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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/354386677 ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES Book · June 2018 CITATIONS 0 READS 599 2 authors, including: Higor Miranda Cavalcante Universidade Estadual Do Oeste Do Parana 35 PUBLICATIONS 6 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Higor Miranda Cavalcante on 06 September 2021. 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Os autores de cada capítulo respondem individualmente e são totalmente responsáveis pelo respectivo conteúdo publicado. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio e para qualquer fim, sem a autorização prévia dos autores. Obra protegida pela lei dos direitos Autorais. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) E82 Estudos e práticas de ensino de língua portuguesa, literatura e artes / organizadores: Valdeci Batista de Melo Oliveira, Higor Miranda Cavalcante. – Porto Alegre : Unioeste : Evangraf / Exclamação, 2018. 288 p. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-45586-10-4 1. Língua portuguesa - Estudo e ensino. 2. Prática de ensino. 3. Literatura. 4. Arte. 5. Professores - Formação. I. Oliveira, Valdeci Batista de Melo. II. Cavalcante, Higor Miranda. CDU 806.90:371.3 CDD 469.07 (Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo – CRB 10/1507) SUMÁRIO APresentAçãO dO liVrO Valdeci Batista de Melo Oliveira, Higor Miranda Cavalcante .........................................5 PartE 1 – Estágios suPErvisionados dE Língua PortuguEsa E LitEratura no Ensino Médio ...........................................................................9 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr PArA O desenVOlViMentO dO PensAMentO crÍticO. Aparecida de Oliveira da Silva Miranda, Valdirene Aparecida Cotta, Antonio Marcio Ataide........................................................................................................... 11 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA Ana Cristina Silveira, Michele Neves da Silva, Alexandre Sebastião Ferrari Soares .... 21 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO Ana Paula Fernandes Massuia, Janis Patrícia Benka, Antonio Marcio Ataide ........ 37 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MORRE, DESGRAÇADO! de dAltOn treVisAn Adriana Nunes Ribeiro, Luciane Ribeiro de Avila, Alexandre Sebastião Ferrari Soares . 49 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO Rosane de Fátima Emmert, Valdeci Batista de Melo Oliveira ...................................... 60 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde Claudimeri Dambros, Débora Cristina de Lima Valero, Alexandre Sebastião Ferrari Soares .................................................................................... 71 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde de gÊnerO eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer: UM relAtO de eXPeriÊnciA Eliane Aparecida Anevão Pereira, Eliane de Camargo Dominiak, Valdeci Batista de Melo Oliveira .......................................................................................... 86 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA: UMA ABOrdAgeM A PArtir de diVersAs tiPOlOgiAs teXtUAis Edinalva Fernandes Marchiore, Fabiana Costa Camargo, Antonio Marcio Ataide ... 96 ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES4 PartE 2 - aPrECiaçõEs sobrE Língua E LitEratura na forMação dE ProfEssorEs dE Língua PortuguEsa.................................................. 101 literAtUrA BrAsileirA i e ii e PrÁticA de ensinO de literAtUrA nO ensinO MÉdiO André Boniatti ........................................................................................................................103 A PrÁticA de ensinO e A FOrMAçãO dO PrOFessOr de lÍngUA POrtUgUesA Luciane Watthier ...................................................................................................................107 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente Edina Boniatti. .......................................................................................................................111 PartE 3 – tEMas intErdisCiPLinarEs .......................................................... 115 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA Madalena Benazzi Meotti, Valdeci Batista de Melo Oliveira ......................................117 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres Patríciair AlÉM dA grAMÁticA nesse sentido, neves (2003, p. 18-19) expõe: como bases para uma gramática escolar proponho as assunções de que tensões como as que se manifestam entre o uso e norma-padrão, en- tre modalidade falada e modalidade escrita de língua, entre descrição e prescrição, tidas popularmente como óbices a um bom tratamento da gramática na escola, pelo contrário são ingredientes obrigatórios da consideração do tratamento escolar da linguagem, porque pertencem a essência das línguas naturais. a tensão entre o certo e o errado, po- rém, popularmente eleita como carro-chefe da condução da preo- cupação com a língua nativa, não tem fundamento e não tem pa- pel num trabalho com a linguagem cientificamente fundamentado (neVes, 2003, p. 18-19, grifos nossos). nesse sentido, concordamos com neves (2003), que também defende um ensino da língua materna que escape aos moldes tradicionais que se baseiam apenas no desempenho do aluno e acabam por se tornar restrito a convenções linguísticas e a moldes pré-fabricados pela norma culta padrão. A autora considera que se deve rejeitar o tratamento homogêneo da língua nativa, como se ela não tivesse uma expressividade culturalmente múltipla e dinâmica. no ensino da língua nativa, para neves (2003, p. 19), há que se considerar que: a) O falante de uma língua natural é competente para, ativando esque- mas cognitivos, produzir enunciados de sua língua, independente- mente de qualquer estudo prévio de regras de gramática. b) O estudo da língua materna representa, acima de tudo, a explicita- ção reflexiva do uso de uma língua particular historicamente inseri- da, via pela qual se chega a explicitação do próprio funcionamento da linguagem. c) A disciplina escolar gramatical não pode reduzir-se a uma atividade de encaixamento em moldes que dispensem as ocorrências naturais e ignorem zonas de imprecisão ou de oscilação, inerente a natureza viva da língua (neVes, 2003, p. 19). dessa forma, a partir do exposto até o momento, entendemos que não se pode pressupor a língua como um sistema unificado e sem variações, quando ela é essencialmente heterogênea nas interações cotidianas dos todos os su- jeitos, em todos os espaços sociais. nessa ótica, Bakhtin (2003, p. 328) também nos lembra de que: só o enunciado tem relação imediata com a realidade e com a pessoa viva falante (o sujeito). na língua existem apenas as possibilidades po- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES34 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA tenciais (esquemas) dessas relações (formas pronominais, temporais, modais, recursos lexicais, etc.). contudo, o enunciado não é determi- nado por sua relação apenas com o objeto e com o sujeito-autor falante (e por sua relação com a linguagem enquanto sistema de possibilidades potenciais, enquanto dado), mas imediatamente – e isso é o que mais importa para nós – com outros enunciados no âm- bito de um dado campo da comunicação. Fora dessa relação ele não existe em termos reais (apenas como texto). só o enunciado pode ser verdadeiro (ou não verdadeiro), correto (falso), belo, justo, etc. (BAKH- tin, 2003, p. 328 grifos nossos). entretanto, é preciso considerar que existem normas e regras que neces- sitam ser observadas, porém não de forma que se permita o preconceito e a discriminação. isso porque o ensino dessas normas não pode restringir-se aos manuais de gramática, afinal: “se nos contentarmos com entender que a língua-padrão deve ser estabelecida pelas regras dos manuais de gramática tradicionais, teremos de perguntar-nos como foram estabelecidas tais regras” (neVes, 2003, p. 20). e embora os gramáticos afirmem em sua grande maioria que as normas e os padrões da língua advêm essencialmente da literatura, há que continua- mente (re)significá-la, já que o que era clássico vem ininterruptamente sendo superado e modificado, principalmente pela expansão dos meios de comuni- cação. nesse sentido, o que é considerado padrão não pode se restringir à li- teratura. Por isso que as atividades elaboradas para esse estágio englobaram diferentes gêneros textuais, desde o literário, considerado clássico, à música e a textos jornalísticos. A gramática está presente nessas variações e foi a partir dessa contextualização que as atividades de gramática, solicitadas pelas pro- fessoras regentes, foram desenvolvidas. nesse sentido, durante o trabalho desenvolvido no colégio estadual Ju- lia Wanderley, dentro da disciplina de língua Portuguesa, buscamos seguir o caminho inverso do utilizado comumente pelos professores regentes, que é o do ensino da língua padrão de forma institucionalizada para então se fazer o uso da linguagem, o que acaba por torná-la restrita e escassa. no estágio, buscou-se o reconhecimento das variações linguísticas, partindo então da linguagem para a norma padrão. compreendemos, portanto, que ninguém fala, ouve, lê ou escreve sem a gramática, mas que ela, isolada da língua, é categoricamente ineficiente, porque todas as formas de comunicação demandam o conhecimento do concreto, do social, do cultural, bem como do entendimento das normas de ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 35 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA construção textual em seus diversos usos e do conhecimento das normas sociais de uso da língua. enfim, recapitulando, conseguir expressar-se (e ser compreendido) de maneira ampla e com êxito, é mais que uma questão de saber gramática, de analisar frases e reconhecer as funções sintáticas de seus termos. se fosse assim, segundo a autora Antunes (2007), seria muito mais simples expandir a capacidade das pessoas para agirem comunicativamente, o que não vem ocorrendo na realidade escolar. CONSIDERAÇÕES FINAIS A realização dessa pesquisa acabou por provocar reflexões importantes acerca do ensino da língua materna. As observações realizadas, bem como a concretização das atividades de estágio, aliadas às leituras para fundamenta- ção teórica, fizeram compreender que a linguagem necessita ser trabalhada e pensada como decorrência de um procedimento interlocutivo, contínuo e interativo entre os sujeitos. Para Bakhtin (2003, 1997), qualquer processo de comunicação encontra- se com a comunicação verbal. A linguagem demonstra então a vivência hu- mana de maneira material, concreta, a qual concebe a visão do ser humano imerso na coletividade e formação educacional que se aspira apresentar. nesse sentido, observamos que, para que o ensino de língua Portugue- sa seja direcionado para a socialização dos saberes científicos e concomitan- temente, para a apreensão e suplantação da realidade material estabelecida deve-se perceber que a linguagem deriva de um processo de interlocução social, posto que nasce da imprescindibilidade da comunicação no seio das relações de trabalho. numa sociedade em que a língua reflete os conflitos de classe, a análise dos diversos discursos ideológicos presentes nas narrativas literárias e, nesse caso, a compreensão da linguagem é primordial no desenrolar do processo de ensino- aprendizagem. sendo assim, compreendemos que a comunicação se entrelaça à estrutura da sociedade, portanto, deve ser considerada a partir do que se coloca no processo discursivo e dialógico entre os sujeitos, que por sua vez fazem parte de associações e agrupamentos que se agregam à socie- dade em sua complexidade. desse modo, é imprescindível que no ensino de língua Portuguesa se abranja o trabalho com os diferentes gêneros discursivos, assim como com a gramática normativa. Afinal, o uso da língua perpassa as diferentes tipologias ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES36 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA textuais. O ensino da língua materna deve permitir aos alunos descobrir os significados dos diferentes discursos com o propósito de ultrapassar limites linguísticos, analisando-os em consonância com o contexto social em que são produzidos, e a gramática deve ser um mecanismo de reflexãosobre a lingua- gem desses. REFERÊNCIAS AntUnes, irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. são Paulo: Parábola editorial, 2007. AssArÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto Cá: Filosofia de um trovador nordestino. Petrópolis: ed. Vozes, 1982. BAKHtin, M. Estética da criação verbal. são Paulo: Martins Fontes, 2003. BrAit, Beth. Bakhtin e a natureza constitutivamente dialógica da linguagem. in: BrAit, Beth. (Org.). bakhtin, dialogismo e construção de sentido. campinas: Uni- cAMP, 1997. BrAsil. Linguagens, códigos e suas tecnologias: secretaria de educação Básica. Brasília: Ministério da educação, secretaria de educação Básica, 2006. BrAsil. Lei nº 9.394: estabelece as diretrizes e Bases da educação nacional. Brasília, 1996. gAgnÉ, gilles. A norma e o ensino da língua materna. in: BAgnO, Marcos; stUBBs, Michael; gAgnÉ, gilles. Língua Materna: letramento, variação & ensino. são Paulo: Parábola, 2002. MArcUscHi, luiz Antonio. Produção textual, análise de gêneros e compreensão. são Paulo: Parábola editorial, 2008. neVes. Maria Helena de Moura. Que gramática estudar na escola? norma e uso na língua Portuguesa. são Paulo: contexto, 2003. PArAnÁ. Projeto Político Pedagógico: colégio estadual Professora Júlia Wanderley. cascavel: seed, 2013. disponível em: . Acesso em: 28 nov. 2017. PerelMAn, chaïm; OlBrecHtes-tYtecA, lucie. tratado da argumentação: a nova retórica. são Paulo: Martins Fontes, 2002. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 37 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO O PAPEL DA LITERATURA NA DESCONSTRUÇÃO DO RACISMO, PRECONCEITO E DISCRIMINAÇÃO ana paula FernandeS maSSuia JaniS patrícia benka antonio marcio ataide INTRODUÇÃO O interesse em refletir acerca do papel da literatura na desconstrução do racismo, preconceito e discriminação, ocorreu devido à percepção que ao longo da História do Brasil o negro vem sendo estigmatizado. isso aconteceu e ainda acontece devido à fomentação historiográfica ter sido construída pelo prisma do eurocentrismo. Percebe-se que o negro sempre labutou e continua lutando pela sua equidade. e, dentre várias lutas, conseguiu levantar sua bandeira a partir da lei 10.639/2003, cuja orientação é de que o negro não deve ser visto somente como peça de trabalho, ou seja, papel social por ele desempenhado desde os tempos do tráfico negreiro, mas sim mostrar para o educando a cultura, a História igualmente rica dos negros, construtores do país chamado Brasil. Vale ressaltar que os educadores que se encontram no exercício de sua profissão sentem dificuldades diante de certas situações de preconceito; isso se deve ao processo de assimilação de uma ideologia tida como su- perior, imposta no âmbito escolar, já que quando foram educados, foram também ensinados a perceber a vida do negro a partir da sua vinda ao Brasil para argamassar a economia de seus senhores mediante um trabalho duro e árduo. Ao enfrentar tal questão, os educadores se deparam com um grande de- safio que decorre da necessidade de se desfazer os equívocos que deturpa- ram as culturas de origem africana nas áreas onde se desenvolveram relações ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES38 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO de trabalho escravo. O desafio decorre, ainda, da urgência de se analisar os esquemas de violência que perpassam as relações entre os diferentes grupos da sociedade brasileira, de se estudar e de se vivenciar as culturas africanas e afrodescendentes como realidades dialéticas, dispostas no jogo social, per- meadas por contradições e em constante processo de reinterpretação de si mesmas. neste ensaio teórico, estudaremos os contextos das questões étnicos ra- ciais, bem como alguns conceitos sobre racismo, etnocentrismo, discrimina- ção e preconceito, enfatizando que o diferente deve ser tratado com diferen- ça dentro da igualdade e a formação dos professores mediante o bojo da lei 10.639/03 aplicada nas escolas. A literatura deve ser importante por si mesma, sendo primordial para o desenvolvimento social, emocional e cognitivo do aprendiz. É importante a escolha de textos com os quais o aprendiz se identifique, além de diversificar a abordagem do processo de ensino-aprendizagem com práticas metodoló- gicas para a inserção da literatura em sala de aula. RELAÇÕES éTNICO-RACIAIS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA O objetivo deste tópico é oferecer uma contribuição ao debate sobre o tema das desigualdades raciais no trato com a educação e que, nos últimos anos, tem havido um efetivo esforço crescente dos movimentos sociais, auto- ridades e escolas para contribuir com reflexões sobre a questão do racismo, preconceito e discriminação. A leitura sobre as relações étnico-raciais passa por uma análise de como o sistema educacional fomentou sua práxis profissional ao relacionar-se com seus educandos tidos como afrodescendentes. como embasamento para pesquisa, procuramos enriquecer este trabalho com os aportes teóricos de darcy ribeiro e sua obra O Povo Brasileiro (2006); Oracy nogueira, no artigo “Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem” (2006); as “di- retrizes curriculares nacionais para a educação das relações Étnico-raciais e para o ensino de História e cultura Afro-Brasileira e Africana” (2004); Waléria Menezes, no livro O preconceito racial e suas repercussões na instituição escolar (2005); a obra O papel da literatura em sala de aula (2006), de Prudenciano e torres; rildo cosson e seu Letramento literário: teoria e prática (2006); e An- tonio candido, com A literatura e a formação do homem (1972) e Literatura e sociedade (1973). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 39 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO Para compreender a educação Brasileira, devem-se levar em conta as relações étnico-raciais que argamassaram esta nação, e que a construção ca- pitalista desenvolvida neste território deve ser pontuada na escravidão, pri- meiramente da população indígena e, posteriormente, da população negra trazida do continente africano, gerando concepções e práticas racistas que duram até nossa atualidade.(gOnçAlVes, 2009) A matriz cultural brasileira recebeu força europeia dominante, com intui- to de silenciar as matrizes indígenas e africanas. Assim, o português constrói um paradigma educacional que acaba consolidando a formação educacional brasileira numa comunidade multirracial e pluriétnica. segundo ribeiro (2006, p. 98), com toda essa mistura de culturas e refe- rências, o brasilíndio, o mameluco e o afro-brasileiro perceberam-se em uma terra de ninguém — o termo usado pelo autor é “ninguendade” —, gerando a necessidade de criarem uma identidade, a brasileira, sugerindo pluralidade de heranças por várias gerações. A população brasileira resulta, sem dúvida, de mestiçagens várias de todos os grupos entre si, em maior ou menor grau: O surgimento de uma etnia brasileira, inclusiva, que possa envolver e acolher a gente variada que aqui se juntou, passa tanto pela anulação das identificações étnicas de índios, africanos e europeus, como pela indiferenciação entre as várias formas de mestiçagem, como os mula- tos (negros com brancos), caboclos (brancos com índios) ou curibocas (negros com índios) (riBeirO, 2006, p. 119). Apesar de considerarmos que o Brasil vive uma diversidade cultural, é notório que a escola ainda não se sente preparada para lidar com certas situ- ações de racismo que, segundo a acepção do dicionário Aurélio, é “a doutrina que sustenta a superioridade de certas raças” (2004, p. 616). enquanto sistema de pensamento, o racismo teve as suas primeiras teorizações no século XiX, na França. O conde de gobineau foi o principal teóricodas teorias racistas. sua obra, Ensaio Sobre a Desigualdade das Raças Humanas (1855), lançou as bases da teoria arianista, que considera a raça branca como a única pura e superior às demais, tomada como fundamento filosófico pelos nazistas. tal ideologia de superioridade é desmontada no século XX com o lança- mento de Casa Grande & Senzala, de gilberto Freyre, no ano de 1993, que sus- cita um significativo debate acerca do provável relacionamento do escravo com seus senhores. Freyre (1990) traz à tona a ideia de que no Brasil houve um sistema pa- triarcal organizado por uma economia agrária, na qual a harmonia social se ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES40 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO fomentava a partir do cruzamento dos indivíduos envolvidos no processo de formação da civilização brasileira. Para Freyre, uma relação de brandura entre senhor e escravo pode ser constatada na miscigenação entre raça e cultura. Ora, se realmente houve uma vicissitude entre indivíduos, porque a ciên- cia tenta montar explicações científicas de imputar no negro todos os males existentes na construção da sociedade? dentre alguns estereótipos aponta- dos ao negro, refere-se à mancha moral e física pré-conceituando este ser como sendo impuro, pecaminoso, corrupto. de acordo com Munanga (1988), em cima dessa imagem, tenta-se mostrar todos os males do negro por um caminho: a ciência. O fato de ser o branco foi assumido como con- dição humana normativa e o de ser negro necessitava de uma explica- ção científica. Uma primeira tentativa foi a de pensar o negro como um branco degenerado, caso de doença ou de desvio à norma (MUnAngA 1988, p. 14-15 apud gOnçAlVes, 2009, s.p.). A assimilação de superioridade nos é imposta, e muitas das vezes não nos sentimos preparados para enfrentar e desmitificar situações de preconceito, simplesmente porque não damos importância à formação continuada, haja vista que, ao terminarmos a graduação, nos intitulamos donos do “saber”, e diga-se de passagem, que para muitos educadores, basta apenas dominar o seu conteúdo e esquecem que a educação é um processo que transforma o indivíduo, incutindo neste valores socioculturais capazes de mudar o mundo, cabendo ao profissional da educação estar antenado com as modificações que perpassam a sociedade. na escola, é comum presenciarmos o preconceito, quer seja de educan- do para educando, a partir de falas como “só sendo preto”, “o preto, quando não suja na entrada, suja na saída”, “serviço mal feito é serviço de preto”. Ou os epítetos “preguiçoso”, “neguinho”, “pretinho”, “tição”, “negão”, “crioulo”, “macaco”, “urubu”, “café”, “muçum”, “chocolate” etc., expressões que apon- tam para o quanto no âmbito educacional escutam-se frases preconceituosas. Porém, o pior é depararmos com professores oralizando o “mito da burrice”, ao dizer que seu aluno é incapaz de absorver conhecimentos, e começam por pré-conceituar o educando de “preguiçoso”, “este menino não quer nada com nada”, ou “aquele escurinho tem uma enorme dificuldade de aprendiza- do”. nota-se que o educador não tem uma sensibilidade em investigar no que consiste a dificuldade do aluno e acaba por estereotipar a inteligência de seu aluno, reforçando preconceitos. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 41 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO É notório observar que o indivíduo absorve para os outros conceitos que foram impregnados em sua memória e acabam por alijar a identidade de uma determinada etnia. segundo nogueira: no Brasil, a intensidade do preconceito varia em proporção direta aos traços negróides, e tal preconceito não é incompatível com os mais for- tes laços de amizade ou com manifestações incontestáveis de solida- riedade e simpatia. Os traços negróides, especialmente numa pessoa por quem se tem amizade, simpatia ou deferência, causam pesar, do mesmo modo por que o causaria um “defeito” físico (nOgUeirA, 2006, p. 296) O preconceito no Brasil segrega um determinado grupo, e isso é acarre- tado por uma ideologia que prega a supremacia de um povo, de uma raça, ou mesmo de uma cultura sobre outras, expressando-se de diversas maneiras: em nível cultural, religioso, biológico. na concepção de valores, e em nível institucional, legalizado. nogueira aponta ainda que no Brasil acontece uma forma velada de preconceito, no intuito de encenar um igualitarismo racial, que acaba por assumir um “caráter de atentado contra um valor social que conta com o consenso de quase toda a sociedade brasileira, sendo por isso evitada” (idem). Portanto, o preconceito racial está interligado com o modo de ser de cada indivíduo, manifestando nas relações interpessoais aceitação dos padrões de comportamentos dos indivíduos participantes do ethos brasileiro, assim tor- na-se mais fácil para o não branco acomodar o comportamento negro usan- do expressões como “pardo”, “moreno” e “preto”, tais adjetivos demonstram como acontece o escamoteamento do preconceito racial no Brasil. O ambiente escolar é um local que agrupa diversos seres humanos com as mais variadas divergências, emergindo assim um grande problema: já que somos considerados racionais, atribuímos a nossa personalidade um tom de verdade. e quando vislumbramos o outro como diferente ao nosso comporta- mento, criamos obstáculos e discriminamos este ser, achando que ele se tor- na uma ameaça a nossa integridade. tal situação tem como suporte o etno- centrismo. Ou, ainda, poderia se dizer que etnocentrismo é: visão de mundo que considera o grupo a que o indivíduo pertence o centro de tudo. elegendo como o mais correto e como padrão cultural a ser seguido por todos, conside- ra os outros, de algumas formas diferentes, como inferiores. carvalho explana sobre o etnocentrismo educacional: ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES42 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO A educação e as organizações educativas são instrumentos culturais desse colonialismo cognitivo: é o etnocentrismo pedagógico e o corre- lato psico-cultural do “furor pedagógico”, uma gestão escolar autoritá- ria e impositiva para nivelar as diferenças das culturas grupais por meio do planejamento. O etnocentrismo consiste na dimensão ético-política da mesma problemática cuja dimensão psico-antropológica envolve a sombra ou o inconsciente (cArVAlHO apud gOnçAlVes, 2009. p. 5). É por meio da educação que a herança social de um povo é legada às gerações futuras e inscrita na História. Privados da escola tradicional, proibida e combatida para os filhos de negros, a única possibilidade era o aprendizado do colonizador. Ora, a maior parte das crianças está nas ruas. e aquela que tem a oportunidade de ser acolhida não se salva: a memória que lhe inculcam não é de seu povo; a História que lhe ensinam é outra; os ancestrais africanos são substituídos por gauleses e francos de cabelos loiros e olhos azuis; os livros estudados lhe falam de um mundo totalmente estranho, da neve e do inverno que nunca viu, da História e da geografia das metrópoles; o mestre e a escola representam um universo muito diferente daquele que sempre a circundou. HISTÓRICO DAS DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS PARA O ENSINO DE HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA nesta discussão, temos como objetivo percorrer um contexto histórico ao qual se referem as diretrizes curriculares nacionais para o ensino de Histó- ria e cultura Afro-Brasileira e Africana. Analisaremos as resoluções, bem como os pareceres, a fim de vislumbramos o bojo da lei 10.639/03. O Ministério da educação tem uma linha de construção do processo de- mocrático de acesso à educação com garantia de oportunidades para todos, mas sabe-se que diante dos chamados direitos há falhas de deveres, e o per- tencimento à etnia racial negra tem um peso muito alto.em nove de janeiro de 2003 surgem, no bojo da educação brasileira, as diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações Étnico-raciais e para o ensino da História e da cultura Afro-Brasileira e Africana. seu parecer regulamenta a alteração à lei 9.394/1996 de diretrizes e Bases da educação nacional, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e cultura Afro-Brasileira e Africana na educação Básica. Assim como cumprir o estabe- lecido na constituição Federal nos seus Arts. 5º, i, 210, 206, i, § 1° do art. 242, arts. 215 e 216, bem como nos Arts. 26A e 79B na lei 9.394/1996, que asse- guram o direito à igualdade de condições de vida e de cidadania, assim como ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 43 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO garantem igual direito às Histórias e culturas que compõem a nação brasileira, além do direito de acesso às diferentes fontes da cultura nacional a todos os brasileiros. A obrigatoriedade da inclusão de História e cultura Afro-Brasileira e Afri- cana nos currículos da educação Básica trata-se de uma decisão política, com fortes repercussões pedagógicas, inclusive na formação de professores. com esta medida, reconhece-se que, além de garantir vagas para negros nos ban- cos escolares, é preciso valorizar devidamente a História e cultura de seu povo, buscando reparar danos que se repetem há cinco séculos à sua identidade e seus direitos. A relevância do estudo de temas decorrentes da História e cul- tura afro-brasileira e africana não se restringe à população negra, ao contrário, diz respeito a todos os brasileiros, uma vez que devem educar-se enquanto cidadãos atuantes no seio de uma sociedade multicultural e pluriétnica, capa- zes de construir uma nação democrática. reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais, civis, culturais e econômicos, bem como valorização da diversidade daquilo que dis- tingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasi- leira. e isto requer mudança nos discursos, raciocínios, lógicas, gestos, posturas, modo de tratar as pessoas negras. requer também que se conheça a sua história e cultura apresentadas, explicadas, buscando-se especificamente desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira; mito este que difunde a crença de que, se os negros não atin- gem os mesmos patamares que os não negros, é por falta de competên- cia ou de interesse, desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para os negros (BrAsil, 2004, p. 11-12). sem dúvida, assumir estas responsabilidades implica compromisso com o entorno sociocultural da escola, da comunidade na qual essa se encontra e a qual serve. Assim sendo, os sistemas de ensino devem conduzir ações que proporcionem aos professores cursos de formação que lhes permitam apro- fundar seus níveis de estudos, fomentando suas competências e habilidades diante de suas práxis. É importante analisar que as diretrizes curriculares pretendem revelar ao corpo discente e docente da escola que o negro foi inserido na sociedade bra- sileira a partir do tráfico negreiro, mas que este indivíduo trouxe na sua baga- gem uma diversidade cultural, racial, social e econômica. nesta perspectiva, cabe às escolas incluir no contexto dos estudos e atividades que proporciona diariamente, as contribuições históricas culturais dos povos indígenas e dos ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES44 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO descendentes de asiáticos, além das de raízes africana e europeia. É impor- tante ter clareza que o art. 26A, acrescido à lei 9.394/1996, provoca bem mais do que a inclusão desses novos conteúdos; exige que se repensem relações étnico-raciais, sociais, pedagógicas, procedimentos de ensino, condições ofe- recidas para aprendizagem, objetivos táticos e explícitos da educação ofere- cida pelas escolas. esta luta é uma conquista não só dos afrodescendentes, mas de toda a sociedade civil e, em especial, do Movimento negro, que ao longo do século XX aponta para a necessidade de diretrizes que orientem a formulação de projetos empenhados na valorização da História e cultura dos afro-brasileiros e dos africanos, assim como comprometidos com a educação para relações étnico-raciais positivas, a que tais conteúdos devem conduzir. O PAPEL DA LITERATURA NA DESCONSTRUÇÃO DO PRECONCEITO A leitura do texto literário permite o envolvimento de sentimentos como a emoção, o prazer e o deleite, revelados pela maneira pela qual o texto literá- rio se organiza, tal como fugir do padrão hegemônico ou comunicar-se social- mente a partir de uma postura receptiva das divergências impostas pela vida. O ato de ler torna-se uma “ação intelectiva”, uma vez que mobiliza os conhecimentos e as experiências prévias do leitor para codificar a informação veiculada pelo texto, materializando-se na apropriação do mesmo. essa expe- riência é sentida pelo corpo e faz o sujeito tornar-se ativo frente ao contexto histórico-social do qual faz parte, ao passo que adquire uma independência maior de leitura. A prática de leitura do texto literário segundo Antonio candido [...] serve para ilustrar em profundidade a função integradora e transformadora da criação literária com relação aos seus pontos de referência na realidade [...], visto que mostra como as criações ficcionais e poéticas podem atuar de modo subconsciente e incons- ciente, operando uma espécie de inculcamento que não percebe- mos. Quero dizer que as camadas profundas da nossa personalida- de podem sofrer um bombardeio poderoso das obras que lemos e que atuam de maneira que não podemos avaliar (Candido, 1972, p. 3-4). na utilização do texto literário em sala de aula, não se observa um ensino de literatura como exploração das potencialidades da linguagem, nem da li- teratura-prazer que conduzirá o aluno a uma nova compreensão da realidade, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 45 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO pois a literatura é humanizadora, agindo como o um impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela: com altos e baixos, luzes e sombras, verda- deiros e falsos, bons e maus. [...] o texto literário não está limitado a critérios de observação fatual, nem às categorias e relações que constituem os padrões dos modos de ver a realidade e, menos ainda, às famílias de noções/conceitos com que se pretende descrever e explicar diferentes planos da realidade. ele os ultrapassa e transgride para constituir outra mediação de sentidos entre o sujeito e o mundo, entre a imagem e o objeto, mediação que autoriza a ficção e a reinterpretação do mundo atual e dos mundos pos- síveis (BrAsil, 1998, p. 26). Assim, o texto literário, no ambiente escolar, não deveria ser utilizado como pretexto para outras atividades e integrar o livro didático, promovendo a visão de que este é enfadonho, desinteressante e sem importância, e de que o texto literário está vinculado olhar pedagógico-ideológico como pretex- to de instrução moral e cívica ou ainda que seu fragmento só serve para reforçar as habilidades linguísticas, a transmissão de sequência de autores e estilos de época, o ensino de gramática, a prática de leitura e interpretação de texto, o que o torna menos acessível e nem um pouco prazeroso aos alunos. a literatura serve tanto para ensinar a ler e a escrever quanto para formar culturalmente o indivíduo; possibilita ao sujeito a construção da sua identidade e o humaniza, além de contribuir para a construção de sua identi- dade. A literatura ensina, enfim, a ler e a escrever, já que a língua portuguesa é a matéria-prima dos textos literários: O segredo maior da literatura é justamente o envolvimento único que ela nos proporciona em um mundo feito de palavras. Oconhecimento de como esse mundo é articulado, como ele age sobre nós, não elimi- nará seu poder, antes o fortalecerá porque estará apoiado no conheci- mento que ilumina e não na escuridão da ignorância (cOssOn, 2006, p. 29). entendendo a função da literatura e a função do artista literário ao com- por seu texto e não se prendendo apenas aos significados das palavras, mas além, fazendo a leitura de mundo e de outros significados àquelas palavras. A literatura tem um papel na construção de pessoas críticas, mais humanizadas e com olhar voltado ao respeito às diversidades, possibilitando valores e me- lhor convívio social. A voz do negro na literatura não é algo recente, mas se tornou invisível. É por conta de um racismo estrutural que levou o Brasil a desenvolver justifi- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES46 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO cativas temporais para legitimar a ausência histórica dos negros em diversos setores da vida social que a literatura afro-brasileira tem pouca visibilidade. essa atuação impulsionou a aprovação da lei 10.639/2003, configuran- do-a em instrumento de valorização da História e da cultura africana e afro -brasileira. se a ideia “somos o que recordamos” é verdadeira, como esperar que alunos afrodescendentes queiram sentir-se parte de uma cultura e histó- ria dada como inferior? com o objetivo ainda de fazer com que os educandos entendam que a história da construção do nosso país não se deu pela con- tribuição dos negros-africanos, e sim eles formaram esse lugar, aprendendo sobre a diversidade e constituição da história. A literatura de autores negros vai questionar as relações de poder e, prin- cipalmente, apresentar as subjetividades de homens e mulheres negras que tradicionalmente vêm sendo representados pela literatura brasileira de for- ma reduzida, equivocada e estereotipada. Para a escritora Miriam Alves, “a expressão literatura negra só passou a ser usada no Brasil com regularidade a partir da década de 1970. […] e com isso os escritores negros brasileiros, iniciaram a denúncia da hipocrisia da ‘democracia racial’ e seus mecanismos, nada sutis, de discriminações raciais em todos os níveis de ações sociais” (Al- Ves apud AMArO, 2017. p. 3). A pesquisadora simone ricco contribui, dizendo que “a gente quer falar de literatura brasileira, mas de um recorte dela, o que está sendo produzido na literatura brasileira contemporânea e destacando a produção literária ne- gra, e muitos não sabem o que está acontecendo, não conhecem os autores, não têm ideia de como é o texto e ficam presos, muitas vezes, associando a literatura negra a um texto mais panfletário, e muitas vezes não é o que acon- tece, a militância acontece de uma forma bem mais literária e bem menos panfletária” (riccO apud AMArO, 2017.p 3) entendemos que o preconceito é tão velho quanto a humanidade e por esta razão é difícil de ser extinto. entretanto, o preconceito conforme descri- to por crochík (1996) é compreendido não como uma característica inata e presente em todos os seres humanos, mas algo aprendido e desenvolvido durante as socializações, ou seja, nas relações sociais. ninguém nasce racista, e sim, se apropria deste preconceito de acordo com suas vivências e assim se faz necessário o trabalho além da conscientização, e sim mudanças na prática. Ainda hoje temos a materialização do racismo em nossa sociedade por meio de preconceitos, discriminação e estereótipos que deixam marcas na vida do outro. Ao discutirmos a questão do preconceito racial no contex- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 47 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO to escolar, é importante levar em consideração um fator importante, que é a mediação do professor no processo ensino e aprendizagem, buscando a articulação entre teoria e prática, efetivando esse objetivo por meio da literatura. com base nessas afirmações, realizamos um trabalho voltado à prática reflexiva do preconceito racial com alunos do ensino Médio, tendo por objeto o conto “O caso da vara”, de Machado de Assis, além de vídeos que exempli- ficavam a existência de manifestações de preconceito em nossa sociedade. sendo assim, observamos e analisamos a imagem do negro representada em obras literárias, relacionando-as aos dias atuais, podendo, deste modo, refletir e romper com os estereótipos e preconceitos raciais representados na perso- nagem lucrécia, trabalho esse que possibilitou a criticidade diante da análise da obra, discutindo sobre os conteúdos implícitos e explícitos. Perceberam ainda o silenciamento e a condição do negro (não era considerado ser huma- no), ainda a denúncia ao preconceito racial. Percebendo o negro como um sujeito mudo e incapaz de aprender. Para Menezes (2002), é atribuído à sociedade do eu tudo o que for mais elaborado ou civilizado. Já a sociedade do outro é marcada pela reificação de ideias etnocêntricas [...] ele é percebido como um “intruso” que trará a de- sordem. Portanto, para evitar o possível caos, busca-se manter o status, para o que é necessário calar o outro, mantendo-o excluído e dominado a fim de permanecer a ilusão do equilíbrio e da ordem vivida na ausência da diferença (MeneZes, 2002, p. 3). REFERÊNCIAS AMArO, Vagner. a consciência negra e o meio literário excludente. disponível em: . Acesso em: 10 dez. 2017. cOssOn, rildo. Letramento literário: teoria e prática. são Paulo: contexto, 2006. gOnçAlVes, Fabiane lucimar da cunha. relação étnico raciais da educação brasi- leira. [s.l.: s.n.], 2009. MeneZes, Waléria. o preconceito racial e suas repercussões na instituição escola. disponível em: . Acesso em: 03 out. 2017. nOgUeirA, Oracy. Preconceito racial de marca e preconceito racial de origem: su- gestão de um quadro de referência para a interpretação do material sobre relações raciais no Brasil. tempo social, são Paulo, v. 19, n. 1, 2009. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES48 O PAPel dA literAtUrA nA descOnstrUçãO dO rAcisMO, PrecOnceitO e discriMinAçãO PArAnÁ. secretaria da educação. diretrizes Curriculares nacionais para a Educa- ção das relações étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura afro-brasi- leira e africana. curitiba: seed, 2008. riBeirO, darcy. o Povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. são Paulo: com- panhia das letras, 2006. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 49 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn LÍNGUA E LITERATURA PORTUGUESA NO ENSINO MéDIO: CONTO MORRE, DESGRAÇADO! DE DALTON TREvISAN adriana nuneS ribeiro luciane ribeiro de avila alexandre SebaStião Ferrari SoareS INTRODUÇÃO Propõe-se nesse artigo apresentar resultados das atividades desenvolvi- das no estágio supervisionado da disciplina de Prática de ensino e estágio supervisionado de literatura infantil e Juvenil no ensino Médio, realizado no colégio estadual de Jardim santa Felicidade, na turma de 3º Ano do ensino Médio noturno. A escola está inserida em uma comunidade socioeconômica diversificada, porém prevalece famílias de pouco poder aquisitivo. diante disso, em pesquisa ao Projeto Político Pedagógico (PPP) presen- te escola, constatou-se que a instituição de ensino, segue as orientações das diretrizes curriculares Orientadoras da educação Básica para a rede estadual de ensino do Paraná (PArAnÁ, 2008), as quais definem como conteúdos bá- sicos para o ensino de língua Portuguesa os “gêneros discursivos”. segundo Krupek (2014): O documento orienta os professores a desenvolverem atividades de lei- tura, oralidade, escrita e análise linguística. Para efetuar a seleção den- tre os inúmeros gêneros existentes nas diversas esferas sociaisde circu- lação e elaborar seu Plano trabalho docente, cabe ao professor avaliar a pertinência de cada gênero – ou agrupamento de gêneros – ao ano escolar em foco, considerando as características da escola e o nível de complexidade adequado a cada ano escolar (KrUPeK, 2014, p. 2). Portanto, o fato de a professora estar trabalhando com seus educandos o gênero conto e a mesma sugerir a continuidade da aplicação dessa narrativa, é que se optou em desenvolver o estágio com esse gênero discursivo. e tam- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES50 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn bém, devido à preocupação da equipe diretiva da escola que propôs tratar o tema violência doméstica, já que se evidenciou que a mesma se faz presente na região e também na comunidade. A narrativa escolhida para se trabalhar com os alunos foi o conto Morre, desgraçado! de dalton trevisan, que é considerado o maior contista brasileiro contemporâneo, e sua escrita está inspirado nos habitantes da cidade, criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psico- lógicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular, que valoriza os incidentes do cotidiano sofrido e angustiante. com uma linguagem clara e uma maneira de escrever informal, o conto estudado possibilita o aluno ao entendimento completo do conto. consequentemente, isso significa que o professor deve procurar, também, resgatar do contexto das comunidades em que a escola está inserida, as práticas de linguagem e os respectivos textos que melhor representam sua realidade. Para a realização deste estudo, foi necessária a compreensão da funda- mentação teórica dos gêneros, partindo dos pressupostos de Bakhtin e Volo- chínov (1992; 2006), teórico que fundamentam as dce-Pr – diretrizes curri- culares Orientadoras da educação Básica para a rede estadual de ensino do Paraná (PArAnÁ, 2008) – na disciplina de língua Portuguesa, e das Orienta- ções curriculares para o ensino Médio. diante disso, optou-se em trabalhar com o autor dalton trevisan, o qual é um artista contemporâneo, esse que revela em seu modo de escrita uma realidade da atualidade. DISCUSSÃO TEÓRICA Ao saber que a escola tem a incumbência de propiciar aos educandos a construção do conhecimento produzindo ao longo do percurso escolar, deve-se considerar que a disciplina de língua Portuguesa tem a função de promover a produção da linguagem em diversas circunstâncias de interação. dentro desse viés, a disciplina se apropria da literatura, essa carregada de significado, expressiva, harmônica e intencional, capaz de recriar a realidade. nesse sentido, torna-se relevante a citação de Antonio cândido (1995), sobre a literatura que tem um papel importante de humanização: entendo aqui por humanização [...] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamen- to das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 51 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humani- dade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante (cÂndidO, 1995, p. 249). O ensino de língua Portuguesa (lP) no Brasil é norteado pela concep- ção interacionista de linguagem. tal perspectiva começou a figurar nos do- cumentos pedagógicos oficiais desde a década de 1990. O currículo Básico para a escola Pública (PArAnÁ, 1990) trouxe, como pioneiro, o ensino de lP pautado na concepção interacionista e no texto como objeto de ensino. em 1998, os Parâmetros curriculares nacionais (Pcn) foram publicados e, além de se pautarem na concepção interacionista, apresentaram os gêneros tex- tuais como objeto de ensino. Uma década depois, em 2008, publicaram-se, no estado do Paraná, as diretrizes curriculares da educação Básica (dce). esse documento, pautado na mesma concepção de linguagem, mas com um viés dialógico, apontou para o uso dos gêneros discursivos como ferramenta de trabalho com a linguagem. Uma visão interacionista no trabalho com a linguagem, e da proposição do trabalho com os gêneros na sala de aula, conforme orientam os Pcn (BrA- sil, 1998) e as dce (PArAnÁ, 2008), espera-se que os professores de lP atuem de maneira coerente com tais documentos. Assim, os docentes devem assu- mir a concepção interacionista de linguagem na sala de aula e, consequente- mente, adotar os gêneros como ferramenta de ensino da lP. no entanto, para que essa orientação teórica realmente se consolide nos encaminhamentos didáticos, é necessário que esses docentes recebam uma formação capaz de subsidiá-los didática e teoricamente para tal. Modificar a escrita em um pará- grafo. A narrativa trabalha questões pertinentes ao tratar sobre a violência doméstica, conjuntamente com a questão do discurso patriarcal. Para nuc- ci (2006), a violência doméstica e familiar pode ocorrer na forma de ação ou omissão, baseada no gênero que venha a causar à mulher morte, lesão, sofri- mento físico, sexual ou psicológico, e ainda dano moral ou patrimonial, onde há relacionamento estreito entre duas pessoas, que deveria estar alicerçado em amizade, amor, simpatia, dentre outros sentimentos de aproximação. se- gundo a pesquisadora em violência doméstica sloboda (2016), [...] nota-se que são diversas as espécies e meios utilizados pelo agressor, sendo geralmente praticada pelo marido, namorado, ex-companheiro, filhos ou pessoas que habitam na mesma casa. A violência é uma forma ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES52 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn imprópria de resolver um conflito, a qual se torna um abuso de poder, “É a lei do mais forte sobre o mais fraco” (slOBOdA, 2016, s.p.). A escolha do gênero discursivo o conto e o tema sobre violência domés- tica deste estágio foi de dalton trevisan, porque são histórias curtas, de fácil leitura e entendimento. em consonância com as Orientações curriculares para o ensino Médio, pois: na discussão sobre as atividades de produção e recepção de textos, me- recem destaque, ainda, tanto os estudos que investem no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem como aqueles que tratam das práticas sociais de produção e recepção de texto (Orientações curri- culares para o ensino Médio, 2008, p. 23) Partindo desse pressuposto, espera-se que o conto Morre, Desgraçado! Possa causar uma mudança de pensamento no educando, a qual pode lhe proporcionar uma perspectiva mais ampla do seu contexto social. diante dis- so, ao criar novas relações do sujeito e o mundo, o conto recria suas estruturas e abandona o tradicional. Pois, “cada obra de arte traz-nos uma nova dimen- são da realidade, pois toda grande obra de arte obedece e amplia, ao mesmo tempo, as leis estéticas de seu próprio gênero”. (JOseF, 1993, p. 109). dessa maneira, Bosi (1985) mostra a intenção proposital que dalton trevisan tem ao trabalhar temas como a violência. diante disso, Alfredo Bosi elenca algumas características da escrita de trevisan, que segundo ele: não é assim o conto de dalton que aponta, duro, para o objeto, pois a sua poética não quer denudar os refolhos do sujeito narrador, mas o fundo da miséria comum. A força dessa prosa está em recortar tão cruelmente situações exemplares que o leitor acaba sem saber ao certo se tem pela frente o mais imediato dos realistas ou o mais sombrio e fre- nético dos expressionistas. trevisan será brutal nas cenas de violência e degradação, mas não se dirá sem exagero que o seu estilo, vigiado até os sinais de pontuação,seja “brutalista” (BOsi,1985, p. 18-19). diante da narrativa de trevisan no conto Morre, desgraçado!, ao abordar concisamente a violência doméstica, segue abaixo um trecho desse texto, o qual o escritor consegue fazer seu leitor criar uma imagem real sobre a narra- tiva, como no trecho do diálogo: Já me arrastava pelo cabelo. com a outra mão encostou na garganta a ponta da faca. – Ai, ai, João. tudo eu faço. O que você quiser. tudo que ele fazia com as mulheres da rua. – Peça perdão, assassina da minha alma. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 53 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn – tudo, João, só não me mate. em resposta um corte fundo, desta vez na orelha. Me apertou contra a parede e riscou a faca no pescoço. Ao partir da narrativa acima e ao ter como objetivo a construção de sub- sídios aos alunos, no que tange ao discurso patriarcal, a fim de que ocorra a mudança desse pensamento hegemônico, o qual mesmo na atualidade ainda assola nossa sociedade. dessa maneira, busca-se mostrar que é cultural a relação de opressor e oprimido, a qual parte de uma ideologia que vem desde as sociedades pós- coloniais, afirma Bonnici, “nas sociedades pós-coloniais, o sujeito e o objeto pertencem a uma hierarquia em que o oprimido é fixado pela superioridade moral do dominador” (BOnnici, 2009, p. 230). dessa forma, o conto Morre, desgraçado! mostra a voz feminina, a qual o autor dalton trevisan trabalha com maestria ao abordar a violência domésti- ca, com a intenção de romper o silenciamento das minorias e o discurso de poder. no Brasil existe apenas a etnografia de índios do século XVi, escrita e manipulada por grupos europeus. Praticamente o mesmo pode ser afir- mado dos escravos negros trazidos ao Brasil e de seus descendentes brasileiros, das mulheres, dos agricultores sem terra, dos operários ur- banos excluídos (BOnnici, 2009, p. 230). conciliando-se com a busca da ruptura do discurso patriarcal, buscou- se trabalhar a estética da recepção, conforme cita Zappone (2004), em seus estudos que o teórico Jauss compreende que, por meio da aproximação com os leitores de um texto é que se encontram os suportes metodológicos para investigar o valor estético dessa obra escrita como um encadeamento de obras em uma continuidade histórica. Portanto, segundo Zappone, ao estu- dar Jauss, explica que: O valor estético de um texto é medido pela recepção inicial do público, que compara com outras obras já lidas, percebe-lhe as singularidades e adquire um novo parâmetro para a avaliação de obras futuras (elabora um novo horizonte de expectativas) (ZAPPOne, 2004, p. 194). A estética da recepção está relacionada aos efeitos dos sentidos que a obra literária faz ao leitor, quais as suas impressões. Por isso, o sentido, o sig- nificado da obra somente se realizará em face de esse leitor/aluno, ou seja, da forma de como ele consegue recebê-la. diante disso, uma obra literária no contexto da sala de aula deve ser trabalhada inicialmente com a realização da ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES54 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn leitura, no caso desse trabalho, o conto Morre, desgraçado!. e, posteriormente, o professor deve sentir como os alunos receberam esta obra, de acordo com o conhecimento de mundo que eles têm. Por seguinte, o papel do educador deve ser o de ampliar as contextualizações históricas e afins. Um dos objetivos desse estudo é de contribuir para aprimorar a capaci- dade crítica, analítica, argumentativa e reflexiva. sendo assim, é indispensável levar para a sala de aula temática contemporânea para que o aluno se conce- ba como cidadão e participe ativamente na sociedade. segundo os documentos oficiais, os quais norteiam a prática pedagógica da língua Portuguesa, devem-se elencar os seguintes eixos: oralidade, leitura, escrita e análise linguística do ensino Médio. Portanto, a escola é o espaço no qual deve ocorrer a construção de ensino-aprendizagem, de maneira que aconteça o maior contato do uso da linguagem e suas nuances, na qual privi- legie o entendimento do texto, o seu sentido, sua intenção e visão de mundo. segundo as dces de língua Portuguesa, a concepção de linguagem como discurso se apresentam diferentes práticas sociais, que preconiza a seguir: • empregar a língua oral em diferentes situações de uso, saber adequá -la a cada contexto e interlocutor, reconhecer as intenções implícitas nos discursos do cotidiano e propiciar a possibilidade de um posiciona- mento diante deles; • desenvolver o uso da língua escrita em situações discursivas por meio de práticas sociais que considerem os interlocuto- res, seus objetivos, o assunto tratado, além do contexto de produção; • analisar os textos produzidos, lidos e/ou ouvidos, possibilitando que o aluno amplie seus conhecimentos linguístico-discursivos; • aprofundar, por meio da leitura de textos literários, a capacidade de pensamento crítico e a sensibilidade estética, permitindo a expansão lúdica da orali- dade, da leitura e da escrita; • aprimorar os conhecimentos linguísticos, de maneira a propiciar acesso às ferramentas de expressão e compreen- são de processos discursivos, proporcionando ao aluno condições para adequar a linguagem aos diferentes contextos sociais, apropriando-se, também, da norma padrão (PArAnÁ, 2008, p. 54). Os documentos que regulamentam o ensino fundamental estão orien- tados de maneira que ocorra o processo de ensino e de aprendizagem, que proporcione o aluno à construção gradativa de saberes sobre os textos que circulam, na qual, as ações realizadas na disciplina língua Portuguesa, no con- texto do ensino médio, devem propiciar ao aluno o aperfeiçoamento de habi- lidades de leitura e de escrita, de fala e de escuta. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 55 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn RELATO DA AÇÃO PEDAGÓGICA INTERDISCIPLINAR As 20 horas que somaram o estágio foram distribuídas da seguinte ma- neira, entre a lP e a literatura Juvenil do ensino Médio. com estudos, pes- quisas, discussões e planejamentos. A intervenção ocorreu na turma do 3º ano do ensino Médio, no colégio estadual de Jardim santa Felicidade, o qual atende o ensino fundamental e o ensino Médio, no período noturno, durante as segundas e terças-feiras do ano de 2017. Para dar início à intervenção, foi realizado o planejamento e a execução, necessitando consultar a regente de língua portuguesa do colégio, que segue o planejamento semestral. Foi selecionado o gênero discursivo conto, como já mencionado da lei- tura do conto de autoria de dalton trevisan com o título Morre, Desgraçado!, que contempla os seguintes conteúdos de língua portuguesa: leitUrA: con- teúdo temático; Finalidade do texto; intencionalidade; Argumentos do texto; intertextualidade; Vozes sociais presentes no texto; discurso ideológico pre- sente no texto; elementos composicionais do gênero; Marcas linguísticas: co- esão, coerência, função das classes gramaticais no texto, pontuação, recursos gráficos como aspas, travessão e negrito. escritA: conteúdo temático; inter- locutor; Finalidade do texto; intencionalidade; informatividade; contexto de produção; intertextualidade; Vozes sociais presentes no texto; ideologia pre- sente no texto; elementos composicionais do gênero; Marcas linguísticas: co- esão, coerência, função das classes gramaticais no texto, conectores, pontu- ação, recursos gráficos como aspas, travessão, negrito e vícios de linguagem. OrAlidAde: conteúdo temático; Finalidade; intencionalidade; Argumentos; Papel do locutor e do interlocutor; Variações linguísticas (lexicais, semânti- cas, prosódicas, entre outras); Marcas linguísticas: coesão, coerência, gírias, repetição; elementos semânticos; Adequação da fala ao contexto (usode co- nectivos, gírias, repetições etc.); diferenças e semelhanças entre o discurso oral e o escrito. Obs.: esfera de circulação: literÁriA / ArtÍsticA; gÊnerOs discUrsiVOs; conto. Para a realização deste estágio, foram feitos os seguintes encaminhamen- tos metodológicos: primeiro encontro com a observação, em que a regente da turma realizou pesquisa bibliográfica sobre o autor rubem Fonseca, ex- posição oral sobre a pesquisa e em seguida foram realizados complementos pela regente de turma. no segundo encontro, continuando a observação e andamento da turma, deu prosseguimento sobre o autor rubem Fonseca e ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES56 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn seu conto: O Outro. em seguida, realizou-se leitura, análise interpretativa críti- ca e escrita. Ao término dessas atividades, os alunos assistiram a vídeo sobre as principais características das obras do autor e sobre o conto: O Outro. Ao final uma síntese escrita do conto. no terceiro encontro dando sequência ao estágio, realizou-se a regência com os seguintes encaminhamentos: os alunos assistiram a um vídeo, esse que editamos pelo fato de percebermos que a íntegra do material apresen- tava em alguns momentos um discurso do senso comum, em outros trechos apresentava um discurso machista ao invés de combatê-lo. Portanto, edita- ram-se somente as partes relevantes sobre o tema proposto, o qual era “Vio- lência doméstica”. O nome do vídeo editado e assistido era do programa A ligA, que reúne debora Vilalba, thaíde, sophia reis, lobão e cazé. O pro- grama acompanha a abordagem da polícia em casos flagrantes de violência familiar, mostrando casos com a mulher agredida pelo marido, mulher e filho agredidos por marido, marido agredido pela mulher e até assassinato. O ob- jetivo de assistir a esse vídeo era de causar um certo desconforto no aluno e senso crítico ao tema abordado e assim adentrar no conto selecionado. diante disso, observamos que durante o momento em que os discentes assistiam ao programa, alguns omitiam opiniões dos fatos que eles estavam observando. em seguida, trabalhamos na oralidade de forma crítica uma aná- lise sobre o vídeo assistido. nesse momento, apresentamos dados sobre a violência doméstica em nossa cidade, perguntamos a eles quais os tipos de violência que conheciam, quais os tipos de violência já presenciaram, em qual ambiente eles acham que é comum acontecer a violência. Observamos que no começo estavam tímidos para tratar o assunto, mas sentiram-se mais à vontade quando uma de suas colegas lembrou-os de um fato ocorrido dias atrás, o qual se tratava de uma de suas colegas de turma que foi esfaqueada pelo seu companheiro, por esse ter ciúmes de ela frequentar a escola. depois desse fato narrado, os alunos começaram a interagir mais conosco e levan- taram as seguintes questões: a mulher ganhar menos que o homem ao de- sempenhar a mesma função, a qual os adjetivos que é chamada por algumas pessoas quando usa roupa curta, entre outros. dando sequência, foi trabalhado com o conto de dalton trevisan Mor- re, Desgraçado! Fizemos a leitura do conto e observamos que ao ponto em que a violência ficava mais evidente no conto, os alunos faziam os seguintes comentários: meu deus, vichi, aí-aí, coitada da mulher, que monstro, esse ho- mem merece morrer, eu mataria meu marido se ele fizesse isso comigo. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 57 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn Já no 4º encontro foram apresentadas as imagens sobre a violência do- méstica, e os alunos ilustraram as imagens mais impactantes. Foi proposta a escrita de um final diferente do conto Morre, Desgraçado! elencando sobre a Violência doméstica. Ao término, foi feita a correção e realizada a reescrita fazendo análise linguística. lembrando que devido ao término das horas de regência de estágio não foi possível concluir a reescrita, então a professora regente se comprometeu em concluir esta atividade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Metodologicamente, trabalhou-se neste artigo com pesquisa bibliográfi- ca, leituras de diversos autores, diversos gêneros textuais e documentos. Para que ocorresse o estágio, foi necessário este estudo antes, pois assim possibili- tou um melhor preparo dentro da teoria para a realização da prática. no entanto, o curso do PArFOr, como a segunda licenciatura com o cur- so de letras da UniOeste, propôs fazer uma reflexão sobre a prática do en- sino de língua Portuguesa e de literatura Juvenil do ensino Médio. isso foi possível de ser realizado com o estágio no colégio santa Felicidade no ensino Médio, na turma de 3º ano, na qual foi possível diagnosticar que a aquisição de conhecimento por meio da leitura da literatura. como a professora regente de língua Portuguesa já estava trabalhando com o gênero discursivo conto, foi dado continuidade a este gênero e esco- lhido o conto Morre, Desgraçado!, de dalton trevisan, que tem como um dos temas contemporâneos a violência doméstica. Mas para uma melhor com- preensão foram assistidas partes do programa A Liga, com tema A Violência Doméstica, os alunos tiveram postura muito crítica ao vídeo e fizeram alguns questionamentos como: Qual postura do homem e da mulher diante da vio- lência doméstica? sr. Joaquim diz: - eu sou o macho da casa. isso acontece hoje na sociedade? e alguns questionamentos sobre o machismo, lei Maria da Penha e outros tipos de violência. tiveram clareza do tema proposto e fi- zeram relatos pessoais de vários tipos de violência doméstica vistos e viven- ciados. Já na leitura do conto Morre, Desgraçado! verificamos que os alunos apre- sentaram a leitura do conto de maneira compreensiva, global, crítica e ana- lítica. localizaram as informações explícitas e implícitas no conto, marcan- do os diversos tipos de violência sofrida pela mulher com cores diferentes, pois o conto apresenta tema contemporâneo e através de questionamentos ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES58 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn levantados após a leitura minuciosa. Posicionaram argumentando como é a violência doméstica atualmente presente em diferentes espaços.. em nossa realidade como nossa cidade há esse tipo de violência e no bairro. como tema proposto de os alunos fazerem um final diferente para o con- to, os alunos expressaram suas ideias com clareza, entretanto se utilizaram pouco dos recursos textuais como coesão e coerência, e também apresenta- ram falhas nos recursos linguísticos como sinais de pontuação, uso e função do artigo, pronome, substantivo, adjetivo, advérbio, verbo, preposição e con- junção. contudo, percebemos que os educandos conseguiram se apropriar da estética da recepção, pois analisamos como eles receberam o conto, com o conhecimento de mundo deles. realizaram leitura crítica e compreensiva do conto e questionaram as leituras pertinentes à violência doméstica e assim demonstrando senso crítico e conhecimento de mundo relacionado ao tema proposto. REFERÊNCIAS AgUiAr, Vera teixeira de; BOrdini, Maria da glória. Literatura: a formação do leitor, alternativas metodológicas. 2. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993. BAKHtin, Mikhail. Marxismo e filosofia da linguagem. 16. ed. são Paulo: Hucitec, 2014. BrAsil. Parâmetros Curriculares nacionais: língua Portuguesa. Brasília: secretaria de educação Fundamental, 1998. BOnnici, thomas; ZOlin, lúcia (Orgs.). teoria literária: abordagens históricas e tendências contemporâneas. 3. ed. Maringá: edvem, 2009. BOsi, Alfredo. (Org.). o conto brasileiro contemporâneo. são Paulo: cultrix, 1985. JArdiM santa Felicidade. cascavel: [s.n., s.d.]. disponível em: . Acesso em: 11 ago. 2017. lOBOdA, Joana Aparecida.lei Maria da Penha: estudo da lei e estatísticas de violência doméstica contra a mulher na cidade cascavel-Paraná. Âmbito Jurídico, rio grande do sul, XiX, n. 155, dez 2016. disponível em: . Acesso em: 5 dez. 2017). nUcci, guilherme de souza. Leis penais e processuais penais comentadas. 2. ed., são Paulo: revista dos tribunais, 2006. OBserVe, observatório lei Maria da Penha. disponível em: . Acesso em: 6 ago. 2014. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 59 lÍngUA e literAtUrA POrtUgUesA nO ensinO MÉdiO: cOntO MOrre, desgrAçAdO! de dAltOn treVisAn PArAnÁ. diretrizes Curriculares da Educação básica do Paraná: língua Portugue- sa. curitiba: seed, 2008. PArAnÁ. secretária de estado da educação; superintendência de educação; departa- mento de ensino de Primeiro grau. Currículo básico para a Escola Pública do Esta- do do Paraná. curitiba: seed, 1990. treVisAn, dalton. Pão e sangue: Morre, desgraçado. rio de Janeiro: record, 1998. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES60 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO AS DIFICULDADES DE INTERPRETAÇÃO APRESENTADAS PELOS DISCENTES DO ENSINO MéDIO roSane de Fátima emmert valdeci batiSta de melo oliveira INTRODUÇÃO segundo João Wanderlei geraldi, em Portos de Passagem, obra publica- da em 1991, “a obra literária deveria ser vista enquanto experiência trans- formadora e não simplesmente como a assimilação de mecanismos codi- ficados de escuta e apreciação” (gerAldi, 1991, p. 123). sendo assim, este artigo pretende discutir o ensino da literatura e língua portuguesa no ensi- no Médio. Para tanto, realizamos o estágio supervisionado num período de vinte horas/aula, as quais, por meio dos conteúdos trabalhados, possibilitaram per- ceber as dificuldades enfrentadas pelos educandos com a interpretação tex- tual. Para a prática do estágio e a elaboração deste artigo, realizamos uma re- visão bibliográfica buscando conceitos em autores das áreas de educação e linguagem, tais como Bakhtin, geraldi, savioli, Fiorin, saramago, dentre ou- tros, e com isso elaboramos um plano de ensino que, uma vez colocado em prática, se mostrou fundamental para nossa discussão teórica. detectamos então que os discentes necessitavam ter mais acesso a obras literárias, pois o ensino da língua portuguesa pode tê-las como ponto de par- tida e não as relegando a momentos específicos e isolados. A literatura é a porta de entrada para o ensino e aprendizagem com significado para o estu- dante, relacionando o seu cotidiano com os conteúdos trabalhados, demons- trando assim que ele é um sujeito que faz parte de uma sociedade que precisa de indivíduos mais atuantes, que busquem mudanças. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 61 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO sendo assim, o que se espera do discente do ensino Médio é que este seja capaz de ler e interpretar todos os gêneros textuais apresentados, conse- guindo relacioná-los com outros textos, percebendo as possíveis intertextua- lidades, ideologias, intencionalidades e formas como a sociedade é retratada e interpretada. Portanto, o papel da escola é o de colaborar na formação de sujeitos pensantes e que estão preparados para as adversidades da vida, pois esta é repleta de momentos bons e ruins, e estes fazem parte do desenvolvimento natural do ser humano. DISCUSSÃO TEÓRICA iniciamos com o relato da primeira parte do estágio, que é a fase de ob- servação. durante essa etapa, observamos que o professor regente trabalhou com o texto “Os bichos da canoa grande” (2003), do autor paranaense do- mingos Pelegrini, que neste conto compõe uma paródia da Carta de Pero Vaz de Caminha (1500). essa paródia faz parte de uma coletânea de textos de uma apostila de língua Portuguesa elaborada com os conteúdos do ensino Médio, por professores da própria instituição, com o objetivo de contribuir com a aprendizagem dos alunos que frequentam o ceeBJA. O professor regente fez a leitura e a interpretação do texto, relacionando-o com a Carta de Pero Vaz de Caminha; explicou também os tempos verbais usados no texto, e os alunos responderam oralmente e, depois, por escrito, algumas questões relaciona- das ao texto, como o lugar de circulação e público-alvo, definindo a paródia como um texto que visa ao entretenimento do leitor, e não a postura crítica de contestação, que é a principal característica do texto paródico. etimologicamente, paródia quer dizer “canto paralelo” (ArAgãO, 1980. p. 19). embora marque presença nos textos literários das estéticas vanguar- distas, sua história acompanha a literatura em muitos textos literários há tem- pos. segundo a professora linda Hutcheon, o parodiador faz uso desse tipo de texto para denunciar os mais diversos tipos de mazelas que ocorrem na sociedade. Assim como um “contracanto”, a paródia procura demonstrar uma realidade que muitas vezes passa despercebida à maioria das pessoas. sobre isto, a estudiosa canadense traz uma relevante contribuição: A paródia é, pois, na sua irônica “transcontextualização” e inversão, repetição com diferença. está implícita uma distanciação crítica entre o texto em fundo a ser parodiado e a nova obra que incorpora, dis- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES62 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO tância geralmente assinalada pela ironia. Mas esta ironia tanto pode ser apenas bem-humorada, como pode ser depreciativa; tanto pode ser criticamente construtiva, como pode ser destrutiva (HUtcHeOn, 1985, p. 48). em seguida, o professor regente realizou uma avaliação sobre leitura e interpretação do texto “Formação da cidadania”, de autoria de Paulo Marti- nez, o qual versa sobre o comportamento do indivíduo perante a sociedade e como se faz necessário que o ser humano saiba filtrar as informações às quais têm o acesso no seu cotidiano, para fazer as escolhas corretas e assim tor- nar-se um cidadão consciente. tanto nesta atividade quanto na anterior, mos- traram-se evidentes as dificuldades de interpretação textual dos educandos, principalmente em fazer as relações de intertextualidade, já que a literatura tem sido trabalhada de forma isolada da língua portuguesa, tornando-se um empecilho para o ensino e aprendizagem da língua materna aos estudantes, já que a literatura deve ser a base do ensino da língua portuguesa em todos os seus aspectos. segundo o consagrado escritor José saramago, ela é funda- mental para o desenvolvimento do ser humano: se a literatura nesta terra ainda serve para alguma coisa, isto é, se for mais do que alguns estarem ainda a escrever para alguns estarem ain- da a ler, torna-se urgente recuperá-la já que a nossa sociedade corre o risco, devido aos audiovisuais, de emudecer, ou seja, de haver cada vez mais uma minoria com grande capacidade para falar e uma maioria crescente limitada a ouvir, não entendendo sequer muito bem o que escuta (sArAMAgO, 2010, p. 181). certamente as aulas de língua portuguesa seriam mais proveitosas se a literatura tivesse o lugar de protagonista, e não de coadjuvante no ensino de nossa língua materna, visto que ela tem muito a ensinar, e os nossos educan- dos, muito a aprender. A propósito da relevância da literatura, a educadora lidia chiappini de Moraes leite complementa: “Para tanto, eu acrescentaria, o ensino da literatura seria uma alternativa enriquecedora das experiências mais comuns do aluno. teria um papel formador e não apenas informativo” (apud gerAldi, 2008, p. 30). no segundo encontro, trabalharam com a sequência da apostila, a contar de um texto explicativo sobre o conceito de paródia. A partir desse encontro, assumimos a regência das aulas para a turma,ministrando todos os conteú- dos que serão descritos a seguir. Por meio de fragmentos de um artigo, reali- zamos um debate sobre o conceito de paródia segundo Maria lucia Aragão e ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 63 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO Bella Jozef. Após efetuada a leitura e interpretação de outra paródia à Carta de Caminha, relacionou seu conteúdo ao momento histórico no qual foi escrita, salientando os acontecimentos políticos do país. A paródia a qual nos referimos acima foi escrita para um concurso de uma rádio no ano de 2001. Apresenta os problemas sociais enfrentados pelo Brasil de então, como a falta de saneamento básico, a falta de infraestrutura na saúde e educação, questões de segurança pública, o tráfico de drogas, a manipulação do povo pelos políticos e pela mídia, evidenciando a condição de alienação do povo brasileiro. Após a discussão proposta, os alunos responderam questões alusivas ao texto. importante salientar que ficou claro aos educandos que a paródia tem um objetivo de debater questões que fazem parte da vida das pessoas e não pode ser vista apenas como entretenimento, ou seja, são textos que têm muito a contribuir com a formação dos indivíduos e, por meio da literatura, é possível não somente ensinar os conteúdos, mas preparar os discentes para a vida, para que possam compreender que os obstáculos do caminho fazem parte do nosso crescimento. A pesquisadora ligia chiappini de Moraes leite fez a seguinte observação a esse respeito: [...] o ideal do ensino sistemático da língua materna deve ser não a cons- tituição do aluno em sujeito de seu próprio discurso, mas a constituição de uma disponibilidade no aluno para a precariedade inevitável de sua condição de sujeito. O que significa: sua disponibilidade para essa crise permanente que lhe exige o confronto com os processos de estabiliza- ção típicos dos movimentos sociais, a que denominamos estereotipiza- ção (leite apud gerAldi, 2008, p. 27) nessa aula, os alunos também tiveram um período para leitura de livros que eles mesmos haviam escolhido, pois essa prática faz parte de um projeto desenvolvido pelo docente. no entanto, como o contato com a literatura era esporádico e sem uma explicação prévia dos livros que estavam lendo, ficou explícito o desinteresse dos estudantes nesta atividade, porque não compre- endiam o que estavam lendo, ou seja, a dificuldade de interpretação moti- vava a indiferença dos alunos. isto posto, é notório que o educador precisa criar mecanismos para despertar o interesse do discente pelos textos literá- rios, uma vez que este necessita conhecer a literatura de seu país e, assim, reconhecer nela a sua própria história. segundo o pensador Mikhail Bakhtin, a interpretação textual é fundamental para o desenvolvimento do ensino e aprendizagem: ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES64 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO A compreensão de um texto sempre é um correto reflexo do reflexo. Um reflexo através do outro no sentido do objeto refletido. nenhum fenômeno da natureza tem “significado”, só os signos (inclusive as pa- lavras) têm significado. Por isso, qualquer estudo dos signos, seja qual for o sentido em que tenha avançado, começa obrigatoriamente pela compreensão (BAKHtin, 2006, p. 319). compreender o que está sendo estudado é fundamental para o educan- do. diante disso, precisamos nos perguntar como estamos formando nossos estudantes, quantas lacunas estão sendo deixadas ao longo dessa formação acadêmica. nossos alunos chegam à universidade sem conhecer a literatura de seu país, logo, como valorizar o que desconhecem, como amar e defender sua nação, se os livros que contam nossa história estão sendo negligenciados pelos educadores. Já no terceiro dia trabalharam com a leitura e interpretação de contos e modos verbais, atividade desenvolvida a partir do folheto de cordel A mulher que vendeu o marido por R$ 1,99 (2006), do autor Janduhi dantas. esse cordel cômico foi usado como introdução de um assunto sério, que assola nossa so- ciedade, que é a violência contra a mulher. Para debater esse grave problema social, foi escolhido o conto “Morre, desgraçado!” (1969), do autor dalton tre- visan. O conto faz uma narrativa da vítima perante um delegado de polícia ao qual ela conta com riqueza de detalhes a violência pela qual passou. do primeiro escrito — o cordel — os educandos gostaram e acharam engraçado; entretanto, no segundo texto proposto, já era visível na leitura o desconforto causado em alguns, já que o argumento é pesado e, infeliz- mente, corriqueiro na vida das pessoas. Quem estava ouvindo talvez já tivesse passado pela mesma situação, ou provavelmente conheça pessoas que vivem ou viveram esses conflitos, os quais, muitas vezes, terminam de forma trágica. As estatísticas apresentadas nas discussões em relação à violência contra a mulher no Brasil surpreenderam e revoltaram os alunos. também no de- correr das discussões, os discentes chegaram à conclusão de que os dados seriam ainda maiores se todas as mulheres fizessem denúncia quando sofrem violência. O papel da escola vai muito além de ensinar os conteúdos programáti- cos. Assim sendo, as escolhas dos textos trabalhados podem fazer uma gran- de diferença na formação dos estudantes, uma vez que alguns textos literários colaboram no sentido de explicitar questões sociais vivenciadas no cotidiano do aluno. Os professores Francisco Platão savioli e Jose luiz Fiorin fazem uma importante consideração sobre isso: ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 65 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO nenhum texto é uma peça isolada, nem a manifestação da individuali- dade de quem o produziu. de uma forma ou de outra, constrói-se um texto para, através dele, marcar uma posição ou participar de um de- bate de escala mais ampla que está sendo travado na sociedade. Até mesmo uma notícia jornalística, sob a aparência de neutralidade, tem sempre alguma intenção por trás (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 13). nesse momento, o papel do educador deve ser o de mediador, auxiliando o educando na compreensão do tema debatido para que ele possa entender o real sentido do que está sendo exposto e fazer suas inferências de maneira clara e objetiva, no sentido de conseguir expor sua opinião nas discussões coletivas e certamente ter argumentos quando for fazer suas produções tex- tuais. Assim como os professores comentam ainda: A percepção das relações intertextuais, das referências de um texto a outro, depende do repertório do leitor, do seu acervo de conhecimen- tos literários e de outras manifestações culturais. daí a importância da leitura, principalmente daquelas obras que constituem as grandes fon- tes da literatura universal. Quanto mais se lê, mais se amplia a compe- tência para apreender o diálogo que os textos travam entre si por meio de referências, citações e alusões (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 13). em seguida, trabalhamos com os verbos apresentados no texto e com auxílio da apostila dos educandos explicamos os modos verbais, o emprego dos verbos e o valor semântico dos tempos verbais. Fizemos a releitura e gri- famos todos os verbos existentes no conto e escolhemos seis deles para tra- balhar o modo, o tempo, o número e a pessoa a qual o verbo pertencia. esta atividade foi executada coletivamente porque os estudantes necessitavam de auxílio para compreender o exercício. A escolha dos verbos também remetia à ação dos acontecimentos des- critos no conto e foi feita propositalmente para que os educandos compre- endessem o sentido do texto. estes exercícios nos fazem refletir a respeito do ensino da gramática nas escolas e também em como está sendo aplicado e qual a sua relevância nas aulas de língua portuguesa. sabemos que é neces- sárioAndréia Muniz, Aparecida de Jesus Ferreira ...................................................132 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde e eM FAVOr de sUA sUPerAçãO André Boniatti ........................................................................................................................147 O cOMBAte AO rAcisMO POr MeiO dA disciPlinA de lÍngUA POrtUgUesA: sUgestãO de leitUrA MediAdA PArA O ensinO FUndAMentAl Luciana Aparecida Bravim Macarini, Valdeci Batista de Melo Oliveira...................167 As cOnFrAriAs: O teAtrO ÉPicO cOMO instrUMentO PedAgÓgicO nA edUcAçãO BÁsicA Ana Paula Esser Pastre, Edina Boniatti ............................................................................184 A dAnçA negrA/AFrO-BrAsileirA cOMO FAtOr edUcAciOnAl Joenir Antônio Milan, Claudiana Soerensen ..................................................................204 MAniFestAçÕes dA lingUAgeM OrAl nA escritA eM nÍVel discUrsiVO/teXtUAl: APresentAçãO de UMA UnidAde didÁticA PArA trABAlHO cOM O gÊnerO discUrsiVO cArtA de APresentAçãO Luciane Watthier ...................................................................................................................219 ensinO dA leitUrA: PAssOs À eFicÁciA – PlAneJAMentO interdisciPlinAr e PrÁticAs dA BiBliOtecA escOlAr Simone Spiess Bernardi, Gilmei Francisco Fleck ............................................................236 QUeM QUer ser lAtinO-AMericAnO? Weslei Roberto Candido ......................................................................................................254 ensinO dA lÍngUA POrtUgUesA: Os PrOnOMes eM FOcO Ana Paula Santos, Aparecida Feola Sella........................................................................266 ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 5 APresentAçãO APRESENTAÇÃO Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. se me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço. (...) As figuras dos sonhos não são para mim iguais às da vida. são parale- las. cada vida — a dos sonhos e a do mundo — tem uma realidade igual e própria, mas diferente. como as coisas próximas e as coisas remotas. As figuras dos sonhos estão mais próximas de mim, (…) só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realiza- do, pertence ao mundo e a toda a gente. (Fernando Pes- soa - Livro do Desassossego) este livro, na forma de coletânea, é composto de uma série de artigos que apresentam reflexões e atividades de ensino de língua, leitura, escrita e ensino de literatura, considerando a língua Portuguesa na educação Bási- ca, principalmente, as atividades das práticas desenvolvidas nas disciplinas denominadas Prática de ensino e estágio supervisionado de língua Portu- guesa e Prática de ensino e estágio supervisionado de literaturas de língua Portuguesa do curso -, de modalidade presencial, - segunda licenciatura em letras – Português e literaturas, desenvolvido dentro do Programa do Plano nacional de Formação de Professores da educação Básica - PArFOr, oferecido pelo cecA – UniOeste - campus de cascavel. em sua maioria, os artigos estão organizados em torno do tema ensino de língua, leitura, produção e literatura na educação Básica. O método de in- vestigação desses artigos se embasou na revisão bibliográfica, com análise da configuração textual de fontes documentais; discussão temática em sala aula, configuração dos planos de aula, aplicação em colégios públicos e recolha dos resultados para reflexão e escrita dos artigos. O Parfor propõe formação profissional e preparação para professores educadores das redes públicas que não possuíam formação superior na área de língua Portuguesa, conforme exigência da lei de diretrizes e Bases da educação (ldB). e com essa visada, ele se propõe a apresentar experiências ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES6 APresentAçãO das práticas de ensino e de estágio supervisionado, embasadas em teorias de linguagem e de educação, realizadas em diversos colégios públicos perten- centes ao núcleo regional de cascavel. no cecA- UniOeste buscamos divul- gar atividades de ensino de língua e literatura no Brasil, auxiliar na busca de soluções para os problemas desse ensino, no presente. e também contribuir para formação de pesquisadores capazes de desenvolver pesquisas históricas, que permitam avanços em relação aos campos de conhecimento envolvidos. em parte, os textos desta coletânea são de autorias de alunas/professoras estagiárias e, neles, elas buscam apresentar e discutir os limites e os alcan- ces resultantes das atividades de estágio desenvolvidas em salas de aulas de contextos bem específicos, como os de eJA e outros. todos eles, a seu modo, tentam problematizar a relação teoria/prática que, antes de ser uma questão pedagógica, é questão epistemológica debatida e problematizada ao lon- go da história, de sorte a acumular um legado considerável de idéias sobre essa relação, seus limites, problemas e alcances. dessa relação importa aqui, conforme Freire (2009), o conceito de práxis como ação humana projetada, refletida e consciente capaz de constituir em ação transformadora que o ser humano á capaz de realizar e pela qual ele transforma o mundo e também se transforma. Os artigos aqui apresentados buscaram fazer com suas práticas uma educação humanizadora, libertadora e crítica, que desmitifica a opressão e questiona os preconceitos e promove a realização do “ser mais”, da humani- zação dos homens e mulheres envolvidos nessa práxis, nunca menos. Ao escreverem os relatos sobre a própria experiência de regência e exer- cício de docência, as autoras trazem também fragmentos das suas próprias histórias, memórias e expectativas a respeito da profissão de professor de lín- gua portuguesa, assim como suas visões de mundo e nem poderia ser dife- rente, já que quem fala ou escreve também fala de si e de sua história, valores e visão de mundo. As propostas são diversas, mas todas elas envolvem ativi- dades de leitura e de produção textual. Para geraldi (1991), o sentido do texto advém de uma tessitura em que o leitor exerce o papel de tecedor dos fios te- cidos pelo autor com os que ele próprio leitor precisa tecer. e dessa relação e encontro se produz o sentido da leitura. ler é um lugar de encontro, encontro concreto das diversas leituras que materializam o texto escrito. de modo geral, há uma interessante escolha dos textos que foram lidos e debatidos pelos alunos de escolas diversas. Buscou-se principalmente tra- balhar textos que abordam temas fulcrais da atualidade; tais como: racismo, machismo, misoginia, feminicídio, exploração do trabalhador etc. sabemos, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 7 APresentAçãO também, que a escola brasileira encontra dificuldades em trabalhar esses te- mas, e em vincular a vida que pulsa fora de seus muros ao conhecimento que busca inculcar nos alunos dentro deles, e, embora os professores busquem levar o conhecimento para além dos muros, não basta a intencionalidade se lhes falta conhecimento efetivo para a consecução dessa tarefa. some-se ao problema o fato de que as formações continuadas ocorrem sem investimen- tos em profissionais qualificados para aplicá-las. Além disso, o tempo exces- sivo em sala não viabiliza tempo para estudar. Há também nessa coletânea artigos de conclusão de curso de especialização, disciplinas de mestrado pro- fissional, que também pensam a educação e suas práticas e artigos de que versam sobre linguagem, literatura e educação, em geral. Parafraseando Ortega y gassett, podemos dizer que se a tarefa da edu- cação é contribuir para que o humano possa sair da esfera da biologia, cons- truindo condições que lhe permitam entrar na esfera da biografia, a educação é a principal ferramenta que faculta a nós humanos, ultrapassarmos a esfera biológica queseu aprendizado, mas priorizar a gramática em detrimento da literatu- ra seguramente trará prejuízos ao discente, portanto é imprescindível que o professor trabalhe a literatura e a gramática interligadas. sobre esta questão, o professor sírio Possenti tem uma significativa colocação: do ponto de vista da história das línguas e das gramáticas, sabe-se que são os gramáticos que consultam os escritores para ver que regras eles seguem, e não os escritores que consultam as gramáticas para ver que ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES66 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO regras devem seguir. não faz sentido ensinar nomenclaturas a quem não chegou a dominar habilidades de utilização corrente e não traumá- tica da língua escrita. isto não significa que a escola não refletirá sobre a língua, mesmo porque esta é uma das atividades usuais dos falantes e não há razão para reprimi-la (gerAldi, 2008, p. 38). no quarto encontro, continuamos trabalhando com os contos, e o esco- lhido para leitura, discussão e interpretação foi o conto O Arquivo (1972), do autor Victor giudice. O conto faz uma narrativa da vida de um trabalhador que é explorado pelo patrão e que não tem força e nem coragem para lutar por seus direitos, assim o texto deixa explícita a desvalorização do humano. O conto foi escrito em 1972 com o intuito de demonstrar como o trabalhador era tratado pelo capitalismo, sendo considerado apenas um objeto que servia aos propósitos do patrão e que poderia ser substituído a qualquer momento, dependendo do interesse do empregador. O conto tem quarenta e cinco anos, porém é um retrato da nossa reali- dade, as discussões nos levaram a concluir que a exploração do trabalhador continua, e ainda de forma mais agravante, devido ao governo e à elite do país estarem cada vez mais empenhados no sentido de retirar os direitos con- quistados pelos trabalhadores. nas questões de interpretação desenvolvidas com os discentes, foi le- vantada a hipótese de comodismo por parte da personagem, ou seja, costu- ma-se não sair de uma zona de conforto e, quando forçados a isto, a reação tende ao egoísmo. Os estudantes justificaram o comodismo como sendo o medo do desemprego e a falta de conhecimento dos direitos que possuem. entretanto, houve alunos que não perceberam essa exploração, pois conside- ravam sua situação atual melhor que a anterior que viviam, posicionando-se a favor do patrão. Uma das respostas dos alunos foi a seguinte: existem muitos poucos casos de exploração de verdade, grande parte do que se diz “exploração” é vitimismo e falta de conhecimento. Muitas críticas por salários baixos e poucos benefícios e seja lá o que for. Per- gunte para uma pessoa que se diz explorada se já tentou ter uma em- presa no Brasil, pagar funcionários, impostos e tudo mais. essa questão tem muito a ser discutido, porém grande parte disso é falta de conheci- mento e principal, doutrinação. essa resposta do discente exemplifica como o sistema capitalista operan- te em nosso país aliena o trabalhador, ou seja, se compadece do explorador e critica o seu semelhante, não se reconhecendo como pertencente à clas- se trabalhadora, neste caso, é evidente que este aluno desconhece as lutas ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 67 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO de classe que acontecem em nosso país desde a sua colonização, isto é, teve pouco contato com a nossa literatura. este tema é debatido por dostoiévski (apud Bakhtin) sobre as considerações da consciência humana: O capitalismo criou as condições para um tipo especial de consciência permanentemente solitária. dostoiévski revela a falsidade dessa consci- ência, que se move em um círculo vicioso. daí a representação dos so- frimentos, humilhações e o não-reconhecimento do homem na socie- dade de classes. tiraram-lhe o reconhecimento e privaram-no no nome. recolheram-no a uma solidão forçada, que os insubmissos procuram transformar numa solidão altiva (passar sem o reconhecimento, sem os outros) (BAKHtin, 2006, p. 342). nessa aula, também fizemos leitura e debate sobre outros contos que são pertinentes aos estudantes que têm o interesse em participar do vestibular. Os contos trabalhados foram “Apelo” (1979) e “O negócio” (1979), do escritor dalton trevisan, relacionando-os com o conto anterior, “Morre, desgraçado!”