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Embriologia e Desenvolvimento Ocular Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Esp. Roberta Leal Revisão Textual: Mateus Gonçalves Santos Desenvolvimento Ocular Desenvolvimento Ocular • Conhecer o desenvolvimento das funções visuais humanas e suas aplicações na prática profissional. OBJETIVO DE APRENDIZADO • Conceitos e Aplicações em Genética; • Introdução à Genética; • Mutações Gênicas; • Tipos de Herança Genética; • Aspectos Genéticos dos Distúrbios Oculares. UNIDADE Desenvolvimento Ocular Conceitos e Aplicações em Genética Ah... a genética... A genética é fantástica, e todos nós sabemos um pouquinho sobre o que ela estuda. Tenho certeza de que você já notou semelhanças suas com seu pai, mãe, avós, tios... Se sim, você já sabe muito sobre a genética! Nosso desafio nessa uni- dade será em descobrir como a informação hereditária no DNA controla a aparência de um organismo e como ele funciona. O conhecimento dos princípios básicos em genética torna o optometrista um profissional qualificado para a prática clínica, pesquisa cientí- fica e várias outras possibilidades no mercado de trabalho. Vamos lá! Ouse! Se desafie! Inove! Você pode! Não tenha medo de errar! Estudar é um passaporte para o futuro. Conte com a gente para isso. Estamos torcendo por você! Introdução à Genética A genética é o estudo de como os genes produzem características ou traços nos seres vivos e como essas características são herdadas. Resumidamente, estudamos o funcionamento dos genes. O DNA (ou ácido desoxirribonucléico) é a molécula que carrega a informação gené- tica em todas as formas celulares de vida e em alguns vírus. Ele pertence a uma classe de moléculas chamadas de ácidos nucléicos, que são poli- nucleotídeos – ou seja, longas cadeias de nucleotídeos. A capacidade do DNA de armazenar – e transmitir – informações reside no fato de que consiste em duas fitas que se enrolam para formar uma hélice de fita dupla. Os nu- cleotídeos são as unidades responsáveis por codificar a informação no DNA, são eles: Citosina (C) Guanina (G) Adenina (A) Timina (T). Molécula de DNA e seus componentes, disponível em: https://bit.ly/38DGeop É a ordem dos nucleotídeos ao longo de uma única fita que constitui o código genético. O “alfabeto” de quatro letras de A, T, G e C forma “palavras” de três letras chamadas códons. Códons individuais codificam para aminoácidos específicos. O gene é a unidade física e funcional básica da hereditariedade. Consiste em uma sequ- ência específica de nucleotídeos em uma determinada posição em um determinado cromos- somo que codifica uma proteína específica (ou, em alguns casos, uma molécula de RNA). Um ser humano tem de 20.000 a 25.000 genes localizados em 46 cromossomos (23 pares). Esses genes são conhecidos, coletivamente, como genoma humano. O núcleo de cada célula em nosso corpo contém aproximadamente 2 metros de DNA compactado, lembra? Esse DNA é compactado em estruturas chamadas cromossomos, 8 9 que consistem em longas cadeias de DNA e proteínas associadas. Nos eucariotos, as mo- léculas de DNA são fortemente enroladas em proteínas – chamadas proteínas histonas – que fornecem suporte estrutural e desempenham um papel no controle das atividades dos genes. Os seres humanos têm 46 cromossomos, consistindo de 22 pares de autossomos e um par de cromossomos sexuais: dois cromossomos sexuais X para mulheres (XX) e um cromossomo sexual X e um Y para homens (XY). Um membro de cada par de cromossomos vem da mãe (por meio do ovócito); um membro de cada par vem do pai (por meio do espermatozóide). O conjunto completo de cromossomos de um organismo pode ser visualizado tirando fotografias das células em divisão. Essas imagens são então organizadas para formar um cariótipo. Figura 1 – Cariótipo humano Fonte: Adaptado de Wikimedia Commons Como estudamos, as células diploides