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25/05/2023, 21:47 Renascimento Urbano e Comercial na Idade Média
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04617/index.html# 1/39
Renascimento Urbano e Comercial na Idade Média
Marta Carvalho Silveira
Descrição
Compreensão das principais características da Baixa Idade Média e seus desdobramentos.
Propósito
A importância dos conhecimentos necessários aos professores de História e historiadores para ministrar e pesquisar sobre o fim da Idade Média.
Objetivos
Módulo 1
As transformações do século XII
Identificar os fatores que promoveram o renascimento comercial e urbano no período baixo medieval.
Módulo 2
Reforma eclesiástica, escolas catedralícias e universidades
Reconhecer as transformações da Igreja no período da Baixa Idade Média.
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Módulo 3
As heresias como ícone do pensamento crítico
Esquematizar os movimentos de negação do pensamento religioso do período baixo medieval.
Introdução
É corrente entre os historiadores o entendimento de que o século XII pode ser considerado um período de intensas transformações políticas,
econômicas, sociais e culturais na história do Ocidente Medieval.
Contudo, é importante lembrar que tais transformações foram fruto de mudanças na forma de produção, na organização social e nas relações
políticas efetuadas nos períodos anteriores. Portanto, para entendermos mais detalhadamente as inovações trazidas pelo século XII, que muitos
historiadores denominam como o “renascimento”, precisamos recuar um pouco no tempo e analisar o contexto do chamado Ano Mil, entendido
como um rótulo para designar “um conjunto de processos que se estendem no decorrer dos séculos X e XI” (BASCHET, 2006, p. 98).
Por fim, entenderemos os desdobramentos que apontam para o fim do período conhecido como Idade Média e início da modernidade
1 - As transformações do século XII
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os fatores que promoveram o renascimento
comercial e urbano no período baixo medieval.
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Discussão historiográ�ca sobre século XII e XIII
O Ocidente Medieval experimentou, entre os séculos XI e XIII, um crescente nos seus índices populacionais e de produtividade agrícola. Tal
crescimento foi explicado pelos historiadores de formas diversas, veja:
Toda essa discussão em torno dos fatores que levaram ao crescimento populacional e da produção agrícola medieval está longe de ser esgotada
pelos historiadores.
Levando-se em consideração a complexidade desse fenômeno histórico, faremos uma análise a partir da perspectiva dos fatores externos e
internos. Comecemos pelos fatores externos: a expansão muçulmana e o movimento cruzadístico.
Henri Pirenne e outros
Atribuíram esse crescimento a fatores externos, especialmente aqueles relacionados à reabertura das rotas comerciais com o Oriente
pelas Cruzadas.
Marc Bloch
Considerou o aumento demográfico como a base das transformações socioeconômicas como um fator externo.
Pierre Bonnassie e outros
Fundamentaram as suas explicações conciliando fatores internos (a onda de fome que assolou o Ocidente e levou a população a
buscar soluções para a ampliação da produção alimentar) e externos (a lenta difusão de novas técnicas de plantio).
Georges Duby
Concentrando-se mais nos fatores internos, ofereceu uma explicação bastante plausível. Sem desconsiderar as influências externas,
Duby atribuiu a virada na produção agrícola às transformações que a sociedade senhorial enfrentou no Ano Mil, que implicou a
reorganização feudal decorrente do aumento da pressão econômica dos senhores sobre as forças produtivas, além do progresso
técnico resultante da diminuição da utilização da escravidão como forma de trabalho nos senhorios e na difusão dos ideais ascéticos
entre as ordens religiosas, que passaram a ver no trabalho (no caso de Cister, o trabalho manual) uma forma de redenção, atribuindo-
lhe um caráter penitencial.
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Mar Mediterrâneo.
Ao contrário do que pensou Henri Pirenne, em seu clássico livro Maomé e Carlos Magno (2010), a expansão muçulmana no Mediterrâneo não
implicou o isolamento do Ocidente, nem a quebra do comércio entre o Ocidente e o Oriente.
De acordo com Pirenne: “o Mediterrâneo, um lago romano, torna-se um lago muçulmano. A navegação bizantina não ousa mais arriscar-se em alto
mar e não ultrapassa mais as costas da Itália meridional” (PIRENNE, 2010, p. 279).
Sendo assim, o recuo da marinha bizantina tornou o Mediterrâneo uma barreira que isolava o Ocidente, perdendo o seu potencial integrador próprio
do período imperial romano. Tal perspectiva foi contestada pela historiografia que, por vezes caminhando em um sentido inverso, considera a
expansão muçulmana pela zona mediterrânica um dos fatores que incrementou as trocas comerciais e a circulação de pessoas entre o oriente e o
ocidente.
Sobre essa discussão:
As conquistas islâmicas representam um paradoxo para os historiadores do Mediterrâneo. Na visão deles,
foram conquistas que abalaram a unidade mediterrânica; e contudo foi também o islã que forneceu a base para
a criação de uma nova unidade no Mediterrâneo, embora não em todo o mar, pois as redes de comércio e
comunicação islâmicas restringiram-se sobretudo aos seus litorais sul e leste.
(ABOULAFIA, 2014, p. 270)
Eram, portanto, os mercadores os responsáveis por fazer a integração entre as zonas cristãs e muçulmanas, mas a sua circulação dependeria de
uma série de fatores:
Entre estes fatores estavam a identidade religiosa, os mecanismos legais que empregavam para controlar o risco e
assegurar o lucro, e sua capacidade de se comunicar através de vastos espaços. No século X, esses grupos de
mercadores atuaram tanto em terras islâmicas como em partes da Itália (ABOULAFIA, 2014, p. 28).
Das lutas ao comércio: excedentes e trocas
Renascimento urbano
Em 1095, o Papa Urbano II conclamou toda a cristandade a lutar pela libertação da Terra Santa das mãos dos infiéis muçulmanos. Essa
conclamação implicou o domínio da Palestina e o desequilíbrio entre as forças muçulmanas já bastante fragmentadas politicamente.
A ascensão dos turcos seljúcidas, recém-convertidos ao islamismo, sobre o mundo muçulmano resultou no domínio da Palestina e no desequilíbrio
entre as forças muçulmanas. Apesar da existência de elementos culturais conectores, como o uso oficial da língua árabe e a fé islâmica, o mundo
islâmico de fins do século XI sofria com as transformações políticas decorrentes do avanço dos seljúcidas.
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Cruzada Popular na Anatólia
A presença dos seljúcidas na Palestina comprometeu o cumprimento dos antigos acordos comerciais e de trânsito estabelecidos entre as
lideranças muçulmanas e os peregrinos que visitavam a região da Terra Santa, e as relações políticas entre o Império Bizantino e os califas
muçulmanos ficaram seriamente comprometidas. As investidas turcas seljúcidas sobre o Império Bizantino, especialmente na região da Anatólia,
impuseram-lhe duras perdas territoriais.
Foi respondendo a um pedido do imperador bizantino Aleixo I (1056 –1118) que o papa se viu impelido a conclamar os cavaleiros cristãos para a
guerra que oporia religiosa e militarmente cristãos e muçulmanos. Ao analisar o contexto de convocação da primeira cruzada, George Tate afirma:
Mas quando lançou um apelo em favor da Cruzada no concílio de Clermont, em 1095, o Papa Urbano II
obedecia também as considerações de ordem política. As notícias do Oriente, que o pedido de Aleixo I
Comneno vieram confirmar, mostravam que o cristianismo aligerando uma cruzada, pregada em 1208, pelo Papa Inocêncio III, com o apoio do rei da França, Luís IX, e da
Inquisição recém-nascida. O sucesso dessa estratégia cruzadística foi garantido pelo apoio de barões do norte da França, que, pela ação repressiva
do exército, massacrou os habitantes da cidade de Toulouse. Após a destruição da sua principal fortaleza próxima aos Pirineus, em 1244, os cátaros
foram vencidos. Muitos tentaram sobreviver na clandestinidade e outros fugiram para a Itália.
Comentário
Observando a história dos valdenses e dos cátaros, nota-se que os fatores religiosos que estimularam a formação dos dogmas heréticos
encontram-se relacionados ao movimento de institucionalização pelo qual passava a Igreja Romana.
Contudo, a forma como esses movimentos heréticos se desenvolveu historicamente foi marcada pelas especificidades próprias de cada contexto,
não envolvendo somente as altas autoridades eclesiásticas romanas, mas também as autoridades religiosas locais e as forças nobiliárquicas e
monárquicas atuantes na região. Logo, as questões levantadas pelos movimentos heréticos poderiam ser dogmáticas, mas as forças propulsoras
desses movimentos heréticos relacionavam-se às demandas políticas, econômicas, sociais e culturais específicas.
De acordo com Richards (1995) a Igreja utilizou três estratégias básicas para lidar com os movimentos heréticos:
Com o estímulo à pregação e à conversão.
Com a imposição de penitências, da pena de morte e de exílio.
A penitência.
A quebra do pão – Uma espécie de comunhão, mas não equivalente à eucaristia, porque os cátaros negavam a encarnação de Cristo.
A persuasão 
A repressão 
A satanização 
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Com a propagação de ideias estigmatizantes em relação aos hereges, principalmente considerando-os sexualmente devassos.
Como uma forma de combater a multiplicação dos movimentos heréticos, o Papa Inocêncio III (1198-1216), para além de pregar uma cruzada
contra os cátaros, criou estratégias para dar aos pobres, às mulheres e aos jovens uma forma de exercer a sua espiritualidade laico dentro das
normas eclesiásticas oficiais, o que levou muitos membros dos movimentos heréticos a reintegrar-se à Igreja.
Os principais executores dessa perspectiva reintegradora do papado foram os frades. Como lembra Richards:
Os franciscanos e dominicanos propiciaram dentro da Igreja Católica os exemplos de pobreza, castidade e
simplicidade apostólicas que tanto se coadunavam com as sensibilidades exacerbadas de um laicado
espiritualmente propenso para tanto.
(RICHARDS, 1995, 62)
A ordem franciscana, fundada por Francisco de Assis (1181-1226), e a dos dominicanos, cujo fundador foi Domingos de Gusmão (1170-1221),
pregavam a pobreza e a caridade como base do cristianismo. Sua pregação foi muito bem recebida entre os diversos tipos sociais que compunham
a população citadina e buscavam um conhecimento espiritual mais ativo e profundo. Como símbolos da pureza e da caridade, os frades
canalizavam para a oficialidade da Igreja o desejo de espiritualidade proativa e intensa que tomava os fiéis citadinos.
Quadro Renúncia aos bens mundanos, Cenas da vida de São Francisco.
Heresias como ícone de mudança do pensamento medieval
Veja as principais heresias da Baixa Idade Média e os aspectos conjunturais que levaram ao seu desenvolvimento.

