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SIMULAÇÃO GERENCIAL Gisele Lozada Conceitos e características dos jogos de empresas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identi� car os conceitos que de� nem os jogos de empresas. De� nir os elementos constituintes dos jogos de empresas. Reconhecer as características dos jogos de empresas. Introdução Os jogos são entendidos como atividades em que indivíduos ou grupos interagem entre si, de forma racional, comportando-se estrategicamente. Tais circunstâncias podem ser verificadas nos mais diversos contextos, com diferentes níveis de criticidade, desde a recreação até a economia, por exemplo. Voltados ao ambiente organizacional, assumem a forma dos jogos de empresas, sobre os quais distintos enfoques e abordagens foram construídos ao longo dos anos e dos trabalhos realizados por vários autores que se dedicaram ao estudo do tema. Os diversos conceitos elaborados por diferentes autores representam importantes contribuições ao estudo dos jogos de empresa, auxiliando em sua definição e compreensão. A partir da avaliação conjunta de muitos pontos de vista, torna-se possível extrair aspectos relevantes dos jogos de empresas, como simulação, tomada de decisões, estratégia, exercício sequencial, prática e aprendizado. Essas características integram e repre- sentam a essência dos jogos de empresa. Neste texto, você vai estudar os conceitos que definem os jogos de empresas, seus elementos constituintes e também suas principais características, permitindo uma maior e mais acertada compreensão sobre o tema e suas potencialidades. Conceitos dos jogos de empresas O conceito de jogos é aplicável aos mais diversos contextos e propósitos, desde a recreação até cenários mais formais e complexos como o econômico e corporativo. Quando os jogos são voltados ao ambiente organizacional, assumem a forma dos jogos de empresas, sobre os quais diferentes enfoques e abordagens foram construídos ao longo dos anos e dos trabalhos realizados por vários autores que se dedicaram ao estudo do tema. Para Thorelli e Graves (1964), uma simulação ou jogo empresarial pode ser definido como um exercício sequencial de tomada de decisões, estruturado em torno de um modelo de uma situação empresarial no qual os participantes se encarregam da tarefa de administrar as empresas simuladas. Tanabe (1977) complementa, definindo jogos de empresas como uma sequência de tomada de decisões que determina mutações no estado patrimonial das empresas fictícias, à luz das quais os participantes tomam novas decisões, repetindo um ciclo por certo número de vezes, conforme esquema ilustrado na Figura 1. Figura 1. Descrição de um curso de jogos de empresas. Fonte: Adaptada de Tanabe (1977, p. 50). CICLO REPETITIVO Comentários sobre estratégias Revisão de erros e acertos Avaliação do jogo procedida pelo instrutor ENCERRAMENTO Familiarização dos alunos ao ambiente simulado PREPARAÇÃO Estudo das regras do jogo Análise de dados passados Desenvolvimento do plano estratégico Instrutor Instrutor Apuração de resultados Entrega dos relatórios de resultados (feedback) Equipes Equipes Tomada de decisões Análise e comparação entre resultados e planejamento Simulação gerencial 38 Segundo Martinelli (1987), os aspectos importantes e peculiares dos jogos de negócios são seu caráter extremamente dinâmico, sua grande abrangência como um método de ensino e desenvolvimento pessoal, assim como o aspecto sequencial, o qual motiva e aproxima-se ao máximo da realidade empresarial a qual está se procurando simular. Ramos (1991) complementa, considerando que a simulação empresarial realizada por meio dos jogos de empresas é uma seletiva representação da realidade, abrangendo apenas aqueles elementos da situação real que são considerados relevantes para seu propósito de aprimo- ramento das habilidades e competências gerenciais dos participantes do jogo. Gramigna (1993) descreve os jogos como uma atividade previamente planejada, na qual os jogadores são convidados a enfrentar desafios que re- produzem a realidade do seu dia a dia. Além de propiciar o aperfeiçoamento de habilidades técnicas, os jogos de empresas proporcionam o aprimoramento das relações sociais entre as pessoas. Para atingir objetivos norteadores do jogo, durante a sua aplicação os participantes-jogadores passam por um pro- cesso de comunicação intra e intergrupal, em que é exigido de todos usarem