têm um conjunto duplo de cromossomos, um de cada progenitor. Nos gametas, o número diploide de cromossomos é reduzido para um número haploide. Ou seja, as células diploides são reduzidas a células que possuem um único conjunto de cromossomos. Quando os gametas se reúnem na reprodução sexual, a condição diploide é restabelecida. Mas preste atenção: o filho de um casal possui todos os genes da sua espécie. Entre- tanto, quando os gametas dos progenitores se unem, o que o filho herda é uma “versão” de cada um dos genes que compõem a espécie humana. Essas diferentes versões de um gene são chamadas alelos. Quer ver um exemplo? Nos seres humanos existem dois alelos possíveis para a formação do lóbulo da orelha. Um alelo é para os lóbulos das orelhas presos, enquanto o outro alelo é para os lóbulos das orelhas soltos. O tipo de lóbulo da orelha que uma pessoa possui é determinado pelos alelos que foram herdados dos seus pais. 9 UNIDADE Desenvolvimento Ocular A composição genética de um organismo vivo chamamos de genótipo. Para o formato do lóbulo da orelha de uma pessoa, por exemplo, o genótipo pode consistir em dois alelos para lóbulos presos, ou dois alelos para lóbulos soltos, ou um alelo para lóbu- los das orelhas presos e um alelo para lóbulos soltos. A expressão dos genes no organismo nós chama- mos de fenótipo. Se uma pessoa possui os dois alelos para lóbulos presos, seu fenótipo é “lóbulos presos”. Se a pessoa tem dois alelos para lóbulos soltos, seu fenótipo é “lóbulos soltos”. E se a pessoa tiver herdado um alelo para lóbulos soltos e um alelo para lóbulos presos? Embora três genótipos para a forma do lóbulo da orelha sejam possíveis, apenas dois fenótipos (lóbu- los presos ou lóbulos soltos) são possíveis. Como vimos, os dois alelos herdados no genóti- po de um organismo podem ser idênticos ou podem ser diferentes. Quando uma pessoa herda dos seus pais alelos idênticos, chamamos essa condição de homozigose. Por outro lado, quando a contribuição de cada um dos progenitores para aquele gene é di- ferente, chamamos essa condição de heterozigose. Importante! Em um indivíduo homozigoto, os dois alelos se expressam. Em um indivíduo heterozi- goto, os alelos podem interagir entre si e, em muitos casos, apenas um alelo é expresso. Quando um alelo se expressa e o outro não, o que se expressa é o alelo dominante. O alelo “ofuscado” é o alelo recessivo (Figura 3). a a bB Ambos se expressam O alelo recessivo é inibido pelo seu alelo dominante. Figura 3 – Dominância e recessividade Dominante Recessiva Dominante Recessiva Figura 2 – Lóbulos da orelha preso e solto Fonte: Adaptado de Getty Images 10 11 Nos seres humanos, o alelo para os lóbulos das orelhas soltos é o alelo dominante. Então, respondendo a pergunta anterior, se a pessoa tiver herdado um alelo para lóbulos soltos e um alelo para lóbulos presos, seu fenótipo será lóbulos soltos. Isso porque o alelo dos lóbulos soltos se expressará, e o outro alelo não. Alelos dominantes sempre se expressam, enquanto alelos recessivos se expressam apenas quando dois alelos re- cessivos existem juntos em um indivíduo. Assim, uma pessoa com lóbulos soltos pode ter um alelo dominante ou dois alelos dominantes, enquanto uma pessoa com lóbulos das orelhas presos somente pode apresentar em seu genótipo os dois alelos recessivos. Em Síntese O DNA é a base do material genético encontrado em todos os seres vivos. Uma cadeia muito longa de DNA pode formar um cromossomo. Nesses cromossomos, existem áreas cha- madas genes que codificam proteínas específicas. Todos os diferentes cromossomos de um organismo compõem o genoma desse organismo. Em outras palavras: o DNA compõe genes, os genes compõem os cromossomos e os cromossomos compõem um genoma. Mutações Gênicas Mutação é uma alteração no material genético de uma célula e que pode ser transmi- tida aos descendentes da célula. O genoma é composto