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NÃO PODE FALTAR HIPÓTESES SOBRE A ORIGEM DO AUTISMO Profº. Me. Danilo J. Goulart dos Santos Imprimir PRATICAR PARA APRENDER Olá aluno! Nessa seção, conheceremos diversas discussões cientí�cas sobre as hipóteses etiológicas do autismo. Você sabia que, atualmente, a ciência ainda não conseguiu convergir a uma única etiologia que seja comprovadamente satisfatória para justi�car o autismo? Consequentemente, surgem inúmeras hipóteses bastante relevantes para considerarmos como causa etiológica desse fenômeno. Você alguma vez já parou para pensar de onde vem o autismo? Por que algumas crianças, especialmente nos últimos anos, têm sido cada vez mais diagnosticadas com esse transtorno? O que tem ocorrido para contribuir com esse fenômeno? Como vimos na seção anterior, os estudos sobre o autismo datam da década de 1940. Desde o início dos estudos sobre essa temática, várias hipóteses etiológicas foram levantadas, considerando tanto causas genéticas, ou seja, incorporando alterações de ordem cromossômica na constituição do sujeito, como também causas neurológicas e afetivas. Em relação às causas neurológicas, temos investido muito nesse conhecimento nos últimos anos, contudo esse “mundo” ainda é bastante misterioso. A cada dia novas informações chegam, originando grandes descobertas quanto ao funcionamento do sistema neurológico. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 1/19 Mesmo com todo esse avanço, o autismo ainda permanece em um campo bastante controverso, despertando a atenção de muitos curiosos sobre esse assunto. Por um certo período do tempo, os estudos sobre o autismo tiveram grande exploração no campo psicogênico. Isso signi�ca que muitos teóricos e pro�ssionais da área consideraram que a sua causa estivesse relacionada com a constituição psíquica primária do sujeito em desenvolvimento. No entanto, será que as causas afetivas seriam explicadas somente a partir de uma precondição genética ou neurológica? Isso nos leva a entender que ainda temos muito a descobrir, o que nos serve de convite para iniciarmos esse capítulo e nos aprofundarmos nas hipóteses sobre as causas desse transtorno. Como também será abordado, e vocês devem saber, nós somos sujeitos multideterminados e complexos nessa constituição. Com isso, todo o aparato tecnológico, os novos saberes cientí�cos e culturais, bem como as relações familiares, comunitárias, políticas e também de gênero, são partes de um todo que, cada um ao seu modo, vai introjetando e se constituindo. Sendo assim, estudar o desenvolvimento de crianças típicas e atípicas nos convoca a debater com as diversas áreas do saber. Interessante, não? Agora, pare e re�ita: Como as relações sociais de desigualdade nos in�uenciam e produzem modos de compreender o mundo por meio daquilo que chamamos de “verdade”? Como os aspectos familiares e afetivos podem ser responsáveis pelas expressões emocionais que aprendemos durante a vida? Esses serão apenas alguns dos questionamentos norteadores do nosso estudo. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 2/19 Para contextualizar sua aprendizagem, imagine que você leciona para uma turma de Ensino Médio e tem na sua sala de aula um aluno autista. Ele se desenvolveu bem em suas habilidades acadêmicas, não necessitando de suporte individualizado para sua aprendizagem. Contudo, esse estudante permanece o tempo todo sozinho, apresentando muita di�culdade para se socializar. Você percebeu que durante as atividades em grupo seu aluno autista apresenta comportamento ansioso, visto que sempre �ca isolado e que nunca é escolhido por seus colegas para participar das atividades. Incomodada com isso, você resolve abordar essa problemática de forma coletiva, implicando todos os estudantes no processo de inclusão do menino autista. Diante isso, você propõe para a turma uma discussão sobre diversidade e multiplicidade, a�rmando que a diversidade se refere a grupos diferentes, enquanto a multiplicidade diz respeito às diferenças e singularidades de cada sujeito, conceito que representa de forma mais assertiva a política de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Você apresenta a seus alunos os conceitos sobre a diferença e propõe que todos discutam suas percepções sobre o contexto de inclusão da sala de aula. Os alunos, após muitas re�exões, questionam sobre o autismo e sua origem. Você, enquanto responsável pela sala, pede que seu aluno autista fale sobre isso, o qual relata que ser diferente é normal, pois entende que todos são diferentes em seu modo de compreender o mundo. Tomando como importância esse aspecto abordado pelo aluno autista, quais considerações você poderia propor para que a turma discuta? Baseado nos conhecimentos adquiridos nesta seção, qual o paradigma que seu aluno tomou como origem da sua diferença? Quais aspectos você julga relevantes para serem debatidos com alunos do Ensino Médio sobre as questões da etiologia do autismo? 