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Como citar este material: BARBOSA, Leonardo Boscolo. Estratégia competitiva e organizacional no agronegócio. Rio de Janeiro: FGV, 2023. Todos os direitos reservados. Textos, vídeos, sons, imagens, gráficos e demais componentes deste material são protegidos por direitos autorais e outros direitos de propriedade intelectual, de forma que é proibida a reprodução no todo ou em parte, sem a devida autorização. INTRODUÇÃO Discussões sobre competitividade, normalmente, fazem referência aos aspectos produtivos. Muitos são os esforços no sentido de reduzir os custos de produção que, entretanto, acabam por gerar resultados pouco significativos que, frequentemente, se perdem no momento da comercialização dos produtos (BATALHA, 2001). Contudo, na prática, verifica-se que a eficiência de determinado sistema depende de como as empresas se organizam ao longo dos elos produtivos. Quanto melhor a coordenação entre os agentes, menores serão os custos de transação entre eles, menores os conflitos relacionais e mais rápida a adaptação às mudanças do ambiente competitivo (BATALHA; SCRAMIM, 1999; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000; ARBAGE, 2004). O elevado grau de interdependência verificado dentro de sistemas agroindustriais (SAGs) faz com que a dinâmica individual de cada agente influencie diretamente todos os demais, em uma cadeia produtiva (MACHADO, 2002). Em especial, devido às características particulares do agronegócio, tais como perecibilidade, custo de frete, sanidade, qualidade e regularidade de oferta, bem como os seus aspectos inerentes, isto é, o alto grau de incerteza quanto à variação de preços e de qualidade dos produtos, portanto a análise das estruturas de mercado e das relações contratuais entre os agentes é essencial para o entendimento da dinâmica da comercialização no agronegócio (AZEVEDO, 2000; SÁ et al., 2015). Estudos nesse sentido possibilitam a complexidade dos sistemas agroindustriais, como os mercados se organizam e como os atores atuam para, dessa forma, suportar decisões e ações estratégicas (SÁ et al., 2015) voltadas à eficiência e competitividade. Essa abordagem ganha ainda mais relevância perante o novo cenário competitivo global, que tem como característica a constante mudança nas regras do jogo, portanto, exige condutas competitivas mais ágeis e enérgicas (DOBBS et al. 2015; CHABOWSKI; MENA, 2017). O processo de globalização observado nas últimas décadas promoveu a unificação dos mercados mundiais, por meio das crescentes interconexões e interdependências (FLEURY; FLEURY, 2012) e a intensificação da competição em escala global (CHABOWSKI; MENA, 2017; FGV, 2018). Somam-se a isso as crescentes exigências dos mercados consumidores – consumidores, governos e instituições em geral – em termos da qualidade, segurança alimentar e outras especificações, por exemplo, rastreabilidade e produtos ecologicamente corretos (NEVES et al., 1997; CARFANTAN; BRUM, 2006). Analisar a competitividade pelo prisma da coordenação dos sistemas agroindustriais consiste em abordagem difundida e reconhecida (ZYLBERSZTAJN, 1995, 2000; FARINA, 1999, AZEVEDO, 2000), que permite: uma visão sistêmica do agronegócio; a avaliação dos diferentes estágios de produção e dos seus elos de interação; e o discernimento do papel das instituições que interferem no ambiente competitivo. Com isso, possibilitam aos gestores envolvidos com o agronegócio analisar adequadamente o contexto competitivo e os seus determinantes para, dessa maneira, orientar o processo de tomada de decisões de maneira mais estruturada. Decisões como limites eficientes da empresa, arranjos institucionais de governança e sobre comprar ou fazer são discutidas. O objetivo geral é oferecer reflexões e possibilidades de aplicação de mecanismos de coordenação que suportem estratégias competitivas de organizações em um contexto de sistemas agroindustriais. Os objetivos específicos, por sua vez, são: Identificar os conceitos fundamentais relacionados a estratégias competitivas e coordenação em sistemas agroindustriais, suportadas pelas teorias da Organização Industrial e Nova Economia Institucional. Identificar oportunidades de atuação estratégica e apoiar a tomada de decisão no campo competitivo de forma mais estruturada. A disciplina está estruturada em quatro módulos. No primeiro módulo, Competitividade e agronegócio, são apresentadas as diferentes vertentes do conceito de competitividade aplicadas na teoria e na prática, bem como as formas utilizadas para a sua medição. Em seguida, serão discutidas a aplicação e a relevância do conceito para o agronegócio, tendo em vista os seus determinantes. No segundo módulo, Coordenação de cadeias produtivas no agronegócio, são abordados conceitos e características de sistemas agroindustriais e cadeias produtivas no agronegócio, tendo em vista a compreensão do uso de abordagem sistêmica para a análise da competitividade. Nesse sentido, tanto o conceito quanto uma contextualização teórica a respeito da coordenação das atividades e dos agentes dentro do agronegócio são expostos. O conteúdo leva em consideração, ainda, algumas das principais características que tratam da coordenação vertical e horizontal via contratos. O terceiro módulo, Análise competitiva e posicionamento no agronegócio, oferece mecanismos e abordagens que tratam da análise competitiva, à luz da teoria da Organização Industrial. São considerados e discutidos elementos como a definição do mercado relevante, a análise do ambiente competitivo, a relação entre a concorrência e as estruturas de mercado. O módulo avança para a apresentação do modelo de análise competitiva de Porter e das estratégias genéricas para a criação de valor e de vantagens competitivas. Por fim, no quarto módulo, Estratégias organizacionais: decisão de comprar ou fazer, são apresentados os principais aspectos teóricos da Nova Economia Institucional e da Economia dos Custos de Transação, de forma a suportar o entendimento dos aspectos que determinam a definição de estruturas de governança adequados para a eficiência na coordenação das atividades entre os agentes. Os limites eficientes da firma são discutidos dentro da dicotomia entre a governança por mercados e hierarquia, a qual sustenta a tomada de decisão entre comprar ou fazer. SUMÁRIO MÓDULO I – COMPETITIVIDADE E AGRONEGÓCIO......................................................................... 9 COMPETITIVIDADE ........................................................................................................................... 10 MEDIDAS DE COMPETITIVIDADE .................................................................................................... 18 COMPETITIVIDADE NO AGRONEGÓCIO ........................................................................................ 23 MÓDULO II – COORDENAÇÃO DE CADEIAS PRODUTIVAS NO AGRONEGÓCIO ........................... 33 CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS DE CADEIAS PRODUTIVAS NO AGRONEGÓCIO .................. 34 COORDENAÇÃO DO AGRONEGÓCIO: CONTEXTUALIZAÇÃO TEÓRICA ..................................... 38 COORDENAÇÃO DO AGRONEGÓCIO: CONCEITUAÇÃO .............................................................. 41 Limitação do sistema de preços e a relevância institucional ............................................. 43 CONTRATOS E COORDENAÇÃO VERTICAL E HORIZONTAL ........................................................ 45 Contratos e coordenação horizontal..................................................................................... 47 Contratos e coordenação vertical .......................................................................................... 48 MÓDULO III – ESTRATÉGIA ORGANIZACIONAL: DECISÃO DE ....................................................... 51 COMPRAR OU FAZER...................................................................................................................... 51 NOVAtempo em reflexo a mudanças internas e externas. As transformações podem resultar da redefinição das fronteiras do sistema, alterações no meio ambiente ou de rearranjo interno dos subsistemas que compõem o sistema principal. Entre os principais fatores que definem a evolução dos contornos de um “sistema-cadeia de produção”, destacam-se: fatores políticos, fatores econômicos e financeiros, fatores tecnológicos, fatores socioculturais e fatores legais (BATALHA, 2001, p. 39). As empresas exercem ações sobre o meio ambiente que as cerca com o objetivo de atingir seus objetivos. Estas ações podem ser o resultado de seus vários agentes internos. Por sua vez, o meio ambiente reagirá de certa forma a este estímulo. Esta resposta poderá traduzir-se, por exemplo, em novas restrições para a política da empresa. Assim, a empresa deve buscar um equilíbrio dentro desta dinâmica concorrencial através da tentativa de 38 obter as respostas mais favoráveis em relação aos objetivos a serem alcançados. O meio ambiente concorrencial apresentará sempre determinadas condições (tecnológicas, econômicas, sociais etc.) que podem alterar esta dinâmica de funcionamento. A análise de cadeias de produção deve estudar o equilíbrio existente em determinada situação para identificar as condições que podem alterar este equilíbrio. O enfoque sistêmico por cadeias produtivas, portanto, pode ser considerado como abordagem adequada para analisar questões relevantes, conforme verificado na literatura. Alguns exemplos são: i) dividir o sistema produtivo em setores; ii) formular e analisar políticas públicas e privadas; iii) servir de ferramenta para a descrição técnico-econômica; iv) analisar e definir estratégia das firmas; v) servir como ferramenta de análise de inovações e apoio a decisões tecnológicas (BATALHA, 2001). Também permite analisar aspectos de eficiência e desempenho das cadeias produtivas. Por um lado, a eficiência dos sistemas agroindustriais decorre da capacidade de adaptação destes às mudanças tecnológicas e às alterações que ocorrem nas variáveis que compõem o ambiente onde a organização está inserida. Por outro, a competitividade resulta da coordenação eficiente de todo o sistema produtivo (ARBAGE, 2004). Na unidade a seguir, será apresentada a contextualização teórica que suporta o conceito de coordenação dentro de cadeias produtivas, com ênfase para sistemas agroindustriais, conforme conhecimento desenvolvido na literatura especializada. Coordenação do agronegócio: contextualização teórica O tema coordenação está presente na literatura do agronegócio desde os trabalhos pioneiros de Davis e Goldberg, de Harvard, assim como na escola francesa de cadeias agroindustriais (ZYLBERSZTAJN, 1995), ambos desenvolvidos na década de 1960. O enfoque emerge da necessidade de se estudar a firma do mundo real e o seu funcionamento interno (ZYLBERSZTAJN, 2005), além da visão neoclássica da firma. Nesse sentido, Zylbersztajn (2005) afirma que “a firma do mundo real não se assemelhava em nada à firma da teoria neoclássica. Se quiséssemos discutir estratégias, estruturas internas das organizações ou mesmo relações interorganizacionais as ferramentas da teoria da firma mostravam-se impróprias” (ZYLBERSZTAJN, 2005, p. 387). Como importante base teórica para a análise de SAGs, tanto a escola norte-americana quanto a francesa partem do conceito de firma contratual, proposto por Ronald Coase. A firma coaseana apresenta natureza contratual e surge como resposta eficiente dos agentes econômicos para coordenar a produção (ZYLBERSZTAJN, 2005, SÁ et al., 2015). 39 Coase (1937) contraria a noção tradicional neoclássica de que a firma é considerada como uma função da produção. Além disso, a firma envolve uma relação orgânica entre agentes econômicos por meio de contratos, sejam eles explícitos, como contratos de trabalho, sejam implícitos, como parcerias informais (ZYLBERSZTAJN, 2000; SÁ et al., 2015). O conceito de firma de Coase, portanto, é mais amplo do que o considerado pela economia neoclássica. Segundo Zylbersztajn (2000), trata-se de um conjunto de contratos coordenados e estes resultam na função produtiva. Incorpora, dessa forma, como característica de produção, a coordenação via contratos entre firmas, franquias, alianças estratégicas, parcerias, entre outras (SÁ et al., 2015). O conceito de firma contratual de Coase põe luz, ainda, na questão da existência de custos de funcionamento dos mercados, os quais podem ser superiores aos custos internos da organização. Essa é outra questão que contraria a noção neoclássica, no que diz respeito ao papel dos preços como alocador eficiente de recursos do sistema econômico. Os custos para funcionamento dos mercados, isto é, custos ou fricções associados às transações entre os agentes econômicos, enriquecem e complementam a análise via mecanismo de preço11 proposto pela teoria neoclássica (ZYLBERSZTAJN, 1995; 2000; 2005; SÁ et al., 2015). Segundo Zylbersztajn (2005), a partir da visão da firma como um complexo de contratos, desenvolve-se uma linha de estudos das organizações como arranjos institucionais que orientam as transações, tanto por contratos formais – amparados por lei – quanto por acordos informais – suportados por salvaguardas reputacionais e outros mecanismos sociais. Com a reintrodução das instituições na microeconomia, a firma como um conjunto de contratos apresenta estrutura, isto é, forma de governança, que varia de maneira previsível, conforme as regras institucionais. Em consequência, emerge uma família de teorias que permitem estudar os problemas do mundo real (ZYLBERSZTAJN, 2005). As instituições são consideradas como a regra do jogo em uma sociedade, de forma que modelam o comportamento e interação humanos (NORTH, 1990). Elas atuam como restrições, formais e informais, as quais definem incentivos nas relações entre as partes, bem como diminuem incertezas (NORTH, 1990; KALLÁS, 2014; BARBOSA, 2018). As instituições influenciam o processo de reprodução social e de estruturação das organizações (MEYER; ROWAN, 1977; DIMAGGIO; POWELL, 1983; SCOTT, 2008). 11 Segundo Zylbersztajn (1995), a visão neoclássica considera a firma como uma entidade otimizadora, indiferente à sua estrutura interna e às condições do ambiente em que se insere. Os preços são os direcionadores das suas decisões produtivas. Os consumidores são capazes de decodificar as informações sobre os atributos dos bens e são capazes de escolher racionalmente entre grupos alternativos de bens oferecidos. Por fim, a figura do “leiloeiro” – auctionner – resolve o problema de equilíbrio dos mercados a custo zero. Segundo o pesquisador, superestima o papel dos preços como alocador de recursos no sistema econômico, negligenciando fatores institucionais e custos de transações envolvidos entre os agentes. 40 Além do ambiente institucional, outro fator que influencia os SAGs trata-se do ambiente organizacional. As organizações, nesse contexto, dizem respeito a estruturas criadas para dar ao funcionamento dos SAGs, tais como associações representativas, agências reguladoras, federações e sindicatos, empresas, organizações não governamentais, entre outros agentes. O ambiente organizacional muda com maior velocidade e facilidade que o ambiente institucional (ZYLBERSZTAJN, 1995; MIELE et al., 2011; SÁ et al., 2015). A figura 6 apresenta ilustração de um SAG padrão, considerando os agentes e as transações típicos, além dos fatores dos ambientes institucional e organizacional que o influenciam. Figura 6 – Representação de um SAG padrão e das suas transações típicas Fonte: Adaptado de Zylbersztajn (1995) Em uma economia dinâmica, o agronegócio pode ser mais bem explicado a partir de análises quanto ao fluxo de bens e serviços por meio dos agentes econômicos (ZYLBERSZTAJN, 1995) que compõem a cadeia produtiva. Em cada elo dentro do SAG, são observadas transações diversas entreos agentes, que, como já discutido, podem ser formais ou informais e determinam a dinâmica competitiva. De acordo com Coase (1937), as transações em um contexto de mercado não ocorrem sem custo. À medida que os custos de operar o mercado – isto é, de procurar, vender, negociar, contratar, monitorar e solucionar disputas com outras firmas – aumentam, maior a vantagem de organizar recursos internamente na firma. Esses custos são considerados custos de transação (COASE, 1937). Arrow (1969) define custos de transação como aqueles necessários para mover o sistema econômico, tais como custos de planejamento, adaptação e monitoramento associados ao funcionamento dos mercados. Para Marino (2001), tais custos de funcionamento de mercado se somam aos demais custos de produção, isto é, relacionados à transformação tecnológica de insumo em produto, para compor o custo total econômico. O autor considera, dessa maneira, esses custos de transação como custos indiretos à produção que emergem do relacionamento entre agentes por problemas de coordenação (SÁ et al., 2015). 41 Os custos de transação podem ser divididos em: custos gerados antes da transação, tais como referentes à elaboração e à negociação de contratos, bem como à busca e ao levantamento de informações sobre a contraparte do contrato, por exemplo; e custos criados após a conclusão da transação, como os relacionados ao monitoramento de demandas contratuais, à solução de conflitos e a readequações eventuais. Tanto os custos gerados antes, ex ante, quanto os originados após a efetivação do negócio, ex post, são diretamente proporcionais à quantidade de agentes econômicos envolvidos. Quanto mais participantes no mercado, maiores os seus custos de funcionamento (WILLIAMSON, 1985; MARINO, 2001; SÁ et al., 2015). Os custos de transação, portanto, estão no cerne das relações contratuais que, por sua vez, atuam como principais enfoques de coordenação de um SAG. À medida que se entende que as organizações apresentam estruturas de custos particulares e que, dessa maneira, atuam no mercado em condições de competição diferentes (COASE, 1937; ARBAGE, 2004), cresce a relevância dos estudos em relação à coordenação. Na próxima unidade, será abordado o conceito de coordenação e a sua aplicação para o agronegócio, tendo em vista a visão sistêmica de SAGs, bem como a sua relevância em termos da competitividade do sistema perante os consumidores intermediários e finais. Coordenação do agronegócio: conceituação Mas, afinal, qual é o conceito de coordenação? Qual é a sua relevância estratégica para o agronegócio? A tradição recente de estudos desenvolvidos no âmbito de sistemas agroindustriais toma como base teórica para o desenvolvimento de análises e discussões estratégicas a Organização Industrial e a NEI, em especial a vertente da Economia dos Custos de Transação (ECT). Sob essa perspectiva, o conceito de coordenação do agronegócio é discutido a seguir. Goldberg (1968) argumenta que o conceito de coordenação diz respeito à capacidade de os agentes econômicos receberem, processarem, difundirem e utilizarem informações com o objetivo de propor e viabilizar estratégias competitivas, estabelecer controles e reagir a mudanças no meio ambiente competitivo (SÁ et al., 2015). Trata-se da habilidade de transmitir informações, estímulos e controle nas etapas sucessivas que compõem o grupo de atividades que são necessárias para atender ao mercado (FARINA; ZYLBERSZTAJN, 1994). Para Zylbersztajn (1995), “coordenação de sistemas de agronegócio é definida como o resultado da ação de distintos mecanismos que permitem suprir as necessidades dos consumidores finais” (ZYLBERSZTAJN, 1995, p. 131). 42 O conceito de coordenação trata, fundamentalmente, de eficiência e desempenho das cadeias produtivas (ARBAGE, 2004). Nesse sentido, quanto melhor o processo de coordenação entre os agentes, menores serão os custos entre eles, mais rápida a adaptação às mudanças no ambiente competitivo, menos custosos serão os conflitos inerentes às relações que ocorrem nos elos da cadeia (BATALHA; SCRAMIM, 1999; FARINA, 1999; ARBAGE, 2004), bem como maior será a capacidade de resposta ao cliente (CARDOSO et al., 2007). A coordenação de um sistema complexo, como os agroindustriais, é importante tanto do ponto de vista da capacidade de adaptação às mudanças do ambiente econômico, quanto atrelada aos custos de transação entre os agentes (CARDOSO et al., 2007), custos estes relacionados ao funcionamento do mercado (ARROW, 1969; MARINO, 2001). Similarmente, Farina et al. (1997) defendem que os determinantes de um sistema eficiente de coordenação relacionam-se aos aspectos das transações estabelecidas entre os segmentos de uma cadeia produtiva como um todo e em cadeias de suprimento em particular. Dessa forma, a coordenação não se trata de característica intrínseca dos sistemas produtivos, mas resultado de uma construção dos agentes econômicos que compõem o sistema (FARINA, 1999). Com o propósito de reduzir custos de transação, os agentes fazem uso de mecanismos apropriados para regular uma determinada transação (WILLIAMSON, 1985; FARINA, 1999). A ECT define como principais atributos das transações a especificidade dos ativos envolvidos, a frequência com que ocorrem as transações e o nível de incerteza relacionado a elas. A teoria considera ainda dois pressupostos, referentes ao comportamento humano: a racionalidade limitada e o oportunismo. A incerteza e o grau de competitividade dos mercados variam de acordo com as situações (ARBAGE, 2004). Arbage (2004) argumenta que existem, em um sentido amplo, pelo menos três arranjos de coordenação, em busca da redução de custos de transação: coordenação via preço, decorrente das negociações nos mercados spot; coordenação via hierarquia, em casos em que se verifica a integração vertical das atividades produtivas por uma organização, e estruturas de governança híbridas ou intermediárias. A eficiência dos arranjos de coordenação resulta da adequação entre as transações analisadas e os mecanismos de governança aplicados. Isso implica que os atributos das transações – que dizem respeito à frequência, à incerteza e ao grau de especificidade dos ativos transacionados – estejam alinhados às estruturas de governança utilizadas para incentivar e monitorar as transações, de forma que os custos de transação sejam reduzidos (WILLIAMSON, 1991b, AZEVEDO, 2000). 43 A frequência trata da medida de recorrência de efetivação de uma transação; a incerteza dificulta a capacidade de os agentes preverem acontecimentos futuros, o que aumenta as lacunas em contratos; e a especificidade dos ativos determina se o ativo é específico para a atividade em questão e quão custosa é a sua utilização alternativa (FARINA, 1999). Estruturas de governança, por sua vez, atuam como salvaguardas aos potenciais comportamentos oportunísticos e à racionalidade limitada dos agentes econômicos perante os atributos das transações (MENDES et al., 2008). Zylbersztajn (1995), na sua análise sobre os diferentes arranjos de coordenação nas cadeias produtivas, destaca os seguintes aspectos: i) a coordenação do agronegócio exclusivamente via sistema de preço não serve como padrão; ii) as instituições apresentam papel importante no processo de coordenação; iii) os custos são particulares a cada instituição; e iv) o conceito de coordenação permite uma expansão da noção tradicional de competitividade, passando da ótica dos custos comparados para a eficiência de sistemas comparados (ARBAGE, 2004). Limitação do sistema de preços e a relevância institucional A tradição da teoria econômica neoclássica indica que o sistema de preços permite uma coordenação total da ação de agentes econômicos. Tal proposição se sustenta nos princípios de concorrência perfeita: i) produto homogêneo; ii) livre fluxo de informações; iii) preço como variável básica para a tomada dedecisões; iv) racionalidade ilimitada; v) livre mobilidade dos agentes econômicos; e vi) produção e demanda “atomizadas”. A visão neoclássica pressupõe que os mercados são considerados como o meio principal e suficiente para a coordenação das ações organizacionais e o estabelecimento de uma espécie de governança geral das decisões dos agentes econômicos. Também considera a racionalidade ilimitada dos agentes, ou seja, que todas as informações necessárias para a tomada de decisão são interpretadas a partir do sistema de preços pelos agentes (ARBAGE, 2004). No entanto, conforme argumenta Zylbersztajn (2005, p. 387), o papel dos preços é oferecer informações e não de coordenar a produção. Em outras palavras, os preços funcionam, mas precisam de outros mecanismos complementares para coordenarem sistemas produtivos complexos, como são os SAGs (2000). Neste sentido a teoria neoclássica da firma é adequada ao seu propósito, que não é o de estudar as organizações. Isso se sustenta no fato de que a firma do mundo real – alinhada ao conceito de Coase (1937), isto é, um conjunto de contratos coordenados que resultam na função produtiva (ZYLBERSZTAJN, 2000) – é diferente da firma neoclássica. Dentro do escopo da NEI e da ECT, a firma é vista como uma estrutura de governança, uma construção organizacional, que funciona como reguladora de transação no mercado (MENDES et al., 2008) e busca fundamentalmente a redução dos custos de transação (ARBAGE, 2004). 