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MSOCIAÇAO BmSILBRA &CASSHTEHCIA À PESSOA COM OEF1CIÊNCJA VISUAL ATIVIDADES DE VIDA AUTÔNOMA ESSÊtfclA DA VIDA EM SoclEDADE Mara 0 . de Campos Siaulys O objetivo principal deste manual é m os trar às famílias, professores e profissionais da área da deficiência visual a possibilida de de usar brinquedos e brincadeiras para o aprendizado das atividades de vida au tônoma. Os brinquedos que incentivam a criança a realizar as ações comuns da vida cotidiana vão induzi-la a conhecer as partes de seu corpo, desenvolver a autoestima e autoa- ceitação, facilitando o reconhecimento dos objetos do ambiente, suas características, as diferenças e semelhanças entre eles, seus nomes e utilidade, seu manejo. Eles ajudam a criança a distinguir os ali mentos, identificando-os pelo aroma, sa bor, forma, textura e preparo e a familiari zam com os objetos usados nas atividades do dia a dia, como alimentar-se, vestir-se, fazer a própria higiene, abotoar e desabo toar, dar laço, usar zíper, dobrar, pendurar e guardar roupas. No último capítulo, o manual apresenta importantes considerações referentes à pesquisa realizada com familiares de usu ários de Laram ara (crianças e adolescentes de 6 a 13 anos), usando um questionário sugerido no capítulo “Avaliação” . Esse instrumento tem ainda a intenção de propor às famílias situações que poderão ser introduzidas com seus filhos, para inte grá-los ao ambiente em que vivem. A pes quisa será importante também para o esta belecimento das bases de um trabalho de AVA que será desenvolvido em Laramara. As Atividades de Vida Autônoma não são mero treino de habilidades, mas a forma essencial para o sujeito ser reconhecido como pertencente ao seu grupo social. Si erra C A P - P E CENTRO DE APOIO PEDAGÓOICO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VfSlíAL GERALDO FEITOSA DA SILVA GESTOR - MATRÍCULA 1573 % m Nosso agradecimento As crianças e famílias de Laramara, que nos ajudam a trilhar novos caminhos e descobrir meios que beneficiem sua integração ao ambiente e à cultura. Aos profissionais que nos precederam nesse trabalho, desenvolvendo pesquisas e divulgando métodos e serviços no Brasil e em vários países, e que foram nossa fonte de inspiração. Autora M ara O. de Cam pos Siaulys Pesquisa A na Paula Braga E liana M. Orm elezi Colaboradores Cecília M aria Oka Eliana M. Orm elezi Eliana Paulino João M. Felippe M aria da Graça Corsi Projeto gráfico e diagramação M alu Calissi Revisão de texto Célia Cam pos Pardo Tratamento de imagem Em erson Roberto M ariano Produção gráfica e finalização Gráfica & Bureau Laram ara Fotografia Alan G ouveia A rquivo Laram ara G uilherm e Calissi Tiragem 5000 exem plares Impressão JC Print Gráfica e Editora Capa A m anda Vitória Alves Larissa de O liveira Dias Foto G uilherm e Calissi LARAMARA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ASSISTÊNCIA À PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL Laram ara - Associação Brasileira de A ssistência à Pessoa com Deficiência Visual Rua Conselheiro Brotero 338 Barra Funda São Paulo SP Brasil CEP 01154-001 Tel 55 11 3660-6465 Fax 55 11 3662-0551 www.laram ara.org.br http://www.laramara.org.br C A P - P E CENTRO DE APOIO PEDAGÓGÍCO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA VfSUAL GERALDO FEITOSA DA SILVA GESTOR • MATRÍCULA 1573 ATIVIDADES DE VIDA AUTÔNOMA ESSÊNCIA DA VIDA EM SoclEDADE Mara 0 . de Campos Siaulys Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Siaulys, Mara 0. de Campos Atividades de Vida Autônoma : em sociedade / Mara 0. de Campos São Paulo : Laramara, 2014. essência da Siaulys. — vida ISBN 978-85-64177-03-1 1. Brincadeiras 2. Brinquedos 3. Crianças deficientes visuais I. Titulo. educativos - Educação 14-01734 CDD-371.911 índices para catálogo sistemático: 1. Brinquedos e brincadeiras para o aprendizado das atividades de vida autônoma : Crianças com deficiência visual : Educação 371.911 L aram ara - A ssociação B ras ile ira de A ssis tên c ia à Pessoa com Deficiência Visual Rua C onselhe iro B ro tero 338 B arra Funda São Paulo SP B rasil CEP 01154-001 Tel 55 11 3660-6465 Fax 55 11 3662-0551 www.laram ara.org.br http://www.laramara.org.br ATIVIDADES DE VIDA AUTÔNOMA ESSÊdClA BA VIDA EM SoclEDADE Mara 0 . de Campos Siaulys LARAMARA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ASSISTÊNCIA À PESSOA COM DEFICIÊNCIA VISUAL São Paulo, 2014 SUMÁRIO Prefácio 13 Apresentação 18 Introdução 21 A autonomia para alimentar-se 55 A autonomia para fazer a higiene 69 A autonomia para vestir-se 79 Aprender brincando as Atividades de Vida Autônoma 89 Avaliação 127 Autonomia de crianças e adolescentes com deficiência visual nas atividades da vida cotidiana: conhecendo os usuários de Laramara, na visão de seus familiares, para melhor atendimento às suas necessidades 141 Considerações finais 147 Referências bibliográficas 150 PREFÁCIO Esta publicação, que tenho o privilégio e a satisfação de prefa ciar, e que a comunidade composta por pais, professores e demais profissionais que convivem ou atuam junto às pessoas com defici ência visual, cegas e com baixa visão, está recebendo, revela-se de grande importância para a educação e a formação da pessoa sob essa condicionalidade e pode, ainda, ser inspiradora para aqueles que atuam em outras áreas. Sua leitura é estimulante e suscita vá rias indagações sobre questões essenciais relacionadas ao desen volvimento e à estruturação do psiquismo das pessoas privadas da visão por meio do aprendizado e domínio das atividades de vida autônoma/atividades cotidianas. 