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L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Caro estudante, Este módulo de temas comentados tem algumas características importantes: 1. Não utilizamos CHAT GPT, trechos extraídos do google ou qualquer outro mecanismo artificial e não autoral. Não somos contra o progresso tecnológico, mas acreditamos que você precisa ler conteúdos profundos, bem escritos e reais. Logo, tudo o que escrevemos aqui é de nossa autoria e foi escrito a partir das nossas leituras prévias, das nossas pesquisas, dos nossos debates e das nossas reflexões críticas sobre os complexos fenômenos sociais. Eventualmente, podemos ter opiniões divergentes, mas acredito que você possui maturidade suficiente para entender que visões de mundo antagônicas precisam ser respeitadas; 2. Estes temas comentados foram escritos de maneira crítica, ou seja, com um viés deveras argumentativo. Essa capacidade de estabelecer raciocínios problematizantes é a principal característica de um bom texto e a carência de leituras reflexivas faz com que os candidatos tenham muita dificuldade de produzir redações com viés realmente argumentativo (o que não será mais o seu caso); 3. A leitura dos temas comentados ajudará na construção de cultura geral, além de um histórico positivo de repertórios, argumentos e vocabulários. Quanto MAIS os internalizar, MENORES serão as chances de travar diante de um tema desconhecido, já que você “alimentou” sua mente com boas leituras e base crítica para a maioria das propostas; L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 4. As bancas estão cada dia mais complexas no que se refere às escolhas dos temas de discursivas e nós precisamos elevar o seu nível da preparação. Logo, este material, se bem utilizado, servirá como “escudo” contra as cascas de banana que as organizadoras tentam colocar para “pegar” os candidatos com preparação fraca. 5. Por fim, recomendo que leia o material com calma. Reflita sobre o que lê, questione-se, investigue, imagine cenários, construa sua própria versão para os fatos. Não se contente apenas com a minha opinião sobre as questões analisadas. Afinal, as bancas desejam saber a SUA opinião e esse exercício te proporcionará condições de lidar com assuntos cada vez mais espinhosos. ATENÇÃO: PIRATARIA É CRIME! A prática de rateio, compartilhamento, distribuição e comercialização não autorizada deste material é ilegal e sujeita o infrator a medidas legais cabíveis. Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa § 1o Se a violação consistir em reprodução total ou parcial, com intuito de lucro direto ou indireto, por qualquer meio ou processo, de obra intelectual, interpretação, execução ou fonograma, sem autorização expressa do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor, conforme o caso, ou de quem os represente: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa. § 2o Na mesma pena do § 1 o incorre quem, com o intuito de lucro direto ou indireto, distribui, vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, tem em depósito, original ou cópia de obra intelectual ou fonograma reproduzido com violação do direito de autor, do direito de artista intérprete ou executante ou do direito do produtor de fonograma, ou, ainda, aluga original ou cópia de obra intelectual ou fonograma, sem a expressa autorização dos titulares dos direitos ou de quem os represente. § 3o Se a violação consistir no oferecimento ao público, mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer outro sistema que permita ao usuário realizar a seleção da obra ou produção para recebê-la em um tempo e lugar previamente determinados por quem formula a demanda, com intuito de lucro, direto ou indireto, sem autorização expressa, conforme o caso, do autor, do artista intérprete ou executante, do produtor de fonograma, ou de quem os represente: Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa. Em suma, você tem, neste momento, acesso a um material valiosíssimo e que levou mais de duas mil horas de árduo trabalho para ser produzido. Aproveite-o da melhor forma e bom trabalho! Minha parte eu já fiz. Agora é com você! Um abraço! Prof. Ari! L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 SUMÁRIO TEMA 01: Pensadores Fundamentais ........................................................ 06 TEMA 02: Definindo a Sociedade do Século XXI a partir de 4 Conceitos Fundamentais ............................................................................................ 21 TEMA 03: Inteligência Artificial ................................................................... 36 TEMA 04: Literacia Familiar ....................................................................... 53 TEMA 05: Milícias no Brasil ........................................................................ 71 TEMA 06: Violência nas Escolas ................................................................ 86 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 "A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original." - Albert Einstein L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 [TEMA 01]: PENSADORES FUNDAMENTAIS Fala, pessoal! Espero que esteja tudo bem por aí. Prof. Ari aqui, O Brabo Da Redação. Mais uma vez, entregando um conteúdo que poucos entregam na internet O conteúdo que vou apresentar aqui será, dessa vez, um papo cabeça, para você tirar uma onda nas suas próximas redações e, de quebra, ainda impressionar família, amigos e flertes. 🤝 😂 Então, fica comigo até o final para não perder essa oportunidade! 🎁 Brincadeiras à parte, preciso te contar que esse post tem uma razão fundamental: nos últimos tempos, os concursos têm buscado valorizar, cada vez mais, candidatos que sejam capazes de falar sobre um determinado assunto estabelecendo reflexões críticas sobre problemáticas que nos cercam. ☝ Para isso, no entanto, você precisa: Ser capaz de reconhecer padrões comportamentais e questões da contemporaneidade; Ter a habilidade de olhá-los munido de senso crítico; Possuir repertório teórico que sustente suas reflexões. BIZU DO BRABO: A TÍTULO DE EXEMPLO, VEJA OS TEMAS A SEGUIR COBRADOS EM PROVAS RECENTES I. Quais são, hoje, as vantagens e desvantagens de ser brasileiro? (Polícia Militar do Acre - 2023) II. Relações entre o social e o individual na busca contemporânea pela felicidade (Polícia Penal do Acre – 2023) III. Os limites acerca da exposição do outro nas redes sociais (Polícia Militar da Paraíba - 2023) IV. Qual o limite do humor (Tribunal Regional do Trabalho da 12 Região - 2023) Logo, se você não tiver bagagem cultural, será impossível atender a essas competências. Por essa razão, apresento a você 3 repertórios coringas para a maioria dos temas que vêm sendo cobrados. 🔥 6 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Com as discussões de pensadores da Escola de Frankfurt, de Michel Foucault ou de Byung- Chul Han,a graça, o engajamento e a atenção do público e será necessário produzir mais. A indústria cultural trabalha com quantidade, não com qualidade. Quanto mais, melhor. É um conteúdo extremamente superficial. 40 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Se você pensar no WhatsApp, Instagram, TikTok e YouTube, perceberá que os vídeos são curtos, rápidos e superficiais. Então, qualquer assunto, por mais grave, complexo ou perigoso que seja, quando tratado pela indústria cultural, perde a profundidade e fica raso. O assunto se torna no máximo uma trend, uma confusão no Twitter, nada que transformará o cotidiano ou trará melhorias para as pessoas. Se anos atrás Rita Lee cantou “tudo vira bosta”, de acordo com a dinâmica de hoje no espaço virtual, tudo vira meme e piada, nada rende assuntos muito profundos. Desde que entramos nesse circuito virtual com mais intensidade em 2020, quando essa era a única opção de convivência em decorrência da pandemia, ficamos cada vez mais superficiais e rasos. Todas as pautas ficaram mais efêmeras, descartáveis e perecíveis. Há poucos anos, as pautas políticas duravam alguns meses nas redes sociais; até o ano passado, elas duravam talvez algumas semanas e, atualmente, duram apenas alguns dias (mesmo as pautas mais complexas). Um exemplo de pauta é a influencer que estava entregando bananas e macacos para crianças negras nas ruas. Depois de certo tempo, esse assunto ficou obsoleto, já nem é mais comentado. Imagina o tema inteligência artificial?! Assim como a ciência não está a serviço do bem-estar da população, uma vez que ela é leiloada para quem puder pagar mais, a inteligência artificial foi leiloada para a indústria cultural. A inteligência artificial é um modo de desenvolvimento científico que está a serviço do entretenimento. Lembre-se de todos os sistemas de inteligência artificial e pense “o que encontramos?”. Todos são voltados para a diversão: reprodução da voz, mimetização dos vídeos, produção de imagens que nunca aconteceram e respostas prontas para qualquer assunto. Não estamos desenvolvendo inteligência artificial para salvar a humanidade, para curar doenças ou para acabar com a guerra no mundo. Estamos desenvolvendo inteligência artificial para brincar, para passar tempo de uma forma cada vez mais rasa. Ficou claro para você o nosso nível de alienação profunda? A inteligência artificial é um sistema dependente da indústria cultural e está a serviço do entretenimento, assim a profundidade, a complexidade e a polêmica que tudo isso envolve são esquecidas entre um meme e outro, entre uma diversão e outra. Nem chegamos a imaginar que existam esferas mais complexas nesse processo. Vale lembrar que a indústria cultural é um dos principais conceitos da Escola de Frankfurt, desenvolvido principalmente por Theodor Adorno, Horkheimer e Marcuse para mencionar justamente a formação de uma sociedade capitalista que trata a produção da cultura como um produto industrializado. Não temos cultura que reflita conhecimento, sensibilidade, 41 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 humanidade, temos a cultura que vende. O que vende está no mercado, o que não vende não é bom para a cultura. O que consumimos hoje é o produto que é vendido. Um exemplo disso é que os conteúdos mais sérios produzidos na internet precisam perder o seu valor para conseguirem alcançar um maior número de vendas, enquanto o conteúdo de diversão, de meme, é o que mais vende e mais engaja o público. ALIENAÇÃO SOB OS MEIOS DE PRODUÇÃO Outra questão ainda mais preocupante diz respeito à nossa ignorância quanto à formação dessa sociedade, pois não entendemos mais como as coisas são feitas. Não sei se você já parou para refletir sobre isso: você deve conhecer alguém – um avô, um tio, uma mãe – que saiba consertar eletrodomésticos, fazer um remendo, endireitar as cadeiras e as mesas da casa, desempenar as madeiras ou que tenha receitas caseiras para as doenças e diversas saídas amadoras para resolver os problemas do cotidiano. As pessoas que adquiriram esses conhecimentos fazem parte de uma época em que se conhecia a forma como as coisas eram feitas. Seu tio sabe consertar o chuveiro, porque ele entende o mecanismo de funcionamento do chuveiro, então, ele é capaz de abrir o chuveiro, ver o que está quebrado e fazê-lo funcionar. Sua mãe consegue consertar as cadeiras de casa que estão mancas, bambas ou desequilibradas, porque ela entende como a cadeira é construída e como as peças das cadeiras são encaixadas. Você tem alguma avó que conhece remédios caseiros para praticamente todos os males vividos por uma pessoa, porque ela de alguma forma sabe como os remédios são fabricados, quais são os princípios ativos, quais plantas ela tem na horta lá no fundo do quintal com princípios ativos semelhantes a um chá, um guento ou uma compressa e, assim, poder aliviar as suas dores ou pelo menos para você chegar um pouco menos dolorido no médico mais tarde. Ela entende os processos e sabe que tipo de dor de cabeça significa cansaço em uma mulher e qual significa gravidez. Ela sabe que tipo de enjoo pode ser um problema de estômago ou um estresse profundo. Enfim, conhece os mecanismos da vida. É uma geração que cresceu assim e com uma matriz de conhecimento muito grande sobre como o mundo funciona, como as máquinas funcionam, como as coisas funcionam. 42 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Entretanto, nós, um pouco mais jovens, não sabemos nada. Não sabemos abrir uma máquina nem como ela funciona, não sabemos trocar um fio caso ele se rompa, não entendemos como endireitar um móvel e, se o móvel estiver manco, preferimos trocá-lo. Não sabemos quais ervas podem servir para cada caso, achamos que tudo é mato e confiamos unicamente na indústria farmacêutica. Compramos o remédio, porque na caixa está escrito que é para beber para este ou para aquele caso. Inclusive, nos alimentos, não fazemos ideia do que tem dentro de um pacote de salgadinho ou de um enlatado nem como esse alimento foi preparado ou quais materiais foram inseridos nele. Todo esse desconhecimento é culpa de quem? Do processo de industrialização. Quanto mais industrializada uma sociedade, menos ela tem contato com os meios de produção. Nós não convivemos com o processo. Mesmo que nós trabalhemos em uma fábrica, oficina ou laboratório, não vemos o processo todo. Se você trabalha em uma fábrica, empacotando, você não vê como o produto é feito. Se você trabalha na produção, você vai fazer o ingrediente, não participará do processo todo. Portanto, não vemos mais como as coisas são feitas, não participamos da linha de produção, não participamos da dinâmica de industrialização. A indústria se desenvolve e nós ficamos afastados, como consumidores alienados. Consumimos o que nos mandam consumir, não sabemos como as coisas são feitas, para que elas são feitas, de que forma elas geram impacto em nós ou não. Se pensarmos em uma questão de alto nível de complexidade, como a inteligência artificial, não sabemos como isso é feito. Você tem noção de como ela é construída? Se você passar os próximos 10 anos em uma faculdade, talvez ainda não saiba como responder a isso. O que está envolvido? Em que coisas do cotidiano utilizamos a inteligência artificial? No telefone, na rede 43 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 social, na televisão, no chuveiro? Onde está mecanizado? Que preço estamos pagando? Porque não consumimosnada de graça. Se você tem acesso a algo, você está pagando. Você está entregando informações pessoais, está alimentando os bancos de dados. O pagamento é o tempo que você está conectado e você tem acesso à publicidade? É o consumo de publicidade? O que você está pagando? (Você só não sabe que está pagando). Como isso está influenciando a sua vida? Isso lê pensamento, lê as mensagens do seu WhatsApp, busca suas informações? Até que ponto você está nas mãos de quem desenvolve esse sistema? Você já percebeu que você não sabe nada disso? Portanto, vivemos hoje uma contradição muito grande. Sabemos mexer nas máquinas, pois elas desenvolvem uma dinâmica bastante intuitiva. Até uma criança sabe mexer em um celular. Entretanto, ela não sabe, aliás, nenhum de nós sabemos (os mais velhos ou os mais novos), o que está envolvido nisso, como isso realmente opera. Talvez as gerações pré-digitais que frequentaram as escolas de informática tenham acessado mais essas informações do que as gerações de hoje com os smartphones. Havia aulas de hardware, software, montagem e desmontagem de computador. Entendia-se o que era um computador, existia curso para entender sobre a programação. Hoje em dia quase ninguém sabe sobre esses aspectos. Usa-se o sistema intuitivamente, mas não se sabe como ele é feito nem o impacto que ele produzirá. Compreendeu? A 4ª Revolução Industrial acontece independentemente de nós. Ela está acontecendo a todo instante: vemos algo bonito e compramos, mas não fazemos a mínima ideia do que a inteligência artificial significa, o que ela é, que preço estamos pagando, o que estamos entregando, como isso impactará a nossa vida, se é bom ou é ruim. Talvez no princípio do processo da industrialização as pessoas soubessem um pouco mais e interferissem um pouco mais. Revoluções Industriais. 44 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Quanto mais a industrialização avança, mais afastados ficamos do processo, logo, ficamos menos participativos e com menos domínio. Não adianta pensar “Vamos procurar essas informações”, porque não vamos. Vamos continuar nas redes sociais. Não tentaremos entender nem deixar de consumir até porque a ordem da indústria é que consumamos. O sistema é feito para nos convencer, ele seleciona o que gostamos. O algoritmo (sistema de inteligência artificial) nos manda conteúdo sobre o que mais gostamos e dentro do qual permanecemos mais tempo. Ele considera não só o que curtimos, mas o tempo que permanecemos vendo cada material, o tempo que paramos em um post ou em um reel. Isso direciona o conteúdo que vão nos mandar. Quanto mais conteúdo recebemos (conteúdo dos quais gostamos), mais tempo passamos conectados e menos percebemos o quão alienados estamos e o quanto isso nos manipula. Quem discorre sobre alienação nos meios de produção é Karl Marx, que destaca o início desse fenômeno, e Émile Durkheim. Os dois trataram desse ponto: como as linhas de produção nos alienam do processo. Karl Marx e Émile Durkheim. Nas sociedades pré-industriais, o carpinteiro tinha contato com todas as etapas. Ele ia até a floresta, cortava a madeira, tratava a madeira, cortava todas as peças e compunha a cadeira. Ele conhecia desde a matriz da matéria bruta até o produto finalizado, ou seja, ele tinha o domínio sobre toda a linha de produção e o entendimento claro sobre o produto, a natureza da madeira e a durabilidade. O carpinteiro sabia de onde a madeira vinha, que impacto ambiental geraria se ela fosse cortada, como faria para que ela fosse cortada e produzisse mais depois, qual seria a melhor maneira de cortar sem acabar com o espaço natural, onde encontraria mais depois, 45 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 quais madeiras eram mais indicadas para os ambientes úmidos, secos, ensolarados ou sombreados. Ele tinha o conhecimento real do processo. Assim, o carpinteiro conseguia produzir uma vida um pouco mais consciente em relação àquilo que ele estava fazendo. Hoje, não existe mais isso. O que você sabe sobre a cadeira? Nada! E o carpinteiro não tem mais conhecimento das etapas de produção. Ele não sabe se o trabalho dele é produtivo, se está gerando impactos bons ou ruins, se isso está ajudando as pessoas ou não. Sem contar que a remuneração que ele recebe por cortar a madeira não chega nem perto do valor ao qual ela é vendida. Boa parte da nossa ignorância diz respeito ao fato de não conhecermos como as coisas são feitas. Se não conhecemos os processos, não conseguimos julgar o produto. INELASTICIDADE ESTATAL A sociedade consegue se expandir em todas as áreas, logo, está evoluindo. Em contrapartida, o Estado e as instituições que compõem o regimento legal, institucional, político e econômico não estão evoluindo junto para dar conta de controlar, orientar e proteger a integridade física das pessoas e fazer com que vivamos dentro de um modelo democrático cidadão. 46 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Um exemplo disso é o caos que vivenciamos na saúde. As realidades se transformam com o tempo e o adoecimento da população torna-se mais complexo, descobrimos esferas do corpo e do entendimento da existência humana até então desconhecidas e não temos uma saúde pública que dê conta dessa complexidade. Em termos de segurança pública, descobrimos um rol de crimes e de desequilíbrios inimagináveis antes do processo de urbanização. O Código Penal Brasileiro, por exemplo, originou-se nos anos de 1940 e não prevê a formação de milícias, que é uma das realidades vividas praticamente em todos os espaços urbanos de médio e grande porte. Está vendo? O Estado não evoluiu… A internet e o espaço virtual são realidades cada vez mais presentes no nosso dia a dia e apresentam inúmeros problemas vinculados ao cibercrime, ao discurso de ódio, à produção da violência, à evolução dos discursos totalitaristas, às Fake News e à grande quantidade de desequilíbrios. E o Estado não deu conta dessa temática. Houve um projeto de lei, a PL das Fake News, e você sabe onde ele está agora? Na gaveta. Provavelmente, ela foi escrita em papel. O sistema ainda não evoluiu para o que nós estamos precisando. O projeto de lei não conseguiu acesso, ou votos o bastante, para se tornar lei, para controlar e evitar que o discurso de ódio prolifere ou para evitar que essas inteligências artificiais todas se tornem os nossos algozes e nos destruam enquanto humanidade. A nossa realidade evolui a uma velocidade tão estonteante que mal dá para acompanhar. Enquanto estamos aqui refletindo sobre tudo isso, já existem novidades no que diz respeito à inteligência artificial – novas descobertas, novos modelos de inteligência e mais meia dúzia de redes sociais. No entanto, não temos uma instituição do Estado, um controle governamental, um código de lei que consiga dar conta de tudo isso ou que ao menos consiga 47 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 entender sobre esses temas para nos informar e esclarecer, para controlar o fluxo das informações e para estruturar o próprio Estado de forma que realmente comporte todas as necessidades da sociedade. Durkheim comentava que as instituições eram as maiores coercitivas, maiores do que a sociedade, e controlavam a sociedade. Talvez, na época de Durkheim, porque hoje as instituições nãosão maiores do que nós. Nós somos maiores do que essas instituições faz tempo e elas não conseguem mais nos controlar. Quem controla o conteúdo na internet? Quem controla Fake News? Quem controla a manipulação de imagem, de som e de vídeo? Não tem! Nem a lei sobre direitos autorais nós temos direito. Estão colocando um cantor cantando a música de outro profissional com a voz sintetizada em sistemas de inteligência artificial. Não tem como controlar isso. Como controlar se não tem lei? Não tem um dispositivo institucional que dê conta. Por isso, o Estado é considerado inelástico, pois não deu conta de controlar. Quem deveria estar controlando, nos dando as respostas agora e nos orientando sobre os perigos que as inteligências artificiais representam, de como estamos sendo manipulados, o preço que estamos pagando, é o Estado. Talvez ele saiba menos do que nós. Não é à toa que não conseguiram aprovar um projeto de lei. A que se deve essa inabilidade e inelasticidade? Vou te dar duas razões. Com o que o Estado está preocupado no momento? A primeira preocupação é aumentar as margens de lucro do desenvolvimento econômico do país. Hoje, por exemplo, a maior preocupação é ampliar os Brics, é aumentar o poder de negociação e fazer o real valer mais, vender mais café, vender mais soja, vender mais carga. Vender, vender, vender. Dinheiro é preocupação. Um Estado que não está necessariamente preocupado em trabalhar para as pessoas está preocupado em fazer o mercado desenvolver. 