por várias moléculas longas de DNA e a mutação pode ocorrer em qualquer lugar dessas moléculas e a qualquer mo- mento. As mudanças mais sérias ocorrem nas unidades funcionais do DNA, os genes.Uma forma mutada de um gene é chamada de alelo mutante. Sabendo que um gene codifica uma proteína, uma mutação que altera a sequência de DNA pode alterar a se- quência de aminoácidos e, dessa maneira, potencialmente reduzir, aumentar ou inativar a função de uma proteína. E por que acontecem mutações? Mutações no DNA ocorrem por diferentes razões. Uma definição geral para a ocor- rência das mutações é que estas resultam de acidentes durante as transações químicas normais do DNA. Agora, aplicações práticas para essas ocorrências são inúmeras... Fatores recorrentes são ambientais (por exemplo: exposição à radiação ultravioleta ou certos produtos químicos), e fatores hereditários, isto é, quando as mutações já são her- dadas dos genitores. Como mutações podem ser herdadas? Uma prole individual herda mutações somente quando elas estão presentes no óvulo ou espermatozoides dos genitores. Dessa maneira, todas as células da prole carregam o DNA mutado, já que suas células primordiais foram formadas com a mutação. Mas além das mutações herdadas, uma mutação pode ocorrer aleatoriamente em células somáticas ao longo da vida de uma pessoa. Como as mutações são mudanças no DNA, imaginamos sempre que sejam principalmente deletérias, certo? Errado! Assim 11 UNIDADE Desenvolvimento Ocular como existem mutações deletérias, existem algumas mutações que podem ser benéfi- cas em certos ambientes. Em geral, a mutação é a principal fonte da nossa variabilida- de genética (Figura 4). Figura 4 – Variabilidade genética é causada por mutações Fonte: Getty Images Tipos de Herança Genética A herança genética é um princípio básico da genética e explica como as caracte- rísticas são passadas de uma geração para a seguinte (Figura 5). Isso ocorre devido ao material genético na forma de DNA que é passado dos pais para seus filhos. Quando os organismos se reproduzem, todas as informações para crescimento, sobrevivência e reprodução para a próxima geração são encontradas no DNA transmitido pela geração original. Existem alguns modelos de herança. Vamos estudar os padrões de herança monogênica, poligênica e multifatorial. Mãe Tio AvóAvô Tia PrimaPrimo Pai Irmã Irmão Eu Figura 5 – Herança em árvore genealógica Fonte: Adaptado de Getty Images 12 13 Herança Monogênica A herança monogênica refere-se ao tipo de herança pela qual uma característica é determinada pela expressão de um único gene ou alelo. Tipos de Herança Monogênica: • Autossômica: Quando a característica se encontra em um gene localizado num cromossomo autossomo. Pode ser dominante ou recessiva; • Ligada ao cromossomo X: Quando a característica se encontra em um gene loca- lizado no cromossomo X. Pode ser dominante ou recessiva; • Ligada ao cromossomo Y: Quando a característica se encontra em um gene localizado no cromossomo Y. Não existe dominância e recessividade para este padrão de herança, já que os indivíduos podem ter apenas um único cromos- somo Y no seu cariótipo. Desta maneira, a presença do alelo é suficiente para sua expressividade; • Mitocondrial: Quando a característica se encontra em um gene localizado no DNA mitocondrial. Este tipo de herança possui padrão específico, já que na união dos gametas apenas as mitocôndrias do ovócito serão componentes estruturais do zigoto. Quadro 1 – Como identifi car o padrão de herança monogênica Herança Monogênica Autossômica Dominante • Na prole de casais onde apenas um dos cônjuges tem a carac- terística, encontraremos, aproximadamente, o mesmo número de filhos com e sem a característica; • Em irmãos com a característica, haverá, em média, a mesma proporção de homens e mulheres; • A proporção de filhos com a característica independe de ser o pai ou a mãe o