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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Na Baixa Idade Média, o direito canônico retomou grande parte dos princípios já presentes no direito romano e adaptou-os às demandas
eclesiásticas. Contudo, os processos de heresia, por vezes, apresentavam algumas discrepâncias que não seriam costumeiramente toleradas
em processos motivados por outras causas. Assinale a alternativa que não corresponde a uma dessas discrepâncias.
A Denunciação sob anonimato.
B Aceitação do testemunho de crianças para acusação mas não para defesa.
C Apresentação de provas diante de um juiz.
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Parabéns! A alternativa C está correta.
Na Idade Média, a construção entre o poder público e religioso é pressuposto para entender que é em torno da formulação política que as
maiores punições eram estabelecidas. O cargo do juiz e suas atribuições é uma construção do direito canônico, mas também do
estabelecimento de um poder público urbano.
Questão 2
Uma das heresias mais populares do período baixo medieval foi o catarismo. O termo cathari significa puro. Os cátaros possuíam três
sacramentos. Assinale a alternativa que corresponde a tais sacramentos:
Parabéns! A alternativa C está correta.
A aristocracia eclesiástica constituída e sua relação com o poder era o centro das críticas dos movimentos heréticos. Assim, o debate sobre a
redução e o foco dos sacramentos, das barganhas e permutas é traço fundamental. Dessa forma, os cátaros entendiam como sacramento: o
batismo espiritual, a penitência e a quebra do pão, que não era equivalente à eucaristia, pois eles negavam a encarnação de Cristo.
Considerações �nais
Como você percebeu, a Baixa Idade Média foi marcada por transformações políticas, econômicas, sociais e culturais que produziram uma série de
mudanças, entre as quais destacamos o florescimento da vida urbana e das relações comerciais, a ampliação da produção agrícola e o
D Aceitação do testemunho de mulheres para acusação mas não para defesa.
E Confissões feitas sob a imposição de privação de sono e alimento.
A Consolamentum, penitência e quebra do pão.
B Batismo, comunhão e crisma.
C Ordem, consolamentum e eucaristia.
D Batismo, eucaristia e ordem.
E Consolamentum, crisma e ordem.
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desenvolvimento do trabalho artesanal, o surgimento dos novos tipos sociais (especialmente nas cidades), a institucionalização da Igreja com a
reforma papal e os conflitos religiosos (como as heresias e as Cruzadas) e a organização das monarquias medievais.
Trata-se, portanto, de um período muito rico a ser estudado por aqueles que se interessam por aprender mais sobre a formação da cultura ocidental.
Sinta-se convidado a explorar e a mergulhar no estudo desse período!
Podcast
Para encerrar, ouça um resumo dos principais aspectos deste conteúdo.

Referências
ABOULAFIA, D. O Grande mar. Uma história humana do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
BARROS, José D'Assunção. Delineamentos para uma compreensão da cidade medieval. Revista Alétheia, v. 8, n. 1, p. 12-32, 2013.
BASCHET, J. A civilização feudal. Do ano mil à colonização da América. São Paulo: Globo, 2006.
BISSIO, B. O mundo falava árabe. A civilização árabe islâmica através da obra de Ibn Khaldum e Ibn Batuta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2013.
FALBEL, N. Heresias Medievais. São Paulo: Perspectiva, 1999.
FRANCO JR., H. A Idade Média. Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 1986.
LE GOFF, Jacques. O homem medieval. Lisboa: Editorial Presença, 1989. 258 p.
LE GOFF, J.; SCHMITT, J-C. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. vol. 2. Bauru: EDUSC, 2006.
MOORE, Robert Ian. The birth of popular heresy. Toronto: University of Toronto Press, 1995.
PIRENNE, Henri. Maomé e Carlos Magno. O impacto do Islã sobre a civilização europeia. Rio de Janeiro: Contraponto, 2010.
VERGER, J. O ensino universitário no século XIII: programas e métodos da faculdade de Artes. In: VERGER, J. Cultura, ensino e sociedade no
ocidente nos séculos XII e XIII. Bauru: EDUSC, 2001, p. 257-276.
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Confira as indicações que separamos especialmente para você!
Leia:
Sexo, desvio e danação. As minorias na Idade Média, de Jeffrey Richards, publicado pela Zahar, 1993.
O Oriente das Cruzadas, de Georges Tate, publicado pela Objetiva, 2008.
Que tal visitar alguns bons canais que tratam da questão, como os do Professor Rodrigo Rainha, o Programa de Estudos Medievais, UERJ e UFRJ?
Conheça a Associação Brasileira de Estudos Medievais, que disponibiliza inúmeros materiais e revistas.corria grande perigo. Por outro lado, não existia
meio mais certo de reunir sob a conduta papal os elementos turbulentos da cristandade do Ocidente do que
engajá-los nesse imenso e audacioso empreendimento que seria a conquista dos lugares santos.
(TATE, 2008, p. 32)
É detectável o aumento do volume comercial entre o oriente e o Ocidente Medieval durante o movimento cruzadístico, mas o renascimento
comercial e urbano não é satisfatoriamente explicável somente a partir dele. Por isso, é necessário atentarmos para as transformações políticas e
socioeconômicas internas detectadas entre os séculos XI e XIII no Ocidente Medieval.
Apesar de ainda não haver um consenso quanto aos fatores que promoveram o crescimento econômico interno ocidental, é possível atribuí-lo a dois
fatores primordiais:

Melhorias climáticas

Uso de novas técnicas de cultivo
Quanto às melhorias climáticas não se sabe exatamente o porquê de elas ocorrerem. Contudo, é possível notar, a partir das fontes dos períodos,
que as condições naturais favoreceram o pleno desenvolvimento das atividades agrícolas. Chuvas e secas na medida certa facilitaram o plantio e o
cultivo realizados pelos camponeses.
Para além dos fatores naturais, o aumento da produção agrícola interna ocorreu também graças à introdução de novas técnicas agrícolas, como:
O uso da charrua, uma espécie de arado com garfos mais profundos e curvados, que facilitou a semeadura do terreno.
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Porém, com a limitação das terras cultiváveis e com o número de componentes por família de camponeses ampliados, estes se viram sem
condições de ter acesso às terras cultiváveis e viram em vilas e povoados o destino mais favorável para conseguir trabalho, especialmente os
relativos às atividades comerciais e artesanais, e garantir o seu sustento.
É importante lembrar que o excedente populacional não atingiu somente o campesinato. As famílias nobiliárquicas
também viram o quadro dos seus integrantes aumentar.
Nesse contexto, difundiu-se o costume de estabelecer a herança pela primogenitura, de modo a inibir a fragmentação do patrimônio familiar. Dessa
forma, as cruzadas soaram como oportunidades valiosas nos ouvidos dos cavaleiros que, carentes de uma herança familiar por não serem filhos
primogênitos, viam nas batalhas travadas uma maneira de construir o seu próprio patrimônio ou, pelo menos, ter acesso aos frutos das pilhagens e
saques.
Expedições religiosas.
O apelo de Urbano II foi bem aceito em diversos setores da sociedade. Reis, cavaleiros, camponeses, comerciantes e clérigos viram nessas
expedições religiosas e militares a oportunidade de acessar territórios e riquezas orientais, e defender a cristandade.
Embora grande parte das expectativas desses personagens tenha sido frustrada, a sua ação ampliou as relações, especialmente no âmbito
comercial, entre o Ocidente e o Oriente. De acordo com Hilário Franco Júnior (1986), o comércio marítimo de longa distância levava para o Ocidente
mercadorias raras na região e se desenvolvia em torno de dois eixos:
O emprego dos fertilizantes orgânicos obtidos da criação de animais.
A mudança no atrelamento dos animais.
A difusão do uso dos moinhos de vento facilitou consideravelmente o trabalho de moagem de grãos.
A adoção do sistema trienal de cultivo no qual, em um sistema rotativo, o terreno era dividido em três partes.
O arroteamento de novas terras antes consideradas incultas (pântanos e florestas) estendeu significativamente as áreas de cultivo,
proporcionando a melhoria das condições alimentares e o consequente crescimento demográfico.
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Mediterrânico
Dominado pelas cidades italianas.
Nórdico
Dominado pelos alemães.
As oito cruzadas realizadas entre 1086 e 1270 geraram ganhos territoriais efêmeros para os reis cristãos, mas favoreceram consideravelmente os
mercadores, especialmente os genoveses e venezianos, que, após a quarta cruzada, conseguiram a isenção tributária no comércio realizado em
Constantinopla e passaram a dominar a rota comercial mediterrânica.
Entrada dos cruzados em Constantinopla, de Eugène Delacroix,1840.
Os venezianos se apossaram de territórios importantes, a partir dos quais tinham acesso aos produtos do Extremo Oriente, como as especiarias,
sedas, perfumes e matérias-primas básicas para serem utilizadas na indústria têxtil, que estava em pleno desenvolvimento na Europa. Os privilégios
comerciais obtidos por Veneza desagradaram aos genoveses que, então, apoiaram os bizantinos em suas disputas contra Gênova e em troca
obtiveram o controle sobre o mar Egeu e o mar Negro (FRANCO JR., 1986, 51).
O comércio ao norte da Europa foi controlado pela Liga Hanseática (ou Hansa Teutônica), criada em 1161 por mercadores que queriam resguardar
os seus interesses comerciais na Europa Oriental e, no século XIV, transformou-se em uma associação de cidades. No século XV, a Liga alcançou o
seu auge “congregando mais de 150 cidades distribuídas por uma faixa de 1500 quilômetros” (FRANCO JR., 1986, p. 52).
Principais rotas comerciais da Liga Hanseática.
A ampliação das redes comerciais internas e externas e o aumento da produção agrícola favoreceram a formação de novas cidades e a reativação
da função mercantil dos núcleos urbanos já existentes. Esse fenômeno de renovação da vida urbana no Ocidente Medieval foi nomeado pela
historiografia como “renascimento urbano”.
Comentário
Essa denominação pode não ser a mais eficaz por favorecer a difusão de uma falsa impressão de que as cidades desapareceram com a
desagregação do Império Romano e da influência romana no Mediterrâneo e renasceram graças às transformações dos séculos XI a XIII.
Jacques Le Goff chamou a atenção para o fato de que os achados arqueológicos e os estudos históricos “permitem matizar o declínio urbano e
afirmar uma vitalidade insuspeita da vida urbana na época romana tardia e nos primeiros séculos da Idade Média” (LE GOFF, 2006, p. 220).
Logo, as cidades não desapareceram com o fim do mundo romano, mas sobreviveram e tiveram as suas funções transformadas durante o alto
medievo.
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As cidades medievais
Ao estudar as cidades medievais, Le Goff (2006) chamou a atenção tanto para a complexidade das formas de vida urbana ocidentais quanto para a
importância de entendê-las não como continuidades das antigas cidades romanas, mas como fenômenos históricos específicos.
Castelo de Óbidos, construído no século XII em Portugal.
Para além das cidades já existentes e que receberam um forte impulso demográfico a partir do século XII, novos núcleos urbanos foram sendo
formados no cruzamento de importantes rotas comerciais (onde se realizavam as feiras e o mercados) ou em torno das muralhas de castelos e
monastérios, onde os moradores conseguiam apoio e proteção em caso de ataques. Daí ser uma característica arquitetônica das cidades a
presença de muralhas e portões, que marcam os limites territoriais e garantem a proteção da população urbana.
Os novos núcleos urbanos que se formavam a reboque do boom demográfico e comercial dos séculos XI a XIII foram denominados “burgos”, termo
que designava “um grupo de casas organizado ao longo de uma rua ou em torno de uma praça” (DUBY, 2001, p. 51) e seus habitantes chamados
burgueses.
Ilustração de um típico burgo formado ao pé de um castelo, de Matthäus Merian, 1643.
Logo, como lembra J. Baschet:
A ‘burguesia’ no sentido medieval não tem, então, nada a ver com a classe que geralmente designamos por
este termo, pois ela inclui tanto cavaleiros como trabalhadores assalariados que residem na cidade.
(BASCHET, 2006, p. 146)
Afora a sua função protetora, as cidadestornaram-se espaços de proliferação das atividades:

Comerciais

Artesanais
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
Cambiais
A população urbana estava envolvida, em grande parte, nessas funções. Contudo, cavaleiros, camponeses e clérigos também compunham a
sociedade urbana. A cidade que se inaugura a partir do século XII é “um mundo novo” com um “espírito novo” (BASCHET, 2006, p. 151).
Uma das mutações econômicas inauguradas pelas cidades medievais e que viabilizaram a organização das atividades artesanais foi a fundação
das corporações de ofícios. Os artesãos se organizavam em corporações de acordo com os seus ofícios. Os seus membros se comprometiam a
seguir as regras de produção impingidas pela corporação, que não só estabelecia o tipo de produto a ser produzido, a matéria-prima utilizada e o
preço mínimo para a comercialização dos produtos, mas também se definia os mestres artesãos que poderiam estabelecer as suas oficinas nas
cidades e onde elas atuavam.
Comentário
Do processo produtivo faziam parte o mestre artesão (aquele que havia alcançado o título após ter sido aprendiz de um mestre artesão), o aprendiz
e os jornaleiros (que recebiam o pagamento de acordo com a sua jornada de trabalho).
A regulação de preços e das normas de produção estabelecidas pelas corporações de ofícios foram entendidas pela historiografia moderna como
uma explicação para a estagnação da economia medieval. Tal explicação só se sustenta se não se levar em consideração que a cultura econômica
medieval difere significativamente da lógica comercial própria do sistema capitalista, que implica a ampliação da produção para a geração de lucros
e aposta na concorrência como o fator impulsionador do sistema produtivo. Além do mais, é preciso ter sempre em mente que apesar da ampliação
da produção artesanal e do comércio, a Idade Média tem como riqueza fundamental a propriedade fundiária.
A riqueza móvel era considerada complementar e restrita, a princípio, a grupos que não possuíam prestígio social.
As corporações funcionavam como instrumentos de assistência, oferecendo suporte às viúvas e aos órfãos em caso do falecimento do mestre
artesão, e de sociabilidade entre os seus membros. Era comum que os artesãos se concentrassem em determinados bairros da cidade e se
colocassem sob a proteção de santos padroeiros para os quais financiavam festas em sua homenagem.
Ao analisar a constituição da cidade medieval José D’Assunção Barros conclui que:
[...] a cidade medieval – que é tão compartimentada quanto as formações urbanas de outros períodos
históricos – encontra-se atravessada caracteristicamente por múltiplos mecanismos de segregação social,
profissional e funcional. Os guetos e bairros onde se organizam centros profissionais e corporativos, ou onde
residem indivíduos de um mesmo tipo – prostitutas, judeus, mouros, operários de um mesmo ofício, religiosos
de uma mesma ordem, famílias e clientelas associadas a um mesmo aristocrata, ricos burgueses que se
fecham na ostentação luxuosa – são apenas um aspecto mais direto e fisicamente concretizado deste
universo urbano onde a sociedade vê-se enredada em uma complexa rede de organismos e associações.
(BARROS, 2013, p. 12)
Atento à complexidade do fenômeno histórico que foram as cidades medievais. Le Goff (2006) aponta alguma das suas características
fundamentais:
Uma sociedade de abundância de recursos
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Com a complexificação da vida urbana, formou-se nas cidades uma aristocracia urbana que disputava com as autoridades eclesiásticas e
senhoriais o controle dos mecanismos administrativos e dos recursos das cidades.
Aos poucos, o termo burguesia passou a ser utilizado para referenciar somente aqueles habitantes das cidades que tinham recursos suficientes
para pagar a taxa de burguesia e participar da vida política urbana.
Vila medieval da Toscana, Itália.
Com base no que observamos até agora, as cidades medievais assumiram diversas formas que variaram de acordo com o espaço geográfico,
apesar das características comuns.
A historiografia comumente denomina esse período de reativação das atividades comerciais e da vida urbana e as transformações a elas
relacionadas como “Renascimento do século XII”, havendo, então, o “Renascimento comercial e urbano”.
Península Ibérica.
Apesar dos elementos citadinos em comum, esse renascimento ocorreu de maneira diferenciada geograficamente. É perceptível nesse contexto a
formação de uma rede urbana mais intensa na região da Península Ibérica, onde a influência urbana muçulmana marcou a organização do espaço e
o avanço das suas conquistas.
Um lugar de produção e de trocas
Um centro de constituição de um novo sistema de valores
Um sistema de organização física de um espaço fechado
Um organismo social e político complexo
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O mesmo ocorreu na Península Itálica, local de desenvolvimento de várias cidades-repúblicas, que se autogeriam e lutavam para barrar os avanços
políticos dos poderes imperiais e senhoriais.
É importante lembrar que a intensificação comercial representou não só o trânsito de produtos oriundos das mais
diversas localidades, mas também a ampliação do deslocamento de sábios, da difusão de conhecimentos e de
manuscritos, o que alterou consideravelmente as formas de pensar, de produzir conhecimento e de educar.
Teoria na prática
Relacione os movimentos militares e comerciais ao renascimento urbano na Idade Média.
Digite sua resposta aqui
Exibir solução
Você deve fazer um texto que demonstre como o comércio e as rotas não representam uma salvação, mas sim um processo e que esse
processo faz com que as vilanias e as cidades ganhem nova projeção.
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O professor Rodrigo Rainha comenta essa relação, pegue caneta e papel e compare sua resposta.
A Baixa Idade Média
Acompanhe um bate-papo sobre os aspectos que levaram ao renascimento urbano, bem como os novos fenômenos culturais que foram resultado
dele.