44 Tais conceitos implicam a relevância do papel das instituições como mecanismos de coordenação em sistemas agroindustriais. Conforme Farina et al. (1997), as instituições fazem parte do ambiente no qual essas transações ocorrem, portanto, interferem tanto na definição dos objetivos das organizações quanto nas estruturas de governança adotadas. Como já mencionado, as instituições correspondem às regras que regulam uma relação específica entre indivíduos, associações, cooperativas ou empresas, via arranjos de governança. Similarmente, o ambiente institucional, que corresponde às macroinstituições, pode determinar o grau de competitividade e as possibilidades de melhor desempenho (MENDES et al., 2008). Segundo Azevedo (2000), o ambiente institucional trata das regras formais, das restrições informais e do direito à propriedade da terra. Regras formais, como legislação e políticas públicas, têm por objetivo induzir determinadas ações dos agentes econômicos principais, por exemplo, a defesa da concorrência. Essa indução ocorre sobre as decisões de investimentos por parte dos agentes e tem efeito somente se for percebida como previsível. As restrições informais, por sua vez, correspondem a valores, tabus, costumes, religiões, códigos de ética, laços étnicos e familiares, que representam o importante papel econômico de restringir o comportamento dos agentes. Tais restrições nem sempre são explícitas ou resultado de uma escolha deliberada da sociedade. Finalmente, o direito de propriedade da terra consiste em característica geral de investimentos agropecuários, os quais são apropriados, na sua maior parte, à terra. Dessa forma, o risco de expropriação – despossar legalmente – da terra é traduzido no risco de expropriação dos investimentos nela incorporados (AZEVEDO, 2000). Kupfer e Hasenclever (2002) destacam o papel do Estado na promoção dos setores produtivos via políticas industriais. Estas reúnem um conjunto de instrumentos, tais como (MIELE et al., 2011): regulação e defesa da concorrência; política de comércio exterior; política de propriedade intelectual, como marcas e patentes, e apoio à inovação e parcerias entre empresas e instituições científicas e acadêmicas; oferta de financiamento de longo prazo, direcionada a investimentos e exportações), e incentivos fiscais e compras governamentais. Instituições, portanto, podem reduzir os custos de transação e, dessa forma, contribuir para a eficiência como determinante competitivo, por meio da (HILL, 1995; NORTH, 1990; KALLÁS, 2014): propagação de leis e normas as quais, ex ante, restringem a habilidade e limitam o desejo de os agentes individuais se engajarem em ações oportunistas; criação de mecanismos de monitoramento da aderência aos contratos e criação e manutenção de sansões legais e sociais que podem ser usadas para punir aqueles que violem o espírito e as letras de contratos. 45 Contratos e coordenação vertical e horizontal Segundo Miele et al. (2011), o desenvolvimento do agronegócio proporcionou o aumento do controle das relações entre empresas, cooperativas e produtores rurais, por meio da coordenação entre os segmentos das cadeias produtivas. Essa característica reflete o processo de industrialização da agricultura, que abarca a evolução para a produção diferenciada e para o maior controle dos fluxos de produtos e da informação, características verificadas em setores industriais (GOLDBERG, 1968; FARINA; ZYLBERSZTAJN, 1998; BATALHA, 1997; ZYLBERSZTAJN, 2005). O aperfeiçoamento da coordenação dos sistemas agroindustriais materializa as estratégias aplicadas pelos agentes, tendo como objetivo (MIELE et al., 2011; FARINA, 1999): diminuir os riscos associados a variações no fornecimento ou à aquisição de matéria-prima, no que diz respeito a quantidade e preço; atender a exigências de compradores e consumidores, em termos de qualidade e prazo de entrega; reduzir as oscilações no fornecimento de matéria-prima para, dessa forma, diminuir custos relacionados à ociosidade de plantas industriais e da mão de obra contratada; reduzir a volatilidade na renda agropecuária e reduzir os custos de transação entre os agentes econômicos que participam do sistema. São diversas as formas de coordenação das atividades, portanto, do fluxo dos produtos dentro de um sistema agroindustrial. O quadro 5, a seguir, apresenta o resumo das características de algumas das formas principais, segundo Miele et al. (2011). 46 Quadro 5 – Características de algumas das principais formas de coordenação formas instrumentos controle da produção forma de pagamento risco mercado spot negociação de preços e condições no mercado a cada transação, por parte dos compradores e vendedores produtor rural preço negociado na época da venda alto para ambos os agentes contratos de compra e venda compromissos de compra e venda; definição de regras de pagamento e definição de quantidades e prazos de entrega produtor rural condicionado a questões contratuais preço negociado antes da produção (alojamento de animais ou plantio) reduzido para ambos contrato de parceria fornecimento de recursos e tecnologia; especificações técnicas e exigências de exclusividade definição de regras de pagamento e definição de quantidades e prazos agroindústria pagamento ao produtor por prestação de serviço em função de metas de produtividade reduzido para ambos, sobretudo para o produtor rural integração vertical plena produção da matéria- prima pela indústria em estabelecimentos rurais próprios agroindústria bonificação por bons resultados para gestor contratado para a agroindústria Fonte: Adaptado de Miele et al. (2011) 47 A teoria ECT propõe a existência de três arranjos genéricos de coordenação, em busca da redução de custos de transação: i) coordenação via preço, decorrente das negociações nos mercados spot; ii) coordenação via hierarquia, em casos em que se verifica a integração vertical das atividades produtivas por uma organização; e iii) estruturas de governança híbridas ou intermediárias (ARBAGE, 2004; GONÇALVES; SILVA, 2015). A adoção de cada arranjo passa pela adequação, ou pelo alinhamento, entre as características das transações e os mecanismos de governança. Entre os atributos das transações, destaca-se o nível de especificidade dos ativos envolvidos (WILLIAMSON,1981a; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Entre a governança via mercado ou hierarquia, existem diversas formas híbridas, menos exploradas pela literatura. Essas formas híbridas podem ser vistas como a manifestação de estratégias cooperativas de coordenação vertical via contratos (SHELANSKI; KLEIN, 1995; VIEIRA, 2008) e podem apresentar estruturas de governança particulares. Existem, ainda, formas de coordenação horizontal, que tratam da cooperação entre concorrentes de um SAG, tendo em vista o ganho de competitividade. Contratos e coordenação horizontal Para Cardoso et al. (2007), merece destaque a intensificação da cooperação entre agentes, dentro da dinâmica de concorrência em SAGs. Os autores defendem que formas avançadas de articulação entre as empresas – integração horizontal entre concorrentes – é algo que considera não apenas as agroindústrias, mas trata-se de um fenômeno observado em todos os setores industriais. Nesse contexto, a criação de parcerias amplas entre produtores, fornecedores, organizações tecnológicas e clientes leva a relações intersetoriais sinérgicas, as quais possibilitam as condições estruturais apropriadas para o aumento da competitividade de todos os elos da cadeia de produção (FERRAZ et al., 1997; FARINA; AZEVEDO, 2001; CARDOSO et al., 2007). Segundo Zylbersztajn (2005), agricultores também se organizam horizontalmente na forma de relações contratuais ou acordos informais de produção. Entre as vantagens enumeradas pelo pesquisador, destacam-se o potencial ganho de economias de escala, economias de rede, alternativa para adicionar valor de forma seletiva, ou para ampliar o potencial de coordenação com a indústria processadora. Dessa forma, “existem incentivos para a organização horizontal ampliadora de valor da organização” (ZYLBERSZTAJN, 2005, p. 393). Azevedo (2000) argumenta que, em respeito à produção agrícola, verifica-se, tradicionalmente, estrutura oligopsônica – poucos compradores para muitos vendedores –, o que pode implicar condições desiguais de comercialização. De acordo com o pesquisador, a coordenação horizontal de produtores via cooperativa, associação ou pool informal consiste em estratégia consagrada para esse tipo de situação, por proporcionar melhores condições de barganha pela comercialização conjunta dos produtores. 48 No entanto, como os custos associados à coordenação horizontal não são simétricos entre os agentes, nem sempre essas formas alternativas de coordenação são bem-sucedidas. Tais custos envolvem negociação, coleta de informações relevantes, estabelecimento de acordos e, principalmente, custos para que a cooperativa, associação ou pool de produtores funcione de forma eficiente. Em outras palavras, os custos ex ante – para coleta de informações e definição de acordos, etc. – são menos relevantes que os custos ex post, ou seja, referentes ao monitoramento de práticas, incentivos, quebras de compromissos e morosidade para responder às mudanças do ambiente econômico. Por fim, cooperativas e demais formas de associativismo sujeitam-se a um problema típico de cartéis, dado que os seus membros podem ter incentivos ao comportamento free rider (AZEVEDO, 2000). Contratos e coordenação vertical Situadas como formas entre os dois extremos – mercado (preço) e hierarquia (integração vertical) – encontram-se as formas híbridas de organização. Segundo Machado (2002), a coordenação para esses arranjos é promovida por mecanismos intermediários, considerando a associação de distintos níveis de autoridade, regras tácitas, incentivos e controles (PHILIPPE; SAUVÉE, 1997). As formas híbridas emergem da dependência bilateral forte o bastante para suportar uma coordenação estreita, mas não forte o suficiente para justificar uma integração completa (MÉNARD, 1996). Segundo Gonçalves e Silva (2014), as formas híbridas apresentam diferentes tipologias, com características distintas uma das outras. Como exemplos, podem ser citados contratos de longo prazo, coprodução, comércio recíproco, contratos de distribuição, alianças estratégicas, joint ventures, franquias, redes de suprimento, entre outros. Têm como potenciais vantagens ou benefícios: proporcionar o equilíbrio entre a competição e a cooperação; reduzir custos produtivos e de transação; orientar relacionamento no longo prazo; permitir flexibilização mútua e compartilhamento de know-how técnico e econômico. Formas híbridas de organização envolvem contratos complexos e arranjos de propriedade parcial de ativos que, por sua vez, geram uma relação bilateral entre as partes que pode ser caracterizada por dependência ou interdependência (GONÇALVES; SILVA, 2014). As várias possibilidades contratuais incluem desde acordos informais até relações formais com investimentos idiossincráticos, os quais podem gerar especificidade de ativos. Os arranjos informais baseiam-se em vantagens recíprocas entre os agentes, sendo a confiança mútua a principal garantia para o cumprimento dos acordos. Por outro lado, os contratos formais variam de acordo com a intensidade das restrições impostas (MACHADO, 2002). Segundo Machado (2002), formas híbridas também podem ser vistas como arranjos de coordenação vertical. Por sua vez, coordenação consistem em arranjo institucional particular entre as unidades econômicas, que governa a maneira pela qual essas unidades cooperam entre si (ZUURBIER, 1996; MACHADO, 2002). 49 Conforme Zylbersztajn (1995), a coordenação vertical consiste em estrutura de governança empresarial desenvolvida sob diversos estágios da cadeia de produção. Pressupõe a transferência de propriedade de ativos, o que justifica o surgimento de contratos entre alguns agentes (LIMA et al., 2015). De acordo com Zylbersztajn (2005), é crescente o número da adoção de contratos como estrutura de governança nos SAGs, seja no Brasil, seja no exterior. A soja, um dos maiores exemplos de commodity, produto para o qual o sistema de preços serve de referência, os contratos prevalecem. São casos de formas contratuais híbridas que envolvem a venda antecipada a processadoras, indústrias de insumos e produtores, bem como contratos para entrega futura. A indústria de sementes, por sua vez, baseia-se fortemente em contratos de licenciamento entre as organizações detentoras de tecnologia e os multiplicadores. Contratos de acesso à terra também são muito comuns no Brasil, sendo prática informal em muitas regiões produtivas. O quadro 6, a seguir, apresenta um resumo das formas de governança observadas pelo autor (ZYLBERSZTAJN, 2005). Quadro 6 – Mercados e contrato: evidências na agricultura quanto ao uso de formas de governança produto/ativo governança observada mercado contratos hierarquia soja x x vinho x x tomate x terra x x crédito x carne x x x frango x x ovo x x Fonte: Adaptado de Zylbersztajn (2005) Um dos elementos-chave das vantagens competitivas consiste na presença de fornecedores e distribuidores competitivos internacionalmente (PORTER, 1990), o que sustenta o efeito das relações verticais de dependência entre os agentes econômicos sobre o desempenho superior das empresas. Entretanto é fundamental que sejam consideradas e analisadas as estruturas de governança para se analisarem as relações verticais a jusante e a montante, assim como horizontais – entre concorrentes – entre esses agentes (FARINA, 1999). A eficiência de determinado sistema produtivo não depende apenas de aspectos relacionados à produção. Quanto melhor a coordenação entre os agentes, menores serão os custos de transação entre eles, menores os conflitos relacionais e mais rápida a adaptação às mudanças do ambiente competitivo (AZEVEDO, 2000). Em linha com a escola da NEI, em especial a corrente da ECT, existem custos além da produção. Conhecidos como custos de transação, custos de funcionamento do mercado – ou seja, de procurar, vender, negociar, contratar, monitorar e solucionardisputas com outras firmas (COASE, 1937) – os quais podem ser superiores aos custos internos da organização (WILLIAMSON, 1981a; ZYLBERSZTAJN, 1995; 2000; 2005; SÁ et al., 2015). A busca pela eficiência passa pelo alinhamento das transações entre os agentes produtivos, as quais diferem nos seus atributos, com estruturas de governança – arranjos institucionais –, os quais diferem nos seus custos, para, assim, reduzir ou economizar os custos de transação (WILLIAMSON, 1991b). Governar a transação significa incentivar o comportamento desejado e, ao mesmo tempo, conseguir monitorá-lo. Essa governança pode ser obtida por meio de sistema de preços (mercado), por hierarquia (via integração vertical) ou de forma híbrida, ou seja, via contratos em que sejam instrumentos predefinidos de incentivo e controle, portanto estratégias competitivas dependem de estruturas de governança apropriadas para que possam ser bem-sucedidas (FARINA, 1999; ZYLBERSZTAJN, 2000; ARBAGE, 2004; KALLÁS, 2014). MÓDULO III – ESTRATÉGIA ORGANIZACIONAL: DECISÃO DE COMPRAR OU FAZER 52 Este módulo está estruturado em quatro unidades. A primeira e a segunda tratam, respectivamente, das correntes teóricas conhecidas como NEI e da ECT. Essas teorias servem como arcabouço para o entendimento dos aspectos que determinam a definição de estruturas de governança adequados para a eficiência na coordenação das atividades entre os agentes, abordados na terceira unidade. Sustentam, portanto, a relação entre estruturas de governança e eficiência. Os limites eficientes da firma são discutidos dentro da dicotomia entre a governança por mercados e hierarquia, a qual sustenta a tomada de decisão entre comprar ou fazer. Nova economia institucional e sistemas agroindustriais Segundo Joskow (1995), a NEI consiste em uma linha do pensamento econômico com origens nos paradigmas clássicos da Moderna Organização Industrial e enriqueceu o conhecimento em direção ao estudo do ambiente institucional e das variáveis transacionais que caracterizam a organização das firmas e dos mercados (ARBAGE, 2004). A NEI incorporou, ainda, os efeitos de retroalimentação e as interações entre o ambiente institucional e as estruturas, o comportamento e o desempenho das organizações (FARINA, 1999). Entre os principais objetivos, a NEI busca identificar a melhor forma de organização das transações econômicas, cuja configuração altera as condições iniciais para a alocação de recursos. Considera a economia ou a minimização de custos chamados de primeira ordem, ou seja, relacionados à identificação de formas organizacionais, como firmas, contratos, mercados (WILLIAMSON, 1996; FARINA, 1999). No que tange aos SAGs, a literatura da NEI permite tratar de pontos frequentemente negligenciados pela economia neoclássica tradicional. Possibilita, por exemplo: a construção de um quadro conceitual mais realista e adequado para abordar a questão de eficiência das relações contratuais entre os diferentes elos dos SAGs; a análise da coordenação competitiva dos sistemas perante o comportamento dos consumidores, sejam eles intermediários, sejam finais; o apoio à definição de formas mais adequadas de organização, entre outros (JANK, 1996; ARBAGE, 2004). No corpo teórico da NEI, segundo Arbage (2004), a noção de competitividade para SAGs diz respeito à coordenação eficiente de todo o sistema produtivo. A eficiência dos sistemas, por sua vez, corresponde à capacidade de adaptação destes às mudanças tecnológicas e às alterações nas variáveis que compõem o ambiente institucional em que a organização se insere. A NEI se propõe a analisar o papel das instituições em relação ao desenvolvimento econômico de maneira geral, bem como a estudar as novas configurações da firma de maneira individual. Reconhece, dessa maneira, a relevância do processo, entre o ambiente institucional e a organização, para a confecção dos arranjos interorganizacionais. 53 Nesse contexto analítico, Azevedo (2000, p. 35) argumenta que “o principal papel das instituições (...) é restringir as ações humanas. O exercício desse papel pode reduzir o custo das interações entre os seres humanos, constituindo um elemento relevante à eficiência econômica e ao desenvolvimento”. As instituições são a “regra do jogo em uma sociedade”, as restrições instituídas socialmente que “moldam a interação humana” (NORTH, 1990, p. 3). Essas regras ou restrições são formais, como regras, leis e contratos econômicos, por exemplo, ou informais, tais como convenções e normas de comportamento aceitas socialmente. As instituições definem incentivos nas relações políticas, sociais e econômicas. Por meio da criação de uma estrutura estável, mas não necessariamente eficiente, para as relações humanas, reduzem as incertezas (NORTH, 1990), o que, por sua vez, resulta na redução de custos de transação e de informação (NORTH, 1990; KALLÁS, 2014; BARBOSA, 2018). As instituições afetam, ainda, o processo de reprodução social e de estruturação das organizações (por exemplo, MEYER; ROWAN, 1977; DIMAGGIO; POWELL, 1983; SCOTT, 2008). Podem ser criadas ou evoluir ao longo do tempo (NORTH, 1990). Dado que o processo de mudança das instituições é lento, as empresas buscam adaptar-se ao ambiente institucional e, ao mesmo tempo, esforçam-se para alterá-lo (SÁ et al., 2015). O papel das instituições é abordado pela NEI em dois níveis de análise: ambiente institucional e estruturas de governança. O ambiente institucional contempla macroinstituições, ou seja, aquelas que estabelecem as bases para as interações entre os seres humanos. Estruturas de governança, no entanto, tratam de microinstituições, as quais regulam uma transação específica, além de considerar a estrutura das organizações, isto é, compreender a firma e contratos específicos (FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Azevedo (2000) argumenta que as instituições, nos seus diferentes níveis de análise, são especialmente importantes para os sistemas agroindustriais. Do ponto de vista do ambiente institucional, exercem efeitos importantes sobre as ações e condutas estratégicas daqueles que compõem os SAGs, fatores como direito de propriedade da terra, políticas de preços mínimos, reforma agrária e políticas de segurança alimentar – acesso a alimentos (food security) e garantia de qualidade mínima (food safety). Já no que diz respeito à microanálise, ou seja, às regras que regulam relações específicas entre indivíduos, associações, cooperativas ou empresas, alguns aspectos são relevantes tendo em vista características intrínsecas aos produtos agrícolas e às próprias relações entre as partes, por exemplo, entre produtores agrícolas e agroindústrias, portanto os diferentes arranjos institucionais impactam de forma significativa a eficiência de determinado sistema. Posto de outra forma, a criação de regras que disciplinam o comportamento dos participantes de um sistema agroindustrial pode ser decisiva para sua eficiência e competitividade, ao permitir uma coordenação de suas ações mais apurada do que aquela que seria obtida por meio do uso da coordenação via sistema de preços outras (AZEVEDO, 2000, p. 34). 54 Entre as características particulares nos SAGs, Azevedo (2000) destaca: i) dependência entre os diferentes elos do SAG decorrente da perecibilidade, elevada participação do frete no custo dos produtos, importância da qualidade e regularidade dos insumos; ii) elevado grau de incerteza quanto à variação dos preços e da qualidade dos produtos, devido ao domínio imperfeito da natureza pelo homem; iii) estes últimos resultam em questões como sazonalidade e choques aleatórios de oferta devido a acidentes climáticos; iv) impossibilidade de ajustes rápidos e sem custos na oferta devido ao longo período de maturação dos produtos. Com essa incerteza e dependência entre as partes, o papel das instituições é ampliado. Economia dos custos de transação A ECT (por exemplo, COASE, 1937; COMMONS,1934; WILLIAMSON, 1979; 1981a; 1991a; 2000) é uma vertente teórica dentro da NEI, voltada à análise das instituições no nível microanalítico (AZEVEDO, 2000). A ECT tem como objetivo fundamental estudar o custo das transações como o indutor de formas alternativas de organização da produção, isto é, formas de governança, dentro de um arcabouço de análise institucional. Em outras palavras, tem por objetivo analisar de maneira sistemática as relações entre a estrutura dos direitos de propriedade e instituições (ZYLBERSZTAJN, 1995). Segundo Williamson (1981a), A abordagem dos custos de transação para o estudo da organização econômica considera a transação como a unidade básica de análise e sustenta que uma compreensão da economia dos custos de transação é central para o estudo das organizações. As aplicações desta abordagem requerem que as transações sejam dimensionadas e que estruturas alternativas de governança sejam descritas. A economia é realizada atribuindo transações às estruturas de governança de forma discriminatória. A abordagem se aplica tanto à determinação de fronteiras eficientes, como entre empresas e mercados, quanto à organização de transações internas, incluindo o desenho das relações de trabalho (WILLIAMSON, 1981a, p. 548). No seu cerne a ECT busca, essencialmente, “alinhar transações, que diferem em seus atributos, com estruturas de governança, que diferem em seus custos e competências, de forma discriminatória (principalmente, economizadora de custos de transação)” (WILLIAMSON, 1991b, p. 79). Considerando a complexidade da organização econômica e as limitações cognitivas dos agentes, falhas de alinhamento ocorrerão com frequência. Dessa forma, a ECT é pertinente ao estudo da estratégia de negócios, visando apoiar na identificação dos alinhamentos de forma a possibilitar a economia dos custos de transação (WILLIAMSON, 1981a; 1991b). 55 A proposição de que a transação é unidade básica da análise econômica remete aos trabalhos de Commons (1934) e Coase (1937). O primeiro verificou a existência de diversas estruturas de governança para mediar e harmonizar a troca de bens e serviços entre entidades independentes tecnologicamente (COMMONS, 1934). Coase (1937), por sua vez, observou que a produção e a distribuição de produtos e serviços são realizadas por meio de uma sucessão de transações. Em contraponto à noção tradicional neoclássica de que a firma é considerada como uma função da produção, Coase (1937) propõe que a firma apresenta natureza contratual – apresenta relação com demais agentes econômicos por meio de contratos – e surge como resposta eficiente dos agentes econômicos para coordenar a produção. Esse conceito reconhece, ainda, a existência de custos de funcionamento dos mercados, os quais podem ser superiores aos custos internos da organização (WILLIAMSON, 1981a; ZYLBERSZTAJN, 1995; 2000; 2005; SÁ et al., 2015). Entre os pressupostos fundamentais da ECT, destacam-se: Existem custos na utilização do sistema de preços e na condução dos contratos da firma. Em outras palavras, o sistema econômico considera tanto contratos efetuados via mercados quanto contratos coordenados pelas firmas (ZYLBERSZTAJN, 1995). O contexto institucional influencia os custos de transação (WILLIAMSON, 1979). As transações ocorrem em um ambiente institucional estruturado e as instituições não são neutras, logo interferem nos custos de transação (ZYLBERSZTAJN, 1995). Quando há incertezas geradas pelo contexto de instituições não sólidas, aumentam as lacunas contratuais e, dessa maneira, torna-se imprescindível a construção de mecanismos pelas partes envolvidas, para que “tudo funcione”. Dessa forma, se aspectos legais não forem confiáveis para garantir a execução dos contratos, aparecem incentivos para que a empresa crie mecanismos de gestão e controle, ou ainda, assuma a função do seu fornecedor via integração vertical (KALLÁS, 2014). Mercados e hierarquias são mecanismos de governança alternativos a transações mercadológicas. Quando há altos custos de transação, modelos de governança hierárquicos são justificáveis (KALLÁS, 2014). Do ponto de vista do comportamento dos agentes econômicos, assume-se que os indivíduos são oportunistas e apresentam racionalidade limitada, ou seja, há limites na sua capacidade cognitiva de processar as informações disponíveis (WILLIAMSON, 1981a; AZEVEDO, 2000). Os custos de transação são os custos de operar o mercado, ou seja, de procurar, vender, negociar, contratar, monitorar e solucionar disputas com outras firmas (COASE, 1937). São os custos necessários para gerenciar o sistema econômico, como custos de identificação, explicação e redução dos riscos contratuais (REZENDE, 1999), ou ainda custos de planejamento, adaptação e monitoramento necessários ao funcionamento dos mercados (ARROW, 1969). Segundo Farina (1999), custos de transação tratam de: elaboração e negociação de contratos; mensuração e fiscalização de direitos de propriedade; monitoramento do desempenho; organização de atividades; e de problemas de adaptação. 