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Cuidado Integral à Saúde da Mulher - Unidade I Aspectos éticos, legais e históricos Ao longo da história, as mulheres foram deixadas de lado em diversos momentos, principalmente na saúde. Hoje sabemos que ela tem fases diferentes na vida, pois o seu corpo sofre mudanças significativas ao longo dos anos. Atualmente, as mulheres têm voz e programas de saúde voltados para sua saúde física e mental. Atenção à saúde da mulher no Brasil No Brasil, a saúde da mulher ainda é recente. As primeiras políticas nacionais datam dos primeiros anos do séc. XX, mas com limitações quanto a gravidez e o parto. Os primeiros programas voltados ao binômio mãe e filho foi elaborado nos anos 1930 e 1950, mas apresentavam uma visão bem restrita da mulher, colocando-a como mãe, doméstica e a responsável pelos cuidados dos filhos e da família. As metas de saúde nesse período eram definidas pelo nível central, sem nenhuma avaliação das necessidades de saúde das populações locais. Nesse momento, a saúde era uma prática fragmentada, com baixo impacto. A partir dessa realidade, o movimento feminista brasileiro começa a reivindicar cuidados que vão além do período gravídico, uma vez que a maior parte da vida da mulher é fora desse período, deixando-as desassistidas quanto à saúde. Só em 1984, o Ministério da Saúde elaborou o chamado Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM). O PAISM foi um marco para as políticas de saúde voltadas às mulheres. Ele trouxe propostas de descentralização, hierarquização e regionalização dos serviços e também promoveu a integralidade e a equidade da atenção num período em que, paralelamente no âmbito do movimento sanitário, se concebia o arcabouço conceitual que embasaria a formulação do Sistema Único de Saúde (SUS). O PAISM trouxe ações educativas, preventivas, de diagnóstico, tratamento e recuperação, englobando a assistência à mulher em clínica ginecológica, no pré-natal, parto e puerpério, no climatério, em planejamento familiar, doenças sexualmente transmissíveis, câncer de colo de útero e de mama, além de outras necessidades identificadas a partir do perfil populacional das mulheres (BRASIL, 1984). A implementação do PAISM apresentou particularidades no período de 1984 a 1989 e na década de 1990. Nesta época, ele foi influenciado, a partir da proposição do SUS, pelas características da nova política de saúde, pelo processo de municipalização e, principalmente, pela reorganização da atenção básica por meio da estratégia do Programa Saúde da Família (OSIS, 1998). Hoje, a saúde da mulher tem diversos programas voltados para a saúde reprodutiva. Por exemplo: • pré-natal; • parto; • puerpério; • climatério; • prevenção de câncer de colo uterino e mama; • política de prevenção à violência doméstica. As mulheres passaram a ser vistas como um todo na sua saúde física e mental, tendo direito de escolha no que é melhor para ela em relação a sua saúde. Mortalidade materna A Organização Pan-Americana de Saúde apontou em um levantamento, realizado em agosto 2018, que cerca de 830 mulheres morriam diariamente por causas relacionadas à gestação e ao parto no mundo. A mortalidade é maior nas mulheres que vivem em regiões rurais e em comunidades mais pobres. Ela teve uma redução de 44% entre os anos de 1990 e 2014, mas, ainda assim, continua alta, especialmente porque pode ser evitada em boa parte das situações (OPAS, 2018). As principais causas de mortalidade costumam ser a pré-eclâmpsia, eclampsia, hemorragias pós-parto, infecções, complicações no parto e o aborto inseguro. Além disso, a pobreza, a distância dos locais de assistência e a falta de informação agravam ainda mais a situação, aumentando as taxas de mortalidade. A gravidez na adolescência também influencia esse índice. No Brasil, a taxa de morte é de 64,5 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos. As regiões mais pobres são as que apresentam a maior taxa de óbito. Quando separada por região é possível observar que o Norte tem a maior taxa com 88,9 para cada 100 mil nascidos vivos e o Sul tem a menor taxa, com 31,7 por 100 mil nascidos vivos. A diferença entre essas regiões é que, no Sul, a população tem maior acesso às informações, assistência médica mais próxima e condições socioeconômicas melhores (OPAS,2018). Programa de atenção integral a saúde da mulher A saúde da mulher é influenciada por vários fatores sociais, como o local de residência, a alimentação, a escolaridade, o