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1 O papel dos Comentadores na história ocidental, à luz do Positivismo. Arthur Virmond de Lacerda Neto. Agosto de 2019. Resumo. Na parte histórica do seu Sistema de filosofia positiva, Augusto Comte refere-se a legistas, a quem atribui papel importante na liquidação da herança medieval: do estudo do Direito Romano, a atitude crítica se transferiu para outros domínios do saber, graças à Escola dos Comentadores, modo de ver que até importantes historiadores do Direito não perceberam. Comte também compara-os com os juristas romanos. Palavras-chave: Sistema de filosofia positiva. Augusto Comte. História do Direito. Escola dos Comentadores. Direito Romano. I- A filosofia da história do Positivismo. II- Movimentos crítico e orgânico. III- A mentalidade revolucionária e os Comentadores. IV- Juízos de autoridades. V- Conclusões. I- A filosofia da história do Positivismo. obra de Augusto Comte (1798 - 1857) é assaz conhecida pela criação da Sociologia (e deste vocábulo), como ciência dos fenômenos sociais, e do Positivismo, que consagra o espírito positivo como base do entendimento humano. Ela é um pouco menos conhecida como instituidora da religião da Humanidade: conjunto de princípios de orientação individual e forma de congraçamento das pessoas destituída de sobrenatural, constituída com base na concepção de Humanidade, que encarece os bons sentimentos, a cooperação, a paz, a liberdade, o conhecimento científico.1 Ainda menos conhecida, no Brasil, é a filosofia da história do Positivismo: ela compreende o terceiro volume (1853) do Sistema de Política Positiva, em que Augusto Comte analisou as fases do feiticismo, do politeísmo, do monoteísmo e a (ainda atual) fase revolucionária da história humana; também abarca o volume quinto (1840) do Sistema de Filosofia Positiva, em que ele demonstrou a sua célebre lei dos três estados, no tocante à evolução da atividade, do afetividade e do entendimento.2 Comte destacou o papel de certa corrente de juristas e reconheceu-lhes relevância que até importantes historiadores do Direito e romanistas não vislumbraram: enquanto estes 1 Na cidade do Rio de Janeiro existe o Templo da Humanidade; em Porto Alegre, a Capela da Humanidade; em Curitiba, o Centro Positivista do Paraná. A atuação dos Positivistas na campanha republicana, na organização da república brasileira e a pregação, por décadas, de Raimundo Teixeira Mendes e Miguel Lemos (positivistas ortodoxos, do Rio de Janeiro) contribuiu para atribuir à religião da Humanidade certa notabilidade, no Brasil. 2 São inúmeros, na Europa e nos EUA, os conspectos e os estudos de pormenor, destas obras. Eles rareiam no Brasil, já porque rareiam os exemplares dos dois Sistemas (esgotados), já porque se mantêm no original francês, sem traslado para o vernáculo, já porque, ao longo de décadas, os meios teológicos (máxime católicos) e, mais recentemente, marxistas, hostilizaram o Positivismo, como ateu e burguês. Sobre isto, o conhecimento raso das suas doutrinas, a leviandade em avaliá-las e a repetição, ainda atual, de toleimas, desfigura o Positivismo. Por outro lado, tem-se reiterado, nas últimas décadas, esforços bemfazejos de informação correta e avaliação honesta, da parte de pesquisadores (a exemplo de Hélgio Trindade, José Murilo de Carvalho, Ângela Alonso; com reservas, João Ribeiro Júnior; eu próprio). A 2 limitaram-se ao Direito, como objeto da suas avaliações, Augusto Comte considerou o desenvolvimento do ocidente no seu conjunto. Eles historiaram o Direito ocidental; Comte historiou a civilização ocidental. 3 Além disto, os mesmos historiadores do Direito e romanistas aparentemente desconheceram a contribuição de Comte em filosofia da história e no ponto específico da história do Direito; provavelmente, jamais o leram, fosse no original, fosse nas condensações disponíveis em inglês, francês e português.4 Certo é que Calasso, Koschaker, Wieacker, Caenegen, Lopes, Villey, Hespanha, Cruz, Meira, Lobonão o incluem dentre as suas fontes.5 O quinto e sexto volume do Sistema de Filosofia Positiva descreve, por miúdo, os dois movimentos, crítico e orgânico, dos últimos seiscentos anos.6 II - Movimentos crítico e orgânico. Ambos movimentos exprimem ocorrências históricas, coexistentes e solidárias: o negativo ou crítico distinguiu-se pela demolição gradual do sistema católico-feudal, sob influência do que o Positivismo qualifica de espírito metafísico; compreendeu inovações doutrinárias, de etos e políticas, que decompuseram o estado de coisas medieval, no aspecto da sua organização espiritual (religiosa; entenda-se: cristã, especificamente católica) e temporal (feudal). Por sua vez, a série orgânica ou positiva apresenta a convergência de modificações rumo ao estabelecimento do regime positivo, caracterizado pelo incremento da atividade pacífica e industrial, da mentalidade científica, de valores antropocêntricos, do prevalecimento de espírito de conjunto, de noções relativas7, de sentimentos cosmopolitas. 3 Inexiste avaliação equivalente, sequer próxima da de Comte em: Calasso (1954), Koschaker (1955), Wieacker (1993), Caenegem (1995), Lopes (2000), Hespanha (2012). Sumidades que eram Wieacker e Hespanha, nenhum deles terá conhecido o riquíssimo quinto volume do Sistema de Filosofia Positiva, tampouco o terceiro volume do Sistema de Política Positiva. Ambos contêm a filosofia da história do Positivismo; ambos, porém especialmente o da Filosofia situa os juristas na marcha da humanidade, na Idade Média. Tampouco os romanistas (Cruz: 1984; Correia e Sciascia:1957; LOBO: 2006; MEIRA: 1996) notaram os lugares da Política e da Filosofia sobre o direito em Roma e os jurisprudentes romanos, ainda que seja comum na literatura romanista o juízo adotado também por Augusto Comte, quanto à dissociação entre Direito Romano e religião. Calasso nomeia inúmeros autores, como fontes acerca da marcha do pensamento e da história da civilização em geral, como E. Gilson, B. Russell, C. Mosca, Guizot, Quinet, porém não Augusto Comte. É-lhe deficiência; também dos demais que referi. 