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Estética Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Esp. André Luís Pereira dos Santos Revisão Textual: Profa. Esp. Kelciane da Rocha Campos. 5 Nesta unidade, partimos de uma reflexão sobre a obra de Kandinsky. Essa escolha de recorrer a obras de grandes artistas nos ajuda a compreender os caminhos da arte. Esse contato com o trabalho de artistas consagrados ajuda a preparar o olhar para perceber as nuances das diversas manifestações artísticas. Além disso, recomendamos que você leia, ao menos, os primeiros capítulos do Nascimento da tragédia, de Nietzche, buscando um aprofundamento em seus conceitos, que, de certa forma, delineiam todo processo de criação e de fruição artística. Por fim, busque pesquisar outras formas de se compreender e utilizar a arte, ampliando o seu olhar sobre o tema. Nesta unidade, discutiremos alguns aspectos ligados ao fato de não podermos dissociar a história da humanidade de sua produção artística. A arte acompanha o ser humano desde tempos remotos, desempenhando várias funções ao longo da história. Quais são algumas delas e como elas são extremamente importantes em nosso cotidiano são questões que buscaremos discutir a partir de agora. Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte · Introdução · Apolíneo x dionisíaco · Arte e necessidade · A arte e suas funções · A arte e o sagrado · A arte como ato político 6 Unidade: Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte Contextualização Leia o texto abaixo e reflita sobre os questionamentos propostos. A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida, grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida. A arte como única força superior contraposta a toda vontade de negação da vida, como o anticristão, antibudista, antiniilista ‘par excellence’. A arte como a redenção do que conhece – daquele que vê o caráter terrível e problemático da existência, que quer vê-lo, do conhecedor trágico. A arte como a redenção do que age – daquele que não somente vê o caráter terrível e problemático da existência, mas o vive, quer vivê-lo, do guerreiro trágico, do herói. A arte como a redenção do que sofre – como via de acesso a estados onde o sofrimento é querido, transfigurado, divinizado, onde o sofrimento é uma forma de grande delícia. (Nietzsche, F. Vontade de potência § 853. In Obras incompletas. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 28.) . Para Pensar • Nietzsche classifica a arte como “o grande estimulante da vida”. Que implicações estão envolvidas nessa afirmação? • Encarar o destino e as vicissitudes da vida é uma forma de dotá-la de significado? • Será que o ser humano necessita mesmo da arte? Que sentidos ela pode assumir em nossas vidas? 7 Introdução As primeiras cores que me causaram grande impressão foram o verde-claro e cheio de seiva, o branco, o vermelho-carmim, o preto e o amarelo-ocre. Essas lembranças remontam a meus três anos. Vi essas cores em diferentes objetos que hoje não visualizo tão claramente quanto as próprias cores. Kandinsky A experiência da arte é avassaladora para aqueles que dela escolheram se servir. Certamente, alguns foram por ela escolhidos. As palavras de Kandinsky nos levam a iniciar essa discussão nos aprofundando nessas sensações. Para ele, a cor é fundamental, talvez até mais que os objetos que as apresentam. As cores comunicam: quentes, frias, acolhedoras ou insuportáveis. Representam estados de alma e possibilidades de relações entre as pessoas e as coisas. Mas, por um paradoxo que se reencontrará em Klee e Kandinsky, o quadro, pelo próprio fato de deixar de imitar a natureza a fim de exprimir uma necessidade interior, adquire certa autonomia, torna- se acima de tudo uma superfície colorida (LACOSTE, 1986, p.57). A abstração presente no seu quadro “Amarelo, Vermelho, Azul” nos leva a uma experiência de fruição e arrebatamento que parte da condição íntima que o artista nos comunica por meio das cores. Talvez nos intriguem as significações dessa composição, no entanto algo nela clama o nosso olhar para a reflexão, conduzindo-nos por diversas sensações e emoções quando olhamos para ela. Wassily Kandinsky foi um pintor Russo, nascido em 1866. Viveu na França e na Alemanha, onde lecionou na Bauhaus, importante escola de artes e arquitetura, sendo um dos precursores do abstracionismo nas artes visuais. Seu quadro Amarelo-Vermelho-Azul foi criado em 1925. O uso das cores primárias e de figuras geométricas como círculos, triângulos e quadrados, além de outras formas abstratas nos leva a uma experiência de profunda reflexão. Se dividirmos o quadro