acesso à renda e ao emprego e os fatores culturais, étnicos, raciais, psicológicos e comportamentais. Foi diante disso que o Ministério da Saúde criou o PAISM apresentando dez cuidados primordiais em relação aos cuidados com a saúde da mulher: Alimentação saudável e balanceada Influencia na redução de fatores de risco para doenças como o sobrepeso e o aumento do colesterol, além do bem estar físico e mental (BRASIL, 1984). Cuidado com a saúde mental Ajuda a identificar e acolher precocemente as mulheres com sinais e/ou sintomas psíquicos. Afinal, sabe- se que as mulheres se encontram em uma situação de vulnerabilidade por apresentarem uma remuneração menor que a dos homens, por estarem concentradas em profissões menos valorizadas, por terem menor acesso aos espaços de decisão no mundo político e econômico, por sofrerem violência doméstica, física, sexual, psicológica, econômica, além da negligência e abandono. Além disso, elas vivem dupla/tripla jornada de trabalho. Lembrando que, as mulheres idosas sofrem com o isolamento social e transtornos emocionais devido à aposentadoria, à viuvez, às alterações fisiológicas, e dos sofrimentos provocados por uma sociedade que supervaloriza a juventude e desvaloriza as marcas do envelhecimento feminino (BRASIL, 1984). Cuidado com a sexualidade Permite à mulher identificar os pontos de prazer e, com isso, poder exercer melhor a sua sexualidade em todas as faixas etárias. As mulheres apresentam visões e sentimentos diferente sobre a sexualidade com o passar do tempo, devido a suas vivências e experiências. As mudanças sexuais iniciam na puberdade devido ao nascimento do broto mamário e pelos pubianos, o que pode acarretar muitas dúvidas e inseguranças. Além disso, a sexualidade é um tabu para muitas mulheres em qualquer faixa etária, mas principalmente para as idosas, o que leva à maior dificuldade na busca de informações e conhecimento para uma vida sexual saudável e com qualidade. Outro fator que interfere na sexualidade é a menopausa, período em que as mulheres podem apresentar desconforto nas relações sexuais com penetração vaginal devido à baixa do hormônio estrógeno e a hipotrofia dos tecidos genitais que ocorrem nesse período (BRASIL, 1984). Conhecimento do próprio corpo Permite à mulher conhecer o seu ciclo menstrual, os fatores que podem interferir nele e como o seu corpo comporta durante esse ciclo, o que nem sempre acontece devido ao tabu e aos valores sociais que são colocados em relação a esse assunto. Além disso, as mulheres sofrem mudanças ao longo dos anos, o que é normal e deve ser abordado para que essa possa acompanhar as mudanças, sem medo e com autoestima (BRASIL, 1984). Exames de rotina Devem ser realizados após o início da vida sexual, especialmente os exames de rastreio para o câncer de colo de útero que são feitos anualmente até os 64 anos e, após essa idade, só são interrompidos quando houver pelo menos dois exames negativos para lesões ou qualquer patologia ginecológica, consecutivos nos últimos cinco anos. Já o rastreamento para o câncer de mama deve ser feito por meio do exame de mamografia em mulheres a partir dos 40 anos ou mais, anualmente. Porém mulheres que possuem o histórico de câncer de mama na família, o exame deve ser realizado a partir dos 30 anos, para a possível detecção precoce do câncer de mama (BRASIL, 1984). Prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/HIV) Devehaver um cuidado maior em relação às DST/HIV, doenças causadas por vírus, bactérias ou outros microrganismos que são transmitidas, principalmente, por meio do contato sexual (oral, vaginal, anal) sem o uso de preservativos. A transmissão de uma DST/HIV pode ocorrer também da mãe para a criança na gestação, no parto ou na amamentação. Assim, o esclarecimento e orientação sobre as formas de prevenção das DSTs/HIV permite a mulher vivenciar a sexualidade de forma segura (BRASIL, 1984). Métodos contraceptivos Conhecer todos os métodos contraceptivos e escolher o que for mais confortável e melhor se adaptar é direito de toda a mulher. Os métodos contraceptivos podem ser injetáveis mensal ou trimestral, minipílula, pílula combinada, diafragma, Dispositivo Intrauterino (DIU), além dos preservativos feminino e masculino. Lembrando que nem todos os métodos contraceptivos projetem contra as DSTs/HIV somente os métodos de barreira, como os preservativos (BRASIL, 1984). Prevenção de violência contra as mulheres Pode ocorrer em todas as classes sociais, raças, etnias, faixas