4 The positive philosophy, de Harriet Martinau, 1853, 2º ed. 1890, Londres; La philosophie positive, de Harriet Martineau (tradução do inglês), 1895, Paris; La philosophe positive, de Jules Rig, 1880, Paris; Princípios de filosofia positiva, Teixeira Bastos, 1895, Porto. 5Francisco Calasso (1954), Paulo Koschaker (1955), Francisco Wieacker (1993), Raul van Caenegen (1995), José Reinaldo Lima Lopes (2000), Miguel Villey (2005), Antonio Hespanha (2012); romanistas: Sebastião Cruz (1984), Sílvio Meira (1996), Abelardo Lobo (2006, 2ª ed.). Outros haverá, a quem igualmente faltou ler Augusto Comte. 6 No vol. V, a 55ª lição expõe o movimento crítico; ela intitula-se "Apreciação geral do estado metafísico das sociedades modernas: época crítica ou idade de transição revolucionária. Desorganização crescente, primeiramente espontânea e, em seguida, cada vez mais sistemática, do conjunto do regime teológico e militar". No vol. VI, a 56ª lição chama-se: "Apreciação essencial do desenvolvimento fundamental próprio dos diversos elementos essenciais do estado positivo da humanidade: idade da especialidade, ou época provisória, caracterizada pela universal preponderância do espírito de pormenor sobre o de conjunto. Convergência progressiva das principais evoluções espontâneas da sociedade moderna em direção à reorganização final de um regime racional e pacífico." 7 "Relativas" na acepção de "relacionadas com", "ligadas a", "dependentes de” (cujos objetos dependem do meio, das circunstâncias em que existem), ao inverso das noções absolutas (cujos objetos independem 3 Série crítica e série construtora compõem vasto panorama da história ocidental,do seu etos e do seu patos, em que se lhe apreendem as linhas essenciais da evolução e os aspectos mais relevantes do que se transformou na vida coletiva, ao exinguir-se a Idade Média e ao constituir-se a Modernidade. Segundo Comte, o movimento crítico foi mais acentuado do que o orgânico; distinguiu-se pela negação das instituições e dos princípios teológicos e feudais que organizaram a sociedade na Idade Média, cujo estado de coisas ele desarranjou. Não obstante se tratasse de revolucionar o quanto se achava estabelecido, tal descontrução foi indispensável para a renovação da base mental e política das sociedades. De inícios do século XIV data a origem do período revolucionário: em fins do anterior, o papado de Bonifácio VIII esforçou-se por instaurar dominação absoluta após haver cumprido com a sua missão de estabelecer moral comum à Europa; simultaneamente, o espírito sacerdotal relaxou-se e intensificaram-se as heresias. Como remédios a tais males, a Igreja Católica fundou as ordens franciscana e dominicana, paliativos que rapidamente se tornaram inócuos; logo a seguir, criou a inquisição: o recurso, da parte de qualquer força espiritual, à violência material, é sinal do seu declínio. No domínio temporal, vale dizer, político e material, o feudalismo cumprira o seu papel histórico e principiou a declinar também nos começos dos 1300. O longo interregno do século XIV ao período em que Comte escreveu (meados do século XIX) é divisível em duas partes: de inícios do século XIV a fins do XV, em que o movimento crítico foi espontâneo e involuntário8; os séculos XVI, XVII e XVIII, em que ele transcorreu com filosofia formalmente negadora (presente, em essência, já em Hobbes e propagada pelos iluministas) que se aplicou a todas as noções sociais de alguma importância e que resultou da decomposição espontânea da ordem medieval, pelo conflito dos seus principais elementos. Assim, a independência da autoridade espiritual (religiosa) relativamente à autoridade temporal (os reis e o imperador) estabeleceu-se empiricamente, embora militares de um lado e igreja de outro, tendessem cada qual a usurpar a esfera de autoridade do outro. O mesmo gérmen de dissolução havia na relação entre a autoridade central e as autoridades locais: na hierarquia católica, os cleros nacionais aspiravam à autonomia perante o papado que, por sua vez, exorbitava do seu poder, o que provocava suscetibilidades locais. Disto resultou o espírito de secessão no catolicismo que se distinguira pela unidade da sua organização. Na hierarquia política, antagonizavam os poderes locais com o dos reis. A decomposição espontânea do estado de coisas medieval demonstra-lhe a natureza transitória e a aptidão para favorecer o surto dos elementos que deveriam ascender, no tipo de sociedade que lhe sucedesse (declínio da teologia e da guerra, incremento da moral humanista, do espírito científico, da atividade industrial e pacífica em prol da comunidade, do engrazamento internacional, das preocupações com a humanidade). O espírito de negação da herança medieval tornou-se sistemático, de espontâneo que principiara por ser. Ele acelerou o fim do regime medieval e serviu de órgão da aspiração por novo e melhor regime intelectual e material. do meio, da circunstância em que existem). Neste sentido, o aforismo de Comte: "Tudo é relativo; eis o único absoluto": tudo está interligado. 8 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 362; vol. VI, p. 425. 4 A doutrina revolucionária, vetora de tal espírito, adveio da própria natureza do Cristianismo, que introduziu certo espírito de exame e de discussão, posto que, nele, as crenças secundárias não se achavam cabalmente determinadas e ensejavam especulações acerca do seu conteúdo: disto exsurgiu o espírito de livre exame, típico do protestantismo, primeira forma da filosofia revolucionária. Neste sentido, os doutores que sustentaram contra os papas a autoridade dos reis e a resistência das igrejas nacionais às decisões papais, arrogaram-se direito pessoal de exame que se propagou a todos os indivíduos e a todas as questões. A filosofia revolucionária, nas suas modalidades de protestantismo, deísmo e ateísmo, encarnou crescente e metódico protesto contra os fundamentos da antiga ordem, com hostilidade e desconfiança sistemáticas em relação a toda expressão de poder, e tendência ao controle e à redução de todo poder social. A marcha revolucionária dos séculos XVI, XVII e XVIII divide-se em duas fases, de que a primeira abarca as diferentes formas