56 Tais custos se somam aos demais custos de produção – os quais tratam da transformação tecnológica de insumo em produto – para compor o custo total econômico (MARINO, 2001), logo os custos de transação podem ser considerados como custos indiretos à produção gerados pela interação entre agentes por problemas de coordenação (SÁ et al., 2015). Quanto maiores estes custos, maiores os incentivos de organizar recursos internamente na firma (COASE, 1937). Podem ocorrer custos antes e após a conclusão da transação. Custos de elaboração e negociação de contratos, bem como a busca por informações sobre a outra parte envolvida no contrato são exemplos de custos gerados antes (ex ante). Já os custos originados após a efetivação do negócio (ex post) podem ser exemplificados como aqueles relacionados ao monitoramento de questões contratuais, solução de eventuais conflitos e adequações que se façam necessárias. Ambos os tipos são proporcionais à quantidade de agentes econômicos envolvidos, ou seja, quanto maior a quantidade de participantes no mercado, maiores os custos de funcionamento deste (WILLIAMSON, 1985; MARINO, 2001; SÁ et al., 2015). Comportamento dos agentes Segundo Williamson (1991b), a ECT almeja avaliar o homem como ele de fato é (COASE, 1984) quanto a aspectos cognitivos e de interesse próprio. Considera que os contratos podem ser afetados pelas características comportamentais dos agentes envolvidos nas transações (ARBAGE, 2004). Entre essas características, a teoria destaca a racionalidade limitada e o oportunismo, que a ECT toma como pressupostos comportamentais fundamentais, que a distinguem da abordagem tradicional neoclássica (WILLIAMSON, 1991b; AZEVEDO, 2000). A racionalidade limitada implica que há limites na capacidade cognitiva dos indivíduos para processar as informações disponíveis (AZEVEDO, 2000). Por serem incapazes de prever todos os eventos relacionados a um determinado fenômeno ou, mais especificamente, a uma transação, os indivíduos sempre deixam margem para adaptações futuras e renegociações nos contratos, mesmo que ajam propositadamente de forma racional (ARBAGE, 2004). Dessa forma, apesar do comportamento intencionalmente racional, isso ocorre apenas de forma limitada (SIMON, 1947; WILLIAMSON, 1991b). Segundo Azevedo (2000), deriva do pressuposto de racionalidade limitada a noção de incompletude contratual. Tendo em vista os limites cognitivos que caracterizam os agentes, não é possível estabelecer contratos que considerem todas as contingências futuras e, como consequência, contratos são intrinsecamente incompletos. Entretanto mesmo de forma limitada, os agentes buscam alcançar os seus objetivos do melhor modo possível, seguem agindo racionalmente. “Constroem estruturas de governança para lidar com as lacunas presentes em contratos internos e externos à organização” (AZEVEDO, 2000,p. 36). 57 Por oportunismo entende-se que os indivíduos são movidos por interesse próprio e, dessa maneira, conforme o seu interesse, podem mentir, trapacear ou quebrar promessas (AZEVEDO, 2000). Em ouras palavras, os agentes econômicos podem agir de forma não cooperativa em uma negociação. Em especial, devido à assimetria de informações, uma das partes pode levar vantagem em uma negociação, tendo em vista o eventual desconhecimento da outra parte sobre algum aspecto. (ARBAGE, 2004). Isso não significa, entretanto, que todos os agentes são oportunistas, tampouco que ajam assim o tempo todo (ZYLBERSZTAJN, 2000). Os desdobramentos teóricos desses pressupostos para a ECT são relevantes para o entendimento da estrutura analítica proposta. Como argumenta Williamson (1991b), As principais ramificações dessas suposições comportamentais para a organização econômica são as seguintes: (1) todos os contratos complexos são inevitavelmente incompletos e muitos processos complexos de alinhamento de incentivos não podem ser implementados (devido à racionalidade limitada); (2) confiar no contrato-como-promessa é perigoso (por causa do oportunismo); e (3) valor agregado será realizado organizando-se de maneira a economizar na racionalidade limitada e a salvaguardar as transações contra os riscos do oportunismo. Transações e características Uma transação consiste em toda operação, entre agentes econômicos, em que são negociados direitos de propriedade, ou seja, ocorre quando um bem ou serviço é transferido por meio de uma interface tecnológica distinta ou separável. Algumas transações são simples e fáceis de mediar, enquanto outras são difíceis e requerem maior atenção (WILLIAMSON, 1981a; ARBAGE, 2004). As transações apresentam três características básicas, ou dimensões, as quais são consideradas para a análise das relações contratuais e a inferência dos custos envolvidos: frequência, incerteza e grau de especificidade dos ativos (WILLIAMSON, 1981a; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000; ZYLBERSZTAJN, 2000; AZEVEDO, 2000). Estes são descritos no quadro 7, a seguir: 58 Quadro 7 – Dimensões que caracterizam as transações dimensão descrição frequência Consiste em medida da recorrência de uma transação (FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000), ou seja, o número de vezes que os agentes transacionam, seja ela única ou periódica (ZYLBERSZTAJN, 2000). Quanto maior a frequência, menores os custos fixos médios que tratam da coleta de informações e da elaboração de um contrato complexo com restrições ao comportamento oportunista dos agentes. A repetição da transação possibilita a criação de reputação e estimula o comportamento não oportunista, voltado a ganhos de curto prazo, tendo em vista potenciais ganhos futuros decorrentes da manutenção dos contratos (FARINA, 1999; ZYLBERSZTAJN, 2000). incerteza Diz respeito ao desconhecimento dos agentes quanto a elementos relacionados ao ambiente econômico, institucional e comportamental, os quais influenciam de alguma forma a transação (ARBAGE, 2004). Incertezas ampliam as lacunas que um contrato não pode cobrir devido à incapacidade de prever aspectos que possam alterar os resultados da transação (FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Sem poder prever, portanto, mensurar acontecimentos futuros, os agentes não conseguem elaborar cláusulas contratuais que associem a distribuição dos resultados aos impactos externos, já que estes não são conhecidos ex ante (ZYLBERSZTAJN, 2000). No caso de sistemas agroindustriais, a incerteza pode manifestar-se de várias maneiras, tais como acidentes naturais ou intervenções não antecipadas nos mercados de alimentos (AZEVEDO, 2000). especificidade dos ativos Ativos são considerados específicos se o retorno associado a eles depender da continuidade de uma determinada transação (AZEVEDO, 2000). Especificidade diz respeito a idiossincrasia dos ativos dedicados à produção, ou seja, a quanto o investimento no ativo é específico para a atividade e quão custosa é a sua utilização alternativa (WILLIAMSON, 1985; ARBAGE, 2004). Quanto maior a especialização de determinado ativo, menor tende a ser o seu custo de oportunidade, uma vez que a sua eventual utilização alternativa resultará em perda de valor, portanto, maior a perda associada a uma ação oportunista por parte de outro agente. Consequentemente, maiores serão os custos para colocar o sistema econômico em funcionamento (FARINA, 1999; ARBAGE, 2004). Fonte: Williamson (1985); Farina (1999); Azevedo (2000); Zylbersztajn (2000); Arbage (2004) 59 A especificidade dos ativos envolvidos assume o papel de variável-chave dentro da ECT (AZEVEDO, 2000), em especial por influenciar os custos com governança (WILLIAMSON, 1981b). Williamson (1991a) elenca seis tipos distintos de especificidade: especificidade de local – proximidade de firmas de uma mesma cadeia produtiva para economizar custos de transporte e armazenagem, o que representa retornos específicos a essas unidades produtivas; especificidade do ativo físico – como matrizes especializadas necessárias para produzir um componente; especificidade de ativos humanos – capital humano decorrente do conhecimento tácito; capital da marca – valor da marca, relevante para casos de franquias, por exemplo; ativos dedicados – investimentos discretos cujo retorno depende da transação com um agente particular e, dessa forma, relevante individualmente, e especificidade temporal – o valor de uma transação depende, sobretudo, do tempo em que ela se processa, sendo especialmente relevante no caso da negociação de produtos perecíveis. Para Masten (1991), exemplos de produtos “temporalmente específicos” são o jornal e um produto agrícola perecível. Estruturas de governança e eficiência A eficiência de um determinado sistema produtivo não depende exclusivamente da capacidade de equacionar de forma competente os seus problemas de produção. Quanto mais adequada for a coordenação entre os agentes que compõem tal sistema, menores serão os custos de cada um deles, mais rápida será a adaptação às modificações de ambiente e menores os custos referentes aos conflitos inerentes às relações entre cliente e fornecedor (FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Além de tratar o aspecto da redução dos custos de transação, a ECT considera a noção da capacidade de adaptação como fator importante para sobrevivência dentro de um contexto competitivo. Williamson (1991b) afirma que a questão da adaptação às circunstâncias que mudam é o problema central da organização econômica, seja adaptação em mercados (HAYEK, 1945), seja a adaptação interna da organização (BARNARD, 1938). De acordo com Hayek (1945), o que distingue uma economia de alto desempenho é a sua capacidade de se adaptar eficientemente a incertezas (WILLIAMSON, 1981a). 60 A questão da adaptabilidade remete não apenas a uma visão estática, como também leva em consideração a perspectiva dinâmica das transações entre os agentes econômicos de um sistema. Como exemplo, a mudança de contratos à medida que as empresas aprofundam uma relação de dependência mútua (AZEVEDO, 2000). Dessa forma, a capacidade de coordenação vertical contribui tanto para a competitividade estática quanto para a dinâmica (FARINA, 1999), que permite à empresa receber, processar, difundir e utilizar informações de modo a definir e viabilizar estratégias competitivas (CARDOSO et al., 2007). A capacidade de coordenação, ainda, abarca a noção de limites da firma, bem como de organização e controle das transações entre os agentes. Nesse sentido, mecanismos de governança exercem um papel central. As organizações são construídas pelos indivíduos. Em vez de considerar a existência de regras preestabelecidas para o desenho organizacional, a economia dos custos de transação se propõe a identificar e analisar as variáveis que determinam as formas internas e as relações entre as organizações (ZYLBERSZTAJN,2000). Para Williamson (1998), a ECT não considera a empresa como uma função de produção, mas, sim, como uma estrutura de governança das transações. A governança, segundo Williamson (1985), consiste no conjunto de arranjos institucionais nos quais a transação é organizada, em busca da eficiência (WILLIAMSON, 1985; VIEIRA, 2008). Segundo o pesquisador, “governança é o meio pelo qual a ordem é realizada em uma relação em que o conflito potencial ameaça desfazer ou perturbar oportunidades de realizar ganhos mútuos” (WILLIAMSON, 1998, p. 37). Na perspectiva da firma como um conjunto de contratos, as transações são inerentes às organizações, e custos de transação correspondem aos custos relacionados ao funcionamento dos mercados. As organizações, no entanto, apresentam estruturas de custos particulares, por conseguinte, comportam-se de maneiras distintas, o que resulta em abordagens competitivas diferentes entre si (COASE, 1937; ARROW, 1969; ARBAGE, 2004). Fica evidente, portanto, a relevância em governar as transações, de forma a reduzir – ou economizar – os custos de transação. Segundo Farina (2000, p. 150), “governar a transação significa incentivar o comportamento desejado e, ao mesmo tempo, conseguir monitorá-lo”. A governança é implementada por meio de estruturas de governança. Uma estrutura de governança deve ser entendida como a matriz institucional em que a transação é definida, ou seja, negociada e executada. Matriz institucional, por sua vez, consiste no conjunto de regras, leis, contratos, normas formais e informais e regulamentos internos às organizações que governam institucionalmente as transações (WILLIAMSON, 1979; ARBAGE, 2004). Estruturas de governança consistem, portanto, em mecanismos para regular as transações (AZEVEDO, 2000). Mecanismos eficientes de governança emergem da interação das características das transações com os pressupostos comportamentais (ZYLBERSZTAJN, 2000). Não há, em princípio, uma estrutura de governança superior às demais. O conceito de eficiência deriva da adequação – ou do alinhamento – da estrutura de governança aos atributos da transação a que diz respeito (AZEVEDO, 2000). Em outras palavras, as transações – que diferem nos seus atributos – devem 61 ser alinhadas a estruturas de governança – que, por sua vez, diferem nos seus custos e nas suas competências – tendo em vista, principalmente, economizar os custos de transação (WILLIAMSON, 1991b). Estruturas de governança surgem, portanto, como salvaguardas aos comportamentos oportunísticos e à racionalidade limitada, tendo em vista os atributos das transações (MENDES et al., 2008). Como afirma Zylbersztajn (2000), a racionalidade limitada e os contratos incompletos tomam impossível a elaboração de contratos que contenham todas as possibilidades futuras. Associem-se, agora, o comportamento oportunista e a existência de especificidade de ativos, o que implica que os agentes podem romper os contratos para apropriar-se do valor dos ativos específicos. Portanto, resulta que as formas eficientes de governança contratual devem considerar os riscos mencionados e definir pelo maior ou menor controle das transações (ZYLBERSZTAJN, 2000, p. 35). Entre as características das transações, a especificidade dos ativos se apresenta como o principal determinante na definição da estrutura de governança a ser adotada (WILLIAMSON, 1979; 1981b; 1991a; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Segundo Williamson (1998), a empresa representa um dos modos alternativos de governança, que incluem, ainda, o mercado, contratos híbridos e modos de governança de bureau público. Nesse contexto, a empresa e o mercado são consideradas como opostos extremos, sendo que as características em que diferem apresentadas a seguir (WILLIAMSON, 1998): Intensidade de incentivo – Os mercados apresentam incentivos poderosos enquanto empresas apresentam incentivos com menos poder; Controle administrativo – As empresas são suportadas por um conjunto mais amplo de regras e procedimentos administrativos; Adaptação – Os mercados têm a vantagem de efetuar a adaptação autônoma em resposta a mudanças nos preços relativos, mas a vantagem recai para as empresas à medida que mais adaptações cooperativas são necessárias; Direito contratual – O direito contratual dos mercados é legalista e depende de ordens judiciais; já a empresa substitui as ordens judiciais por ordens privadas e resolve disputas por decreto com efeito. A empresa é o seu próprio tribunal de última instância. O quadro 8 apresenta caracterização dos atributos por estrutura de governança, classificando comparativamente os atributos referentes a adaptabilidade, intensidade dos incentivos, controle administrativo e direito contratual. Tomando como exemplo o caso das estruturas híbridas de governança, de forma resumida, segundo argumenta Williamson (1991a), caracterizam-se por incentivos intermediários, um grau intermediário de aparato administrativo, 62 capacidade intermediária de adaptação e funciona sob um regime de direito contratual parcialmente legalista. Comparado às estruturas mercado e hierarquia, que são opostos, o modo híbrido está localizado entre ambos em todos os aspectos de atributos. Quadro 8 – Atributos distintivos de estruturas de governança: mercado, híbrida e hierárquica atributos estrutura de governança mercado híbrida hierárquica instrumentos intensidade de incentivos + + + 0 controles administrativos 0 + + + atributos de desempenho adaptação (a) + + + 0 adaptação (b) 0 + + + lei de contrato + + + 0 + + = forte; + = intermediário; 0 = fraco Fonte: Williamson (1991a) A figura 7 apresenta as funções de custos de transação por tipo de estrutura de governança – mercado (m), hierárquica (h) e contratual ou híbrida (x) –, tendo em vista o grau de especificidade dos ativos envolvidos (k). Esse modelo assume que, em um baixo nível de especificidade de ativos, os mercados são mais eficientes que os modos mistos de governança que, por sua vez, são mais eficientes do que as formas hierárquicas. Dessa forma, m (0)eventualidades, a renegociação é praticamente inevitável (AZEVEDO, 2000). 64 Limites eficientes da empresa: decisão de comprar ou fazer Segundo Williamson (1981a), no centro da definição das fronteiras eficientes da firma, encontra-se a decisão entre fazer ou comprar. Isso significa considerar entre as seguintes alternativas: a própria empresa fabrica ou compra de um fornecedor autônomo. Emerge, nesse sentido, a questão relacionada à escolha entre as estruturas de governança mais adequadas. Governar as transações diz respeito a incentivar o comportamento desejado e, simultaneamente, conseguir monitorá-lo (FARINA, 1999). O racional do custo de transação é fundamental para tal análise (WILLIAMSON, 1981a). A ECT tradicionalmente se caracteriza pela dicotomia entre a governança por meio do mercado – que considera empresas isoladas que realizam transações de mercado à vista – e, no outro extremo, a integração vertical – que pode ser ilustrada pela grande corporação vertical. No meio dos dois casos extremos, podem ser verificadas várias configurações conhecidas como formas híbridas. A governança possibilita que as empresas recebam, processem, difundam e utilizem informações para elaborar estratégias competitivas, reagindo às mudanças e aproveitando as oportunidades (VIEIRA, 2008). Para se organizarem as transações comerciais é preciso levar em consideração a economia de custos, sendo eles tanto os custos de produção quanto os custos de transação. Tais custos não são independentes e precisam ser tratados simultaneamente (WILLIAMSON, 1981b). No que tange à visão dos custos de transação, dimensionar os limites da firma consiste no alinhamento entre as características das transações e os mecanismos de governança (WILLIAMSON, 1999; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Esse alinhamento, tendo em vista aspectos relacionados ao comportamento dos agentes, isto é, a racionalidade limitada e o oportunismo, influencia a escolha da forma de contratação, principalmente entre firma e mercado (WILLIAMSON, 1981b). Conforme argumenta Williamson (1981a; 1981b), é possível presumir que as transações tendem a ser organizadas por mercados, a não ser que esse cenário resulte em custos de transação significativamente altos ou ineficientes. Esse racional considera que aspectos burocráticos – ou relacionados a custos de governança – e relacionados aos custos de produção são inerentes às transações internas das empresas. Adicionalmente, as vantagens de custos de produção com transações via mercado são: economias de escala estáticas que podem ser mais bem exploradas comprando em vez de produzindo, caso as necessidades da empresa sejam pequenas em relação ao mercado; mercados podem agregar demandas não correlacionadas para realizar benefícios da combinação de riscos; e os mercados podem desfrutar de economias de escopo no fornecimento de um conjunto relacionado de atividades, que nas empresas apresentam apenas um requisito. 65 O grau de especificidade dos ativos age como importante dimensão transacional na configuração dos limites da empresa, afetando a decisão entre comprar ou fazer (WILLIAMSON, 1979; 1981b; 1991a; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Segundo Williamson (1981b), tal atributo influencia nos custos de transação, bem como nos de produção (WILLIAMSON, 1981b). Nesse sentido, Se os ativos são inespecíficos, os mercados desfrutam de vantagens tanto em relação ao custo de produção quanto ao custo de governança: economias de escala estáticas podem ser mais completamente exauridas comprando em vez de fabricando; os mercados também podem agregar demandas não correlacionadas, obtendo, assim, benefícios de combinação de riscos; e a aquisição externa evita muitos dos riscos aos quais a aquisição interna está sujeita. À medida que os ativos se tornam mais específicos, no entanto, os benefícios de agregação dos mercados nos dois primeiros aspectos são reduzidos e a troca assume um caráter bilateral progressivamente mais forte. Os custos de governança dos mercados aumentam como resultado e as compras internas suplanta o fornecimento externo por esse motivo (WILLIAMSON, 1981a, p. 558). Verifica-se, dessa maneira, que a escolha de formas de governança eficientes depende dos atributos das transações, principalmente do tipo de especificidade dos ativos envolvidos (ZYLBERSZTAJN, 2000). Quanto maior a especificidade dos ativos, maior a perda potencial decorrente de a uma ação oportunista por parte de outro agente, portanto, maiores tendem a ser os custos de transação (FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). O quadro 9, por sua vez, apresenta a estrutura de governança mais adequada em relação ao grau de especificidade dos ativos, conforme apresentado por Zylbersztajn (2000). 66 Quadro 9 – Estruturas de governança eficientes por nível de especificidade dos ativos transacionados grau de especificidade dos ativos estrutura de governança ativos com elevada especificidade Em caso de ruptura dos contratos, as perdas potenciais são altas devido à especificidade dos ativos. firma hierarquia/integração vertical; maior capacidade de monitoramento e hierarquia via salvaguardas contratuais mais estruturadas e menores custos de adaptação às mudanças. casos intermediários formas de governança mista ou contratual casos em que o mercado ou a firma não são formas eficientes de governança (maioria dos casos); exemplos: parcerias, franquias, associações estratégicas, arranjos cooperativos, fornecimento exclusivo, formas de coordenação vertical, entre outros e variação das estruturas de governança conforme as demais características e os custos das transações, bem como contexto institucional (arcabouço legal, por exemplo). ativos com baixa especificidade Em caso de ruptura dos contratos, os agentes tendem a não sofrer perdas por poder reatar as relações contratuais com outros agentes do mercado. Os produtos são homogêneos, com muitos produtores. mercado governança regida pelo sistema de preços (exemplo: mercado spot) e desnecessidade de estruturas de governança alternativas, devido ao baixo custo de adaptação. Fonte: Zylbersztajn (2000), Azevedo (2000), Arbage (2004), Vieira (2008) Em contraponto à governança por mercados, verifica-se a integração vertical. Essa configuração é mais adequada aos casos nos quais há necessidade de incentivos e controle sobre todo o processo pelo qual as várias funções de um sistema devem funcionar em harmonia. Dessa forma, grandes empresas internalizam as atividades que foram ou podem ser realizadas por outras empresas independentes e fornecedores – e que pressuponham a troca de propriedade – e as transações que foram ou podem ser realizadas entre elas (FRANK; HENDERSON, 1992; VIEIRA, 2008). 