etárias e orientações sexuais, e se constitui como uma das principais formas de violação dos direitos humanos, pois atinge as mulheres no seu direito à vida, à saúde e à integridade física. As mulheres que vivenciam agressão física, mental e verbal passam por situações de medo, pânico, baixa autoestima, ansiedade, angústia, humilhação, vergonha e culpa, perda da autonomia e, muitas vezes, fragilidade emocional. Por isso, essas devem ser identificadas pelos profissionais de saúde, para que possam ser orientadas sobre a busca de ajuda e o tratamento psicobiológico (BRASIL, 1984). Cuidados com os sintomas dos ciclos menstruais, climatério e menopausa Há muitas etapas diferentes na vida da mulher, especialmente devido às alterações hormonais. O profissional de saúde deve orientar quanto aos sintomas como cólicas, sangramento intenso, sonolência e indisposição que podem ocorrer durante o período menstrual. Além dos sinais e sintomas do climatério e menopausa, orientando as opções de tratamento e encaminhando quando necessário para o médico ginecologista (BRASIL, 1984). Planejamento e assistência durante a gestação Fazer o planejamento reprodutivo também é direito da mulher. Ele permite uma prática sexual mais saudável, possibilitando o espaçamento dos nascimentos e a recuperação do organismo da mulher após o parto, melhorando as condições que ela tem para cuidar dos filhos e para realizar outras atividades. Além disso, o acompanhamento pré-natal assegura o desenvolvimento da gestação, permitindo o parto de um recém-nascido saudável, sem impacto para a saúde materna, inclusive abordando aspectos psicossociais e as atividades educativas e preventivas. Porém, a opção por não ter filhos também deve ser assegurada, e a abordagem nessa situação deve ser livre de preconceitos e crenças por parte dos profissionais de saúde (BRASIL, 1984). Sexualidade feminina As mulheres apresentam um aparelho reprodutor complexo tanto anatomicamente quanto fisiologicamente. Ele é formado por diversos órgãos e estruturas que atuam em conjunto no controle fisiológico dos hormônios. Além disso, elas também apresentam, a partir da puberdade, o início do período reprodutor, os ciclos mensais que preparam o corpo para reprodução e a recepção do novo concepto. Porém, isso nem sempre acontece, o que faz o corpo liberar a menstruação, encerrando o ciclo e iniciando outro. Anatomia e fisiologia do aparelho reprodutor feminino O sistema reprodutor feminino é dividido em parte interna e externa. A parte interna é constituída de: • dois ovários (direito e esquerdo); • um útero; • uma vagina; • uma vulva. Essas estruturas estão localizadas anatomicamente no interior da cavidade pélvica, sendo protegido por um arcabouço ósseo que é constituído de três ossos do quadril: o ílio, o ísquio e o púbis. Já a parte externa do aparelho reprodutor feminino é formado por: • grandes lábios; • pequenos lábios; • clitóris; • abertura vaginal; • glândulas de Bartholin. Figura 1 - Anatomia do aparelho reprodutor feminino externo. Fonte: Montenegro, Shutterstock (2020). Os ovários estão localizados na cavidade abdominal ao lado do útero, sendo um ao lado direito e outro ao lado esquerdo. Eles são ligados ao útero pelo mesentério (tecido conjuntivo). Neles são produzidos os hormônios estrógeno e progesterona (hormônios sexuais femininos). Ao longo do desenvolvimento embrionário, ainda no útero materno, as meninas já apresentam todas as células que irão se tornar o gameta feminino. Porém, elas ainda não estão amadurecidas, sendo chamadas de ovócitos primários, e localizadas nos folículos ovarianos (folículos de Graaf). Quando as meninas entram na adolescência inicia-se o amadurecimento desses folículos mensalmente (início do período fértil da mulher). Outra estrutura do aparelho reprodutor feminino, a tuba uterina, é constituída por dois canais finos, localizadas uma na direita e outra na esquerda do útero, figura 2. Elas apresentam cílios em seu interior que servem para auxiliar que o óvulo, liberado pelo ovário, chegue na cavidade do útero (DANGELO E FATTINI, 2004). Figura 2 - Aparelho reprodutor feminino interno. Fonte: Olga Bolbot, Shutterstock (2020). Outro órgão, o útero, é uma estrutura muscular e com grande elasticidade. Ele é formado pelo miométrio (camada mais externa e como maior elasticidade) e pelo endométrio (cama mais interna e altamente vascularizada), sendo preparada mensalmente para receber o embrião em mulher na idade fértil. No endométrio