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Cidades e civilizações 
A organização urbana do espaço, a centralização política, o conjunto das manifestações artís ticas e 
religiosas e as complexas relações de trabalho que estruturaram os grupos humanos nas cidades foram a 
base das primeiras civilizações. A esse respeito, discorre o historiador Jaime Pinsky: 
“Durante muito tempo, e por inspiração dos filósofos [europeus] do século XVIII, a palavra 
civilização significou um conjunto de instituições capazes de instaurar a ordem, a paz e a 
felicidade, favorecendo o progresso intelectual e moral da humanidade. 
Dessa forma [...] haveria um corte nítido entre pré-civilizados e civilizados. Estes, europeus e 
alguns de seus descendentes diretos, e os outros, todos aqueles que por terem cultura e 
padrões de comportamento muito distinto do nosso constituiriam uma espécie de homens 
inferiores, criando ou sociedades primitivas ou simplesmente se situando à margem da lei. 
Essa concepção eurocêntrica de mundo [...] encontra seu contraponto numa outra, no 
extremo oposto, que opta por atribuir a qualquer pequeno grupo de indivíduos capazes de 
amassar o barro e construir palhoças o título de civilização. [...] 
Civilização [...] não é um elogio e pré-civilizados não pode ser tomado como ofensa. Mas 
temos que caracterizar a civilização com parâmetros objetivos para não fazermos 
demagogia, dificultando mais ainda a compreensão do processo histórico. 
Uma civilização, via de regra, implica uma organização política formal com normas 
estabelecidas para governantes (mesmo que autoritários e injustos) e governados; implica 
projetos amplos que demandem trabalho conjunto e administração centralizada (como canais 
de irrigação, grandes templos, pirâmides, portos etc.); implica a criação de um corpo de 
sustentação política (como a burocracia de funcionários públicos ligados ao poder central, 
militares etc.); implica a incorporação das crenças por uma religião vinculada ao poder central, 
direta ou indiretamente (os sacerdotes egípcios, o templo de Jerusalém etc.); implica uma 
produção artística que tenha sobrevivido ao tempo e ainda nos encante (o passado não existe 
em si, senão pelo fato de nós o reconstruírmos); implica a criação ou incorporação de um 
sistema de escrita (esse item não é eliminatório: os incas não tinham propriamente uma escrita, 
nem por isso deixam de ser civilizados); implica finalmente, mas não por último, a criação de 
cidades. 
De fato, sem cidades não há civilização. 
As grandes descobertas e invenções do Neolítico seriam apenas comodidades se não pro- 
vocassem, por meio e por causa da urbanização, uma significativa mudança socioeconômica. 
A roda, a metalurgia, o animal de tração, o barco a vela tiveram seu caráter transfor- 
mador por se integrarem a uma nova organização social propiciada pela urbanização. [...] 
Isso significa grande número de pessoas atuando de forma organizada pela incorporação de 
conhecimentos sociais e sob uma liderança que vai se estabelecendo e adquirindo 
legitimidade. [...] 
Invenções e descobertas são pré-condições para a organização social do tipo urbano, que 
por seu lado provoca novas descobertas, através do processo de exploração e adequação 
ao meio ambiente. 
A cidade não apenas decorre de um determinado grau de desenvolvimento das técnicas e do 
conhecimento humano, em geral. Ela também impele a espécie humana a crescer.” 
PINSKY, J. As primeiras civilizações. São Paulo: Atual, 1987. p. 44-47.