Prévia do material em texto
FUNDAMENTOS DE SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA Me. Cláudio Tucci GUIA DA DISCIPLINA 1 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 1. A CIÊNCIA DA SOCIEDADE Bom, antes de mais nada, o que é Sociologia? A resposta pode ser simples ou extremamente complexa, mas para facilitar, vamos optar pela primeira alternativa. A Sociologia estuda a sociedade e tudo o que está relacionado ao nosso convívio. Afinal, somos seres sociais, mas somos muito diferentes, o que gera uma infinidade de situações a serem pesquisadas e compreendidas para que possamos simplesmente respeitar o outro - ou encontrar soluções para o que entendemos não ser bom para o todo. Certamente no decorrer de cada texto essa compreensão do que é Sociologia ficará mais coesa e completa. Portanto, vamos adiante! 1.1. A Sociologia de Durkheim Um dos primeiros teóricos, considerado o pai da Sociologia (apesar de Auguste Comte ter criado o termo), foi Émile Durkheim, Francês, nascido em 1858, que teve grande contribuição para que a Sociologia fosse reconhecida como ciência. Dentre sua vasta obra vamos abordar alguns dos principais temas aos quais dedicou sua vida. 1.2. Fato Social Um dos conceitos desenvolvidos por Durkheim, indispensável para se entender a Sociologia é o Fato Social. Para um fato poder ser considerado social deve ter três características: Ser geral – algo que se aplica a toda uma coletividade; Ser exterior ao indivíduo – não vem do indivíduo, mas da coletividade; Ser coercitivo – algo que o indivíduo se sente obrigado ou impelido a fazer mediante a pressão, mesmo que velada, da coletividade. Temos mais facilidade de identificar os fatos sociais em sociedade que não a nossa, como por exemplo, a utilização da burca ou véu dos países árabes, o índice de suicídios no Japão, os casamentos combinados entre famílias na Índia, etc. 2 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Se você parar para refletir sobre esses exemplos perceberá que se encaixam nas características identificadas pelo autor, pois além de possuírem a generalidade nos países citados, não pertencem ao indivíduo, pois se houvessem nascido em outra cultura essas mesmas mulheres não sentiriam a necessidade que sentem de cobrir o rosto, assim como os suicidas poderiam não sentir a necessidade de acabarem com a própria vida e que os jovens talvez preferissem escolher eles próprios com quem se casariam. Mas todos são coagidos (mesmo sem perceber) a se enquadrar em tais costumes, correndo o risco de serem pré-julgados pela coletividade caso não o façam. Tais fatos não são naturais porque não provem da natureza do ser humano, não sendo intrínsecos a eles, já que variam de lugar para lugar. Portanto, só podem ser considerados culturais ou sociais uma vez que é a sociedade que os institui e mantêm, por meio de sua consciência coletiva. Mas, e por aqui, no nosso país, o que podemos considerar fatos sociais? O Brasil, por ter uma diversidade muito grande, pode ter fatos sociais que mudam de região para região e de que nem chegamos a ter conhecimento. Um, que pode ser tão chocante quanto os exemplos de fora, diz respeito às guerras de família no Nordeste, muito bem retratadas pelo filme Abril Despedaçado, onde se constata que há uma série de regras e certo fatalismo, no sentido de que, por mais que o filho não queira vingar a morte de seu parente, sente que não tem outra escolha. Mas procurando aproximar ainda mais, pensando em Sudeste brasileiro, o que as pessoas se sentem coagidas a fazer? Como as questões culturais são inseridas por meio da educação, não nos damos conta da coerção. Por exemplo, o que poderia ser motivo de chacota? A maneira de se vestir, certamente é uma delas. Uma pessoa que use uma roupa completamente fora de moda (por mais que tenha sido top da moda em alguma época do A consciência coletiva é resultado do que a maioria dos indivíduos de determinada sociedade entende por certo ou errado; ela define o que é tolerável ou não. 3 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância século passado) será olhada com muita estranheza e poderá provocar comentários ao ponto se sentir constrangida. Mas mais que o tipo de roupa, o que provoca julgamento incontrolável é o seu tamanho. O apelo sexual da mesma, dependendo da região, provoca real incomodo. Exemplo claríssimo disso foi o episódio ocorrido com uma jovem da periferia de São Paulo que ao ir para a faculdade com uma roupa curta demais para os padrões paulistas (o que talvez não fosse para os cariocas) foi vaiada e insultada por um número tão grande de alunos que teve que ser escoltada pela polícia para deixar o local, tornando-se notícia nos diversos jornais e programas de TV do país. Quando um fato desse tipo ocorre se torna nítido o julgamento da sociedade perante algo que pura e simplesmente não é “bem visto”. Por outro lado, quando há repercussão, como nesse caso, isso termina por provocar o debate e reflexão. Apesar de ter ocorrido há poucos anos, parece que o comprimento tolerado das minissaias já diminuiu mais um tanto. As emissoras de TV têm tido muita influência em diversos campos e têm habilidade em inserir temas delicados que aos poucos vão sendo assimilados e aceitos pela sociedade, como vem fazendo com casos homossexuais, como se a cada novela fosse dado um novo passo de forma que não choque, mas vá se tornando natural aos olhos da sociedade. Durkheim, ao criar essa definição e afirmar que esses fatos sociais devem ser identificados e tratados como coisas ao serem avaliados, conquistou um caráter empíricoi, dando um grande passo ao reconhecimento da sociologia como ciência. 1.3. Patologia Social Outro dos conceitos desenvolvidos por Durkheim de especial importância é o de Patologia Social. Nosso sociólogo constata que os fatos sociais como casamentos, crimes, suicídios, ocorrem em todas as sociedades, podendo, portanto, serem considerados normais; o que foge às regras dessa normalidade pode apontar indícios de uma Patologia Social. 4 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Assim como pelos índices estatísticos é possível definir o que é normal, pode-se também reconhecer que ocorre uma anomalia quando as estatísticas revelam uma considerável alteração em determinada sociedade. Um exemplo recente e próximo foi o aumento no número de suicídios dos Guarani- Kaiowá no Mato Grosso do Sul, problema bem apresentado pelo filme Terra Vermelha. No link que segue você pode verificar o Estudo sobre a Violação dos Direitos dos Índios Guarani realizado pela ONG Suvirval. 