que ocorre a implantação do embrião após a fecundação, que ocorreu na tuba uterina. A vagina é uma estrutura muscular e tubular, com alta elasticidade, sendo a comunicação entre o meio externo e o útero. Durante a relação sexual é por esse canal que ocorre a penetração do pênis e a passagem dos espermatozoides. Além disso, é por esse canal que ocorre a passagem da criança durante o parto, porém, mensalmente quando não ocorre a fecundação ocorre a passagem da menstruação (eliminação do endométrio formado mensalmente para receber o embrião) (DANGELO E FATTINI, 2004). Enquanto que a estrutura externa do sistema reprodutor feminino é formada pelo clitóris que está localizado na região anterior aos pequenos lábios, sendo uma região de estimulação sexual devido aos seus receptores sensitivos e tecido eréctil. Os grandes lábios, outra estrutura, são a parte mais externa, sendo formado por tecido adiposo. Enquanto que os pequenos lábios são altamente vascularizados e não apresentam tecido adiposo. Os pequenos lábios delimitam a abertura vaginal e o meato urinário. Por fim, as mamas, que também fazem parte do sistema reprodutor feminino de forma indireta devido a sua relação funcional com a reprodução e os hormônios femininos. As mamas são anexos do tecido epitelial, sendo seu parênquima formado de glândulas cutâneas modificadas que se especializam na produção de leite durante a gestão. Hormônios sexuais femininos e ciclo menstrual O desenvolvimento do sistema reprodutor feminino começa ainda na vida uterina. Os ovários são estimulados pelo hormônio gonadotrofina coriônica humana (HCG) que é produzido pela placenta. O HCG tem uma ação semelhante ao hormônio luteinizante (LH), pois ele atua no amadurecimento dos folículos ovarianos primários. Ao nascer, a menina tem aproximadamente um milhão de folículos, mas, ao chegar na puberdade, apenas 400 mil folículos permanecem em cada ovário. Durante a vida reprodutiva feminina, cerca de 400 a 500 folículos primordiais irão se desenvolver e expelir seus óvulos (um por mês a partir da menarca até a menopausa). Os demais folículos irão degenerar, tornando-se atrésicos, ou seja, degeneram (GUYTON et al., 2006). Os hormônios femininos são divididos em três tipos, segundo Guyton et al (2006): • hormôniode liberação hipotalâmica: Hormônio liberador de gonodotropina (GnRH); • hormônios sexuais hipofisários: Hormônio folículo-estimulante (FSH) e o hormônio liteinizante (LH) que são secretados a partir da liberação do GnRH; • hormônios ovarianos: O estrogênio e a progesterona. Os hormônios ovarianos são secretados em resposta do FSH e LH. Nas células do folículo ovariano é produzido o estrógeno, sendo esse hormônio responsável pelas características sexuais secundárias como as mamas, alargamento dos quadris, pêlos pubianos e amadurecimento dos órgãos genitais. Já o hormônio progesterona é produzido pelo corpo lúteo, também chamado de corpo amarelo. O corpo lúteo é uma estrutura endócrina temporária, localizado no ovário que se forma a partir do folículo ovariano (de onde é liberado o ovócito na ovulação). A progesterona estimula o desenvolvimento dos vasos sanguíneos e das glândulas endometriais, preparando o útero para receber o embrião. O ciclo menstrual feminino dura em média 28 dias, porém algumas mulheres podem apresentar ciclos curtos de 20 dias ou ciclos longos de 45 dias. Durante o ciclo sexual feminino, normalmente, apenas um óvulo é liberado dos ovários por mês, ou seja, apenas um feto pode ser formado, se houve a fecundação, figura 3. Além disso, mensalmente o endométrio uterino é preparado para a implantação de um óvulo fertilizado. Porém, quando não ocorre a fecundação, o endométrio descama, ou seja, ocorre a menstruação (GUYTON et al., 2006). Figura 3 - Ciclo menstrual feminino. Fonte: VectorMine, Shutterstock (2020). Os hormônios gonadotrópicos apresentam ação direta nas mudanças ovarianas, sendo o ciclo menstrual dependente dos hormônios FSH e LH. Quando não há secreção desses hormônios, os ovários permanecem inativos, como na infância. A partir dos 9 anos de idade a hipófise inicia a produção desses dois hormônios e a partir dos 12 anos o ciclo menstrual é iniciado com a menarca. Em um ciclo menstrual de 28 dias ocorre um aumento de FSH e LH nos 14 primeiros dias do ciclo, ocorrendo a ovulação. O estrógeno aumenta entre o 7º e o 14º dia, preparando o útero para receber o óvulo. A partir da ovulação ocorre um aumento de progesterona e redução do FSH e LH. Se não