13 Em todos os “cantinhos” dessa obra encontramos a presença marcante da autora e pesquisadora, que faz com que nos reporte mos a uma reflexão de Saramago (2004) sobre “responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam [ou nunca os tiveram]”. Vejo na sistematização e organização de todo esse material uma tentativa de dar luz a olhos que veem para que possibilitem aos demais as condições necessárias para se apropriarem dos bens e da cultura produzidos historicamente pela humanidade. Essa pre ocupação em compartilhar experiências com outros profissionais revela a própria paixão da autora e o seu profundo envolvimento com a educação das pessoas com deficiência visual. Ela contagia a nós, educadores, e faz-nos sonhar e projetar um mundo melhor, onde as pessoas com deficiência possam buscar a compensação, e até a supercompensação com a finalidade de serem tão huma nizadas como as demais. Um mundo no qual sejam capazes de produzirem e de reproduzirem não somente o saber espontâneo, tão importante, mas não suficiente, em conhecimentos científicos. Um mundo no qual a ciência seja comprometida com a vida, com a prática social de deficientes e não deficientes. Esta obra elaborada com todo cuidado e conhecimento teórico e prático instiga-nos a olhar para as ações realizadas na cotidia- nidade como um espaço de reprodução da genericidade e funda mental para a construção social do psiquismo das pessoas. Ela nos lembra de que nas mais simples ações cotidianas, como no ato 14 de alimentar-se, vestir-se, deslocar-se no ambiente, dentre outras, estão os germes para se identificar o pertencimento ao mundo dos homens de dada época e cultura. Nessas ações cotidianas estão os pré-requisitos para a formação da genericidade e da singularidade, sendo que as elaborações posteriores darão prosseguimento à mar cha da humanização. Quando falamos em humanização, nos refe rimos a um longo processo que leva o indivíduo de ser biológico a ser histórico, ser cultural. Consideramos que a autora, ao tratar da atividade de vida autônoma na cotidianidade da pessoa com deficiência visual, reporta-se a tal processo, não vendo esse traba lho apenas como mero treino, mas um componente fundamental, como a essência da vida em sociedade. Entretanto, o ensino que é capaz de humanizar a pessoacom deficiência e que favorece a aprendizagem não pode ser conduzido mediante o “espontaneísmo” ou um “achismo” pedagógico, mas com base em resultados de estudos e pesquisas. Por atuar na área já há muito tempo, constatamos por meio de observação direta e de pesquisas realizadas que, se a criança com deficiência visual ficar entregue a si mesma, não irá apropriar-se e formar conceitos mais elaborados e complexos que lhe permitam compreender o mundo e junto a ele intervir; não terá condições de imaginar o que não faça parte da sua realidade imediata, ficando limitada caso não haja uma mediação eficiente. 15 É preciso destacar que a autora foi fundadora, em 1991, da Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual - Laramara, da qual é presidente e na qual atuou como pe dagoga por vários anos. Nesta instituição tem a oportunidade de desenvolver esse grande trabalho que agora compartilha. Em todos os capítulos que compõem este livro, o leitor perce berá a presença da autora e pesquisadora. Na introdução apresenta definição, conceitos e a importância das atividades de vida autônoma para o desenvolvimento e a in clusão da pessoa com deficiência visual, ainda, apresenta a forma com que muitos pesquisadores compreendem as AVAs/cotidianas. Nos três próximos capítulos apresenta como a criança com de ficiência visual pode ter autonomia para alimentar-se, fazer sua higiene pessoal e vestir-se, e muito importante, sempre com suges tões de materiais que podem ser utilizados para o aprendizado des sas atividades. No capítulo seguinte a autora mostra que a criança pode aprender as AVAs brincando, trazendo ainda sugestões de brinquedos de fácil confecção para realizar esse aprendizado. Na seqüência, num novo capítulo, a autora apresenta um ins trumento de avaliação de necessidades específicas, por meio de questionários, para verificar como está o desempenho da criança nos domínios de: alimentação, higiene, vestuário, conhecimento do corpo/domínio psicomotor de espaço e tempo, conhecimento de mundo/domínio de ambiente e dos afazeres da vida prática, há bitos e comportamentos sociais, brinquedos e brincadeiras. Finaliza com apresentação e análise de resultados de pesquisa realizada na LARAMARA sobre o tema em questão neste livro. Recomendamos a leitura desta obra por todos aqueles que de sejam levar a termo um ensino capaz de proporcionar aos alunos com deficiência visual conhecimentos que lhes permitam transfor- $mutuamente. Um não pode existir sem o outro. E pelo uso dos conceitos cotidianos que as crianças dão sentido às definições e explicações de conceitos científicos. Os conceitos do dia a dia forne cem ao desenvolvimento dos conceitos científicos o “conhecimento vivido”, isto é, os conceitos do dia a dia medeiam a aquisição dos conceitos científicos. En tretanto Vygotsky (Ibid.) propôs que os conceitos coti dianos também se tomam dependentes e são mediados e transformados por conceitos científicos. 22 As Atividades de Vida Autônoma estão ligadas à abordagem socioeducativa e referem-se às atividades de autocuidado, alimentação, afazeres e a condutas que promovem a aprendizagem referente ao ambiente em que se vive. Estão presentes nas rotinas diárias de todas as crianças e são aprendidas por elas de forma natural, pela imitação das ações dos adultos, na convivência com os hábitos comportamentais familiares, passados de geração em geração (SIAULYS et al, 2010, p.120). GU IL HE RM E C A LI SS I As pessoas com deficiência visual não podem aprender pela imitação e precisam ser ensinadas a desempenhar as habilidades que lhes proporcionem independência e autossufíciência para atender as necessidades da vida prática. A criança que enxerga pouco ou não enxerga precisa desenvol ver a eficiência visual e os outros sentidos para entender e realizar 24 as atividades, sendo necessário que lhe ensinem os movimentos e posturas, não só as complicadas, mas até os gestos e trejeitos mais simples e corriqueiros. A nomenclatura Atividades de Vida Autônoma (AVA) foi adotada em 2008 a partir da “Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusi- va”. Desde 2001 havia a designação Atividades de Vida Autônoma e Social (AVAS) com base nas “Diretrizes Nacionais da Educação Especial na Educação Básica” e antes dessa data Atividades de Vida Diária (AVD). As AVD passaram a ser de atuação clínico-terapêutica exclusiva da Terapia Ocupacional. (Cf. SIERRA, 2009 apud SIAULYS et al, 2010, p. 120). As Atividades de Vida Autônoma não são mero treino de habi lidades, mas a forma essencial para o sujeito ser reconhecido como pertencente ao seu grupo social, uma “forma de humanização e formação do gênero humano particular” (.Ibid’ p. 121). A reflexão trazida por essa autora é de fundamental importância, considerando-se que cada criança ou jo vem com deficiência visual ou com deficiência múltipla associada é um sujeito capaz de aprender e construir conhecimentos a partir de vivências contextualizadas e significativas. Desta forma, estas atividades não podem ser apenas treinadas com técnicas específicas e genera lizadas, mas é preciso oferecer às crianças alternativas socioeducativas que lhes proporcionem condições de participar da sociedade de forma plena (SIAULYS et al, 2010, p .121). 25 De acordo com Heller (2002 apud SIERRA, 2009, p. 19): """"l Na cotidianidade entram em funcionamento todos os sentimentos, todas as capacidades intelectuais, as habilidades manipulativas, os sentimentos, paixões, ideias e ideologias. Entram em jogo as várias capacidades como visão, audição, olfato, habilidade física, espírito de observação, memória, sagacidade, capacidade de reagir. Ao nascer, o ser humano encontra um mundo já pronto e pas sa a assimilar usos e costumes da sua cultura, bem como as experi ências de trabalho, apropriando-se assim da história humana. Para Heller (1972), o ser humano ganha status de adulto, quando se torna capaz de exercer por si mesmo a sua cotidianidade. “Deve aprender a segurar o copo e a beber no mesmo, a utilizar o garfo e a faca, para citar apenas os exemplos mais — ii... triviais” (p.19). A assimilação da manipulação das coisas é sinônimo de assi milação das relações sociais. E a autora enfatiza ainda: O que assimila a cotidianidade de sua época assimi la também o passado da humanidade. A vida cotidiana não está fora da história... é a verdadeira essência da substância social (Ibid. p. 20). 27 Sierra (2009, p.2) em sua pesquisa à obra de Vygotsky e de Heller, indica que: Todos podem se desenvolver desde que se ofereçam mediações adequadas; todos podem compensar seus limites biológicos por meio de reequipamento cultural; a cotinianidade torna-se o alicerce para a formação do gênero humano. Para Barroco (2007, p.245, apud SIERRA, 2009, P* 18): O homem cultural é aquele que, vivendo com outros homens, apropria-se e cria formas mediatas de estar no mundo, de apreendê-lo, de transformá-lo. Necessaria mente, vale-se da língua/linguagem para tanto e desen volve o pensamento verbal. Este passa a regular o seu comportamento, permitindo que suas próprias funções elementares (sensação, percepção) sejam desenvolvi das para um dado curso que o habilita a estar no mundo de modo ativo. 28 Ver página KIT DE H IG IE N E Ver página 96 w fy * . C IRA N D A DAS C O R E S Ver página 94 O pensamento e a linguagem, cada um em seu curso inicial de construção, acompanham a ação para unirem-se em um todo com plexo e significativo que vai sustentar a construção dos conceitos a partir das práticas da vida cotidiana. A autora, citando Souza (2004, p.43), refere que a escola tem “diante de si a tarefa de criar formas de trabalho que respondam às peculiaridades de seus educandos, impondo não a deficiência, mas a superação da mesma”. A escola deverá então criar mediadores que ajudem os alunos a superar suas dificuldades, a se humanizar e reconhecer o papel fundante da linguagem. Por favorecerem a autonomia e independência da criança na exploração do ambiente e no conhecimento do próprio corpo, as atividades cotidianas devem aparecer na rotina da escola, podendo ser usadas na abordagem educacional como importante estratégia de aprendizagem e de desenvolvimento cognitivo, perceptivo-mo- tor e da afetividade. Sozinha ou com a ajuda de um adulto, a criança pode, o mais cedo possível, coordenar as informações que recebe com estas atividades, para adquirir habilidades e se desenvolver. ""— I Nas situações do cotidiano, a criança explora os diferentes materiais, provocando transformações e fazendo descobertas. Ao realizá-las, a criança participa do ambiente, conhecendo os objetos utilizados, seu nome, uso e função, aprendendo sobre o funcionamento do mundo e sobre formas de agir, formando conceitos e desenvolvendo habilidades. “São situações ricas para o desenvolvimento cognitivo: pensamento lógico, noções de espaço-tempo, classificações e seriações, raciocínio matemático e para compreensão das transformações” (BRUNO, 1993, p.110). 31 f f e l - - ; . De acordo com Machado (2003, p.25, apud CARLETTO, s/d, p.7): A criança cega ou com baixa visão entregue a si mesma não irá alcançar a formação de conceitos simples do dia a dia e menos ainda os conceitos mais elaborados e complexos que lhe permitam compreender o mundo. Muitas vezes chega à escola sem um passado de ex periências como têm seus colegas que enxergam, não domina as rotinas da vida cotidiana de acordo com sua idade; os seus conceitos básicos como esquema cor poral, lateralidade, orientação espacial e temporal são quase inexistentes e sua mobilidade é difícil, o que po derá levar à baixa autoestima e dificultará o seu ajusta mento à situação escolar, isto é, a sua inclusão de fato. Assim, é necessário ajudar a criança com deficiência visual em seu desenvolvimento psicomotor, social e cognitivo, para que adquira noções de tempo e espaço, competências e habilidades para orientação e mobilidade e outras atividades da vida cotidiana, bem como outros conceitos que a levarão à construção da escrita e leitura, aprendizado do