48 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 1ª preocupação: margem de lucro. A segunda preocupação é ganhar as próximas eleições, ou seja, o voto e a perpetuação das chapas políticas. E isso não interessa quem esteja no governo, pois acontece desde Getúlio Vargas (anos 1930), passa por JK (anos 1950), por FHC (anos 1990), por Lula. Todos os governantes e todas as épocas estão sujeitos ao mesmo modelo. 2ª preocupação: voto e perpetuação das chapas políticas. Enquanto nos desenvolvemos em inúmeras searas para o entendimento da humanidade, mantemos o Estado concentrado nas mesmas velhas preocupações: lucrar mais, desenvolver mais o mercado e ganhar carisma o bastante para perpetuar o poder dentro das velhas chapas políticas coronelistas lá de 1889. Não mudou muita coisa de lá para cá, é o mesmo Estado e os mesmos dispositivos Republicanos que nos mantiveram como país em 1889, os mesmos núcleos de poder formados desde os coronelismos. Então, não conseguimos sair ainda desse velho modelo. 49 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Para justificar esse nosso grande interesse pelo lucro, podemos mencionar que somos dependentes do modelo neoliberal, não mais aquele de Adam Smith, que entendia que o Estado deveria estar a serviço das pessoas enquanto o mercado era livre para se desenvolver. Não! É um Estado que funciona de acordo com a dinâmica de mercado. Adam Smith. Se o projeto de lei das Fake News não foi aprovado, é porque há empresas que não permitiram e, obviamente, se o Estado deseja beneficiar essas empresas, não dá mesmo para aprovar esse projeto de lei. As inteligências artificiais estão dependentes da indústria, então, controlá-las não é uma opção, o Estado não vai se interessar nisso, entende? Controlar as informações da rede e os sistemas de inteligência artificial não proporciona evolução para o mercado. É interessante aquilo que vai de alguma forma converter em lucratividade, ou seja, deixar essas empresas trabalhando como quiserem. Esse modelo neoliberal não é o de Adam Smith, mas sim aquele estabelecido no Consenso de Washington em 1989. É bem recente esse olhar sobre a sociedade. O voto faz parte desse modelo democrático carismático que a gente tem e diz respeito à democracia de contentamento, ou seja, os projetos aprovados são os projetos que engajam. Você vê a população preocupada/engajada em controlar a inteligência artificial? Adoramos brincar com ela, então, o governo não vai tirar o nosso brinquedo. Logo, eles farão aquilo que agrada às massas e perpetua o modelo político. O pensamento é “Com o que devemos nos preocupar agora que pode render votos nas próximas eleições? Estamos preocupados com o preço da gasolina, com a viabilidade do churrasco.” Por enquanto, até esquecemos dos assuntos como aborto e armas, não é? Ficou obsoleto. “Não vamos discutir, agora, porque, afinal de contas, se a população não está interessada para converter isso em voto nas próximas eleições, para que discutir? Então, vamos conversar sobre aquilo que o povo quer: carne, gasolina”. 50 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Não há preocupação ou debate político para aquilo que não é de interesse direto das pessoas. O Governo é correspondente ao nosso nível de alienação. Então, inteligência artificial é um dos últimos assuntos que será trazido para o debate no Congresso nos próximos tempos. CONCLUSÃO Todos esses assuntos tratados fazem conexão com um nível maior de esclarecimento para que as pessoas entendam o tipo de “monstro que elas estão alimentando” e possam, inclusive, ter poder de escolha. Por exemplo: quando escrevem nas caixas de doces e chocolates “alto teor de açúcar”, você, pelo menos, está sendo esclarecido de que está consumindo diabete em tablete. A partir do momento em que está esclarecido, o seu poder de escolha é um pouco maior. Da mesma forma que o alerta nos pacotes de cigarro ajudaram um pouquinho a esclarecer sobre os impactos do consumo. Ainda temos problemas com o tabagismo? Temos, mas são problemas infinitamente menores do que foram nos anos de 1990, já que esse esclarecimento pode, de alguma forma, assustar e reduzir o consumo. Exemplos de advertências presentes nas embalagens de cigarro. Então, a partir do momento em que você sabe, você pode evitar e controlar. Esse tema serve não apenas para os jovens que utilizam bastante as redes sociais, mas para a geração pré- digital (tia, avó, mãe), enfim, para todos nós que estamos imersos na 4ª Revolução Industrial. Precisamos saber o que está acontecendo e saber lidar com isso. Precisamos de um sistema de 51 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 alerta que envolva o tipo de impacto que isso vai produzir. Como ainda não sabemos que tipo de impacto isso produzirá, porque ninguém estudou isso a esse nível, seria importante, por exemplo, a criação de uma comissão de pesquisa permanente, de viés tecnológico, para que nós entendamos, de fato, aonde isso vai chegar. Afinal de contas, ninguém sabe. Provavelmente, se pesquisarmos hoje, amanhã já haverá informações novas e continuaremos o processo de busca. Portanto, isso poderia ser feito por meio de uma parceria entre as universidades brasileiras e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação, de modo a obter informações acerca do assunto e trazê-las até nós e, assim, estabelecer um processo de alerta. Não sei exatamente como, mas poderia funcionar de maneira semelhante ao que é feito com a comida, com o tabaco e com qualquer outro produto de consumo. De repente, seria dessa forma: a cada X terabytes de informação vinculados à inteligênciaartificial, a empresa precisaria disponibilizar informações reais e acessíveis a respeito dos impactos disso que está sendo consumido. Assim como você vê no pacote de cigarro “Esse produto causa câncer, causa demência, causa enfisema”, entre outros problemas de saúde que são mencionados. Para a inteligência artificial, também precisamos de alerta. O consumo desse produto envolve o quê? A publicidade dos seus dados pessoais, roubo de informações, manipulação da sua identidade? Você pode ter a sua imagem vazada, suas fotos aplicadas a vídeos de informações que você não autorizou? Isso pode envolver o fim da democracia, o colapso do discurso de ódio, a extinção da humanidade? Nós precisamos saber, precisamos ser educados quanto a isso, precisamos para o agora. Já estamos sendo manipulados há muito tempo, os nossos dados já foram roubados e a nossa saúde mental já se foi. Precisamos começar isso para ontem. Quem sabe assim sejamos menos vítimas e a nossa sobrevivência ainda possa acontecer? 52 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 [TEMA 04]: LITERACIA FAMILIAR INTRODUÇÃO Precisamos tratar sobre literacia familiar, que nada mais é do que o estímulo às práticas diretas ou indiretas de letramento e alfabetismo dentro do núcleo familiar. A proposta emerge agora e se populariza porque o MEC lançou, em agosto de 2020, uma proposta de estímulo a esses processos dentro da estrutura familiar. O projeto se chama “Conta pra mim” e faz parte do Programa Nacional de Alfabetização. FAMÍLIA x ESTADO Desde então, as ideias vinculadas à importância da família no desenvolvimento da leitura, da escrita e do processo de escolarização tem se tornado mais populares, incentivada principalmente pela visão da Catherine Snow, uma pesquisadora de Harvard que tem grande influência sobre esse assunto. 53 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Eu, francamente, estou achando muita graça dessa história, porque, em tese, o projeto ensina às famílias a como lidar com as crianças. Converse com seus filhos, crie atividades para eles em casa, divida as tarefas, faça com que eles contem sobre o dia que tiveram, proponha jogos etc. Estão ensinando as famílias a lidar com os seus filhos. Veja que nós chegamos em um grau de desagregação institucional, que é preciso que o Governo Federal se mobilize para ensinar as famílias a serem famílias. Chegamos ao ponto de uma necessidade de as famílias reconhecerem o seu papel junto à formação dos filhos e, claro, ao processo de escolarização depois, para que as professoras não sejam consideradas as únicas responsáveis pela primeira etapa de formação da criança. A ideia já nasce, no mínimo, debochada dentro da minha visão meio cínica para boa parte dessas questões. Mas, claro, o projeto é lindo. A ideia é maravilhosa e propõe que os pais enxerguem de fato que os filhos existem dentro de casa e que eles não sejam só um peso, um fardo dentro da formação familiar, ou que devam ser despachados para as escolas e colocados sob inteira responsabilidade da instituição de ensino. É um processo que posso traduzir, talvez, como a caverna sob a caverna, se eu retomar aqui a Alegoria de Platão. Já estou resumindo o assunto. Deixa-me explicar melhor, então, para nós conseguirmos nos posicionar diante do tema. Esse nome sofisticado nada mais é do que esse envolvimento da família com as atividades escolares e com o processo de formação de uma criança. Uma literacia que envolve leitura e escrita. A ideia é vincular o mais proximamente a família dos processos de educação, ou seja, a família deve reconhecer que, de fato, ela tem um peso muito grande no processo e condução da formação do indivíduo. 54 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Todos nós temos ciência clara desse processo como forma quase que intuitiva, de que as famílias possuem um poder de influência sobre os processos de alfabetização, compreensão de mundo e tudo o mais, até porque ela é a primeira instituição com a qual a criança tem contato e é a primeira a partir da qual a criança forma a sua visão de mundo. É inevitável que a família vá exercer um papel profundo na determinação de como a criança vai se desenvolver dentro do ambiente escolar, como vai se relacionar com o ambiente e de que forma ela vai evoluir. Nos últimos anos, esse desenvolvimento tem sido catastrófico. No mínimo, vergonhoso. Temos um dos piores desempenhos em termos de letramento, habilidades de leitura e capacitação dentro da realidade escolar. Isso, você deve imaginar, que reflete no desempenho da vida acadêmica dessa pessoa dentro do ambiente universitário e da capacitação profissional. Nós já tivemos aulas aqui sobre analfabetismo funcional e sabemos que ter passado pela escola, não significa necessariamente ter desenvolvido plenamente habilidades de leitura e escrita a ponto de serem capacidades com as quais você pode lidar com o mundo e transformá-lo. A maioria, no máximo, dá conta de juntar uma letrinha com a outra e formar uma palavra, ou seja, a maior parte só tem a leitura da palavra e não alcançou aquilo que Paulo Freire chama de leitura de mundo. Temos uma baixa retenção de leitura e uma ínfima aquisição de livros e materiais que facilitem esse hábito no cenário brasileiro. Embora tenhamos um grande engajamento com as redes sociais, não há engajamento com sistemas escritos formais de gestão de conhecimento. Temos muita insuficiência no desenvolvimento dos níveis básicos de ensino. O próprio Pisa, que avalia principalmente habilidades de leitura, escrita, operações e raciocínio matemáticos qualifica o Brasil em nível 1, o mais baixo de leitura. Temos um sistema de educação centrado na metalíngua, ou seja, ensinos de gramáticas e normas e não necessariamente nos processos de leitura e escrita. 55 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 É por isso que vocês estão por aí sofrendo para aprender essa história de redação, que amargam para poder escrever, que sofrem para elaborar um argumento e juntar uma frase com a outra que faça sentido, porque o processo de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita foram fraquíssimos, pífios ao longo da formação escolar. Há um entendimento por boa parte dos pesquisadores e daqueles que trabalham com a educação que a matriz dessas falhas começa na família. Sinto um cheiro de uma desresponsabilização do Estado e uma tentativa de atribuir a responsabilidade sobre o fracasso do ensino para a família? Sim, sentimos esse cheiro. De fato, temos que considerar que a educação falhou, que está dando errado. Vamos consertar o que está acontecendo na escola? Não, mas vamos colocar como incumbência da família e esperar que ela traga bons resultados para esse cenário. Vemos, em boa parte desse processo, uma roupagem de boas intenções: fazer com que a família se envolva na formação da criança, que entenda as suas necessidades, estimule o seu desenvolvimento. Porém, no frigido dos ovos, vemos a família assumindo a atribuição por algo que o Estado parece não conseguir fazer. 56 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Vamos tentar firmar algumas bases importantes. A família tem sido dada como a instituição mais importante dessa sociedade há nem sei quanto tempo e temos inúmeras matrizes teóricas que fundamentam isso. Posso recorrer,por exemplo, a Durkheim, quando ele menciona a relevância das instituições como formadora e determinante do que o indivíduo se torna, sendo a família a primeira e considerada principal, já que deixa as bases para que o sujeito efetivamente se desenvolva. No cenário brasileiro, a família ocupou a centralidade da moral e da economia aliada à velha formação social. Digo isso, pois temos uma tradição da instituição familiar desde a matriz colonial, isto é, a nossa composição colonial foi, antes de tudo, uma composição familiar. A família, então, foi considerada uma empresa que geria a base de formação dessa sociedade no desenvolvimento econômico. Você pode encontrar muito disso em obras de Gilberto Freire, como “Casa Grande e Senzala” ou “Sobrados e Mucambos”, em que ele descreve a composição social e econômica do país. A família era tida como a matriz de formação de sociedade e, a partir dela, é que todos os outros arranjos sociais seriam entendidos. Não é agora, em agosto de 2020, com o projeto “Conta pra mim” do MEC, que nós entendemos que a família tem relevância na formação do indivíduo. Estamos entendendo que ela é formadora desde que esse país é país. Está na base da composição social do Brasil. Entretanto, o que aconteceu na virada dos tempos para que tivessem que procurar a família para assumir a responsabilidade nesse momento, para estimular a leitura e a criatividade, como a Catherine Snow menciona, para incentivar a narrativa, contar histórias, participar da lista de compras para casa? Por que tivemos que falar sobre isso? 57 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 58 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 O TRABALHO E A ESCRITA Bom, a família tem sofrido o que todas as instituições estão sofrendo hoje, um processo de zumbização. Essa família, que era a instituição mais forte, mantenedora da ordem, da moral, da força e solidez dessa sociedade está perdendo o seu viço. Talvez já tenha perdido. Quando Bauman analisa a ultramodernidade, a Modernidade Líquida, como ele menciona, a força da família vai pelo ralo abaixo. É uma das primeiras instituições que ele acaba analisando dentro de um processo de enfraquecimento. Por que zumbi? Porque está viva. Existe, mas está meio morta e disfuncional. Um zumbi, um morto vivo. E quando esse processo acontece, de fato? Dizer que está zumbi é fácil, mas qual foi o momento? Qual a data que começa esse processo. Posso dizer que a nova distribuição social do trabalho é uma das maiores responsáveis por essa alteração abrupta da estrutura familiar e da relevância da família. Trazendo para o nosso contexto de responsabilidade da família sobre a educação, veja que, a partir das Revoluções Industriais, desde a primeira na Europa do século XVIII e no Brasil do século XX, a família faz e os seus papeis começam a ser brutalmente alterados porque essa matriz de moral, de formação, de solidez e orientação é toda substituída pela matriz do trabalho. Todo o tempo que essa família dispunha para se dedicar aos filhos, a esses valores e ao desenvolvimento cultural, transforma-se em trabalho. Todo o tempo dedicado a vivência em comunidade e nas interações sociais passa a ser o tempo do trabalho. Isso significa que até o tempo da educação passa a ser o tempo do trabalho. Essa nova distribuição social do trabalho impõe cargas horárias muito maiores e coloca os laços econômicos das forças de trabalho como primordiais/ fundamentais. Mas, e a criança? Naquela época, ia para o trabalho também, se você considerar que entre as classes mais pobres até a classe média não havia proteção da criança em relação ao trabalho. Na verdade, o trabalho infantil é uma realidade até agora. 59 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Por que eu acho risível? Por que, para mim, parece um deboche? Porque a história é de a família orientar a criança nos estímulos à leitura, mas o que vemos são muitas vendendo balas nos semáforos. Sejamos realistas quanto aos fatos. Dentro desse processo, não houve uma preocupação com o tempo reservado para a criança. Mais tarde, quando as escolas se tornam públicas e obrigatórias, na falta do tempo e da disposição em ensinar, a criança é entregue à escola. Desde a primeira infância, habita as creches, escolas infantis, depois o ensino regular e acaba se moldando dentro de outras instituições, sendo cada vez menos pela família. Essa nova distribuição social do trabalho altera bastante a relação da criança com a família. Diminui o contato, a possibilidade de ela aprender sobre a vida, sobre narrativas e histórias com os pais. O tempo para jogos, para a convivência em família, para sair para passear e coisas assim acaba não acontecendo com frequência. É um mundo encantado que diz respeito a um outro cenário. Nas ideias da Catherine Snow, nem se precisa de dinheiro para comprar livros. O estímulo à leitura e à escrita dispensa isso, afinal, você estimula uma criança a gostar de história contando histórias. O que ela não leva em consideração, pois talvez em Harvard eles não conheçam tanto sobre isso, é como estamos vendendo tempo. A questão não é sobre ter dinheiro para comprar livro, é sobre ter tempo para lê-los. 60 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Nós estamos dentro de um franco processo de mercadorização do tempo. Não há muito prazo para fazer isso. Vamos ler histórias para crianças, o Governo vai dar o livro. No projeto “Conta pra mim” tem kits de livros, mas que horas o pai e a mãe vão tirar dentro de uma crise econômica oriunda da falência do modelo político e da crise sanitária? O pai precisa ter dois trabalhos. A mãe, talvez três. Vão tirar tempo quando para conseguir ter esse processo de gestão dos afetos e diversão em família? Por esse motivo, a ideia não é levada em consideração. Embora Catherine seja uma intelectual respeitadíssima, ela me parece dentro da bolha a que boa parte da pedagogia contemporânea se encontra, de não perceber o cenário em que essas pessoas estão e a forma que elas vivem, para sugerir de que forma deve gerir a formação de uma criança. Vamos dizer que isso representa para nós o principal entrave dessa literacia familiar. A ideia de conjugar educação, afeto, carinho e espaço familiar é bonita, mas na prática o tempo está vendido. Tem uma distopia fantástica no cinema sobre isso de vendermos o tempo de vida. Não é uma produção antiga, é recente. Não temos o prazo registrado no braço, como aparece no filme “O Preço do Amanhã”, mas temos o prazo registrado na carteira de trabalho, em contratos. É preciso cumprir. Nós já vendemos a nossa alma para o mercado e esses espaços acabam sendo muito mais difíceis de gerir dentro do tempo mercadorizado oriundo desses processos. UBERIZAÇÃO Você pode considerar o agravamento de todo esse cenário pela uberização do trabalho, uma demanda que já discutimos por aqui umas duas ou três vezes. O próprio mercado de trabalho envolve um nível de precarização cada vez maior, que combina exploração, pouco tempo disponível para o descanso e recuperação. É preciso que você venda a maior quantidade tempo possível por salários cada vez mais baixos. Isso, dentro de uma sequência infindável de falências em um efeito dominó, com uma pecinha derrubando a outra todos os dias. A tendência é que os salários estejam cada vez mais baixos, o nível de vida cada vez mais alto e, claro, o tempo para se dedicar às crianças cada vez menor. A preocupação do pai écolocar o arroz com feijão na mesa para a criança não morrer de fome. Se ele opta por dedicar tempo para a formação letrada da criança, como ele vai comprar a comida? Como vai administrar esse tempo? 