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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Um dos fatores que promoveu o crescimento demográfico identificado no Ocidente Medieval a partir do século XII foi
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Parabéns! A alternativa D está correta.
A finalização das Cruzadas e a ampliação das rotas comerciais garantiu a ampliação da população, pois se formaram novos núcleos urbanos
ao redor do cruzamento das importantes rotas comerciais, além das suas excedentes trocas estabelecidas com o Oriente permitirem o
incremento das rotas comerciais e o desenvolvimento de feiras e mercado.
Questão 2
As Cruzadas tiveram um papel muito significativo nas transformações políticas, econômicas, sociais e culturais existentes entre os séculos XI a
XIII. Analise as assertivas a seguir e marque a alternativa correta.
I - As Cruzadas foram expedições militares lideradas por senhores feudais interessados somente em reaver os seus senhorios tomados pelo
avanço muçulmano no ocidente.
II - As Cruzadas não trouxeram contribuições para a economia no Ocidente, pois criaram conflitos inexpressivos e exacerbaram o fanatismo
religioso.
III – As Cruzadas foram expedições militares marcadas por um forte sentido religioso, lideradas pela Igreja Católica, que pretendia retirar a Terra
Santa do controle das tribos seljúcidas muçulmanas.
Está(ão) correta(s):
A a retração da vida urbana.
B a redução das áreas de cultivo agrícola.C o desenvolvimento das feiras e dos mercados.
D o término das Cruzadas e a ampliação das rotas comerciais.
E a difusão da prática da escravidão nos senhorios.
A I e II apenas.
B II e III apenas.
C III apenas.
D I e III apenas.
E I, II e III estão corretas.
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Parabéns! A alternativa C está correta.
As dinâmicas das Cruzadas são resultados de transformações na Europa, ampliação do contato com o Oriente, e ajudam nos debates sobre
economia, política e religião.
2 - Reforma eclesiástica, escolas catedralícias e universidades
Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer as transformações da Igreja no período da Baixa
Idade Média.
Reformas religiosas
As transformações ocorridas no século XII não foram apenas no âmbito social e econômico, mas também no campo cultural e político. Uma
importante transformação cultural ocorreu no âmbito eclesiástico.
Como uma maneira de resistir ao predomínio dos poderes senhoriais laicos sobre o seu patrimônio e os cargos de
liderança eclesiástica, o papado promoveu uma série de reformas internas conhecidas como reforma do século XII
ou reforma gregoriana.
É bom lembrarmos que o emprego do termo “reforma gregoriana” tem gerado debates historiográficos nos últimos anos, na medida em que alguns
estudiosos do tema, discordam do uso dessa expressão por considerá-la personalista, pois concede o protagonismo da reforma ao Papa Gregório
VII (1020-1085), sendo que os princípios reformistas também sustentaram as medidas tomadas nos papados posteriores.
Papa Gregório VII.
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Autores como Brenda Bolton consideram que esse projeto reformista teve a ordem de Cluny como sua principal articuladora e propagadora, logo, o
Papa Gregório, originariamente membro da ordem cluniacense, foi um dos líderes eclesiásticos que levaram adiante as estratégias reformistas que
se mantiveram eficazes e foram aprimoradas no pontificado dos seus sucessores.
A reforma eclesiástica concentrou-se em fortalecer a teocracia papal, garantindo ao papa o poder de liderar diretamente os membros do clero e
prover para a sociedade a orientação moral adequada.
Saiba mais
Um dos instrumentos usados para embasar o poder papal foi a elaboração do direito canônico, que estabelecia a autonomia jurídica dos clérigos
em relação às forças senhoriais e lançava as bases de uma estrutura processual utilizada que garantia os princípios por meio dos quais os clérigos
seriam julgados por qualquer ato indevido contra a moral eclesiástica e os princípios teológicos.
Além da formulação do direito canônico, a Igreja empenhou-se em combater a simonia e pregar o celibato clerical. A venda de cargos eclesiásticos,
a simonia, precisava ser combatida pelo papado a fim de impedir uma prática bastante difundida entre a aristocracia laica de indicar pessoas de sua
confiança ou do seu círculo familiar para os principais cargos eclesiásticos, o que na prática fazia com que boa parte das lideranças eclesiásticas
locais ascendessem aos cargos sem demonstrar amplos conhecimentos teológicos, gerando um clero malformado e inculto aos olhos do papado.
Pintura que ilustra a simonia, venda de privilégios dentro da igreja.
Outra estratégia utilizada pelo papado em relação à disciplinarização dos clérigos foi reforçar a castidade clerical, retomando as determinações
conciliares já estabelecidas quanto à proibição do casamento dos clérigos.
Essa medida pretendia, para além dos elementos morais e teológicos, impedir o movimento crescente de
dilapidação do patrimônio eclesiástico, que ocorria quando o clérigo deixava as terras da Igreja como herança para
os seus filhos.
O projeto teocrático reformista não se limitava a regular a conduta do clero e reorganizar internamente os mecanismos do poder do papa, mas
estendia-se a toda a sociedade, a qual a Igreja considerava ser da sua responsabilidade disciplinar e ordenar.
Comentário
Os teólogos reformistas difundiram, por meio de sermões, concílios e escritos, modelos comportamentais para os mais diversos grupos sociais,
inclusive aqueles que estavam à margem da sociedade, como as mulheres, os mouros, os judeus, os doentes etc.
Analisando os ideais que moveram a reforma papal e a relação existente entre eles e o movimento cruzadístico:
Estavam assim reunidas todas as condições para o exercício do poder papal sobre a comunidade cristã. Em
relação aos clérigos, o papado legisla e julga, tributa, cria ou fiscaliza universidades, canoniza os santos, institui
dioceses, nomeia para todas as funções, reconhece novas ordens religiosas. Em relação aos laicos, julga em
vários assuntos, cobra o dízimo, determina a vida sexual (casamento, abstinências), regulamenta a atividade
profissional (trabalhos lícitos e ilícitos), estabelece o comportamento social (roupas, palavras, atitudes),
estipula os valores culturais.
(FRANCO JR. 1986, p. 119-120)
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As autoridades eclesiásticas viram-se desafiadas também a criar estratégias de evangelização e moralização direcionadas às comunidades urbanas
recém-fundadas ou àquelas cidades alto medievais que tiveram a sua função econômica impulsionada com as transformações dos séculos XI a
XIII.
Nesse quadro, a Igreja ocupou um espaço importante, garantindo a difusão de uma cultura escolar no espaço
urbano.
Pregar e educar nas cidades medievais
Nas cidades começaram a surgir núcleos de produção de saberes e de ensino que se encontravam diretamente sob a liderança das autoridades
eclesiásticas. As escolas catedralícias se espalharam pelas mais influentes cidades medievais e atraíam uma gama de estudantes ligados tanto ao
setor eclesiástico quanto ao laico.
Porém, as escolas catedralícias não podem ser consideradas como as primeiras iniciativas educacionais
eclesiásticas abertas aos laicos.
Jacques Verger, ao analisar aspectos da educação medieval nos séculos XII e XIII, ressaltou que antes do século XII já existia “uma rede de escolas
bem estabelecida e relativamente coerente” (VERGER, 2001, p. 36), que foi implantada ao longo da Alta Idade Média e cuja base fundante estava na
tradição e na busca pela legitimidade da ortodoxia religiosa.
Dessa maneira, a Igreja Romana tomou para si a responsabilidade de educar a população. As escolas monásticas, então, tornaram-se as principais
referências educacionais até a intensificação da vida urbana e a fundação das escolas catedralícias que não eliminaram a atuação das escolas
atreladas aos monastérios, mas se forjaram como referências primordiais nas áreas urbanas recém-estruturadas (VERGER, 2001, p. 38).
Ilustração de uma escola monástica, de G. Owen Bonawit.
A formação recebida pelos estudantes nas escolas catedralícias era pautada basicamente nos textos bíblicos e nos textos básicos produzidos por
“autoridades”, ou seja, textos bíblicos comentados pelos doutores da Igreja, e nas obras de sábios e filósofos antigos. A produção intelectual
crescente dos mestres resultou na elaboração de glosas, comentários e tratados, graças ao aperfeiçoamento da exegese dos textos e ao contato
crescente com “novos” textos, que circulavam pelo Ocidente Medieval, via rotas comerciais e escolas de tradução.
De acordo com Jacques Verger (1999), duas características marcaram a cultura erudita medieval:

O uso do latim.