Sistema Braille e as noções aritméticas envolvidas no aprendizado do soroban, seu instrumento de cálculo. lO T O SÍ il II III K M liC M .IS SI MOBILE DE BRINQUEDOS Ver página 99 AI .A N G O U V H IA ■ Experiências motoras como o arrastar,engatinhar, balançar e puxar são fundamentais para aprendizagens mais específicas como, por exemplo, a preensão manual e os movimentos de pinça, importantes para a realização das atividades rotineiras. O que se pretende é facilitar seu desenvolvimento global e sua participação na sociedade, proporcionando-lhe experiências que lhe permitam ser uma pessoa funcional em seu ambiente de manei ra autônoma, com recursos que a ajudem a superar a falta de visão. As diferentes aquisições na primeira infância, fundamentais para seu desenvolvimento, são atingidas por meio da brincadeira e participação em todas as situações na vida familiar e escolar. É necessário ainda incentivar a criança a realizar atividades que a ajudem a fortalecer mãos e braços, importantes para a reali zação das atividades diárias. GUIZO PÉ E MÃO Ver página 101 A criança com deficiência visual precisa ser auxiliada a conhecer seu próprio corpo e a explorar seu ambiente, interagir com as pessoas, fatos e objetos do meio, pois seu aprendizado ativo e constante vem do contato social na família, na escola e na comunidade. Ao longo de seu desenvolvimento corporal, afetivo-emocional e cognitivo, a criança que tem acesso a condições apropriadas vai evoluindo até tornar-se um ser integrado como pessoa socialmente participante e estará preparada para aprender atividades mais complexas da vida social e profissional. Para que a criança com de ficiência visual se desenvolva, seja uma pessoa realizada, inte grada à sociedade e feliz, é ne cessário que ela encontre amor no ambiente familiar e social, fundamental para que ela se sinta segura. Assim ela vai ser independente, poderá freqüen tar a escola, trabalhar, produzir e se realizar. Assim, carregar, empurrar, chutar e atirar bolas, abrir armá rios, pular, rodar, subir escadas, tudo isso a ajudará, no futuro, a desenvolver as atividades roti neiras com maior facilidade. A criança com deficiência visual tem plenas possibilidades para isso, pois para Vygotsky (1989 p.74): A cegueira, ao criar uma forma peculiar de personali dade, reanima novas fontes, muda as direções normais do funcionamento e, de uma forma criativa e orgâni ca, refaz e forma o psiquismo da pessoa. Portanto, a cegueira não é somente um defeito, uma debilidade, senão também, em certo sentido, uma fonte de mani festação das capacidades, uma força.1 Para a aquisição das atividades de vida autônoma que a maio ria das crianças aprende incidentalmente, como várias posturas e comportamentos à mesa, noções de higiene e vestuário, gestos, ex pressões faciais e traquejos sociais, entre outros, a criança com defi ciência visual, por não imitar visualmente, precisa ser orientada. Não basta, entretanto, somente falar-lhe a respeito para que consiga rea lizar as atividades de forma satisfatória. E necessário proporcionar meios para que ela e seus pais conheçam e tenham acesso a certas técnicas que facilitam o desempenho dessas atividades, para evitar a dependência e constrangimentos futuros. E necessário dar instru ções claras para a criança com deficiência visual, dando nomes a to dos os objetos, explicando e mostrando corpo a corpo a realização de todas as atividades, com experiências concretas, não só verbais, e as atividades devem ser repetidas tantas vezes quantas forem ne cessárias. Ensiná-la é uma tarefa que exige conhecimento, habili dade, paciência por parte da professora e da família, especialmente da mãe. 1 Tradução de SIERRA (2009, p. 14) r E importante que a criança sinta pelo tato os movimentos do corpo do adulto, que deve ajudá-la, guiando suas mãos. Entre as atividades cuja aquisição deve ser facilitada para a pessoa cega e com baixa visão desde muito cedo e que devem ser priorizadas pela família e a escola, podem ser citadas as de cuidados pessoais, alimentação, higiene pessoal e vestuário. n Os conceitos básicos, como o conhecimento do próprio corpo, lateralidade e orientação espacial e temporal, devem ser introduzi dos o mais cedo possível, de forma lúdica, por meio de brinquedos e brincadeiras. À medida que a criança vai se desenvolvendo, mui tas outras situações ocorrerão, trazendo oportunidades de aprendi zado sobre cuidados com a saúde, aparência pessoal, comunicação pelo telefone, verificação de horas, compras e manejo de dinheiro, profissionalização e trabalho, autonomia para se deslocar, admi nistração do lar, integração à vida da comunidade, compreensão e aprendizado das regras sociais, comportamentos e condutas para viver em sociedade. Para Arruda (apud SAMPAIO et al, 2010, p.470), “Os atendi mentos de AVD para pessoas com deficiência visual abrangem ações de aspectos práticos e funcionais da rotina diária, reali zadas na própria casa, na escola, no trabalho e nos demais ambien tes.” Segundo a autora, as atividades são divididas didaticamente em seis domínios: higiene e cuidado pessoal; vestuário e uso de acessórios; alimentação e preparo dos alimentos; organização e limpeza do ambiente; administração da casa, das finanças e reparos em geral; participação na comunidade, hábitos e atitudes sociais. IMITANDO A MAMAE Ver página 103 41 .. . ...