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27 Cidades e civilizações A organização urbana do espaço, a centralização política, o conjunto das manifestações artís ticas e religiosas e as complexas relações de trabalho que estruturaram os grupos humanos nas cidades foram a base das primeiras civilizações. A esse respeito, discorre o historiador Jaime Pinsky: “Durante muito tempo, e por inspiração dos filósofos [europeus] do século XVIII, a palavra civilização significou um conjunto de instituições capazes de instaurar a ordem, a paz e a felicidade, favorecendo o progresso intelectual e moral da humanidade. Dessa forma [...] haveria um corte nítido entre pré-civilizados e civilizados. Estes, europeus e alguns de seus descendentes diretos, e os outros, todos aqueles que por terem cultura e padrões de comportamento muito distinto do nosso constituiriam uma espécie de homens inferiores, criando ou sociedades primitivas ou simplesmente se situando à margem da lei. Essa concepção eurocêntrica de mundo [...] encontra seu contraponto numa outra, no extremo oposto, que opta por atribuir a qualquer pequeno grupo de indivíduos capazes de amassar o barro e construir palhoças o título de civilização. [...] Civilização [...] não é um elogio e pré-civilizados não pode ser tomado como ofensa. Mas temos que caracterizar a civilização com parâmetros objetivos para não fazermos demagogia, dificultando mais ainda a compreensão do processo histórico. Uma civilização, via de regra, implica uma organização política formal com normas estabelecidas para governantes (mesmo que autoritários e injustos) e governados; implica projetos amplos que demandem trabalho conjunto e administração centralizada (como canais de irrigação, grandes templos, pirâmides, portos etc.); implica a criação de um corpo de sustentação política (como a burocracia de funcionários públicos ligados ao poder central, militares etc.); implica a incorporação das crenças por uma religião vinculada ao poder central, direta ou indiretamente (os sacerdotes egípcios, o templo de Jerusalém etc.); implica uma produção artística que tenha sobrevivido ao tempo e ainda nos encante (o passado não existe em si, senão pelo fato de nós o reconstruírmos); implica a criação ou incorporação de um sistema de escrita (esse item não é eliminatório: os incas não tinham propriamente uma escrita, nem por isso deixam de ser civilizados); implica finalmente, mas não por último, a criação de cidades. De fato, sem cidades não há civilização. As grandes descobertas e invenções do Neolítico seriam apenas comodidades se não pro- vocassem, por meio e por causa da urbanização, uma significativa mudança socioeconômica. A roda, a metalurgia, o animal de tração, o barco a vela tiveram seu caráter transfor- mador por se integrarem a uma nova organização social propiciada pela urbanização. [...] Isso significa grande número de pessoas atuando de forma organizada pela incorporação de conhecimentos sociais e sob uma liderança que vai se estabelecendo e adquirindo legitimidade. [...] Invenções e descobertas são pré-condições para a organização social do tipo urbano, que por seu lado provoca novas descobertas, através do processo de exploração e adequação ao meio ambiente. A cidade não apenas decorre de um determinado grau de desenvolvimento das técnicas e do conhecimento humano, em geral. Ela também impele a espécie humana a crescer.” PINSKY, J. As primeiras civilizações. São Paulo: Atual, 1987. p. 44-47.