A retomada do estudo das obras de Aristóteles.
O latim era a língua presente nos manuscritos encontrados nas bibliotecas, escolas e demais centros de produção de saberes.
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Comentário
No século XII, o latim era falado em rituaiseclesiásticos, mas muito pouco utilizado no cotidiano social, em que as línguas vernáculas ganhavam
cada vez mais espaço.
A ampliação das escolas catedralícias e a ação intensa dos mestres e estudantes envolvidos na obtenção e na elaboração de uma cultura erudita
foi significativamente influenciada e inspirada pela leitura dos textos do filósofo grego, Aristóteles.
Enquanto a cultura erudita alto medieval foi significativamente influenciada pelos escritos e pensamentos de Platão, diligentemente guardados,
veiculados e revisitados pelos filósofos que viveram na transição do mundo romano para o medieval, como foi o caso de Plotino, a cultura erudita
tecida nas escolas catedralícias e nas universidades teve como grande inspiração filosófica os princípios aristotélicos. Veja abaixo:
Escolas catedralícias e universidades
Influenciadas e inspiradas nos pensamentos e textos do filósofo grego, Aristóteles.
Cultura erudita alto medieval
Influenciada e inspirada nos pensamentos e escritos do filósofo grego, Platão.
A filosofia aristotélica, que pressupunha o profundo conhecimento do mundo natural como caminho para o desenvolvimento do conhecimento
sobre si, foi adaptada pelos teólogos, assim como já o fora o platonismo, para as novas demandas espirituais que moviam a sociedade,
especialmente a complexidade da sociedade urbana.
A difusão do aristotelismo nas escolas e universidades “caiu como uma luva” para justificar e embasar o desejo de mestres e estudantes por um
conhecimento mais profundo acerca da realidade e do mundo natural.
O conhecimento passa a ser entendido não como uma ameaça à espiritualidade, mas sim como um caminho para o
enaltecimento de Deus e de seus feitos.
Dessa maneira, os mestres do período entendiam que quanto mais se aprofundavam no estudo, mais próximo de Deus e da sua vontade eles se
encontravam. O conhecimento, portanto, tornou-se uma revelação divina. Esse foi o princípio da escolástica, cujo maior expoente foi o teólogo
Tomás de Aquino.
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Tomás de Aquino por Gentile da Fabriano.
Por volta de 1200, praticamente toda a obra de Aristóteles estava traduzida para o latim e reverberava por todo o Ocidente, embora a sua aceitação
não tivesse sido nem imediata, nem absoluta. Não se sabe se o aristotelismo foi ensinado nas escolas de nível básico, mas como afirma Verger:
[...] No entanto, pode-se supor que qualquer pessoa que houvesse recebido na Idade Média uma formação de
certo nível fosse na Universidade ou em alguma escola pré-universitária, teria sido, por essa mesma razão,
iniciada na lógica de Aristóteles ou, pelo menos, nos aspectos mais conhecidos de sua filosofia.
(VERGER, 2001, p. 34)
Seguindo o modelo educacional greco-romano, a cultura escolar medieval adotava o ensino das sete artes liberais, repartidas em:
Trivium
Gramática, retórica e dialética.
Quadrivium
Aritmética, música, geometria e astronomia.
A “descoberta” dos escritos aristotélicos esteve diretamente relacionada à ampliação das rotas comerciais que conectavam o Oriente e o Ocidente
Medieval. Por elas transitavam diversos tipos de produtos, inclusive manuscritos comercializados por mercadores de origens variadas, mas
especialmente judaica e muçulmana, que reconheciam o valor desses produtos. Afora os produtos que nelas circulavam, tais rotas também
viabilizavam o deslocamento de diversos homens de saber que viajavam para locais diversos ao Ocidente e ao Oriente em busca de conhecimento.
Livro 7 da Metafísica de Aristóteles.
A difusão da obra aristotélica aconteceu de modo mais efetivo conforme as traduções dos manuscritos gregos foram sendo realizadas em dois dos
mais ativos centros de tradução: a Península Ibérica e a Península Itálica. Na imagem, o começo do livro 7 da Metafísica de Aristóteles, traduzido
para o latim por William van Moerbeke.
Na Península Ibérica, havia uma série de escolas de tradução, em virtude da presença muçulmana na região desde o século VIII e do grande número
de comunidades judaicas que se formaram tanto nas regiões dominadas por cristãos quanto por muçulmanos.
A Península Itálica era outro centro de tradução bastante ativo. Além da riqueza cultural própria de uma região que havia sido o centro do último
grande império da Antiguidade, era também o local onde a língua latina era ainda mais conhecida e reverenciada. Dessa maneira, os tradutores,
especialmente os da cidade de Palermo, especializaram-se em traduzir as obras clássicas gregas para o latim.
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Tradutor no século XII.
Essas traduções eram distribuídas, assim como as que eram feitas na Península Ibérica, pelas redes de abadias e escolas ocidentais.
Comentário
É notada também a tradução de obras do árabe para o latim ocorridas nessa região, em virtude da presença de comerciantes e sábios muçulmanos
que alimentavam o tráfico de manuscritos e de conhecimento.
O fato de as transformações dos séculos XI a XIII terem facilitado a interação entre diversas regiões não significa, absolutamente, que as conexões
entre centros de saberes tenham sido privilégio desse período. As bibliotecas existentes nos diversos monastérios se conectavam como uma rede
de trocas de manuscritos, cuidadosamente copiados e ilustrados pelos monges que faziam do trabalho intelectual os mecanismos através do qual
exerciam a sua espiritualidade.
Merece destaque o tesouro intelectual guardado nos monastérios da ordem de Cluny.
O amplo espaço que as escolas catedralícias ocuparam na cultura educacional medieval é explicável também pelo fato de que as escolas
monásticas praticamente passaram a dedicar-se à formação do clero, uma das estratégias relacionadas à reforma papal. As escolas monásticas
concentraram os seus esforços na formação e na depuração do clero regular, atraindo cada vez menos membros externos às ordens religiosas e
privilegiando a oração, a penitência, a ascese e o trabalho manual. Logo, às escolas catedralícias cabia atender ao público laico interessado em uma
formação educacional que lhe permitisse ocupar os cargos e desempenhar profissões próprias da vida urbana, além de auxiliar também na
educação clerical. Veja no esquema a seguir:
Escolas monásticas
Voltadas para a formação e depuração do clero regular, atraindo cada vez menos membros externos às ordens religiosas.
Escolas catedralícias
Voltadas para formação do público laico, permitindo que desempenhassem profissões próprias da vida urbana.
Apesar do papel central que as escolas catedralícias exerceram na educação baixo medieval, elas existiam somente nas cidades mais centrais. Para
além das escolas catedralícias nas cidades e povoados havia as escolas capitulares (ligadas a um cabildo local de cônegos regulares) e escolas
privadas abertas por mestres independentes, além da prática da preceptoria individual muito utilizada pelas famílias aristocráticas (VERGER, 2001,
p. 41).
Saiba mais
A ausência de fontes primárias que facilitem o estudo da cultura escolar catedralícia dificulta o entendimento acerca do funcionamento detalhado
dessas escolas.
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As universidades medievais
Nota-se que o crescimento das escolas catedralícias e a existência de outras formas escolares demonstram o interesse que as autoridades
eclesiásticas e laicas locais tiveram na formação daqueles que exerceriam as profissões desempenhadas no ambiente urbano.
Reunião de doutores na Universidade de Paris.
Ao papado interessava reforçar a educação dos seus membros a fim de garantir a sua autonomia frente aos poderes senhoriais locais. Já os
monarcas, que desde o século XII moviam-se para submeter os poderes senhoriais à sua autoridadecentral, interessavam-se por reforçar as bases
administrativas e burocráticas do seu reino, sendo necessário, para tanto, preencher o seu quadro de funcionários régios.
Para além disso, as próprias cidades, que cada vez mais promoviam a estruturação da base das organizações políticas municipais, careciam
também de indivíduos com conhecimentos suficientes para ocupar os cargos públicos.
A educação formal, portanto, era entendida como necessária àqueles que quisessem encontrar um espaço na nova
lógica do trabalho que a ampliação da rede comercial e urbana e as transformações políticas e eclesiásticas
ocasionaram.
O historiador Jacques Le Goff elaborou um vasto estudo sobre os intelectuais medievais e a sua formação educacional em sua obra Os intelectuais
na Idade Média (1989). Le Goff entendeu a cidade como o lugar por excelência do “modelo do intelectual medieval” que formou uma “elite
governante”, da qual passaram a fazer parte os filhos da burguesia e em alguns casos, os filhos dos camponeses.
Nas palavras do referido autor:
É certo que jovens nobres, e logo em seguida também jovens burgueses, constituíam a maioria dos estudantes
e dos mestres, porém, o sistema universitário permitia uma real ascensão social para certo número de filhos de
camponeses.
(LE GOFF, 1989, p. 9)
Esses intelectuais, formados a partir do século XII inicialmente nas escolas catedralícias e posteriormente nas universidades fundadas no século
XIII, passaram a integrar as estruturas de poder eclesiástico e monárquico fundamentados nesses dois séculos.
Dessa maneira, para Le Goff (1989, p. 9):
“Os intelectuais da Idade Média são, antes de tudo, intelectuais ‘orgânicos’, fiéis servidores da Igreja e do Estado”.
Inspirados pelo modelo teocêntrico de poder, difundido no Ocidente por meio da reforma eclesiástica, muitos monarcas ocidentais aproveitaram as
mudanças ocorridas no sistema feudal, que envolveu no declínio da força política e patrimonial nobiliárquica, para expandirem o seu projeto de
centralidade do poder régio, sobretudo a partir do século XIII.
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Comentário
Na disputa de poderes que caracterizou os séculos XII e XIII, as lideranças citadinas tiveram um papel muito importante, sobretudo ao apoiar as
medidas que envolviam o reforço da autoridade monárquica, que lhes garantiria benefícios como o imposto e a moeda única, subtraindo-as das
exigências do poder senhorial local.
Desse modo, muitas cidades se tornaram centros de apoio ao poder régio e alcançaram a sua autonomia frente aos poderes senhoriais locais ao
conseguirem as suas cartas de franquia, e integrando o movimento comunal. Tal movimento pretendia fundamentalmente promover a ruptura dos
laços senhoriais, a fim de pôr fim às taxações tributárias consideradas excessivas.
As transformações identificadas no século XII estenderam-se para o século seguinte. A importância do século XIII está relacionada, segundo Le
Goff, à existência de quatro elementos principais:

O crescimento urbano

O desenvolvimento do saber

A renovação do comércio e da promoção dos mercadores

A criação e a difusão das ordens mendicantes
Segundo Le Goff, este último último item, a criação e a difusão das orden medicantes, “sustenta e alimenta os três outros”.
Comentário
Nota-se que, na perspectiva do autor, a criação de escolas urbanas e das universidades estiveram diretamente relacionadas à ação das ordens
mendicantes. Logo, para Le Goff, a fundação e a sobrevivência das universidades dependiam da força motriz da Igreja e da sua relação com o poder
monárquico.
Fundadas no século XIII, em algumas das principais cidades do Ocidente Medieval, as universidades trouxeram inovações consideráveis no
desenvolvimento e no registro da cultura erudita e nas formas de ensino.
A grande inovação trazida pelas universidades para o campo do conhecimento foi não só a produção do saber, mas
também o estudo dos métodos e dos conteúdos de ensino.
Nelas foi constituída uma cultura letrada pautada no universalismo cristão, apesar das especificidades que envolviam a sua produção nos diversos
locais de saber.
Embora mantivesse como base de ensino as sete artes liberais, o ensino universitário promoveu a renovação da gramática, tendo como referência
os clássicos, e investiu no estudo sistemático e profundo da dialética tomando como base a lógica aristotélica (LE GOFF, 2006, p. 575).
O método dialético permitia aos mestres treinar em seus alunos o uso da lógica argumentativa. O mestre propunha uma questão complexa a ser
debatida pelos estudantes até que a disputa fosse encerrada por falta de argumentos. As disputas eram um dos instrumentos avaliativos utilizados
pelos mestres para avaliar os seus discípulos.
A relação entre os mestres e os estudantes era intensa. Muitos discípulos seguiam os seus mestres e por vezes viviam com eles. Ainda mais
quando eram mestres que gozavam de uma grade fama e que, portanto, atraíam alunos para as escolas e universidades. Era o caso, por exemplo, de
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Pedro Abelardo, um dos mestres parisienses mais renomados do seu tempo e que vivia cercado de seus alunos, frequentando as tabernas com eles
e compondo cantigas jocosas, atribuídas a uma massa de estudantes apelidada, no século XII, de goliardos.
Pedro Abelardo e sua cônjuge Heloísa de Argenteuil.
O ensino universitário medieval seguia basicamente dois modelos: o de Paris, onde mestres e estudantes formavam uma mesma comunidade, e o
de Bolonha, em que somente os estudantes “formavam juridicamente a universitas” (LE GOFF, 2007, p. 173). O modelo que sobreviveu à Idade Média
foi o parisiense. Os mestres universitários, assim como hoje, conciliavam o trabalho de reflexão e de escrita com a prática docente.
Professor e alunos na segunda metade do século XIV.
As universidades contavam com a licença papal e com o apoio dos monarcas para funcionar. Mestres e estudantes transitavam pelos diversos
centros universitários em busca de saber, o que mantinha em pleno funcionamento uma rede de trocas de conhecimento dos mais diversos tipos.
Nas universidades, o estudante poderia alcançar três graus na sua formação:

Bacharelado

Licença docente

Doutorado
Tais níveis de formação estavam disponíveis a nobres e não nobres, mas em geral eram difíceis de serem alcançados, visto que o estudante levava
vários anos para consegui-los e precisava manter-se vivendo nas cidades, por conta própria, enquanto pagava por essa formação.
Há informações sobre a existência de alguns programas de bolsas oferecidas por pessoas abastadas a alguns
estudantes pobres para que alcançassem a sua formação (LE GOFF, 2007, p. 179).
Le Goff e Verger entenderam as universidades como instituições próprias do seu tempo, não as considerando como formas finais de um sistema de
ensino que teria iniciado com as escolas monásticas, evoluído para as escolas catedralícias e finalizado com a formação das universidades, como
“um progresso contínuo e irreversível” (VERGER, 2001, p. 12).
Resumindo
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As universidades são uma instituição originariamente medieval e mesmo na contemporaneidade mantêm boa parte das suas características
iniciais. A divisão do conhecimento em cátedras, os graus de formação acadêmica, a produção do conhecimento e o seu registro em obras
tratadísticas, a prática da docência, entre outros elementos de certa forma estão presentes até a contemporaneidade.
Teoria na prática
As reformas religiosas têm uma importante relação com os concílios ecumênicos de Latrão. Relacione sua história aos movimentos políticos e
sociais dos séculos XII e XIII na Europa.
Digite sua resposta aquiExibir solução
Você deve buscar os concílios e as informações, para que possa notar o uso do documento. Seu ponto é relacionar as múltiplas faces da
Igreja, na cidade, na intelectualidade, como liderança política e social.
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Vamos ouvir o comentário do professor Rodrigo Rainha sobre a questão.
Tempos de Reformas na Idade Média
Acompanhe uma entrevista sobre o mundo social das Reformas da Idade média e quais foram os principais objetivos.
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
O objetivo fundamental da reforma eclesiástica do século XII, também nomeada por alguns historiadores como Reforma Gregoriana foi
A utilizar as relações feudo-vassálicas estabelecidas no Império Carolíngio na organização das ordens religiosas.
B deter o avanço dos muçulmanos sobre a Palestina e a ação dos turcos seljúcidas na Terra Santa.
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Parabéns! A alternativa D está correta.
A ideia de organizar a Igreja centralizando forças políticas nesse sentido é o papel buscado nas reformas gregorianas.
Questão 2
A educação medieval passou por uma mudança significativa nos séculos XII e XIII, que ocorreu em consonância com as transformações
econômicas, políticas, sociais e culturais desses mesmos períodos. Avalie as assertivas sobre as características da educação baixo medieval.
I - As sete artes liberais eram a base sobre a qual se organizava o estudo e o ensino no baixo medieval.
II - As escolas catedralícias foram fundadas junto aos monastérios para promover a educação da população rural.
III - As universidades formavam profissionais para atuar em um contexto de renascimento urbano e comercial e de formação das cortes
monárquicas medievais.
IV - A difusão das traduções das obras aristotélicas no Ocidente Medieval representou um marco na elaboração de conhecimentos referentes
às sete artes liberais.
V - As universidades formavam uma espécie de corporação, em que somente aqueles que recebessem o título de mestre poderiam tornar-se
docentes.
Marque a alternativa correta:
Parabéns! A alternativa B está correta.
C garantir o acesso dos senhores laicos aos cargos eclesiásticos.
D
elaborar um modelo teocrático papal que garantisse ao pontífice o controle efetivo sobre o clero, o patrimônio e os cargos
eclesiásticos, além de promover a disciplinarização social.
E construir estratégias missionárias que garantissem a evangelização dos povos considerados infiéis.
A I, II, III e V estão corretas.
B I, III, IV e V estão corretas.
C II, III, IV e V estão corretas.
D Somente I e II estão corretas.
E Somente III e V estão corretas.
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As estruturas políticas dialogam com as sociais, assim, ainda que a educação tivesse uma origem nas escolas catedralícias é a partir da
formação das universidades que ganha sentido. Ela não era utilitarista, automática, e nem criava a relação com as sete artes liberais, mas sim,
estruturava-se em corporações, criando hierarquias para suas funções.
3 - As heresias como ícone do pensamento crítico
Ao �nal deste módulo, você será capaz de esquematizar os movimentos de negação do pensamento
religioso do período baixo medieval.
O herético na Idade Média
As transformações ocorridas nos séculos XI a XIII, como vimos, também reverberaram no campo religioso. A reforma eclesiástica que o papado
levou adiante pretendeu, sobretudo, disciplinar tanto os clérigos quanto os laicos. As heresias representaram o ponto máximo da desobediência aos
princípios teológicos e morais propostos pela Igreja.
Expulsão dos cátaros de Carcassonne.
Especialista nos estudos das heresias medievais, Nachman Falbel (1999) considerou os séculos XII e XIII como “séculos heréticos”.
Saiba mais
A palavra heresia é derivada do grego hairesis, cujo significado é escolher. Foi utilizada pelos teólogos medievais para nomear uma doutrina
contrária aos princípios da fé oficialmente declarada (FALBEL, 1999, p. 13).
As divergências teológicas, especialmente no momento de elaboração e de afirmação da oficialidade da fé cristã, foram constantes na cultura
religiosa medieval. Contudo, para Falbel (1999, p. 13), há diferenciações notórias entre os movimentos heréticos medievais:
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Heresias alto medievais
Surgiram imersas nas especulações em torno dos princípios ou dogmas cristãos, que envolviam, principalmente, a questão da Trindade, da
natureza divina e ou humana de Cristo e da essência da divindade.
Heresias baixo medievais
Surgiram no questionamento da Igreja como instituição, na medida em que ela teria abandonado os princípios inaugurados pelas comunidades
eclesiásticas primitivas, e foram marcadas por uma forte participação popular.
R. I. Moore, na década de 1970, endossou a perspectiva de que as heresias baixo medievais foram uma espécie de resposta evangelística “ao
mundanismo percebido e à corrupção da Igreja”, já que a reforma da Igreja teria “transformado o papado numa instituição monárquica organizada,
burocrática e legalista, com o clero transformando-se numa casta fechada e exclusiva” (MOORE, 1995, p. 54).
Apesar das diferenciações existentes entre as heresias iniciais e finais da Idade Média, elas foram combatidas pela
Igreja, que arregimentou o apoio das autoridades laicas na repressão aos heréticos.
A proximidade entre a Igreja e o Estado romano se tornou efetiva desde o momento em que o cristianismo foi alçado pelo imperador Teodósio à
posição de religião oficial do Império Romano. Contudo, tal ação não significou a condenação e a perseguição, em um primeiro momento, daqueles
que praticavam o que as autoridades eclesiásticas consideravam como paganismo.
O enfraquecimento crescente do poder imperial romano promoveu dialeticamente o fortalecimento da autoridade papal no Ocidente. Fortalecida, a
Igreja Romana não tardou a tomar para si o poder de regular a doutrina cristã e combater todos aqueles que apresentavam variáveis filosóficas à
ortodoxia que se pretendia estabelecer como oficial.
Igreja Romana construída em 1275.
O combate aos hereges tornava-se também uma questão de Estado. No Concílio de Niceia (325) ficou estabelecido que caberia ao Estado punir os
sacerdotes heréticos, promovendo, assim, o uso de formas legitimadas de violência contra aqueles que questionavam a ortodoxia da fé cristã.
Devido à sua missão essencialmente espiritual, a Igreja não poderia ter a sua pureza espiritual comprometida ao
penalizar um indivíduo à morte, mas utilizava-se de argumentos retirados dos textos sagrados e dos escritos dos
primeiros teólogos para embasar medidas persecutórias em relação aos hereges.
Tal perspectiva endossou as ações do papado que instaurou a Inquisição, no século XIII, e estabeleceu medidas que identificavam e perseguiam os
membros dos movimentos heréticos. Provas disso foram:
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Veja abaixo uma ilustração contemporânea de Inocêncio III convocando a Quinta Cruzada no IV Concílio de Latrão de 1215:
Inocêncio III convocando a Quinta Cruzada em 1215.
O poder e a Igreja no combate aos hereges
O estabelecimento da punição dos hereges pelas autoridades públicas é um sinal do alinhamento existente entre o papado e o Estado romano, mas
também representa uma diferenciação entre as esferas punitivas de ambos os poderes. À Igreja cabia punir a alma, já o Estado era o responsável
por punir o corpo daqueleque comprometesse o funcionamento harmonioso da sociedade.
A prática punitiva violenta, mas necessária ao ordenamento social, caberia exclusivamente ao Estado romano e, na
Baixa Idade Média aos reis medievais.
Os hereges não eram, portanto, somente aqueles que questionavam a ortodoxia da fé cristã, mas também comprometiam a harmonia social tanto
na Alta quanto na Baixa Idade Média. Por isso, a penalização máxima e exemplar para os condenados de heresia era necessário aos olhos da Igreja
e da monarquia para impedir a quebra do ordenamento social.
Punição de hereges 1210.
A pregação, pelo Papa Inocêncio III, de uma cruzada contra os albigenses (1028).
A instauração do Tribunal do Santo Ofício, em 1229, por Gregório IX.
O estabelecimento, no IV Concílio de Latrão (1215) de medidas punitivas para os senhores laicos que protegessem hereges em seus
territórios, ameaçando-os com a perda dos seus domínios.
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Historiadores como R. Moore, N. Falbel e J. Richards consideraram as heresias baixo medievais como fenômenos urbanos. Isso porque o espírito
urbano fortaleceu ainda mais o sentimento comunitário entre os citadinos, que se agrupavam em confrarias e associações, e fez surgir novos tipos
sociais, influenciados pelos novos saberes que circulavam na urbe (especialmente com a difusão, em maior ou menor grau, do aristotelismo).
Os hereges eram perseguidos fundamentalmente por apontarem os erros e desvios da instituição eclesiástica e por
condenarem as constantes intervenções da Igreja no poder secular à custa de sua missão espiritual.
Grande parte das críticas dos hereges em relação à Igreja baixo medieval relacionava-se ao fato de considerarem que o clero havia se distanciado
do cristianismo primitivo. Tal distanciamento estaria expresso no enriquecimento clerical e no descumprimento aos ideais religiosos que motivaram
a formação das primeiras comunidades cristãs, em que a prática da caridade e a igualdade dos seus membros guiavam o ideal cristão.
De acordo com J. Richards:
Tanto as deficiências do clero, realçadas pelo movimento de reforma, quanto a crescente riqueza, a burocracia
e a politização do papado, com seu pesado envolvimento em guerras, ações judiciais e impostos, serviram para
enfatizar o caráter desejável de uma visão alternativa, a qual era cada vez mais incentivada.
(J. RICHARDS,1995, p. 54)
O retorno à vita apostolica era a meta de todos aqueles que buscavam uma vida espiritual baseada no ascetismo, na pobreza e na pregação, que na
prática resultava “em uma vida esmolando ou realizando trabalhos manuais simples” (RICHARDS, 1995, p. 54). A prática da ascese, da humildade e
da caridade era algo que tornava os hereges muito próximos aos monges, o que desagradou as autoridades eclesiásticas, que consideraram essa
nova religiosidade como uma ameaça ao reconhecimento social do papel espiritual da Igreja.
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A heresia e a luta contra o poder hegemônico
As concepções religiosas que embasaram boa parte das heresias baixo medievais eram retiradas dos textos bíblicos interpretados literalmente e
que se tornaram mais difundidos quando foram traduzidos do latim para as línguas vernáculas.