61 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 A Catherine, assim como os especialistas do MEC, menciona que esse processo de literacia familiar é um dos maiores responsáveis por quebrar o círculo da pobreza, o circuito fechado que conduz a pobreza continuamente, tal como “Morte e vida Severina”, obra do João Cabral de Melo Neto, retrata. Sabe aquele ciclo infindável de pobreza gerando pobreza e mais pobreza? O filho do catador de caranguejo vai ser catador de caranguejo e assim terminamos até a eternidade. É mais ou menos esse circuito. Como você quebra? Para quebrar, o foco não é a criança, mas a família. Quem vai ensinar a família a fazer isso? Quem vai dar tempo de a família fazer isso? Redução de carga horária? Menores tempos de trabalho e salários mais altos? É isso, senhores Governador e Presidente? Não ouvi essa parte. Tem um projeto lindo como um ursinho de pelúcia, mas não tem propostas sobre redução de jornada de trabalho para se dedicar aos filhos em casa. A MORAL E A FAMÍLIA Outra questão que pesa aqui é a realidade que nós chamamos de “pais oligofrênicos”. Se você for professor ou filho de professores com certeza já ouviu falar na história de que quase nunca adianta você tentar dissuadir os pais das verdades que eles sustentam. Esse processo todo de construção moral da família desde a colonização criou uma espécie de sacralidade da família. Devo ter citado isso dentro dos debates sobre home schoolling, educação domiciliar e, bem provável que tenha citado, também, em questões sobre abuso infantil. Bom, não há a possibilidade de você discutir com o pai sobre a forma como ele educa os seus filhos porque vivemos em uma composição de sociedade que sacraliza o papel do pai e da mãe. É como se, ao conceber uma criança, automaticamente os pais já soubessem como gerir a educação desse pequeno abençoado. Não há debate. Não há racionalização. Há uma verdade religiosa e dogmática que impera sobre isso, de forma que os pais oligofrênicos, que não têm a possibilidade de abertura de visão e são fechados em apenas uma concepção, acreditam em uma educação intuitiva. É aquilo que eles ouviram dos próprios pais, a educação que eles mesmos receberam, baseadas nas emoções, instintos e vivência moral. 62 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Você pode associar a sacralidade da família àqueles fatores que citei de Gilberto Freire, da condução da família como instituição maior e coercitiva e com a matriz religiosa da qual somos herdeiros. Você há de convir que, desde as missões dos jesuítas, essa matriz religiosa coloca a família intuitiva como a base maior e inquestionável. Um tabu sobre o qual você não pode gerar nenhum tipo de polêmica. Do contrário, você está destruindo a moral e os bons costumes. Não se pode tratar de variáveis pois é uma verdade apregoada. Isso é um problema muito grande porque os tempos mudaram, a condição dessa família mudou e porque nós estamos dentro de um estado laico, cujas normas não são mais subordinadas a essa velha matriz religiosa. E a matriz cristã, mais precisamente a católica, que fundou esse país nas missões jesuítas do século XVI, já não é a mesma que existe hoje. A própria visão da religiosidade, principalmente no catolicismo que nos fundou, já é outra. Entretanto, sacralizou a família de modo que não se discute. Uma coisa é você ter a boa vontade linda de fazer cartinhas para orientar o papai e a mamãe como criar filhos, outra é os pais aceitarem isso, internalizarem esse valor e, de fato, alterar o jeito de conduzir a vida em família. 63 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 A INFLUÊNCIA DA INTERNET Outra questão que não veio dentro do debate do projeto do MEC e não vem nos debates da Catherine Snow (eu já estou desfiando essa mulher, coitada) é a condução do espaço virtual para a infância e adolescência. Como vamos conduzir a questão da cibercultura e do ciberespaço, componentes vitais hoje para as gerações Z e alfa? Dos mais novinhos, ou seja, da infância e da adolescência? Dentro do projeto, há algumas menções, como afastar as crianças dos jogos, das redes sociais, do processo vinculado ao virtual. Você vai brigar com a cultura da criança? Vai afrontar a formação do tempo dela? Eu quero ver tentar. Desafio o pai que corte a internet em casa por uma hora por dia para estabelecer o horário da leitura. Não há uma tentativa de conciliação da cultura contemporânea cibernética. Há uma total negligência com esse formato de vida contemporânea na tentativa de impor outro código de comportamento ou de criar outro nível de laço social. É inevitável que as gerações Z e alfa, nascidas dentro da 4ª Revolução Industrial, estão imersas nessa formação cultural. É condicionada no ambiente escolar, no contato com outras crianças e, claro, no próprio contato em família, já que esses pais “sagrados” também estão com os telefones nas mãos 24 horas por dia, acompanhando notícias no WhatsApp, postando porcaria nas redes sociais o tempo todo, envolvidos nas tretas de internet como todo mundo. Claro que os filhos acompanham, afinal eles refletem o comportamento dos pais. A educação pelo exemplo é mais forte do que qualquer outro formato de educação. O projeto não leva isso em consideração, mas como você cria uma rotina vinculada a isso? Tudo o que compõe a literacia familiar em termos de convivência, de diálogo, de estímulo a narrativas, jogos e pensamentos científicos não combina com a forma como essa cultura cibernética contemporânea é vivida. 64 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Nós já tivemos uma mega aula sobre cibercultura e outra sobre infância e tecnologia. Provavelmente você deve ter visto e, se não viu, aconselho a assistir. E o que nós tratamos nesse processo? Primeiro, essa cultura cibernética envolve uma superoferta de presença, ou seja, o espaço virtual oferece à criança tudo o que ela quer, tudo o que a agrade, na melhor versão que ela precisar. Ela é o reizinho e todos fazem a vontade dela: os youtubers, influencers e todas as redes as quais ela tem acesso. Como você impõe a uma criança algo que não faz parte do convívio dela? Algo que ela não gosta e não foi acostumada? Ela simplesmente se fecha para o processo. Ou você cria uma literacia familiar que consiga conviver com o virtual, que parta do virtual, ou você não consegue a adesão da criança. E não adianta impor porque esse tipo de norma de “ou você faz ou apanha” não funciona na formação do século XXI. Se você tiver crianças em casa, sabe do que eu estou dizendo. Da mesma forma, vivemos nesse cenário virtual com uma nova gestão da informação, quando surge de uma maneira muito mais rápida, veloz e, aqui, vinculada ao hipertexto, à simultaneidade de informação. Como propor um ritmo linear e não simultâneo do que você tem em termos de leitura ou de habilidades de escrita sem chocar? Equilibrando? Você também tem uma perda muito grande de qualquer processo que envolva narrativa, principalmente a narrativa da intimidade. A criança não sabe mais tratar de si mesma fora do espaço virtual. Essa é a sua nova realidade. Como se equilibra isso com o estímulo a narrativa? Com o contar histórias? Ela conta história para postar nas redes. A gestão da vida dela acontece pelo filtro virtual e brigar comisso não traz resultados. Essa cultura cibernética envolve uma redução expressiva do estabelecimento dos laços, inclusive familiares. Quantas vezes você está em família e estão todos calados, cada um no seu telefone alimentando suas redes sociais? Como você quebra essa formação cultural que não é só da criança, mas da família inteira? Eu já falei muitas vezes que esse processo histórico lançado pela 4ª Revolução Industrial, dentro de uma nova cultura, como Pierre Levy aponta, ainda não foi absorvido por nós. Não sabemos lidar com isso, mas te garanto que afrontar é muito pior do que tentar conciliar. 65 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 FAMÍLIA x ESCOLA Além disso, dentro dessa percepção de família, inclusive da oligofrenia e teimosia dos pais, vivemos uma visão polarizada sobre a educação, alimentada pelo mesmo Governo Federal, que propõe o projeto “Conta pra mim”. Esta visão polarizada é sobre a educação formal, ou seja, ou você tem os grupos extremados, geralmente da extrema direita, como os que elegeram a última chapa de governo, que nega por completo a importância da escola, a relevância do professor e das teorias levantadas em sala de aula. Boa parte desse negacionismo geralmente envolve a adesão à ideia de que a educação deva ser administrada exclusivamente em casa (homeschooling). Ou você tem um outro extremismo da imensa negligência familiar, dos pais que simplesmente desovam o filho na escola e nem aparecem nas reuniões para pegar notas, discutir sobre o desempenho da criança ou qualquer coisa parecida. Isso já é um fato culturalmente consumado, inclusive, é resultado da dinâmica do trabalho como discutimos a pouco. O negacionismo, por sua vez, é fruto da revolução do cenário da Pós- Verdade, que faz parte da contemporaneidade, da revisão do conhecimento científico. Como você propõe um projeto como esse da literacia familiar, cuja base é a parceria entre a escola e a família, se há um volume cada vez maior de famílias que questionam e querem derrubar abruptamente o que a escola faz? Que não concorda e ainda desautoriza o professor? Que não considera que o trabalho do professor seja eficaz? 66 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 O projeto é para ser combinado. É para a criança chegar em casa depois da escola e discutir com os pais o que aprendeu lá, como tem se desenvolvido. Como fazer isso se a família nega o que a escola faz? Consegue compreender que vai gerar mais choque do que adesão? Estamos vivendo um momento em que escola e família não estão alinhadas nos mesmos interesses. Estão completamente desacordadas, considerando que há uma tendência cada vez maior de negacionismo no país e de refutação do conhecimento formal e científico. Como se gera parceria assim? Não adianta dizer que isso é papel da escola porque ela não tem força para isso. Está sucateada. É outro zumbi dentro desse processo. Essa visão polarizada no cenário de pós-verdade tem sido outro desafio imenso para essa parceria família-escola que estão sugerindo dentro do projeto. Se esse Governo Federal e o atual Ministério da Educação querem gerar uma colaboração das famílias com as escolas, eles precisam respeitar os professores, valorizar o seu trabalho. Precisam deixar de dizer que os professores estão à toa e não querem trabalhar. Precisam aumentar os salários e gerar compatibilidade legal com as carreiras docentes no cenário brasileiro. Precisam parar de afrontar o conhecimento científico ou o desenvolvimento das universidades para que aqueles que acompanham o atual governo e que foram a maioria nas eleições (provavelmente ainda são) consigam efetivamente trabalhar junto com a escola em cooperação, afinal, como estabelecer isso com uma instituição que você detona? Não funciona. Além da visão polarizada da família em relação à educação formal, ainda convivemos com um processo dúbio em relação às escolas. Que dubiedade é essa? 67 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Por um lado, temos o processo que estou dizendo sobre o sucateamento e ataque do ensino. A educação formal tem sido atacada pelo Governo Federal todos os dias e você nem precisa ser a favor ou contra essa chapa de governo para detectar isso. As notícias estão espalhadas por toda a parte. Da mesma maneira que não há recursos nem infraestrutura suficiente para escolas particulares e principalmente públicas se manterem de pé. Falta a matriz física de estrutura escolar, investimento, tecnologia e tudo o mais, assim como falta treinamento de boa parte dos profissionais e adequação do planejamento para atender as necessidades do ensino. O processo anda bem falho e já falamos sobre o processo do desmonte da educação algumas vezes. Parece que essa discussão engloba quase tudo o que já falei. Por outro lado, caso você esteja dentro de uma escola particular, sabe que ela se tornou um empreendimento de mercado, que não está lá muito interessada ou focada no desenvolvimento educacional. Está preocupada com as suas marcas financeiras e com a competitividade no mercado. Também não combina com parcerias familiares porque, se é um empreendimento do mercado, vai atender ao que o seu cliente espera. O que esse cliente espera? Que a escola cuide da educação do seu filho, afinal, estamos pagando caro para isso. Paga-se milhões, principalmente nas escolas de elite, para que elas desobriguem os pais da responsabilidade da educação. Como conciliar a família com esse perfil de escola? Você não pode dizer que a escola precisa mudar a postura porque se ela faz isso, perde os seus clientes e vai à falência. Isso vai da educação infantil até o ensino médio, cursinhos e tudo o mais, ou seja, uma escola que serve justamente para sustentar a negligência familiar. 68 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 CONCLUSÃO Como lidar com essa escola que entrou para a lógica neoliberal a que todos nós acabamos nos curvando hora ou outra dentro dessa estrutura de sociedade? Vê a dificuldade? As duas instituições estão com sérios problemas e eu não sei direito se dá para juntar uma com a outra aqui. Se dá para conciliar os interesses ou, de alguma forma, alterar esse hábito intuitivo estabelecido sobre a educação. Eu não sei se você concorda, mas me parece que um projeto como esse da literacia, a partir do Ministério da Educação, é mais uma jogada política mesmo para dizer que a família é muito importante e compor pauta eleitoreira. Não mais do que isso, infelizmente. Precisava ser mais do que isso. Precisava ser uma aliança pelo bem desses meninos que vão virar mão de obra sucateada no futuro, que estão à mercê desses processos de alienação política que nós vivemos, que estão à mercê dessa manipulação que faz parte do jogo de Pós- verdade que nós entramos hoje. Precisava ser diferente, mas me parece que não há condições nesse momento. Não sei se você consegue ser mais otimista do que isso, só não consigo ver, hoje, a conciliação dessas duas instituições nesses abismos sociais quase intransponíveis, nessa fissura ideológica e nessa estrutura que muitos já qualificam como guerra cultural, na oposição do conhecimento formal para essas estruturas todas. Se estiver escrevendo para o Enem e precisar fazer uma competência 5, o processo deve vir com um esclarecimento que essa literacia pode fazer efeito se essas instituições estiverem preparadas para produzir isso. Na verdade, precisamos de um fortalecimento institucional antes de esperar que essas instituiçõescumpram essas funções magnânimas na formação da criança e do adolescente. Nos processos de letramento, de alfabetização, de formação crítica e moral em uma sociedade. Quer envolver a família? Fortaleça a família. Quer envolver a escola? Fortaleça a escola. É preciso um processo que seja de médio a longo prazo. Não é algo para pôr em agosto e resolver até dezembro para as eleições. É demorado, trabalhoso, complexo em torno de uma formação principalmente superestrutural que primeiro conduza a família sobre a importância da escola e que fortaleça a escola em termos de aperfeiçoamento profissional para que consiga lidar com essas realidades. Depois dessa formação superestrutural, é preciso bancar a formação infraestrutural da escola, para que ela esteja preparada para lidar com esses processos e da família para que o pai 69 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 possa ter o prazer de ter tempo para ler com o seu filho, ouvir suas histórias, conversar sobre sua realidade e suas aprendizagens, para contar as histórias de família, para lidar com essa nova época. Talvez deva-se associar o virtual nessa formação para que não precise vir um projeto ingênuo como esse para ensinar como as famílias devem formar crianças para o mundo da escola e do conhecimento. Para que isso seja possível de forma mais autônoma. É preciso um processo de formação assim e ele precisa começar com o fim da oposição do governo às escolas. É uma questão política, não tem como não tocar nesse assunto. É fundamental que isso ocorra para depois pensarmos em um processo de educação de qualidade. É muito mais complexo do que comprar kits de leitura e distribuir nas famílias ou levar na escola. Literacia familiar precisa vir antes com entendimento de qual realidade é vivida no país. Educação não acontece dentro de uma caverna de Platão, mas nas fissuras do mundo real cheio de desarranjos, incômodos e desafios. É preciso lidar com a realidade! 70 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 [TEMA 05]: MILÍCIAS NO BRASIL INTRODUÇÃO Vamos falar sobre milícias na formação da segurança pública e da política brasileira? Ou, em outras palavras, vamos falar da forma patética com que o Estado de direito entregou o controle da segurança pública e praticamente todo o ordenamento político na mão de grupos criminosos, ameaçadores e desarticulados com o bem-estar social? A FORMAÇÃO DO PODER Sim, nós estamos morro abaixo – e eu diria que tem muito morro para descer ainda –, no processo de completa desarticulação do que nós entendemos como legalidade, constitucionalidade ou como uma estrutura de segurança pública amparada em cidadania e, claro, no conceito básico de um contrato social de prosperidade. Vai piorar bastante porque, dentro das próprias engrenagens do Estado, essas milícias já se infiltraram e nós não sabemos exatamente em qual medida. Nós nem sabemos se arrancar essa 71 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 erva daninha da estrutura pode comprometer toda a articulação desse Estado e nos desmoronar para sempre. É uma questão, no mínimo, pesada, complexa e levada, muitas das vezes, com muita ingenuidade e alienação. Para você que dormiu nos últimos anos de formação do poder no Brasil, milícias dizem respeito a grupos que oferecem poder, principalmente de segurança, sem vínculo explícito com o Estado. Sem vínculo declarado, se é que você me entende. Essas forças acabam assumindo o controle da organização da sociedade e começam a impor uma estrutura calcada no medo e não necessariamente na obediência da lei. É uma espécie de cópia malfeita do Estado exercendo controle. Se nós entendêssemos, por exemplo, que a sociedade funciona como um organismo vivo e o Estado, junto com o seu sistema jurídico, compõe o DNA que organiza/ordena essas células sociais para gerar coesão, poderíamos entender que as milícias são um tipo de RNA defeituoso, que não copia a mesma estrutura do DNA original e acaba gerando inúmeras estruturas anômalas neste organismo. Cânceres, que passam a tomar, de certa forma, o controle da organização desse mega corpo social. Sendo assim, essas milícias são espécies de metástases controladas que assumiram ou que estão assumindo, pouco a pouco, o controle. Poderemos, talvez, tentar entender com mais profundidade o funcionamento dessa fita de RNA, mas a dedicação a isso não tem sido muito grande porque sabemos que as entranhas dessa nova estrutura de poder são muito profundas. Precisamos entender o funcionamento disso. 