houve fecundação do óvulo, os hormônios progesterona e estrógeno reduzem, ocorrendo a menstruação e iniciando um novo ciclo (Guyton et al., 2006). O ciclo menstrual pode ser dividido então em três fases: • Fase proliferativa: Ocorre um crescimento do folículo ovariano devido ao estímulo do hormônio FSH. A partir desse crescimento, ocorre o início da produção de estrógenos que estimulam o desenvolvimento do endométrio. O folículo então acumula líquido em seu interior e forma o folículo de Graad (folículo maduro). Nessa fase ainda, o estrógeno estimula a liberação de LH e FSH que atuam na indução da ovulação (em ciclos de 28 dias, a ovulação ocorre no 14º dia). • Fase secretora ou fase lútea: O hormônio LH estimula as células do folículo ovariano a formarem o corpo lúteo. O corpo lúteo inicia a produção de estrógeno e progesterona. Se não ocorre fecundação inicia a fase menstrual, ocorrendo a degeneração do corpo lúteo, consequentemente a redução dos hormônios progesterona e estrógeno e a descamação do endométrio que pode durar de três até sete dias (depende da fisiologia de cada mulher). Assim, um novo ciclo é iniciado. Porém, se ocorre a fecundação o corpo lúteo continua a produção de hormônios até que o embrião esteja implantado no útero e o hormônio chamado de gonadotrofina coriônica inicie sua produção a partir da placenta (sua formação é iniciada a partir da implantação do embrião no útero). • Fase menstrual: Fase menstrual. Assistência de enfermagem durante a gestação A gestação é uma mudança fisiológica e psicológica para todas as mulheres, pois representa uma nova etapa que vem surgindo. Durante a gestação é comum a insegurança, as dúvidas e o medo do novo. Por isso, a enfermagem tem papel fundamental nesse momento na vida da mulher, assistindo no pré-natal e orientando e esclarecendo as dúvidas, para que a gestante possa sentir segura e ter uma gravidez tranquila. Fecundação A fecundação é um evento em que há a fusão entre o óvulo e o espermatozoide, resultando na formação da célula ovo ou zigoto (primeira célula de um novo ser). Normalmente, a fecundação ocorre na tuba uterina, na região denomina ampola. Os espermatozoides são atraídos por substâncias químicas que são liberadas pelos ovócitos. Figura 4 - Fecundação do óvulo. Fonte: SVETLANA VERBINSKAYA, Shutterstock (2020). Para que a fecundação ocorra algumas etapas são necessárias. • É necessário que ocorra a ovulação e a migração do óvulo para a tuba uterina, direita ou esquerda, dependendo do ovário que completou o ciclo e liberou o óvulo. • Em seguida deve ocorrer o encontro dos espermatozoides com o óvulo. Porém, isso deve ocorrer em média 24 horas a partir da ovulação, já que, depois disso, o óvulo chega ao útero e não é mais fecundado. Ao encontrar com o óvulo, o espermatozoide precisa penetrar na corona radiada do óvulo, isso irá ocorrer a partir da liberação de enzimas pelo espermatozoide para conseguir degradar essa primeira barreira (Moore, 2008). • O espermatozoide, então, precisa penetrar a zona pelúcida, que é uma camada glicoproteica que circunda o ovócito, também utilizando enzimas que ele possui para degenerar essa barreira. • Por fim, após a entrada do espermatozoide no óvulo suas estruturas fundem-se, o óvulo completa sua última etapa da divisão celular, por meiose, liberando o segundo corpo polar. • Os corpos basais do flagelo originam os centríolos do zigoto, o resto do flagelo e as mitocôndrias degeneram, o núcleo do espermatozoide aumenta de volume originando o pro núcleo masculino, e o óvulo fértil forma o pro núcleo feminino. Completando o ciclo, ocorre a implantação do zigoto na parede do útero. Fique de Olho: A fecundação, pode ocorrer em outras regiões que não seja na tuba uterina, causando gravidez ectópica. A gravidez ectópica é uma gestação sem futuro, pois o embrião não consegue desenvolver normalmente fora do útero. Os locais onde ocorrem a gravidez ectópica mais frequentemente são na tuba uterina e cavidade abdominal. Os principais fatores que levam a esse tipo de gravidez são inflamação ou infecção ativa da tuba uterina, cirurgias prévias na tuba uterina, uso de dispositivo intrauterino. O desenvolvimento embrionário O desenvolvimento de um novo ser humano inicia a partir da fecundação e tem duração de nove meses. Diversos eventos ocorrem durante esse período para a formação do novo ser. Para o acompanhamento do desenvolvimento humano divide-se a gestação em trimestres: • Primeiro trimestre: Entre 1 e 13 