de protestantismo, em que o direito de exame se mantém no interior do Cristianismo, cujas condições de existência política arruína. A segunda corresponde ao deísmo do século XVIII; nela, admite-se como indefinido, ou seja, ilimitado, o direito de exame, embora, de fato, a sua aplicação se restringisse à religião.9 III - A mentalidade revolucionária e os Comentadores. Interessa-nos a fase espontânea do movimento anti-católico-feudal, correspondente aos séculos XIV e XV e coincidente, cronológica e ideologicamente10, com a Escola dos Comentadores. Em três das suas obras, Comte ventila do assunto: no seu Discurso sobre o espírito positivo, sumário da sua doutrina, que redigiu em 1844, como prólogo do seu Tratado de astronomia popular; no seu imponente Sistema de filosofia positiva (1830 - 1842); no seu Catecismo positivista (1852). No Discurso, afirma haver a mentalidade crítica obrado na dissolução do etos teológico: [...] durante os últimos cinco séculos [em 2019, seis], o espírito metafísico secundou negativamente o surto fundamental de nossa civilização moderna, decompondo pouco a pouco o sistema teológico [...].11 Em simultâneo, atuou na desorganização do feudalismo: Enquanto se efetuava gradualmente, durante os últimos cinco séculos [seis, em 2019], a irrevogável dissolução da filosofia teológica, o sistema político, cuja base mental ela formava, sofria uma decomposição progressiva não menos radical, igualmente presidida pelo espírito metafísico. Esse duplo movimento negativo tinha por órgãos essenciais e solidários, de um lado, as universidades [...]; do 9 Comte, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 382. O escritor Olavo de Carvalho estuda a "mentalidade revolucionária" que, segundo ele, existe no Ocidente há seiscentos anos. Ora, Augusto Comte identificou o "espírito revolucionário" que, no seu juízo, constituiu-se há seiscentos anos. Hostil ao Positivismo, Olavo parasita a obra de Comte, no sentido de haver-se apropriado de parte da sua doutrina que, por outro lado, rejeita ? É dúvida que lancei no meu blogue positivismodeacomte.wordpress.com, em agosto de 2019. 10 Emprego o advérbio "ideologicamente" na acepção de ideário, conjunto de idéias e convicções. 11 COMTE, Discurso sobre o espírito positivo, p. 14. 5 outro lado, as diversas corporações de legistas, gradualmente hostis aos poderes feudais. Entretanto, à medida que a ação crítica se ia disseminando, seus agentes [...] tornavam-se mais numerosos e mais subalternos, de modo que, no século XVIII, a principal atividade revolucionária teve de passar, na ordem filosófica, dos doutores propriamente ditos para os simples literatos, e em seguida, na ordem política, dos juízes para os advogados.12 Ou seja: no século XVIII (época do Iluminismo), o espírito anti-feudal radicava-se nos literatos (a exemplo dos Enciclopedistas) e nos advogados, ao passo que, séculos antes, achava-se nos doutores e nos juízes. No Sistema, expende Comte, duas classes presidiram à transição revolucionária iniciada no século XIV: a dos metafísicos e a dos legistas, aquela como elemento espiritual e esta, temporal. O primeiro emanou do meio católico e o segundo, dofeudal. O seu comum surto foi assinalável na Itália, vanguarda da Europa, durante toda a Idade Média e em que se nota a importância crescente dos metafísicos e dos legistas, máxime na Lombardia e na Toscana. Na França, todavia, a sua influência foi mais completa e perceptível do que alhures, haja vista o papel que lá tiveram as universidades e os tribunais, principais órgãos permanentes de uns e outros. Disse Comte: É, sobretudo, na França que tal desenvolvimento me parece, ao menos então, dever ser especialmente estudado; lá ele foi mais claro e mais completo do que alhures, haja vista a influência bem distinta e contudo solidária que aí adquiriram, simultaneamente, as universidades e os tribunais, principais órgãos permanentes, seja da ação metafísica, seja do poder dos legistas. (Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 387. Traduzi.). Os metafísicos compreendiam os doutores propriamente ditos e os literatos; os legistas abarcam os juízes e os advogados. Doutores e juízes preponderaram sobre literatos e advogados. Enunciou Comte: Devo, enfim, para maior clareza, advertir já que cada uma destas duas classes se subdivide, por natureza, em duas corporações diferentíssimas, uma essencial e primitiva, a outra acessória e secundária, ou seja, os metafísicos em doutores propriamente ditos e em simples literatos, os legistas em juízes e em advogados, com abstração do pessoal togado subalterno. (Idem, ibidem, p. 387. Traduzi.). O título de legis doctor, doutor, aplicava-se aos professores de Direito. Também identificava os responsáveis por legem dicere, aplicar a lei, os juízes, em que tal locução era sinônima de legem docere, pelo que legis doctor nomeava juízes e professores de Direito.13 Os Comentadores eram, primeiramente e acima de tudo, professores.14 Doctor: o que ensina15; também o que julga. 12 COMTE, Discurso sobre o espírito positivo, p. 50. 13 SAVIGNY, F. C. de. História do Direito Romano na Idade Média, p. 362 e 366. 14 CAENEGEM, R. C. van. Uma introdução Histórica ao Direito Privado, p. 56. 15 HESPANHA, A. M. B. Cultura Jurídica Européia, p.195. 