72 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Para você que curte qualquer assunto de segurança pública, essas questões relacionadas à milícia e ao poder paralelo foram tão bem adaptadas para o cinema e para a literatura nos últimos anos, que vale a pena você dar uma olhada. No cinema, a minha obra preferida na análise do processo da evolução dessa dinâmica é o “O Poderoso Chefão”. A obra literária é do Mario Puzo e a adaptação para o cinema é do Francis Coppola. É absurda a forma com que essa produção, tanto literária como cinematográfica, retrata a articulação, tanto interna quanto externa, das milícias. Retrata a formação das máfias nos Estados Unidos, inclusive dentro da Escola de Chicago – que eu vivo citando nas aulas como uma das escolas de sociologia mais importantes do mundo, além de ser uma das produções mais sensíveis para esse campo social. Vale muito a pena assistir. Existem também produções brasileiras, como “Tropa de Elite”, que trouxeram um olhar bastante contundente sobre a brutalidade desse cenário por aqui, entremeado ao narcotráfico, à 73 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 indústria da fome e, claro, à anuência do Estado para que essas estruturas continuem se articulando. O retrato disso já é comum. Por isso, estou dizendo que, caso você não saiba sobre milícias, máfias e poder paralelo, é porque realmente você dormiu nos últimos anos. É um dos assuntos mais intensos no debate de segurança pública. O SURGIMENTO DAS MILÍCIAS Vamos organizar algumas informações. A primeira coisa que precisamos estabelecer: a partir de quando? Bom, a estrutura de um poder paralelo neste formato que estou descrevendo é tão antiga quanto a organização do próprio Estado brasileiro. Nós acompanhamos essa ordem de poder anômalo desde o princípio da nossa formação política. Quando temos registro disso? A própria existência aqui dos donatários nos primeiros anos da política brasileira já era uma representação miliciana, de certa maneira, se você interpretar que os donatários – embora estivessem vinculados ao Estado Português e por isso deveriam traduzir as normas e leis de Portugal por aqui – eram completamente fora do eixo e cada donatário colocava sobre a sua terra uma estrutura de poder, controle, dominação e exploração conforme o que conseguia fazer. E mais, conforme os seus princípios individuais. Ao longo da história, além da formação dos donatários, vimos como os bandeirantes também atuaram dentro de uma estrutura completamente fora do que era a premissa do Estado. Isso quer dizer que, longe dos olhos do governo e da fiscalização, contando que esse país ainda era uma selva (talvez ainda seja), eles acabaram determinando suas posturas e ações conforme o que era interessante para eles e não necessariamente para o bem-estar social. 74 Lic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 As ordenanças ou corpos auxiliares, também vinculados ao poder, acabaram se desenvolvendo como queriam, fora de um governo de Estado copiando as normas de justiça. As ordenanças vinculadas à Guerra do Paraguai, não é? Acredito que você deva ter estudado isso mais do que eu em história. Eu acredito que a relação com a qual eu sou mais simpático nesse processo é o que aconteceu com Lampião, Maria Bonita e toda a estrutura do cangaço no Nordeste do país. Uma história quase romântica de uma nova ordem de poder desvinculada do Estado. Está vendo como a estrutura de um poder paralelo é quase concomitante à própria história do Brasil? Temos convivido com isso há muito tempo com outros nomes e outras designações, mas faz parte da nossa estrutura. 75 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Mais recentemente, marcando os anos 1980/1990, a ação do narcotráfico iniciou um novo capítulo das milícias no Brasil. Provavelmente você deve ter visto uma aula sobre drogas, na qual mencionei como os anos 80 foram poderosos para isso, considerando que as potências andinas exportadoras de drogas abriram uma rota pelo país e, claro, criaram uma estrutura de poder não só por lá, mas aqui também. Na medida em que a exportação evoluía e as potências criaram-se mais fortes, a organização do narcotráfico finca raízes aqui. O que você ouve muitas vezes na TV sobre as milícias nas favelas tem mais associação com esse último recorte da formação brasileira. Hoje, sabemos que o narcotráfico não envolve só o tráfico de drogas sintéticas pesadas. Foi para muito além disso, envolvendo roubo de cargas, tráfico de influência, de armas, isto é, uma série de atividades de mercado. Atualmente, seguir a trilha da droga, do pó, feito um João sem muita noção do que está fazendo, não é muito sensato de acordo com a forma como a Polícia Federal age. Eu tenho pena porque droga, hoje, é um dos últimos interesses do narcotráfico. É óbvio demais. Outras atividades acabam ganhando muito mais relevo e nós sabemos que, dos produtos traficados e contrabandeados no Brasil, droga está quase em último lugar, não sendo um dos principais. Não é à toa que, quando faço aula sobre segurança pública, a primeira coisa que eu cito é que falta inteligência na polícia. Eles não entendem direito como funciona essa estrutura. Estamos convivendo com essas organizações de poder paralelo há muito tempo e, é inevitável que quando 76 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 ele surge é porque o poder oficial, o que chamamos de Estado de direito, não está funcionando muito bem. É uma questão meio que óbvia, quase intuitiva. Se o chefe não manda, outro chefe surge. Kant dizia que toda sociedade é mantida por uma ordem de poder, mas eu nem preciso mencioná-lo para isso, pois qualquer organização básica social tem o entendimento de que, se o oficial não funciona, outro acaba ganhando espaço. Isso significa que uma das principais, ou talvez a causa mor do avanço das milícias no Brasil seja a fragilidade/a debilidade do Estado de Direito, da estrutura de justiça, de segurança pública e do que deveria desenvolver esse poder. A FRAGILIDADE DO ESTADO Por que essa falibilidade do Estado de Direito? Por que ele se deixou reduzir/ debilitar com tanta intensidade? Nós já falamos disso algumas vezes dentro dessa nossa organização e acredito que uma das mais claras e mais importantes seja, evidentemente, a falta de planejamento na gestão de segurança pública e organização social ao longo de praticamente todos os episódios em que forças paralelas surgiram. Inclusive, fazendo um parêntese, se você quiser associar a matriz de Estado de Direito, o que eu já sustentei da Teoria das Janelas Quebradas, funciona com perfeição. Essa teoria sustenta que onde há qualquer sinal de ausência/negligência, isto é, onde há qualquer janela quebrada, a tendência é que o crime se espalhe ou que outras estruturas acabem ampliando essa negligência e o abandono. Quem fala disso é James Wilson, junto com outros teóricos, na Escola de Chicago. É o que fundamenta o poder paralelo surgir a partir da falha do Estado de Direito. 77 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Essa questão sobre planejamento político, estratégico, sobre a dinâmica urbana e de segurança pública, vem muito claro na própria discussão de Sérgio Buarque de Holanda sobre “Amadorismo” no Brasil, em uma obra chamada “O Homem Cordial”, que eu já devo ter citado em inúmeras aulas ao longo dos últimos anos. A análise de Sergio para este livro nasce da análise das capitanias hereditárias por aqui. Na visão dele, houve uma ambição muito grande da gestão do Estado brasileiro. Claro, nos primeiros tempos, Portugal estava empolgadíssimo com a possibilidade de ter uma colônia com dimensões continentais, já que antes estava meio quebrado, pobre e devastado e seria fantástica essa conquista. Uma ambição gigantesca que não veio acompanhada de uma visão estratégica, nesse caso, profissional/ técnica e de recursos para fazer funcionar. Na carência de uma visão especializada e de meios compatíveis, a estrutura desanda e, com isso, outras ordens de poder acabam vigorando. Sim, faltou visão técnica e recursos para sustentar as capitanias hereditárias, para sustentar a estrutura do império avançando pelo interior do país, para sustentar um ambiente 78 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 de guerra com um país semifalido como está até hoje, para sustentar territórios até então desconhecidos e uma força policial débil na região nordestina brasileira e, por fim, para sustentar um avanço urbano gigantesco monstruoso que se dá a partir de uma base de urbanização completamente sem planejamento (principalmente na periferia) e com forças policiais e inteligência policial deficitária. Faltou técnica, faltaram recursos. Isso é um dos principais fundamentos para entender o Estado de Direito. Se você for analisar quem comanda as secretarias de segurança pública, o Ministério da Justiça e as corporações policiais do Brasil, quase sempre ou não são grupos com uma visão técnica apurada para o que é a realidade no poder estabelecido fora dos olhos do Estado ou você vai ver que são instituições que não têm recursos o bastante para conseguir estabelecer a ordem do Estado de Direito. Se você vai analisar, por exemplo, as ordenações policiais no Brasil, de Polícia Federal até a Polícia Militar, você vê a deficiência absurda de recursos. De contingentes policiais até armamentos. Da mesma forma que falta um plano estratégico e um olhar técnico para conseguir lidar com uma realidade tão avançada como a dor poder paralelo. A configuração do narcotráfico é extremamente poderosa e entranhada na estrutura de poder, ainda com a influência do sistema de justiça. Como lidar? 79 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 A FALHA LEGAL Talvez aqui, no atraso desse plano político e estratégico, o que nós possamos realçar com mais precisão é a defasagem legal. As leis brasileiras não entendem direito o que é milícia, como enquadrá-la como atividade criminosa e de que maneira punir essas lideranças ou os braços desses poderes. Para que você tenha uma noção do que eu estou dizendo, o código penal brasileironão tem enquadramento para milícia. Tem enquadramento para formação de quadrilha, o que não tem nada a ver com a formação miliciana. Formação de quadrilha é uma reunião para uma atividade criminosa ou para atividades criminosas específicas. Aqui, nós estamos falando de uma rede de poder de controle social. De controlar regiões inteiras e estabelecer uma nova ordem de Estado. O Código Penal é dos anos 1940 e, na época, as atividades milicianas já tinham ficado mais controladas ou, podemos dizer, locais. Ainda não era uma realidade nacional como é hoje. Além disso, a atividade do narcotráfico nem era sonho no Brasil, não se imaginava que chegaria a esse ponto. A realidade mudou, o contexto é outro e não veio um planejamento político estratégico para linkar com isso. Não vieram especialistas para tentar alterar a estrutura de justiça, para aperfeiçoar a investigação, o circuito do dinheiro (investigamos dinheiro, mas não investigamos drogas) ou para mudar os recursos dessa estrutura. A gente tem uma lei dos anos 1940 para lidar com problemas do século XXI. Olha que absurdo. Tanto o penal quanto o processual penal são extremamente defasados. Você já deve ter me ouvido falar disso. É uma das chagas mais severas do nosso corpo social e que está longe de ser curada. Atualizar a legislação é um processo demorado, você deve imaginar. Nós sabemos que hoje as políticas públicas estão mais focadas em conseguir votos. Em produzir propostas que tragam votos como reduzir a idade penal, punir aborto, criminalizar maconha e outras besteiras. Isso dá voto e são propostas que se decidem da noite para o dia. Enquanto isso, o mais urgente, que é refazer o penal e o processual penal para lidar com a complexidade desses contextos, para insuflar recursos no sistema de justiça e policiamento, não acontece. As janelas continuam quebradas e os vândalos continuam ocupando. Perigoso isso. Talvez você pense: não é interesse da população brigar contra? Você está dizendo que o povo quer isso? Que as outras discussões são mais populares do que acabar com a milícia? E as pessoas que sofrem com a milícia nos morros? 80 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Aí é que está. Talvez essa população sofra mais com o Estado de Direito. Talvez a milícia não seja um elemento tão ruim para as pessoas que estão sob a tutela dela. Nós vamos dizer aqui que temos um poder disciplinador, para que eu possa citar Michael Foucault, que combina muito com isso. Uma estrutura de valores, de influência e de controle social muito mais profunda do que simplesmente traficar drogas, armas ou coisas do tipo. Como eu estou dizendo, a milícia é muito mais do que uma atividade criminosa. Quer dizer que eu estou dizendo que, para muitas regiões o crime compensa? Sim, é isso. O crime compensa neste país. Estamos vivendo uma inversão de valores abrupta e o Estado não compensa. Obedecer às leis tem compensado cada vez menos. O que a milícia oferece para quem está sob a sua tutela? Hoje, a milícia representa um circuito de proteção gigantesco para as pessoas que vivem sob o seu amparo. Proteção em que sentido? O miliciano ajuda na questão de comida na mesa das famílias que estão com dificuldades financeiras, protege as famílias que estão sob a guarda deles, ajuda a conseguir emprego para quem não tem, cuida da conservação comunitária em ruas, praças e de manter um ambiente organizado, evita badernas etc. Você está vendo o que estou dizendo? A milícia assume as funções do Estado. Muitas das vezes, ela faz pelas pessoas nas regiões de favela o que o Estado não faz. Este não chega com emprego e não tem apresentado muita assistência. A milícia chega. Entende que, para uma população denunciar fica mais difícil? Entende que, para as pessoas sob proteção da milícia, não vai haver possibilidade de contar onde está o chefe? Isso pode representar a perda de diversos privilégios, a perda de perspectiva de vida. 81 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Nós temos aqui um poder disciplinador no sentido de criar uma ordem social alinhada a um novo código de conduta. Vamos dizer então que, a partir desse laço social, a milícia faz um novo contrato social, já que o contrato de direito não é mais executado. Qual é o contrato de direito? A Constituição Federal de 1988. Foi a partir desse documento e dos poderes constituídos dentro dele, como cidadania, dignidade, segurança, educação, saúde, trabalho que ficou definido que tudo seria garantido pelo Estado. Se este contrato é rompido e não é mais bilateral, se não é mais garantido pelo Estado, por que as pessoas ainda vão se segurar dentro da lei e da ordem? Um contrato rompido produz novos contratos, ou seja, a milícia traz para as regiões onde atua uma nova ordem de poder que assegura o que o Estado não tem feito. Isso, sem contar um controle pela força, que é bastante convincente. Um misto de força com um laço afetivo porque ali existe uma dimensão de condução e comoção muito frequente. Isso garante que as pessoas se tornem mais aliadas ao que é julgado como crime do que aliadas de um Estado corrupto, ausente e que não cumpre a legislação que prometeu cumprir. Entre um Estado hipócrita e degenerado e uma estrutura miliciana presente que sustenta as necessidades de um povo, as milícias têm ganhado cada vez mais afeição E aí, você vê a ingenuidade das forças policiais querendo invadir o morro, querendo combater uma organização tão complexa de poder como essa com as poucas armas que têm, tão frágeis se comparadas com as do narcotráfico. É um poder que vem de uma construção de um novo ordenamento moral, um novo contrato político e uma nova relação afetiva. Isso quer dizer que, dentro da construção miliciana, existe a retomada de uma solidariedade mecânica, algo que estava perdido dentro da estrutura contemporânea, porém dessa vez mais vinculada à ordem por respeito e por noção de autoridade, por ameaça e por medos que acabam dando mais resultados do que dos laços econômicos brutais e secos como vivemos nos últimos tempos. 82 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Essa força e esse afeto têm uma dimensão de paternalismo muito grande, assim como esse laço social. Isso é grave. Assegura e mantém com muito mais intensidade do que as nossas mentiras políticas contadas todos os dias. Bacurau, uma das obras cinematográficas de mais expressividade deste último ano, retrata bem isso. Como esses laços são muito mais fortes e como o Estado realmente abre precedente para isso. O Estado acaba se tornando culpado por negligência. Para essa população, a formação miliciana é heroica. Percebe como você está lidando com uma nova rede de valores? Não é só um novo contrato social, é uma nova rede, uma nova estrutura, um novo arcabouço moral. Aqui se assemelha ao que temos dos super-heróis. Vamos pegar a Liga da Justiça, que eu gostava na minha infância, Os Vingadores eu nem sei quem são. Numa estrutura de Super-Homem, Batman, Mulher Maravilha, Flash e cia limitada, você tem visivelmente um Estado falho que não consegue cumprir com as suas funções dentro da norma social prometida e constituída. As cidades onde esses heróis vivem estão perdidas e entregues ao descontrole, ao abandono, ao medo, ao pânico, ao completo descaso. Pessoas como uma possibilidade real de controle, com a possibilidade de estabelecer um novo contrato social e novos laços afetivos com a população assumem o poder. O Senhor Batman assume o poder de Gotham. O Super Homem assume o poder de sua cidade. Até o ponto que o poder deles cresce tanto que se torna transfronteiriço e eles passamvocê vai aprender a analisar a contemporaneidade com olhos críticos, questionadores, para conseguir construir reflexões profundas e, assim, gabaritar a redação! Mais especificamente, abordaremos o contexto da chamada “crise da razão iluminista” e problematizaremos as transformações nas relações sociais desde a modernidade. 📚 Vamos nessa? Bora lá ESCOLA DE FRANKFURT – ADORNO E HORKHEIMER Vinculada ao Instituto para Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, na Alemanha, a chamada Escola de Frankfurt fez emergir nomes fundamentais para as discussões em Ciências Humanas da modernidade. Entre eles, estão Theodor Adorno, Max Horkheimer, Walter Benjamin, Herbert Marcuse, Jürgen Habermas e Erich Fromm, que eram, em sua maioria, filósofos e/ou sociólogos. Embora o instituto tenha sido criado em 1923, a produção intelectual desses autores começa a ganhar força entre as década de 50 e 60, com duras críticas à chamada Teoria Tradicional do conhecimento (ou Iluminismo), de base cientificista e positivista. Por isso, a escola é reconhecida, pelas Ciências Sociais, como fundadora da Teoria Crítica, a partir da qual se olha para a sociedade de forma analítica e problematizadora, buscando compreender o desenvolvimento da sociedade capitalista do século 20 e, assim, questionar alguns de seus aspectos. 7 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Nesse sentido, essas reflexões se fazem presentes até hoje, tendo em vista que nossa realidade contemporânea é um desdobramento dessa sociedade, com seus traços e seus obstáculos acentuados. 💡 A Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, portanto, é um repertório que muito nos ajuda a propor reflexões profundas em torno de questões sociais, culturais e políticas que atravessam a vida moderna: por exemplo, as relações entre produção de conhecimento, veículos de comunicação e consumo, sociabilidade e tecnologia, arte e capitalismo etc. É justamente por essa razão que te apresento conceitos e citações que vão te ajudar a gabaritar a redação! 💥 São conceitos centrais ao pensamento da Escola de Frankfurt a “Indústria Cultural” e a “cultura de massa”. Essas duas noções se articulam entre si e se vinculam a um ponto de vista crítico dos grandes veículos de comunicação capitalistas. Esses conceitos foram concebidos, principalmente, por Theodor Adorno e Max Horkheimer, no livro Dialética do Esclarecimento, publicado em 1947. A obra tem como foco central reflexões em torno do circuito de produção e circulação de arte e entretenimento na sociedade capitalista. Lá dentro do nosso Método Brabo há um aprofundamento muito bacana sobre isso, mas vou tentar resumir por aqui! Atenção!🚨 O conceito de Indústria Cultural designa o processo de transformação dos bens culturais em mercadorias de fácil consumo. Em outras palavras, trata-se da ideia de que nossa produção cultural teria sido absorvida pela lógica da produtividade industrial de mercadorias, possibilitando que o imaginário coletivo pudesse progressivamente ser homogeneizado. Aos produtos frutos dessa produção massificada, deram o nome de cultura de massa. Nesse sentido, a produção e o consumo da arte, da cultura e do entretenimento em larga escala acarretariam, segundo os autores, na padronização, na homogeneização, do pensamento, que visa a manipulação da percepção das pessoas. Assim, estariam a serviço não apenas do lucro, mas sobretudo da busca pelo conformismo social, pois, desse modo, é possível atuar a favor da manutenção do poder vigente. ☝ 8 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 ⚠ Ou seja, a Indústria Cultural, por meio da cultura de massa, seria uma ferramenta para inserir no imaginário popular necessidades, perspectivas e desejos que, na verdade, servem à manipulação ou à alienação dos sujeitos. Com isso, incide diretamente a favor do enfraquecimento do senso de coletividade, da reflexão crítica e da capacidade de insubmissão popular. Para facilitar a sua vida, além desse fundamento teórico, é claro que também vou disponibilizar, a seguir, algumas citações, que você pode usar e abusar em redações cuja proposta temática gire em torno de assuntos como uso da redes sociais, papel das grandes mídias, democracia, consumo, relações interpessoais na contemporaneidade, desafios para a educação, entre tantos outros! 