67 De acordo com Vieira (2008), tendo em vista a ECT, a principal vantagem da integração vertical seria a redução dos custos de transação pela rotinização dessas transações. Esse efeito resulta do processo de aprendizagem envolvido na realização recorrente de uma atividade. A estratégia de integração vertical permite acesso às informações, antes dispersas, de forma centralizada a um planejador, o qual tem condições de resolver os problemas de alocação de recursos (MILGROM; ROBERTS, 1992). O Quadro 10 apresenta algumas das vantagens e desvantagens da integração vertical (HARRIGAN, 1985, VIEIRA, 2008). Quadro 10 – Vantagens e desvantagens da integração vertical vantagens desvantagens benefícios internos Economias integradas reduzem custos eliminando etapas, reduzindo despesas gerais duplicadas e cortando custos (dependente da tecnologia). A governança aprimorada das atividades reduz os custos de estoque. Evita tarefas demoradas, como compra de preços, design de comunicação ou negociação de contratos (custos de transação). custos internos A necessidade de despesas gerais para coordenar a integraçãovertical aumenta os custos. Há o fardo do excesso de capacidade de plantas de escala mínima eficiente desigualmente balanceadas. Empresas integradas verticalmente de forma mal organizada não desfrutam de sinergias que compensem os custos mais elevados. Falta especialização de acordo com as habilidades essenciais. benefício competitivo Evita o encerramento de insumos, serviços ou mercados. Melhora o marketing ou a inteligência tecnológica; Aumenta o valor agregado; Reforça o poder do mercado; Amplia a credibilidade para novos produtos; As sinergias podem ser criadas coordenando habilmente as atividades verticais. perigos competitivos Processos obsoletos podem ser perpetuados. Cria barreiras de mobilidade (ou saída). Liga empresas a negócios adjacentes doentes. Perde o acesso às informações de fornecedores ou distribuidores. As sinergias criadas por meio da integração vertical podem ser superestimadas. Os gestores se integraram antes de pensar na maneira mais adequada de fazer isso. Fonte: Adaptado de Harrigan (1985) e Vieira (2008) 68 Entretanto além da dicotomia entre a organização das transações pela firma – integração vertical – ou pelo mercado, existem formas híbridas de governança. Essas formas híbridas são a manifestação de estratégias cooperativas de coordenação vertical (SHELANSKI; KLEIN, 1995; VIEIRA, 2008) e podem apresentar estruturas de governança particulares. Ou seja, há diversas alternativas possíveis de arranjos reguladores das transações – por exemplo, contratos mais ou menos hierarquizados, com ou sem cláusulas punitivas, contratos mais ou menos completos, com especificidades técnicas dos produtos transacionados ou não, entre outros – e, dessa forma, diferentes mecanismos institucionais que regulem essas transações (ARBAGE, 2004). As formas híbridas de governança não receberam tanta atenção da academia quanto a integração pela firma ou pelo mercado. Um dos motivos pode ser a dificuldade de mensuração inerente aos custos de transação (BARZEL, 1982; WILLIAMSON, 1981b; FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Os custos existem, mas são difíceis de mensurar (VIEIRA, 2008), portanto as salvaguardas são mais difíceis de implementar (FARINA, 1999; AZEVEDO, 2000). Vale destacar, contudo, que alguns estudiosos consideram que a decisão pelo modelo de governança deve levar em consideração fatores complementares aos custos de transação – caso da visão baseada em recursos (BARNEY, 1991), competências essenciais da organização (PRAHALAD; HAMEL, 1990; DEKKERS, 2010). Trata-se, dessa maneira, de decisão multidisciplinar (CERVI, 2017) que pressupõe que: i) a decisão por fazer requer a disponibilização de recursos, pela própria unidade ou outra unidade de negócios da empresa, para a realização da atividade em questão; e ii) a decisão por comprar demanda um fornecedor externo capacitado para desenvolver a atividade (FILL; VISSER, 2000), logo a decisão sobre as fronteiras da firma precisaria considerar a disponibilidade de recursos valiosos e difíceis de imitar, bem como das competências necessárias para o negócio, de forma a desenvolver uma vantagem competitiva (POPPO; ZENGER, 1998; NEVES, 2009). Com todos os argumentos expostos, a decisão por comprar ou fazer – e as suas respectivas formas de coordenação – baseia-se na expectativa dos agentes quanto à obtenção de um resultado econômico superior. A comparação dos custos de produção e transação determina qual é a estratégia mais adequada para cada situação. Por sua vez, a forma contratual de coordenação predominante na cadeia produtiva dependerá do comportamento dos agentes e dos atributos das transações, que variam caso a caso, exigindo o conhecimento detalhado da cadeia produtiva sob foco (MACHADO, 20002). Como coloca Zylbersztajn (2000, p. 35), “a forma de governança eficiente emerge da interação das características das transações com os pressupostos comportamentais”, isto é, a racionalidade limitada e os contratos incompletos dificultam a elaboração de contratos que contenham todas as possibilidades futuras. Adiciona-se a isso o comportamento oportunista e a existência de especificidade de ativos, cujo valor é um estímulo a eventuais rompimentos em contratos para que os agentes se apropriem do valor desses ativos específicos. Dessa forma, como postula o pesquisador, “as formas eficientes de governança contratual devem considerar os riscos mencionados e definir pelo maior ou menor controle das transações” (ZYLBERSZTAJN, 2000, p. 35). O quadro 11 apresenta a melhor estrutura de governança a partir do alinhamento dos contratos aos níveis de incerteza e à especificidade dos ativos. 69 Quadro 11 – Alinhamento dos contratos incerteza especificidade dos ativos baixa média alta baixa mercado mercado mercado média contrato contrato ou integração vertical contrato ou integração vertical alta contrato contrato ou integração vertical contrato ou integração vertical Fonte: Zylbersztajn (2000) A competitividade é um fenômeno dinâmico e impõe às empresas uma capacidade de ação adequada aos padrões vigentes de concorrência (FERRAZ et al., 1997; FARINA, 1999). À luz da escola da Organização Industrial (OI), a análise da competitividade pressupõe uma abordagem sistêmica (por exemplo JANK, 1996; FARINA; ZYLBERSZTAJN, 1998; MÉNARD, 1996; BATALHA, 2001). Essa abordagem considera que a conduta estratégica dos agentes econômicos, portanto, a eficiência e o desempenho, apresenta como fator determinante a capacidade de coordenação da cadeia produtiva em que estão envolvidos. A cooperação entre os agentes, via coordenação eficiente, possibilita ganhos de competitividade em todos os elos da cadeia (TEECE, 1993; FERRAZ et al., 1997; FARINA, 1999). A OI, uma das correntes teóricas mais difundidas para a análise da vantagem competitiva (VASCONCELOS; CYRINO, 2000), busca analisar a dinâmica de poder de mercado por parte das firmas em cada segmento das cadeias produtivas (FARINA, 1996; SÁ et al., 2015). Criada como contraponto à tradição microeconômica clássica, propõe-se a estudar a dinâmica real de setores industriais (KALLÁS, 2014), considerando as estruturas imperfeitas de mercado, os padrões de concorrência e as suas consequências para a política pública e para as estratégias empresariais (SÁ et al., 2015). Elementos como barreiras à entrada, barreiras à mobilidade, economias de escala e escopo, poder de monopólio e dinâmica entre as forças competitivas em setores econômicos são analisadas. A relação entre a estrutura de mercado e as estratégias adotadas pelas empresas é questão-chave para o entendimento e a resposta ao ambiente competitivo (ZYLBERSZTAJN, 2000; FARINA, 1999; 2000). MÓDULO IV – ANÁLISE COMPETITIVA E POSICIONAMENTO NO AGRONEGÓCIO 72 Este módulo apresenta, na sua primeira unidade, uma breve revisão do arcabouço teórico da OI e dos pressupostos aplicados para a análise da concorrência. Em seguida, é discutida a relevância da definição do mercado de relevante para, em seguida, abordar os fundamentos para a análise do ambiente competitivo no agronegócio, bem como os aspectos determinantes que tratam da relação entre concorrência e estruturas de mercado. Por fim, apresenta o modelo das cinco forças competitivas de Michael Porter, um dos mais difundidos e aplicados no campo da estratégia competitiva, além das estratégias genéricas voltadas à geração de desempenho superior por meio da criação de valor. Organização industrial: fundamentos para a análise competitiva Para Farina (2000, p. 40), “adotar uma abordagem sistêmica dos negócios agroindustriais, enfatizando as relações entre os segmentos constituintes da cadeia produtiva, pressupõe o conhecimento da organização e dinâmica interna de cada segmento”. Dentro de uma indústria, as transações são definidas a partir dos padrões de concorrência eECONOMIA INSTITUCIONAL E SISTEMAS AGROINDUSTRIAIS ........................................ 52 ECONOMIA DOS CUSTOS DE TRANSAÇÃO ................................................................................... 54 Comportamento dos agentes ................................................................................................ 56 Transações e características ................................................................................................... 57 ESTRUTURAS DE GOVERNANÇA E EFICIÊNCIA ............................................................................. 59 LIMITES EFICIENTES DA EMPRESA: DECISÃO DE COMPRAR OU FAZER .................................... 64 MÓDULO IV – ANÁLISE COMPETITIVA E POSICIONAMENTO NO AGRONEGÓCIO ....................... 71 ORGANIZAÇÃO INDUSTRIAL: FUNDAMENTOS PARA A ANÁLISE COMPETITIVA ...................... 72 DEFINIÇÃO DO MERCADO RELEVANTE ......................................................................................... 74 ANÁLISE DO AMBIENTE COMPETITIVO NO AGRONEGÓCIO ...................................................... 76 Barreiras à entrada .................................................................................................................. 78 Barreiras à mobilidade ............................................................................................................ 79 Economias de escala ............................................................................................................... 80 Economias de escopo .............................................................................................................. 81 CONCORRÊNCIA E CONFIGURAÇÕES DE MERCADO ................................................................... 82 Eficiência, estrutura de mercado e estratégias.................................................................... 82 Classificação dos mercados .................................................................................................... 83 Poder de monopólio ................................................................................................................ 84 Intervenção governamental: defesa da concorrência ........................................................ 86 MODELO DAS CINCO FORÇAS DE PORTER ................................................................................... 87 ESTRATÉGIAS GENÉRICAS E CRIAÇÃO DE VALOR ......................................................................... 95 BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................ 98 PROFESSOR-AUTOR ......................................................................................................................114 LEONARDO BOSCOLO CAVALHEIRO BARBOSA .........................................................................114 FORMAÇÃO ACADÊMICA .......................................................................................................114 EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS .............................................................................................114 De acordo com o relatório da Fundação Getulio Vargas (FGV, 2018), o processo de globalização observado nas últimas décadas – em especial caracterizado pela desregulamentação dos mercados financeiros, redução de barreiras no comércio internacional e integração produtiva em nível global – promoveu a unificação dos mercados mundiais, por meio das crescentes interconexões e interdependências (FLEURY; FLEURY, 2012), bem como da intensificação da competição em escala global (CHABOWSKI; MENA, 2017). O novo cenário competitivo global tem como característica a constante mudança nas regras do jogo, o que exige condutas competitivas mais ágeis e enérgicas (DOBBS et al. 2015; CHABOWSKI; MENA, 2017). Nesse contexto, a concorrência se caracteriza pela maneira como “as ações de uma empresa em um mercado afetam suas próprias ações e as de seus concorrentes em outro” (LUEHRMAN, 1990, p. 229). A competitividade é um conceito variado e com diferentes aplicações na literatura (RUSU; DORNEAN, 2019). Como tal, apresenta diferentes formas de medição, dependendo, por exemplo, do nível de análise (BUCKLEY et al., 1988). No caso do agronegócio, os SAGs apresentam particularidades que os distinguem de outros sistemas e atividades econômicas. De um lado, existe uma relação de dependência entre os diferentes elos de um SAG, decorrente principalmente de aspectos como perecibilidade, custo de frete, sanidade, qualidade e regularidade de oferta. Por outro lado, o agronegócio apresenta, como característica inerente, alto grau de incerteza quanto à variação de preços e de qualidade dos produtos. Essa incerteza, por sua vez, resulta em problemas como sazonalidade e choques de oferta decorrentes de aspectos naturais como o clima (SÁ et al., 2015). Esses aspectos, além amplificar a importância da análise competitiva dos SAGs, apontam para a necessidade de fazê-lo considerando os mecanismos e critérios adequados. Nesse sentido, uma abordagem sistêmica é necessária, incorporando não somente aspectos produtivos, como também, e especialmente, o aspecto da coordenação eficiente dos agentes econômicos envolvidos nas transações de mercado. MÓDULO I – COMPETITIVIDADE E AGRONEGÓCIO 10 Este módulo apresenta uma visão ampla sobre o conceito de competitividade, as suas vertentes e a sua aplicação no campo teórico, bem como a discussão sobre as formas de mensuração, conforme a unidade de análise considerada. Em seguida, aborda o conceito de competitividade e dos seus principais determinantes aplicados ao contexto do agronegócio, servindo como um sobrevoo no conteúdo que será revisitado, em maior detalhe, nos tópicos seguintes. Competitividade O conceito de competitividade é variado na literatura de economia e administração (RUSU; DORNEAN, 2019). Apresenta diferentes noções e complexidade no que diz respeito à sua medição e aplicação (BUCKLEY et al., 1988). O Dicionário de Economia Oxford, por exemplo, define competitividade como a capacidade de competir em mercados de bens ou serviços, tendo em vista a combinação dos fatores preço, qualidade e reputação (BLACK et al., 2009). Já a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugere que competitividade consiste na “capacidade das empresas, indústrias, regiões, nações ou regiões supranacionais de gerar, ao mesmo tempo que estão e permanecem expostas à competição internacional, fatores de renda e níveis de emprego relativamente altos em bases sustentáveis” (HATZICHRONOGLOU, 1996, p. 20). O Instituto de Estratégia e Competitividade da Harvard Business School,1 por sua vez, aponta que a competitividade resulta da produtividade com a qual um local usa os seus recursos humanos, de capital e naturais para criar valor (HARVARD BUSINESS SCHOOL, 2020). Na literatura, há pesquisadores que defendam que o conceito de competitividade se aplica de forma mais adequada a empresas e produtos, enquanto outros apontam a competitividade nacional como um determinante importante da competitividade geral das empresas ou a analisam do ponto de vista setorial (BALKYTĖ; TVARONAVIČIENĖ, 2010). Dessa maneira, o termo competitividade é usado em diferentes níveis de análise e varia conforme a aplicação, quando aplicado a uma empresa, a um setor, ou atividade econômica em um país ou região (BALKYTĖ; TVARONAVIČIENĖ, 2010; HATZICHRONOGLOU, 1996). Essa variação conceitual, por exemplo, para uma empresa ou para uma nação, decorre do fato de o contexto e a natureza da competição serem diferentes, bem como devido aos próprios objetivos de cada um serem distintos (HATZICHRONOGLOU, 1996). No nível da empresa, competitividade pode ser vista em forma de desempenho de lucro no longo prazo, bem como na sua capacidade de remunerar os seus funcionários e fornecer retornos superiores aos seus proprietários (BUCKLEYcrescimento, bem como pelo ambiente competitivo. Abordar a coordenação dos sistemas, portanto, implica discutir os condicionantes técnicos, organizacionais e estratégicos predominantes em cada um dos segmentos analisados (FARINA, 2000). A análise da coordenação dos SAGs se apoia na Teoria da OI. Esta corrente teórica apresenta como objetivo o estudo das estruturas imperfeitas de mercado, os padrões de concorrência que apresentam e os efeitos para políticas públicas e para as estratégias empresariais (OSTER, 1994; FARINA, 2000; SÁ et al., 2015). Alguns dos fundamentos da atuação do governo para a defesa da concorrência (via regulação) e as suas implicações sobre a estrutura da indústria e sobre a estratégia da firma (defesa da concorrência) têm origem na OI (KUPFER; HASENCLEVER, 2002; KALLÁS, 2014). Também conhecida na literatura como Economia Industrial, a OI corresponde à área de conhecimento, criada na década de 1950, com o intuito de estudar a relação real de setores industriais em contraponto à tradição microeconômica clássica (KALLÁS, 2014). Essa teoria busca analisar a dinâmica de poder de mercado por parte das firmas em cada segmento das cadeias produtivas (FARINA, 1996; SÁ et al., 2015). A OI se apoia nos trabalhos desenvolvidos por Mason (1949) e Bain (1959) sobre a estrutura da indústria, que resultaram no modelo Structure-Conduct-Performance (SCP), ou estrutura- conduta-desempenho, cuja representação teórico-analítica foi proposta por Scherer (1977). De acordo com esse modelo, a estrutura da indústria determina o comportamento ou conduta – estratégia – das empresas que a compõem, enquanto as condutas conjuntas destas determinam o desempenho coletivo das empresas no mercado (BAIN, 1968; PORTER, 1981; TEECE, 1984). 73 O modelo SCP “supõe que a performance econômica das firmas é o resultado direto de seu comportamento concorrencial em termos de fixação de preços e custos e que esse comportamento depende da estrutura da indústria na qual as firmas estão inseridas” (VASCONCELOS; CYRINO, 2000, p. 23). Como objetivo central, busca a alocação de recursos escassos tendo em vista o equilíbrio e a maximização de lucros (KALLÁS, 2014). Segundo Porter (1981, p. 610), o modelo SCP traduz a essência do paradigma da OI, isto é, “que o desempenho de uma empresa no mercado depende criticamente das características do ambiente da indústria em que compete”, sendo a conduta apenas reflexo do meio ambiente (VASCONCELOS; CYRINO, 2000). A OI incorpora, no seu desenvolvimento teórico, conceitos que tratam das interações das empresas (teoria dos jogos), que a leva a ser rebatizada como Nova Economia Industrial ou Nova Organização Industrial. Nessa fase, observa-se o aumento da relevância das condutas empresariais na determinação das estruturas de mercado, pois a empresa passa a adotar estratégias discricionárias, abandonando a posição de agente passivo. Também merecem destaque os trabalhos de Williamson (1975; 1985), apoiados nos conceitos de Coase (1937; 1972), que defende a natureza institucional da empresa para explicar as diferentes formas de organização interna, as configurações industriais resultantes e o seu efeito sobre os mercados (KALLÁS, 2014). A Nova Organização Industrial é considerada como uma das correntes teóricas mais difundidas para a análise da vantagem competitiva (VASCONCELOS; CYRINO, 2000). Outros conceitos desenvolvidos dentro da evolução da OI enriquecem a visão inicialmente proposta pelo modelo SCP, aumentando a relevância da conduta da firma e os seus efeitos sobre a estrutura da indústria. É o caso da teoria de barreiras à mobilidade (CAVES; PORTER, 1977) e de grupos estratégicos formados por empresas dentro de uma indústria (HUNT, 1972; PORTER, 1980). As barreiras à mobilidade podem ser classificadas em estratégias mercadológicas, características de fornecimento do setor e características específicas da gestão e propriedade das firmas (MCGEE; THOMAS, 1986), que impedem a mobilidade dentro de subgrupos em um mesmo setor (CAVES; PORTER, 1977). Esses grupos estratégicos são assim chamados devido às escolhas estratégicas que englobam, cujas características são, essencialmente, de longo prazo e de difícil reversão, fato que resulta em subdivisões mais rígidas que as convencionais (MCGEE; THOMAS, 1986; KALLÁS, 2014). Com base nesse contexto teórico, a análise competitiva deve considerar não apenas que a conduta das empresas resulta da estrutura da indústria – ênfase dada pela OI –, como também o efeito contrário, ou seja, das ações estratégicas das firmas influenciando a estrutura do setor. Farina (1999, p. 151) complementa esse olhar argumentando que A literatura de Organização Industrial tem sistematicamente mostrado que não há uma relação causal simples e unidirecional entre estrutura de mercado, a conduta (estratégia) das firmas e o desempenho do mercado. O ambiente competitivo é moldado pela interação entre a estrutura dos mercados, os padrões de concorrência, as características da demanda e a própria estratégia das firmas. 74 Também marca a evolução da OI, entre outros aspectos, a busca por fornecer conceitos de indústria, ou setor, e de mercado que sejam mais adequados à análise econômica (KALLÁS, 2014). Nesse sentido, conforme Kupfer e Hasenclever (2002), o mercado é definido como um espaço abstrato de encontro entre oferta e demanda. A OI, diferentemente da teoria econômica clássica, considera a existência de produtos que possam ser substitutos. Dessa forma, enquanto o mercado trata da demanda por um grupo de produtos substitutos próximos entre si, o setor ou indústria corresponde ao grupo de empresas que produzem mercadorias substitutas próximas entre si, portanto, ofertadas a um mesmo mercado (KUPFER; HASENCLEVER, 2002; KALLÁS, 2014). De maneira geral, portanto, o mercado determina o ambiente competitivo entre as firmas de determinada indústria ou setor por consumidores (FARINA, 2000). Trata-se do espaço de concorrência que não é e não pode ser considerado estanque, seja quanto ao produto, seja quanto aos objetivos de concorrência e de crescimento. Dessa forma, a questão metodológica a ser atendida é definir o ambiente competitivo, ou seja, o grupo de produtos que compõem o mercado e que conjunto de empresas faz parte da análise da concorrência (KUPFER; HASENCLEVER, 2002; KALLÁS, 2014). Definição do mercado relevante Segundo Porter (2008), definir a indústria – setor – em que a concorrência efetivamente ocorre é importante para uma boa análise dela, assim como para o desenvolvimento de estratégias e a definição dos limites das unidades de negócios. Estabelecer fronteiras muito amplas para a indústria pode ocultar diferenças entre produtos, clientes ou regiões geográficas que são importantes para a concorrência, para o posicionamento estratégico e para a lucratividade. Por outro lado, definir a indústria de maneira muito restrita pode negligenciar as semelhanças e ligações entre produtos relacionados ou mercados geográficos que são determinantes para a vantagem competitiva. (PORTER, 2008). A delimitação do mercado relevante12 deve considerar duas dimensões, ou critérios (FARINA, 2000; PORTER, 2008), conforme apresentado no quadro 11 a seguir: 12 Porter (2008) aponta que a definição dos limites para o setor frequentemente é uma questão de julgamento. Defende o uso do modelo das cinco forças competitivas para identificar potenciais ameaças competitivas e para, eventualmente, ajustar a delimitação do mercado relevante e direcionar as estratégias a serem desenvolvidas. 75 Quadro 11 – Dimensões ou critérios para a delimitação do mercado relevante para a análise competitiva dimensões/critérios descrição escopo de produtos e serviços Definir o grupo de produtos que podem ser considerados substitutos suficientemente próximos, de maneira que as decisões dos consumidores sejam influenciadas pelos seus preços e atributos de qualidade.Nesse racional, por exemplo, se o preço de um produto A subir e, como consequência, a demanda pelo produto B aumentar, ambos estarão no mesmo mercado, ainda que não sejam substitutos perfeitos (FARINA, 2000). Se a estrutura da indústria – mesmos compradores, fornecedores, barreiras à entrada e assim por diante – para dois produtos ou serviços for a mesma ou muito semelhante, os produtos devem ser considerados como parte da mesma indústria. No entanto, se a estrutura da indústria difere acentuadamente, os dois produtos ou serviços devem ser compreendidos em setores separados (PORTER, 2008). escopo geográfico Definir se o mercado é local, regional, nacional ou global, tendo em vista o produto ou serviço comercializado. Características como perecibilidade, aspectos logísticos, valor unitário, entre outros, podem influenciar a delimitação geográfica do mercado relevante em questão (FARINA, 2000). Como exemplo, se uma indústria tem uma estrutura semelhante – rivais, compradores e assim por diante – em todos os países, pode- se presumir que a competição é global. Entretanto, se uma indústria tiver estruturas bastante diferentes em regiões geográficas diferentes, cada região pode ser considerada como uma indústria distinta (PORTER, 2008). Fonte: Baseado em Farina (2000) e Porter (2008). A definição do mercado relevante pode mudar ao longo do tempo (FARINA, 2000; PORTER, 2008). Aspectos como mudanças tecnológicas – por exemplo, para a conservação de alimentos – ou relativas à operação logística podem ampliar a vida útil do produto e, dessa forma, integrar regiões distantes entre si, do ponto de vista geográfico. Da mesma forma, mudanças no ambiente institucional, como a abertura comercial ou a formação de blocos econômicos, podem alterar os limites do mercado relevante (FARINA, 2000). 76 Análise do ambiente competitivo no agronegócio De acordo com Farina (1999), a análise do ambiente competitivo, tendo em vista o mercado definido como relevante, deve levar em consideração alguns elementos fundamentais: A competitividade é um fenômeno dinâmico, ou seja, a capacidade de ação estratégica das empresas – via gastos em gestão, recursos humanos, produção e inovação, por exemplo – responde aos padrões de concorrência em vigor no mercado (FERRAZ et al., 1997; FARINA, 1999). Estudos sobre a competitividade no agronegócio demandam uma abordagem sistêmica (JANK, 1996; FARINA; ZYLBERSZTAJN, 1998; MÉNARD, 1996; BATALHA, 2001; ZYLBERSZTAJN; MACHADO FILHO, 2003). A conduta estratégica dos agentes e, consequentemente, a eficiência e o desempenho têm como elemento determinante a capacidade de coordenação da cadeia produtiva em que estes atuam. Nesse contexto, arranjos de governança sobre as transações são mecanismos importantes de coordenação (FARINA, 1999; ARBAGE, 2004). Políticas públicas e privadas, individuais e coletivas, influenciam o desempenho da indústria e das firmas individualmente (FARINA, 1999). A cooperação entre empresas rivais, fornecedores, distribuidores, institutos de pesquisa públicos e privados, influencia na estratégia (FARINA, 1999) e no ganho de eficiência e competitividade em todos os elos da cadeia (TEECE, 1993; FERRAZ et al., 1997). Com base nesses conceitos observados, Farina (1999) desenvolveu modelo de competitividade para o agronegócio com o objetivo de analisar as relações entre ambiente competitivo, estratégias e estruturas de governança e competitividade. Os determinantes da competitividade, segundo o modelo de Farina, são destacados no quadro 12, a seguir. 77 Quadro 12 – Determinantes da competitividade em sistemas agroindustriais dimensões aspectos ambiente organizacional organizações corporatistas;13 bureaux públicos e privados; sindicatos; institutos de pesquisa e políticas setoriais privadas. ambiente institucional sistema legal; tradições e costumes; sistema político; regulamentações; política macroeconômica e políticas setoriais governamentais. ambiente tecnológico paradigma tecnológico e fase da trajetória tecnológica. ambiente competitivo ciclo de vida da indústria; estrutura da indústria; padrões de concorrência e características de consumo. estratégias individuais preço/custo; segmentação; diferenciação; inovação; crescimento interno e crescimento por aquisição. coordenação característica das transações e estruturas de governança. Fonte: Baseado em Farina (1999) e Barbosa e Cândido (2013) O ambiente competitivo, seguindo o mesmo racional proposto por Farina, constitui-se: i) pela estrutura do mercado relevante – fatores tais como concentração de mercado, economias de escala e escopo, grau de diferenciação dos produtos, barreiras técnicas de entrada e saída; ii) por padrões de concorrência – por exemplo, concorrência preço e extra-preço, presença de grupos estratégicos, barreiras de mobilidade, entre outros; iii) pelas características do consumidor ou cliente, que determinam as possibilidades de segmentação de mercado; iv) pelo ciclo de vida da indústria, coadjuvante na definição dos padrões de concorrência; e v) pela própria estratégia individual adotada pelas firmas (FARINA et al., 1997; FARINA, 1999; SÁ et al., 2015). 