo de fé com o capelão.
Em seguida, perguntou ao capelão por que ninguém havia lhe
apresentado o evangelho antes, e acrescentou: “Não sei como Martinho
Lutero não conhecia o evangelho”.
O capelão �cou perplexo e pediu que ele explicasse. Ele respondeu: “Li
o livro dele sobre Gálatas e não vi o evangelho ali”. Calmamente, o capelão
sugeriu que ele relesse o livro.
“Foi o que �z”, disse o pastor. “E percebi que o evangelho estava
presente em praticamente todas as páginas, em passagens que eu mesmo
havia sublinhado e destacado”. Ele não tinha conseguido enxergá-lo porque
seus olhos espirituais não haviam sido abertos. O pastor concluiu sua
história com a observação: “Neste exato momento, há pessoas em minha
igreja, para as quais eu prego, que não estão ouvindo o evangelho, pois
ainda não têm os ‘ouvidos para ouvir’ que acompanham o novo
nascimento”.
Nova identidade
Além de nova visão e novo sentido espirituais, o novo nascimento
proporciona uma nova identidade. Essa ideia harmoniza com a metáfora do
novo nascimento. Nascer como bebê é se tornar parte de uma família e
receber um nome. Então João diz:
Mas, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o
direito de se tornarem �lhos de Deus, �lhos nascidos não de
descendência natural, nem por decisão humana ou pela vontade do
marido, mas nascidos de Deus ( Jo 1.12,13).
Ser “nascidos de Deus” signi�ca não ter mais nome nem identidade
baseados em “descendência natural”, a condição social ou linhagem familiar
da cultura tradicional, nem em “decisão humana”, a realização e o
desempenho da meritocracia moderna. Antes, signi�ca ter os “direitos” e
privilégios de ser �lho de Deus. É uma nova percepção de identidade e de
valor com base no amor paterno de Deus e em sua identi�cação conosco,
tudo isso obtido pela obra de Cristo, e não nossa. É nessa realidade que
ingressamos quando nascemos de novo.
O que isso signi�ca na prática?
Nascer de novo não signi�ca tornar-se apenas uma pessoa aprimorada,
mas, sim, tornar-se uma nova pessoa. Paulo diz que “se alguém está em
Cristo, é nova criação” (2Co 5.17). Não quer dizer que literalmente tudo
em nós muda quando nascemos de novo. Antes, algo radicalmentenovo
entra em nosso ser e tudo o que havia dentro de nós muda de lugar e é, por
assim dizer, recon�gurado.
Em uma passagem conhecida, Paulo diz que, “em Cristo”, não há mais
“judeu nem grego, homem nem mulher, escravo nem livre, pois todos são
um em Cristo Jesus” (Gl 3.28). E, no entanto, isso não quer dizer que as
distinções são inteiramente apagadas. O estudioso do Novo Testamento
Larry Hurtado escreve:
As distinções étnicas, sociais e de sexo [...] [dos cristãos] devem ser
consideradas radicalmente relativizadas, [pois] todos os crentes, de
qualquer grupo étnico, sexual ou social são agora “um em Cristo Jesus”.
Mas [...] Paulo não considera que essas distinções são eliminadas.
Diante disso, por exemplo, [...] ele continuou a se referir a si mesmo
com orgulho como membro de seu povo ancestral, “hebreu” e
“israelita” [...], mas também asseverou que, “em Cristo”, [...] não se
deve mais considerar que essas distinções de�nem os crentes como
faziam anteriormente.5
A “novidade” do novo nascimento não consiste, portanto, na eliminação de
todos os diversos elementos de sua vida: seu sexo, sua nacionalidade, sua
classe social e a�ns. Agora, porém, nenhum desses elementos é o principal
fator que de�ne sua identidade. Não são mais seu signi�cado e sua
segurança fundamentais, e não é com base neles que você se valoriza e se
de�ne. Para determinado indivíduo, a nacionalidade (“Sou irlandês”) talvez
seja menos importante para sua identidade do que a vocação (“Sou
advogado bem-sucedido”). Mas, para outro advogado irlandês, a
nacionalidade é a fonte maior de orgulho e signi�cado e, portanto, ele se
solidariza mais com outros de sua nacionalidade que com outros de sua
pro�ssão. Para outro indivíduo ainda, o ativismo social talvez seja o
principal elemento de signi�cado de sua vida, o que o leva sentir mais
unidade e orgulho em relação àqueles que têm a mesma linha política e de
justiça social que em relação a outros de nacionalidade ou vocação
semelhante.