6 Se os metafísicos compreendiam os professores de direito, eram legistas ou juristas em sentido amplo e hodierno; se os legistas (no sentido de Comte) compreendiam os juízes e os advogados, então metafísicos e legistas detinham a mesma formação intelectual (de Direito Romano) e a sua atividade profissional desenvolvia-se com base nos mesmos materiais (as fontes jurídicas, notadamente o Corpo de Direito Civil; as glosas dos Glosadores; os pareceres dos próprios Comentadores.). Eram elementos afins: A afinidade mútua destas duas forças sociais é a tal ponto pronunciada que se poderia até, por apreciação exagerada, ser-se tentado a reputar os legistas como um tipo de metafísicos que passaram do estado especulativo para o ativo. (Idem, ibidem, p. 392). O espírito metafísico, anti-teológico, inspirou-se em Platão e em Aristóteles; dele se imbuiu a escolástica, primeiro agente geral da desorganização da teologia cristã, como poder e como filosofia. Ela entranhou-se nas universidades; foi aplicada ao estudo intelectual e moral do homem, individualmente considerado; também principiou a sê-lo às especulações sociais, o que acentuou a dissociação, consumada posteriormente, da razão humana em relação à teologia. Impulsionou o espírito cismático e herético, foi assaz útil no combate ao poder dos papas e dela valeram-se os intervenientes nos debates políticos. Serve de sintoma deste espírito a canonização de Tomás de Aquino. Discorreu Comte: [...] desde o duodécimo século, sob a mais eminente supremacia social do regime monoteico [o Cristianismo], o triunfo crescente da escolástica veio, realmente, a constituir o primeiro agente geral da desorganização radical do poder e da filosofia teológicas, por mais paradoxal que possa, primeiramente, parecer esta propriedade de emancipação atribuída a uma doutrina hoje tão cegamente detratada. A principal consistência política desta nova força espiritual16, cada vez mais distinta e logo rival do poder católico, posto que dele fosse primitivamente emanada, resultou da sua aptidão natural a apoderar- se, gradualmente, da alta instrução pública, nas universidades que, primeiramente destinadas quase exclusivamente à educação eclesiástica, deviam, necessariamente, abarcar em seguida, todas as ordens essenciais da cultura intelectual. (Idem, ibidem, p. 389-390). No ambiente cultural e filosófico da Idade Média, a teologia e a filosofia ministrada nas escolas e, por isto, apodadas de escolástica, opuseram-se ao integrismo teológico, à pretensão de sujeitar o saber legítimo e válido aos textos pretendidamente revelados (Bíblia) e aos das autoridades religiosas (teólogos), o que sujeitava e até suspendia a atividade racional do indivíduo. As ciências e os conhecimentos laicos, entre os quais o Direito, eram estudados apenas enquanto úteis para a inteligência do depósito da fé, máxime das Escrituras. No século XII, contudo, o descobrimento da obra de Aristóteles, combinado com a percepção da insuficiência da Bíblia para a resolução de problemas sociais e culturais emergentes, suscitou o "renascimento do século XII", em que se repôs a crença na razão humana, na aptidão do homem de encontrar formas inovadoras de entendimento e ação, com base na autonomia da inteligência, não mais adstrita aos ditames bíblicos. 16 "Espiritual": pertencente ao domínio das idéias e dos sentimentos, sem relação inerente com o conceito de sobrenatural, habitualmente associado a tal adjetivo, por efeito do predomínio do Cristianismo. 7 Foi, observa Comte, evidentemente, pelo estudo do direito, e primeiramente, do direito eclesiástico, que o novo espírito filosófico próprio do fim da idade média deveu penetrar gradualmente no domínio das questões sociais; em segundo lugar, o ensino do direito devia, desde logo, constituir parte capital das atribuições universitárias [...] (COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, V, p. 391-2. Grifei.). Entenda-se: 1) O novo espírito filosófico, de exame e discussão17 peculiar à fase terminal da Idade Média adentrou, a pouco e pouco, o domínio das questões sociais; 2) ele aí passou a adentrar pelo estudo do Direito Canônico e, a seguir, do Direito Romano. 3) O estudo do Direito Romano integrava, como parte importante, a formação universitária. Trata-se de percepção luminosa e original de Augusto Comte, que atribui aos juristas dos 1300 e dos 1400 - aos Comentadores - papel central na marcha da humanidade. Eles incorporaram o espírito de investigação intelectual que, do estudo do Direito Canônico e do Corpus Iuris Civilis, comunicou-se às especulações de ordem sociológica, até então sujeitos à autoridade da teologia. A renovação mental em que a atitude intelectual deixou de ser de submissão à teologia e passou a ser de exame, com liberdade de pensamento, do Direito, da filosofia, da moral, das ciências naturais, da política, principiou não pela filosofia, pela moral, pelas ciências naturais, pela política, senão pelo estudo dos Direitos Canônico e Romano, o que transcende o papel dos juristas medievais, da Tradição Romanista, especificamente dos Comentadores, como estudiosos do Direito Romano e como autores de inovações doutrinárias no domínio restritamente jurídico, e atribui-lhes papel decisivo na evolução humana. Se se puder reputar a Humanidade como um só homem que aprende continuamente e que sempre subsiste18, se a evolução humana puder ser comparada com uma caminhada que se executa passo a passo, com eventuais recuos e constante avanço para diante, então, os Comentadores deram o passo na senda em que o pensamento humano deixou atrás de si a sujeição total à teologia e caminhou em direção à liberdade de entendimento, de avaliação, de consciência, liberdade que,como nova atitude mental, comunicou-se aos diferentes domínios em que a inteligência humana se exerce. A nova atitude mental era: a) realista, pois atinha-se à natureza das coisas e não ao que sobre elas exprimiam os textos bíblicos ou dos teólogos. b) racionalista, pois examinava os pontos consoante regras lógicas, que disciplinam o pensar corretamente, apreendidas dos filósofos da Antigüidade, sobretudo Aristóteles, nos seus Tópicos e Elencos Sofísticos. Empregavam a dialética ou arte de discutir, de examinar questões a cujo respeito inexistiam afirmações forçosamente certas e em que se pesquisavam as vistas, os argumentos, à luz de que os temas eram susctíveis de exame. Tal modo de investigação chamava-se, no vocabulário aristotélico-ciceroniano, de tópica ou ars inveniendi (arte de encontrar os argumentos em que se fundamenta a argumentação). 17 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 377. 18 É a concepção de Pascal: "[...] toda a seqüência dos homens durante o curso de tantos séculos deve ser considerado como um mesmo homem que subsiste sempre e que aprende continuamente." (Traité du vide, apud E. CORRA, L´Humanité, Paris, 1914, p. 36. Traduzi.). 8 Na tópica, submetia-se o objeto da investigação a sucessivos exames: 1) primeiramente, definia-se. Assim, por exemplo, "compra e venda é o modo de aquisição de propriedade mediante pagamento pecuniário". 