semanas; • Segundo trimestre: Entre 14 e 27 semanas; • Terceiro trimestre: Acima de 28 semana. O primeiro trimestre inicia na fertilização e vai até o fim da 11ª semana. Nesse período ocorre a fecundação, seguida do início da divisão celular e formação do zigoto, que, ao chegar no útero, irá se implantar para dar continuidade no seu desenvolvimento e crescimento. A primeira semana é marcada pela implantação do blastocisto (aglomerado de células em divisão) na superfície uterina, nesse momento o embrião tem cerca de 0,2 mm. Na segunda semana o embrião continua a sua divisão celular e hormônios são produzidos para que não ocorra a menstruação e ele possa continuar o seu desenvolvimento (Carlson, 2014). Na terceira semana o embrião já é do tamanho de uma uva-passa, no 21º o coração começa a bater, o tubo neural alarga formando três partes que em breve irá formar o cérebro. Nessa semana a placenta já formada. Já na quinta semana, é possível ver os traços faciais, porém ainda é muito pequeno (Carlson, 2014). Na sexta semana o embrião já é chamado de feto e está com 9-14mm, totalmente mergulhado no líquido amnióticoe protegido. A partir da oitava semana o coração já está bem desenvolvido, começando a realizar a circulação sanguínea do embrião, porém a oxigenação nesse momento ocorre através da placenta. Nesse momento o sangue da criança já é distinto do sangue materno. Já no final do primeiro trimestre, na décima semana, o feto já tem o sistema nervoso quase completamente formando, podendo então sentir dor. Nesse momento os olhos já estão recobertos por pálpebras que irão proteger as fibras nervosas ópticas, mantendo-os fechados até o sétimo mês de desenvolvimento (Carlson, 2014). A gestação entra, então, no segundo trimestre. Na 12ª semana, os músculos corporais aumentam e a mãe já pode sentir os primeiros movimentos da criança em sua barriga. A partir da 18ª semana a criança já ouve e reconhece a voz da mãe. O feto ainda é frágil e pequeno, mas já está com quase todos os sistemas formados. Nesse momento, já é possível distinguir o sexo dele. Na 22ª semana, já no terceiro trimestre, a criança já tem cabelo formado e o corpo recoberto por laguno, que é um cabeço fino que recobre ela. Nesse último trimestre é possível observar que a criança cresce rapidamente, assim como a barriga da gestante para acomodar o feto (Carlson, 2014). No final do terceiro trimestre, a criança tem cerca de 3 a 3,4Kg e está completamente formada e pronta para viver fora do útero. A partir desse momento a criança poderá nascer a qualquer momento, desde que toda a gestação tenha ocorrido de maneira fisiológica e a criança esteja na posição correta para o nascimento. Fique de Olho: O período embrionário normal, ocorre entre 37 semanas até 41 semanas e 6 dias, sendo considerado então uma gestação termo, ou seja, ocorreu no período normal. Já gestação abaixo de 37 semanas são chamadas de pré-termo e após 42 semanas de pós-termo, nesses dois casos pode ser necessário a realização do parto normal, devido a possíveis complicações durante o parto. Diagnóstico da gravidez O diagnóstico de gravidez pode realizado pelo médico ou pelo enfermeiro da unidade básica de saúde. Na maioria das vezes, a mulher procura o serviço de saúde com algumas queixas como: • Náuseas; • Vômito; • Sensibilidade mamária; • Polaciúria; • Constipação; • Aumento do volume abdominal. O Ministério da Saúde preconiza o diagnóstico considerando a avaliação do ciclo menstrual, data da última menstruação e atividade sexual ativa. Inicialmente, o profissional precisa questionar qual a data da última menstruação, se houve relação sexual sem uso de contraceptivo e quando foi a última relação. Para confirmação da gravidez deve ser realizado o teste imunológico de gravidez. Esse teste é baseado na concentração do hormônio gonadotrófico coriônico presente na corrente sanguínea. O exame de sangue pode confirmar a gravidez até 10 dias após a fecundação, permitindo o diagnóstico precoce da gestação (Ministério da Saúde, 2000). Se o resultado vier positivo, a mulher está grávida e deve iniciar com o pré-natal. Mas se o resultado do exame vier negativo é recomendado que realize o exame novamente em 15 dias, retornando negativo e os sintomas continuarem devem investigar possíveis causas ginecológicas. Orientações no pré-natal O pré-natal é iniciado logo após o diagnóstico da gravidez. Durante a primeira consulta, o profissional de saúde deve acolher a gestante e seu acompanhante, se a gestante