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 3/19 Vamos estudar e ampliar o modo pelo qual compreendemos o TEA! Juntos percorreremos as diversas hipóteses das causas do autismo e, por meio delas, re�etiremos sobre a constituição do ser humano em suas manifestações típicas e atípicas. Vamos lá! CONCEITO-CHAVE Olá, aluno! Nesta seção, você estudará os paradigmas da causa do autismo. Com isso, apresentaremos a você os quatro principais paradigmas que apontam para as causas do TEA na atualidade. Como já estudamos anteriormente, o autismo, até os dias atuais, não apresenta uma explicação cientí�ca que justi�que sua manifestação, de modo que as possíveis causas desse transtorno ainda são grande mistério para os pesquisadores da área. Como em todas as áreas da ciência psicopatológica, que é responsável pela descrição e compreensão do adoecimento psíquico, há inúmeras explicações em relação às etiologias dessas doenças. No caso do autismo, a di�culdade não é diferente. Desde sua primeira descrição nas décadas de 1940, o autismo até hoje permanece sem uma causa de�nida que explique os fatores que determinam esse fenômeno. Atualmente, contamos com quatro paradigmas etiológicos: 1. Paradigma Biológico-genético; 2. Paradigma Relacional; 3. Paradigma Ambiental; 4. Paradigma da Neurodiversidade. Ainda há muito a ser descoberto para juntar as peças desse quebra-cabeças que é o TEA. Veremos cada uma delas a seguir. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 4/19 O PARADIGMA BIOLÓGICO-GENÉTICO Desde a descrição da Síndrome de Kanner, em 1943, o autismo foi apresentado pelo psiquiatra austríaco a partir de uma perspectiva organicista, que compreende esse transtorno a partir de uma causa orgânica. Segundo Kanner, a criança com autismo nasce com uma inabilidade inata quanto às relações sociais e à comunicação. O autor ainda destaca o caráter problemático em algumas relações familiares, sendo bastante in�uenciado pela psicanálise, teoria que estava em pleno desenvolvimento e dominando certa hegemonia dos discursos psicopatológicos. O também psiquiatra austríaco Hans Asperger, em sua descrição nosológica do autismo, a�rmou o papel da genética nas manifestações autísticas, contudo não identi�cando fatores hereditários. Diante dessa abertura em relação à descrição do autismo, o psiquiatra inglês Michael Rutter, no ano de 1968, publicou um estudo que realizou com irmãos gêmeos univitelinos e bivitelinos. Nesse estudo, o pesquisador apontou que havia considerações genéticas in�uentes no autismo. Tais manifestações, de acordo com o médico inglês, seriam somadas a fatores ambientais, como lesão cerebral perinatal. Entretanto, a hereditariedade permaneceuinconclusiva. No campo cientí�co denominado organicista, pesquisadores da área do autismo, encontraram genes que apresentavam mutação, porém não havia as mesmas mutações em seus pais, corroborando a hipótese de não hereditariedade desse transtorno. Sendo assim, a aposta feita pelos pesquisadores se referia a uma mutação espontânea. No ano de 2014, uma publicação cientí�ca de um estudo longitudinal na Suécia, realizada entre os anos de 1986 e 2006 com mais de 2 milhões de famílias de pessoas com autismo, apresentou o dado de que 50% das pessoas com esse diagnóstico apresentavam alguma mutação genética. Aos outros 50% caberiam os fatores ambientais. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 5/19 Já no ano de 2015, 85 famílias com dois �lhos autistas foram pesquisadas. A conclusão dos pesquisadores foi que mesmo em irmãos, a mutação genética não era compatível nem correspondente em nenhum dos casos. Isso aponta que há centenas de mutações e genes envolvidos na manifestação autística, porém todas apresentam a mesma multiplicidade que as pessoas do espectro demonstram. Seria essa a justi�cativa para as inúmeras diferenças que existem entre os sujeitos autistas? Vale destacar que, no Brasil, atualmente, ocorre uma pesquisa na Universidade de São Paulo (USP) que, a partir da utilização de células-tronco extraídas dos dentes de leite de crianças com autismo, busca relacionar os neurônios responsáveis por esse transtorno, bem como a criação de um remédio e�caz que pudesse de alguma maneira reestruturar os aspectos neuronais ligados ao autismo, redimindo, com isso, os sintomas autísticos. Sobre o paradigma biológico-genético, destaca-se o fato de que ele utiliza como argumento teórico a ocorrência de alterações no sistema nervoso central, como os problemas sensoriais e de simbolização. Além disso, aponta que também haveria alterações em relação aos neurônios-espelho e em parte da anatomia cerebral. Essa teoria etiológica se ampara nos aspectos de integração e percepção sensorial como justi�cativa argumentativa dos problemas neurológicos em relação ao autismo. Vale destacar que a Teoria da Mente, uma teoria desenvolvida por Baron-Cohen, Leslie e Frith, no ano de 1985, comprovou que nos casos de pessoas com autismo haveria uma di�culdade em atribuir estados mentais ao outro e a si mesmo. Somando-se a esses argumentos, no ano de 1990, o pesquisador Giacomo Rizzolatti, apresentou um estudo no qual descreveu que nos casos de autismo, os neurônios-espelho, responsáveis pela imitação, empatia e aprendizagem e comunicação social, teriam uma de�ciência que poderia ser responsável pela 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 6/19 apresentação clínica desse transtorno. Contudo, estudos posteriores demonstraram que tais neurônios também estavam presentes nas pessoas com esse diagnóstico. Por �m, como último argumento das teorias biológico-genéticas em relação à etiologia do autismo, estudos apresentaram irregularidades díspares em exames de imagens em partes do cérebro de pessoas com esse diagnóstico. Segundo esses estudos, há irregularidades no cerebelo, amígdala, hipocampo e no sistema límbico, por exemplo. Diante de tamanho histórico de pesquisas