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SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO AULA 2 Prof. Elói Corrêa 2 CONVERSA INICIAL Segundo Maduro (1981), a sociologia já nasce como sociologia da religião. Para Costa (2009), fazer sociologia significa, mais cedo ou mais tarde, fazer sociologia da religião. A sociologia como ciência autônoma nasceu em um contexto em que a epistemologia das áreas de conhecimento estavam em processo de emancipação do domínio religioso, tornando-se um grande desafio adotar a religião como um fato social. Sobretudo, a sociologia da religião ousou ir mais além e passou a pensar as relações entre as religiões e as sociedades, assim como a forma com que os indivíduos são influenciados nesse processo de construção cultural no qual as religiões possuem um papel importante. No entanto, a grande ousadia da sociologia da religião foi entender os fenômenos religiosos como fenômenos sociais produzidos pela coletividade. E o pensamento sociológico de Durkheim, Marx e Weber é considerado clássico no que diz respeito ao estudo da religião. Nesse sentido, um nome emblemático da sociologia da religião é o sociólogo Émile Durkheim, que se tornou referência na área com sua obra As formas elementares da vida religiosa. Nessa obra, além de pensar a religião como um fato social, o autor apresenta os conceitos de totemismo, animismo e maná, com o intuito de analisar a magia e a religião. Outra importante análise sociológica que Durkheim faz da religião é o estudo dos ritos e rituais nas relações entre indivíduos e instituições religiosas. TEMA 1 – DURKHEIM E AS FORMAS ELEMENTARES DA VIDA RELIGIOSA Ao definir o campo de estudo da sociologia, Émile Durkheim ampliou seu horizonte de pesquisa analisando instituições sociais como a família, a comunidade, o Estado e, por conseguinte, a religião. Assim, no ano de 1912, Durkheim lançou seu tratado sobre a religião: As formas elementares da vida religiosa. Nessa obra, o autor afirma que a força coletiva e impessoal da religião se sobrepõe às consciências individuais da mesma forma que a sociedade, pois a religião é produto da coletividade. Afinal, não há uma religião particular e, ainda que existisse, não afetaria o comportamento coletivo. Portanto, a religião é uma força exterior que se impõe aos homens, submetendo-os a certa moralidade. 3 A religião possui fronteiras ligadas ao dogma, à doutrina, aos rituais e aos preceitos em geral, mas a religiosidade supera esses condicionantes, sendo que os sujeitos podem ter uma religiosidade formada com elementos de diferentes religiões e, ainda assim, possuir uma religiosidade sem se filiar a determinada religião. TEMA 2 – A FUNÇÃO SOCIAL DA RELIGIÃO Para Durkheim (1989), a função da religião não é nos fazer pensar ou enriquecer nosso conhecimento, mas sim nos fazer agir, nos ajudar a viver. A religião possui uma função moralizante e de regulação do convívio humano. Segundo o sociólogo, para que os atores da sociedade conheçam seus papéis e tenham expectativas quanto à ação dos outros, para que compartilhem crenças e valores morais, faz-se necessária a padronização desses valores e crenças. Durkheim (1989) conclui que a função substancial da religião é a criação, o reforço e a manutenção da solidariedade social. Assim, a coesão social é uma das características da religião como fato social, além de sua generalidade e exterioridade, que também são elementos do fato social para a sociologia de Durkheim. Segundo Boff (2014), uma das maiores criações culturais de âmbito religioso no Brasil é representada pelo cristianismo popular, que se tornou uma força impositiva nas comunidades. Assim, colocados à margem do sistema político e religioso, os pobres, indígenas e negros deram corpo à sua experiência espiritual no código da cultura popular que se rege mais pela lógica do inconsciente e do emocional do que do racional e do doutrinário (Boff, 2014). Além do cristianismo popular, a cultura brasileira gestou religiões de matriz africana que nasceram no Brasil, como a umbanda e o candomblé, sendo a umbanda bastante sincrética, reunindo elementos do cristianismo, espiritismo, candomblé e xamanismo indígena brasileiro. TEMA 3 – TOTEMISMO – A RELIGIÃO COMO EXPERIÊNCIA SOCIAL NA PERSPECTIVA DURKHEIMIANA Segundo Durkheim (1989), a religião é, antes de tudo, um fenômeno social. Essa afirmação se baseia na observação de povos oriundos da Austrália, onde ele observou e analisou uma expressão religiosa chamada totemismo. 