em duas partes, veremos que de um lado predominam amarelos e vermelhos sobre um fundo azul. Cores quentes sobre uma cor fria. Porém do outro lado, a situação se inverte: predominam cores frias sobre um fundo quente. O retângulo vermelho, quase disposto no centro, chama o olhar e o direciona a passear pelo quadro. É como se tivéssemos portas que nos levassem entre a regularidade do dia e as incertezas da noite, em um movimento de vai e vem. Fo nt e: W as si ly K an di ns ky /W ik ia rt .o rg 8 Unidade: Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte Essa contraposição de opostos é uma característica que nos ajudará a estabelecer e discutir alguns conceitos. A escolha de iniciarmos essa unidade com essa pequena reflexão sobre Kandinsky leva-nos a algumas indagações: que funções podemos atribuir à arte? Qual é a necessidade da arte em nossas vidas? Podemos encontrar alguma utilidade ou tirar algum proveito do fato de nos envolvermos com as artes? Apolíneo x dionisíaco É possível que você já tenha ouvido falar de Nietzsche e da complexidade de seu pensamento. Gostaríamos de introduzir dois conceitos que se tornaram célebres em uma de suas obras de juventude, O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo (1992, p.27): o apolíneo e o dionisíaco. Teremos ganho muito a favor da ciência estética se chegarmos não apenas à intelecção lógica mas à certeza imediata da introvisão [Anschauung] de que o contínuo desenvolvimento da arte está ligado à duplicidade do apolíneo e do dionisíaco, da mesma maneira como a procriação depende da dualidade dos sexos, em que a luta é incessante e onde intervêm periódicas reconciliações (...). É por meio dessa conceituação que Nietzsche começa a traçar os liames daquilo que ele denominou como as condições trágicas do ser humano. Não é por acaso que ele escolhe os dois deuses gregos ligados à arte para representar essa dicotomia de origens e objetivos, presente de maneira natural no homem. São as figuras de Apolo e Dionísio que dão forma a essa reflexão. Para ele, o povo grego representa o ímpeto de encarar as vicissitudes e desafios do mundo sem recorrer a desculpas moralistas e posturas derrotistas escondidas sobre o traço da humildade. Além disso, segundo ele, foram os gregos que demonstraram domar com maestria as irregularidades dos impulsos inerentes à espécie humana. Desse modo, abre-se uma contraposição representada por esses dois deuses, em que Apolo representaria a regularidade, a ponderação, a pureza, a moral, isto é, a ordem presente naquilo que constrói. Enquanto que Dionísio, o deus da música, representava a desmedida, o excesso, a orgia, o desejo, ou seja, aquilo que não se conforma, a arte não-figurada. Essas duas tendências humanas, segundo Nietzsche, por vezes caminham harmonicamente, em outras nutrem a dissensão e a discórdia. A relação constante entre o apolíneo e o dionisíaco é o que gera a tragédia grega, em que haveria uma composição entre a alma (na figura de Apolo) e o corpo (na figura de Dionísio). Não há possibilidade de que uma arte possa ser completamente apolínea ou completamente dionisíaca. Toda criação que o ser humano realiza geralmente está pautada por esses dois princípios, de maneira que eles se completem. Do dionisíacoprovém o princípio da criatividade, o ímpeto que gera o instante criador. Enquanto que do apolíneo advém a regularidade, a harmonia e a ordem necessárias para a produção de uma obra de arte. Assim, o pensamento do Jovem Nietzsche pressupõe que o homem não goza naturalmente de uma boa índole. A ciência e a racionalidade também não garantiriam que o homem realizasse 9 seu destino de maneira ética. A arte, em seu pensamento, desempenharia o papel de restaurar a cultura trágica, sobretudo por meio da música de Richard Wagner, segundo ele, expressão própria do renascimento da tragédia grega. Para ele, os valores humanos, assim como a razão, estão em crise. O que levaria à necessidade de superá-los, através da contestação de seu caráter absoluto. Diálogo com o Autor Nietzsche introduz, desde logo na estética, dois princípios a que dá o nome de dois deuses gregos. Apolo e Dionísio encarnam, com efeito, duas “pulsões artísticas da natureza”. Cada uma dessas pulsões manifesta-se na vida humana por meio de estados psicológicos. O sonho manifesta e satisfaz a pulsão apolínea, e a embriaguez a pulsão dionisíaca. Nietzsche, que fala aqui a linguagem de Schopenhauer, descobre na contemplação serena do sonhador que deixou de lutar e de querer, uma confiança inquebrantável no principium individuationis: Apolo será, portanto, o deus da individualidade, da medida, da