2) Averiguavam-se as causas do objeto: eficiente (o que origina o objeto em estudo) e final (a que se destina ele). Exempli gratia: é causa eficiente da compra e venda a declaração de vontade; é-lhe causa final a aquisição da coisa, da parte do comprador e o embolso financeiro, da do vendedor. 3) Cotejava-se o objeto com outros, para se lhes reconhecerem semelhanças e discrepâncias. Verbi gratia: a compra e venda semelha à troca pois em ambos comprador e trocador adquirem coisa; elas diferençam- se em que na compra paga-se com dinheiro, ao passo que na troca não se atribui dinheiro e sim outra coisa. Ela diferencia-se do furto em que, nela, a perda da propriedade do objeto vendido é voluntária, da parte do vendedor, enquanto no furto o dono perde-lhe a posse sem a sua vontade e até contrariamente a ela. 4) Distinguiam-se formas e sub-formas do objeto. Por exemplo: há compra e venda à vista, a prazo; com juros e sem eles; com tradição pronta ou posterior. 5) Consultavam-se as autoridades, ou seja, os autores que precedentemente se haviam manifestado sobre o tema com conhecimento e ponderação. Nas universidades instituíram-se, paulatinamente, os cânones metodológicos do saber científico, tal como viria a florescer nos séculos XVI e XVII (conhecimentos organizados em sistema dotado de princípios, em que as manifestações particulares e concretas dos fenômenos são suscetíveis de explicações abstratas e gerais por meio de hipóteses cuja confirmação resultava na enunciação de leis.). Valorizava-se a objetividade e o ensino tendia ao ceticismo e à dúvida. É evidente que objetividade, ceticismo e dúvida resultariam facilmente na negação das crenças estabelecidas e tenderiam à sua negação primeiro e à sua substituição posteriormente.19 De entre as três escolas da Tradição Romanista - Glosadores, Comentadores e Humanistas - a segunda corresponde aos séculos XIV e XV, de que se ocupa Comte, o que se comprova pelo interregno de vida dos seus integrantes: Civilistas. Cino Sighibuldi de Pistóia: 1270 - c. 1336. Jacó de Belviso: 1270 - 1335. Jacó Butrigário: c. 1274 - 1347. Bártolo de Saxoferrato: 1314 - 1357. Nicolau Spinelli de Giovinazzo: c. 1325 - 1390. Baldo dos Ubaldos: 1327 - 1400. Lucas da Pene: 1343 - 1382. Bartolomeu de Saliceto: 1363 - 1412. Rafael Fulgosio: 1367 - 1427. Paulo de Castro: 1394 - 1441. Francisco Accolti, vulgo Aretino: c. 1418 - 1485/6. Alexandre Tartagna: 1424 - 1477. 19 Crenças ou, como as nomeava Ortega y Gasset (A rebelião das massas, Idéias e crenças), "vigências sociais", significam as convicções que os indivíduos aceitam e professam, como obviedades culturais, sem lhes avaliarem o mérito e a validade. O espírito de exame e de discussão resulta em transformar as crenças em descrenças ou em idéias (modos de entendimento sujeitos a exame e a virtual aceitação ou recusa. A escolástica problematizava, para valer-me do jargão hodierno. 9 Jasão de Maino: 1435 - 1519. Bartolomeu Socini: 1436 - 1507. Ricardo Malombra: [...] - 1334. Oldrado da Ponte (ou de Lodi): [...] - 1335. André de Isernia: [...] - 1353. Alberico de Rosate: [...] - 1354. Raniero da Forli: [...] - 1358. João de Imola: [...] - 1436. Ângelo Gambiglioni de Arezzo: [...] - após 1451. Bartolomeu Cipolla: atuante na segunda metade do século XV. Canonistas. João de André: 1270 - c. 1348. Pedro de Ancarano: c. 1330 - 1416. Francisco Zabarella: 1335 - 1417. Antonio de Budrio: 1338 - 1408. André Barbazza: c. 1400 - 1479. Mariano Socini: 1401 - 1467. Felino Sandeo: 1444 - 1503. Nicolau dos Tedescos: [...] - 1453. João de Anagni: [...] - 1457. Comte enuncia a origem social dos juristas da época: Um exame mais completo mostra logo a sua verdadeira origem histórica como simples emanação espontânea do poder feudal, de que eles foram, por toda a parte, destinados primitivamente a facilitar as funções judiciárias, por intervenção de mais em mais indispensável, posto que subalterna por muito tempo. Além da influência geral da sua educação essencialmente metafísica, eles próprios deviam, quase desde a sua origem, manifestar especialmente tendência mais ou menos hostil ao poder católico, segundo a oposição crescente que devia naturalmente surgir nas diversas justiças cíveis, fossem senhoriais, fossem sobretudo reais, contra os tribunais eclesiásticos, anteriormente na posse aceitada da maior parte das jurisdições importantes. [...] [Os juristas] por toda a parte estiveram animados, até sem o saber, de profunda e perseverante antipatia, aliás mais ou menos dissimulada, contra o conjunto da organização católica. (Idem, ibidem, p. 392. Traduzi.). Os juristas constituíam, prossegue Comte, elemento político plenamente distinto dos diversos poderes constituídos e que, malgrado a sua natureza subalterna, devia logo exercer influência capital na desorganização crescente do regime medieval.20 A seguir, emenda erronia de avaliação concernente aos juristas medievais: 20 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, vol. V, p. 393. Traduzi. 10 Forma-se, vulgarmente, idéia falsíssima da existência política dos legistas da idade média e entre os modernos, por viciosa comparação com a dos da Antigüidade, fossem juristas, fossem oradores: pois, na ordem romana, até na sua decadência, estas funções não ocasionavam realmente a formação de classe distinta e secundária posto que elas, aí, não eram, por sua natureza, senão exercício mais ou menos passageiro dos homens de Estado, essencialmente militares, que compunham a casta dirigente ou que os seus serviços faziam-lhes agregar. No conjunto da evolução humana, este singular poder dos legistas devia constituir um fenômeno eminentemente excepcional, unicamente reservado, pela sua natureza, ao estado transitório da idade média e destinado, sem dúvida, a desaparecer [...] (Idem, ibidem, p. 393. Traduzi.). Com razão Augusto Comte: os juristas medievais diferiram dos romanos, porquanto estes dedicavam-se ao Direito dentre outras ocupações, notadamente militares; eram capitães do exército e políticos que também se dedicavam à doutrinação