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1 
 
 O papel dos Comentadores na história ocidental, à luz do Positivismo.
 
 Arthur Virmond de Lacerda Neto. Agosto de 2019. 
 
Resumo. Na parte histórica do seu Sistema de filosofia positiva, Augusto Comte refere-se a legistas, a quem 
atribui papel importante na liquidação da herança medieval: do estudo do Direito Romano, a atitude crítica se 
transferiu para outros domínios do saber, graças à Escola dos Comentadores, modo de ver que até importantes 
historiadores do Direito não perceberam. Comte também compara-os com os juristas romanos. 
Palavras-chave: Sistema de filosofia positiva. Augusto Comte. História do Direito. Escola dos Comentadores. 
Direito Romano. 
I- A filosofia da história do Positivismo. 
II- Movimentos crítico e orgânico. 
III- A mentalidade revolucionária e os Comentadores. 
IV- Juízos de autoridades. 
V- Conclusões. 
 
 I- A filosofia da história do Positivismo. 
 obra de Augusto Comte (1798 - 1857) é assaz conhecida pela criação da 
Sociologia (e deste vocábulo), como ciência dos fenômenos sociais, e do 
Positivismo, que consagra o espírito positivo como base do entendimento 
humano. Ela é um pouco menos conhecida como instituidora da religião da Humanidade: 
conjunto de princípios de orientação individual e forma de congraçamento das pessoas 
destituída de sobrenatural, constituída com base na concepção de Humanidade, que encarece 
os bons sentimentos, a cooperação, a paz, a liberdade, o conhecimento científico.1 
 Ainda menos conhecida, no Brasil, é a filosofia da história do Positivismo: ela 
compreende o terceiro volume (1853) do Sistema de Política Positiva, em que Augusto 
Comte analisou as fases do feiticismo, do politeísmo, do monoteísmo e a (ainda atual) fase 
revolucionária da história humana; também abarca o volume quinto (1840) do Sistema de 
Filosofia Positiva, em que ele demonstrou a sua célebre lei dos três estados, no tocante à 
evolução da atividade, do afetividade e do entendimento.2 
 Comte destacou o papel de certa corrente de juristas e reconheceu-lhes relevância que 
até importantes historiadores do Direito e romanistas não vislumbraram: enquanto estes 
 
1 Na cidade do Rio de Janeiro existe o Templo da Humanidade; em Porto Alegre, a Capela da Humanidade; 
em Curitiba, o Centro Positivista do Paraná. A atuação dos Positivistas na campanha republicana, na 
organização da república brasileira e a pregação, por décadas, de Raimundo Teixeira Mendes e Miguel 
Lemos (positivistas ortodoxos, do Rio de Janeiro) contribuiu para atribuir à religião da Humanidade certa 
notabilidade, no Brasil. 
2 São inúmeros, na Europa e nos EUA, os conspectos e os estudos de pormenor, destas obras. Eles rareiam no 
Brasil, já porque rareiam os exemplares dos dois Sistemas (esgotados), já porque se mantêm no original 
francês, sem traslado para o vernáculo, já porque, ao longo de décadas, os meios teológicos (máxime 
católicos) e, mais recentemente, marxistas, hostilizaram o Positivismo, como ateu e burguês. Sobre isto, o 
conhecimento raso das suas doutrinas, a leviandade em avaliá-las e a repetição, ainda atual, de toleimas, 
desfigura o Positivismo. Por outro lado, tem-se reiterado, nas últimas décadas, esforços bemfazejos de 
informação correta e avaliação honesta, da parte de pesquisadores (a exemplo de Hélgio Trindade, José 
Murilo de Carvalho, Ângela Alonso; com reservas, João Ribeiro Júnior; eu próprio). 
 A 
2 
 
limitaram-se ao Direito, como objeto da suas avaliações, Augusto Comte considerou o 
desenvolvimento do ocidente no seu conjunto. Eles historiaram o Direito ocidental; Comte 
historiou a civilização ocidental. 3 
 Além disto, os mesmos historiadores do Direito e romanistas aparentemente 
desconheceram a contribuição de Comte em filosofia da história e no ponto específico da 
história do Direito; provavelmente, jamais o leram, fosse no original, fosse nas condensações 
disponíveis em inglês, francês e português.4 Certo é que Calasso, Koschaker, Wieacker, 
Caenegen, Lopes, Villey, Hespanha, Cruz, Meira, Lobonão o incluem dentre as suas fontes.5 
 O quinto e sexto volume do Sistema de Filosofia Positiva descreve, por miúdo, os dois 
movimentos, crítico e orgânico, dos últimos seiscentos anos.6 
 II - Movimentos crítico e orgânico. 
 Ambos movimentos exprimem ocorrências históricas, coexistentes e solidárias: o 
negativo ou crítico distinguiu-se pela demolição gradual do sistema católico-feudal, sob 
influência do que o Positivismo qualifica de espírito metafísico; compreendeu inovações 
doutrinárias, de etos e políticas, que decompuseram o estado de coisas medieval, no aspecto 
da sua organização espiritual (religiosa; entenda-se: cristã, especificamente católica) e 
temporal (feudal). Por sua vez, a série orgânica ou positiva apresenta a convergência de 
modificações rumo ao estabelecimento do regime positivo, caracterizado pelo incremento da 
atividade pacífica e industrial, da mentalidade científica, de valores antropocêntricos, do 
prevalecimento de espírito de conjunto, de noções relativas7, de sentimentos cosmopolitas. 
 