consciência. “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada de excesso” não são o anverso e o reverso de uma mesma sabedoria deífica? A embriaguez dionisíaca, pelo contrário, rasga esse “véu de Maya” da individualidade e essa ilusão da consciência, para celebrar selvaticamente a reconciliação do homem e da natureza: “O homem já não é artista, tornou-se obra de arte: o que se revela aqui no estremecimento da embriaguez é, em vista da suprema voluptuosidade e do apaziguamento do Uno originário, o poder artista da natureza inteira” (LACOSTE, 1986, p. 67). Arte e necessidade Possivelmente, você deve estar se perguntando: quais as relações entre o que acabamos de discutir e a necessidade que o ser humano historicamente demonstra nutrir em relação à arte? Não queremos simplesmente assumir interpretações dicotômicas ou maniqueístas em relação à arte. No entanto, esse embate, entre a embriaguez de Dionísio e a lucidez de Apolo, perpassa a trajetória do homem sobre a terra de maneira constante. Quantas vezes não temos um desequilíbrio existencial que nos leva a querer produzir e refletir sobre o que está ocorrendo conosco? Um devaneio que nos intriga e nos coloca em movimento. Porém, se não somos ao mesmo tempo tomados pela mão harmônica de Apolo, que nos guia pela técnica e pelo ofício, nada conseguimos realizar. Esse processo de obtenção e perda que vem da inspiração aponta também para outra característica fundamental da arte, que muitas vezes legamos a um segundo plano: somos seres fadados à morte, pequenos rastros na existência do planeta, inevitavelmente condicionados a enfrentar o nosso fim. Essa pode parecer uma definição demasiadamente trágica. Mas quando adquirimos essa consciência da finitude, começamos uma busca incessante para dar significado 10 Unidade: Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte ao fato de estarmos aqui cerceados por nossa própria liberdade. Buscamos, assim, produzir e beber gotas de imortalidade. Se não podemos nos tornar biologicamente imortais, tornamo-nos imortais por nossas obras. Diálogo com o Autor Uma psicanálise das artes plásticas consideraria talvez a prática do embalsamamento como um fato fundamental de sua gênese. Na origem da pintura e da escultura, descobriria o “complexo” da múmia. A religião egípcia, toda ela orientada contra a morte, subordinava a sobrevivência à perenidade material do corpo. Com isso, satisfazia uma necessidade fundamental da psicologia humana: a defesa contra o tempo. A morte não é senão a vitória do tempo. Fixar artificialmente as aparências carnais do ser é salvá-lo da correnteza da duração: aprumá-lo para a vida. (...) Assim se revela, a partir das suas origens religiosas, a função primordial da estatuária: salvar o ser pela aparência. E provavelmente pode-se considerar um outro aspecto do mesmo projeto, tomado na sua modalidade ativa, o urso de argila crivado de flechas da caverna pré-histórica, substituto mágico, identificado à fera viva, como um voto ao êxito da caçada. É ponto pacífico que a evolução paralela da arte e da civilização destituiu as artes plásticas de suas funções mágicas (Luís XIV não se faz embalsamar: contenta-se com o seu retrato, pintado por Lebrun). Mas esta evolução tudo o que conseguiu foi sublimar, pela via de um pensamento lógico, esta necessidade incoercível de exorcizar o tempo. Não se acredita mais na identidade ontológica, de modelo e retrato, porém se admite que este nos ajuda a recordar aquele e, portanto, a salvá-lo de uma segunda morte espiritual (BAZIN, 1991, p.19). Quando um artista consegue captar algo incrivelmente original e avassaladoramente significativo, mesmo que ele não queira, essa obra inevitavelmente o ultrapassa. Perdura para além de quem a criou e dialoga com aqueles que estão no futuro, assim como com aqueles que estão no passado e também no presente. Isto é, transmite uma mensagem que, por natureza, é universal e atemporal. Apenas os artistas, especialmente os do teatro, dotaram os homens de olhos e ouvidos para ver e ouvir, com algum prazer, o que cada um é, o que cada um experimenta e o que quer; apenas eles nos ensinaram a estimar o herói escondido em todos os seres cotidianos, e também a arte de olhar a si mesmo como herói, a distância e como que simplificado e transfigurado – a arte de se “pôr em cena” para si mesmo (NIETZSCHE, 2001, p. 106). Essas experiências que as artes nos proporcionam servem também para que nossa existência seja dotada de sentido. O ser humano é o único ser que produz arte por “vaidade” estética, mas que também constrói hipoteticamente a obra em sua mente antes de realizá-la no sensível, que