. essas relações são importantes para que o aluno desenvolva seu raciocínio e seu senso crítico diante dos temas propostos. Atribuir significado ao que se estuda é indispensável ao educando, e a intertextualidade é um artificio que deve ser utilizado pelo educador. Os pesquisadores savioli e Fiorin reafirmam essa questão: “Um texto ganha mais peso quando, direta ou indiretamente, apoia-se em outros textos que trata- ram do mesmo tema” (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 174). cabe ao leitor perceber esses conflitos entre o que se diz e o que se quer dizer, entre o que parece e o que realmente é, para entender o significado do texto (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 195). nessa aula, trabalhamos ainda as conjugações verbais que estão contem- pladas na grade curricular, e os exercícios gramaticais foram executados co- letivamente, pois os estudantes apresentavam dificuldade em trabalhar com verbos. Ao estudar as classes gramaticais, o docente deve ter o objetivo de ensinar ao aluno que a norma culta padrão é apenas uma variante linguística da nossa língua, desse modo, seu aprendizado também é importante, pois um bom usuário de seu idioma é aquele que consegue compreender e falar suas diferentes variantes, e a nossa literatura é rica e pode colaborar com o ensino desse conteúdo. O estudante, na sua vida acadêmica, certamente terá um maior contato com essa norma devido aos textos e livros que fazem parte da sua formação. Outrossim, não podemos nos esquecer de que o domínio desta variante é ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES68 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO requisito necessário para quem deseja ter acesso ao poder, porém cabe ao educador ressaltar que ela colabora para romper algumas barreiras que exis- tem ao longo do caminho do estudante. O professor João Wanderley geraldi disserta a este respeito: “(...) é preciso romper com o bloqueio de acesso ao poder, e a linguagem é um de seus caminhos. se ela serve para bloquear — e disso ninguém duvida —, também serve para romper o bloqueio ” (gerAldi, 2008, p. 44). savioli e Fiorin também discorrem sobre isto: textos muito importantes são redigidos nessa norma, tais como as leis, os tratados científicos, os contratos passados em cartório, os livros di- dáticos, os manuais técnicos, etc. não conhecer, portanto, essa variante pode acarretar prejuízos para quem lê esses textos: o falante pode não ter acesso a informações importantes por não dominar a própria lingua- gem através da qual são veiculadas essas informações (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 122). no quinto encontro, trabalhamos com as tipologias textuais a partir de um texto explicativo com exemplos. Assim, foi possível explicar aos alunos a respeito das tipologias mais utilizadas no desenvolvimento das produções textuais. retomamos o conto “Morre, desgraçado”, porque trabalhamos com a proposta de redação do eneM para a prova de 2015, que tinha como tema a violência contra a mulher. Fizemos a leitura e um debate sobre a proposta e comparamos com o conto, para que os estudantes tivessem mais subsídios para elaborar o texto proposto, sobretudo para conseguir desenvolver uma boa argumentação. Os estudantes do ensino médio leem, todavia, suas leituras geralmente são leituras de consumo, e essas não trazem os conhecimentos que ampliam a visão de mundo do indivíduo. Assim sendo, no momento das produções, eles apresentam muitas dificuldades. Os professores Fiorin e savioli tecemum relevante comentário a esse respeito: A boa argumentação deve ser usada de maneira adequada a cada situ- ação concreta, levando em conta todos os componentes envolvidos na discussão. Pensar por fórmulas prontas é um mau sintoma: denuncia falta de espirito crítico e de competência para elaborar um raciocínio próprio; é, enfim, uma sujeição preguiçosa ao ponto de vista circulante no meio social (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 203) nesta atividade, observamos a dificuldade dos alunos em entender os da- dos estatísticos, e muitos desconheciam a realidade apresentada na proposta de redação. Outro contratempo a ser vencido pelos estudantes foi o de escre- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 69 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO ver o texto seguindo as regras do eneM, como discutir o tema, aproveitar os dados apresentados para enriquecer o texto e não copiar estas informações, apontar uma proposta de intervenção social possível, evitar a generalização, o senso comum, usar coerência, coesão, problemas estruturais, enfim, tentar ser o mais original possível, ou melhor, demonstrar suas ideias efetivamente. Para tanto, é imprescindível que todo tema apresentado em sala de aula seja discutido amplamente com os educandos, porquanto os debates concorram para a expansão das ideias. A busca pela originalidade textual demanda tempo e dedicação em razão de exigir leituras mais elaboradas, algo difícil para os alunos do no- turno devido à falta de tempo e ao acesso a esses textos. Os escritores Fio- rin e savioli atentam para essa questão: “(...) que o texto produzido traga marcas de quem o produziu, seja reflexo de uma observação cuidadosa e de uma análise atenta da realidade sob consideração” (FiOrin, sAViOli, 2007, p. 359). com isso ficou patente que é extremamente relevante que o professor trabalhe de forma intensa a produção e a reestruturação com os estudantes e de forma coletiva, pois os problemas em compreender esse conteúdo é co- mum a todos da turma. em suma, é indiscutível que a literatura seja trabalha- da de maneira ostensiva nas aulas de língua portuguesa, já que esta aponta infinitos recursos para melhorar a interpretação dos educandos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao concluirmos o período de observação e regência do estágio super- visionado, constatamos que o trabalho com a literatura no ensino Médio é imprescindível. Faz-se necessário partir desta para o ensino da língua por- tuguesa, porque é por meio dela que o educando conhece sua história e se reconhece como indivíduo que compõe uma sociedade na qual precisa ser atuante, e não apenas mero observador. As dificuldades apresentadas pelos estudantes com interpretação textual se devem à leitura limitada e o pouco contato com textos literários em sala de aula. nas questões que foram abordadas durante o estágio, ficou evidente que os estudantes desconhecem parte da nossa realidade, ou seja, não conhecem dados estatísticos que retratam os problemas sociais do país e os textos que narram nossa história. isso se manifestou nas dificuldades presentes na argu- mentação dos estudantes, tanto na oralidade quanto na escrita. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES70 As diFicUldAdes de interPretAçãO APresentAdAs PelOs discentes dO ensinO MÉdiO É relevante salientar também que a literatura tem o papel de transformar e humanizar o sujeito, pois é por meio dela que o estudante pode mergulhar em um mundo diferente de fantasias e também o faz perceber as questões da sua realidade, ou seja, é um trabalho com seu psicológico, mas além disso, ela colabora na formação do sujeito em um cidadão consciente, ademais a literatura retrata os inúmeros segmentos da nossa sociedade. Assim sendo, a escolha do educador referente aos materiais pedagógi- cos, a metodologia de ensino deve ser criteriosa, pois os conteúdos trabalha- dos precisam ensinar mais que as classes gramaticais e a norma culta padrão; é imperativo que o estudante saiba que a nossa língua tem muitas variantes, e que a nossa literatura é muito relevante para o seu conhecimento. consideramos então, a partir deste estágio, que o ensino e aprendizagem da língua portuguesa no ensino Médio vão além de preparar o discente para o vestibular, bem como é indispensável que ele prepare também este edu- cando para a vida, pois essa disciplina possibilita as discussões que permitem o crescimento do indivíduo no sentido de tornar-se crítico e participativo do contexto ao qual está inserido. REFERÊNCIAS BAKHtin, Mikhail. Estética da Criação verbal. são Paulo: editora Martins Fontes, 2006. gerAldi, João Wanderley. Portos de Passagem. são Paulo: editora Martins Fontes, 1991. gerAldi, João Wanderley, et al. o texto na sala de aula. são Paulo: editora Ática, 2008. giUdice, Victor. necrológio: O Arquivo - 1ª edição. são Paulo: cruzeiro, 1972. HUtcHeOn, linda. uma teoria da Paródia. rio de Janeiro: editora ediçÕes 70 (BrA- sil) ltda., 1985. sArAMAgO, José. as palavras de saramago. são Paulo: editora schwarcz ltda., 2010. sAViOli, Francisco Platão; FiOrin, José luiz. Para entender o texto: leitura e reda- ção. são Paulo: editora Ática, 2007. treVisAn, dalton. Pão e sangue: Morre, desgraçado. rio de Janeiro: record, 1998. treVisAn, dalton. Mistérios de Curitiba: O Apelo. rio de Janeiro: record, 1979. treVisAn, dalton. Mistérios de Curitiba: O negócio. rio de Janeiro: record, 1979. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 71 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde O PAPEL DA MULHER NO DISCURSO DE GÊNERO: REFLEXÃO SOCIAL SOBRE vIOLÊNCIA DA MULHER NA SOCIEDADE claudimeri dambroS débora criStina de lima valero alexandre SebaStião Ferrari SoareS INTRODUÇÃO este artigo aborda questões em torno do tema sobre violência contra mulheres no Brasil, sobretudo, evidencia a instituição da lei Maria da Penha (lei de nº 11.340/06), e a lei do Feminicídio (lei nº 13.104, de 09 de março de 2015) e posteriormente chama a atenção para a realidade de dados alar- mantes no Município de cascavel-Pr. nesse sentido, o artigo também articula essa realidade dramática com a análise do conto “Morre, desgraçado” (1988) do escritor dalton trevisan, também conhecido como “Vampiro da noite”, de curitiba, por passar algumas noites, de forma anônima, buscando relatos so- bre casos de violências contra mulheres na capital paranaense. esse assunto colocado em discussão é concernente ao desafio de expor essa temática tão antiga e tão atual em sala de aula, indo além do debate teó- rico clássico e explicitando dados concretos da realidade em torno do feminicí- dio em cascavel-Pr, além de articular a análise dos dados com um conto literá- rio, ampliando os recursos metodológicos e demonstrando a possibilidade de uma abordagem interdisciplinar sobre esse tema vigente. A utilização desses diversos recursos textuais permite aprofundar o debate e provocar uma intensa sensibilização na turma em questão. desse modo, trazer a literatura para a sala de aula permite envolver o aluno na temática de forma natural, levando-o a compreender a literatura em sua função social. Para Antonio cândido, em sua obra Literatura e sociedade, “O fator social é invocado para explicar a estrutura ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES72 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde da obra e o seu teor de ideias, fornecendo elementos para determinar a sua validade e o seu efeito sobre nós” (cÂndidO, 2006, p. 25). cândido ainda nos aponta ser fundamental delimitar os campos de cada disciplina e fazer sentir que a sociologia, nesse processo, se torna uma disciplina auxiliar; não preten- de explicar o fenômeno literário ou artístico, mas apenas esclarecer alguns dos seus aspectos e para isso torna-se, assim, indispensável. “neste ponto,surgem algumas perguntas: A) qual a influência exercida pelo meio social sobre a obra de arte? e B) qual a influência exercida pela obra de arte sobre o meio?” (cÂndi- dO, 2006, p. 28). Por meio dessas perguntas, poderemos chegar mais perto de uma interpretação dialética, superando o caráter mecanicista. Antonio cândido (1995) expressa ainda que: a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e edu- cação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipa- mento intelectual e afetivo. os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifesta- ções da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apóia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (cÂndidO, 1995, p113, grifos nossos). A LITERATURA COMO ENCAMINHAMENTO PARA A REFLEXÃO DA vIOLÊNCIA DOMéSTICA em seu texto Para que serve a literatura?, gabriel Perissé (2014) escreve que: A arte em geral e a literatura em particular não servem para nada? são atividades cuja grandeza reside nessa sublime “inutilidade”? A fruição de uma pintura, de um poema, de uma obra de arte é apenas isso: frui- ção? no entanto, o prazer que sentimos na leitura de um conto, de um romance, de uma crônica é um prazer interessante e interessado. O prazer estético que a literatura proporciona nos torna mais atentos às dores e aos odores da vida.” Afinal, para que serve a literatura? O professor francês Antoine compagnon tem uma resposta simples e im- pactante: “quando começamos a ler uma narrativa ou um poema corre- mos o risco de nos tornar diferentes do que éramos antes dessa leitura” (PerissÉ, 2014, p. 24-25, grifos nossos). Ao abordar a literatura, pretendem-se transformar os próprios horizontes de expectativas do leitor que são adquiridas a partir das experiências de leitu- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 73 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde ras já realizadas e mesmo de situações vividas, para que o mesmo se distancie do senso comum em que se encontrava e tenha novas perspectivas alcança- das. diante destas indagações e explicações referentes à função da literatura em nossa vida, podemos entender que a literatura nos transforma, esse é o papel essencial desta arte. Podemos então perguntar por que ela nos trans- forma? Perissé (2014) complementa, dizendo que Leituras educadoras são aquelas que nos transformam, não só em leitores melhores, mas em pessoas mais atentas ao próprio ato de viver (PerissÉ, 2014, p. 24-25). Perissé (2014) ainda explicita que: do que fala a literatura, afinal de contas? Ainda que se refira a outros planetas, a outras sociedades, a outras terras, a outros seres, é sempre de mim que a literatura fala. de mim e de você. É sempre de nossas esperanças e desesperos que ela fala. É da nossa humanização e da nossa desumanização que ela fala. lendo intensamente, sentimo-nos intensamente visados. reforçamos nossa autoconsciência. e daí brota a vontade de resistir (PerissÉ, 2014, p. 24-25, grifos nossos). Para olhar o texto literário, é necessário desenvolver a sensibilidade e a capacidade de identificação, para tanto, o leitor deve projetar-se na narrativa de modo a entender a história e assim perceber-se como coautor, compreen- dendo as estruturas de apelo e entendendo que não cabe qualquer interpre- tação da literatura, mas aquelas que o texto permite. Antonio cândido (1988), um dos maiores expoentes, explica a literatura assim: A função da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório, mas humanizador (talvez huma- nizador porque contraditório). Analisando-a, podemos distinguir pelo menos três faces: (1) ela é uma construção de objetos autônomos como estrutura e sig- nificado; (2) ela é uma forma de expressão, isto é, manifesta emoções e a visão do mundo dos indivíduos e dos grupos; (3) ela é uma forma de conhecimento, inclusive como incorporação di- fusa e inconsciente (cÂndidO, 1988. p. 178.) Portanto, trabalhar a literatura, em especial, o conto “Morre, desgraçado”, de dalton trevisan (1988), e relacioná-lo com os dados da realidade sobre o feminicídio na cidade de cascavel-Pr, além da contextualização do debate histórico em torno da luta pela igualdade de gênero e as mudanças no pa- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES74 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde pel da mulher na sociedade, possibilitou a realização da aula e uma profunda abordagem sobre o tema da violência contra mulheres. literatura, portanto, não pode ser utilizada apenas como um “pretexto” para o ensino da leitura e para o incentivo à formação do hábito de ler. Para que a obra literária seja uti- lizada como um objeto mediador de conhecimento, ela necessita estabelecer relações entre teoria e prática, possibilitando ao professor atingir determina- das finalidades educativas. Um tema cada vez mais debatido na atualidade, desde as grandes mídias, espaços universitários e nas salas de aulas, também, um tema que tem apare- cido cada vez mais nas provas e vestibulares do Brasil. nesse sentido, torna-se imprescindível a realização do debate em salas de aulas em torno da catego- ria de gênero e seus temas concernentes na nossa sociedade atual, superar a cultura do patriarcado, que nutre a cultura do estupro e do feminicídio, é avançar na efetivação da cidadania e da igualdade social, rumo à construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Mesmo com a instituição de leis como a lei Maria da Penha (lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006) e a lei do Feminicídio (lei nº 13.104, de 9 de março de 2015), as infinitas violências, crimes e mortes contra mulheres, como tem sido demonstrado nos dados, estão muito longe de cessarem no nosso coti- diano, seja em nível nacional ou internacional, por isso ainda é tão pertinente provocar atividades como essa. A LEGISLAÇÃO COMO MEDIDA DE CONTENÇÃO DA vIOLÊNCIA PRATICADA CONTRA A MULHER Foram utilizadas fontes literárias, como o conto de dalton trevisan “Morre, desgraçado” (1988), já mencionado acima, sendo a análise do conto articulada a uma reflexão sobre os dados alarmantes em relação ao Femini- cídio na cidade de cascavel-Pr e aos crimes e violências contra as mulheres no Brasil. Os dados foram coletados em fontes jornalísticas e no Portal do Município de cascavel, servindo de base para a problematização do tema sobre a violência contra mulheres na nossa sociedade. nesse sentido, tam- bém foi realizada uma revisão bibliográfica sobre o tema do feminismo e a questão de gênero na atualidade a fim de contextualizar teoricamente o assunto iniciado através da análise do conto articulado aos dados atuais e chamar atenção para a importância do avanço na erradicação do machismo na nossa sociedade. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 75 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde A luta pela igualdade de gênero e a instituição da lei Maria da Penha e da lei do Feminicídio, um dispositivo que orienta legalmente ações da justiça em casos de violência contra a mulher frente aos desafios do feminismo com a luta pela igualdade de gênero na nossa sociedade. A luta pela igualdade entre os gêneros, a luta contra todas as formas de opressão e violências sobre as mulheres, assim como a instituição de leis de proteção para as Mulheres, como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, entre outros eventos políticos, históricos e socioculturais, foram possíveis e conquistadas, através do que chamamos de feminismo. O feminismo envolve a história do Movimento Feminista que ocorre em três momentos: o primeiro começou entre os séculos XViii e XiX, pelos direitos democráticos. Ou seja, a lutapelo direito a voto, educação, trabalho e inclusive ao divórcio. O segundo momento, que aconteceu no fim da década de 60, foi pela liberação sexual. Foi durante esse período que se criaram os anticonceptivos para mulheres. e o terceiro momento começou no final dos anos 70, com a luta por igualdade no trabalho. Atualmente a luta das mulheres de todo mundo ainda continua. infeliz- mente, nenhum dos movimentos citados acima conseguiu seu objetivo total, e mulheres de muitos lugares do mundo ainda não podem votar, estudar e trabalhar. de acordo com Betoni (2016), as revoluções burguesas no contexto da europa do século XiX instituíram a igualdade entre os homens no âmbito da política, das leis, perpassando toda a esfera pública, porém esses direitos, num primeiro momento, não se estenderam às mulheres, ainda que tenham participado das lutas por essas conquistas. É nesse contexto “que surgem os primeiros movimentos organizados por mulheres que se tem registro na his- tória moderna” (Betoni, 2016). como exemplo, temos o Movimento sufragis- ta, na inglaterra e na França, que envolveu três gerações de lutas até que o direito ao voto feminino fosse garantido, o que só veio a se tornar realidade no início do século seguinte. A partir de 1960 e 1970, novas ondas do feminismo vão ganhando força na sociedade, possibilitando novos movimentos sociais e outras bandeiras de luta, que estão em voga até hoje, como: o fim da violência doméstica, o fim da cultura do estupro, a descriminalização do aborto, a liberdade sexual, o fim da desigualdade salarial e do trabalho doméstico como um trabalho não pago, entre outras que poderiam ser citadas. entre toda essa pluralidade e da diversidade do feminismo e de movimentos feministas, pode-se dizer que o ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES76 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde grande objetivo comum é o fim do machismo com todas as suas formas de discriminação e violências contra mulheres, tendo em vista que, apesar do grande avanço e proliferação do feminismo e movimentos feministas, os da- dos da nossa realidade, seja em nível municipal ou nacional, ainda são altos e muito cruéis. A instituição da lei Maria da Penha ocorreu em 7 de agosto do ano de 2006, entrando em vigor a partir do dia 22 de setembro do mesmo ano, sen- do sancionada pelo ex-presidente luiz inácio lula da silva1, (mandatos 2003 a 2011), visando a criar mecanismos legais para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, além de aumentar o rigor das punições sobre cri- mes domésticos, uma lei que é, sobretudo, aplicada aos homens que agridem, tanto em nível psicológico quanto em nível físico suas companheiras, sejam namoradas ou esposas. dados da secretaria de Política para Mulheres apon- tam que uma a cada cinco mulheres é vítima de violência doméstica no Brasil; cerca de 80% dos casos são cometidos por parceiros ou ex-parceiros. Através da lei, pretendem-se eliminar todas as formas de discriminação e violências contra mulheres. Já a Lei do Feminicídio foi sancionada em 9 de março de 2015, pela ex -presidente dilma rousseff2 em plena comemoração do dia internacional da Mulher, que é resultado de uma série de fatos, lutas e reivindicações das mu- lheres (principalmente nos eUA ena europa) por melhores condições de tra- balho e direitos sociais e políticos, que tiveram início na segunda metade do século XiX e se estenderam até as primeiras décadas do século XX. essa lei como instrumento legal está agregada à declaração sobre a eliminação da Violência contra a Mulher (1993), pela Assembleia geral das nações Unidas, também está agregada à convenção interamericana para Prevenir, Punir e erradicar a Violência contra a Mulher (2015), à resolução da 57ª sessão da comissão sobre a situação da Mulher (csW) das nações 1 luiz inácio lula da silva (1945-) ex-presidente do Brasil, ficou no cargo entre 1º de janeiro de 2003 e1º de janeiro de 2011. desde a criação do Pt, em 1980, a trajetória de lula é bem conhecida. construiu o maior partido de massas do país, disputou e perdeu três eleições, desafiou o preconceito, os pode- rosos, os meios de comunicação, para tornar-se, em outubro de 2002, o primeiro trabalhador eleito presidente do Brasil. em oito anos de governo, provou que era possível mudar o destino do país. 2 dilma rousseff entrou para a vida política no estado do rio grande do sul, atuando pelo Pdt-Partido democrático trabalhista. entre 1985 e 1988, foi secretária da Fazenda do governo Municipal de Porto Alegre. no início dos anos 1990, atuou como presidente da Fundação de economia e estatística do rio grande do sul. em 1993, tornou-se secretária de energia, Minas e comunicações do rio grande do sul, no governo de Alceu colares. de 1999 a 2002, foi secretária de Minas e energia do governo daquele estado. em 2001, filiou-se ao Partido dos trabalhadores (Pt), quando esse era presidido por luís inácio lula da silva. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 77 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde Unidas, sobre a preocupação com mortes de mulheres e meninas com mo- tivação de gênero. entre outras redes internacionais que se entrecruzam, tendo em vista que o feminicídio é um problema político e sociocultural de alcance global, sendo nomeado como tal na América latina e no caribe, visto como crime praticado com alto teor de crueldade e ódio por homens que assassinam as próprias companheiras, tendo em vista que os casos de feminicídio se dão em grande parte no ambiente doméstico, como já citado acima. na América latina, des- de o ano de 2007, cerca de 15 países sancionaram a lei do Feminicídio para proteção das mulheres, entre eles, estão a Argentina, Bolívia, chile, colômbia, costa rica, el salvador, equador, guatemala, Honduras, México, nicarágua, Panamá, Peru, república dominicana e Venezuela. nesse sentido, está mais que comprovado que existem crimes e violên- cias contra mulheres somente pelo fato de essas serem mulheres, sendo que esses, em sua grande maioria, são cometidos no próprio ambiente doméstico, praticado por homens em suas companheiras. Os índices são alarmantes em níveis nacional e internacional, sobretudo em contextos de subdesenvolvi- mento e baixo idH, onde, além de as mulheres conviverem diariamente com diversas formas de machismos ou violências, também são afetadas pela dis- crepância de oportunidades e acesso ao mercado de trabalho, além de rece- berem menos que os homens na grande maioria dos cargos, tanto na esfera pública como na privada. Um dos grandes avanços da lei Maria da Penha é o reconhecimento de que a violência doméstica está aí; outrora, tal assunto não era sequer falado profundamente antes da entrada em vigor dessa lei. sendo impossível pensar num feminicídio, que é algo abominável, reprovável, repugnante à dignidade da mulher, que tenha sido praticado por motivo de relevante valor moral ou social ou logo após injusta provocação da vítima. A real consequência desse silogismo macabro é uma só: impunidade. Justamente entre a realidade e o que deveria ser é que se posicionam as leis 11.340/2006 e 13.104/2015. tan- to que o enfrentamento do problema requer ações integradas, posto que o feminicídio seja um crime de gênero extremamente complexo. O problema do feminicídio tem muitas faces. não é apenas uma questão de ordem penal; envolve também o social e o cultural. É necessário criar formas de enfrentar a cultura machista e a visão dos papéis destinados à mulher na sociedade. desse modo, as instituições de leis de proteção para mulheres, bem como as leis comentadas acima, são fundamentais para a erradicação de violências ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES78 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde e crimescontra mulheres. sabemos que as bandeiras e demandas feministas vão muito além disso, e as próprias leis citadas ainda precisam garantir que os índices caiam significativamente. transpondo-nos para a realidade do Município de cascavel, na região Oeste do Paraná, ao checar os dados em torno do Feminicídio e casos de vio- lências contra mulheres, confirmamos o quanto a lei ainda precisa avançar, tendo em vista que para a erradicação do machismo, é necessária uma trans- formação cultural, o que não será de uma década para outra, por isso é tão importante o enfrentamento desse debate de gênero, encarando as temáti- cas e os feminismos que o permeiam. de acordo com informações fornecidas pelo Portal do Município de Cas- cavel, a “Patrulha Maria da Penha (lei de n° 6.742, sancionada em 21 de agosto de 2017) está em vias de entrar em funcionamento no Município”, assunto que fora debatido pelo conselho Municipal dos direitos da Mulher, que tam- bém discutiu sobre os dados em relação à violência contra mulher no Municí- pio de cascavel. “em julho de 2013, o Município assinou o termo de Adesão ao Programa Mulher, Viver Sem Limites e ao Plano Nacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher” (cAscAVel, 2017). não é apenas uma questão que envolve o termo de adesão, levantamen- to e análise dos dados, mas ações conjuntas que atuam no enfrentamento da cultura machista e da visão dos papéis destinados à mulher na sociedade. A cidade também conta com uma delegacia da Mulher atuando com o apoio do Juizado de Violência doméstica de cascavel e até agora já registra- ram “1.657 casos até agosto” de 2017 “que vão desde lesões corporais a estu- pro, perturbação, ameaça, injúria e vias de fato”, afirmou a delegada raisa de Vargas scairot, que também chama atenção para o drama de que os números têm aumentado a cada ano e acontecem principalmente no ambiente do- méstico. nesse sentido, por mais que as leis estejam garantidas, é importante que cada Município aliado às mais diversas redes, sejam, estaduais, nacionais ou internacionais de apoio às mulheres, sejam movimentos feministas ou gru- pos/coletivos protagonizados por mulheres, que, sobretudo, fornecem subsí- dios teóricos, metodológicos e instrumentos legais de mobilizações e lutas, através de diversos atores sociais, sejam professoras mulheres ou não, para o enfrentamento desses debates de gênero, possibilitando uma transformação cultural, superando o machismo e a misoginia, superando as violências e os crimes contra as mulheres. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 79 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde O CONTO DE DALTON TREvISAN E SUA RELAÇÃO COM A REALIDADE “A ARTE IMITANDO A vIDA” desenvolver o estágio no ensino médio, além de pensar nos conteúdos curriculares, nos desafia a pensar de que modo podemos estabelecer um vín- culo, para que os alunos sejam e estejam envolvidos no processo de ensino e aprendizagem. O desafio que se impõe, desta forma, é o de preparar os planos de aula, não só articulando os eixos da disciplina entre si, de forma interdisciplinar, mas também relacionar os conteúdos entre as disciplinas como a sociolo- gia e a filosofia, que compõem a grade curricular do ensino Médio, e ainda expressam em seu conteúdo, o papel do cidadão em sua atuação na socie- dade. Ao refletirmos sobre a atividade docente, podemos pensar sobre o que Perissé (2014) diz: “num tempo em que a atividade dos professores parece ter sido substituída pela informação abundante e pelo entretenimento onipre- sente, a literatura pode vir em nosso auxílio. Porque, nela, é possível encontrar caminhos para a formação de si mesmo e para o reencontro com nossos se- melhantes que são, em última análise, nossos dessemelhantes.”. dalton trevisan, poeta e escritor curitibano, que teve seu conto “Morre, desgraçado” transformado em filme em 1975, contribui para a explanação de debates como esse, em torno do tema da violência contra mulheres. em seu conto, aparecem frases como: chorando, a rosa abraçou as pernas do pai. não surre a mãe. Paizinho, não surre mais” (treVisAn, 1988, p. 8). Ai, por que não fugi? Pegou a vassoura atrás da porta e me encheu de pancada. Me desviei, a criança ali nos braços, o cabo deu no canto da mesa e se quebrou. agarrou pelo cabelo, acertou uma facada no braço direito. conse- gui entregar à rosa o menino que soluçava baixinho. - Fuja, rosa. leve daqui o anjinho. vi a mote nos olhos, achei força de empurrá-lo. João cambaleou, alcancei uma acha de lenha. Bati duas vezes na cabeça dele. - Me mate, mulher. senão você morre. Morre, desgraçado. A força de mão foi que me valeu. (treVisAn, 1988, p. 9 grifos nossos). Frases como essas destacadas acima, do conto do trevisan (1988), retra- tam a cena do drama conjugal, o homem que chega bêbado da rua, agride ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES80 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde brutalmente a mulher, afeta emocionalmente o filho e, no final, acaba sendo morto. Muitas vezes, a própria mulher é quem termina morta das formas mais diversas, além de as crianças e os familiares também serem afetados emocio- nalmente por situações como essas, infelizmente tão corriqueiras na nossa sociedade, mesmo com a instituição das leis de proteção, já mencionadas acima, o assédio, os crimes e as violências contra mulheres estão muito longe de cessarem. no Brasil, O Mapa da Violência (2012), divulgado pela Faculdade latino-A- mericana de ciências sociais, aponta que o Brasil ocupa o quinto lugar, dentre 83 países, no índice de ocorrências de homicídios femininos. entre os anos de 1980 e 2010, mais de 92 mil mulheres foram assassinadas no País, a estimativa é de que a cada duas horas uma mulher é morta de forma violenta em sua maioria no ambiente doméstico. Além de estarem longe de cessarem, sabemos que há muitos casos de crime e violência em que o homem é denunciado mas leva anos para ser jul- gado; por outro lado, também há muitos casos em que são julgados, mas que em seguida, os incriminados passam pouco tempo dentro da prisão e logo se veem livres ou respondendo o crime em liberdade, muitos deles nem chegam a ir para a cadeia. A história da Maria da Penha Maia Fernandes, mulher e víti- ma que serviu de inspiração para a criação da lei de nº 11.340/06, que levou seu nome, lei Maria da Penha, mostra a realidade de centenas de mulheres que passaram anos convivendo com inúmeras formas de violência e níveis de agressões, além de passar duas décadas sendo violentada, Maria da Penha sofreu duas cruéis tentativas de assassinato por seu próprio marido, que le- vou nove anos para ser julgado e recebeu apenas dois anos de prisão, o que despertou a revolta de Maria da Penha. no conto de dalton trevisan, a história envolta da instituição da lei Maria da Penha, os dados sobre a realidade do município de cascavel, enfatizando questões em torno do feminicídio e o drama em níveis na- cional e internacional, além de contar com outras fontes textuais, sejam de cunho jornalístico, histórico, sociológico ou literário, o ponto comum entre essa pluralidade de narrativas é a sinalização para a importância des- se tema e debate de gênero, quer seja feito nas salas de aula ou além do espaço escolar. A erradicação do machismo, da misoginia e das diversas formas de violência e crimes contra as mulheres é da responsabilidade de toda a sociedade. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 81 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde REFLEXÃO DO TRABALHO DESENvOLvIDO EM SALA DE AULA SOBRE O CONTO MORRE, DESGRAÇADO, DE DANTON TREvISAN (1988) A prática de estágio supervisionado, com carga horária de 30 horas e obrigatória à conclusão das disciplinas de Prática de ensino e estágio super-visionado de língua Portuguesa e Prática de ensino e estágio supervisionado de literatura infantil e Juvenil, foi desenvolvida no ensino Médio no colégio estadual cataratas, realizado no período noturno, nas turmas do 1º e do 2º ano. logo, de partida, a regente nos situou sobre o perfil dos alunos, que es- tudam no ensino médio noturno, em geral oriundos da classe assalariada e urbana, são trabalhadores que vêm para a escola após uma rotina diária de atividades laborais. no entanto, esta realidade somente reforça a necessidade de entender as suas trajetórias de vida, suas dificuldades e potencialidades, exigindo assim, por parte do docente, estratégia de intervenção e mediações. neste sentido, a ação docente é considerada fator determinante do que acon- tece dentro da sala de aula. Portanto, entender como se dá o conhecimento no processo pedagógico é ajudar a eliminar a determinação social dos destinos dos alunos. O professor deve assumir-se enquanto educador, acreditando, como Freire (1996), que o ato de ensinar cria as possibilidades para a produção ou construção de conhe- cimentos, sendo que na relação docente/discente “Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender” (Freire, 1996, p. 23). Outrossim, é notório que precisamos conhecer a realidade dos nossos estudantes, por- que, para além da formação técnica, nosso olhar deve prezar pela formação humana. O conteúdo proposto para o desenvolvimento das aulas esteve em acor- do com o previsto no plano de trabalho do professor regente, ou seja, de- veríamos dar conta de trabalhar com os alunos o conteúdo gênero literário – conto. neste sentido, o conto escolhido foi, como já referendado diversas vezes, do autor dalton trevisan (1988), Morre, Desgraçado, encaminhamento pro- posto buscava a reflexão sobre autor e obra, estrutura da narrativa que, de acordo com gancho (2002): a narrativa é estruturada sobre cinco elementos principais: enredo (situação inicial, conflito, clímax e desfecho), personagens, es- paço, tempo e narrador). As discussões em torno destes aspectos permitiriam os discentes compreender a importância da organização/estrutura do conto, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES82 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde sua função social, bem como a esfera de circulação e sua importância como obra literária, que tendo por característica, segundo Houaiss (2001), a palavra «conto» é definida como: uma narrativa breve e concisa, contendo um só confli- to, uma única ação (com espaço geralmente limitado a um ambiente), unidade de tempo, e número restrito de personagens. Permite ao leitor interagir de ime- diato com a obra, enredando-o assim ao contexto para o qual ela foi escrita. Apresentação do conto proporia um trabalho de articulação das discipli- nas de Prática de ensino de língua Portuguesa e de literatura. Para o desenvolvimento dos planos de aula, foi necessário buscar ele- mentos das Organizações curriculares para o ensino Médio (OceM) e do pla- no de trabalho do professor regente que estão organizados de acordo com orientações do órgão responsável, secretaria estadual de educação do estado do Paraná (seed/Pr), através do núcleo regional de educação de cascavel (nre/Pr). A disciplina de língua Portuguesa prevê o texto como o material verbal essencial à prática de ensino e enfatiza que os textos pressupõem dis- cursos que serão materializados a partir dos gêneros discursivos, nas diretri- zes curriculares são consideradas na área as práticas oralidade, leitura, escrita e análise linguística. Para melhor dimensionar o trabalho aplicado, é preciso refletir sobre as turmas em que o estágio foi realizado e quais desafios já se encontravam pressupostos a partir das especificidades da turma e do contexto de ensino. logo, é necessário levar em conta que se tratava de turmas do noturno de 1º e de 2° ano do ensino Médio, que apresentam lacunas no processo de leitura e escrita, necessitando mediação para a ampliação e compreensão dessas re- lações de oralidade, leitura e escrita. compreendemos ainda que o trabalho literário, utilizado como recurso didático, tem o poder de cativar o leitor e, por meio da mediação do professor, desenvolver a formação leitora do discente. Oportunizando ao aluno o acesso à literatura, estimulamos ainda a pro- dução de fala e de escrita relacionados com a leitura. defendemos a impor- tância do uso da literatura como elemento facilitador da aquisição e desen- volvimento da leitura e da escrita e um estímulo para o acesso a elementos da realidade e temas sociais, sendo um desses temas a violência contra a mulher e seu papel na sociedade patriarcal e na atualidade, sendo este desencadeado com a leitura, análise e conversação sobre o conto Morre, Desgraçado. entende-se, portanto, que a literatura oportuniza ao seu leitor muito mais, permite a ele transpassar a cadeia de significantes e adentrar a uma teia ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 83 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde em que o interlocutor interroga, reage, imagina, se modifica, se emociona e sobretudo viaja pelo mundo das palavras, transcendendo-as. no momento da leitura da história e por meio da identificação de perso- nagens, os alunos compreendem situações difíceis enfrentadas pelas perso- nagens, resolvem conflitos, desenvolvem a linguagem, aprimoram sua capa- cidade de imaginação, já que ouvi-las pode estimular a pensar, escrever, ler, criar, recriar. Assim, ao explorar o conto, refletimos com os alunos sobre os elementos narrativos, suas personagens, o contexto da história, possibilitando que eles, através de questionamentos, refletissem sobre os fenômenos sociais, com- preendendo os elementos que interferem em cada acontecimento descrito no texto. Ao propormos a leitura do conto, partimos da necessidade de envolver o aluno no enredo que estava sendo apresentado, deste modo, procuramos enfatizar na leitura tanto a forma, quanto o tom empregado, com o objeti- vo de envolver afetivamente os alunos e fazê-los dialogar com os sentimen- tos e refletirem sobre a história que estava sendo narrada. dessa forma, para alcançar o proposto, aplicamos uma leitura dinâmica que se aproximou da interpretação do conto e da imaginação da cena pelo ouvinte. durante a lei- tura, foi possível perceber, por meio da audição, que os alunos demonstraram grande atenção sobre o que tratava o enredo, bem como, sobre a história de vida do autor. As discussões propostas a partir dos questionamentos permitiram aos alunos expressarem sua opinião, mesmo que alguns fizessem suas colocações dando ênfase a uma análise de senso comum, e não por meio de análises mais teóricas e com base nos dados analisados. Outros, no entanto, demonstraram clareza, estabelecendo relações com situações vivenciadas com pessoas pró- ximas e articulando ao cotidiano da comunidade. no entanto, no momento das atividades de registro, foi possível sentir as dificuldades dos alunos em expressar o que havia sido discutido na oralidade e por meio da leitura ser colocado de forma escrita. dessa forma, os discentes solicitavam a presença do professor para mediação, tanto para interpretação e análise, bem como, para reconhecimento de vocabulário. Após as intervenções feitas pelas estagiárias, os alunos conseguiram ex- pressar os efeitos de sentido provocado pelo conto, mencionando que durante a leitura foram provocados sentimentos de: raiva, indignação, tristeza, revolta, susto, descaso, sofrimento, desvalorização, desagrado, pena, dó, dor, vazio. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES84 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde diante da realização das atividades escritas, dentre elas uma que exigira a escrita de um parágrafo, “levandoem consideração o seu conhecimento e às informações expressas no trecho da notícia, escreva um parágrafo de (7 a 10 linhas) sobre o tema abordado. Apresente fatos (argumentos) para susten- tar suas afirmações”, os alunos, por sua vez, não conseguiram desenvolver a proposta, e os que escreveram não conseguiram fazer colocações refletindo sobre a organização da sociedade e os papéis sociais estabelecidos cultural- mente. no entanto, a estratégia de trabalho permitiu aos alunos aprenderem com a mediação do professor e, com o uso de diferentes recursos, despertas- sem interesse e participação efetiva dos discentes em cada proposta docente. CONSIDERAÇÕES FINAIS neste trabalho, abordamos a prática pedagógica realizada no estágio supervisionado no colégio estadual cataratas, nas turmas de primeiro e se- gundo ano do ensino médio. tínhamos por objetivo desenvolver uma prática pedagógica que envolvesse processo de leitura e escrita, estimulando e de- senvolvendo nos alunos a potencialidade de ler melhor as linhas e entreli- nhas, a forma e o fundo, o óbvio e o interpretável, tornando-os pessoas mais críticas e menos suscetíveis a qualquer tipo de discurso que nos interpele. Assim, mediante a realização da prática de estágio, concluímos que o trabalho desenvolvido em sala de aula e permeado pela prática interdisciplinar permi- tiu grande participação dos alunos, por estar enriquecida com problematiza- ções, questionamentos e análises que envolveram de maneira ativa e dinâmi- ca os alunos, tornando-os autores da construção do conhecimento, por meio da mediação necessária do professor. conseguimos, por meio da realização do estágio, cumprir os objetivos propostos, uma vez que os resultados das atividades feitas em sala aponta- ram para a apropriação dos conteúdos pelos alunos. O mais produtivo, do ponto de vista da aprendizagem, foi o reconhecimento e a integração entre os saberes, já que os conteúdos foram abordados sem que fossem relaciona- dos às disciplinas específicas, mas a ações necessárias à experiência de vida e à interpretação do mundo. este trabalho desenvolvido na prática de estágio permitiu-nos ainda aprofundar o tema tão presente na sociedade hoje: a violência contra a mu- lher e as discussões sobre os índices da violência no município e no país. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 85 O PAPel dA MUlHer nO discUrsO de gÊnerO: reFleXãO sOciAl sOBre ViOlÊnciA dA MUlHer nA sOciedAde Assim, por meio da análise dos dados e das reflexões, propomos aos alu- nos pensar sobre a realidade social e, ainda, de que forma podemos fazer a diferença por meio das informações e do conhecimento adquiridos. A partir disso, desafiarmo-nos a desenvolver uma prática que permitisse envolver o aluno na construção do próprio conhecimento no reconhecimento de suas experiências. Foi possível, ainda, avaliar cada ação e o resultado de cada ati- vidade de oralidade, de leitura, de escrita e de análise linguística proposta e que fez parte dos conteúdos das áreas de língua Portuguesa e literatura trabalhadas em sala de aula. REFERÊNCIAS AlVes, Branca Moreira; PitAngUY, Jacqueline. o que é feminismo? são Paulo: ed. Abril cultural e Brasiliense, 1985. BetOni, camila. feminismo. coleção de 32 textos sobre sociologia; [s.l.]: infoescola. 2016. disponível em: . Acesso em: 6 nov. 2017. cÂndidO, Antonio. Literatura e sociedade. rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006. gAsMAn, nadine. lei do Feminicídio vai diminuir tolerância de crimes contra mulher. revista veja, n. 17, mar. 2017. disponível em: . Acesso em: 6 nov. 2017. 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ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES86 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer FORMAÇÃO DE CONSCIÊNCIA PARA A DIvERSIDADE DE GÊNERO EM RAZÃO DO PRECONCEITO E DA OPRESSÃO CONTRA A MULHER: UM RELATO DE EXPERIÊNCIA eliane aparecida anevão pereira eliane de camargo dominiak valdeci batiSta de melo oliveira INTRODUÇÃO A presença masculina, como figura de superioridade, existe há sécu- los, como podemos observar em muitos e diferentes povos da Antiguida- de considerando o sexo masculino como o gênero principal, mais forte e mais “desenvolvido”. Ainda hoje, milhares de mulheres sofrem e enfren- tam muitos obstáculos em uma sociedade histórica e predominantemente machista. As reivindicações e lutas das mulheres por direitos civis, políticos e sociais ocorrem há muitos anos no Brasil e no mundo. Apesar de vários avanços, as ações do movimento feminista são decisivas para a conquista de melhores condições e igualdade de gênero. em 1985, é criado o conselho nacional dos direitos da Mulher (cndM), subordinado ao Ministério da Justiça, com objetivo de eliminar a discrimina- ção e aumentar a participação feminina nas atividades políticas e econômicas. Atualmente, as ações, campanhas e políticas públicas voltadas ao público feminino no País estão sob os cuidados da secretaria especial de Políticas para Mulheres. A lei do Feminicídio, sancionada em 2015, colocou a morte de mulheres no rol de crimes hediondos e diminuiu a tolerância nesses casos. A mais conhe- cida das ações de proteção às vítimas é a lei Maria da Penha (nº 11.340/2006). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 87 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer O movimento feminista brasileiro pode contar com os esforços da secre- taria de Políticas das Mulheres, que atua não apenas pela redução da desi- gualdade dos gêneros, mas também para ajudar a garantir a autonomia eco- nômica das brasileiras. diante disso, a Violência contra a Mulher, a Misoginia e o Machismo, como construtores da estrutura social no Brasil, e a lei Maria da Penha, foram os temas norteadores escolhidos para o desenvolvimento do nosso trabalho de regência no ensino Médio. DISCUSSÃO TEÓRICA considerando os pressupostos teóricos apresentados na estética da recepção, no qual as professoras Maria da glória Bordini e Vera teixeira de Aguiar elaboraram o Método recepcional, sugerido nas dces, o qual utiliza- remos como encaminhamento metodológico para nortear os trabalhos com a literatura e demais disciplinas, pois o mesmo proporciona momentos de de- bates e reflexões possibilitando ao aluno a ampliação dos seus horizontes de expectativas. considerando também as concepções de linguagem apresentadas por geraldi, (1997), a leitura como foco na interação autor-texto-leitor, um pro- cesso no qual o leitor realiza um trabalho ativo de compreensão e interpreta- ção do texto a partir de seus objetivos, de seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que se sabe sobre linguagem, esperamos estimular a formação de consciência para a diversidade de gênero em razão do precon- ceito e da opressão contra amulher; resgatar alguns fatos históricos repre- sentativos da emancipação feminina no Brasil; identificar a ideia principal do texto; entender o estilo próprio de cada gênero: rap, conto e artigo; utilizar adequadamente os recursos linguísticos; posicionar-se argumentativamente; compreender a função social da literatura. como professores, nosso trabalho será pautado na concepção interacio- nista de linguagem, uma vez que nos constituímos e reconstituímos como sujeitos por meio da linguagem, não podemos desconsiderar as variantes lin- guísticas que circulam no espaço da sala de aula. como forma de alcançar a consciência acerca das variedades linguísti- cas, bem como exercitar a prática da fala, da escuta, da escrita e da leitura de textos, sem dúvida, torna-se interessante o contato com diversos gêneros textuais nas instituições de ensino. Assim, o aluno percebe com mais facilida- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES88 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer de a multiplicidade dos usos da língua e as diversificadas situações em que acontece. se quisermos traçar uma especificidade, para o ensino de língua portu- guesa, é no trabalho com textos que a encontraremos. Ou seja, o específi- co da aula de português é o trabalho com textos (gerAldi, 1997, p. 105). daí a importância de se oferecer aos alunos uma grande variedade de suporte de textos de diversas fontes, para leitura e ampliação de seu vocabu- lário e aquisição de novos conceitos. A atuação do professor nesse processo é de suma importância, pois é dele a responsabilidade de estimular o aprendizado, oportunizar situações de reflexão e desenvolvimento de sua percepção de mundo. diante do exposto, buscamos atrelar a temática sobre a violência contra a mulher através de uma linguagem que nos aproximasse dos alunos, optamos por iniciar os trabalhos de uma maneira dinâmica e motivadora, que instigas- se os alunos a participarem, possibilitando assim a interação entre professo- res e alunos. com o propósito de despertar a atenção dos alunos acerca do tema que iríamos abordar, afixamos no quadro duas cartolinas com as palavras MUlHer e HOMeM, solicitando aos mesmos que com uma única palavra, na opinião deles, definisse o que seria apropriado para cada gênero. inicialmente, meio tímidos, os alunos relutaram um pouco para realizar a atividade, mas aos poucos foram se sentindo à vontade, e todos participaram da tarefa, lembrando que nosso trabalho foi desenvolvido em duas turmas; num tom de descontração, na turma da manhã, 3º ano “c”, os comentários mais pareciam uma disputa pessoal entre meninos e meninas, por exem- plo: para as mulheres, termos como “sensível”, “bem humorada”, “guerrei- ra”, “chata”, “forte”, “maravilhosa”, “paranoica”, “companheira”, “ vingativa”, “falsa”, “desconfiada”, “linda”, “teimosa”, “poderosa”, e para o homem os ter- mos foram “persistente”, “ bom profissional”, “chato”, “fiel”, “rude”, “sensível”, “mentiroso”, “honesto”, “autoritário”, “galinha”, “galanteador”, “carinhoso”, “machista”, “frio”, “sem coração”, “organizado”, “pedófilo”, “trabalhador.”. Ao passo que no 3º ano “B”, noturno, as opiniões se mostraram mais enfáticas, exemplo: para mulher, os termos foram: “guerreira”, “batalhadora”, “humil- de”, “sensível”, “vitoriosa”, “gente boa”, “importante”, “cuidadosa”, “querida”, “dedicada”, “honesta”, “verdadeira”, “vaidosa”, “sentimental”, e para o homem “orgulhoso”, “confiante”, “humilde”, “corajoso”, “verdadeiro”, “grosso”, “falso”, “trabalhador”, “honesto”, “batalhador”, “fiel”, “focado” e “egoísta”. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 89 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer interessante ressaltar que dentre as duas turmas, somente um aluno, do 3º ano “B”, usou uma única palavra para definir tanto o homem como a mulher, “humilde”; ao final da atividade, iniciamos os comentários lendo com os alunos todas as palavras nos cartazes, questionando-os se não pode- ríamos empregar as mesmas palavras para definir tanto o HOMeM quanto a MUlHer. nesse momento, os alunos compreenderam o objetivo da dinâmica, po- sicionando-se criticamente.,Alguns defendiam; outros se manifestavam a res- peito da igualdade de direitos entre homens e mulheres, refletindo a partir dessas questões sobre as diferenças entre homens e mulheres muitas vezes impostas pela sociedade. na sequência, solicitamos aos alunos que se posicionassem em círculo ao redor de uma carteira em que haviam vários recortes com trechos do rap “rosas”, do grupo Atitude Feminina. sem informar do que se tratava a leitura, cada estudante retirou um trecho que leu primeiro silenciosamente e depois em voz alta para a turma, comentando sobre o que entendeu da leitura. de acordo com as Orientações curriculares para o ensino Médio (2006), conclui-se que os alunos já estejam preparados para a leitura de textos mais complexos da cultura literária, que poderão ser trabalhados lado a lado com outras modalidades com as quais estão mais familiarizados, como o hip-hop, as letras de músicas, os quadrinhos, o cordel, entre outras relacionadas ao contexto cultural menos ou mais urbano em que tais gêneros se produzem na sociedade. Partindo dessa premissa, antes de explorar a temática do texto, fizemos uma explicação sobre o rap: que se trata de um movimento que surgiu dos pilares do hip-hop, nos guetos de nova iorque, mais especificamente no bair- ro pobre e marginalizado chamado Bronx, em que viviam negros, jamaicanos e latinos, abandonados do estado que só se fazia presente para prender, ma- tar e punir. O Rap significa rhythm and poetry, em inglês, que em português se traduz para ritmo e Poesia. O rap surgiu no Brasil em 1986, na cidade de são Paulo, e hoje está in- corporado no cenário musical brasileiro. Venceu os preconceitos e saiu da periferia para ganhar o grande público. dezenas de cds de rap são lançados anualmente, porém o rap não perdeu sua essência de denunciar as injustiças vividas pela classe pobre das periferias das grandes cidades. constatamos, nesse momento, que a maioria dos alunos já conhecia a música, porém não havia refletido sobre o tema denunciado na letra, que é a ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES90 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer violência contra a mulher, e nesse caso, uma mulher jovem praticamente da idade deles. durante a conversação sobre os vários tipos de violência sofridos pela mulher, houve muita participação por parte das duas turmas, mostrando-se sensibilizados e indignados com tanta covardia. Alguns alunos, inclusive, rela- taram casos de violência sofridos por alguém de sua família. Voltamos à letra da música e destacamos o uso da linguagem formal e informal, que os alunos identificaram no texto, o uso de gírias, e trechos de depoimentos de vítimas, chamando a atenção dos alunos para a linguagem utilizada, os recursos gráficos, adequação da fala ao contexto, diferença e se- melhança entre o discurso oral e escrito. numa sociedade de classes, a desigualdade de relações leva a formu- lação de universos discursivos diferenciados, antes de mais nada pela segregação que uma classe impõe, através dos diversos mecanismos, pela articulação e retomada dos produtos herdados do passado na pro- dução do universo discursivo do presente (gerAldi, 1997, p. 56). conforme aponta geraldi (1997), considerando a produção de textos (orais e escritos) como ponto de partida (e ponto de chegada) de todo o pro- cesso de ensino/aprendizagem da língua, utilizamos o rap e o conto fazendo relação entre os dois gêneros, ressaltando o estilo de cada um, articulando a temática sobre a violência contra a mulher e apresentando a função social da literatura. considerando também que o texto literário épor excelência polissêmi- co, permitindo sempre mais de uma interpretação, e se admitimos que cada leitor reage diferentemente a um mesmo texto, pensamos que o passo inicial de uma leitura literária seja a leitura individual, silenciosa, concentrada e re- flexiva (BrAsil, 2006). nesse momento, fizemos a inserção do conto “Morre, desgraçado”, de dalton trevisan, questionando-os sobre o que conhecem sobre o gênero, fa- zendo um breve comentário sobre o autor e suas obras, distribuindo cópias do conto para leitura individual. [...] a leitura individual proporciona ao aluno a experiência literária de um texto que pode atingir sua subjetividade de maneira inusitada e cer- tamente diferente da maneira como atinge a subjetividade do colega (BrAsil, 2006, p. 60). na sequência, realizamos então uma leitura coletiva, promovendo uma releitura da própria leitura, potencializando o individual pelo coletivo, fize- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 91 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer mos também uma terceira leitura, dessa vez realizada pela professora, com o intuito de os alunos observarem o tom, a fruição, ajudando na compreensão de sentido do texto, partimos então para a análise interpretativa do conto, questionando os alunos sobre como o autor faz uso dos recursos linguísticos e gramaticais na construção de sua obra, organizando as ideias, identificando no texto: estrutura e elementos do gênero conto. sujeito do desejo, objeto do desejo, oponente do desejo. situação inicial + fazer transformador e situação final. ProtAgOnista, AntAgOnista, tempo, espaço e focalização. conforme as Orientações curriculares do ensino Médio (BrAsil, 2006), é da troca de impressões, de comentários partilhados, que vamos descobrin- do muitos outros elementos da obra; às vezes, nesse diálogo, mudamos de opinião, descobrimos uma outra dimensão que não havia ficado visível num primeiro momento. solicitamos então aos alunos para que, após a leitura e orientação, locali- zassem toda a estrutura da narrativa: narrador, situação inicial, protagonista, personagens secundários, antagonista, conflito e resolução do conflito. traçamos então um paralelo entre a temática sobre a violência contra a mulher presente no rap e no conto, confrontando com a realidade, usando o recurso tecnológico Microsoft Power Point para apresentação da lei Maria da PenHA através de slides, fazendo nesse momento a inserção de conteúdos de língua portuguesa e literatura e a interdisciplinaridade com as disciplinas de história, geografia, sociologia, filosofia e matemática, sempre articulando os conteúdos, mostrando gráficos sobre os números de feminicídio no Brasil e no Mundo, apresentando dados estatísticos sobre a condição feminina, sen- do que o nosso país ocupa o 5º lugar no ranking de assassinatos de mulheres no planeta. durante a apresentação dos slides, os alunos foram se manifestando cri- ticamente sobre o tema, demonstrando interesse no assunto, mostraram-se indignados com o tempo que Maria da Penha levou para conseguir que seu agressor fosse punido, assim como a duração da pena a ele aplicada. Porém, o que mais chocou os alunos foi o fato de Maria da Penha ter necessidade de recorrer a ajuda internacional para que o Brasil se posicionasse em defesa da sua causa. com o objetivo de explorar a reflexão acerca do tema lei Maria da Penha: nº 11.340/2006., lançamos algumas questões para nortear a discussão: Por que é necessário existir uma lei para se combater a violência contra a mulher?; Qual o tipo de violência que ainda é praticada contra a mulher?; como é pos- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES92 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer sível mudar a realidade da violência?; Que atitude as mulheres devem tomar para se defender da violência? como a proposta final do nosso trabalho de regência é a produção de um artigo de opinião, realizamos uma leitura do artigo de opinião “A lei MAriA dA PenHA”: eXPeriÊnciA e tendÊnciAs nestes 10 AnOs”, identificando os elementos composicionais do gênero. esse momento foi extremamente importante, pois proporcionou aos alu- nos um entendimento sobre a estrutura e conteúdo utilizados na elaboração de um artigo de opinião. enfatizamos que o mesmo é um texto argumentati- vo, opinativo, de caráter persuasivo, o qual dá ao autor maior liberdade de ex- pressão, lembrando que é importante respeitar sua estrutura: intrOdUçãO; desenVOlViMentO e cOnclUsãO. diante da proposta solicitada aos alunos, a produção de um artigo de opinião sobre o tema Violência contra a mulher, percebemos a insegurança e o receio que muitos estudantes ainda têm em desenvolver esse trabalho. retomamos então, os pontos mais importantes e relevantes na produ- ção de um texto dissertativo argumentativo, por se tratar de um gênero já trabalhado com os alunos e pela semelhança que o mesmo apresenta em relação ao artigo de opinião, levando-os a perceber que para uma boa produ- ção, requer que se tenham bons argumentos e que durante o nosso estágio, fomos reunindo informações, colhendo dados, organizando as ideias, e que eles tinham condições de realizar um bom texto. salientamos também a importância do exercício da escrita, o treino e bas- tante leitura é que ajudam na boa produção textual, procuramos mostrar que o contato com a literatura e com outras formas de leitura são a oportunidade de conhecimento que ajudam no domínio da linguagem escrita como um su- porte básico e altamente necessário tanto na vida escolar como na sociedade. centrar o ensino na produção de textos é tomar a palavra do aluno como indicador dos caminhos que necessariamente deverão ser trilha- dos no aprofundamento quer da compreensão dos próprios fatos sobre os quais se fala quer dos modos (estratégias) pelos quais se fala (gerAl- di, 1997, p. 165). Antes de iniciar a produção do texto, orientamos os alunos sobre os ele- mentos composicionais do gênero artigo de opinião, assim como a utilização dos recursos linguísticos: utilização da norma padrão da língua, adequação ao gênero, vocabulário envolvente, coerência no texto, pontuação, recursos gráficos como aspas, coesão, concordância verbal e nominal. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 93 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer solicitamos aos alunos que realizassem a primeira escrita do artigo de opinião numa folha de rascunho, pois, como as aulas foram conjuminadas em cinco aulas seguidas e realizamos o nosso trabalho em dupla, houve tempo hábil para auxiliarmos os alunos nas mais diversas dificuldades na produção do texto, orientando-os para organizar suas ideias, preparandoos para a rees- crita do artigo de opinião, dentro das normas exigidas pelos vestibulares e o eneM. A investigação temática, que se dá no domínio do humano e não no das coisas, não pode reduzir-se a um ato mecânico. sendo processo de busca, de conhecimento, por isto tudo, de criação, exige de seus sujei- tos que vão descobrindo, no encadeamento dos temas significativos, a interpenetração dos problemas. Por isto é que a investigação se fará tão mais pedagógica quanto mais crítica e tão mais crítica quanto, deixan- do de perder-se nos esquemas estreitos das visões parciais da realidade, das visões “focalistas” da realidade, se fixe na compreensão da totalida- de (Freire, 2005, p. 116) A atividade se desenvolveu normalmente, todos se dedicaram para rea- lizar uma boa produção, alguns alunos se mostraram com maior dificuldade para iniciar o texto, orientamos então para que retomassem a leitura nos tex- tos de apoio trabalhados nas aulas anteriores, sempre esclarecendo que os textos de apoio são norteadores para uma boa escrita. também buscamos apresentar aos alunos a importância da literatura,as- sim como a função social que ela ocupa na sociedade, como um instrumento para o seu crescimento social e cultural, para, assim, ser possível formar alu- nos como sujeitos atuantes, conscientes e críticos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo das atividades desenvolvidas, procuramos abordar os conte- údos partindo dos textos, explorando sempre o mesmo tema, a formação de consciência para a diversidade de gênero em razão do preconceito e da opressão contra a mulher, utilizando-se estratégias diversificadas como o rap, o conto, o artigo de opinião e o documentário, voltadas para o desenvolvi- mento de uma reflexão crítica explorada de acordo com a necessidade dos conceitos e conteúdos trabalhados, para enfim voltarmos ao texto que pro- porcionou aos alunos a ampliação e o aprofundamento dos conhecimentos para além do senso comum. Ao encerrar as atividades com o texto, pudemos observar que as dificul- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES94 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer dades dos alunos são mais acentuadas no momento da produção individual, pois alguns ainda revelam muita insegurança no momento da escrita e na organização do mesmo, assim como, ainda não possuem domínio de argu- mentos para desenvolver uma boa escrita. Percebemos que a prática com vários gêneros textuais trouxe a oportu- nidade de conhecimento e contato com textos que pudessem ser lidos por cada um, ouvidos, comentados e reescritos por todos. Assim, encaminha-se a formação de sujeitos e alunos para que se sintam “filhos” desta sociedade, letrada e ágil, contemporânea. Percebemos, então, a importância de o educando dialogar em suas pro- duções, e, a partir de necessidades e de interlocutores reais, interpretar a rea- lidade sobre outros pontos de vista. sendo assim, a produção, a recepção e a circulação da literatura por quaisquer que sejam os públicos-leitores, crianças, jovens ou adultos, não mais podem ser estudadas como fenômeno isolados das outras produções culturais, pois caso contrário, corre-se o risco de apresentar uma visão distorcida das condições que possibilitam a apropriação des- ses bens (BrAsil, 2006, p. 61). Além disso, conseguimos sensibilizar os alunos em relação à violência cometida contra mulheres, acreditamos que através da proximidade com di- ferentes gêneros textuais, que logicamente veicularam fatos, ideias e confi- gurações diferentes sobre a mesma temática foi possível alcançar um novo movimento de aprendizado na turma, movimento este que estimulou ques- tionamentos, reflexão, curiosidade e criticidade. A troca que aconteceu no momento das intervenções ultrapassou nossas expectativas e trouxe o retorno gratificante que nos fez perceber que o aper- feiçoamento é diário e contínuo. A força motora sempre será o aluno, as ne- cessidades deles serão a nossa prioridade, e seu sucesso será nosso objetivo. Mais do que aprender a preparar aulas, o estágio evidenciou a importân- cia da relação professor-aluno, confirmando que respeito, dedicação e boa vontade resultam em pequenas vitórias na sala de aula. REFERÊNCIAS BAtistA, irinéa de lourdes; sAlVi, rosana Figueiredo. Perspectiva pós-moderna e interdisciplinaridade educativa: pensamento complexo e reconciliação integrativa. Ensaio, Belo Horizonte, v. 8, n. 2. 2006. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 95 FOrMAçãO de cOnsciÊnciA PArA A diVersidAde eM rAZãO dO PrecOnceitO e dA OPressãO cOntrA A MUlHer BOMBAssArO, luiz carlos. as fronteiras da Epistemologia: como se produz o Co- nhecimento. rio de Janeiro: Vozes, 1992. BrAsil. orientações Curriculares do Ensino Médio. Brasília: Mec/semtec, 2006. deMO, Pedro. Educação & Conhecimento: relação necessária, insuficiente e con- troversa. Petrópolis: Vozes, 2001. FAZendA, ivani catarina Arantes. integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro: efetividade ou ideologia. são Paulo: loyola, 1979. Freire, Paulo. Pedagogia do oprimido, rio de Janeiro: Paz e terra, 2005. gAdOtti, Moacir. interdisciplinaridade: atitude e método. são Paulo: instituto Paulo Freire. disponível em: . Acesso em: 10 mar. 2017. gerAldi, João Wanderley (Org.). o texto na sala de aula. são Paulo: Anglo, 2012. gerAldi, João Wanderley. Portos de Passagem. 4. ed. são Paulo, Martins Fontes,1997. sOUZA, renata Junqueira de; FeBA, Berta lucia tagliari (Orgs.). Leitura Literária na Escola: reflexões e propostas na perspectiva do letramento. campinas: Mercado de letras, 2011. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES96 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA A PERSISTÊNCIA DA vIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA SOCIEDADE BRASILEIRA: UMA ABORDAGEM A PARTIR DE DIvERSAS TIPOLOGIAS TEXTUAIS edinalva FernandeS marchiore Fabiana coSta camargo antonio marcio ataide INTRODUÇÃO Quando falamos em violência, podemos trazer a definição da Organiza- ção Mundial da saúde (OMs), que define violência como “uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou con- tra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação”. todo ato intencional que cause algum dos danos supracitados é considerado vio- lento, os atos acidentais ou não intencionados não fazem parte dessa clas- sificação. O “uso de poder” também leva a incluir a negligência ou atos de omis- são, além dos atos violentos mais óbvios de execução propriamente dita. Assim, o conceito de “uso de força física ou poder” deve incluir negligência e todos os tipos de abuso físico, sexual e psicológico, bem como o suicídio e outros atos autoinfligidos (OrgAniZAçãO MUndiAl dA sAÚde [OMs], 2002, p. 5). A violência ocorre por meio da opressão e do abuso da força. como tam- bém por meio do constrangimento exercido sobre alguma pessoa para obri- gá-la a fazer ou deixar de fazer um ato qualquer. diversos fatores colaboram para aumentar a violência, tais como uma grande aglomeração de pessoas em áreas urbanas, contribuindo para um crescimento desorganizado das cidades, como também as fortes aspirações ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 97 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA de consumo, em parte frustradas pelas dificuldades encontradas de inserção no mercado de trabalho. diante disso, apresentamos aos alunos a leitura de um gênero literário explicando a importância da leitura para a aprendizagem do ser humano que, além de favorecer o aprendizado de conteúdos específicos, aprimora a escri- ta. O contato com os livros ajuda ainda a formular e organizar uma linha de reflexão. dessa forma, a apreciação de uma obra literária é de suma impor- tância na elaboração de um trabalho de qualidade, principalmente na escrita. O texto literário é um dos principais aliados nessa conquista. Os Parâmetros curriculares nacionais de língua Portuguesa (1998, p. 36-7) ressaltam a im- portância do trabalho com o texto literário incorporado às práticas cotidianas da sala de aulae afirmam que: A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto, a partir dos seus objetivos, do seu conhecimento sobre o assunto, sobre o autor, de tudo o que sabe sobre a língua (BrAsil, 1997, p. 41). A leitura auxilia o aluno, tornando-o crítico para a sociedade e aprimoran- do seu conhecimento diante da interpretação. Precisa-se criar em sala de aula o hábito de leitura, começando desde o ensino Fundamental, com leituras que chamam a atenção dos alunos, com textos que realmente façam sentido para a realidade do educando, fazendo com que o aluno se sinta à vontade de fazer parte do mundo encantado que é a leitura. Pensando assim, levamos para salasustenta e aprisiona toda a vida do planeta na faina devoradora de seu ciclo básico (nutrição, repouso, reprodução) para construirmos condi- ções de compor a nossa biografia. Acrescente o excerto de Fernando Pessoa, ele fala por si. “ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um au- tor da própria história. É saber falar de si mesmo. É não ter medo dos próprios sentimentos”. essa deveria ser a visada maior do ensino de língua Portuguesa e de toda a educação. Os organizadores, Valdeci Batista de Melo Oliveira e Higor Miranda Cavalcante PARTE 1 ESTÁGIOS SUPERvISIONADOS DE LÍNGUA PORTUGUESA E LITERATURA NO ENSINO MéDIO ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES10 APresentAçãO ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 11 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... ESTÁGIO DE DOCÊNCIA: TEXTOS LITERÁRIOS COMO EIXO NORTEADOR PARA O DESENvOLvIMENTO DO PENSAMENTO CRÍTICO aparecida de oliveira da Silva miranda valdirene aparecida cotta antonio marcio ataide INTRODUÇÃO A partir de suas relações com a natureza, os humanos foram criando meios de obter recursos para sua sobrevivência; a isso podemos denominar, dentre outras formas, de trabalho. Mas essa relação não se dá apenas com a natureza, pois os homens também se relacionam entre si. As ferramentas uti- lizadas para a realização do trabalho possibilitaram o aumento da produção. iniciou-se, posteriormente, a apropriação do resultado do trabalho coletivo, resultando na exploração da força de trabalho por meio de práticas como o escravismo ou o feudalismo, por exemplo. com a revolução industrial, surgiu a maquinofatura, e muitas atividades manuais foram substituídos pela das máquinas, o que aumentou a produção. Mas ainda eram necessárias pessoas para operarem essas máquinas. Assim, de um lado, estava o progresso tecnológico e, de outro, a continuidade da ex- ploração do trabalho humano. As tensões oriundas deste contexto resultaram nos primeiros movimentos sociais, os quais, mesmo sendo sinônimos de luta, violência e sacrifício, garantiram conquistas de direitos a favor dos trabalha- dores. Mas isso por si só não foi suficiente para diminuir a diferença material existente entre as classes sociais. À medida que a tecnologia avança, e a produção aumenta, o controle so- bre os trabalhadores recrudesce, e o sistema dominante impõe sua ideologia de consumo, reduzindo tanto seres humanos quanto a natureza à lógica da ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES12 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... mercadoria. então, por meio de novas ferramentas tecnológicas de comuni- cação, a linguagem passa a ser utilizada de diferentes formas, como na cria- ção de novas necessidades, as quais são incutidas na população como vitais, verdadeiras fontes da felicidade. tais constatações se aproximam daquelas apresentadas por Victor Hugo na obra Os miseráveis: O inútil torna a felicidade completa. se a limitais ao necessário, adeus ventura! Quantas mais superfluidades melhor [...]. A felicidade desa- companhada é como o pão seco. come-se, mas não se janta. Quero o supérfluo, o inútil, o extravagante, o demasiado, O que não serve de nada (HUgO, 2013, p. 1010). então, em nome dessa “felicidade”, a ideologia do consumo é amplamen- te difundida pela classe dominante, que detém a produção destes emplastos que, por sua vez, precisam ser consumidos. como resultado, tem-se a impres- são de que é preciso possuir sempre mais coisas, quando na verdade são as coisas que nos possuem, tornando-nos apenas uma das engrenagens dessa lógica. sendo assim, vivemos numa sociedade na qual o parâmetro do pro- gresso é a desigualdade e a exploração. corroborando com essa ideia, Marx afirma que: todos os meios para desenvolver a produção redundam em meios de dominar e explorar o produtor, mutilam o trabalhador, reduzindo-o a um fragmento de ser humano, degradam-no à categoria de peça de máquina, destroem o conteúdo de seu trabalho, transformado em tor- mento, tornam-lhe estranhas as potências intelectuais do processo de trabalho, na medida em que a este se incorpora a ciência, como força independente, desfiguram as condições em que trabalha, submetem- no constantemente a um despotismo mesquinho e odioso, transfor- mam todas as horas de sua vida em horas de trabalho e lançam sua mulher e seus filhos sob o rolo compressor do capital (MArX, 2009, p. 749). no entanto, a força da classe dominante se confirma por meio de uma “permissão”, obtida a partir da repressão física e psicológica de uma classe oprimida, a qual encontra-se alienada ao funcionamento do sistema capitalis- ta. Por isso, é essencial nesse sistema tirar a capacidade de reflexão e de crítica do indivíduo, com a desapropriação do conhecimento para que se aproprie de seu trabalho. nesse sentido, o conhecimento é uma arma poderosa e revolucionária, capaz de desmantelar as camadas dominantes da sociedade, sendo a leitura um instrumento essencial para o acesso às diversas áreas do saber, propor- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 13 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... cionando o desenvolvimento do indivíduo. Visto que é essencial inserção da leitura, de fato, em sala de aula, não como pretexto para trabalhar conteúdos impostos pelo sistema educacional, mas para transformar os conhecimentos prévios dos alunos numa abordagem mais ampla e profunda, podendo assim realizar uma avaliação crítica dos fatos do passado e atuais, percebendo as inferências desses fatos na sociedade. Assim, vislumbramos no estágio supervisionado uma oportunidade pri- vilegiada de pôr em prática essa discussão. Para isso, partimos dos textos “O arquivo”, de Victor giudice, e “Faroeste caboclo”, de renato russo, já que am- bos trazem subsídios para uma conversa abrangente a respeito do capitalis- mo e as relações do indivíduo com o trabalho nesse sistema ao qual estamos submetidos. Buscamos, a partir desse debate, ampliar o ângulo de visão dos alunos a respeito do funcionamento da sociedade atual, de forma crítica, le- vando-os a refletir sobre suas ações e, consequentemente, sobre as implica- ções dessas ações no mundo em que estão inseridos. O texto literário é um instrumento capaz de levar os alunos a assumir uma postura crítica sobre as relações dos sujeitos com o meio e com outros su- jeitos, mas, para que a leitura possa ser propulsora desse posicionamento, é preciso que seja compreendida num sentido amplo, por isso a mediação do professor é extremamente relevante, pois é ele que possibilitará o acesso a informações fundamentais para a compreensão do texto, que nem sempre estão aparentes à primeira vista. A leitura proporciona ao aluno o enriqueci- mento linguístico, incentiva a criatividade, desperta a sensibilidade, a capaci- dade de reflexão crítica e amplia seu universo cultural, sendo um instrumento humanizador, fazendo com que o aluno compreenda melhor o mundo a sua volta e, como consequência, se torne mais participativo na transformação desse meio. dentro dessa ótica, candido ensina que: entendo aqui por humanização... o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamen- to das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humani- dade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante (cÂndidO, 1995, p. 249). diante disso, ressaltamos a importância de proporcionar o encontro en- tre o aluno e o texto, o que muitas vezes só ocorre na escola, sendo papel crucial do professor promover o referido encontro, sabendo que a literatura ESTUDOS E PRÁTICAS DEde aula o texto “Morre, desgraçado”, no qual a literatura traz uma história vivida por muitas mulheres em nossa sociedade. O texto literário “Morre, desgraçado”, do autor dalton trevisan, mostra o casamento e revela a violência, as frustrações e a infelicidade da vida privada. no que diz respeito às relações conjugais e familiares, os contos do escritor guardam estreito parentesco com as crônicas policiais que denunciam a vio- lência doméstica, a infidelidade e os crimes passionais. dalton trevisan tem o intuito de chocar o leitor pelas minúcias da ação, que se apresenta crua, vio- lenta, repleta de agressões físicas e morais. O ser amado torna-se uma espécie de inimigo íntimo, como se vê neste trecho da obra: Ai cavala, viu o que fez? Agora me paga. sobre a mesa achou uma faca de ponta e veio de novo. tentando escapar corri para os fundos. gritei que a menina pedisse socorro no vizinho. não teve jeito, já me alcan- çava. Agarrou pelo cabelo, acertou uma facada no braço direito. novos pontaços na perna e no braço (treVisAn, 1998, p. 2). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES98 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA esse contato com a obra literária aprofunda os conhecimentos em rela- ção às realidades vividas por muitas famílias no nosso país. Muitos lares são desestruturados por não ter dentro de suas moradas uma composição fami- liar sadia, nos quais muitas vezes o papel do pai, que deve cuidar da casa e da família, torna-se insensível, acreditando-se como dono de tudo e tornando a vida da mulher tal qual a de uma escrava dentro de sua própria casa. Ou, como diz um excerto da obra: sentou-se na cama e chamou a escrava, que lhe tirasse o sapato. ressa- biada fiquei de joelho. Fui pegar o segundo sapato um coice me jogou contra a parede. não contente, passou a mão no rosário pendurado na cabeceira, malhou a minha cabeça, só conta negra por todo canto (tre- VisAn, 1998, p. 1). consoante ao texto trabalhado, apresentamos aos alunos outros textos, relacionando-os com o conto de trevisan, “Morre, desgraçado”, abordando a mesma perspectiva em relação às agressões contra as mulheres, sobre o feminicídio e sobre a lei Maria da Penha, que já está em vigor para que as mulheres se sintam encorajadas a denunciar, uma vez que contam com uma rede de proteção para atendê-las. num texto literário, a citação de outros textos é implícita, ou seja, um poeta ou romancista não indica o autor e a obra donde retira as passa- gens citadas, pois pressupõe que o autor compartilhe com ele um mes- mo conjunto de informações a respeito das obras que compõem um determinado universo cultural. Os dados a respeito dos textos literários, mitológicos, históricos são necessários, muitas vezes para compreensão global de um texto (PlAtãO; FiOrin, 2007, p. 19). Ainda que o texto literário já tenha sido objeto de vários estudos, não há respostas definitivas. É possível, no entanto, apresentar alguns dos critérios mais usados atualmente para caracterizá-lo. savioli e Fiorin (2006) lembram que é preciso descartar qualquer critério que se fundamente no tema abor- dado pelo texto, uma vez que não há conteúdos exclusivos da literatura nem contrários a seu domínio. Para os autores, o texto literário tem uma função estética, escrito com uma linguagem feita de forma a causar emoções. Um texto literário é aquele que é considerado como sendo literatura: Quem escreve um texto literário não quer apenas dizer o mundo, mas recriá-lo nas palavras, de forma que, nele, importa não só o que se diz, mas também o modo como se diz. A mensagem literária é autocentra- da, isto é, o autor procura recriar certos conteúdos na organização da expressão. Múltiplos recursos são usados para isso: ritmos, sonoridades, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 99 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA distribuição de sequências por oposições e simetrias, repetição de pala- vras ou de sons (rimas) etc. (sAViOli; FiOrin, 2006, p. 361). O conto é um dos gêneros mais populares da literatura, e a adequação de colocá-lo em cena na sala de aula está no fato de o mesmo ser produzido em relação às situações cotidianas, das práticas sociais situadas na história da humanidade, das vivências, dos acontecimentos, permitindo uma leitura mais rápida e resultados interpretativos mais positivos: Assim como muitos outros gêneros literários, mas também de impren- sa, de divulgação científica, da publicidade, ele é considerado pelos Pa- râmetros curriculares nacionais uma das referências básicas a partir da qual o trabalho com o texto – unidade básica de ensino – precisará se organizar. segundo os referenciais curriculares, o conto faz parte de um grupo de gêneros literários cujo domínio é fundamental à efetiva parti- cipação do aluno na sociedade (BrAsil, 1998, p. 53-54). O acesso ao conhecimento torna-se possível por meio da leitura de con- tos, dentre outros gêneros literários, pois o homem vai se constituindo, ou seja, se formando e se transformando por meio de experiências variadas com diferentes textos e sujeitos. todas as formas de leitura oferecem aos leitores algum tipo de informação ou saber, mas é por meio da literatura que se firma uma relação mais estreita com os conhecimentos, já que o texto literário reve- la manifestações sobre a condição humana em diferentes épocas e espaços. Ao pensar o conto como um fator aproximador entre textos e leitores, a função do professor torna-se de extrema importância para que esses laços com a literatura se firmem. contudo, isso exige do profissional uma prepa- ração de grande relevância, para poder propiciar, a partir de seus conheci- mentos, um momento oportunizador de experiência pela leitura. segundo Kleiman (2013, p. 36), [...] é durante a interação que o leitor mais inexperiente compreende o texto: não é durante a leitura silenciosa, nem durante a leitura em voz alta, mas durante a conversa sobre aspectos relevantes do texto (Klei- MAn, 2013, p. 36). Outro aspecto importante em relação ao trabalho com a leitura em sala de aula consiste em compartilhar as aprendizagens adquiridas com os textos, tanto entre alunos quanto entre professores. É por meio da troca de expe- riências e histórias de leitura que, de fato, ocorre a interação entre textos e leitores. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES100 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho desenvolvido teve como objetivo relatar as experiências vivi- das em nosso estágio no ensino Médio, retratando um pouco da violência do- méstica enfrentadas por muitas mulheres em nosso país e que, muitas vezes, por medo de seus agressores, se negam a fazer uma denúncia. O conto “Morre, desgraçado”, trazido para dentro desse contexto, foi de suma importância para instigar o conhecimento dos alunos em relação à vio- lência que cresce a cada dia em nosso país. Uma realidade que está longe de ser vista como um dever do estado como um todo de criar políticas públicas para que diminua o sofrimento de muitas famílias ao nosso redor. Precisa-se olhar com mais atenção para lei Maria da Penha, que veio para dar proteção às mulheres, principais vítimas das agressões em âmbito domés- tico, sejam essas agressões físicas, psicológicas, morais ou materiais. A obra literária, relacionada ao vídeo sobre vários tipos de violência sofri- da pelas mulheres, fez com que os alunos refletissem ainda um pouco mais sobre o assunto. no momento da elaboração do trabalho escrito, ficou claro que os alunos compreenderam os conteúdos trabalhados, mobilizando os ar- gumentos de forma bastante satisfatória. Alguns não tinham conhecimento total da lei Maria da Penha e nem de muitos casos de feminicídio ocorridos no Brasil. conduzir o aluno ao conheci- mento científico é um dever do educador, tornando-os críticos para a socieda- de.Pois a esperança está nos jovens para uma mudança futura em nosso país. REFERÊNCIAS ArAÚJO, Maria José Fernandes da silva. Práticas literárias na escola a partir do gênero conto. revista de divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Li- teratura, [s.l.], n. 18,- jul./dez. 2015. BAtistA, rafael. importância da leitura. [s.l.: s.d.]. disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2017. BrAsil. Parâmetros Curriculares nacionais: língua Portuguesa. Brasília: Mec, 1998. BrAsil. secretaria especial de Políticas para as Mulheres. Protegendo as Mulheres da violência doméstica. Fórum nacional de educação em direitos Humanos, 2006. FiOrin, Jose luiz; sAViOli, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. 17. ed. são Paulo: Ática, 2007. treVisAn, dalton. Pão e sangue. rio de Janeiro: record, 1998. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 101 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA PARTE 2 APRECIAÇÕES SOBRE LÍNGUA E LITERATURA NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE LÍNGUA PORTUGUESA ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES102 A PersistÊnciA dA ViOlÊnciA cOntrA A MUlHer nA sOciedAde BrAsileirA ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 103 literAtUrA BrAsileirA i e ii e PrÁticA de ensinO de literAtUrA nO ensinO MÉdiO LITERATURA BRASILEIRA I E II E PRÁTICA DE ENSINO DE LITERATURA NO ENSINO MéDIO andré boniatti Ao receber o convite para lecionar as disciplinas de literatura Brasileira e sua prática de ensino no PArFOr, proveniente da professora doutora Valde- ci Batista de Melo Oliveira, grande me foi o contento e, ao mesmo tempo, a preocupação frente ao desafio de lecionar, em três semestres, cinco séculos de incursões literárias em constante conversa com os demais milênios que desenham a história da literatura universal. Porque, se me era incumbido o ensino das particularidades deste tipo de produção artística no Brasil, impos- sível seria fazê-lo sem tentar resgatar a conversação que trava com suas raízes, de formação europeia, portuguesa, as influências desde o trovadorismo, suas implicações sociais e filosóficas e, ademais, conforme se adensa a modernida- de e a contemporaneidade, a influência milenar e a apropriação dos métodos poéticos bíblicos, orientais e inovadores, na busca de uma literatura genuína, de identidade brasileira. Além do mais, sua prática de ensino, ou seja, como levar ao público leigo, a crianças, adolescentes e jovens, o conhecimento so- bre nossas trajetórias literárias, a qual recebe ampla abordagem. no intuito de obtermos sucesso, primeiramente, era necessária a máxima abertura de nossos discentes, um grupo de professoras da rede pública de ensino, o que, em vias de trabalhar com as artes, é imprescindível. creio que a comum resistência, sem muito custo, fora transcendida, já que conseguimos, em equipe, encher os olhos – ávidos por conhecer – com o encantamento preciso. didaticamente, escolhemos, anterior à teoria, mergulhar o alunado nos dramas e nas paixões que emergem do texto literário, vislumbrando des- pertar, anterior ao conhecimento, o interesse, o apego, o afeto, a necessidade da arte, ou da literatura, na vida daquelas que ali se punham a aprender, uma ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES104 literAtUrA BrAsileirA i e ii e PrÁticA de ensinO de literAtUrA nO ensinO MÉdiO vez mais, coisas novas. tal trabalho não o efetuava solitário; o excelente corpo docente do curso permeava suas aulas com o mesmo intento. Portanto, como o disse, logo estávamos repartindo uma mesma linguagem em nossos cora- ções, que se uniam frente à dramática existência inscrita nos poemas, contos, crônicas, romances que dividíamos em sala de aula. Privilegiamos, num segundo momento, a historicidade. Partimos das re- flexões de Antonio cândido, Alfredo Bosi, José Veríssimo, entre outros, acerca da formação da literatura Brasileira, buscando entender como os processos de colonização e a ânsia por superação destes foram emoldurando o qua- dro literário de que descende a nossa moderna literatura, por séculos depen- dente e submissa a modelos. Para tanto, tínhamos de enunciar, sem demora, junto à crítica sociológica de cândido, os avanços na crítica pós-colonialista e na disciplina de literatura comparada, saldando a dívida com o passado histórico e enfatizando a conquista da descolonização literária, bem como o entendimento sobre a ressignificação do texto frente à influência. traçamos, assim, o quadro dos séculos de literatura brasileira sempre par- tindo dos textos, esboçando dados básicos da historicidade, mas prenden- do-nos à teia da interpretação e hermenêutica. desse modo, centramos, pelo curto prazo que nos era possível, em nomes bastante relevantes, legando às alunas o dever de buscarem mais a fundo outros, de que apenas dávamos indicativas. tendo-nos aproximado um pouco do trovadorismo, mediante o can- cioneiro de d. dinis e a história deste rei culto, e conhecendo um pouco da poesia de luis Vaz de camões e sua importância na fundação da língua portu- guesa moderna; partíamos, então, para as doces e singelas pregações do Pe. José de Anchieta, depois de lermos alguns excertos da suma carta de navega- ção, a de Pero Vaz de caminha. contudo, recorríamos ao Anchieta já Barroco, porque o era. não houve em terras brasileiras traços de renascentismo, de classicismo, nesse primeiro momento. O teatro e a poesia jesuítica já estavam inculcados das ânsias paradoxais barrocas, e o clamor da igreja por reconquis- ta de poderio ressonava na atitude catequética dos padres, que aqui conver- tiam índios ao catolicismo. A verdadeira contestação, ou melhor, impostação literária viria, sim, mais tarde, com gregório de Matos guerra, salvaguardado por cândido como um escritor de porte, não contanto percebendo ainda um movimento literário no Brasil. como o mostra Alfredo Bosi em sua “literatura concisa”, estamos falando em ecos de barroco por aqui, ecos de europa. ecos que vêm também mediante os sermões do Pe. Antonio Vieira, completando ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 105 literAtUrA BrAsileirA i e ii e PrÁticA de ensinO de literAtUrA nO ensinO MÉdiO o quadro Barroco entre conceptismo e cultismo, deste escritor e do Matos guerra, ícones de nossa expressão. A movimentação literária, então, ganha força em nossas terras quando as ideias iluministas já repercutem por aqui, reunindo um grupo de poetas vinculados ao Arcadismo, trazendo à tona uma poesia nativista e um dese- jo de independência. tal grupo, envolvido na inconfidência Mineira, acaba se dispersando, provocando ecos agora internos ao país, deixando grandes anseios nos ares, um desejo de liberdade gritante. O exílio de tomás Antonio gonzaga, o “suicídio” de claudio Manuel da costa, como os demais destinos dos inconfidentes de Minas, fazem da literatura uma arma com alvo mais bem definido que para o “boca do inferno”, por exemplo, porque concentrados en- torno de uma intenção, que era a independência financeira de Portugal. logo após, vemos a inconfidência Baiana emergir e, já no século XiX, a revolução Pernambucana, quando enfim desencadeia-se a independência “definitiva” para as terras brasileiras. A partir daí, vemos nascer o romantismo, a poesia pátria de gonçalves dias e o romance de José de Alencar, e, inclusive, a busca de heróis pátrios com o romance indianista. A influência ainda é europeia, francesa, inglesa, principalmente na segunda fase romântica, com o mal do século, com autores como Álvares de Azevedo e Junqueira Freire, inspirados em escritores como lord Byron, charles Baudelaire e Victor Hugo. e a preocupação social toma as rédeas com a terceira fase, representada por castro Alves, o libertário. sob inspiração, crescíamos, em busca de nossa identidade. em contraste à literaturamaniqueísta romântica, depois da metade do século XiX, vemos emergir o realismo com um imenso escritor, Machado de Assis, que parece firmar uma literatura firmada em genuína verve brasileira, com temas mais nossos. e a era contemporânea dava margem a uma insur- gência quase antitética: A literatura parnasiana em contraste com a literatura simbolista, esta aqui representada com supremacia por cruz e souza, um de- gredado, filho de escravos, que obteve ensino acadêmico ao ser tutelado por senhores brancos. e, ao porvir de todas essas manifestações em busca de nossa veia literária, a semana de Arte Moderna de 1922 instaura a mais independente revolução já vista por aqui. A partir dela, firmam-se escritores como Oswald e Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Manuel Bandeira, sousândrade. Mais além, a geração de 30, representada sumamente na poesia por carlos drummond de Andrade, vê nascer um romance crítico naturalista, seco em sua linguagem, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES106 literAtUrA BrAsileirA i e ii e PrÁticA de ensinO de literAtUrA nO ensinO MÉdiO imerso em terras áridas, com raquel de Queiroz, graciliano ramos, José lins do rego e, também, o gaúcho Érico Verissimo, entre outros. O romance par- te para um campo mais psicológico na dita geração de 45, com clarisse lis- pector e João guimarães rosa, também entre outros. A poesia, nessa fase, vê crescerem nomes como João cabral de Melo neto, cecília Meireles, Vinícius de Morais... Por fim, a contemporaneidade é abordada com nomes como Ferreira gullar, dalton trevisan, raduan nassar, cristovão tezza, Arnaldo Antunes, Paulo leminski, Helena Kolody, traçando um panorama, embora conciso, mas abrangente, em busca do máximo conhecimento sobre nossas atuais tendên- cias literárias. Para a prática de ensino, a preocupação com as teorias que permeiam o estudo da literatura foi suma, legando, contudo, grande concentração à estética da recepção, sempre em busca do respeito ao leitor, ao estudante, fazendo emergirem dele as rédeas do ensino. Porque a literatura Brasileira, em nosso curso, queria surgir de dentro para fora. O professor como um críti- co mediador do conhecimento, mas também como um curador de obras, as quais pudessem surtir efeito na vida de seus discentes, para que estes fossem capacitados a ir além das teorias, partir ao seu próprio coração apaixonado, tornando-se leitores assíduos, se possível. e, ao que tange ao grupo discen- te atendido, parece-nos que o êxito foi alcançado, diante dos seminários e dos estágios que vimos efetuarem-se, sempre preocupados e responsáveis, amparados pelo senso crítico e, sobretudo, movidos pelo pathos dos textos aplicados e partilhados, deixando-nos, ao fim, orgulhosos com os resultados. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 107 A PrÁticA de ensinO e A FOrMAçãO dO PrOFessOr de lÍngUA POrtUgUesA A PRÁTICA DE ENSINO E A FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE LÍNGUA PORTUGUESA luciane Watthier O curso de segunda licenciatura em letras PArFOr - língua Portugue- sa e respectivas literaturas - campus de cascavel, por se tratar de formação de professores, possui, em sua grade, quatro disciplinas voltadas diretamente à prática de ensino. são elas: Prática de ensino e estágio supervisionado de literatura infantil e Juvenil no ensino Fundamental; Prática de ensino e está- gio supervisionado em língua Portuguesa no ensino Fundamental; Prática de ensino e estágio supervisionado de literatura no ensino Médio; e Prática de ensino e estágio supervisionado em língua Portuguesa no ensino Médio. Ao construirmos um curso de segunda licenciatura com quatro discipli- nas voltadas diretamente à prática de ensino, mesmo levando em considera- ção que a maior parte dos alunos é constituída por professores já atuantes no ensino, expomos nossa compressão acerca da formação de professores: não se trata de uma ação acabada, mas, sim, de uma ação que deve sempre ter o caráter de formação continuada. nas palavras de costa Hübes: (...) traduzo a formação continuada como um ato continuum, como for- ma de educação permanente, pessoal e profissional, objetivando o de- senvolvimento da profissão docente, cunhando-se, portanto, a expres- são “formação continuada de professores” (cOstA-HÜBes, p. 2008, 23) em outras palavras, atuar como docente em uma segunda licenciatura significa, em primeiro lugar, reconhecer e aceitar a diversidade de vozes e de ações docentes já construídas e postas em prática pelos professores matri- culados no curso. em segundo lugar, significa compreender que a formação desses alunos, na segunda licenciatura, tomará tais vozes e ações docentes como ponto de partida e, dessa forma, visará não à sua substituição, à sua ne- gação ou, tão somente, à sua complementação. nesse sentido, a formação em ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES108 A PrÁticA de ensinO e A FOrMAçãO dO PrOFessOr de lÍngUA POrtUgUesA segunda licenciatura pode ser inscrita “como um espaço de desenvolvimen- to ao longo da vida profissional, comportando objetivos, conteúdos, formas organizativas diferentes daquela, e que tem seu campo de atuação em outro contexto” (cOstA-HUBes, 2008, p. 23). A partir de tal compreensão, é que construímos e ministramos as aulas das disciplinas de Prática de ensino e estágio supervisionado em língua Por- tuguesa no ensino Fundamental e de Prática de ensino e estágio supervisio- nado em língua Portuguesa no ensino Médio. Buscamos, pois, levar a outros contextos de ensino, a outros objetivos e a outros conteúdos e os conheci- mentos dos professores matriculados no curso. Para melhor visualizarmos como esse objetivo foi desenvolvido, apresentamos, a seguir, o conteúdo programático das referidas disciplinas por nós ministradas: Quadro 1- conteúdo Programático das disciplinas de Prática de ensino e es- tágio supervisionado em língua Portuguesa no ensino Fundamental: 1- O ensino de língua Portuguesa. 2- concepção sociointeracionista de linguagem, língua e ensino. 3- Os gêneros discursivos/textuais como objeto de ensino da língua portuguesa. 4- Metodologia de trabalho com os gêneros: 4.1 leitura; 4.2 Análise linguística; 4.3 Produção textual escrita; 4.4 reescrita textual. 5- seminário de avaliação das atividades de estágio, compreendendo sua dimen- são teórica e prática. Quadro 2- conteúdo Programático das disciplinas de Prática de ensino e es- tágio supervisionado em língua Portuguesa no ensino Médio: 1- O ensino de língua Portuguesa no ensino Médio; 2- documentos oficiais para o ensino de língua Portuguesa no ensino Médio; 3- concepção interacionista de linguagem, língua e ensino; 4- Os gêneros discursivos/textuais como objeto de ensino da língua portuguesa; 5- Metodologia de trabalho com os gêneros no ensino de língua Portuguesa no ensino Médio: 5.1 leitura; 5.2 Produção textual oral e escrita; 5.3 reescrita textual; 5.4 Análise linguística. 6- seminário de avaliação das atividades de estágio, compreendendo sua dimensão teó- rica e prática. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 109 A PrÁticA de ensinO e A FOrMAçãO dO PrOFessOr de lÍngUA POrtUgUesA conforme pode ser visualizado, todos os conteúdos ministrados e leva- dos para discussão visavam a uma discussão teórica sem perder de vista a prática de ensino. Ao se falar da prática de ensino, é necessário, segundo geraldi (1997, 1984), a resposta a duas perguntas: para que ensinamos o que ensinamos? Para que as crianças aprendem o que aprendem? A partir disso, definimos a concepção de linguagem que fundamenta a nossa prática de ensino: lin- guagem como expressão do pensamento, linguagem como instrumento de comunicação ou linguagem como interação1, sendo, esta última, o foco de grande parte de nossas aulas. dessa forma, tomamos a linguagem como ação, como interação (BAKHtin/VOlOcHinOV, 2004). logo, centramos as discus- sões na ideia de que o ensino da língua portuguesatambém deveria ocorrer por meio da interação, o que significa trabalhar com gêneros discursivos, vi- sando a atividades que visam à ampliação da linguagem no que diz respeito à leitura, à produção textual oral e escrita e à reescrita textual, práticas permea- das, sempre, pela análise linguística. Outro importante ponto priorizado foi a leitura e a discussão dos docu- mentos oficiais que fundamenta o ensino da língua portuguesa: Pcn – Parâ- metros curriculares nacionais (BrAsil, 1998) – e dce – diretrizes curriculares estaduais (PArAnÁ, 2008) – para o ensino Fundamental; OcM – Orientações curriculares para o ensino Médio. dessa forma, pudemos refletir como se da- ria o ensino da disciplina de formação do curso de acordo com o que pregam tais documentos e, ao mesmo tempo, realizar uma leitura com perspectiva crítica, visando à identificação até mesmo de pontos problemáticos dos re- feridos textos, além de produzir planos de aula e apresentá-los para a turma, para discussão coletiva e, quando necessário, reescrita. Finalizando ambas as disciplinas, realizamos os seminários de avaliação das atividades de estágio, quando os alunos matriculados apresentaram os trabalhos realizados em seus estágios e fizeram importantes considerações sobre a prática de ensino (30 horas/aula no ensino Fundamental e 30 horas/ aula no ensino Médio). Foi-nos, pois, relatado que ela é fundamental para a formação do professor, mesmo que de segunda licenciatura, haja vista que proporciona a vivência real de suas atividades profissionais futuras. 1 Para maiores reflexões acerca das concepções de linguagem e o ensino da língua portuguesa, sugeri- mos a leitura do texto de autoria de Perfeito (2005) indicado nas referências bibliográficas. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES110 A PrÁticA de ensinO e A FOrMAçãO dO PrOFessOr de lÍngUA POrtUgUesA REFERÊNCIAS BAKHtin, M; VOlOcHinOV, V. n. [1929]. Marxismo e filosofia da linguagem: pro- blemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. trad. Michel lahud e Yara F. Vieira. 11. ed. são Paulo: Hucitec, 2004. cOstA-HUBes, t. c. o processo de formação continuada dos Professores do oeste do Paraná. Um resgate histórico-reflexivo da formação em língua portuguesa. tese de doutorado. londrina: Universidade estadual do londrina (Uel), 2008). gerAldi, J. W. Portos de Passagem. são Paulo: Martins Fontes, 1991. gerAldi, J. W. (org.). o texto na sala de aula: leitura & produção. cascavel: AssO- este, 1984. PerFeitO, A. M. concepções de linguagem, teorias subjacentes e ensino de língua portuguesa. in: Concepções de linguagem e ensino de língua portuguesa (formação de professores Ead 18). v.1. ed. 1. Maringá: edUeM, 2005. p 27-79. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 111 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente A SIGNIFICAÇÃO DA vOZ E DO SILÊNCIO DOS POvOS EMUDECIDOS HISTORICAMENTE edina boniatti Eu negro Areia movediça na anatomia da miséria Pano-pra-manga na confecção apressada da humanidade (...) Eu feito de sangue e nada De Amor e Raça De alegrias explosivas no corpo do sofrimento e raça Ponto de encontro das reflexões vacilantes da história Esperança fomentada em fome e sede (...) (Cuti, Poemas da Carapinha) A voz do poeta luiz silva (cuti), destacada em epígrafe, evidencia três pontos essenciais de reflexão acerca da história da presença negra num país que fora escravista como o nosso: a miséria de seu povo, a exploração da força do trabalho e a necessidade de reflexão e transformação. e além de revelar a importância e função pedagógica de uma disciplina acadêmica denominada literatura Afro-Brasileira e indígena, faz-me lamentar a ausência dessa disci- plina em minha graduação. É fato que as escolhas ideológicas do professor são fundamentais para a postura que este assume no contexto de sala de aula e é fato também que a formação acadêmica é de suma importância no pro- cesso de sua formação ideológica. Obviamente que se trata de uma formação que não se finda nos bancos acadêmicos e deve prolongar-se ao longo de toda a atuação profissional do professor. contudo, percebo o quão me fez falta a prolongada ausência de leitura de autores que expõem, pela voz vivida, “o grito negro” de repulsa e revolta. Oxalá! Há alguns anos, a urgência histórica de superação das contra- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES112 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente dições da humanidade fez emergir e pulsar essas vozes que, desde a década de 50, começaram a assumir as formas escritas da poesia, do conto, do roman- ce e nos trouxe o desafio de levá-las até os nossos alunos. Para exemplificar a relevância de enfrentarmos com seriedade esse desa- fio, detenhamo-nos, um pouco mais, sobre as palavras do poeta em epígra- fe. Primeiramente, ele comunica “eu negro/Areia movediça na anatomia da miséria”, expressando mediante a elaboração metafórica o estado de alma daquele que, de perto, conhecera “a anatomia” da miséria. Observemos que a força dessa metáfora se revela no significado da palavra “anatomia”, que remete ao estudo microscópico e macroscópico do corpo humano por meio da dissecação deste após a morte. Assim, a venda cultural da mistificação é retirada dos olhos do leitor, e ele se vê frente a uma morte em vida. entretan- to, essa morte em vida, essa sobrevida, foi experimentada exatamente por aquele que fora o “Pano-pra-manga na confecção apressada da humanida- de”. Uma humanidade não construída pela força do lavoro coletivo em prol do bem-estar de todos, mais sim às pressas com base na exploração do traba- lhador exposto a um esforço físico colossal e visando ao bem-estar do capital e de seus detentores. e é ora numa atitude de subserviência e aceitação do sofrimento e ora numa atitude de resistência, revolta e luta que os povos silenciados no decur- so do tempo se tornam “ponto de encontro das reflexões vacilantes da histó- ria”. Aqui o poeta demarca a instabilidade nos discursos e nas ações sócio-his- tóricas, colocando-nos frente aos avanços libertários e aos encarceramentos conservadores. todavia, se é na palavra e pela palavra que despontam as rea- lizações que parecem utópicas, como enfatiza Bakhtin em Marxismo e filosofia da linguagem, busquemos nas palavras e nos silêncios desse outro, afro-bra- sileiro e indígena, no qual não nos reconhecemos, mas cientes que estão em nós e nós neles, a declaração de urgência de mudança social, cultural e econô- mica no que concerne ao papel a eles reservado historicamente. nesse sentido, a disciplina voltou-se para a necessidade de entender, por meio de textos literários do século XVi ao século XX, os processos de constru- ção enunciativa do colonizador que contribuíram para uma visão discrimina- tória do indígena e do afrodescendente. Para tanto, a perspectiva do olhar na releitura dos textos direcionou-se para as marcas discursivas responsáveis pela estereotipação na representação ficcional desses personagens históricos. A seleção de textos feita para essa leitura foi a seguinte: a Carta de achamen- to, do escrivão Pero Vaz de Caminha; a obra épica árcade O Uraguai, de Basílio ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 113 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente da gama; o poema romântico Juca Pirama, de gonçalves dias, e o romance romântico Iracema, de José de Alencar; os contos O caso da vara e Pai contra mãe, de Machado de Assis; o conto Negro Bonifácio, de simões lopes neto. entre os estudos dos significados enunciativos dessas obras, buscamos refletir especialmente sobre as questões identitárias da América latina, bem como discutir o etnocídio resultante dos processos colonizadores grafados nas páginas literárias. essas reflexões teóricas foram sendo elaboradas de for- ma associada a metodologias de ensino para o trabalho desses aspectosnos ensinos Fundamental e Médio. Posteriormente, estudamos as diferenças en- tre as literaturas indianista, indigenista e indígena, bem como alguns apon- tamentos sobre os diferentes pontos de vista teóricos no que concernem às literaturas indianista e indigenista, embora o objetivo não fosse aprofundar nas discordâncias teóricas dos críticos literários. todos esses estudos foram de suma importância para entendermos o modo como cada uma dessas formas literárias representa posturas ideológi- cas distintas e termos um senso crítico mais aguçado no momento de esco- lhermos materiais pedagógicos como livros didáticos e textos para leitura em sala de aula; além da escolha de formas pedagógicas adequadas na aborda- gem dos textos. na construção desse processo reflexivo, foi muito importante a leitura de textos que tratam da descolonização do pensamento; entre eles: Resistência e intervenção nas literaturas pós-coloniais, de thomas Bonici, e Arqueologia da violência – pesquisas de antropologia política, de Pierre clastres. essas leituras nos permitiram uma melhor compreensão sobre as histórias não contadas dos negros e dos indígenas e prepararam a focalização do olhar para a leitura dos textos literários afro-brasileiros e indígenas da década de 50 até a con- temporaneidade. textos que demarcam, indubitavelmente, o momento da história em que o locus enunciativo passa a ser o dos povos silenciados na voz e na expressão de seus lastros culturais. Agora, o objetivo se volta para o estudo de textos e formas metodoló- gicas que nos conduzam a levar a voz desse outro para o âmbito escolar e contribuir – por meio do entendimento de suas especificidades socioculturais – para a superação de pensamentos discriminatórios e preconceituosos, tão recorrentes no contexto da sala de aula. Ademais, houve o reconhecimento por parte das alunas do Parfor de que vozes como a de carolina Maria de Jesus, relatando a cor da fome (amarela) por quem a sentiu, em sua literatura afro-brasileira, e de daniel Munduruku, retratando mitos, percepções, medos, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES114 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente visões de mundo, em sua literatura indígena, são essenciais no âmbito da es- cola como elementos sensibilizadores para a educação das relações étnico-ra- ciais que os educandos desenvolverão no cotidiano da sala de aula e da vida além dos muros escolares. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 115 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente PARTE 3 TEMAS INTERDISCIPLINARES ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES116 A signiFicAçãO dA VOZ e dO silÊnciO dOs POVOs eMUdecidOs HistOricAMente ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 117 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA FIGURAÇÃO E TEMATIZAÇÃO EM TEXTOS DO GÊNERO LENDA madalena benazzi meotti valdeci batiSta de melo oliveira INTRODUÇÃO como é sabido, a etiqueta semiótica “folk-lore”, no português “folclore”, foi criada pelo arqueólogo inglês Willian John thoms, quando, em 1846, es- creveu uma carta para a revista The Athenaeum, de londres, na qual criava o neologismo, com a junção das palavras inglesas “folk” e “lore” (povo e saber). A partir dessa carta, nascia o conceito de folclore, que passaria a denominar um campo de estudos, anteriormente, identificado como “antiguidades po- pulares” ou “literatura popular”. Após essa data, o termo passou a ser larga- mente utilizado pelos antropólogos e estetas, governos e instituições volta- das à cultura, para com ele significar o conjunto das expressões figurativas e criações culturais de uma determinada comunidade, grupo ou etnia. todas elas baseadas em criações simbólicas das tradições, que figurati- vizavam a vida social desses grupos e eram representativas da sua identidade social, pela sua aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade e funcio- nalidade, o folclore passa a ser o continuador da memória, e repositório das práticas sociais resultantes da cultura e imaginário. Burke (1989) atrelado às classes populares, o folclore se materializa e é veiculado em histórias, lendas, provérbios, costumes, superstições, parlendas e outros artefatos da cultura popular, que figuram as fantasias, os devaneios, as carências, os óbices, bus- cas e estratégias de resolução e saídas encontradas para estes percalços no plano do simbólico. O folclore é a matéria vertente de onde também brotam outras artes, quer sejam performadas na esfera da cultura popular, como é o caso das len- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES118 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA das e da literatura de cordel, quer sejam na esfera da cultura letrada, como é o caso do maior ícone da cultura sertaneja e literatura regionalista, o romance grande sertão: veredas1. e isso ocorre porque o folclore é a forma vicária da esperança e sonho acordados, tanto das individualidades, quanto das co- letividades, que fazem do folclore o espantalho dos medos e pesadelos da vida social que pulsa e da vida social antecipada em ganas de vir a ser. no Brasil, para valorizar e fazer uma recolha desses artefatos estéticos populares, foi necessário o olhar, o carinho e a contribuição de luís da câmara cascudo (1978), que a eles dedicou uma vida de pesquisa e para quem a literatura oral que a contém é manifestação da tradição popular, em suas características so- cioculturais e perpetuadas pela memória (oral e escrita) de elementos dos três povos que constituíram a nacionalidade brasileira: o índio, o negro e o branco. da mistura e sincretismo das culturas e vida social dessas etnias e de seu ima- ginário nasceram cantos, danças, contos, cantigas, lendas, anedotas, histórias etc., cujas origens se perdem nos tempos e nas pessoas comuns que as efabu- laram, as conservaram e as compartilharam. segundo cascudo (1967), [...] o folclore sendo uma cultura do povo é uma cultura viva, útil, diária, natural. (...) como o povo tem senso utilitário em nível muito alto, as coisas que vão sendo substituídas por outras mais eficientes e cômodas passam a circular mais lentamente, sem que de todo morram (cAscU- dO, 1967, p. 12). essa cultura viva, quer abranja âmbito nacional, como é caso do carnaval, quer restritas a cadinhos perdidos nos sertões, como é o caso das xilogravu- ras postas na literatura de cordel, são também elo de compartilhamento das histórias e das culturas de um país ou de localidade, como uma forma de or- ganização da experiência e ampliação do horizonte de expectativas, preserva- ção da identidade étnico-cultural, repasse dos valores e tradições e animação dos afetos e das energias vitais. Para esse autor, o uso da comunicação ver- bal para explicar, ensinar, entreter, é uma habilidade natural do ser humano, explicando os motivos pelos quais a literatura oral é preponderante na vida cotidiana. destaca-se que embora o folclore seja de cariz popular, nem toda produção popular é folclórica, e sim aquelas que entram na composição de conjunto de acontecimentos que se referem aos usos, costumes, crenças, su- perstições, cerimônias conservadas em um povo. nesse sentido, podemos ver que o folclore 1 João guimarães rosa. grande sertão: veredas. rio de Janeiro: nova Aguilar, 1994. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 119 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA É o conjunto de tradições e manifestações populares constituído por lendas, mitos, provérbios, danças e costumes que são passados de geração em geração. A palavra tem origem no inglês, em que “folklore” significa sabedoria popular. A palavra é formada pela junção de folk (povo) e lore (sabedoria ou conhecimento). O folclore simbo- liza a cultura popular e apresenta grande importância na identidade de um povo, de uma nação. Paranão se perder a tradição folclórica, é importante que as manifestações culturais sejam transmitidas através das gerações2. Vemos aqui que a cultura popular é o berçário dos mitos que se perpetu- am na oralidade, ou nas recolhas dos poetas repentistas e amantes das letras. A cultura erudita encontra neles seus temas, motivos, imagens e narrativas plasmando-os entre as poéticas que rompem com o dado local para atingir a universalidade de seus achados. LENDAS E MITOS: DISTINÇÃO ENTRE PRIMOS O folclore deve-se constituir em conteúdo escolar por diversos motivos que estimulem e fortaleçam a relação do que é forma e conteúdo no folclo- re à vida do aluno. Os temas e figuras vividos no folclore dizem respeito a práticas e expectativas e experiências, valores e afetos humanos, vividos co- letivamente na vida social e na experiência pessoal do aluno. nesse sentido, estudar o folclore possibilita ao mesmo tempo refletir e experienciar o vivido, o pensado e o imaginado de histórias, contos, mitos, lendas, veiculadas pela narrativa oral. Para esta proposta, escolhemos as lendas pela sua riqueza e expressividade da vida social nelas aninhadas. Podemos dizer que nelas os alunos podem configurar a peculiar configuração de significados e comportamentos que os alu- nos e as alunas elaboram de forma particular, induzidos por seu con- texto, em sua vida prévia e paralela à escola, mediante os intercâmbios “espontâneos” com o meio familiar e social que rodeiam sua existência. A cultura do estudante é o reflexo da cultura social de sua comunidade, mediatizada por sua experiência biográfica, estreitamente vinculada ao contexto (PÉreZ, 2001, p. 203). nesse sentido, em sala de aula, é importante o professor proceder um resgate das tradições, costumes, histórias, crendices etc., que fazem parte do contexto vivido pelo aluno, ou seja, possibilitar a reflexão da cultura popular 2 disponível em: Acesso em 12 out. 2015. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES120 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA do local, as quais compõem o folclore de onde se está inserido. Outra pro- posta possível é entrevistar pessoas mais idosas da comunidade para que re- latem causos, histórias, mitos, lendas, crendices que conhecem, de modo a perceberem o que ainda persiste no que conhecem atualmente e o que as pessoas falavam de tempos passados. É um resgate de valores e costumes vividos e pertencentes à realidade social em que se está inserido. em seguida, é possível ingressar no campo específico de lendas e mitos que circulam em contextos mais amplos. As lendas, no princípio, surgiram como forma de retratar a vida de santos e mártires religiosos; contudo, ingressaram no cotidiano da população e evo- luíram para o relato de fatos históricos, fruto do imaginário popular, em que a figura do herói irá refletir os anseios desse povo. As lendas constituem-se em narrativas orais populares, no entanto, tor- nou-se relevante estabelecer uma distinção entre mito e lenda, pois pode- se dizer que há contrapontos e diferenciações entre ambos, mas há ligações também. na lenda ainda permanecem elementos constitutivos das forma- ções míticas. nesse aspecto, Barthes (2001) estabelece que: “O que o mundo fornece ao mito é um real histórico, definido, por mais longo que se recue no tempo, pela maneira como os homens produziram ou utilizaram; e o que o mito resti- tui é uma imagem natural deste real” (BArtHes, 2001, p. 163, grifos do autor). dessa forma, a qualidade histórica das coisas e fatos são eliminados no mito, perdendo memória de sua produção. Para Barthes (2001, p. 163), a sociedade é “o campo das significações mí- ticas”, pois o que “o mundo fornece ao mito é um real histórico, definido, por mais longe que se recue no tempo, pela maneira como os homens o produ- ziram ou utilizaram; e o que o mito restitui é uma imagem natural desse real”. nesse sentido, [...] o mito confere aos atos humanos a simplicidade, organizan- do um espaço sem contradições, sem profundidade, sem essencialidade, onde as coisas parecem estar impregnadas de significado por si próprias. A função do mito é evacuar o real” (BARTHES, 2001, p. 163). Portanto, para Barthes, a função do mito não é a de negar as coisas, mas falar delas, no entanto, ao fazê-lo, purifica, inocenta, fundamenta em realida- de e em eternidade. Assim, retomando o conceito de Barthes, o autor ainda estabelece que “mito é uma fala” (BArtHes, 2001, p. 131), não se constituindo numa fala qualquer, “mas que se deve estabelecer desde o início é que mito é um sistema de comunicação, é uma mensagem”. (BArtHes, 2001, p. 131) ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 121 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA entretanto, de acordo com o autor, são necessárias condições específicas para que essa mensagem se torne mito. Vernant, ao tratar do mito estabelece que o mito não é uma vaga expressão de sentimentos individuais ou de emoções populares: é um sistema simbólico institucionalizado, uma conduta verbal codificada, veiculando, como a língua, maneiras de classificar, de coordenar, de agrupar e contrapor os fatos, de sentir ao mesmo tempo semelhanças e dessemelhanças; em suma, de organizar a experiência. no e pelo mito, como em e por uma língua, o pensamento se modela exprimindo-se simbolicamente, ele se coloca ao mesmo tempo que se impõe (VernAnt, 1999, p. 216). O mito, na perspectiva de Jean-Pierre Vernant, passa a ser compreendido como relato, tradição, elemento do social, construção da espiritualidade hu- mana e manifestação de um povo. de acordo com sperber (2009), podemos conceituar mito como (...) uma interpretação da natureza, fase preliminar da filosofia na medi- da em que procura uma explicação – conhecimento – do mundo. como o mito é a resposta a uma pergunta implícita, esta resposta apreende os elementos sobre os quais se interroga e os reúne em um aconteci- mento – que tem função alegórica. [...] A linguagem do mito é cifrada, sinalizando o mistério e sua revelação (saber). Por isso as palavras, no mito, têm função simbólica, cuja interpretação se dá também por ana- logias. O tempo mítico, aquele que existe nas narrativas míticas, não é histórico. sua anistoricidade parece-se com a dos contos de fadas, mas não representa a psique humana. representa o universo e as condições de existência e de sobrevivência do ser humano. [...] sua forma corres- ponderia à resposta oferecida pelo oráculo (portanto pela divindade) a uma pergunta formulada pelo homem (sPerBer, 2009, p. 266-267). nessa perspectiva, o mito constitui-se numa metáfora que possibilita a reconstrução das diversas maneiras de existir e das diferentes atividades hu- manas, tornando-se uma resposta, não de forma lógica e racional, que mostra ou ensina preceitos estabelecidos pelas divindades e que por meio desses ensinamentos, as pessoas alcançariam a felicidade, mesmo que esta estaria a porvir (MOUrA, 2013). sperber (2009) estabelece uma diferença entre os personagens no mito e lenda. enquanto no mito, o personagem principal recebe punição e castigo, nas lendas alguns personagens são os punidores e infundem o medo. nas lendas, os personagens podem ser constituídos somente como re- construções e representações de pessoas que vivem socialmente, portanto, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES122 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA não estão submetidos aos infortúnios das divindades, mas estão submetidos às convenções e às normas sociais. Ainda estabelecendo um contraponto entre o mito e a lenda, é possível verificar a forma como se organiza o discurso. enquanto o mito vale-se de me- táforas, simbologias, imagens, com construções recheadas de abstrações e in- versões, a lenda, mesmo valendo-se de recursos metafóricos e da simbologia, possui uma linguagem mais direta, numa construção decerta forma canô- nica, constituindo uma representação do costume, crenças, hábitos, folclore, incorporados e constituídos de sentido numa comunidade (MOUrA, 2013). em sala de aula, é importante que os alunos percebam essa diferença entre mito e lenda fazendo a leitura de textos desses gêneros. Para isso, a internet é uma ferramenta que contribui de maneira efetiva, possibilitando uma gama variada de textos. entretanto, cabe ao professor mediar essa leitura, estabele- cendo os contrapontos e semelhanças, direcionando o processo de ensino e aprendizagem. com o objetivo de refletir mais sistematicamente sobre a lenda, busca- mos conceituar, pautados em Moisés (1992), que: lendA - latim legende, coisas que devem ser lidas. designa toda nar- rativa em que um fato histórico se amplifica e se transforma sob efei- to da imaginação popular. [...] A lenda distingue-se do mito na medida em que este não deriva de acontecimentos e faz apelo ao sobrenatural (MOisÉs, 1992, p. 305). Para nunes (2008), lenda é Uma narrativa fantasiosa transmitida pela tradição oral através dos tem- pos. de caráter fantástico e/ou fictício, as lendas combinam fatos reais e históricos com fatos irreais que são meramente produto da imaginação aventuresca humana. com exemplos bem definidos em todos os países do mundo, as lendas geralmente fornecem explicações plausíveis e até certo ponto aceitáveis para coisas que não têm explicações científicas comprovadas, como acontecimentos misteriosos sobrenaturais (nU- nes3, 2008). de acordo com costa (2014), a lenda é narrativa ou crendice acerca de seres maravilhosos e encantatórios, de origem humana ou não, existentes no imaginário popular. trata-se de história (v.), [...], cheia de mistérios e fantasia, de origem no conto po- 3 nUnes, rosalina simão. textos da tradição oral. 2008. disponível em hpps://sites.google.com/site/ eportuguesrsn/Homo/recursos---apoio/apoio-recursos/textosdatradicaooral. Acesso em 06 jul. 2015. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 123 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA pular (v), que nasceu com o objetivo de explicar acontecimentos que teriam causas desconhecidas. na busca do maravilhoso, o ser humano sempre procurou dar sentido à movimentação dos astros, à migração dos animais, aos fenômenos naturais, etc. essa narrativa de caráter ma- ravilhoso pode também se referir a um fato histórico que, centralizado em torno de algum herói popular [...], se amplifica e se transforma sob o efeito da evocação poética ou da imaginação popular (cOstA, 2014, p. 158). As lendas, bem como os mitos, crendices, superstições etc., retratam a cultura popular, revelando o imaginário e toda beleza da cultura brasileira. câmara cascudo (1976) define as lendas como evento heroico ou sen- timental, em que aparecem elementos maravilhosos ou sobre-humanos, os quais são transmitidas por meio da linguagem oral e popular, localizada em tempo e espaço definido, por isso encontram-se lendas específicas da Amazô- nia, do nordeste ou sul do Brasil. não se sabe exatamente como surgiram as lendas, no entanto, essas histórias enfeitam e caracterizam um lugar. coelho (2003) afirma que as lendas: - são narrativas; - são textos que ora descrevem entes sobrenaturais, ora apresentam uma história; - referem-se a acontecimentos do “passado distante”, enfocando feitos de personagens, explicando particularidades anatômicas de certos ani- mais; - podem ser contadas por qualquer pessoa a qualquer momento; - podem transmitir os ensinamentos e os valores da sociedade à qual estão vinculadas; - apresentam regras de conduta; - explicam fenômenos da natureza (cOelHO, 2003, p. 12). de acordo com luís da câmara cascudo (1976), no Dicionário do Folclore Brasileiro, As lendas são episódio heroico ou sentimental com elemento maravi- lhoso ou sobre-humano, transmitido e conservado na tradição oral e popular, localizável no espaço e no tempo. de origem letrada, lenda, legenda, “legere” possui características de fixação geográfica e pequena deformação e conserva-se as quatro características do conto popular: antiguidade, persistência, anonimato e oralidade. É muito confundido com o mito, dele se distância pela função e confronto. O mito pode ser um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço, (cAscUdO, 1976, p. 378). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES124 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA dessa forma, pode-se caracterizar a lenda como uma narrativa de um fato histórico, que foi aumentado pela imaginação e fantasia de um determinado povo, de uma determinada região ou ainda uma narrativa oral de um deter- minado povo na busca de respostas a fenômenos ou fatos que não enten- diam o surgimento e não tinham uma explicação científica. Assim surgiram as inúmeras lendas nas aldeias indígenas, às margens dos inúmeros rios que cortam a região Amazônica. nesse momento, em sala de aula, possibilitar uma reflexão mais efetiva a respeito das lendas, que fazem parte do folclore brasileiro, constituindo assim o imaginário popular desse povo e que também caracterizam o nosso folclore. essa atividade poderá ser realizada com as len- das apresentadas na próxima seção. LENDAS AMAZÔNICAS As lendas amazônicas transmitem, de geração em geração, as histórias que começaram com os índios e que transmitidas oralmente, permanecem vivas no imaginário da vida social. Mesmo com o avanço da modernidade, ainda são muito presentes na região amazônica as crenças, mitos e lendas, criados ao longo do tempo e repassados uns aos outros (FeliPe, 2004). As lendas da Amazônia surgiram ao longo dos inúmeros rios que essa região possui. Há lenda que trata do próprio surgimento do rio Amazonas. conta a lenda que: Há muitos anos, moravam na selva amazônica dois noivos apaixonados que sonhavam ser um casal. Ela vestia-se de prata e seu nome era Lua. Ele vestia-se de ouro e o seu nome era Sol. Lua era a dona da noite e Sol era do dia. Havia um obstáculo para a namoro de ambos. Se eles se casassem o mundo se acabaria. O ardente amor de Sol queimaria a terra toda. O choro triste da Lua toda a terra afogaria. Apesar de apaixonados, como poderiam se casar? A Lua apagaria o fogo? O Sol faria toda a água evaporar? Apaixonados, se separa- ram e nunca puderam se casar. Os noivos ficaram tristíssimos. A Lua, de prata e o Sol, de ouro. No deses- pero da saudade, a Lua chorou durante todo um dia e uma noite. Suas lá- grimas escorreram por morros sem fim até chegar ao mar. Mas o oceano, bravio, não queria aceitar tanta água. A sofrida Lua não conseguiu mistu- rar suas lágrimas às águas salgadas do mar e foi assim que algo estranho aconteceu. As águas formadas com as lágrimas da Lua escavaram um imenso vale, onde também muitas serras se levantaram. Um imenso rio pareceu ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 125 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA inundando vales, florestas e lugares sem fim. Eram as lágrimas da Lua, que de tanta tristeza, formaram o rio Amazonas, o rio-mar da Amazô- nia4. como explicar o surgimento de um rio tão grandioso, como o rio Amazo- nas, senão através da figuração em lendas, que é a maneira que os povos da região entendiam, pela enorme tristeza da lua por não conseguir ficar com seu amado sol. Outras lendas surgiram à beira desse e de outros tantos rios que há na região norte do Brasil. entre elas, a lenda da boiuna, uma enorme cobra, que quando se mexe dentro das águas faz tremer os ribeirinhos. conta a lenda que essa cobra cresce de maneira descomunal e ameaçadora, acaba aban- donando a terra e habitando a parte mais profunda dos rios. Quando rasteja para a terra firme, os sulcos que deixa transformam-se nos igarapés. conta a lenda que a cobra-grande, ou boiuna, pode transformar-se em embarcações ou outrosseres. essa lenda vive em inúmeros contos indígenas que tratam dos seres dos rios. Outra lenda muito conhecida na região Amazônica trata do surgimento de outro ser do rio, mas agora uma planta:a vitória-régia, uma das maiores planas aquáticas do mundo. conta a lenda: Há muitos anos, em uma tribo indígena, contava-se que a lua (Jaci, para os índios) era uma deusa que ao despontar a noite, beijava e enchia de luz os rostos das mais belas virgens índias da aldeia - as cunhantãs-mo- ças. sempre que ela se escondia atrás das montanhas, levava para si as moças de sua preferência e as transformava em estrelas no firmamento. Uma linda jovem virgem da tribo, a guerreira naiá, vivia sonhando com este encontro e mal podia esperar pelo grande dia em que seria chamada por Jaci. Os anciãos da tribo alertavam naiá: depois de seu encontro com a sedutora deusa, as moças perdiam seu sangue e sua carne, tornando-se luz - viravam as estrelas do céu. Mas quem a impe- diria? naiá queria porque queria ser levada pela lua. À noite, perambu- lava pelas montanhas atrás dela, sem nunca alcançá-la. todas as noites eram assim, e a jovem índia definhava, sonhando com o encontro, sem desistir. não comia e nem bebia nada. tão obcecada ficou que não ha- via pajé que lhe desse jeito. Um dia, tendo parado para descansar à beira de um lago, viu em sua su- perfície a imagem da deusa amada: a lua refletida em suas águas. cega pelo seu sonho, lançou-se ao fundo e se afogou. A lua, compadecida, 4 disponível em http://noamazonaseassim.com.br/lenda-da-origem-do-rio-amazonas/ Acesso em 13 de out. de 2015. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES126 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA quis recompensar o sacrifício da bela jovem índia, e resolveu transfor- má-la em uma estrela diferente de todas aquelas que brilham no céu. transformou-a então numa “estrela das Águas”, única e perfeita, que é a planta vitória-régia. Assim, nasceu uma linda planta cujas flores per- fumadas e brancas só abrem à noite, e ao nascer do sol ficam rosadas5. no repertório das lendas da região norte do Brasil ainda há a lenda do curupira, um pequeno índio, com os pés voltados para trás, olhos verdes, que é protetor da floresta Amazônica, principalmente dos caçadores de animais e os que pretendem incendiar a floresta. diz a lenda que o curupira anda por todos os lugares e quando vê alguém querendo fazer mal à floresta, vai atrás dessa pessoa e faz com que aconteçam coisas imprevisíveis como o facão não cortar, o fósforo não acender, isso acontecendo pode saber: é coisa do curupira. são conhecidas ainda a lenda do uirapuru, uma lenda ornitológica, que trata de uma ave que possui um canto tão lindo que faz as demais aves da floresta se calarem. conta a lenda... O pássaro uirapuru tinha sido um jovem guerreiro índio, chamado Qua- raçá, pertencente a uma nação indígena da floresta amazônica. Quaraçá adorava passear pelas matas tocando sua flauta de bambu. ele era apaixonado por uma bela índia chamada Anahí, que era casada com o cacique da tribo. sofrendo muito pelo amor impossível, o jovem índio resolveu entrar no meio da floresta para buscar a ajuda do deus tupã. entendendo o sofri- mento de Quaraçá, tupã resolveu transformá-lo num pequeno pássaro colorido (vermelho e amarelo com asas pretas), para assim livrá-lo do sofrimento. Quaraçá, que ganhou o nome de Uirapuru, voou pela floresta com seu forte e lindo canto. toda vez que via Anahí, pousava e cantava para a jo- vem índia, que ficava maravilhada com o som daquele pequeno e lindo pássaro. O cacique da tribo também ficou encantado com o canto do pássaro e, com o objetivo de aprisioná-lo, se perdeu na floresta e nunca mais vol- tou. sozinha, restava a Anahí ouvir o canto de seu pássaro favorito. e ao jovem índio, agora transformado em pássaro, restava que a índia amada descobrisse quem ele era para desfazer o encanto6. Há ainda no contexto da região norte as lendas que tratam do surgimen- to do guaraná e da mandioca, ambas também advindas da cultura indígena 5 disponível em Acesso em 12 out. 2015. 6 disponível em: Acesso em 12 out. 2015. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 127 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA em que crianças morrem e no local onde são enterradas nascem plantas. na lenda do guaraná, é um menino que morreu e, na lenda da mandioca, é uma menina. em ambas as lendas, os indígenas atribuem ao deus tupã esse mila- gre. Outras lendas muito conhecidas são a do Boto e iara. A lenda do Boto vem acompanhada da descrição de um rapaz bonito, elegantemente vestido, de chapéu na cabeça e que, por ser altamente sedutor, conquista mulheres jovens e bonitas, casadas ou não, que se encontram às margens dos rios. na lenda, o elemento de sedução está ligado ao olhar. Por esse motivo, o olho do boto é usado como amuleto na arte da conquista pelos moradores da região amazônica. A lenda da iara é conhecida também pelo encantamento que exerce so- bre os homens através do olhar. iara é uma morena muito linda, de cabelos negros e olhos castanhos. Os homens que a veem banhar-se nos rios não con- seguem dominar seus desejos e atiram-se às águas. Muitos não voltam e, os que o fazem, voltam assombrados com o que viram. todas essas narrativas marcam as características de um povo que nasceu e vive na região norte do Brasil, onde a influência da cultura indígena é inten- sa, devido à grande quantidade de povos dessa etnia que vivem nessa região do país. TEMAS E FIGURAS NA CONSTRUÇÃO DAS LENDAS nos enunciados, as estruturas discursivas são possíveis de serem enrique- cidas pelos procedimentos semânticos de figuração e tematização, tornando as organizações discursivas complexas e específicas. Fiorin (1989) conceitua discurso como “um conjunto de temas e figuras que materializa uma dada visão de mundo” (FiOrin, 1989, p. 32). Fiorin (1989) estabelece uma diferenciação entre tema e figura. Para o autor, o tema diz respeito à natureza estritamente conceitual, que não remete ao mundo natural. Já a figura trata de termos que remetem a algo que existe no mundo natural e, assim, estabelece uma similaridade com a realidade e representam dessa forma o mundo. nesse sentido, os textos em que prevalece o tema, também denomina- dos temáticos, têm uma função representativa. Já os textos em que prevalece a figura – textos figurativos – têm função interpretativa. Ao tratar da figura- ção, esta possibilita, através de percursos figurativos, criar efeitos de sentidos. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES128 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA no entanto, o revestimento figurativo estabelece relação com o percurso te- mático. As figuras concretizam os temas que circulam nas diversas esferas de comunicação de uma sociedade. Para Fiorin, o tema é “um investimento semântico, de natureza puramen- te conceptual, que remete ao mundo natural” (FiOrin, 1989, p.65). temas, portanto, são denominados pelo autor como categorias que possibilitam a or- ganização, categorização, ordenação dos elementos do mundo natural. essa abstração é concretizada pelo revestimento figurativo que cria um efeito de realidade, pois constrói uma imagem do real e representa o mundo. É desco- brindo o tema subjacente às figuras que essas adquirem sentido. tanto o texto figurativo quanto o temático servem ao seu enunciador como possibilidade para expor sua opinião sobre um fato, na tentativa de convencer o receptor. A opção por uma ou por outra está lidado ao destina- tário de cada um deles. Assim, Fiorin (1989) corrobora afirmando que todo discurso é social; o enunciador manifesta-se na liberdade de textualização, na manifestação do discurso nos textos. em se tratando das lendas, as quais ocupam espaço no ideário maravi-lhoso de um povo, justamente pela capacidade de perdurar de geração em geração e é nessa existência na alma popular que vai adquirindo sentidos próximos da realidade local, são denominados de textos figurativos, ou seja, são usados pelos narradores elementos do mundo natural para explicar fatos ou fenômenos que não têm explicação em seu cotidiano. As lendas mantêm vínculos com a oralidade, enraizados na vida cotidiana, pois fazem parte do conhecimento de um determinado povo ou cultura. Para analisar uma lenda do ponto de vista da tematização ou figurativi- zação, não interessa isolar a figura ou o tema. Muito pelo contrário, porque mesmo sendo opostos, os dois elementos são complementares. Portanto, re- afirma-se, a inter-relação e a complementação entre o temático e o figurativo. O temático tem como função procurar explicar os fatos e as coisas do mundo, buscar classificar, ordenar e interpretar a realidade, e a figuração tem por fun- ção buscar elementos concretos (como bichos, gente, cores, sons etc.), para criar efeito de realidade através da construção de cena real, representando o mundo natural (FiOrin, 1989). selecionamos duas lendas, do contexto da região norte, para analisar através do recurso do procedimento de tematização e figurativização, como possibilidade de construção do sentido. essa atividade em sala de aula possi- bilitará ao aluno analisar nos textos os elementos que nele são figurativizados ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 129 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA para plasmar essas lendas amazônicas, para depois estabelecerem uma aná- lise de lendas mais próximas de seu contexto, percebendo e identificando os elementos do mundo concreto que foram utilizados para figuratizar o tema desses textos. de acordo com Fiorin (1989), a tematização e a figurativização são dois níveis de concretização do sentido. nesse aspecto, os textos tema- tizam o nível narrativo e a seguir esse nível temático poderá ou não ser figu- rativizado. na lenda selecionada, a lenda do rio Amazonas, será analisada a tematização e a figurativização do tema organizado pelo enunciador. FIGURATIvIZAÇÃO DO TEMA NA LENDA “RIO AMAZONAS” na lenda do rio Amazonas, tem como tema o amor impossível entre dois seres distintos; o sol e a lua. Para concretizar esse tema, o narrador utiliza-se de figuras do mundo real com a finalidade de construir a imagem dos apaixo- nados. A figurativização desse casal se dá na lenda pela descrição das diferen- ças entre eles: noite, dia, prata, ouro; essas diferenças tornaram o amor entre eles impossível, pois se ocorresse a união, o mundo se acabaria. são utilizados elementos da figurativização para caracterizar essa destruição como: quei- mar, afogar, fogo, água. A imagem que se forma a partir dessa figurativização remete a um amor impossível, reafirmando que, mesmo apaixonados, não poderiam viver seu amor. O que a lenda quer mostrar, em seu percurso figurativo, através da des- crição do amor do casal, que nada poderia uni-los, mesmo estando apaixona- dos. na sequência da lenda, ocorre o uso de outros elementos da figurativi- zação: choro, lágrimas, água, mar, morros e vales; para demonstrar que não haveria solução e o desespero da lua transformou-se em choro contínuo e abundante a ponto de formar um imenso rio, no caso, o rio Amazonas. na lenda, o uso das figuras possibilitou a construção do tema, o amor impossí- vel entre dois seres tão distintos, que na lenda se constitui na explicação dos povos indígenas da Amazônia para a formação do principal rio dessa região. Barros (2011) corrobora, afirmando que: Os valores assumidos pelo sujeito da narrativa são, no nível do discurso, disseminados sob a forma de percursos temáticos e recebem investi- mentos figurativos. A disseminação dos temas e a figurativização deles são tarefas do sujeito da enunciação. Assim procedendo, o sujeito da enunciação assegura, graças aos percursos temáticos e figurativos, a co- erência semântica do discurso e cria, com a concretização figurativa do ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES130 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA conteúdo, efeitos de sentido, sobretudo de realidade (BArrOs, 2011, p. 68). A lenda analisada organizou as figuras de forma a assegurar a coerência semântica do discurso, pois, no desfecho da narrativa, a explicação para o sur- gimento do rio Amazonas está atrelada às figuras utilizadas durante a narrati- va, para que o leitor, seguindo esse percurso, construísse sentido. CONSIDERAÇÕES FINAIS neste artigo, procuramos refletir a respeito do processo de leitura literá- ria no âmbito escolar. A fundamentação teórica que norteia toda essa ação pedagógica pauta-se na análise da figuração e tematização em textos do gê- nero lenda, por constituir um repertório rico desses elementos, os quais carac- terizam a cultura popular brasileira. Foi com esse objetivo que elaboramos a proposta de trabalho apresenta- da nesse artigo, a qual se constitui também como possibilidade de aplicação em sala de aula. dessa forma, buscamos aliar teoria e prática, no sentido de contribuir com o processo de ensino e aprendizagem da língua Portugue- sa, sem perder de vista o texto literário, pois consideramos de fundamental importância a presença deles na escola, possibilitando o letramento literário. esperamos contribuir para que mais iniciativas nessa perspectiva sejam elaboradas e aplicadas em sala de aula, a fim de melhorar a motivação na rea- lização das atividades e o letramento literário dos alunos. REFERÊNCIAS BArrOs, d. l. P. teoria semiótica do texto. 