habilidades como: Ouvir, processar, entender e repassar informações. Dar e receber feedback de forma efetiva. Discordar com cortesia, respeitando a opinião dos outros. Adotar posturas de cooperação. Ceder espaço para os colegas. Mudar de opinião, tratando ideias conflitivas com flexibilidade e neutralidade. Para Wilhelm (1997), os jogos de empresas estruturados são sistemas que, por meio da simulação de diversas atividades inerentes a uma empresa, são capazes de criar situações que envolvem questões relativas à produção, à distribuição e ao consumo, permitindo ao grupo vivenciar situações que abrangem a aplicação de conhecimentos e técnicas de acordo com um objetivo. Vicente (2001) relata que no processo de aplicação dos jogos de empresas os participantes-jogadores assumem o papel de um tomador de decisões em uma organização empresarial inserida em uma economia globalizada. Isso significa dizer que os participantes-jogadores assumem o papel de CEO (Chief Executive Officer), ou seja, diretor de empresa ou gerente de algum setor. Assim, se evidencia que o objetivo fundamental dos jogos de empresas é resolver situações problemas e ou gerenciar a posição estratégica da empresa em cenário competitivo. 39Conceitos e características dos jogos de empresas Barçante e Pinto (2003), por sua vez, buscam sintetizar os jogos de em- presas como uma metodologia de treinamento, composta por um conjunto de atividades sequenciais e estruturadas, que simula um ambiente empresarial ideal altamente competitivo, e que suscita no treinando o desejo de aprender. Rocha (1997), ao complementar de forma sucinta, aponta os jogos de empresas como uma simulação do ambiente empresarial, tanto em seus aspectos internos como externos, que permite a avaliação e a análise das possíveis consequências de decisões adotadas. Embora esses diversos conceitos apresentem variados aspectos sobre os jogos de empresas, demonstram também uma interpretação coletiva harmo- niosa, onde as definições se complementam, reforçando o entendimento do tema. Em alguns casos, determinados aspectos podem ser mais enaltecidos que outros, em função do ponto de vista sob o qual o autor está avaliando o contexto, mas que se complementam, formando um conjunto homogêneo de considerações que definem os jogos de empresas. Todas essas explicações representam importantes contribuições ao estudo dos jogos de empresas, auxiliando em sua definição e compreensão. A partir da avaliação conjunta dos diversos pontos de vista expostos, torna-se possível extrair aspectos relevantes dos jogos de empresas, como simulação, tomada de decisões, estratégia, exercício sequencial, prática e aprendizado. Essas características integram e representam a essência dos jogos de empresa. Elementos dos jogos de empresas Antes de avaliarmos os jogos de empresas, cabe retornamos um passo, ava- liando o conceito do que compõem seu cerne: os jogos. Jogos correspondem a situações que envolvem interações entre agentes racionais, que se comportam de forma estratégica. São compreendidos como a representação formal que permite a análise dessas situações, onde os agentes se relacionam e são infl uenciados mutuamente, sendo compostos pelos seguintes elementos (FIANI, 2004): Modelo formal: regras preestabelecidas de apresentação e estudo, que permitem sua compreensão. Interações: relacionamento entre agentes, onde as ações individuais influenciam os demais. Agentes (jogadores): indivíduo ou grupo com capacidade de decisão,podendo afetar os demais. Simulação gerencial 40 Racionalidade: emprego dos meios mais adequados para que objetivos sejam atingidos. Comportamento estratégico: a tomada de decisão de cada jogador causa consequências aos demais, motivando que todos tomem suas decisões levando em conta aquilo que espera dos demais como resposta às suas ações. Todos esses elementos compõem um cenário que, quando aplicado sobre o ambiente empresarial, participa da formação dos jogos de empresas, cuja estrutura básica é composta por (ROCHA, 1997): Manual: conjunto de todas as regras do jogo, incluindo formas de relacionamento entre as informações (entrada e saída), comportamento esperado dos personagens, posicionamento do instrutor, relacionamento entre os participantes, ou qualquer outra necessidade para que o jogo possa ser realizado, tais como: a) Roteiro de trabalho: contém informações relacionadas ao ambiente político, econômico e gerencial onde a empresa