quiser a presença dele. Na primeira consulta deve-se coletar as informações como o nome dela, idade, endereço, data da última menstruação, idade gestacional, trimestre que iniciou o pré-natal. O ideal é iniciar o pré-natal ainda no primeiro trimestre. O Ministério da Saúde recomenda também a realização de seis consultas divididas ao longo da gestação: • Uma consulta: No primeiro trimestre (até a 12ª semana); • Duas consultas: No segundo trimestre; • Três consultas: No terceiro trimestre. Porém, a gestante deve procurar a unidade de saúde sempre que sentir necessidade ou apresentar qualquer queixa, isso deve ser informado a ela (Ministério da Saúde, 2000). Na primeira consulta deve-se preencher o cartão da gestante e orientá-la quanto as informações contidas nele, conferir o calendário vacinal e atualizá-lo se necessário, solicitar os exames de rotina e orientar quando a atividades de grupo de gestantes que a unidade tenha a oferecer, por exemplo. Além disso, também deve-se coletar a história clínica completa da paciente, como: • história clínica; • características socioeconômicas; • doenças familiares (câncer de mama e/ou colo uterino, diabetes mellitus, doença de chagas, hipertensão arterial, tuberculose, doenças sexualmente transmissíveis, principalmente do parceiro; antecedentes pessoais; antecedentes ginecológicos; antecedentes obstétricos se houver, Rh materno e Rh paterno, filhos anteriores, idade da primeira gestação, história de abortos, complicações na gestação anterior, parto prematuro); • gestação atual (aceitação da gravidez, data da última menstruação, hábitos alimentares, tabagismo, etilismo, internação durante a gestação, medicamentos em uso) Em todas as consultas do pré-natal deve ser realizado o exame físico geral observando o peso e altura da gestante, aferição da pressão arterial, inspeção da pele e mucosa, ausculta cardiopulmonar, exame do abdômen pesquisa de edemas. O exame das mamas, palpação obstétrica principalmente a partir do 3º trimestre de gestação para identificação da apresentação fetal, ausculta dos batimentos cardíacos do feto, medida da altura uterina (Ministério da Saúde, 2000). O profissional ainda deve solicitar exames complementares como: • tipagem sanguínea e fator Rh; • hemograma; • eletroforese de hemoglobina; • glicemia; • exame de urina rotina e urocultura; • teste rápido de sífilis; • VDRL; • HIV; • hepatite B; • hepatite C; • exame de fezes. Quando o companheiro da gestante estiver junto é recomendando pelo Ministério da saúde que ele também faça alguns exames como: • teste para sífilis (teste rápido e VDRL); • anti-HIV (teste rápido); • hepatites virais B e C (testes rápidos); • tipo sanguíneo e fator Rh; • hemograma; • lipidograma; • glicose; • eletroforese de hemoglobina. Ao final da primeira consulta a gestante deve iniciar o uso do ácido fólico 5 mg/dia até 14 semanas, para prevenção de defeitos abertos do tubo neural. Em relação à situação vacinal da gestante, deve-se realizar a imunização contra tétano em gestantes previamente vacinadas (três doses ao longo da vida). Porém, com tempo superior a 5 anos ou mais, deve-se realizar uma dose de reforço. Em gestantes que não tenham recebido as três doses deve-se aplicar uma ou duas doses, dependendo do histórico anterior, tento um intervalo de dois meses entre cada dose. Outra vacina importante é contra a influenza, sendo a imunização anual e a geste deve receber uma dose principalmente no terceiro trimestre. As demais vacinas devem ser avaliadas quanto à necessidade, cuidadosamente pelo profissional de saúde, devido aos riscos para a gestante e para a criança (Ministério da Saúde, 2000). Cálculo da idade gestacional e data provável do parto Para realizar a estimativa da idade gestacional, é preciso conhecer a data da última menstruação (DUM) e a mulher apresentar ciclos menstruais regulares. O cálculo é simples, basta somas o número de dias entre a DIM e a data da consulta, dividindo o total por 7 que você terá o resultado em semanas da idade gestacional. Abaixo um exemplo: Maria apresentou a última menstruação em 1 de maio de 2019 e foi na sua primeira consulta dia 25 de julho. Qual a sua idade gestacional? Resposta: São 85 dias divididos por 7 = 12 semanas e 1 dia. Já o cálculo da dará provável do parto tem como objetivo para avaliar quando ocorrerá o parto. Para realizar esse cálculo considera uma gestação normal de 280 dias, ou seja,40 semanas a partir da DUM. Assim, o cálculo é realizado pela Regra de