1.4. Divisão do Trabalho Social Outro assunto sobre o qual Durkheim se debruça é a questão do trabalho nas sociedades primitivas e complexas. Considera que a divisão do trabalho apenas sexual, ou seja, em que homens têm algumas funções e mulheres outras, era algo típico das pequenas sociedades, ditas “primitivas”, que se identificavam por uma religião ou se sentiam ligadas por algum motivo pouco racional, concluindo que nelas ocorria o que denomina Solidariedade Mecânica, no sentido de ser automática, natural. Com a complexificação das sociedades e a divisão do trabalho cada vez maior, as pessoas por um lado vão ficando mais individualistas, porém, como também ficam cada vez mais especializadas em suas funções, se veem mais dependentes das demais para poder se alimentar, vestir, morar, etc. Essa dependência geraria o que Durkheim denomina Solidariedade Orgânica, no sentido de que cada qual tem uma função e um depende do outro, assim como os órgãos do corpo. Vimos neste primeiro texto que a sociologia serve para diagnosticar situaçõessociais, analisando os fatos sociais ou as patologias sociais. Identificando-as podemos compreender o como e o porquê de determinada cultura ter determinados comportamentos que resultam na forma como vivem. Podemos também entender por qual motivo em determinado lugar há algo que foge à regra, que pode ser considerado uma anomalia ou patologia, e que frente a isso podemos sugerir políticas públicas que possam agir no cerne dessas questões a fim de diminuí-las, trazendo a situação de volta à normalidade. http://assets.survivalinternational.org/documents/208/Survival_Guarani_Report_Portuguese-2.pdf http://assets.survivalinternational.org/documents/208/Survival_Guarani_Report_Portuguese-2.pdf 5 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Agora que você já entendeu minimamente como a sociologia funciona, seguiremos adiante, com outras abordagens de fatos e relações que também permeiam a nossa vida e convivência. No próximo texto vamos estudar um pouco sobre as relações de poder e dominação e demais contribuições do sociólogo Max Weber. Mas este é o resumo do resumo, portanto, procure ler e refletir um pouco mais sobre o que abordamos para que possa complementar seu entendimento! 6 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2. OS TIPOS DE DOMINAÇÃO O poder sempre foi tema das grandes tramas da história. A disputa pelo poder continua resultando em guerras e na utilização das mais variadas artimanhas. Quando pensamos nele, nossa mente remete a disputa por grandes impérios e viaja pelos cenários dos filmes mais marcantes. Mas as relações de dominação e poder não se restringem às grandes disputas, elas estão presentes em cada parte da vida: no trabalho, na família, na relação com as instituições... O poder está em toda e qualquer relação, desde que uma pessoa possa impor sua vontade à outra, de uma maneira ou de outra. É com foco nesse tema abordado pelo sociólogo Max Weber que vamos conhecer um pouco de suas diversas contribuições. 2.1. Contribuições de Max Weber Alemão, nascido em 1864, Max Weber é autor de obras de suma importância para a Sociologia. Apesar de formado em Direito, desenvolveu o conceito de Sociologia Compreensiva, escreveu livros como Economia e Sociedade, Ciência e Política – duas vocações, A ética protestante e o espírito do capitalismo, todos indispensáveis para o estudo das Ciências Sociais. 2.2. Política como vocação Ao escrever sobre a Política como vocação, Weber avalia a ação dos políticos e do Estado, bem como de seus funcionários e as formas de se relacionar entre eles. Constata em seus estudos que “o Estado tem o monopólio legítimo da força”, uma vez que somente ele pode utilizá-la legalmente, definição irrefutável que viria a ser utilizada inúmeras vezes. Em suas análises também conclui que há três tipos de dominação legítima: Dominação tradicional – que se utiliza da força dos costumes e tradições, muitas vezes referendadas pela igreja ou religião; 7 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Dominação carismática – que provem do carisma de algum indivíduo que por suas características conquista ou comove as pessoas; Dominação racional-legal – que se baseia em estatuto, regulamento ou lei. Em qualquer um desses casos, a relação de dominação provém do medo ou da esperança. Esperança seja ela de ocupar o reino dos céus, de ter o reconhecimento da pessoa que tanto se admira ou de fazer o que se acredita “correto”. Medo de ser condenado, perder o reconhecimento e ou ser punido. A dominação carismática é muito comum entre os políticos. Dizem que sem carisma ninguém ganha às eleições, apesar de haver controvérsias. Mas há de se considerar com isso que a assessoria dos políticos nem sempre trabalha só por interesse, como se costuma imaginar, mas também ou tão somente por acreditarem em um ideal comum. Mas em se tratando de políticos, tudo é possível. Há por exemplo os que se utilizam da máquina pública para se auto-promoverem, podendo “fazer uso” da dominação racional- legal. E a dominação tradicional tampouco deixa de estar presente, pelo contrário, principalmente nas cidades do interior, Norte e Nordeste, a palavra que vale é a do coronel ou do padre. 2.3. Burocracia Weber também estudou a burocracia, que não deixa de ser um tipo de poder, na raiz da palavra “o poder do escritório”. É com base na burocracia que o Estado moderno racional-legal irá se formar. Há textos em que alguns autores tem o descuidado de dizer que foi Max Weber quem inventou a burocracia; por isso, cuidado com esta interpretação, o que ele criou foi o tipo ideal de burocracia, ou seja, ele encontrou algo que já existia e descreveu a forma como deveria funcionar idealmente. 