3
 Inexiste avaliação equivalente, sequer próxima da de Comte em: Calasso (1954), Koschaker (1955), 
Wieacker (1993), Caenegem (1995), Lopes (2000), Hespanha (2012). 
 Sumidades que eram Wieacker e Hespanha, nenhum deles terá conhecido o riquíssimo quinto 
volume do Sistema de Filosofia Positiva, tampouco o terceiro volume do Sistema de Política Positiva. 
Ambos contêm a filosofia da história do Positivismo; ambos, porém especialmente o da Filosofia situa os 
juristas na marcha da humanidade, na Idade Média. Tampouco os romanistas (Cruz: 1984; Correia e 
Sciascia:1957; LOBO: 2006; MEIRA: 1996) notaram os lugares da Política e da Filosofia sobre o direito 
em Roma e os jurisprudentes romanos, ainda que seja comum na literatura romanista o juízo adotado 
também por Augusto Comte, quanto à dissociação entre Direito Romano e religião. 
 Calasso nomeia inúmeros autores, como fontes acerca da marcha do pensamento e da história da 
civilização em geral, como E. Gilson, B. Russell, C. Mosca, Guizot, Quinet, porém não Augusto Comte. 
É-lhe deficiência; também dos demais que referi. 
4
 The positive philosophy, de Harriet Martinau, 1853, 2º ed. 1890, Londres; La philosophie positive, de 
Harriet Martineau (tradução do inglês), 1895, Paris; La philosophe positive, de Jules Rig, 1880, Paris; 
Princípios de filosofia positiva, Teixeira Bastos, 1895, Porto. 
5Francisco Calasso (1954), Paulo Koschaker (1955), Francisco Wieacker (1993), Raul van Caenegen 
(1995), José Reinaldo Lima Lopes (2000), Miguel Villey (2005), Antonio Hespanha (2012); romanistas: 
Sebastião Cruz (1984), Sílvio Meira (1996), Abelardo Lobo (2006, 2ª ed.). Outros haverá, a quem 
igualmente faltou ler Augusto Comte. 
6 No vol. V, a 55ª lição expõe o movimento crítico; ela intitula-se "Apreciação geral do estado metafísico 
das sociedades modernas: época crítica ou idade de transição revolucionária. Desorganização crescente, 
primeiramente espontânea e, em seguida, cada vez mais sistemática, do conjunto do regime teológico e 
militar". 
 No vol. VI, a 56ª lição chama-se: "Apreciação essencial do desenvolvimento fundamental 
próprio dos diversos elementos essenciais do estado positivo da humanidade: idade da especialidade, ou 
época provisória, caracterizada pela universal preponderância do espírito de pormenor sobre o de 
conjunto. Convergência progressiva das principais evoluções espontâneas da sociedade moderna em 
direção à reorganização final de um regime racional e pacífico." 
7 "Relativas" na acepção de "relacionadas com", "ligadas a", "dependentes de” (cujos objetos dependem 
do meio, das circunstâncias em que existem), ao inverso das noções absolutas (cujos objetos independem 
3 
 
 Série crítica e série construtora compõem vasto panorama da história ocidental,do seu 
etos e do seu patos, em que se lhe apreendem as linhas essenciais da evolução e os aspectos 
mais relevantes do que se transformou na vida coletiva, ao exinguir-se a Idade Média e ao 
constituir-se a Modernidade. 
 Segundo Comte, o movimento crítico foi mais acentuado do que o orgânico; 
distinguiu-se pela negação das instituições e dos princípios teológicos e feudais que 
organizaram a sociedade na Idade Média, cujo estado de coisas ele desarranjou. Não obstante 
se tratasse de revolucionar o quanto se achava estabelecido, tal descontrução foi indispensável 
para a renovação da base mental e política das sociedades. 
 De inícios do século XIV data a origem do período revolucionário: em fins do 
anterior, o papado de Bonifácio VIII esforçou-se por instaurar dominação absoluta após haver 
cumprido com a sua missão de estabelecer moral comum à Europa; simultaneamente, o 
espírito sacerdotal relaxou-se e intensificaram-se as heresias. Como remédios a tais males, a 
Igreja Católica fundou as ordens franciscana e dominicana, paliativos que rapidamente se 
tornaram inócuos; logo a seguir, criou a inquisição: o recurso, da parte de qualquer força 
espiritual, à violência material, é sinal do seu declínio. 
 No domínio temporal, vale dizer, político e material, o feudalismo cumprira o seu 
papel histórico e principiou a declinar também nos começos dos 1300. 
 O longo interregno do século XIV ao período em que Comte escreveu (meados do 
século XIX) é divisível em duas partes: de inícios do século XIV a fins do XV, em que o 
movimento crítico foi espontâneo e involuntário8; os séculos XVI, XVII e XVIII, em que ele 
transcorreu com filosofia formalmente negadora (presente, em essência, já em Hobbes e 
propagada pelos iluministas) que se aplicou a todas as noções sociais de alguma importância e 
que resultou da decomposição espontânea da ordem medieval, pelo conflito dos seus 
principais elementos. 
 Assim, a independência da autoridade espiritual (religiosa) relativamente à autoridade 
temporal (os reis e o imperador) estabeleceu-se empiricamente, embora militares de um lado e 
igreja de outro, tendessem cada qual a usurpar a esfera de autoridade do outro. 
 O mesmo gérmen de dissolução havia na relação entre a autoridade central e as 
autoridades locais: na hierarquia católica, os cleros nacionais aspiravam à autonomia perante 
o papado que, por sua vez, exorbitava do seu poder, o que provocava suscetibilidades locais. 
Disto resultou o espírito de secessão no catolicismo que se distinguira pela unidade da sua 
organização. Na hierarquia política, antagonizavam os poderes locais com o dos reis. 
 A decomposição espontânea do estado de coisas medieval demonstra-lhe a natureza 
transitória e a aptidão para favorecer o surto dos elementos que deveriam ascender, no tipo de 
sociedade que lhe sucedesse (declínio da teologia e da guerra, incremento da moral 
humanista, do espírito científico, da atividade industrial e pacífica em prol da comunidade, do 
engrazamento internacional, das preocupações com a humanidade). 
 O espírito de negação da herança medieval tornou-se sistemático, de espontâneo que 
principiara por ser. Ele acelerou o fim do regime medieval e serviu de órgão da aspiração por 
novo e melhor regime intelectual e material. 
 
do meio, da circunstância em que existem). Neste sentido, o aforismo de Comte: "Tudo é relativo; eis o 
único absoluto": tudo está interligado. 
8
 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 362; vol. VI, p. 425. 
4 
 