5ª edição. são Paulo: editora Ática, 2011. BArtHes, r. Mitologias. 11ª ed. rJ: Bertrand Brasil, 2001. BUrKe, P. a revolução francesa da historiografia: a escola dos Annales 1929-1989 / Peter Burke; tradução nilo Odália. são Paulo: editora Universidade estadual Paulista, 1989. cAscUdO, l. c. Literatura oral no brasil. 2ª edição. rio de Janeiro: ed. José Olímpio, 1978. cAscUdO, l. c. dicionário do folclore brasileiro. 9.ed. Brasília: José Olympio, inl, 1976. cAscUdO, l. c. folclore do brasil (pesquisas e notas) rio de Janeiro: Fundo da cul- tura,1967. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 131 FigUrAçãO e teMAtiZAçãO eM teXtOs dO gÊnerO lendA cOelHO, M. do c. P. as narrativas da Cultura indígena da amazônia: lendas e His- tórias. PUc – sP: sP, 2003. cOstA, s. r. dicionário dos gêneros textuais. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2014. FeliPe. c. o grande dicionário do folclore. Belo Horizonte: editora leitura, 2004. FiOrin, J. l. Elementos de análise do discurso. são Paulo: Ática, 1989. giMenO s.J.& PÉreZ g. A. i. Compreender e transformar o ensino. tradução de erna- ni F. da Fonseca rosa. 4. ed. Porto Alegre: ArtMed, 1998a. p. 54-65. MOisÉs, M. dicionário de termos literários. são Paulo: cultrix, 1992. MOUrA, H. l. M. atividades de referenciação em narrativas afiliadas ao univer- so do lendário da amazônia: implicações sociocognitivas e culturais. campinas, sP: UnicAMP. 2013. nUnes, r. s. textos da tradição oral. 2008. disponível em: https://sites.google.com/ site/eportuguesrsn/Home/recursos---apoio/apoiorecursos/textosdatradicaooral. Acesso em 06 jul. 2105. PÉreZ g. A. i. As funções sociais da escola: da reprodução à reconstrução crítica do conhecimento e da experiência. in: Compreender e transformar o Ensino. sAcris- tÁn, J. g; PÉreZ g. A. i. Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre: Artmed, 1998. sPerBer, s.F. ficção e razão: uma retomada das formas simples. são Paulo: ed. Huci- tec/Fapesp, 2009. VernAnt. J.P. Mito e sociedade na grécia antiga. trad. Myriam campello. rio de Janeiro: José Olympio, 1999. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES132 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres RELAÇÕES éTNICO-RACIAIS E FORMAÇÃO DE PROFESSORES patrícia andréia muniz aparecida de JeSuS Ferreira INTRODUÇÃO nestasúltimas décadas, o conhecimento histórico tem sido ampliado por pesquisas que têm transformado o campo de atuação, com questionamentos significativos sobre os condutores da história, isto é, indivíduos e classes so- ciais sobre quais povos que os estudos devem focar, sobre quais fontes docu- mentais que podem prevalecer. A história tem-se aproximado de outras ciências, em especial da antro- pologia, da psicologia, da sociologia e da própria educação, ciências que vêm ampliando os estudos sobre os povos de todos os continentes. A multiplici- dade de povos e de culturas em tempos e espaços diferentes é um objeto de estudo no qual a diversidade de vivências deve ser considerada no interior de uma sociedade com suas especificidades, pois a comunicação entre os ho- mens vai além da escrita, é oral, gestual, musical, rítmica e figurada. O estudo de diversos grupos sociais e de diversos povos nos trouxe outras concepções, rompendo com a ideia de um único grupo ou de um tempo contínuo e evolu- tivo para toda a humanidade. nesse confronto entre povos, grupos e classes, a realidade é moldada por descontinuidades políticas, por lutas, por perma- nências de costumes ou de valores e por transformações lentas ou rápidas. dessa forma, este artigo pretende discutir a formação de professores e a diversidade étnico-racial, buscando compreender as mudanças que a lei Federal nº 10.639/2003 e as diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações Étnico-raciais e o ensino de História e cultura Afro-Brasileira e Africana trouxeram para os profissionais da educação. essa discussão parte ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 133 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres das reflexões de Kabengele Munanga (1999), de silva e silvério (2003), de elia- ne cavaleiro (2001) e de silva Jr. (2002). e, finalmente, aponto, nas considerações finais, a necessidade de instru- mentalização do educador, da rediscussão constante do papel da escola e do seu discurso de igualdade, buscando relacionar competência técnica com compromisso político no trabalho dos educadores. FORMAÇÃO DE PROFESSORES E DIvERSIDADE éTNICO-RACIAL O Brasil é um país complexo e multifacetado, que possui diferentes cultu- ras e posições socioeconômicas. A partir dessa ideia, podemos compreender as relações étnico-raciais, afirmando a importância da diversidade na constru- ção da identidade nacional. Por isso é essencial que haja o respeito entre as diferentes culturas e formas de expressão, lembrando que essa compreensão não significa aderir aos valores do outro, e sim respeitá-los. A diversidade étnico-racial é um processo que faz parte da nossa huma- nização. ela pode ser considerada como uma das principais características marcantes, seja qual for a sociedade vigente, visto que esse processo é um constituinte de nossa formação como seres humanos e como sujeitos socio- culturais. todavia, e contraditoriamente, o tratamento apresentado a essa te- mática ainda é segregador e discriminatório no que se refere às diferenças como postura política e profissional, mas ainda, muitas vezes está ausente no que tange às práticas pedagógicas e aos vários processos de formação de professores e professoras, não contribuindo para a desconstrução de estere- ótipos negativos. segundo Aranha (1996, p. 198), a exclusão educacional é um processo histórico e de longa duração. nas últimas décadas, já superamos a exclu- são explícita do sistema formal dos tempos coloniais e avançamos para a “universalização do ensino”, mas a oferta de educação para todos, discurso corrente nas políticas governamentais, está longe de atender à nossa di- versidade sociocultural. A expansão do ensino e a consequente ampliação de vagas nas escolas públicas promoveram um fosso ainda maior entre os modelos de educação, fortalecendo a criação de uma escola dualista: a que oferece formação que pode-se estender até os graus superiores para uma elite e a que se restringe ao aprendizado elementar da leitura e da escrita e ao possível encaminhamento para profissionalização, reservada à maior parte da população. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES134 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres O problema da desigualdade e da discriminação racial no sistema escolar é visível e acontece nas relações professor versus aluno, aluno versus profes- sor e também aluno versus aluno. Mesmo assim, é muito comum a escola silenciar. segundo cavaleiro (2005, p. 11), “[...] a escola e seus agentes, os pro- fissionais da educação, em geral, têm demonstrado omissão quanto ao dever de respeitar a diversidade racial e reconhecer com dignidade as crianças e a juventude negra”. será que esse silêncio ocorre porque a escola não sabe ou não quer agir frente ao problema? não seria esse mais um mecanismo de manutenção das diferenças? seria isso um método educacional para ensinar a criança negra a “suportar” o racismo e a discriminação? A exclusão nas escolas lança as sementes do descontentamento e da discri- minação social, haja vista que nega o direito fundamental de cidadania. A com- pulsão existente para padronizar e eliminar as diferenças deveria ser substituída por um enfoque igualmente insistente em se fazer uso dessas diferenças para melhorar as escolas. Ocorre que, conforme silva (2005, p. 125), “[...] somos um país que publiciza a diversidade, mas não respeita a diferença”. Pensando no ambien- te escolar, gomes (2003, p. 73) afirma que “[...] refletir sobre a escola e a diversida- de cultural significa reconhecer as diferenças, respeitá-las, aceitá-las e colocá-las na pauta das nossas reivindicações, no cerne do processo educativo. reconhecer as diferenças implica romper com preconceitos, superar as velhas opiniões for- madas sem reflexão, sem o menor contato com a realidade do outro”. Quando as escolas são excludentes, o preconceito fica inserido na consci- ência de muitos alunos, o que acaba aumentando o conflito social. O processo escolar, o processo social e o processo racial não estão caminhando juntos, como deveriam, em prol da formação dos cidadãos. É importante que o pro- fessor tenha lucidez para trabalhar a temática, revendo os conteúdos e ade- quando-os de acordo com a realidade escolar. Para as crianças negras, o início da exclusão social é a exclusão escolar. Os professores, via de regra, não enxergam as graves diferenças existentes nos resultados escolares de crianças brancas ou negras, não estabelecendo rela- ções entre pertencimento racial, étnico ou de gênero e desempenho escolar, não percebendo como isso interfere na sua própria conduta. essa exclusão “[...] nega o direito elementar de cidadania, reproduzindo o círculo da pobreza e da marginalidade e alienando milhões de brasileiros de qualquer perspecti- va de futuro” (silVA Jr., 2003, p. 17). A escola frequentada pela grande maioria dos negros é a instituição pú- blica do bairro onde mora, nas periferias, onde os equipamentos educacio- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 135 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres nais são menos adequados, as estruturas físicas são precárias e a qualidade do ensino é inferior. Por que será que o ensino público ofertado em escolas localizadas em bairros periféricos é inferior? não seria uma forma inteligen- te de reproduzir a sociedade, conservando a exclusão da população negra e pobre? segundo Pinto (2003, p.17), “[...] a caminhada que um aluno faz desde que ingressa na primeira série do ensino fundamental até o acesso ao nível superior funciona como um grande filtro racial que privilegia os brancos e bloqueia os negros e pardos”. A falta de preparo dos professores para lidar com a diversidade étnico -racial contribui para o alto índice de evasão escolar dos alunos negros. isso acontece porque o processo pedagógico não reflete a sua face e a de sua família, com a sua história e cultura própria, impedindoENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES14 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... deve atender às necessidades do ensino escolar, pois essa contribui signifi- cativamente para a ampliação de ideias e do pensamento crítico, além de apresentar ao seu leitor as diversidades que existem na língua, aprimorando a linguagem. Formar sujeitos sociais, leitores da realidade em que se inserem e capa- zes de usar a leitura como instrumento indispensável à sua participação na construção do mundo histórico e cultural, implica garantir uma ação educacional voltada para o desenvolvimento da competência comuni- cativa do aluno da sua capacidade de interpretar construções simbó- licas, de modo que este se torne capaz de ler e pronunciar o mundo (Freire, 1982, p. 60). Assim, quanto mais contato com obras literárias a escola puder oferecer, mais estará contribuindo para formação do leitor, pois entende-se que a es- cola é o local propício para o desenvolvimento da leitura. Portanto, é impor- tante que os textos selecionados sejam significativos, podendo possibilitar o desenvolvimento do aluno. A respeito do que foi apresentado nas Diretrizes Curriculares do Estado do Paraná para a disciplina de língua Portuguesa na educação Básica, postula-se que: no processo de ensino/aprendizagem, é importante ter claro que quan- to maior o contato com a linguagem, nas diferentes esferas sociais, mais possibilidades se têm de entender o texto, seus sentidos, suas inten- ções e visões de mundo. A ação pedagógica referente à linguagem, por- tanto, precisa pautar-se na interlocução, em atividades planejadas que possibilitem ao aluno a leitura e a produção oral e escrita, bem como a reflexão e o uso da linguagem em diferentes situações. desse modo, sugere-se um trabalho pedagógico que priorize as práticas sociais (PA- rAnÁ, 2008, p. 21). Pensando nisso, escolhemos o conto “O arquivo” e a música “Faroeste ca- boclo”. Apesar de pertencerem a gêneros distintos, ambos os textos promo- vem uma discussão acerca da exploração de um indivíduo sobre outro, com o objetivo de obter lucro, ou seja, o sistema capitalista de produção. também levamos em conta que o público da escola na qual estagiamos pertence à classe trabalhadora, cujas vidas estão organizadas pelo estado que impõe as ideias da classe dominante como se fosse de interesse geral, criando um pen- samento único que só é possível devido à alienação da maioria da sociedade, sendo esse pensamento disseminado na atualidade, principalmente pelos meios de comunicação de massa. como afirma gramsci: ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 15 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... estes sistemas influem sobre as massas populares como força política externa, como elemento de força coesiva das classes dirigentes, e, por- tanto, como elemento de subordinação a uma hegemonia exterior, que limita o pensamento original das massas populares de uma maneira negativa, sem influir positivamente sobre elas, como fermento vital de transformação interna do que as massas pensam, embrionária e caoti- camente, sobre o mundo e a vida (grAMsci, 1999, p. 115). Por isso, entendemos que é importante promover um debate amplo so- bre as mazelas que o sistema é capaz de proporcionar, na expectativa de que os alunos se reconheçam enquanto sujeitos da classe proletária, podendo ter um olhar crítico sobre a organização da sociedade. NA SALA DE AULA iniciamos então o trabalho com o conto “O arquivo”. Primeiramente, bus- cou-se inteirar os alunos a respeito do gênero textual, apresentando suas ca- racterísticas, assim como o autor Victor giudice, mostrando sua biografia e importância desse autor para a literatura brasileira. O conto foi apresentado em multimídia em forma de vídeo, a partir de uma interpretação do texto pelo ator Antonio Abujamra. Após a exibição do vídeo, recapitulamos sua narrativa, ressaltando a es- trutura e questionando os alunos sobre o tema abordado no texto, para que também percebessem as estratégias utilizadas pelo autor para transmitir a sua mensagem e atrair o leitor. na sequência, explicamos que logo no início da narrativa ocorre uma si- tuação que provoca estranhamento, pois joão demonstra passividade diante das reduções e precarizações de suas condições de trabalho: no fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos. joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos pou- cos contemplados. Afinal, esforçara-se. não tivera uma só falta ou atra- so. limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe (giUdice, 2009, p. 382). então, procuramos tomar o termo “redução” como base de interpretação dos elementos significativos no texto, no qual tal palavra tem valor funda- mental na construção da narrativa, representando um processo de desumani- zação naturalizada. Ao longo do texto, essa desumanização ocorre de forma gradativa. Assim, exploramos por meio de discussões, as “reduções” das quais joão é submetido no decorrer da narrativa, a redução do salário, da moradia: ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES16 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... “com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor” (giUdice, 2009, p. 382); redução discursiva, na perda da palavra. Outro elemento bastante signi- ficativo no que se refere à “redução” é nome do personagem, cuja grafia está representada somente com letras minúsculas, sendo associada à reificação do trabalhador, que neste conto é representado de forma irônica, com objetivo criticar o sistema centrado no capital. Os alunos fizeram importantes observações referentes à exploração do trabalhador, citando o exemplo de pessoas que vivenciam essas situações e não manifestam reação no embate contra o sistema. Quando questionados a esse respeito, comentaram que “se reagirem, podem ganhar a conta”; “as pessoas têm medo de ser demitidas”etc. então, avançamos na discussão, bus- cando levar os alunos a compreender os motivos que levam as pessoas a se sentirem coagidas diante do chefe, que no conto é apresentado com carac- terísticas normais para os padrões de nossa sociedade; já joão é apresentado com sentido parcialmente invertido: “desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento. no- vos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança” (giUdice, 2009, p. 382). essa apresentação da personagem de forma irônica tem como objetivo cau- sar um efeito de naturalidade à recompensa invertida. A estratégia do autor causou nos alunos um sentimento de indignação pelo fato de representar a realidade deles. Portanto, a forma como o conto está organizado dá margem discursiva para outras significações, a ironia no texto chamou a atenção dos alunos por proporcionar uma análise crítica, principalmente a do trabalhador alienado que perde suas características individuais e gradativamente se transforma num su- jeito passivo, uma marionete, incapaz de agir diante das injustiças que lhe são impostas pelo sistema. no desfecho da narrativa, essa passividade resultou na transformação do indivíduo em um arquivo de metal, desumanizando-se. com o propósito de ampliar essa discussão, propomos a audição da can- ção “Faroeste caboclo”, composta pelo cantor e compositor renato russo, que narra a história de João de santo cristo, o caboclo nordestino que sai de sua terra para buscar novas oportunidades na metrópole, um fato comum em nosso país e que se refere ao processo migratório, revelando que a desigual- dade social também tem relação territorial. essa é uma canção com possibilidades de muitas análises, porém o nosso trabalho com a música teve como foco levar a compreensão de que existem outras formas de reagir ao sistema capitalista de produção e os embates que ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTESa identificação com esse processo, não sendo, então, positivamente aceitos, haja vista que eles não recebem o mesmo tratamento desde o currículo, que não pensa de fato em uma formação histórica do Brasil com a participação da população ne- gra, mesmo ela sendo maioria. isso resulta em complexos de inferioridade, arruinando o desempenho e o desenvolvimento de sua personalidade crítica e capacidade de reflexão, contribuindo sensivelmente para os altos índices de evasão e repetência. segundo grossi (2002, p. 29), a reprovação seria fruto de uma inadequada intervenção pedagógica, tendo em vista que “[...] aprender não é um processo biológico natural. É, sim, um processo psicossocial no coração de uma expe- riência cultural. ele resulta intrinsecamente de uma intervenção pedagógica, formal ou informal, do ambiente onde se inscreve quem aprende. Aprende-se porque outros nos ensinam”. também é importante ressaltar a importância dos pais nesse processo, que, infelizmente, não preparam seus filhos para a escola, explicando o que é a discriminação, que existe e que, no caso das crianças negras, isso aconte- cerá com uma determinada frequência ao longo de toda a sua vida escolar e social. É essencial que os pais ajudem os filhos a se defenderem de qualquer tipo de agressão, principalmente no ambiente escolar, onde as crianças po- dem se deparar com situações em que o professor minimiza a ação da criança discriminadora, não dando importância ao fato, assim não só deixando que a discriminação se perpetue, mas também deixando passar uma oportunidade de diálogo com a turma sobre o assunto em questão. segundo Munanga (1999, p. 8), “[...] o preconceito está incutido na ca- beça do professor e sua incapacidade em lidar profissionalmente com a di- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES136 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres versidade, somando-se ao conteúdo preconceituoso dos livros e materiais didáticos e às relações preconceituosas entre alunos de diferentes ascendên- cias étnico-raciais, sociais e outras, desestimulam o aluno negro e prejudicam o seu aprendizado”. A escola pública reproduz essas mazelas não formando o/a cidadão/ã para o mercado de trabalho globalizado, discriminando e ex- cluindo os diferentes. A função da escola pública é proporcionar, a qualquer pessoa, principalmente às pessoas das camadas populares, condições dignas reais para o aprendizado. O professor é o grande fomentador das transformações dentro da sala de aula. É ele quem faz a intermediação entre a escola e a sociedade. É pre- ciso que o governo forneça instrumentos, como material didático-pedagó- gico, jornais, livros, para que o professor possa discutir a diversidade estabe- lecendo estratégias de mudanças. É preciso também prever essa discussão. Mesmo que haja poucos negros na escola, é importante que os alunos te- nham consciência de que estão em uma sociedade que tem relações raciais desiguais. A questão racial não é exclusiva dos negros, e sim da população como um todo. Apoiar e fortalecer a identidade das crianças negras não resolve o problema se as crianças brancas não repensarem suas posições. ninguém diz aos filhos ou alunos que eles devem discriminar os negros, porém a forma como são tratados, as piadas, os ditados e outros gestos, é isso que influencia na educação. de acordo com a constituição Federal, a prática do racismo é considerada crime inafiançável e imprescritível. A lei Federal nº 7.716, de janeiro de 1989, define pena de um a três anos para o crime de discriminação ou de preconcei- to, seja ela de cor, de raça, de religião ou de procedência nacional. de acordo com Pavan (2004), “[...] a mãe de um aluno negro da segunda série do ensino fundamental da escola estadual Francisco de Assis reys, no bairro do ipiranga, em são Paulo, registrou queixa contra a professora Maria erci acusando-a de discriminação. O caso, que foi encaminhado ao Ministé- rio Público de são Paulo e à Vara da infância e da Juventude, se refere a um exercício de caligrafia, que a professora passou aos estudantes, com suposto conteúdo racista. A atividade contava a história de uma família ‘“colorida’” sendo assaltada por um homem preto. O pai azul reage e chama a família inteira para “’bater no preto”’. A diretoria da escola não se manifestou sobre o assunto. A Assessoria de imprensa da secretaria estadual de educação abriu sindicância para apurar o fato e constatou que não houve a intenção de dis- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 137 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres criminação por parte da professora, e apenas recomendou uma análise mais criteriosa dos textos antes que eles cheguem até os alunos”.1 Para combater a disseminação de preconceitos, os movimentos negros lutavam pela inclusão da História Afro-Brasileira nos sistemas educacionais desde 1973. detecta-se, através de análises das causas dos baixos desempe- nhos dos afrodescendentes no sistema educativo e no conjunto da socieda- de, a existência de um capitalismo racista, que reproduz um sistema de do- minação de classes de etnocontroles excludentes. esse sistema controla as possibilidades de ascensão social da maioria da população afrodescendente, eliminando seletiva e ordenadamente as possibilidades de participação igua- litária no processo de trabalho e de repartição de renda. A representação simbólica que inferioriza os negros e os afrodescenden- tes faz parte desse sistema de etnocontrole excludente, dentro do qual estão as ideias do africano incivilizado e da África como um lado selvagem e obscuro. Por isso, os Movimentos sociais negros tornaram a inclusão da História e cultura Afri- cana, nos diversos níveis do sistema escolar, um de seus principais objetivos. conforme o Pcn de pluralidade cultural (2000), essa ideia deve ser refle- tida e fundamentada na ética, no entendimento de preceitos jurídicos, em conhecimentos acumulados de história e de geografia, além de noções e con- ceitos da antropologia, da linguística, da sociologia, dos movimentos sociais, da psicologia e de aspectos referentes a estudos populacionais. nos conheci- mentos históricos e geográficos, é importante considerar a trajetória das et- nias: o estudo dos continentes, a origem dos povos, a imigração e a migração, a ocupação do território nacional, a construção da população, a produção de riquezas, a miséria e as injustiças, a diversidade regional, as práticas culturais e as resistências a processos de dominação. Os Parâmetros curriculares nacionais (Pcns), nos temas transversais sobre Pluralidade Étnico-cultural, trouxe uma possibilidade significativa de inclusão das diversas solicitações dos Movimentos negros quanto à História Africana e à História do negro, no campo do ensino Fundamental. entretanto, para que isso aconteça de uma forma adequada, é essencial que os cursos de formação de professores, em níveis médio e superior, tenham a inclusão das disciplinas correspondentes, conforme o que diz a lei Federal nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, no artigo 26-A: 1 trecho retirado do artigo: “Preto no Branco”, de Alexandre Pavan. Publicado na revista educação e reti- rado do site: , com acesso em: 5 set. 2004. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES138 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres “nos estabelecimentos de ensino Fundamentais e Médios, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e cultura Afro -Brasileira, incluindo o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro, nas áre- as social, econômica e política pertinentes a História do Brasil, devendo ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial, nas áreasde educação Artística, de literatura e História Brasileiras”. O ensino de história afro-brasileira inclui a história dos quilombos, come- çando por Palmares, e de seus remanescentes. O ensino de história da África aborda temas como: “(...) o papel dos anciões e dos griots como guardiões da memória his- tórica; a história da ancestralidade e religiosidade africana; os núbios e os egípcios; as civilizações e organizações políticas pré-coloniais; como os reinos do Mali, do congo e do Zimbabwe; o tráfico e a escravidão do ponto de vista dos escravizados; o papel dos europeus, dos asiáticos e também dos africanos no tráfico; a ocupação colonial na perspectiva dos africanos; as lutas pela independência política dos países africanos; as relações entre as culturas e as histórias dos povos do continente afri- cano e os diáspora; a formação compulsória da diáspora, vida e existên- cia cultural e histórica dos africanos e seus descendentes fora da África; a diversidade da diáspora, hoje, nas Américas, caribe, europa, Ásia; a acordos políticos, econômicos, educacionais e culturais entre África, Brasil e outros países da diáspora” (diretrizes curriculares nacionais para a educação da relações Étnico-raciais e para o ensino de História e cul- tura Afro-Brasileira, 2004, p. 21). essa lei impõe o sistema escolar a perceber que os afro-brasileiros exis- tem, foram e são sujeitos no desenvolvimento da sociedade, possuem histó- ria, cultura, memória e valores que precisam ser conhecidos também no coti- diano escolar. Busca-se também valorizar a história e a cultura do povo negro, elevando sua autoestima e compreensão de todas as etnias na perspectiva da afirmação de uma sociedade multicultural e pluriétnica. É importante conhecer a história do Brasil estudando os povos que de- ram a sua origem: os indígenas, os europeus e os africanos. Hoje a história en- sinada parte de uma visão eurocêntrica, em que as outras culturas são conhe- cidas a partir de sua relação com os europeus, como se não tivessem história. esquece-se, por exemplo, no ato educativo, que as comunidades africanas já realizavam comércio marítimo antes dos portugueses, que já antes do impé- rio romano existiram impérios poderosos na África. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 139 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres A escola infelizmente vem reproduzindo, com o passar dos anos, que a et- nia negra, sua história, seus valores, suas manifestações religiosas e sua cultura, são inferiores, tornando-se comuns as denúncias do movimento negro a deter- minados livros didáticos que reforçam essa ideia. na maioria deles, os negros aparecem como rejeitados, castigados, famintos, isolados, pobres, favelados, maltrapilhos, exercendo serviços domésticos, braçais ou como escravo. também aparecem considerados incapazes, ingênuos, desatentos, burros e desastrados, sendo inclusive desumanizados, comparados a animais ou associados a objetos. em função disso, é essencial reconsiderar o livro didático, formulando novas, positivas e igualitárias imagens. segundo silva (1999, p. 14), a invisibili- dade ou a inferiorizarão por meio de estereótipos conduzem esses alunos, na maioria das vezes, ao desenvolvimento da autorrejeição e também da nega- ção de seus valores culturais, procurando outros valores culturais mais bem vistos na sociedade. Os Pcns, nesse campo específico, avançaram com relação às posturas anteriores. entretanto, o plano operacional não foi nutrido do mesmo vigor, tendo em vista que um dos seus objetivos é que o aluno conheça e valorize a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socio- culturais de outros povos e nações, posicionando-se contra qualquer discri- minação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crença, de etnia, ou de outras características individuais e sociais. Quase não se cita o egito como um país africano, mas um país de brancos tendo como base as produções hollywoodianas. esquece-se, por exemplo, que o reino de gana era tão rico que, no palácio do rei, os cachorros tinham coleiras de ouro. na capital havia casas de pedra de dois andares onde mo- ravam os nobres e altos funcionários de estado. também quase não se fala do reino de Mali, que se desenvolveu na região do Alto niger. A riqueza do estado de Mali vinha de suas minas de ouro e dos impostos cobrados dos mercadores. Os árabes do século XV escreveram que mais de 12 mil came- los atravessavam anualmente o deserto do saara em caravanas que iam de Mali ao norte da África, chegando a cairo (egito mulçumano). em tombuctu, viviam dezenas de milhares de habitantes e lá havia uma das maiores univer- sidades do mundo, além de ser um grande centro de comércio internacional. Vendiam-se até livros escritos em árabe, que abordavam assuntos como a medicina, a geometria, a religião, a arte, a poesia e a história. e por essas e outras imperdoáveis omissões sobre a história africana, não pode haver conformação com um ensino divagante da cultura afro-brasileira ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES140 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres e africana entre o tráfico negreiro e a assinatura da lei Áurea, matando a iden- tidade de um povo. nesse sentido é que o professor da UsP Kambengele Mu- nanga afirma que “[...] a identidade é para os indivíduos a fonte do sentido da experiência” (2003, p. 38). Pensando nisso, é importante que a escola trabalhe no sentido de resgatar a identidade dos educando afro-brasileiros. cabe então perguntar: O que é necessário para que tudo aconteça? Para que tudo não passe do discutido e não resolvido? O que seria ensinar a His- tória e a cultura Afro-Brasileira e Africana de uma maneira prática e eficiente? Para tentar encontrar respostas para essas indagações é essencial refletir sobre a formação dos professores. É importante que haja investimentos, que eles estejam dispostos a estudar para ampliar seus conhecimentos e práticas, desmitificando percepções estereotipadas e preconceituosas, reconhecendo a diversidade étnico-cultural como riqueza e direito das pessoas e, sobretudo, utilizando todos os seus conhecimentos em prol do exercício da cidadania e do respeito mútuo. Para ensinar é necessário que a disciplina tenha significado para os alu- nos. não basta simplesmente afirmar que o objetivo a ser alcançado é situar o aluno no momento histórico em que se vive, nem se pretenda que ele seja capaz de estabelecer relações entre sua vida cotidiana e as estruturas sociais e que processe as “idas e vindas” na apreensão das temporalidades. É neces- sário identificar elementos especiais, comuns e significativos, que se estabe- leçam como canais de comunicação entre o universo infantil e o adulto, para o que, acredita-se, o elemento lúdico poderia ser o canal privilegiado dessa comunicação. Qualquer pessoa que possua o mínimo de sensibilidade artística pode- rá observar que as manifestações culturais primitivas, sejam elas indígenas ou africanas, são compostas de imagens e ritmos. Que a literatura africana é cantada, tocada e dançada, ninguém fica parado, inerte, durante as celebra- ções, pois tudo é comunicação do cosmos, da realidade que transcende. se os povos primitivos tivessem a oportunidade de observar nossa cultura, no trato com a literatura e a arte, ficariam surpresos porque não há uma conexão. não poderiam entender como se aprende cultura, sentado diante do quadro-ne- gro e do giz, não entenderiam a ausência de cor, de imagens e ritmos. enfim não entenderiam a morte da arte dentro do ensino. Quando se toca nesse assunto, há quem diga que está prescrito nos documentos oficiais que deva haver essa ligação da arte em todas as disciplinas do currículo, mas isso não ocorre na prática. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 141 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres entender o currículo como forma de política culturaldemanda alcançar categorias sociais, culturais, políticas e econômicas à condição de categorias primárias para a compreensão da escolarização contemporânea e de suas possibilidades emancipatórias. É importante compreender o currículo como parte de uma luta ampla entre discursos dominantes e subordinados, o que tem implicações práticas para a forma como os professores acolhem as expe- riências e as vozes dos alunos. se a intenção é contribuir para formar sujeitos autônomos, críticos, cria- tivos e comprometidos com a democracia e a justiça social, é indispensável auxiliar os elaboradores do currículo escolar a perceber como diferentes vo- zes podem ser constituídas em meio a relações pedagógicas específicas que acolhem e critiquem seus significados, suas histórias e suas experiências. discutir a integração de “minorias sociais”, étnicas e culturais ao processo de escolarização constitui uma manifestação muito concreta de um objetivo mais geral, que é o da educação multicultural. A busca de um currículo mul- ticultural é outra manifestação particular de um problema mais amplo: o da capacidade de acolher a diversidade. será impossível chegar a um currículo multicultural se a cultura escolar não discutir a questão da diversidade como um todo. Para perceber a importância de se diversificar a cultura escolar existe a necessidade de entender os problemas particulares de cada cultura, dentro de um quadro mais geral que ajude a compreender em todas as dimensões. segundo as diretrizes curriculares para a educação das relações Étni- co-raciais e para o ensino de História e cultura Afro-Brasileira e Africana, os estabelecimentos de ensino devem conhecer os princípios que conduzirão esse trabalho, que são: a consciência política e histórica da diversidade, o for- talecimento de identidades e de direitos, as ações educativas de combate ao racismo e a discriminação racial (2005, p. 31). O princípio da consciência política e histórica da diversidade de conduzir a igualdade como sujeitos de direitos envolve o seguinte: a compreensão de que a sociedade é formada por pertencentes de grupos étnico-raciais dife- rentes, que possuem cultura e história próprias, igualmente valiosas; a valo- rização da história e da cultura dos povos africanos na construção histórica e cultural brasileira; a superação da indiferença, da injustiça e da desqualifica- ção que os negros, os povos indígenas e também as classes populares sofrem; a desconstrução de ideias e de comportamentos baseados na ideologia do branqueamento da população e pelo mito da democracia racial; a busca, por ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES142 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres parte da comunidade e principalmente dos professores, de subsídios que lhes permitam formular concepções não baseadas em preconceitos, construindo ações respeitosas. O princípio de fortalecimento de identidades e de direitos deve orientar o processo de afirmação de identidades, ampliando também o acesso a infor- mações sobre a diversidade existente no país, o rompimento de imagens de- preciativas, o combate à privação e à violação de direitos, o esclarecimento a respeito de uma identidade humana universal, as condições de formação e de instrução, devendo ser satisfatórias inclusive nas periferias e nas zonas rurais. O princípio das ações educativas de combate ao racismo e a discrimi- nações deve encaminhar a ligação dos objetivos, estratégias de ensino e atividades com as vivências dos alunos e professores; valorização da oralida- de, da corporeidade e da arte ao lado da escrita e da leitura. nesse sentido, segundo as diretrizes curriculares para a educação das relações Étnico-ra- ciais e para o ensino de História e cultura Afro-Brasileira e Africana, deverá envolver a articulação entre o passado, o presente e o futuro no âmbito de experiências e de pensamentos produzidos em circunstâncias e em realida- des diferentes da população negra, buscando formas de convivência respei- tosa (Mec, 2004) 2. Pensando nisso, percebe-se a necessidade de estudar essa temática com o intuito de enriquecer cada um e toda a sociedade, tornando-a mais justa, pela valorização da pluralidade cultural, desmitificando a ideia da democracia racial, ou seja, de um Brasil homogêneo, sem diferenças. Por isso, o processo educacional deve fazer ligações entre o que se aprende na escola e a vida da população, considerando atitudes e valores voltados para a formação de no- vos comportamentos. nos objetivos do ensino de História é apontado com grande relevância o que se relaciona à constituição da noção de identidade, estabelecendo rela- ções entre identidade individual, social e coletiva que se constituem em iden- tidade nacional. nos processos migratórios, a perda da identidade tem apresentado situa- ções de desestruturação das relações historicamente estabelecidas, desagre- gando valores cujo alcance ainda não se podem avaliar. O ensino de História envolve a reflexão sobre a atuação do indivíduo em suas relações pessoais, com o grupo de convívio, suas afetividades e sua participação no coletivo. 2 citação de: MinistÉriO dA edUcAçãO. Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Brasília, 2004. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 143 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres do ponto de vista da ética, segundo os Parâmetros curriculares nacio- nais, é importante também considerar o respeito mútuo como um dever e direito muito importante para a vida. O respeito mútuo pode ser notado de diversas formas complementares, sendo que uma delas é o dever do respeito pela diferença e a exigência de ser respeitado na sua singularidade. O res- peito mútuo também deveria estar presente na esfera política, pois o regime político democrático pressupõe indivíduos livres que, por intermédio de seus representantes eleitos, estabelecem contratos de convivência que devem, ou que pelo menos deveriam, ser honrados por todos, portanto o exercício de cidadania pressupõe íntima relação entre respeitar e ser respeitado. conforme aponta o PArecer n.º:cne/cP 003/2004, A escola enquanto instituição social responsável por assegurar o direito da educação a todo e qualquer cidadão, deverá se posicionar politica- mente, como já vimos, contra toda e qualquer forma de discriminação. A luta pela superação do racismo e da discriminação racial é, pois, tare- fa de todo e qualquer educador, independentemente do seu perten- cimento étnico-racial, crença religiosa ou posição política. O racismo, segundo o Artigo 50 da constituição Brasileira, é crime inafiançável e isso se aplica a todos os cidadãos e instituições, inclusive, à escola. Outro equívoco a esclarecer é de que o racismo, o mito da democracia racial e a ideologia do branqueamento só atingem os negros. enquanto processos estruturantes e constituintes da formação histórica e social brasileira, estes estão arraigados no imaginário social e atingem negros, brancos e outros grupos étnico-raciais. As formas, os níveis e os resulta- dos desses processos incidem de maneira diferente sobre os diversos sujeitos e interpõem diferentes dificuldades nas suas trajetórias de vida, escolares e sociais. Por isso a construção de estratégias educacionais que visem o combate ao racismo é uma tarefa de todos os educadores, independentemente do seu pertencimento étnico-racial. Mais ainda, nesse mesmo parecer, observamos que a necessidade de se instituir uma Pedagogia de combate ao racismo e às discriminações elabora- das com o objetivo de educação das relações étnico/raciais positivas [...] têm como objetivo fortalecer entre os negros e despertar entre os brancos a consciência negra. entre os negros poderão oferecer conheci- mentos e segurança para orgulharem-se da sua origem africana; para os brancos poderão permitir que identifiquem as influências,a contribui- ção, a participação e a importância da história e da cultura dos negros no seu jeito de ser, viver, de se relacionar com as outras pessoas, nota- damente as negras. também farão parte de um processo de reconheci- mento, por parte do estado, da sociedade e da escola, da dívida social ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES144 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres que têm em relação ao segmento negro da população, possibilitando uma tomada de posição explícita contra o racismo e a discriminação ra- cial e a construção de ações afirmativas nos diferentes níveis de ensino da educação brasileira (PArecer n.º:cne/cP 003/2004). Para os relatores, “[...] tais pedagogias precisam estar atentas para que todos, negros e não negros, além de ter acesso a conhecimentos básicos tidos como fundamentais para a vida integrada à sociedade, exercício profissional competente, recebam formação que os capacite para forjar novas relações étnico-raciais” (PArecer n.º:cne/cP 003/2004). Para tanto, há necessidade de professores qualificados para o ensino das diferentes áreas de conhecimentos e sensíveis e capazes de direcionar positivamente as relações entre pessoas de diferentes pertencimentos étnico-raciais. tanto o respeito como a correção de posturas, atitudes e palavras pre- conceituosas nos remete à necessidade de se insistir e de investir para que os professores, além de sólida formação na área específica de atuação, recebam formação que os capacite não só a compreender a importância das questões relacionadas à diversidade étnico-racial, mas a lidar positivamente com elas e sobretudo criar estratégias pedagógicas que possam auxiliar a reeducá-las. Progressivamente, quando discutimos sobre produção teórico-metodo- lógica educacional, isso “[...] pressupõe uma nova concepção de educação e de formação” (gOMes, 2002, p. 21). nesse caso, a formação de professores deve ser entendida a partir do conceito de sujeito sociocultural, ou seja, aque- le que atribui sentido e significado à sua existência, mediante as referências pessoais e coletivas, simbólicas e materiais e que se encontra inserido em vá- rios processos que extrapolam a instituição escolar. CONSIDERAÇÕES FINAIS A diversidade étnico-racial é uma característica marcante em qualquer sociedade. É um constituinte da nossa formação como seres humanos e como sujeitos socioculturais. contraditoriamente, porém, o tratamento não segre- gador e não discriminatório das diferenças ainda é uma postura política e profissional ausente de muitas práticas pedagógicas e de vários processos de formação de professores e professoras. como nos diz Petronilha Beatriz gon- çalves e silva (1996, p. 15), “[...] educar para a diversidade é fazer das diferenças um trunfo, explorá -las na sua riqueza, possibilitar a troca, proceder como grupo, entender ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 145 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres que o acontecer humano é feito de avanços e limites. e que a busca do novo, do diverso que impulsiona a nossa vida deve nos orientar para a adoção de práticas pedagógicas, sociais e políticas em que as diferenças sejam entendidas como parte de nossa vivência e não como algo exóti- co e nem como desvio ou desvantagem”. É preciso que a formação de professores estimule uma visão e uma prática pedagógica que enxergue o outro nas suas semelhanças e nas suas diferenças, que não contenha práticas discriminatórias, nem com a crença em um padrão único de comportamento, de ritmo, de aprendizagem e de experiência: “Assumir a diversidade cultural significa muito mais do que um elogio às diferenças. representa não somente fazer uma reflexão mais densa sobre as particularidades dos grupos sociais, mas também implementar políticas públicas, alterar relações de poder, redefinir escolhas, tomar novos rumos e questionar a nossa visão de democracia” (gOMes, 2003, p. 15). REFERÊNCIAS cAndAU, V. M. (Org.). Magistério: construção cotidiana. Petrópolis, rJ: Vozes, 1997. cAVAlleirO, e. (Org.). racismo e anti-racismo de nossa escola. são Paulo: summus, 2001. gOMes, n. l. a mulher negra que vi de perto. Belo Horizonte, Mg: Mazza edições, 1995. gOMes, n. l.; silVA, P. B. g. (Orgs.). 