O acesso ao texto bíblico traduzido favoreceu o aparecimento dos livres pregadores que arrebanhavam fiéis
interessados em aprofundar a sua relação com a divindade e gozar de uma vida espiritual plena.
Como lembra Richards:
Acima de tudo, a perspectiva apostólica promovia a ideia de que a perfeição pessoal era o objetivo principal da
religião, e de que qualquer um podia fazer contato direto com Deus vivendo uma vida pura, em vez de fazê-lo
através do clero.
(RICHARDS, 1995, p. 55)
Justamente porque desenvolveram um apego ao texto bíblico, os hereges, em geral, rechaçavam tudo aquilo que não estava explicitado nas
Escrituras e que faziam parte da tradição e da teologia católica. O batismo de crianças, as orações pelos mortos, a confissão e a transubstanciação
são exemplos de práticas e rituais condenados pelos hereges.
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Ritual de batismo.
Conforme o direito canônico foi se desenvolvendo no século XII, em decorrência do movimento reformista papal, a Igreja tornou-se cada vez mais
hierarquizada na sua organização interna e criou mecanismos legais pelos quais não só pretendia salvaguardar a autonomia clerical, mas também
garantir para si o direito de punir os seus membros. Foi no âmbito das reflexões jurídicas eclesiásticas que a noção de processo ganhou espaço na
legislação canônica e, posteriormente, na legislação régia.
A noção de processo canônico retomou grande parte dos princípios já presentes no direito romano e adaptou-os às
demandas eclesiásticas.
O uso adequado dos elementos processuais visava garantir aos olhos da sociedade que aquele que havia cometido um crime ou delito estaria
sendo punido de forma justa tanto aos olhos de Deus quanto aos olhos da sociedade.
Desse modo, o processo movido contra um suspeito de heresia seguia as etapas processuais exigidas, a saber, denúncia, apresentação de provas e
de testemunhas diante de um juiz, bem como a anunciação de uma medida punitiva por um tribunal. Contudo, os processos de heresia por vezes
apresentavam algumas discrepâncias que não seriam costumeiramente toleradas em processos motivados por outras causas.
Exemplo
A denúncia de heresia poderia ser feita anonimamente e as mulheres e as crianças poderiam ser testemunhas de acusação, mas não de defesa.
Além disso, os métodos de confissão beiravam a tortura, já que por vezes o acusado era submetido à privação do sono e do alimento para facilitar a
confissão (FALBEL, 1999, p. 17).
Em diversos códigos jurídicos que circularam no Ocidente Medieval do século XII a fins da Idade Média, a heresia era considerada uma ação
passível da aplicação da pena capital: a morte. E, muito significativamente, a morte na fogueira, de modo que nem as suas cinzas pecaminosas
permanecessem na Terra e os seus corpos não pudessem participar da ressurreição prevista no Juízo Final, conforme previa a concepção
escatológica cristã medieval. A Igreja, então, voltava todo o seu peso punitivo e a sua autoridade contra esses hereges a quem puniam para torná-
los exemplos para aqueles desrespeitassem as autoridades eclesiásticas.
Apesar dos pontos em comum, a busca por uma vida religiosa alcançada por meio da ascese, da adesão ao
evangelho e da pregação, as heresias dos séculos XI a XV tiveram as suas próprias histórias e especificidades.
Papa Gregório VII.
As heresias que surgiram no século XI foram resultado em grande parte dos esforços reformistas do Papa Gregório VII, que estimulou a ação dos
pregadores populares itinerantes como uma forma de instigar os fiéis contra a apatia do clero local e o combate ao pecado presente no seio da
Igreja.
Muitos desses pregadores não renunciaram aos princípios ortodoxos da fé cristã, mas canalizavam o interesse espiritual dos seus fiéis para as
ordens religiosas, das quais alguns deles foram os fundadores, como Roberto de Molesmes, que fundou a Ordem de Cister. Contudo, alguns deles
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radicalizavam as suas críticas e não acreditavam que o desenvolvimento da espiritualidade passava pelo cumprimento dos dogmas da Igreja, que
consideravam rica e corrupta.
Afresco de Roberto de Molesmes na Igreja da Abadia de Zirc, Hungria.
Movimentos heréticos: amalricanos e valdenses
Uma das heresias que surgiu no século XII no âmbito das escolas catedralícias foi a dos amalricanos, inspirada nas ideias de Amaury de Bène,
mestre da escola de Teologia de Paris.
Amaury de Bène e seus discípulos.
A difusão da filosofia aristotélica pelos pensadores árabese a própria tradução dos textos do filósofo grego chegaram a Paris e influenciaram
diretamente o pensamento teológico de Amaury de Bène. Estudante parisiense, tornou-se um dos mestres mais importantes do seu tempo.
Defendia uma concepção panteísta que procurava harmonizar alguns princípios filosóficos greco-romanos com os dogmas cristãos. Dessa forma,
considerava que os simbolismos sacramentais não eram necessários à salvação do homem, já que na terceira época do mundo (inaugurada após a
morte de Cristo), seriam salvos pelo Espírito Santo que os habitava.
O teólogo foi condenado em 1207 e retirou-se da cátedra de Paris, morrendo posteriormente em um convento onde foi abrigado. Contudo, o seu
pensamento sobreviveu à sua morte, entre os seus adeptos, os amalricanos, os quais defendiam que cada homem encarnava em si a Trindade,
negavam os sacramentos e as instituições eclesiásticas, pregavam a liberdade moral ilimitada e consideravam o papa como o anticristo.
Por suas posições polêmicas, em 1210 os amalricanos foram condenados em um concílio. Seus membros foram desligados das ordens sagradas e
entregues ao poder secular para serem punidos com a pena capital: a morte na fogueira. Nem o corpo de Amaury, já morto, foi poupado. O corpo foi
desenterrado e queimado, sendo as suas cinzas espalhadas por diversos cantos. A condenação aos amalricanos foi renovada, em 1215, no Concílio
de Latrão.
A tradição da piedade leiga, que entendia a necessidade dos fiéis de compartilhar os seus bens pela prática da caridade e que via na pobreza uma
condição essencial para o exercício da espiritualidade, é considerada por Richards como um dos elementos mais duráveis e inspiradores da reforma
medieval (RICHARDS, 1995, p. 57).
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Antônio de Pádua distribuindo pão.
Esse espírito da piedade cristã esteve no cerne dos ensinamentos dos valdenses, também conhecidos como "Os Pobres de Lyon", que seguiam um
comerciante chamado Pedro Valdo.
Seguindo a tendência comum a outros grupos heréticos, os valdenses não acreditavam na hierarquia eclesiástica,
portanto, não tinham um clero ordenado.
Contudo, havia uma diferenciação entre os seus membros, em geral composto por artesãos e camponeses. Os "apóstolos" e "mestres" estudavam
durante anos para tornarem-se pregadores e comprometiam-se a seguir os princípios da vida apostólica, que incluía manterem-se castos e fazerem
voto de pobreza. Já os "amigos" eram os que compunham o restante dos fiéis, que ofereciam o suporte necessário para que os apóstolos
seguissem a sua missão.
Comentário
Os valdenses não desprezavam todos os sacramentos eclesiásticos. Reconheciam o valor do batismo das crianças, do casamento e da eucaristia, e
identificavam a pobreza como o seu principal valor. Procuravam basear as suas crenças no Velho Testamento, mas eram pouco adeptos dos rituais,
que se resumiam à comunhão uma vez por ano e observância do domingo como um dia santo.
Um dos pontos mais polêmicos da heresia valdense era a crença de que a pregação do evangelho poderia ser feita por todos os fiéis que tinham
livre acesso ao texto bíblico traduzido do latim. Essa transferência da autoridade, antes exclusiva do clero para os fiéis em geral, despertou a forte
oposição do clero. Ainda mais por conta da perseguição sofrida na França, em 1184, os valdenses se espalharam pela Península Itálica, Espanha e
regiões centrais da Europa, mesmo após a condenação e a morte de seu fundador.
Movimentos heréticos: cátaros
Uma das heresias mais populares do período baixo medieval foi o catarismo. O termo cathari, cujo significado é “puro”, dá nome a essa heresia.
Seus fiéis eram conhecidos como catharis, mas também como albigenses, dada a força que esta heresia alcançou na região de Albi, no Sul da
França.
Auto de Fé de Santo Domingos de Gusmão, obra do pintor renascentista Pedro Berruguete.
O dualismo cátaro é oriundo do gnosticismo amplamente difundido no início da Idade Média especialmente na região dos Balcãs e no Oriente
Próximo. O gnosticismo se subdividiu em diversas correntes, mas fundamentalmente possuíam em comum a noção de que o mundo foi criado por
um deus mau que mantinha os homens acorrentados em uma realidade que lhe causava sofrimento e submissão. Dessa maneira, a salvação
representaria o momento em que o homem toma ciência dessa opressão divina e liberta-se dela seguindo os conhecimentos do deus bom.
No que se refere aos cátaros, o dualismo foi expresso:
Na crença de que a bondade existe somente no mundo espiritual do deus bom e que o mundo material é mau e
foi criado por um deus mau ou espírito Satã.
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(FALBELL, 1999, p. 36)
Os cátaros, então, equiparavam o Deus cristão à Satã, o real criador do mundo natural. Logo, ao pregar o Deus criador, a Igreja estaria pregando a
adoração a Satã. Os cátaros (os puros) eram aqueles que possuíam o conhecimento necessário para remeter-se de fato ao mundo espiritual, reino
do deus bom, verdadeiro e libertador.
A heresia cátara permeou os séculos XI a XIII e foi intensamente combatida pela Igreja reformista. Situa-se na primeira metade do século XI o
surgimento dos primeiros grupos heréticos bogomilos (bougres – ou búlgaros, por se localizarem na Bulgária) chegaram a organizar igrejas a partir
dos anos 1140, que possuíam bispos, geralmente, enviados para cumprir missões evangelizadoras.
Saiba mais
Há registros de que o primeiro bispo cátaro se estabeleceu no norte da França, por volta de 1149, dando início à difusão da heresia na região,
instalando-se alguns anos depois em Albi e na Lombardia. Há informações acerca da implantação de onze bispados no total, que se reuniram em
um concílio, em 1255.
O nível de organização hierárquica dos cátaros era próxima ao da Igreja Romana, até por que nela se inspirava. A existência da figura dos bispos e
dos diáconos e a fundação de conventos nos quais as filhas e os filhos dos fiéis eram educados e abrigados por superiores ou superioras
demonstra que o modelo de educação e de hierarquia reproduzia o modelo romano.
O crescimento material da igreja cátara, que enriquecia graças às doações dos seus fiéis e à própria exploração
agrícola dos seus domínios territoriais colocava em risco o voto de pobreza assumido pelos fiéis e gerava críticas
contundentes entre os seus opositores.
No norte da França, a posse de patrimônios e a disputa territorial opôs os bispos cátaros aos bispos católicos. O catarismo também contou com o
apoio crescente de grande parte da nobreza da região, que abraçou a heresia interessada em abarcar para si o patrimônio controlado pelos bispos
católicos da região.
Comentário
Enquanto isso, na Itália houve uma multiplicação de partidos entre os bispados cátaros devido a divergências teológicas. Os cátaros primavam pela
ascese, dando especial valor à prática do jejum e da castidade, já que consideravam que as relações sexuais e a reprodução eram entendidas como
uma espécie de aprisionamento da carne.
A igreja cátara se via como uma igreja de eleitos e seus membros se dividiam em dois grupos:
Perfeitos
Considerados mais espirituais por terem passado por uma espécie de batismo espiritual.
Crentes
Não praticavam o celibato, consequentemente, não alcançavam o nível de espiritualidade dos Perfeitos.
Os cátaros possuíam três sacramentos:
O consolamentum – O batismo espiritual.
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Para os cátaros, Jesus era uma espécie de anjo que indicou o caminho da salvação para os homens, mas não era o Filho de Deus, como defendia o
catolicismo (FALBEL, 1999, p. 42).
Iluminura medieval, Papa Inocêncio III excomungando os cátaros.
A repressão aos cátaros terminou