13 Corporatismo refere-se às relações de intercâmbio entre grupos de interesse e o Estado, que se dão por meio de mecanismos institucionalizados (ARBIX, 1996). 78 O conjunto das variáveis de concorrência, ou seja, as regras do jogo competitivo, compõe os padrões de concorrência. Como exemplos, destacam-se preço, marca, atributos de qualidade, estabilidade de entrega, reputação de confiança, inovação contínua em produto ou em processo, assim como a importância relativa dessas variáveis (FARINA, 1999). Para Oster (1994), um mercado eficiente consiste naquele em que os preços refletem a informação instantaneamente e as oportunidades de lucro são rapidamente dissipadas pela ação de empresários que buscam lucros. A concorrência é o mecanismo que faz o mercado funcionar (FARINA; AZEVEDO, 2001). Mais ainda: ambientes competitivos tendem a igualar o lucro nos mercados e entre firmas, contudo, no mundo real, nem todas as indústrias e empresas apresentam o mesmo desempenho, mesmo no longo prazo (OSTER, 1994; FARINA, 2000). Acompanhando esse raciocínio, Farina (2000) afirma que são várias as potenciais razões para que as empresas apresentem desempenhos diferentes entre e dentro dos setores ou das indústrias. A intensidade da concorrência, como enfatiza a Teoria da Organização Industrial, consiste na principal causa. Em outras palavras, “barreiras ou impedimentos à entrada e à mobilidade podem amenizar a pressão competitiva, estimulada por taxas de retorno atraentes” (FARINA, 2000, p. 42). Dessa forma, o enfoque analítico deve concentrar-se no ambiente competitivo, e não nas estratégias individuais das firmas (FARINA, 2000; SÁ et al., 2015). Barreiras à entrada Barreiras à entrada são vantagens que os operadores históricos, isto é, empresas já estabelecidas, têm em relação aos novos participantes (PORTER, 2008), tendo em vista as características estruturais de uma indústria (KARAKAYA; STAHL, 1989). Consistem na capacidade de os participantes já estabelecidos assegurarem preços acima dos competitivos sem atrair novos competidores (BAIN, 1959; 1968). Compreendem fatores ambientais que influenciam a participação de mercado e o lucro das empresas que já estão no mercado (KARAKAYA; STAHL, 1989). Podem ser vistas, ainda, como um tipo de custo de ajuste que novos entrantes devem superar ao ingressar em determinada indústria (GEROSKI et al., 1990). Farina (2000) afirma que barreiras à entrada “dizem respeito aos custos diferenciais que devem ser incorridos pelos ingressantes potenciais, mas que não afetam os concorrentes já estabelecidos” (FARINA, 2000, p. 43). Segundo a pesquisadora, entrar em um mercado podeser entendido como adicionar capacidade produtiva, portanto, uma aquisição de determinada firma já estabelecida no mercado não deve ser considerada como uma nova entrada, mas, sim, apenas uma troca de propriedade. O grau de barreiras à entrada depende das características ou da estrutura do mercado. Dessa forma, variam entre altas até baixas em condições de monopólio puro, firma dominante e oligopólio restrito, enquanto a entrada livre pode ser verificada em mercados monopolísticos e de concorrência pura (SHEPHERD, 1979). 79 Em geral, as barreiras à entrada podem ser de caráter tecnológico, como economias de escala e escopo, licenças ou patentes e acesso a melhor tecnologia; ou de diferenciação, como reputação de empresas e marcas reconhecidas (FARINA, 2000). Barreiras relacionadas às vantagens competitivas das empresas já estabelecidas no mercado também podem ser observadas, tais como contratos já constituídos, efeitos de curva de aprendizado e vantagens de pioneirismo (SÁ et al., 2015). Além desses fatores, o custo de capital para a entrada, as restrições governamentais, as vantagens absolutas de custo e os baixos custos na obtenção de matéria-prima também podem ser considerados como barreiras à entrada (MARINO, 2001). Também funcionam como tal, custos irrecuperáveis (sunk costs), ou seja, aqueles incorridos como investimentos e que não podem ser recuperados – balanço entre o risco potencial de insucesso ao entrar em determinado mercado em comparação a custos irreversíveis, os quais podem ser altos em alguns casos (SÁ et al., 2015) Porter (2008) elenca sete fontes principais de barreiras à entrada: i) economias de escala do lado da oferta; ii) benefícios de escala do lado da demanda; iii) custos de troca do cliente; iv) requisitos de capital; v) vantagens de incumbência independentes do tamanho da empresa; vi) acesso desigual aos canais de distribuição; e vii) políticas governamentais restritivas. Quanto maiores as barreiras à entrada e à competição, maior o poder de barganha e, consequentemente, o retorno das empresas em um setor (PORTER, 1979; KALLÁS, 2014). Barreiras à entrada podem ser afetadas pelo comportamento estratégico de operadores históricos, ou incumbents (GEROSKI et al., 1990). Em outras palavras, o comportamento estratégico das firmas estabelecidas perante potenciais novos entrantes é de não acomodação (SÁ et al., 2015). Dessa forma, as empresas já participantes da indústria influenciam o desempenho dos novos rivais pós-entrada por meio de retaliações via variações no nível de produção (MARINO, 2001). Barreiras à mobilidade Barreiras à mobilidade trata-se de uma extensão ao conceito de barreiras à entrada, proposto por Caves e Porter (1977). As barreiras à mobilidade dizem respeito aos diferentes grupos estratégicos presentes em determinada indústria (FARINA, 2000). São assim chamados pelas suas escolhas estratégicas (OSTER, 1994) que envolvem características de longo prazo e difícil reversão, as quais promovem subdivisões mais rígidas dentro do setor (MCGEE; THOMAS, 1986; KALLÁS, 2014). Em outras palavras, os grupos estratégicos consistem em clusters de firmas dentro da indústria, os quais utilizam os mesmos ativos especializados e o mesmo conjunto de variáveis de concorrência (FARINA, 2000). Como apresentado no quadro 13, as barreiras à mobilidade podem ser classificadas em: estratégias mercadológicas; características de fornecimento do setor; e características específicas da gestão e propriedade das firmas (MCGEE; THOMAS, 1986), que impedem a mobilidade dentro de subgrupos em um mesmo setor (CAVES; PORTER, 1977). 80 Quadro 13 – Fontes de barreiras à mobilidade estratégias mercadológicas características de fornecimento do setor características das firmas linhas de produtos; tecnologias do usuário; segmentação de mercado; canais de distribuição; marcas; cobertura geográfica e sistemas de vendas. economia de escala (produção, marketing, administração); processos de produção; capacidade de P&D e marketing e sistemas de distribuição. propriedade; estrutura organizacional; sistemas de controle; competências gerenciais; fronteiras da firma (diversificação, integração vertical); tamanho da firma e relacionamento com grupos de influência. Fonte: Adaptado de McGee e Thomas (1986), Kallás (2014) Como exemplo, efeitos cumulativos de propaganda podem representar efetivas barreiras à entrada no segmento de marcas da indústria do queijo, mas não afetam a entrada no segmento commodity. Empresas do segmento commodity, por sua vez, enfrentam barreiras de mobilidade para o segmento de marcas que, em geral, são mais rentáveis (FARINA, 2000). Economias de escala Economias de escala são observadas quando o custo unitário diminui com o aumento da capacidade de produção ou quantidade produzida (FARINA, 2000; SÁ et al., 2015). Em outras palavras, as empresas são capazes de distribuir os custos fixos por mais unidades, empregar tecnologia mais eficiente ou exigir melhores condições do fornecedor. As economias de escala do lado da oferta agem como barreira à entrada, forçando o aspirante a entrar no setor em grande escala, o que supõe desalojar concorrentes já estabelecidos ou aceitar uma desvantagem de custo (PORTER, 2008). Para o caso do agronegócio, entretanto, muitos mercados agrícolas possuem porte para acomodar quantidade elevada de produtores, fazendo com que nem sempre as economias de escala traduzam-se em barreiras à entrada (FARINA, 2000). Porter (2008) afirma que economias de escala podem ser encontradas em praticamente todas as atividades da cadeia de valor, sendo que as etapas mais importantes variam conforme a indústria analisada.14 Dessa forma, a redução dos custos pode ser ocasionada tanto pela 14 Porter (2008) apresenta os seguintes exemplos ilustrativos: em microprocessadores, empresas estabelecidas são protegidas por economias de escala em pesquisa, fabricação de chips e marketing ao consumidor. Para empresas de jardinagem, as 81 utilização de métodos produtivos mais automatizados ou avançados, como também derivar de ganhos em propaganda, marketing, P&D, financiamento, entre outras (PORTER, 1979; POSSAS, 1993; SZWARCFITER; DALCOL, 1997). Segundo Farina (2000), economias de escala resultam, em geral, de fatores como a possibilidade de especialização de funções, indivisibilidades tecnológicas, economias de reserva de massa e vantagens pecuniárias à aquisição de matérias-primas e financiamentos (FARINA, 2000). Economias por ganhos de especialização decorrem de ganhos de produtividade, por exemplo, conforme um trabalhador se especializa na sua função, muito provavelmente melhoram as suas habilidades e reduz o tempo gasto, ou seja, aumenta a sua produtividade (SÁ et al., 2015). No entanto, a especialização de funções requer uma escala mínima de capacidade produtiva para que seja possível a divisão do trabalho, de forma a gerar ganhos de produtividade (FARINA, 2000). Já a economia de escala resultante de indivisibilidades tecnológicas está associada ao porte de equipamentos que sejam dimensionados para quantidades mínimas de produção. À medida que a capacidade produtiva cresce em relação à capacidade máxima do equipamento, o custo relativo deste equipamento declina, conferindo, portanto, vantagens de custo aos produtores maiores (FARINA, 2000). Como nem sempre é possível adquirir equipamentos com o tamanho adequado para produzir a quantidade desejada ou exata, ou seja, otimizar a capacidade que o equipamento oferece, subutilizações eventuais podem ser consideradas para potenciais expansões futuras (SÁ et al., 2015). Economias de reserva de massa ou economias geométricas, segundo Sá et al. (2015), são verificadas quando a capacidade de um equipamento ou instalação aumenta de forma mais rápida do que os custos realizados. Por fim, economias de escala pecuniárias relacionam-seàs vantagens de preços na compra de insumos, de juros e de condições de venda, salários, aluguel, entre outras (SÁ et al., 2015). Economias de escopo De acordo com Farina (2000), economias de escopo resultam da produção conjunta de dois ou mais produtos, o que, por sua vez, gera custo menor do que a produção individual de cada um desses mesmos produtos isoladamente. São vantagens de custo multiproduto decorrentes do compartilhamento de ativos produtivos, sejam físicos, sejam humanos, entre diferentes produtos (FARINA, 2000), o que representa ganhos sinérgicos de produção (SÁ et al., 2015). Também podem ser geradas economias de escopo pelo compartilhamento de marcas, sistemas de distribuição e expertise na negociação e comercialização, de forma a reduzir o custo por produto (FARINA, 2000). Sá et al. (2015) apresentam como exemplos de economias de escopo, dentro do cenário agroindustrial, as lavouras consorciadas, o aproveitamento de subprodutos industriais e a exploração do turismo rural em propriedades produtivas. economias de escala mais importantes são encontradas na cadeia de suprimentos e na publicidade na mídia. Na entrega de pequenas embalagens, surgem economias de escala nos sistemas logísticos nacionais e na tecnologia da informação. 82 As economias de escala e escopo combinadas geram economias de escala multiproduto, as quais emergem quando a tecnologia se caracteriza pela indivisibilidade e flexibilidade, seja em relação a insumos, seja em relação a fatores compartilháveis. Caso existam elevadas economias de escala ou escopo em relação ao tamanho do mercado relevante, o número de firmas no mercado deve ser pequeno para que se possa atingir escala e diversificação capazes de minimizar custos de produção e distribuição. Nesse caso, o oligopólio consiste em estrutura eficiente de mercado, ou seja, uma estrutura concentrada é consistente com a eficiência produtiva (FARINA, 2000). Concorrência e configurações de mercado Como argumenta Kallás (2014), de acordo com a economia industrial, condições setoriais influenciam o desempenho das firmas. Quanto maiores as barreiras à entrada e à competição, maior o poder de barganha e o retorno das firmas incumbentes em um setor (PORTER, 1979), logo o setor age como fator importante para o desempenho da firma (MCGAHAN; PORTER, 1997) enquanto a concentração setorial representa um importante sinal das condições de um setor (KWOKA JR., 1979; STIGLER, 1964). De acordo com Farina (2000), a concorrência consiste na força que leva à adoção de configurações eficientes de mercado. Com base na teoria da economia de custos de transação, em caso de alto poder de barganha, emerge a possibilidade das firmas de exercerem negociações e contratos unilaterais e de se beneficiarem de comportamentos oportunistas (WILLIAMSON, 1979). Nos tópicos a seguir, são apresentados conceitos e aspectos que tratam da relação entre concorrência e eficiência, da classificação dos mercados e do uso do poder de monopólio. Eficiência, estrutura de mercado e estratégias As características básicas de uma estrutura de mercado – número e participação relativa das firmas, grau de diferenciação de produtos, barreiras à entrada e à saída e grau de integração vertical – são determinadas pela eficiência das firmas e pelo tamanho do mercado. Por sua vez, a estrutura de mercado influencia as estratégias de preço e produto das empresas que nele operam. As empresas, assim, devem levar em consideração os seus rivais atuais e potenciais, as possibilidades de coordenação oligopolista, as preferências do consumidor e o arcabouço legal que condiciona os negócios, como regulamentações, legislação da concorrência e política industrial (FARINA, 2000). A estrutura dos mercados varia entre os mercados competitivos. Caracterizam-se desde mercados fragmentados, com produtos homogêneos ou com baixa diferenciação e ausências de barreiras técnicas à entrada – como no caso de mercados competitivos –, passando por diferentes tipos de oligopólio em que tais características variam da fragmentação para a concentração, da ausência para a presença de barreiras e da homogeneidade de produtos para a diferenciação, por fim, chegando até os monopólios naturais com a atuação de apenas uma organização (SÁ et al., 2015). 83 Segundo Marino (2001), o grau de concentração está relacionado diretamente à escala mínima eficiente. Dessa forma, setores que exigem grandes escalas tendem a ser mais concentrados. A seguir, são apresentadas as classificações dos mercados em maior detalhe. Classificação dos mercados Segundo Farina (2000, p. 53), “as estruturas de mercado constituem uma parte importante do ambiente competitivo das firmas, porque influenciam o padrão de concorrência no curto prazo”. O quadro 14, a seguir, apresenta as diferentes classificações de mercado, bem como a sua descrição resumida (FARINA, 2000; SÁ et al., 2015). Quadro 14 – Classificação dos mercados classificação características competitivos mercado fragmentado com grande número de participantes; produto homogêneo ou com baixa diferenciação e ausência de barreiras técnicas de entrada. exemplo: commodities agrícolas oligopólios concentrados elevada concentração; produto homogêneo ou de baixa diferenciação e elevadas barreiras técnicas à entrada, que permitem a manutenção de lucros diferenciais. exemplo: fertilizantes oligopólios diferenciados elevada concentração e produto diferenciado/barreira de diferenciação reforçando barreiras técnicas. exemplo: tratores oligopólios competitivos alta concentração com presença de franja competitiva;15 produtos diferenciados e barreiras de diferenciação (baixas barreiras à entrada, mas importantes barreiras à mobilidade com base na diferenciação ou tecnologia). exemplo: alimentos industrializados monopólios naturais operação de uma única empresa com tamanho eficiente e elevadas economias de escala ou escopo. exemplo: em geral, associados a serviços de utilidade pública, como distribuição de água, luz, rede de esgotos (não verificados no contexto dos sistemas agroindustriais). Fonte: Farina (2000) e Sá et al. (2015) 15 A franja competitiva retrata a situação em que um pequeno número de grandes empresas que detêm grandes fatias de mercado convive com empresas de pequeno porte que conferem alguma competitividade ao mercado (SÁ et al., 2015) 84 Segundo Farina (2000), em mercados competitivos, a concorrência de preços é o principal instrumento, portanto, exige controle de custos de produção, logística de suprimento e distribuição, logo a eficiência é fundamental. Esse tipo de mercado apresenta tecnologias maduras, em que a curva de aprendizado já se encontra difundida. Como não há barreiras à entrada ou à mobilidade, as oportunidades de lucro são rapidamente dissipadas pela ação de empresários que buscam lucros. A capacidade de as firmas adotarem políticas de preços independentes é reduzida (FARINA, 2000; SÁ et al., 2015). Os oligopólios se caracterizam pela elevada concentração do lado da oferta – poucas grandes empresas detêm fatias significativas do mercado –, que decorrem de vantagens de custo associadas ao tamanho da capacidade produtiva ou à diferenciação de produto. Isso significa que a competição não ocorre via preços, mas, sim, pela diferenciação de produtos e pela redução de custos. A entrada de novos concorrentes é difícil dadas as barreiras naturais desse tipo de mercado e, dessa forma, os lucros diferenciais dos participantes já estabelecidos no mercado são mais duradouros. As empresas determinam os seus preços com base, principalmente, na estrutura de custos, o que significa que estão menos sujeitas às variações de mercado e praticam o poder de monopólio (FARINA, 2000; SÁ et al., 2015). Poder de monopólio O poder de monopólio é verificado quando “um produtor ou grupo de produtores tem a capacidadede restringir produto e elevar preços acima do nível de concorrência, sem que perca todos os seus clientes” (FARINA, 2000, p. 53). Nesse caso, os preços de mercado são formados com base em políticas de preço empresariais, e não pela interação entre oferta e demanda. Em consequência, verifica-se maior rigidez de preços e ajuste pela formação e liberação de estoques, ou seja, pela quantidade ofertada (FARINA, 2000). Um mercado concentrado, no entanto, não configura condição suficiente para que o poder de monopólio seja explorado. A concorrência entre poucas e grandes firmas, algumas vezes, é mais intensa do que a observada em mercados pulverizados, em especial em casos de concorrência extra-preço (FARINA, 2000). De acordo com Marino (2001), com exceção de caso em que haja o domínio exclusivo tecnológico – que permite diferencial de custo ou de produtos –, o poder de monopólio só se torna possível quando se tem controle de parte significativa do mercado, seja pelo gerenciamento da própria capacidade produtiva, seja pela coordenação de um grupo de empresas (SÁ et al., 2015). De acordo com Farina (2000), a capacidade de fixar preços por meio do controle da oferta no oligopólio depende, essencialmente, de duas variáveis: existência de barreiras à entrada e capacidade de coordenação entre os oligopolistas. Barreiras à entrada e à mobilidade são características do ambiente competitivo que influenciam o desempenho das firmas. Quanto menores as barreiras, menor o poder de mercado das empresas já estabelecidas. As barreiras institucionais sustentadas por legislação são as mais eficientes para a manutenção do poder de monopólio no longo prazo – barreiras tecnológicas podem ser superadas nesse horizonte de prazo (FARINA, 1996; SÁ et al., 2015). 85 Por outro lado, a capacidade de coordenação a partir de estratégias das firmas permite a alteração do ambiente competitivo e, consequentemente, a obtenção de lucros diferenciais (SÁ et al., 2015). Quanto mais fácil for a coordenação oligopolista, maiores as possibilidades de uma maximização conjunta de lucros e a criação de impedimentos à entrada, reproduzindo a conduta de um monopolista (FARINA, 2000). Dessa forma, setores que apresentam coordenações similares à tácita tenderão a se organizar, no longo prazo, para praticar condutas lesivas à concorrência e favoráveis às empresas. No entanto, em segmentos com grande fragmentação e em situação próxima a um mercado competitivo, verificam-se dificuldades para o desenvolvimento de ações conjuntas entre as empresas (MARINO, 2001). O quadro 15 apresenta as condições que afetam a coordenação oligopolista. Quadro 15 – Condições que afetam a coordenação oligopolista condições excelente possível difícil configuração coordenação tácita cartel concorrência número de empresas muito poucas várias muitas concentração muito alta alta baixa tipo de produto padronizado diferenciado diferenciado frequência de vendas pequena moderada alta acordos secretos nenhum algum grande mudanças técnicas nenhuma moderadas rápidas crescimento de mercado baixo moderado rápido elasticidade da demanda baixa média alta custos de produção idênticos semelhantes diferentes Fonte: Adaptado de Greer (1992) e Sá et al. (2015) 86 Intervenção governamental: defesa da concorrência Mesmo não sendo, necessariamente, uma relação de causa e efeito, quando uma empresa ou um grupo de empresas detém posição dominante de mercado e exercita o poder de monopólio, podem-se gerar perdas para o bem-estar social. Em especial, isso é verificado em casos de oferta menor de produto que ocasionam preço mais elevado. Dessa forma, observa-se a redistribuição de renda para quem detém o poder de mercado e impactos para os mercados com os quais se relacionam (FARINA, 2000; MARINO, 2001; SÁ et al., 2015). Uma política de defesa da concorrência tem função de manter a força competitiva quando esta não é característica natural dos mercados (FARINA; AZEVEDO, 2001). A legislação disciplina o mercado em busca de abrandar o poder de monopólio das empresas (SÁ et al., 2015), por meio de dois mecanismos de garantia da concorrência: intervenções diretas na estrutura de mercado, por exemplo, a separação de empresas ou a alienação de bens; ou intervenções na conduta estratégica, tais como fixação de preços, aquisição do produto em comum acordo, adoção de estratégias comerciais uniformes e fluxo de informações que reduzam a concorrência entre as empresas (MARINO; AZEVEDO, 2003). Vale destacar que, por meio da atuação na estrutura dos mercados, verificam-se efeitos nas estratégias competitivas, por exemplo, por criar condições para inibir a conduta anticompetitiva das firmas (SÁ et al., 2015). Marino e Azevedo (2003) afirmam que as intervenções na estrutura de mercado proporcionam maior período de efetividade (efeito duradouro) decorrente das alterações nas condições do mercado competitivo (alterações na estrutura patrimonial), mas custoso no curto prazo. No entanto, para casos em que há forte monitoramento, ausência de assimetrias na capacidade de coordenação e nas barreiras à entrada e à saída nos segmentos em análise, bem como ineficiência sistêmica, a intervenção em condutas estratégicas pode ser benéfica e ter baixo custo privado. Não tendo essas condições, intervenções na conduta das firmas tendem a ter pouca efetividade. Há, contudo, economistas que defendem posição contrária. Para eles, a exploração do poder de mercado no curto prazo leva à realização de lucros econômicos, os quais tendem a atrair novos investidores para o mercado previamente concentrado, ampliando assim a concorrência e eliminando o poder de monopólio. Dessa forma, defendem que o lucro de monopólio é passageiro e não deve ser objeto de ação governamental (FARINA, 1997; SÁ et al., 2015). 87 Modelo das cinco forças de Porter A consciência das cinco forças pode ajudar uma empresa a compreender a estrutura de seu setor e a definir uma posição que seja mais lucrativa e menos vulnerável a ataques (PORTER, 2008, p. 78). Michael Porter é considerado uma das principais autoridades mundiais em estratégia competitiva, competitividade e desenvolvimento econômico de nações, estados e regiões, bem como na aplicação de análises competitivas para diversas questões relevantes, como meio ambiente, saúde e filantropia (SNOWDON; STONEHOUSE, 2006). Porter articulou o primeiro e, talvez, o mais influente paradigma no campo da estratégia empresarial (VASCONCELOS; CYRINO, 2000). O seu trabalho é pioneiro no que se refere à utilização de análises econômicas para investigar questões relacionadas à competitividade no nível da empresa, da indústria e das nações (SNOWDON; STONEHOUSE, 2006). Apresentado pelo autor inicialmente em 1979, em artigo da Harvard Business Review e no seu livro Estratégia competitiva, de 1980, o Modelo das Cinco Forças (PORTER, 1979; 1980, 2008) consiste na ideia mais difundida e aplicada da Estratégia Competitiva. Para Brandenburger (2002), o sucesso do modelo decorre da clareza como trata das atividades essenciais dos negócios, isto é, ele fornece uma imagem mental do cenário de negócios, que reflete o que os estrategistas de negócios do mundo real realmente pensam. Nesse sentido, dois pontos são destacados: primeiro, o modelo engloba toda a cadeia de valor da atividade econômica, tendo em vista fornecedores, empresas concorrentes e clientes; segundo, destaca a relevância dos negócios, isto é, das empresas na criação de valor, mas também ressalta como os negócios são interdependentes com os seus fornecedores e clientes. De acordo com o pesquisador, o modelo de Porter fornece “a imagem de um 'bolo de valor' sendo criado por empresas em conjunto com compradores e fornecedores, e desse bolo sendo dividido entre os diferentes participantes” (BRANDENBURGER, 2002, p. 58). Nessa análise inicial sobre a vantagem competitiva, Porter usa fundamentos econômicos,a sua área de formação, particularmente elementos da Teoria da Organização Industrial (VASCONCELOS; CYRINO, 2000). Especificamente, assume como pressuposto fundamental que é a estrutura da indústria que impulsiona a competição e a lucratividade, e não o fato de ser uma indústria de produtos ou serviços, se é emergente ou madura, de alta ou baixa tecnologia, regulamentada ou não. Dessa forma, se por um lado uma vasta gama de fatores pode influenciar na lucratividade de indústria no curto prazo, “a estrutura da indústria, manifestada nas forças competitivas, define a lucratividade da indústria no médio e longo prazo” (PORTER, 2008, p. 80). 