jurídica, sem haverem formado classe profissional especificamente jurídica, ao passo que a formaram os Glosadores, antecessores imediatos dos Comentadores. De fato, observa Wieacker, em relação aos Glosadores: "Se os glosadores criaram a classe dos juristas e o seu modo característicode pensar [...]" (Wieacker: 1993, p. 86); também: "Ao lado das únicas formas de ensino até então existentes, os estudos religiosos [...], aprece o studium civile21; ao lado dos clérigos, que até então eram os únicos intelectuais, aparece o jurista ou "legista" [...]". (Wieacker: 1993, p. 66). Com os Comentadores, no entanto, passou a haver juristas que o eram na sua formação intelectual e na sua atuação como governantes, diplomatas e juízes.22 Observa Hespanha: Mas o impacto mais decisivo da atividade e do saber dos comentadores sobre a vida jurídica, política e social europeia foi constituído, mais do que pelas suas inovações dogmáticas, pelo seu contributo para a constituição de uma categoria social, à qual passou a ficar atribuída a resolução dos diferendos sociais com recurso a uma técnica intelectual especializada [...]. A categoria dos juristas - pois a ela nos referimos [...]. (HESPANHA: 2012, 207). Entre romanos, como arte de interpretar o direito, doutrinariamente, a jurisprudência aproximava-se da oratória, a que, amiúde, achava-se associada (como em Cícero23). Os juristas da fase republicana não eram profissionais do Direito nem exclusivamente autores de livros jurídicos. Ao invés, eram, em primeiro lugar políticos empenhados em outras actividades, militares e civis24, que não dedicavam todo o seu tempo ao direito.25 21 Studium significava a corporação de estudantes, que contratavam e estipendiavam professores para lhes ensinar (HESPANHA, Cultura Jurídica Ocidental, p. 195). 22 HESPANHA, Cultura Jurídica Ocidental, p. 207. 23 Marco Túlio Cícero (106 a 43 a. e. c.) foi questor; cônsul em 63 a. e. c.; procônsul (governador) da Cilícia, em 51 a. e. c.; produziu obras sobre os deveres, amizade, ética, oratória, teologia, direito (De legibus, Das leis); proferiu 88 discursos (ou mais) de que vários de defesa (Em defesa de Sula, Em defesa de Rabírio, Em defesa de Cluêncio) ou de acusação política (Contra Catilina, Contra Verres, Filípicas). 24 BRETONE, História do Dirieto Romano, p. 120. 25 BRETONE, História do Direito Romano, p. 121. 11 Desta realidade constituem exemplos, abonadores da avaliação de Augusto Comte, os de: a) Ápio Cláudio Cego (340 antes da era comum - 273 antes da era comum): foi cônsul em 307 a. e. c. e censor em 312 a. e. c.; projetou a construção da estrada de Roma a Cápua, a Via Ápia; ultimou a construção do aqueduto Água Ápia; em 296 a. e. c., novamente cônsul, capitaneou tropas a Sâmnio e a Etrúria; em 295 a. e. c. foi pretor; exerceu a ditadura em 287 ou 286 a. e. c.. Redigiu a primeira obra literária romana e a primeira de matéria jurídica escrita em latim, De usurpationibus, provavelmente sobre a interrupção de direito prescrito. b) Sexto Élio Cato (terá morrido cerca de 185 a. e. c.): exerceu o consulado em 198 a. e. c. e a censura em 194 a. e. c.. Produziu o Ius Aelianum, coleção de fórmulas processuais; a Tripertita, que continha a Lei das Doze Tábuas, seguida de escólio e da ação respectiva a cada ponto. c) Sérvio Sulpício Rufo (106 - 43 a. e. c.): questor em 74, edil em 69, pretor em 65. Fixou a terminologia jurídica nos cerca de 180 textos jurídicos que produziu. No juízo de Cícero, elevou o Direito à condição de Ciência. e) Caio Otávio Tídio Tossiano Lúcio Javoleno Prisco (morreu em 98): comandou a quarta legião, governou a Numídia, foi legado (general) da terceira legião; foi cônsul em 86; governadou a Germânia e a Síria; sacerdote, integrou o Colégio dos Pontífices. Em quinze livros, comentou as sentenças de Caio Cássio Longino; em cinco, dissertou sobre a obra de Pláucio; em dez, comentou as derradeiras obras de Marcos Labeão.26 f) Sálvio Juliano (terá falecido em 168): pretor, cônsul (talvez em 148), procônsul da África (talvez em 166), integrante do Conselho Imperial (talvez em 138). Como jurista, advogou; compôs o notável Edito Perpétuo, um Digesto (com 90 capítulos) e outras obras. g) Úlpio Marcelo: governou a Panônia entre 169 e 176 e a Britânia entre 179 e 184; nesta chefiou expedições militares. Redigiu trinta e um livros de Digesto e notas ao Digesto de Sálvio Juliano. h) Eneu Domício Ulpiano (150 - 228): foi prefeito do pretório27, prefeito das provisões28, integrante do conselho de Alexandre Severo.29 Deixou duzentos e oitenta obras jurídicas, entre as quais comentários ao Edito Perpétuo, às produções de Sabino, Marcelo e Papiniano; dele provém um terço do Digesto de Justiniano. 26 Caio Cássio Longino (antes de 85 a. e. c. - 42 a. e. c.) governou a Síria; foi tribuno da plebe em 49 a. e. c. e, em 44 a. e. c., pretor peregrino; capitaneou o exército contra Marco Antonio. Redigiu Libri iuris civilis, foi esforçado vulgarizador das idéias da Escola Sabiniana (corrente de pensamento jurídico). Marcos Labeão (talvez 50 a. e. c. - talvez 10) foi pretor; iniciou a literatura jurídica clássica; produziu 400 rolos de textos (ao tempo, os livros não se faziam em cadernos, ou seja, folhas dobradas e cozidas na lateral esquerda e guarnecidas com capas de pergaminho ou couro. As folhas, retangulares, eram enroladas; cada rolo nomeava-se de volumen). 27 Chamava-se de prefeito do pretório o capitão da guarda pretoriana (de proteção pessoal do imperador); comandava todo o exército na península itálica, em que exercia jurisdição penal, para além de raio de 100 milhas de Roma; recebia recursos contra as sentenças dos procônsules. Sob Constantino, eram juízes de instância final. 28 Chamava-se de prefeito das provisões (praefectus annonae) o magistrado encarregado do abastecimento de cereais para a cidade de Roma. 29 Alexandre Severo reinou de 222 a 235. 