 A doutrina revolucionária, vetora de tal espírito, adveio da própria natureza do 
Cristianismo, que introduziu certo espírito de exame e de discussão, posto que, nele, as 
crenças secundárias não se achavam cabalmente determinadas e ensejavam especulações 
acerca do seu conteúdo: disto exsurgiu o espírito de livre exame, típico do protestantismo, 
primeira forma da filosofia revolucionária. Neste sentido, os doutores que sustentaram contra 
os papas a autoridade dos reis e a resistência das igrejas nacionais às decisões papais, 
arrogaram-se direito pessoal de exame que se propagou a todos os indivíduos e a todas as 
questões. 
 A filosofia revolucionária, nas suas modalidades de protestantismo, deísmo e ateísmo, 
encarnou crescente e metódico protesto contra os fundamentos da antiga ordem, com 
hostilidade e desconfiança sistemáticas em relação a toda expressão de poder, e tendência ao 
controle e à redução de todo poder social. 
 A marcha revolucionária dos séculos XVI, XVII e XVIII divide-se em duas fases, de 
que a primeira abarca as diferentes formas de protestantismo, em que o direito de exame se 
mantém no interior do Cristianismo, cujas condições de existência política arruína. A segunda 
corresponde ao deísmo do século XVIII; nela, admite-se como indefinido, ou seja, ilimitado, o 
direito de exame, embora, de fato, a sua aplicação se restringisse à religião.9 
 III - A mentalidade revolucionária e os Comentadores. 
 Interessa-nos a fase espontânea do movimento anti-católico-feudal, correspondente aos 
séculos XIV e XV e coincidente, cronológica e ideologicamente10, com a Escola dos 
Comentadores. 
 Em três das suas obras, Comte ventila do assunto: no seu Discurso sobre o espírito 
positivo, sumário da sua doutrina, que redigiu em 1844, como prólogo do seu Tratado de 
astronomia popular; no seu imponente Sistema de filosofia positiva (1830 - 1842); no seu 
Catecismo positivista (1852). 
 No Discurso, afirma haver a mentalidade crítica obrado na dissolução do etos 
teológico: [...] durante os últimos cinco séculos [em 2019, seis], o espírito metafísico 
secundou negativamente o surto fundamental de nossa civilização moderna, decompondo 
pouco a pouco o sistema teológico [...].11 
Em simultâneo, atuou na desorganização do feudalismo: 
Enquanto se efetuava gradualmente, durante os últimos cinco séculos 
[seis, em 2019], a irrevogável dissolução da filosofia teológica, o 
sistema político, cuja base mental ela formava, sofria uma 
decomposição progressiva não menos radical, igualmente presidida 
pelo espírito metafísico. Esse duplo movimento negativo tinha por 
órgãos essenciais e solidários, de um lado, as universidades [...]; do 
 
9 Comte, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 382. 
 O escritor Olavo de Carvalho estuda a "mentalidade revolucionária" que, segundo ele, existe no 
Ocidente há seiscentos anos. Ora, Augusto Comte identificou o "espírito revolucionário" que, no seu 
juízo, constituiu-se há seiscentos anos. Hostil ao Positivismo, Olavo parasita a obra de Comte, no sentido 
de haver-se apropriado de parte da sua doutrina que, por outro lado, rejeita ? É dúvida que lancei no meu 
blogue positivismodeacomte.wordpress.com, em agosto de 2019. 
10 Emprego o advérbio "ideologicamente" na acepção de ideário, conjunto de idéias e convicções. 
11 COMTE, Discurso sobre o espírito positivo, p. 14. 
5 
 
outro lado, as diversas corporações de legistas, gradualmente hostis 
aos poderes feudais. Entretanto, à medida que a ação crítica se ia 
disseminando, seus agentes [...] tornavam-se mais numerosos e mais 
subalternos, de modo que, no século XVIII, a principal atividade 
revolucionária teve de passar, na ordem filosófica, dos doutores 
propriamente ditos para os simples literatos, e em seguida, na ordem 
política, dos juízes para os advogados.12 
 Ou seja: no século XVIII (época do Iluminismo), o espírito anti-feudal radicava-se nos 
literatos (a exemplo dos Enciclopedistas) e nos advogados, ao passo que, séculos antes, 
achava-se nos doutores e nos juízes. 
 No Sistema, expende Comte, duas classes presidiram à transição revolucionária 
iniciada no século XIV: a dos metafísicos e a dos legistas, aquela como elemento espiritual e 
esta, temporal. O primeiro emanou do meio católico e o segundo, dofeudal. O seu comum 
surto foi assinalável na Itália, vanguarda da Europa, durante toda a Idade Média e em que se 
nota a importância crescente dos metafísicos e dos legistas, máxime na Lombardia e na 
Toscana. Na França, todavia, a sua influência foi mais completa e perceptível do que alhures, 
haja vista o papel que lá tiveram as universidades e os tribunais, principais órgãos 
permanentes de uns e outros. Disse Comte: 
É, sobretudo, na França que tal desenvolvimento me parece, ao menos 
então, dever ser especialmente estudado; lá ele foi mais claro e mais 
completo do que alhures, haja vista a influência bem distinta e 
contudo solidária que aí adquiriram, simultaneamente, as 
universidades e os tribunais, principais órgãos permanentes, seja da 
ação metafísica, seja do poder dos legistas. (Sistema de Filosofia 
Positiva, vol. V, p. 387. Traduzi.). 
 Os metafísicos compreendiam os doutores propriamente ditos e os literatos; os 
legistas abarcam os juízes e os advogados. Doutores e juízes preponderaram sobre literatos e 
advogados. Enunciou Comte: 
Devo, enfim, para maior clareza, advertir já que cada uma destas duas 
classes se subdivide, por natureza, em duas corporações 
diferentíssimas, uma essencial e primitiva, a outra acessória e 
secundária, ou seja, os metafísicos em doutores propriamente ditos e 
em simples literatos, os legistas em juízes e em advogados, com 
abstração do pessoal togado subalterno. (Idem, ibidem, p. 387. 
Traduzi.). 
 O título de legis doctor, doutor, aplicava-se aos professores de Direito. Também 
identificava os responsáveis por legem dicere, aplicar a lei, os juízes, em que tal locução era 
sinônima de legem docere, pelo que legis doctor nomeava juízes e professores de Direito.13 Os 
Comentadores eram, primeiramente e acima de tudo, professores.14 Doctor: o que ensina15; 
também o que julga. 
 
12
 COMTE, Discurso sobre o espírito positivo, p. 50. 
13 SAVIGNY, F. C. de. História do Direito Romano na Idade Média, p. 362 e 366. 
14 CAENEGEM, R. C. van. Uma introdução Histórica ao Direito Privado, p. 56. 
15 HESPANHA, A. M. B. Cultura Jurídica Européia, p.195. 
6 
 