Em todos os casos, porém, existe algo de que nos orgulhamos acima de
tudo, algo que nos dá a convicção de que somos pessoas de bem e de que
temos razão de existir. Em Cristo, é isso que muda. Todos os outros
elementos de identidade são questões de desempenho ou linhagem que, não
apenas nos tornam inseguros e temerosos de não estar à altura de nossa
empreitada, mas também costumam nos tornar tribais e frios em relação aos
que não compartilham dessa identidade.
No entanto, o evangelho é radicalmente diferente. Primeiro, permite
que compreendamos a nós mesmos de forma singular e transformadora.
Diz que estamos tão perdidos e somos tão incapazes de agradar a Deus que
Jesus teve de morrer por nós. Na cruz, nossos pecados foram lançados sobre
Jesus (ele foi tratado como o nosso histórico de vida merece) para que, ao
crermos nele, recebamos sua justiça. Em outras palavras, somos tratados
como o histórico de vida que Jesus merece (2Co 5.21). Agora, Deus nos
ama “em Cristo” como se tivéssemos feito tudo o que Cristo fez. E ele nos
ama “assim como ama” seu Filho ( Jo 17.23). Esse passa a ser o alicerce mais
profundo de nossa identidade, de nosso signi�cado e do conceito de nós
mesmos, que reduz, mas não remove todos os outros aspectos que são
verdades acerca de nós mesmos.
À primeira vista, talvez se chegue à conclusão de que essa realidade
torna os cristãos apenas mais uma tribo que despreza aqueles que não têm a
mesma verdade, mas isso signi�ca esquecer o que é a verdade do evangelho.
O evangelho diz que merecemos a morte, mas fomos salvos pela mais pura
graça. Os únicos salvos são aqueles que �nalmente reconhecem que não são
espiritual ou moralmente melhores que outros. Contudo, a salvação pela
graça não apenas nos humilha, mas, ao mesmo tempo, também nos exalta.
Tiago 1.9,10 diz que os cristãos economicamente pobres “devem se
orgulhar de sua alta posição”, mas os cristãos ricos ou com boa condição de
vida “devem se orgulhar em sua humilhação”. Vejamos com mais detalhes o
que isso signi�ca.
A identidade comum tem altos e baixos que dependem de
desempenho. Se seu maior orgulho é sua etnia ou sua família, o
desempenho de outros em sua tribo (ou seu próprio desempenho) trará
honra ou vergonha para todos. Haverá ocasiões em que você se encherá de
orgulho e ocasiões em que será humilhado. Se sua identidade é ocidental
tradicional, com base em suas realizações individuais, também tem altos e
baixos.
O cristão que aceitou o evangelho, porém, recebeu a mensagem de que
somos pecadores e, em nós mesmos, dignos de condenação; ainda assim,
somos perfeita e incondicionalmente amados em Cristo e livres de
condenação (Rm 8.1). Portanto, sempre temos em nossa mente, de forma
simultânea, uma posição baixa e uma posição ainda mais elevada. Tiago
destaca que, em diferentes ocasiões e situações, é bom que os cristãos
re�itam mais demoradamente em uma dessas verdades que na outra. Se
você é pobre e a vida inteira ouviu que não tem valor, deve meditar
constantemente na posição elevada em que o evangelho o colocou, a �m de
curar sua alma. Mas, se você é bem-sucedido e a vida inteira recebeu
elogios, deve pensar demoradamente e com frequência na posição humilde
em que o evangelho o colocou.