deliberadamente se enfeita para atrair a atenção dos outros e para tornar o seu ambiente mais aconchegante e hospitaleiro. No entanto, somente aqueles que dominam certas técnicas, macetes e conhecimentos podem produzir arte. Podem captar percepções desconexas e sensações difusas, reordenando-as em novas experiências de fruição e reflexão. O artista, desse modo, é um sabedor que sintetiza ideias e conceitos flutuantes em experiências concretas geradoras de sentimentos e reflexões: contos, poemas, canções, afrescos, telas, esculturas, entre muitas outras coisas. Essa constelação de vivências, condensadas na obra, provoca novas pessoas a sentir e compartilhar novas 11 sensações de prazer, satisfação ou repulsa. Desse modo, quando se compreende o valor do processo artístico, não há como ficarmos isentos mediante uma manifestação artística. A arte nos completa, nos sacia, nos ensina, nos questiona e nos transforma. Talvez agora o título dessa unidade comece a fazer sentido para você. Ele foi inspirado no título de um livro do poeta, escritor e filósofo austríaco Ernst Fischer, A necessidade da arte. Leiamos um trecho de suas reflexões: Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, formas e convenções com que a natureza – esta provocadora – pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão que consome o diletante serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta-fera, mas doma-a (FISCHER, 1987, p. 14). Será que não podemos vislumbrar aqui um pouco daquilo que Nietzsche nos concede ao perceber que forças contrárias concorrem em nossos processos de criação e apreciação da arte? Para ser artista, é preciso dar forma àenergia latente que resta do encontro da memória com o ímpeto da criação. Essa experiência, dionisíaca por natureza, só adquire sentido quando o traço apolíneo permite que as mãos produzam a síntese, o produto concreto dessa experiência. Isso aponta para um processo que nos une, que nos arranca da individualidade criadora e nos leva para a compreensão de que toda criação artística somente toma sentido se pressupor que é necessária a existência do outro para relacionar-se com ela. Se fosse da natureza do homem o não ser mais do que um indivíduo, tal desejo seria absurdo e incompreensível, porque então como indivíduo ele já seria um todo pleno, já seria tudo o que era capaz de ser. O desejo do homem de se desenvolver e completar indica que ele é mais do que um indivíduo. Sente que só pode atingir a plenitude de se apoderar das experiências alheias que potencialmente lhe concernem, que poderiam ser dele. E o que um homem sente como potencialmente seu inclui tudo aquilo de que a humanidade, como um todo, é capaz. A arte é o meio indispensável para essa união do indivíduo com o todo; reflete a infinita capacidade humana para a associação, para a circulação de experiências e ideias (Ibid., p. 13). Portanto podemos, por meio dessas reflexões, perceber que a relação do ser humano com a arte é extremamente necessária. Mas, como vimos, a arte não se conjuga como um processo singular. As manifestações artísticas se definem de muitas maneiras e muitas vezes se contradizem. Isso nos leva a pensar que, em decorrência disso, a arte pode assumir inúmeras funções. Por Fo nt e: T he J oy o f L ife , H en ri M at is se , 1 90 6 12 Unidade: Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte uma escolha didática, discutiremos apenas três delas. Porém, você pode discutir, encontrar e formular hipoteticamente muitas outras. Faça isso como recurso de formação e aprendizado. Verá que esse processo de estudo pode ser muito frutífero. A arte e suas funções Arte e prazer: o entretenimento A relação das pessoas com a arte se dá de múltiplas maneiras. Alguns possuem uma necessidade tão profunda de estar em contato com a arte que transformam sua vida em uma jornada estética em busca do belo. Entretanto, para outros, a arte é apenas um belo passatempo. Podemos dizer que as duas posturas são válidas. Um filme, por exemplo, nunca toca duas pessoas da mesma maneira. Isso se dá porque os olhares também são diversos, visto que vêm de pessoas com gostos, manias e histórias de vida diferentes. O nosso referencial artístico muda conforme entramos em contato com diversos tipos e concepções estéticas. No entanto, em alguns momentos, certos tipos de obras de arte, ainda que reconhecidas como tal, são concebidas apenas como uma forma de entretenimento. O que isso quer dizer? Uma das funções da arte também é entreter-nos. Como assim? Isso mesmo. Tornar as dificuldades dessa vida mais leves e suportáveis. Nessa linha de pensamento, podemos inserir as