 Se os metafísicos compreendiam os professores de direito, eram legistas ou juristas em 
sentido amplo e hodierno; se os legistas (no sentido de Comte) compreendiam os juízes e os 
advogados, então metafísicos e legistas detinham a mesma formação intelectual (de Direito 
Romano) e a sua atividade profissional desenvolvia-se com base nos mesmos materiais (as 
fontes jurídicas, notadamente o Corpo de Direito Civil; as glosas dos Glosadores; os pareceres 
dos próprios Comentadores.). Eram elementos afins: 
 A afinidade mútua destas duas forças sociais é a tal ponto 
pronunciada que se poderia até, por apreciação exagerada, ser-se 
tentado a reputar os legistas como um tipo de metafísicos que 
passaram do estado especulativo para o ativo. (Idem, ibidem, p. 392). 
 O espírito metafísico, anti-teológico, inspirou-se em Platão e em Aristóteles; dele se 
imbuiu a escolástica, primeiro agente geral da desorganização da teologia cristã, como poder e 
como filosofia. Ela entranhou-se nas universidades; foi aplicada ao estudo intelectual e moral 
do homem, individualmente considerado; também principiou a sê-lo às especulações sociais, 
o que acentuou a dissociação, consumada posteriormente, da razão humana em relação à 
teologia. Impulsionou o espírito cismático e herético, foi assaz útil no combate ao poder dos 
papas e dela valeram-se os intervenientes nos debates políticos. Serve de sintoma deste 
espírito a canonização de Tomás de Aquino. Discorreu Comte: 
[...] desde o duodécimo século, sob a mais eminente supremacia social 
do regime monoteico [o Cristianismo], o triunfo crescente da 
escolástica veio, realmente, a constituir o primeiro agente geral da 
desorganização radical do poder e da filosofia teológicas, por mais 
paradoxal que possa, primeiramente, parecer esta propriedade de 
emancipação atribuída a uma doutrina hoje tão cegamente detratada. 
A principal consistência política desta nova força espiritual16, cada vez 
mais distinta e logo rival do poder católico, posto que dele fosse 
primitivamente emanada, resultou da sua aptidão natural a apoderar-
se, gradualmente, da alta instrução pública, nas universidades que, 
primeiramente destinadas quase exclusivamente à educação 
eclesiástica, deviam, necessariamente, abarcar em seguida, todas as 
ordens essenciais da cultura intelectual. (Idem, ibidem, p. 389-390). 
 No ambiente cultural e filosófico da Idade Média, a teologia e a filosofia ministrada 
nas escolas e, por isto, apodadas de escolástica, opuseram-se ao integrismo teológico, à 
pretensão de sujeitar o saber legítimo e válido aos textos pretendidamente revelados (Bíblia) e 
aos das autoridades religiosas (teólogos), o que sujeitava e até suspendia a atividade racional 
do indivíduo. As ciências e os conhecimentos laicos, entre os quais o Direito, eram estudados 
apenas enquanto úteis para a inteligência do depósito da fé, máxime das Escrituras. 
 No século XII, contudo, o descobrimento da obra de Aristóteles, combinado com a 
percepção da insuficiência da Bíblia para a resolução de problemas sociais e culturais 
emergentes, suscitou o "renascimento do século XII", em que se repôs a crença na razão 
humana, na aptidão do homem de encontrar formas inovadoras de entendimento e ação, com 
base na autonomia da inteligência, não mais adstrita aos ditames bíblicos. 
 
16 "Espiritual": pertencente ao domínio das idéias e dos sentimentos, sem relação inerente com o conceito 
de sobrenatural, habitualmente associado a tal adjetivo, por efeito do predomínio do Cristianismo. 
7 
 
 Foi, observa Comte, 
evidentemente, pelo estudo do direito, e primeiramente, do direito 
eclesiástico, que o novo espírito filosófico próprio do fim da idade 
média deveu penetrar gradualmente no domínio das questões 
sociais; em segundo lugar, o ensino do direito devia, desde logo, 
constituir parte capital das atribuições universitárias [...] (COMTE, 
Sistema de Filosofia Positiva, V, p. 391-2. Grifei.). 
 Entenda-se: 1) O novo espírito filosófico, de exame e discussão17 peculiar à fase 
terminal da Idade Média adentrou, a pouco e pouco, o domínio das questões sociais; 2) ele aí 
passou a adentrar pelo estudo do Direito Canônico e, a seguir, do Direito Romano. 3) O 
estudo do Direito Romano integrava, como parte importante, a formação universitária. 
 Trata-se de percepção luminosa e original de Augusto Comte, que atribui aos juristas 
dos 1300 e dos 1400 - aos Comentadores - papel central na marcha da humanidade. Eles 
incorporaram o espírito de investigação intelectual que, do estudo do Direito Canônico e do 
Corpus Iuris Civilis, comunicou-se às especulações de ordem sociológica, até então sujeitos à 
autoridade da teologia. A renovação mental em que a atitude intelectual deixou de ser de 
submissão à teologia e passou a ser de exame, com liberdade de pensamento, do Direito, da 
filosofia, da moral, das ciências naturais, da política, principiou não pela filosofia, pela moral, 
pelas ciências naturais, pela política, senão pelo estudo dos Direitos Canônico e Romano, o 
que transcende o papel dos juristas medievais, da Tradição Romanista, especificamente dos 
Comentadores, como estudiosos do Direito Romano e como autores de inovações doutrinárias 
no domínio restritamente jurídico, e atribui-lhes papel decisivo na evolução humana. 
 Se se puder reputar a Humanidade como um só homem que aprende continuamente e 
que sempre subsiste18, se a evolução humana puder ser comparada com uma caminhada que se 
executa passo a passo, com eventuais recuos e constante avanço para diante, então, os 
Comentadores deram o passo na senda em que o pensamento humano deixou atrás de si a 
sujeição total à teologia e caminhou em direção à liberdade de entendimento, de avaliação, de 
consciência, liberdade que,como nova atitude mental, comunicou-se aos diferentes domínios 
em que a inteligência humana se exerce. 
 A nova atitude mental era: 
 a) realista, pois atinha-se à natureza das coisas e não ao que sobre elas exprimiam os 
textos bíblicos ou dos teólogos. 
 b) racionalista, pois examinava os pontos consoante regras lógicas, que disciplinam o 
pensar corretamente, apreendidas dos filósofos da Antigüidade, sobretudo Aristóteles, nos 
seus Tópicos e Elencos Sofísticos. Empregavam a dialética ou arte de discutir, de examinar 
questões a cujo respeito inexistiam afirmações forçosamente certas e em que se pesquisavam 
as vistas, os argumentos, à luz de que os temas eram susctíveis de exame. Tal modo de 
investigação chamava-se, no vocabulário aristotélico-ciceroniano, de tópica ou ars inveniendi 
(arte de encontrar os argumentos em que se fundamenta a argumentação). 
 