88 Nesse sentido, Porter (1991, p. 100) aponta que No nível mais amplo, o sucesso da empresa é função de duas áreas: a atratividade do setor em que a empresa compete e sua posição relativa nesse setor. A lucratividade da empresa pode ser decomposta em um efeito de indústria e um efeito de posicionamento. Alguns sucessos de empresas vêm quase inteiramente do setor em que competem; a maioria de seus rivais também são bem-sucedidos! Dessa forma, para entender e lidar com a competição, essência do trabalho de um estrategista conforme aponta Porter (2008), não se pode assumir uma visão restrita que considere apenas os concorrentes diretos. Além dos rivais estabelecidos na indústria – setor –, a competição por lucros inclui mais quatro outras forças competitivas: clientes, fornecedores, potenciais novos entrantes e produtos substitutos. A rivalidade ampla que compreende essas cinco forças determina a estrutura de uma indústria e molda a natureza das interações competitivas dentro dela (PORTER, 2008). Com base nesses aspectos e pressupostos, Porter (2008, p. 80) defende que Compreender as forças competitivas e suas causas subjacentes revela as raízes da lucratividade atual de uma indústria, ao mesmo tempo que fornece uma estrutura para prever e influenciar a competição (e lucratividade) ao longo do tempo. Uma estrutura de setor saudável deve ser uma preocupação competitiva para os estrategistas, assim como a posição da própria empresa. Compreender a estrutura da indústria também é essencial para um posicionamento estratégico eficaz. (...), defender-se das forças competitivas e moldá-las a favor da empresa são fundamentais para a estratégia. Segundo Stonehouse e Snowdon (2007), a análise via modelo das cinco forças (PORTER, 1980) possibilita que uma empresa avalie tanto a lucratividade potencial – ou atratividade – da indústria como a sua posição competitiva dentro dela. O potencial de uma empresa ser lucrativa se relaciona negativamente a aumento da concorrência, menores barreiras de entrada, grande número de substitutos e maior poder de barganha de clientes e fornecedores (PORTER, 1980; STONEHOUSE; SNOWDON, 2007) A figura 8 apresenta a relação entre as cinco forças que, segundo Porter (1979; 1980, 2008), moldam a competição na indústria. 89 Figura 8 – As cinco forças que definem a competição na indústria Fonte: Porter (2008) O quadro 16 apresenta a descrição resumida de cada uma das forças competitivas (PORTER, 2008). 90 Quadro 16 – Descrição das cinco forças que definem a competição na indústria força competitiva descrição resumida ameaça de entrada Novos entrantes em uma indústria trazem nova capacidade e intenção de ganhar participação de mercado, aspectos que pressionam os preços, os custos e a taxa de investimento necessária para competir (PORTER, 2008). A ameaça de entrada limita o potencial de lucro de uma indústria: quando a ameaça é alta, os operadores históricos devem manter os seus preços baixos ou aumentar o investimento para dissuadir novos concorrentes (PORTER, 2008). Uma análise das barreiras à entrada e da retaliação esperada é obviamente crucial para qualquer empresa que esteja pensando em entrar em um novo setor. O desafio é encontrar formas de superar as barreiras de entrada sem anular, por meio de pesados investimentos, a lucratividade de participar do setor (PORTER, 2008). A ameaça de entrada em uma indústria depende de quão altas são as barreiras de entrada e da reação que os participantes podem esperar dos operadores históricos. Se as barreiras de entrada são baixas e os recém- chegados esperam pouca retaliação dos concorrentes entrincheirados, a ameaça de entrada é alta, e a lucratividade do setor é moderada. É a ameaça de entrada, não se a entrada realmente ocorre, que impede a lucratividade (PORTER, 2008; SÁ et al., 2015): São exemplos de barreiras de entrada, isto é, vantagens que os operadores históricos têm em relação aos novos participantes: economias de escala do lado da oferta, benefícios de escala do lado da demanda, custos de mudança do cliente, requisitos de capital, vantagens de cargo independentes do tamanho, acesso desigual aos canais de distribuição, política governamental restritiva (PORTER, 2008), reputação e reconhecimento de marca, acesso aos canais de distribuição, especificidade de ativos, direitos de propriedade (SÁ et al., 2015). A retaliação depende da posse de recursos para retaliar – por exemplo, capacidade de endividamento não utilizada e capacidade produtiva em excesso –, comprometimento com a indústria devido a elevados investimentos, bem como taxa de crescimento da indústria, que pode definir a capacidade das empresas instaladas de absorver a nova entrante sem ter a rentabilidade afetada (SÁ et al., 2015). 91 força competitiva descrição resumida poder dos fornecedores O poder de negociação ou de barganha dos fornecedores, quando elevado, determina a apropriação de parte dos lucros dos participantes da indústria (SÁ et al., 2015). Fornecedores poderosos capturam mais valor para si por meio da prática de preços mais altos, da limitação da qualidade ou dos serviços ou da transferência dos custos para os participantes da indústria. Podem reduzir a lucratividade de uma indústria incapaz de repassar os aumentos de custos nos seus preços (PORTER, 2008). Condições que determinam se um grupo de fornecedores é poderoso (PORTER, 2008): O grupo de fornecedores é mais concentrado que a indústria para a qual vende. O grupo de fornecedores não depende intensamente da indústria para a sua receita. Os participantes da indústria enfrentam custos de mudança ao trocar de fornecedor (caso de alto investimento feito para desenvolver o fornecedor, por exemplo). Os fornecedores ofertam produtos diferenciados (patenteados, por exemplo). Não existe substituto para os fornecedores. O grupo de fornecedores pode ameaçar a integração futura da indústria. 92 força competitiva descrição resumida poder dos compradores Clientes poderosos podem capturar mais valor ao forçar preços baixos, exigir melhor qualidade ou mais serviço (que aumentam os custos) e ao jogar os participantes da indústria uns contra os outros – ações que afetam a lucratividade da indústria. Os compradores são poderosos se tiverem alavancagem de negociação, ou poder de barganha, em relação aos participantes da indústria –, especialmente se forem sensíveis ao preço (PORTER, 2008). Clientes intermediários podem ser analisados da mesma forma que clientes finais, com uma observação: ganham mais poder de barganha significativo quando podem influenciar as decisões de compra dos clientes a jusante (PORTER, 2008). Condições que determinam se um grupo de clientes tem poder de barganha perante os participantes da indústria (PORTER, 2008): Existem poucos compradores, ou cada um compra em volumes grandes em relação ao tamanho de um único fornecedor. Os produtos da indústria são padronizados ou indiferenciados (facilidade para encontrar produto equivalente). Os compradores enfrentam baixos custos de mudança na troca de fornecedores. Os compradores podem ameaçar a integração retroativa e a produção do produto daindústria se os fornecedores forem muito lucrativos (por exemplo, produtores de refrigerantes e cerveja detêm o poder sobre os fabricantes de embalagens, ameaçando fazer eles próprios os materiais de embalagem) 93 força competitiva descrição resumida ameaça de substitutos “Um substituto desempenha a mesma função ou uma função semelhante ao produto de uma indústria por um meio diferente” (PORTER, 2008, p. 84). Sempre há substitutos, mas são fáceis de ignorar, pois podem parecer muito diferentes do produto da indústria. Quando a ameaça de substitutos é alta, a lucratividade da indústria é impactada: produtos ou serviços substitutos limitam o potencial de lucro de uma indústria, definindo um teto nos preços. Se uma indústria não se distanciar de substitutos por meio do desempenho do produto, marketing ou outros meios, ela sofrerá em termos de lucratividade e de potencial de crescimento (PORTER, 2008). A ameaça de substitutos é alta se (PORTER, 2008): oferecer uma relação preço-desempenho (valor relativo) atraente para o produto da indústria e o custo do comprador para mudar para o substituto for baixo. Mudanças em outros setores (indústrias), como mudanças tecnológicas ou descontinuidades competitivas, podem tornar substitutos atraentes e, consequentemente, gerar impactos na lucratividade da indústria em questão (PORTER, 2008). 94 força competitiva descrição resumida rivalidade entre os concorrentes existentes A rivalidade entre os concorrentes existentes pode ser verificada em descontos no preço, lançamentos de novos produtos, campanhas publicitárias e melhorias de serviço. A alta rivalidade limita a lucratividade de uma indústria. O nível de redução do lucro potencial de uma indústria depende da intensidade da competição e da base na qual as empresas competem (PORTER, 2008). A intensidade da rivalidade é maior se: os concorrentes forem numerosos ou quase iguais em tamanho e poder; o crescimento da indústria for lento, o que precipita lutas por participação de mercado; as barreiras de saída forem altas; os rivais forem altamente comprometidos com o negócio e buscarem a liderança, especialmente se tiverem objetivos que vão além do desempenho econômico; as empresas não conseguirem identificar de forma eficiente os sinais umas das outras. As dimensões – base – em que ocorre a competição e se os rivais convergem para competir nas mesmas dimensões têm uma grande influência na lucratividade (PORTER, 2008): A rivalidade é destrutiva para a lucratividade, especialmente se girar em torno somente do preço. A concorrência de preços transfere lucros diretamente de uma indústria para os seus clientes. A competição em outras dimensões – como em recursos do produto, serviços de suporte, tempo de entrega ou imagem da marca, por exemplo – tem menos probabilidade de corroer a lucratividade por aumentar o valor para o cliente, podendo suportar preços mais altos. Saber se os rivais competem nas mesmas dimensões é importante: se todos ou muitos competidores visam atender às mesmas necessidades ou competir nos mesmos atributos, o resultado é uma competição de soma zero. A rivalidade pode ser uma soma positiva, ou aumentar a lucratividade média de uma indústria, se cada concorrente atender às necessidades de diferentes segmentos de clientes, com diferentes combinações de preços, produtos, serviços, recursos ou identidades de marca. Essa competição pode apoiar uma lucratividade média mais alta, mas também expandir o setor, pois as necessidades de mais grupos de clientes são mais bem atendidas. A oportunidade para a competição de soma positiva será maior em setores que atendem a diversos grupos de clientes. Fonte: Porter (2008) e Sá et al. (2015) 95 Porter (2008) defende o uso de táticas desenvolvidas especificamente para reduzir a parcela dos lucros que ficam com os demais rivais competitivos, por exemplo: Neutralizar a energia do fornecedor pela padronização das especificações de insumos para que a sua empresa possa trocar mais facilmente de fornecedores. Combater o poder do cliente por meio da expansão dos produtos e serviços para que seja mais difícil para os clientes trocá-lo por um rival. Moderar guerras de preços iniciadas por rivais estabelecidos por meio de investimentos mais sólidos em produtos que diferem significativamente das ofertas dos concorrentes. Inibir novos participantes potenciais via elevação dos custos fixos da competição, por exemplo, aumentando gastos com P&D. Limitar a ameaça de substitutos oferecendo melhor valor por meio de uma acessibilidade mais ampla ao produto. Estratégias genéricas e criação de valor Porter afirma que uma empresa é capaz de superar o desempenho dos seus rivais apenas se puder estabelecer uma diferença sustentável. “Deve entregar maior valor aos clientes ou criar valor comparável a um custo menor, ou ambos” (PORTER, 1996, p. 62). A lucratividade superior se baseia no seguinte racional: a entrega de maior valor possibilita que uma empresa cobre preços unitários médios mais elevados; e uma maior eficiência promove custos unitários médios mais baixos (PORTER, 1996). Com base na análise das cinco forças que compõem o paradigma do posicionamento competitivo de Porter (1980; 2008), uma organização pode desenvolver uma estratégia competitiva genérica de diferenciação, liderança de custos ou foco, capaz de entregar desempenho superior, por meio de uma configuração e coordenação adequada das suas atividades da cadeia de valor (PORTER, 1985; STONEHOUSE; SNOWDON, 2007). As estratégias genéricas permitem criar uma posição defensável e superar os concorrentes em um determinado setor (DESS; DAVIS, 1984). Para Porter, o sucesso na geração de vantagem competitiva a partir de uma estratégia genérica depende de garantir que a cadeia de valor apoie essa estratégia de agregar maior valor aos produtos e serviços do que os rivais. A cadeia de valor compreende todas as atividades que contribuem para o valor final do produto de uma organização. O valor adicionado, ou margem, é a diferença entre o valor total e o custo coletivo para a realização das atividades de valor (PORTER, 1985). A análise da cadeia de valor serve para a compreensão da capacidade de uma organização de agregar valor por meio das suas atividades e dos seus vínculos ou relacionamentos internos e externos. Permite, ainda, que os gestores identifiquem onde o valor é adicionado no sistema e onde há potencial para criar mais valor no futuro pela reconfiguração e coordenação aprimorada de atividades (STONEHOUSE; SNOWDON, 2007). 96 Uma estratégia de liderança em custos requer que uma empresa apresente o menor custo de um produto ou serviço, de forma que lucros acima da média sejam obtidos, ainda que o preço cobrado não seja superior à média do setor (STONEHOUSE; SNOWDON, 2007). Enfatiza-se o baixo custo em relação aos concorrentes, contudo sem negligenciar a qualidade (DESS; DAVIS, 1984). A liderança em custos decorre de fatores como inovações de processo, benefícios da curva de aprendizado, economias de escala, reduções, projetos de produtos que reduzem o tempo e custos de fabricação e atividades de reestruturação, acesso a matérias-primas ou tecnologias superiores, entre outros, tendo em vista maior eficiência que os rivais (ALLEN et al., 2007). Uma estratégia de diferenciação pressupõe o reconhecimento do produto ou serviço como único em toda a indústria, de forma a se distinguir dos rivais. Consiste, portanto, na criação da percepção do cliente de que um produto ou serviço é superior ao das demais empresas concorrentes – por meio de fatores como marca, qualidade e desempenho –, de forma a permitir que um preço premium, isto é, acima da média da indústria, seja cobrado dos clientes, e uma alta lealdade ao produto ou serviço (DESS; DAVIS, 1984; STONEHOUSE; SNOWDON, 2007; ISLAMI et al., 2020).A estratégia de diferenciação é eficaz quando a empresa é capaz de entregar valor único ou superior ao cliente por meio da qualidade do produto, dos recursos ou do suporte pós-venda. Essa estratégia atrai um consumidor sofisticado ou experiente, que busca um produto exclusivo e de qualidade superior, portanto disposto a pagar o preço mais alto (ALLEN et al., 2007). Uma estratégia de foco consiste na aplicação de uma estratégia de diferenciação ou de liderança de custo em um segmento de mercado restrito (STONEHOUSE; SNOWDON, 2007; ISLAMI et al., 2020). Por meio dessa estratégia, a empresa se concentra em um determinado grupo de clientes, mercados geográficos ou linha de produtos (DESS; DAVIS, 1984). O sucesso dessa estratégia genérica requer um segmento da indústria grande o suficiente para possibilitar um bom potencial de crescimento, mas não fundamental para os principais concorrentes (PORTER, 1980; ALLEN et al., 2007). Uma estratégia de foco permite vantagens quanto à capacidade de responder com agilidade às mudanças de ambiente e preferências dos consumidores, em relação aos concorrentes, suportadas pelo conhecimento e pelas experiência relacionadas a competências como baixo custo ou diferenciação (ISLAMI et al., 2020). Porter (1980) argumenta que uma empresa deve escolher entre uma estratégia de diferenciação ou de liderança de custos. Ficar “presa no meio” entre as duas estratégias possivelmente resultará em fracasso (DESS; DAVIS, 1984; STONEHOUSE; SNOWDON, 2007). Observa-se, portanto, um trade-off no paradigma de Porter, em que dimensões estratégicas opostas não poderiam ser perseguidas simultaneamente sem criar algum tipo de ineficiência na cadeia de valor da empresa (PORTER, 1980; 1996). “Isso porque o posicionamento estratégico, como diferenciação e baixo custo, envolve atividades contraditórias e alocação de recursos que se excluem mutuamente” (ISLAMI et al., 2020, p. 4). 97 Há, contudo, estudos que evidenciam o contrário, isto é, que algumas empresas operam conscientemente uma estratégia híbrida combinando baixo custo com produtos ou serviços diferenciados e são negócios muito bem-sucedidos. Toyota é um exemplo (STONEHOUSE; SNOWDON, 2007). Essa questão rendeu críticas à proposição de Porter (por exemplo, PRAHALAD; HAMEL, 1990; MILLER, 1992; MINTZBERG et al., 1995). Mesmo assim, a tipologia estratégica de Porter (1980) segue sendo um dos métodos mais amplamente aceitos no campo da estratégia competitiva (ISLAMI et al., 2020). Uma forma de evolução das estratégias genéricas de Porter consiste na teoria de disciplinas de valor de Treacy e Wiersema (1995). Eles propõem três estratégias agrupadas em disciplinas de valor: excelência operacional, liderança em produto e intimidade com o cliente, consideradas também como estratégias genéricas. A excelência operacional se aproxima da liderança de custos de Porter, mas envolve aspectos adicionais: combina qualidade, preço e condições que facilitem a compra de forma incomparável, com os menores custos possíveis, o que decorre de produção eficiente. A liderança em produto trata da busca contínua pelo melhor produto, aplicando a criatividade, a velocidade e a inovação, de forma a oferecer benefícios em desempenho e percepção de valor. Assemelha-se à diferenciação de Porter. A intimidade com o cliente procura entregar o que determinado grupo específico de clientes deseja. Nessa disciplina, a empresa se torna especialista nos negócios dos clientes, a ponto de criar dependência. Aproxima-se da estratégia de foco de Porter, em especial no enfoque em um segmento para atender melhor às suas necessidades com uma oferta especialmente configurada (WEBER, 2006). Segundo os autores, existem três tipos de cliente: os que exigem o melhor preço ou menor custo total, os que desejam produtos inovadores e aqueles que precisam de produtos ou serviços customizados. Entendem que empresas que buscam ser tudo para todos os clientes acabam por fracassar, devido a realidades operacionais e de mercado, logo é preciso decidir qual cliente atender e organizar a estratégia ao redor da disciplina de valor necessária. Entretanto mesmo que seja importante definir uma das disciplinas para fornecer um excelente valor ao cliente, é fundamental que a empresa mantenha um desempenho adequado nas outras duas disciplinas. Essas questões, somadas ao compromisso real com a melhoria contínua do valor oferecido ao cliente, são necessárias para se sustentar a liderança (TREACY; WIERSEMA, 1995; TAPP, 1995). 98 BIBLIOGRAFIA AGARWAL, S.; RAMASWAMI, S. N. Choice of foreign market entry mode: impact of ownership, location, and internalization factors. Journal of International Business Studies, v. 23, n. 1, p. 1-27, 1992. ALLEN, R.; HELMS, M. M.; TAKEDA, M. B.; WHITE, C. S. S. Porter’s generic strategies: an exploratory study of their use in Japan. Journal of Business Strategies, v. 24, n. 1, p. 69-90, 2007. ARBAGE, A. P. Custos de transação e seu impacto na formação e gestão da cadeia de suprimentos: estudo de caso em estruturas de governança híbridas do sistema agroalimentar no Rio Grande do Sul. 2004. Tese (Doutorado em Administração) – Escola de Administração, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. ARBIX, G. A dinastia corporatista. Tempo social, v. 8, n. 1, p. 127-159, 1996. ARROW, K. 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Consiste na “capacidade de produzir os bens e serviços certos com a qualidade certa, pelo preço certo, no momento certo” (BALKYTĖ; 1 INSTITUTE FOR STRATEGY & COMPETITIVENESS. Drivers of competitiveness. Boston: Harvard Business School. Disponível em: https://www.isc.hbs.edu/competitiveness-economic-development/frameworks-and-key-concepts/Pages/drivers-of- competitiveness.aspx. Acesso em: set. 2020. 11 TVARONAVIČIENĖ, 2010, p. 343). Para tanto, implica que a empresa atenda às necessidades dos seus clientes de maneira mais eficaz e eficiente do que outras empresas (BUCKLEY et al., 1988; EDMONDS, 2000). Dessa forma, a competitividade da empresa envolve a habilidade de uma organização de obter sucesso ao competir com os seus rivais comerciais (LAW, 2000; BALKYTĖ; TVARONAVIČIENĖ, 2010). Para Feurer e Chaharbaghi (1994, p. 58), a competitividade “depende dos valores do acionista e do cliente, solidez financeira que determina a capacidade de agir e reagir no ambiente competitivo e do potencial das pessoas e da tecnologia na implementação das mudanças estratégicas necessárias”. A manutenção do equilíbrio entre esses fatores é determinante para que a competitividade seja sustentável (FEURER; CHAHARBAGHI, 1994; BALKYTĖ; TVARONAVIČIENĖ, 2010). Representa, nesse contexto, um conceito relativo – a um outro período no tempo, a outras empresas concorrentes, a outra posição definida (BUCKLEY et al., 1988). Coutinho e Ferraz (1993) tratam a competitividade por uma perspectiva dinâmica, considerando não apenas a preocupação com o desempenho de uma empresa no mercado e a eficiência técnica dos seus processos produtivos, mas também a capacidade de se adaptar ao contexto competitivo (BARBOSA; CÂNDIDO, 2013). Nessa linha, “a competitividade deve ser entendida como a capacidade da empresa de formular e implementar estratégias concorrenciais, que lhe permitam conservar, de forma duradoura, uma posição sustentável no mercado” (COUTINHO; FERRAZ, 1993, p. 4). Se no nível da empresa o objetivo principal – entre outros subjacentes ou decorrentes – deva ser a sobrevivência em uma arena competitiva, para um país o objetivo é outro: melhorar a qualidade de vida e o bem-estar (HATZICHRONOGLOU, 1996). Com isso, quando aplicada em nível de nações, a competitividade pode ser vista como a “capacidade de um país de criar, produzir, distribuir e/ou atender produtos no comércio internacional, obtendo retornos crescentes sobre seus recursos” (SCOTT; LODGE, 1985, p. 3). Está relacionada a como uma nação gera recursos necessários para atender às suas necessidades nacionais (BUCKLEY et al., 1988). O World Economic Forum (WEF) avalia a competitividade no nível de país,2 considerando “fatores e atributos que impulsionam a produtividade, o crescimento e o desenvolvimento humano” (SCHWAB, 2019, p. vii). Dessa forma, propõe uma definição conceitual do termo competitividade como “o conjunto de instituições, políticas e fatores que determinam o nível de produtividade de um país. O nível de produtividade, por sua vez, define o nível sustentável de prosperidade que pode ser conquistado por uma economia” (SCHWAB, 2009, p. 4). 2 O World Economic Forum, ou Fórum Econômico Mundial, desenvolve relatório anual em que apresenta o índice de competitividade global das principais economias mundiais. Em 2019, o relatório cobriu 141 países, os quais representam 99% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial (SCHWAB, 2019). 