4 O totemismo, como manifestação religiosa, também é encontrado na América do Norte e na África. Para Durkheim (1989), essa é uma das mais primitivas formas de religiosidade de que se tem notícia e possui elementos comuns a todo fenômeno religioso. Pode-se definir o totemismo como um conjunto de crenças e práticas baseadas na ideia de parentesco espiritual entre homens, animais, plantas, objetos e fenômenos naturais, que constituem o totem denotando uma religiosidade fundamentada na ancestralidade e na relação entre os seres humanos e os animais e as plantas. O totemismo engloba uma enorme variação de relações que podem ser de ordem mística, emocional, genealógica, psicológica, ou relações míticas entre grupos sociais ou indivíduos específicos e animais ou elementos naturais, que constituem o totem. Etimologicamente, o termo totem vem da palavra ototeman, do idioma dos indígenas algonquinos, do leste dos Estados Unidos. A raiz gramatical ote significa uma relação de sangue entre irmãos e irmãs, filhos da mesma mãe, que não podem se casar entre si. TEMA 4 – ANIMISMO E NATURALISMO Durkheim (1989), além de tratar da religião como fato social e apresentar o conceito de totemismo como forma elementar de religiosidade, também se utiliza do conceito de animismo para analisar o fenômeno religioso. O estudo sobre o animismo pode ser encontrado anteriormente em Tylor (1871), que introduziu o conceito de animismo no estudo do fenômeno religioso. Na religiosidade dos povos chamados de primitivos, tudo possui uma alma. Ou seja, o animismo é a crença de que tanto as coisas animadas quanto os objetos ditos inanimados são dotados de alma, e o naturalismo seria o culto à natureza e a percepção da relação anímica entre ela e os seres humanos. Nesse sentido, Durkheim adota o sagrado como expressão da religião procurando perceber as relações sociais dos povos que adotam uma ontologia baseada nos termos sagrado e profano, diferenciando datas, festas, hábitos, símbolos que podem ser do cotidiano ou sagrados. No animismo, temos um dualismo no qual os seres são duos, matéria e espírito. 5 TEMA 5 – O SOBRENATURAL O fenômeno religioso geralmente possui uma relação mais ou menos estreita com o sobrenatural, a começar pelos mitos, que são narrativas ou explicações para a origem dos homens e do mundo por meio de deuses e forças sobrenaturais, passando pelos rituais de cura, milagres, aparições e processos de transe e mediunidade. Em cada cultura, esse sobrenatural se manifesta dentro do fenômeno religioso de forma diversa, seja na explicação da Santíssima Trindade do cristianismo, no nirvana ou na iluminação do budismo, na incorporação ou psicografia do espiritismo. Nas manifestações dos orixás e no axé das religiões afro-brasileiras, temos um apelo às forças do sobrenatural como algo que vai além da materialidade concreta e que não se submete às leis da física ou da ciência convencional. NA PRÁTICA Pesquise ou entreviste pessoas com mais experiência a respeito de lendas ou contos que, de alguma forma, tenham relação com o sobrenatural. Em seguida, elabore um texto relacionando a religiosidade presente na história com as explicações dadas por ela. FINALIZANDO Nesta aula, discorremos sobre a sociologia da religião presente na obra do filósofo francês Émile Durkheim denominadaAs formas elementares da vida religiosa, em que o autor trata da função social da religião e das relações entre indivíduo e sociedade. Nessa obra emblemática, Durkheim apresenta seus estudos sobre o totemismo como uma das formas mais elementares da religiosidade, e do animismo como uma representação das religiões nativas e naturalistas. Por meio desses estudos sociológicos, fica clara a relação da religião com o sobrenatural e como as diferentes formas de crer procuram dar explicações para certos fenômenos por meio de deuses e forças míticas, além de sua função de regulação social. 6 REFERÊNCIAS BOFF, L. O povo brasileiro: um povo místico e religioso. 2014. Disponível em: . COSTA, J. Sociologia da religião: uma breve introdução. Aparecida: Santuário, 2009. DURKHEIM, É. As formas elementares de vida religiosa. São Paulo: Paulinas, 1989. MADURO, O. Religião e luta de classes: quadro teórico para a análise de suas interrelações na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1981. TYLOR, E. Cultura primitiva, 1871.