17 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 377. 
18 É a concepção de Pascal: "[...] toda a seqüência dos homens durante o curso de tantos séculos deve ser 
considerado como um mesmo homem que subsiste sempre e que aprende continuamente." (Traité du vide, apud 
E. CORRA, L´Humanité, Paris, 1914, p. 36. Traduzi.). 
8 
 
 Na tópica, submetia-se o objeto da investigação a sucessivos exames: 1) 
primeiramente, definia-se. Assim, por exemplo, "compra e venda é o modo de aquisição de 
propriedade mediante pagamento pecuniário". 2) Averiguavam-se as causas do objeto: 
eficiente (o que origina o objeto em estudo) e final (a que se destina ele). Exempli gratia: é 
causa eficiente da compra e venda a declaração de vontade; é-lhe causa final a aquisição da 
coisa, da parte do comprador e o embolso financeiro, da do vendedor. 3) Cotejava-se o objeto 
com outros, para se lhes reconhecerem semelhanças e discrepâncias. Verbi gratia: a compra e 
venda semelha à troca pois em ambos comprador e trocador adquirem coisa; elas diferençam-
se em que na compra paga-se com dinheiro, ao passo que na troca não se atribui dinheiro e 
sim outra coisa. Ela diferencia-se do furto em que, nela, a perda da propriedade do objeto 
vendido é voluntária, da parte do vendedor, enquanto no furto o dono perde-lhe a posse sem a 
sua vontade e até contrariamente a ela. 4) Distinguiam-se formas e sub-formas do objeto. Por 
exemplo: há compra e venda à vista, a prazo; com juros e sem eles; com tradição pronta ou 
posterior. 5) Consultavam-se as autoridades, ou seja, os autores que precedentemente se 
haviam manifestado sobre o tema com conhecimento e ponderação. 
 Nas universidades instituíram-se, paulatinamente, os cânones metodológicos do saber 
científico, tal como viria a florescer nos séculos XVI e XVII (conhecimentos organizados em 
sistema dotado de princípios, em que as manifestações particulares e concretas dos fenômenos 
são suscetíveis de explicações abstratas e gerais por meio de hipóteses cuja confirmação 
resultava na enunciação de leis.). Valorizava-se a objetividade e o ensino tendia ao ceticismo 
e à dúvida. É evidente que objetividade, ceticismo e dúvida resultariam facilmente na negação 
das crenças estabelecidas e tenderiam à sua negação primeiro e à sua substituição 
posteriormente.19 
 De entre as três escolas da Tradição Romanista - Glosadores, Comentadores e 
Humanistas - a segunda corresponde aos séculos XIV e XV, de que se ocupa Comte, o que se 
comprova pelo interregno de vida dos seus integrantes: 
Civilistas. 
Cino Sighibuldi de Pistóia: 1270 - c. 1336. 
Jacó de Belviso: 1270 - 1335. 
Jacó Butrigário: c. 1274 - 1347. 
Bártolo de Saxoferrato: 1314 - 1357. 
Nicolau Spinelli de Giovinazzo: c. 1325 - 1390. 
Baldo dos Ubaldos: 1327 - 1400. 
Lucas da Pene: 1343 - 1382. 
Bartolomeu de Saliceto: 1363 - 1412. 
Rafael Fulgosio: 1367 - 1427. 
Paulo de Castro: 1394 - 1441. 
Francisco Accolti, vulgo Aretino: c. 1418 - 1485/6. 
Alexandre Tartagna: 1424 - 1477. 
 
19 Crenças ou, como as nomeava Ortega y Gasset (A rebelião das massas, Idéias e crenças), "vigências 
sociais", significam as convicções que os indivíduos aceitam e professam, como obviedades culturais, 
sem lhes avaliarem o mérito e a validade. O espírito de exame e de discussão resulta em transformar as 
crenças em descrenças ou em idéias (modos de entendimento sujeitos a exame e a virtual aceitação ou 
recusa. A escolástica problematizava, para valer-me do jargão hodierno. 
9 
 
Jasão de Maino: 1435 - 1519. 
Bartolomeu Socini: 1436 - 1507. 
Ricardo Malombra: [...] - 1334. 
Oldrado da Ponte (ou de Lodi): [...] - 1335. 
André de Isernia: [...] - 1353. 
Alberico de Rosate: [...] - 1354. 
Raniero da Forli: [...] - 1358. 
João de Imola: [...] - 1436. 
Ângelo Gambiglioni de Arezzo: [...] - após 1451. 
Bartolomeu Cipolla: atuante na segunda metade do século XV. 
 
Canonistas. 
João de André: 1270 - c. 1348. 
Pedro de Ancarano: c. 1330 - 1416. 
Francisco Zabarella: 1335 - 1417. 
Antonio de Budrio: 1338 - 1408. 
André Barbazza: c. 1400 - 1479. 
Mariano Socini: 1401 - 1467. 
Felino Sandeo: 1444 - 1503. 
Nicolau dos Tedescos: [...] - 1453. 
João de Anagni: [...] - 1457. 
 
 Comte enuncia a origem social dos juristas da época: 
Um exame mais completo mostra logo a sua verdadeira origem 
histórica como simples emanação espontânea do poder feudal, de que 
eles foram, por toda a parte, destinados primitivamente a facilitar as 
funções judiciárias, por intervenção de mais em mais indispensável, 
posto que subalterna por muito tempo. Além da influência geral da sua 
educação essencialmente metafísica, eles próprios deviam, quase 
desde a sua origem, manifestar especialmente tendência mais ou 
menos hostil ao poder católico, segundo a oposição crescente que 
devia naturalmente surgir nas diversas justiças cíveis, fossem 
senhoriais, fossem sobretudo reais, contra os tribunais eclesiásticos, 
anteriormente na posse aceitada da maior parte das jurisdições 
importantes. [...] [Os juristas] por toda a parte estiveram animados, até 
sem o saber, de profunda e perseverante antipatia, aliás mais ou menos 
dissimulada, contra o conjunto da organização católica. (Idem, ibidem, 
p. 392. Traduzi.). 
 Os juristas constituíam, prossegue Comte, elemento político plenamente distinto dos 
diversos poderes constituídos e que, malgrado a sua natureza subalterna, devia logo exercer 
influência capital na desorganização crescente do regime medieval.20 
 A seguir, emenda erronia de avaliação concernente aos juristas medievais: 
 