comédias, tanto as teatrais como as cinematográficas. Um filme de Charles Chaplin certamente nos leva a sorrir, mas não podemos negar o caráter poético de suas obras e de suas imagens. A estética criada por Chaplin no cinema é profundamente artística e ao mesmo tempo nos entretém. O mesmo podemos dizer de Woody Allen ou de Frederico Fellini. Pense Leia o texto abaixo e reflita sobre a experiência de transporte e suspensão temporal que o cinema realiza em nós. O que um bom filme é capaz de fazer? Um bom filme nos coloca no calor de uma história feita a distância, nos jogando secretamente em sua comicidade, em seu terror ou na sua mais densa normalidade. Nos faz sair do lugar sem nos mover, nos emprestando experiências e, como se num exercício iniciático, nos envolvendo com ritos que jamais suporíamos. É como se suas imagens encarnassem uma soberania momentânea e, saltando da tela para a imaginação, levasse o espectador a subjetivar um mundo-outro, que vai involuntariamente afastá-lo de seu lugar e aproximá-lo – se ocorrer receptividade – de um outro de si mesmo. E nesse momento tudo cessa e a mais profunda cerimônia aparece para situar seu jogo e todas as suas expressões sobre a celebração de quem escolheu viver esse eclipse do real. (OLIVEIRA, 2011, p. 142). É justamente a possibilidade de vivermos novas experiências que desponta quando pensamos no potencial da arte enquanto entretenimento. Sobre o olhar mais aprofundado, veremos que a arte nunca é somente criada para entreter. Mesmo que esse seja o objetivo inicial, sempre encontraremos novos motivos agregados a este: emocionar, justificar ou apresentar uma visão 13 de mundo, além de muitos outros. Se pensarmos no teatro clássico, por exemplo, essa ideia de que há sempre muito mais por trás de uma suposta ingenuidade na arte do entretenimento aparece com mais evidência. A palavra teatro vem do grego e significa “lugar de onde se vê”1 Esse conceito, a uma primeira vista, pode sugerir que o apreciar teatral trata-se de uma atividade por natureza passiva. A própria ideia de espectador também sugere uma acentuação dessa visão. O espectador é aquele que observa2 . Alguém que de fora enxerga algo que acontece em outro plano, o palco, configurando-se apenas como testemunha de algo que acontece à frente de seus olhos em que ele mesmo não tem participação efetiva. Porém, há no fazer teatral algo de agregador e orgânico que só se dá na junção do ator e da plateia, mesmo que em alguns momentos essas figuras se confundam. Se pensarmos em uma perspectiva aristotélica, podemos especificar que tipo de passividade há no olhar dessa espécie de espectador. Aristóteles, em sua poética, realiza uma análise das formas textuais gregas, principalmente a tragédia, a partir da ideia de imitação e de catarse. É pois a tragédia imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com as várias espécies de ornamentos distribuídas pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o “terror e a piedade, tem por efeito a purificação (catarse) dessas emoções” (Aristóteles, 1987, p. 205). O teatro seria uma forma de colocar o espectador em identificação com o protagonista, sofrendo suas angústias e vivenciando suas alegrias. É como se momentaneamente houvesse uma suspensão do juízo, como se naquele momento não existisse outra realidade senão aquela que se apresenta no instante em que se dá o espetáculo. As dores e as angústias que o espectador trouxesse consigo seriam substituídas pelo sentimento causado pelo desfecho no fado dos protagonistas. Assim, o que observa terminaria o espetáculo purgado de suas angústias. Esse processo seria conhecido como catarse. O dicionário Houaiss define catarse como a “descarga de desordens emocionais ou afetos desmedidos a partir da experiência estética oferecida pelo teatro, música e poesia” (Houaiss, 2007). Também encontramos uma derivação no verbete que diz “purificação do espírito do espectador através da purgação de suas paixões, esp. dos sentimentos de terror ou de piedade vivenciados na contemplação do espetáculo trágico” (Id. Ibid.). Haveria uma suplantação do que o oprime pelo enredo vivenciado na tragédia. Desse modo, o espectador é levado a um certo modo de pensar regido por uma ideologia que pertence a uma classe dominante. “A comédia é (...) imitação de homens inferiores” (Aristóteles, 1987, p. 205), assim como a tragédia é uma imitação de homens superiores, de atitudes elevadas. Há uma imitação dos ideais aristocráticos, criando um desligamento da realidade que o espectador vive, remetendo-o por instantes a uma realidade que não lhe pertence. Excetuando-se as hierarquias aristocráticas presentes na estruturação da sociedade grega, o sentimento da catarse ainda permanece no processo artístico. É justamente essa experiência que ainda vivenciamos ao assistirmos telenovelas ou ao ouvirmos aquela músicade que gostamos tanto. Portanto, sob esses aspectos, vivenciar a arte também é vivenciar uma experiência de transformação interior, pois ao nos entregarmos um pouco para a obra que estamos apreciando, também nos colocamos disponíveis para receber outras influências e lições advindas dessa conexão artística. 