— | As habilidades para desempenhar as tarefas cotidianas devem ser incentivadas desde os primeiros meses de vida da criança, usando-se muitos brinquedos e brincadeiras, introduzindo-se a tarefa de acordo com a idade e desenvolvimento da criança. Na fase pré-eseolar as atividades devem ser realizadas de for ma lúdica e prazerosa, com muito diálogo, jogos, brincadeiras, brinquedos e cantigas, pois a criança aprende brincando. O bebê pode ser incentivado a segurar a mamadeira, que, com uma textura interessante, é uma pista tátil que facilita sua exploração. Se a criança tiver baixa visão, pode-se envolver a mamadeira em uma capa de listras brancas e pretas para incentivar o uso da visão. CAPA DE MAMADEIRA Ver página 105 As habilidades de vida autônoma devem ser ensinadas na escola, mas principalmente em casa, onde a criança passa a maior parte do tempo. A família pode encontrar soluções interessantes e adequadas, compatíveis com suas possibilidades. Cada família tem a rotina organizada de uma maneira própria, com costumes e valores que norteiam a vida de seus membros, mas muitas situações e afazeres são comuns a todas elas. AL AN G O U V EI A O planejamento do trabalho com a criança deve ser uma pre ocupação constante de familiares, professores e de todos os que interagem com ela, sendo importante a comunicação entre todos, num trabalho conjugado, com o uso das mesmas palavras, esco lhendo os mesmos objetos e compartilhando relatórios. Todos os membros da família devem ser orientados e precisam colaborar nas várias etapas, evitando atitudes de superproteção e respeitando o tempo da criança para a realização das atividades. q aprendizado poderá ser muito lento e a criança demorar mais para descobrir e compreender o que se passa em volta, necessitando mais tempo para identificar e entender um objeto, uma pessoa, um ambiente ou um evento. Devemos então separar com antecedência alguns materiais que ajudam na realização das atividades cotidianas, de forma lúdica e interessante. — É necessário despertar sua curiosidade e deixar que ela manipule e aja sobre o objeto o tempo que precisar, respeitando seu ritmo. A criança poderá ter dificuldade para reconhecer cores, for mas, objetos e figuras, enxergando o objeto de forma confusa, ou percebendo só uma parte dele. Ela deve ser ajudada a pesquisá-lo como um todo, cada parte, seus detalhes, os pontos principais, e a identificar seu nome, uso e função. Muitas vezes são necessários auxílios especiais como lupa e telelupa, na realização de atividades escolares e do cotidiano. 45 AR QU IV O t.A R A M A R A O planejamento do trabalho com a criança deve ser uma pre ocupação constante de familiares, professores e de todos os que interagem comela, sendo importante a comunicação entre todos, num trabalho conjugado, com o uso das mesmas palavras, esco lhendo os mesmos objetos e compartilhando relatórios. Todos os membros da família devem ser orientados e precisam colaborar nas várias etapas, evitando atitudes de superproteção e respeitando o tempo da criança para a realização das atividades. “ ™— — — i O aprendizado poderá ser muito lento e a criança demorar mais para descobrir e compreender o que se passa em volta, necessitando mais tempo para identificar e entender um objeto, uma pessoa, um ambiente ou um evento. Devemos então separar com antecedência alguns materiais que ajudam na realização das atividades cotidianas, de forma lúdica e interessante. 1 1 “ E necessário despertar sua curiosidade e deixar que ela manipule e aja sobre o objeto o tempo que precisar, respeitando seu ritmo. A criança poderá ter dificuldade para reconhecer cores, for mas, objetos e figuras, enxergando o objeto de forma confusa, ou percebendo só uma parte dele. Ela deve ser ajudada a pesquisá-lo como um todo, cada parte, seus detalhes, os pontos principais, e a identificar seu nome, uso e função. Muitas vezes são necessários auxílios especiais como lupa e telelupa, na realização de atividades escolares e do cotidiano. 45 U M , D O IS... FEIJÃO COM A R R O Z Interessante ainda usar cores contrastantes, boa iluminação e manter o ambiente e os materiais organizados para facilitar o bom desempenho da criança. Quando possível e necessário, os mate riais devem estar rotulados para facilitar seu manuseio. A família deve incentivar a participação da criança em todos os momentos da vida familiar, principalmente das refeições, mas também nas atividades sociais, momentos valiosos para o aprendi zado de condutas. — ■ A escola é um local importante para o aprendizado das Atividades de Vida Autônoma: a hora do lanche, a higiene pessoal, a troca de roupas, a organização do material, as regras de convivência, o pensar e o agir adequados a cada situação são oportunidades de aprendizagem e humanização. Assim, o trabalho da escola é o de ajudar a criança a adquirir rotinas como horário para o lanche, para brincar e ir ao banheiro, a cuidar de seus materiais. De acordo com Arruda (2001, apud SIERRA, 2009), essas ati vidades fazem parte de projetos pedagógicos e compõem os conte údos curriculares, cabendo aos educadores ampliar o conhecimen to de mundo e processo de pensamento das crianças. atjvjcja(jes devem ser desenvolvidas continuamente e, de preferência, nos ambientes naturais da criança, no momento apropriado e com os objetos e materiais reais, como, por exemplo, a participação nas refeições familiares e no lanche com seus amigos da escola. 47 Alguns pais e professores valorizam pouco o ensino dessas atividades e por isso negam à criança as oportunidades necessárias ao aprendizado. O professor que está no Atendimento Educacio nal Especializado de alunos cegos nem sempre tem conseguido realizar as Atividades de Vida Autônoma com seus alunos por vá rios motivos, tais como a falta de recursos materiais adequados, ausência de espaço físico, existência de classes numerosas, idades muito variadas dos alunos, excesso de outras atividades como o ensino do Braille e do soroban, e ainda a transcrição de conteúdos trabalhados na sala comum. Esse professor acaba priorizando as atividades acadêmicas em detrimento das Atividades de Vida Diá ria, comprometendo assim o desenvolvimento das funções psico lógicas superiores, que são afetadas pela falta de aprendizado das funções rotineiras. (Cf. SIERRA, 2009, p. 10) Para que a criança desempenhe melhor as tarefas cotidianas, precisa se familiarizar com sua casa, com o ambiente escolar e com todos os locais da comunidade que irá freqüentar. Conhecer a localização de cada cômodo da casa, portas, janelas, cortinas, móveis, armários e gavetas; receber explicação sobre o uso e função de cada cômodo ou utensílio, manipular aparelhos como geladeira, televisão, aparelho de som, forno de microondas, fogão, máquinas de lavar roupa, de secar e de lavar pratos são atividades úteis para sua independência se introduzidas no momento _ _ l adequado. 