20 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 393. Traduzi. 
10 
 
Forma-se, vulgarmente, idéia falsíssima da existência política dos 
legistas da idade média e entre os modernos, por viciosa comparação 
com a dos da Antigüidade, fossem juristas, fossem oradores: pois, na 
ordem romana, até na sua decadência, estas funções não ocasionavam 
realmente a formação de classe distinta e secundária posto que elas, aí, 
não eram, por sua natureza, senão exercício mais ou menos passageiro 
dos homens de Estado, essencialmente militares, que compunham a 
casta dirigente ou que os seus serviços faziam-lhes agregar. No 
conjunto da evolução humana, este singular poder dos legistas devia 
constituir um fenômeno eminentemente excepcional, unicamente 
reservado, pela sua natureza, ao estado transitório da idade média e 
destinado, sem dúvida, a desaparecer [...] (Idem, ibidem, p. 393. 
Traduzi.). 
 Com razão Augusto Comte: os juristas medievais diferiram dos romanos, porquanto 
estes dedicavam-se ao Direito dentre outras ocupações, notadamente militares; eram capitães 
do exército e políticos que também se dedicavam à doutrinação jurídica, sem haverem 
formado classe profissional especificamente jurídica, ao passo que a formaram os Glosadores, 
antecessores imediatos dos Comentadores. 
 De fato, observa Wieacker, em relação aos Glosadores: "Se os glosadores criaram a 
classe dos juristas e o seu modo característicode pensar [...]" (Wieacker: 1993, p. 86); também: "Ao 
lado das únicas formas de ensino até então existentes, os estudos religiosos [...], aprece o 
studium civile21; ao lado dos clérigos, que até então eram os únicos intelectuais, aparece o 
jurista ou "legista" [...]". (Wieacker: 1993, p. 66). 
 Com os Comentadores, no entanto, passou a haver juristas que o eram na sua formação 
intelectual e na sua atuação como governantes, diplomatas e juízes.22 
 Observa Hespanha: 
 Mas o impacto mais decisivo da atividade e do saber dos 
comentadores sobre a vida jurídica, política e social europeia foi 
constituído, mais do que pelas suas inovações dogmáticas, pelo seu 
contributo para a constituição de uma categoria social, à qual passou a 
ficar atribuída a resolução dos diferendos sociais com recurso a uma 
técnica intelectual especializada [...]. A categoria dos juristas - pois a 
ela nos referimos [...]. (HESPANHA: 2012, 207). 
 Entre romanos, como arte de interpretar o direito, doutrinariamente, a jurisprudência 
aproximava-se da oratória, a que, amiúde, achava-se associada (como em Cícero23). Os 
juristas da fase republicana não eram profissionais do Direito nem exclusivamente autores de 
livros jurídicos. Ao invés, eram, em primeiro lugar políticos empenhados em outras 
actividades, militares e civis24, que não dedicavam todo o seu tempo ao direito.25 
 
21 Studium significava a corporação de estudantes, que contratavam e estipendiavam professores para lhes 
ensinar (HESPANHA, Cultura Jurídica Ocidental, p. 195). 
22 HESPANHA, Cultura Jurídica Ocidental, p. 207. 
23 Marco Túlio Cícero (106 a 43 a. e. c.) foi questor; cônsul em 63 a. e. c.; procônsul (governador) da 
Cilícia, em 51 a. e. c.; produziu obras sobre os deveres, amizade, ética, oratória, teologia, direito (De 
legibus, Das leis); proferiu 88 discursos (ou mais) de que vários de defesa (Em defesa de Sula, Em defesa 
de Rabírio, Em defesa de Cluêncio) ou de acusação política (Contra Catilina, Contra Verres, Filípicas). 
24 BRETONE, História do Dirieto Romano, p. 120. 
25
 BRETONE, História do Direito Romano, p. 121. 
11 
 
 Desta realidade constituem exemplos, abonadores da avaliação de Augusto Comte, os 
de: 
 a) Ápio Cláudio Cego (340 antes da era comum - 273 antes da era comum): foi cônsul 
em 307 a. e. c. e censor em 312 a. e. c.; projetou a construção da estrada de Roma a Cápua, a 
Via Ápia; ultimou a construção do aqueduto Água Ápia; em 296 a. e. c., novamente cônsul, 
capitaneou tropas a Sâmnio e a Etrúria; em 295 a. e. c. foi pretor; exerceu a ditadura em 287 
ou 286 a. e. c.. Redigiu a primeira obra literária romana e a primeira de matéria jurídica 
escrita em latim, De usurpationibus, provavelmente sobre a interrupção de direito prescrito. 
 b) Sexto Élio Cato (terá morrido cerca de 185 a. e. c.): exerceu o consulado em 198 a. 
e. c. e a censura em 194 a. e. c.. Produziu o Ius Aelianum, coleção de fórmulas processuais; a 
Tripertita, que continha a Lei das Doze Tábuas, seguida de escólio e da ação respectiva a cada 
ponto. 
 c) Sérvio Sulpício Rufo (106 - 43 a. e. c.): questor em 74, edil em 69, pretor em 65. 
Fixou a terminologia jurídica nos cerca de 180 textos jurídicos que produziu. No juízo de 
Cícero, elevou o Direito à condição de Ciência. 
 e) Caio Otávio Tídio Tossiano Lúcio Javoleno Prisco (morreu em 98): comandou a 
quarta legião, governou a Numídia, foi legado (general) da terceira legião; foi cônsul em 86; 
governadou a Germânia e a Síria; sacerdote, integrou o Colégio dos Pontífices. Em quinze 
livros, comentou as sentenças de Caio Cássio Longino; em cinco, dissertou sobre a obra de 
Pláucio; em dez, comentou as derradeiras obras de Marcos Labeão.26 
 f) Sálvio Juliano (terá falecido em 168): pretor, cônsul (talvez em 148), procônsul da 
África (talvez em 166), integrante do Conselho Imperial (talvez em 138). Como jurista, 
advogou; compôs o notável Edito Perpétuo, um Digesto (com 90 capítulos) e outras obras. 
 g) Úlpio Marcelo: governou a Panônia entre 169 e 176 e a Britânia entre 179 e 184; 
nesta chefiou expedições militares. Redigiu trinta e um livros de Digesto e notas ao Digesto 
de Sálvio Juliano. 
 h) Eneu Domício Ulpiano (150 - 228): foi prefeito do pretório27, prefeito das 
provisões28, integrante do conselho de Alexandre Severo.29 Deixou duzentos e oitenta obras 
jurídicas, entre as quais comentários ao Edito Perpétuo, às produções de Sabino, Marcelo e 
Papiniano; dele provém um terço do Digesto de Justiniano. 
 
26
 Caio Cássio Longino (antes de 85 a. e. c. - 42 a. e. c.) governou a Síria; foi tribuno da plebe em 49 a. e. 
c. e, em 44 a. e. c., pretor peregrino; capitaneou o exército contra Marco Antonio. Redigiu Libri iuris 
civilis, foi esforçado vulgarizador das idéias da Escola Sabiniana (corrente de pensamento jurídico). 
Marcos Labeão (talvez 50 a. e. c. - talvez 10) foi pretor; iniciou a literatura jurídica clássica; produziu 400 
rolos de textos (ao tempo, os livros não se faziam em cadernos, ou seja, folhas dobradas e cozidas na 
lateral esquerda e guarnecidas com capas de pergaminho ou couro. As folhas, retangulares, eram 
enroladas; cada rolo nomeava-se de volumen). 
27 Chamava-se de prefeito do pretório o capitão da guarda pretoriana (de proteção pessoal do imperador); 
comandava todo o exército na península itálica, em que exercia jurisdição penal, para além de raio de 100 
milhas de Roma; recebia recursos contra as sentenças dos procônsules. Sob Constantino, eram juízes de 
instância final. 
28 Chamava-se de prefeito das provisões (praefectus annonae) o magistrado encarregado do abastecimento de 
cereais para a cidade de Roma. 
29 Alexandre Severo reinou de 222 a 235. 
12 
 