Näegele em que soma de 7 dias ao DUM, em seguida é subtraído 3 meses a partir da data obtida na soma (em casos de meses da DUM ser de janeiro a março deve-se adicionar os 9 meses). Como por exemplo: data da última menstruação: 13/9/08 a data provável do parto é 20/6/09 (13+7=20/9-3=6). Um outro ponto importante durante a gestação é o estado nutricional da gestante e o ganho de peso gestacional. Ao avaliar a gestante deve-se realizar a medida do peso e altura da gestante ao chegar na primeira consulta e acompanhar o ganho de peso ao longo da gestação, calculando o índice de massa corporal. Principais queixas durante a gestação Durante a gestação, diversas alterações fisiológicas ocorrem no corpo da mulher e podem levar a manifestações no organismo da gestante, sendo muitas vezes percebidas como doenças. O profissional de saúde deve orientar sobre essas queixas, minimizando a preocupação, os sintomas e esclarecendo as dúvidas que surgirem. (Ministério da Saúde, 2000). Os sintomas mais comuns são as náuseas, vômitos e/ou tonturas que são comuns principalmente no primeiro trimestre de gestação. Para aliviar os sintomas, a gestante deve ter uma alimentação fracionada (pequenas quantidades várias vezes ao dia), evitar gorduras e alimentos com muitos condimentos, não ingerir líquidos durante as refeições. Em alguns casos quando for muito intenso os vômitos a gestante devem procurar o médico para prescrição de antieméticos (Ministério da Saúde, 2000). A pirose (azia) pode surgir em qualquer etapa da gestação, mas ocorre um aumento ao longo da gestação, sendo recomendado reduzir a ingestão de alimentos em cada refeição e aumentar o número de refeições. As gestantes com azia devem evitar alimentos como frituras, café, chá preto, mates, alimentos gordurosos e picantes e outros irritantes gástricos, doces, álcool e fumo. Realizar as refeições e não deitar imediatamente (aguardar um período de 1 a 2 horas). Gestantes do terceiro trimestre podem fazer uso de antiácidos, porém o médico deve ser consultado antes. A sialorreia (salivação excessiva) é um sintoma comum no início da gestação. Para aliviar a gestante deve deglutir a saliva e tomar líquidos em abundância (especialmente em épocas de calor). A sensação de fraqueza e desmaio é comum, por isso gestantes não devem realizar movimentos bruscos, devem evitar o jejum prolongado e intervalos longos entre as refeições. Quando ocorrer os sintomas a gestante deve respirar profundamente e pausado, isso pode melhorar a sensação de fraqueza. Em caso de desmaios frequentes a gestante deve procurar uma unidade de saúde e realizar a consulta com um profissional de saúde (Ministério da Saúde, 2000). Queixas urinárias também são comuns durante a gestação, sendo observado, um aumento da micção devido ao aumento do útero e da compressão da bexiga. Porém, se houver queixa de odor ou ardência ao urinar, deve-se realizar o exame de urocultura e antibiograma. O profissional deve sempre incentivar a infestação de líquido, nunca incentivar o contrário, mesmo com a queixa de grande frequência. As varizes podem surgir devido ao ganho de peso, sendo importante orientar sobre evitar permanecer em pé por longos períodos; elevar as pernas durantes o dia, sempre que possível; evitar o uso de roupas muito justas, utilizar meias de média compressão (após consultar um profissional de saúde). Referências Bibliográficas BRASIL. Ministério da saúde. Assistência integral à saúde da mulher: bases da ação programática. Brasília: Ministério da Saúde, 1984. CARLSON, B. M. Embriologia humana e biologia do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2014. DANGELO, J. G.; FATTINI, C. A. Anatomia humana e sistêmica e segmentar. Rio de Janeiro: Editora Atheneu, 2004. GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de fisiologia médica. 11 ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2006. MOORE, Keith. Embriologia básica. 7 ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2008. OSIS, M. J. M. D. PAISM: um marco na abordagem da saúde reprodutiva no Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 14, p. S25-S32, 1998. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. Folha informativa: mortalidade materna. 2018. Disponível em: . Acesso em: 4 abr. 2020. SCHIRMER, J. et al. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Assistência pré-natal: manual técnico. 3 ed. Brasília: Secretaria de Políticas de Saúde (SPS)/Ministério da Saúde, 2000. Disponível em: . Acesso em: 6 abr. 2020.