49 PR É -B E N G A L A Ver p ág in a 11 2 É necessário que ela identifique os ruídos de cada parte da casa, som de campainha, torneiras e máquinas, recebendo explicações sobre eles. Se necessário devem ser utilizadas pistas sonoras, olfativas e táteis para reconhecimento dos diferentes locais da casa. Por exemplo, o tique-taque forte de um relógio na sala, um sininho que ela acione ao passar para a cozinha, um perfume gostoso no banheiro, faixas coloridas e táteis na porta de seu quarto. r — — 1 E importante também que ela conheça as áreas externas de sua casa. A porta da frente pode ser identificada por um elemento sonoro ou um capacho, por exemplo, e a saída para o jardim ou para a rua tem que ser muito conhecida. Cada detalhe da entrada da casa deve ser familiar: a existência de escada, o número de degraus; o jardim, as plantas; a porta, o portão, as chaves e trincos; a entrada de carro, o rebaixamento da guia. O fundo da casa, a área de serviço, o quintal, as plantas devem ser bem explorados e conhecidos. No caso de morar em apartamen to, será útil a familiarização com o número de andares e de apar tamentos, os elevadores, escadas, garagem, parque e vizinhança. “ I A experimentação, a vivência do dia a dia, complementadas por comentários e descrições, permitem que a criança conheça o ambiente, possa descrever sua moradia a qualquer momento e, principalmente, tenha segurança para se deslocar e realizar suas atividades da vida cotidiana. 51 Conhecer o interior de sua casa, saber se deslocar pelos diferentes cômodos, caminhar sozinha até o banheiro, manejar portas, maçanetas e botões de luz é muito útil para a criança maior na realização das atividades de higiene. , Por meio de brinquedos, a criança pode entender melhor o interior de sua casa. Mudanças no ambiente devem ser antecipadas e sinalizadas corretamente, para que ela não tenha surpresas e sinta-se mais se gura. Todos os cuidados devem ser tomados para eliminar quais quer objetos que estejam em seu caminho como baldes, vassouras, etc., evitando que ela tropece. Preste atenção a dobras nos tapetes, evite encerar pisos para que eles não se tornem escorregadios. Mantenha as portas total mente fechadas ou totalmente abertas, evitando que ela bata a ca beça na quina. ......... ~ E fundamental que todos acreditem no potencial das crianças e jovens para a realização das atividades de vida diária. As dúvidas dos familiares e professores sobre suas capacidades são prejudiciais para a formação de um conceito positivo de si mesmas. 53 A LA N ' G O IJ V F. IA A autonomia para alimentar-se A participação nas refeições é essencial para a educação da criança, dando-lhe oportunidade de integrar-se à família, intera gir com as pessoas presentes, de conversar e escutar os assuntos familiares, aprender comportamentos à mesa e adquirir hábitos r saudáveis, como sentar-se adequadamente e usar guardanapo. E também um momento para descobertas e aprendizado sobre os ali mentos e utensílios usados nessa atividade, para explorá-los pelo tato, aprender o nome, uso e função de cada um, de grande utili dade para a integração dos sentidos e ampliação do vocabulário. ......De acordo com Kirk (1987 apud SIAULYS et al, 2010, p.155) “as crianças cegas precisam saber tanto quanto possível a respeito dos objetos comuns, têm de tocar e usá-los ao mesmo tempo em que ouvem seus nomes para compreenderem melhor os objetos e conceitos envolvidos.” As refeições devem ser feitas em ambiente alegre e tranqüilo, em que a criança se sinta aceita e confortável. A mãe deve estar orientada acerca das necessidades da criança com relação à pos tura e os alimentos mais adequados, que devem ser oferecidos deforma gradual. 55 É interessante que a criança curve o corpo ligeiramente para a frente, trazendo a face sobre o prato para evitar que os alimentos caiam para fora dele quando forem levados à boca. A exploração da mesa, que ajuda na localização dos utensílios usados na alimentação, deve ser feita pela criança pela técnica de rastreamento em leque e grade1. Os dedos devem manter contato direto com a superfície em volta do prato, que pode ser colocado sobre uma placa antiderrapante — .... . J para evitar que se desloque sobre a mesa. 1 Leque e Grade são procedimentos que podem ser utilizados pela pessoa cega para localizar e explorar objetos sobre alguma su perfície: tampo de mesa, balcão, prateleira, piso, etc. Na utili zação da técnica de leque, a pessoa usa como referência o meio do seu corpo, de onde desloca as mãos para a direita e esquerda em semicírculos concêntricos até o limite de sua envergadura. Na grade a pessoa também usa a linha média como ponto de partida e desloca ambas as mãos para frente do seu corpo em uma linha vertical. Afasta as mãos para a sua direita e esquerda em movi mento horizontal. Retorna com as mãos para junto do seu corpo. Repete os movimentos até explorar toda a superfície no limite de sua envergadura. O limite da envergadura, em ambos os procedimentos, significa até onde as mãos podem alcançar com a extensão dos braços. Os movimentos devem ser controlados, suaves e com leveza de toque na superfície e nos objetos explorados. (C f FELIPPE, 1997) GUILIfERMK CAUSSI A criança deve ser informada sobre os alimentos que estão sobre a mesa, para poder escolhê-los e mostrar suas preferências, participando da escolha daqueles que serão colocados em seu pra to, a posição em que eles ficarão seguindo referências de laterali- dade como esquerda, direita, em cima e embaixo, e, quando atingir a idade adequada, poderá localizá-los de acordo com os ponteiros do relógio. As diferentes comidas não devem ser misturadas no prato para