 Importante juízo de Comte é o de que os séculos XIV e XV, tempo real do seu [dos 
legistas] triunfo, foi a idade principal das altas inteligências e dos nobres caracteres30, o que 
representa encômio de incomparável valor aos Comentadores e valiosíssimo julgamento do 
seu mérito intelectual e moral. 
 No conjunto da evolução humana, metafísicos e Comentadores eram inaptos para, 
expende Augusto Comte, constituir nenhuma organização durável, malgrado a sua tendência 
espontânea de se apoderarem indefinidamente da supremacia social, à medida em que a sua 
comum ação dissolvente destruía a influência dos antigos poderes. O seu papel limitou-se a 
simples destinação revolucionária, ou seja, modificadora, o que resultou de que ambas 
classes não podiam propiciar realmente princípios que lhes fossem próprios e que lhes 
permitissem presidir, de maneira durável, a alta direção regular dos assuntos humanos. O 
seu espírito comum, essencialmente crítico, era somente apto para modificar um regime 
preexistente, por alterações gradualmente destruidoras.31 
 Comte não lhes valora a atuação como juristas, no domínio específico da sua relação 
com o Direito Romano e sim como teóricos que combaliram a eficácia do feudalismo e da 
Igreja, mercê do seu espírito, neste domínio, destruidor. 
 Mais: em qualquer outro tempo, a sua supremacia prolongada redundaria, 
inevitavelmente, em iminente dissolução do estado social 32: 
se o progresso político, enquanto espontaneamente negativo, foi-lhes 
essencialmente entregue desde o século quatorze, a manutenção 
indispensável da ordem pública deveu ser então referida sobretudo à 
ação resistente dos antigos poderes, somente aos quais devia ainda 
pertencer habitualmente a suprema direção social, ainda que cada vez 
mais restringida pelas modificações revolucionárias. (Idem, ibidem, p. 
396). 
 Metafísicos e legistas mantinham-se, porém, invariavelmente dóceis aos mais 
fundamentais princípios do próprio regime cujas condições de existência simultaneamente 
minavam. Tal incoerência impedia a dominação permanente de uns e outros como até lhes 
impossibilitava de presidir à consumação das operações revolucionárias. Por um lado,eles 
sustentavam o que, por outro, arruinavam, o que é incontestável da parte dos metafísicos 
perante a teologia e perceptível da parte dos juristas em relação à ordem feudal: as suas 
doutrinas eram incapazes de atribuir, por si próprias, nova destinação à atividade humana, 
motivo por que sancionavam a antiga preponderância da atividade militar, que se expressava 
na organização do feudalismo. Ao fim e ao cabo, os metafísicos acabaram por coonestar a 
autoridade teológica e os juristas, o poder feudal, embora com ressalvas tendentes a 
depauperar-lhes a importância.33 
 Por outro lado, a atuação dos juristas modernos foi bemfazeja, na medida em que 
mantiveram laica a moral, na linha dos romanos: 
Sob o aspecto moral, os legistas modernos prosseguiram dignamente a 
grande elaboração que a Antigüidade legara-lhes, por intermédio da 
 
30
 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 394. 
31 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 396. 
32
 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 396. 
33 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 397. 
13 
 
Idade Média, para instituir, empiricamente, as regras do 
comportamento, público ou privado, independentes de todo motivo 
sobrenatural. (COMTE, Sistema de Política Positiva, vol. III, p. 527. 
Traduzi). 
 Comte avalia a classe judiciária: Historicamente ligada, desde os pretores romanos, 
ao surto espontâneo de uma moral puramente humana [...] (COMTE, idem, ibidem, vol. IV, 
p. 426). 
 Cuida-se de contribuição importante para o Positivismo, cujas tarefas exprimem-se em 
incorporar o proletariado à sociedade moderna, vale dizer, em elevar as massas ao nível de 
conforto material e de cultura intelectual e afetiva que a civilização alcançou, e substituir a 
moral teológica por outra, antropocêntrica, sentido em que juristas romanos e legistas da 
Tradição Romanista cooperaram, o que, neste capítulo, torna-os, bem vistos no Positivismo. 
 Também no Catecismo positivista, Comte menciona os legistas: 
O movimento revolucionário foi sempre dirigido, desde seu início, por 
duas classes conexas, oriundas a princípio dos antigos poderes, e em 
breve rivais destes. Foram elas os metafísicos e os legistas, que 
constituem o elemento espiritual e o elemento temporal deste regimen 
negativo, caracterizado, sobretudo em França, nas universidades e nos 
parlamentos [tribunais]. Mas a segunda classe merece mais estima que 
a primeira, porque nela o espírito comum a ambas se modificou sob o 
favorável impulso das aplicações sociais. Ao passo que os metafísicos 
não foram nunca, em relação à teologia, senão inconseqüentes 
demolidores, os legistas, e sobretudo os juízes, alem dos seus serviços 
temporários ou especiais, tenderam sempre a construir, segundo as 
pegadas romanas, uma moral puramente humana.34 
 Este trecho contém juízo de valor: os legistas merecem mais estima do que os 
metafísicos, pois concorreram para a instauração de moral humana, destituída de sobrenatural, 
o que o Positivismo encarece sobremaneira.35 
 
 IV - Juízos de autoridades. 
 Algumas autoridades em História do Direito expenderam julgamentos a propósito da 
atuação dos Comentadores. 
 Lopes vislumbra o papel transcendente dos Comentadores, porém não no sentido de 
Augusto Comte: "Eles tornam possível também uma convivência da tradição feudal com as 
novas tendências da vida europeia: o comércio e a monetarização da vida e das obrigações, 
uma certa flexibilização nas transferências de terras e sucessões". (LOPES, 2000, p. 134). 
 