8 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Características da burocracia 1. A legitimidade das normas; 2. A natureza formal das comunicações; 3. A divisão racional do trabalho; 4. A impessoalidade das relações; 5. A hierarquia da autoridade; 6. A padronização das rotinas e procedimentos; 7. A competência técnica e o poder do mérito; 8. A profissionalização da administração; 9. A plena previsibilidade de funcionamento. As normas, portanto, não podem ser inventadas ao acaso, devem estar escritas e serem legítimas. A comunicação deve ser sempre registrada, pois diminui o conflito de informações e a dependência de quem venha possuí-las. As relações devem ser impessoais porque o Estado não pode beneficiar nenhum cidadão em detrimento de outro, apenas porque o primeiro tem alguma relação pessoal com algum funcionário. Claro que, o ideal é sempre algo a ser buscado, e muitas vezes as regras são inventadas justamente para procurar coibir o que já ocorre naturalmente. Tornar as relações impessoais, por exemplo, certamente é algo muito difícil, especialmente para os brasileiros que estão sempre querendo ajudar os amigos – sem falar nos que querem se “auto-ajudar”... Mas fato é que há regra para tudo neste mundo! E tem o poder quem tem o conhecimento delas, assim como termina por ser dominado o que não o tem. É nisso que consiste o poder do burocrata ou mesmo de um advogado. Como diz o ditado “para os amigos tudo, para os inimigos a lei”. O burocrata tem o poder de infernizar a vida de um indivíduo apenas utilizando-se das regras e leis. No entanto, da mesma forma que um cidadão comum pode ser vítima, o funcionário que desconhecer a lei também pode ser pressionado pela chefia ou mesmo por algum advogado que saiba causar forte impressão. Ao funcionário público, portanto, é indispensável: o conhecimento da lei e o cuidado com o uso da mesma. Lembrando que não é obrigado a cumprir nada que não esteja de acordo com a lei, tendo assegurado o direito de representar contra sua chefia caso a exigência ocorra. Afinal, trabalha para um governo, uma pessoa, ou para o município, estado ou nação? Weber também é um dos teóricos da Sociologia das Organizações, ramo que estuda as instituições, sejam elas empresas, associações ou órgãos públicos. 9 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 2.4. A ética protestante e o espírito do capitalismo Certamente uma das principais obras da Sociologia. Nela, Weber apresenta um estudo das diversas religiões, em especial das protestantes que se encontravam mais concentradas nos países anglo-saxões. Com esse estudo, observando a ética pregada no calvinismo, pietismo, metodismo e nas seitas batistas, pôde identificar uma relação entre essa ética e o que chamaria de “espírito do capitalismo”. Para os protestantes em geral,o prazer era considerado pecado, o trabalho glorificava o homem, o dinheiro devia ser poupado e guardado, e o homem já nascia pré- destinado a ter sucesso na vida – escolhido por Deus – ou não. Evidentemente, todos queriam ser considerados escolhidos por Deus, e além de trabalharem para isso, já que não podiam sair para dançar, se fartar de comer, assistir espetáculos, nem nada do tipo, tampouco tinham muitos gastos. Com o dinheiro que obtinham podiam não mais que investir e trabalhar mais. E foi em meio a essa cultura que o capitalismo encontrou uma espécie de berço para crescer e se desenvolver. Vimos neste segundo texto que Weber identifica 3 tipos de dominação: tradicional, carismática e racional-legal. Sempre que uma vontade se impõe a outra há uma relação de poder - que ocorre por respeito ao costume e à moral, pela crença na opinião de uma personalidade por quem se tem respeito e ou admiração, ou pela força da lei, que obrigatoriamente tem que ser respeitada. Nosso Estado é considerado racional-legal, o que significa que é baseado em regulamentos, leis e decretos, nos quais consiste o poder da burocracia. Há também o poder que as religiões exercem, considerado como dominação tradicional, que, como pudemos ver, não é pouco. Os valores das igrejas protestantes eram tão fortes e rígidos que chegaram a criar o ambiente mais que propício para o capitalismo se desenvolver potencialmente. 10 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância E o poderio que o capitalismo formou, fez com que se mantivessem relações muito parecidas com as já existentes até então. Para Marx a história do homem, é a história das lutas de classe - como veremos no seguinte texto. 11 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. A SOCIEDADE CAPITALISTA Hoje, como você deve estar cansado de saber, vivemos em uma sociedade capitalista, mas... já parou para refletir sobre isso? Como funciona esse sistema e porque vivemos nele? Será que é nossa melhor opção mesmo? Para o capitalista o capital, ou dinheiro, vem em primeiro lugar, é o que importa. E para poder ter sempre mais e mais dinheiro, foi criada toda uma engrenagem na qual estamos inseridos para fazer com que continue rodando - e os donos do capital, continuem ganhando. Mas fomos inseridos de forma bastante inteligente, pois, por mais que tenhamos vontade de sair, não encontramos modo nem maneira, já que para tudo hoje o dinheiro é necessário e sem ele, de fato, não sabemos ao certo como viver. - Com raras exceções evidentemente. Para entendermos nossa sociedade hoje, portanto, é necessário entender como funciona o sistema em que vivemos, e é o que procuraremos fazer neste texto. O maior teórico do assunto é sem dúvida Karl Marx, por mais que muitos não gostem dele, é impossível negar sua contribuição para a sociologia e economia no que diz respeito ao tema. 3.1. A visão de Marx Karl Marx, filósofo alemão, também considerado por sua atuação como historiador, sociólogo, jornalista e economista, de origem judia, nasceu em 1818, na Prússia. Tinha uma visão crítica sobre o capitalismo, escrevia para diversos jornais e logo decidiu dedicar sua vida a produção de suas grandes obras, muitas em parceria com seu amigo Engels. 3.2. A transição dos sistemas Entre os séculos XV e XVI, portanto, há aproximadamente 500 anos, o mundo passava por grandes mudanças. Entre elas estava a transição dos sistemas. 