🤝 São citações que sintetizam as reflexões de Adorno e Horkheimer: • “O consumidor não é soberano, como a indústria cultural quer fazer crer; não é o seu sujeito, mas o seu objeto” (Theodor Adorno, em Indústria Cultural e Sociedade). • “A indústria cultural perfidamente realizou o homem como ser genérico. Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir [...]” (Theodor Adorno, em Indústria Cultural e Sociedade). • “Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra. Na base do divertimento planta-se a impotência. É, de fato, fuga [...] do último grão de resistência que a realidade ainda pode haver deixado. A libertação prometida pelo entretenimento é a do pensamento como negação.” (Theodor Adorno, em Indústria Cultural e Sociedade). • “O consumidor não é soberano, como a indústria cultural quer fazer crer; não é o seu sujeito, mas o seu objeto” (Theodor Adorno, em Indústria Cultural e sociedade). • “A indústria cultural perfidamente realizou o homem como ser genérico. Cada um é apenas aquilo que qualquer outro pode substituir [...]” (Theodor Adorno, em Indústria Cultural e Sociedade). • “Divertir-se significa que não devemos pensar, que devemos esquecer a dor, mesmo onde ela se mostra. Na base do divertimento planta-se a impotência. É, de fato, fuga [...] do último grão de resistência que a realidade ainda pode haver deixado. A libertação prometida pelo entretenimento é a do pensamento como negação.” (Theodor Adorno, em Indústria Cultural e Sociedade). • “A cultura se tornou um objeto de indústria que, na sua forma mais extrema – a indústria cultural – também se apropriou do espírito e quer controla-lo” (Theodor Adorno e Max Horkheimer, em Dialética do esclarecimento). 9 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 • “O poder magnético que sobre os homens exercem as ideologias, embora já se lhes tenham tornado decrépitas, explica-se, para lá da psicologia, pelo derrube objetivamente determinado da evidência lógica como tal. Chegou-se ao ponto em que a mentira soa como verdade, e a verdade como mentira. Cada expressão, cada notícia e cada pensamento estão performados pelos centros da indústria cultural” (Theodor Adorno, em Mínima Moralia). • “O que antes os filósofos chamavam de vida foi reduzido à esfera do privado e logo do puro e simples consumo, que já não é mais do que um apêndice do processo material de produção econômica, sem autonomia e substâncias próprias” (Theodor Adorno, em Mínima Moralia). 🤓 Se você ficou com vontade de conhecer mais o pensamento da Escola de Frankfurt, deixo aqui uma lista de títulos relevantes: • A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, de Walter Benjamin (1936) • Dialética do Esclarecimento, de Theodor Adorno e Max Horkheimer (1944) • Eclipse da Razão, de Max Horkheimer (1947) • Indústria Cultural e Sociedade, de Theodor Adorno (1947-1969) • Minima Moralia, de Theodor Adorno (1951) • O Homem Unidimensional: estudos da ideologia da sociedade industrial avançada, de Herbert Marcuse (1964) • Técnica e Ciência como Ideologia, de Jürgen Habermas (1966) • O Discurso Filosófico da Modernidade, de Jürgen Habermas (1985) 10a ter um satélite em órbita para monitorar o planeta inteiro. Enquanto isso, o Estado tenta, promete fazer alguma coisa. A Cadmus está lá pelejando para fazer as sentinelas ou alguma outra coisa como um grupo de apoio para fazer as suas funções. Entretanto, não dá conta, não se atualiza. Você vê na Liga da Justiça a questão sendo tão profunda que até as disputas milicianas e as brigas por poder também aparecem por domínio de território. Há outras milícias querendo tomar conta: a milícia dos vilões. Os que são da Terra, os que invadem. É uma construção perfeita. Aí eu te pergunto, você gosta mais de quem? Do estado débil e fraco que tenta derrubar esses heróis fora da lei? Ou você gosta mais do Batman, do Super Homem e da Mulher Maravilha? Começamos a admirar ao ponto de elegermos um e colocá-lo na Presidência da República. É nessa direção que estamos seguindo. 83 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Tentaram uma tipificação de milicianos para crime em 2012 no Congresso, mas não funcionou muito até agora. Prevê de 4 a 8 anos de reclusão nas cadeias que já são redes de controle muito forte do crime organizado. Tirar esses novo heróis do caminho é sensato, mas você teria coragem de peitar um Super Homem? Ele pode destruir tudo o que ele protege hoje. Você lida com uma parte de força perigosa e não tem Criptonita. Então, quem vai peitar esse povo? A força de inteligência no Brasil não está lá muito apta para isso, não tem lá muita força para isso. Muitas das vezes os próprios milicianos destroem a si mesmos nas disputas por território, mas o Estado é um franguinho só assistindo mesmo. CONCLUSÃO Qual é o nível de saída para essa construção pesada? Dentro da segurança pública, isso passa inevitavelmente por uma revisão do sistema de justiça que seja focada em inteligência. Vivo dizendo isso. Não existe possibilidade de lidar com esse cenário complexo de segurança pública no Brasil sem passar por um sistema real de inteligência, de estudo sobre o que é a formação miliciana brasileira do século XXI. O que ela se tornou, o quão complexa é, quais são os seus domínios, quais são as suas raízes, por onde caminha, qual o lastro do dinheiro que ela deixa, como lidar com isso. Aqui você tem inúmeras instituições que, a partir de um pacto intersetorial, precisam trabalhar para conseguir gerar um olhar mais centrado. Temos o Ministério da Justiça, o Conselho Nacional de Justiça, as Secretarias de Segurança Pública, o Sistema Unificado de Segurança Pública e as formações policiais civil, militar que precisam unidas estudar, compreender e depois agir sobre a realidade. Não adianta descer o pau, não adianta ir com as armas minguadas para o morro. Não adianta achar que vai desmontar uma boca de fumo e vai acabar com a formação do crime organizado Brasil adentro. Você precisa estudar o contexto, saber de onde vem e até onde alcança para entender se é possível vencer, negociar ou de que maneira conviver com isso sem nos afetarmos tanto pelo poder que eles exercem. E eu acredito que esse é o caminho: conviver. Não tem como destruir. 84 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Isso demanda um projeto de longo prazo, reunindo especialistas e se dedicando arduamente a essa tarefa de entender o Brasil, a nossa taxonomia. Saber exatamente o que é esse corpo social e por onde esse RNA mensageiro e distorcido tem copiado estruturas de poder ao longo dos últimos séculos de formação política. Talvez assim possamos ter segurança pública como uma realidade do nosso Estado. 85 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 [TEMA 06]: VIOLÊNCIA NAS ESCOLAS: POR QUE A EDUCAÇÃO SE TORNOU UM CAMPO DE GUERRA? INTRODUÇÃO AO TEMA Precisamos refletir sobre um dos assuntos mais polêmicos e traumáticos deste ano, desta década, talvez até da formação do Brasil Contemporâneo. Refiro-me à frequência da violência nas escolas. Neste momento, não vamos nos limitar a tratar somente dos repetidos ataques terroristas no cenário escolar, vamos ampliar a discussão a todos os níveis de violência que foram institucionalizados de alguma forma: o bullying, que é uma das violências mais silenciosas e devastadoras na escola; a violência com ares de assédio – abuso de professores em relação a alunos e de alunos em relação ao professores; enfim, todos os tipos de violência que, de alguma forma, foram definidos como marca dessa instituição. Um professor sendo ameaçado de violência. 86 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Essas violências foram nomeadas como violência institucionalizada, porque foram incorporadas ao formato da própria instituição. Consegue perceber a gravidade disso? Estamos tratando de uma violência que se torna parte do padrão de comportamento de uma instituição. Os ataques terroristas não são surpresa dentro desse cenário, na verdade, eles são o resultado de violências progressivas e recorrentes que têm proporcionado caos cada vez maiores e mais profundos. Talvez você se lembre da tragédia na escola de Realengo. Nos Estados Unidos, essa lamentável história também se repete recorrentemente no cenário escolar. Portanto, não é novidade, é um problema crônico que tem se alastrado. Vamos aos contextos! MODERNIDADE LÍQUIDA Livro - edição 2021. A estrutura de modernidade líquida é uma estrutura que estabeleceria um padrão sólido de segurança, harmonia, conforto e acolhimento. Entretanto, ela torna-se cada vez mais instável, indefinível e menos compreensível em termos de papel institucional ou de força de controle. 87 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Quando Zygmunt Bauman menciona que vivemos dentro de uma estrutura límpida de sociedade na vida contemporânea, ele se remete justamente a esse processo de ambivalência. O que significa essa ambivalência para Bauman? A inconstância. Não termos mais o princípio de certo e errado, não sabemos definir qual comportamento é certo dentro da escola, como um professor deve se referir aos seus alunos nem que papel o professor desempenha em termos de autoridade e controle no ambiente escolar. Há hierarquias? Qual é a função da hierarquia na administração do poder? Como os alunos devem se comportar nesse ambiente? Os alunos têm papéis tão importantes quanto os dos professores? Qual o papel das outras instituições e o apoio ao funcionamento da escola? Não temos mais segurança, controle nem mesmo definição sobre o que deve ou não ser feito. Por vezes até o professor já não tem mais certeza se o seu papel é educar, orientar e controlar ou se é conduzir os alunos para que eles encontrem as próprias respostas a respeito do conhecimento que precisam produzir ou, ainda, se ele mesmo deve se tornar um tiktoker para fazer graça e os alunos riem. Muitos professores que trabalham e tentam sobreviver no sistema de ensino já não têm muita certeza a respeito do que fazer nem de como lidar com comportamentos (violentos ou não) dentro do cenário escolar. Como reconhecer a violência? Como trabalhar isso? Como cobrar do aluno se ele mesmo mal sabe qual é o papel que ele desempenha? Então, esse momento em que estamos é o de inconstância, pois não conseguimos definir exatamente quais papéis as pessoas e as instituições devem desempenhar. Caminhamos para o que Bauman chama, dentro dessa modernidadelíquida, de instituições zumbi, ou seja, as instituições que deveriam determinar o nosso comportamento, o nosso padrão de vida e o controle da sociedade estão “vivas”, em funcionamento. Existem escolas, por exemplo, existe um sistema de justiça e uma estrutura de segurança pública. Conseguimos encontrar essas instituições. No entanto, a maioria delas já não tem mais muita certeza sobre o que deve ou não fazer, sobre como agir. Elas estão vivas apesar de meio mortas, estão “em decomposição”. Se pensarmos nas escolas, elas estão literalmente em decomposição – algumas apresentam uma estrutura precária em que as paredes estão caindo, o mobiliário está desmanchando, os professores estão passando por problemas como o burnout (alguns mal têm condições de atuar em sala de aula), o suporte pedagógico inexiste, o psicológico, então, nunca apareceu. Realmente é um processo em decomposição. Esse grande zumbi chamado escola já não tem cérebro, já não tem olhos e já não tem pernas que sustentem. Estamos completamente desvalidos nesse processo. 88 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Essa zumbização das instituições tem a ver com a inabilidade delas atuarem dentro das normas ou dos determinados padrões que deveriam ser seguidos. Portanto, estamos falando de um cenário de debilidade profunda e crônica, que evolui e se aprofunda com o tempo de forma desastrosa. Então, como cobrar de uma instituição que ela faça se ela mesma mal sabe o que deve fazer, se ela mal tem recursos para funcionar, se ela nem tem vida mais para funcionar direito? Isso não diz respeito só ao interior da instituição, mas ao que a sociedade também permite que essa instituição faça. A credibilidade da escola caiu muito e a dos professores praticamente acabou, uma vez que não são mais reconhecidos como autoridade, referência intelectual, fonte de disciplina ou representação de algum tipo de poder. Os professores tornaram-se prestadores de serviço descartáveis em que o conhecimento e a informação pedagógica não são sequer lembrados. Então, como é que você espera que uma instituição assim consiga estabelecer padrões de comportamentos saudáveis, não violentos, controlados? Não dá. Por isso, estamos nesse grande Walking Dead educacional, em que nenhum de nós sabe para onde está caminhando e estamos apenas sedentos por cérebros, principalmente, quando há governos que consigam dizer o que devemos fazer ou que estabeleçam políticas públicas ineficazes para lidar com a crise que se arrasta no sistema de educação quase que desde a sua concepção. ATUAÇÃO DOS PAIS NA EDUCAÇÃO Por qual razão alunos chegam às escolas com comportamentos violentos? Os pais estão com a maior responsabilidade sobre os menores de idade – crianças e adolescentes – , então, por qual razão permitem que seus filhos cheguem às escolas dessa forma? O que aconteceu com o controle de comportamento dos pais? Os pais têm obrigação, por lei, de controlar seus filhos e estabelecer um padrão de educação, comportamento, formação social que os coloque de forma minimamente segura em sociedade. Isso significa ter responsabilidade parental e está presente no artigo 229 da Constituição de 1988. Esse artigo prevê que os pais têm a obrigação de dizer para os filhos o que eles devem ou não fazer, de controlar os seus comportamentos, de fazer com que ele não gere problemas a ninguém nem proporcione o caos onde quer que ela esteja, não se envolvendo com atos terroristas nem ataquem as pessoas. 89 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Além da Carta Magna, o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, também responsabiliza os pais no controle de comportamento e na formação da Educação Básica. Portanto, a escola não é a única responsável pela formação de um ente social. A IMPORTÂNCIA DAS INSTITUIÇÕES - DURKHEIM, BAUMAN E FUKUYAMA Quando Durkheim menciona a importância das instituições em uma sociedade, ele aponta que todas as instituições que cercam o indivíduo são maiores e coercitivas, por isso, devem conduzir a forma de vida em sociedade. Sendo assim, uma criança está rodeada de instituições que deveriam, de alguma forma, orientar (família - escola - sistema de segurança - assistência social). Bauman, por sua vez, destaca que a família é a primeira instituição a passar por esse processo de zumbização, ou seja, a perder a referência sobre o certo e o errado. O que um pai deve ser? O que uma mãe deve ser? Como um filho deve existir dentro da família? A maioria das famílias já não sabe exatamente quais papéis sociais cabem a cada um dos integrantes. A maioria dos pais não sabe como controlar o comportamento dos filhos ou de que forma conduzir a educação deles. Além da zumbização, há a ideia de erosão das instituições, como Fukuyama menciona. De fato, é uma expressão muito assertiva, porque é muito literal em relação ao que acontece, é um desgaste progressivo e, como qualquer processo erosivo, você não percebe da noite para o dia. É semelhante às falésias marítimas – um processo de desgaste na rocha em que a sua 90 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 estrutura sólida vai se perdendo grão a grão até virar areia. Assim também é o processo referente à estrutura familiar que era sólida. A areia não tem forma, não tem função, não segura a água e não se estabiliza. A educação em casa é tal qual um castelo de areia construído nessa grande areia que é fruto dessa erosão; a primeira onda leva, a primeira instabilidade leva nessas marés da modernidade líquida; nada segura. Reunindo o que Fukuyama e Bauman explicam, qual seria a origem dessa erosão? Por qual razão a família perdeu essa referência a respeito do que ela deve ser? Vamos pensar: Qual é a sua prioridade hoje? Em relação a sua lista de prioridades na vida, em que lugar está a família? Em que lugar da sua lista de prioridades está o aspecto laços comunitários? Em que lugar da sua lista de prioridades está o cultivo de laços afetivos e familiares? Conseguiu perceber? Está na primeira página da sua lista ou na décima? Talvez na centésima parte tenha lá os dois últimos minutos de domingo dedicados à família e quase sempre é uma convivência familiar em que está todo mundo no celular e ninguém sequer troca um olhar ou uma palavra em termos de profundidade e de laços. POR QUE A FAMÍLIA SAIU DA NOSSA LISTA DE PRIORIDADES? Se compararmos com a geração dos seus avós, a matriz era a família. Chegar à vida adulta significava compor família, ter sucesso na vida significava manter a família estável e próspera, estar finalmente realizado na vida era ver os filhos e os netos se desenvolverem e manter a família por perto, mantendo-se, inclusive, como um imã familiar para manter todos unidos. O que mudou que fez com que nós mal lembremos que temos família para cuidar? Na sua lista de prioridades, provavelmente vem o trabalho, que se torna, na verdade, o protagonista da vida moderna. Não temos mais laços familiares, sociais ou laços religiosos, morais ou afetivos como o princípio da nossa vida. Não. O que dá significado para sua vida hoje? Um vestibular que te prometa uma carreira, um trabalho que te prometa fama ou dinheiro, ou um capital que te traga alguma forma de status e reconhecimento público de sucesso. Terminar a vida com a sensação de sucesso é estar cercado de bens que possam ser a prova de que você produziu em vida. O seu significado de vida não é mais filhos e netos, mas sim produtividade. Hoje, a herança que você deixa não é o seu traço genético distribuído para outras 91 L ic en se d t o R aqu el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 pessoas, mas os bens que você é capaz de comprar, o dinheiro que você é capaz de acumular. Qual é o seu significado de sucesso? Qual é a sua herança? Alteramos abruptamente o circuito das prioridades, não é? Não temos mais prioridade em torno do afeto, mas sim em torno do capital. Então, essa grande mudança nos trouxe para o que Durkheim chama de solidariedade orgânica, ou seja, a sociedade centrada no capital fez com que esquecêssemos por completo a relevância que tem a família. capital X afeto A família, hoje, se divide em dois tempos: do trabalho e o do não trabalho. O tempo do não trabalho é parte do trabalho também. No tempo do trabalho, você está produzindo para que isso seja a marca da sua existência no mundo. No tempo do não trabalho, você está consumindo o produto que outras pessoas trabalharam e está recuperando forças para voltar ao sistema do trabalho, ou seja, você só vive dentro desse ciclo. Em que momento desse ciclo você se abre para a comunidade, para a cultura, para a educação dos filhos, para a elevação espiritual, para a formação de moralidade, para laços comunitários? Não sobra tempo, disposição nem energia. E, se sobrar energia, você prefere esvaziar a cabeça vendo distrações na internet ou assistindo a qualquer filme que seja minimamente divertido. A vida se resumiu a isso para todos nós. 92 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Então, tudo isso fez com que a responsabilidade parental fosse negligenciada, bem como o texto constitucional e o ECA fossem ignorados. Essas instituições perderam suas forças e esperam apenas que as pessoas sejam produtivas. Não importa se a criança é bem comportada, empática, sensível, educada com as pessoas, responsável com suas tarefas, organizada, nem mesmo se essa criança tem cuidado para lidar com as pessoas. Não! Entretanto, importa, por exemplo, se ela passa no vestibular, se ela vai bem em uma prova, se ela traz notas azuis e altas, porque, assim, ela está demonstrando produtividade. A criança também já está imersa no sistema de trabalho, não é? Ela precisa ser produtiva, então, não importa se essa criança é tóxica, insuportável, se ela não tem empatia ou o mínimo de sensibilidade com ninguém. Não importa se essa criança apresenta traços de psicopatia. Não importa. O que importa é que ela tenha produtividade. Assim, ela vira reportagem na televisão e nós aplaudimos a criança que faz provas e passa em diversos vestibulares. Ela se torna um sucesso. Em contrapartida, em relação à sensibilidade, não incentivamos, não destacamos da mesma forma. Até mesmo quando elogiamos o talento artístico de uma criança, não é porque ela se desenvolveu do ponto de vista espiritual, não é por ela ser sensível ou por ela encantar as pessoas. Na verdade, é porque ela vai gerar dinheiro. Ela canta, pinta, representa, ela é uma curiosidade. Assim, os pais exploram a criança e extraem dela toda força vital para que ela produza dinheiro. Dinheiro e trabalho são os únicos elementos que importam, não é? Somos seres produtivos, Homo faber, como diria Hannah Arendt, e a única coisa que importa é produzir. Se a criança é um terrorista destruindo a vida de todo mundo e atacando escolas pouco importa desde que ela tire 10, não é? Essa é uma matriz de discussão pesada e com diversas referências. Hannah Arendt 93 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 LIBERDADE Por que uma criança, mesmo sendo atacada, acaba se tornando tão violenta? O que leva a esse comportamento violento? A criança nasceu assim? O que traz esse fator? O que tem na internet que faz com que essa criança encontre a possibilidade de ser violenta? O que a conduz a esse nível de violência? O que está faltando, de fato, em casa? O que está faltando que pais, escola e segurança pública façam? Bom, o cerne da questão é a forma como nós lidamos com a liberdade. A liberdade é o maior bem e a maior maldição da sociedade contemporânea e, quando eu me refiro à sociedade contemporânea, refiro-me à época marcada pela Revolução Francesa. A liberdade está como parte do lema dessa revolução (liberdade, igualdade e fraternidade), representa uma grande defesa e é uma das maiores conquistas da sociedade contemporânea. Sendo assim, por que ela pode ser um perigo? Porque existe a possibilidade de cairmos no que Immanuel Kant chama de mal radical. Embora a liberdade seja uma benção para a formação da nossa vida em sociedade, se exercida com pouco controle, ela ganha avanços gradativos que podem exceder limites. Se ninguém disser que você tem que parar, se ninguém mostrar os limites das fronteiras: “Olha, daqui você não pode passar”, a liberdade se torna violência, brutalidade, ultraviolência (denominação dada por alguns autores para a violência extremada, brutal, corrosiva, destrutiva e imperceptível para quem pratica). Atos extremos de terrorismo, de ataques às escolas, de abuso e de violência não surgem desse tamanho. O terrorista não nasce terrorista. Ele nasce debochado, talvez. São liberdades menores exercidas sem limite que levam ao extremo. No cenário escolar, começa com uma risadinha entre colegas e a mão cobrindo a boca, essa risadinha se torna um apelidinho para o colega que tem as orelhas de abano ou o nariz maior que o normal até que esse apelidinho se torna uma risada estridente em alto e bom som para todo mundo ouvir. Em seguida, vem o empurrão na hora do recreio, depois o montinho, a surra e, por fim, o assassinato, um ato passional. 