34 COMTE, Catecismo positivista, Rio de Janeiro, Apostolado Positivista do Brasil: 1934, p. 430, 
tradução de Miguel Lemos. O Catecismo destinou-se a propagar as noções essenciais do Positivismo 
religioso e nos seus dois derradeiros capítulos contém a interpretação do passado humano de Comte, de 
que excertei o lugar acima. 
35 Assim, por exemplo, dentre as sete acepções de positivo (real e útil, certo e preciso, orgânico, relativo e 
simpático), a de orgânico (vale dizer: organizador, construtivo) anuncia a destinação social do 
positivismo, para substituir o teologismo no governo espiritual da humanidade. (COMTE, Sistema de 
política positiva, vol. I, p. 57). O governo espiritual da humanidade abarca, também, a moral e os 
costumes antropocêntricos (laicos). 
14 
 
 Em outro lugar: "Forneceram aos príncipes a teoria da soberania, cobertura ideológica 
e política, puderam redigir documentos, criar um aparelho administrativo. [...] Na França, a 
serviço do rei combateram a Igreja, com armas do mesmo tipo que as dos canonistas." (Idem, 
ibidem, p. 135. Itálico do original.). 
 Wieacker: "Os comentadores são [...] os arquitetos da modernidade européia." 
(WIEACKER, 1993, p. 80). Modernidade que esmiúça no domínio exclusivamente jurídico 
sem, todavia, lhes vislumbrar o papel que lhes reconhece Augusto Comte. 
 Ainda o mesmo autor: "Em virtude do seu monopólio intelectual e do prestígio do 
direito romano, os juristas deviam sentir-se vocacionados para árbitros das grandes 
controvérsias políticas, sociais e econômicas da época" (Idem, ibidem, p. 81.). 
 Francisco Calasso: "Julgada, hoje, retrospectivamente, a sua obra representa 
maravilhosamente um dos aspectos mais altos da função histórica da sua época, que foi por 
excelência mediadora entre o mundo antigo e o nosso." (CALASSO, 1954: 596. Traduzi). 
 V- Conclusões. 
 A análise de Augusto Comte situou os Comentadores não na História do Direito nem 
na do Direito Romano, porém sim na do Ocidente e da Humanidade. Trata-se da única 
corrente jurídica que lhe mereceu atenção, no amplo quadro da sua filosofia da história, 
desenvolvida no tomo V e em parte do tomo VI do seu imponente Sistema de Filosofia 
Positiva, e no III do seu Sistema de Política Positiva. O seu exame englobou a totalidade dos 
tempos conhecidos (no Ocidente, ao menos), em que reconheceu as linhas principais da 
evolução mental, ativa e afetiva da humanidade. Parte dele atém-se à civilização romana, 
autora do Direito Romano, e na fase politeica (greco-romana) da história; outrossim, focalizou 
o período cristão e o imenso interregno espiritual36, iniciado no século XII e que ainda 
perdura. É nesta fase que exsurgiram a Tradição Romanista, com Glosadores, Comentadores e 
Humanistas, os Jusnaturalistas e as demais correntes de filosofia jurídica. 
 Por mais relevante que hajam sido as contribuições teóricas (na dogmática jurídica) e 
práticas (como administradores e agentes diplomáticos) dos Comentadores, foram incapazes 
de conceber princípios de reconstrução social (como os formulou o próprio Comte); 
provavelmente, sequer atinaram no curso da história, a longo prazo, e, de conseqüência, não 
terão percebido o seu próprio papel na passagem da Idade Média findante e da Modernidade 
iniciante ou, na expressão do Positivismo, no movimento crítico. Da mesma forma, 
importantes historiadores do Direito e romanistas examinaram o evolver do Direito e do 
Direito Romano fora do contexto do progresso humano, na sua totalidade; ao menos, não o 
fizeram como o fez Augusto Comte e, conseguintemente, faleceram-lhes as luzes que somente 
o Positivismo lança na história humana e, nela, nos Comentadores.37 
 
36 Por interregno espiritual ou período de anarquia, Comte entendia o estado mental e social subseqüente 
ao término do prevalecimento do Cristianismo, como orientador maciço das mentes e ordenador das 
sociedades. Vide o seu notável Sumária apreciação do conjunto do passado moderno que expõe, 
em conspecto, os movimentos crítico e orgânico e cuja leitura, aliás, favorece a compreensão dos seus 
juízos acerca dos Comentadores, porquanto expõe o contexto em que eles atuaram. 
37 Historiadores do Direito a quem me refiro: Francisco Calasso (1954), Paulo Koschaker (1955), 
Francisco Wieacker (1993), Raul van Caenegen (1995), José ReinaldoLima Lopes (2000), Miguel Villey 
(2005), Antonio Hespanha (2012); romanistas: Sebastião Cruz (1984), Sílvio Meira (1996), Abelardo 
Lobo (2006, 2ª ed.). Outros haverá, a quem igualmente faltou ler Augusto Comte. 
 
15 
 
 Por abarcar a história da humanidade na série total dos tempos e no quadro das suas 
manifestações fundamentais, o modo de ver de Augusto Comte transcende a perspectiva dos 
historiadores do Direito: enquanto estes concentram-se no pormenor jurídico, ele examinou o 
conjunto da civilização, em que soube invocar o papel do Direito, como lhe foi o caso, em 
relação aos Comentadores, aos legistas, ao caráter laico do Direito Romano (especificamente 
do Digesto). 
 É legítimo concluir pelo papel saliente dos Comentadores na história humana, para 
mais do que, também destacado, desempenharam na história do Direito. 
 Enquanto os historiadores do Direito e do Direito Romano limitaram-se à descrição de 
fatos, ao alinhamento de fases, ao enfileiramento de doutrinas, Augusto Comte concebeu 
filosofia da história, exame do conjunto das modificações por que passaram o espírito 
humano, os costumes e as instituições. É bem de ver que os historiadores jurídicos também 
examinam as modificações que experimentou a mentalidade jurídica, porém somente o 
Positivismo apreende o sentido da história na sua globalidade e nele discerne o valor dos 
homens, criações, instituições, doutrinas, em cada momento. Neste sentido, ele porta 
descrição da história e filosofia da história, duplo conteúdo que ilumina, com originalidade, 
um sem número de facetas do passado. É o caso do papel que imputa aos Comentadores: 
negativo, como partícipe da obra de liquidação da herança medieval, especificamente na 
decomposição do feudalismo, foi por eles que se introduziu na cultura em geral o espírito de 
liberdade intelectual, de pesquisa da verdade fora do dogmatismo das autoridades tradicionais, 
dos textos supostamente revelados da Bíblia e da Patrística. 
 Não criaram eles os métodos escolásticos de exame e discussão - criou-os Aristóteles - 
porém adotaram-nos, empregaram-nos, com eles produziram novidades, deram o exemplo a 
terceiros que, por sua vez, com liberdade de pensamento, formularam concepções alternativas, 
novas formas de entendimento da política, da moral, das instituições, da religião, da filosofia, 
do poder, do lugar do homem. 
 Contribuíram, nos limites do seu tempo e do seu lugar, para esclarecer o sentido do 
Direito Romano e para propagar a liberdade intelectual: acrescentaram saber ao patrimônio da 
humanidade no domínio jurídico; adicionaram benefício ao patrimônio mental da 
humanidade. Obrigado, Comentadores; obrigado, Humanidade.

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