12 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Durante o feudalismo, como você deve lembrar (de ter estudado, claro), o Senhor Feudal era responsável por determinado espaço de terra, no qual os servos podiam produzir e viver, separando sempre uma parte de sua produção para o Senhor, que lhes garantia a segurança e espaço. Mas as relações comerciais que até então funcionavam a base de troca estavam em processo de expansão e os burgueses (apenas comerciantes na época) começaram a contratar gente para produzir para eles. Logo tinha início a Revolução Industrial. Inicialmente havia uma grande oferta de postos de trabalho, e o Estado impunha um salário máximo, já que na época a acumulação de riquezas ainda era condenada. Mas logo, com a decadência dos feudos e a apropriação das terras comunais para a produção de lã, a quantidade de gente que aparecia de todos os lados aumentava muito. Todos tinham que trabalhar, a vagabundagem era condenada por lei, mas já não havia emprego para todos e isso não era levado em consideração. Essa mudança na vida dos campesinos que foram obrigados a se deslocar para os centros urbanos, mudando completamente a forma de viver que conheciam até então, foi abrupta e causou-lhes diversas doenças. Tenho a impressão de que se transmite uma ideia um tanto negativa com relação à Idade Média, talvez para justificar o capitalismo. Mas dificilmente ganharia em horror dessa passagem pré-capitalista. Sugiro que leia esse pequeno texto que apresenta um bom panorama complementar: Transição Feudo-capitalista 3.3. O Exército Industrial de Reserva Uma das constatações de Marx sobre o Sistema Capitalista foi o que chamava de Exército Industrial de Reserva – EIR: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=9 13 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Como havia um número grande de desempregados por conta da mecanização e da apropriação das terras comunais, os donos dos meios de produção podiam pagar o quanto quisessem pela mão de obra dos operários, e estes, se considerassem que era muito pouco, ou aceitavam, ou iam para a rua, já que com a quantidade de desempregados era fácil contratar outro até por menos. Na época, evidentemente, não existiam direitos trabalhistas ou coisas do tipo, de forma que não havia muita alternativa. Os operários trabalhavam 16 e até 18 horas por dia e em condições absolutamente precárias, sem proteção e demais “modernidades” que hoje as empresas são obrigadas por lei a adotar. Significa que o sistema agora é bom? Que melhorou? Não dá para negar que sim, mas se continua enriquecendo tanto alguns poucos, é por que aí tem. 3.4. Mais-valia Significa que tem Mais-valia. Ou seja, que a maior parte da produção está ficando com o dono dos meios de produção. É dessa forma que ele enriquece, pagando menos do que o justo aos funcionários: se um operário produz R$ 200 por dia e só recebe R$ 20, os outros R$ 180 equivalem à mais-valia. Assim o proprietário multiplica seu $, enquanto o operário nunca consegue reunir condições para conquistar sua independência. Certamente o proprietário também tem os custos de produção de maquinário, energia, etc. Mas mesmo que isso equivalesse à metade (R$ 100), ainda assim, ele fica com mais da metade do valor produzido pelo operário. Se tiver apenas 60 operários, já ganha por dia R$ 4.800,00 ou R$ 105.600,00 por mês. 14 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Se o operário trabalha 10h por dia, na primeira hora “faz” o seu salário e as outras 9 horas equivalem ao sobre-trabalho. É por isso que tanto se critica o capitalismo, porque se mantêm baseado na exploração da força de trabalho, mantendo alguns poucos cada vez mais ricos e os demais igualmente pobres. Imagino que você vá me dizer que pelo menos no capitalismo um pobre pode chegar a ser rico, o que não poderia acontecer no feudalismo. É verdade. Pode sim. Mas a que custo? Para conseguir juntar um mínimo que seja terá que renunciar a qualquer lazer, bem- estar, família, ter pelo menos dois trabalhos e assim que possível deixar de ser um exploradoe passar a ser um explorador. Se conseguir ser autônomo pode ganhar bem e viver bem, mas ser rico mesmo, como muitos almejam, sem explorar ninguém, é bastante improvável. O cantor Zeca Bale iro protesta cantando a música “Eu despedi o meu patrão” da qual segue trecho abaixo: Eu despedi o meu patrão Eu despedi o meu patrão Desde o meu primeiro emprego Trabalho eu não quero não Eu pago pelo meu sossego... (2x) Ele roubava o que eu mais valia E eu não gosto de ladrão Ninguém pode pagar Nem pela vida mais vazia Eu despedi o meu patrão... 3.5. Alienação e reificação Ao vender sua força de trabalho, o operário “externiza” uma parte de si, como se separasse dela. E se antes como artesão ele produzia um objeto completo, participava de todo o processo e podia ver o resultado do seu empenho em sua finalização, agora, dedicando-se a produzir um pedaço de algo que talvez sequer saiba o que será o trabalho perde muito do sentido. Trabalha como se fosse uma máquina, alienadoii de todo o processo produtivo. Na época da Revolução Industrial o salário mal cobria os gastos de subsistência. Hoje em dia, mesmo quem já ganha mais do que o necessário para cobrir gastos básicos, se submete a trabalhar mais e mais, pois sempre considera que tem necessidade de http://letras.terra.com.br/zeca-baleiro/96732/ 15 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância comprar novas coisas. Precisa trabalhar mais para poder consumir aquele produto do qual vê a propaganda e que o faz acreditar que lhe trará a felicidade que lhe falta. Dizem que Marx não contava com isso: com a indústria cultural que vende e propaga a ideia de que as pessoas precisam ter o carro do ano, a roupa da moda, o último modelo disso ou daquilo. O que chamamos de fetichismo da mercadoria. É o marketing que impulsiona essa máquina, para que continue girando sem parar, como a cenoura na frente do burro, sempre haverá algo novo a se alcançar, e dessa forma as pessoas continuam trabalhando cegamente, para adquirir a sua promessa de felicidade - que sempre estará mais adiante. O trabalhador vira mercadoria, passa por um processo de reificaçãoiii, ou seja, se “coisifica”, vira peça de engrenagem. Para Marx, no entanto, isso só ocorre porque o trabalhador está alienado do processo de produção, mas se ele tomar consciência do processo e de sua importância, de que está sendo explorado e de que pode se unir com os demais para impedir que a exploração prossiga, pode assim se emancipar. Os Paralamas do Sucesso cantam algo que condiz muito com nossas rotinas: Capitão da Indústria Ah, Eu acordo pra trabalhar Eu durmo pra trabalhar Eu corro pra trabalhar Eu não tenho tempo de ter O tempo livre de ser De nada ter que fazer Eu não vejo além da fumaça Que passa e polui o ar 3.6. Utopia Marx acreditava que era possível vivermos em uma sociedade comunista, em que nem terra