transmissor da característica; • Não há salto de gerações (Figura 6). Herança Monogênica Autossômica Recessiva • Os pais do indivíduo com a característica não necessariamente precisam apresentar a característica; • Os dois sexos são igualmente afetados pela característica, pois o gene é autossômico; • Do cruzamento entre pais com a característica, todos os filhos herdam a característica, pois para os pais expressarem, significa que são homozigotos; • Da união de indivíduos com e sem a característica nascem, geral- mente, indivíduos sem; • A incidência de casamentos consanguíneos aumenta a incidência das características recessivas (Figura 7). Herança Monogênica Ligada ao X Dominante • O fenótipo dominante será transmitido de pais para filhos sem saltar geração; • Mulheres com a característica, casadas com homens sem, pode- rão ter filhos e filhas com a característica; • Mulheres sem a característica, cruzando com homens com, poderão ter filhas com a característica, mas os filhos meninos sempre sem a característica; • Na população encontraremos, aproximadamente, duas vezes mais mulheres do que homens com a característica. 13 UNIDADE Desenvolvimento Ocular Herança Monogênica Ligada ao X Recessiva • O fenótipo com a característica salta gerações; • Os homens com a característica não têm filhos meninos com a característica; • Os homens com a característica geralmente são filhos de mulhe- res sem característica, porém portadora do alelo; • As mulheres com a característica, quando ocorrem, são filhas de um casal onde o homem tem a característica e a mulher pode ter ou não, mas neste último caso, a mulher será heterozigota; • Na população haverá mais homens do que mulheres com a característica. Herança Monogênica Ligada ao Y • Apenas homens expressarão a característica, que será herdada se o pai a tiver. Herança Monogênica Mitocondrial • Todos os filhos de uma mãe que possui a característica, herdarão a característica. Herança autossômica dominante IV III II I Doente Normal Figura 6 – Exemplo de padrão de herança dominante Homem Normal (portador) Filho Normal (não portador) Filho Normal (portador) Filha Normal (portador) Filha afetada Mulher Normal (portador) b – alelo recessivo defeituoso B – alelo normal Bb BB Bb bB bb Bb Mecanismo Autossômico Recessivo Figura 7 – Padrão de Herança Autossômica recessiva 14 15 Importante! Características dominantes nem sempre são as mais comuns! A gente tem a ten- dência de achar que a característica dominante é a mais provável de ser encontrada na população, mas o termo “dominante” refere-se apenas ao fato de o alelo ser expresso sobre outro alelo. Um exemplo disso é a acondroplasia (nanismo). Você sabia que o alelo que determina a expressividade da acondroplasia é dominante? Herança poligênica O mais famoso exemplo de genética para a população de maneira geral, é a da cor dos olhos, não é mesmo? Mas é bem difícil estimar a cor dos olhos da prole aferindo apenas o fenótipo dos pais. Isso porque existem vários genes que determinam a mesma característica. A esse padrão de herança, chamamos de Herança Poligênica. Então, o que realmente está acontecendo com esses traços humanos interessantes, como cor dos olhos, cabelos e pele, altura e risco de doenças? Como exemplo, vamos considerar a altura humana. Ao contrário de uma simples característica monogênica, a altura humana exibe: • Variação contínua: Ao contrário das plantas de ervilha de Mendel , os seres huma- nos não vêm em duas variedades bem definidas, “altas” e “baixas”. Em vez disso, temos seres humanos de muitas alturas diferentes, certo? • Um padrão de herança complexo: Você já deve ter visto que pais altos podem ter um filho baixo, ou pais baixos podem ter um filho alto e dois pais de diferentes alturas podem ou não ter um filho no meio. Além disso, irmãos com os mesmos dois pais podem ter várias alturas, aquelas que não se enquadram