Na verdade, essa nova identidade é, portanto, “nova criação”, que
muda tudo. Muda nossa atitude em relação a pessoas de outras raças e
classes, pois nossa raça ou condição social não domina nossa identidade,
levando-nos a menosprezar outros. Nossa nova posição “humilde” permite
que ouçamos pessoas das quais outrora teríamos menosprezado. Mas nossa
nova posição “elevada” permite que enfrentemos desa�os ou nos
pronunciemos contra a injustiça e a combatamos, ou que compartilhemos
nossa fé cristã, tudo isso por meio de ações que, em outros tempos, não
teríamos força interior para tentar colocar em prática, ou nem mesmo
desejo de realizar.
De que maneira o novo nascimento provoca essa mudança? O
primeiro elemento da identidade — nova visão e nova sensibilidade — é
fundamental para o segundo. Se alguém simplesmente diz a uma criança
solitária e triste em um orfanato que ela foi adotada por uma família
maravilhosa, essas palavras não trazem nenhuma mudança. É necessário
que a criança conheça os novos familiares, seja abraçada, amada e cuidada
por eles diariamente. Só então a mudança legal de nome se traduzirá em
felicidade e segurança interiores.
Da mesma forma, tornamo-nos legalmente �lhos de Deus quando
depositamos nossa fé em Cristo ( Jo 1.12,13). No entanto, esse fato não
recon�gura nosso coração nem nossa identidade funcional a menos que, por
meio da nova presença do Espírito de Deus, percebamos seu amor, sua
santidade, sua glória e sua realidade. Paulo diz que, quando entregamos
nossa vida a Cristo, o Espírito de Deus vem habitar em nosso coração e “por
meio [do Espírito] clamamos: [...] ‘Pai’. O próprio Espírito dá testemunho a
nosso espírito que somos �lhos de Deus” (Rm 8.15,16). Ao participarmos
das práticas cristãs comuns — ler a Bíblia e ouvi-la ser pregada, orar
individualmente e com outros, edi�car uns aos outros na comunidade cristã,
participar do batismo e da ceia do Senhor —, o Espírito torna real para
nosso coração a nova identidade e, de modo lento, mas inequívoco, vamos
sendo mudados. Como Santo Agostinho expressou, o novo nascimento
começa a “reordenar nossas afeições”. Não amamos menos nossos
familiares, nossa carreira ou as pessoas; antes, pelo poder do Espírito Santo,
aprendemos a valorizar o amor de Deus cada vez mais.
Lembro-me de aconselhar no início do ministério uma mulher cuja
vida tinha sido transformada pelo evangelho. Ao relatar sua história, ela
recordou-se de pelo menos quatro estágios de sua trajetória. Quando era
menina, frequentava uma igreja austera e dizia a si mesma: “Sei que sou
especial porque sou mais virtuosa que todos os meus amigos”. O problema,
obviamente, é que, quando ela tropeçou, odiou a si mesma, pois a base de
seu valor próprio começou a se desintegrar. Passou, então, ao estágio da vida
em que dizia a si mesma: “Sei que sou alguém especialporque um rapaz
maravilhoso me ama”. Essa ideia só aumentou sua instabilidade. Ela não
apenas vivia entre altos e baixos emocionais, dependendo da atenção que
recebia de homens, mas, por medo, demorava a terminar relacionamentos
prejudiciais.
Depois de vários anos, ela encontrou amigos que a criticaram
justi�cadamente por atrelar sua identidade e felicidade à atenção de homens
e a envolvimentos românticos. Acrescentaram, porém, que seu valor
próprio devia se basear em sua carreira. Ela aceitou o conselho deles e se
dedicou aos estudos e ao trabalho. Passou a dizer a si mesma: “Sou alguém
porque sou bem-sucedida, ganho muito dinheiro e exerço impacto no
mundo”. Contudo, sempre que enfrentava uma di�culdade em sua carreira,
�cava arrasada, como costumava �car quando encontrava di�culdades na
vida romântica.