nem meios de produção pudessem pertencer a um só indivíduo, devendo estar disponível a todos que quisessem produzir. http://letras.terra.com.br/os-paralamas-do-sucesso/47931/ 16 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Não existiria, portanto, a propriedade privada. Os bens seriam de uso comum. Dessa forma, tampouco existiriam classes, ricos e pobres e nossa velha conhecida desigualdade. Para que fosse possível alcançar esse ideal, considerava ser necessário que a classe operária se unisse para fazer a revolução proletária, sendo preciso para tanto, que tomassem consciência da sua condição e se emancipassem. Na sociedade comunista não há Estado, as comunidades se auto-organizam. Mas para que essa transição pudesse ocorrer, inicialmente o Estado seria necessário, resultando nesse primeiro momento em uma sociedade socialista, tendo os mesmos princípios e ideais da comunista, mas ainda dependente de um Estado para fazer cumprir as novas leis. Há muita falta de compreensão com relação a esses ideais, e como os que têm mais recursos têm medo de perdê-los... Na época da ditadura militar, falava-se da “ameaça comunista”, contavam-se invenções (até que comiam crianças), e por isso, muitos os temiam e apoiavam a ditadura, por puro desconhecimento. Em Cuba, um dos poucos países socialistas do mundo, apesar de todas as dificuldades por conta do bloqueio dos EUA, se orgulham de, por exemplo, não terem nenhuma criança dormindo nas ruas, sendo que em todo o mundo há mais de 200 milhões nessas condições. Muitos criticam as ideias de Marx e afirmam se tratar de uma grande Utopia, algo inatingível. Contudo, o mais importante em uma utopia não é ela em si, mas o caminho que se percorre na intenção de alcançá-la. 17 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Neste terceiro texto procuramos entender um pouco das ideias de Marx. Ao analisar a transição do sistema feudalista ao capitalista e a exploração do homem pelo homem, identifica a luta de classes entre oprimidos e opressores. Com o desenvolvimento do capitalismo, a modernização da produção fez com que milhares de pessoas ficassem sem trabalho, pois não tinham os meios de produção para produzirem por conta própria e não havia emprego para todos. Dessa forma os capitalistas dispunham de um Exército Industrial de Reserva, o que facilitava muito a exploração dos empregados. Com a divisão do trabalho, os operários não tinham conhecimento de todo o processo de produção, ficando cada vez mais alienados, pois vendiam sua força de trabalho (junto com todo o tempo da sua vida), sendo tratados como máquinas e ganhando menos que o necessário para a subsistência da família. Mas Marx acreditava que se os operários se conscientizassem de sua força, ou seja, se percebessem que ao se unirem eram a maioria, e, portanto, mais fortes para enfrentar seus exploradores, poderiam com isso se emancipar e não depender dos proprietários, fazendo a revolução comunista. Assim poderiam viver sem desigualdade, pois propriedade privada não existiria e todos teriam acesso a terra, aos meios de produção e aos mesmos direitos. 18 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4. DIVERSIDADE E DESIGUALDADE 4.1. Antropologia e cultura Agora nos cabe entender um pouco sobre a Antropologia – das três ciências citadas, talvez a mais desconhecida. Indo à raiz da palavra (ánthropos) significa simplesmente “o estudo do ser humano”. Difícil é explicar a diferença entre Sociologia e Antropologia! São vários pontos, mas alguns bastante sutis. Há quem pense que o antropólogo só estuda as tribos indígenas; a maioria talvez sim, mas o campo não se limita a elas, não. Talvez fique mais fácil de entender com um exemplo como... a questão dos catadores de papel: Se o estudo for feito pelo campo da Antropologia, o foco será muito mais nos próprios catadores e na história de vida de alguns deles. Já se a pesquisa for realizada pela vertente sociológica, o foco será mais no fenômeno da existência de catadores, na quantidade que aumenta, no contexto social que faz com que tantas pessoas passem a viver do lixo, na relação com a conscientização ambiental e com políticas públicas ligadas à área... entende? A Antropologia foca no ser humano, sua história de vida e questões culturais; a Sociologia foca no fenômeno sociológico, no fato social tratado como coisa (lembra?), na quantidade, contexto e relações com o sistema vigente. E o estudo do ser humano é fundamental para que possamos, por exemplo, defender os Direitos Humanos. Pois é com base no conhecimento que podemos quebrar os pré- conceitos - se são “pré” é justamente porque vieram antes do conhecer - comoum pré- julgamento, que tampouco deve ocorrem sem que ambas as partes possam se defender, não é mesmo? E Direitos Humanos não são só para os bandidos, como por vezes ouvimos dizerem. Os órgãos de defesa interferem nos casos mais graves, mas todos têm direito a seus Direitos Humanos - inclusive o profissional de Segurança Pública. Aliás, foi aberta uma consulta pública para o aperfeiçoamento das Diretrizes para a Promoção e Proteção dos Direitos Humanos dos Agentes de Segurança, propostas pelo governo federal. É a sua vida e sua segurança que estão em pauta! 19 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 4.2. Etnocentrismo e diversidade de culturas Vamos de novo à raiz da palavra: ethno referece a etniaiv, e centrismo, ao centro, claro. Assim como usamos a palavra geocentrismo para nos referirmos à época em que se acreditava que a Terra era o centro do universo, ou mesmo antropocentrismo quando se considerava o ser humano o centro de tudo. O etnocentrismo nada mais é do que o fato de determinado grupo, nação ou cultura se sentir o centro, ou seja, a principal de todas as culturas. E é muito normal que isso aconteça, afinal de contas, que cultura poderia ser mais importante e mais “normal” do que aquela em que vivemos? Bem, é verdade que existe um eurocentrismo fácil de ser detectado, pois a história passada na escola era a da Europa, sendo que os demais continentes têm histórias tão ou mais importantes, mas deixadas de lado. Outra questão a ser considerada com relação ao tema é a “americanização”, mas que bem poderíamos chamar de “estadosunidização” (se a palavra não ficasse tão feia e difícil de pronunciar) já que também somos América. Os EUA vêm se empenhando há mais de um século em difundir sua cultura principalmente por meio da produção cinematográfica. A maioria dos filmes e seriados que vemos são produzidos lá, e se parar para reparar, em boa parte deles a bandeira dos Estados Unidos aparece em algum momento – ou vários. Passamos a consumir a música deles, a roupa deles, os carros deles, tudo o que a indústria cultural americana nos vende indiretamente. Afinal, quem não gostaria de ser como o mocinho ou até mesmo o vilão do filme, que no final (ou no começo para os apressados) sempre se dá bem de uma forma ou de outra? Mas se observarmos bem, o mais interessante do nosso mundo, não é justamente a diversidade de culturas? Que graça haveria viajar se todos os lugares e todas as pessoas fossem iguais? Gostamos de ver e até tentar entender o diferente, e é no diferente que nos damos conta de nossas características que até então achávamos que eram comuns a qualquer pessoa. 