em categorias distintas. Modelos simples envolvendo um ou dois genes não podem prever com precisão to- dos esses padrões de herança. Como, então, a altura é herdada? Estamos falando de heranças poligênicas. Quando há um grande número de genes envolvidos, torna-se difícil distinguir oefeito de cada gene individual, e ainda mais difícil ver que variantes genéticas (alelos) são herdadas de acordo com as regras da herança monogênica. E em uma complicação adicional, a altura não depende apenas da gené- tica: também depende de fatores ambientais, como a saúde geral da criança e o tipo de nutrição que ela recebe ao crescer. Então tá, vamos às definições! O que é a herança poligênica: A herança poligênica é o tipo de herança em que o traço é produzido a partir dos efeitos cumulativos de diversos genes, em que a característica resulta da expressão desse cumulativo. A herança poligênica é uma forma não mendeliana, uma vez que é controlada por múltiplos genes, em diferentes locais, e até em diferentes cromossomos expressos, tudo em conjunto. Em humanos, altura, peso e cor da pele são exemplos de herança poligênica. Por isso, não podemos prever o efeito de um único gene na proporção fenotípica da prole. Mas veja só... É complexo e lindo! Graças a esse tipo de interação existe uma variedade muito grande de fenótipos e genótipos para algumas características. E mais! A interação desses fenótipos com o meio ambiente aumenta ainda mais essa variação. 15 UNIDADE Desenvolvimento Ocular Quadro 2 – Como identificar padrão de herança poligênica Dominância e recessividade O número de genes dominantes contribui para as características, como por exemplo, a determinação da pigmentação da pele. Acredita-se que 5 pares de alelos interagem para determinar a cor da pele em seres humanos, que são agrupados em várias classes fenotípicas. São elas: • AABB: Negro; • AaBB, AABb: Mulato Escuro; • AaBb, AAbb, aaBB: Mulato Médio; • Aabb, aaBb: Mulato Claro; • aabb: Branco. Expressividade variável Na expressividade variável, um fenótipo pode ser mais forte ou mais fraco em pessoas diferentes com o mesmo genótipo. Por exemplo, em um grupo de pessoas com um genótipo causador de doença, algumas podem desenvolver uma forma grave do distúr- bio, enquanto outras podem ter uma forma mais branda. Herança multifatorial Chamamos de herança multifatorial porque, como o nome diz, “muitos fatores” estão envolvidos na expressão dessa característica. Os fatores geralmente são genéticos e ambientais, onde uma combinação de genes de ambos os pais, além de fatores ambien- tais desconhecidos, produz a característica. Características multifatoriais se repetem nas famílias, porque são parcialmente causadas por genes. A chance de que uma característica ou condição multifatorial ocorra novamente depende de quão estreitamente o membro da família com a característica está relacionado a você. Parece haver um “limiar de expressão” diferente, o que significa que algumas condições são aumentadas para a probabilidade de recorrência na família, do que outras. Por exemplo, o risco é maior se o seu irmão ou irmã tiver a característica ou a doença, do que se o seu primo em primeiro grau tiver a característica ou a doença. Os membros da família compar- tilham uma certa porcentagem de genes em comum, dependendo de seu relacionamento. Certas condições são esperadas para uma característica herdada de maneira multifa- torial. Vamos aos macetes pra reconhecer uma herança multifatorial: • Risco de recorrência em função da prole anterior: Diferentemente da herança monogênica, o risco de recorrência aumenta depois que mais de uma progênie é afetada O risco raramente se aproxima dos 25% esperados para características re- cessivas ou dos 50% esperados para características dominantes; no entanto, após três filhos afetados, o risco pode ser tão alto (15 a 20%) que não se pode excluir a herança autossômica