em relação às causas do autismo, tal teoria, mesmo que muito difundida e aceita pela comunidade cientí�ca, apresentou dados inconclusivos e não generalizáveis. Sendo assim, ainda cabe até os dias atuais a grande questão: o que causa o autismo? O PARADIGMA RELACIONAL Em outro extremo cientí�co, o paradigma relacional utiliza como base os estudos psicogênicos, que consideram como origem do autismo as causas psicológicas. A compreensão desse paradigma se dá a partir da teoria psicanalítica. A psicanálise foi criada no início do século XX pelo neurologista austríaco Sigmund Freud. Sua teoria inaugurou os estudos sobre o inconsciente e o papel do desenvolvimento psíquico primitivo no trabalho com o âmbito emocional das pessoas, considerando que a infância seria um período importante para a determinação da nossa personalidade a partir de nossas experiências subjetivas e relacionais com nossos pais e familiares, in�uenciados pelos aspectos culturais de nossa sociedade. De acordo com essa teoria, o modo pelo qual vivenciamos a infância, a partir de traumas, relações infantis e experiências corporais, seria responsável pela formação de uma estrutura psíquica, comumente chamada de personalidade. A partir dessa estrutura, haveria o desenvolvimento de aspectos patológicos posteriores. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 7/19 Torna-se válido ressaltar que quando Kanner descreve o autismo no ano de 1943, a psicanálise estava ocupando o discurso hegemônico da época, sendo a principal explicação cientí�ca adotada por médicos e psicólogos para as doenças mentais. Diante disso, não teria de ser diferente quando Kanner, ao descrever o autismo, dá ênfase aos relacionamentos familiares, direcionando o foco à família e apresentando, assim, a perspectiva de que algo acontece nas relações primitivas e infantis, que poderiam ser responsáveis pela manifestação autística. No ano de 1967, o psicanalista Bruno Bettelheim publica um livro sobre o autismo. Nessa obra, o autor adota o termo “mãe geladeira”, anteriormente mencionado por Kanner em suas observações para descrever o relacionamento das mães de crianças autistas. Diante dessa a�rmação, houve a disseminação da culpabilização das mães pela causa do autismo em seus �lhos. O termo “mãe geladeira”, atualmente fora de uso, considerava que a frieza e a distância com que as mães cuidavam de seus �lhos poderiam ser a origem do transtorno nas crianças e que o sintoma autístico seria um mecanismo de defesa diante da hostilidade da cuidadora. No entanto, o que �cou comprovado anos mais tarde é que a frieza descrita pelo psicanalista em alguns casos apresentados por mães de crianças com autismo se relacionava ao fato de que, após muitas tentativas de investimento afetivo, as crianças pouco respondiam aos chamados, ao contato. Diante disso, as mães acabavam diminuindo esse investimento. Consequentemente, inúmeros insucessos e angústias foram produzidos nessa relação com um bebê, muitas vezes desvitalizado e diante de um fechamento autístico. Portanto, o que antes era visto como a origem do autismo passou a ser compreendido como uma consequência: ser mãe de uma criança autista. O psicanalista e pediatra inglês Donald Winnicott trabalhou diretamente com crianças que apresentavam problemas de contato afetivo. Seu posicionamento relacionou o autismo como uma perturbação emocional grave que se daria nos primeiros anos de vida. Para o psicanalista, o sujeito se desenvolve na relação com seu ambiente afetivo, neste caso, com os pais e/ou cuidadores. Winnicott 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 8/19 ainda destaca que no desenvolvimento saudável seria importante um ambiente acolhedor e afetivo, além da necessidade de o cuidador desempenhar o papel de uma mãe su�cientemente boa, capaz de sustentar o amor e as angústias do bebê. O psicanalista apresenta o conceito de maternagem, que seria a condição da mãe poder se dedicar ao bebê. Para isso, a maternagem seria desempenhada por pessoas próximas, a �m de proporcionar apoio emocional, garantindo, assim, o total investimento da mãe em seu bebê. Com isso, o desenvolvimento psíquico do bebê se daria a partir das relações afetivas, inconscientes e corporais dessa díade. No Brasil, a psicanálise lacaniana, derivada do psicanalista francês Jacques Lacan, considera que o autismo é fruto de uma falha na função materna, sendo esta apresentada de forma excessivaou ausente ao bebê. Vale ressaltar que, nessa perspectiva, a função materna se refere ao papel desempenhado pelo cuidador do bebê, ou seja, ao que o acolhe, ampara e alimenta nos primeiros anos de vida. Esse cuidador pode ser representado por pessoas de qualquer gênero ou relação de parentesco. Com isso, a psicanalista Cristina Kupfer aponta que essa relação estabelecida entre o bebê e a função materna pode, diante de uma falta de compatibilidade, fazer com que sintomas autísticos se produzam. Nesse contexto, é importante relatar que atualmente a psicanálise considera a existência de aspectos para a predisposição autística ao nascer. Contudo há, dentro da psicanálise, diversas leituras sobre o autismo. Nesse sentido, para o psicanalista Alfredo Jerusalinsky o autismo é uma manifestação patológica diante da ausência de suporte psíquico afetivo do cuidador, sendo que fatores traumáticos muito precoces, como internação, hospitalização, UTI, cirurgias e acidentes, poderiam estar na base do fechamento