fictícia está inserida, constituindo o cenário onde as decisões serão tomadas. b) Material de apoio do administrador: preparado previamente, mas distribuído pelo administrado ao grupo no decorrer do jogo. c) Material de apoio dos participantes: contém informações básicas como objetivos do jogo, sequência das atividades, dados técnicos sobre a empresa simulada e as atividades previstas para cada fase. d) Local para realização do jogo: configuração física do local onde o jogo de empresas é realizado. Animador: corresponde à figura do instrutor, sendo incumbido de coordenação do jogo, da apuração de resultados e do fornecimento das informações necessárias ao desempenho das atividades, devendo interagir com os participantes, coordenando e orientando as equipes em suas discussões e análises das alternativas possíveis durante o desenvolvimento do jogo. Processamento: geralmente realizado com o auxílio de um computador ou ferramentas eletrônicas, onde os dados são armazenados (sejam pro- venientes do animador ou dos jogadores), permitindo o processamento dos dados e a realização dos cálculos necessários para apuração dos resultados obtidos pelos jogadores. Jogador: corresponde a cada um dos agentes (ou grupos) integrantes do jogo, muitas vezes chamados de empresas, sendo incumbidos do estudo 41Conceitos e características dos jogos de empresas do ambiente simulado, bem como a pesquisa e definição de estratégias necessárias para superar os demais competidores, vencendo o jogo, utilizando as informações fornecidas (manual) e os conhecimentos desenvolvidos ao longo do jogo. A estrutura básica dos jogos de empresas é composta por elementos como: manual, animador, processamento e jogador. Os elementos que compõem os jogos de empresas podem ser demonstrados sobre diversos aspectos e cenários, como por meio de um jogo de futebol, por exemplo: os jogadores são os agentes principais que disputam e tomam decisões (jogadas), atuando coletivamente em busca do objetivo. O técnico pode ser considerado o animador, que coordena o time, acompanha resultados e fornece instruções. O juiz pode representar a figura do manual, apontando as regras e os comportamentos esperados. E, por fim, o processamento, correspondendo à apuração e ao acompanhamento dos resultados, seja durante a partida (placar) ou depois (tabela de classificação), permitindo a realização de cálculos como apuração de estatísticas e projeções de resultados. Características dos jogos de empresas Para que os jogos de empresas sejam capazes de atingir seus objetivos e gerar os benefícios esperados, necessitam ser dotados de algumas características básicas específi cas que, assim como seus objetivos, também podem ser ana- lisadas sob diferentes ópticas. Gramigna (1993), ao avaliar os jogos de empresas sob o ponto de vista das características gerais, considera que eles devem apresentar: Simulação gerencial 42 Possibilidade de modelar a realidade: o jogo deve reproduzir as situações reais de tal forma que o participante possa estabelecer conexões com as atividades da rotina empresarial. Papéis claros: o jogo deve possuir uma estrutura de papéis bem clas- sificados, e as instruções fornecidas pelo orientador do jogo devem ser detalhadas, permitindo aos participantes a identificação de suas responsabilidades e comportamentos desejados ao personagem que será desenvolvido. Regras claras: as regras devem ser fornecidas pelo instrutor e estar aces- síveis aos participantes, com clareza suficiente para que as permissões e proibições sejam entendidas. Condições de atratividade: o jogo precisa ser atrativo e envolvente, sendo apresentado pelo instrutor de forma motivadora e por meio de um contato interativo com os participantes. Já para Kirby (1995), os jogos de empresas têm seis características básicas, que correspondem à existência de: Meta de aprendizado. Exposição clara sobre os comportamentos inerentes à atividade e suas consequências. Elemento de competição entre participantes. Elevado grau de interação entre participantes. Final definido para o jogo. Resultado definido, na maioria dos casos (vencedores, perdedores, pontuação). No contexto dos jogos de empresas, é possível ressaltar ainda alguns de seus aspectos relevantes, tais como: Caráter dinâmico: modelos de simulação, de característica sequencial, voltados à tomada de decisão. Abrangência: método de treinamento eficaz, voltado ao desenvolvimento de