12 Na visão do WEF, pode-se assumir que uma nação mais competitiva tende a: i) ser capaz de produzir níveis mais altos de renda para os seus cidadãos; ii) apresentar um crescimento mais rápido no médio e longo prazo, decorrente das taxas de retorno positivamente afetadas pela maior produtividade, sendo as taxas de retorno importantes motores das taxas de crescimentos da economia, logo o conceito de competitividade envolve aspectos estáticos e dinâmicos (BALKYTĖ; TVARONAVIČIENĖ, 2010; SCHWAB, 2019). Bris et al. (2015) defendem que, além da prosperidade, o conceito de competitividade deve estar relacionado à capacidade de gerar valor sustentável no longo prazo. Os pesquisadores baseiam- se na ideia de que prosperidade pode ter interpretações diferentes dependendo do país. Mais ainda: existe certa dificuldade de relacionar a prosperidade do país com o desempenho de empresas, setores industriais e regiões. O que se observa na verdade, segundo os autores, é que os países moldam o ambiente no qual as empresas criam valor, por exemplo, via legislação, ambiente institucional e infraestrutura. Nesse sentido, propõem que a competitividade deve ser vista como a capacidade de um país facilitar um ambiente em que empresas e setores industriais possam gerar valor sustentável (BRIS et al., 2015; BRIS; CABALLERO, 2015). Além do nível de análise, a OCDE desenvolveu, em estudo, um levantamento na literatura e identificou quatro abordagens para a avaliação da competitividade em geral, dependendo dos objetivos e métodos aplicados pelos pesquisadores (HATZICHRONOGLOU, 1996). Essas abordagens são apresentadas no quadro 1, a seguir. Quadro 1 – Resumo das abordagens para a avaliação da competitividade conforme a literatura abordagem descrição abordagem da “engenharia” A competitividade depende da capacidade de adotar, ou moldar, as “melhores práticas” técnicas e organizacionais nas suas atividades. Os indicadores de comércio exterior são usados, por vezes, para monitorar tendências no desempenho de maximização de renda de empresas localizadas dentro das fronteiras nacionais. abordagem “ambiental/sistêmica” A competitividade é vista como uma questão de otimização do ambiente para a indústria. Nesse contexto, o ambiente das empresas – por exemplo, incentivos de um mercado competitivo, recursos disponíveis por parte dos mercados de capital e de trabalho, qualidade de insumos, infraestrutura, entre outros – são os determinantes para estabelecer a força competitiva das empresas, que, por sua vez, é questão-chave para a competitividade regional ou nacional. 13 abordagem descrição abordagem de “desenvolvimento de capital” A competitividade é compreendida como dependente da capacidade da economia de acumular capital tecnológico, humano e físico. Pode ser vista como uma mistura das abordagens de “melhores práticas” e “ambiente otimizado”, na área de formação de capital básico. De forma implícita, a competitividade trata da capacidade das empresas para obter rendimentos diferenciados – monopolistas – nos mercados internacionais. Dessa forma, nações competitivas são aquelas capazes de fornecer aos investidores e funcionários as receitas resultantes. abordagem “eclética/acadêmica” A competitividade é concebida como uma área em que são necessárias novas investigações, recorrendo a vários instrumentos analíticos. Estudos com abordagem tratam vários aspectos da competitividade de forma muito seletiva, eclética e investigativa. Ilustram a complexidade e a dificuldade de chegar a conclusões analíticas claras. Na sua maioria, não é fornecida definição precisa de competitividade, pois esta varia conforme o nível de referência: empresa, setor, região, país, área supranacional. Fonte: Adaptado de Hatzichronoglou (1996) Os conceitos apresentados ilustram e suportam a ideia de que competitividade não se trata de um conceito claro e uniforme dentro da literatura e que varia de acordo com abordagens e níveis de análise. Mais ainda: existem nuances que devem ser consideradas com base no arcabouço teórico utilizado para o estudo da competitividade. Chabowski e Mena (2017) desenvolveram uma revisão sobre as pesquisas quanto à competitividade global e identificaram algumas dessas diferenças, no que diz respeito às ideias principais e às contribuições importantes de cada corrente teórica. O quadro 2, a seguir, demonstra os achados dos pesquisadores. 14 Quadro 2 – Resumo dos principaisfür die gesamte Staatswissenschaft, p. 154-183, 1996. MENDES, K.; FIGUEIREDO, J. C.; MICHELS, I. L. A nova economia institucional e sua aplicação no estudo do agronegócio brasileiro. Revista de Economia e Agronegócio, v. 6, n. 3, 2008. MEYER, J.; ROWAN, B. Institutionalized organizations: formal structure as myth and ceremony. American Journal of Sociology, v. 83, p. 340-363, 1977. MIELE, M.; WAQUIL, P. D.; SHULT, G. Mercados e comercialização de produtos agroindustriais. Porto Alegre: UFRGS, 2011. MILGROM, P.; ROBERTS, J. 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Graduado em Administração pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (FGV/Eaesp). EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS Consultor com mais de 20 anos de experiência em projetos variados, com enfoque em melhorias em gestão, aperfeiçoamento de processos organizacionais, planejamento estratégico e gerenciamento de riscos em negócios. Coordenador financeiro do Projeto Rio Paraopeba da FGV. Professor convidado da FGV em disciplinas relacionadas à gestão estratégica e prática baseada em evidências. Introdução Sumário MÓDULO I – COMPETITIVIDADE E AGRONEGÓCIO Competitividade Medidas de competitividade Competitividade no agronegócio MÓDULO II – COORDENAÇÃO DE CADEIAS PRODUTIVAS NO AGRONEGÓCIO Conceitos e características de cadeias produtivas no agronegócio Coordenação do agronegócio: contextualização teórica Coordenação do agronegócio: conceituação Limitação do sistema de preços e a relevância institucional Contratos e coordenação vertical e horizontal Contratos e coordenação horizontal Contratos e coordenação vertical MÓDULO III – ESTRATÉGIA ORGANIZACIONAL: DECISÃO DE COMPRAR OU FAZER Nova economia institucional e sistemas agroindustriais Economia dos custos de transação Comportamento dos agentes Transações e características Estruturas de governança e eficiência Limites eficientes da empresa: decisão de comprar ou fazer MÓDULO IV – ANÁLISE COMPETITIVA E POSICIONAMENTO NO AGRONEGÓCIO Organização industrial: fundamentos para a análise competitiva Definição do mercado relevante Análise do ambiente competitivo no agronegócio Barreiras à entrada Barreiras à mobilidade Economias de escala Economias de escopo Concorrência e configurações de mercado Eficiência, estrutura de mercado e estratégias Classificação dos mercados Poder de monopólio Intervenção governamental: defesa da concorrência Modelo das cinco forças de Porter Estratégias genéricas e criação de valor Bibliografia Professor-autor LEONARDO BOSCOLO CAVALHEIRO BARBOSA FORMAÇÃO ACADÊMICA EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAISargumentos e implicações importantes para a pesquisa de competitividade global, por perspectiva teórica perspectiva teórica argumentos principais principais percepções para a competitividade global visão baseada em recursos da empresa (RBV) Recursos da firma que são valiosos, raros, difíceis de imitar e não substituíveis são os principais motores da vantagem competitiva (por exemplo, BARNEY, 1991; WERNERFELT, 1984). Recursos e capacidades estratégicas, como ambidestria de inovação (HUGHES et al., 2010), relacionamento com o cliente (LUO et al., 2004), capital social (LUO et al., 2004), desenvolvimento de produto (KALEKA, 2011; ZOU et al., 2003) e relacionamentos de canal (KALEKA, 2011; LAGES et al., 2009) podem aprimorar a competitividade global da empresa. capacidades dinâmicas Em mercados em rápida evolução, a posse e a exploração de capacidades dinâmicas exclusivas podem criar uma vantagem competitiva, permitindo que a empresa se adapte às mudanças no ambiente de negócios (TEECE, 2007; TEECE et al., 1997). O desenvolvimento de capacidades dinâmicas pode gerar vantagens competitivas e resultar em desempenho superior, particularmente no contexto de exportação (MORGAN et al., 2012; MORGAN et al. 2004), importação (por exemplo, YALCINKAYA et al., 2007) e joint ventures internacionais (por exemplo, FANG; ZOU, 2009). 15 perspectiva teórica argumentos principais principais percepções para a competitividade global orientação de mercado Orientação para o cliente, orientação para o concorrente e coordenação interfuncional são necessárias para a criação contínua de valor superior para o cliente, portanto, levam a um desempenho superior (por exemplo, NARVER; SLATER, 1990). A orientação para o mercado é um determinante importante do sucesso empresarial em países desenvolvidos e em desenvolvimento (por exemplo, DESHPANDÉ; FARLEY, 1999; DESHPANDÉ et al., 2004). Também pode dar às empresas uma vantagem competitiva nos mercados de exportação (por exemplo, CADOGAN et al., 2002; KWON; HU, 2000) por meio do desenvolvimento de capacidades de marketing (por exemplo, MURRAY et al., 2011). teoria da organização industrial (IO) Forças externas, como as características estruturais de uma indústria, ditam as estratégias que as empresas podem implementar, que, por sua vez, afetam a competitividade das empresas (por exemplo, PORTER, 1980; ROQUEBERT et al., 1996). Uma estratégia de marketing global pode ser um impulsionador-chave do desempenho da empresa quando é congruente com o ambiente externo da empresa e as características internas (ZOU; CAVUSGIL, 2002). Esse “ajuste” também é importante em empreendimentos de mercado de exportação (por exemplo, CAVUSGIL; ZOU, 1994) e marketing ambiental em mercados internacionais (por exemplo, LEONIDOU et al., 2013). 16 perspectiva teórica argumentos principais principais percepções para a competitividade global teoria institucional As forças institucionais no ambiente externo moldam as estruturas, estratégias e práticas das empresas, levando as empresas a copiar outras no seu campo para obter legitimidade. Por sua vez, a legitimidade contribui para o sucesso e a sobrevivência da empresa, permitindo que a empresa ganhe o apoio das principais partes interessadas e acesso a recursos importantes (por exemplo, DIMAGGIO; POWELL, 1983; MEYER; ROWAN, 1977). O ambiente institucional molda as práticas internacionais de responsabilidade social corporativa (RSC) da empresa (por exemplo, JEAN et al., 2016; KHAN et al., 2015), estratégias de marketing globais (por exemplo, RAO-NICHOLSON; KHAN, 2017) e decisões de modo de entrada (por exemplo, DAVIS et al., 2000). paradigma eclético (OLI) Três conjuntos de vantagens – propriedade, localização e internalização – determinam a extensão, a forma e o padrão da produção internacional empreendida (DUNNING, 1980; 1988). Por sua vez, a produção internacional pode aumentar a posição competitiva da empresa (por exemplo, DUNNING 1988; 1998). A configuração de fatores específicos da empresa, específicos do país anfitrião e de internalização influenciam a seleção do modo de entrada da empresa (por exemplo, AGARWAL; RAMASWAMI, 1992; BROUTHERS et al., 1996; 1999), que por sua vez, podem explicar o desempenho da empresa (por exemplo, BROUTHERS et al., 1999). 17 perspectiva teórica argumentos principais principais percepções para a competitividade global economia de custos de transação A seleção da estrutura de governança apropriada, dada a interação entre premissas comportamentais e várias dimensões de transação, pode aumentar a competitividade da empresa, minimizando os custos de transação (por exemplo, RINDFLEISCH; HEIDE, 1997). As empresas que fazem escolhas de modo de entrada com base nas prescrições da ECT têm um desempenho significativamente melhor do que outras empresas (por exemplo, BROUTHERS, 2002; BROUTHERS et al., 2003; BROUTHERS; NAKOS, 2004). Dessa forma, se os custos de transação são altos, hierarquias e híbridos devem ser favorecidos. Se tais custos forem baixos ou inexistentes, a governança de mercado torna- se eficiente (por exemplo, RINDFLEISCH; HEIDE, 1997). modelo de processo de internacionalização As empresas procuram aumentar a lucratividade de longo prazo – ou seja, crescimento – por meio da expansão internacional. Esta, por sua vez, aumenta progressivamente o envolvimento internacional da empresa com base na interação entre dois aspectos de estado (conhecimento de mercado e compromisso de mercado) e dois aspectos de mudança (compromisso decisão e atividades atuais) (JOHANSON; VAHLNE, 1977, 1990). O conhecimento experiencial do mercado estrangeiro, um dos principais motores da internacionalização, influencia positivamente o desempenho da empresa (por exemplo, LUO, 1999; LUO; PENG, 1999). O efeito dessa relação é moderado pela distância cultural de um país anfitrião (LUO, 1999), pela hostilidade ambiental, pelo dinamismo e pela complexidade (LUO; PENG, 1999). Fonte: Adaptado de Chabowski e Mena (2017). 18 Medidas de competitividade Em consonância com a variação de conceitos para o termo competitividade, verifica-se também uma diversidade nas formas como é mensurado. Por sinal, a heterogeneidade das medidas de competitividade corrobora com ideais e perspectivas distintas sobre o conceito (BUCKLEY et al., 1988). Se, do ponto de vista econômico, para um conceito funcionar ele precisa ser quantificável, de maneira geral o trabalho de quantificação enfrenta dificuldades para considerar aspectos qualitativos relativos (por exemplo, questões políticas como o ambiente institucional) e à (in)disponibilidade de dados. Além disso, em muitos casos a necessidade empírica faz com que os conceitos sejam simplificados de forma a reduzi-los. Isso não é particular à competitividade, no entanto a complexidade do conceito aumenta o desafio da mensuração (HATZICHRONOGLOU, 1996). Tendo em vista esses aspectos, Buckley et al. (1988) destacam que alguns pesquisadores abordam a competitividade como a capacidade de bom desempenho; outros entendem o conceito como a geração e manutenção de vantagens competitivas; para os restantes, é o processo de gerir decisões e processos da forma “certa” (BUCKLEY et al., 1988). A figura 1 apresenta a inter-relação entre as medidas de competitividade, de acordo com os autores. Figura 1 – A inter-relação entre as medidas de competitividade Fonte: Buckley et al. (1988, p. 178) 19 A questão que emerge, conforme apontam Buckley et al. (1988), é: medidas isoladas podem, por si só, explicar a dinâmica da competitividade? Os autores afirmam que não, que medidas isoladas não poderiam capturar as nuances da competitividade e explicam que Se apenas as medidas de desempenhoforem consideradas, a questão da sustentabilidade de tal desempenho permanece sem resposta. Restam muitas incertezas quanto à gestão do sucesso e à regeneração e manutenção do potencial competitivo que faz parte do processo de planejamento da competitividade futura. Por outro lado, onde apenas o potencial competitivo é medido, nenhuma indicação é dada se esse potencial se transforma ou não em desempenho. As suposições baseadas na ideia de que as vantagens necessariamente resultam em sucesso ignoram a possibilidade de potencial não realizado e podem, consequentemente, levar a resultados distorcidos. A pesquisa sobre processos de gestão, pela própria natureza do que está sendo medido, depende de indicadores qualitativos em oposição a medidas quantitativas. Suplementar as medidas quantitativas com as qualitativas, no entanto, mina a força da comparação por ignorar os dados concretos através dos quais a competitividade de países, indústrias, empresas ou produtos pode ser feita. Como o conceito de competitividade depende fundamentalmente da comparação, a avaliação qualitativa dos processos de gestão por si só pode se revelar insatisfatória, pois não faz referência aos frutos da atividade de gestão na forma de medidas de desempenho. É, no entanto, um aspecto crítico da pesquisa sobre o processo de competitividade, pois descreve como os gestores transformam potencial em desempenho. Quando medidas estatísticas foram usadas para mostrar, por exemplo, que uma empresa tem melhor desempenho no mercado do que seus concorrentes e gerou e sustentou um potencial mais competitivo, as informações qualitativas derivadas da pesquisa de processos de gestão ajudam a explicar as razões do sucesso (BUCKLEY et al., 1988, p. 178-179). Do ponto de vista internacional, com o crescimento do comércio global, a competitividade deve ser estendida além dos limites da matriz e considerar também as suas subsidiárias. As fronteiras do negócio devem considerar não apenas as exportações, mas também vendas resultantes de investimento estrangeiro direto e de licenciamento (BUCKLEY et al., 1988). As questões que precisam ser consideradas em cada estágio do processo competitivo são resumidas na figura 2, a seguir. 20 Figura 2 – Questões internacionais em medidas de competitividade Fonte: Buckley et al. (1988, p. 179) As medidas de competitividade internacional propostas por Buckley et al. (1988) variam de acordo com o nível de análise. Estas são apresentadas de forma resumida no quadro 3, especificadas como medidas de desempenho, potencial e processo. Quadro 3 – Medidas de desempenho, potencial e processos por nível de análise nível de análise medidas de desempenho medidas de potencial medidas de processo país participação no mercado de exportações; percentual de fabricação na produção total; balança comercial; crescimento das exportações e lucratividade. vantagem comparativa; competitividade de custos; produtividade; competitividade de preços; indicadores de tecnologia e acesso a recursos. Obs.: pode variar de acordo com a indústria. compromisso com negócios internacionais; políticas governamentais e educação/treinamento. 21 nível de análise medidas de desempenho medidas de potencial medidas de processo indústria participação no mercado de exportações; balança comercial; crescimento de exportação e lucratividade. competitividade de custos; produtividade; competitividade de preços e indicadores de tecnologia. compromisso com negócios internacionais (associações comerciais, etc.) empresa participação no mercado de exportações; dependência de exportação; crescimento de exportação e lucratividade. competitividade de custos; produtividade; competitividade de preços e indicadores de tecnologia. vantagem de propriedade; compromisso com negócios internacionais; aptidão de marketing; relações de gestão; proximidade com o cliente e economias de escala e escopo. produto participação no mercado de exportações; crescimento de exportação e lucratividade. competitividade de custos; produtividade; competitividade de preços; competitividade de qualidade e indicadores de tecnologia. produto campeão Fonte: Buckley et al. (1988, p. 180-181) Ketels (2016) identifica dimensões que uma medida de competitividade deve potencialmente cobrir: indicadores de resultado que capturam os objetivos finais de determinada política, por exemplo, ambiente de negócios, infraestrutura física e infraestrutura de conhecimento; indicadores intermediários que fornecem percepções sobre a competitividade e rastreiam como a competitividade impulsiona os resultados; fatores fundamentais de competitividade que impulsionam estruturalmente os resultados e são alavancas essenciais para intervenções políticas que podem ter um impacto sustentável e indicadores de controle que capturam desequilíbrios potenciais que têm o potencial de criar altos custos de curto prazo, mesmo que não gerem resultados no longo prazo. 22 Para cada categoria, uma estrutura de medição prática deve considerar indicadores que estejam disponíveis em qualidade e tempo adequados, bem como capturem a questão subjacente que é conceitualmente de interesse de forma satisfatória (KETELS, 2016). É preciso considerar que a competitividade não se trata apenas de crescimento ou desempenho econômico, mas deve levar em consideração os “fatores suaves” ou subjacentes da competitividade, como meio ambiente, qualidade de vida, tecnologia, conhecimento, entre outros (BALKYTĖ; TVARONAVIČIENĖ, 2010). O WEF elabora, dede 1979, relatório anual intitulado Global Competitiveness Report (GCR), ou Relatório de Competitividade Global. O relatório integra estatísticas mais recentes de organizações internacionais e pesquisas com executivos (SCHWAB, 2019). O GCR apresenta o Global Competitiveness Index 4.0 (GCI), índice utilizado para medir a competitividade das principais economias mundiais. Segundo o WEF, o GCI trata-se de “bússola econômica para tempos incertos”, que “fornece um mapa detalhado dos fatores e atributos que impulsionam a produtividade, o crescimento e o desenvolvimento humano na era da Quarta Revolução Industrial” (SCHWAB, 2019, p. vii). O GCI é resultado de uma agregação de 103 indicadores individuais, organizados em 12 pilares, conforme ilustrado na figura 3: instituições; infraestrutura; adoção de TIC; estabilidade macroeconômica; saúde; habilidades; mercado de produtos; mercado de trabalho; sistema financeiro; tamanho do mercado; dinamismo empresarial; e capacidade de inovação (SCHWAB, 2019). Figura 3 – Estrutura analítica do Global Competitiveness Index 4.0 do WEF Fonte: Schwab (2019, p. 2) 23 O GCR, por meio do GCI 4.0, procura identificar os fatores subjacentes às diferenças de produtividade entre as economias globais (KETELS, 2016). Mais ainda: serve como parâmetro para os formuladores de políticas de forma a atuarem de forma complementar às medidas reativas de curto prazo, isto é, levarem em consideração um conjunto mais completo de fatores que determinam a produtividade e a sua evolução ao longo do tempo (SCHWAB, 2019). O índice do WEF tem por objetivo, ainda, fornecer indicativos para apoiar no crescimento econômico (KETELS, 2016), que é chave para a melhoria nos padrões de vida (SCHWAB, 2019). Por fim, o relatório aborda a relação entre competitividade, prosperidade compartilhada e sustentabilidade ambiental, indicando que “não há trade-off inerente entre construir competitividade, criar sociedades mais justas que oferecem oportunidades para todos e fazer a transição para ambientalmente sustentável sistemas” (SCHWAB, 2019, p. vii). Competitividade no agronegócio Segundo Sá et al. (2015),os SAGs apresentam particularidades que os distinguem de outros sistemas e atividades econômicas. De um lado, existe uma relação de dependência entre os diferentes elos de um SAG, decorrente principalmente de aspectos como perecibilidade, custo de frete, sanidade, qualidade e regularidade de oferta. Por outro lado, o agronegócio apresenta, como característica inerente, alto grau de incerteza quanto à variação de preços e de qualidade dos produtos. Essa incerteza, por sua vez, resulta em problemas como sazonalidade e choques de oferta decorrentes de aspectos naturais como o clima (SÁ et al., 2015). Essas características do agronegócio reforçam a necessidade de uma abordagem sistêmica dos SAGs. O caráter sistêmico das atividades agroindustriais é ideia antiga nos EUA e na Europa, mas ganhou maior relevância no Brasil no final dos anos 1980. Desde essa época, o conceito de cadeia produtiva passa a ser amplamente aplicada por pesquisadores brasileiros, resultando no desenvolvimento de estudos quanto à dinâmica de funcionamento do SAG brasileiro, considerando peculiaridades regionais e setoriais, bem como este se insere no contexto econômico mundial (BATALHA, 2001). Essa abordagem é coerente com outros estudos desenvolvidos em diferentes países (por exemplo, JANK, 1996; FARINA; ZYLBERSZTAJN, 1998; MÉNARD, 1996; ZYLBERSZTAJN; MACHADO FILHO, 2003). Zylbersztajn e Farina (1999) afirmam que o conceito de sistemas agroindustriais estritamente coordenados auxilia na compreensão da organização, do desempenho e da estabilidade de sistemas diferentes e rivais (ZYLBERSZTAJN; MACHADO FILHO, 2003). 24 Segundo Batalha (2001), a noção de cadeia de produção agroindustrial (CPA), ou simplesmente cadeia agroindustrial, aplica-se em estudos e análises voltados a: avaliar os elementos subjacentes à cadeia produtiva, com enfoque em identificar eventuais problemas do ponto de vista comercial, econômico, tecnológico, logístico, legal entre outros, que comprometam a eficiência da cadeia; mecanismos de coordenação da cadeia produtiva e a sua estrutura de governança, de forma a suportar a proposição de políticas públicas e privadas com o intuito de aumentar o nível de competitividade da cadeia como um todo e gestão empresarial das firmas agroindustriais, para apoiar na identificação de ferramentas gerenciais que possibilitem a operacionalização de ações integradas que aumentem o nível de coordenação e de eficiência da cadeia. Esses elementos evidenciam, portanto, que os agentes econômicos e sociais os quais compõem o agronegócio brasileiro devem trabalhar de forma sistêmica, tendo em vista aprimorar a competitividade da cadeia agroindustrial. Colocado de outra forma, “a competitividade sustentada de uma empresa somente pode ser construída no âmbito de um sistema igualmente competitivo no seu conjunto” (BATALHA, 2001, p. 26). Além de um conceito de rivalidade simples, em relações de ganha-perde entre os agentes, o cenário competitivo demanda flexibilidade das organizações e relações de cooperação entre os atores ao longo da cadeia produtiva. Tais aspectos tendem a facilitar o fluxo de informações, proposições e reflexões que, por sua vez, proporcionariam um enfoque na solução de problemas e na integração entre pensar e agir (BEST, 1990; BATALHA, 2001). Similarmente, Farina (1999) argumenta que intervenções setoriais historicamente geram efeitos sistêmicos, que, por sua vez, tendem a resultar em intervenções igualmente sistêmicas. Essa característica justifica a adoção de sistemas agroindustriais específicos como unidade de análise da competitividade dentro do contexto do agronegócio (FARINA et al., 1997). Isso significa que o desempenho de um sistema, ou seja, de uma indústria ou setor específico, deve ser o objeto de análise, e não o desempenho de uma firma individual (FARINA, 1999). O que se verifica, ainda, é que os sistemas são formados por segmentos que podem exibir diferentes níveis de interdependência. Essa interdependência é determinada pelos atributos das transações que ocorrem entre os segmentos, em especial as especificidades, tais como especificidades locais, temporais, tecnológicas, por exemplo. Dessa maneira, faz-se necessário considerar o conceito de competitividade em duas dimensões: horizontal, ou seja, a competitividade da firma para a indústria ou setor; e a vertical, que corresponde à competitividade da indústria em relação à cadeia produtiva (FARINA, 1999). 