94 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Por mais que possa parecer uma sequência muito brutal pela velocidade dos fatos mencionados acima, atos de ultraviolência acontecem, é assim que eles nascem, de pequenos fatos, de pequenas liberdades exercidas sem que alguém coloque limite até o ponto em que isso se torna uma violência extrema, sem que o praticante perceba, até porque foi pouco a pouco, ele não notou que fez. De acordo com a psicopedagogia, a criança testa constantemente os limites que ela pode quebrar. Então, quando a criança é travessa, grita, chuta, se arrasta pelo chão, faz uma birra ou pratica qualquer outra atitude em que ela é desobediente, ela sabe que está sendo desobediente. Ela sabe que está errada. No entanto, enquanto criança em processo de formação, ela vai testar continuamente se a fronteira da liberdade ainda está ali ou se ela já pode passar. Se a criança teima, é agressiva e violenta e você não limita, ela entende que pode passar. E vai passar 1, 2, 3 vezes. Quando ela perceber que alcançou um limite de novo, ela vai testar uma nova fronteira e será um pouquinho pior. Nesse teste constante, chegamos a uma criança descontrolada que adere a ideias violentas, que se apega a atos extremos e que causa o terror por onde quer que passe. Você entende o perigo da liberdade? Portanto, é perigosíssima a apologia à liberdade plena, porque nenhum de nós é totalmente livre. Não temos todas as liberdades. Vivemos um sistema democrático, então, a minha liberdade só vai até onde começa a liberdade dos outros. Um comunicador (professor, Youtuber, locutor, apresentador) precisa modelar seu vocabulário, o seu tom de voz, a intensidade do que ele diz, porque ele não é totalmente livre. Ele deve planejar quais temas serão trabalhados e entender se são temas pertinentes para quem vai ouvir, porque quem define a liberdade de um comunicador é o público ouvinte específico de cada área. Isso se chama Princípio do Dano, deJohn Stuart Mill, ou seja, a minha liberdade só vai até onde começa a liberdade de outrem. Onde, principalmente, a criança começa a testar esses hábitos de violência? Dentro de casa? Dentro da escola? Não! O primeiro teste que acontece é dentro do computador, nas redes sociais, é no cenário da cibercultura, porque a internet é 95 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 visivelmente uma terra sem lei, é onde você encontra bolhas e comunidades em que a liberdade é plena e não há limites para controle. E essas crianças, sem a fiscalização dos pais, podem encontrar qualquer comunidade que trate dos maiores absurdos e ainda assim elas serão aceitas e conseguirão ampliar a fronteira delas, entendeu? John Stuart Mill. Então, esse cenário da cibercultura, teorizado por Pierre Lévy, tem como uma de suas maiores e mais perigosas marcas a ausência de controle. Estamos tentando colocar um ou outro controle, mas sem sucesso até agora. Tentamos estabelecer o projeto de lei das Fake News para tentar controlar o cenário, mas a rede é movida pelo capital, que é o que mais importa, então ninguém consegue frear. 96 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Pierre Lévy. Ainda não conseguimos impedir que grupos extremistas de ultraviolência de linhas neofascistas ainda se disseminem, não conseguimos conter o discurso de ódio nas redes sociais, ciberbullying virou rotina e body shame acontece o tempo todo. Na internet, não existe o controle dessa liberdade, ou seja, no espaço virtual, as liberdades são exercidas continua e rotineiramente sem limites, até que elas se tornem violências extremas. Talvez algumas pessoas estejam fazendo comentários de ódio, xingando as pessoas nos comentários, mandando mensagens ofensivas, ofendendo até a enésima geração das pessoas e achando que não estão sendo violentas. Sabe o por quê? Porque elas não sabem que são, elas fazem isso com tanta naturalidade ao longo do tempo que não notaram que se tornaram essa pessoa abominável. Assim como a criança não percebe o quão abominável é na medida em que esses limites não são controlados. Assim, voltamos ao ponto: quem deveria controlar? Quem é que compra o celular e coloca na mão de uma criança? É um perigo! Até porque tudo, nessa vida, pode funcionar como ferramenta para o bem ou para o mal, depende da forma como você usa. A criança e o adolescente têm usado a internet negativamente para destruir sua autoestima, para alterar a sua noção de personalidade e identidade e para atacar as pessoas. O ciberespaço é o espaço perfeito para exercer essas liberdades descontroladas, para ofender limites, distorcer o Princípio do Dano, criar um caos e banalizar tragédias, infelizmente. Precisamos de controle. Quando isso acontecerá? Não sei. A perspectiva a respeito desse 97 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 assunto não é nada saudável, até porque somos capazes de nos comover apenas quando as tragédias já aconteceram. Nós choramos, nos indignamos, fazemos post e vídeos nas redes sociais lamentando e criamos um sentimento absurdo de revolta. Somos ótimos com as emoções, mas estamos fazendo o que para evitar acontecimentos negativos? Estamos controlando as liberdades? Estamos educando melhor nossas crias? Estamos trocando o tempo das redes sociais por conversas com os filhos? Estamos orientando as pessoas por perto? Estamos percebendo o nível de psicopatia que está se desenvolvendo dentro de casa? Estamos ajudando as pessoas próximas a não surtarem? Estamos vendo a forma como as crianças estão sendo deterioradas? O que você está fazendo? O que você fez para evitar? Porque, quando a tragédia acontece, não adianta ter medo de levar os filhos para a escola, até porque o nosso filho pode ser um dos violentos que está proliferando o caos lá dentro em forma de bullying e de ofensa, destruindo a autoridade e o equilíbrio da escola. Você sabe que o seu filho faz? Você frequenta a reunião de pais? Você controla comportamentos ou você acha que a educação do seu filho se traduz em notas? Ou, ainda, você acha que pagar a escola significa educar? Só injetar dinheiro no seu filho não vai fazer com que ele se torne uma pessoa boa. Por mais que nos esforcemos para virarmos fruto do capital, não somos feitos de capital, a humanidade não é construída em cima disso. O que você está fazendo? Só se revoltar nas redes não adianta. Com essa comoção toda, como diria Sartre, não conseguimos pensar e agir. Infelizmente, sabemos esbravejar, postar textão e vídeos de indignação nas redes, mas não nos conscientizamos nem mudamos de postura. Isso não aconteceu ainda nem por parte da população nem do Estado. Não vimos ainda grandes atitudes do Governo para alterar a situação da violência nas escolas. Houve algumas atitudes imediatistas, assim como a própria comoção é imediatista, ao colocarem policiais nas portas das escolas, mas o problema não está na porta. O problema está dentro da escola. O problema está no seu filho, no meu filho, no filho do vizinho. E o que está sendo feito? Você está sentando com o seu filho para conversar ou está fazendo como certos pais que colocaram canivete na mochila dos filhos para que eles se protegessem? Se for, sinto te dizer que o próximo terrorista pode ser ele (não é exagero). Existe uma parte da população só focada na comoção. Algumas pessoas utilizam as redes sociais para chorar em vez de darem atenção para as pessoas que estão fora do telefone. Existe uma vida fora do telefone. E o que você faz para cuidar dessa vida fora das telas? O que você faz para cultivar laços ou afetividade, para se conectar com a comunidade, para ensinar empatia? Sim, empatia é ensinada, as pessoas não nascem empáticas. 98 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 CONCLUSÃO A perspectiva de futuro é preocupante, talvez ainda vivenciemos um cenário de mais violência. Gastamos mais com o sistema de Justiça do que com o sistema de educação. As escolas não estão sendo melhoradas, os professores não estão sendo preparados, não temos assistência social, controle de Segurança Pública ou formação pedagógica capaz de lidar com isso. Nem a Constituição está cobrando os pais. Os pais são colocados como vítimas, não como responsáveis. A criança é colocada como vítima, não é responsabilizada. No fim, ninguém é responsável, só a escola – capenga – que recebe a carga da culpa. Precisamos de uma política pública que olhe para a base, “pegue esses zumbis, os ressuscite, coloque cérebros neles, reforme as pernas e os ensine a andar”. Infelizmente, em termos de responsabilidade parental, não temos muito a fazer, mas é possível tornar a escola tão forte dentro da comunidade que ela consiga estabelecer autoridade e controle de comportamento. É preciso que a política pública seja feita de forma interdisciplinar, ou seja, precisamos urgentemente fundir conselhos tutelares e instituições de ensino com seus esforços voltados para a formação. Não é revistar mochilas, não é usar detectores de metal, é formação. É preciso uma educação para a não violência. Só isso é capaz de resolver, porque, hoje, se a criança não leva uma faca, ela leva a língua, que pode ser tão perigosa quanto. Vários cenários precisam ser educados. Precisamos educar a sociedade para a não violência. Então, os esforços conjuntos de conselhos tutelarese escolas e o investimento público suficiente precisa ensinar a sociedade a lidar com as redes sociais, bem como orientar sobre grupos de risco, grupos extremistas e ensinar sobre os níveis de violência, pois não existe violência inocente, não existe crítica inocente, tudo é perigoso. 99 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Um apelidinho na escola é perigoso e deve ser visto com cuidado. Alguns podem pensar: “Ah, mas é mimimi”. Depois que explodir uma sala de aula com 40 alunos, não haverá mais o que fazer. Devemos conscientizar toda a sociedade sobre a educação para a não violência. As políticas públicas precisam estar presentes além do momento em que as tragédias acontecem. 100 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 https://minhadiscursiva.com/https://minhadiscursiva.com/ L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 https://minhadiscursiva.com/ https://minhadiscursiva.com/ https://minhadiscursiva.com/ Sumário Tema 01: Pensadores Fundamentais Tema 02: Definindo a Sociedade do Século XXI a partir de 4 Conceitos Fundamentais Tema 03: Inteligência Artificial Tema 04: Literacia Familiar Tema 05: Milícias no Brasil Tema 06: Violência nas EscolasL ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 MICHEL FOUCAULT Outro importante pensador que vai te ajudar a refletir de modo mais crítico sobre as problemáticas da contemporaneidade é o filósofo francês Michel Foucault. Nascido em 1926, em Paris, Foucault tem uma vastíssima obra, que aborda noções como controle, poder e violência na sociedade capitalista. Embora sua teoria vá de encontro a muitos pontos das perspectivas e das interpretações propostas pela tradição crítica frankfurtiana, as questões que o autor francês possui como objeto de reflexão são as mesmas, além de igualmente contestar a Teoria Tradicional do Conhecimento, que coloca a razão do indivíduo como centro da produção intelectual. Por isso, podemos comparar as especulações de Foucault às de Adorno e Horkheimer, seja para encontrar aproximações ou divergências e, assim, ampliar ainda mais nossa bagagem cultural analítica em torno de diversos assuntos que nos cercam. 📚 Nesse sentido, à luz de uma crítica contra as engrenagens ocultas que sustentam a sociedade moderna, do mesmo modo que os teóricos da Escola de Frankfurt, Foucault refletiu sobre algumas noções e criou conceitos que se tornaram super importantes às Ciências Humanas. Entre eles, destaco dois – a noção de poder e o conceito de sociedade disciplinar – porque vão favorecer um desenvolvimento e um aprofundamento refinado de assuntos que estão bombando 🔥 nas principais bancas, como educação, evasão escolar, democracia, poder do Estado, inteligência artificial, discriminação, entre outros. 11 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Em torno da temática do poder, a grande inovação que proporcionou Foucault foi a perspectiva de que as desigualdades podem ser irradiadas para as mais múltiplas relações sociais. 💡 Em outras palavras, o autor rompe com a ideia clássica de que o poder estaria centralizado nas mãos da Igreja ou do Estado (e, por extensão, de seus agentes) e aponta que ele pode estar localizado não apenas nas instituições, mas sobretudo entre os indivíduos. Nesse sentido, o poder não é algo fixo, estático, mas, ao contrário, ramificado, dinâmico. Consequentemente, o domínio dos corpos não se dá apenas em âmbito coletivo, mas também individual e particular, permitindo um controle social multifacetado. E isso ocorre porque, para ele, as relações de poder são exercidas por meio de práticas discursivas, ou seja, linguagem e conhecimento compartilhado. Logo, segundo ele, podemos lutar contra padrões comportamentais e de pensamento, mas as relações de poder em si, como um todo, são, justamente por esse caráter moldável, inevitáveis. Pela mesma razão, o poder também transcende os contratos políticos ou jurídicos, isto é, não é algo que verdadeiramente se concebe e se retira de modo pragmático: ele se fortalece no campo da linguagem e, assim, é mais velado e permeável – está mais oculto – do que pensamos. 📌 Em resumo: o poder não é um recurso de controle e dominação exclusivo de determinadas pessoas ou órgãos, mas sim uma força, constantemente exercida, que atravessa todas as relações sociais, por meio da discursividade. Certo, Prof. Ari, mas como esse poder se manifesta? Dá um exemplo aí, por favor! 🙏 Uma das expressões desse poder mais abstrato e menos evidente é o chamado poder disciplinar. Para Foucault, ele se concretiza desde troca de olhares, comentários, exames, castigos, até mesmo advertências, processos e privação da liberdade. Segundo o autor, o poder disciplinar é a base da sociedade moderna e surge em substituição dos poderes religioso e de soberania. Tem como principais efeitos o individualismo e a vigilância, além de poder se concretizar por meio de mecanismos disciplinares como escolas, prisões, quarteis, fábricas, hospitais psiquiátricos etc., que, segundo ele, docilizam os corpos e ditam a verdade. 12 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Para o autor, essas instituições são tecnologias de poder capazes de estabelecer os “discursos de verdade” em uma sociedade, ou seja, instituem quais seriam as normas, as condutas, os comportamentos, os valores mais adequados. ⚠ Portanto, não existiria uma única verdade, mas múltiplos regimes da verdade, que variam de acordo com os discursos dessas instituições. 👆 Essa também é uma grande contribuição do pensador à história do conhecimento ocidental, que, até pouco tempo, acreditava em uma versão única da História e na ciência como caminho para uma suposta Verdade absoluta. A sociedade disciplinar, por sua vez, é aquela cujas organização social baseiam-se no exercício do poder disciplinar e de suas dinâmicas pautadas por ações de controle e organização. 💡 Em outras palavras, é um modo de nomear a sociedade moderna, cujos pilares fundamentais são o Estado e seus órgãos reguladores, a escola, o sistema penal, o mercado e outros espaços que mobilizam práticas sociais do poder, ou seja, esquemas de punição e vigilância generalizadas, da qual emergem a paciência, a obediência, a resiliência como padrão comportamental. 📌 São citações que sintetizam essas reflexões de Michel Foucault: • “As luzes que descobriram as liberdades inventaram também as disciplinas” (Michel Foucault, em Vigiar e Punir). • “Trata-se [...] de captar o poder em suas extremidades, em suas últimas ramificações [...] captar o poder nas suas formas e instituições mais regionais e locais” (Michel Foucault, em Microfísica do Poder). • “O controle da sociedade sobre os indivíduos não opera simplesmente pela consciência ou pela ideologia, mas começa no corpo e com o corpo. Foi no biológico, no somático, no corporal que, antes de tudo, investiu a sociedade capitalista. O corpo é uma realidade biopolítica” (Michel Foucault, em O Nascimento da Medicina Social). • “É dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (Michel Foucault, em Vigiar e Punir). • “A verdade não existe fora do poder ou sem o poder [...]. A verdade é deste mundo, ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar 13 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sancionam uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro” (Michel Foucault, em Microfísica do Poder). • “Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo” (Michel Foucault, em A ordem do Discurso). • “A norma, está inscrita entre as ‘artes de julgar’, ela é um princípio de comparação. Sabemos que tem relação com o poder, mas sua relação não se dá pelo uso da força, e sim por meio de uma espécie de lógica que se poderia quase dizer que é invisível, insidiosa” (Michel Foucault, em História da sexualidade)• “Digamos que a disciplina é o processo técnico unitário pelo qual a força do corpo é com o mínimo ônus reduzida como força ‘política’, e maximalizada como força útil. O crescimento de uma economia capitalista fez apelo à modalidade específica do poder disciplinar” (Michel Foucault, em Vigiar ePunir). 📚 E se você quiser se aprofundar nas teorias de Foucault, aqui vai uma lista de títulos a que você pode recorrer: · As Palavras e as Coisas (1966) · A Arqueologia do Saber (1967) · Vigiar e Punir (1975) · Microfísica do Poder (1978) · O Nascimento da Biopolítica (1979) 14 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 BYUNG-CHUL HAN Outro nome fundamental para você conhecer e mandar ver nos assuntos mais quentes dos último anos, principalmente naquelas redações que combinam problemáticas concretas da contemporaneidade e questões mais subjetivas ou abstratas, é o do filósofo sul-coreano que vem protagonizando debates recentes. Byung-Chul Han nasceu em 1959, em Seul (Coreia do Sul), mas chegou ainda jovem e fez carreira na Alemanha. Atualmente, é professor da Universidade de Artes de Berlim e vem se destacado por suas reflexões em torno da relação entre os usos contemporâneos da tecnologia e o adoecimento psíquico. Por isso, ele é uma das principais figuras para pensar o século 21. ☝ Selecionei para você 3 conceitos basilares das obras de Han: sociedade do desempenho, sociedade do cansaço e psicopolítica. Byung-Chul Han, assim como Foucault, Adorno e Horkheimer, faz ser questionada a ideia tradicional de conhecimento, a partir da qual se sustentaram a supremacia da razão, bem como a soberania das noções de desenvolvimento e progresso. Ele é mais um autor que evidencia como esse paradigma, por um lado, alavancou o avanço tecnológico e as novas descobertas científicas, mas, por outro, também serviu para legitimar práticas extrativistas, que vêm destruindo a natureza, e percepções sobre trabalho e produtividade, que têm modificado a mente humana, por exemplo. 