que a criança possa distinguir os vários sabores dos alimentos. .............. r , ™ , , , - ™ » ^ interessante que ela conheça os alimentos crus, veja a modificação que sofrem ao serem cozidos, como, por exemplo, arroz, feijão, milho, milho de pipoca, grão de bico, macarrão. Deve conhecer os legumes inteiros e com a casca, aprender o nome, sentir o aroma, a forma, a textura e consistência de cada um deles. Os comentários sobre a origem dos alimentos e como são pre parados são importantes - carnes, peixes, aves, vegetais: corta dos ou inteiros; crus, fritos, cozidos ou assados; com sal, pimenta, molho; quentes, frios ou gelados. Devemos informar a maneira e o local de armazenar os alimentos, por exemplo, no armário ou geladeira. Muitas vezes, a criança cresce sem ter noção da forma original dos alimentos, de como são preparados e até mesmo sem conhecer seus nomes. ........... Permita que ela ponha as mãos no prato e sinta a textura e a consistência dos alimentos, levando os dedos à boca para sentir o gosto de cada um. 59 Incentive-a a pegar alguns alimentos com as mãos para levá- los à boca como bolachas, banana, tirinhas de queijo, torrada, ovos mexidos, tirinhas de frango, ovos cozidos. r E interessante ajudar a criança a identificar os alimentos, doces ou salgados, amargos e picantes, moles, duros, pastosos e líquidos. 1 Sempre que possível a criança precisa receber as frutas inteiras para que conheça sua forma, textura e aroma, para descascá-las e mordê-las: maçã, pera, banana, mexerica e outras frutas. Ao oferecermos uma fruta descascada e cortada, pronta para ser consumida, dificultamos a compreensão da criança sobre suas características. Uma banana amassada ou em rodelas ou uma maçã raspada não lhe darão a chance de saber como elas são na realidade. Usar a colher para se alimentar é uma atividade que a criança deve aprender o mais cedo possível e, para facilitar sua preensão, podemos engrossar o cabo. Ajude-a a mergulhar a colher no alimento e levá-lo à boca, usando a técnica de mão sobre mão. Inicialmente colocamos sua mão sobre a nossa ao realizar a ação, mais tarde ela poderá segurar a colher e vamos colocar nossa mão sobre a dela para realizar o movimento. Finalmente vamos dar-lhe apenas apoio ao cotovelo. A criança deve ter a oportunidade de participar de todas as fases da alimentação; em tempo adequado deverá aprender a usar garfo e faca, e, inicialmente, pode usar facas plásticas para que ela desenvolva habilidades de corte ou use a faca como um apoio para empurrar a comida. 61 -------------^ O uso do garfo pode ser introduzido pela técnica de golpe, que é o de inserir a ponta do garfo no alimento e suspender, para alimentos sólidos como carne, batata, salada de frutas, etc; ou o processo de mergulho, que consiste em mergulhar a ponta do garfo por baixo dos alimentos, nivelando o garfo com o fundo do prato, usado para massas, arroz, creme e legumes. O peso do garfo ou da colher vai indicar a quantidade de ali mento que foi apanhada. Quando é difícil pegar os alimentos, pode- se usar um empurrador: uma faca, um pedaço de pão ou biscoito. Se houver necessidade de facilitar as atividades de alimenta ção, vários recursos adaptados podem ser usados. Há produtos à venda e outros podem ser confeccionados pela própria família. Os recursos adaptados devem ser retirados de uso gradativa- mente, quando não mais forem necessários. “ | Talheres com cabos engrossados, colheres com o cabo entortado para facilitar a colocação da comida na boca, adaptador de elástico para preensão, borda para evitar que o alimento caia do prato proporcionando ainda um apoio para o talher, copo com duas alças que ajudam a levá-lo à boca, copo com bico para ser usado por crianças pequenas como transição entre a mamadeira e o copo, copo recortado para o nariz, de forma que a pessoa possa tomar líquido sem inclinar a cabeça para trás e através do recorte o adulto possa ver a quantidade que a criança está ingerindo. 63 ná várias estratégias para auxiliar a criança na colocação correta de líquido no copo: a percepção bárica, na qual ela avalia a quantidade de líquido colocado pelo peso do copo; a percepção auditiva, pelo ruído que a bebida faz ao cair no copo; a sensação térmica que o líquido gelado ou quente produz. É importante ajudar a criança a preparar seu chocolate ou suco, a segurar a embalagem do leite e a colocá-lo no copo, adoçar e misturar o chocolate, a mexer com a colher. A criança deve segu rar a caneca quando for beber algum líquido. Podemos auxiliar a criança no aprendizado de preparar algum alimento como, por exemplo, um sanduíche, cortar o pão, passar manteiga, geleia ou requeijão; preparar seu suco de frutas, natural ou não, adoçar, mexer com colher, abrir a garrafa de refrigerante, colocar no copo ou usar canudinho. A criança pode participar das várias etapas de uma atividade como, por exemplo, a preparação de doces, pudins, gelatina e bolo, ver a transformação r.:= , : = = = . do material e o produto final. E interessante que ela abra a geladeira e o armário, escolha seus alimentos e possa se lembrar de quando os comprou no supermer cado. Deve abrir as embalagens e conhecer os nomes e os sabores: bolacha, iogurte, gelatina e bala de morango, de limão, de mel... 65 1 1 1 I Ela pode associar os horários das refeições com fatos que acontecem na vida da família e quais os alimentos mais consumidos em cada horário, conforme o costume de sua casa. Os familiares podem ajudá-la, relacionando os horários das refeições aos períodos do dia, café da manhã na hora de acordar, o almoço ao meio-dia e o jantar à noite. Muitas vezes é preciso asso ciar esses acontecimentos a vivências concretas, ou seja, além da informação verbal, levar a criança para ver se está claro ou escuro, se faz frio ou calor, repetindo as situações em diferentes momentos para que ela tenha possibilidade de compreendera realidade. É importante que a criança conheça os móveis da cozinha, os objetos e utensílios e sua localização e o conteúdo dos armários. Devemos alertá-la dos perigos de alguns objetos como fogão, liquidificador, água fervente, óleo quente, cabos de panelas, ferro elétrico, tomadas e fios soltos. Produtos de limpeza, remédios, ve nenos, inseticidas, objetos com ponta ou borda cortante e tesoura devem ficar fora do alcance da criança. 