12 Importante juízo de Comte é o de que os séculos XIV e XV, tempo real do seu [dos legistas] triunfo, foi a idade principal das altas inteligências e dos nobres caracteres30, o que representa encômio de incomparável valor aos Comentadores e valiosíssimo julgamento do seu mérito intelectual e moral. No conjunto da evolução humana, metafísicos e Comentadores eram inaptos para, expende Augusto Comte, constituir nenhuma organização durável, malgrado a sua tendência espontânea de se apoderarem indefinidamente da supremacia social, à medida em que a sua comum ação dissolvente destruía a influência dos antigos poderes. O seu papel limitou-se a simples destinação revolucionária, ou seja, modificadora, o que resultou de que ambas classes não podiam propiciar realmente princípios que lhes fossem próprios e que lhes permitissem presidir, de maneira durável, a alta direção regular dos assuntos humanos. O seu espírito comum, essencialmente crítico, era somente apto para modificar um regime preexistente, por alterações gradualmente destruidoras.31 Comte não lhes valora a atuação como juristas, no domínio específico da sua relação com o Direito Romano e sim como teóricos que combaliram a eficácia do feudalismo e da Igreja, mercê do seu espírito, neste domínio, destruidor. Mais: em qualquer outro tempo, a sua supremacia prolongada redundaria, inevitavelmente, em iminente dissolução do estado social 32: se o progresso político, enquanto espontaneamente negativo, foi-lhes essencialmente entregue desde o século quatorze, a manutenção indispensável da ordem pública deveu ser então referida sobretudo à ação resistente dos antigos poderes, somente aos quais devia ainda pertencer habitualmente a suprema direção social, ainda que cada vez mais restringida pelas modificações revolucionárias. (Idem, ibidem, p. 396). Metafísicos e legistas mantinham-se, porém, invariavelmente dóceis aos mais fundamentais princípios do próprio regime cujas condições de existência simultaneamente minavam. Tal incoerência impedia a dominação permanente de uns e outros como até lhes impossibilitava de presidir à consumação das operações revolucionárias. Por um lado,eles sustentavam o que, por outro, arruinavam, o que é incontestável da parte dos metafísicos perante a teologia e perceptível da parte dos juristas em relação à ordem feudal: as suas doutrinas eram incapazes de atribuir, por si próprias, nova destinação à atividade humana, motivo por que sancionavam a antiga preponderância da atividade militar, que se expressava na organização do feudalismo. Ao fim e ao cabo, os metafísicos acabaram por coonestar a autoridade teológica e os juristas, o poder feudal, embora com ressalvas tendentes a depauperar-lhes a importância.33 Por outro lado, a atuação dos juristas modernos foi bemfazeja, na medida em que mantiveram laica a moral, na linha dos romanos: Sob o aspecto moral, os legistas modernos prosseguiram dignamente a grande elaboração que a Antigüidade legara-lhes, por intermédio da 30 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 394. 31 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 396. 32 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 396. 33 COMTE, Sistema de Filosofia Positiva, v. V, p. 397. 13 Idade Média, para instituir, empiricamente, as regras do comportamento, público ou privado, independentes de todo motivo sobrenatural. (COMTE, Sistema de Política Positiva, vol. III, p. 527. Traduzi). Comte avalia a classe judiciária: Historicamente ligada, desde os pretores romanos, ao surto espontâneo de uma moral puramente humana [...] (COMTE, idem, ibidem, vol. IV, p. 426). Cuida-se de contribuição importante para o Positivismo, cujas tarefas exprimem-se em incorporar o proletariado à sociedade moderna, vale dizer, em elevar as massas ao nível de conforto material e de cultura intelectual e afetiva que a civilização alcançou, e substituir a moral teológica por outra, antropocêntrica, sentido em que juristas romanos e legistas da Tradição Romanista cooperaram, o que, neste capítulo, torna-os, bem vistos no Positivismo. Também no Catecismo positivista, Comte menciona os legistas: O movimento revolucionário foi sempre dirigido, desde seu início, por duas classes conexas, oriundas a princípio dos antigos poderes, e em breve rivais destes. Foram elas os metafísicos e os legistas, que constituem o elemento espiritual e o elemento temporal deste regimen negativo, caracterizado, sobretudo em França, nas universidades e nos parlamentos [tribunais]. Mas a segunda classe merece mais estima que a primeira, porque nela o espírito comum a ambas se modificou sob o favorável impulso das aplicações sociais. Ao passo que os metafísicos não foram nunca, em relação à teologia, senão inconseqüentes demolidores, os legistas, e sobretudo os juízes, alem dos seus serviços temporários ou especiais, tenderam sempre a construir, segundo as pegadas romanas, uma moral puramente humana.34 Este trecho contém juízo de valor: os legistas merecem mais estima do que os metafísicos, pois concorreram para a instauração de moral humana, destituída de sobrenatural, o que o Positivismo encarece sobremaneira.35 IV - Juízos de autoridades. Algumas autoridades em História do Direito expenderam julgamentos a propósito da atuação dos Comentadores. Lopes vislumbra o papel transcendente dos Comentadores, porém não no sentido de Augusto Comte: "Eles tornam possível também uma convivência da tradição feudal com as novas tendências da vida europeia: o comércio e a monetarização da vida e das obrigações, uma certa flexibilização nas transferências de terras e sucessões". (LOPES, 2000, p. 134). 34 COMTE, Catecismo positivista, Rio de Janeiro, Apostolado Positivista do Brasil: 1934, p. 430, tradução de Miguel Lemos. O Catecismo destinou-se a propagar as noções essenciais do Positivismo religioso e nos seus dois derradeiros capítulos contém a interpretação do passado humano de Comte, de que excertei o lugar acima. 35 Assim, por exemplo, dentre as sete acepções de positivo (real e útil, certo e preciso, orgânico, relativo e simpático), a de orgânico (vale dizer: organizador, construtivo) anuncia a destinação social do positivismo, para substituir o teologismo no governo espiritual da humanidade. (COMTE, Sistema de política positiva, vol. I, p. 57). O governo espiritual da humanidade abarca, também, a moral e os costumes antropocêntricos (laicos). 