20 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância É claro que, para nós brasileiros, por exemplo, é estranho saber que em muitos países as pessoas não tomam banho todos os dias, mas, se vivêssemos neles, talvez não só entenderíamos como também acharíamos estranho o contrário. Há uma preocupação nas Ciências Sociais com a homogeneização (homo significa igual e hétero, seu antônimo, diferente), ou seja, com que todas as culturas fiquem iguais e percam suas identidades e tradições. Nas receitas de bolo sempre diz “mexer até obter uma consistência homogênea”, isto é, até toda a massa ficar igual. Para o bolo é fundamental, mas para nós, seria triste! Por outro lado, por mais que haja influência dos EUA, em cada país, ou mesmo região, poderá ser diferente, uma vez que não deixamos por completo nossa cultura, apenas lhe inserimos novos elementos, já que quando é estabelecido o contato com outra, imediatamente ocorrem trocas, sejam elas, de experiências, de crenças, comidas, costumes, modos de vestir, etc. Mas o mais importante disso tudo é reconhecermos a riqueza que há nessa variedade de culturas. Pensando só em Brasil, que gostoso é conhecer cada sotaque, cada comida típica, cada jeito diferente de ser. Você conhece alguma piada de como a pessoa de cada estado reagiria à determinada situação? Considerando o mundo todo então, é incrível! E é só por não sermos tão iguais. 4.3. Desigualdade e preconceito Mas nem todos pensam dessa forma. Não é mesmo? Há muita gente que teme o diferente, que tem medo do que não conhece e por isso cria um “pré-conceito”, como já dito, cria uma ideia do que venha a ser, antes de conhecer. A desigualdade social mantida pelo sistema capitalista (que estudamos no texto anterior) está intimamente ligada ao racismo e preconceito, pois na maioria das vezes é o pobre e ou o negro que será discriminado. Mas é um pouco mais complexo que isso... Há muitos preconceitos com que convivemos em nossa sociedade, os principais são os de cor ou etnia, classe social, orientação sexual e gênero. Existem muitos outros, mas aqui vamos focar apenas nestes, separadamente: Cor, etnia ou origem 21 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Não existe o que possa provar que uma pessoa venha a ser melhor que outra pura e simplesmente por ser de uma ou outra cor. Certamente há biótiposv diferentes, e eventualmente, alguns podem ter mais facilidade (como os de pernas mais longas podem se destacar nas corridas); mas efetivamente, não há nenhuma ligação entre o biótipo e a índolevi das pessoas - que pode ser inata ou influenciada pelo entorno. No geral, forma-se pela mescla das duas coisas. No Brasil não há tanto preconceito com estrangeiros como em alguns países. No entanto, existe a discriminação por região de origem, com que sofreram muitos nordestinos. Mas os mais depreciados, acredito que foram os negros. Temos um histórico de escravidão que faz parte da nossa formação enquanto povo e nação, que poderia ter sido diferente, pois Joaquim Nabuco tinha a proposta de que a abolição acontecesse junto com a reforma agrária, o que não ocorreu. Os antigos escravos obtiveram liberdade - que sem dúvida é algo sem preço – mas foram largados à própria sorte, com uma transição nada fácil. Na atualidade se reconhece que o Estado criou uma dívida com os negros, pré e pós-abolição. Nos últimos anos houve esforços para implementar políticas públicas que chamamos de ações afirmativas, que buscam garantir um mínimo de oportunidade para os descendentes dos que foram mais prejudicados no passado (indígenas e africanos). Ainda há muita resistência a respeito dessas ações, como também muito o quê debater. Por isso há que se ter muito cuidado com a adoção das ações afirmativas, pois, mal aplicadas, podem ter um efeito reverso ou mesmo estimular uma segregação – o que definitivamente, não precisamos. Mas o preconceito não para aí, não é mesmo? Que outros grupos você lembra ou percebe que sofrem discriminação de origem? Anote! O assunto é extenso, mas precisamos seguir adiante. Peço apenas que antes você dê uma olhada nesta dissertação de mestrado e leia ao menos o resumo e a conclusão: *Racismo Institucional: a cor da pele como principal fator de suspeição. http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Nabuco 22 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Classe social Não é preciso ser sociólogo para constatar que existe um forte preconceito de classe, por mais velado que seja, quem é ou foi pobre já deve ter sentido ou presenciado a sutileza dessa discriminação. Este é um problema que causa uma série de outros, pois como já vimos, o capitalismo sabe causar o desejo, e somado à rejeição, faz com que queiram estar na moda para serem aceitos e reconhecidos. Para isso, vale tudo. O mesmo sistema que faz de um, um milionário, faz do outro (que é mal pago ou não consegue emprego) miserável – e para ele não deixar os filhos passarem fome, as primeiras opções a vistasão pedir ou roubar. O Brasil é um dos países com o maior índice de desigualdade social, e nos acostumamos a viver disparidade desmedida, como se fosse normal. No entanto, nos últimos anos os índices de desigualdade diminuíram pela primeira vez desde que se iniciou o registro desse indicador. E por conta disso, estamos sendo considerados modelo em políticas públicas nessa área, mas ainda estamos muito longe de atingir níveis aceitáveis. Ainda assim, há muita