recessiva nessa família; • Risco de recorrência por gravidade: Quanto mais grave o defeito, maior o risco de recorrência. A fenda palatina bilateral apresenta maior risco de recorrência do que a fenda palatina unilateral, por exemplo. Isso acontece porque um fenótipo mais grave indica influência genotípica além do limiar do que o necessário para manifestar uma característica menos grave. Por sua vez, a distribuição de genótipos em parentes de primeiro grau (pais) teria maior probabilidade de ser deslocada para a direita (isto é, mais distante da média da população em geral e talvez um pouco abaixo do limiar); 16 17 • Risco de recorrência por sexo: Se a característica ocorre com mais frequência entre os membros de um sexo, o risco de recorrência será maior se ocorrer em um indivíduo do sexo menos afetado. Por exemplo, a luxação congênita do quadril pos- sui grande associação com pacientes do sexo feminino. Se por acaso um paciente no sexo masculino expressar a característica, é um indicativo de maior prevalência destes alelos nessa família. Aspectos Genéticos dos Distúrbios Oculares A doença ocular genética é uma das principais causas de cegueira e inclui doenças que afetam todas as estruturas do olho, como albinismo, catarata pediátrica etc. Os estu- dos de genética ocular abrangem todas as alterações e malformações de origem genética que podem comprometer o sistema ocular. Existem cerca de 4.000 anomalias genéticas humanas que ocorrem durante o desenvolvimento fetal. Para o optometrista, avaliar e priorizar novos conhecimentos e tecnologias científicas e integrá-los de maneira eficaz em seus serviços e práticas é de fundamental importân- cia. Dessa forma, será possível oferecer a atenção primária adequada a pacientes e a sua família o benefício total da expansão do conhecimento genético ocular. Nesta disciplina, vamos focar em dois distúrbios oculares: o albinismo e o daltonismo. Albinismo Um exemplo importante de característica genética que altera o funcionamento da visão é o albinismo. O albinismo é um grupo de doenças genéticas que fazem com que a pele, o cabelo ou os olhos tenham pouca ou nenhuma pigmentação. Um defeito em um dos vários genes que produzem ou distribuem melanina causa albinismo. O defeito pode resultar na ausência de produção de melanina ou em uma quantidade reduzida de produção de melanina. O gene defeituoso passa de ambos os pais para o filho e leva ao albinismo. Exemplo de família com albinismo, disponível em: https://bit.ly/35Atayv Existem dois tipos de albinismo: • Albinismo oculocutâneo: Afeta a pele, o cabelo e os olhos. Afeta igualmente ho- mens e mulheres; • Albinismo ocular: O albinismo ocular é o resultado de uma mutação genética no cromossomo X e ocorre quase exclusivamente em homens. Este tipo de albinismo afeta apenas os olhos. Pessoas com esse tipo têm cabelo, pele e coloração dos olhos normais, mas não têm coloração na retina (parte de trás do olho). Pessoas com albinismo terão os seguintes sintomas: • Ausência de cor no cabelo, pele ou olhos; • Coloração mais clara do que o normal do cabelo, pele ou olhos; 17 UNIDADE Desenvolvimento Ocular • Manchas de pele sem cor; • Estrabismo; • Fotofobia (sensibilidade à luz); • Nistagmo ( movimentos rápidos involuntários dos olhos ); • Baixa visão ou cegueira; • Astigmatismo. O padrão de herança para o albinismo é monogênico autossômico e recessivo (Figura 8). Aa indivíduo normal indivíduo normal gene albino gene normal (dominante) indivíduos normais indivíduos albino AA AA Aa Aa Aa aaa a A A Aa aa Figura 8 – Padrão De Herança No Albinismo A maneira mais precisa de diagnosticar o albinismo é por meio de testes genéticos para detectar genes defeituosos relacionados ao albinismo. Por se tratar de uma doença genética, não há cura para o albinismo. No entanto, o tratamento pode aliviar os sinto- mas e prevenir os danos do sol. O tratamento