Depois disso, alguém lhe disse: “Você não precisa disso tudo para saber
que é importante. Só precisa saber que é uma pessoa boa e amável, que
ajuda outros”. Ela se dedicou, então, a ajudar outros por meio de trabalhos
voluntários. Passou a ouvir qualquer um que estivesse com problemas.
Esforçou-se para ajudar pessoas emocionalmente carentes, até que se
esgotou. Então, odiou a si mesma porque devia amar as pessoas, mas nem
sequer gostava delas.
Em suas mudanças de identidade, ela passou de “Sou alguém porque
sou virtuosa” para “Sou alguém porque sou linda”, para “Sou alguém porque
sou bem-sucedida” e para “Sou alguém porque ajudo outros”. Por �m,
percebeu que, a cada etapa, havia tentado salvar a si mesma e estava
exausta. Disse: “Percebi que precisava encarecidamente entender que Deus
me amava porque, de fato, me amava e por causa daquilo que Jesus havia
feito. Esse fato mudou tudo”.
O novo nascimento não é uma questão de ter baixa autoestima e
precisar de incentivo de Deus. O novo nascimento não é uma espécie de
suplemento vitamínico que acrescenta a ideia vaga do “amor de Deus” à
mistura de todas as coisas que usamos para construir valor próprio. Nascer
de novo não apenas muda o que buscamos como nosso bem supremo, mas
também como empreendemos essa busca. Nosso coração descansa no amor
oferecido livremente por Cristo a nós; não precisamos nos esforçar para
obtê-lo. É uma identidade que se �rma em um alicerce inteiramente novo.
Conta-se a seguinte história (provavelmente uma lenda) a respeito de
Santo Agostinho. Ele foi convertido depois de ter vários relacionamentos
com mulheres. Certo dia, enquanto caminhava pela rua, uma ex-amante
veio cumprimentá-lo. Agostinho foi cortês, mas um tanto frio. A mulher
�cou perplexa. Ele se despediu educadamente e, quando começou a se
afastar, ela disse: “Agostinho, sou eu. Lembra?”. Ele se voltou com um
sorriso e disse: “Sim. Mas este não sou eu”. As coisas que mais importavam
para ele deixaram de motivá-lo e dominá-lo. Em lugar de um vazio carente,
agora tinha plenitude interior. Havia nascido de novo.
Como acontece?
Até aqui, falei sobre conversão (voltar-se para Deus com fé) e novo
nascimento como se fossem a mesma coisa. No entanto, teólogos, ao longo
dos anos, articularam uma distinção útil. Em certo sentido, pode-se dizer
que são dois lados da mesma moeda, pois sempre andam juntos. Jesus
declarou em Mateus 18.3: “A não ser que vocês se convertam [...] não
entrarão no reino de Deus” (NASB)6 e, em João 3, disse que, se alguém
não for “nascido do Espírito”, não pode entrar no reino de Deus. Se as duas
coisas são absolutamente necessárias, segue-se que ninguém é
verdadeiramente cristão, cidadão do reino de Deus e �lho em sua família se
ambas não acontecerem.
Contudo, embora a Bíblia nos instrua constantemente a depositar
nossa fé em Deus, em nenhuma passagem diz que devemos ser o agente do
novo nascimento. Como poderíamos? Seria contrário à metáfora. A
regeneração do coração, a implantação do Espírito Santo, não é algo que
podemos fazer, assim como um bebê não pode decidir ser concebido e
nascer. E, no entanto, voltar-nos para Deus com fé é algo que somos
chamados a fazer. A conversão é aquilo que você e eu fazemos para nos
achegar a Deus, mas o novo nascimento é o que Deus faz dentro de nós.
Na realidade, a pergunta é “Como nos voltamos para Deus a �m de
que possamos nascer de novo?”. A resposta tem duas partes que �cam
implícitas aqui. A primeira diz respeito à graça. A segunda diz respeito a
Cristo.