67 A autonomia para fazer a higiene A higiene pessoal é fundamental para o bom convívio social de todas as pessoas, e a criança com deficiência visual deve ini ciar o mais cedo possível seu aprendizado. Deve ser incentivada a conhecer as partes de seu corpo, saber usar os objetos para sua higiene, reconhecendo-os pelo tato, nome, uso e função. Aprender a fazer sua higiene melhora a autoestima, tomando-a segura e in dependente. r ............... E necessário que ela saiba chegar ao banheiro, localizar a pia, a torneira, o sabonete, a toalha de rosto e de banho, distinguindo uma da outra pelo tamanho. Saiba onde está o box e o chuveiro ou banheira; o papel higiênico, o vaso e o cesto de lixo; saiba também dar descarga, abrir e fechar torneiras e chuveiro. Precisa também conhecer e saber manejar e utilizar corretamente escova de dentes e de cabelo, sabonete, esponja, pente, xampu, talco, desodorante e secador de cabelos. r E importante ensinar à criança a necessidade de escovar os dentes nos horários adequados, mostrando-lhe todas as etapas des sa ação. Para ensiná-la a colocar a pasta na escova, vamos incen- tivá-la a utilizar as cerdas da escova como referência, usando os dedos indicador e polegar junto às cerdas como barreira mecânica para colocação da pasta. Se houver dificuldade, poderá colocar a pasta no dedo e depois passar para a escova. PRO BANHO Ver página 119 “"™— “ "—"l O banho é geralmente uma atividade prazerosa e um momento de alegre interação entre os pais e as crianças. Para que a atividade seja agradável, é fundamental usar recursos que proporcionem conforto não só para a criança, mas também para o adulto que vai ajudá-la. Os pais podem ajudar a criança a reconhecer as partes do seu corpo, nomeando-as à medida que a ajuda a passar sobre o corpo a esponja, o sabonete e a tolha de banho, para que ela assim forme a imagem corporal. Para as crianças com dificuldades motoras podemos utilizar cadeiras plásticas adequadas às suas necessidades, com cintos, se paradores de pernas e apoio de cabeça. As cadeiras devem ser de uma altura que possibilite ao adulto uma posição confortável. No banho de bebês e crianças pequenas pode-se usar material antiderrapante no fundo da banheira. O banho é também uma atividade que proporciona muitas oportunidades para a criança brincar e aprender, familiarizar-se com a água e os objetos de higiene e conhecer o próprio corpo. — 1~ Brincadeiras com sabonete, talco, esponja, toalha podem ser introduzidas e serão úteis para as criancas aprenderem sobre o ambiente e desenvolverem os sentidos: a temperatura da água, textura de escovas e esponjas, aroma e forma dos sabonetes, xampus, toalhas e outros objetos de higiene. A sacolinha de piscina é um brinquedo que ajuda no aprendizado dessas atividades e no conhecimento dos objetos de higiene. 71 Ver pág ir, A realização de atividades do dia a dia ajuda a criança em seu aprendizado. Por exemplo, ao usar as mãos para abrir e fechar a torneira, conhece a temperatura da água: quente, fria e morna. Escuta o ruído produzido pela água que escorre quando ela retira a tampa da banheira. Pode distinguir entre o banho na bacia, banheira e chuveiro. Incentivar a criança a desembrulhar o sabonete, sentir a forma e o aroma, esfregá-lo em cada parte de seu corpo, ao mesmo tempo em que lhe falamos sobre elas, vai ajudá-la a conhecer seu corpo. Explorar e manipular a embalagem do xampu, tirar a tampa e sentir o perfume, brincar com o tubo de desodorante ou talco, rosquear, cheirar, apertar o tubo de desodorante para fortalecer as mãos; brincar com uma escova de cerdas macias e com o pente, passando-os sobre os cabelos, são experiências interessantes para a criança, assim como a brincadeira com potinhos, vasilhas, —_ _ J bonequinhos e com espuma. Ao lavar os cabelos, a criança pode fazer uma concha com a mão e colocar nela o xampu. Pode-se também usar um dosador com a quantidade necessária. Enrolar a criança em uma toalha para que ela sinta o que é es tar envolvida é muito interessante e podemos chamar sua atenção para sua textura ao mesmo tempo que a ensinamos a enxugar-se. A retirada da fralda e o uso independente do banheiro podem ser mais problemáticos para algumas crianças. Nesse caso pode-se criar uma rotina para o uso do banheiro, observando-se os horários em que a criança normalmente tem vontade de fazer suas neces sidades e levando-a ao vaso sanitário com alguma antecedência. Assim, aos poucos ela irá relacionar os horários, mesmo que no início ela faça xixi na roupa. I O uso do peniquinho e do vaso deve ser introduzido em momento adequado. Para que algumas crianças se sintam seguras, podem ser necessárias algumas adaptações como as barras de apoio na banheira, no box do chuveiro e, sobretudo, perto do vaso sanitário. Ao usar o vaso, a criança deve apoiar os pés em um suporte. As crianças com comprometimentos motores graves podem necessitar de outras adaptações para o vaso, como cintos e apoio de cabeça. 75 Á i O aprendizado de como se limpar após o uso do vaso sanitário é difícil, mesmo para as crianças maiores. É necessário ensiná-las e explicar-lhes como dobrar o papel e segurá-lo, usando pedaços diferentes de papel para limpar cada órgão genital. É essencial mostrar às crianças que depois da utilização do banheiro, devemos dar descarga e lavar as mãos. I É importante ainda que ela aprenda a usar lenço de papel ou de tecido para assoar o nariz. A criança e o jovem têm direito à privacidade e a conhecer e explorar o próprio corpo, sendo que a ajuda e a presença do adulto no banheiro devem ser oferecidas sem esquecer esse aspecto. 77