autístico. Já para a psicanalista franco-brasileira Marie-Christine Laznik há um fator de ordem “neurodesenvolvimental” que está ligado ao autismo. Porém, segundo ela, a 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 9/19 psicanálise cuida das relações afetivas, resgatando o sujeito. Além disso, aponta que em intervenções precoces de sucesso essa abordagem é capaz de retirar a criança do risco, do espectro. O PARADIGMA AMBIENTAL Como estamos acompanhando, são várias as hipóteses possíveis sobre a gênese do autismo. Em relação ao paradigma ambiental, diversas pesquisas buscaram relacionar aspectos ambientais com a manifestação do transtorno. No ano de 1998, o médico britânico Andrew Wake�eld publicou um artigo cientí�co em uma das principais revistas cientí�cas do mundo, The Lancet. Esse artigo recebeu o nome de MMR Vaccination and Autism. Nele, o pesquisador relacionou a vacina tríplice (sarampo, caxumba e rubéola) ao desenvolvimento do autismo. Diante desse importante exposto, muitos cientistas e pais ao redor do mundo se posicionaram de modo a concordar com tal a�rmação. No entanto, até os dias atuais muitos grupos de pessoas se mostram contrários à vacina, acreditando que sua constituição poderia de alguma maneira estar relacionada com a manifestação do TEA. Após uma minuciosa revisão, apontou-se que os dados da pesquisa de Wake�eld foram fraudados, levando o médico a perder sua licença em 2010, acusado de conduta antiética. O fato é que até hoje, mesmo havendo a conclusão de que as vacinas não são responsáveis pelo desenvolvimento do autismo, ainda há resquícios de movimentos antivacina ao redor do mundo. Tal posicionamento foi responsável, inclusive, pelo surto de sarampo na Califórnia, nos anos 2000, após a erradicação dessa doença. Essa conduta é, sem dúvida, totalmente contrária ao pacto social de responsabilidade com a saúde pública. Hoje, sabe-se que as vacinas não provocam o autismo, tampouco a substância mercúrio, presente em parte delas. Em contrapartida, novas pesquisas foram realizadas com a �nalidade de relacionar outros aspectos ambientais com o desenvolvimento do TEA, como: 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 10/19 Fatores infecciosos, como a rubéola e o citomegalovírus congênito; Uso de ácido valproico pela mãe durante a gestação; A exposição da gestante à poluição ambiental; Idade parental e doenças maternas, como diabetes e hipertensão. Diante de tais constatações, vale citar que os estudos apresentados em relação aos fatores ambientais responsáveis pelo desenvolvimento do autismo não são consistentes e não há comprovações que possam ser consideradas generalizáveis. No entanto, esses estudos apenas apresentam correlação entre esses fatores e o desenvolvimento do autismo. Vale ressaltar que foi realizada uma pesquisa muito relevante, a qual apontou, por meio de uma análise de doenças infecciosas, que num grupo de 243 crianças estudadas apenas 18 delas apresentaram aspectos signi�cativos para tal a�rmação. Isso mantém o paradigma ambiental como um dos possíveis fatores, aliado às alterações genéticas, para o desenvolvimento do autismo. O PARADIGMA DA NEURODIVERSIDADE Esse último paradigma aparece a partir de discussões sobre a de�ciência e a normalidade. O conceito de normalidade se opõe à concepção biomédica de de�ciência, que considera o sujeito de�ciente com dé�cits em alguns aspectos, como sensorial, físico ou intelectual. Atualmente, o conceito de de�ciência entende que ela se compõe na relação do sujeito com as barreiras da sociedade, que o impedem de exercer sua cidadania como as demais pessoas de sua comunidade. Com isso, retira do corpo e da individualidade a de�ciência, trazendo para a relação dialética sujeito-sociedade. Outro ponto importante é o próprio conceito de normalidade, que coloca diante de nós, pesquisadores e trabalhadores das áreas de saúde e educação, sua problemática. O anormal, como a�rma o �lósofo francês Michel Foucault, se 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 11/19 apresenta de formas distintas nos diversos momentos históricos da nossa sociedade. Nesse sentido, torna-se válido relembrar que, por um longo período, as pessoas com lepra eram consideradas pela cultura como sujeitos anormais, sendo posteriormente substituídos pelos chamados “loucos”. Ambos os grupos de anormais foram asilados em manicômios, com a �nalidade de higiene social e de apartar as diferenças do que era considerado normal. Atualmente, os usuários de crack, por exemplo, são vistos como anormais, os anormais do desejo. São sujeitos que abdicam de todos os desejos em nome da droga. Pode-se concluir, diante dessas a�rmações, que a normalidade nada mais é do que uma norma de comportamento imposta por um grupo de pessoas, neste caso, a maioria. São essas pessoas que produzem o discurso de “verdade” imposto por intermédio dos argumentos cientí�cos, que muitas vezes são frutos de seu próprio interesse. Com isso, não é de se estranhar que o padrão de conduta e comportamento da nossa sociedade está amparado nos modelos da burguesia, que detém as riquezas e, de alguma maneira, legisla as vidas dos sujeitos por meio do biopoder. Também não fogem a essa regra os conceitos de saúde e doença, bem como de loucura e normalidade. É justamente diante dessa discussão que o paradigma da neurodiversidade nasce, com o objetivo de a�rmar a identidade autista como uma manifestação da multiplicidade da natureza, não sendo, portanto, considerada uma doença. Essa concepção sobre o autismo tem Judy Singer como principal teórica. Judy é socióloga, autista e, nos anos de 1999, a�rmou, em suas produções cientí�cas sobre a diversidade, que o autismo é uma manifestação do desenvolvimento neurológico atípico, sendo este produto da diversidade da natureza. Com isso, o transtorno passa a ser considerado como uma identidade. Portanto, nessa perspectiva, passa-se a utilizar outra denominação para o autismo, substituindo o termo “pessoa com autismo” por “pessoa autista”. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 12/19 O paradigma da neurodiversidade faz a transição do ter para o ser. Considera que a diferença se dá no modo diverso de perceber o mundo. Contudo, essa perspectiva é bastante contestada pelos familiares de pessoas com autismo grave, porque diante dessa manifestação, de acordo com esses familiares, não seria possível desconsiderar as di�culdades relacionadas a essa condição da de�ciência ou do transtorno, visto que as pessoas com autismo grave apresentam intenso sofrimento psíquico e inabilidade funcional. A crítica é rebatida pelo movimento da neurodiversidadea partir do constructo de normalidade, visto que No Brasil, a pessoa com autismo é considerada pessoa com de�ciência, apenas para �ns legais, desde o ano de 2012 a partir da Lei nº 12.764/12, conhecida como Lei Berenice Piana. Com essa conquista dos movimentos de pais e familiares das pessoas com autismo, foi possível garantir acesso ao tratamento e acompanhamento das pessoas com esse diagnóstico no Sistema Único de Saúde (SUS), assim como outros direitos da pessoa com de�ciência. O fato é que pouco se sabe sobre os motivadores do autismo. Essa falta de respostas assertivas é uma das principais causas do sofrimento das famílias das pessoas com TEA, visto que não cessam os questionamentos e culpabilizações. A busca pela descoberta da origem desse transtorno coloca em pauta discussões importantes no que diz respeito à saúde pública. Diante de tais apontamentos, vale a pena re�etir sobre os seguintes questionamentos: Se o autismo pudesse ser previsto haveria intervenção para preveni-lo? Se houvesse remédio para o autismo, as pessoas seriam submetidas a esse tratamento com a �nalidade de normatizar as condutas? Seriam técnicas de eugenia? o imperativo do desenvolvimento normal desconsidera que se trata de crianças ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas. Enquanto na China, por exemplo, os comportamentos de contato visual e o apontar não são importantes nas relações interacionais. (FADDA; CURY, 2016, p. 417)“ 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 13/19 Sabe-se que os gastos da saúde pública são altos para a manutenção do diagnóstico precoce e tratamento, portanto ainda são raros no território nacional brasileiro. Isso é preocupante, pois acredita-se que a atual concepção sobre o autismo, ou melhor, sobre o TEA, considera que intervenções precoces podem retirar o sujeito do espectro autista. Essa a�rmação é pertinente, tendo como base pesquisas que a�rmam que 3 a 25% das crianças com até 3 anos de idade, submetidas a terapias especializadas, deixaram de preencher os critérios diagnósticos para TEA, fato corroborado pela última versão do manual diagnóstico e estatístico americano, o DSM-5. ASSIMILE Para a ciência, há diversos paradigmas sobre a origem ou causa do autismo. O principal refere-se ao paradigma biológico-genético, que é parte da ciência organicista, a qual considera que qualquer adoecimento tem como base o corpo orgânico e biológico. Na outra ponta da ciência há o modelo cientí�co psicogênico, o qual considera que a causa ou origem do diagnóstico pode ser produzido por aspectos psicológicos. A ciência organicista tem como �loso�a o pensamento positivista do �lósofo Auguste Comte. Para essa perspectiva �losó�ca, a verdade é produzida por meio daquilo que pode ser observado e mensurado, enquanto todos os demais aspectos são desconsiderados. Para as produções psicogênicas, o que se leva em consideração são as relações singulares de cada manifestação de adoecimento, partindo da experiência empírica como produção da verdade. O movimento empirista considera as experiências percebidas a partir da percepção, como a coleta de dados. REFLITA 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 14/19 Você percebeu o quanto os paradigmas sobre a origem do autismo podem ser contraditórios e incompletos. Isso demonstra como a ciência ainda tem muito o que descobrir. Partindo-se dos pressupostos psicogênicos e relacionais, como você observa a in�uência da relação psicossocial nos primeiros anos de vida? Será que eles podem determinar ou constituir o desenvolvimento das crianças atípicas? Vale a pena pesquisar mais sobre isso! Vamos lá? EXEMPLIFICANDO A necessidade de a ciência buscar respostas em relação à etiologia do autismo está ligada, de alguma maneira, com as formas de tratamento e o modo pelo qual nos relacionamos com esse fenômeno. Imagine que você receba em sua sala de aula um aluno com autismo “leve”, que apresenta Síndrome de Asperger. O modo pelo qual disponibilizamos os processos de aprendizagem ou tratamento está intimamente relacionado com as concepções etiológicas do transtorno. Vejamos: Se considero que há aspectos biológicos, direciono a intervenção no sentido de extinguir os sintomas autísticos. Já na perspectiva relacional, a