15 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Assim, o autor propõe uma série de análises para evidenciar as armadilhas promovidas pela sociedade atual. ⚠ Se, até aqui, aprendemos que a alienação e a dominação podem ser praticadas por meio da indústria cultural e do poder disciplinador, agora vamos compreender mais uma forma social de controle: o poder produtor. Se alguém ainda não te falou, tenho a certeza de que você pelo menos conhece a frase “Trabalhe enquanto eles dormem” 😩, não é? Então, é mais ou menos esse ponto de vista que o autor critica. 👉 Segundo Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade orientada pela noção de desempenho, através da qual se busca permanentemente a perfeição e é necessário estar constantemente produzindo, trabalhando. À forma de organização social que se norteia segundo esses parâmetros, ele dá o nome de sociedade do desempenho. Nas sociedades do desempenho, a produtividade é positivada, em contraposição à repressão, criando no imaginário coletivo uma ilusória crença de que seríamos livres. A liberdade, nesse âmbito, vira um produto lucrativo, pois, sob tal pretexto, constrói-se um ambiente de contínua competitividade entre as pessoas pela superprodução, pelo superdesempenho, pelo superconsumo e pela supercomunicação. Mas atenção! 🚨 É preciso compreender com clareza o que ele quer dizer com “positividade”. 📌 Para ele, a positividade pode ser representada por discursos diretos e indiretos de veículos de comunicação e redes sociais, principalmente, manifestados através do excesso de estímulos e informações. Com isso, a positividade tem como importante produto a destruição da atenção e da concentração, o que fortalece a alienação dos sujeitos. ⚠ Esse esquema psíquico será caracterizado pelo autor como “violência neuronal”, já que esses discursos motivacionais apresentariam efeitos colaterais devastadores na mente humana: a forma de vida motivada pelo excesso de positividade em torno do poder produtor se torna um celeiro ideal para o surgimento e o avanço de distúrbios psicológicos. 16 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 ☝ Justamente aí teríamos a principal consequência da positividade e do desempenho, segundo sugere Han: a sociedade do cansaço. Nesta, são desencadeados altos níveis de ansiedade, depressão, burnout e outras disfunções psicológicas, de modo que o adoecimento psíquico se torna padrão entre os indivíduos. A chave dessa engrenagem, por sua vez, seria a capacidade de atribuir aos próprios sujeitos a função de ordenação e controle sobre si mesmos, isto é, fazer com que órgãos regulares, grandes mídias de comunicação em massa ou mesmo a figura do outro não sejam mais os grandes algozes do sujeito, mas sim ele próprio. 💥 Mais do que o olhar alheio, agora quem mais controla e delimita os comportamentos é o auto olhar. Em outras palavras, o indivíduo se explora e enxerga nisso uma realização – a essa nova e eficaz técnica de dominação, o autor dará o nome de psicopolítica. 💡 Portanto, Byung-Chul Han pode te ajudar especialmente a abordar assuntos, como saúde mental, impactos do uso das redes sociais, relações e formas de trabalho na contemporaneidade, novas formas de controle social, dentre muitos outros. Se você se interessou pelas reflexões dele, aqui vai uma lista de títulos que vão te fascinar: • Sociedade do Cansaço (2015) • Sociedade da Transparência (2017) • Hiperculturalidade, Cultura e Globalização (2019) • O que é Poder? (2019) • Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia (2022) Mas, para facilitar a sua vida, é claro que eu separei algumas citações representativas das discussões levantadas pelo autor: • “A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos de obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmo” (Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço). • “A sociedade disciplinar está dominada pelo ‘não’. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados” (Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço). 17 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 • “O sujeito de desempenho da modernidade tardia não se submete a nenhum trabalho compulsório. Suas máximas não são obediência, lei e cumprimento do dever, mas liberdade e boa vontade. Do trabalho, espera acima de tudo alcançar prazer. Tampouco se trata de seguir o chamado de um outro. Ao contrário, ele ouve a si mesmo. Deve ser um empreendedor de si mesmo” (Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço). • “O cansaço do esgotamento não é um cansaço da potência positiva. Ele nos incapacita de fazer qualquer coisa” (Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço). • ”O hipercapitalismo atual dissolve totalmente a existência humana numa rede de relações comerciais” (Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço). • “O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando” (Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço). • “A lamúria do indivíduo depressivo de que ‘nada é possível’ só se torna possível numa sociedade que crê que ‘nada é impossível” (Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço). • “[...] o aceleramento de hoje tem muito a ver com a carência de ser. A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são uma sociedade livre” (Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço). • “Há que se admitir que o sujeito do desempenho não aceita sentimentos negativos, o que acabaria se condensando e formando um conflito. A coação por desempenho impede que eles venham à fala. Ele já não é capaz de elaborar o conflito, uma vez queesse processo é simplesmente por demais demorado. É muito mais simples lançar mão de antidepressivos que voltam a restabelecer o sujeito funcional e capaz de desempenho” (Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço). • “Nós nos transformamos em zumbis saudáveis e fitness, zumbis do desempenho e do botox. Assim hoje, estamos por demais mortos para viver, e por demais vivos para morrer” (Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço). - Beleza, Ari, mas e na prática? Como eu uso esses negócios? 🧐 Vamos ver os repertórios em cena, em um contexto real de produção textual! Se liga!👇 18 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 REPERTÓRIOS EM CONTEXTOS REAIS DE USO NA REDAÇÃO Para que você possa entender de vez como usar esses repertórios em um contexto real de produção textual, separei 3 exemplos. 🔥 🎁 Exemplo 1 – Tema: Efeitos das redes sociais na realidade 🎁 Exemplo 2 – Tema: Aplicações da inteligência artificial em prol da segurança pública (desafios e perspectivas) 19 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 🎁 Exemplo 3 – Tema: Tempo é dinheiro? AGORA SÓ FALTA VOCÊ COLOCAR A MÃO NA MASSA! Como sempre digo, a qualificação teórica é fundamental para você escrever uma boa redação. Porém, sozinha, ela não vai resolver seus problemas: é preciso treinar, treinar, treinar! ✍✍✍ Tamo junto! 20 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 [TEMA 02]: DEFININDO A SOCIEDADE DO SÉCULO XXI A PARTIR DE 4 CONCEITOS FUNDAMENTAIS INTRODUÇÃO AO TEMA Refletir sobre cada transformação social. A cada nova transformação que essa sociedade sofre, novos conceitos surgem para tentar explicá-la e, assim, ficar mais fácil entender essa realidade, lidar com ela ou documentar essas transformações. Obviamente, a cada novo conceito para definir o comportamento, as realidades e as transformações surgem novas definições que precisamos entender. Portanto, estudaremos 4 desses novos conceitos típicos do século XXI pós-pandemia e que hoje talvez sejam os conceitos mais discutidos mundo afora. Comentarei com você o que cada um desses conceitos significa e os relacionarei com outros conceitos mais antigos (ou mais canônicos) que já tenhamos discutido para que você consiga perceber, dentro da sua realidade, quais conceitos realmente representam os tempos atuais. Vamos lá, então! 21 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 CRINGECORE O cringecore diz respeito ao gosto por aquilo que é bizarro e esquisito. Uma tendência de cada vez mais cultivar o ridículo como algo de valor, que tenha apreciação, um padrão de comportamento buscado e aceito. Você tem percebido essa movimentação? O Brasil hoje talvez seja um dos países com maior número de influencers no mundo, pois somos um dos maiores usuários de redes sociais e produtores de conteúdo mundo afora. Praticamente todo o conteúdo com o qual convivemos (ou mesmo o qual produzimos) usa o ridículo, o bizarro ou o supostamente humorístico como elemento fundamental da linguagem. Hoje, a linguagem da internet que engaja, que a maioria busca usar para conseguir engajamento (seguidores) e tem cada vez mais alcance é a linguagem do bizarro. É preciso propor desafios cada vez mais estúpidos, é preciso colocar- se em uma situação em que até pouco tempo seria considerada ridícula, é preciso expor a própria vida e todas as pessoas que estão em torno dela ao máximo possível, bem como extrair o máximo possível da estranheza, provocar cada vez mais riso, repugnância ou escândalo para conseguir espaço. Atualmente, esse tem sido um dos traços mais comuns e passíveis de elogio. Nós transformamos as pessoas que se expõem ao ridículo em celebridades. Sim! Elas se tornam pessoas que, de alguma forma, adoramos e elogiamos. Talvez uma das primeiras figuras que passaram por esse processo nessa formação contemporânea de sociedade foi a Inês Brasil. Você sabe quem é? Ela foi uma das candidatas a entrar no Big Brother Brasil em uma das edições e tudo o que diz respeito ao universo dela é meio bizarro, é de alguma forma estranho. A aparência dela destoa muito do que é considerado aceitável, normal ou apreciado. A linguagem que ela usa está completamente fora de contexto, não existe, na verdade, nenhuma frase se conecta com outra de forma a gerar algum sentido, ou seja, ela não está dentro do que 22 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 aceitamos como realidade ou do que esperamos ser ou mesmo esperamos alcançar. Nenhum de nós espera se tornar a Inês Brasil em termos de carreira, de aparência ou de inteligência, mas a Inês Brasil é uma figura admirada, elogiada, que gera riso e que, de alguma forma, damos palco, elogiamos e veneramos. Ela vira meme nas nossas redes sociais, vira motivo de deboche quase sempre e aparece vez ou outra nas redes dando uma gafe. Aliás, quanto mais gafes cometidas, mais engajamento e viralização. Está conseguindo identificar como existe essa visão meio torta da realidade e a forma como passamos a elogiar aquilo que não se elogia? Passamos a admirar aquilo que jamais seria alvo de admiração dentro dos padrões convencionais de valor, de sociedade e de comportamento. Algo parecido também ocorreu nos primórdios das redes sociais. Na web, Kim Kardashian talvez seja uma das personalidades mais famosas desde a formação da cultura virtual até hoje. Ela praticamente inaugurou as redes sociais junto com Paris Hilton e outras famosas. Kim Kardashian ganhou notoriedade por algo que a maioria das pessoas sentiria vergonha – uma sex tape, uma fita de vídeo caseira, gravada em um momento muito íntimo, vazou, viralizou e deu fama a ela. O início da história de Kim Kardashian e a fama não tem a ver com a beleza, o dinheiro, a inteligência, a sensibilidade, o talento ou com qualquer outro valor que convencionalmente admiraríamos. O início tem a ver com uma situação ridícula, bizarra e que foi de certa forma cultuada. Hoje, Kim Kardashian é considerada uma das figuras mais importantes depois do reality show que ela promoveu, que, inclusive, se baseia também no ridículo e na superexposição. Toda a família dela ganhou notoriedade por motivos similares, ou seja, totalmente vazios e desconectados com o que, de fato, admiraríamos e isso ganha valor dentro dessa sociedade. Já parou para observar isso? Se você for uma pessoa jovem, talvez já tenha nascido dentro dessa formação social em que o cringecore é o padrão de comportamento e não note quão estranho isso é. No entanto, se você for um pouco mais velho, você, com certeza, conseguirá comparar como nós invertemos os nossos valores em relação ao que é admirável, àquilo que merece público, aplauso, engajamento e quais são os reais valores da sociedade. É como se toda a nossa matriz de conteúdo e de admiração, bem como o tempo que nós dedicamos à cultura e ao entretenimento estivessem dedicados a esse circo dos horrores e à apreciação das bizarrices e nada que se referisse a conhecimento, sensibilidade ou normalidade merecessem atenção. 23 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Esse gosto pelo bizarro, pelo ridículo e pela alta exposição da vida contemporânea tem a ver coma sociedade do espetáculo e com a forma como esgotamos toda e qualquer ferramenta que esteja a serviço da superexposição. Quem fala da sociedade do espetáculo é Guy Debord, mas vários outros teóricos já discutiram a forma como espetacularizamos a vida, como transformamos tudo em drama, comoção e nesse circo dos horrores que tem sido a vida contemporânea. E, veja, começamos a esgotar as ferramentas desde o princípio, com a televisão. Bauman aponta essa espetacularização nas primeiras teses dele em relação aos programas de auditório, em que as pessoas faziam desde depoimentos a respeito da vida privada até esses níveis mais profundos da exploração da bizarrice, por meio de piadas escatológicas, exposição da vida sexual, enfim, de tudo que causasse escândalo. Tudo é válido quando a intenção é espetacularizar e aparecer. Nos tornamos não só consumidores do espetáculo, mas também queremos ser parte dele, queremos lucrar com ele, queremos estar do outro lado também. 24 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Então, saímos da posição de espectadores da vida, da cultura e do entretenimento e passamos a produtores. Queremos lucrar com esse processo. Assim, a indústria cultural, também tratada por Debord, torna-se um chamariz para que todo mundo queira ter seus minutinhos de fama. Como hoje o acesso aos canais é muito grande e fácil, você não precisa mais de uma grande emissora de televisão para aparecer ou de um grande agente para colocá- lo na mídia. É possível recorrer a tudo – plantar bananeira, aparecer quase que completamente nu, criar uma produção de humor totalmente sem sentido, explorar o bisonho ou maltratar a aparência até que ela se torne, de fato, deformidade, a ponto de ser ridícula, visível e gerar engajamento. Isso também faz parte do que Debord chama de ambivalência. Não termos mais uma referência a respeito do que é certo ou errado, do que é válido ou não, estamos cada vez mais indecisos a respeito do que pode e do que não pode. Enquanto penso sobre esse processo intenso de cringecore, também questiono “por que estou tratando sobre essa temática a respeito de normalidade se ninguém mais sabe o que é ser normal?! O que é ser normal em uma sociedade em que tudo é possível? O que é quebrar padrões quando já não existem mais padrões? Como defino o que é ridículo em uma sociedade em que tudo pode e ao mesmo tempo tudo é proibido, ridicularizado e criticado?”. Estamos em um momento em que ninguém sabe de nada. Nenhum de nós tem uma referência sólida a respeito de nada. Então, tudo o que escandalizar mais, o que atrair mais atenção, o que nos fizer sentir um pouco mais amados, vistos ou enriquecidos está valendo. Quem não tem habilidade em fazer parte da onda cringecore, de se expor ao ridículo para conseguir visibilidade, não ganha a mesma notoriedade e o mesmo engajamento do que aqueles que fazem parte. Embora algumas pessoas se exponham dessa maneira e demonstrem estar forçando naturalidade, elas não se importam. Não importa criar uma realidade que não seja a sua desde que engaje. 25 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Esse cenário é perigoso a longo prazo. Os limites sobre o que é certo e errado/sobre o que é aceito ou não estão se dissolvendo. A fronteira, por exemplo, entre o que é engraçado e violento está cada vez mais diluída. A fronteira entre o que eu posso expor e o que eu devo preservar também está se perdendo. A fronteira do bom senso está se perdendo. Por isso, existem violências, agressões, excesso de exposições e fraudes cada vez mais comuns envolvendo esse cenário, uma deteriorização cada vez maior das próprias identidades, problemas profundos de saúde mental justamente porque o nosso referencial de vida está cada vez mais diluído. Pode ser apenas uma questão de expor-se ao ridículo e vender conteúdo como pode envolver questões profundas de identidade e agravamento da saúde mental sério. É um conceito pesado, mas ainda menos pesado do que o Gaslighting, que é mais violento e perigoso. GASLIGHTING É um processo de humilhação, uma espécie de menosprezo dentro da toxicidade com que boa parte das relações se constrói. Não sei em que momento começamos a perceber que as relações podem ser tóxicas, mas, para você entender bem o que que significa gaslighting, dentro do circuito das relações abusivas, é o processo de diminuir o outro para que ele se sinta incapaz de sair daquela realidade de abuso, para que ele se sinta incapaz de melhorar a própria condição e ser autônomo e, obviamente, se sinta grato por ter a presença desse abusador por perto já que ele, sendo tão inferior, precisa ser grato pela presença dessa outra pessoa. 26 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Em um período em que as relações estão cada vez mais líquidas, instáveis e efêmeras, essa é uma forma de fazer com que as relações sejam mais duráveis ou de não se sentir descartável ou até de colocar-se acima dos outros na tentativa de elevar sua própria autoestima. Esse conceito não diz respeito só a relações amorosas. Por exemplo, na relação professor-aluno, o gaslighting é extremamente comum. Você mesmo já deve ter estudado com um professor que tenha diminuído os seus conhecimentos e as suas capacidades constantemente, dizendo que você não era bom o bastante, não tinha inteligência o bastante, não aprendia o que era preciso. Quando ele diminuía você, ele se colocava como um ser superior e com o qual você deveria ser grato, já que você estava tendo a presença desse ser iluminado, de inteligência magnânima, ao seu lado e, obviamente, você mantinha um nexo de dependência maior com esse profissional, já que ele era capaz de salvar você da sua incompetência e ignorância. Pense bem, já viveu esse tipo de relação em alguma área da sua vida? Nas relações familiares, isso também é comum. Alguns pais constantemente diminuem seus filhos para tirar deles a autonomia e a capacidade de resolver problemas, reduzindo neles, então, a percepção da própria capacidade de fazer as coisas, de transformar a própria realidade, de crescer e de alguma forma aprender sobre o mundo. Dessa forma, esses pais fazem com que os filhos se sintam mais inseguros para tomar decisões, mais inseguros para serem autônomos e criam mais dependência dos filhos com eles. Os filhos pensam “já que não sou bom o bastante, preciso dos meus pais para fazer tudo para mim, para viver, para sobreviver, para não sofrer no futuro e para não me machucar”. É uma relação de exploração e transforma relações humanas que poderiam ser perfeitamente harmônicas em relações predatórias e parasitárias. 27 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 As pessoas que praticam o gaslighting alteram bastante a percepção da realidade. Hoje existem 2 razões para trazer o gaslighting à tona dentro dos nossos debates. Primeiro: estamos um pouco mais cientes a respeito da saúde mental e da nossa condição de vulnerabilidade. Segundo: no momento em que as relações se tornam cada vez mais instáveis, esse tipo de relação se torna uma armadilha terrível para prender pessoas e interromper a autonomia. São raras as pessoas que conseguem manter relacionamentos em que as duas pessoas são colocadas no mesmo patamar e não com uma das partes abaixo da outra. A maioria das pessoas têm problemas sérios de autoestima, entretanto, algumas precisam pisar nos outros para tentar lidar comas suas próprias frustrações. Isso é falta de terapia e falta de percepção da realidade. O cenário de abuso é internalizado nos dois lados; é internalizado pelas vítimas, que, dentro de um cenário de abuso, raramente percebem que estão sendo vítimas, e é internalizado pelo abusador, que nunca reflete sobre si mesmo e sua própria realidade de abuso, logo, não consegue perceber que é um abusador ou não vê problema em ser. Associado a esse menosprezo e a essa toxicidade comportamental, existem 2 conceitos muito comuns em nossas abordagens cotidianas: a banalidade do mal e a liquidez. A banalidade 28 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 do mal é um hábito recorrente incluso no comportamento como parte da nossa cultura, vida e rotina. Aquilo que é rotina não questionamos, está incluído, é imperceptível, invisível, faz parte da nossa vivência. Há muita invisibilidade no nosso cotidiano, necessária, inclusive, para a vida fluir. Veja, você não presta atenção sobre quantas vezes você respira ou quantas vezes você pisca, porque, obviamente, você está concentrado em outras questões. O hábito já fez esse comportamento ser organizado a ponto de você não percebê-lo. O cenário de abuso funciona de forma semelhante ao hábito de piscar os olhos ou de respirar, é algo que foi incluído na sua rotina a ponto de você repetir continuamente e não perceber que existe um problema nisso ou ao menos que existe uma falha nisso. Só conseguimos perceber esse tipo de comportamento quando somos confrontados com eles. Você só percebe, por exemplo, que está sendo vítima de abuso quando alguém diz para você: “você está sendo vítima de abuso” ou você só percebe que é um abusador quando dizem: “você é um abusador”. Da mesma forma, você só percebe que pisca/respira quando alguém chama sua atenção para isso. Não é algo que tenhamos uma percepção natural, porque foi incluído nos nossos hábitos, na nossa rotina. Quase todas as formas de violência, toxicidade e abuso passam por esse circuito de normalização, já que são repetidas dentro de um circuito de comportamento. E, claro, o problema de não sabermos o que é certo ou errado é a ambivalência que nos leva a questionar. Só estamos questionando esse tipo de comportamento atualmente, porque os valores estão sendo revistos, estamos passando tudo (de novo) em um filtro de validação: “vale a pena, é um comportamento viável, faz bem?”