Primeiro, precisamos abandonar nossos pecados e os esforços para
salvarmos a nós mesmos. Jesus disse a Nicodemos em João 3: “É necessário
nascer de novo”. Em João 4, vemos um excelente exemplo em que Jesus
chama à conversão uma mulher que é exatamente o oposto de Nicodemos.
A diferença não é apenas se é homem ou mulher. Aos olhos do mundo, a
vida dela era um fracasso total, enquanto a vida dele era o mais absoluto
sucesso e, no entanto, Jesus chama os dois para que sejam salvos pela graça,
como dádiva.
Quando nos mudamos para Nova York no �m da década de 1980,
Manhattan era um lugar bem diferente do que é hoje. Uma vez por mês, eu
dava uma palestra em um café da manhã no Harvard Club e, quando saía
da estação do metrô na Sexta Avenida, deparava-me com prostitutas e
tra�cantes. Dali, caminhava para a sede do Harvard Club, com suas paredes
revestidas de madeira, poltronas de couro extremamente acolchoadas, lenha
crepitando nas lareiras e seus membros com a aparência próspera de pessoas
que tinham a vida em ordem (como era o caso de muitos). O evangelho
mostrou-me naquela época e continua a me mostrar que Nicodemos no
Harvard Club e a mulher samaritana na calçada eram igualmente
desquali�cados para qualquer salvação baseada em desempenho e, no
entanto, igualmente quali�cados para a salvação baseada na graça.
Esta é a mensagem: não importa quão virtuosa e organizada seja sua
vida, você precisa nascer de novo; também não importa quão caótica sua
vida tenha sido ou quão frequente e terrivelmente você tenha errado, você
pode nascer de novo. Jesus diz: “Todos estão no mesmo nível. A pessoa com
as maiores realizações e a pessoa cuja vida parece o maior fracasso vêm a
Deus como iguais. Você está na mesma situação. Precisa e pode nascer de
novo”. Nicodemos havia tentado se salvar com sua moralidade e suas
realizações e, portanto, estava fazendo papel de Deus, procurando ser o
próprio salvador. A mulher junto ao poço em João 4 é apresentada como
alguém que havia buscado alegria e satisfação em uma série de
envolvimentos românticos e casamentos desfeitos. Estava tentando fazer a
mesma coisa. Por certo, agiu de uma forma que lhe trouxe opróbrio social,
enquanto a conduta de Nicodemos lhe trouxe honra social. Aos olhos de
Deus, porém, quer tentemos nos salvar ao sermos virtuosos, prestativos, ou
belos, não importa. Ao procurarmos salvar a nós mesmos, colocamo-nos no
lugar de Deus.
Portanto, todos (os que parecem ser “os melhores” e “os piores”) estão
na mesma situação e no mesmo nível quanto a sua necessidade da graça de
Deus. Bebês não contribuem em nada para sua concepção e seu
nascimento. Não conferem existência a si mesmos. Não nascem porque
planejaram fazê-lo. Tudo diz respeito ao que os pais �zeram. Não tem
ligação nenhuma com o que os bebês fazem.
De modo paradoxal, a �m de receber salvação, você precisa entender
que não tem condições de contribuir em nada para que ela aconteça.
Enquanto você pensar: “Posso me salvar. Sou um sujeito su�cientemente
bom”, ainda está espiritualmente cego. Não consegue ver o reino de Deus
nem experimentar a graça divina. A mudança se chama arrependimento, e
não signi�ca apenas lamentar por este ou aquele pecado. É o que Bíblia
chama “arrependimento para a vida” (At 11.18). A primeira coisa que você
precisa fazer para ser convertido é arrepender-se diante da graça de Deus e
dizer: “Percebo que tenho procurado salvar a mim mesmo e preciso de tua
graça generosa”.
O exemplo mais famoso desse arrependimento é o próprio Martinho
Lutero. Ao relatar sua conversão, ele observa: “Labutei diligente e
ansiosamente para encontrar uma forma de entender as palavras de Paulo
em Romanos 1.17”. Sua di�culdade era com esse versículo

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