intervenção leva em consideração os relacionamentos familiares e afetivos como possibilidade de ajuda na retirada da criança do espectro. No entanto, para a perspectiva da neurodiversidade, o autismo enquanto identidade deve ser respeitado e não submetido a intervenções de modelagem comportamental, por exemplo. FOCO NA BNCC A partir dos nossos estudos, aprendemos que: 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 15/19 O desenvolvimento de cada pessoa é singular; Devem-se levar em consideração os aspectos relacionais e a dialética sujeito-sociedade; O desenvolvimento é in�uenciado pelas verdades produzidas em um tempo histórico, num determinado contexto cultural e político, bem como cientí�co. Caro aluno, espero que você tenha aproveitado esse percurso sobre os paradigmas que discutem a origem e as causas do autismo. Seguiremos nossos estudos tentando juntar esse quebra-cabeças colorido, multifacetado e instigante! Até mais! FAÇA A VALER A PENA Questão 1 A ciência do desenvolvimento evoluiu muito nos últimos anos, passando a considerar vários aspectos importantes no desenvolvimento das pessoas. Com isso, ainda pouco se sabe sobre o autismo, o transtorno que afeta diretamente o desenvolvimento global das crianças. No entanto, há vários estudos que propõem possibilidades etiológicas para o autismo. Quais são os quatro paradigmas etiológicos para o autismo? a. Paradigma biológico-genético; relacional; ambiental; da neurodiversidade. b. Paradigma biológico; afetivo; ambiental; neurobiológico. c. Paradigma relacional; afetivo; ambiental; médico. d. Paradigma afetivo; biológico; genético; social. Paradigma médico; corporal; genético; afetivo. Questão 2 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 16/19 Cada um dos paradigmas justi�cam a etiologia do autismo a partir de diferentes constructos teóricos. Esses campos cientí�cos divergem, pois partem de raízes epistemológicas e �losó�cas diversas, abrangendo desde o organicismo até a psicogênese. A partir da compreensão do paradigma biológico-genético, quais são os argumentos apresentados? a. Alterações no sistema nervoso central, problemas sensoriais e simbolização. b. Alterações no sistema nervoso central, problemas com neurônios-espelho e autonomia. c. Alterações na anatomia cerebral, problemas com simbolização e comunicação. d. Alterações anatômicas e funcionais e problemas com transição. e. Alterações visuoespaciais e problemas relacionais. Questão 3 O fato de o autismo ainda não possuir uma causa de�nida nos dias atuais tem como consequência a intensi�cação do sofrimento das famílias, visto que a ausência desse conhecimento abre possibilidades para a culpabilização dos fatores afetivos ou educacionais, o que aumenta a angústia da família. Diante disso, é muito comum que se queira estabelecer uma relação entre os fatores ambientais e as causas do autismo, com a �nalidade de se responsabilizar por meio de fatos objetivos e externos. Diante das inúmeras pesquisas que buscaram a�rmar uma correlação entre os aspectos ambientais e a causa do autismo, qual das alternativas contém uma hipótese que ainda hoje é validada? a. Vacina MMR. b. Uso de ácido valproico. c. Rubéola no bebê. d. Idade dos genitores. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 17/19 REFERÊNCIASASSOCIAÇÃO AMERICANA DE PSIQUIATRIA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2015. BARON-COHEN, S. Is Asperger Syndrome Necessarily Viewed as a Disability? Focus on Autism and Other Developmental Disabilities, v. 17, n. 3, p. 186-191, 2002. BARON-COHEN, S.; LESLIE, A. M.; FRITH, U. (1985). Does the Autistic Child Have a “Theory of Mind”? Cognition, v. 21, n. 1, p. 37-46, 1985. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2934210/. Acesso em: 11 set. 2021. BETTELHEIM, B. The empty fortress: infantile autism and the birth of the self. New York: The Free Press, 1967. BRASIL. Subche�a para Assuntos Jurídicos. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3º do art. 98 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Brasília: Presidência da República, 2012. FADDA, G. M.; CURY, V. E. O enigma do autismo: contribuições sobre a etiologia do transtorno. Psicologia em Estudo, v. 21, n. 3, p. 411-423, jul./set. 2016. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/2871/287148579006.pdf. Acesso em: 11 set. 2021. FOUCAULT, M. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2002. GUEDES, N. P. da S.; TADA, I. N. C. A produção cientí�ca brasileira sobre autismo na Psicologia e na Educação. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, v. 31, n. 3, p. 303-309, set. 2015. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S0102-37722015000300303&lng=en&nrm=iso. Acesso em: 11 set. 2021. e. Citomegalovírus. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:45 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 18/19 https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/2934210/ https://www.redalyc.org/pdf/2871/287148579006.pdf http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722015000300303&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722015000300303&lng=en&nrm=iso KANNER, L. Autistic Disturbances of A�ective Contact. Nervous Child, v. 2, p. 217- 250, 1943. KLIN, A. Uma nova forma de diagnosticar o autismo. TED Talks, set. 2011. Disponível em: https://www.ted.com/talks/ami_klin_a_new_way_to_diagnose_autism? language=pt-br. Acesso em: 11 set. 2021. KUPFER, M. C. M. Notas sobre o diagnóstico diferencial da psicose e do autismo na infância. Psicologia USP, v. 11, n. 1, p. 85-105, 2000. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/108081/106426. Acesso em: 11 set. 2021. PROJETO A FADA DO DENTE. 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Esse isolamento provoca ansiedade e tristeza, visto que seu aluno autista não é convidado a participar das atividades coletivas. Diante dessa situação, você resolve propor uma discussão coletiva com a turma para debater sobre os temas diferença e inclusão. A partir dessa sugestão, os alunos acabam questionando sobre a etiologia do autismo. Diante dessa proposta, o aluno autista aponta que a neurodiversidade é o paradigma que defende em relação à sua identidade, considerando-se, assim, um “menino autista” e se referindo ao autismo enquanto constituição identitária em vez de “menino com autismo”. É importante debater com a turma sobre a ausência de uma etiologia clara em relação ao TEA, propondo, a partir do aluno autista, a consideração do paradigma da neurodiversidade, visto que é o modo pelo qual o aluno em questão se identi�ca. Assim, essa se apresenta como a melhor abordagem, no sentido de se respeitar o lugar de fala da pessoa autista. 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:46 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 1/4 Considerar a neurodiversidade é corroborar os princípios éticos da política nacional da educação especial na perspectiva da educação inclusiva, segundo a qual, para que ocorra de fato a inclusão escolar de um aluno com de�ciência, deve-se compreender e questionar os valores de identidade enquanto um aspecto �nalizado e imutável. A ideia da educação inclusiva demanda que haja a ruptura de paradigmas referentes à identidade, levando em consideração que é uma construção permanente da relação do sujeito com seu entorno. Com isso, o “eu” é constituído na relação com o outro. Assim sendo, o autismo enquanto identidade passa a referenciar-se não mais apenas a uma de�ciência, mas a uma diferença que não toma a normalidade como ponto, e sim o sujeito em si mesmo. Essa perspectiva considera que todas as diferenças são aspectos de enriquecimento do coletivo, tornando-se de�nitivamente necessárias para a construção de cidadanias e de um modelo educacional que leve em consideração a transformação cultural e social. Diante disso, faz-se necessário sensibilizar a sala de aula para o despertar de todas as diferenças que, somadas, enriquecem o coletivo. Também é preciso dar voz ao sujeito diferente, fazendo com que sua diferença seja vista como diversidade, e não como demérito. Sem dúvida, a construção do processo de inclusão vai além de práticas psicopedagógicas especializadas. Ela é desenvolvida a partir de práticas e atitudes que sejam efetivamente inclusivas, que considerem o sujeito em sua singularidade e diferença, promovendo, na medida das possibilidades, as potencialidades de cada um no exercício da cidadania e da democracia. AVANÇANDO NA PRÁTICA ACOMPANHANDO UM MENINO COM TEA 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:46 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 2/4 Imagine-se como professora de educação especial em uma escola pública. Você é convidada a acompanhar seu aluno, um menino com autismo, no atendimento médico, a �m de discutir a evolução de seu quadro com o pro�ssional. Para isso, você deverá compreender o diagnóstico do estudante a partir de uma perspectiva etiológica, visto que a avaliação e a conduta se referem ao modo pelo qual o paradigma da causa do autismo se apresenta. Com isso, você parte do pressuposto biológico-genético, contudo deve descrever os comportamentos de seu aluno e os estágios de aprendizagem para que haja uma troca com o pro�ssional, a �m de que vocês, de forma conjunta, de�nam estratégias de intervenção que sejam mais efetivas. De acordo com essa situação, re�ita: Quais aspectosdo comportamento você considera importante relatar para o pro�ssional da área médica? Como a aprendizagem da pessoa com autismo ocorre a partir desse paradigma biológico-genético? Quais estratégias de intervenção você indicaria? Vamos pesquisar mais sobre o assunto? RESOLUÇÃO Considerando os aspectos biológicos-genéticos para o desenvolvimento do autismo, sabemos que há irregularidades na anatomia cerebral, especi�camente no cerebelo, hipocampo e sistema límbico. Outro ponto importante é a falha da Teoria da Mente, ou seja, seu aluno, a partir dessa perspectiva, apresenta di�culdades de compreensão, empatia e antecipação de estados mentais do outro. Nos aspectos da aprendizagem, devemos considerar as alterações sensório- perceptuais e as funções executivas de planejamento e execução, que di�cultam o processamento cognitivo da pessoa com esse diagnóstico, 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:46 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 3/4 exigindo intervenções práticas, como a adaptação do material e do meio ambiente, para que esse processo seja mais estruturado, adequado às reais necessidades do aluno. Para isso, vale lembrar que seu aluno deve ser avaliado em seus aspectos cognitivos, tornando possíveis as intervenções e efetivando os processos de aprendizagem. Você considera outro aspecto importante de ser discutido com o pro�ssional? Diante do que foi estudado sobre o paradigma biológico-genético, quais são os principais pontos que as pesquisas