gente contra essas medidas. O que você pensa sobre? Recomendo a leitura de dois pequenos textos: Bolsa Família não causa dependência e Bolsa família não freia busca de emprego. Orientação sexual Que sentido faz uma pessoa ser reprimida, agredida e até assassinada pelo simples fato de gostar de outra - independente de seu gênero, vestimentas, cor ou aparência? As siglas e nomenclaturas mudaram diversas vezes, pois conforme o debate avança se procura encontrar a “fórmula” mais “correta” e inclusiva possível, sem que ninguém fique de fora, já que cada grupo tem suas especificidades, vivenciando, portanto, diferentes situações e necessidades. A sigla anterior era GLBTTT ou GLBTs (Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestisvii, Transexuaisviii e Transgeneros); http://www.ecodebate.com.br/2010/05/19/pnud-brasil-bolsa-familia-nao-causa-dependencia/ 23 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância A atual é LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e “Trans”); A próxima pode ser LGBTI (Lésbicas, Gays, “Bi”, “Trans” e Intersexuaisix). Mas apesar de haver um maior número de assumidos, mais informação e até legislação a favor, os números ainda são assustadores, como se pode constatar em Homofobia 226 brasileiros assassinados em 2011. Apesar de 10% da população se identificar parte dos LGBTs, a cada 33 horas um desses cidadãos foi assassinado por um indivíduo que se sentiu incomodado com a orientação sexual do outro – portanto, por um homofóbico x(que tem medo de homossexuais). O pior é que esses números têm aumentado muito: desde 2007 já aumentaram em mais de 100%! E é preciso agir logo, o Brasil lidera o ranking tendo 44% dos assassinatos de gays em todo o mundo. Junto com o debate por legislação de proteção, cresce também a resistência, em especial da bancada evangélica. Índice de Homofobia - pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo/2008. Como você pode ver na imagem abaixo, foi levantando um índice de homofobia no Brasil, revelando que é uma minoria que não aceita os homossexuais. No entanto, essa parcela é considerável e responsável por danos inestimáveis. Em rápida entrevista o Deputado Federal Jean Wyllys fala sobre a importância das políticas públicas contra a homofobia. Assista! Sugiro também uma olhada no link: Afinal, o que os gays pensam que são? Também recomendo uma espiada no avanço da legislação, pois em diversas cidades a discriminação contra LGBTs já é crime. http://www.fpabramo.org.br/o-que-fazemos/pesquisas-de-opiniao-publica/pesquisas-realizadas/7-indice-de-homofobia http://g1.globo.com/videos/espirito-santo/bom-dia-es/t/edicoes/v/deputado-federal-jean-wyllys-participa-de-audiencia-publica-sobre-homofobia-no-es/1922279/ http://amorygual.tropis.org/perguntas.html 24 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Gênero Há uma série de questões e problemas relacionados à desigualdade de trato entre homens e mulheres. Acredito que já ficou claro para ao menos considerável parte dos brasileiros que não é o fato de sermos homem ou mulher que faz um ser melhor ou poder mais que o outro. Certamente há diferenças, mas isso não faz de ninguém incapaz, apenas diferente. Não é mesmo? No entanto, a maioria dos cargos de chefia ainda são ocupados por homens e as mulheres ainda recebem menos, mesmo que executem as mesmas funções que os homens. Por outro lado, a igualdade na jornada de trabalho está mais que concedida, mas... e dentro de casa? Enquanto não estiver tudo devidamente dividido, acaba ficando ainda mais pesado. Será justo? O que você acha? Outro problema grave que permeia o mundo das mulheres é a questão da legalização do aborto, pois muitas morrem por conta da proibição. Dê uma olhada neste pequeno vídeo e reflita. Mas, entre tantas dificuldades enfrentadas, acredito que nada é pior que a violência doméstica. Há sim muitas pessoas que pensam que podem agir como se fossem donas da outra, mas a escravidão acabou faz tempo. E como parece que alguns têm muita dificuldade em entender isso, a Lei Maria da Penha foi elaborada e aprovada para coibir esse tipo de violência que marcou e até tirou a vida de milhares de brasileiras. É uma realidade presente em muitas famílias e relações. Você conhece alguma mulher que já foi agredida, ameaçada ou oprimida por alguém que era ou foi íntimo? Infelizmente, é muito improvável que a resposta seja não. Antes as mulheres não tinham coragem de denunciar, e muitas ainda não têm, ou sequer fazem ideia de que estão sofrendo violação de seus direitos - muito menos de como http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DINpm7CqRPx8%26feature%3Drelmfu&h=7AQH0DKCvAQF9EYIiu48grl8WA7b21xN0oZQqxYwZ7AhbAQ http://leimariadapenha.blogspot.com.br/2006/12/lei-11340-lei-maria-da-penha.html http://leimariadapenha.blogspot.com.br/2006/12/lei-11340-lei-maria-da-penha.html http://carlosbfernandes.files.wordpress.com/2011/11/cartilha-final.pdf 25 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância fazer para denunciar. Por isso este manual foi elaborado. Veja e, quando considerar pertinente, passe adiante. 4.4. Corporativismo, códigos e comunicação Corporativismo: do latim corpus significa corpo, e ativismo é a ação ou atividade em direção a algo que se quer transformar, em geral, associado às ações de grupos que protestam contra ou a favor de algo (ex: contra a corrupção, a favor do meio ambiente, etc). O corporativismo, no entanto, terminou por adquirir um sentido mais pejorativo, pois, apesar de, a princípio parecer bom que os membros ajam como se a corporação fosse um único corpo e, portanto, se disponham a fazer de tudo para ajudar um ao outro – já que se o corpo morre, todos morrem – é necessário haver um limite. Se não há limite, pode-se chegar ao contrassenso de, por exemplo, um órgão que defende o cumprimento da Lei, descumprir a própria Lei. Quando o corporativismo passa a beneficiar uns em detrimento de outros, ou passa a encobrir erros e crimes, criasse uma rede, ou melhor, uma cadeia de “favores”. Essa cadeia mantém a muitos presos em um sistema de encobertamento e inevitável cooperação, já que todos devem a todos. O “corpo” continua vivendo, mas suas partes (com seus interesses privado) podem chegar a consumir-lhe mais energia que sua própria missão - seja ela qual for. As ximilícias do Rio de Janeiro são um exemplo cabível, porém