25 Farina (1999) defende, adicionalmente, que abordagens tradicionais voltadas para a definição de estratégias, ainda que considerem uma visão dinâmica da competitividade (por exemplo, BEST, 1990; FERRAZ et al., 1997),3 carecem de uma abordagem da capacidade de coordenação da cadeia em que empresas atuam, portanto, desenvolvem essas estratégias. Para ilustrar essa questão, a autora indica que uma estratégia de segmentação de mercado baseada em qualidade do produto pode exigir a utilização de matérias-primas com especificações mais rígidas, por exemplo. Caso a empresa não possa obter essa especificação junto ao mercado fornecedor, ela mesma terá de produzi-la por meio de integração vertical a montante ou, ainda, terá de convencer algum fornecedor a fazê-lo. Isso implica investimentos dedicados com elevada especificidade. Trata-se, portanto, de governar a transação vertical com o objetivo de viabilizar a estratégia de concorrência horizontal (FARINA, 1999). Nesse sentido, Farina (1999) afirma que Governar a transação significa incentivar o comportamento desejado e, ao mesmo tempo, conseguir monitorá-lo. Essa governança pode ser obtida por meio de sistema de preços, quando o produto tem baixa especificidade e é ofertado por vários produtores. Caso contrário, a governança adequada pode exigir a elaboração de contratos em que sejam predefinidos instrumentos de incentivo e controle, tais como multas, auditorias ou prêmios por resultado. Dito de outra forma, estratégias competitivas dependem de estruturas de governança apropriadas para que possam ser bem-sucedidas. Por esse motivo, a capacidade de coordenação vertical torna-se elemento constituinte tanto da competitividade estática quanto da competitividade dinâmica. É essa coordenação que permite à empresa receber, processar, difundir e utilizar informações de modo a definir e viabilizar estratégias competitivas, reagir a mudanças no meio ambiente ou aproveitar oportunidades de lucro (FARINA, 1999, p. 150-151). Coordenação dos sistemas agroindustriais consiste na habilidade de transmitir informações, estímulos e controle nas etapas sucessivas que compõem o grupo de atividades que permitem atender os consumidores finais (FARINA; ZYLBERSZTAJN, 1994; ZYLBERSZTAJN, 1995). O conceito trata de eficiência e desempenho das cadeias produtivas (ARBAGE, 2004), na medida em que quanto melhor a coordenação dos agentes, menores os custos e conflitos entre eles e mais rápida a adaptação às mudanças competitivas (BATALHA; SCRAMIM, 1999; FARINA, 1999; ARBAGE, 2004). 3 Segundo Ferraz et al. (1997, p. 81), competitividade, sob uma perspectiva dinâmica, é “a capacidade de a empresa formular e implementar estratégias concorrenciais, que lhe permitam ampliar ou conservar, de forma duradoura, uma posição sustentável no mercado”. 26 A coordenação é construída pelos agentes econômicos do SAG (FARINA, 1999). Os agentes adotam estruturas de governança que sejam adequados para reduzir os custos das transações – custos de elaboração e negociação dos contratos, mensuração e fiscalização de direitos de propriedade, monitoramento do desempenho, organização de atividades e problemas de adaptação – entre eles (WILLIAMSON, 1985; FARINA, 1999). A adequação da estrutura de governança às características da transação é determinante para a eficiência, relevante para a análise de competitividade (FARINA, 1999). Apesar dessas características, as estruturas de governança, fatores-chavepara a coordenação das cadeias produtivas, tratam de dimensão da concorrência nem sempre considerada em análises competitivas (ZYLBERSZTAJN, 1995; FARINA, 1999). Como destaca Farina (1999), outro condicionante ao desempenho das firmas representa a provisão de um conjunto de bens públicos e privados, sobre os quais a firma não possui controle individual. Em outras palavras, a competitividade das empresas não depende apenas da excelência da sua gestão, mas é determinada por políticas públicas e privadas, individuais e coletivas. A logística, por exemplo, depende da infraestrutura de transporte e gera impactos significativos em termos de vantagens competitivas, seja para negócios associados a commodities, seja a produtos com maior valor agregado (FARINA, 1999). A cooperação entre empresas rivais, fornecedores, distribuidores, institutos de pesquisa públicos e privados também interfere na capacidade de ação estratégica (FARINA, 1999), no ganho de eficiência e competitividade em todos os elos da cadeia (TEECE, 1993; FERRAZ et al., 1997). Balestrin e Arbage (2007) definem redes de cooperação como arranjos entre empresas que optam por desenvolver atividades específicas em conjunto em busca de objetivos comuns, sem perder a sua independência, isto é, liberdade de ação estratégica. A cooperação tem-se intensificado e ganhado formas avançadas em indústrias, incluindo o agronegócio (CARDOSO et al., 2007) e, assim como a coordenação vertical, é importante para a vitalidade da concorrência (FARINA, 1999). A oferta adequada desses bens públicos púbicos e coletivos depende da ação do Estado ou de organizações de interesse privado, como associações e sindicatos (FARINA, 1999), contudo é necessário que haja um monitoramento e compromisso com ações individuais das firmas para contrabalancear a tendência do comportamento “carona” – free rider4 (BEST, 1990; FARINA; AZEVEDO, 2001). Nessa linha, a pesquisadora afirma que Sistemas de informação sobre mercados, tendências de consumo, monitoramento de inovações e difusão de novas tecnologias, acompanhamento da ação estratégica de concorrentes de outras regiões ou países, são “bens” necessários para a competitividade individual mas que, 4 Conceito que deriva da Teoria dos Jogos, segundo o qual o descolamento entre o benefício público e o privado de uma determinada ação coletivamente desejável pode induzir os agentes à inação na expectativa de apropriarem-se dos benefícios das ações de terceiros (AZEVEDO, 2000). 27 por suas características de não-rivalidade e/ou não-exclusão, admitem comportamentos do tipo “carona”, que resultam em subinvestimento na sua provisão, ou replicam o mesmo investimento em firmas individuais, gerando desperdício de recursos e ineficiência (FARINA, 1999, p. 153). Tendo em vista todos esses conceitos, Farina (1999) propõe um modelo de competitividade para o agronegócio em que ilustra as relações entre o ambiente competitivo, estratégias e estruturas de governança e competitividade. Tal modelo é apresentado na figura 4. Figura 4 – Competitividade e coordenação de sistemas agroindustriais Fonte: Farina (1999) 28 Nesse contexto analítico, os principais elementos que moldam o ambiente competitivo são (FARINA et al., 1997; FARINA, 1999): pela estrutura do mercado relevante, tais como concentração de mercado, economias de escala e escopo, grau de diferenciação dos produtos, barreiras técnicas de entrada e saída; pelos padrões de concorrência, por exemplo, concorrência preço e extra-preço, presença de grupos estratégicos, barreiras de mobilidade, entre outros; características do consumidor/cliente, que determinam as possibilidades de segmentação de mercado e pelo ciclo de vida da indústria, coadjuvante na definição dos padrões de concorrência, e a própria estratégia individual adotada pelas firmas. Os padrões de concorrência, por sua vez, representam as regras do jogo competitivo, isto é, o conjunto das variáveis de concorrência. Entre elas, destacam-se: preço, marca, atributos de qualidade, estabilidade de entrega, reputação de confiança, inovação contínua em produto ou em processo, assim como a importância relativa dessas variáveis formam o padrão de concorrência de uma indústria ou grupo estratégico dentro da mesma indústria (FARINA, 1999). Kupfer (1992, p. 10) define como padrão de concorrência como um vetor particular que contém uma ou mais das formas possíveis de concorrência (preço, qualidade, habilidade de servir ao mercado, esforço de venda, diferenciação do produto, etc.), resultante da interação das forças concorrenciais presentes no espaço de competição (as características estruturais e as condutas praticadas pelas firmas que nela atuam). De acordo com Oster (1994), para dispor de instrumentos de concorrência, são necessários investimentos em ativos específicos associados a um determinado padrão de concorrência. São exemplos o desenvolvimento e a consolidação da marca junto a clientes e consumidores, aquisição de equipamentos dedicados, desenvolvimento de logística de suprimento e distribuição, recursos humanos com treinamento específico, entre outros. Caso dentro de uma mesma indústria coexistam dois ou mais grupos de empresas com padrões de concorrência e ativos específicos distintos entre si, cada um desses grupos é definido como grupo estratégico.5 As diferenças de estratégia competitiva, portanto, são o que distinguem os grupos estratégicos6 (OSTER, 1994; FARINA, 1999). 5 De acordo com Farina (1999, p. 155), “grupos estratégicos podem constituir um subsistema dentro do SAG se, e somente se, o padrão de concorrência demandar a adoção de estruturas de governança específicas”. Mais ainda: “A formação de grupos estratégicos pode ser iniciada pela estratégia bem-sucedida de uma firma individual que coordena um sistema próprio, por meio de contratos formais ou informais, a que denominamos de subsistema estritamente coordenado” (ZYLBERSZTAJN; FARINA, 1997). 6 Farina (1999) ilustra com exemplo que efeitos cumulativos de propaganda podem gerar barreiras à entrada em segmento de marcas da indústria, mas não afetam a entrada no segmento commodity. No entanto, firmas que operam no segmento commodity podem enfrentar barreiras de mobilidade para o segmento de marcas que, em geral, é mais rentável. 29 Dessa forma, como argumenta Farina (1999), as firmas definem e ajustam as suas estratégias ao padrão de concorrência. Nesse sentido, as firmas dispõem de recursos físicos, humanos e financeiros, que devem ser adequados para atender às regras do jogo competitivo. Identificar os padrões de concorrência, inclusive fatores dinâmicos de competitividade, é tarefa fundamental para avaliar se as firmas são potencialmente competitivas ou não. Os padrões de concorrência podem alterar-se ao longo do tempo devido a: i) mudanças institucionais, por exemplo, abertura comercial ou proteção à propriedade intelectual; ii) mudanças tecnológicas, como avanços na biotecnologia que, por exemplo, levaram à integração entre indústrias de sementes e químico-farmacêuticas; iii) mudanças no ambiente competitivo – alterações na indústria e nos hábitos do consumidor, por exemplo – que engloba o padrão de concorrência; e iv) mudanças nas estratégias individuais das empresas, as quais buscam gerar assimetrias que, quando efetivas – isto é, bem-sucedidas do ponto de vista de desempenho –, podem alterar o padrão da concorrência ao serem imitadas por concorrentes (FARINA, 1999). Cabe destacar, ainda, que a estrutura da indústria representa uma variável relevante dentro do ambiente competitivo. Não é o principal determinante como prega o modelo SCP,7 papel este ocupado pelo padrão de concorrência no modelo de Farina (1999). A estrutura determina a capacidade das firmas líderes de ordenar ou disciplinar o mercado, ou, ainda, de influenciar o padrão de concorrência. Por fim, é apresentada metodologia propostae aplicada por Zylbersztajn e Machado Filho (2003) para analisar a relação entre a coordenação da cadeia agroalimentar brasileira de carne e competitividade. Considera elementos e corrobora em grande parte com o modelo de Farina (1999), e busca a sua aplicação prática para a avaliação dos determinantes principais da competitividade no agronegócio. A metodologia é apresentada resumidamente no quadro 4, considerando as suas cinco etapas. 7 No modelo structure-conduct-performance (SCP), ou estrutura-conduta-desempenho, a estrutura da indústria determina o comportamento ou a conduta – estratégia – das empresas que a compõem, enquanto as condutas conjuntas destas determinam o desempenho coletivo das empresas no mercado (BAIN, 1968; PORTER, 1981; TEECE, 1984). 30 Quadro 4 – Cinco passos ou etapas para a análise dos efeitos da coordenação do sistema sobre a competitividade etapa analítica descrição limites do sistema Definir os limites do sistema alimentar em análise. Mapear a cadeia vertical de produção e distribuição, considerando o nível de complexidade envolvido no fluxo de transformação em nível nacional e internacional – quando aplicado –, bem como os agentes envolvidos. Quanto maior a complexidade, maior a relevância da coordenação em relação a outras abordagens tradicionais de análise da competitividade. A definição dos limites do sistema se relaciona ao nível de agregação adotado, que varia de um nível muito agregado em um sistema genérico a subsistemas verticais muito focados. Os subsistemas se definem por relações verticais que integram os agentes que adotam estratégias interconectadas, na literatura tratado como subsistema estritamente coordenado. Em caso de desempenho superior, tal subsistema pode ser reproduzido por concorrentes como um padrão de difusão, até que se torne o modelo dominante de coordenação vertical (ZYLBERSZTAJN; FARINA, 1999). análise do setor Realizar o estudo da organização industrial de cada setor da cadeia vertical, considerando os seus diversos aspectos: o grau de concentração das indústrias, a existência de estratégias dominantes, a existência de grupos estratégicos e os ajustes dinâmicos quanto a posicionamento estratégico, escala e âmbito das empresas na indústria, entre outros aspectos. análise de contratos Analisar as relações, por meio de contratos formais e informais, entre os diferentes agentes dos distintos setores participantes da cadeia em questão, amparada conceitualmente pela teoria da economia dos custos de transação. Tal teoria possibilita a análise em nível micro, considerando características das transações em termos de frequência, especificidade dos ativos e risco. Espera- se que haja um alinhamento eficiente entre o modo de governança aplicado e as características das transações (WILLIAMSON, 1985). Pressupõe-se, ainda, que modos de governança inadequados – abaixo do ideal – sejam menos eficientes, o que adiciona custos de transação (por exemplo, MÉNARD, 1996; ZYLBERSZTAJN; FARINA, 1999; SAUVÉE, 1998). 31 etapa analítica descrição análise de aspectos institucionais Analisar os efeitos do ambiente institucional sobre os contratos. A execução dos contratos é afetada pelo ambiente institucional. O conceito de instituições considerado é baseado em North (1990), que define as instituições como as regras do jogo. As instituições tratam dos sistemas jurídicos e também os métodos informais e semiformais de delimitação dos direitos dos indivíduos em qualquer sociedade. Os sistemas agroindustriais são enquadrados por vários tipos de limites impostos pelas sociedades, por exemplo, leis de rotulagem, direitos do consumidor, restrições ao uso de tecnologias, crenças religiosas, entre outros. análise dos aspectos dinâmicos Avaliar aspectos internos e idiossincráticos das firmas. Complementar a abordagem dos custos de transação e incorporar aspectos dinâmicos, introduzidos pela abordagem econômica evolucionária. O enfoque, como sugerem Zylbersztajn e Machado Filho (2003), deve ser dado nas capacidades dinâmicas, que são o resultado de rotinas internas e intransferíveis (LANGLOIS, 1998). Isso pode explicar a diversidade de formas de governança, mesmo quando as características institucionais e de transação são as mesmas. Tal conceito é relevante no que tange à análise do conhecimento específico, em relação ao propósito específico da coordenação da cadeia. Fonte: Elaborado com base em Zylbersztajn e Machado Filho (2003) As análises sobre o agronegócio não podem levar em consideração apenas os preços como determinantes de competitividade e organização entre os agentes econômicos. Isso não significa, porém, que os preços não tenham a sua importância (ZYLBERSZTAJN, 2000). Além dos preços, é fundamental incorporar os estudos sobre a coordenação dos atores envolvidos nos diferentes estágios que compõem os sistemas agroindustriais (GOLDBERG, 1968), desde antes da porteira, dentro da porteira e depois da porteira. Os contratos, no contexto das teorias da Organização Industrial e da Nova Economia Institucional (NEI), funcionam como mecanismos de governança, isto é, coordenação, para os complexos sistemas agroindustriais (FARINA, 1999; ZYLBERSZTAJN, 2000; SÁ et al., 2015). O alto grau de interdependência entre os setores produtivos industrial, agrícola e de serviços faz com que a dinâmica individual de cada agente econômico influencie diretamente todos os demais agentes da cadeia produtiva (MACHADO, 2002), logo a análise das estruturas de mercado e das relações contratuais entre os agentes é essencial para o entendimento da dinâmica da comercialização no agronegócio (SÁ et al., 2015), principalmente em um mercado globalizado e de mudanças cada vez mais ágeis (CHABOWSKI; MENA, 2017). Estudos nesse sentido possibilitam a complexidade dos sistemas agroindustriais, como os mercados se organizam e como os atores atual perante os mecanismos institucionais vigentes para, dessa forma, suportar decisões e ações estratégicas (SÁ et al., 2015) voltadas à eficiência e à competitividade. O presente módulo apresenta os conceitos-chave para o entendimento da complexidade inerente às cadeias produtivas do agronegócio pela ótica de mecanismos de coordenação, seguido pela contextualização teórica que suporta o conceito de coordenação do agronegócio. Em seguida, será apresentado o conceito de coordenação e a sua importância para a eficiência dos agentes envolvidos. As limitações da coordenação via preços e a relevância institucional são abordadas. Por fim, serão apresentadas e discutidas as formas de coordenação vertical e horizontal por meio de contratos, no contexto de sistemas agroindustriais. MÓDULO II – COORDENAÇÃO DE CADEIAS PRODUTIVAS NO AGRONEGÓCIO 34 Conceitos e características de cadeias produtivas no agronegócio O conceito de agribusiness foi apresentado em 1957 pelos pesquisadores John Davis e Ray Goldberg, da Universidade de Harvard, como “a soma das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas, das operações de produção nas unidades agrícolas, do armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrícolas e itens produzidos a partir deles” (DAVIS; GOLDBERG, 1957, p. 85). Parte da escola norte-americana dos SAGs,8 criada na década de 1960 pela noção de commodity system approach(CSA),9 a abordagem procura avaliar a importância de cada setor e os seus respectivos atores, isto é, todos os participantes do agronegócio e a sua interdependência (GOLDBERG, 1968; BATALHA, 2001; MIELE et al., 2011). Outra corrente tradicional de destaque para estudo do agronegócio é a escola francesa das CPAs. Também originada nos anos 1960, o conceito em francês denominado Filières Agroalimentaires (FAA),10 a escola se propõe a pesquisar sobre os diferentes processos que compõem, de forma sistêmica, o que chama de setor agroalimentar. Considera o conjunto total de agentesenvolvidos desde a produção até o consumo. Também destacam a heterogeneidade do sistema devido à diversidade entre os processos, que essa escola agrupa em comercialização, industrialização e produção (LABONNE, 1985; MONTIGAUD, 1991; BATALHA, 2001; MIELE et al., 2011). As duas escolas são amplamente difundidas nas literaturas nacional e internacional. Ambas fornecem arcabouço para a fundamentação de discussões sobre a aplicação de ferramentas gerenciais e conceituais direcionadas à avaliação e ao entendimento da dinâmica de funcionamento e busca da eficiência das cadeias do agronegócio (BATALHA, 2001). Essas duas abordagens têm como pontos em comum considerar (ZYLBERSZTAJN, 1995, MIELE et al. 2011): uma visão sistêmica do agronegócio; os diferentes estágios de produção e os seus elos de interação e o papel do estado, via políticas públicas, das instituições, por leis e regras que moldam o ambiente institucional, e das organizações, por exemplo, via associações representativas. 8 A literatura adota, para o termo sistemas agroindustriais, tanto a sigla SAG (por exemplo ZYLBERSZTAJN; FARINA, 1998, SÁ et al., 2015) quanto a SAI (por exemplo, BATALHA, 2001). Este material adota a sigla SAG de forma a padronizar a nomenclatura. 9 Estudo elaborado para avaliar o comportamento dos sistemas de produção de laranja, trigo e soja nos EUA (GOLDBERG, 1968), cuja aplicação apresentou sucesso devido à simplicidade, à coerência metodológica e ao grau de acerto nas previsões (BATALHA, 2001). 10 A literatura francesa adota o conceito de Sistema Agroalimentar. Esse conceito é ampliado pela literatura nacional para Sistema Agroindustrial (BATALHA, 2001), por entender que o Sistema Agroalimentar está contido no Sistema Agroindustrial. Este, por sua vez, considera importantes firmas não alimentares (madeira, fibras vegetais e couro, por exemplo). 35 Seguindo esse racional, de acordo com Batalha (2001), não se pode abordar a agricultura de forma independente dos demais agentes responsáveis por todas as atividades que englobam a produção, a transformação, a distribuição e o consumo de alimentos. As atividades agrícolas fazem parte de uma extensa rede de agentes econômicos que vão desde a produção de insumos, transformação industrial até a armazenagem e a distribuição de produtos agrícolas e derivados (DAVIS; GOLDBERG, 1957; BATALHA, 2001). Apesar de variado na literatura, o conceito de cadeias de produção considera três elementos principais (BATALHA, 2001, p. 28): A cadeia de produção consiste na sucessão de operações de transformação dissociáveis, que podem ser separadas e ligadas entre si por um encadeamento técnico. A cadeia de produção é um conjunto de relações comerciais e financeiras as quais estabelecem, entre todos os estados de transformação, um fluxo de troca, situado de montante a jusante, entre fornecedores e clientes. A cadeia de produção trata de um conjunto de ações econômicas que presidem a valoração dos meios de produção e asseguram a articulação das operações. Uma CPA considera três segmentos macro, de jusante a montante, em três segmentos, além do setor de produção de insumos (BATALHA, 2001): Comercialização – Empresas que atendem o cliente final da cadeia produtiva e que viabilizam o comércio e o consumo dos produtos finais, por exemplo, supermercados, mercearias, restaurantes, cantinas. Podem ser incluídas neste segmento as empresas responsáveis apenas pela logística da distribuição. Industrialização – Empresas responsáveis pela transformação das matérias-primas em produtos finais destinados ao consumidor. Pode ser uma unidade familiar ou outra agroindústria. Produção de matérias-primas – Empresas que fornecem matérias-primas iniciais para que outras avancem no processo de produção do produto final, por exemplo, agricultura, pecuária, pesca, piscicultura. Para efeitos de análise, o racional sugerido para o encadeamento das operações de uma CPA é considerar o fluxo de jusante a montante. “Essa lógica assume implicitamente que as condicionantes impostas pelo consumidor final são os principais indutores de mudanças no status quo do sistema” (BATALHA, 2001, p. 29). Unidades produtivas do sistema podem, no entanto, ser responsáveis por mudanças na dinâmica da cadeia ocasionadas, por exemplo, pela introdução de inovações tecnológicas, contudo essas mudanças serão sustentáveis apenas se reconhecidas pelo consumidor (BATALHA, 2001). Outro importante aspecto a ser considerado trata-se da presença de ao menos quatro mercados com características distintas dentro de uma cadeia produtiva agroindustrial típica: i) mercados entre produtores de insumos e produtores rurais; ii) mercado entre produtores rurais e 36 agroindústrias; iii) mercados entre agroindústria e distribuidores; e iv) mercado entre distribuidores e consumidores finais (BATALHA; SILVA, 1995; BATALHA, 2001). A avaliação desses mercados e as relações entre os agentes envolvidos permite melhor entendimento de como a dinâmica de comercialização é desenvolvida ao longo da cadeia e de como isso afeta a eficiência e competitividade de maneira integrada (FARINA, 1999; SÁ et al., 2015). Já no que tange ao conceito de SAG (BATALHA, 2001) apresenta a seguinte definição, também ilustrada na figura 5: conjunto de atividades que concorrem para a produção de produtos agroindustriais, desde a produção dos insumos (sementes, adubos, máquinas agrícolas etc.) até a chegada do produto final (queijo, biscouto, massas etc.) ao consumidor. Ele não está associado a nenhuma matéria- prima agropecuária ou produto final específico (BATALHA, 2001, p. 32). De acordo os pesquisadores, o SAG considera seis grupos de atores, a saber: agricultura, pecuária e pesca; indústrias agroalimentares (IAA); distribuição agrícola e alimentar; comércio internacional; consumidor e indústrias e serviços de apoio. Figura 5 – Sistema agroindustrial Fonte: Batalha (2001, p. 33) 37 Goldberg (1968) destaca a importância da utilização de um enfoque sistêmico para o apoio à tomada de decisões (ZYLBERSZTAJN, 1995). Nesse sentido, o fluxo de informações entre os agentes que compõem o SAG é fundamental para a definição e a aplicação de estratégias competitivas e para a sobrevivência às mudanças de mercado (GOLDBERG, 1968; FARINA, 1999; SÁ et al., 2015). Similarmente, muitos economistas da escola industrial francesa defendem o enfoque de conhecido como mesoanálise. Segundo Batalha (2001), a mesoanálise trata-se da “análise estrutural e funcional dos subsistemas e de sua interdependência dentro de um sistema integrado”, conceito que “remete diretamente a um enfoque sistêmico” (BATALHA, 2001, p. 37). O enfoque mesoanalítico busca atuar na lacuna entre a microeconomia, que parte do micro para explicar o macro (estuda as unidades de base da economia, tais como a empresa e o consumidor, por exemplo), e a macroeconomia, que parte do macro (Estado, por exemplo) para explicar o funcionamento das partes. Esse enfoque permite responder a questões sobre concorrência e opções estratégicas da firma, bem como sobre processo distributivo entre os agentes econômicos. Assume a indústria, ou setor industrial, como unidade de análise – ou seja, como sistema –, o que não significa dizer que a estrutura da firma ou a economia global não devam deixar de ser abordadas (BATALHA, 2001). Um sistema, como um conjunto composto de elementos e subelementos em interação, apresenta as seguintes características, as quais devem ser consideradas para efeito de análises em termos de cadeias de produção agroindustriais (BATALHA, 2001): Atua em um determinado meio ambiente. Cumpre uma função ou exerce uma atividade. Apresenta estrutura que evolui com o tempo. Tem objetivos definidos. Conforme defende Batalha (2001), o enfoque sistêmico assume que todo sistema, como uma cadeia de produção agroindustrial, evolui no