evidenciam? Vamos discutir em grupo e construir o caso? Vamos lá! 0 V er a n ot aç õe s 22/09/2024, 21:46 lddkls221_tra_esp_aut_web https://www.avaeduc.com.br/mod/url/view.php?id=3324964 4/4 O objetivo da aprendizagem desta webaula é ampliar o entendimento dos aspectos relacionados às discussões sobre o autismo considerando a crescente atenção que esse transtorno do neurodesenvolvimento tem exigido, principalmente no contexto escolar, devido aos aumento de pessoas com esse diagnóstico. Discussões sobre o autismo As re�exões que faremos a seguir serão a partir do vídeo da palestra “Uma nova forma de diagnosticar o autismo”, do pesquisador Ami Klin, no Ted Talks. Klin é um dos grandes nomes das pesquisas atuais relacionadas ao autismo. Em suma, a sua história é a seguinte: A partir de sua experiência em um hospital que asilava jovens e adultos com autismo, Ami Klin passa a se aprofundar nas questões desse transtorno. Ele chama a atenção para o aspecto básico do desenvolvimento do ser humano, a socialização. Nesse sentido, o pesquisador passa a apresentar os aspectos relevantes que dizem respeito ao desenvolvimento dessa habilidade tão essencial para nossa sobrevivência, bem como para nossa cultura. Assim, o “olhar no olho” é mais que um signi�cante cultural, pois também se relaciona com os aspectos de interação social mais primitivos. Por meio desse comportamento, torna-se possível “ler” o outro e, com isso, prever os aspectos emocionais e interacionais envolvidos nas relações sociais. Considerando essa centralidade no desenvolvimento humano, que é a socialização, Ami Klin a�rma que desde o nascimento as crianças típicas, ou seja, que não desenvolveram o autismo, mantêm relações sociais interacionais recíprocas, incluindo o contato visual já nos primeiros dias de vida. Tal mecanismo está relacionado com o cérebro social, que, por meio dos sentidos e signi�cados que emprega aos gestos sociais, incorpora a cultura e os variados signi�cantes presentes em nossa cultura. Segundo a perspectiva desse grande pesquisador, o autismo tem base biológica-genética. Para isso, Klin a�rma que há de 100 a 600 genes envolvidos no autismo, contudo há uma homogeneidade nesses sujeitos: o desenvolvimento, mais especi�camente nas áreas da comunicação social recíproca e interação social. É importante salientar que as crianças com autismo apresentam mais interesses em objetos do que em humanos, muitas vezes não apresentando comportamentos que demonstrem qualquer diferenciação dessa interação social com seu par. Transtorno do Espectro Autista Hipóteses sobre a origem do autismo Você sabia que seu material didático é interativo e multimídia? Isso signi�ca que você pode interagir com o conteúdo de diversas formas, a qualquer hora e lugar. Na versão impressa, porém, alguns conteúdos interativos �cam desabilitados. Por essa razão, �que atento: sempre que possível, opte pela versão digital. Bons estudos! https://www.ted.com/talks/ami_klin_a_new_way_to_diagnose_autism?language=pt-br. Fonte: Shutterstock. Com o conceito da neuroplasticidade, pelo qual o neurônio se regenera e produz novas sinapses e ligações, aposta-se na estimulação e intervenção precoce com a �nalidade de se atenuar os efeitos do autismo no sujeito, quando não é possível retirá-lo do espectro. Diante de tais desa�os, temos uma grande aliada ao diagnóstico precoce, a tecnologia. Com so�sticação, o grupo de pesquisa de Ami Klin criou o Eye Tracking, uma tecnologia que é capaz de acompanhar o interesse de bebês por meio do rastreio do olhar para, a partir disso, mensurar as interações sociais e com os objetos. A partir desse estudo, busca-se o diagnóstico nos primeiros meses de vida, não para curar o autismo, mas para impedir os efeitos croni�cantes do isolamento social e da de�ciência intelectual atrelados a ele. Por dentro da BNCC Corrobora-se a ideia de que não somente no autismo, mas no desenvolvimento humano de forma geral, é impossível determinar de forma categórica que haja um ou outro aspecto responsável pela manifestação de tal transtorno. Com isso, aponta-se para a complexidade envolvida no autismo, entendendo que cada sujeito é único em seu modo de se desenvolver. Apesar da ciência ainda ter um longo caminho de descobertas relacionadas ao autismo, vimos a importância do diagnóstico precoce. Considerando essa necessidade, você como pro�ssional de educação deve expandir os seus conhecimentos sobre o transtorno e �car atento aos comportamentos de suas turmas para realizar um diagnóstico situacional, facilitando o processo de inclusão e aprendizagem dos alunos. Pesquise mais Para saber mais sobre as hipóteses etiológicas do autismo e algumas legislações, pesquise, leia e compartilhe os seguintes textos: BRASIL. Subche�a para Assuntos Jurídicos. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3º do art. 98 da Lei nº 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Brasília: Presidência da República, 2012. GUEDES, N. P. da S.; TADA, I. N. C. A produção cientí�ca brasileira sobre autismo na Psicologia e na Educação. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, v. 31, n. 3, p. 303-309, set. 2015. OUSA, A. M. A. et al. A in�uência dos fatores ambientais na incidência do autismo. Rev. Interd. Ciên. Saúde, v. 4, n. 2, p. 81-88, 2017. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722015000300303&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722015000300303&lng=en&nrm=iso