extremado, já que praticamente formam outro corpo. Parece coisa de ficção, e boa parte dos que assistiram ao Tropa de Elite II devem pensar que a situação retratada seja só uma imaginação do autor do que poderia acontecer e não do que já vem acontecendo, como alerta a Anistia Internacional, conforme publicou a Terra Magazine: Milícias do Rio já são maiores que traficantes Os códigos e comunicação específica são encontrados em qualquer grupo, pois é símbolo de identificação e auxiliam na exclusão para que o grupo permaneça fechado, fazendo com que quem não for bem-vindo, ou confiável, não se sinta a vontade ou não entenda o que se diz. Isso vale tanto para gangues, pequenos grupos, policiais, políticos, etc. – todos têm sua linguagem. http://carlosbfernandes.files.wordpress.com/2011/11/cartilha-final.pdf http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5451968-EI6578,00.htmlhttp://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5451968-EI6578,00.html 26 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância Neste quarto texto procuramos entender um pouco sobre o que trata a Antropologia, o estudo do ser humano em suas diversas culturas. A reconhecer a riqueza existente na diversidade de culturas – que não somos iguais e nem precisamos ser, precisamos apenas nos respeitarmos em nossas diferenças. E falando em ser humano, para que possamos viver em harmonia, é indispensável que os Direitos Humanos sejam respeitados. Pois neste sentido sim: todos são iguais perante a lei, independente de sexo, classe social, [orientação sexual], pensamento, credo, raça, cor ou etnia. Não é? Mas ainda há muito preconceito com os que não seguem o padrão “desejado”, principalmente com relação aos pobres, negros, LGBTs e mulheres. No entanto, nada justifica esses “pré-conceitos”. Brancos e ricos também podem ser discriminados, mas é raro. Assista ao Versões - preconceito. São só 6 min. Sobre o corporativismo instaurado nas diversas organizações, este adquiriu um sentido pejorativo por conta de encobertarem os favores uns dos outros. Se o proveito próprio é mais importante que a missão da organização, é criminoso. Finalmente, finalizamos chamando a atenção para a linguagem e símbolos que cada grupo utiliza para se comunicar e manter fechado, independente de serem grupos de adolescentes, policiais e seguranças ou crime organizado. i Empírico: Baseado na experiência e na observação, metódicas ou não. ii Alienação: ato ou efeito de alienar (-se); alheação, alheamento, alienamento. 1. Rubrica: termo jurídico. Transferência para outra pessoa de um bem ou direito - ex: alienação de uma propriedade. Estado resultante do abandono ou privação de um direito natural - ex: alienação da liberdade. 2. Derivação: sentido figurado. Fato de ceder ou perder; renúncia, desprendimento - ex: . 3. Rubrica: filosofia. No hegelianismo, processo em que a consciência se torna estranha a si mesma, afastada de sua real natureza, exterior a sua dimensão espiritual, colocando-se como uma coisa, uma realidade material, um objeto da natureza. No marxismo, processo em que o ser humano se afasta de sua real natureza, torna-se estranho a si mesmo na medida em que já não controla sua atividade essencial (o trabalho), pois os objetos que produz, as mercadorias, passam a adquirir existência independente do seu poder e antagônica aos seus interesses Obs: cf. reificação. 4. Derivação: por extensão de sentido. Uso: informal. Indiferença aos problemas políticos e sociais 5. Derivação: por extensão de sentido. Uso: informal. Desorientação quanto ao comportamento e às convicções pessoais; sensação de absurdo existencial. iii Reificação: 1. Rubrica: filosofia. Segundo Georg Lukács (1885-1971), alargando e enriquecendo um conceito de Karl Marx (1818-1883), processo histórico inerente às sociedades capitalistas, caracterizado por uma transformação experimentada pela atividade produtiva, pelas relações sociais e pela própria subjetividade humana, sujeitadas e identificadas cada vez mais ao caráter inanimado, quantitativo e automático dos objetos ou mercadorias circulantes no mercado. 2. Derivação: por extensão de sentido. Qualquer processo em que uma realidade social ou subjetiva de natureza dinâmica e criativa passa a apresentar determinadas características - fixidez, automatismo, passividade - de um objeto inorgânico, perdendo sua autonomia e autoconsciência. 27 Fundamentos de Sociologia e Antropologia Universidade Santa Cecília - Educação a Distância 3. Sinônimo: coisificação. iv Etnia: Coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na língua, religião e maneiras de agir; grupo étnico [Para alguns autores, a etnia pressupõe uma base biológica, podendo ser definida por uma raça, uma cultura ou ambas; o termo é evitado por parte da antropologia atual, por não haver recebido conceituação precisa.]. v Biótipos: genótipo comum a todos os indivíduos de um determinado grupo. Grupo de indivíduos que têm uma origem comum e possuem as mesmas estruturas de fatores hereditários. vi Índole: conjunto de traços e qualidades inerentes ao indivíduo desde o seu nascimento; caráter, inclinação, temperamento. vii Travesti: artista que, em espetáculos, se veste com roupas do sexo oposto. Homossexual que se veste e que se conduz como se fosse do sexo oposto. viii Transexual: aquele que tem a convicção de pertencer ao sexo oposto, cujas características fisiológicas aspiram ter ou já adquiriu por meio de cirurgia. ix Intersexual: intermediário, no tocante a características sexuais, entre o macho e a fêmea; intersexuado. x Homofóbico: rejeição ou aversão a homossexual e a homossexualidade. xi Milícia: qualquer organização de cidadãos armados que não integram o exército de um país. 1. A CIÊNCIA DA SOCIEDADE 1.1. A Sociologia de Durkheim 1.2. Fato Social 1.3. Patologia Social 1.4. Divisão do Trabalho Social 2. OS TIPOS DE DOMINAÇÃO 2.1. Contribuições de Max Weber 2.2. Política como vocação 2.3. Burocracia 2.4. A ética protestante e o espírito do capitalismo 3. A SOCIEDADE CAPITALISTA 3.1. A visão de Marx 3.2. A transição dos sistemas 3.3. O Exército Industrial de Reserva 3.4. Mais-valia 3.5. Alienação e reificação 3.6. Utopia 4. DIVERSIDADE E DESIGUALDADE 4.1. Antropologia e cultura 4.2. Etnocentrismo e diversidade de culturas 4.3. Desigualdade e preconceito 4.4. Corporativismo, códigos e comunicação