14 Em outro lugar: "Forneceram aos príncipes a teoria da soberania, cobertura ideológica e política, puderam redigir documentos, criar um aparelho administrativo. [...] Na França, a serviço do rei combateram a Igreja, com armas do mesmo tipo que as dos canonistas." (Idem, ibidem, p. 135. Itálico do original.). Wieacker: "Os comentadores são [...] os arquitetos da modernidade européia." (WIEACKER, 1993, p. 80). Modernidade que esmiúça no domínio exclusivamente jurídico sem, todavia, lhes vislumbrar o papel que lhes reconhece Augusto Comte. Ainda o mesmo autor: "Em virtude do seu monopólio intelectual e do prestígio do direito romano, os juristas deviam sentir-se vocacionados para árbitros das grandes controvérsias políticas, sociais e econômicas da época" (Idem, ibidem, p. 81.). Francisco Calasso: "Julgada, hoje, retrospectivamente, a sua obra representa maravilhosamente um dos aspectos mais altos da função histórica da sua época, que foi por excelência mediadora entre o mundo antigo e o nosso." (CALASSO, 1954: 596. Traduzi). V- Conclusões. A análise de Augusto Comte situou os Comentadores não na História do Direito nem na do Direito Romano, porém sim na do Ocidente e da Humanidade. Trata-se da única corrente jurídica que lhe mereceu atenção, no amplo quadro da sua filosofia da história, desenvolvida no tomo V e em parte do tomo VI do seu imponente Sistema de Filosofia Positiva, e no III do seu Sistema de Política Positiva. O seu exame englobou a totalidade dos tempos conhecidos (no Ocidente, ao menos), em que reconheceu as linhas principais da evolução mental, ativa e afetiva da humanidade. Parte dele atém-se à civilização romana, autora do Direito Romano, e na fase politeica (greco-romana) da história; outrossim, focalizou o período cristão e o imenso interregno espiritual36, iniciado no século XII e que ainda perdura. É nesta fase que exsurgiram a Tradição Romanista, com Glosadores, Comentadores e Humanistas, os Jusnaturalistas e as demais correntes de filosofia jurídica. Por mais relevante que hajam sido as contribuições teóricas (na dogmática jurídica) e práticas (como administradores e agentes diplomáticos) dos Comentadores, foram incapazes de conceber princípios de reconstrução social (como os formulou o próprio Comte); provavelmente, sequer atinaram no curso da história, a longo prazo, e, de conseqüência, não terão percebido o seu próprio papel na passagem da Idade Média findante e da Modernidade iniciante ou, na expressão do Positivismo, no movimento crítico. Da mesma forma, importantes historiadores do Direito e romanistas examinaram o evolver do Direito e do Direito Romano fora do contexto do progresso humano, na sua totalidade; ao menos, não o fizeram como o fez Augusto Comte e, conseguintemente, faleceram-lhes as luzes que somente o Positivismo lança na história humana e, nela, nos Comentadores.37 36 Por interregno espiritual ou período de anarquia, Comte entendia o estado mental e social subseqüente ao término do prevalecimento do Cristianismo, como orientador maciço das mentes e ordenador das sociedades. Vide o seu notável Sumária apreciação do conjunto do passado moderno que expõe, em conspecto, os movimentos crítico e orgânico e cuja leitura, aliás, favorece a compreensão dos seus juízos acerca dos Comentadores, porquanto expõe o contexto em que eles atuaram. 37 Historiadores do Direito a quem me refiro: Francisco Calasso (1954), Paulo Koschaker (1955), Francisco Wieacker (1993), Raul van Caenegen (1995), José ReinaldoLima Lopes (2000), Miguel Villey (2005), Antonio Hespanha (2012); romanistas: Sebastião Cruz (1984), Sílvio Meira (1996), Abelardo Lobo (2006, 2ª ed.). Outros haverá, a quem igualmente faltou ler Augusto Comte. 15 Por abarcar a história da humanidade na série total dos tempos e no quadro das suas manifestações fundamentais, o modo de ver de Augusto Comte transcende a perspectiva dos historiadores do Direito: enquanto estes concentram-se no pormenor jurídico, ele examinou o conjunto da civilização, em que soube invocar o papel do Direito, como lhe foi o caso, em relação aos Comentadores, aos legistas, ao caráter laico do Direito Romano (especificamente do Digesto). É legítimo concluir pelo papel saliente dos Comentadores na história humana, para mais do que, também destacado, desempenharam na história do Direito. Enquanto os historiadores do Direito e do Direito Romano limitaram-se à descrição de fatos, ao alinhamento de fases, ao enfileiramento de doutrinas, Augusto Comte concebeu filosofia da história, exame do conjunto das modificações por que passaram o espírito humano, os costumes e as instituições. É bem de ver que os historiadores jurídicos também examinam as modificações que experimentou a mentalidade jurídica, porém somente o Positivismo apreende o sentido da história na sua globalidade e nele discerne o valor dos homens, criações, instituições, doutrinas, em cada momento. Neste sentido, ele porta descrição da história e filosofia da história, duplo conteúdo que ilumina, com originalidade, um sem número de facetas do passado. É o caso do papel que imputa aos Comentadores: negativo, como partícipe da obra de liquidação da herança medieval, especificamente na decomposição do feudalismo, foi por eles que se introduziu na cultura em geral o espírito de liberdade intelectual, de pesquisa da verdade fora do dogmatismo das autoridades tradicionais, dos textos supostamente revelados da Bíblia e da Patrística. Não criaram eles os métodos escolásticos de exame e discussão - criou-os Aristóteles - porém adotaram-nos, empregaram-nos, com eles produziram novidades, deram o exemplo a terceiros que, por sua vez, com liberdade de pensamento, formularam concepções alternativas, novas formas de entendimento da política, da moral, das instituições, da religião, da filosofia, do poder, do lugar do homem. Contribuíram, nos limites do seu tempo e do seu lugar, para esclarecer o sentido do Direito Romano e para propagar a liberdade intelectual: acrescentaram saber ao patrimônio da humanidade no domínio jurídico; adicionaram benefício ao patrimônio mental da humanidade. Obrigado, Comentadores; obrigado, Humanidade.