1 Do grego, théatron ou ‘lugar onde se assiste a um espetáculo, espectadores, o próprio espetáculo’ (ensembles com operários que nunca haviam pisado em um palco (...). O único princípio que nunca ferimos foi o de submeter todos os princípios à tarefa social que tínhamos por objetivo cumprir em toda obra (Brecht apud Koudela, 1991, p. 9). O intuito da peça didática é a formação de quem atua. A formação de si mesmo é possível a partir de situações e jogos teatrais que se colocam para os atores. Desse modo, o distanciamento consistiria em produzir um efeito contrário ao da catarse aristotélica. Neste, a catarse promovia uma situação de envolvimento e identificação com o protagonista, levando mais um sentimento de sublevação do que a uma racionalização do fato ocorrido no palco. Em Brecht, o jogo teatral e o distanciamento colocam o espectador em contato direto com a ação. Ele é convidado a tomar uma posição mediante aquilo que vê. Não é apenas um espectador passivo, mas alguém que constrói suas próprias reflexões por meio de uma experiência didática de vivenciar situações de conflito ético, moral ou ideológico, presentes nas peças. O caráter político da arte de Brecht se dá, além do conteúdo, predominantemente na forma. O modo como a construção das peças acontece denota uma escolha política que privilegia a formação de quem as assiste. Ao contrário, em muitas das manifestações, a contestação política mostra-se presente predominantemente em seu conteúdo. No entanto, em Brecht, há uma escolha democrática que pressupõe, como uma ação necessária, formar politicamente tanto quem atua quanto quem assiste. Podemos identificar como trabalhos que têm essas características as peças de Sartre, o teatro de Plínio Marcos, as obras do grafiteiro Banksy, entre outros. Porém, para terminamos essa conversa, gostaríamos de deixar uma pequena provocação destilada pelo artista plástico recifense, Paulo Bruscky: Acho que o artista expressa o que sente. Você primeiro tem que conhecer sua aldeia para depois conhecer o mundo. Acho que arte é transformação, é expor a fratura exposta da sociedade. A arte é a última esperança. É a denúncia, embora ela seja uma utopia. Não existe arte pela arte apenas. O artista é um ser social e só o fato de o ser é por si só um ato político. (FERNANDES, 2014) 17 Material Complementar Textos KANDINSKY, W. Olhar sobre o passado. São Paulo: Martins Fontes, 1991. FISCHER, E. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1987. Filmes O fabuloso destino de Amélie Poulain. Direção de Jean-Pierre Jeunet. França, 2001 (Duração 122 min.). Sites Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - MASP » http://www.masp.art.br/ Museu de Arte Contemporânea - MAC USP » http://www.mac.usp.br/ http://www.masp.art.br/ http://www.mac.usp.br/ 18 Unidade: Algumas possíveis funções da arte: a necessidade da arte Referências ARISTÓTELES. Poética. Coleção Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1987. BAZIN, A. O cinema: ensaios. São Paulo: Brasiliense, 1991. BORNHEIM, G. Brecht: A estética do teatro. Rio de Janeiro: Graal, 1992. FERNANDES, Marcus. Arte em questão: engajamento político ou função estética? Disponível em: - http://www.leiaja.com/cultura/2014/07/10/arte-em-questao-engajamento-politico-ou- funcao-estetica/ . Acesso em 05 dez. 2014. FISCHER, E. A necessidade da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1987. HAUSER, A. História social da arte e da literatura. São Paulo: Martins Fontes, 1998. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. KLINTOWITZ, J. A ressacralização da arte. São Paulo: Edições Sesc, 1999. KOUDELA, I. Brecht: um jogo de aprendizagem. São Paulo: Perspectiva, 1991. LACOSTE, J. A filosofia da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. NIETZSCHE, F. A gaia ciência. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia ou Helenismo e pessimismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. OLIVEIRA, L. 2011. Passeando com Jia Zhang-ke por Still Life in ALMEIDA R. & FERREIRA- SANTOS. O cinema como itinerário de formação. São Paulo: Képos, 2011. 19 Anotações