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ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES146 relAçÕes ÉtnicO-rAciAis e FOrMAçãO de PrOFessOres secretAriA de edUcAçãO cOntinUAdA, AlFABetiZAçãO e diVersidAde. Educa- ção anti-racista: caminhos abertos pela Lei federal nº 10.639/03. Brasília: Ministé- rio da educação, 2005. secretAriA de edUcAçãO FUndAMentAl. Parâmetros curriculares nacionais: apresentação dos temas transversais: ética. 2. ed. rio de Janeiro: dP&A, 2000. secretAriA de edUcAçãO FUndAMentAl. Parâmetros curriculares nacionais: história e geografia. 2. ed. rio de Janeiro: dP&A, 2000. silVA, Jr. , H. discriminação racial nas escolas: entre a lei e as práticas sociais. Brasília: Unesco: 2002. silVA, P. B. g; silVÉriO, V. r. (Orgs.). Educação e ações afirmativas: entre a injustiça simbólica e a injustiça econômica. Brasília: instituto nacional de estudos e Pesquisas educacionais Anísio teixeira, 2003. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 147 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... O OLHAR CORRETIvO E A IMPOSIÇÃO DE vALORES: UM ESTUDO ACERCA DAS RAÍZES DA DESIGUALDADE E EM FAvOR DE SUA SUPERAÇÃO andré boniatti Ao se pensar sobre a desigualdade, seja relativa a gênero, etnia, ordem econômica ou quaisquer indicativos de depreciação de um ser humano em relação a outrem, é necessário salientar, em primeiro lugar, que esse não é um problema que se refira à natureza em si, essencialmente, ou seja, não nasce com o homem; logo, é um problema criado pelo homem, que surge conforme se adensam as relações de poder desenvolvidas socialmente durante os sécu- los1. A sanidade dessas relações, ressalte-se, é colocada em xeque justamen- te por uma imposição de valores que se querem superiores sobre valores de que se dizem inferiores, ambos aos quais se credita um tipo de estigmatismo sacro, que torna seus estatutos intransponíveis, relegando certas qualidades e categorias — sejam de pensamento, atitude ou atributos imanentes ao ser humano — ao desprezo e à não participação efetiva nas sociedades e comu- nidades (desde que se encravam, nesses sistemas excludentes, sentimentos de elite, cujas particularidades são consideradas modelares). erro brutal, ten- taremos, mediante este artigo, entender de que forma se estruturam ociden- talmente essas relações valorativas, buscando compreender o porquê de a desigualdade estabelecer-se no seio das sociedades, mesmo nas quais aden- 1 tal dado, se pode ser posto em questionamento, é comprovável pela própria observação, desde que a natureza por si só não parece apresentar entre suas espécies qualquer forma dediscriminação dada irracionalmente (ou seja, um cão branco não apresenta comportamento diverso do comum perante um cão de cor preta, não por ser de cor preta, bem como não parece ocorrer o mesmo nem entre raças distintas. Há sim uma questão hierárquica de liderança que os distingue). É no espécime humano que o ato discriminatório é perceptível, mediante a racionalidade, que atribui erro ou defeito ao outro, sob o cunho da abstração, a qual parte de processos antitéticos e se dá pelo aspecto das diferenças e com- parações. estudos sociológicos, psicológicos e mesmo neurológicos o têm demonstrado. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES148 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... tra de maneira mais incoerente, como no Brasil e em toda a América latina, locais que nascem mestiços e diversos para a modernidade, mas que nutrem até hoje um pensamento colonialista como base de sua moralidade. Além do mais, buscaremos apontar os caminhos que, a partir do século XiX, principal- mente, traçam-se em favor da superação desse estado mórbido Para tanto, é necessário adentrarmos os caminhos da história, como tam- bém do pensamento filosófico e religioso, pois será resgatando o fio que liga o presente a toda a tradição que se fará possível investigar por que a psique coletiva insiste na ideia de que há modelos a se seguir cegamente e outros a se extinguir ou a se explorar maleficamente. somente percorrendo esse espa- ço, delimitado mormente pela expansão do cristianismo em relação ao lado ocidental do globo, é que acreditamos poder chegar às raízes do rizoma, no anseio de revelá-las e ao mesmo tempo provocar, a partir do autoquestiona- mento, no leitor a mudança, senão no mínimo a sapiência, para que se criem novos pontos de acesso às crenças e opiniões diversas que nos habitam a todos. nesse sentido, duas são as correntes, interligadas, de pensamento a que nos remeteremos criticamente, visto serem elas — uma mediante a religião, outra referente à filosofia — ambas pilares de nosso atual estado moral; cons- tituintes, portanto, de nossa cultura e estrutura sociorrelacional: o Platonismo e o Judaísmo-cristão. O Platonismo, fruto do período clássico na grécia, nasce para o período arcaico similarmente à renascença para a idade Média, se considerarmos o sentimento de emancipação e progresso que se cria entorno dessas manifes- tações. se o período renascentista derrui as trevas, o mundo platônico-socrá- tico, também ele crê conduzir o homem à luz, quando o seu maior emblema, descrito no mito ou alegoria da caverna (no livro Vii de “A república”), trata da submissão do homem à escuridão, acreditando ser necessário ultrapassá -la com a verdade das ideias. Fato é que, a partir de Platão, que transcreve e acrescenta o seu ponto de vista acerca dos discursos de sócrates, formula-se a crença filosófica em uma verdade racional, lógica, geométrica e perfeita, num mundo em que as ideias essenciais coexistem e citam regras para a existência material, imperfeita. Ou seja, existe uma realidade melhor que esta realidade e existe uma Justiça descritível, demarcada, já inscrita conceitualmente. no mundo pré-socrático, o conceito de justiça era um tanto diverso, por- que esse mundo é pagão por excelência, de um paganismo quase essencial, que ainda não rompeu seu vínculo com o mítico, o qual não atribui ao divino ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 149 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... em si logicidade. A justiça, nesse momento, conceitua-se ou como resulta- do dos eventos, ou como aquilo que o destino engendra e que deve ser se- guido à risca, porque é colocado pelos deuses, sem ter um viés moralizante como essencial. em uma acepção científica, porque filosófica, dada por He- ráclito de Éfeso: “É preciso saber que o combate é o-que-é-com, e justiça (é) discórdia, e que todas (as coisas) vêm a ser segundo discórdia e necessidade.” (HerÁclitO, 2005, p. 96). entendemos, pois, dessa concepção de Justiça, que é demonstrada no âmbito do essencial, das forças naturais (para Heráclito, guinadas pelo fogo), que o combate é o âmago da relação entre as forças da natureza e, por isso, o justo é aquilo que sobressai, que passa a existir ou que vigora, necessariamente. isto é, existe o que é necessário, o que, mediante o filtro da guerra, torna-se ou permanece (sempre em leitmotiv, para Herácli- to). digamos, a grosso modo, que por isso o mundo é justo aos homens, pois atende às suas necessidades, propicia-lhes os elementos para a sua existên- cia. e se injusto é o desnecessário, será eliminado, não se efetivará. do que se é possível inferir, pois, que ao plano microestrutural do organismo terreno, o qual passa pelo crivo da perspectiva humana, escapa a macro-organização universal, para a qual é insignificante o homem e as suas queixas, simples ar- tefato do todo, tanto quanto um pedrisco ou um planeta a quilômetros-luz de distância. conclui-se, assim, que os dados da moralidade (luz) socrática são pertinentes à microestrutura humana, intelectual, se levarmos em conta o mundo pré-socrático que a novidade platônica derrui. Ou, em outras palavras: em lugar do natural como princípio universal, sócrates deduz que a natureza submeta-se ao intelecto e por ele seja corrigida, reorganizada ou revestida. Ainda no âmbito das relações sociais, mesmo em seu período arcaico, a grécia institui a polis, ou as cidades-estado, suscitando o conceito de cidada- nia, em que todos os cidadãos são livres e iguais. essas cidades-estado tor- nar-se-ão ícones do conceito de civilização e, dessa maneira, modelos a ser seguidos. num contexto tal, guiado pela fé na razão, o filósofo (pai do racionalismo ocidental) passará a valorizar esta como cume da realização humana, fundan- do a dialética, em sua retórica, como a chave de acesso a uma Verdade abso- luta, a qual seria intransponível, ou inquestionável. se o mundo pré-socrático ampara-se no mito, se Heráclito abusa de uma linguagem sibilante, profética, e mesmo com a gramática é desajustado e misterioso; a retórica de sócrates prima pela perfeição e pelo absoluto. crê-se, então, em um Bom essencial, sinônimo de Justiça, Beleza, realidade, ao alcance do homem mediante o in- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES150 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... telecto, a racionalidade. Assim, o que é justo é aquilo que é essencial, o que existe modelarmente e é regrado pela consciência. O que não participa dessa verdade, passa a ser injusto, falso, deplorável. Platão adensa essa noção de modelos criando, enfim, em sua teoria, um mundo de ideias (Verdades) sobreposto a este, no qual habita apenas o que é perfeito. nosso mundo não passa de ilusão para ele, de uma cópia nociva daquilo que está acima. A matéria, o corpóreo, desse modo, torna-se vil per- fídia, engano. É somente o espírito, no qual habita a sabedoria, que é capaz de iluminar, de chegar à luz. esse filósofo prende-se tanto a um sentimento de posse do universal que passa a crer que toda a sabedoria humana não seja acúmulo ou aquisição, mas que os homens, como todas as coisas, antes de nascer, foram partícipes daquele mundo exterior e absoluto: É, pois, necessário que tenhamos conhecido, antes, o igual, em tempo anterior àquele em que pela primeira vez a vista das igualdades nos deu a ideia de que todas elas aspiram a ser como o igual, ainda permanecen- do inferiores em relação a ele. [...] Assim, pois, antes de começar a ver, a ouvir, a fazer uso, enfim, dos nossos sentidos, nós devemos adquirir de fato, de algum modo, um conhecimento do igual a si mesmo e na sua realidade; sim, para que fosse em seguida possível pôr em relação essa realidade com as igualdades que provêm das sensações, dizendo-nos que todas elas anseiam porser como o igual, mas que lhe são todavia inferiores. (PlAtãO, 2003, p. 43). Ou seja, todo o conhecimento é reminiscência, lembrança do que vive- mos um dia e que esquecemos ao nascer para este mundo. Portanto, diverso do fogo heraclitiano, da mobilidade e impermanência, temos agora a ideia estática a que todas as coisas tendem, ou de que todas as coisas são cópias imperfeitas. sendo assim, tudo aqui se torna mau, ilusório, e deve ser desme- recido em favor de uma realidade a ser alcançada, que deve ser a busca de todo homem são. O corpo humano e seus instintos são relegados, portanto, à condenação: separar o mais possível a alma do corpo, habituá-la a recolher-se e a fe- char-se em si mesma, alheia a qualquer elemento corpóreo, e a perma- necer, tanto quanto possível, tanto na vida presente como na futura, só, inteiramente desligada do corpo como de suas cadeias. (PlAtãO, 2003, p. 31) Mas essa corporeidade, meu caro, não podemos duvidar, pesa; é coisa grave, terrosa, visível! sendo justamente esse o conteúdo de tal alma, ela deve sentir-se pesada e atraída para o lado da região visível, por medo do invisível ou, como o chamam, o Hades; ela andará entre os ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 151 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... monumentos funerários e as sepulturas, em volta dos quais, é um fato, já se viram espectros e sombras de almas: imagens apropriadas das al- mas de que falamos, as quais, não tendo conseguido libertar-se do cor- po em estado de pureza, mas sim em estado de participação do visível, tornam-se elas mesmas, em seguida, visíveis. (PlAtãO, 2003, p. 53). se no âmago da filosofia esse ideal difundir-se-á, passando pelo pensa- mento de Aristóteles e seguindo até à era Moderna, será na religião que ele popularizar-se-á, sob imposição. O cristianismo tomará emprestada a essên- cia do ideal platônico pelas mãos de seu principal propagador, Paulo de tarso, o 13º apóstolo, e ganhará teores filosóficos com pensadores como são tomás de Aquino e santo Agostinho, aquele aristotélico, este platônico. toda a cul- tura cristã terá como base teológica essas ideias nascidas na grécia, já que são elas aparentemente o que se mostra como o mais próximo ao que se pensa civilizado, logo, modelar. O conceito de civilização é, na verdade, o grande regulador do pensa- mento e das relações sociais estabelecidas durante os séculos, desde que se observam as sociedades que conquistaram supremacia e que tiveram gran- des avanços como exemplos para a construção das novas sociedades emer- gentes, ou para o avanço das mais antigas. segundo norbert elias (1990), [...] o conceito de civilização minimiza as diferenças nacionais entre os povos: enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou — na opi- nião dos que o possuem — o que deveria sê-lo. Manifesta a autocon- fiança de povos cujas fronteiras nacionais e identidade nacional foram tão plenamente estabelecidos, desde séculos, que deixaram de ser tema de qualquer discussão, povos que há muito se expandiram fora de suas fronteiras e colonizaram terras muito além delas. (eliAs, 1990, p. 25). dessa maneira, impõem indiscriminadamente valores ditos civilizados sobre valores considerados não civilizados, primitivos, que fariam parte das trevas, anteriores ao progresso e à “ciência”, ou ao pensamento exemplar. essa ciência e esse pensamento exemplar passam à religiosidade com a in- sígnia de Verbo divino, isto é, através da palavra de deus, que é assegurada pela expansão do império romano, ao ser legalizada a religião cristã por cons- tantino, em 313 d.c., e oficializada como religião do império em 390 d.c., por teodósio. O livro sagrado do cristianismo, a Bíblia, ocupa-se das escrituras seguidas pelo Judaísmo (Antigo testamento) e insere as novas escrituras, selecionadas pela igreja católica, contendo a narrativa da vida de Jesus de nazaré em 4 evangelhos e, como principal teoria, as ideias de Paulo de tarso, como já ex- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES152 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... posto, com suas cartas. Fato é que um livro sagrado é incontestável, por isso o dogma do novo e do Velho testamento deve ser seguido indiscutivelmente. no entanto, a Bíblia é um livro imerso em metáforas e, como qualquer outro texto, é escrito sob um viés cultural, o qual jamais poderá ser considerado como estático, tal qual se quer fazer ao se firmar conceitos ali encontrados como intransponíveis. recorra-se, para entendê-lo, ao seu último livro, “Apo- calipse”, que se trata de um livro de códigos direcionados ao povo judeu ini- ciado, códigos a esse povo comum, quando o discípulo João escreve-o em exílio, tendo por força (tal qual os poetas e músicos do Brasil ditatorial, desde o golpe de 1964) que o escrever em linguagem obscura a seus opressores. O processo meticuloso, numerológico e simbólico de escrita de que lança mão João ao produzi-lo hoje nos parece algo muito diverso do que pareceria a um douto das leis divinais judaicas de sua época. Portanto, o que se pode afirmar claramente é que essa religião é uma interpretação que se faz do que há muito fora escrito, não se podendo atribuir certeza ao que se tem pregado e discutido, com a ascensão do protestantismo e o mar de cristianismos que surgem modernamente. no século XX, além do mais, nas cavernas de Qunran, no Mar Morto, fo- ram encontrados vários rolos contendo compilações de textos bíblicos e não bíblicos e evangelhos apócrifos feitas pelo povo essênio, grupo asceta e apo- lítico do movimento judaico antigo que se instalou nas redondezas. Os evan- gelhos ali encontrados diversificam bastante dos contidos na Bíblia. trazem versões para a história de Jesus controversas, como a de que Judas era seu melhor amigo e a de que Maria de Mágdala (Madalena) fosse a sua principal discípula. A igreja os considerou supersticiosos e ilegítimos, pois não concor- dam com seus dogmas. Pudera: nos fragmentos do evangelho dedicado, por exemplo, à Madalena pode ser lido inclusive que o pecado não existe, mas é o homem quem o convenciona, o que é um insulto contra o dogma cristão. entretanto, são documentos históricos tanto quanto os que foram inseridos no livro sagrado, contendo as mesmas incoerências e solucionando mesmo os anos de silêncio bíblico entre a infância e a pregação de Jesus, o nazareno. de qualquer forma, a igreja jamais aceitaria o que ultrapassa seus ideais ou sua instituição dogmática. Prova disso está, historicamente, na instauração da santa inquisição e seus tribunais. Ocorre que desde que teodósio institui o cristianismo como religião oficial do império romano nada o deverá ultra- passar. se outrora os cristãos eram perseguidos, a partir de então tudo e todos os que não são cristãos deverão ser convertidos. Assim, quando se dá o re- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 153 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... nascentismo, fermentado pelas ideias humanistas, conglomerando grandes avanços na ciência, a igreja, sentindo-se ameaçada, ataca de maneira brutal e intolerante, buscando destruir tudo aquilo que diverge de seus ensinamen- tos. Por isso grandes descobridores dos mistérios do mundo têm-se que calar, em prejuízo do avanço do pensamento científico mais natural, como copér- nico, o cientista, por exemplo, que ao revelar que a terra não seria o centro da órbita dos astros celestes, mas sim o sol, destituiu a criação humana da sobe- rania, já que desse modo não seríamos nós e nosso mundo os principais focos da criação divina. Por isso copérnico oculta seus trabalhos e somente publica seu livro “da revolução das esferas celestes” à hora da morte, em 1543. Por isso o mundo se torna Barroco e o homem perde-se entre dualidades, quando trilha os caminhos antropocêntricos,mas é obrigado a submeter-se à teologia católica. Muito embora o iluminismo traga um ânimo novo para a emancipação do homem, a dogmática cristã que percorrera os séculos não se apagará com tamanha facilidade. O Platonismo idealista difundido pelo cristianismo emoldura o quadro das relações sociais inconteste. A crença em uma verda- de essencial, amarrada ao latim e à dominação eclesiástica, tomará conta do destino das sociedades impiedosamente. Ora, ao se tomar o conceito de civi- lização como modelar, havendo a crença em uma moralidade divina intrans- ponível, tudo ao redor deverá ser condicionado a esses parâmetros. Ou seja, tudo o que não é cristão não é civilizado, é animal, primitivo. O conceito de pecado passa a vigorar como motor da intolerância civili- zacional. sendo a europa cristã e sendo ela civilizada, todo o mundo havia de ser cristão e civilizado. A incapacidade de olhar o outro a partir de sua própria cultura, unida à ideia de pecado e de salvação, diante do ideal de evangeli- zação, faz com que esse homem civilizado parta brutalmente para cima do diverso, daquele que não crê em suas crenças ou que não siga o seu modus vivendi: Que não seja como é. Assim se deu com o projeto escravista, atitude máxima de desrespeito ao ser humano, que traremos à tona aqui sob o olhar de José craveirinha, poeta moderno, visto ter lutado contra o estado colonial em pleno século XX em sua terra natal amada, Moçambique, que alcançou independência política de Portugal apenas em 1975, após a revolução dos cravos, momento em que as negociações com a pátria portuguesa se efetua- ram, depois de muitas dores, torturas, prisões e confrontos. craveirinha fora um grande fomentador do espírito libertário, além de poeta de sensibilidade e inteligência linguística ímpares, considerado tama- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES154 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... nho qual o camões de Portugal para seu povo, já que demarca o máximo e primordial desenvolvimento da cultura moçambicana, pontapé para a sua moderna pátria, já buscando a descolonização intelectual nesse sentido. Quando é justamente contra o processo de colonização que o poeta se arma ao produzir grande parte de sua obra. tal processo, embora dado mediante a ambição de domínio territorial e econômico, muito além dessa expansão, deduz a submissão cultural em todos os seus aspectos e agride ferozmente quaisquer modos de resistên- cia, mesmo em relação à língua nativa dos povos a ser colonizados, proibida nele: não é jamais o colonizador que virá a sujeitar-se à cultura alheia, para aprendê-la ou mesmo se comunicar, e sim o colonizado — arrancado de suas raízes — que deverá, como sérvice de uma pátria não sua, modificar toda a sua experiência e vivência cotidiana. Brutalmente, a ele é imposto o modo de vida do outro, que lhe é estranho, no sentido de ser obrigado a abnegar-se mesmo de suas lendas e fábulas, imputando-lhe a resignação diante da sua própria fé característica. inegavelmente, é a leitura crítica raivosa dessa realidade que leva José craveirinha a escrever, com caneta afetiva e lógica inderruível, o grande poema “África”, de seu livro “Xibugo”, escrito em 1964, ano que marca o início da revolução Moçambicana para a conquista da independência. nesse poema, denunciam-se veementes as atrocidades da coloniza- ção, revelando-se, pelo locus enunciativo do povo negro africano, os hor- rores por ele sofridos. O poeta já inicia queixando a dor da submissão lin- guística: em meus lábios grossos fermenta a farinha do sarcasmo que coloniza minha Mãe África e meus ouvidos não levam ao coração seco misturada com o sal dos pensamentos a sintaxe anglo-latina de novas palavras. (crAVeirinHA, 2010, p. 16). Ou seja, a sintaxe do português, embora se expresse por essa língua, não dá conta dos fonemas musicais e afetivos de sua língua nativa, — no caso, o xi-ronga, que ao fim do poema cita, — portanto, o tempero em que é ba- nhada a memória primordial desde seus avós à sua infância não corresponde ao engajamento cultural europeu a que é forçado, — desde o seu aparelho fonador, há que se entender. A própria palidez da pele será ao colonizado obrigada, como se lhe tivesse que ser comum: ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 155 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... [...] enchem-me de sons que não sinto das canções das suas terras que não conheço. e dão-me a única permitida grandeza dos seus heróis a glória dos seus monumentos de pedra a sedução dos seus pornográficos rolls royce e a dádiva quotidiana das suas casas de passe. Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos e na minha boca diluem o abstracto sabor da carne de hóstias em milionésimas circunferências hipóteses católicas de pão. (crAVeirinHA, 2010, p. 16). incutem-se a seu mundo mesmo as canções populares que lhe são inco- muns, substituindo seus heróis por outros espúrios, rearquitetando seu ima- ginário e, propriamente, sua arquitetura, seu consumo e sua lubricidade; há, além do mais, a imposição do que serve ainda como justificativa de toda a atrocidade contra ele desferida: a religião cristã, pintada pelo povo europeu, desde os cabelos lisos e louros de Jesus de nazaré e dos santos (deuses) que lhe sucederam. não havendo qualquer retrato acerca da aparência de Jesus in loco, muito embora algumas poucas descrições, o europeu o pintará a seu propósito, com suas feições mais aproximáveis. não é notório que sonhemos hoje com princesas loiras de olhos claros mesmo em terras mestiças e que os próprios povos negros abduzidos a outras pátrias hoje as tenham como exemplares. A imagem do ideal europeu de aparência física sobressai a quais- quer resistências, quando culturalmente essas imagens passam a habitar o imaginário da maior parte dos povos desde a infância, em oposição à feiu- ra de cabelos encarapinhados e peles negras ou mescladas. Assim, a própria transcendência do espírito enquanto imagem desprendida do corpo após a vida recebe a cor fantasmática do branco ao querer se a representar, enquan- to as trevas, a escuridão e a cor preta demarcam sempre negatividade. Verbos como “denegrir” passam a fazer parte do cotidiano linguístico das pessoas, demarcando que o “fazer-se negro” fosse um ato difamatório e vil. Por isso, Jesus e os santos haviam de ser brancos, de cabelos lisos e de olhos claros, em face ao terror que a pele escura, os cabelos em carapinha e os olhos jabutica- bais representavam. com a parca concessão de haver tardiamente, no Brasil, por exemplo, a imagem de uma nossa senhora negra, a qual na maior parte das vezes é desenhada e esculpida com traços de gente branca, tal qual com ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES156 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... nariz e boca finos. A aceitação de tal imagem, dessa maneira, passa pelo crivo do branco e, para nós, não demarca senão a intenção de domínio da igreja sobre o povo mestiço, em prol da submissão deste. craveirinha aponta, em consonância, ironicamente, como motivação para toda a barbárie, para o desejo de conversão e de salvação cristão, via pregação do evangelho: Amam-me com a única verdade dos seus evangelhos a mística das suas missangas e da sua pólvora a lógica das suas rajadas de metralhadora (crAVeirinHA, 2010, p. 16). na doutrina cristã, estabelece-se a necessidade de conversão do “mun- do” mediante a palavra de Jesus contida na Bíblia, como condição para que os homens alcancem a luz, o ideal, ou o Paraíso depois da morte (o mesmo anseio platônico-socrático), ao que consta nos evangelhos a ordem do profe- ta para que os seus discípulos corram o mundo anunciando a boa nova. esta que seria a renovação da tradição, quando nascera deus entre os homens, dando um novo sentido a todaa existência. Aos que se recusassem, fora com- preendido, no entanto — em passagens como esta: “Aquele que não está co- migo é contra mim, e aquele que comigo não ajunta, espalha” (lc 11:23) —, que deveriam ser vingados, pois eram maus, símbolos do demoníaco na terra. não é diferente o que ocorre com os grupos terroristas, desde Al Qaeda ao estado islâmico, que vem se destacando na barbárie. Por isso, o europeu, ora convencido fanaticamente de uma missão, ora usando-se desse pensamento para justificar sua ganância e necessidade econômica (da mão de obra es- crava ao confisco das riquezas), pratica o terror como forma de sujeição dos que diferem de si, como o negro e o índio, tal qual fossem esses incivilizados povos impuros acometidos pelo pecado a ser corrigido; no caso dos negros, afetados pelo “mau casto impudor africano” (crAVeirinHA, 2010, p. 16), eram nascidos servos e escravos, execrados como cidadãos. tal prática, apesar da brutalidade “anticristã”, fora justificada pela igreja e pelos cristãos quase em geral, que por séculos interpretaram a maldição de noé sobre o seu filho cã, a qual passa a canaã, como lançada sobre o povo ne- gro. Por motivos provavelmente políticos, já que israelitas e canaanitas eram inimigos, pareceria elementar condenar tal povo através do grande fundador mítico da raça humana. e por motivações também políticas achou-se necessá- rio, sem qualquer precedente histórico, condenar a África na figura de canaã, considerando-o fundador amaldiçoado do povo negro, relegando este então ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 157 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... à escravidão, ignorando que o próprio Jesus fora nascido em território africa- no. Atitudes tão vis levam craveirinha enfim a questionar a tão aclamada ci- vilização, quando a mesma, no intuito de reparar a selvageria e o primitivismo de diversos povos, não parece apresentar uma evolução real ou uma morali- dade verdadeiramente sã: e aprendo que os homens que inventaram a confortável cadeira eléctrica a técnica de Buchenwald e as bombas V2 acenderam fogos de artifício nas pupilas de ex-meninos vivos de Varsóvia criaram Al capone, Hollywood, Harlem a seita Ku-Klux-Klan, cato Mannor e sharpeville e emprenharam o pássaro que fez o choco sobre o ninho morno de Hiroshima e nagasaki conheciam o segredo das parábolas de charlie chaplin leem Platão, Marx, gandhi, einstein e Jean-Paul sartre e sabem que garcia lorca não morreu mas foi assassinado são os filhos dos santos que descobriram a inquisição perverteram de labaredas a crucificada nudez da sua Joana d’Arc e agora vêm arar os meus campos com charruas “made in germany” (crAVeirinHA, 2010, p.17). A dicotomia, ou antítese, criada entre civilizado e primitivo é assim con- testada, ou ao menos questionada com craveirinha, que, em dissonância ao branco europeu, busca reacender a chama primitiva de seu povo, para que não se apague sua real memória, projeto que engendra desde “Xibugo” e que se adensa em seu segundo livro, de 1974, “Karingana ua karingana” (“era uma vez”), e que não abandona o poeta nem em seus poemas da prisão, nem em seus ternos cantos com saudades de Maria, sua esposa falecida. Ora, essa falha de caráter extrema pertinente ao pensamento civilizado “elítico”, com suas charruas importadas e cadeiras elétricas, tenta suplantar o paganismo fraterno de seu povo, ligado à natureza, e de sua poesia: mas já não ouvem a subtil voz das árvores nos ouvidos surdos do espasmo das turbinas não leem nos meus livros de nuvens o sinal das cheias e das secas e nos seus olhos ofuscados pelos clarões metalúrgicos ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES158 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... extinguiu-se a eloquente epidérmica beleza de todas as cores das flores do universo e já não entendem o gorjeio romântico das aves de casta instintos de asas em bando nas pistas do éter infalíveis e simultâneos bicos trespassando sôfregos a infinita côdea impalpável de um céu que não existe. (crAVeirinHA, 2010, p. 18). sartre, ao prefaciar “Os condenados da terra”, de Frantz Fanon (1979), percebe o pretexto utilizado para se conciliar a crueldade dessa civilização cristã contra o negro com sua doutrina: “uma vez que ninguém pode sem cri- me espoliar seu semelhante, escravizá-lo ou matá-lo, eles dão por assente que o colonizado não é o semelhante do homem” (sArtre, in: FAnOn, 1979, p. 9). Ou seja, a única forma de cometer tal crime sem cometer pecado seria come- tendo-o em favor da própria doutrina, contra homens perdidos, aborígenes em erro, condenados. Ou ainda não lhes dando a dignidade nem sequer de serem homens e mulheres, como o diz Walter Mignolo, com o locus enunciati- vo da América latina desta vez: en realidad, la conciencia criolla era más bien una doble conciencia: la de no ser lo que se suponía que debían ser (esdecir, europeos). ese ser que es en verdad un no-ser es la marca de la colonialidad del ser. los afrocriollos y los aborígenes no tienen ese problema. en su caso, la consciência crítica surge de no ser considerados ni siquiera humanos.2 (MignOlO, 2005, p. 87) Mediante as raízes, as faces do preconceito contemporâneo não estão distanciadas desse princípio ou dessa justificativa colonial. Vejam-se as al- cunhas que desfavorecem as minorias, como os homossexuais, as mulheres livres e os próprios negros: “Veados”, “galinhas”, “macacos”. As associações são as mais pejorativas possíveis. tratam de ridicularizar o outro, sempre aten- tando contra a sua humanidade, para defini-lo, certamente, como ser sem a propriedade de adquirir direitos; ou melhor, como pessoa não merecedora socialmente da igualdade, por ser justamente desigual demais para compor o quadro das sociedades: não é um homem ou uma mulher, é um animal. É por isso que as mulheres que não atendem à submissão machista mere- cem ser estupradas; os homossexuais, principalmente os do sexo masculino, 2 “na verdade, a consciência crioula era sim uma dupla consciência: a de não ser o que se supunha que deviam ser (isto é, europeus). esse ser que é na verdade um não-ser é a marca da colonialidade do ser. Os crioulos afrodescendentes e os aborígenes não têm esse problema. em seu caso, a consciência crítica surge de não ser considerados nem sequer humanos.” (tradução nossa) ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 159 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... deformação absoluta da virilidade, devem ser condenados; e nos negros é incutida uma série de difamações (por exemplo, a de possuírem dentro deles vírus como o da Aids, o qual não os afeta a eles, mas somente aos que têm re- lações com eles, como no caso dos imigrantes que vêm refugiados trabalhar aqui; ou a de serem ladrões, bandidos). As comunidades (favelas), além do mais, são vistas como grandes vespeiros, como toda a periferia, onde vivem bêbados, ladrões e vagabundos, com seus ferrões ameaçadores voltados aos tais “cidadãos de bem”. estranha-nos muito tal comportamento racista em terras mestiças e de povo sofrido, como é o Brasil, perdurar com tanta força até hoje; estranha-nos porque é incoerente. Menos nos estranha, no entanto, embora tão incoerente quanto, o preconceito acerca das mulheres, já que a elas relegou-se um pa- pel secundário em grande parte das culturas, com exceção a sociedades mais primitivas, e, embora tenhamos mulheres ativas e decisivas a demarcar todo o processo histórico, elas foram trazidas aos livros e relatos em muito menor número do que ocorreram. Parece-nos claro esse fato mediante a ausência delas durante os séculos de história. e fora só no final do século XViii, com a revolução francesa, que as mulheres foram pela primeira vez citadas em um documento que lhes asseguraria os mesmosdireitos dos homens. escrito pela escritora e militante Olympo de gouges, apenas em 1986 foi publicado saindo do esquecimento, tal como atesta o sítio da web da Universidade livre Femi- nista (em www.feminismo.org.br). Assim sendo, não é notório que se veja a mulher ainda atualmente in- fringida em seus direitos perante uma sociedade machista, patriarcalista, que é incapaz de descolonizar seu pensamento. desde a mitologia ocidental, a mulher é vista como um ser secundário, ou um ser das trevas. Para Aristóteles, a mulher é considerada um “homem incompleto”, pensamento que afetará toda a idade média e ainda hoje parece superar nossas expectativas, por não se derruir. As insígnias do maledicente e da secundariedade, portanto, sem- pre revestiram a ideia que pudéssemos ter da mulher. A Bíblia impõe-lhe a imagem da pecadora, desde eva, que corrompe Adão, a qual também não é mais do que uma companheira do homem, nascida de sua costela. Papel sempre de menosprezo a governará pois. Observe-se o papel que assume Madalena nas escrituras perante Jesus, seu mestre, e aquele que a ela é conferido mediante o seu evangelho apócri- fo, o qual a traz como uma sacerdotisa munida de grande espiritualidade e proximidade do profeta. não é difícil supormos, ao nos aprofundarmos, que ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES160 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... essa mulher passa a figurar como uma prostituta para a historicidade teoló- gica cristã justamente porque assim se torna submissa ao mundo machista, não sendo digna senão ao encontrar a luz em um homem e nunca com um poder de voz que não venha antes do jugo dos demais homens. Ou seja, ou- sada para seu tempo, já que assume um papel diverso do que a ela deveria ser cabido, ela é insultada como prostituta e, sendo ela uma personagem re- levante na história do nazareno que seria considerado deus, fora necessário pintá-la como um ser perdido, submisso ao sexo masculino, este responsável pela sabedoria, pela razão. Aliás, seu próprio evangelho (que pode ser inclusi- ve ouvido no link: https://www.youtube.com/watch?v=oKtkyMouQ7o), narra como André e Pedro colocam-se contrários à ideia de uma mulher ter mereci- do Jesus mais que aos homens, como se isso fosse inconcebível. suposições à parte, desde Aristóteles (e também de eva), a mulher é um prospecto indefinido e imperfeito do homem. O homossexual, por sua vez, outra camada desconsiderada em seus reais direitos, não é um prospecto, mas uma aberração, monstruosidade demoníaca. A partir do momento que o corpo torna-se vil e impuro com o cristianismo platônico, o homossexual, considerado um ser promíscuo, libertino, portanto entregue aos desígnios do corpo, torna-se um ser vil e impuro. não é a ele creditada qualquer dignidade de homem, já que não se o vê como ser humano especificamente, mas como um ser de carne e lubricidade, um sátiro (sem alma, porque esta está corrom- pida, e de todo visível, se rememorarmos as palavras de sócrates na escritura platônica). cogitar que ele possa efetivar família em união pecaminosa, já que deus criou a mulher para ser cônjuge do homem, é inadmissível. O homosse- xual é um tipo de fruta podre asquerosa, a ser lançada. e assim é visto mui- to mais no que se refere a aparentar com o feminino do que a homossexual deste sexo. O ato sexual entre duas mulheres muitas vezes até mesmo atrai o homem (representação de puro machismo, em que as mulheres tornam-se objetos de desejo sexual); quando dois homens em ato sexual e afetivo são repelidos por toda a sociedade machista, mesmo por muitas mulheres. É claro que nessas últimas observações especulamos o fato de forma rasa, e não ge- nérica, pois, em geral, conforme o pensamento cristão estabelecido, ambos, homem e mulher, quando homossexuais, serão abomináveis aos olhos de deus, pelo mesmo motivo: são pecadores entregues à abominalidade. Assim, continua-se negando aos homens seu direito integral, negando- lhes a cidadania, a igualdade. Até que no século XiX duas grandes correntes filosóficas viriam questionar os valores mantidos por séculos, uma em ata- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 161 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... que ao status quo; a outra, além do mais, em ataque direto à própria essência dos conceitos valorativos. A primeira delas é o marxismo, que, a partir de seu grande promulgador, enfatiza a igualdade dos humanos, buscando-a em sua cidadania e mesmo em se tratando da posição econômica que ocupam. Para Marx, o estado deve mantener a compatibilidade de bens entre todos, ga- rantindo ainda que todos tenham assegurados os mesmos direitos enquanto cidadãos. Portanto, segundo esse pensamento, infere-se que todos os seres humanos devam ser respeitados econômica e moralmente, porque adquirem direitos enquanto partícipes de uma comunidade de iguais, mesmo com suas diferenças características: mulher, homem, negro, índio, homossexual. O es- tado torna-se laico, ou seja, não tem religião, e a religião é atacada como um tipo de tranquilizador social, uma arma ideológica alienante. Os processos de desalienação social que provocam as ideias de Marx e de engels desarticulam os caminhos da submissão nas esferas periféricas da sociedade, tendo em consequência atitudes críticas acirradas por parte de pensadores, músicos, artistas, movimentos sociais etc. O teatro e a poesia de Bertold Brecht são uma prova de o quanto essas consequências mobilizaram a história. Até ali, em suma, o ideal da poética aristotélica organizava pratica- mente toda a atividade artística. O encantamento e o efeito catártico eram motores soberanos da arte. e a arte teatral criava uma barreira com o público, não provocando nele senão a rejeição frente a estereótipos ou o perdão com as lágrimas, ambos promovendo a resignação: se na comédia castigam-se os costumes, há a resignação mediante a crítica exposta; e, na tragédia, a resig- nação perante a sublimidade heroica, que nos perdoa a todos, levando-nos para fora do espetáculo como ovelhas que caminham serenas para o pasto. Brecht, pelo contrário, instiga a revolta no seu público. O teatro, para ele, não será mera ocasião de submissão do expectador, mas ocasião participati- va, de despertá-lo, de se emergirem, mediante a representação épica, forças de dentro do expectador, as quais questionem o status quo e promovam a re- flexão histórico-dialética. O espectador, na verdade, é convidado a participar do ato representativo, como interlocutor ou agente. e esse ideal acenderão novas chamas para a produção artística. Augusto Boal, por exemplo, ao se ocupar dessas ideias no contexto da América latina, promoverá técnicas sim- ples e decisivas para a tomada de atitude e reflexão frente aos processos de alienação, como o teatro-debate, o teatro-fotonovela ou o teatro-imagem, dentre outras, narradas em seu “teatro do oprimido e outras poéticas políti- cas” (2013), dentre outras obras. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES162 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... Ou seja, a história passa a ser contestada desde as raízes de sua estrutu- ração social. seus valores são arguidos e postos em discussão, e um trabalho voltado aos oprimidos desencadeia-se, derruindo, em parte, a soberania das oligarquias. e esse debate acerca dos valores que regem a humanidade terá máxima representação em um filósofo contrário às ideias de Marx, mas que em sua essência estará exercitando o mesmo processo de questionamento, no âmbito do substancial: Friedrich nietzsche. se Marx analisa em dialética a sociedade e como ela se organiza, nietzs- che o faz em segundo plano, porque está mais preocupado não com a orga- nização coletiva, com os homens em sociedade, mas, em primeira plana, com as propriedades do espíritodo indivíduo, com seus valores tidos como essen- ciais, desde o que entenda por humanidade, bondade, verdade, justiça etc. O que cada uma dessas palavras designa pode ser tido como verdadeiro, como essencial, como inconteste? Podemos dizer que o que os homens julgam bom seja o Bem essencialmente, e o que eles julgam mau seja da mesma forma o Mal? O filósofo responderá que não. tudo são apenas interpretações pro- venientes da perspectiva humana, não definições absolutas ou verdadeiras. Mesmo porque, segundo a sua “genealogia da moral”, os próprios conceitos de Bom e de Mau foram transformados desde a filosofia socrática: Bom era, pré-socraticamente, sinônimo de forte, aristocrático, algo soberbo e grandio- so; o Mau, pelo contrário, era representado pelo que o cristianismo tem de mais caro: Humildade, resignação, fraqueza, escravidão, defeitos terríveis ao homem mais primitivo. sócrates corrompe a história, em favor de modificá-la, com sua fé na razão e com o início da moralização do mundo. como um mé- dico que viria a curar a realidade anterior a ele, tal filósofo encarna a salvação do mundo através da lógica: (...) o socratismo condena tanto a arte quanto a ética existente: para onde quer que dirija seu olhar perscrutador, reconhece a falta de com- preensão e o poder da ilusão, deduzindo dessa falta o absurdo, a con- denação daquilo que o cerca. Partindo desse ponto de vista, sócrates achou que deveria corrigir a existência: como precursor de uma cultura, de uma arte e de uma moral totalmente diferentes, ele, o solitário, avan- çou, com ar de desprezo e de altivez, no meio de um mundo cujos últi- mos vestígios são para nós objeto de uma profunda veneração e fonte das mais puras alegrias. (nietZscHe, 2007, p. 96) nietzsche, portanto, vai opor, como craveirinha o fará após ele, mundo primitivo e mundo civilizado, percebendo o mal que a civilização construiu, acusando-a de deturpar o progresso dos homens. A razão para ele é contes- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 163 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... tável, já que tanto a matemática quanto a lógica dogmática (ilógica) da fé são inúteis, diante da insignificância do homem perante o cosmos, para resolve- rem quaisquer aspectos da vida, isto é, para defini-la. simples interpretações da realidade, as nossas verdades não passam de ficções, nas mais das vezes submissas e escravas. Aponta, pois, para procedimentos niilistas, os quais tra- tam de substituir esta realidade por outras devaneadas (como o mundo além do mundo cristão ou a crença em sociedades utópicas, mediante os ideais de igualdade, fraternidade e liberdade modernos). dessa maneira, criando-se mundos outros que superem este, deprecia-se a realidade, a matéria, o mun- do, amargando-o, fazendo com que seja espúrio e rendendo-se ao sofrimento como bênção, como graça ou finalidade da vida. isto porque se rende ao real uma realidade fora do mundo, de que esta provém e que é melhor que esta, fazendo desta, enfim, ilusão e perdição. Para nietzsche, tal procedimento é estúpido e carece revisão, ou melhor, transmutação. extremista, ele vê a necessidade de derruírem-se todos esses valores pré-estipulados, substituindo-os por novos, inclusive com novas pala- vras, que percam o sentido moral, dado de maneira preconceituosa, ou pré- concebida. nele, a metáfora da criança traz à tona a necessidade de superar- mos toda a velhice histórica, a tradição e a experiência, a fim de nos despirmos e reiniciarmos da estaca zero toda a nossa caminhada, experimentando a vida de maneira límpida, despida, superando a mesquinhez e a servidão para nos erigirmos a homens mais altos, que sejam capazes de observar a realidade com os próprios olhos, não submetendo o julgamento a uma lei tal, uma reli- gião ou fé absurdas e fanáticas. nas vozes de grandes pensadores modernos, como sartre, Heidegger, deleuze, essas preocupações nietzschianas ganham corpo e emolduram o pensamento da contemporaneidade, unidas às modifi- cações marxistas contrapostas ao status quo. dessa maneira, a contemporaneidade estrutura-se ocidentalmente, vi- sando a uma ressignificação histórica, mediante os processos de conferên- cia da cidadania e de revalorização dos conceitos postos, ou transvaloração destes. Por isso a ciência linguística passa a considerar os vários discursos e a forma como ideologicamente são utilizados. se Bakhtin os propõe como fer- ramentas de poder, aos atos discursivos, passa-se a observar o que se oculta por detrás desses atos, nas entrelinhas e na construção discursiva, como um todo. Verbos como “denegrir” ou definições como “homossexualismo” pas- sam a ser contestadas como discursos racistas e preconceituosos a partir daí — já que, como já exposto, tal verbo refere-se ao trato do negro pejorativa- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES164 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... mente (de+negr+ir, como “difamar”) e tal substantivo define o homossexual como um doente ou como um ser de alcunha ideológica (ismo = prefixo gre- go que exprime ideias como religião, ideologia, corrente teórica, doença etc.). Assim é que se restringem usos de palavras, substituindo-as, como no caso de “negro” por “afrodescendente”, “homossexualismo” por “homossexualidade” e assim por diante. A sociologia e a antropologia serão ciências que passarão também a nos mostrar caminhos diversos dos que há muito a sociedade percorrera, ensinan- do-nos como o local de onde proferimos nossos discursos e de onde nossos olhos miram deve ser levado em conta na decisão de contrapor ou comparar as realidades sociais diversas, já que a perspectiva com que olhamos não deve ser reguladora, ao não podermos equiparar nossos olhos com aqueles os quais observamos. tão grave quanto o genocídio é o “etnocídio”, quando buscamos forçar o outro a adequar-se a nós, tal qual Pierre clastres no-lo define: Aceita-se que o etnocídio é a supressão das diferenças culturais julga- das inferiores e más; é a aplicação de um princípio de identificação, de um projeto de redução do outro ao mesmo (o índio amazônico suprimi- do como outro e reduzido ao mesmo como cidadão brasileiro). (clAs- tres, 2011, p. 83) Portanto, o olhar corretivo e a imposição de valores lançada sobre o ou- tro, seja de que ponto de vista que se os proponha, não podem ser tomados como parâmetros, devem ser antes consultados criticamente. não é possível admitirmos, depois de tanta emancipação e reflexão acerca de conceitos ob- soletos, que o outro seja visto em erro por aspectos que lhe são peculiares, desde a cor à sexualidade. este ensaio quis, assim, concluir a necessária des- construção dessa visão errônea em relação a um pensamento de absoluto ou a um ideal incorruptível, que difame ou desrespeite o ser humano. Perpassando a história do pensamento e da religião, desde sócrates, ao firmar a razão como ponto de acesso à Verdade, calhando na imposição do cristianismo como realidade suprema e exemplar, a ser seguida, queríamos interpor as ideias modernas, que difundem a ineficiência dos conceitos que se têm como concretos, e demonstrar como todos esses conceitos não passam de um olhar perspectivo sobre a realidade, sem constância suprema. tal qual Marx e engels enfatizam em seu “Manifesto comunista”: “tudo o que era sóli- do e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado, e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.” (MArX; engels, 1999, p. 12). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 165 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... É-nos, logo, obrigatório refletir sobre essa impermanência essente nos sujeitos da história, para não corrermos o risco de nós, emancipados que es- tamos dos períodos de17 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... esse enfrentamento proporciona. levando em consideração esses aspectos, seguimos com nosso plano de aula apresentando o cantor e compositor renato russo, relatando brevemen- te sua biografia e alguns fatos relevantes sobre sua carreira e trajetória de vida. em seguida, ouvimos a música e apresentamos nosso propósito, o de comparar as personagens joão, do conto “O arquivo”, e João de santo cristo, da canção “Faroeste caboclo”. no que se refere às formas como ambos rea- gem diante da exploração, vimos como a personagem joão, no conto, mos- trou-se passivo, incapacitado de reagir às injustiças a que fora submetido. en- quanto João de santo cristo não é totalmente determinado pelo meio e atua sobre a realidade. na narrativa, o projeto de vida de João de santo cristo constitui-se por meio de fatos pessoais e sociais, implicando a forma como se relaciona com o mundo. Por meio de questionamentos, buscamos refletir com os alunos sobre a busca de João de santo cristo por um futuro melhor, e os fatores o impedem de realizar seus projetos e desejos. Os alunos apontaram impedimentos prin- cipalmente referentes à etnia e à classe social a qual ele pertencia. depois disso, retomamos toda sua trajetória de vida, a começar pela ma- neira como é descrito na letra da música, um “tal” João de santo cristo, ou seja, um outro pretensamente distante da realidade do interlocutor. A per- sonagem encontra-se inserida no sistema capitalista e vivencia uma realida- de de exploração, alienação e pobreza, pois “até a morte trabalhava, mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar”, produzindo bens aos quais, por fim, não tem acesso. diante de um cenário de perda de confiança no sistema po- lítico, envolve-se com o mundo do crime na esperança de ascender economi- camente. devido a limitações de ordem cognitiva, “não entendia como a vida funcionava discriminação por causa de sua classe sua cor”, sem saber que as estruturas o que o constituíram como sujeito definiram sua escolha. Outro aspecto explorado na música foi a intertextualidade com a Bíblia, pois, em sua trajetória, percebe-se um diálogo entre a vida de João de santo cristo com a via-crúcis do Messias, referindo-se ao trajeto percorrido por Jesus até sua crucificação, um percurso de dor e sofrimento, como na vida de João. esse diálogo pode ser percebido também no nome da personagem. isso sig- nifica que a elaboração do sentido do texto se construiu pelo conhecimento de algo que já foi dito ou lido antes. A intertextualidade é elemento constituinte e constitutivo do proces- so de escrita/leitura e compreende as diversas maneiras pelas quais a ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES18 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... produção/recepção de um dado texto depende de conhecimentos de outros textos por parte dos interlocutores, ou seja, dos diversos tipos de relações que um texto mantém com outros textos (KOcH; eliAs, 2008, p. 86). Assim, ao produzir um texto, o autor utiliza-se da experiência de outras leituras, ancorando seus argumentos em outros textos que podem garantir a legitimidade do seu ponto de vista. no desfecho da narrativa musical, que se dá de forma trágica, vemos as mortes de João e seu rival, Jeremias, num duelo, e também de Maria lucia, seu grande amor. toda a cena de horror é divulgada na mídia, e os espectadores, principalmente “alta burguesia da cidade”, assistem a tudo incrédulos, numa posição de afastamento do ocorrido. diante desse fato, debatemos com os alunos sobre essa distância entre a burguesia e o proletariado, que ocorre pe- las desigualdades econômica e cultural. no entanto, são os proletários que sustentam a burguesia com sua força de trabalho, explorada pelo emprega- dor para lucrar cada vez mais. Fizemos uma reflexão sobre como poderia ser diferente se todos tivessem acesso ao conhecimento e pudessem reconhecer sua real condição. Portanto, há nos dois textos uma relação de semelhança, na medida em que o conto e a música retratam uma sociedade inserida num sistema que reproduz a injustiça. nesse sentido a literatura, como representação de uma visão de mundo, tem o papel de transformar o indivíduo em um sujeito ativo, capaz de compreender o contexto em que vive e quiçá modificá-lo. Após um amplo debate sobre os temas tratados no conto “O arquivo” e na música “Faroeste caboclo”, propusemos aos alunos atividade relacionadas à estrutura do texto narrativo, explorando elementos como tempo, espaço, personagens, foco narrativo, apresentação, complicação ou desenvolvimen- to, clímax e desfecho. exploramos o sentido das palavras “necrológio” e “rei- ficação”, que são muito significativas no texto “O arquivo”, além de exercícios de coerência e coesão para conduzir os alunos a uma produção textual dentro do gênero artigo de opinião. Primeiramente, explicamos as principais características desse tipo de tex- to, como sua finalidade, veículo de circulação, assuntos que podem ser abor- dados, entre outros aspectos. na sequência, realizamos a leitura do texto “A exploração do trabalho aumenta”, de Vito giannotti. Juntamente com os alu- nos, analisamos o tema e a opinião do autor sobre o tema; quais argumentos o autor mobilizou para defender seu ponto de vista; as estratégias discursivas ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 19 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... que embasaram seus argumentos. Por fim, solicitamos aos alunos a produção de um artigo de opinião, cujo tema é a exploração do trabalho no sistema capitalista. com as produções textuais, foi possível perceber a compreensão que os alunos tiveram sobre textos literários trabalhados na regência do estágio, sen- do que os utilizaram para defender suas ideias no trabalho de redação pro- posto. sobre isso, Bakhtin assevera que: A pessoa aproxima-se da obra com uma visão do mundo já formada, a partir de um dado ponto de vista. esta situação em certa medida deter- mina o juízo sobre a obra, mas nem por isso permanece inalterada: ela é submetida à ação da obra que sempre introduz algo novo (BAKHtin, 1997. p. 382). Assim, o trabalho com os textos literários mostrou-se eficaz, pois essas es- tratégias proporcionaram aos alunos novas formas de percepção diante dos textos, mudando em alguns aspectos a visão do mundo em seu entorno. CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente trabalho concentrou-se em apresentar as estratégias e dis- cussões decorrentes dos assuntos abordados nos textos selecionados para a realização do estágio de docência. Assim, no conto “O arquivo”, explorou- se a força narrativa e o esplendor técnico de Victor giudice na construção significativa da obra para tratar de um tema sempre atual: a exploração do trabalho no sistema capitalista, proporcionando ao aluno a compreensão de como a passividade contribui para o processo de desumanização do in- divíduo. Já com a canção “Faroeste caboclo”, pudemos demonstrar nesse mesmo tema os conflitos vivenciados pelo protagonista na posição de sujeito ativo, que dialoga com uma dura realidade que lhe é imposta, considerando sua prática social, construída histórica e culturalmente. dessa maneira, constatamos que o estágio foi um momento de ensino -aprendizagem, pois possibilitou a aplicação de práticas pedagógicas impor- tantes para a aproximação dos alunos com os textos literários, sendo que eles são fundamentais para a compreensão de mundo e reflexão sobre os proble- mas que envolvem a sociedade. dessa forma, salientamos que o educador deve possibilitar a transformação do pensamento do aluno, buscando estra- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES20 estÁgiO de dOcÊnciA: teXtOs literÁriOs cOMO eiXO nOrteAdOr... tégias que viabilizem a construção do posicionamento crítico e reflexivo com relação às questões sociais, culturais e científicas. REFERÊNCIAS BAKHtin,trevas, de imposição e de ignorância, cometermos os mesmos erros que fizeram de tantos homens réus sem crimes e depositaram ódio e injúria à vivência humana. não podemos continuar julgando que nosso olhar possa ser mediador da vivência de outras pessoas, seja esse pensamen- to lançado a particulares modelos de vida ou a coletivos. nenhuma religião, nenhuma crença, nem mesmo uma ciência é capaz de dar cabo dos mistérios que encerram a pequenina existência humana, quem dera se o pudesse em relação à universal. É necessário sim que entendamos, de uma vez por todas, que olhamos a vida como passageiros em um cruzeiro sem destino, o qual nos exige paixão e vivacidade, se não nos relegará apenas morte e sofrimento. se não formos capazes de nos encantar com a diversidade, de aceitar o outro e de atribuir-lhe igualdade, fomentaremos em nós apenas o ódio e a constan- te autoperturbação. Felicidade, enfim, não encontraremos, muito menos paz. no poema “genocídio”, do militante de causas lgBts, Bruno Haishbach, publicado em bibliografia artesanal, temos o real sentido como se tem por séculos dedicado amor ao próximo, segundo o que podemos observar em nosso próprio dia a dia: o mundo genocida que alimenta o ódio com ignorância, medo e repressão, sustenta que o amor tem limites, os limites da exploração. (HAisHBAcH, p. 05) Bem como fala o poeta, esse mundo preconceituoso, que difunde o ódio, recusando-se a viver em comunidade e a ceder os direitos a todos como iguais, sem se preocupar com como vivam ou como sejam; mundo arbitrário, que se ocupa da morte, ao invés da vida; que condena, em vez de ajudar; tal mundo não é erigido mediante a inocência ou uma boa intenção, ele é plenamente desenvolvido conforme interesses de exploração e difamação, que vislumbram tão somente a particularidade de correntes de pensamento intolerantes, as quais devem ser vencidas, por se pautarem na ignorância e na inaceitação. cabe a nós, amantes da igualdade entre os homens, construtores de novos caminhos para as sociedades, observarmos que o amor seja posto no ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES166 O OlHAr cOrretiVO e A iMPOsiçãO de VAlOres: UM estUdO AcercA dAs rAÍZes dA desigUAldAde... patamar da fraternidade, indiferente que seja a nossa crença e o nosso pensa- mento moral, quando não se justifica a diferenciação entre os homens no âm- bito dos direitos adquiridos pelo próprio fato de nascerem homens, homens e mulheres, humanos, seres que se significam apenas em relação ao grupo, ao outro, isto é, coletivamente, em sua atuação social. não sendo nossas crenças e moralidades senão meras relatividades, sem verdade senão a se questio- nar, sem profundidade senão mediante a meditação inteligente, a qual nos conduzirá a entender que a melhor forma de se viver é esta: na qual todos sejamos, embora a nossa diversa riqueza, integralmente iguais. 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O COMBATE AO RACISMO POR MEIO DA DISCIPLINA DE LÍNGUA PORTUGUESA: SUGESTÃO DE LEITURA MEDIADA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL luciana aparecida bravim macarini valdeci batiSta de melo oliveira ALGUNS ASPECTOS DO RACISMO NA SOCIEDADE BRASILEIRA estudiosos do Brasil e do mundo denunciam o preconceito racial como uma das razões para a existência de desigualdades sociais (sKidMOre, 1976; HAsenBAlg, 1979; AndreWs, 1998; gUiMArães, 1999, BentO, 2002; telles, 2003; scHUcMAn, 2012), tornando a compreensão da categoria sociológica “raça” indispensável para a interpretação da distribuição de renda e poder e dos sistemas de significação. no Brasil, entretanto, o contexto multirracial propicia um mascaramento para esta diferenciação. embora as marcas da desigualdade perpassem toda a socialização de indivíduos não brancos, na casa, na rua, na escola, e todos os espaços públicos sejam marcados pela su- pervalorização da branquitude e pela preferência do branco em relação ao não branco (scHUcMAn, 2012, p. 14), a crença na democracia racial revela-se como uma ideologia oficial que evita e enfraquece o enfrentamento ao pro- blema, já que produz um senso de alívio entre os brancos, que podem-se abs- ter de qualquer responsabilidade pelos problemas sociais dos negros, além de instiga-los a não se sentirem pertencentes à sua raça, subjetivados pela ideologia do branqueamento. Ainda que, na perspectiva biológica, a distin- ção de raças não exista, é por meio de pressupostos falsos e imaginários so- bre elas que se sustentam práticas cotidianas, percepções, comportamentos e representações que garantem aos brancos a posição idealizada de padrão, como única identidade racial normal, que deve ser pelos outros alcançada em níveis intelectuais, morais, estéticos, econômicos etc. (FrAnKenBerg, 2004). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES168 O cOMBAte AO rAcisMO POr MeiO dA disciPlinA de lÍngUA POrtUgUesA: sUgestãO de leitUrA MediAdA... diferentes pesquisas desenvolvidas no país demonstram que há para os bran- cos mais facilidades no acesso à habitação, à saúde, à educação, à segurança, à oportunidade de emprego e à transferência de riqueza herdada entre as gerações (FernAndes, 1978; gUiMArães, 1999, 2002; HAsenBAlg & silVA, 1988, 1992, 1999). Os privilégios da cor perpassam, inclusive, pela aristocrática distribuição da justiça brasileira. embora brancos e negros cometam crimes em propor- ções semelhantes, os réus negros tendem a ser mais perseguidos pela vigi- lância policial, enfrentam maiores obstáculos de acesso à justiça criminal e revelam maiores dificuldades de usufruir do direito de ampla defesa asse- gurado pelas normas constitucionais. em decorrência, tendem a receber um tratamento penal mais rigoroso1, representado pela maior probabilidade de serem punidos comparativamente aos réus brancos (AdOrnO, 1995, p. 63). Os traços característicos da branquitude relacionam-se, ainda, com a ideia de superioridade (FAnOn, 1980) que é fortalecida pelos meios de comunicação. Os estudos de liv sovik (2004) sobre as relações raciais e mídia evidenciam o prevalecimento da exibição de brancos em relação a não brancos como fator reprodutor da hegemonia do valor estético. Por conseguinte, desde o nas- cimento, os brancos já são premiados com a exibição midiática de atributos que enaltecem sua identidade racial, enquanto aos não brancos desvelam-se a exclusão e as classificações socialmente desvalorizadas.Mikhail. Estética da Criação verbal. são Paulo: Martins Fontes, 1997. cÂndidO, Antonio. o direito à literatura - vários escritos. são Paulo: duas cidades, 1995. Freire, Paulo. ação cultural para a liberdade. 6. ed. [s.l.]: Paz e terra, 1982. giUdice, Victor. O arquivo. in: MOricOni, i. os cem melhores contos brasileiros do século. rio de Janeiro: Objetiva, 2009. grAMsci, A. Cadernos do Cárcere, volume 1. rio de Janeiro: civilização Brasileira, 1999. HUgO, Victor. os Miseráveis. tradução de Francisco Ferreira da silva Vieira. [s.l]: cen- taur editions, 2013. KOcH, i, V; eliAs, V, M. Ler e compreender os sentidos do texto. 2. ed. são Paulo: contexto, 2008. MArX, Karl. o Capital – crítica da economia política. livro i. 23. ed. rio de Janeiro: civilização Brasileira, 2009. PArAnÁ. secretaria de estado da educação. diretrizes Curriculares de Língua Por- tuguesa para a Educação básica. curitiba: seed, 2008. rUssO, renato. faroeste Caboclo. in legião Urbana, Brasília, 1979, eMi-Odeon. dis- ponível em: . Acesso em: 16 out. 2017. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 21 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA BUSCANDO IR ALéM DA GRAMÁTICA ana criStina Silveira michele neveS da Silva alexandre SebaStião Ferrari SoareS INTRODUÇÃO O presente relatório contempla as disciplinas de Prática de ensino estágio supervisionado de língua Portuguesa e literatura no ensino Médio. O traba- lho realizado foi inicialmente de observação participativa e análise da meto- dologia utilizada pelos educadores de língua Portuguesa. A realização desse relatório tem por finalidade apresentar a dicotomia presente no ensino Médio entre o estudo da gramática e a literatura. essa reflexão tem sua relevância no sentido da importância de entender o que se ensina, para que se ensina e como se ensina. diante do fato de que a grande maioria dos alunos advém de classes menos favorecidas e pouco ou nenhum contato tem com a língua instituída como padrão pela sociedade contempo- rânea, a busca da união entre o estudo da literatura e da gramática seria um passo amplo para que os educandos tenham acesso a ela, de uma forma até mesmo lúdica, interessante e prazerosa. O estágio foi realizado no colégio estadual Júlia Wanderley, ensino Fun- damental e Médio, na cidade de cascavel Pr. O colégio localiza-se na rua Jorge lacerda, 1420, no bairro claudete, ceP 85811-100. A administração da unidade está sob orientação do professor rosimar Baú. inaugurada em 1965, o grupo escolar recebeu o nome da primeira mulher a ingressar no magistério no estado do Paraná. O estabelecimento passou por várias trans- formações físicas até atingir os moldes atuais. Atualmente, o colégio esta- dual Professora Júlia Wanderley conta com aproximadamente 1.140 alunos do 6º ao 9º ano do ensino Fundamental, ensino Médio e educação de Jovens e Adultos. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES22 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA A instituição segue os pressupostos didático-metodológicos das diretri- zes curriculares da educação Básica língua Portuguesa para o estado do Pa- raná, por sua vez pautada nos Parâmetros curriculares nacionais de língua Portuguesa (Pcn). de acordo com as diretrizes curriculares do Paraná e os Pcn, a apropriação da língua, oral e escrita, é essencial para a interação so- cial concreta e eficaz. Para ambos os documentos, é por meio da linguagem que o homem compartilha e acessa informações, divulga e defende pontos de vista, divide ou arquiteta visões de mundo, ou seja, efetivamente produz os diferentes saberes. nesse sentido, a escola assume como responsabilidade o objetivo de afiançar a todos os seus alunos o ingresso aos saberes linguísticos, necessá- rios para a prática da cidadania, por ser direito inalienável de todos. em seu Projeto Político Pedagógico, o colégio estadual Júlia Wanderley dá ênfase à escola como lugar de socialização do conhecimento, pois essa função da instituição escolar é especialmente importante para os estudan- tes das classes menos favorecidas, que têm nela uma oportunidade, algumas vezes a única, de acesso ao mundo letrado, do conhecimento científico, da reflexão filosófica e do contato com a arte. Assim, os conteúdos disciplinares devem ser tratados, na escola, de modo contextualizado, estabelecendo-se entre eles relações interdisciplinares e co- locando sob suspeita tanto a rigidez com que tradicionalmente se apresen- tam quanto o estatuto de verdade atemporal dado a eles. dessa perspectiva, propõe-se que tais conhecimentos contribuam para a crítica às contradições sociais, políticas e econômicas presentes nas estruturas da sociedade contem- porânea e propiciem compreender a produção científica, a reflexão filosófica, a criação artística, nos contextos em que elas se constituem. tendo em vista os objetivos pedagógicos da rede estadual de educação, bem como os do colégio, para a realização desse estágio, entendeu-se que, na dinâmica dessa perspectiva, a língua é um sistema de signos histórico e social que permite ao homem transcender o mundo e a realidade. Assim, apreen- dê-la é aprender não apenas as palavras, mas ainda suas acepções culturais e, com elas, os maneiros pelos quais os sujeitos percebem e decifram a realidade e a si mesmas. A linguagem verbal possibilita ao homem imaginar e represen- tar a sua realidade, mantendo um vínculo íntimo com o pensamento. contudo, há que se questionar como essa concepção foi seguida, se houve realmente essa divisão entre literatura e gramática. Mesmo diante da ampla defasagem escolar dos alunos, que inclui até mesmo dificuldade na ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 23 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA leitura, escrita e interpretação de textos simples segundo os professores, não se estaria subtraindo do aluno ao invés de somar conhecimentos? compreende-se dessa forma que o educando é o sujeito da ação de aprender, aquele que age sobre o objeto de conhecimento. nesse sentido, a realização das atividades elaboradas para a prática de estágio em língua Portuguesa teve como objetivos principais: propiciar e estimular práticas de leitura de textos de diferentes gêneros, considerando os conhecimentos prévios dos alunos; formular questionamentos que possibilitem inferências a partir de pistas textuais; encaminhar discussões e reflexões sobre o gênero, finalidade, intenções, intertextualidade, aceitabilidade, informatividade, situ- acionalidade temporalidade, vozes sociais e ideologia. A relevância da realização desse estágio encontra-se principalmente na busca constante dos educadores em aperfeiçoar o processo de ensino-apren- dizagem da língua Portuguesa, formando verdadeiros leitores capazes de in- terpretar diferentes gêneros discursivos e inserir suas próprias experiências de vida nas leituras das quais se apropriam diariamente. sujeito com capa- cidade crítica de discernimento e análise, capazes também de reconhecer e utilizar-se da norma padrão da linguagem, ou seja, aquela considerada culta. BUSCANDO IR ALéM DA GRAMÁTICA na primeira semana do mês de outubro do ano de 2017, teve início o estágio de língua Portuguesa e literatura do curso de letras e literatura do PArFOr – UniOeste de cascavel –, que se realizou no colégio estadual Júlia Wanderley, no ensino Médio do período noturno. As turmas nas quais o tra- balho foi desenvolvido foram o 1º ano c da professora J., 2º ano B e 3º ano c da professora l. trata-se de turmas grandes, compostas por cerca de 30 a 35 alunos com faixas etárias que variam dos 15 aos 28 anos. O estágio se iniciou com dez horas-aulas de observação, fomos infor- madas pela professora l. que os conteúdos de literatura haviam sido desen- volvidos durante o primeiro semestre, cabendo agora, no segundo semestre, serem ministrados os conteúdos de gramática da língua Portuguesa. na primeira aula, observamos, na sala do 3º ano c, que a professoraen- tregou uma folha com exercícios de sujeito e predicado. Já na segunda aula, a turma do 1º ano c teve a correção de exercícios sobre sufixos, prefixos e cognatos; nas duas últimas aulas do 2º B, a professora trabalhou exercícios do livro didático sobre os homônimos. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES24 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA na semana seguinte, continuamos a regência com a observação na sala do 2ºB, porém a maioria dos alunos se retirou da sala para finalizar os traba- lhos da “Feira de ciências”, que seria no dia seguinte. sendo assim, a professo- ra autorizou aos alunos que restaram fazerem algo que fosse do seu interesse, como términos de outros trabalhos. Já no 3º ano c, a professora continuou com exercícios de sujeito e predicado. no último dia de observação, partici- pou-se coletivamente da Feira de ciências, onde houve a apresentação de trabalhos e experiências de cunho científico. Posteriormente, demos início à regência. Apesar das professoras regen- tes já terem trabalhado literatura no primeiro semestre e ser clara a dicoto- mia com que trabalham, elas não foram contrárias do trabalho a partir desse ângulo. no entanto, tanto a professora l. como a professora J. pediram que ao final da regência fosse aplicada uma atividade avaliativa. A professora J. solicitou que fossem trabalhadas também com o 1º ano c as Figuras de lin- guagem. chama-se mecânico ao todo se alguns de seus elementos estão unifi- cados apenas no espaço e no tempo por uma relação externa e não os penetra a unidade interna do sentido. As partes desse todo, ainda que estejam lado a lado e se toquem, em si mesmas são estranhas umas às outras (BAKHtin, 2003, p. 23, grifos nossos). sob essa perspectiva, o empenho no ensino da literatura nas aulas de língua portuguesa, no ensino médio, acaba tornando-se mecânico e externo, o que poderia ser unificador e facilitador acaba perdendo esse caráter, distan- ciando-se do princípio universal da língua: a comunicação. sendo assim, escolhemos um tema para a execução prática do estágio, optando-se por um assunto que, infelizmente, ainda pertence à atualidade do contexto social: “A violência contra a Mulher”. Partindo do pensamento de Bakhtin (2003, p. 319) de que “O texto é o dado (realidade) primário e o ponto de partida de qualquer disciplina nas ci- ências humanas”, trabalhamos, com as três turmas do ensino Médio, o conto Morre, desgraçado!, de dalton trevisan, bem como a música Violência, do gru- po musical Preta roots e as seguintes Figuras de linguagem: comparação, metáfora, metonímia, catacrese, eufemismo, antítese, ironia e hipérbole. A regência teve início na turma do 2º ano B. com os objetivos de propiciar e estimular práticas de leitura de textos do gênero conto, considerando os conhecimentos prévios dos alunos; bem como de formular questionamentos que possibilitem inferências a partir de pistas textuais; também de encami- ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 25 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA nhar discussões e reflexões sobre: tema, finalidade, intenções, intertextuali- dade, aceitabilidade, informatividade, situacionalidade, temporalidade, vozes sociais e ideologia, realizamos uma dinâmica em sala de aula como pontapé inicial. Foram espalhadas frases do conto no quadro, os alunos tinham que identificar se os enunciados pertenciam a homem, mulher, criança entre outros. Após essa dinâmica, era revelado o tema da aula, “Violência contra mulher”, e lido um artigo de jornal que apresentava dados estatísticos da violência doméstica como: localização do município e os tipos de violências cometidas contra o sexo feminino. esse momento foi de extrema relevância abrir espaço para ouvir os alu- nos, tendo em vista a importância de abordar a linguagem em consonância com a materialidade da vida social. Analisamos assim o entendimento dos alunos acerca do significado da violência, analisando se ela se restringe so- mente a agressão física ou se está mascarada sob outros aspectos. discutimos também acerca do conhecimento dos alunos sobre a lei Maria da Penha e o porquê da sua existência. esses foram debates ricos, marcados por relatos de experiências pessoais e por questionamentos sobre os avanços que a lei promoveu, sendo que a maioria dos educandos considerou que há pouca rigidez das leis no que se re- fere aos que cometem formas de violência contra a mulher, sendo necessário mudanças e ampliação das medidas protetivas e na legislação. da alusão ao objeto real é necessário passar a uma delimitação precisa dos objetos da investigação científica. O objeto real é o homem social (inserido na sociedade), que fala e exprime a si mesmo por outros meios. Pode-se encontrar para ele e para a sua vida (o seu trabalho, a sua luta, etc.) algum outro enfoque além daquele que passa pelos textos de sig- nos criados ou a serem criados por ele? (BAKHtin, 2003, p. 319). A realização dessas atividades junto às turmas de ensino de médio susci- tou em uma reflexão sobre qual o uso da linguagem a que se pretende chegar com os educandos, ou seja, pretende-se formar sujeitos com consciência crí- tica ou apenas bons trabalhadores? A investigação se torna interrogação e conversa, isto é, diálogo. nós não perguntamos à natureza e ela não nos responde. colocamos as pergun- tas para nós mesmo e de certo modo organizamos a observação ou a experiência para obtermos a resposta. Quando estudamos o homem, procuramos e encontramos signos em toda parte e nos empenha- mos e interpretar o seu significado (BAKHtin, 2003, p. 319, grifos nos- sos). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES26 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA A forma como foram encaminhadas e desenvolvidas as atividades nos fez perceber o quanto faz falta no ambiente escolar a comunhão entre o uso da literatura e da gramática, numa dinâmica intertextual, que apesar de sua complexidade amplia as possibilidades de aprendizagem e compreensão da realidade. segundo gagné (2002, p. 164): As diferentes concepções de língua e da norma dão lugar a orientações e a objetivos pedagógicos do ensino da língua materna que se pode agrupar em duas tendências nitidamente diferentes: uma pedagogia centrada no código e uma pedagogia centrada na utilização do có- digo (gAgnÉ, 2002, p. 164). nesse sentido, avaliamos, assim, em que proporção o ensino centrado na apreensão mecânica do código escrito e da variedade padrão, de maneira descontextualizada, pode conduzir o aluno a sua real compreensão, levando -o, sobretudo, a despertar as habilidades que lhe possibilitarão, não apenas, o trânsito em ambientes letrados, mas condições para comunicação nesses. compreendemos a partir da realização desse estágio que a língua não pode ser vista apenas como uma questão de certo ou errado, ou como um conjunto de palavras que pertencem a uma determinada classe e que se jun- tam para formar frases. A língua é parte constituinte de nós mesmos, de nossa identidade cultural, social e histórica, que é por meio dela que se socializa, interage e desenvolve o sentimento de pertencimento a um grupo ou a uma comunidade. como explica Antunes (2007), língua e gramática são coisas distintas; a concepção que a língua é composta por um único elemento, ou seja, a gra- mática, é ingênua, senão falsa. se assim fosse, saber uma língua significaria saber uma gramática, ou saber a gramática indicaria dominar totalmente uma língua. nessa concepção, ponderando a frase: A muié veio onti, o falante que a articulou é classificado como alguém que não sabe falar, por aqueles que bus- cam a equivalência entre língua e gramática. nesse pressuposto, pretende-se consolidar a ideia de que o estudo de uma língua é o estudo de sua gramática, quando na verdade são coisas diferenciadas. As relações dos enunciados com a realidade concreta, com o sujeito real falante e com outros enunciados verdadeiros ou falsos, belos etc., nuncapodem tornar-se objeto da linguística. [...] cada conjunto verba- lizado grande e criativo é um sistema de relações muito complexo e multiplana (BAKHtin, 2003, p. 319 grifos nossos). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 27 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA isso porque a língua é uma atividade interativa, voltada para a comunica- ção social, por isso se supõem outros componentes além da gramática. O uso de determinada língua constitui mais que um fato isolado. É mais que um fato especificamente linguístico, vocal ou gráfico. É mais que um exercício prático de emissão de sinais. É um ato humano, social, po- lítico, histórico, ideológico, que tem consequências, que tem repercus- sões na vida das pessoas. É um fato pelo qual passa a história de todos, o sentido de tudo (AntUnes, 2007, p. 20-21, grifos nossos). com base nessa observação dos autores, entendemos, portanto, que um dos maiores desafios da educação sempre foi o de preparar o jovem para ser um sujeito ativo em uma sociedade complexa, o que requer aprendizagem autônoma e contínua ao longo da vida. essa preparação e o alcance da au- tonomia se dão principalmente pela escola, onde os sujeitos apreendem os conteúdos científicos e históricos da humanidade e onde a aprendizagem da linguagem e a da expressão são requisitos primordiais. em consonância com as leis e diretrizes da educação, a busca pelo apri- moramento do educando como ser humano, sua “formação ética, desenvol- vimento de sua autonomia intelectual e de seu pensamento crítico, sua preparação para o mundo do trabalho e o desenvolvimento de competências para continuar seu aprendizado” (ldB, art. 35, 1996 grifos nossos) não se dá apenas pela execução de receitas didáticas e metodologias de pré-fabricadas em livros didáticos. Para que determinadas teorias ou conteúdos sejam internalizados, “não basta falar ou escrever, cumpre ainda ser ouvido, ser lido” (PerelMAn; Ol- BrecHts-tYtecA, 2002, p. 19) e nesse processo de leitura compreende uma linguagem. Portanto, observamos que o valor histórico e social do conhecimen- to deve estar contemplado na composição curricular e repensado para favorecer não só a aprendizagem de conceitos científicos, mas também a formação humana, política e cultural dos sujeitos. caso contrário, esta- ríamos formando apenas robôs automotivos, que é exatamente o que a elite hegemônica exige: o operário calado e sem voz. É, portanto, um dos deveres da escola fazer com que o operariado e todas as classes oprimi- das encontrem essa voz, através, principalmente, da aprendizagem da sua língua Materna. contemplando esses aspectos, de acordo com a ldBen/96, o ensino mé- dio representa a etapa final da educação básica. essa fase de estudos pode ser ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES28 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA entendida como o momento de solidificação e detalhamento de muitos dos conhecimentos estabelecidos no decorrer do ensino fundamental. Assim sendo, entendemos que na formação do educando do ensino mé- dio seja capaz de aprofundar-se em campos mais complexos do estudo da língua, estabelecendo já um contato com o mundo do trabalho buscando a autonomia e aprimoramento profissional. tudo isso de forma ética e cons- ciente, das dimensões sociais que os conhecimentos escolares vêm abarcar. nesse sentido, o trabalho com a língua Portuguesa nas escolas deve en- tão propiciar ao aluno O refinamento de habilidades de leitura e de escrita, de fala e de escuta. isso implica tanto a ampliação contínua de saberes relativos à configu- ração, ao funcionamento e à circulação dos textos quanto ao desenvol- vimento da capacidade de reflexão sistemática sobre a língua e a linguagem (BrAsil, 2006, p. 18 grifos nossos). Para isso, é preciso levar-se em conta o aspecto fundamental da educação que vem permeada de preceitos políticos e ideológicos, históricos e sociais, globais e locais, acadêmicos e científicos. não se trata de partidarizar, mas trazer a consciência de que existe um amplo leque de informações e concei- tos importantes, onde se forma a cidadania e abre possibilidades de o sujeito intervir na sociedade. Ainda segundo Antunes (2007), o ensino da língua vem sofrendo redu- ções e simplificações quando ela é submetida às atividades escolares. O re- sultado disso é o fortalecimento de preconceitos linguísticos e consequente- mente as práticas inadequadas de ensino, que querem fazer crer que para ler, escrever e comunicar-se corretamente basta estudar gramática. contudo, isso não incorre no fato de não se ensiná-la. A gramática é im- portante e necessária, mas não pode ser enfatizada a ponto de desconsiderar os demais elementos da linguagem, como se não fosse necessário serem as- similados. sobre o ensino da língua na escola, Marcuschi (2008, p. 55) concorda com Antunes (2007) ao expor que: em primeiro lugar, há aqui um deslocamento da função da escola como voltado exclusivamente para o ensino da escrita. seu papel exorbita essa fronteira e se entende para o domínio da comunicação em geral. envolve também o trabalho com a oralidade. evidente que não se trata de ensinar a falar, mas de usar as formas orais em situações que o dia a dia nem sempre oferece, mas que devem ser dominadas. Além da escri- ta e da oralidade, estão ainda envolvidas, no trato da língua materna, ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 29 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA questões relativas à processor argumentativos e raciocínio crítico. (...) trata-se de valorizar a reflexão sobre a língua, saindo do ensino norma- tivo para um ensino mais reflexivo. (...) a escola não ensina língua, mas usos da língua e formas não corriqueiras de comunicação escrita e oral. O núcleo do trabalho será com a língua no contexto da compreensão, produção e análise textual (MArcUscHi, 2008, p. 55). Podemos afirmar, dessa forma, que as atividades práticas realizadas com as turmas de ensino Médio do período noturno de cascavel buscaram con- templar esses aspectos interativos do uso da língua, apresentando gêneros discursivos diferenciados, estimulando o debate e a troca de informações e buscando a correlação entre a literatura e as atividades funcionais da gramá- tica. Ainda para irandé Antunes (2007), a língua é instituída por dois elemen- tos: um léxico (as palavras em si ou vocabulário) e uma gramática (normas para edificar palavras e sentenças da língua). esses dois componentes estão em estreita e contínua interação e entrelaçamento, tanto que o item da gra- mática contém regras que explicitam a concepção de novas palavras, enri- quecendo ainda mais o léxico. O léxico é um complexo amplo de palavras que formam as unidades-base de enunciados, frases, diálogos. A língua é, na verdade, uma totalidade (a união do léxico e da gramática) consolidada em textos, que consente na atividade expressiva dos desempenhos verbais. compreendemos, então, diante da observação dos respectivos autores, que não é acertado declarar que a gramática representa a língua, ou que toda a língua é formada exclusivamente de gramática. Assim sendo, o professor que busca trabalhar só com terminologias e classificações de exercícios cen- trados em definições, conceitos e exercícios em torno de classes de palavras acaba por cometer um erro ao minimizar o aprendizado da linguagem mater- na. Afinal, a gramática isolada não preenche as exigências comunicativas de quem fala, ouve e lê. Para Antunes (2003), as aulas pensadas e trabalhadas sob uma gramática inflexível não consideram a realidade do educando. nenhuma pessoa se co- munica sem a gramática, que sozinha é categoricamente escassa, pois o diálo- go que é fundamentalmente interativo, seja ele cotidiano ou padrão, solicita a ciência significativa do concreto, bem como o entendimento dos princípios da elaboração de textos escritos e o conhecimento dos preceitos sociais de uso da língua. Assim, ser comunicativamente produtivo émais que uma demanda de saber gramática e reconhecer as funções sintáticas dos termos em uma frase. ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES30 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA É preciso liberdade para expressar-se e promover a criatividade na comunica- ção entre os grupos. Por esse motivo, durante as atividades dessa etapa do estágio, buscamos focar a contextualização da gramática, realizando seu estudo a partir da leitu- ra de gêneros discursivos e na conversação sobre o tema escolhido. Bakhtin (2003, 1997) mostra a necessidade de escuta da multiplicidade de vozes, a polissemia que toda linguagem implica, materializa e permite aflorar. enten- demos, assim, que há necessidade de focalizar o ensino, direcionando-o à as- similação e à compreensão do aspecto gramatical da língua concomitante- mente ao seu ensino apropriado e significativo. Pode-se afirmar que em seu Projeto Político Pedagógico (PPP) a unidade escolar onde foi realizado o estágio tem como fundamentação justamente essa busca pela criticidade e cidadania, por meio de um processo de ensino e aprendizagem dinâmico e interativo. O Projeto Político Pedagógico do colé- gio estadual Julia Wanderley foi elaborado no decorrer dos anos e representa a construção coletiva da identidade da escola. Partiu do diagnóstico dos problemas, conceitos e contradições presen- tes no cotidiano da escola e das relações com a realidade social. Busca respostas, alternativas, ações, para a organização dos saberes necessá- rios a partir do compromisso coletivo, apresentando ações comprome- tidas com a transformação da realidade educacional e social (PPP, 2013, p 5). O projeto político pedagógico da escola tem como base a busca de uma ampliação da compreensão crítica da realidade histórico-social, da comunida- de em que o colégio está inserido. com alguns objetivos como: desenvolver autonomia da escola, proporcionar uma educação de qualidade aliada à ges- tão democrática e a formação dos profissionais da educação. enfim, acreditamos que nossa prática administrativa e pedagógica está norteada de acordo com princípios das diretrizes curriculares, forman- do o cidadão com: • Os Princípios Éticos da Autonomia, da Responsabilidade, da Solidarie- dade e do respeito comum; • Os Princípios Políticos dos Deveres de Cidadania, do exercício da cria- tividade e do respeito à Ordem democrática; • Os Princípios da Criatividade, e da diversidade de manifestações Ar- tísticas e culturais, imprescindíveis para o exercício da cidadania, a to- mar posturas críticas, responsáveis e construtivas no seu meio social, a tornarem-se agentes transformadores do ambiente em que vivem. esta proposta pedagógica articula a participação de todos os sujeitos do 18 ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 31 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA processo educativo: professores, funcionários, direção, pais, alunos e outros, para construir uma versão global da realidade e dos compro- missos coletivos, assegurando a liberdade e autonomia que constituem a própria natureza das ações pedagógicas (PPP, 2013, p. 17-18). O documento deixa claro os anseios de formar o aluno como um ser so- cial, com uma educação pautada no ensino e aprendizagem de qualidade, garantindo sua permanência na escola, mas não apenas isso, buscando seu desenvolvimento pleno enquanto cidadão. dessa forma, de acordo com os ideais desse projeto, para que os obje- tivos sejam atingidos, a educação ofertada baseia-se nos pressupostos da pedagogia histórico-crítica de demerval saviani associada à concepção ma- terialista histórica e dialética pensada por Karl Marx e Friedrich engels, que se pauta nas relações sociais interligadas às forças produtivas e nas mudanças advindas dessas transformações. contudo, o que se percebeu durante a observação e prática de estágio é que, entre a classe docente, existe uma intranquilidade no que alude ao que lecionar em sala de aula, sendo que na maior parte do tempo o ensino da língua Portuguesa acaba por recaindo no estudo e absorção da gramática normativa. entende-se que, no contexto escolar, surgem dúvidas acerca do ensino da língua Portuguesa. Alguns educadores apresentam a ideia de que não se deve ensinar gramática; outros buscam ensinar conceitos gramaticais, utili- zando-se do texto como pretexto. Há ainda aqueles que trabalham a gramá- tica na visão interacionista, apesar da incerteza e imprecisão daquilo que se está entendendo como análise linguística. como explica neves (2003) durante muito tempo, o ensino da gramática vinculou-se à percepção de linguagem como ferramenta de comunicação ou expressão do pensamento, através de atividades que considerassem o ensino dos aspectos morfológicos, sintáticos, lexicais, semânticos. Assim, de forma automatizada e passiva, o aluno era incumbido de memorizar conceitos e fórmulas para avaliações. essa forma de ensino acabou por constituir a ideia errônea de que o Português é uma disciplina maçante e exaustiva, ao mesmo tempo que passa a informação de que o professor é um sujeito inacessível e inflexível. sobre o ensino da gramática, neves (2003, p. 3) afirma: A preocupação de que se institua um tratamento escolar mais científi- co das atividades de linguagem, muito especificamente das atividades ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES32 BUscAndO ir AlÉM dA grAMÁticA ligadas a gramática de língua materna. assenta-se a necessidade de uma gramática escolar que não apenas contemple uma taxonomia e um elenco de funções, mas que, legitimada pela sua relação com o uso efetivo da língua, dá conta dos usos correntes atuais, não per- dendo de vista o natural e eficiente convívio de variantes no uso linguístico, incluída, aí, a norma tradicionalmente considerada padrão (neVes, 2003, p. 3, grifos nossos). nesse sentido, o ensino da gramática tem sua relevância no ambiente es- colar na medida em que é desenvolvida de forma a garantir o direito do aluno ao acesso dos saberes historicamente acumulados, bem como na garantia da preservação da língua materna e de suas manifestações literárias, tanto em sua forma considerada padrão, às suas variações linguísticas presentes no co- tidiano comunicativo de cada sujeito. contudo, neves (2003, p. 12) afirma que estamos longe de ver o cidadão comum e o professor reconhecendo que a variação linguística é nada mais que a manifestação eviden- te da essência e da natureza da linguagem, reconhecendo que há um padrão valorizado, sim, mas que o uso do padrão prestigiado não constitui, em si, e intrinsecamente, um uso de boa linguagem, e que essa avaliação só ocorre pelo viés sociocultural, condicionado pelo viés socioeconômico (neVes, 2003, p. 12, grifos nossos). Para a autora, todas as formas de registros e todas as fontes literárias são de vital importância para o aprendizado da língua. cabe ao educador valori- zar não apenas o registro padrão, apesar de sua importância política, social e cultural, mas começar a compreender que a linguagem se origina e se mani- festa de várias maneiras, mesmo que não esteja dentro das normas conside- radas cultas. sertão, arguem tecantô,/eu sempre tenho cantado/ e ainda cantando tô,/ Pruquê, meu torrão amado,/ Munto te prezo, te quero/ e vejo qui os teus mistéro/ ninguém sabe decifrá./ A tua beleza é tanta,/ Qui o poeta canta, canta,/ e inda fica o quicantá (AssArÉ, 1982, p. 15). O verso acima é de um poeta brasileiro considerado analfabeto, porém não há como dizer que sua produção literária não é digna e perfeita, mesmo diante das exigências padronizadas da elite. sua relevância é a mesma que a do poeta que cantou as palmeiras de uma terra que o exilou. seu falar é do povo para o povo e com o povo. sua poesia tem métrica, ritmo, cadência, riqueza, independente do vocabulário considerado imperfeito pela norma culta utilizada pela elite (ou não). ESTUDOS E PRÁTICAS DE ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA, LITERATURA E ARTES 33 BUscAndO