habilidades, potencialidades e atitudes. Direcionamento: voltado à representação da realidade empresarial. Tais aspectos permitem ao jogador viver uma experiência lúdica e mar- cante, que fomenta o aprendizado. Além disso, promove a interatividade entre 43Conceitos e características dos jogos de empresas os participantes, propiciando o exercício do trabalho em equipe, natural e necessário ao ambiente empresarial. Os jogos de empresas podem, também, ser comparados à técnica dos es- tudos de caso, porém, com a adição de duas importantes variáveis, que são o feedback (retorno das informações) e a dimensão temporal, que normalmente não integra o estudo de caso. Tal diferença demonstra algumas das principais vantagens da adoção dos jogos de empresas como ferramenta de preparação dos futuros gestores (FIANI, 2004): A possibilidade de observar as consequências das decisões tomadas, viabilizada pelos feedbacks. A capacidade de aprender com os erros, sem que eles representem perda à organização, uma vez que ocorrem no ambiente simulado, relacionada à questão da dimensão temporal. Ainda sobre as vantagens da utilização dos jogos, Gramigna (1993) as divide em dois grupos, sendo destinadas ao instrutor e aos participantes. Leia mais sobre as vantagens obtidas por meio da utilização dos jogos de empresas na obra Jogos de Empresa (GRAMIGNA, 1993). Contudo, como os jogos de empresas tratam de uma simulação da realidade, é importante comentar alguns pontos que podem representar certas limitações, as quais precisam ser conhecidas e consideradas (TANABE, 1977): Nem todos os elementos do sistema real são representados pelos inte- grantes do jogo: as consequências promovidas pelas ações empreendidas sobre esses elementos devem ser fornecidas aos participantes, para que eles possam avaliar os resultados de suas decisões. Algumas informações podem ser fornecidas de modo relativamente vago ou qualitativo: isso irá requerer que os participantes busquem uma definição mais clara e quantitativa dessas variáveis por meio da análise dos resultados obtidos. Simulação gerencial 44 A interação entre os participantes e o meio é essencial: os participantes necessitam envolver-se de forma ativa na simulação, para que possam promover interferências e assim moldar a sequência de situações, que serão a base de seu aprendizado. Existe uma tendência de simplificação da simulação: o meio simulado geralmente é mais simples do que o ambiente real, para que o jogo possa ser processado e os participantes possam identificar asrelações de causa e efeito, vinculando-as aos resultados obtidos de forma mais objetiva. 45Conceitos e características dos jogos de empresas Simulação gerencial 46 BARÇANTE, L. C.; PINTO, F. C. Jogos de negócios: revolucionando o aprendizado nas empresas. Rio de Janeiro: Impetus, 2003. FIANI, R. Teoria dos jogos: para cursos de administração e economia. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. GRAMIGNA, M. R. M. Jogos de empresa. São Paulo: Makron Books, 1993. KIRBY, A. 150 jogos de treinamento. São Paulo: T&D, 1995. MARTINELLI, D. P. A utilização de jogos de empresas no ensino de administração. 1987. Dissertação (Mestrado em Administração) – Departamento de Administração da FEA/USP, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1987. RAMOS, C. Simulações e jogos para formação e treinamento de administradores. Brasília: Escola Nacional de Administração Pública, 1991. ROCHA, L. A. G. Jogos de empresas: desenvolvimento de um modelo de aplicação no ensino de custos industriais. 1997. Dissertação (Mestrado em Engenharia da Produção) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1997. TANABE, M. Jogos de empresas. 1977. Dissertação (Mestrado em Administração) – De- partamento de Administração da FEA/USP, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1977. THORELLI, C.; GRAVES, P. International operations simulations. London: Free, 1964. VICENTE, P. Jogos de empresa. São Paulo: Makron Books, 2001. WILHELM, P. P. H. Uma nova perspectiva de aproveitamento e uso dos jogos de empresas. Revista de Negócios, Blumenau, v. 2, n. 3, p. 44, abr./jun. 1997. Leitura recomendada JOHNSSON, M. E. Jogos de empresas: modelo para identificação e análise de percepções da prática de habilidades gerenciais. 2006. 204 f. Tese (Doutorado em Engenharia de Produção) – Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006. Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.