. A ambivalência é em si ambivalente, porque ao mesmo tempo em que ela tira um pouco do nosso chão, por não deixar mais estabelecido o que é certo e o que é errado, ela também nos faz repensar e questionar padrões de comportamento e avaliar o que presta e que não presta. Na dinâmica dos relacionamentos, fazemos isso o tempo todo, ou seja, todos estamos sujeitos a uma dinâmica cada vez mais intensa de liquidez, de valores, de padrões de comportamento. Quem trata sobre liquidez é Zygmunt Bauman. Essa liquidez faz com que tudo o que era sólido se desmanche no ar, tudo que era certeza passe a ser questionado e nós sejamos confrontados com o que até então era padrão e era considerado normal. Válido e perigoso ao mesmo tempo. É ótimo fazer isso e ao mesmo tempo um pouco perigoso, porque nunca 29 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 sabemos o que substituirá o comportamento atual. Como ficarão os relacionamentos depois disso? Os relacionamentos sobreviverão? Conseguiremos resolver isso? Como? Pelo menos, por enquanto, vamos tentar não apagar a luz dos outros para nos sentirmos melhores. Acho que vale a pena pensar nisso. GOBLIN MODE Esse conceito tem a ver com um processo cada vez mais comum de desaceleração, um processo cada vez mais comum de desistência ou uma valorização da zona de conforto. Desde o século XVIII, por conta da sociedade industrializada, ouvimos que precisamos superar a nós mesmos, os nossos próprios limites, a nossa própria disposição. Toda vez que não damos conta de algo, precisamos achar um fio de energia para continuarmos produzindo, trabalhando e dando conta de cada vez mais tarefas e obrigações, colocando um degrau de ambição atrás do outro. Somos criados nessa sociedade industrializada para entendermos que uma vida só vale ser vivida se ela for permeada por lutas, conquistas e sonhos cada vez mais ambiciosos. 30 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Crescer na vida significa conquistar mais bens e, claro, realizar ambições cada vez maiores. Não basta termos equilíbrio nas nossas relações, ter o suficiente para comer e dormir com conforto, não basta simplesmente sentir-se bem. Precisamos sempre mais. Você sabe muito bem o nível de pressão a que nós somos condicionados desde o início da Industrialização, entretanto, os nossos antepassados (da era pré-industrialização) não viveram essa pressão toda. Se você for avaliar a vida dos seus avós e bisavós, a realidade deles envolvia criar filhos, manter uma boa casa e servir de exemplo para uma nova geração. Isso bastava dentro dos padrões da religiosidade e da comunidade de então. Para nós, não basta. Para nós, os nossos pais acreditavam que precisávamos alcançar a lua, ultrapassar o Bill Gates em fortuna, reinventar a pólvora para fazer com que o nosso nome ficasse gravado na História eternamente. Ainda existe um pouco disso em cada um de nós, principalmente quem está na fase dos 20-30 anos. Ainda estamos lutando para deixar o nosso nome marcado em algum lugar. Pensamos que a vida só vale mesmo se deixarmos a nossa marca, mesmo sabendo que a maior parte das pessoas será esquecida assim que falecer. A maioria de nós não vira memória eterna, a não ser que construa algo muito magnífico, pois consideramos que deveríamos construir. No entanto, há um crescente posicionamento que questiona: “calma, para que tudo isso?” Para que esse sacrifício todo? Para que buscar superar a zona de conforto se nela está tão quentinho e se dentro dessa zona de conforto já temos o suficiente? Desde o auge da pandemia até agora, acompanhamos o movimento de quiet quitting. Essa expressão está dentro, na verdade, do Goblin mode, ou seja, de desistência silenciosa. “Para que trabalhar em dois empregos se um emprego paga minhas contas? Para que me sacrificar nos turnos da manhã, tarde e noite se só a parte da manhã já dá? Para que pensar em luxos e mais luxos se uma vida simples já atende ao que gosto? Por que ter tantas ambições se uma vida simples 31 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 já é capaz de me satisfazer e boa parte dessas ambições não vai trazer necessariamente felicidade?”. É uma visão de que podemos viver com menos, nos sacrificarmos menos e equilibrar um pouco mais as nossas relações com o meio, sem precisar de tanto desgaste, de tanto sofrimento em torno de um ideal de vida calcado no capital, em uma visão de sucesso neoliberal e de acúmulo de capital de bens. Entende? Então, essa é uma visão realmente voltada ao parar de preocupar-se tanto. Esse processo do Goblin mode afeta os padrões que envolvem estética, relacionamentos e basicamente todas as áreas da vida. “Por que preciso ter menos de 5% de gordura se vivo bem com essa barriguinha e não está afetando minha saúde? Por que preciso ter milhares de seguidores na rede se os seguidores que estão lá já geram uma circulação de clientes e de capital para mim? Por que preciso de mais? Por que preciso do relacionamento perfeito, digno dos contos de fada, sea pessoa com quem eu estou já me satisfaz, já me faz feliz e já me oferece sensações ótimas quando estamos juntos (sem a necessidade de viver o amor arrebatador dos contos de fada, amor esse que tecnicamente nunca existiu no mundo real)? Arthur Schopenhauer. É nivelar as expectativas um pouco mais por baixo. Isso faz lembrar Arthur Schopenhauer, que talvez seja uma das maiores referências a respeito desse assunto. Ele dizia que a matriz da infelicidade é trazer expectativas maiores do que a realidade, ou seja, feliz é aquele que coloca as expectativas no mesmo nível da realidade. A maioria de nós, de fato, é mais infeliz, triste, frustrada e ansiosa, porque coloca uma expectativa alta demais a respeito do que cada um é, do que podemos fazer, onde chegaremos (e não chegaremos nem na metade do que projetamos), ou seja, nos tornamos mais infelizes em função de quê? Em função de um padrão externo? 32 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Em função de uma sociedade industrial, em função de uma família fruto de uma sociedade industrial, em função de uma estrutura de solidariedade orgânica em que os laços são inteiramente focados no capital, em função de um meio de sociedade que espera sucesso e beleza onde basta felicidade e sobrevivência, um mundo de aparências e não de realidades. O goblin mode deveria ser a nossa meta de vida. PERMACRISIS No termo permacrisis, “perma” tem a ver com “permanente” e “crisis”, com “crises”, logo, a palavra diz respeito ao cenário de crises permanentes dentro das quais nós permanecemos recorrentemente. No Brasil, existe um cenário de permacrisis desde 2005, quando a crise política brasileira começou com a denúncia do Mensalão; em 2008, houve uma crise econômica global e que até agora não foi resolvida. Estamos esticando um cenário de crise desde então. Da crise econômica, emendamos uma crise sanitária em 2020 (com o surgimento da pandemia), que denunciou e agravou uma série de outras questões envolvendo uberização do trabalho, ausência de recursos sanitários em quase todo o país, desigualdades sociais abissais, um desemprego nunca antes visto, polarização política, negacionismo científico, enfim, diversos problemas. Hoje, estamos vivendo uma crise emocional profunda, um colapso da saúde mental como nunca antes vivenciado, estamos experimentando um nível de alienação totalmente desconhecido na História, uma vez que damos mais atenção ao cenário do cringecore (aos bizarros na internet) do que aos problemas sérios da vida para os quais deveríamos dar atenção. Além disso, vivemos uma crise intelectual institucional sem precedentes (não 33 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 acreditamos mais nas instituições e não nos importamos mais com as matrizes de conhecimento, a ciência e a universidade caíram em profundo descrédito). É uma crise permanente. Está vendo? Parece que cada vez mais surgem novos problemas e a nova crise torna-se ainda mais assustadora e profunda. Uma das referências mais importantes para a permacrisis é o que Slavoj Žižek chama de ponto zero da crise, que é esse cenário de crises profundas que denunciam a falha do sistema em todas as esferas imagináveis. O nosso sistema político ainda permanece polarizado, a democracia não se reergueu nem aqui nem em nenhuma parte do mundo, o sistema econômico está ruim – estamos tentando encontrar saídas pelo mercado internacional, mas até agora não conseguimos –, a qualidade de vida das pessoas está cada vez mais instável e crítica, o acesso ao trabalho está cada vez mais precarizado, o acesso à educação está cada vez mais vulnerável – até porque as matrizes de educação não convertem para o mercado de trabalho ou para a estabilidade política –, o cenário da saúde está de mal a pior – conseguimos concluir a fase da pandemia, mas abrimos outras questões que até agora não conseguiram encontrar resultado e cada dia surge um problema novo, mais profundo e mais grave –, o cenário climático está cada vez mais instável e a crise ambiental conta com grandes discursos, mas quase nada de ações e de soluções efetivas, faltam especialistas em crises e faltam medidas precaucionais. Slavoj Žižek. Logo, o ponto zero é esse apocalipse que Žižek comentava há alguns anos, mais ou menos uns 20 anos, de que chegaríamos a esse ponto zero de colapso. Estamos cada vez mais dentro dele e nada se anuncia como saída. Segundo Žižek, é uma denúncia sobre a perda da elasticidade do sistema capitalista (retornar ao momento de estabilidade). 34 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 O sistema capitalista é flexível, elástico. Ele entra em crise, se arrebenta, entra em colapso e depois volta ao sistema original. Entretanto, parece que essa capacidade de desmanchar-se e voltar perdeu-se. Sem contar que os estados nacionais, principalmente os estados democráticos, não têm mais grandes lideranças ou grandes posturas mundo afora que consigam estabilizar o sistema político e devolver para nós a normalidade. A vida se tornou esse amontoado de crises e algumas vezes quando, segundo o próprio Slavoj Žižek, juramos que estamos vendo uma luz no fim do túnel, na verdade, é um trem vindo na nossa direção. Talvez a única saída para tudo isso seja desacelerar. Qual desses conceitos você mais achou interessante? 35 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 [TEMA 03]: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL INTRODUÇÃO AO TEMA Concluir a pauta Inteligência Artificial (IA) é impossível. Afinal de contas, ela é uma realidade extremamente nova e, como diria Foucault, nós não conseguimos respostas definitivas para contextos que ainda estão evoluindo. Não sabemos exatamente aonde isso vai chegar, se vamos nos arrepender ou se vamos chegar a uma evolução nunca antes vista ou, ainda, se essa história de inteligência artificial é só uma modinha de rede social. Entretanto, sabemos que a necessidade de conseguir argumentar sobre o assunto é real. Neste material, vamos pensar sobre a nossa própria alienação: Por que é tão difícil entendermos o que realmente está acontecendo? Por que, para nós, é tão estranho e difícil julgar algo que participa cotidianamente da nossa vida? A maioria de nós, convenhamos, não sabe julgar, mal sabe entender o que é, de fato, para fazer um juízo de valor. Por que é tão complicado estabelecer um ponto de vista, um julgamento e, principalmente, uma seleção – é possível usar ou não algo? É possível viver sem isso ou não? Os celulares, por exemplo, nem cogitamos escolher. Não imaginamos mais a nossa vida sem esse equipamento ou sem o acesso à tecnologia. Será que conseguiríamos viver sem a inteligência artificial? Por que isso está além do nosso poder de escolha? 36 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Então, vamos prosseguir a nossa reflexão! SURGIMENTO DA IA O marco da revolução das inteligências artificiais acontece na 4ª Revolução Industrial, principalmente nos anos de 2010 – quando nanotecnologia, softwares e sistemas de desenvolvimento de inteligência artificial ganharam maisespaço por conta da grande evolução científica, da popularização e dos preços mais acessíveis. No entanto, você há de convir que o debate sobre inteligência artificial é muito anterior aos anos de 2010. Embora a inteligência artificial tenha ganhado o gosto popular e se tornado uma forma de convivência da humanidade a partir dos anos de 2010, com a evolução da nanotecnologia, nós já convivíamos com a ideia e com o pesadelo da inteligência artificial desde o século XVIII, quando, por exemplo, os movimentos ludistas já acreditavam que as máquinas ganhariam vidas e se voltariam contra os humanos, desenvolvendo inteligência de alguma forma e nos atacando. Você provavelmente já deve ter visto isso em livros de História e, na verdade, foi uma previsão do futuro, uma vez que as máquinas realmente ganharam inteligência. Hoje, convivemos com máquinas inteligentes – moldadas, inclusive, para ganhar a nossa confiança, nos convencer sobre a viabilidade do seu uso e se tornarem parte da nossa vida a ponto de dependermos dela. Não é à toa que todos os sistemas de inteligência artificial são desenvolvidos com vozes femininas ou personas com vozes femininas. Já observou isso? A Alexa é uma mulher, a Siri do iPhone é uma mulher, a Eva – um robô desenvolvido por inteligência artificial nos Estados Unidos e que visita os talks shows constantemente – é uma mulher. Isso acontece, porque mulheres conseguem ganhar mais a confiança das pessoas do que os homens. Então, todos os sistemas de inteligência artificial são batizados com nomes femininos que incorporam comportamentos e vozes femininas justamente para se esgueirarem pelo nosso cotidiano sem que desconfiemos da sua credibilidade, da sua confiança e da sua capacidade de nos machucar. Não consideramos dessa forma negativa, porque, afinal de contas, são mulheres. Percebe? 37 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Alexa. Siri e Eva Estamos refletindo como a ciência poderia ser destrutiva para nós há muito tempo. Mary Shelley produziu uma das maiores obras de ficção científica e terror da história da humanidade, Frankenstein – o médico, doutor Victor Frankenstein, desenvolve uma criatura que nada mais é do que uma máquina construída a partir do conhecimento elaborado e sistematizado, que sai do controle e ataca o seu próprio criador, ou seja, uma versão dos movimentos ludistas da máquina que ganha vida e autonomia a ponto de atacar o seu criador. Todos os filmes produzidos nos anos de 1980, 1990 e 2000 retrataram isso de alguma maneira. Ex-machina, que fez tanto sucesso nos anos 2000, retrata justamente a evolução de um sistema de inteligência artificial que é capaz de evoluir de forma independente do criador e destruí- lo em seguida. O filme Her ganhou uma notoriedade tamanha ao tratar da mesma questão e com as atuações de Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson – uma máquina produzida para seduzir, envolver e abraçar os seus criadores, que de certa forma cria uma relação de dependência com eles e depois os abandona e ela se torna superior a eles. Portanto, estamos repetindo essa história desde o século XVIII, quando vislumbramos pela primeira vez a possibilidade de desenvolver uma máquina e começamos a desconfiar que essas máquinas em algum momento poderiam se voltar contra nós, e agora estamos vivendo o pesadelo. Estamos vivendo essa realidade, porque as máquinas, de fato, são capazes de sintetizar pensamentos, desenvolver autonomia de pensamento e em algum momento elas vão se rebelar contra nós. Você pode perceber que praticamente todos os filmes de ficção científica que desenvolveram alguma visão sobre robótica trouxeram o mesmo assunto. Exemplos: Robocop (sucesso nos anos de 1990) e Eu, Robô. Tanto na ciência quanto na literatura e no cinema essa questão foi muito retratada e nós estamos agora vivendo isso. Quando mencionei “sintetizar pensamento”, eu quis apontar que a inteligência humana pode ser resumida em 3 pilares: selecionar informações, resumir essas informações e conectá-las para lidar com as situações da realidade. 38 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 Cotidianamente, você é forçado, em um rol de conhecimento produzido na humanidade, a selecionar quais desses conhecimentos você precisa para a sua vida, a resumir essas informações (o mínimo possível para você absorver e aprender) e, a conectar esses pedacinhos para lidar com a realidade. É isso que o sistema de inteligência artificial faz. Quando você pergunta para um chatGPT, por exemplo, ele elabora uma resposta da seguinte forma: seleciona, no universo infinito da internet, quais informações têm a ver com a sua pergunta; resume o máximo possível para te dar uma resposta e conecta todas essas informações para que elas pareçam originais, como se fosse o próprio sistema que tivesse elaborado e não reunido informações para te dar as informações mastigadas. Quanto mais vezes você faz perguntas ao chatGPT, mais ele é capaz de acelerar esses processos de síntese, de conexão e de seleção (e, obviamente, de crescer com esses processos). Seu cérebro também funciona assim. Quanto mais você busca, resume e conecta informações, mais ele é capaz de fazer isso de forma rápida e inovadora. Logo, é isso que essas inteligências fazem e devem fazer em um nível cada vez mais acelerado e aperfeiçoado até que não precisem mais de nós para produzir, até que nós sejamos de certa forma dispensáveis. Assim, o pesadelo que acontecia no movimento ludista do século XVIII e que foi refletido nos filmes e na literatura de ficção científica ao longo de todos esses séculos se concretizará. Você está entendendo o nível daquilo de que estamos tratando? Um sistema de inteligência que criará informações da forma como nós criamos. Sendo que a única característica que nos torna únicos é justamente a capacidade de desenvolver o sistema de inteligência (selecionar, conectar e resumir) e, agora, existe um sistema que fará isso sem precisar de nós. Não sei o impacto que isso produzirá nem tenho a mínima noção do desdobramento disso, porque o movimento ainda está acontecendo, logo, não é possível prever. 39 L ic en se d t o R aq u el S o u za c o el h o - r aq u el co el h o 82 @ g m ai l.c o m - 0 60 .8 95 .9 54 -5 4 O mais assustador é que, mesmo diante da imprevisibilidade desse fenômeno, da extensão desse fenômeno e da forma como nós estamos “alimentando esse monstro” todos os dias, todos nós estamos completamente alienados a tudo isso. Pergunte a quem quer que seja o que está acontecendo em relação à inteligência artificial. O máximo que vão te falar é que a inteligência artificial produziu uma foto do Papa usando um casaco fashion; a Ariana Grande cantando umas músicas de funk; uns vídeos com personalidades em que você não consegue notar que é um vídeo produzido mesmo que você observe pixel por pixel e umas trends que as pessoas estavam pagando para fazer o retrato e colocar nas redes sociais como se fossem pinturas. FUSÃO Agora, vamos pensar sobre o nosso nível de alienação em função da fusão dos processos da inteligência artificial com a indústria cultural, ou seja, para nós esse alto escalão do desenvolvimento tecnológico-científico-informacional nada mais é do que entretenimento, diversão rasa, sem muita complicação, sem muita polêmica, enfim, superficial como qualquer outra produção da indústria cultural. Você sabe bem que os produtos da indústria cultural não geram grandes reflexões nem grandes teses ou preocupações para a população. É um conteúdo rápido e facilmente perecível, porque, assim que passar o tempo daquele produto se apresentar como uma novidade, o conteúdo perderá