pode incluir: • Óculos de sol para proteger os olhos dos raios ultravioleta (UV) do sol; • Roupas de proteção e protetor solar para proteger a pele dos raios UV; • Lentes corretivas para corrigir problemas de visão; • Cirurgias para corrigir movimentos anormais dos olhos. Daltonismo O daltonismo ocorre quando as células sensíveis à luz na retina não respondem ade- quadamente às variações nos comprimentos de onda daluz que permitem às pessoas ver uma variedade de cores. Os fotorreceptores na retina são chamados de bastonetes e cones. Os bastonetes são mais abundantes (existem aproximadamente 100 milhões de bastonetes na retina humana) e são mais sensíveis à luz, mas os bastonetes são incapazes de perceber as cores. O daltonismo é herdado devido a heranças genéticas relacionadas a deficiências em certos tipos de cones ou à ausência total desses cones. 18 19 Como se trata de uma doença genética, não há cura para o daltonismo. Mas algumas estratégias de enfrentamento podem ajudá-lo a funcionar melhor em um mundo voltado para as cores. A maioria das pessoas consegue se adaptar às deficiências da visão de cores sem muitos problemas. Mas algumas profissões, como design gráfico e ocupações que exigem o manuseio de várias cores de fiação elétrica, dependem da percepção pre- cisa das cores. Diagnosticar precocemente a deficiência da visão de cores também pode prevenir problemas de aprendizagem durante os anos escolares, principalmente porque muitos materiais de aprendizagem dependem fortemente da percepção das cores. O daltonismo vermelho-verde é a forma hereditária mais comum de deficiência da visão de cores (Figura 9). É causada por um gene recessivo ligado ao X. Figura 9 – Teste para daltonismo vermelho-verde Fonte: Getty Images As mães têm um par XX de cromossomos carregando material genético e os pais têm um par XY de cromossomos. A mãe e o pai contribuem com cromossomos que determinam o sexo do bebê. Quando um cromossomo X de um dos pais se emparelha com um cromossomo X do outro pai, o bebê será uma menina. E quando um cromos- somo X da mãe emparelha com um cromossomo Y do pai, o bebê será um menino. Se o paciente possui daltonismo vermelho-verde causado por um gene recessivo liga- do ao X, sua mãe será portadora do gene ou terá deficiência de cor. Pais com essa forma hereditária de daltonismo vermelho-verde passam o gene ligado ao X para suas filhas, mas não para os filhos, porque um filho não pode receber material genético ligado ao X de seu pai. Uma filha que herda o gene da deficiência de cor de seu pai será portadora do gene, mas não será daltônica, a menos que sua mãe seja portadora do gene e ela receba um gene de deficiência de cor emparelhado de sua mãe também. Se uma filha herda o traço ligado ao X de seu pai e de sua mãe, ela será daltônica. Quando uma mãe passa essa característica ligada ao X para seu filho, ele herda a deficiência de visão de cores e tem problemas para distinguir vermelhos e verdes. Novamente, uma filha pode ser uma portadora, mas terá essa forma de daltonismo somente quando seu pai e sua mãe transmitirem o gene ligado ao X. É por isso que existem mais homens daltônicos do que mulheres. 19 UNIDADE Desenvolvimento Ocular Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites Sketchfab – Modelo 3D do DNA https://bit.ly/35Ec7LX Vídeos O que é um Cromossomo? Como Funciona? https://youtu.be/UBfInkTvqt8 Leitura Veja o Mundo com os olhos de um Daltônico https://bit.ly/3qtMaH1 Anomalias Oculares e Características Genéticas na Síndrome de Marfan https://bit.ly/2MQ0ECf 20 21 Referências GRIFFITHS, A. J. F. et al. Introdução à genética. In: Introdução à genética. 2006. p. 743-743. JUNQUEIRA, L. C. U. et al. Biologia celular e molecular. McGraw-Hill Interameri- cana, 1998. KANSKI, J. J. Oftalmología clínica. Elsevier Brasil, 2000. NUSSBAUM, R. Thompson & Thompson genética médica. Elsevier Brasil, 2008. 21